Direito Constitucional Parte 1 (CEJ)
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Direito Constitucional Parte 1 (CEJ)


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e igualdade individual perante a lei), a fraternidade (solidariedade como dever jurídico, ainda que inexistente no meio social a fraternidade enquanto virtude cívica) etc.
Assim afirma a Declaração dos Direitos do Homem de 1789 (França):
Os representantes do povo francês, constituídos em Assembléia nacional, considerando que a ignorância, o descuido ou o desprezo dos Direitos Humanos são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos governos, resolveram expor, numa declaração solene, os Direitos Naturais, inalienáveis e sagrados do homem (...)
Art. 2. A finalidade de toda associação política é a conservação dos Direitos Naturais e imprescritíveis do homem. Tais direitos são a liberdade, segurança, propriedade e resistência à opressão.
Através da perspectiva jusnaturalista, delineia-se que \u201cfoi numa perspectiva filosófica que começaram por existir os Direitos Fundamentais. Antes de serem um instituto no ordenamento positivo ou na prática jurídica das sociedades políticas, foram uma idéia no pensamento dos homens.\u201d
As características desses direitos seriam a sua natureza atemporal, eterna, imutável, absoluta (irresistível, inquestionável), e seriam as fontes dos valores universais que orientavam a ciência, a sociedade e o desenvolvimento humano.
Originalmente, era disseminada a designação \u2018Direitos Naturais\u2019, pois essa categoria de direitos era tida como universal e imutável, decorrente da própria natureza humana, enquanto (i) criada à imagem e semelhança de Deus ou (ii) enquanto ser racional. Com a evolução histórica e a positivação desses Direitos Naturais, passou-se a preferir, nos países anglo-saxões e latinos, a expressão \u2018Direitos do Homem\u2019, mas que foi, por ocasião da fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), substituída por \u2018Direitos Humanos\u2019 na medida em que aquela não necessariamente contemplava as mulheres, conforme proclamado pela Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Viena em 1993, nos seguintes termos:
Todos os Direitos Humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os Direitos Humanos globalmente, de modo justo e eqüitativo, com o mesmo fundamento e a mesma ênfase. Levando em conta a importância das particularidades nacionais e regionais, bem como os diferentes elementos de base históricos, culturais e religiosos, é dever dos Estados, independentemente de seus sistemas políticos, econômicos e culturais, promover e proteger todos os Direitos Humanos e as liberdades fundamentais.
Fundamentos
Para Kant, o único direito natural por excelência ou inato é a liberdade e todos os demais direitos seriam decorrentes e portanto, jamais poderiam ser modificados, e poderiam ser conhecidos a priori pela razão e independiam da legislação externa. O mesmo aconteceria com a igualdade inata, isto é, a impossibilidade de ser obrigado pelos demais a mais coisas do que aquelas a que estão obrigados com respeito a nós.
Atualmente, a crítica que se faz em relação aos Direitos Naturais é que os mesmos não são positivados e determinados, ou seja, quais direitos seriam estes?
Vieira de Andrade argumenta que existe um sério debate sobre os Direitos Fundamentais. O que é ou caracteriza um direito fundamental? Porque alguns direitos são considerados fundamentais e outros não? Ele diz que, em último caso, quando não se consegue diferenciá-los, deve-se recorrer às idéias do direito natural que partem da natureza humana.
A doutrina ainda discute a distinção entre Direitos Humanos e Direitos Fundamentais. Entende:
Direitos Humanos - aqueles direitos reconhecidos pelos tratados internacionais;
Direitos Fundamentais - aqueles direitos essenciais incorporados às Constituições dos Estados.
Em regra, os Direitos Fundamentais encontram-se nas Constituições; contudo podem exteriorizar-se através de outras leis. É verdade, entretanto, que estão melhor resguardados quando inseridos numa Constituição por conta do seu processo dificultoso de reforma.
À exceção da Inglaterra, que não possui uma Constituição formal, todos os países que adotam um pacto escrito nele inserem os Direitos Fundamentais. Por outro lado, é preciso dizer que a maior garantia de respeito aos Direitos Fundamentais encontra-se na consciência do povo da sua importância para o avanço do processo civilizatório.
Os Direitos Fundamentais não nascem todos de uma vez nem de uma vez por todas. Da mesma forma nem sempre são encontrados apenas no documento constitucional, muito embora preferencialmente este seja o seu lugar.
Conforme anota José Carlos Vieira de Andrade, os Direitos Fundamentais apresentam-se em Dimensões por conta do processo histórico pelo qual passam. Essas dimensões impõem aos Direitos Fundamentais conotações cada vez mais ricas, tendo-se em consideração as novas necessidades sociais.
Acrescente-se aos novos problemas nos países da Europa a quebra de barreiras entre os países da Comunidade Européia, com a transferência de tarefas estatais para instâncias supranacionais, fazendo com que a Constituição nacional vá perdendo seu lugar e importância, superada por uma Constituição transnacional.
Nessa primeira fase da integração européia, é clara a insuficiência e compatibilização dos diversos ordenamentos jurídicos, a qual acabará sendo suprida pelo recurso a uma lei natural, eterna e imutável, distinta do sistema normativo institucionalizado.
Enquanto não surge um dispositivo constitucional que abrigue a recepção de todos e quaisquer Direitos Fundamentais que tenham por precisa objetividade a tutela da dignidade da pessoa humana, aplicar-se-ia os ideais do humanismo apregoados pelo direito natural, como forma supletiva ou integradora das lacunas existentes.
Bobbio\ufffd ao analisar as origens históricas do direito natural e do direito positivo, estabeleceu uma distinção entre direito natural e direito positivo partindo das várias definições históricas quanto ao conteúdo conceitual.
	Direito Natural
	Direito Positivo
	1. Universalidade - O direito natural vale em qualquer lugar.
	1. Particularidade - O direito positivo vale apenas em alguns lugares.
	2. Imutabilidade - O direito natural vale sempre.
	2. Mutabilidade - O direito positivo vale em certos momentos.
	3. Fonte do direito - A fonte do direito natural é a própria natureza.
	3. Fonte do direito - A fonte do direito positivo é a vontade do legislador (governante - povo).
	4. Modo de conhecimento - O direito natural é conhecido pela razão.
	4. Modo de conhecimento - O direito positivo é conhecido quando se conhece a vontade do legislador.
	5. O objeto do direito - O direito natural regula comportamentos que são bons ou maus por si mesmos, indiferentes à vontade do legislador.
	5. O objeto do direito - O direito positivo regula comportamentos que em si mesmos são indiferentes e que passam a ser bons ou maus de acordo com a vontade do legislador.
	6. Fim do direito - O direito natural estabelece o que é bom e justo.
	6. Fim do direito - O direito positivo estabelece o que é útil.
2 - Perspectiva estatal ou constitucionalista
São os Direitos Fundamentais propriamente ditos, ou seja, aqueles positivados na Constituição, significando o estudo das Declarações de Direitos Fundamentais nas diversas Constituições.
Continuando no raciocínio de Vieira de Andrade, a perspectiva constitucional ou estatal refere-se à garantia Constitucional de certos direitos ou liberdades, que o autor inicia, fazendo referência à Carta Magna de 1215 aos sucessivos documentos constitucionais ingleses, em especial, ao documento francês de 1789 e às Constituições atuais.
Ademais, é importante ressaltar que a relevância dos Direitos Fundamentais do ser humano atingiu uma esfera global com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Paris, em 10 de dezembro de 1948; afirmando como tais os direitos individuais, sociais e políticos.
BOBBIO salienta-nos tal importância quando coloca que:
A Declaração Universal representa a consciência histórica que a humanidade tem dos próprios valores fundamentais
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