Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO
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Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO


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de autoridade que fere a atençäo dos
juris-
tas). E o droit administratfi;
o privilégio da execuçäo Prévia: o direito administrativo con-
unto de poderes
fere, pois, à Administraçäo Pública um coni
103
«exorbitantes» sobre os cidadäos, por comparaçäo com os
poderes
«normais» reconhecidos pelo direito civil aos particulares nas
suas
1
relaçöes entre si. De entre esses poderes exorbitantes, sem
dúvida
que o mais importante é, no sistema francês, o «privilégio da
exe-
- 1
cuçäo previa» (privílège du prealable e prívilège de
Vexécution dIoffice),
que permite à Adn-únistraçäo executar as suas decisöes por
autori-
dade própria. Quando um órgäo da Administraçäo francesa
- central ou local - toma uma decisäo desfavorável a um
administrado (de novo citaremos aqui os exemplos de uma expul~
säo ou de uma ordem de demoliçäo), e se o administrado näo a
acata voluntariamente, esse órgäo pode por si só empregar
meios
coactivos, inclusive a polícia, para impor o respeito pela sua
decisäo, e pode fazê~lo sem ter de recorrer a tribunal para o
efeito. Como afirmou em 1902 Ronu'eu, conussario do Governo
junto do Conseil d'État, «quand Ia maison brâle, ou ne vä pas
demander au juge Fautorisation d'y envoyer lês pomplers»...
(1).
Em suma, as decisöes unilaterais da Administraçäo Pública têm
em regra força executória própria, e podem por isso mesmo ser
impostas pela coacçäo sem necessidade de qualquer intervençäo
prévia do poderjudicial;
 g) Garantias jurídicas dos administrados: também o sistema
administrativo francês,
 por assentar num Estado de Direito, ofe-
rece aos particulares um conjunto de garantias contra os
abusos e ilegalidades da Administraçäo Pública. Mas essas
garan-
tias säo efectivadas através dos tribunais administrativos, e
näo por
intermédio dos tribunais comuns. Por outro lado, nem mesmo os
tribunais administrativos gozam de plena jurisdiçäo face à
Admi-
nistraçäo: na maioria dos casos, estando em causa uma decisäo
unilateral tomada no exercício de poderes de autoridade, o
tri-
bunal administrativo só pode anular esse acto se ele for
ilegal: näo
pode declarar as consequências dessa anulaçäo, nem proibir a
 (1) Citado por PROSPER WEIL, Le Droít Administratif, 4.1 ed.,
Paris,
1971, p. 45.
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Administraçäo de proceder de determinada maneira, nem con-
dená-la a tomar certa decisäo ou a adoptar certo
comportamento.
Se os tribunais säo independentes perante a Administraçäo,
esta
também é independente perante aqueles. E por isso säo as
autori~
dades administrativas que decidem como e quando häo-de exe-
cutar as sentenças que hajam anulado actos seus. As garantias
jurídicas dos administrados face à Administraçäo säo aqui
menores
do que no sistema britânico: só uma longa e notabilíssima
jurisprudência do Conseil d'État conseguirá, aos poucos, ir
refor-
çando, em França, a posiçäo dos particulares perante os
poderes
públicos.
 Estas, as características originárias do sistema
administrativo
de tipo francês - também chamado sistema de administraçäo exe-
cutiva, dada a autonomia aí reconhecida ao poder executivo
relati-
vamente aos tribunais.
Este sistema, que nasceu em França('), vigora h 'e em dia
 oi
em quase todos os países continentais da Europa ocidental e em
muitos dos novos Estados que acederam à independência no
século XX depois de terem sido colónias desses países
europeus.
Há, é claro, numerosas variantes nacionais - designadamente na
Itália @) e na República Federal Alemä C). Mas trata-se de
espé-
cies de um único gênero. Ao mesmo grupo pertence também,
desde 1832, Portugal
 (1) Sobre o sistema fi-ancês v., por todos, HAupuou, ob.
cít., p. 1 e segs.;
F. P. BÉNOIT, Le Droít Admínístrattf français, Paris, 1968, p.
55 e segs.; e
J. RwERo, ob. cit., p. 14 e segs. Cfr. também, por último, o
número 46 (1988)
da revista Pouvoirs, consagrado ao tema Droit Adminístratft -
bilan critique.
(2) V. por todos ZANOBINI, Corso di Diritto Amminístrativo, 6
vols.,
Miläo, 1958.
 V. por todos HANS J. HOLFF, Venvaltuttgsrecht, 3 vols., 8
 (3) ed.,
Munique, 1970 -73; e CARL H. ULE, Venvaltungsprozessrecht, 5.,
ed., Munique,
1971.
 (4) V. unia síntese do sistema português, nas vésperas do 25
de Abril de
1974, em MARCELLO CAETANO, Manual de Direito Administrativo,
1, lo., ed.,
105
 23. Confronto entre os sistemas de tipo britânico
 e de tipo francês
 É fácil de estabelecer a comparaçäo entre os dois principais
sistemas adininistrativos modernos que delineámos na sua
pureza
teórica original.
 Assim, os sistemas de tipo britânico e de tipo francês têm
em comum o facto de consagrarem ambos a separaçäo de
poderes e o Estado de Direito.
 Têm, contudo, vários traços específicos que os distinguem
nitidamente:
 quanto à organizaçäo administrativa, um é um sistema
descentralizado, o outro é centralizado;
 - quanto ao controlejurisdicional da Administraçäo, o
primeiro
entrega-o aos tribunais comuns, o segundo aos tribunais
adminis-
trativos. Em Inglaterra há, pois, unidade de jurisdiçäo, em
França
existe dualidade de jurisdiçöes;
 - quanto ao direito regulador da Administraçäo, no sistema de
tipo britânico é o dire- ue basicamente é direito pri-
 Ito comum, q 1
vado, mas no sistema de tipo francês é o direito
administrativo,
que é direito público;
 quanto à execuçäo das decisöes administrativas, o sistema de
administraçäo judiciária fá-la depender de sentença do
tribunal,
ao passo que o sistema de administraçäo executiva atribui
autori~
dade própria a essas decisöes e dispensa a intervençäo prévia
de
qualquer tribunal;
 - enfim, quanto às garantias jurídicas dos administrados, a
Inglaterra confere aos tribunais comuns amplos poderes de
injun-
1973, p. 27 e segs. Aí se sublinha que «dizer que se adoptou
um sistema de tipo
 V
 francês näo significa necessariamente que haja sido adoptado
o sistemafraw@s. os
 Princípios típicos encontram-se no sistema português, mas
adaptados em ter-
 mos que distanciam consideravelmente a administraçäo
portuguesa da francesa»
 (nota i da p. 27).
106
çäo face à Administraçäo, que lhes fica subordinada como a
gene-
ais
a França só permite aos tribun.
ralidade dos cidadäos, enquanto
 is ai
administrativos que anulem as deci öes ileg is das autoridades
ou
demnizaçöes, ficando a Admi-
as condenem ao pagamento de in
rústraçäo independente do poderjudicial.
 o problema da distinçäo entre os sistemas adMirUstrativos de
tipo britânico e de tipo fi@ancês é uma questäo teórica do
maior
'uristas de um lado e de
interesse, que desde cedo preocupou Os i
outro do canal da Mancha.
 putado constitucionalista
o ponto de vista inglês: Dicey- - Em 1885, o re
 rimeira análise aprofim-
britânico A. V. Dicey, professor em Oxford, fez a p
 te, o sistema do rule of law
dada dos dois sistemas, a que chamou, respectivamen
 ít adminístrattf (direito administrativo) C).
(império do direito) e o sistema do dro
 Segundo ele, os dois sistemas säo completamente distintos e,
más do
le of law assenta na igualdade de todos,
que isso, incompatíveis, porque o ru i e na sujeiçäo da Adrui-
incluindo as autoridades administrativas, perante a le
nistraçäo ao direito comum definido e aplicado pelos tribunais
comuns, ao
passo que o droit adtnittistratif pressupöe uma desigualdade
que beneficia a
Administraçäo e que cria a favor dela um direito especial
definido e aplicado
por tribunais especiais.
 f latv? Ouçamos o próprio
 O que é, na verdade, o sistema do rule o
Dicey: «We mean.... when we speak of the rule of Jaw as a
characteristic of one
country, not only that with us no mm is above the law, but
(what is a differ-
whatever be his rank or condition, is subject
ent thing) that here every man,
to the ordinary law of the realrn and amenable to the
jurisdiction of the ordi-
or of the universal subjec-
nary tribunais. In England the idea of legal equality,
Guilherme
Guilherme fez um comentário
Para quem não sabe, o Dr. Freitas do Amaral é um doutrinador português, pelo que, talvez, não possa ajudar muito aos colegas brasileiros (embora acredite que o bom estudante saberá sempre apreciar o conhecimento, especialmente vindo de um autor tão distinto). Abraço, bons estudos!
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Lara
Lara fez um comentário
É de que ano?
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Lara
Lara fez um comentário
Livro estranho...
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Hélder
Hélder fez um comentário
Não consigo baixar o livro de Curso de Direito Administrativo do Prof. Dr. Freitas do Amaral O que faço
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