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Decadência e prescrição e desconsideração da personalidade jurídica no CDC

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26, par. 2o) 
 
As causas que obstam a decadência são: 
a) Reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca (inciso I); 
A doutrina entende que essa reclamação pode ser feita informalmente, como por serviços telefônicos de atendimento ao consumidor (geralmente fornecem número de protocolo), por e-mail, por escrito etc. 
 
ATENÇÃO! Julgado STJ de 2017 (Informativo 614): A reclamação obstativa da decadência, prevista no art. 26, par. 2o, I, do CDC, pode ser feita documentalmente ou verbalmente (REsp 1.442.597/DF, T3, DJe 30/10/2017).
Pegadinha clássica: a reclamação feita pelo consumidor perante órgãos ou entidades cujas atribuições incluam a defesa do consumidor (ex.: Procon`s, Decon`s) obsta a decadência? 	
NÃO! Somente a reclamação feita perante o fornecedor. Essa é a posição do STJ. 
b) A instauração de inquérito civil, até seu encerramento (inciso III); 
 
ATENÇÃO! Não confundir inquérito civil com inquérito policial (algumas provas de concurso fazem esse trocadilho). 
 
É importante registrar que a doutrina oscila sobre o significado do termo “obstar”, havendo posição no sentido de serem causas de suspensão ou de interrupção do prazo. Os Tribunais Superiores ainda não têm posicionamento sobre o tema. Algumas questões de concurso já cobraram os termos. Em especial, cita-se que a FCC, em prova de magistratura estadual (TJ/PE 2013), considerou incorreta a seguinte assertiva: 
 
“o prazo prescricional pode ser suspenso ou interrompido, mas não o prazo decadencial, que não se interrompe ou suspende mesmo nas relações consumeristas”. 
1.1.2.3. Garantias legal e contratual 
 
Todos os produtos lançados no mercado de consumo têm garantia legal de adequação (art. 24), que independe de termo expresso e cuja exoneração é vedada ao fornecedor. 
Garantia legal - os prazos de garantia legal são aqueles previstos no art. 26 do CDC, ou seja, 30 dias para os bens não duráveis e 90 dias para os duráveis. É inadmissível substituir a garantia legal pela contratual, pois a primeira é obrigatória e inderrogável, enquanto a última é meramente complementar. 
Complementar significa que se soma o prazo de garantia contratual ao prazo de garantia legal. 
Natureza jurídica da garantia contratual - Constitui modalidade de decadência convencional sendo o prazo concedido geralmente pelo vendedor para ampliar o direito potestativo dado pela lei ao comprador de determinado bem de consumo. 
Ou seja, a lei permite ao fornecedor acrescer uma garantia contratual aos seus produtos e serviços, que é um plus à garantia legal, e não a substitui nem a incorpora (art. 50 – “a garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo escrito”). 
Para o STJ, os prazos da garantia legal somente começam a correr após o término do prazo da garantia contratual.
Processo civil. Direito do consumidor. Aquisição de veículo automotor. Alegação do consumidor de que comprou determinado modelo, pensando ser o mais luxuoso, e de posterior constatação de que se tratava do modelo intermediário. Ação proposta um ano após a aquisição. Decadência. Desnecessidade de se aguardar o término do prazo de garantia. Alegado inadimplemento do dever de informação, pelo vendedor, que se insere no âmbito do contrato de compra e venda. 
- O início da contagem do prazo de decadência para a reclamação de vícios do produto (art. 26 do CDC) se dá após o encerramento da garantia contratual. Precedentes. 
(REsp 1021261/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 20/04/2010, DJe 06/05/2010) 
 
Embora o fornecedor não esteja obrigado a conferir a garantia contratual, caso decida fazê-lo, deverá entregar ao consumidor o respectivo termo adequadamente preenchido e com especificação clara do seu conteúdo, sob pena de incidir no tipo penal do art. 74 do CDC (“Deixar de entregar ao consumidor o termo de garantia adequadamente preenchido e com especificação clara de seu conteúdo” é crime, sujeito à pena de detenção de um a seis meses ou multa). 
Cobrança pela garantia estendida - Esta somente poderá ser cobrada se efetivamente contratada e não pode ser presumida, sob pena de responsabilização civil do fornecedor. 
 
1.1.2.4. Precedentes importantes STJ 
Cumpre, para encerrarmos o estudo da decadência, fazer referência a situações 
importantes julgadas pelo STJ. 
 
a) Súmula 477: A decadência do artigo 26 do CDC não é aplicável à prestação de contas para obter esclarecimentos sobre cobrança de taxas, tarifas e encargos bancários. 
b) O vestuário representa produto durável por natureza, porque não se exaure no primeiro uso ou em pouco tempo após a aquisição, levando certo tempo para se desgastar, mormente quando classificado como artigo de luxo, a exemplo do vestido de noiva, que não tem uma razão efêmera. (REsp 1161941/DF, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 05/11/2013, DJe 14/11/2013). 
c) Novidade 2021: Na hipótese em que as dimensões de imóvel adquirido não correspondem às noticiadas pelo vendedor, cujo preço da venda foi estipulado por medida de extensão (venda ad mensuram), aplica-se o prazo decadencial de 1 (um) ano, previsto no art. 501 do CC/2002, para exigir o complemento da área, reclamar a resolução do contrato ou o abatimento proporcional do preço. (REsp 1.890.327/SP, Rel. min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por maioria, julgado em 20/04/2021). 
 
1.1.3. DA PRESCRIÇÃO (art. 27) 
 
O CDC traz regra específica a respeito da prescrição dos fatos do produto e do serviço em seu art. 27. 
Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação (ação de reparação) pelos danos causados por fato do produto ou serviço, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. 
Início da contagem do prazo prescricional – a parte final do art. 27 preceitua que se inicia a contagem do prazo “a partir do conhecimento do dano e de sua autoria”. 
Observe-se que a lei vale-se de uma conjunção de adição (“e”), e não de alternância. Assim, o conhecimento do fato e do seu autor são pressupostos cumulativos. 
STJ: Ignorando a parte que em seu corpo foram deixados instrumentos utilizados em procedimento cirúrgico, a lesão ao direito subjetivo é desconhecida e não há como a pretensão ser demandada em juízo. O termo a quo do prazo prescricional é a data em que o lesado tomou conhecimento da existência do corpo estranho deixado no seu abdome. (REsp 1020801/SP, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 26/04/2011, DJe 03/05/2011).
Ao contrário do que vimos na decadência, não há nenhuma previsão no CDC de causas que suspendam ou interrompam a prescrição. 
Diante da omissão legislativa, uma parcela da doutrina entende que, em prestígio ao Diálogo 	das 	Fontes, 	seria 	possível 	a aplicação das causas obstativas/suspensivas/interruptivas previstas no Código Civil.
 Deixamos o registro no mesmo passo que advertimos sobre o entendimento. A prioridade das questões é cobrar o que está previsto no CDC; apenas se o enunciado for muito específico ou se tratar de uma prova subjetiva é que se cabe desenvolver o raciocínio acima.
1.2. 	DESCONSIDERAÇÃO 	DA 	PERSONALIDADE 	JURÍDICA 	E 
RESPONSABILIDADE SOCIETÁRIA (art. 28) 
1.2.1. DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 
Visando a coibir os abusos, surgiu no Direito Comparado a figura da teoria da 
desconsideração da personalidade jurídica ou teoria da penetração. Com isso, alcançamse pessoas e bens que se escondem dentro de uma pessoa jurídica para fins ilícitos ou abuso (responsabilidade ultra vires). 
Embora se trate de tema melhor explicado no conteúdo programático de Direito Civil, é importante alertar que a desconsideração não implica a extinção da pessoa jurídica, mas apenas o afastamento momentâneo da sua autonomia patrimonial no caso concreto (há inúmeras perguntas de concurso nesse sentido). 
A desconsideração foi prevista legalmente, de forma inicial, no CDC, passando por algumas leis extravagantes até vir prevista