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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO E EVOLUÇÃO CULTURAL- RELAÇÕES ENTRE AS PROPOSTAS CONCEITUAIS DE B.F. SKINNER E S.S GLENN

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some point (during droughts, for example), water storage allowed 
permaclones
8
 that had developed water storage practices to survive while those 
permaclones that had not produced baskets in which water could be stored 
 
8
 Permaclone é um termo utilizado por Harris (1964) na classificação de entidades culturais e, de acordo 
com Glenn (1988, p. 163), refere-se a indivíduos comportando-se em repetidos episódios 
comportamentais nos quais os membros do grupo podem ser substituídos de tempos em tempos. 
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disappeared; the basket-making and water-carrying practices of the former 
permaclone survived while replication of the latter‘s practices ceased. Only 
some interlocking behavioral contingencies (cultural practices) were selected 
by outcomes. (linha: 68) 
Nesta possibilidade de análise, considera-se que a consequência cultural (linha: 
72) seleciona contingências entrelaçadas que permitem a sobrevivência física dos 
indivíduos participantes da metacontingência. As práticas são replicadas e mantidas na 
cultura em decorrência desta sobrevivência física - e também, consequentemente, 
sobrevivem. 
Apesar de indicar relatos de eventos nos quais esta análise é possível, Glenn 
adverte que em sociedades complexas como as atuais é difícil conceber uma situação na 
qual uma prática cultural gere produtos que ocasionem a morte de todos os indivíduos 
envolvidos na prática: ―Because sociocultural systems with which we are familiar are so 
large and complex, it is difficult to imagine circumstances in which a cultural practice 
has an outcome that results in the death of all the individuals contributing to the 
outcome‖ (linha: 158). Outra possibilidade de análise apontada por Glenn, que será 
tratada no próximo tópico, é a de que as contingências entrelaçadas sejam selecionadas 
de forma análoga à que ocorre no comportamento operante. 
2.4.2 Metacontingência como seleção de contingências entrelaçadas de 
modo análogo à seleção operante. 
A maior parte dos trechos de Glenn selecionados nas categorias de registro (51 
ocorrências de um total de 68 trata da seleção de contingências entrelaçadas de forma 
análoga ao comportamento operante. (linhas: 45, 46, 51, 53, 69, 81, 111, 115, 116, 122, 
123, 128, 155, 156, 157, 166, 171, 172, 204, 206, 233, 234, 235, 237, 243, 244, 252, 
253, 254, 263, 264, 270, 271, 275, 282, 293, 296, 301, 302, 303, 313, 314, 315, 322, 
102 
 
323, 326, 327, 328, 330, 332, 333): ―Paralleling the contingencies of reinforcement that 
account for the origin and maintenance of operant behavior, metacontingencies account 
for the origin and maintenance of IBCs and their effects‖ (linha: 323). 
A consequência cultural relaciona-se funcionalmente com as contingências 
entrelaçadas, afetando a probabilidade de novas ocorrências. Para exemplificar este tipo 
de processo seletivo, recorreremos à última publicação em co-autoria de Glenn 
selecionada. O experimento de Vichi, Andery & Glenn (2009) demonstra 
empiricamente eventos responsáveis pela emissão dos conceitos envolvidos na 
metacontingência, e será exposto aqui de forma resumida. 
No experimento, dois grupos, compostos por quatro participantes cada, 
deveriam apostar tokens (cada token valia um centavo) em uma matriz de oito colunas 
por oito linhas com um sinal positivo ou negativo em cada célula. Os participantes 
escolhiam uma fileira e apostavam e, em seguida, o experimentador escolhia uma 
coluna. Se a célula formada pela escolha do grupo e do experimentador tivesse um sinal 
positivo os jogadores recebiam o dobro do número de tokens apostados por eles e, se o 
sinal fosse negativo, perdiam metade dos tokens apostados. Após cada tentativa, os 
participantes deveriam (a) depositar alguns tokens do grupo em um vaso e (b) decidir 
como compartilhar entre os participantes os tokens restantes. Nenhum participante 
poderia ser deixado sem tokens após esta distribuição. 
Os participantes eram informados que a escolha da quantidade de tokens a ser 
depositada no vaso em alguns momentos seria decida pelo experimentador. Esta 
intervenção ajudava o experimentador a induzir distribuições iguais ou desiguais de 
tokens entre os participantes . Na condição experimental A o experimentador escolhia 
uma coluna que levava ao sinal positivo quando a distribuição de tokens na tentativa 
anterior era feita igualmente entre os jogadores, e um sinal negativo quando a 
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distribuição era desigual. Já na condição B, ocorria o oposto: a distribuição desigual era 
seguida por uma escolha do experimentador que produzia um sinal positivo e a 
distribuição igual por um sinal negativo. A figura abaixo ilustra os estímulos que 
controlam a emissão de cada conceito proposto por Glenn para o estudo da 
metacontingência, e como eles se relacionam no experimento. 
 
Figura 2: Diagrama esquemático do experimento de Vichi, Andey & Glenn. Fonte: 
Vichi, C., Andery, M. A., Glenn, S. S. (2009). A Metacontingency Experiment: The 
Effects of Contingent Consequences on Patterns of Interlocking Contingencies of 
Reinforcement. Behavior and Social Issues, 18, 1-17 
 
No primeiro grupo as condições foram A-B-A-B e no segundo B-A-B. O 
experimento demonstrou que a contingência entrelaçada responsável pelo produto 
(distribuição igual ou desigual de tokens) é alterada em função da ação da consequência 
cultural (tokens duplicados ou divididos pela metade): ―The interrelated behavior of 
individuals in groups changes as a function of consequences upon the products of those 
behaviors‖ (p. 53). As contingências entrelaçadas são modificadas, portanto, quando a 
consequência cultural muda: ―Furthermore, it shows that changes in the behaviors of 
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individuals and the group interactions are reversible; that is, individual and ‗group‘ 
patterns change when ‗external contingencies‘ change‖ (p. 53). 
Nota-se que diferentemente da primeira classe de relatos de eventos discutida, 
que descreve a seleção do ambiente externo como efeito das contingências entrelaçadas 
sobre as chances de sobrevivência física dos participantes da metacontingência, a 
segunda classe se aproxima mais da seleção operante. Não há obrigatoriamente relação 
direta entre a consequência cultural e a sobrevivência física dos indivíduos, e sim sobre 
a probabilidade de recorrência da contingência entrelaçada. 
Em diversos momentos, Glenn (linhas: 122, 128, 238, 244) estabelece esta 
comparação entre os processos de seleção do comportamento individual e seleção 
cultural: 
The relation between IBCs and their outcomes has functional parallels to the 
complex relations of behavioral contingencies. The IBCs produce outcomes, 
variations in instantiations of IBCs cause differential outcomes, and the future 
frequency of the IBCs as well as their characteristics are a function of the 
differential relation between instantiations and outcomes. (linha: 238) 
Consequências operantes e culturais, portanto, atuam da mesma forma, no 
sentido de que afetam a probabilidade da recorrência de suas unidades - comportamento 
operante e contingências entrelaçadas, respectivamente: ―The outcomes produced by a 
cycle of IBCs can affect future cycles of IBCs, just as the consequences of a behavioral 
occurrence can affect future occurrences of that behavior‖ (linha: 244). 
Glenn argumenta que uma diferença crítica entre comportamento operante e 
contingências entrelaçadas na metacontingência seja o fato de que as segundas resultem 
em produtos agregados que não podem ser gerados por indivíduos comportando-se 
isoladamente: ―From the present perspective, behavior is transformed into cultural level 
105 
 
entities