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Decadência e prescrição e desconsideração da personalidade jurídica no CDC

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1.1. DECADÊNCIA E PRESCRIÇÃO – DIREITO DO CONSUMIDOR 
1.1.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
 
São famosos os embates doutrinários de grandes civilistas sobre as diferenças entre os institutos da decadência e da prescrição. Aqui, restringiremos as distinções ao âmbito do Direito do Consumidor, o que é suficiente para a resolução das questões relativas a essa matéria. 
Para a compreensão dos casos de decadência e de prescrição, é preciso ter de maneira nítida os dois regimes de responsabilidade civil estudados no CDC quais sejam, a responsabilidade pelo vício do produto/serviço e a responsabilidade pelo fato do produto/serviço, haja vista que cada um vai atrair um instituto próprio.
	VÍCIO DO PRODUTO/SERVIÇO 
	FATO DO PRODUTO/SERVIÇO 
	Qualidade-adequação. 
	Qualidade-segurança. 
	Atinge o produto ou o serviço em si – intrínseco. 
	Atinge em especial a incolumidade físicopsíquica do consumidor ou de terceiros (as vítimas de consumo) – extrínseco. 
	 
	Também 	denominado 	defeito 	ou acidente de consumo. 
	Sujeita-se a prazo decadencial. 
São pistas de que se está diante de prazo decadencial as expressões: caduca, caducar, reclamar. 
	Sujeita-se a prazo prescricional. 
São pistas de que se está diante de prazo prescricional as expressões: prescreve, pretensão, reparação. 
	Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: 
(não se coloca os incisos, por ora, pois nos interessa analisar o teor do caput). 
	Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. 
1.1.2. DA DECADÊNCIA (art. 26)
O consumidor que se encontra diante de um vício no produto ou serviço possui 
dois prazos distintos para reclamar, perante o fornecedor, providências, notadamente aquelas previstas nos art. 18, parte final (“podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas”), e par. 1o (alternativas à escolha do consumidor caso o vício não seja sanado no prazo legal ou convencional), art. 19 (“podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha”), e art. 20 (“podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha”). A falta de reclamação nos prazos tem como consequência a perda do direito de reclamar pelo vício.
a) De 30dias - para produtos e serviços não duráveis; 
b) De 90 dias -para produtos e serviços duráveis. 
 
E o que são ou podem ser definidos como produtos e serviços duráveis e não duráveis? Trata-se de conceitos abertos que não encontram definição no CDC. Assim, essa função tem ficado a cargo da doutrina e da jurisprudência. 
ATENÇÃO! 
Produtos (não) duráveis: 
De uma forma tranquila, entende-se que produtos não duráveis são aqueles que se esgotam em um ou poucos usos, que têm uma vida útil naturalmente curta, rápida. Pode-se citar como exemplos os gêneros alimentícios em geral, medicamentos, produtos de limpeza. 
	De outro lado, produtos duráveis são aqueles com uma vida útil considerável, em que pese inexistir um cálculo ou estimativa certa para tanto. Ex.: eletrodomésticos e eletrônicos em geral, imóveis. 
E como se definir qual seria a vida útil de um bem durável? 
** Critério da vida útil do bem: 
Por vida útil, deve-se entender aquele lapso temporal que é razoavelmente esperado do produto para cumprir sua função, de acordo com as legítimas expectativas do consumidor. Num caso hipotético, uma televisão que demonstra graves problemas de funcionamento com dois anos de uso não atende à vida útil do bem, pois frustra a legítima expectativa do consumidor de que um aparelho televisor perdure por vários anos. É bem verdade que se trata de um critério fluído, a ser aferido na prática, de acordo com parâmetros de razoabilidade. 
STJ já adotou o critério da vida útil de produtos duráveis: 
Ademais, independentemente de prazo contratual de garantia, a venda de um bem tido por durável com vida útil inferior àquela que legitimamente se esperava, além de configurar um defeito de adequação (art. 18 do CDC), evidencia uma quebra da boafé objetiva, que deve nortear as relações contratuais, sejam de consumo, sejam de direito comum. Constitui, em outras palavras, descumprimento do dever de informação e a não realização do próprio objeto do contrato, que era a compra de um bem cujo ciclo vital se esperava, de forma legítima e razoável, fosse mais longo. 
(REsp 984.106/SC, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 04/10/2012, DJe 20/11/2012) Serviços (não) duráveis: 
Para saber se o serviço é durável ou não, não importa o tempo de duração da prestação pelo fornecedor, mas principalmente a duração dos efeitos para o consumidor. 
Assim, são duráveis os serviços que se protraem no tempo (ex.: planos de saúde, fornecimento de água, de energia elétrica, serviço de telefonia etc.). 
Já os serviços não duráveis são aqueles que possuem efeitos efêmeros, que geralmente se exaurem logo após prestados. Ex.: serviços de lazer (teatro, cinema, jogos), transportes, serviços de limpeza etc. 
1.1.2.1. Vícios aparentes e vícios ocultos e o início do prazo decadencial
Cumpre fazer a importante diferenciação entre vícios aparentes ou de fácil constatação e vícios ocultos, notadamente porque há influência direta na forma de contagem do início do prazo decadencial. 
· Vícios aparentes (ou de fácil constatação) à são identificáveis por um exame superficial do produto ou serviço. Não demandam tempo ou conhecimento específicos para o seu surgimento. O dies a quo (de início) do prazo decadencial é a efetiva entrega do produto ou o término da execução dos serviços (art. 26, par. 1o, CDC). 
· Vícios ocultos à não são identificáveis pelo mero exame superficial pelo consumidor. Estão presentes quando da aquisição do produto ou serviço, mas só se manifestam depois de algum tempo e podem demandar conhecimentos específicos. O dies a quo (de início) do prazo decadencial é o momento em que ficar evidenciado o defeito (art. 26, par. 3o, CDC). 
OBSERVAÇÃO: Os prazos de 30 e 90 dias são aplicáveis tanto para os vícios aparentes quanto para os ocultos, sendo um diferente do outro pelo termo inicial da sua contagem. 
 
ATENÇÃO! Surge um questionamento: o fornecedor fica submetido a responder pelo vício oculto que aparecer a qualquer momento, sem limite temporal? 
Para evitar que o fornecedor fique responsabilizado ad eternum, tem especial relevo o 9 critério da vida útil do bem (já definido em outro quadro destaque) como limite temporal para o surgimento do vício oculto. 
STJ: Porém, conforme assevera a doutrina consumerista, o Código de Defesa do Consumidor, no § 3º do art. 26, no que concerne à disciplina do vício oculto, adotou o critério da vida útil do bem, e não o critério da garantia, podendo o fornecedor se 
responsabilizar pelo vício em um espaço largo de tempo, mesmo depois de expirada a garantia contratual. 
Com efeito, em se tratando de vício oculto não decorrente do desgaste natural gerado pela fruição ordinária do produto, mas da própria fabricação, e relativo a projeto, cálculo estrutural, resistência de materiais, entre outros, o prazo para reclamar pela reparação se inicia no momento em que ficar evidenciado o defeito, não obstante tenha isso ocorrido depois de expirado o prazo contratual de garantia, devendo ter-se sempre em vista o critério da vida útil do bem. 
(REsp 984.106/SC, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 04/10/2012, DJe 20/11/2012) 
 
Obsolência programada – trata-se de um termo cunhado na doutrina para definir uma prática abusiva de fornecedor, consistente em lançar no mercado de consumo produtos com vida útil cada vez menor, de modo que o consumidor precise adquirir outros em um espaço de tempo mais curto, gerando, dessa forma, uma cultura de descarte de bens que deveriam ser duráveis por um período maior de tempo. Geralmente, a obsolência ocorre depois de ultrapassados os prazos de garantia. 
 
1.1.2.2. Causas que obstam a decadência (art.

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