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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO E EVOLUÇÃO CULTURAL- RELAÇÕES ENTRE AS PROPOSTAS CONCEITUAIS DE B.F. SKINNER E S.S GLENN

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utiliza este componente 
como um terceiro elemento que integra a própria definição do que é uma 
metacontingência (linha: 303, 304, 323): ―Metacontingencies have three components: 
interlocking behavioral contingencies, their aggregate product, and their receiving 
system‖ (linha: 268). 
Identificamos a seguir uma passagem na qual Glenn parece afirmar que o 
sistema receptor não é um componente indispensável para todas as metacontingências. 
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Segundo Glenn, as contingências entrelaçadas, assim como as respostas operantes, 
podem ou não resultar em produtos automáticos que as selecionam. Quando não 
resultam em tais produtos, as contingências entrelaçadas podem ser mantidas por 
mediação social, requerendo um sistema receptor. Para exemplificar a diferença entre 
estes dois tipos de metacontingência, Glenn compara o relato de evento de Todd e 
Marta ao produzir refeições e ao restaurante recentemente apresentado: 
Like the responses in operant contingencies, the IBCs in metacontingencies can 
result in both automatic outcomes and socially mediated outcomes that depend 
on the features of the automatic outcome. For example, Todd's and Marta's 
IBCs at first had automatic outcomes - meals - that differentially perpetuated 
some variations of the IBCs. Eventually, the IBCs constituting their restaurant 
were maintained by the ordering behavior of customers. As in the case of social 
reinforcers for individual behavior, the socially mediated relation between the 
IBCs of the restaurant and the sustaining income generated from customer 
purchases provides a foundation for more complex relations. (linha: 236) 
Este relato de evento demonstra que em alguns casos o próprio produto 
agregado pode selecionar a contingência entrelaçada, e que em outros pode ser 
necessária a mediação social da consequência cultural. Tal mediação recebe a 
denominação sistema receptor. Aparentemente, portanto, quando as contingências 
entrelaçadas são mais complexas, torna-se: (1) menos provável que o produto agregado 
as afete diretamente e (2) mais provável que elas dependam de sistemas receptores 
(Tourinho & Vichi, 2012, p. 173). Por exemplo, a produção do jornal em si não 
seleciona as contingências entrelaçadas no relato de evento recém-analisado. É 
necessário que o jornal satisfaça as exigências do público que o compra ou assina, e 
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com isso permita o pagamento dos salários dos indivíduos que o produzem e da infra-
estrutura necessária para tanto. 
Outra conclusão possível a partir do relato dos eventos expostos é a de que se a 
produção de produtos automáticos versus socialmente mediados na metacontingência é 
análoga ao operante como sugerido por Glenn (linha: 293), considerar que a seleção 
cultural atua sobre as contingências entrelaçadas e seus produtos seria equivalente a 
sustentar que o operante e seus produtos são selecionados no segundo nível de seleção. 
Partindo desta análise, no relato de evento de Glenn no qual uma criança ganha pontos 
ou aprovação social (consequência) quando lava a louça seria possível considerar como 
unidades o comportamento de lavar a louça e o produto (louça limpa, por exemplo). Isto 
é, a interpretação de que a contingência entrelaçada e o produto agregado são 
selecionados parece incompatível com posicionamentos feitos pela autora em outros 
momentos. 
Considerando as inconsistências conceituais destacadas e a necessidade de 
viabilizar comparações posteriores com os conceitos de Skinner, optamos por adotar 
como base para tais comparações o posicionamento da autora exposto há pouco na 
passagem da linha 236, por ser o único momento em que Glenn discute seu 
posicionamento sobre quais fenômenos requerem o uso do conceito de sistema receptor. 
Nesta passagem, Glenn aponta a contingência entrelaçada como variação e argumenta 
que em algumas situações o produto agregado pode selecioná-la de forma automática, e 
em outras pode ser necessário a descrição de um terceiro elemento, nomeado sistema 
receptor. 
2.4. Metacontingência 
Nos textos de Glenn é possível observar pelo menos duas classes de descrições 
de eventos que aparecem como a ação da consequência cultural sobre as contingências 
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entrelaçadas. A primeira classe aborda a seleção de contingências entrelaçadas devido 
aos efeitos sobre as chances de sobrevivência física dos indivíduos participantes da 
metacontingência, e está presente principalmente nos primeiros textos da autora, 
ressurgindo eventualmente até a publicação de 2004a. A segunda, por sua vez, é análoga 
ao comportamento operante, e surge conjuntamente com o conceito de contingências 
entrelaçadas, em 1988. Esta segunda classe de relatos de eventos que controlam a 
emissão do conceito de metacontingência é observada frequentemente em textos mais 
recentes, sendo a única mencionada nos três últimos textos consultados. 
Estas duas classes de relatos de eventos aos quais o conceito de 
metacontingência é aplicado serão analisadas individualmente. Serão excluídos textos 
cujas descrições de eventos não sejam suficientemente claras para a presente análise. 
Neste momento, daremos ênfase ao processo de seleção, uma vez que as unidades 
envolvidas já foram introduzidas anteriormente. 
2.4.1 Metacontingência como seleção de contingências entrelaçadas 
favoráveis à sobrevivência física dos indivíduos participantes. 
A primeira classe de relatos de eventos (linhas: 58, 59, 64, 67, 68, 70, 71, 85, 
89, 93, 95, 96, 158, 164, 209, 217, 221) que controlam a emissão do conceito de 
metacontingência refere-se à seleção de determinadas contingências entrelaçadas em 
função de seus efeitos sobre a sobrevivência física dos indivíduos participantes. Este é, 
portanto, um sentido, ou uma classe de relatos de eventos, que pode controlar a 
afirmação de que esta unidade cultural é selecionada: ―When interlocking 
contingencies, in which an extended group of individuals participate, fail to maintain 
outcomes that keep the individuals alive and behaving with respect to one another, the 
culture ceases to exist‖ (linha: 85). 
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O exemplo sobre a produção de cestos em uma vila descrito por Glenn (linhas: 
66, 67, 68, 70, 71) ilustra este tipo de emprego do conceito de metacontingência. De 
forma resumida, a autora considera o conjunto de contingências entrelaçadas de tecer 
cestos para o transporte de água em uma vila. Os cestos produzidos na vila gotejam um 
pouco. Esta prática cultural, no entanto, varia. É possível que um indivíduo dê um nó 
ligeiramente diferente, e seja necessário ajustá-los periodicamente para que o cesto não 
vaze excessivamente. É provável que o indivíduo que carrega a água reclame e instrua o 
tecelão a fazer sua atividade de forma diferente. Caso os nós não melhorem, é possível 
que o indivíduo que carrega a água conceda uma parte menor da água para o tecelão. 
Outra possibilidade é que a variação na forma de fazer nós resulte em um cesto 
que não vaze. Neste caso, outros indivíduos podem observar o nó deste tecelão e imitá-
lo. Tecer o novo tipo de nó torna-se, então, prática cultural naquela vila: ―Interlocking 
behavioral contingencies that produce watertight baskets become the standard practice‖ 
(linha: 67). Este novo tipo de cesto permite estocar água, o que antes era inviável 
naquela comunidade. Glenn supõe que em algum momento (durante uma seca, por 
exemplo), estocar água permitiu àquela vila sobreviver, enquanto as vilas que não 
produziram cestos que permitiam isto desapareceram. Desse modo, a sobrevivência 
física dos indivíduos participantes da contingência entrelaçada permitiu a replicação 
posterior dessa prática cultural, enquanto a forma antiga, que gotejava, deixou de 
existir: 
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