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DisciplinaDireito Processual do Trabalho I4.052 materiais54.948 seguidores
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incompatível com sua doutrina a ascensão do proletariado pela via eleitoral, é elucidativa a observação 
de George Cole: 
O Partido Social Democrático Alemão de 1875, embora adotasse em grande parte o marxismo 
como credo histórico, na prática aceitava essa necessidade (de apresentar um projeto de reforma 
dentro do sistema), sem a qual não teria sido possível a fusão com os lassalistas. Marx, que 
recebera de seus adeptos alemães um exemplar adiantado da proposta das condições da fusão, 
protestou energicamente contra o que considerava uma traição aos princípios socialistas; seus 
adeptos suprimiram o longo e arrazoado protesto (que foi publicado como Crítica ao Programa de 
Gotha, somente muitos anos após sua morte). Marx não publicou suas opiniões, compreendendo 
que os eisenachers o repudiariam se o fizesse. A democracia social nasceu em conseqüência de um 
compromisso ao qual o homem geralmente considerado como seu profeta era violentamente 
contrárioxxxix. 
Como anota Mario de la Cueva, a Alemanha vivia enfim \u201cuma extraordinária contradição: um 
progresso industrial incomparável e um grande movimento socialista, perigo grande para o progresso 
industrial, pois a crescente agitação ameaçava destruir a paz social e deter, por greves e movimentos 
obreiros, o trabalho normal nas fábricas\u201dxl. Bismarck, o Chanceler de Ferro, percebera a importância 
do movimento obreiro e entabulara negociação com Lassalle. Todavia, a morte de Ferdinand Lassalle, 
 
 
em duelo, no ano de 1864, evidentemente significara um estorvo nesse processo de conquistas dos 
trabalhadores alemães. 
De toda sorte, o temor dessa influência socialista em meio à classe proletária fez Bismarck 
precaver-se, expedindo uma regulamentação minudente das relações de trabalho, em que inclusive 
limitava a vontade dos contratantes - bom auspício! - no que tocava, entre outros assuntos, às medidas 
de proteção à saúde e à vida dos trabalhadores, às normas para o trabalho de mulheres e crianças e às 
disposições a propósito da vigilância obrigatória das empresas. 
 
 
 
2 HISTÓRIA DO DIREITO COLETIVO DO TRABALHO 
Augusto César Leite de Carvalho 
2.1 Direito coletivo e institutos afetos \u2013 sindicato, greve e convenção coletiva 
Não há como dissociar o sindicato, o direito de greve e a convenção coletiva do trabalho, 
institutos que são a melhor expressão do fenômeno social mais expressivo dos dois últimos séculos, o 
sindicalismo. 
O sindicalismo nasceu como um movimento espontâneo dos trabalhadores que estavam 
concentrados em torno das cidades industriais e, movidos pelo instinto gregário, perceberam que a sua 
união os fortalecia na luta contra as condições desumanas de trabalho que lhes estavam sendo 
impostas. Não sem razão, a Inglaterra que se fez berço da revolução industrial gerou a primeira forma 
de associativismo a que se pôde emprestar o atributo de sindicato: a trade union. 
Passado o primeiro impacto da Grande Revolução, os trabalhadores formaram coalizões, que se 
dissolviam após a vitória ou insucesso do movimento. Os sindicatos vieram depois, quando as 
vantagens de se instituírem organismos permanentes fora percebida pelos trabalhadores. Sanseverino 
situa entre 1815 e 1848 a fase das coalizões e anota que \u201co mundo do trabalho encaminhou-se, 
definitivamente, rumo à consciente conquista da liberdade sindical\u201d quando publicado o Manifesto 
Comunista de 1848, por Marx e Engelsxli. 
É preciso ver que o sindicato não derivou de outras formas precedentes de associativismo, sendo 
merecedora de apupos ou poucos aplausos a doutrina que sugere os colégios romanos, as guildas 
(entre germânicos e saxônicos) ou as corporações de arte e ofício como organizações que se tenham 
convertido em sindicatos, quando estes experimentavam o seu estado germinal. Não há investigação 
histórica que permita certificar, por exemplo, que trabalhadores assalariados tivessem ingresso nos 
colégios de Roma, como observa Russomano, que acentua os fins preponderantemente mutualistas dos 
collegia, dada a \u201csua finalidade de ajuda recíproca entre os que se dedicavam ao mesmo ofício e para 
defesa dos interesses resultantes da similitude das posições por ele ocupadas na vida romana\u201d. 
O movimento colegial guarda semelhanças, porém, com a experiência vivida pelos sindicatos. 
Após se expandirem, num crescimento espontâneo, e passarem a exercer influência no 
encaminhamento dos problemas do Império, o Senado Romano proibiu o seu funcionamento, à 
exceção apenas dos oito colégios criados por Numa Pompílio. Em estudo proveitoso, Russomano 
assinala que se seguiu a represália, mas \u201cas novas forças se organizam e dispõem-se a enfrentar, ao se 
sentirem poderosas, a resistência do Estado\u201d. A Lex Clodia (ano 59 a. C.) reconheceu enfim o direito 
de associação mas Júlio César percebeu a prosperidade dos colégios e resolveu novamente aboli-los. 
Em 56 a. C, após a morte de César, Augusto editou a Lex Julia, que reconheceu direitos e privilégios 
dos colégios romanos mas os transformou em órgãos oficiosos do Estado Romano, inclusive quanto à 
arrecadação de contribuições fiscais. É ainda do mestre gaúcho o remate: 
A crônica dos colégios mostra que há irresistível tendência à repressão, pelo Estado, das novas 
forças sociais, que podem atuar, mais tarde, algumas vezes, em tom de contestação, em face do 
próprio Estado. Sucede-se, em geral, o reconhecimento de sua livre expansão e, logo depois, em 
uma etapa terciária, o Estado trata de intervir através de sistemas de controle e condução, em 
proveito próprio, das novas forças desencadeadas pela vida das comunidades. Isso se deu, 
exatamente, com os colégios romanos. E aquilo que ocorreu em Roma, vários séculos antes de 
Cristo, ocorre, ainda hoje, neste século interplanetário e tecnológico que levou nossos passos além 
das estrelas que nossos olhos conheciamxlii. 
As guildas (ou gildas) tinham caráter mercantil e não laboral, tendo dado origem às ligas de 
mercadores dos mares do norte europeu. Sobre as corporações de arte e ofício, pode-se dizer que o 
 
 
movimento das companhias (ou compagnonnages - reunião de companheiros com fins 
reinvindicatórios) significou o primeiro momento em que o monopólio dos mestres fora posto à prova, 
no regime corporativo. Mas é também pertinente, quanto ao mais, a lição de Mozart Victor 
Russomanoxliii: 
As corporações representaram a organização de classes, segundo critério unilateral, dispostas essas 
classes em planos sucessivos e níveis hierárquicos ascendentes (do aprendiz ao mestre). O 
sindicato, ao contrário, é um movimento bilateral, que parte do confronto entre trabalhadores e 
empresários e, por isso, os coloca, frente a frente, em sindicatos distintos e opostos, em evidente 
paralelismo, mas sobre o mesmo plano. 
O sindicato foi, portanto, a forma associativa que se constituiu no sistema capitalista de 
produção, visando à defesa dos interesses coletivos dos trabalhadores. Contra estes, somavam-se o fim 
das corporações medievais com a ruptura da estrutura econômico-social, o maquinismo e a 
transformação do homem, enfim, de artesão a operador da máquina que, a custo menor e em maior 
quantidade, operava a mutação da matéria. A produção de bens ou serviços já não mais dependia da 
aptidão artística ou especialização do homem profissional, podendo mulheres e crianças prestar, com 
salário reduzido, o mesmo trabalho. 
Esse sentimento de angústia e desamparo por que passava o trabalhador é associada por Deveali 
às causas sociais do sindicalismo, em passagem emblemática de sua obra: \u201cEssa transformação de 
caráter psicológico tem, na nossa opinião, uma influência preponderante na formação da mentalidade 
classista que é o efeito e a causa, por sua vez, da união de massas indiferençadas, unidas 
exclusivamente por uma dor comum, por um sentir comum e pelo mesmo desejo de libertação, se não 
de vingança\u201dxliv. 
O sindicalismo