Domingos Afonso Kriger Filho - O Contrato de Seguro no Direito Brasileiro
385 pág.

Domingos Afonso Kriger Filho - O Contrato de Seguro no Direito Brasileiro


DisciplinaDireito Civil III8.889 materiais73.758 seguidores
Pré-visualização50 páginas
então, os corpos jurídicos das seguradoras
têm se dedicado na árdua tarefa de enquadrar os con-
tratos de seguro ofertados ao público aos ditames da lei
de consumo, visando com que as suas práticas comerci-
ais se mantenham dentro de um padrão comportamental
permitido, o que somente será possível se, a nosso ver,
houver uma ampla compreensão de como se opera a
interação das leis que regem a seguro com os ditames
do Código do Consumidor, de acordo com os tópicos a
seguir abordados.
6.2 \u2013 Atitudes que passaram a reger a contratação do
seguro:
Desde a edição do CDC, os contratos de segu-
ros passaram a ter que observar dois aspectos in-
dispensáveis à produção de seus efeitos jurídicos:
a) ciência prévia do seu conteúdo e b) clareza e desta-
ques na sua redação.
A ciência prévia do conteúdo do contrato tornou-se
uma das regras básicas nas relações de consumo, prin-
cipalmente as que envolvem matéria de seguro, cujo
contrato é visto como de adesão, o que impõe ao segura-
O CONTRATO DE SEGURO NO DIREITO BRASILEIRO138
dor a cautela de obter do segurado ou de seu corretor
legalmente habilitado a declaração expressa do prévio
conhecimento das condições da apólice na ocasião da
proposta, pois segundo o artigo 46 do Código, os contratos
que regulam as relações de consumo não obrigarão os con-
sumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar
conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos
instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a com-
preensão de seu sentido e alcance.
Em virtude disso, o segurador, antes de decidir se
aceita ou não a proposta do segurado, deve atentar para
esta imposição legal de tomar, por escrito, a sua prévia
ciência de todo o conteúdo das condições gerais que
irão reger a apólice, sob pena de, como consignamos no
capítulo anterior, a interpretação desfavorecer quem redi-
giu o contrato. A respeito o STJ já proferiu decisões que
bem explicitam a abrangência desta obrigação: A compa-
nhia que recebe parcelas do prêmio relativas a uma propos-
ta de seguro, na qual está consignado que a data da vigên-
cia da cobertura corresponde à data da assinatura da pro-
posta, não pode deixar de pagar a indenização pelo sinistro
ocorrido depois, alegando que o contrato somente se
perfectibilizaria com a emissão da apólice, pois todo o seu
comportamento foi no sentido de que o negócio já era obriga-
tório desde então121.
A esta obrigação imposta ao segurador, exige-se do
segurado em contrapartida receber ciência por comple-
to das condições que integrarão o contrato, ressalvan-
do-se de expressar seu consentimento em relação aos
termos que, ao seu juízo, não ficaram bem claros, dado
__________________________________________________
121 REsp. no. 79.090-SP da 4a T. Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar,
j. 05.03.96. In: RDC 20/147.
139
que esta oportunidade lhe é concedida pela lei exata-
mente para possibilitar o amplo entendimento do negó-
cio que está realizando, sendo que, se deixar ou recu-
sar-se de se inteirar na ocasião propícia, não poderá no
futuro alegar que obrou com erro para querer tirar pro-
veito de sua negligência.
Outra exigência obrigatória diz respeito a clareza
com que os termos contratuais devam ser apresentados
ao segurado, com destaque das cláusulas restritivas de
seus direitos, de forma a permitir-lhe a fácil e eficaz
compreensão do seu texto, a teor do que determinam os
parágrafos 3º e 4º do seu artigo 54: Os contratos de
adesão escritos serão redigidos em termos claros e com
caracteres ostensivos e legíveis, de modo a facilitar a
sua compreensão pelo consumidor (parágrafo 3º). As clá-
usulas que implicarem limitação de direito do consumi-
dor deverão ser redigidas com destaque, permitindo a
sua imediata e fácil compreensão (parágrafo 4º).
A mencionada imposição tem razão de ser em vir-
tude da complexidade que envolve as operações de se-
guro, dificilmente percebida pelo público leigo em geral,
que muitas vezes contrata um seguro que não lhe ga-
rante o risco que realmente deseja ver resguardado,
seja por carência de esclarecimento suficiente, seja por
ter sido informado incorretamente. Apesar de ser per-
feitamente lícito o contrato de seguro poder conter li-
mitação dos riscos assumidos pelo segurador, cumpre
notar que a mesma não pode ser de monta tal que im-
porte desnaturá-lo, pois havendo dúvidas acerca da con-
figuração de situações que dão ensejo à proteção
securitária, opera-se a inversão do ônus da prova122.
O CONTRATO DE SEGURO FRENTE
AO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
__________________________________________________
122 AC no. 96.012572-8 da 4a CC do TJSC. Rel. Des. Pedro Manoel
Abreu. J. 15.10.98. In: RT 764/365.
O CONTRATO DE SEGURO NO DIREITO BRASILEIRO140
Assim, por exemplo, no contrato de seguro contra incên-
dio, nula é a cláusula de depreciação do bem imposta unila-
teralmente pelo segurador, eis que não atende ao próprio
objetivo do contrato e coloca as partes contratantes em evi-
dente desequilíbrio, o que é vedado pelo CDC123.
Em relação aos seguros que são oferecidos ao
público em geral, fora das dependências do estabele-
cimento do segurador \u2013 como ocorre com os seguros
de vida em grupo em que os corretores credenciados
vão de casa em casa angariando participantes \u2013 resta
assegurado também o direito de arrependimento que
tem o aderente de desistir do contrato no prazo de
sete dias a contar da sua assinatura, nos termos do
artigo 49 do Código.
6.3 - Direitos básicos do segurado:
Considerando que ao segurado foi outorgada a qua-
lificação de consumidor pelo CDC, cuja a tônica é o
reconhecimento de sua vulnerabilidade no mercado de
consumo, além do direito de receber a indenização ajus-
tada conforme os parâmetros pactuados, restam-lhe
igualmente garantidos outros direitos básicos, que por
emanarem de uma lei de ordem pública e interesse
social, não podem ser afastados, sob pena de nulidade e
revisão judicial das cláusulas que os contrariarem, nos
termos do parágrafo 2º do artigo 51.
Tais direitos encontram-se previstos no artigo 6o
do aludido Código, no intuito de conceder aos consu-
123 AC no. 597.095868 da 5a CC do TJRS, Rel. Des. Felipe Brasil Santos.
J. 21.08.97. In: RT 751/383.
__________________________________________________
141
midores uma real proteção não só aos seus interesses
econômicos, mas também a todos os outros direitos que
integram a sua personalidade, tais como a vida, saúde,
educação, segurança, sossego, etc, objetivando garan-
tir-lhes a liberdade na contratação pelo afastamento de
vícios de publicidade ou de preciosismos contratuais que
possam lhes impedir a aquisição e a fruição de bens e
serviços de forma eficiente e tranqüila.
Considerando o previsto no artigo 6o, podemos vis-
lumbrar que, atualmente, nas relações de seguro res-
tam garantidos aos segurados, além dos normais à pró-
pria natureza do contrato, os seguintes direitos bási-
cos: a) educação sobre a correta utilização do seguro
contratado, asseguradas a sua liberdade de escolha e
igualdade na contratação; b) informação adequada e cla-
ra sobre o seu conteúdo; c) proteção contra publicidade
enganosa e métodos comerciais coercitivos e desleais;
d) proteção contra práticas e cláusulas abusivas ou im-
postas; e) efetiva prevenção e reparação de danos mo-
rais e patrimoniais e d) facilitação da defesa de seus
direitos, inclusive com inversão do ônus da prova a seu
favor, quando a critério do juiz, for verossímil a sua
alegação ou for ele hipossufi\u2013ciente, segundo as regras
ordinárias da experiência.
Através da educação sobre a correta utilização do
seguro contratado, intenta-se que o segurado não seja
visto apenas na condição de cliente do segurador, mas
como seu parceiro na constante tarefa de aprimoramento
deste importante e secular negócio, visando inseri-lo o
mais amplamente possível no mercado securitário, onde
sempre