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Hécate e a Goécia: Raízes literárias e teatrais da Senhora dos Daimones Ghaio Nicodemos 1 2º Simpósio Caminho Hecatino 22/01/2022 Projeto Dæmons A etimologia dos nomes “diabólicos” Goécia • Origem (do grego goēteía, latinizado como goetia) - Significa “uivar”, “clamar”, “bradar com ferocidade”. Se refere, originalmente, a práticas mágicas e religiosas helênicas onde o praticante, através de gritos e estado psicológico alterado reclamavam aos deuses, sobretudo para amaldiçoar aqueles aos quais se opõe. Figuras (comumente femininas) aparecem na Poesia e no Teatro Grego bradando contra seus ofensores (sexuais). • Prática mágica, prestidigitação, encanto, feitiçaria. • Passa a ser utilizado entre a Idade Média e a Renascença como sinônimo de baixa magia, magia vulgar, magia negra, magia com demônios 2 Projeto Dæmons Hekate e a sua descida ao “submundo” dos demonizados • Conflito geracional entre os Olimpianos e os Titãs, um mitema corrente em processos de “infernização” divina dos deuses derrotados. • Apesar de ser apresentada em algumas fontes como uma Titânide de segunda ou de terceira geração, Hécate toma partido dos Olimpianos, escapando do ciclo de punições e de descida ao mundo infernal que outros Titãs sofrem. • “Brimo Trimorphos” (uma das primeiras apresentações helênicas de Hecate como deusa triforme) 3 Projeto Dæmons Período Helenístico e Romano 4 Projeto Dæmons Eurípedes (século IV AEC) Medéia (peça de teatro grega) Patrona do templo onde Jasão jura fidelidade a Medéia Observam-se elementos resgatados em Medeia como sacerdotisa de Hécate e sobrinha desta deusa e da feiticeira Circe influenciam no imaginário de Hécate como senhora das feiticeiras e de mulheres fatais 5 Projeto Dæmons Ovídio (século II AEC) Metamorfoses – (uma das obras literárias romanas que foi melhor preservadas até os dias atuais) Associada fortemente a deusa lunar Selene Mentora da feiticeira Circe na arte de dominar os cães 6 Projeto Dæmons Apuleio (século II EC) • O Asno de Ouro – Obra literária que teve forte impacto no imaginário Renascentista e neoplatônico, influenciando visões místicas do cristianismo • Associada fortemente ao arquétipo de Regina Coelum (Rainha dos Céus) • Em menor grau é sincretizada com Diana (de Creta), Juno (Roma), Proserpina (Sícilia) Bellona (romana) e todas seriam na verdade a deusa Isis (egípcia). “[…] the bow-and-arrow men of Crete call me Diana Dictynna, the trilingual Sicilians call me the Proserpina of Otygia […] some call me Juno, some Bellona; here they call me Hecate, […] and the Egyptians, those paragons of ancient lore and learning, who worship me in ceremonies that are truly my own, they call me by my true name, QUEEN ISIS” 7 Projeto Dæmons Oráculos Caldeus (século IV a VI) - Media a conexão entre o Logos e o mundo material - Rainha dos Daimons (espíritos) - Hekate Soteira (salvadora); invocada para proteger de punições no pós-vida - Strophalos (cabeça do fuso de fiar) 8 Projeto Dæmons Papiros Mágicos Gregos - Triforme, zoomórfica - Henoteísmo: associações com outras deusas do submundo (Ereskigal e Perséfone) e Lua (Artêmis e Selene) - Mãe dos deuses, humanos e espíritos - Ligação com cães, lobas e touros 9 Projeto Dæmons Fontes Cristãs I • Orígenes • Eusébio (demônios Paredres) • Arnóbio • Santo Agostinho 10 Projeto Dæmons Fontes Cristãs II • Os arcanjos assumem e se apropriam de características de deuses pagãos como: - Mensageiros - Psicopompos - Portadores das chaves entre os mundos - Portadores de tochas 11 Projeto Dæmons Observações complementares • Com o declínio das religiões grega e romana, o culto a Hécate vai se convertendo em práticas “subterrâneas” e ocultas, relacionada e cultos extásicos de Dionísio e Mitra 12 Projeto Dæmons Observações complementares • Observam-se relações, com fins dramáticos, relacionado a Hécate em fontes cristãs, sobretudo o suicídio. • Prevalecem características noturnas nas fontes que são influentes na visão da Hécate que vai se consolidar na Idade Média • Forte presença de feitiçaria e vampirismo • Conexões “teológicas” com Lamia (que nas traduções de textos cristãos da Igreja Grega é o termo correspondente para o termo hebraico “liliths” (feminino; plural), enquanto criaturas da noite. 13 Projeto Dæmons Pistis Sophia (século IV) - Um dos cinco arcontes demoníacos que servem ao Demiurgo e agem como antagonistas da emancipação espiritual 14 Projeto Dæmons Idade Média 15 Projeto Dæmons Michel Psellus (século X) Monge cristão bizantino “Comentários aos Oráculos Caldeus” Obra atribuída (pseudo- epigráfica) ao autor - Hécate Ereschigal (reforçando atributos infernais, já com atributos de demonesa) - Strophalos (cabeça do fuso de fiar) 16 Projeto Dæmons John Tzetzes - Poeta e gramático bizantino Revisita temas e narrativas originárias literature grega e romana - Hekate Macaria (da boa morte) - Kynokephaloi (Cabeça de cachorro) 17 Projeto Dæmons Período Tudor-Stuartiano 18 Projeto Dæmons Reginald Scott • Reginald Scot[t] (1538-1599) A Descoberta da Bruxaria (1584) Obra com a finalidade de desencantar e desmentir a existência da bruxaria, do ponto de vista cético e imputando fraude, ilusão e perturbação mental as pretensas manifestações espirituais. Mesmo assim, vários dos elementos expressos no livro foram tomados como feitos mágicos reais. Scot foi um apologeta contra ao fenômeno de “Caça as Bruxas” e um dos primeiros a acusar a Igreja Católica por promover pânico moral e perseguição infundada. Acredita-se que o livro serviu de inspiração para os personagens mágicos de Shakespeare e Middleton e seu conteúdo foi reproduzido em múltiplos grimórios posteriores. 19 Projeto Dæmons Shakespeare (I) Durante o reinado de Elizabeth I Sonho de Uma Noite de Verão (1595- 1596) “parelha de Hécate” (ato V, cena 2): associação de Hecate como par/dupla de Diana(ou eventualmente como a mesma deusa), que ao longo da peça é apresentada como a deusa das fadas. Hekate eventualmente é descrita em carruagens puxadas por dragões voando pelo deserto na escuridão noturna. 20 Projeto Dæmons Hamlet (1600-1601) * “maldição de Hécate” (ato III, cena 2): associação de Hécate com poções, ervas venenosas, feitiços e malefícios. Durante o reinado de James Stuart Rei Lear (1605-1606) * “mistérios de Hécate” (ato I, cena 1): características sobrenaturais relacionadas aos orbes superiores (lua e planetas) e domínio sobre a noite Shakespeare (II) 21 Projeto Dæmons Macbeth (1605-1606) * Nesta peça, Hécate figura como personagem, dita deusa da lua e da Magia. Tem como interlocutoras as “Três Bruxas”. É onde mais elementos sombrios, noturnos e malignos são conjurados sobre a deusa. Relações com a lua (sobretudo a minguante), como rainha das feiticeiras, características ctônicas e subterrâneas, conjura espíritos. Alguns elementos secundários como o chiaoscuro da madrugada e a animais como a coruja/harpia e o gato malhado. São observados também ingredientes venenosos e animais peçonhentos e eventos astronômicos como o eclipse lunar. Celebra com fadas, elfos e espíritos negros. Shakespeare (III) 22 Projeto Dæmons Thomas Middleton -> Colaborou com Shakespeare compondo letras para as peças do autor. * Peça “A Bruxa” (1616) -> Hekate como bruxa anciã -> Cenário da caverna -> Levitação -> Transformação em alguém mais jovem -> Voô noturno -> Sexo com jovens -> invocações demoníacas e de espíritos maléficos -> Filho e amante: Firestone -> Caldeirão com chamas azuis -> Figura do aliado mágico/familiar (Malkin, em frorma de gato) -> Seres feéricos e míticos (demônios espinhentos,elfos, feiticeiras, sátiros, pans, cães de caça, tritões, centauros, anões, diabretes) 23 Projeto Dæmons John Weirus • Weirus (De Praestigiis Daemonum) Capítulo XVI (nomes latinos do Diabo) Comanda as Empusas (espíritos maléficos da caixa de Pandora), além de um rol variado de monstros/demôniosditos como hecateanos Hekate Deicela (Aquela de aparição horripilante) 24 Projeto Dæmons Outras fontes 25 Projeto Dæmons Fontes Mágicas Cornelius Aggrippa (Filosofia Oculta) 26 Projeto Dæmons • Martin del Rio (Investigations Into Magic) Autor jesuíta Influenciado pela tradição do Malleus Maleficarum Fontes Mágicas 27 Projeto Dæmons • Do arquétipo de deusa que conduz os espíritos dos mortos, Hécate foi sendo gradativamente convertida em demonesa sob a ordem religiosa cristã, principalmente entre o Cristianismo Oriental. • A conexão ancestral de Hécate com os daemons, como aquela deusa que traz os eudaemons (bons espíritos) e expulsa os cacodaemons (maus espíritos) se assemelha com o que se observa no Lemegeton com diversos demônios que trazem bons espíritos familiares e distancia o mago de infortúnios. • Hécate, em sua função de divindade mensageira (Angelus) também pode ser associada aos ShemHaMephorash, na medida em que são apresentados em grimórios com qualidades de frustrar os demônios (enquanto cacodaemons). Considerações finais 28 Projeto Dæmons Considerações finais • A qualidade psicopompa e de carregadora de tochas é reapresentada em tradições de demonolatria moderna e outras tradições bruxaria e feitiçaria de mão-esquerda conjugada com o culto aos antagonistas e entidades infernais. • Essas tradições recorrem sobretudo aos elementos soturnos que a tradição romana e bizantina preservaram no folclore, na literatura e no teatro, recuperadas pela tradição de grimórios de demonologia estabelecida e proliferada no período Tudor-Stuart, favorecidas pela popularidade que estes livros tinham entre os membros da corte inglesa. • Outros elementos que trouxeram da antiguidade aos dias atuais foram massificados para os plebeus pelo teatro do mesmo período, sobretudo através de Shakespeare e Middletown. 29 Obrigado! 30 projetodaemons