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Afasia - Estudo de caso em um jovem

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GISELE CASSANO FERREIRA, ET AL.
Saúde em Revista 33
ESTUDO DE CASO DE UM JOVEM AFÁSICO E SUA QUALIDADE DE VIDA
Estudo de Caso de um Jovem Afásico 
e sua Qualidade de Vida
Case Study of an Aphasic Youngster and his Quality of Life
RESUMO Este trabalho se propõe a analisar o discurso oral de um jovem
afásico sobre sua qualidade de vida após dois acidentes vasculares cere-
brais, doravante AVCs, cuja etiologia provável tenha sido a dependência
química. A análise de seu discurso é feita a partir do que pode ser extraído
do processo de interlocução, em intervenção terapêutica fonoaudiológica.
A metodologia utilizada é a de abordagem qualitativa, e a análise dos da-
dos é guiada pela análise microgenética. Com base nos dados analisados,
observa-se que a terapeuta, ao assumir o papel de interlocutor, do que in-
terpreta, atribui sentido ao seu discurso, incentiva o paciente a falar, favo-
recendo sua auto-estima e contribuindo para uma melhor qualidade de
vida do sujeito envolvido.
Palavras-chave AFÁSICO JOVEM – QUALIDADE DE VIDA – DISCURSO ORAL.
ABSTRACT This work aims to evaluate the oral speech of an aphasic young
adultís quality of life, after two vascular brain accidents, henceforth AVCs,
which etiology, probably, had been chemical dependence. The analysis is
carried from what can be extracted from the speaker process in
phonological therapeutic intervention. The methodology used is a
qualitative approach and the data analysis is guided by the micro-genetic
analysis. Based on the evaluated data, it is observed that the therapist, when
assuming the speaker role, from what he interprets, gives sense to his
speech, motivates the patient to speak, favoring his self-esteem, contributing
for the subjectís quality of life.
Keywords YOUNG APHASIC – QUALITY OF LIFE – ORAL SPEECH.
ORIGINAL/ORIGINAL
GISELE CASSANO FERREIRA*
Curso de Fonoaudiologia – Faculdade 
de Ciências da Saúde (UNIMEP/SP)
EVANI ANDREATTA AMARAL 
CAMARGO
Curso de Fonoaudiologia – Faculdade 
de Ciências da Saúde (UNIMEP/SP)
*Correspondências: Rua Josefa 
Torres Silvestrine, 79, Jardim Torrezan, 
13440-000, Saltinho/SP
gicassano@ig.com.br
SAUDE15.book Page 33 Friday, July 15, 2005 8:38 AM
GISELE CASSANO FERREIRA, ET AL.
 34 SAÚDE REV., Piracicaba, 7(15): 33-38, 2005
INTRODUÇÃO
omo fonoaudióloga, uma das autoras ficou
envolvida com a questão da afasia desde o
momento inicial de seus estágios clínicos da
graduação em fonoaudiologia, realizados na UNI-
MEP.
Quando formada e clinicando em seu consul-
tório, o primeiro paciente foi um afásico adulto
jovem, de 18 anos, que acabara de ser acometido
por dois AVCs isquêmicos, cuja seqüela foi uma
afasia motora e uma hemiplegia à direita. Os
AVCs foram causados, provavelmente, por depen-
dência química. Tais fatos motivaram este estudo
sobre afasia e sobre afásicos jovens.
Assim, o objetivo deste trabalho é analisar o
discurso oral e a qualidade de vida deste sujeito
adulto jovem após dois AVCs. E, além disso, as
questões que ele apresenta sobre suas dificulda-
des, a partir do material extraído do processo de
interlocução de um episódio de uma sessão tera-
pêutica fonoaudiológica, que faz parte do banco
de dados da dissertação de mestrado (em constru-
ção) de uma das autoras.
Pode-se observar que, durante as sessões de
terapia fonoaudiológica, o paciente trazia para a
terapeuta suas frustrações, emoções, ansiedades e
angústias em relação à sua linguagem. Posterior-
mente, ele passou a se queixar de sua fala curta,
ou seja, do fato de não conseguir formar frases,
da linguagem telegráfica, esperada para o seu
quadro afásico. Muitas vezes, durante as sessões,
o paciente dizia “falar mais... preciso”. Levando
em consideração as necessidades do paciente, a
terapeuta procurou mostrar a ele a importância
da atividade dialógica durante as sessões fonoau-
diológicas, lugar em que o sentido e a significação
são privilegiados em detrimento da repetição e
do falar corretamente. Nesse sentido, foi-lhe
mostrado que os desvios em sua fala podiam ter
outro estatuto, pois são atividades epilingüísticas,
de reconstrução ou ressignificação das palavras.
Ao discutir a linguagem de afásicos, Couldry1
coloca como problema teórico metodológico
fundamental a condição de sujeito da linguagem.
A autora aponta para o fato de que é na condição
de exercício da linguagem que emerge o sujeito.
Interessa-se por estudar a linguagem do afásico
para conhecer o que “a afasia apaga e o que o su-
jeito sublinha” (p. 5). Enfatiza a questão de que,
para conhecer a atividade do sujeito, o que realça
e quais recursos são usados a partir de sua doen-
ça, é necessário estar imerso na linguagem em
funcionamento. Avança ao falar sobre a singulari-
dade do sujeito e, a partir daí, propõe uma práti-
ca intersubjetiva, em que seja possível surgirem
possibilidades de formas de ação (tanto do sujeito
como do terapeuta).
A autora propõe que, logo no início do aten-
dimento do sujeito afásico, a meta deve ser elevar
o sujeito e suas formas de se expressar, ou seja,
trazer o sujeito para o discurso em funcionamen-
to. Sendo assim, o terapeuta não pode se posicio-
nar distante, mas deve inserir-se no espaço da
linguagem, assumir o papel do interlocutor, que
participa dos modos de ação que são possíveis
pela linguagem e dá condições para que o afásico
se constitua como sujeito.
Para complementarmos o estudo sobre o fun-
cionamento lingüístico do sujeito aqui apresenta-
do, também buscamos respostas em outros
autores, como Bakhtin,2 que discute que “com-
preender a enunciação de outrem significa orien-
tar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar
adequado no contexto correspondente” (pp.
131-2). A compreensão ocorre porque existe o
outro, apto para “orientar-se em relação à enun-
ciação do interlocutor” (pp. 131-2).
Já a perda da fala, decorrente de uma lesão
cerebral, e os sintomas da afasia vêm sendo discu-
tidos em muitos trabalhos oriundos da medicina.
O cérebro era um mistério, e os anatomistas e
fisiologistas empenharam-se em decifrar suas fun-
ções. Foucault3 discute que, entre os séculos XVII
e XIX, observa-se uma grande mudança no saber
médico caracterizada pela passagem entre o “adi-
vinhar o interior unicamente pelas noções exter-
nas” e o “descobrir a doença na profundidade
secreta do corpo” (p. 156). Isso só se tornou pos-
sível às custas do enfrentamento de obstáculos
que opunham resistência à abertura de cadáveres.
Segundo Novaes-Pinto,4 as primeiras investi-
gações sobre afasia ocorreram quando Broca, em
1861, procedeu a uma autópsia de um paciente,
pretendendo atribuir às alterações encontradas
no cérebro a causa da sintomatologia apresentada
pelo paciente. Como o paciente de Broca tinha
dificuldade na linguagem articulada, ele determi-
nou que aquela área seria a sede da faculdade da
linguagem articulada, a área de Broca (parte infe-
rior da terceira circunvolução frontal esquerda,
área 44 de Broadman).
Opondo-se à noção localizacionista, assim
como à visão holística do funcionamento cere-
C
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GISELE CASSANO FERREIRA, ET AL.
Saúde em Revista 35
ESTUDO DE CASO DE UM JOVEM AFÁSICO E SUA QUALIDADE DE VIDA
bral, segundo a qual todo cérebro estaria envolvi-
do em qualquer que fosse a função psíquica
registrada, Luria5 adota a concepção de sistema
funcional, atribuindo a algumas áreas a responsa-
bilidade pelo desempenho de qualquer que seja o
processo psíquico referido. Para muitos outros
autores, o distúrbio da linguagem nas afasias
ocorre após a sua aquisição e é causado por uma
lesão cerebral.
Após uma breve discussão sobre afasia, intro-
duziremos o tema qualidade de vida, cuja correla-
ção estamos discutindo neste artigo. Conforme
Penteado:6
Para o Ministério da Saúde, promoção da saúde implica a
construção de um processo de investimentos