historia herodoto
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historia herodoto


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de enterrá-los num mesmo buraco cavado no solo. Isso
acontece não só com os bois, como com qualquer outra espécie
de gado que vem a morrer, pois a lei proíbe matá-los.
XLII \u2014 Todos aqueles que erigiram templos a Júpiter
Tebano ou que são de Tebas não imolam, absolutamente,
carneiros, nem sacrificam outros animais senão cabras.
Realmente, nem todos os Egípcios adoram os mesmos deuses;
não rendem todos o mesmo culto a Ísis e a Osíris, que, na
opinião deles, são o mesmo que Baco. Contrariamente, os que
possuem um templo em Mêndis e são conhecidos pela
designação de Mendésios, imolam ovelhas e poupam as cabras.
Os Tebanos e todos os que como eles se abstêm de sacrificar
ovelhas, assim procedem em virtude de uma lei, motivada pelo
seguinte fato: Hércules, segundo contam, desejava
ardentemente ver Júpiter, mas esse deus não queria ser visto.
Por fim, como Hércules não deixava de fazer solicitações nesse
sentido, Júpiter recorreu a um artifício: matou um cordeiro,
cortou-lhe a cabeça e, colocando-a à frente da sua, revestiu-se
da lã, apresentando-se assim a Hércules. É por essa razão que as
estátuas de Júpiter no Egito representam o deus com uma
cabeça de cordeiro. O referido costume passou dos Egípcios aos
Amônios. Estes constituem uma colônia de Egípcios e Etíopes,
e a língua que falam é uma mistura dos idiomas dos dois povos.
Creio mesmo que se chamam Amônios pelo fato de os Egípcios
darem o nome de Ámon a Júpiter. É, portanto, por esse motivo
que os Tebanos consideram os cordeiros animais sagrados e não
os sacrificam absolutamente, exceto no dia da festa de Júpiter,
sendo essa a única ocasião em que eles imolam um dos aludidos
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animais; e da mesma maneira pela qual Júpiter procedera,
revestem com a pele do cordeiro a estátua do deus,
aproximando-a da de Hércules. Feito isso, todos os que se
encontram em torno do templo batem no peito, deplorando a
morte do animal, sepultando-o, em seguida, numa urna sagrada.
XLIII \u2014 O Hércules a que me refiro é, ao que me
informaram, um dos doze deuses dos Egípcios; do outro
Hércules, tão conhecido dos Gregos, nada pude saber a respeito
em lugar algum do Egito. Entre outras provas que poderei
apresentar de que não foram os Egípcios que tiraram dos
Gregos o nome Hércules, mas sim estes daqueles \u2014
principalmente os que deram esse nome ao filho de Anfitrião \u2014
reportar-me-ei à seguinte: O pai e a mãe do Hércules grego,
Anfitrião e Alcmena, eram originários do Egito; mais ainda: os
Egípcios dizem ignorar até os nomes de Netuno e dos
Dióscuros, jamais incluindo esses deuses no número de suas
divindades. Ora, se houvessem tirado dos Gregos o nome de
algum deus, teriam logo feito menção daqueles. Com efeito,
como já viajavam por mar e como havia também, ao que
presumo fundando-me em boas razões, Gregos habituados a
singrar o salso elemento, eles, Egípcios, teriam conhecido os
nomes desses deuses antes do de Hércules.
Hércules é um deus muito antigo entre os Egípcios, e
como eles próprios declaram, está incluído no número dos doze
deuses nascidos de oito divindades primitivas, dezesseis mil
anos antes de Amásis.
XLIV \u2014 Como eu desejava encontrar alguém que
pudesse instruir-me a respeito, velejei para Tiro, na Fenícia,
onde sabia existir um templo de Hércules, muito venerado.
Decorado com uma infinidade de oferendas, apresentava o
templo duas colunas, uma de ouro fino e a outra de esmeralda,
produzindo, à noite, grande brilho. Certo dia, palestrando com
os sacerdotes desse deus perguntei-lhes em que época o templo
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fora construído, e eles não se mostraram mais de acordo com os
Gregos do que os Egípcios. Disseram-me haver sido o templo
erguido na mesma ocasião em que se construíra a cidade, sendo
esta habitada há dois mil e trezentos anos. Vi, também, em Tiro,
outro templo de Hércules, cultuado ali sob o nome de Hércules
Tásio. Fiz também uma viagem a Tasos, onde encontrei um
templo desse deus, construído pelos Fenícios que, singrando os
mares em busca da Europa, fundaram uma colônia em Tasos,
cinco gerações antes de Hércules, filho de Anfitrião, haver
nascido na Grécia.
Tais pesquisas provam claramente que Hércules é um
deus antigo. Também os Gregos, erguendo dois templos ao
mesmo, agiram, assim me parece, com muita sensatez.
Oferecem a um deles, denominado Olímpio, sacrifícios, como a
um imortal, e ao outro fazem oferendas fúnebres, como a um
herói.
XLV \u2014 Os Gregos manifestam também muitos
propósitos inconsiderados, entre os quais a fábula ridícula que
forjaram sobre o deus. Hércules, dizem eles, tendo chegado ao
Egito, os Egípcios lhe puseram uma coroa à cabeça e o
conduziram com grande pompa ao templo, revelando a intenção
de imolá-lo a Júpiter. O herói permaneceu, a princípio,
tranqüilo, mas perto do altar, quando os sacerdotes comecaram
o sacrifício, reuniu as forças e matou-os a todos. Os Gregos dão
a entender, com essa história, não terem o menor conhecimento
do caráter dos Egípcios e de suas leis. Como, na verdade,
podemos supor que um povo ao qual não é permitido sacrificar
outros animais que não porcos, bois e bezerros, contanto que
sejam puros, se decida a sacrificar homens? Por outro lado, é
verossímil que Hércules, que então não passava de um simples
mortal, como eles próprios dizem, tenha podido matar tantos
homens ali reunidos? Como quer que seja, peço aos deuses e
aos heróis que interpretem pelo lado melhor o que acabo de
dizer sobre esse assunto.
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XLVI \u2014 Os Mendésios, povo egípcio de que falei, não
sacrificam nem cabras nem bodes, e isso pela seguinte razão:
incluem Pã no número dos oito deuses e pretendem que tais
deuses existiam antes dos doze. Os pintores e os escultores
representam o deus Pã, como fazem os Gregos, com cabeça de
cabra e pernas de bode, não porque lhe atribuam semelhante
aspecto, mas por um motivo que eu teria escrúpulos de dizer.
Os Mendésios têm grande veneração pelos bodes e pelas cabras
\u2014 principalmente pelos primeiros, \u2014 havendo mesmo um tipo
de bode ao qual tributam maior veneração do que a todos os
outros e que, quando morre, eles o pranteiam e põem luto.
O bode e o deus Pã denominam-se, em egípcio, Mêndis.
Durante minha permanência no Egito, deu-se um fato espantoso
entre os Mendésios: um bode teve contato em público com uma
mulher, e a aventura tornou-se conhecida de todos.
XLVII \u2014 Os Egípcios olham os porcos como animais
imundos. Se alguém toca inadvertidamente num deles, ainda
que seja de leve, vai logo mergulhar no rio, mesmo vestido. Os
guardadores de porcos, embora egípcios de nascença, são os
únicos que não podem entrar em nenhum templo do Egito.
Ninguém lhes quer dar as filhas em casamento, nem
desposar as filhas deles. São, por isso, obrigados a casar-se
entre eles, isto é, com gente da mesma categoria.
Não é permitido aos Egípcios sacrificar porcos a outros
deuses que não à Lua e a Baco, realizando-se a cerimônia
sempre no plenilúnio. Nessa ocasião lhes é permitido comer a
carne. Por que então os Egípcios, tendo horror aos porcos nos
outros dias de festa, sacrificam-nos nesses dias? Apresentam
para isso uma razão que não me parece conveniente revelar.
Eis como eles imolam os porcos à Lua: Estrangulada a
vítima, colocam junto [a ponta do rabo, o baço e o rim], e,
cobrindo-os com toda a banha retirada do ventre do animal,
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queimam-nos. O resto da vítima é comido no dia do plenilúnio,
aquele em que, como já disse, se oferece o sacrifício. Em dia
comum, eles nem mesmo provariam semelhante carne. Os
pobres, que mal têm com que viver, fazem com massa de trigo
figuras de porcos e, depois de assadas, oferecem-nas em
sacrifício.
XLVIII \u2014 No dia da festa de Baco, cada um imola um
porco diante de sua porta à hora da refeição, devolvendo-o
depois àquele que o vendeu. Excetuando o sacrifício dos
porcos, os Egípcios celebram a festa de Baco quase da mesma
maneira que os Gregos, mas, em lugar de falos, inventaram
figuras de cerca de um côvado de altura, movidas por meio de
uma corda. As mulheres levam pelas aldeias e burgos essas
figuras, cujo membro viril é quase tão grande quanto o resto do
corpo