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AFUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO

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o pobre. Você
não nota, mas a sociedade, a mídia e os meios de comunicação ensinam, deslavadamente, o ódio 
contra o pobre. Ensinam a desprezar o perdedor, a cultuar o vencedor e o babaca do herói. Esta 
sociedade que está aí sufoca e não dá meios a todos e, quando você cresce, você aprende a odiar 
aqueles que não tiveram chance social. Aprende a achar que lugar de pobre é no xadrez. Cara. . . 
isto é pregação hereditária do ódio entre seres humanos. Estamos esquecendo o básico: nós todos 
somos seres humanos.
— Quer dizer que o Lula é a salvação do país? — Nova estocada de provocação.
— Eu não estou dizendo nada disso. Lula não é a panacéia, mas ele é muito maior do que 
você possa supor. O PT é criação dele, e a partir do PT surgiram Menegheli, Olívio, Genoíno, 
Greenhalg, Barelli, Pazzianoto e um monte de gente que surgiu e surgirá. Eles estão criando 
sociedade. Para eles se você puder. — Complementei.
— É tudo farinha do mesmo saco. Vão chegar no poder, se chegar, e vão fazer tudo o que 
os outros fizeram. Vão comprar mansões, remeter dólares pro exterior por baixo do pano, e o povo 
que se dane. — Retrucou H.
— Pode até ser. O perfil histórico brasileiro indica isto, mas um dia a base mata eles. —
Ameacei.
— Como assim? — Indagou curioso.
— Nós caminhamos para o controle do Legislativo, do Judiciário e para os "pequenos 
assassinatos". Onde o Legislativo vai ter que pagar imposto igual a todo mundo; não vai poder 
votar lei em seu próprio benefício; vai ter que trabalhar senão seus integrantes perderão seus 
cargos, serão demissíveis como qualquer trabalhador; e a composição da Câmara e Senado será
paritária (metade representada por patrões e metade representada por empregados). Enquanto 
que o Judiciário terá que promover a justiça, ou as justiças particulares engolirão os próprios 
conceitos de lei, direito e justiça. E isto não é algo pra cinco, dez ou quinze anos, mas caminhamos 
para lá. Pois o povo não crê nas instituições, não crê mais em nada. Há uma puta falência de 
credibilidade. Por outro lado, tem a turma do osso, que guarda, não divide, não larga e quer o 
continuísmo. Cedo ou tarde a sociedade irá partir para as "justiças particulares", e aí sim teremos a 
grande revolução social brasileira. Pois enquanto os donos do poder não se sentirem ameaçados. 
Enquanto eles puderem rir, cinicamente do semelhante, nada mudará. Mas eles esquecem que a 
mudança que ocorrerá no Brasil será sangrenta, pois não há mudança sem dor. (E justiças e 
injustiças serão praticadas, tudo em nome dos excessos revolucionários.)
— Que porra é esta de "pequenos assassinatos"? — Perguntou ele, com notada 
indignação e curiosidade.
— Isto é da tua e da minha geração. Eu não digo que a intelectualidade de esquerda do 
Caderno B só lê e só vê o que for assunto de bar? Mas voltando ao assunto e satisfazendo a sua 
curiosidade: "pequenos assassinatos" (e que Elliot Gould me perdoe) é quando um parente seu é
morto por um PM e a corporação não pune o culpado. Dai', você cai na clandestinidade e mata um 
PM por dia até eles entenderem que enquanto a lei não for respeitada, vale a lei da selvageria. É
contra todos. "Pequenos assassinatos" é quando você vê um empresário sair ileso, e de repente 
você nota que ele, ou parente dele, foi morto por um grupo de extermínio, acima da lei. Quer dizer, 
são fiscais do cumprimento da lei usando suas regras próprias. É um movimento lento, que aos 
poucos irá tomando forma, até que, como agora, onde a impunidade de quem tem dinheiro 
campeia solta, as pessoas se sentirão com coragem de praticar os "pequenos assassinatos", por 
se sentirem impunes ou com justos motivos. E no dia em que, por medo, terror, pavor, ou o nome 
que você queira dar, os donos do poder entenderem que serão justiçados por injustiçados, e que a 
lei da selvageria é incontrolável e animalesca e será usada contra eles, irão sentar-se e fazer um 
novo Contrato Social, com leis para valer e serem cumpridas. Antes disso, eu não creio em nada. 
São só homens, são só nomes. Meros vampiros sociais.
Gozado. Eu falando desta forma com o H. Fosse alguns anos antes, e eu sumiria 
rapidamente só por externar este tipo de pensamento. Mas estávamos em fins de ditadura militar, 
entrando na ditadura empresarial, e falar e pensar eram quase permitidos.
Graças a Deus, eu estava em São Paulo, e na Fundação teria tempo suficiente para pôr 
minha cabeça em ordem. Ficar um pouco alienado das injustiças sociais, das mentiras da 
informação do Jornal Oficial Nacional, e longe do "pega-ladrão"da auditoria. Eu precisava desta 
folga. Estava muito indignado com tudo que se passava com o Brasil e receoso da minha postura. 
Até porque eu me conhecia bem. Bem o suficiente para saber das minhas reações. Por isso, levar 
o trabalho sério a sério, e as pessoas na brincadeira, seria, para mim, antes de tudo, sobrevivência.
A Segunda Auditoria
Eu estava empenhado em ajudar um amigo, Raul Queiróz, a encontrar uma boa casa, pois, 
assim como eu, ele havia sido transferido da auditoria para São Paulo, para ser o Diretor 
Administrativo Financeiro do Sistema Globo de Rádio em São Paulo. Eu queria eliminar todos os 
problemas que havia encontrado quando da minha transferência, fazendo com que ele tivesse 
menos problemas do que eu tive em termos de achar um bom local para morar, um bom colégio 
pros filhos e que sua adaptação fosse menos sentida.
A minha preocupação era devido ao fato de o Raul haver tido uma péssima experiência em 
termos de transferência anteriormente. Ele havia feito um trabalho excelente quando das 
negociações e compra da Almec (Pegeaut), tendo sido convidado para um cargo ótimo, a nível de 
superintendência, e mudou-se com armas e bagagens para Montes Claros. Entretanto, num 
curtíssimo espaço de tempo, por motivos absolutamente financeiros, a Globo resolveu vender a 
empresa, e o Raul teve que retornar ao Rio, com toda a família, e morar em hotel. (Os móveis 
foram para um Guarda-móveis, as crianças ficaram desorientadas em termo de escola, e a própria 
família nem sabia mais onde morava.) Em razão disto, eu, assim como outros amigos da auditoria, 
trabalhando em São Paulo, estávamos empenhados nesta tarefa de ajudá-lo.
Seria muito bom ter mais um amigo por perto, mas não era só um simples amigo, e sim um 
de qualidade. Pois o Raul é daqueles que trombam fácil, com o mundo inteiro, em nome de uma 
amizade sincera. Nosso último trabalho juntos havia sido exatamente no Sistema Globo de Rádio, 
que, para variar, fora mais um grande "pega-ladrão", e que será objeto de um enfoque mais 
minucioso no livro Inside Globo, parte desta trilogia.
O trabalho do Sistema Globo de Rádio fora iniciado quase que de maneira semelhante ao 
da Fundação. Deveria ser um serviço normal, igual ao feito todos os anos, até que mudou-se a 
equipe e o enfoque, abrindo-se feridas e mais feridas. Na realidade, não foi nem bem uma 
mudança de equipe, mas uma competição de equipe. Pois eu não havia concordado com a ótica 
que estava sendo dada ao trabalho. Disse e escrevi isto ao Francisco, chegando mesmo a ser 
deselegante com um colega que coordenava os trabalhos, alegando que de nada adiantavam 
todas aquelas pastas, todos aqueles papéis, documentos, circulares e etc, e com os números 
todos "cruzadinhos", tudo batendo. Se ninguém conversava com os números ou não dava um 
enfoque macro aos tipos de problemas que o Sistema Globo de Rádio tinha. Pois eu não achava 
normal ver a briga surda de entrega-entrega entre o Superintendente (Lemos) e o Diretor 
Financeiro (Mourão), ou que fosse desprezível o apelido do Waldyr Amaral, que às escondidas era 
chamado por grande parte dos funcionários da Rádio Globo, de Waldyr do Jabá. ("Jabá", em meio 
artístico, significa "bola", "propina". É usado para designar o dinheiro que se dá para que o 
comunicador faça merchandising sem a empresa saber, ou para promover um cantor, um artista,