Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO
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Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO


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ao direito, em
especial
 (1) A qualificaçäo dos dois sistemas como de administraçäo
judiciária, o
britânico, e de administraçäo executiva, o francês, deve-se a
MAURIcE HAupiou,
Précis de Droít Administrattf et de Droít Public, 1 L, ed.,
Paris, 1927, p. 2.
 (2) V., por todos, RENÉ DAVID, Les grands systèmes de droit
contemporains,
3 ed., Paris, 1969, p. 317 e segs.
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ao direito consuetudinário, resultante dos costumes
sancionados
pelos- tribunais (common law). O Bill of Ríghts determinou,
nomeadamente, que o direito comum seria «aplicável a todos os
ingleses - Rei ou súbdito, servidor da Coroa ou particular,
mili-
tar ou civil, de qualquer parte da Grä-Bretanha»(1). Era a
con-
sagraçäo do império do direito, ou rule of law;
 é) Descentralizaçäo: em Inglaterra cedo se praticou a
distinçäo
entre uma administraçäo central (central government) e uma
admi-
nistraçäo local (local government). Mas as autarquias locais
(counties,
borougIts, parishes, distrías, etc.) gozavam tradicionalmente
de ampla
autonomia face a uma m'tervençao central diminuta. No fiindo,
näo se considerava que as autarquias locais fossem meros
instru~
mentos do governo central; elas eram sempre encaradas antes
como
entidades independentes, verdadeiros governos locais (daí a
desig-
naçäo de local government). Por outro lado, em Inglaterra
nunca
houve delegados gerais do poder central nas circunscriçöes
locais:
näo há nada de semelhante aos «prefeitos» franceses, ou aos
nossos
«governadores civis», o que reforça consideravelmente a
autono-
mia dos entes locais;
 d) Sujeiçäo da Administraçäo aos tribunais comuns: a Adminis-
traçäo Pública acha-se submetida ao controle jurisdicional dos
tri-
bunais comuns (courts of law). Näo faria sentido, pensa-se,
isentar
desse controle os poderes públicos: nenhuma autoridade pode
«invocar privilégios ou imuilidades visto haver uma só medida
de
direitos para todos, uma só lei para funcionários e näo fun-
cionários, um só sistema para o Estado e para os particulares»
(1).
Os litígios que surjam entre as entidades admiffistrativas e
os par-
ticulares näo säo, pois, em regra, da competência de quaisquer
tribunais especiais: entram na jurisdiçäo normal dos tribunais
comuns. E como é dos remedies que resultam os ríghts, os
tribunais
 MARCELLO CAETANo, Manual de Ciéncia Política e Direito
Constitu-
cional, vol. I, 6.a ed., 1970, p. 47.
 MARcELLo CAETANo, Manual, 1, p. 21.
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comuns, aplicando os mesmos meios processuais às relaçöes dos
particulares entre si e às relaçöes da Adminístraçäo com os
parti-
culares, näo säo levados a procurar para os problemas da Admi-
nistraçäo Pública soluçöes Jurídicas diferentes das da vida
privada;
 e) Subordinaçäo da Administraçäo ao direito comum: na
verdade,
em consequência do rule of law, tanto o Rei como os seus
conse-
lhos e funcionários se regem pelo mesmo direito que os
cidadäos
anónimos (the common law of the land). O mesmo se diga das
local
authorities. Todos os orgäos e agentes da Administraçäo
Pública
estäo, pois, em principio, submetidos ao direito comum, o que
significa que por via de regra näo dispöem de privilégios ou
de
prerrogativas de autoridade pública. E se alguns poderes de
decisäo
unilateral lhes säo conferidos por lei especial, tais poderes
säo
encarados como excepçöes ao princípio geral do rule of law, e
näo
como peças de um sistema de direito adminístrativo. O Rei, os
outros órgäos da administraçäo central e os municípios estäo
todos,
com impi
o os s, es particulares, subordinados ao direito comum;
j) Execuçäo judicial das decisöes administrativas: de todas as
regras e princípios anteriores decorre como consequência que
no
nis
sistema admi i trativo de tipo britânico a Adininistraçäo
Pública
näo pode executar as suas decisöes por autoridade própria. Se
um
orgäo da Adrnimistraçäo - seja ele central ou local - toma uma
decisäo desfavorável a um particular (por ex., expulsäo, ordem
de
demoliçäo), e se o particular näo a acata voluntariamente,
esse
orgäo näo poderá por si só empregar meios coactivos (por ex.,
a
polícia) para impor o respeito da sua decisäo: terá de ir a
tribunal
(a um tribunal comum) obter deste, segundo o due process of
law,
urna sentença que torne imperativa aquela decisäo. Numa
palavra,
as decisöes unilaterais da Administraçäo näo têm em principio
força executória própria, näo podendo por isso ser impostas
pela
coacçäo sem uma prévia intervençäo do poder judicial;
 Garantias jurídicas dos administrados: os particulares dis-
9)
pöem de um sistema de garantias contra as ilegalidades e
abusos
da Adnu'nistraçäo Pública. Se as leis conferem alguns poderes
de
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autoridade pública aos órgäos administrativos, estes säo
conside-
eriores e, se excederem os seus poderes
rados como tribunais inf
 (actuaçäo ultra vires), o particular cujos direitos tenham
sido viola-
 dos pode recorrer a um tribunal superior, normalmente o Kings
 Bench, solicitando um «mandado» (writ) ou uma «ordem» (ordeno
 do tribunal à autoridade para que faça ou deixe de fazer
alguma
 coisa (1). Os tribunais comuns gozam de plena jurisdiçäo face
à
 Administraçäo Pública: tal como em relaçäo a qualquer cidadäo
 ou empresa privada o juiz pode näo apenas anular decisöes ou
 eleiçöes ilegais, mas também ordenar às autoridades
admiffistrati-
 vas que cumpram a lei, fazendo o que ela impöe ou abstendo-se
 de a violar. Tais niandados, ordens ou injunçöes säo
normalmente
 acatados pela Administraçäo - desde o Miffistro mais poderoso
 ao autarca menos conhecido... - e em caso de desobediência
 itrante.
 däo lugar à prisäo da autoridade recalci
 Estas, as características essenciais do sistema
administrativo de
tipo britânico - também chamado sistema de administraçäo judi-
ciária, dado o papel preponderante nele exercido pelos
tribunais.
 V. MARCELLO CAETANO, Manual, 1, p. 20-21. Até às reformas
judi-
ciais de 1933 e 1938 havia no direito inglês cinco writs
utilizáveis contra a
Administraçäo Pública: o habeas compus, para fazer cessar uma
prisäo ilegal; o cer-
tiorari, para anular uma decisäo ilegal; o quo warranto, para
anular unia
investidora ilegal num cargo público; o prohibítion, para
impedir a autoridade
de cometer uma ilegalidade por ela projectada; e o mandamus,
para ordenar o
cumprimento de um dever legal. Em 1933, os u,-rits de
certiorari, prohíbition e 1 1
 çäo; e em
mandamus foram substituídos por orders com a mesma denconúna
1938 o quo warranto foi substituído pela injutwtion (Cfr.
~CELLO CAETANO,
ibidem, e nota 1 da p. 21). Sobre
 a situaçäo actual v. S. A. DE SMITH, judicial
 review of admittistrative action, 3.1 ed. Londres, 1973;
WADE, Administrative Law,
 S., ed., Oxford, 1982, p. 513 e segs.; e, entre nós, J. M.
SÉRVULO CORREIA,
 O controle jurisclícional da Administracäo no direito inglês,
in «Estudos de direito
 público em honra do Prof MARCELLO CAETANo», Lisboa, 1973, p.
109 e
 segs. É importante consultar, por último, JOHN BELL, Droit
public et droit prive:
 une nouvelle distinction en droit anglais 0'arrét O'Reilly v.
Mackman: un arrét
 Blanco?), in «Revue Française de Droit Adn-iinistratif», n.o
3, 1985, p. 399. I
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 O sistema, oriundo da Inglaterra('), vigora hoje em dia na
generalidade dos países anglo-saxónicos, nomeadamente nos
Estados Unidos da América (com algumas Particularidades) (2),
e
através destes influencia fortemente os países da América
Latina,
em especial o Brasil (3).
 22. Sistema administrativo de tiPo francês,
 ou de administraçäo executia
 Säo-nos bem famíliares Os traços essenciais do direito
roman,-<@emânio em
geral: escassa relevância do costume; sujeiçäo a reformas
globais impostas pelo
legislador em dados momentos; Papel Primordial da lei como
fonte de direito;
distinçäo básica entre O direito Público e o direito privado;
fiinçäo de impor-
tância muito variável
Guilherme
Guilherme fez um comentário
Para quem não sabe, o Dr. Freitas do Amaral é um doutrinador português, pelo que, talvez, não possa ajudar muito aos colegas brasileiros (embora acredite que o bom estudante saberá sempre apreciar o conhecimento, especialmente vindo de um autor tão distinto). Abraço, bons estudos!
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Lara
Lara fez um comentário
É de que ano?
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Lara
Lara fez um comentário
Livro estranho...
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Hélder
Hélder fez um comentário
Não consigo baixar o livro de Curso de Direito Administrativo do Prof. Dr. Freitas do Amaral O que faço
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