Domingos Afonso Kriger Filho - O Contrato de Seguro no Direito Brasileiro
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Domingos Afonso Kriger Filho - O Contrato de Seguro no Direito Brasileiro


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riscos da mesma espécie,
com exceção apenas dos que forem expressamente afas-
tados pelo segurador.
Mas, apesar do segurador ter a liberdade de con-
ceber planos técnicos de acordo com a sua conveni-
ência, excluindo a cobertura de certos riscos, sendo
a atividade securitária considerada um \u201cserviço\u201d, a
teor do § 2º do artigo 3º do CDC e tendo em vista a
grande difusão do contrato de seguro de responsabi-
lidade civil na atualidade, resta-nos indagar qual o
tipo de restrição pode ser estipulada nos contratos
afeitos a este seguro.
Neste sentido, sendo impossível afastar a incidência
da Lei de Consumo sobre os contratos de seguro, pensa-
mos que a regra básica a ser considerada na análise da
permissibilidade de exclusão de riscos seja a contida no
artigo 51 do CDC, que entre outras, prevê a nulidade de
pleno direito das cláusulas contratuais que impliquem
renúncia ou disposição de direitos por parte do segurado,
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que estabeleçam a este obrigações iníquas, abusivas, in-
compatíveis com a equidade e a boa fé ou o coloquem em
desvantagem exagerada e que, de qualquer forma, res-
trinjam direitos ou obrigações fundamentais inerentes ao
contrato de seguro.
Por esta razão, concluímos serem válidas as cláu-
sulas que geralmente excluem da cobertura os riscos
advindos de guerra, convulsões sociais, cataclismos, por
atos dolosos do segurado e da utilização do bem segura-
do para fim diverso ou fora das especificações para o
qual foi criado, dado que em tais situações se tem em
vista o resguardo do equilíbrio econômico do seguro.181
De outro lado, achamos totalmente ilegais as cláu-
sulas que restrinjam a liberdade de locomoção do segura-
do ou, de qualquer modo, impeçam a utilização do bem
dentro dos padrões de normalidade em que foi concebido,
pois em tais casos, além de se estar atenuando
injustificadamente a responsabilidade do segurador, im-
põe-se ao segurado um dever excessivamente oneroso
em consideração à natureza do contrato.
Da análise desses aspectos resulta que em casos
concretos, cabe ao juiz sopesar, de acordo com a
equidade prevista no artigo 1.456 do Código, se deter-
O SEGURO DE RESPONSABILIDADE CIVIL
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181 Em todas as apólices que tivemos a oportunidade de analisar há
exclusão de riscos oriundos de acidentes nucleares, o que não
concordamos, uma vez que, por mais graves que possam ser os efeitos
de uma radiação dentro de certa região, não tem ela o condão de
provocar danos capazes de abalar o equilíbrio econômico de
determinada seguradora. Achamos que para que possa ser aceita a
exclusão de determinado risco, o evento tem que produzir efeitos
generalizados e não apenas em uma certa ou determinada região
territorial
O CONTRATO DE SEGURO NO DIREITO BRASILEIRO198
minado risco pode ou não ser excluído da cobertura pre-
vista no contrato, haja visto que somente as circuns-
tâncias reais, e não as probabilidades infundadas im-
postas pelo segurador para atenuar a sua responsabili-
dade, é que devem reger a abrangência e a eficácia do
contrato firmado.
9.3 - O valor da indenização no seguro de responsa-
bilidade civil - o valor da apólice e o valor de mercado:
Por ser o seguro de responsabilidade civil o contra-
to no qual o segurador garante ao segurado o reembol-
so, dentro dos limites contratados, dos prejuízos ou da
indenização que eventualmente lhe seja imposta por
um fato que lhe acarrete a obrigação de reparar o dano,
necessário se faz precisar os parâmetros para fixação
do valor deste reembolso.
Inicialmente cabe observar se a coisa segurada teve
constatada a perda parcial ou total. Sendo ela parcial,
como já deixamos consignado linhas acima, imprescin-
dível se faz primeiramente liquidar o montante real dos
prejuízos de acordo com o valor da coisa sinistrada, para
após proceder à indenização correspondente aos prejuí-
zos efetivamente apurados, observado sempre o limite
ajustado na apólice.
Se a perda for total, o que usualmente se dá quan-
do os prejuízos alcançam 75% do valor do bem, deve
prevalecer a regra pela qual a indenização deve
corresponder no máximo ao valor que lhe é atribuído no
momento da contratação, inobstante a praxe da totali-
dade das seguradoras em tal caso desejarem pagar ao
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segurado indenização pelo valor médio de mercado
que alcança o bem.
Como já deixamos claro a respeito, a cláusula que
estabelece a indenização pelo valor médio do bem é sem
dúvida abusiva, a teor do artigo 51, IV do Código do Consu-
midor, dado que o segurador cobra um prêmio e busca
pagar a indenização com base num valor que
inexoravelmente será depreciado na ocasião do sinistro,
embolsando assim a diferença do prêmio cobrado a mais.
No que se refere a esse assunto, não podemos jamais
deixar de ter em mente que o Código do Consumidor re-
presenta uma verdadeira mudança na ação protetora do
direito, que passou de uma visão estritamente liberal e
individualista, para uma visão social, onde se apresenta
valorizada a sua função de elemento ativo e garante do
equilíbrio contratual, a que o mercado segurador deve se
submeter sem maiores tergiversações.
A justiça tem sido rigorosa em não permitir esta
atitude ensejadora de verdadeiro enriquecimento sem
causa das seguradoras. Isso sob o argumento de que
ninguém pode receber mais do que perdeu, nem menos do
que segurou, sendo que sempre que se der valor certo ao
objeto segurado e, firmado o contrato de cobertura por este
valor, é obrigado o segurador a pagar indenização pelo va-
lor ajustado e não pelo valor médio de mercado do tempo
do perdimento do bem ou de que não pode a seguradora
usar um valor para seu benefício ao cobrar o prêmio e outro
menor para indenizar o segurado182.
O SEGURO DE RESPONSABILIDADE CIVIL
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182 AC 598441111, 5a CC do TJRS, Rel. Des. Clarindo Fouretto, j.02/
06/99, In: RJ 263/129; RT 764/340.
O CONTRATO DE SEGURO NO DIREITO BRASILEIRO200
Em nosso entender o polêmico tema, a indeniza-
ção pelo valor médio de mercado somente poderá ser
validamente pactuada se o segurador devolver ao segu-
rado o valor do prêmio proporcional a desvalorização do
bem perdido, pois dessa forma desaparece o enriqueci-
mento sem causa daquele e se reequilibra a posição
econômica das partes no contrato. Exatamente com vis-
tas a manter intacto este equilíbrio entre as partes é
que se permite deduzir da indenização paga o valor dos
salvados, uma vez que estes conti\u2013nuam ser proprie-
dade do segurado183.
Tratando-se de reembolsar a indenização a que
eventualmente o segurado foi condenado a pagar a ter-
ceiro por fato que lhe foi imputado, o reembolso deverá
ser feito exclusivamente até o limite da apólice sendo
que, se este não for suficiente para cobrir o total dos
prejuízos apurados, ficará a cargo do segurado
integralizar o restante, nos termos dos princípios que
regem a responsabilidade civil.
9.4 - Despesas e prejuízos reembolsáveis:
Se a princípio todos os riscos são seguráveis atra-
vés desta espécie de seguro, resta-nos nesse momento
analisar que despesas e prejuízos experimentados pelo
segurado compreendem o \u201creembolso\u201d a que tem direito
pelo contrato. Em regra, pode-se dizer que as despesas
e prejuízos reembolsáveis ao segurado podem ser consi-
derados \u201cprincipais\u201d ou \u201cacessórios\u201d, conforme respec-
183 RT 555/196.
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tivamente tenham os mesmos causa imediata ou mediata
no sinistro ocorrido.
Face a grande dinâmica de comercialização que
alcança esta modalidade de seguro, o seu objeto pode
versar sobre riscos materiais que recaiam sobre bens
próprios do segurado ou de terceiros, bem como pesso-
ais do próprio contratante ou de outras pessoas. Neste
contexto, por exemplo, se alguém firma um contrato de
seguro de responsabilidade civil de certo