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AULA 6 - A Crítica no Cinema (Cinema e Videodocumentário)

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Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
1 
 
 
 
 
Cinema e Videodocumentário 
 
 
 
 
 
 
Aula 6 
 
 
 
 
 
Prof. Tom Lisboa 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
2 
Conversa inicial 
Vamos chegando ao fim da nossa disciplina de Cinema e 
Videodocumentário. Passamos rapidamente por quase 120 anos de história do 
cinema. Vimos como ele foi se desenvolvendo, alguns dos seus principais 
fundadores e movimentos cinematográficos. Analisamos também aspectos da 
linguagem cinematográfica e estudamos bastante sobre a produção aqui no 
Brasil. Toda essa informação com certeza já deve ter afetado um pouco (ou 
muito) o seu modo de ver filmes. 
Nesta última parte, vamos falar sobre o conhecimento do cinema 
aplicado na prática, ou seja, aquilo que comumente chamamos de crítica. O 
crítico normalmente é associado a alguém que é pago para falar mal de algo. 
Muito pelo contrário. Um crítico que se preza contextualiza uma obra em 
relação a outras, observa aspectos inerentes à técnica, aos conceitos e à 
estética, enfim, é um trabalho que requer estudo e atualização constantes. A 
crítica vai muito além do “gostei” e “não gostei”. Vamos falar a seguir sobre 
essa profissão e sobre como esse olhar pode ser aprimorado. 
Contextualizando 
Como veremos a seguir, crítica é algo muito subjetivo. Tudo aquilo que 
avaliamos passa por um filtro muito pessoal, que são as nossas experiências e 
a nossa particular maneira de entender o mundo e as coisas. 
Citaremos até o caso de um jornal que contratou dois críticos, um para 
realçar as qualidades de determinado filme e outro para destruí-lo. Devido à 
propriedade com que os dois executaram as suas tarefas, foi possível analisar 
o mesmo filme a partir de dois pontos de vista interessantes. Concordar mais 
com um do que com outro era apenas uma questão de afinidade. Isso quer 
dizer que para escrever uma boa crítica você precisa estar preparado não só 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
3 
com informações sobre a história do cinema, a linguagem cinematográfica e o 
perfil de certos diretores, mas saber conectar esse conhecimento nas suas 
análises. 
Nas Rotas anteriores, já foram repassados muitos conhecimentos que 
serão úteis. Nesta última etapa que vamos tratar da crítica cinematográfica, 
serão oferecidas algumas dicas para que você continue aprimorando o seu 
olhar daqui para frente. E, quando digo olhar, quero dizer apurar os seus 
sentidos audiovisuais. Lembre-se sempre que o cinema é uma arte audiovisual 
e a análise do que vemos deve ser feita em paralelo com aquilo que ouvimos. 
Por fim, é preciso saber o modo correto de estruturar todas essas 
percepções em um texto. Não há uma fórmula exata, e com alguns bons 
exemplos você já será capaz de ser um novo crítico de cinema. 
Tema 1: A Função do Crítico de Cinema 
A primeira barreira que um crítico de cinema iniciante precisa vencer é a 
falsa ideia que ele tem que tentar "adivinhar o que o diretor quis dizer". 
Costuma-se falar que uma obra de arte, qualquer que seja, é metade de quem 
faz e metade de quem vê. Quem a produz materializa a sua vivência, o seu 
conhecimento e as suas habilidades em algo que será apreciado por um 
espectador. Este, por sua vez, por meio dessa obra finalizada, dará início a 
uma série de raciocínios, lembranças e sensações que muitas vezes não foi 
pensada pelo autor original. 
A pergunta que não quer calar nesse momento é a seguinte: qual 
dessas visões é a mais válida? Eu diria que os dois pontos de vista se 
complementam. Cada um deles é enriquecedor à sua maneira. Do mesmo 
modo que uma obra é capaz de nos apresentar novas perspectivas de uma 
realidade, a leitura dela por um interlocutor pode abrir novos e interessantes 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
4 
caminhos em sua interpretação. 
Tenho certeza que, a partir do momento que você incorporar no seu dia 
a dia o hábito de ler boas críticas de filmes, haverá casos em que elas serão 
muito superiores aos próprios filmes. Escrever também é uma arte e, 
dependendo das conexões que o escritor é capaz de estabelecer a partir do 
que ele assistiu, o texto pode despertar até um interesse maior. 
A crítica procura desenvolver um raciocínio sobre determinado tema. Se 
ele vai ser positivo ou negativo, é indiferente. O que importa é a profundidade 
das reflexões que ela consegue provocar. 
Em 2009, aconteceu um caso interessante. Lars von Trier, diretor que 
mencionamos quando falamos do Dogma 95, na Rota 3, lançou Anticristo, uma 
obra polêmica e igualmente controversa. Diante do impasse de avaliar um filme 
dessa natureza, o jornal Folha de S.Paulo contratou um renomado crítico para 
escrever na coluna Gostei (Kleber Mendonça Filho) e outro, na Não Gostei 
(Eduardo Valente). As duas críticas foram publicadas no mesmo dia, uma ao 
lado da outra. Ao lê-las, podemos perceber que saber falar bem ou mal de algo 
tem a mesma importância quando se faz isso com inteligência. 
O escritor e roteirista francês Jacques Aumont diz que a crítica pode ser 
de dois tipos: externa ou interna. Na externa, o filme é comparado com outros 
filmes, livros, pinturas, movimentos cinematográficos ou fatos históricos. Nesse 
caso, o repertório do crítico conta muito. Quanto maior for o seu conhecimento, 
mais relações ele poderá estabelecer para fazer a sua análise. Por isso, 
quando se trabalha com crítica, é importante expandir ao máximo os pontos de 
contato com as mais variadas áreas. 
O cinema, por ter relações muito próximas com a fotografia, a literatura 
(às vezes adaptam-se romances, peças de teatro ou histórias em quadrinhos), 
a moda, a maquiagem, os efeitos especiais, enfim, toda essa gama de 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
5 
expressões artísticas, requer também um profissional capaz de discorrer sobre 
os possíveis desdobramentos que determinado filme possa proporcionar. Muito 
do que vimos durante o curso que fala sobre a origem do cinema, os 
movimentos cinematográficos, assim como os aspectos históricos e os vários 
filmes que foram citados serão úteis nessa etapa. 
Na análise interna, o foco é a obra em si mesma. Você já deve saber as 
categorias do Oscar meio decoradas: direção, roteiro, fotografia, ator, atriz, 
direção de arte, efeitos especiais, maquiagem, som, todas essas partes que 
compõem qualquer filme. É fundamental que esses e outros itens sejam 
avaliados individualmente e em conjunto. Isso porque, em alguns casos, o som 
pode ser ótimo, a fotografia deslumbrante, mas a combinação deles pode não 
ter obtido um bom resultado. 
Aqui podemos questionar também se um roteiro, que foi adaptado de um 
livro ou peça, foi bem estruturado. Tomemos o caso de O senhor dos anéis, um 
livro de mais de 600 páginas que teve que ser praticamente reescrito e alguns 
personagens eliminados para chegar às telas. É papel do crítico tentar 
perceber as estratégias de adaptação que foram feitas e se foram benéficas 
para o resultado final. Muito do que vimos sobre elementos da linguagem 
cinematográfica (imagem e som), na Rota 2, auxiliará nessa parte. 
Como podemos perceber, a função do crítico vai bem além de dar 
"estrelinhas" para um filme. Essa ação, de certo modo, não deixa de ser uma 
crítica superficial. Muitos até preferem ver apenas essa simples indicação a 
encarar a leitura de uma página inteira de texto. 
Só que a crítica escrita tem um importante papel de formar plateias. 
Mediando a relação do filme com o seu espectador, o texto pode chamar a 
atenção para certos detalhes, citações de obras dentro do filme e outras 
relações que possam ser interessantes mencionar. O bom crítico procura 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
6 
também deixar um espaço para que o leitor possa refletir e, claro, não estragar 
eventuais surpresas, como contar o nome do assassino. 
Não existe uma graduação específica para ser crítico de cinema. Quem 
geralmente escreve hoje são jornalistas ou cineastas, mas que são, antesde 
mais nada, cinéfilos. O crítico Christian Petermann afirma que descobriu a sua 
vocação aos 13 anos e procurou aprimorá-la com o passar dos anos. Sobre os 
requisitos profissionais, ele cita que são o estudo, a busca constante por 
conhecimento e ter um olhar retrospectivo, por exemplo, rever filmes. Ele diz: 
“Precisa ler muito, olhar para o passado. Não há crítico de cinema ou de 
qualquer outra arte que não saiba do passado. Claro que não dá para saber 
100% de tudo, mas é importante estar sempre buscando informações”. 
Com o intuito de contribuir para a elevação da análise crítica 
cinematográfica no país, foi criada, em 2010, a primeira entidade nacional a 
reunir os críticos de cinema brasileiros: a Associação Brasileira de Críticos de 
Cinema (Abraccine). Ela promove diversas formas de pensamento crítico, 
reflexão e debate sobre o cinema, assim como atua na organização do júri da 
crítica nos diversos festivais de cinema brasileiros, nas cabines de lançamentos 
de filmes, na promoção de cursos e seminários e na inserção da crítica nos 
mecanismos de discussão das variadas políticas do cinema brasileiro. 
Tema 2: A Decupagem e a Análise Detalhada de um Filme 
Como você deve ter percebido, para atuar como crítico de cinema é 
necessário ter um olhar apurado, atento aos mais variados detalhes. Na 
verdade, por ser uma forma de arte audiovisual, não apenas os olhos são 
requisitados, mas o ouvido também. 
Um exercício que pode ser feito regularmente para "aprimorar os 
sentidos" é o que chamamos de decupagem. Ela é uma atividade que pode 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
7 
acontecer em dois momentos. O primeiro é no planejamento da filmagem, em 
que o diretor vai decidir, entre outras coisas, como determinada cena será 
filmada, o seu tempo de duração, quais elementos estarão representados e 
como os planos desse filme estarão organizados na sequência final. 
O segundo momento é o que mais nos interessa. Tomando como base 
qualquer filme já pronto, o crítico ou pesquisador "desmonta" o filme em 
pequenas cenas e analisa os pormenores visuais e sonoros de cada parte 
individualmente. Cada plano, imagem e som são separados e analisados em 
paralelo. Por exemplo: toma-se nota do tipo de enquadramento, se a câmera 
está em movimento ou estática, em que momento certa música ou ruído foi 
inserido e assim por diante. Como em um filme, os estímulos são simultâneos e 
passam muito rápidos. Essa atividade de olhar com atenção cada fragmento é 
muito reveladora. Passa-se a entender como é fabricada a mágica do cinema. 
Analisaremos a seguir uma pequena cena do filme Bonequinha de luxo 
(1961), de Blake Edwards. Nesse processo de decupagem, há uma série de 
novos termos que poderíamos utilizar, como cut-in, pull-back e cut-away, mas 
vamos usar um modo mais simplificado que terá como base o que estudamos 
em linguagem cinematográfica na Rota 2. 
 
Cena de Bonequinha de luxo 
Fonte: CINEM(AÇÃO). Disponível em: <http://cinemacao.com/>. Acesso em: ago. 2016. 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
8 
A cena que será decupada tem oito planos divididos em um minuto e 40 
segundos. 
CENA IMAGEM SOM 
1 
(6 segundos) 
A escala é quase de um Plano 
Americano (PA). O plano mostra 
uma tomada de baixo para cima. 
Embaixo, vemos os pés de Paul 
Varjak (personagem de George 
Peppard), com papéis amassados 
no chão. Na parte de cima, vemos 
Paul trabalhando em um livro (e 
por isso há papéis no chão). 
O plano começa sem 
som algum. A música 
(som de violão) inicia 
apenas quando o rosto 
de Paul é enquadrado. 
2 
(11 segundos) 
Plano de Detalhe (PD) da máquina 
de escrever. No contexto do filme, 
descobrimos que Paul está 
digitando a história de Holly 
Golightly (Audrey Hepburn). 
Sabemos disso porque o plano 
tem duração suficientemente longa 
para lermos as duas frases que 
aparecem. 
O som de violão é 
escutado até Paul teclar 
o ponto final. Após isso, 
ouve-se também a voz 
de Holly cantando uma 
canção. 
 
"Rio de Luar/ Mais largo 
que uma milha" 
3 
(14 segundos) 
PA de Paul. Ao se levantar, a 
câmera "se levanta" com ele, gira 
um pouco para a esquerda e fica 
parada. Paul caminha até a janela. 
Temos agora um Plano Médio 
(PM). Ele levanta a cortina e abre 
a janela. 
"Eu te atravessarei com 
estilo, algum dia/ Oh, 
fazedor de sonhos" 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
9 
4 
(6 segundos) 
Plano de Meio Conjunto (PMC) de 
Paul, câmera estática em contra-
plongée. Não é uma câmera 
subjetiva de Holly, que está 
cantando no andar de baixo. 
Como veremos no próximo plano, 
ela olha em outra direção. O 
contra-plongée é utilizado apenas 
para indicar a posição dos 
apartamentos dos dois 
personagens (andar superior e 
inferior). 
"Seu quebrador de 
corações" 
 
Repare que essa frase 
da canção sublinha todo 
esse plano que focaliza 
apenas o rosto do ator. 
Logicamente isso já 
antecipa que os dois 
personagens terão um 
romance. 
5 
(9 segundos) 
PMC de Holly tocando o violão. 
Câmera estática em plongée. É 
uma câmera subjetiva de Paul, 
que a observa do andar de cima. 
 
"Aonde quer que você 
vá, eu irei pelo mesmo 
caminho" 
 
A questão do provável 
romance dos 
personagens é 
novamente reforçada. 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
10 
6 
(15 segundos) 
PA de Holly. Não é mais a câmera 
subjetiva de Paul. Agora a câmera 
está posicionada um pouco mais 
na diagonal. 
 
Como se trata de uma canção com 
forte apelo emocional, a câmera 
vai se aproximando de Holly 
gradativamente para focalizar bem 
as suas expressões. No Plano 8, 
já será um Close Up. 
"Dois errantes por aí 
para ver o mundo/ Há 
tanto do mundo para se 
ver" 
 
Repare que na hora em 
que ela fala a palavra 
"ver" há um corte 
imediato para Paul, que 
a observa. 
7 
(6 segundos) 
PA de Paul, câmera estática, 
contra-plongée. 
"Nós procuramos... 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
11 
8 
(33 segundos) 
 
Close up de Holly. 
 
É interessante como a câmera se 
aproxima da personagem de Holly. 
A proximidade parece até interferir 
no tempo do plano: quando está 
em PMC, ele dura apenas 9 
segundos; em PA, 15 segundos; e 
em Close Up, 33 segundos. O 
diretor tem consciência do carisma 
da atriz Audrey Hepburn, mas não 
a entrega para o público de uma 
vez só. Ele guarda para o fim o 
momento que todos queriam ver. 
...o mesmo fim do arco-
íris/ Esperando logo 
depois da curva/ Meu 
amigo/ Rio de luar e eu." 
 
Essa é única parte da 
cena em que uma frase 
musical começa em um 
plano e termina no 
outro. E justamente uma 
frase que diz: "Nós 
procuramos o mesmo". 
 
Essa foi apenas uma pequena amostra do que somos capazes de 
descobrir quando decupamos um filme. Foi um trecho curto, de menos de dois 
minutos, mas a quantidade de informações, tanto técnicas quanto conceituais, 
é muito grande. 
Repare que a linguagem cinematográfica anda em paralelo com a 
narrativa, acrescentando detalhes e nuances. Essa opção do diretor de deixar 
o Close Up de Audrey para o final não é acidental. É uma lição de bom cinema 
que aprendemos nesse pequeno exercício de decupagem. 
Tema 3: A Crítica Escrita da Cahiers du Cinéma 
Como vimos na Rota 3, a Nouvelle Vague foi um movimento de diretores 
que antes haviam trabalhado como críticos de cinema, que surgiu no fim dos 
anos 50. O veículo em que boa parte desses realizadores escreveu chamava-
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
12 
se Cahiers de Cinéma (Cadernos de Cinema). 
Após mais de cinquenta anos desde a sua invenção, o cinema já tinha 
passado por duas guerras mundiais, evoluído muito tecnologicamente e 
construído uma linguagem própria. Os filmes feitos, em todas as partes do 
mundo, já constituíam uma fonte de material suficiente para reflexão sobre o 
que havia sido produzido até aquele momento. Era uma boa hora para, além 
de se fazer, começar a se pensar sobre cinema. 
Fundadaem 1951 por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-
Marie Lo Duca, a Cahiers du Cinéma foi inspirada por uma outra revista, a 
Revue du Cinéma, que tinha como editores os membros de dois cineclubes 
(nesse curso não trataremos da importância dos cineclubes na formação de 
plateias críticas de cinema, mas vale a pena ressaltar, nem que seja 
brevemente, o seu papel fundamental na exibição e discussão de filmes menos 
comerciais e experimentais). Tendo entre os seus escritores pessoas como 
François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, a Cahiers du Cinéma 
reinventou as bases da crítica e da teoria cinematográfica. 
 
Primeiro número da Cahiers du Cinéma 
Fonte: AMAZON. Disponível em: <www.amazon.fr>. Acesso em: ago. 2016. 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
13 
A Cahiers du Cinéma surgiu no ápice da Era dos estúdios de Hollywood, 
em que os filmes deveriam seguir as determinações de quem os produzia. Por 
meio da Cahiers, disseminou-se um contraponto ao cinema de produtor que 
seria o cinema de diretor. 
Essa revista difundiu um novo tipo de pensamento que orientava os 
futuros diretores da Nouvelle Vague: a política dos autores. Deixando de lado o 
formato industrial que privilegiava a fórmula e os filmes feitos em série, a 
"política dos autores" queria trazer para o cinema o mesmo status de autoria 
que existia na literatura ou na pintura. 
Uma vez que já existia uma linguagem cinematográfica estabelecida, ela 
não precisaria ser utilizada apenas do modo mais comercial e previsível. O 
cinema deveria ser um veículo para que os diretores exercitassem as suas 
múltiplas possibilidades artísticas, assim como tratar de questões mais 
pessoais. O diretor deixa de ser operário do produtor para ser um criador. 
Foi na Caihers du Cinéma que François Truffaut publicou, em 1954, o 
seu célebre artigo Sobre uma tradição no cinema francês, um texto que até 
hoje é considerado como causador de uma grande ruptura na história do 
cinema. Nele, Truffaut afirmava que "mesmo que não escreva uma linha do 
roteiro, é o diretor que conta, é com ele que o filme se parece, como 
impressões digitais. O filme pode ser uma imagem melhorada ou piorada dele, 
mas é apenas com ele que o trabalho realizado se parece". Nesse sentido, na 
lista dos diretores que começaram a ser admirados, Jean Renoir, Fritz Lang, 
Robert Bresson, Jacques Tati, Jean Cocteau e Akira Kurosawa aparecem lado 
a lado com Alfred Hitchcock e Howard Hawks. Na visão de Truffaut, estes dois 
últimos são profissionais que, mesmo submetidos ao crivo do produtor, 
conseguiam manter a sua marca pessoal naquilo que faziam. 
Ficou célebre, inclusive, uma entrevista que François Truffaut fez de 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
14 
Hitchcock, em agosto de 1962. Durante 27 horas, Hitchcock respondeu 500 
perguntas sobre o seu processo criativo, as suas influências e o seu modo 
muito particular de filmar. O que o cineasta francês queria entender era o 
segredo do "estilo hitchcockiano". 
Ele constatou, entre outras coisas, que a sua passagem pelo cinema 
mudo o havia ensinado a não ser refém apenas de diálogos, mas a pensar em 
um detalhamento mais minucioso da construção das cenas. Outra descoberta: 
o sentimento de culpa presente em muitos dos seus personagens tem origem 
no catolicismo e por ele ter sido educado por jesuítas. Esse é um dos grandes 
exemplos de como um trabalho crítico bem realizado pode mudar a percepção 
do público a respeito de alguma coisa. Hitchcock e a sua obra nunca mais 
foram vistos da mesma maneira depois dessa entrevista dada a Truffaut. 
 
François Truffaut e Alfred Hitchcock 
Fonte: ROLLING Stone. Disponível em: <http://www.rollingstone.com/>. Acesso em: ago. 2016. 
Atualmente, a Cahiers du Cinéma segue a sua atividade de vislumbrar, 
no muito amplo horizonte cinematográfico, filmes e diretores que estão mais 
preocupados em deixar a sua marca pessoal do que atingir recordes de 
bilheteria. 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
15 
Em 2015, a Cahiers publicou a sua tradicional lista de melhores do ano. 
Nessa edição, ela procurou descobrir tendências, revelar novos nomes e trazer 
à tona filmes de arte que talvez passassem despercebidos pelo circuito. 
O primeiro lugar ficou com o veterano diretor italiano Nanni Moretti e o 
seu filme Mia madre, seguido por Cemetery of Splendor (Tailândia), de 
Apichatpong Weerasethakul; L´Ombre des femmes (França), de Philippe 
Garrel; The Smell of Us (EUA), de Larry Clark; Mad Max (Austrália/EUA), de 
George Miller; Jauja (Argentina), de Lisandro Alonso; Inherent Vice (EUA), de 
Paul Thomas Anderson; Les Milles et Une Nuit (Portugal/França), de Miguel 
Gomes; Summer (Lituânia), de Alanté Kavaïté; e Vers l'autre rive "(Japão), de 
Kiyoshi Kurosawa. 
Tanto para o mercado quanto para o público, que fica perdido em meio a 
tantos lançamentos simultâneos, uma lista como essa, que traz filmes até da 
Lituânia, é fundamental para ele se situar sobre o estágio do desenvolvimento 
do cinema atual. É interessante usá-la em contraponto aos filmes que são 
indicados ao Oscar, por exemplo. Na cerimônia norte-americana, os filmes do 
resto do mundo concorrem apenas em uma categoria (melhor filme 
estrangeiro). Na visão da Cahiers, o cinema é uma arte internacional e visto 
nas suas múltiplas possibilidades, sem distinção. 
A importância da Cahiers du Cinéma pode ser compreendida tanto pelo 
seu conteúdo quanto pela quantidade de outras publicações que inspirou em 
outros países. 
No Brasil, uma das mais respeitadas revistas críticas de cinema é a 
Contracampo. Criada em 1998 e com mais de 100 edições lançadas, os seus 
editores publicam regularmente avaliações sobre os mais variados títulos. No 
seu site, os seus editores assim explicam as suas ambições com esse trabalho: 
Como fazer uma crítica que seja durável? Como partir da emoção provocada 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
16 
pelos filmes e transformá-la em pensamento? Como reunir ideias soltas em torno 
de um ponto de vista que sustentará, de fato, uma ideia de revista? [...] A crítica 
não é, não pode ser, um exercício arbitrário, limitado a um contato imediatista e 
superficial com os filmes. Ela precisa ambicionar algo, uma visão de cinema, uma 
reflexão que se traduza concretamente para o cinema e para o mundo. 
Tema 4: Os Festivais de Cinema do Brasil e do Mundo 
Agora que terminamos de falar um pouco sobre crítica escrita, talvez 
você tenha se questionado: mas o filme, por ele mesmo, não pode ser já uma 
forma de crítica? Caso tenha se feito essa pergunta e ficado em dúvida sobre a 
resposta, aqui vai ela: sim, um filme pode ser uma forma de crítica 
cinematográfica. Aliás, vimos vários exemplos. É o caso dos filmes da Nouvelle 
Vague. 
Se analisarmos as inovações propostas por esse movimento francês em 
paralelo com a produção vigente em Hollywood, perceberemos uma diferença 
abissal no que toca à estética e à narrativa. Essa diferença é um tipo de crítica. 
Do mesmo modo, as transformações impostas pelos filmes do Cinema Novo 
após a falência do estilo industrializado da Cinédia, Atlântida e Vera Cruz são 
um tipo de crítica também. 
Por isso, além de ler críticas especializadas em revistas e sites, é 
importante ver filmes em mostras e festivais. Desse modo, você estará 
constantemente se atualizando com o que de mais relevante acontece nessa 
área. A seguir serão citados alguns dos principais festivais e mostras de 
cinema nacionais e internacionais. 
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 
Tradicionalmente acontece entre os meses de outubro e novembro. Em 
2015, a Mostra (como é usualmente chamada) teve a sua 39ª edição e exibiu 
312 títulos de 62 países em 22 endereços, entre cinemas, espaços culturais e 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
17 
museus espalhados pela capital paulista. 
A seleção deste ano fez um apanhado do que o cinema contemporâneo 
mundial estava produzindo, alémdas principais tendências, temáticas, 
narrativas e estéticas. Ela foi composta por seis seções: Competição Novos 
Diretores, que exibe títulos de diretores que tenham realizado até dois longas; 
Perspectiva Internacional, que apresenta um panorama do recente cinema 
mundial; Retrospectiva, seção com clássicos e títulos de importantes diretores; 
Homenagem, celebração de personalidades do cinema; Apresentações 
Especiais, sessões em espaços alternativos ou de filmes que completam obra 
de diretores selecionados pelo evento; e Mostra Brasil, títulos brasileiros 
inéditos em São Paulo. 
Festival do Rio 
Realizado entre o fim de setembro e o começo de outubro. Apesar de ter 
sido criado em 1999, a sua origem se deve à junção da Mostra Banco Nacional 
e do Rio Cine Festival, eventos que faziam parte do calendário cultural da 
cidade desde os anos 80. De lá para cá, o Festival se firmou como um dos 
mais importantes do mundo e destino obrigatório para os principais destaques 
cinematográficos do ano. Alguns dos nomes mais importantes do cinema 
mundial já passaram por aqui: Costa-Gavras, Tom Tykwer, Dario Argento, Leos 
Carax, Louis Malle, Carlos Saura, John Waters, Peter Greenaway, Stephen 
Frears, François Ozon, Todd Solondz, entre muitos outros. 
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 
Sediado em Brasília, esse é tido como o mais antigo festival de cinema 
do país. Em 2016, ele chega à sua 49ª edição. Foi criado por Paulo Emílio 
Sales Gomes, professor da Universidade de Brasília e que já foi mencionado 
neste curso quando falamos sobre Cinema Novo, na Rota 4. 
 
Pró-Reitoria de EaD e CCDD 
 
18 
O principal prêmio do festival é o Troféu Candango, cujo nome faz 
homenagem aos brasilienses. Além deste, há o Troféu Câmara Legislativa do 
Distrito Federal, Prêmio Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem, Prêmio 
Exibição TV Brasil, Prêmio Abraccine, Prêmio ABCV e Prêmio Saruê. 
Festival de Gramado 
Ocorre geralmente entre o fim de agosto e o começo de setembro. 
Também muito tradicional, em 2016 será realizada a 44ª cerimônia de 
premiação. O seu troféu chama-se Kikito. Desde 1992, deixou de ser um 
prêmio exclusivo do cinema brasileiro para se transformar em uma mostra 
ibero-americana. Como vimos na Rota 4, o governo de Fernando Collor quase 
extinguiu a cinematografia nacional com o fechamento da Embrafilme. Como 
não havia filmes suficientes para competir, o Festival de Gramado tornou-se 
internacional no começo dos anos 90. Mesmo após a retomada da nossa 
produção, a partir de 1995 os organizadores decidiram manter esse formato. 
 
Kikito, o troféu entregue no Festival de Gramado 
Fonte: LOUCOS&SANTOS. Disponível em: <www.loucosesantos.com.br>. Acesso em: ago. 
2016. 
Cine PE, Festival de Pernambuco ou Festival do Recife 
 
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19 
O seu troféu, o "Calunga de Ouro", representa a boneca carregada pela 
sacerdotisa dos cultos afro-brasileiros durante a apresentação do Maracatu. 
Subsidiado pelo Ministério da Cultura, o evento acontece no Recife, desde 
1997, no mês de maio. Considerado um dos mais populares do gênero no 
Brasil, exibiu até 2016 mais de 900 filmes entre curtas e longa-metragens, para 
um público de quase 400.000 pessoas, além de oferecer vários tipos de 
oficinas e workshops. 
Festival de Cannes 
O Festival de Cannes é realizado na cidade de Cannes (França) no mês 
de maio. Criado em 1946, premia filmes de curta e longa-metragem de várias 
partes do mundo. 
A Palma de Ouro é entregue apenas ao melhor filme longa-metragem do 
festival. Nas outras categorias, os nomes variam: Grande Prêmio (é uma 
espécie de segundo lugar na categoria de melhor filme), Grande Prêmio de 
Interpretação Masculina, Grande Prêmio de Interpretação Feminina, Grande 
Prêmio de Direção e Grande Prêmio de Roteiro. Outro prêmio interessante é o 
Câmera de Ouro, entregue ao melhor primeiro filme de determinado diretor. 
Anualmente, os jurados que decidirão os prêmios são trocados pela 
direção do Festival. Há ainda duas mostras paralelas oficiais: A Semana da 
Crítica e A Quinzena dos Realizadores. O lado comercial não foi esquecido. Há 
ainda o Mercado do Filme, que auxilia a aproximação dos cineastas com 
eventuais distribuidores. 
 
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20 
 
Palma de Ouro, troféu entregue no Festival de Cannes 
Fonte: WIKIPEDIA. Disponível em: <en.wikipedia.org>. Acesso em: ago. 2016. 
Sundance Festival 
Sediado na cidade de Park City, no estado de Utah, nos Estados Unidos, 
o Festival de Sundance acontece no mês de janeiro, durante um inverno 
relativamente rigoroso. Desde 2005, os seus focos são a descoberta de novos 
filmes e novas vozes ao redor do mundo e celebrar a independência, a 
criatividade e a tomada de riscos. 
Tem duas categorias principais: a Competição Dramática Mundial de 
Cinema e a Competição Documentário Mundial de Cinema. Além da 
competição, Sundance promove as seguintes atividades: Park City à Meia-noite 
(filmes de gênero), Nova Fronteira (filmes experimentais) e Estreias (estreias 
mundiais de cineastas estabelecidos). 
 
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21 
Festival de Berlim 
O Festival Internacional de Cinema de Berlim, também conhecido como 
Berlinale, é um dos mais importantes festivais de cinema mundiais e acontece 
no mês de fevereiro. Ironicamente, a iniciativa da sua criação, em 1951, foi dos 
Estados Unidos que ocupava parte da cidade após a Segunda Guerra Mundial. 
O urso, que é símbolo de Berlim, empresta a sua imagem ao troféu. O 
Urso de Ouro é entregue ao melhor filme de longa-metragem e curta-metragem 
e o Urso de Prata aos melhores nas categorias de direção, ator, atriz, roteiro, 
contribuição artística e grande prêmio do júri. 
 
Urso de Ouro, prêmio do Festival de Berlim 
Fonte: ADORO Cinema. Disponível em: <www.adorocinema.com>. Acesso em: ago. 2016. 
Festival de Veneza 
O Festival de Veneza é realizado nessa cidade desde 1932. No mês de 
setembro, um júri selecionado pela organização do evento se reúne para 
entregar os prêmios de Leão de Ouro para o melhor filme, Leão de Prata para 
o melhor diretor, o Grande Prêmio do Júri, o Volpi Cup, ao melhor ator e atriz e, 
cumprindo a tarefa de revelar talentos promissores, o prêmio Marcello 
 
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Mastroianni de Novo Talento. 
Tema 5: Aprendendo a Fazer uma Resenha Crítica 
Nosso curso vai chegando ao fim. Você deve ter percebido que na Rota 
6 nós usamos várias vezes o conhecimento adquirido nas cinco primeiras 
Rotas, tais como a história do cinema mundial e brasileiro, a linguagem 
cinematográfica e muito mais. Nessa última parte, aprendemos a como apurar 
o olhar usando a decupagem, a importância da crítica escrita na divulgação e 
análise de um filme e alguns dos festivais de cinema que precisamos ficar 
atentos. 
Tudo isso para chegarmos nesta última fase, em que você será 
incentivado a escrever as suas próprias críticas. As principais ferramentas já 
foram dadas. Agora é preciso apenas usar um pouco de criatividade e 
sensibilidade para elaborar os seus textos. 
Antes de mais nada, é preciso fazer uma diferenciação entre 
resumo/sinopse e resenha. Vamos tomar um exemplo de resumo/sinopse de 
Dogville (2004), de Lars von Trier, publicado no site filmow.com: 
Anos 30, Dogville, um lugarejo nas montanhas rochosas. Grace (Nicole Kidman), 
uma bela desconhecida, aparece no lugar ao tentar fugir de gângsteres. Com o 
apoio de Tom Edison (Paul Bettany), o autodesignado porta-voz da pequena 
comunidade, Grace é escondida pela pequena cidade e, em troca, trabalhará para 
eles. Fica acertado que após duas semanas ocorrerá uma votação para decidir se 
ela fica. Após esse "período de testes", Grace é aprovada por unanimidade, mas 
quando a procura por ela se intensifica os moradores exigem algo mais em troca 
do risco de escondê-la. É quando ela descobre de modo duro que nessa cidade a 
bondade é algo bem relativo,pois Dogville começa a mostrar os seus dentes. No 
entanto, Grace carrega um segredo, que pode ser muito perigoso para a cidade. 
Repare que esse resumo conta a história, mas não a analisa. Não são 
especificadas referências bibliográficas ou estéticas usadas pelo diretor. Estão 
de fora também os pontos fortes e fracos do filme, isto é, não foram apontadas 
as inovações trazidas nessa produção nem discutido sobre o bom ou mau uso 
 
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da linguagem cinematográfica. 
Para fazer uma boa resenha, é preciso articular esses e muitos outros 
elementos. Se for o caso, você pode incluir até uma vivência pessoal. Por 
exemplo: se a resenha fosse sobre um documentário em Berlim e você tivesse 
vivido nessa cidade muitos anos, você poderia trazer essa experiência para 
discordar ou reforçar certas questões. Vamos pegar agora alguns trechos de 
resenhas publicadas sobre Dogville. 
No site espacoacademico.com.br, Alexandre Busko reflete sobre a 
direção de arte: 
Von Trier criou um espaço cinematográfico simples e despojado, incorporando 
elementos teatrais e literários; utilizando vários elementos do teatro de Bertolt 
Brecht. [...] O cenário invisível (sem paredes, janelas ou portas) permite que o 
espectador veja os coadjuvantes em seus afazeres longe do foco principal da 
ação. [...] Desse modo, Von Trier consegue estender a profundidade de campo e 
sublinhar as consequências de cada ação individual em relação à comunidade, 
por exemplo, nas sequências em que Grace é estuprada. 
 Repare que além da referência ao teatro de Brecht, Alexandre justifica a 
importância do cenário invisível para retratar com mais fidelidade (e crueldade) 
a história que está sendo contada. 
 
Cenário de Dogville 
 
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24 
Fonte: FÃ Depressão. Disponível em: <fadepressao.com.br>. Acesso em: ago. 2016. 
Décio Pignatari, na Folha de S.Paulo, faz uma alusão à semelhança da 
protagonista de Dogville com a de Dançando no escuro, do mesmo diretor: 
A Björk de Dançando no escuro e a Nicole Kidman de Dogville são “Jesusas 
Cristas”, refazendo os passos da cruz rumo ao gólgota da forca ou da vingança 
(curiosa coincidência com o filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, que também 
termina em zoom plongée, como em Dogville). O chefão dos gângsteres é Deus 
Pai. O pastor hipócrita é a Igreja, qualquer que seja ela. Óbvio também que 
Godville é Dogville pelo avesso, e vice-versa, homenagem cômica ao Dogma. 
Não importa se Lars von Trier concorda ou não com a observação de 
Pignatari. O valioso em qualquer resenha é o desenvolvimento de um 
raciocínio, as ideias e relações que você é capaz de estabelecer. Lembre-se 
que o texto é uma obra sua, só que inspirada por um filme que você acabou de 
ver. Pode ser que von Trier nem tenha percebido a relação de God com Dogma 
e Dogville, mas a análise é tão bem desenvolvida que a acatamos como válida. 
Curiosidades dos bastidores que forem pertinentes também podem ser 
resgatadas. José Rodrigo Gerace, no site telacritica.org, fala sobre como as 
angústias de Dogville estavam presentes também no set de filmagem: 
É o próprio cineasta que lida cara a cara com os seus atores, ele mesmo faz o 
papel de consultor, diretor, roteirista, psicólogo e cinegrafista. Foi Trier que filmou 
Dogville a todo o momento, não desligou a câmera nem para o descanso, tudo foi 
filmado, desde as conversas, as pausas, as repetições de cena e os desabafos. 
Isso deu origem a um documentário intitulado Dogville Confessions, editado e 
coproduzido por Sami Naif, o qual só foi exibido uma vez no Festival de Cinema 
do Rio em 2003, em que é algo ambíguo: um making off que é também o próprio 
filme. Os atores choram, resmungam, encenam, conversam, desistem e encenam. 
Não se sabe o quanto se tem de veracidade ou encenação. 
O cineasta Júlio Bressane uma vez disse que o cinema não é a sétima 
arte, ele é um trans, ele atravessa as outras artes. Ele vem da fotografia e tem 
relações inegáveis com a pintura, a literatura e o teatro. Por isso, estudar 
cinema é também estar atualizado com o universo da arte em geral. Quanto 
mais informado você estiver, melhores os filmes ficarão de assistir e os seus 
 
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25 
textos críticos, agradáveis de ler. 
Nesta disciplina que agora termina, foi traçado um brevíssimo painel da 
história do cinema que foi da pré-história até 2016. Cabe a você agora 
continuar se aperfeiçoando. Espero que, assim como o melhor filme de 
Hollywood, tenhamos chegado, depois de muito estudo, a um merecido "final 
feliz". 
THE END. 
Síntese 
Como todo filme, uma hora ele chega ao fim. O nosso foi até um pouco 
longo porque falamos bem mais do que os 120 de anos de cinema. Nosso 
começo foi lá na pré-história, quando hoje se percebe que desde nossos 
ancestrais já existia um desejo de retratar imagens em movimento. Passamos 
por alguns inventos interessantes até a invenção do cinematógrafo dos irmãos 
Lumière. 
Dos primeiros filmes que eram exibidos em feiras livres apenas como 
curiosidade, surgiu uma grande indústria que passou a produzir filmes em série 
para o mercado mundial. 
Como toda ação gera uma reação, ao modelo imposto pelos Estados 
Unidos, outros países propuseram algum tipo de mudança que questionava o 
padrão vigente. O Brasil entra na história do cinema logo após o primeiro ano 
da sua invenção, em 1896. Desde então, inicia-se uma relação conflituosa 
marcada por ciclos ou surtos de produção. 
 
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26 
No mesmo nível da literatura e do teatro, o cinema desenvolveu uma 
linguagem poderosa e sofisticada. Utilizando recursos visuais e sonoros, a 
multiplicidade de sentidos e possibilidades de experimentação parecem longe 
de se esgotar. 
Vimos nesta última rota, além de técnicas para aprimorar o seu olhar e 
ouvidos, uma série de referências de leitura e festivais para que o cinema 
continue fazendo parte da sua vida e proporcionando ainda mais prazer. Meu 
trabalho termina aqui e o seu está apenas começando. Aproveite bem tudo o 
que o cinema tem a oferecer e divirta-se. 
Referências 
ABRACCINE. Disponível em: <https://abraccine.org/>. Acesso em: ago. 2016. 
CONTRACAMPO: revista de cinema. Disponível em: 
<http://www.contracampo.com.br/index.htm>. Acesso em: ago. 2016. 
WIKIPÉDIA. Resenha crítica. Disponível em: 
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Resenha_cr%C3%ADtica>. Acesso em: ago. 
2016.

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