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Decadência e prescrição e desconsideração da personalidade jurídica no CDC

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também no Código Civil de 2002. E o CPC/2015 dedicou um capítulo inteiro para regulamentar o processamento do “Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica”. 
Teorias de Desconsideração da Personalidade da Pessoa Jurídica - pode-se dizer que há duas grandes Teorias no ordenamento jurídico brasileiro, a que tem assento no CDC e aquela prevista no CC/2002, o que levou a uma classificação doutrinária muito famosa e cobrada em provas. 
As teorias são divididas levando em consideração a quantidade (maior ou menor) de requisitos para que haja a desconsideração. São estas as teorias: 
	Teoria Maior 
	Teoria Menor 
	Previsão no art. 50 do CC. 
	Previsão no art. 28 do CDC. 
	Há mais requisitos. 
	Há menos requisitos – o que significa mais hipóteses de aplicação. 
	Não é suficiente a prova da insolvência. 
	É suficiente a prova da insolvência. 
	Exige o abuso da personalidade jurídica, que pode ser por: 
· confusão patrimonial. 
· desvio de finalidade. 
	Exige como único requisito o prejuízo do consumidor. 
O caput do art. 28 cita alguns exemplos, em rol não taxativo, como abuso de direito, excesso de poder, infração da lei etc. 
	Não pode ser decretada de ofício. Depende de requerimento da parte ou do MP. 
	Pode ser decretada de ofício. 
 
OBSERVAÇÃO: A doutrina entende que a Teoria Menor foi adotada também na Lei n. 
9.605/98, que trata das infrações administrativas e dos crimes ambientais (e que será estudada no conteúdo programático de Direito Ambiental). 
 
Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica no CC (tese americana 
da Disregard Doctrine): 
 
Art. 50 - Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso. (Redação dada pela Lei nº 13.874, de 2019) 
 
Teoria da Desconsideração no CDC (art. 28 do CDC): 
 
Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. 
§ 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. 
 
Observe-se que, a despeito de o caput do art. 28 prever alguns exemplos de situações que permitem a desconsideração no âmbito consumerista, o § 5° traz uma verdadeira abertura, sempre que a personalidade jurídica implicar obstáculo ao ressarcimento do consumidor. 
 
ATENÇÃO! É possível a desconsideração da personalidade jurídica com base no artigo 28, §5º, do CDC, na hipótese em que comprovada a insolvência da empresa, pois tal providência dispensa a presença dos requisitos contidos no caput do artigo 28, isto é, abuso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato da desconsideração, subordinada apenas à prova de que a mera existência da pessoa social, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica, sendo aplicável a teoria menor 
jurídica pode causar, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. (trecho extraído do voto do Min. Massami Uyeda no AgRg no Ag 1.342.443/PR, T3, DJe 24/05/2012). 
Ou seja, a incidência do §5º é autônoma, não precisa combinar com uma das hipóteses do caput. Subordina-se à prova da mera existência da pessoa jurídica, que está a causar obstáculo ao ressarcimento dos consumidores. 
 
A teoria da desconsideração não está condicionada ao ajuizamento de uma ação autônoma, o juiz pode alcançar os bens da pessoa jurídica na própria ação contra ela proposta. Na mesma linha de raciocínio, o STJ entende que o juiz pode desconsiderar a personalidade jurídica, incidentalmente, no processo de execução (singular ou coletiva), de forma a impedir a concretização de fraude à lei ou contra terceiros, quando verificados os pressupostos de sua incidência (ex.: RMS 16.274, T3, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJ 02/08/2004). 
Positivando a jurisprudência que já era consolidada, o CPC/2015 previu que “o incidente de desconsideração é cabível em todas as fases do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução fundada em título executivo extrajudicial” (art. 134, caput). 
Manutenção dos parâmetros de desconsideração dos microssistemas (CDC, CLT, Direito Ambiental) diante do CC/2002 - Enunciado 51 do CJF - A teoria da desconsideração da personalidade jurídica – disregard doctrine – fica positivada no novo Código Civil, mantidos os parâmetros existentes nos microssistemas legais e na construção jurídica sobre o tema. 
O que o enunciado acima quis dizer é que, não obstante a previsão do CC/2002 ser posterior à das normas que previam a figura da desconsideração (ex.: CDC, Lei do CADE, Lei n. 9.605/98), estas normas/sistemas se mantêm íntegros, não sendo alterados pelo art. 50 do Código Civil. 
Autorização judicial e decretação de ofício - A determinação da desconsideração da personalidade jurídica depende de autorização judicial. Para a desconsideração prevista no Código Civil, o juiz não pode agir de ofício, sendo necessário o requerimento da parte ou do Ministério Público. Contudo, para a desconsideração do Código de Defesa do Consumidor, o juiz pode agir, sim, de ofício, pois o CDC prescreve normas de ordem pública e interesse social. 
Desconsideração Inversa - Apesar de a lei não regular expressamente o assunto (isso antes do CPC/2015), doutrina e jurisprudência já admitiam tranquilamente a existência do instituto que se convencionou denominar de "desconsideração inversa da personalidade jurídica. 
Caracteriza-se pelo afastamento da autonomia patrimonial da sociedade, para, contrariamente do que ocorre na desconsideração da personalidade propriamente dita, atingir o ente coletivo e seu patrimônio social. A desconsideração inversa tem sido usada com frequência pelo direito de família, quando um dos cônjuges, pretendendo se separar do outro, transfere os bens pessoais para uma sociedade, com o objetivo de 
livrá-los da partilha. 	
A conveniência do instituto surge, pois o devedor esvazia o seu patrimônio, transferindo os seus bens para a titularidade da pessoa jurídica da qual é sócio. Confira-se um julgado do STJ que explica com clareza o instituto: 
 
PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO JUDICIAL. ART. 50 DO CC/02. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA INVERSA. POSSIBILIDADE. 
A desconsideração inversa da personalidade jurídica caracteriza-se pelo afastamento da autonomia patrimonial da sociedade, para, contrariamente do que ocorre na desconsideração da personalidade propriamente dita, atingir o ente coletivo e seu patrimônio social, de modo a responsabilizar a pessoa jurídica por obrigações do sócio controlador. 
Considerando-se que a finalidade da disregard doctrine é combater a utilização indevida do ente societário por seus sócios, o que pode ocorrer também nos casos em que o sócio controlador esvazia o seu patrimônio pessoal e o integraliza na pessoa jurídica, conclui-se, de uma interpretação teleológica do art. 50 do CC/02, ser possível a desconsideração inversa da personalidade jurídica, de modo a atingir bens da sociedade em razão de dívidas contraídas pelo sócio controlador, conquanto preenchidos os requisitos previstos na norma. 
(REsp 948.117/MS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/06/2010, DJe 03/08/2010) 
 
Transcreve-se, ainda, dois enunciados das Jornadas de Direito Civil: 
 
	Enunciado 283 do CJF - É cabível a desconsideração da personalidade jurídica