historia herodoto
770 pág.

historia herodoto


DisciplinaHistória Antiga Ocidental757 materiais17.918 seguidores
Pré-visualização50 páginas
se achavam à mesa, fez penetrar até o recinto as
águas do rio, por um grande canal secreto. Quase mais nada se
diz sobre essa princesa, senão que, depois de ter perpetrado essa
vingança, precipitou-se num cubículo cheio de brasas, para
subtrair-se à vingança do povo.
CI \u2014 De todos esses reis, disseram-me os sacerdotes,
apenas um se distinguiu pelas suas notáveis realizações \u2014
Méris. Esse soberano salientou-se pela construção de vários
monumentos no vestíbulo do templo de Vulcano, voltado para o
norte, pela ereção de majestosas pirâmides e, acima de tudo,
pela abertura de um grande lago que tomou o seu nome e ao
qual me referirei adiante. Como os outros nenhum monumento
legaram à posteridade, passarei por eles em silêncio,
contentando-me em mencionar Sesóstris, que ocupou o trono
depois deles.
CII \u2014 Esse soberano foi, segundo os sacerdotes, o
primeiro que, partindo do golfo Arábico com uma frota de
grandes navios, subjugou os povos que habitavam o litoral da
Eritréia. Navegou para mais longe ainda, tendo atingido um mar
inacessível à navegação por causa dos escolhos. Dali, de acordo
179
com o referido depoimento, voltou ao Egito, organizou um
numeroso exército e, avançando por terra firme, subjugou todos
os povos que encontrou em sua rota. Quando se defrontava com
nações corajosas e ciosas de sua independência, erguia no país
colunas, nas quais fazia gravar uma inscrição com seu nome, o
de sua pátria e a notícia de haver vencido aquele povo pela
força das armas. No país facilmente dominado, erguia colunas
com inscrição semelhante, mas gravando sob esta as partes
sexuais da mulher, como emblema da covardia daquele
povo(16).
CIII \u2014 Percorrendo assim o continente de conquista em
conquista, Sesóstris passou da Ásia para a Europa, submetendo
os Citas e os Trácios. Creio, porém, que o exército egípcio não
foi adiante, pois encontramos nessas nações as colunas que o
soberano mandou erguer, mas, para além, nenhuma outra é
vista. É provável que tenha regressado pelo mesmo caminho e
que, ao chegar às margens do Faso, tenha deixado ali uma parte
do seu exército para cultivar o país. Não posso assegurar se
alguns dos soldados, enfadados pelas longas jornadas, não
tenham resolvido ficar às margens do rio.
CIV \u2014 Sempre me parecera que os Colquidianos eram
Egípcios de origem, e foi para certificar-me disso que resolvi
sondar uns e outros. Os Colquidianos tinham mais
reminiscências dos Egípcios do que estes daqueles. Os Egípcios
pensam que esse povo é descendente de uma parte das tropas de
Sesóstris, e eu pensava da mesma maneira por dois motivos:
primeiro, por serem os Colquidianos negros e possuírem
cabelos crespos, prova um tanto equívoca, pois têm isso de
comum com outros povos; segundo, e principalmente, porque
os Colquidianos, os Egípcios e os Etíopes foram os primeiros
povos a adotar a circuncisão. Os Fenícios e os Sírios da
Palestina declaram ter aprendido a circuncisão com os Egípcios;
mas os Sírios que habitam as margens do Termodonte e do
Partênio, e os Macrões, seus vizinhos, confessam que
180
adquiriram esse costume há pouco tempo, com os Colquidianos.
São esses, pois, os únicos povos que praticam a circuncisão, e
parece que nisso não fazem mais do que imitar os Egípcios.
Como a circuncisão entre os Egípcios e os Etíopes
parece remontar à mais alta antigüidade, não saberei dizer qual
das duas nações a imitou da outra. Quanto aos outros povos,
tiraram eles dos Egípcios o costume, em conseqüência das
relações comerciais que com estes mantinham. Essa minha
afirmação baseia-se no fato de terem os Fenícios que mantêm
relações com os Gregos, abandonado o costume que adotaram
dos Egípcios, de circuncidar as crianças recém-nascidas.
CV \u2014 Eis aqui outro traço de semelhança entre os dois
povos: são os únicos a trabalhar o linho da mesma maneira, a
viver da mesma maneira e a possuir também uma única língua.
Os Gregos denominam linho sardônico o que lhes vem da
Cólquida, e linho egípcio o que lhes vem do Egito.
CVI \u2014 A maior parte das colunas que Sesóstris mandou
erigir nos países por ele subjugados não mais subsiste. Cheguei,
todavia, a vê-las na Palestina e na Síria, e observei as partes
genitais das mulheres, assim como as inscrições a que me referi.
Vêem-se, também, na direção da Iônia, duas figuras
daquele príncipe talhadas na rocha; uma no caminho que
conduz de Éfeso a Focéia; a outra, no de Sardes a Esmirna.
Representam ambas um homem de cinco palmos de altura,
tendo na mão direita um dardo e na esquerda um arco. As outras
partes da armadura assemelham-se às dos Egípcios e dos
Etíopes. Gravaram-lhe no peito, de um ombro ao outro, uma
inscrição em caracteres egípcios e sagrados, concebida nestes
termos: \u201cCONQUISTEI ESTE PAÍS PELA FORÇA DO MEU
BRAÇO\u201d. Sesóstris, porém, aqui não diz quem é nem de onde
veio, mas indicou isso em outra parte. Alguns dos que
examinaram a referida figura acham que ela representa
Mémnon, com o que não estou de acordo, pois trata-se
181
realmente de Sesóstris.
CVII \u2014 Os sacerdotes informaram-me, ainda, ter esse
soberano, de volta do Egito, trazido grande número de
prisioneiros feitos nas nações subjugadas. Dirigindo-se a Dafne
de Pelusa, seu irmão, ao qual confiara a direção do reino,
convidou-o, juntamente com os filhos, a alojar-se na casa dele,
e, cercando a residência de matéria combustível, ateou fogo à
mesma. Tendo conhecimento do que se passava, Sesóstris
consultou imediatamente a mulher, também em sua companhia,
sobre a maneira pela qual devia agir naquela conjuntura. Ela o
aconselhou a tomar dois dos seis filhos que possuíam,
estendê-los sobre o fogo e fazer com seus corpos uma espécie
de ponte, sobre a qual poderiam passar e salvar-se. Sesóstris
aceitou a sugestão. Assim pereceram as duas crianças; as outras
salvaram-se com a mãe.
CVIII \u2014 Depois de haver-se vingado do irmão,
Sesóstris, chegando ao Egito, empregou os prisioneiros na
tarefa de arrastar para o templo de Vulcano as enormes pedras
que hoje ali vemos. Pô-los também a cavar fossos e canais por
todo o país. Antes desses trabalhos, executados à força, o Egito
era facilmente transitável por animais de tração; mas desde
então, embora o solo do país seja plano e contínuo, tornou-se
impraticável, devido à infinidade de canais que se encontram
por todos os lados e em todos os sentidos. Entretanto, essa
iniciativa do soberano foi ditada por uma razão bem plausível.
Toda vez que o rio baixava, depois da cheia, as cidades
distantes das margens sofriam grande falta de água, não
dispondo seus habitantes, para matar a sede, senão da água
salobra dos poços.
CIX \u2014 Disseram-me ainda os sacerdotes que Sesóstris
realizou a partilha das terras, concedendo a cada Egípcio uma
porção igual, com a condição de lhe ser pago todos os anos
certo tributo. Se o rio carregava alguma parte do lote de alguém,
182
o prejudicado ia procurar o rei e expor-lhe o acontecido. O
soberano enviava agrimensores ao local para determinar a
redução sofrida pelo lote, passando o dono a pagar um tributo
proporcional à porção restante. Eis, segundo me parece, a
origem da geometria, que teria passado desse país para a Grécia.
Quanto ao gnomo ou relógio solar e a divisão do dia em doze
partes, os Gregos devem-nos aos Babilônios.
CX \u2014 Sesóstris foi o único soberano do Egito a reinar
sobre a Etiópia. Para perpetuar suas conquistas deixou estátuas
de pedra diante do templo de Vulcano. Havia duas de trinta
côvados de altura, uma representando o rei, e a outra a esposa; e
quatro de vinte côvados cada uma, representando os quatro
filhos do casal. Muito tempo depois, quando Dario, rei da
Pérsia, quis colocar sua estátua diante dessas, o grande
sacerdote de Vulcano a isso se opôs, objetando que ele, Dario,
não havia praticado tão grandes ações quanto Sesóstris, e que,
se submetera muitas nações, não pudera vencer os Citas, que
Sesóstris subjugou. Não era, pois, justo, acrescentou o
sacerdote, colocar diante das estátuas de Sesóstris a de um
príncipe que não o ultrapassara em conquistas. Dizem que Dario
acatou, sem ressentimento, esse parecer.