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AFUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO

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pode? Ele respondeu: Pode! Daí, eu aluguei a câmera por 25 mensais, e ao fim de quatro 
meses a câmera estava paga. E, como o Jair disse que a Fundação não poderia ter ativo fixo, só
alugar, eu peguei a câmera para mim, pois estava sem dono, e continuei alugando esta mesma 
câmera para a Fundação. Só que isto, eu não oculto de ninguém. Não tenho culpa de não haver 
controle e administração na Fundação. Aqui é uma zona de desorganização, e o cara que deveria 
entender disto é um militar imposto por um outro militar (Coronel Paiva Chaves. Aliás, apelidado de 
Paiva Chivas), que não entende nada de administração e finanças, que dirá de televisão. —
Concluiu, zangadamente, Jorge Matsumi.
Tive oportunidade, ainda, de discutir, com alguma profundidade, com o Gerente de 
Produção, Hugo Graff, e com dois outros diretores de televisão: Hugo Barreto e Carlos Justino 
(Carli-nhos). Voltei para o Rio, estupefato com a babel que era a Fundação, e espantado com o 
altíssimo grau de desorganização. Aquela altura já me indagava se era um caos proposital e 
conveniente, ou era uma burrice acidental. A sensação era, descrita anteriormente, do vendedor de 
sapatos diante de uma tribo descalça. Ou seja: os dois maiores departamentos da Fundação, 
justamente o que providenciava os recursos e o que gastava, estavam virgens em termos de 
auditoria e na mais completa desorganização. Era inacreditável que isto estivesse ocorrendo, mas 
era verdade.
De volta ao Rio, segunda-feira, era dia de todos estarem no escritório para avaliação do 
serviço e novas redistribuições de tarefas. Era dia de injeção de ânimo, e uma catarsezinha de 
uma a duas horas, e de muita expectativa para mim. Quase não dei atenção aos colegas. 
Observava, de longe, as farras, as brincadeiras e as gozações, e quase não falava, como que para 
não deixar transparecer o meu pensamento. Sim, pois, o caos da Fundação era muito superior
às minhas expectativas, e eu tinha medo de pensar no assunto e alguém ouvir meus pensamentos.
Como de hábito, chamei o Luiz Carlos para um cafezinho na cozinha. Eu não gostava de 
ser visto segredando com o Luiz Carlos, pois logo os outros iriam achar que estávamos tramando 
algo, devido à nossa pecha de "politizados"' e pela grande influência de amizade que tínhamos 
com o Francisco.
Era comum a minha confidencia com o Luiz Carlos, eu admirava bastante sua linha e 
conduta profissional. Ele é um dos mais competentes e equilibrados auditores que conheci. Neste 
meio, onde a acuidade, sagacidade e inteligência contam ponto, você só se faz respeitar e só
respeita outro profissional se ele for um ótimo técnico. E esta era a linha direta e meu canal de 
ligação imediato com ele.
Assim, antecipei ao Luiz o ocorrido, e ansiava pela chegada do Francisco, para 
desmantelar alguns serviços bobos em andamento e requisitar uma grande equipe para a 
previsível grande massa de informações que iríamos ter.
Procurei saber, por alto, como havia sido o trabalho da equipe no Rio, mas não queria 
reorientar o serviço, de imediato, pois eu tinha mil planos na cabeça e não queria que vazasse 
nada.
Estava ansioso e não queria antecipar coisa alguma sem antes discutir com o Francisco. 
Mas, apesar disto, ria das brincadeiras do pessoal, principalmente do Danilo e Miguel (Duarte), que 
nasceram para gozar um do outro. (Era a baixaria fundamental.)
O Miguel inventava mil histórias sobre o Danilo, e ambos rememoravam histórias do 
Paraná da Foz do Iguaçu, das fazendas do Dr. Roberto no pantanal, e das bravatas de cada um. 
Pareciam colegiais em férias. Vê-los assim, difícil seria supor que por detrás de toda aquela 
peraltice estavam escondidos profissionais da maior seriedade.
O March, em seu canto de observação, não falava com ninguém. Olhava 
interrogativamente para tudo aquilo e, numa das passagens de olhos por mim, notou algo errado:
— Chips. O Chips. Vem cá.
— Não quero papo — respondi.
— É sério, preciso da tua ajuda. Venha cá. Não é brincadeira não.
Ao aproximar-me, ele se tornou solene:
— Acertou na mosca em São Paulo, não é?
— Não quero papo, March.
— Tudo bem. Tenho certeza que perdi a parada. Já vi pelo movimento da galera que o 
trabalho da Fundação vai estourar, e pelo teu silêncio, vejo que o negócio em São Paulo foi bom e 
que a coisa vai longe. Mas não é sobre isto que eu queria falar, não. O papo é outro. Eu quero uma 
idéia sua. Como você é um cara que vive dando idéias e tem uma cabeça ótima, eu queria uma 
idéia sua.
— Qual é? É sacanagem...? — Perguntei
— Não. Não é nada disso — falou —, é sério. Eu e o Pedrinho estamos com um problema 
com um arquivo de fitas e a gente não sabe o que fazer com ele. Você poderia dar uma idéia do 
que fazer, ou de como abordar o ponto?
— Para você e Pedrinho? — Perguntei.
— É. Nós estamos fazendo um serviço juntos — ele completou.
— Nem pensar. Eu quero que vocês se danem — respondi, já saindo (irritado).
— Peraí, Chips, é para mim. — Ele reforçou.
— Tudo bem. Qual é o caso? Mas é para você, heim!
— É o seguinte: nós estamos fazendo um. . .
— Nós? Você e o Pedro?
— Peraí, Chips. É para o Pedro também, mas é principalmente para mim. Larga mão de 
ser bobo e de implicar com ele. Você e o Luizinho vivem de guerra com ele. Pô. . ., refresca o cara. 
Esquece que ele está na jogada. Faz de conta que ele não está neste serviço. — Explicou o March.
— Tudo bem. Mas o ponto é para você. Eu não vou dar nada de bandeja pro Pedro.
— É o seguinte: há um arquivo de fitas. Imagine o CEDOC (Centro de Documentação). O 
que você faria se fosse o dono e estivesse aquilo tudo parado? Você tem alguma sugestão de 
como melhorar, aperfeiçoar ou criar algo em cima?
— Eu faria um museu." Respondi, no ato,curto,seco e grosso.
— Porra. . . Um museu? Você está de sacanagem, Chips. Eu estava aqui te elogiando 
dizendo que ia pedir uma ajuda sua pois você é um cara com a cabeça a mil, sempre com idéias 
incríveis, e você me vem com uma idéia de Museu? Você está de sacanagem comigo. . .
— É o seguinte, March. Imagine o primeiro museu da televisão, mostrando como se faz 
televisão. Mostrando a evolução da televisão no Brasil e no mundo. Mostrando as evoluções dos 
aparelhos de TV. Enfim, com tudo sobre televisão. E, haveriam vários displays, tipo daqueles que 
se usam em Shopping Centers, para você se localizar, e que seriam acoplados a vários micros, 
que dariam a você toda sorte de informações: por ano, por tipo de assunto; enfim, de todas as 
formas. E você poderia solicitar para assistir qualquer assunto em cabines especiais de vídeo. Por 
exemplo: Você poderia digitar o ano de 1966 e veria no"menu" do micro tudo aquilo que constasse 
daquele ano, e você escolheria o assunto. Ou então, você daria o assunto, por exemplo, o "Festival 
da Canção", e veria no "menu" os vários anos para você escolher qual deles. E, assim por diante. 
Sendo que você poderia assistir lá no Museu, como numa fonte de consulta permanente, ou 
poderia comprar uma fita copiada pela Globovídeo, sobre qualquer assunto em arquivo no Museu. 
Já imaginou? O Dr. Roberto iria ficar super-vaidoso com o Museu. O arquivo passaria a ter uma 
situação prática. Daria emprego para muita gente. Seria auto-sustentável, e a Globovídeo faturaria 
uma nota. . .
— Pô, Chips, você é realmente incrível. Uma idéia dessas em um minuto. É realmente 
"du-cacete" esta idéia de Museu.
— Tá legal, March, agora o ponto é seu.
— Meu é o cacete, eu vou falar com o Francisco.
Nisto vem entrando o Pedro, e March o chama à medida em que eu vou saindo. Meia hora 
depois, March me procura novamente, irritado, dizendo que o Pedro não havia gostado da idéia.
Eu ri, e disse: "Não liga não, ele está certo".
Esta idéia do Museu da Televisão foi levada por mim, mais tarde, pessoalmente, ao 
Magaldi e ao Boni, e foi recusada. E todas as recusas tiveram "sólidos" e "bons motivos".
Pedro não topou porque a idéia não era dele.
Magaldi