PROC. DE TRAB. EM SERV. SOC. I
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PROC. DE TRAB. EM SERV. SOC. I


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PROCESSO DE TRABALHO
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Aula 1:
 A Categoria Trabalho na Perspectiva Marxista
Vamos começar a aula com uma pergunta: O que é trabalho?
Essa é uma pergunta interessante e a resposta, ao contrário do que se pode pensar imediatamente, não é simples ou óbvia. Vamos compreender a origem da palavra trabalho. Essa é uma pergunta interessante e a resposta, ao contrário do que se pode pensar imediatamente, não é simples ou óbvia. Vamos compreender a origem da palavra trabalho.
 A palavra trabalho tem sua origem na palavra latina tripalium, que dizia respeito a instrumentos de tortura que eram utilizados para subjugar tanto escravos quanto animais à realização de determinadas tarefas. Podemos compreender que daí decorre o sentido negativo do conceito trabalho. Essa compreensão está correta, mas não é suficiente, porque, como veremos, o conceito trabalho não possui apenas um sentido negativo, possui também um sentido positivo.
O sentido negativo do trabalho pode ser atestando se pensarmos nessa atividade como algo que de fato submete um homem, ou um coletivo de homens, à obrigação de realizar atividades determinadas para a satisfação de necessidades de outros homens.
Entretanto, na perspectiva marxista, ou seja, nas obras de Karl Marx, o trabalho é compreendido como atividade essencial do ser humano, genérica para a satisfação de suas necessidades. O trabalho é um processo inerente ao ser humano e que constitui a sua especificidade.
É a mediação na relação entre homem e natureza, porque é o trabalho que cria valor de uso, como trabalho útil. De acordo com esta perspectiva crítica, o trabalho é assumido como condição da existência social do sujeito (MARX, 2010). Podemos afirmar que esta definição corresponde a/ao dimensão/sentido positivo do trabalho.
Para Marx, o homem se afirma como um ser humano genérico e diferencia-se dos outros animais precisamente pela sua capacidade de construir e transformar coisas para atender demandas que extrapolam suas necessidades básicas. A natureza constitui-se em fonte de valor de uso tanto quanto o trabalho. O trabalho constitui-se como a atividade ou o processo prático, ativo de transformação da natureza para a satisfação de finalidades.
A existência humana está condicionada à relação com a natureza. Não há possibilidade conhecida até o momento de apartação entre homem e natureza. A própria reprodução dos homens possui essencialmente uma determinação que é biológica. O que significa afirmar que, por mais desenvolvida que seja a sociedade, ela não pode prescindir de sua base natural (LESSA, 2006). \u201cSem a transformação da natureza pelos homens \u2013 e sem a reprodução biológica \u2013 não há história humana\u201d (LESSA, 2006, p. 1).  Por que o ser social é diferente do mundo natural?
magine-se um náufrago sozinho numa ilha distante da civilização. Pense em quais seriam as suas prioridades. Possivelmente, elas estariam atreladas às necessidades de primeira ordem para sua sobrevivência imediata (alimentação, hidratação, vestes para proteção da pele, entre outras coisas). Como você faria para atender a essas necessidades?
Você então encontra cocos que, além de servirem como alimento, são ótimos para hidratação. Você encontra-se diante de uma necessidade que é abrir o coco. Imediatamente pensa em alternativas possíveis para quebrá-lo.  
Dentre as alternativas que imaginou, escolha uma como prioritária: decide construir um instrumento que sirva para abrir o coco. Você então visualiza um pedaço de madeira e uma pedra pontiaguda. Utiliza um cipó para amarrá--los e produz um machado para quebrar o coco e satisfazer sua necessidade, alcançando assim o seu objetivo.
De acordo com o exemplo citado, temos o seguinte entendimento:
O homem possui uma necessidade e a identifica (por exemplo: alimentar-se \u2013 encontra o coco).
Para satisfazer a sua demanda, precisa quebrar o coco.
Age teleologicamente, ou seja, projeta na consciência o resultado final de sua ação e identifica as possibilidades disponíveis para alcançá-lo.
Deste ato resulta que o homem transforma a natureza e a si próprio.
É preciso destacar que, diferente dos animais, o ser humano, antes de realizar uma ação qualquer, projeta antecipadamente em sua consciência o resultado final de sua ação. Ou seja, considerando o exemplo, a produção do machado para quebrar o coco ocorre tendo o homem consciência do que quer construir para qual finalidade. A isso se atribui o nome de teleologia ou prévia-ideação.
Entre outras coisas, é a capacidade teleológica que vai distinguir a atividade humana das atividades dos animais. Estes últimos agem por instinto. A abelha possui a capacidade de construir uma bela colmeia, mas é o engenheiro que consegue antecipar em sua consciência o resultado final do prédio que deseja construir antes mesmo de começar a obra (MARX, 2010).
Engels (2004) fornece outro exemplo ilustrativo dessa diferença. Sinaliza que tanto uma manada de macacos, quanto uma matilha de lobos não realizam trabalhos.
Os macacos contentam-se em devorar os alimentos de uma determinada área e prosseguir para outra que lhe fornecesse alimentação, ainda que para isso tivessem que disputar esta nova área geográfica com outra manada.
Os lobos não identificam que é a cabra que devoram que lhe proporcionaria possivelmente a alimentação do ano posterior.
Vamos agora complementar a nossa compreensão sobre a definição crítica de trabalho: já sabemos que o trabalho é a fonte fundamental da vida humana e constitui-se como processo de transformação da natureza para a satisfação de necessidades, sendo este processo (de trabalho) composto pela prévia-ideação (ou teleologia) e pela objetivação.
O trabalho assume importância central uma vez que se constitui, entre outras coisas, como atividade necessária a toda práxis e essa última é fundamental para a transformação da realidade.
A práxis pode ser entendida como uma atividade real de transformação do mundo e não apenas como práxis teórica (VAZQUEZ, 2007). Disso podemos concluir que se em toda práxis há trabalho, nem todo trabalho se constitui como práxis. Isso porque na sociedade capitalista o trabalho deixa de se realizar como atividade criativa, criadora e libertadora do homem e se transforma em uma mercadoria vendida ao capitalista em troca de determinada remuneração.
Esse tipo de trabalho (chamado por Marx de trabalho estranhado ou alienado) constitui-se a segunda (e negativa) dimensão do trabalho.
Na perspectiva marxista, o trabalho é compreendido como mediação de primeira ordem, cujo principal objetivo está atrelado à manutenção das necessidades vitais tanto do indivíduo quanto da sociedade (ANTUNES, 1999).
As funções vitais de mediação de primeira ordem podem ser elencadas num universo que vai:
\u201cda necessidade mais ou menos espontânea de regulação da atividade biológica reprodutiva; regulação do processo de trabalho; o estabelecimento de trocas compatível com as necessidades requeridas (...) a constituição e organização de regulamentos societais designados para a totalidade dos seres sociais, em conjunção
com as demais determinações e funções de mediação primárias\u201d (MÈSZÁ, 1995, p. 138).
É relevante atentar para o fato de que nenhuma das demandas acima necessita de mecanismos de hierarquia e/ou dominação/exploração para se realizarem. Essa característica é o que diferencia as mediações de primeira ordem das mediações de segunda ordem.
Vamos recordar novamente que, na elaboração marxista, o trabalho é concebido como mediação de primeira ordem. Vale registrar ainda que estas funções vitais de mediações de primeira ordem acompanham a humanidade desde os tempos mais remotos.
Em contrapartida, as mediações de segunda ordem emergem num determinado momento do desenvolvimento da história humana, momento que corresponde à constituição do sistema do capital.
O surgimento do sistema de mediações de segunda ordem afeta profundamente o sistema de mediações de primeira ordem e demanda, segundo Mèszáros (1995), de condições específicas que garantam a sua vigência.
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