Função social do contrato na Nova Hermenêutica Contratual
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Função social do contrato na Nova Hermenêutica Contratual


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a ser minimizados, graças ao princípio do não retrocesso soci-
al. 
 Aos que duvidam do avanço da nossa legislação infraconstitucional após a 
promulgação da nossa Constituição, basta observar quantas leis foram editadas após a mesma: 
o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) e o Estatuto da Criança e do Adolescente 
(Lei 8.069/90), em um exemplo econômico. 
 Podemos localizar o princípio da função social do contrato no Art.170 da Constituição 
ao determinar a livre iniciativa à justiça social. Logo, podemos notar uma 
constitucionalização do direito civil, de forma que a dignidade da pessoa humana passou a ser 
o centro do ordenamento jurídico, perdendo, assim, seu caráter essencialmente 
patrimonialista. Em um Estado Social, o contrato não é mais um direito absoluto, e sim 
relativo, pois se limita ao bem estar social. 
 
7. A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002: análise 
do art. 421. 
 
 A priori, com o Código Civil de 2002, podemos observar um avanço em favor da 
dignidade da pessoa humana. PAULO LÔBO14 brilhantemente afirma: 
 
O princípio da função social é a mais importante inovação do direito contratual co-
mum brasileiro e, talvez, a de todo o novo Código Civil. Os contratos que não são 
protegidos pelo direito do consumidor devem ser interpretados no sentido que me-
lhor contemple o interesse social, que inclui a tutela da parte mais fraca no contrato, 
ainda que não configure contrato de adesão. Segundo o modelo do direito constitu-
cional, o contrato deve ser interpretado em conformidade com o princípio da função 
social. 
 
 Os enunciados 21, 22 e 23 da I Jornada de Direito Privado, promovida em 02 de 
setembro de 2002 pelo Conselho da Justiça Federal, ratificam as ideias expressas no recente 
Código Civil.15 
 Vejamos as palavras de MARCOS EHRHARDT JR.16 acerca do citado Código: 
O desafio do presente é repor a pessoa humana como centro do direito civil, 
concebendo as linhas de um direito contratual que além de disciplinar e conferir 
segurança às operações econômicas, seja primordialmente voltado à promoção da 
dignidade da pessoa humana (art. 1º, inciso III, CF/88). Ingressamos então no tempo 
da (re)personalização do direito civil, implicando necessário reconhecimento do 
novo ramo dos direitos da personalidade. 
 
 
14
 LÔBO, Paulo Luiz Netto. Constitucionalização do Direito Civil. Jus Navigandi, Teresina, ano 4, n. 
33, 1 jul. 1999. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/507>. Acesso em 29 de abril de 2013. 
15
 Jornadas de Direito Civil I, III, IV e V. Brasília-DF. Março \u2013 2012. 
16
 EHRHARDT, Marcos. A conquista do valor dignidade nas relações privadas. Disponível em: 
<http://marcosehrhardt.com.br/index.php/artigo/2010/06/06/a-conquista-do-valor-dignidade-nas-relacoes-
privadas>. Acesso em: 29 de abril de 2013. 
Ao delimitarmos o conceito de função social, logo no início do presente trabalho, 
vimos que se manifesta em dois níveis \u2013 intrínseco e extrínseco. Ao analisarmos o art. 421, 
constatamos que a expressão \u201cfunção social\u201d está se referindo aos seus efeitos externos \u2013 
nível extrínseco, ou seja, àqueles que podem interferir na esfera de terceiros. Fazemos uso das 
palavras de EHRHARDT JR.:17 
 
A inserção constitucional dos fundamentos de validade jurídica das relações civis 
tem contribuído para a renovação dos estudos do direito civil, pois, mais do que um 
critério hermenêutico formal, constitui a etapa mais importante do processo de 
transformação por que passou o direito civil no trânsito do modelo liberal para o 
Estado social. 
 
 A tarefa de detectar e definir a função social da propriedade é bem mais simples do 
que o moderno conceito de função social do contrato. Assim explica THEODORO:18 \u201c[...] se 
revela intuitivo o efeito do exercício de um direito real sobre o meio social, enquanto muito 
precisa ser pensado e elaborado para transplantar o efeito de um negócio puramente pessoal 
para o campo dos interesses sociais\u201d. 
 Hoje, reconhece-se que a liberdade de contratar deve se comportar dentro do molde da 
função social do contrato. Todavia, não se pode perder a essência e razão de ser do contrato: 
circulação da propriedade. Pois, contrato sem função econômica não é contrato. 
 A função social do contrato é entendida, por posição majoritária da doutrina, como 
uma cláusula geral, isto nos sugere não uma obrigação, mas uma representação de valores. 
Daí a importância no tocante à hermenêutica. Sobre o tema, conclui THEODORO JR.:19 
Mesmo na atividade de interpretação da lei, que se reconhece não se fazer de forma 
mecânica e literal, a criatividade desempenhada pelo juiz para atualizar e 
compatibilizar a norma com o caso concreto e o momento de sua aplicação não lhe 
dá uma liberdade que possa significar a abertura para o arbítrio e a aventura, pois a 
interpretação também é uma atividade vinculada, controlada e responsável. Portanto, 
o juiz, na sua nobre missão de complementador da regra legislada, não é um 
intérprete livre de vínculos, embora inevitavelmente criador do direito. 
 
 A utilização exacerbada das cláusulas gerais como remédio jurídico para todos os 
problemas sociais tem sido alvo de duras críticas. THEODORO JR., citando o civilista JOSÉ 
DE OLIVEIRA ASCENSÃO20, adverte: 
Em todo o mundo, a certeza do direito tende a esboroar-se quando se pratica um 
jogo impreciso de cláusulas gerais. Antes de mais no plano constitucional, se se 
 
17
 EHRHARDT, Marcos. Op. Cit. 
18
 THEODORO JR., Humberto. O contrato e sua função social. 3ª edição. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 
97. 
19
 THEODORO JR., Humberto. Op. Cit., p. 133. 
20
 ASCENSÃO, José de Oliveira. Cláusulas gerais e segurança jurídica no Código Civil de 2002, Revista 
Trimestral de Direito Civil, nº 28, p. 83, out.-dez./2006, apud THEODORO JR., Humberto. Op. Cit., p. 
142-143. 
recorrer indiscriminadamente a cláusulas como dignidade humana, 
proporcionalidade, justiça, due process od law, solidariedade, operacionalidade [...] 
o exercício de cláusulas gerais não se pode transformar numa esgrima de conceitos 
indefinidos ou num apelo a emoções. Deve ser aprofundado e racionalizado, porque 
só assim permite atingir a justiça sem pôr em causa a segurança. 
 
 O Estado Democrático de Direito tem por base o princípio da segurança jurídica, de 
forma que seus atos tenham certa precisão, clareza. Por isso, a cautela que se deve ter para 
não utilizar as cláusulas gerais de forma abusiva. Os valores preconizados na Constituição de 
1988 precisam ser lidos e interpretados em harmonia e não sob a ótica de apenas um deles em 
detrimento dos demais. 
 Por fim, importa transcrever a ponderação de ARNOLD WALD21, por THEODORO 
JR.: 
Se o direito tem a dupla finalidade de garantir tanto a justiça quanto a segurança, é 
preciso encontrar o justo equilíbrio entre as duas aspirações, sob pena de criar um 
mundo justo, mas inviável, ou uma sociedade eficiente, mas injusta, quando é 
preciso conciliar a justiça e a eficiência. Não devem prevalecer nem o excesso de 
conservadorismo, que impede o desenvolvimento da sociedade, nem o radicalismo 
destruidor, que não assegura a continuidade das instituições. O momento é de 
reflexão e construção para o jurista, que, abandonando absolutismo passado, deve 
relativizar as soluções, tendo em conta tanto os valores éticos, quanto as realidades 
econômicas e sociais. 
 
8. CONCLUSÃO 
 
 Não resta dúvida que o direito civil atual é diferente daquele que estava em vigor no 
período oitocentista e que após a Constituição Federal de 1988 houve a (re)personalização do 
direito privado. Assim, a ideia do contrato e sua função social é um dos pilares da teoria 
contratual contemporânea. 
 Ao longo do presente trabalho, procuramos apresentar um breve esboço histórico de 
como, em linhas gerais, o Código Civil de 1916 tratou, ou melhor, omitiu-se em relação à 
função social do contrato, pois ainda predominada o estado