historia herodoto
770 pág.

historia herodoto


DisciplinaHistória Antiga Ocidental775 materiais17.949 seguidores
Pré-visualização50 páginas
merecedoras de um lugar na história. Quando o príncipe
colocou sob o seu domínio todo o continente, pensou em ir
atacar os Assírios.
CLXXVIII \u2014 A Assíria possui várias cidades
importantes, mas Babilônia é a mais célebre e a mais forte de
todas. Ali os reis do país haviam fixado residência desde a
destruição de Nínive. A cidade, situada numa grande planície,
forma um quadrado com cento e vinte estádios de cada lado. É
115
de uma tal magnificência, que não conhecemos outra capaz de
com ela comparar-se. Um fosso largo, profundo e cheio de água
circunda-a, erguendo-se adiante uma muralha de cinqüenta
\u201ccôvados de rei\u201d de espessura (o côvado de rei é três dedos
maior do que o comum).
CLXXIX \u2014 Vem a propósito acrescentar ao que acabo
de dizer, o emprego que se deu à terra retirada do fosso circular
e de que maneira foi construída a muralha. À medida que os
construtores cavavam o fosso, convertiam a terra em tijolos, e
quando já haviam reunido uma grande quantidade destes,
levaram-nos ao forno. Em seguida, à guisa de cimento
utilizavam o betume quente, e de trinta em trinta camadas de
tijolos punham redes de caniços entrelaçados. Construíram
primeiramente, por esse processo, as bordas do fosso. Passaram,
em seguida, para as muralhas, construindo-as da mesma
maneira. No alto e nas bordas da muralha ergueram-se torres de
um único andar, umas diante das outras, entre as quais havia
espaço suficiente para dar passagem a um carro puxado por
quatro cavalos. Cem portas de bronze maciço completavam a
monumental obra. A oito dias de Babilônia fica a cidade de Is,
situada à margem de um pequeno rio do mesmo nome e que
desemboca no Eufrates. Esse rio arrasta em suas águas grande
quantidade de betume, o mesmo utilizado para cimentar os
muros de Babilônia.
CLXXX \u2014 O Eufrates corta a cidade pelo meio,
dividindo-a em dois quarteirões. O rio é grande, profundo e
rápido; vem da Armênia e desemboca no mar Eritreu. Algumas
das muralhas formam verdadeiros cotovelos sobre o rio, e é
desse ponto que parte um muro de tijolos, bordejando o
Eufrates. As casas são de três a quatro andares e as ruas retas e
cortadas por outras que vão ter ao rio. Frente a estas últimas
abriram-se no muro que corre ao longo do rio, pequenas portas,
por onde se desce até as margens. Há tantas portas quantas ruas
transversais.
116
CLXXXI \u2014 O muro exterior serve de defesa; o interior
não é menos resistente, porém mais estreito. A parte central dos
dois quarteirões é digna de nota: no primeiro encontra-se o
palácio do rei, cujo recinto vasto se acha bem fortificado; no
outro, o templo consagrado a Júpiter Belo, cujas portas de
bronze ainda hoje subsistem. É um quadrado com dois estádios
de largura, no meio do qual se ergue uma torre maciça de um
estádio de comprimento por outro de largura. Sobre essa torre
eleva-se outra, e sobre essa segunda, outra ainda, e assim por
diante até completar oito. Do lado de fora construiu-se uma
escada em caracol, que dá acesso às oito torres. Essa escada é
provida de postos de parada, com cadeiras para descanso dos
que sobem. Na última torre encontra-se uma grande capela, e
nesta um amplo e bem guarnecido leito, tendo ao lado uma
mesa de ouro. Não se vêem estátuas. Ninguém ali passa a noite,
a menos que seja alguma filha da terra, eleita pela divindade,
como dizem os Caldeus, sacerdotes dessa divindade.
CLXXXII \u2014 Esses sacerdotes afirmam que o deus vem
em pessoa à capela e repousa no leito, o que não me parece
crível. Coisa idêntica se dá em Tebas, no Egito, a acreditar no
que dizem os Egípcios, pois ali também se deita uma mulher no
templo de Júpiter Tebano. Dizem que tanto esta como aquela
não têm relações com nenhum homem. Ainda o mesmo
acontece em Pátaros, na Lícia, quando o deus honra a cidade
com a sua presença. A sacerdotisa encerra-se durante a noite no
templo, e não se dão oráculos enquanto o deus ali permanece.
CLXXXIII \u2014 Na parte inferior do templo de Babilônia
há outra capela, onde se vê uma grande estátua de ouro
representando Júpiter sentado. Ao lado, uma grande mesa de
ouro. O trono e o escabelo são do mesmo metal. Tudo isso,
segundo informações dos Caldeus, pesa oitocentos talentos de
ouro. Vê-se também, fora da capela, um altar de ouro, e ao lado
desse, outro de grandes dimensões, onde se sacrifica o gado
adulto, pois no de ouro só é permitido sacrificar cordeiros ainda
117
não desmamados. Os Caldeus queimam também no grande
altar, todos os anos, por ocasião das festas em honra do deus,
mil talentos de incenso. Havia ainda naquele templo, no recinto
sagrado, uma estátua de ouro maciço de doze côvados de altura.
Não a vi, contentando-me, portanto, a repetir o que dizem os
Caldeus. Dario, filho de Histaspes, forjou um plano para
apropriar-se dela, mas não ousou executá-lo. Xerxes, filho de
Dario, matou o sacerdote que a ele se opôs nessa empresa e
apoderou-se da estátua. Tais são as riquezas do templo, onde se
vêem também muitas oferendas particulares.
CLXXXIV \u2014 Babilônia teve um grande número de reis.
Em minha \u201cHistória da Assíria\u201d mencionarei os que
embelezaram as muralhas e os templos, e, entre outros, duas
mulheres. A primeira precedeu de cinco gerações a outra e
chamava-se Semíramis. Foi ela quem mandou construir os
diques colossais que contêm o Eufrates no leito, impedindo-o de
inundar os campos, como acontecia outrora.
CLXXXV \u2014 A segunda rainha, Nitócris, era mais
prudente que a primeira. Entre as suas obras memoráveis,
destaca-se a seguinte: Tendo notado que os Medos, tornando-se
poderosos, não podiam permanecer inativos e iam conquistando
cidades após cidades, inclusive Nínive, resolveu fortificar, tanto
quanto possível, seu reino, prevenindo-se contra qualquer
ataque. Foi assim que, como primeira medida de defesa,
mandou abrir canais ao norte de Babilônia, de que resultou
tornar-se o Eufrates, que atravessa a cidade pelo meio, oblíquo e
tortuoso, a ponto de passar três vezes por Arderica, burgo da
Assíria; e, ainda agora, os que descem o rio em direção a
Babilônia passam pelo referido burgo três vezes em três dias.
Nitócris mandou erguer em seguida, de cada lado da
cidade, uma cerca monumental, tanto pela largura como pela
altura. Mais distante, ao norte da Babilônia, a pequena distância
do rio, mandou cavar um lago destinado a receber o excesso das
118
águas do Eufrates nas cheias. Esse lago media quatrocentos e
vinte estádios de circunferência, e quanto à profundidade,
sabe-se que cavaram até encontrar água. A terra retirada dali
serviu para elevar as ribanceiras do rio. Terminada a abertura do
lago, revestiram-lhe as margens de pedras. Essas duas obras
tinham por fim tornar mais lento o curso do rio, quebrando-lhe
o ímpeto por um grande número de sinuosidades, e obrigar os
que se dirigiam a Babilônia por via fluvial, a fazer várias voltas,
forçando-os ainda, no fim do trajeto, a seguir o vasto contorno
do reservatório. Realizou Nitócris esses trabalhos naquela parte
de seus estados mais exposta às incursões dos Medos e do lado
onde eles dispõem de caminho mais curto para penetrar na
Assíria, a fim de que, não mantendo comércio com os Assírios,
eles não pudessem tomar conhecimento dos seus negócios.
CLXXXVI \u2014 Concluídas essas obras, atirou-se a rainha
a nova iniciativa: Babilônia está dividida em duas partes, e o
Eufrates corta-a pelo meio. Nos reinados anteriores, quando se
queria ir de um lado a outro da cidade era necessário atravessar
o rio de barca, o que não deixava de ser muito incômodo.
Atendendo a isso, Nitócris, terminada a construção do lago,
empreendeu uma obra digna de admiração. Fez talhar grandes
pedras e, quando estas estavam prontas, desviou as águas do
Eufrates para o lago. Enquanto este enchia, o rio secava.
Mandou então revestir as margens de tijolos, assim como as
rampas que iam das pequenas portas ao rio, servindo-se do
mesmo processo empregado na construção das muralhas.
Mandou erguer também, no centro da cidade, uma ponte de
pedras ligadas com ferro e chumbo. Durante o dia, passava-se
sobre peças de madeira quadradas, que eram retiradas à noite,