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Defeitos Imperfeições nos sólidos As propriedades dos materiais são afetadas pela presença de defeitos ou imperfeições em sua estrutura. A cor dos materiais, a resistência mecânica e a condutividade dos metais são afetadas pela presença de defeitos. Podemos classificar os defeitos de acordo com a sua origem: > Defeitos intrínsecos: Também conhecidos como defeitos termodinâmicos, são defeitos de origem térmica. Por exemplo, a agitação térmica causada pelo aumento da temperatura do material causa um aumento no número de vacâncias. Ex.: vacâncias, defeitos de Frenkel e defeitos de Schottky. > Defeitos extrínsecos: originados por fenômenos externos. Por exemplo, durante o processamento do material pode ocorrer a formação de poros, o surgimento de uma inclusão de uma impureza, etc. Também podem ocorrer pela substituição de átomos ou íons de mesma valência (isovalentes) ou de diferentes valências (aliovalentes) na rede cristalina. Também podemos classificar os defeitos de acordo com a sua escala de grandeza: > Defeitos pontuais: vacâncias (ou lacunas), átomos intersticiais, átomos substitucionais defeitos de Schottky e Frenkel. > Defeitos lineares: discordâncias. > Defeitos de interface: superfícies externas, contorno de grão, contorno de macla, falhas de empilhamento, contorno de fases, contorno entre matriz e precipitado e, paredes de domínio ferromagnético. > Defeitos volumétricos ou de massa (bulk): poros, trincas, precipitados e inclusões. Defeitos pontuais: > Vacância O mais comum dos defeitos pontuais é a vacância (ou lacuna). Representa um sítio vazio na rede cristalina, isto é, a ausência de um átomo em sua posição na rede cristalina. O número de vacâncias (Nv) aumenta com ao aumento da temperatura: Nv = N . e(-Q / RT) Nv: n° de vacâncias/cm3 N: n° de sítios (pontos) na rede/cm3 Q: energia necessária para produzir a vacância (J/mol) R: cte dos gases (8,31 J/molK) T: temperatura em K Exemplo: Calcule o número de vacâncias/cm3 no cobre (CFC): a 25°C e a 125°C. Dados: a0 cobre = 3,6151 x 10-8 cm Q = 83.600 J/mol R = 8,31 J/mol K Resolução: > Uma célula unitária CFC possui 4 sítios (átomos ou pontos de rede) no seu interior. > Uma célula unitária cúbica tem volume de a03. Para o Cu (CFC) o volume da célula unitária é: (3,6151 x 10-8 cm)3 = 4,72 x 10-23 cm3 Então, o número de sítios (átomos/pontos de rede) por cm3 (N) é: N = 4 átomos/célula 4,72 x 10-23 cm3/célula N = 8,47 x 1022 sítios/cm3 a) 25°C = 298 K Nv = N . e(-Q / RT) Nv = 8,47 x 1022 . e(-83600 / 8,31 . 298) Nv = 1,85 x 108 (vacâncias/cm3) b) 125°C = 398 K Nv = N . e(-Q / RT) Nv = 8,47 x 10-22 . e(-83600 / 8,31 . 798) Nv = 8,92 x 10 11 (vacâncias/cm3) Um aumento de 100°C provoca um aumento de 4.828 vezes no número de vacâncias dentro do material. Exemplo: O ferro (massa atômica = 55,85 g/g.mol) tem densidade medida de 7,87 g/cm3 a temperatura ambiente O parâmetro de rede (a0) do Fe CCC é 2,866 Å. Calcule o percentual de vacâncias no ferro puro. Resolução: Utilizando a densidade medida pode-se calcular o n° de átomos por célula unitária: 𝜌 = n° átomos/célula × massa atômica n° Avogadro × volume da célula unitária 7,87 g/cm3 = n° átomos/célula × 55,85 g/g.mol 6,02.1023 × (2,866 .10-8 cm) 3 N° de átomos/célula = 1,998 Uma célula unitária CCC possui 2 átomos/célula, então: N vacâncias = 2 – 1,998 = 0,002 % vacâncias = 0,002 x 100 / 1,998 = 0,1 % > Átomos intersticiais O espaço vazio entre um átomo e outro dentro da rede cristalina se chama interstício. Quando um átomo ocupa este espaço, ele é conhecido como átomo intersticial. É considerado um defeito pois em uma rede cristalina perfeita, os átomos não ocupam este espaço. Esta não é necessariamente uma característica negativa. Algumas ligas metálicas se formam usando os espaços intersticiais. Por exemplo, no aço, o carbono se encontra nos interstícios dos átomos de ferro que formam a rede cristalina. > Átomos substitucionais Ocorre quando um átomo diferente do átomo que compõe a rede cristalina está ocupando seu sítio cristalino. Algumas ligas metálicas são formadas assim, por exemplo, bronze (cobre/estanho) e latão (cobre/zinco). > Defeito de Frenkel Ocorre em compostos iônicos. Ocorre quando um íon se desloca de sua posição na rede (forma uma vacância) e passa a ocupar uma posição intersticial > Defeito de Schottky Ocorre em compostos iônicos, mantendo a neutralidade elétrica do cristal. É a ausência de um par de íons: ausência de um íon positivo (cátion) e de um íon negativo (ânion), formando duas vacâncias na rede cristalina. Exemplo: Supondo ao= 0,40185 nm para o composto CsCl e sua densidade medida de 4,285 g/cm3, calcular o número de defeitos Schottky por célula unitária. Dados: rCs+= 0,169 nm e rCl- = 0,181 nm MCs= 132,91 g/mol e MCl = 35,453 g/mol Resolução: Primeiro se descobre qual a estrutura cristalina do CsCl. rCs+ rCl- = 0,169 0,181 =0,93 Isso indica que o CsCl possui um número de coordenação (NC) de 8 e assim, sua estrutura é do tipo CS. Foi indicada a densidade do composto. Então vamos descobrir quantos íons estão presentes na rede cristalina: ρ = m V = n° íons (Mc + Ma) 6,02 . 1023 x ao 3 4,285 g/cm3 = n° íons (132,91 + 35,453) 6,02 . 1023 x 6,49 . 10-23 cm3 n° íons = 0,9943 íons na rede cristalina A estrutura CS teórica tem 1 par de íons (1 cátion e 1 ânion). Como a estrutura com densidade 4,285 g/cm3 tem 0,9943 íons, a diferença é o número de defeitos Schottky por célula unitária: 1-0,9943 = 0,0057 » Os defeitos pontuais afetam a difusão, os processos de transporte, a condução iônica, as reações de estado sólido, as transformações de fase, a evolução da microestrutura, a deformação em temperaturas elevadas (fluência). Notação de KRÖGER-VINK Os defeitos pontuais iônicos (Frenkel e Schottky) podem ser classificados em quatro tipos: vacância de cátions; vacância de ânions; cátions intersticiais e, ânions intersticiais. Kröger e Vink elaboraram um sistema de notações (convenção) para identificar estes defeitos pontuais em sólidos iônicos. Convenção de Kröger-Vink: 1. A letra maiúscula indica o tipo de defeito pontual: íon (ou impureza) da rede cristalina (M = cátion, X = ânion) ou vacância (V). 2. O subscrito indica a posição que o íon ou vacância ocupa na rede (formam a sub- rede): posição do cátion (M), posição do ânion (X) ou posição intersticial (i). 3. O sobrescrito indica o excesso de carga: carga positiva: indica-se ponto (⚫); carga negativa: indica-se traço (l ) e, se não há excesso de carga, indica-se a letra x (x). 4. As cargas livres, elétrons e buracos, são representadas por e- e h+, respectivamente. Ex.: MM x = indica um cátion (M) em sua posição normal na rede (M) e não há excesso de carga = (x). XX x = indica um ânion (X) em sua posição normal na rede(x) e não há excesso de carga = (x). VM l = indica uma vacância (V) na posição de um cátion (M) monovalente (falta uma carga positiva, por isso localmente o sítio possui caráter negativo (l )). VX ⚫ = indica uma vacância (V) na posição de um ânion (X) monovalente (falta uma carga negativa, por isso localmente o sítio possui caráter positivo (⚫)). M i ⚫⚫ = indica um cátion bivalente (M) em uma posição intersticial (i). Há excesso de duas cargas positivas (⚫⚫). X i l l = indica um ânion bivalente (X) em uma posição intersticial (i). Há excesso de duas cargas negativas (l l ). VAl l l l = indica uma vacância (V) na posição do cátion alumínio (Al+3) (Al) e por isso há excesso de três cargas negativas (l l l ) na rede. VO ⚫⚫ = indica uma vacância (V) na posição do ânion oxigênio (O-2) (O) e por isso há excesso de duas cargas positivas (⚫⚫) na rede.MgAl l = indica que o magnésio (Mg+2) está na posição do alumínio (Al+3) (o magnésio está substituindo o alumínio na rede de alumínio) e por isso há excesso de uma carga negativa (l ) na rede. O i l l = indica um ânion oxigênio (O-2) em um interstício e por isso há excesso de duas cargas negativas (l l ) na rede. CaNa ⚫ = indica que o cálcio (Ca+2) está na posição do sódio (Na+) (o cálcio está substituindo o sódio na rede do sódio) e por isso há excesso de uma carga positiva (⚫) na rede. Ex. Defeito de Frenkel (vacância de um íon que migrou para um interstício) em um óxido tipo MO (ex. CaO, MgO): MM x → M i ⚫ ⚫ + VM l l (cátion migrou para interstício deixando uma vacância em seu lugar) ou XX x → X i l l + VX ⚫ ⚫ (ânion migrou para interstício deixando uma vacância em seu lugar) Defeitos lineares: > Discordâncias >> Afetam as propriedades mecânicas (em especial a deformação plástica), a fragilidade e a dureza dos materiais. São responsáveis pela deformação plástica, falhas e rompimento dos materiais. Tem origem térmica, mecânica ou por supersaturação de defeitos pontuais. As discordâncias podem ser compreendidas como um plano extra de átomos inserido entre planos da rede cristalina. A presença deste plano extra de átomos causa uma distorção localizada na rede cristalina, criando zonas de tensão (tração e compressão) no interior do material. Um exemplo do que seria esta “sensação” de tensão na rede cristalina pode ser imaginada como o que ocorre quando algo fica preso entre nossos dentes, por exemplo, ao comer manga e um fiapo fica alojado entre os dentes. Imagine que os dentes são os átomos em suas posições da rede cristalina e o fiapo de manga um plano extra de átomos. É uma sensação incômoda que precisa de um auxílio externo (fio dental, por exemplo) para ser resolvida. Para as discordâncias que estão presentes nos sólidos, portanto são estruturas rígidas, apenas uma força externa aplicada ao material pode deslocar a discordância de sua posição e aliviar as tensões internas. Porém, as discordâncias não se movimentam livremente dentro do material. Elas apenas se movimento em direções e planos cristalográficos de máximo empacotamento (maior densidade atômica). Estes são chamados de planos de escorregamento. As discordâncias atravessam o material, um plano atômico por vez, e por fim, causam uma deformação permanente no material (deformação plástica) (o material muda de forma/aspecto de maneira permanente). As discordâncias geram um vetor de Burgers. Ele informa a magnitude e a direção de distorção da rede. Corresponde à distância de deslocamento dos átomos ao redor da discordância. Existem discordâncias em cunha, em hélice e mistas, de acordo com o tipo de deformação, movimento e posicionamento do plano extra. Defeitos de interface: >> Afetam as propriedades mecânicas, as propriedades magnéticas, elétricas, térmicas e ópticas dos materiais. Os defeitos de interface são: superfícies externas, contorno de grão, contorno de macla, falhas de empilhamento, contorno de fases, contorno entre matriz e precipitado e, paredes de domínio ferromagnético. São regiões em que a rede cristalina não está completa ou está sem o empacotamento ideal ou sem a organização cristalina repetitiva ideal. > Contorno de grão Grão é uma região do material onde a estrutura cristalina é homogênea. O contorno de grão é uma região entre dois grãos adjacentes. Sempre existirá um contorno de grão quando duas regiões com orientação cristalina diferentes se encontrarem (quando dois grãos se encontrarem). Na imagem acima, as linhas mais escuras são os contornos de grão. > Maclas As maclas são imperfeições que separam duas regiões que possuem os átomos organizados de maneira espelhada em relação aos outros. A linha que divide estas regiões se chama contorno de macla. As maclas são formadas por deformação ou tratamento térmico. Defeitos volumétricos ou de massa (bulk) Poros, trincas, precipitados e inclusões (são defeitos micro ou macroestruturais de acordo com o tamanho do defeito) Defeitos eletrônicos Defeitos eletrônicos são a ausência de elétron(s) em uma camada eletrônica. A ausência de um elétron (e-) gera um buraco eletrônico (h+) de caráter positivo. Vibrações térmicas As vibrações térmicas dentro das redes cristalinas são defeitos causados pelo aumento da temperatura do material. As vibrações térmicas originam fônons, que são ondas mecânicas que percorrem o material conduzindo a vibração pela rede cristalina.