A REBELIÃO DAS MASSAS
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A REBELIÃO DAS MASSAS


DisciplinaTeoria e Método em Geografia105 materiais3.171 seguidores
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um regime de discussão (61), etc. etc.). 
     Insisto, pois, com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis, que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna, especialmente da forma que esta civilização no século XIX. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V; não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa, como, segundo Aristóteles, os girinos na alverca, mas é o seu fruto natural. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. Isto é verdade, tanto na ordem espiritual como na física. Assim, para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal, recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. Nos trópicos, o animal-homem degenera, e vice-versa, as raças inferiores - por exemplo, os pigmeus - foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). 
     Pois bem, a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previdentes, de direitos cômodos. Ignora, por seu turno, o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção; não percebe o instável que é a organização do Estado, e mal sente dentro de si obrigações. Este desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente, fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida, que é absoluto perigo, radical problematismo. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". Por isso, quando se torna figura predominante, é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração; quer dizer, de relativa morte. Segundo isto, o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano; mas se olhamos o porvir, faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado, porém, pelo contrário, que retroceda e recaia em altitudes inferiores. 
     Isto, penso, faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. Com efeito, o "filho de família" forja para si esta ilusão. Já sabemos por que: no âmbito familiar, tudo, até os maiores delitos, pode ficar no final das contas impune. O âmbito familiar é relativamente artificial, e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade, no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa, aquele que acredita que nada é fatal, irremediável e irrevogável. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem, como se diz ao papagaio no conto do português. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa; é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer, tem que ser. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer; mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio - a nolição -. Podemos perfeitamente desertar de nosso destino mais autêntico; mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal, porque não conheço a cada leitor, mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. Por exemplo: todo europeu atual sabe, com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas, que o homem europeu atual tem de ser liberal. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe, no fundo de sua consciência, que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é, em última instância, algo iniludível, inexorável, que o homem ocidental de hoje é, queira ou não queira. 
     Embora se demonstre, com plena e incontrastável verdade, que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre, inscrito no destino europeu, fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista, por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário, como atua - queira ou não queira, creia-o ou não - no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste, uma verdade que não é teórica, científica, intelectual, mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso - a saber, uma verdade de destino -. As verdades teóricas não são discutíveis, mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas; nascem da discussão, vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. Mas o destino - o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser - não se discute, mas sim aceita-se ou não. Se o aceitamos, somos autênticos; se não o aceitamos, somos a negação, a falsificação de nós mesmos (65), O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer; mas melhormente se reconhece e mostra seu claro, rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. 
     Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e, entretanto, e por isso mesmo, fingir com seus atos e palavras a convicção contrária, O fascista se mobilizará contra a liberdade política, precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério, mas que está aí, irremediavelmente, na substância mesma da vida européia, e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária, na hora das seriedades. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade, a "piada". O que fazem, fazem-no sem o caráter de irrevogável, como faz suas travessuras o "filho de família". Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas, últimas, talhantes, é só a aparência. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. 
     Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente, devemos afirmar que não o crê, por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. 
     Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino, a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda, a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. Há humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis, em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo; pelo contrário, vegeta suspenso ficticiamente no espaço. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz - déracinées de seu destino - se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos