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ANÁLISE DO COMPORTAMENTO E EVOLUÇÃO CULTURAL- RELAÇÕES ENTRE AS PROPOSTAS CONCEITUAIS DE B.F. SKINNER E S.S GLENN

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de 1986, é semelhante à abordagem de Skinner sobre evolução 
cultural, e indica a consequência operante como uma consequência de curto prazo, e a 
consequênia cultural como uma consequência de longo prazo, que não tem efeito direto 
sobre o comportamento dos indivíduos. Todavia, esta concepção é modificada ao longo 
das publicações da autora. Posteriormente, Glenn passa a fornecer definições de 
metacontingência e relatos de eventos que tratam a consequência cultural na 
metacontingência como uma consequência análoga às operantes: 
Metacontingencies, like behavioral contingencies, involve two kinds of 
causality. …. First, the recurrences of IBCs produce outcomes (analogous to 
consequences produced by recurrences of operant responses). Second, the 
outcomes affect the future frequency and other measures of the future 
recurrences of those IBCs [grifo acrescentado]. The contingencies of selection 
in metacontingencies are between cultural-level units (IBCs) and their selecting 
environments. (linha: 245) 
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 Diferentemente da consequência cultural em Skinner, as consequências culturais 
descritas por Glenn podem ocorrer logo após o comportamento, e não se relacionam, 
necessariamente, com a sobrevivência da cultura. Outra distinção importante é o fato de 
que a consequência cultural apresenta uma relação funcional com as contingências 
entrelaçadas e, portanto, exerce controle sobre o comportamento dos participantes. 
Como destacado no primeiro capítulo, contudo, para Skinner, diferentemente das 
consequências operantes, as consequências culturais não têm efeito direto sobre o 
comportamento, no sentido de aumentar sua freqüência ou alterar sua topografia. A 
consequência cultural em Skinner simplesmente seleciona ou não as práticas culturais: 
quando os membros da cultura sobrevivem, a prática cultural, conseqüentemente, 
sobrevive com eles: 
A culture, however, is the set of practices characteristic of a group of people, 
and it is selected by a different kind of consequence, its contribution to the 
survival of the group. That is an important point. Although the controlled use 
of fire may contribute to the survival of the culture of which it is a part, that 
consequence is too remote to reinforce [grifo acrescentado] the behavior of any 
member of the group. (linha: 477) 
 Para Glenn, as consequências culturais diferenciam-se das operantes apenas no 
sentido de que são produzidas por mais de um indivíduo. Como exemplo, (linhas: 251, 
252, 253) temos as peças plásticas moldadas, consideradas consequência operante 
quando produzidas por um indivíduo e produto agregado quando produzidas por mais 
de um indivíduo. Em Skinner, todavia, estamos considerando outro efeito. Este não se 
dá sobre a probabilidade de ocorrência das práticas culturais ou contingências 
entrelaçadas, mas sobre a sua manutenção na cultura quando promove a sobrevivência 
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física de seus membros. Portanto, é possível considerar a evolução cultural em Skinner 
análoga à filogênese e em Glenn à ontogênese. 
 Para esclarecer esta distinção compararemos brevemente um relato de evento 
envolvendo seleção cultural em Skinner e outro em Glenn. Em Skinner, selecionamos o 
exemplo de da prática cultural de lavar batatas em macacos, por ser o único relato de 
evento no qual as variáveis estão suficientemente especificadas para a presente análise. 
Em Glenn, por sua vez, elegemos o experimento com metacontingências de Vichi, 
Andry e Glenn (2009) por ser baseado em dados empíricos. 
 Em 1.4, foi apresentado integralmente o relato de evento identificado como 
evolução cultural por Skinner. No exemplo do grupo de macacos, Skinner (linha: 455) 
descreve o que sistematizamos em três eventos: (1) a aquisição de um operante por um 
indivíduo: ―A monkey accidentally dips a sweet potato into the sea water, and the 
resulting salted, grit-free potato is specially reinforcing. Dipping is therefore repeated 
and becomes a standard part of the monkey`s repertoire.‖; (2) a transmissão do operante 
entre os membros da cultura e a nomeação deste operante transmitido como prática: 
―Other monkeys then imitate the behavior and come under the control of the same 
contingencies. Eventually, all the monkeys on a given island wash their sweet potatoes. 
Washing would usually be called a cultural practice.‖; (3) os efeitos desta prática 
cultural sobre as chances de sobrevivência da cultura: ―If, for example, washing sweet 
potatoes prevented the spread of a fatal disease, the resulting contribution to the survival 
of the group would not be a reinforcing consequence‖. 
 Em Glenn, o termo evolução cultural refere-se a um fenômeno diferente. No 
experimento de metacontingências descrito em 2.4.2, identificamos: (1) comportamento 
de interação entre indivíduos - isto é, a contingência entrelaçada, (escolher a fileira, 
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determinar a quantidade de tokens a ser depositada no vaso, distribuir os tokens 
restantes entre si); (2) um produto da interação entre os indivíduos - isto é, o produto 
agregado, (distribuição igual ou desigual); e (3) os efeitos da consequência cultural 
comum aos participantes da metacontingência (sinal positivo ou negativo) sobre a 
recorrência de novos entrelaçamentos: ―The interrelated behavior of individuals in 
groups changes as a function of consequences upon the products of those behaviors‖(p. 
53). 
 No exemplo de Skinner não há interação entre indivíduos, exceto no momento 
da transmissão. O operante de lavar batatas é mantido por consequências individuais, e 
não por consequências comuns aos macacos do grupo. A consequência cultural é o 
efeito sobre a sobrevivência dos membros do grupo que seleciona ou não as práticas 
culturais, e não qualquer outro efeito que retroage funcionalmente sobre elas. De modo 
oposto, no experimento de metacontingência a interação entre indivíduos não envolve 
transmissão de operantes, mas indivíduos se comportando entre si e em relação a um 
ambiente comum. Além disso, na metacontingência a consequência cultural exerce 
controle sobre a contingência entrelaçada e altera sua probabilidade de ocorrência. 
3.3.3 Sobrevivência da cultura como sobrevivência dos seus conjuntos de 
contingências de reforçamento social e a metacontingência. 
Ao tratar da evolução cultural em Skinner, discutimos que uma possibilidade 
de análise pautada por algumas ocorrências do conceito de sobrevivência da cultura, ou 
de termos utilizados por ele como sinônimos, é a de que a cultura sobrevive quando 
promove a sobrevivência dos próprios conjuntos de contingências de reforçamento 
social que a constituem. Esta possibilidade de interpretação foi identificada em trechos 
de um capítulo específico de Beyond freedom and dignity (1971) intitulado The 
evolution of a culture. Neste capítulo, Skinner fornece descrições que sugerem que uma 
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cultura sobrevive quando garante a sobrevivência de seu conjunto de contingências de 
reforçamento ou de determinadas práticas culturais. Como exemplos, temos os 
seguintes trechos: ―Why should I be concerned about the survival of a particular kind of 
economic system?‖ (linha: 249) e ―The simple fact is that a culture which for any reason 
induces its members to work for its survival, or for the survival of some of its practices, 
is more likely to survive‖ (linha: 247). 
Em relação à Skinner, concluímos que este posicionamento é raro em seus 
textos, e que é e incoerente com a noção apresentada na maior parte das ocorrências 
identificadas, que trata a sobrevivência da cultura como sobrevivência de conjuntos de 
contingências de reforçamento social que promovem a sobrevivência física dos 
membros da cultura. Ainda, argumentamos que a hipótese