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Consumidor - oferta e propaganda

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1. DOUTRINA (RESUMO) 
1.1. PRÁTICAS COMERCIAIS 
1.1.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
 
As práticas comerciais são tratadas pelo sistema consumerista como gênero (Capítulo V) e cada uma das seções apresenta uma espécie: da oferta, da publicidade, das práticas abusivas, da cobrança de dívidas e dos bancos de dados e cadastros de consumidores. 
 
1.1.2. DA OFERTA 
 
O termo oferta possui sentido amplo (lato sensu), a englobar qualquer forma de comunicação ou transmissão da vontade que visa a atrair o consumidor para a aquisição de bens e serviços. 
A oferta é o momento pré-contratual da relação consumerista, que já goza de especial proteção pelo CDC (proteção pré, contratual e pós). O art. 30 do CDC prevê que “toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado”.
O dispositivo consagra o princípio da vinculação contratual da oferta, gerando um direito para o consumidor de exigir o cumprimento da oferta nos moldes do veiculado, respondendo o fornecedor objetivamente (via de regra) caso haja discrepância entre a oferta/publicidade e o produto/serviço. 
Referido princípio traz duas consequências:
a) Obriga o fornecedor a contratar – caso haja negativa, o consumidor pode se valer das medidas de tutela específica previstas no art. 84 do CDC, como incidência de multa diária, busca e apreensão etc.; 
b) Introduz as disposições da oferta no contrato eventualmente celebrado – ou seja, as disposições da oferta consideram-se inseridas no contrato, inclusive quando o texto expresso deste seja contrário, pretendendo afastar o caráter vinculativo. 
 
Trata-se, como se deduz, de postulado afeto à boa-fé objetiva, criando uma obrigação pré-contratual (muito similar aos deveres anexos ou colaterais da boa-fé), de modo a não frustrar a legítima expectativa criada pelo consumidor. 
Os grandes balizadores da vinculação da oferta são: 
 
· que haja um mínimo de precisão (“suficientemente precisa”), o que será analisado casuisticamente; 
· que chegue ao conhecimento do consumidor por qualquer forma ou meio de comunicação (ou seja, que haja veiculação, entendida de forma ampla). 
 
OBSERVAÇÃO: Algumas provas de concurso (em especial banca CESPE/CEBRASPE) consideram correta a assertiva “o fornecedor criou um direito potestativo para o consumidor”. Ex.: prova para Defensor Público DPE/ES 2009. 
 
Casos de não vinculação: 
a) Puffing – também denominado por parte da doutrina de puffery, consiste na exaltação exagerada, por parte do fornecedor, dos atributos de seu produto ou serviço. Ex.: o “mais saboroso”, o “melhor do Brasil”, “o melhor design” etc. Via de regra, não obrigam o fornecedor, vez que não permitem verificação objetiva. 
b) Erro grosseiro – em regra, o erro veiculado na oferta vincula o fornecedor, exceto se for grosseiro, facilmente perceptível, que foge dos padrões comuns. Trata-se da aplicação da boa-fé também ao consumidor. Ex.: por um erro de digitação, consta como preço de um carro num anúncio publicitário R$ 300,00 no lugar de R$ 30.000,00.
ATENÇÃO! INFORMATIVO 671 STJ 2020: O erro sistêmico grosseiro no carregamento de preços e a rápida comunicação ao consumidor podem afastar a falha na prestação do serviço e o princípio da vinculação da oferta. 
No caso concreto, houve a reserva de bilhetes aéreos com destino internacional a preço muito aquém do praticado por outras empresas aéreas. Não chegou a haver a emissão dos bilhetes eletrônicos e os valores não foram debitados no cartão. Além disso, em curto período, os consumidores receberam e-mail informando a não conclusão da operação. (REsp 1.794.991/SE, Terceira Turma). 
 
Irretratabilidade da oferta – a oferta, uma vez veiculada pelo fornecedor, já o vincula, não podendo haver retratação. 
Opções para o consumidor caso o fornecedor recuse cumprimento à oferta (art. 35 do CDC) – em caso de recusa, o consumidor pode, alternativamente e à sua livre escolha: 
 
· exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade (inciso I); 
· aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente 
(inciso II); 
· rescindir o contrato, com direito à restituição da quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos (inciso III). 
 
A alternativa prevista no inciso I traz justamente a hipótese de tutela específica (art. 84 do CDC). 
Importante registrar que, em qualquer dos casos (inclusive nos incisos I e II, a despeito da ausência de previsão legal expressa), o consumidor também poderá pleitear a reparação por perdas e danos (materiais e/ou morais), haja vista o princípio da reparação integral (art. 6o, VI, do CDC). 
 
OBSERVAÇÃO: As questões costumam “brincar” com as três opções acima, geralmente excluindo ou vedando alguma. 
Princípio da informação e da transparência (art. 31 do CDC) – além da previsão de informação adequada e clara como direito básico do consumidor (art. 6o, III, do CDC), o CDC traz dispositivo específico para prever que “a oferta e a apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores”. A lista dos dados informativos acima é meramente exemplificativa (“entre outros dados”). 
Observe-se que há obrigação de as informações serem veiculadas em língua portuguesa. É por essa razão que os importadores e demais fornecedores que pretendem vender produtos importados, antes de inseri-los no mercado, deverão providenciar a tradução das informações contidas no rótulo, na embalagem, no manual etc. 
Importante fazer menção a alguns julgados do STJ relativos ao tema: 
 
a) (Informativo 612 do STJ 2017): O fornecedor de alimentos deve complementar a informação-conteúdo “contém glúten” com a informação-advertência de que o glúten é prejudicial à saúde dos consumidores com doença celíaca (EREsp 1.515.895/MS, Corte Especial, Rel. Ministro Humberto Martins, DJe 27/09/2017). 
O art. 1º da Lei 10.674/2003 (Lei do Glúten) estabelece que os alimentos industrializados devem trazer em seu rótulo e bula, conforme o caso, a informação "não contém glúten" ou "contém glúten", isso é, apenas a informação-conteúdo. Entretanto, a superveniência da Lei 10.674/2003 não esvazia o comando do art. 31, caput, do CDC (Lei 8.078/1990), que determina que o fornecedor de produtos ou serviços deve informar "sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores", ou seja, a informação-advertência. Para que a informação seja correta, clara e precisa, torna-se necessária, portanto, a integração jurídica entre a Lei do Glúten (lei especial) e o Código de Defesa do Consumidor (lei geral), pois, em matéria de fornecimento de alimentos e medicamentos, ainda mais a consumidores hipervulneráveis, não se pode contentar com o standard mínimo e sim com o standard mais completo possível. 
 
OBSERVAÇÃO: Perceba-se que há um conflito aparente entre a “Lei do Glúten” (que exige tão somente a informação se o produto possui, ou não, glúten em sua composição) e o CDC. A Corte Cidadã entendeu que a “Lei do Glúten” não pode se sobrepor ao CDC e que a previsão só da informação-conteúdo (contém/não contém glúten) não é suficiente, devendo haver igualmente, com base na base principiológica e nos direitos previstos no CDC, a informação-advertência sobre os riscos que o glúten causa à saúde, em especial dos portadores de doença celíaca. 
CONCLUSÃO: necessidade de informação-conteúdo (“contém glúten”) + informação-advertência (indicação dos riscos que apresentam para a saúde e segurança dos consumidores, em especial aqueles portadores de doença celíaca). 
 
Analisando o alcance da norma do art. 31, caput, do CDC, o STJ recentemente 
decidiu

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