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Transtorno obsessivo compulsivo

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Os transtornos do espectro obsessivo-compulsivo são um conjunto de transtornos psiquiátricos
conhecido como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtornos relacionados, dentre eles o
transtorno dismórfico corporal, a tricotilomania, o transtorno de escoriação, o transtorno de
acumulação, a hipocondria, a síndrome de Tourette e a síndrome de referência olfatória.
Epidemiologia:
A prevalência de TOC ao longo da vida é de 2 a 3%, com um pico de incidência na infância e outro no
início da vida adulta. Em crianças, o TOC predomina entre os meninos. Já na idade adulta, a
proporção entre sexos se iguala. Cerca de metade dos pacientes iniciam os sintomas antes dos 14
anos de idade. O TOC está associado com incapacidade funcional e social. As taxas de diagnóstico e
tratamento são baixas, pois somente 31% dos casos recebem tratamento específico.
Etiologia:
A etiologia é multifatorial, incluindo fatores genéticos e ambientais.
Fatores genéticos: existe uma contribuição genética no TOC, pois parentes de 1° grau com pacientes
com TOC apresentam maior prevalência do transtorno, além disso existe uma taxa de herdabilidade
de até 50%.
Neurobiologia: estudos de ressonância magnética mostram alterações de volume de estruturas
como os córtices orbitofrontal e do cíngulo anterior, o tálamo, o núcleo caudado e o putâmen.
Neurotransmissores: um desequilíbrio neuroquímico envolvendo principalmente serotonina,
glutamato e dopamina foram observados nos pacientes com TOC.
Fatores neuroimunológicos: há uma possibilidade de que haja participação de reações autoimunes
desencadeadas por infecções, em especial o estreptococo beta-hemolítico do grupo A, em crianças
neurobiologicamente predispostas. O TOC seria resultante de um processo inflamatório deflagrado
nos núcleos da base.
Trauma: é um momento de estresse intenso, que pode acarretar níveis elevados de sofrimento
psicológico. O estresse pode resultar em hipertrofia neuronal no putâmen e na amígdala, causando
um desequilíbrio que está implicado na patogênese e na expressão da sintomatologia do TOC. Até
67% dos pacientes com TOC referem um evento traumático relacionados ao início do TOC, como
agressão sexual, combates, exposição a acidentes de trânsito e violência. Esse quadro é chamado de
TOC pós-traumático.
Teorias cognitiva e comportamental:
Abordagem comportamental: se apoia em uma organização cronológica de eventos em que há: 1)
ocorrência de obsessão; 2) eliciação de respostas emocionais desconfortáveis; 3) evocação de
respostas de evitação (compulsão), com consequente fortalecimento de toda a cadeia.
Abordagem cognitivo-comportamental: esse pressuposto aponta que a cognição, caracterizada
pela maneira como a pessoa julga e interpreta as situações, precede o comportamento.
Quadro clínico:
As obsessões e compulsões são as principais manifestações do TOC. As obsessões são pensamentos,
idéias ou imagens repetitivas, que provocam angústia, ansiedade e/ou desconforto. As compulsões
são comportamentos repetitivos ou rituais mentais, realizados de forma rígida e estereotipada, a
fim de diminuir o desconforto causado pelas obsessões. Serão abordados a seguir, alguns sintomas
que podem estar presentes no TOC.
● Obsessões de agressão.
Exemplo:medo de que algum familiar venha a falecer ou sofrer um acidente, medo de que a casa
seja assaltada ou pegue fogo, medo de ter um impulso violento e empurrar ou machucar alguém,
medo de se ferir por não ser suficientemente cuidadoso…
● Rituais de verificação.
Exemplo: verificar portas, janelas, fechaduras, a saída do gás, checar se familiares estão bem,
verificar mentalmente se não se esqueceu de nenhuma medida de segurança…
● Obsessões relacionadas à perfeccionismo, ordenação e simetria.
Exemplo: necessidade de que objetos estejam perfeitamente posicionados e alinhados, de que a
escrita esteja perfeita…
● Rituais de arrumação e arranjo.
Exemplo: gastar muito tempo organizando minuciosamente as roupas no armário, reescrever
muitas vezes a mesma frase para se certificar de que está perfeita…
● Obsessões de contaminação e sujeira.
Exemplo: medo de pegar uma doença por contaminação ao se sentar em bancos ou ao tocar em
maçanetas, preocupação excessiva com sujeira…
● Rituais de limpeza e lavagem.
Exemplo: banhos excessivos e ritualizados, limpeza excessiva de móveis, lavagem de roupas que
não foram usadas…
● Obsessões sexuais e religiosas.
Exemplo:medo de blasfemar contra Deus, medo de ser homossexual…
● Rituais religiosos.
Exemplo: rezar de forma ritualizada e excessiva, checar repetidamente com o padre, pastor ou
rabino se fez algo que pode ser considerado pecaminoso, fazer o sinal da cruz certo número de
vezes…
● Obsessões e compulsões de acumulação.
Exemplo: medo de jogar coisas fora por poder precisar delas no futuro, acumular objetos inúteis
sem valor sentimental…
● Obsessões de ciúme.
Exemplo: dúvidas em relação à fidelidade do parceiro, imagens mentais intrusivas de traição,
necessidade de se certificar de que não se está sendo traído, necessidade de verificar se a pessoa
está mesmo onde disse que estaria, se há algum indício de traição em objetos pessoais, roupas,
telefones celulares, correspondência eletrônica… Muitas vezes, esses pacientes se culpam por
causar sofrimento injusto ao cônjuge.
● Maior propensão à sensação de nojo.
Pacientes com TOC costumam apresentar aumento do número de situações e objetos que podem
gerar nojo, quando comparados às pessoas sem o transtorno.
● Fenômenos sensoriais.
Os pacientes com TOC descrevem que algumas compulsões são precedidas ou acompanhadas por
sensações, sentimentos e/ou percepções, descritas como desagradáveis ou desconfortáveis –
chamados de fenômenos sensoriais (FS). Esses fenômenos podem ser sensações físicas e
incômodas na pele ou nos músculos, tipo uma coceira ou pinicada. Eles também referem
percepções visuais, auditivas ou táteis de que algo não está como deveria estar e que os levam a
realizar as compulsões até terem a percepção de que o objeto ou situação está em ordem. Outros
exemplos de FS são: sensação mental de tensão ou energia crescente que precisa ser descarregada
pela realização dos comportamentos repetitivos e sentimentos de incompletude, imperfeição e
insuficiência.
● Capacidade crítica.
É a capacidade de sentir vergonha e/ou medo de seus pensamentos e comportamentos, admitindo
que são excessivos ou irracionais. Pacientes com TOC geralmente possuem um grau de crítica bom,
mas em alguns casos não. Em alguns casos, a crítica é tão alta que o TOC pode ser “secreto”, com
sintomas encobertos ou rituais mentais.
● Esquiva, incompletude e evitação de danos.
Os sintomas de base do TOC são a evitação de dano ou a incompletude. Na evitação de dano, ocorre
preocupação excessiva em responder a estímulos aversivos com evitação. Já os pacientes que
possuem sintomas de incompletude são guiados mais pela preocupação em concluir as tarefas
perfeitamente ou repetir e realizar uma tarefa até se sentirem satisfeitos.
A esquiva consiste em comportamentos e medidas adotados com a tentativa de evitar contato com
situações e estímulos aversivos. Exemplo: um paciente com sintomas de limpeza e contaminação
que falta a um evento social para evitar utilizar um banheiro público.
● Acomodação familiar.
Ocorre mudança da rotina de pessoas que convivem com o paciente, pois os familiares mudam seus
próprios comportamentos e rotinas para ajudar nos rituais do paciente, com o intuito de diminuir
seu sofrimento. Porém, a consequência no longo prazo é reforçar o comportamento, perpetuando
ou agravando os sintomas.
● Intolerância à incerteza.
O indivíduo faz a leitura das situações em seu contexto de maneira que não são permitidas
variações fora do que ele pensou. Exemplo: um sujeito que necessita a todo momento saber onde
estão as pessoas de seu convívio, quando por algum motivo fica sem notícias, inicia um processo de
mapear ruas onde estas podem estar, formula hipóteses para o que pode ter acontecido e calcula
estatisticamente as possibilidades na tentativa de prever e se preparar