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A CONTRA REVOLUÇÃO NEOLIBERAL: INDAGAÇÕES E REFLEXÕES NO 
TEMPO PRESENTE 
Thiago Emanuel Folgueiral; Vanessa Simões Ribeiro. Universidade Estadual Paulista “Julio 
de Mesquita Filho” – UNESP – Faculdade de Filosofia e Ciência – FFC - Campus Marília- 
Agência Financiadora: Programa Pró Reitoria Prograd – Núcleo de Ensino. 
Thiago_folgueiral@hotmail.com; Vanessa.simoes1@gmail.com 
 
Resumo 
O artigo tem como objetivo discutir o desenvolvimento do capitalismo mundial, mais 
precisamente em sua forma atual denominada de neoliberalismo. Buscando aproximar as 
contribuições teóricas de Marcos Del Roio e Perry Anderson, foi realizado um panorama 
histórico do capitalismo e do movimento operário até a fase atual do neoliberalismo e a 
capacidade de transformação dessa nova etapa no capitalismo, em conjunto ao diálogo com as 
formulações teóricas do profícuo debate de ambos os autores. As particularidades da vertente 
neoliberal tiveram sua ascensão na crise dos anos de 1970, com a até então forte presença do 
pensamento keynesiano e fordista, alavancando a partir da década de 80, com maior ênfase na 
década de 90, com pressupostos na liberdade individual, um Estado gerencial e fim das 
barreiras nacionais. Para embasar os argumentos do neoliberalismo, foram utilizadas as 
formulações de Friedrich Hayek. Portanto, tendo em vista a abrangência do tema e a riqueza 
do período, esse artigo busca trazer elementos para tentarmos compreendermos o tempo 
presente. 
Palavras-Chaves: História do capitalismo; Neoliberalismo; Ocidente; Oriente 
 
Abstract 
The article aims to discuss the development of world capitalism, more precisely in its current 
form called neoliberalism. Aiming to approximate the theoretical contributions of Marcos Del 
Roio and Perry Anderson, a historical panorama of capitalism and the labor movement was 
carried out until the current phase of neoliberalism and the capacity for transformation of this 
new stage in capitalism, together with the dialogue with the theoretical formulations of 
profitable debate of both authors. The particularities of the neoliberal aspect had their rise in 
the crisis of the 1970s, with the then strong presence of Keynesian and Fordist thinking, 
leveraging from the 1980s, with greater emphasis on the 1990s, with assumptions in 
individual freedom, a Management status and the end of national barriers. To support the 
arguments of neoliberalism, the formulations of Friedrich Hayek. Therefore, considering the 
scope of the theme and the richness of the period, this article seeks to bring elements to try to 
understand the present time. 
. 
Keyword: History of capitalism; Neoliberalism; West; East 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
mailto:Thiago_folgueiral@hotmail.com
mailto:Vanessa.simoes1@gmail.com
Pensar o neoliberalismo apenas em seu aspecto econômico recai em uma análise muito 
reducionista e grotesca desse fenômeno. Em linhas gerais a ascensão neoliberal fora 
inaugurada na década de 1980, principalmente nos países centrais. Tendo como herança a 
tradição neoclássica, esse fenômeno, apesar de seu aspecto central que se pauta na 
liberalização das economias, a mesma se deu de diferentes formas, dentro das particularidades 
históricas e culturais de cada país, se adaptando de forma eficaz à estruturas políticas e 
econômicas. 
Dessa forma, neste artigo, será discutido o neoliberalismo, tendo como base 
referencial dois teóricos contemporâneos, sendo eles, Marcos Del Roio (1998) e Perry 
Anderson (2007), ambos historiadores, do qual fazem uma rica trajetória dentro do 
pensamento marxista. Assim, será realizada uma discussão acerca das reflexões, tendo a 
comunicação que se tornou um texto, “Balanço do Neoliberalismo” de Perry Anderson, 
juntamente com a formulação teórica de Del Roio em “Outro Externo Negativo”, trabalhado 
no livro “O Império Universal e Seus Antípodas: a ocidentalização do mundo”. Também 
serão analisadas algumas passagens da obra O Caminho da Servidão, obra fundante do 
pensamento neoliberal por Frederick Von Hayek. 
Em sua obra, Del Roio (1998) realiza uma vasta análise historiográfica, trabalhando 
como eixo central a concepção de Ocidente e o seu papel como representação de Império 
Universal. Para isso, inicia a discussão da formação da concepção de Ocidente e Oriente e a 
sua representação no mundo antigo greco-romano e os desdobramentos no decorrer da idade 
média. Todavia, Del Roio (1998) aponta que somente a partir do Grande Cisma da Igreja
1
, em 
pleno auge do feudalismo, ganhou a fundamentação e projeção dos quais vemos até os dias 
atuais. 
Os principais pressupostos, em grande medida foram manter a coesão social nas 
relações servis, o afastamento das cidades e a incorporação de ritos do Império Germânico. 
Como já salientado, juntamente com o Grande Cisma, a Igreja de Roma
2
 tomou para si o 
papel de ser o condutor do Império Universal no âmbito histórico, político e cultural. Esse 
movimento ocorreu por toda a Idade Média, através das Cruzadas, de concepções teológicas 
filosóficas e em momentos de ameaça de hegemonia política e cultural como com a Santa 
 
1
 Grande Cisma da Igreja, ocorreu em 1054. Essa ruptura dividiu a Igreja de Pedro, nas Igrejas de Roma e 
Constantinopla, sendo denominadas de Católica Apostólica Romana (ocidente) e Igreja Católica Apostólica 
Ortodoxa (oriente). 
2
 Igreja Católica Apostólica Romana (A palavra Católica é oriunda do grego “katholikos” que tem o significado 
de Universal). 
Inquisição. Esses fatos propusera uma visão maniqueísta de mundo, difundindo a ideia do 
“bem-ocidente” e “mal-oriente.” (DEL ROIO, 1998). 
 
Tornava-se então necessária uma nova garantia de coesão social, a fim de 
que se estabilizasse e se reproduzisse a ordem feudal, e ela foi oferecida pela 
igreja de Roma que, antes de mais nada, procurou se sobrepor ao instável 
Império Germânico, enquanto poder herdado da tradição pagã [...]. É a ação 
político-cultural da Igreja com o desígnio de estabilizar o feudalismo 
maduro, atenuando a tensão social, o ponto que simbolicamente demarca a 
origem do Ocidente atual e a sua vontade de domínio. (DEL ROIO, 1998, p. 
20). 
 
A riqueza da análise de Del Roio (1998) mostra-se mais consistente através do cabedal 
teórico que autor apresenta. Estudioso da obra de Antônio Gramsci (1891-1937), o mesmo 
aponta que a Igreja de Roma, além de principal condutor intelectual do Império Universal, 
nos períodos da Idade Média e Moderna, cumpriu a função de construção e consolidação de 
“hegemonia sobre as massas”, do qual será discutido no decorrer do texto. “A Igreja passa 
então a desejar a supremacia sobre as coisas do mundo, gestando uma teologia racional 
indicando como individuo cristão estaria a partir de então comprometido com a vida terrena 
num grau antes existente.”. (DEL ROIO, 1998, p. 20). 
Dentro das formulações apresentadas na obra, é caracterizado o Oriente como Externo 
Negativo. Esse é o principal elemento na explicação do Ocidente sobre o Oriente. Como 
exposto nos eventos próximos à queda de Constantinopla em 1453, 
 
Ao ocidente restava encarar um Oriente externo negativo muito mais 
ameaçador, identificado na etnia turca e religião mulçumana, [...]. Antes 
mesmo de configurar sua identidade “descobrindo” um outro interno 
negativo, inferior e ameaçador, unificando na sua diversidade pela imagem 
do diabo, e inventando o Oriente como o outro externo [...]. (DEL ROIO, 
1998, p.29). 
 
A identificação do Outro Externo Negativo perpassou por todo o período histórico, da 
Idade Média á Modernidade, principalmente sobre o modo de entender-se o Oriente, com 
propósito de construção e consolidação de hegemonia acrescentando-se novos elementos a 
novos acontecimentos. O Outro Externo Negativo em linhas gerais era vinculado aos povos 
do Oriente. Suas formulações eram ligadas com as questões religiosas, baseado na ordemfeudal eclesiástica. 
Em relação à obra de Perry Anderson, no que condiz a discussão dos principais 
acontecimentos até a consolidação do neoliberalismo, é apresentado as primeiras desse novo 
fenômeno. Os primeiros teóricos do neoliberalismo em sua grande maioria economistas, 
tinham como embasamento a vertente neoclássica austríaca. Sua principal crítica, pautava o 
keynesianismo e do Estado de Bem Estar Social, sendo elas as principais causas das mazelas e 
da estagnação econômica que esse sistema iria acarretar. Entre os seus fundadores que 
criaram sociedade de Mont Pèlerin, tinha como teórico, Milton Friedman, Karl Popper, Lionel 
Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, e entre outros, tendo como o 
grande idealizador e teórico de referência da sociedade, Frederik Von Hayek, ganhador do 
prêmio Nobel de economia em 1974
3
. (ANDERSON, 1995, p.10). 
 
2. RAÍZES DO CAPITALISMO 
 
Com a ascensão do modo de produção capitalista e consolidação da sociabilidade 
burguesa, muitas dessas concepções ficaram em segundo plano. A inserção de uma novíssima 
classe, a dos proletariados, transplantou dos servos a imagem de um outro inferior subalterno 
ou em períodos de agitação e contentamento, o outro inferior negativo. A partir desses 
apontamentos iremos discutir o neoliberalismo, essa nova vertente do capitalismo, que reuniu 
aspectos da corrente neoclássica com pressupostos do liberalismo conservador. 
A Revolução Francesa de 1789 foi o principal marco da consolidação burguesa. Já em 
seus primeiros momentos o projeto liberal burguês se mostrou reacionário ao próprio 
movimento revolucionário, através da instauração do consulado no processo revolucionário 
francês. A subida de Napoleão Bonaparte teve como principal função frear o próprio 
movimento radical jacobino, marcado no primeiro golpe de 18 de Brumário em 1799, dando 
inicio a Era Napoleônica (1799- 1815). 
Dentro do bojo dos acontecimentos revolucionário, surge dentro do pensamento 
liberal, a crítica ao movimento revolucionário francês, justamente pela sua forma radical. O 
pensamento liberal conservador surge dentro desses acontecimentos, tendo como parâmetro a 
Revolução Inglesa e a Monarquia Constitucional. Os conservadores tinham como 
pressupostos uma forte questão moral no Estado, sendo, portanto, adeptos e defensores das 
tradições feudais do Estado liberal. Dos autores que inauguraram essa vertente, podemos citar 
Edmund Burke (1729-1797) e Alexis de Tocqueville (1805-1859), ambos críticos da forma 
que ocorreu a Revolução Francesa. Se diferenciavam apenas no entendimento da Revolução 
Americana (1776), do qual Tocqueville, sendo francês, apoiou e inclusive, participou 
 
3
 A obra “O Caminho da Servidão” de Von Hayek foi o vencedor do Nobel de Economia de 1974, dividindo o 
título com Gunnar Myrdal da Escola de Estocolmo, sobre sua obra “Teoria da Moeda, flutuações econômicas e 
impactos sociais”. Interessante notar que ambas as obras tinham pressupostos completamente opostos sobre o 
entendimento da moeda e da economia na sociedade, marcando o embate dessas duas teorias econômicas. 
ativamente como teórico
4
 desta revolução. Burke por sua vez, idealizava e defendia um 
Estado liberal ao modo inglês (monarquia constitucional), apoiando uma revolução burguesa 
moderada. Tendo como convergência entre ambos, a defesa à escravidão, a questão moral, 
religiosa e o afastamento da grande massa das questões políticas. (WEFFORT, 2001). 
No século XIX, esses acontecimentos ganharam novos elementos, complexificando-se 
no nascente modo de produção capitalista. Alguns fenômenos ocorridos foram: a formação 
dos primeiros Estados Nacionais modernos, sobre os ideais iluministas, a expansão colonial e 
a formação dos grandes Impérios. 
No entanto, em todo esse processo, o elemento mais importante é o surgimento da 
novíssima classe, o proletariado, nascente das contradições do processo revolucionário 
burguês, entre a nova classe burguesa e a velha aristocracia feudal. Todos esses fatores 
influenciaram na tentativa racional iluminista de explicar o mundo, acarretando em complexas 
correntes filosóficas e políticas de compreensão e transformação do mundo. Entre elas, estão 
as teorias revolucionárias, sobre figura do socialismo de Karl Marx e o anarquismo de 
Bakunin, ambos com a perspectiva de se chegar ao comunismo, porém alterando somente a 
tática e os sujeitos no processo. Do outro lado, as teorias liberais ganharam novos 
pressupostos e vertentes, entre elas o conservadorismo como já exposto, e o liberalismo 
clássico, com os princípios básicos do laissez-faire, sobre forte influência de Adam Smith e 
David Ricardo. 
Germe das grandes transformações, o proletariado despossuído dos meios de produção 
e das ferramentas de trabalho, iniciou os primeiros movimentos contestatórios trabalhistas no 
início do século XIX. Entre os principais, podemos citar o movimento Ludista (1811-12) e o 
Cartismo (1830), este, especificamente na Inglaterra. O primeiro grande levante na Europa 
Continental foi com a Primavera dos Povos em 1848, marcando a força da nova classe 
revolucionária. Esse processo acirrou a luta de classe e a correlação de forças entre elas, 
acarretando nas primeiras conquistas e direitos para os operários. Na Inglaterra, se deu pelo 
novo estatuto da poor laws e a Lei das 10 horas e também o surgimento do primeiro partido 
de massa organizado na Prússia, com a Social-Democracia Alemã (SPD) ambos na segunda 
metade do século. (POLANYI, 2000). 
Marx e Engels em sua vasta obra retratando esse período, nos apresentam em seus 
escritos, a base para compreendermos os constantes embates e as efervescências desse século. 
 
4
 Vide Alexis Tocqueville, A Democracia na América (1835). 
Com a derrota de Napoleão em 1815, Marx
5
 aponta o limite da burguesia no processo 
revolucionário, justamente pelo papel reacionário ao apoio a restauração da monarquia, 
traindo a grande massa que havia a derrubado em 1789. 
Com a primeira grande crise do capital em 1848, a Primavera dos Povos, trouxe para o 
embate político à classe proletária, a síntese das contradições do processo revolucionário. A 
revolução que estava na ordem do dia, foi freada pela repressão do Estado burguês e uma 
sofisticada articulação da burguesia sobre as massas. O apaziguamento do primeiro grande 
levante revolucionário do proletariado, foi resultado no golpe de Estado de Napoleão III, 
sobrinho de Napoleão Bonaparte, sob a égide da burguesia com o apoio do campesinato e da 
pequena burguesia
6
, esse período ditatorial, chamado Segundo Império, durou entre os anos 
de 1851 a 1870, marcado pela repressão aos movimentos operários e intensificação nas 
técnicas de guerra com o processo acelerado industrial e tecnológico. Esse hiato de grandes 
levantes só foi encerrado com a Guerra Franco-Prussiana e a primeira organização autônoma 
de trabalhadores através da Comuna de Paris (1871) do qual iremos discutir. (BARSOTTI, 
2002). 
A Guerra Franco-Prussiana de 1870-71 marcou o primeiro confronto das duas 
principais potências da Europa Continental. O embate se deu através da França, a principal 
potência industrial continental no período, e a Prússia com um vertiginoso crescimento e em 
busca de mercados, junto à necessidade de consolidação de integração dos territórios da 
comunidade germânica
7
. Os motivos para o confronto foram vários, não sendo possível 
aprofundarmos neste texto, porém o pano de fundo era o comando político e da produção 
industrial no Continente Europeu. Dentre os fatores existentes, o que estava em questão era o 
controle da região fronteiriça da Alsácia e Lorena, principal produtora de minério de ferro e 
fonte para a produção industrial francesa, também a reunificação com os demais territórios 
germânicos pela Prússia. Comosabido, ambos os objetivos foram alcançados com a vitória da 
Prússia, a reunificação e formação do Estado Nacional e o controle da região, alavancando a 
economia alemã em seu processo de capitalismo tardio. A importância desses fatos deve ser 
considerada pelo fato de ser a primeira experiência de guerra capitalista entre nações, 
ensaiando o que culminaria na 1ª Grande Guerra. 
 
5
 Seus escritos sobre os acontecimentos de 1848 foram organizados em um livro por Engels, “As Lutas de Classe 
na França” 1895. 
6
 Vide O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1851). 
7
 Com a queda do Sacro Império Romano Germânico (962 – 1806) devido em grande medida as Guerras 
Napoleônicas. O período entre os dois Reich (1806 a 1871) houve uma fragmentação dos seus territórios, porem 
o forte vínculo comercial e cultural já estavam formados como caracterização do povo alemão. Entre seus 
principais territórios estavam o Reino da Prússia e o da Baviera, posteriormente unificados 1870, formando o II 
Reich. 
A derrota humilhante da França, com a ocupação alemã em Versalhes, serviu de 
estopim para a principal experiência revolucionária concreta, realizada pelo proletariado e 
povo
8
 francês. A Comuna de Paris ocorrida em 1871 teve 72 dias da mais avançada 
organização e autogestão das massas. Nesse período, houve uma organização e resistência dos 
communard
9
 nunca visto antes. Além da resistência contra a ocupação prussiana em Paris, a 
Comuna foi a primeira, como disse Marx, “revolução contra o Estado”. Esse fato foi o 
precursor do fortalecimento do proletariado europeu. No entanto, sua derrota de forma 
esmagadora teve como figura a aliança das burguesias francesas e alemãs, retratando mais 
uma vez, a traição da burguesia francesa ao seu próprio povo, com a então Prússia vencedora. 
(MARX, 2011). Del Roio (1998), utilizando a conceituação de bloco histórico de Gramsci 
aponta: “[...] em relação aos acontecimentos que se verificaram na França entre 1789 e 1870”, 
os quais deveriam necessariamente ser vistos em conjunto, já que “só em 1870-71 com a 
tentativa comunalística se esgotam historicamente todos os germes nascidos em 1789.”. (DEL 
ROIO, 1998, p.113). 
Ainda sobre o bloco histórico revolucionário, Del Roio (1998) esmiúça as análises de 
Gramsci, do qual aponta que o movimento iniciado em 1789 e os acontecimentos ocorridos 
durante todo o século XIX, se encerram com a experiência da Comuna de 71. 
 
Embora a revolução burguesa se consolide dentro dos limites do Estado 
nacional e a França tenha desempenhado um papel político-cultural decisivo 
por sua capacidade de difusão e construção hegemônica, esta deve ser 
observada dentro do processo sócio-histórico geral do Ocidente. Gramsci 
percebe claramente que a especificidade da França, enquanto núcleo do 
poder político do Ocidente e difusor da revolução burguesa, estava numa 
concepção e ação política centradas no confronto aberto entre grupos sociais 
como interesses conflitantes: “revolução permanente” como tática de “guerra 
manobrada”. (DEL ROIO, 1998, p. 114). 
 
Dessa forma, como já evidenciado, após a derrota da Comuna encerra-se o período de 
ação direta da classe trabalhadora (1789-1871). Junto a isso, há uma viragem no mundo 
capitalista, que a partir desse momento, inicia-se um forte movimento monopolista dos 
capitais e a potencialização da expansão colonial. O movimento operário se fortifica nos 
principais países industrializados, sendo que o movimento comunista ganha projeção 
principalmente com o surgimento dos primeiros partidos social-democratas e socialistas. O 
elemento revolucionário estava se organizando com a primeira organização dentro do 
primeiro partido moderno que surge através do poderoso Partido Social Democrata Alemão 
 
8
 Concepção de Povo foi utilizada, pois a defesa de Paris pelos Communard era composta pelo operariado 
francês e também em grande parte pelos setores subalternizados denominados por Marx de lupemproletariado. 
9
 Sujeitos que compunham a Comuna. 
(SPD). Nesse período a Alemanha introduz as primeiras políticas assistencialistas, das quais 
somam-se às novas regulamentações sobre melhorias nas condições de trabalho nos demais 
países. Na Inglaterra surge o forte Partido Trabalhista (1900). Gramsci aponta que a 
incorporação dos partidos operários dentro da ordem burguesa sinaliza a tentativa de 
enquadramento e construção de hegemonia liberal á classe trabalhadora, sendo que esse 
processo ocorreu com grande intensidade entre 1871 e 1914. 
 
2.1. O Grande Século 
 
As concepções políticas e econômicas não surgem como “um raio em um dia de céu 
azul”. O jogo de interesses das classes dirigentes marca profundamente as formulações de 
novas teorias e análises. Dentre isso, a ciência tem um peso significativo na formação de 
hegemonia. A busca pela compreensão dos fenômenos foi incorporada por ela, no entanto é 
danosa a busca pela resolução dos fenômenos sociais através de lei universais, como a física e 
a matemática. Desse modo, a revolução marginalista ocorrida na década de 1870, sobre as 
figuras de Leon Walras, Willian Gevons e Carl Menger, marcam a tentativa de matematização 
da Economia Política Clássica e a sua transmutação para uma Ciência Exata Econômica. A 
nova corrente captou aspectos do laissez-faire clássico e da Lei de Say, tendo como 
contraponto a crítica às primeiras políticas assistencialistas e de regulamentação do trabalho 
do final do século XIX. A sua complexificação se deu com o surgimento de novos 
pressupostos, acarretando na corrente neoclássica em meados da década de 1900. A 
incorporação de estudos e técnicas matemáticas buscavam cada vez mais compreender as 
relações econômicas através de cálculos sofisticados. Tendo como base o livre mercado, os 
neoclássicos demonizavam o papel “intervencionista” do Estado e a crescente organização 
sindical e partidária dos trabalhadores. (GALBRAITH, 1989). 
O germe do que seria o neoliberalismo de 1980, já se encontravam na corrente 
neoclássica. Os neoclássicos se dividiram em duas escolas, posta em determinadas 
universidades, como a Austríaca e a de Chicago. A sua hegemonia ganhou força no início do 
século, principalmente na década de 1920. Nesse período, foi observada no campo das 
relações econômicas, a supremacia do capital financeiro, junto à formação dos grandes trustes 
e a intensidade da segunda Revolução Técnico-Industrial, com o fordismo e taylorismo. O 
fordismo é entendido aqui como a primeira grande reestruturação produtiva do século, que foi 
capaz de aglutinar aspectos da ideologia liberal nunca visto antes, tendo em sua premissa, a 
utilização da ciência em seus métodos de produção com o taylorismo. Fundamentou-se com 
uma enorme capacidade produtiva na utilização gigantesca de capital tecnológico, com 
enormes contingentes de mão de obra, na mesma medida que a formação de hegemonia 
através da criação de mercadoria para consumo para os próprios trabalhadores, com uma forte 
questão moral puritana nas questões de prosperidade na terra. “As expectativas das classes 
dirigentes do ampliado núcleo do Ocidente, de que a crise do bloco histórico se resolvesse 
com parcial assimilação e difusão do americanismo, mantendo-se as políticas econômicas 
monetaristas, esvaiu-se em 1929.”. (DEL ROIO, 1998, p. 305). 
O fordismo tinha em seu cerne a imposição do modo de vida moderno, forjando um 
novo tipo de operário, apêndice da grande máquina, porém, usufruidor do carro que constrói. 
Dessa forma, que a nova reestruturação produtiva se mostrou um novo processo de Revolução 
Passiva de construção de hegemonia americana, implicando no enquadramento do novo 
operariado da nova fase de capitalismo moderno, engendrando o século do American way of 
life. 
No período denominado por Del Roio (1998) como a Guerra dos Trintaanos, um dos 
seus principais fatores, foi a crise do bloco histórico ocidental, no que tange a crise 
hegemônica do capitalismo concorrencial clássico. Através disso fora observado à ascensão e 
o declínio de regimes nazi-fascista, que tinham como base de sua política econômica, o 
corporativismo e a implantação do fordismo em seu método produtivo. 
Outro aspecto de extrema importância foi a Revolução Russa de 1917, que através de 
seus planos quinquenais e investimentos na indústria, estavam pondo a então atrasada Rússia 
czarista a uma das principais potencias mundiais sob ideais socialistas. O crescimento e 
predominância da União Soviética (URSS) nesse período como o mundo comunista e 
principal potência do Oriente, projetou a sua imagem bárbara, sendo utilizado pelo Ocidente 
como o Outro Oriente Negativo (DEL ROIO, 1998). A vitória sobre os regimes nazi-fascistas, 
na Guerra Mundial respaldou a revolução dos bolcheviques e a imagem do Império do 
Oriente aos trabalhadores. No entanto, essa imagem, logo teve suas primeiras rachaduras com 
XX Congresso do PCUS, através das denúncias ao stalinismo, causando a maior crise do 
movimento comunista. Esse fato serviu de combustível para a deturpação do Oriente, criando 
novas tensões na incipiente Guerra Fria. Dentro do explosivo século XX, a Revolução 
Chinesa, sob comando do campesinato foi outro evento de extrema importância, marcando a 
força do movimento comunista no Oriente, como grande império comunista, ressaltando o 
outro negativo subalterno oriental. 
 
2.2. O Mundo de Ouro e de Chumbo 
No período que durou aproximadamente, entre 1945 e 1970, chamado de trinta 
gloriosos anos do capitalismo, a classe trabalhadora obteve uma correlação de força favorável 
nunca vista antes. Ao fim da grande guerra, com a presença e a imagem favorecida do Oriente 
externo negativo comunista, criou-se uma condição favorável nas conquistas de direitos, com 
a opção dos grandes sindicatos em realizar um grande acordo com o capital, no qual em linhas 
gerais, os capitalistas e o Estado sediam mais facilmente as pressões dos trabalhadores, 
através de melhores salários e políticas assistencialistas, enquanto coube aos atuar somente na 
atuação econômico-corporativo. 
Consolidando nesse período a implantação da hegemonia burguesa à classe 
trabalhadora, nos moldes fordistas, 
 
A convergência entre liberal-democrata e reformismo social-democrata, 
recompondo a hegemonia burguesa, foi possível com a implantação da 
política econômica keynesiana que, utilizando a capacidade produtiva 
ociosa, pressiona pela expansão do mercado e cria uma relação entre 
emprego, investimento e consumo. Tal política se acopla ainda 
perfeitamente com a difusão do fordismo. (DEL ROIO, 1998, p.321). 
 
O mainstream econômico naquele período era o keynesianismo, o que viria a se 
chamar de neoliberalismo, inspirado na teoria neoclássica, tinha como centro difusor a Escola 
de Viena, se difundindo e ramificando no novo mundo através de Chicago. Inicialmente a sua 
crítica se baseada no forte Partido Trabalhista Inglês, do qual Clement Attlee havia sido o 
primeiro ministro, e a teoria da demanda efetiva de Lorde Keynes, fortemente implantado na 
reconstrução do pós-guerra, junto ao Welfare State. 
 
Um dos espetáculos mais lamentáveis da nossa época é ver um grande 
movimento democrático amparar uma política que infalivelmente acabará 
por destruir a democracia [...] Há, na realidade, poucas esperanças para o 
futuro enquanto o Partido Trabalhista continuar a contribuir para a 
destruição da única ordem política na qual tem sido assegurado pelo menos 
um certo grau de independência e liberdade a cada trabalhador. Os líderes 
trabalhistas que atualmente proclamam terem “rompido de uma vez por 
todas com o louco sistema de concorrência” estão proclamando a sentença 
de morte da liberdade individual. (HAYEK, 2010, p.189). 
 
Apesar da incipiente inserção do neoliberalismo em pleno pós-guerra, Hayek e seu 
grupo de intelectuais, colocavam os grandes sindicatos e partidos operários, como Outro 
interno negativo, sendo a expressão máxima de suas formulações Labour Party. Esse que 
através de uma postura de mesquinhez em busca de seus interesses imediatos, levaria a 
Inglaterra à ruína. No segundo capítulo de “O Caminho da Servidão”, denominado a Grande 
Utopia, Hayek realiza críticas severas ao socialismo, vinculando a sua imagem a escravidão, 
ao despótico antigo e ao totalitarismo. 
 
Nos últimos anos, todavia, os antigos temores quanto às consequências 
imprevistas do socialismo voltaram a ser enfaticamente manifestados nas 
esferas mais inesperadas. Os mais diversos observadores, a despeito da 
expectativa em contrário com que abordam o assunto, têm-se impressionado 
com a extraordinária semelhança, em muitos aspectos, das condições de vida 
nos regimes fascista e comunista. (HAYEK, 2010, p. 49). 
 
Após a grande crise socialista com a denúncia aos crimes de Stalin em 1956, e as 
tensões com a Guerra Fria, a efervescente década de 1960 marcou a busca por novos 
paradigmas de movimentos e segmentos do mundo operário, tanto aos aspectos políticos, 
como culturais. Apesar de sua crise nos países centrais, pautas nacionalistas de independência, 
ganharam força, como na Revolução Chinesa (1959) e principalmente na Revolução Cubana, 
em pleno “quintal” americano, do qual consolidou a visão do outro interno negativo. O Vietnã 
e o processo crescente de luta nas colônias africanas e do Caribe marcaram também essa nova 
faceta da luta de classe, como também a luta por direito civis, trouxeram a tona novas 
demandas ao movimento socialista. 
 
3. A CONTRA REVOLUÇÃO DO IMPÉRIO NEOLIBERAL 
A crise da década de 1970 representou uma nova crise do bloco histórico, pondo em 
cheque, a estrutura econômica produtiva hegemônica até o momento: fordista-keynesianismo. 
O americanismo e o keynesianismo estavam arraigados culturalmente nos Estados Unidos, 
país primeiro a ser afetado pela crise. O keynesianismo implantado ali, ao contrário do 
welfare state europeu estava sendo executado através da política intervencionista em gastos 
militares, como nas intervenções ao sudeste asiático, no Oriente externo negativo. No entanto 
em boa parte da Europa, a hegemonia burguesa havia se consolidado na classe operária, sendo 
que as reivindicações agora só estavam no âmbito econômico-corporativo. Mesmo assim, a 
crise dos anos 70 inicialmente não afetou ao operariado europeu devido à sua organização, 
formação política e conquistas históricas. 
A crise é endógena ao capitalismo, em sua breve história, houve vários episódios, 
sendo a sua primeira com a Primavera dos Povos. Entre vários aspectos, a principal é que ela 
se dá através da queda tendencial da taxa de lucro, devido à recomposição orgânica do capital. 
O processo concorrencial força os capitalistas a reinvestir na produção, sendo essas 
recomposições, as reestruturações produtivas, ou seja, novas formas e técnicas de forjar o 
Homem como apêndice da maquinaria e da planta fabril. No século XIX, o capital industrial 
era o mais importante na cadeia produtiva. Com o desenvolvimento dos grandes trustes se 
criou uma nova forma de capital, o capital financeiro, composto pela união do capital 
industrial com o capital bancário. Essa nova arquitetura do capitalismo, que estava em 
processo de consolidação desde o inicio do século, chegou a seu auge a partir dos anos 70. O 
capital financeiro é a representação do neoliberalismo, é a imagem da ilusão liberal do (valor-
utilidade), com a tentativa de transformação de D-D’ sem o trabalho e sem o processo 
produtivo. 
O neoliberalismo foi a nova investida do capital na tentativa de domínio imperium 
mundi e do Oriente externo negativo. A sua concepção está pautada na exacerbação da 
liberdade individual, buscando romper com todos os lados de coletividade e solidariedade. 
Dessa forma, todas as formas organizativassão danosas para a sociedade, sendo interpretados 
como um movimento de mesquinhez. 
 
As raízes da crise, afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam 
localizadas no poder excessivo e nefastos dos sindicatos e, de maneira em 
geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação 
capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua 
pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos 
sociais. (ANDERSON, 1995, p.10). 
 
Ainda sobre os sindicatos, 
 
não há dúvida de que nenhum fator econômico contribui mais para o sucesso 
desses movimentos do que a inveja do profissional frustrado – do engenheiro 
ou advogado saídos da universidade e do “proletariado de colarinho branco” 
em geral – ao maquinista, ao tipógrafo e a outros membros dos sindicatos 
mais fortes cuja renda muitas vezes era superior à daqueles. (HAYEK, 2010, 
p.124). 
 
Recorrendo ao livre mercado, o neoliberalismo a todo o momento demoniza o Estado, 
como figura despótica, burocrática e intervencionista, principalmente o keynesiano do welfare 
state. O Estado para os neoliberais devem cumprir unicamente a função de segurança e defesa 
da propriedade privada, junto com o controle rígido da moeda. O crescimento econômico é a 
sua vaca sagrada, não importando os meios ou remédio a ser utilizado, como o desemprego, 
sendo essencial para o crescimento neoliberal, deixando as políticas sociais em segundo 
plano. 
Hayek expõe sobre a supressão do desemprego (2010, p. 194). “É nesse campo, com 
efeito, que o fascínio de expressões vagas, mas populares como “pleno emprego” pode 
conduzir adoção de medidas extremamente insensatas, [...] “isso desse ser feito a qualquer 
custo”, pode produzir os maiores danos.” Ou seja, índices e a questão dos empregos não estão 
em primeiro entre seus principais teóricos. 
 
3.1.A inserção neoliberal 
 
Após a sua visibilidade na década de 70, a implantação do programa neoliberal nos 
países centrais, só foi ocorrer na década seguinte. A vitória de Reagan e Thatcher, nos EUA e 
na Inglaterra, respectivamente, emplacou em uma nova viragem no mundo. Como um castelo 
de cartas, os partidos social-democrata, trabalhistas e socialistas, foram perdendo as suas 
respectivas eleições. Juntamente com a nova onda conservadora dos partidos, até em países 
cujo welfare state foi posto como prioridades em suas políticas públicas, no decorrer da 
década de 1980 e 1990, pouco a pouco, fora adotando o receituário neoliberal. Pensando o 
neoliberalismo, como um processo de revolução passiva, dentro das estruturas do fordismo-
keynesianismo, e como novo instrumento de combate ao Oriente externo negativo, Anderson 
(1995) aponta, “O ideário do neoliberalismo sempre havia incluído, como componente 
central, o anticomunismo mais intransigente de todas as correntes capitalistas do pós-guerra. 
Como já apontado o neoliberalismo, dentro da sua capacidade hegemônica, fora 
implantada dentro das particularidades de cada país, tendo algumas vereanças. A primeira 
experiência neoliberal fora dada no Chile com a ditadura de Pinochet (1973-1990), sob a 
égide dos Chicago boys
10
. A experiência chilena, apesar de ocorrer no ocidente subalterno, foi 
o laboratório para a sua implantação aos demais países a posteriori, inclusive nas economias 
periferias do capital nos anos 1990. (ANDERSON, 1995) 
No entanto nos países centrais, o neoliberalismo fora adotado diferentes maneiras. No 
caso europeu, a Inglaterra com o maior exemplo, Thatcher, quebrou literalmente os sindicatos 
com uma dura repressão estatal a toda organização trabalhista e as suas reivindicações, com o 
discurso “não há alternativa”. Outra maneira foi às privatizações de setores chave da 
economia como o energético. Para Thatcher, incorporando os preceitos neoliberais, o inimigo 
não era somente a “crise”, mas as organizações dos trabalhadores, ou seja, com uma ampla 
campanha política ela implantou uma política anti-sindical, projetando a imagem do outro 
interno negativo as organizações operárias. Fora do continente Europeu, os EUA, que nunca 
 
10
 Chicago boys, foi o termo utilizado pra designar a equipe econômica que atuou no Chile durante a ditadura de 
Pinochet. Essa equipe contava em torno de 20 economistas, que tinham em suas formações os ideais neoliberais 
ambos estudaram na Universidade de Chicago, bastião neoliberal. 
tiveram uma política de welfare State, tiveram as políticas neoliberais via política de 
endividamento das contas públicas através de grandes empresas estatais propagandeadas. 
Com a ocidentalização e desintegração do Estado feudal-socialista do Oriente, as 
forças do mal estavam vencidas, o “fim da história”, como preconizou Francis Fukuyama 
(1992), estava posto. Passado uma década os resultados neoliberais não surtiram efeito, no 
entanto a sua força política hegemônica já estava consolidada. A periferia do capital através 
da crise da dívida dos anos 80 empurrou os países à adoção ao receituário neoliberal. Partidos 
se autodenominaram de centro ou esquerda, como os socialdemocratas e trabalhistas, tanto 
nos países centrais como na periferia, dos quais, pouco a pouco foram se adequando aos 
preceitos do neoliberalismo. 
Nos anos 90, o processo de abertura ao sufrágio no cone sul da América, foram 
inundadas pelas reformas liberalizantes, os programas foram postos a todo vapor, sobre o 
discurso da inserção global dos países na economia mundial. Embasado pela crise da década 
de 80, surgiram novos discursos na ordem democrática pautado na responsabilidade e na 
gestão eficiente. As forças partidárias, progressistas daquele período, adotaram o discurso 
“legalista” da responsabilidade econômica. Dessa forma, a classe operária ficou a mercê dos 
desdobramentos ocorridos. Anderson (1995) aponta essa característica nas democracias recém 
redemocratizadas, “[...] há um equivalente trauma da ditadura militar como mecanismo para 
induzir democrática e não coercivamente um povo a aceitar políticas neoliberais das mais 
drásticas.”. (p.21). 
Com a vitória de Bill Clinton (1993-2001) e Tony Blair (1997-2007) ainda nos anos 
90, pôde ser observada, a incorporação neoliberal em seus governos e discursos. Blair através 
de seu guru Anthony Giddens, cunhou a nova forma de política com a chamada “A Terceira 
Via”. Essa política encabeçada por Blair buscou rearticular o partido trabalhista em novas 
bases, sendo mais flexíveis as questões neoliberais, como aponta Giddens (1999): “O objetivo 
geral da política da terceira via deveria ser ajudar os cidadãos a abrir seus caminhos através 
das mais importantes revoluções de nosso tempo: globalização, transformações na vida 
pessoal e nosso relacionamento com a natureza.” (p. 74). Há uma alteração gravitacional 
histórica dentro do partido, alterando completamente a essência de Clement Attle (1949) em 
sua obra “Bases e fundamentos do trabalhismo.”. Esse movimento foi observado na 
incorporação das políticas neoliberais, pelos partidos ditos eurocomunistas como já apontado. 
No Brasil, o processo ocorreu, em linhas gerais, da mesma forma. A Constituição de 
1988 (CF/88), chamada de constituição cidadã, pelo seu espelho ao Welfare State europeu, 
sucumbiu ao avanço neoliberal dos anos 90. O esgotamento do programa neoliberal de 
Fernando Henrique Cardoso (FHC) (1995-2002) colocou pela primeira vez, um partido 
operário no executivo, sob o comando de um ex-metalúrgico nordestino, fato nunca 
observado na história do Brasil. O discurso de Lula da Silva (Lula) (2003-2010), 
historicamente antineoliberal, mesmo dentro do âmbito econômico-corporativo, foi se 
adequando ao programa neoliberal. A carta aos “banqueiros” “corrijo aos “brasileiros”, selou 
o compromisso do governo de esquerda com o mercado financeiro e a continuidade em linhas 
gerais das políticas de FHC. A fala do Ministro da Fazenda,Antônio Palocci, como “em um 
transatlântico a gente não dá cavalo-de-pau
11
”, mostra o compromisso e aceitação do governo 
à continuidade da agenda econômica neoliberal
12
, como observado em todos os anos do 
governo Lula. Apesar da continuidade da macroeconomia neoliberal, o período chamado de 
lulismo (2003-2010) é observado justamente pelo fato da primeira vez na história, ter-se visto 
uma diminuição dos índices de desigualdade social e continuidade econômica neoliberal. 
 
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Deste modo, apresentadas algumas considerações sobre esse fenômeno chamado 
neoliberalismo é observado que em menos de meio século, o pequeno grupo de intelectuais, 
consolidou a sua teoria como principal força hegemônica e condutora do imperium mundi. 
Resgatando aspectos do liberalismo clássico pautados na corrente neoclássica, essa 
força rearticulou todas as frações burguesas em um processo de Revolução Passiva dentro do 
bloco histórico. Outro aspecto de extrema importância no neoliberalismo é a transposição da 
sua imagem como moderna e ocidental, subjugando povos inteiros aos interesses econômicos 
corporativos sediados nos países centrais. 
Desta forma que é preciso analisar esse processo hegemônico, em conjunto com as 
suas particularidades para compreender a sua essência, a sua universalidade. Somente assim 
analisando dialeticamente, podemos alterar a realidade concreta, suprimindo dessa forma, a 
cultura burguesa e construindo dentro da realidade objetiva uma hegemonia proletária, 
encerrando a pré-história da humanidade. 
 
 
 
Referencias bibliográficas 
 
11
 Leia a matéria http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2705200307.htm. Noticia 27 de maio de 2003. 
12
 Em linhas gerais, a política econômica do governo Lula, foi a mesma de FHC, optou-se a continuidade do 
tripé econômico: superávit primário, cambio flutuante e metas de inflação. 
 
ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. In: GENTILI, P.; SADER, E. (Orgs). Pós-
neoliberalismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007. p. 9-37. 
 
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pensamento marxiano. Tese de Doutorado em História Econômica, Universidade de São 
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São Paulo: Paz e Terra, 2007. 
 
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Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 241-265. 
 
HAYEK, F.A. O Caminho da Servidão. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 
2010. 
 
MARX, K. As Lutas Classe na França de 1848 a 1850. São Paulo: Boitempo, 2011. 
 
POLANY, K. A Grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro, Editora 
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WELFFORT, F. (org.) Os Clássicos da Política, 2º volume. São Paulo: 10 ed. Ática, 2001.

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