Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO
832 pág.

Freitas do Amaral - CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO


DisciplinaDireito Administrativo I50.552 materiais961.880 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Näo cabe aqui
enumerá-las,
ainda que sucintamente. É importante, todavia, ter consciência
ido lugar em que se inserem, dentro do quadro de conjunto
apontado- E é igualmente importante näo cair no erro fácil de
supor que apenas num ou noutro desses capítulos cumpre tomar
decisöes em matéria de reforma administrativa: já houve tempo
em que os serviços
 oficiais em Portugal julgavam poder reduzir o
i âmbito da reforma administrativa aos aumentos de vencimentos
 do funcionalismo Ou à melhoria dos serviços de relaçöes
públicas
 de alguns ministérios...
 `) O Objecto da reforma administrativa é a administraçäo de
um
 dado País - toda a administraçäo pública do país. No século
XIX
 havia a ideia de que a reforma administrativa era puramente
 1
 ,nlunciPal, assim como hoje há tendiência para crer que a
reforma
202
 ré a máquina do
administrativa é apenas uma acçäo centrada sob
Estado. Näo é assim, porém-
 todas as entidades
 A reforma administrativa tem de abranger
 lica - o Estado, as autarquias
que compöem a Administraçäo Púb
 úblicos, as empresas Públicas, as associaçöes
locais, os institutos P
públicas, a previdência, as regiöes autónomas, os serviços do
Estado no estrangeiro a administraçäo civil e militar, etc.
Toda a
Admiffistraçäo Pública tem de ser incluída num plano global de
reforma administrativa; strativa traduz-
 d) Por último, a finalidade da reforma admini
-se em procurar obter para a Administraçäo Pública maior
eftcieAncia
e mais coerência.
 Em primeiro lugar, maior eficiência - naturalmente em rela-
 de prosseguir.
çäo aosfins que a Administraçäo tem
 mais do que nunca, é fundamental
De facto, hoje em dia,
 Administraçäo, porque, ao contrário do que
obter a eficiência da
durante tanto tempo aconteceu ela näo é actualmente apenas
 uma administraçäo, como era a
uma administraçäo de conservaçäo
do século XIX e a do princípio deste século, unicamente preo-
 uras tradicionais, em manter a
cupada em conservar as estrut
 iços Públ,
ordem social estabelecido e em assegurar os serv lcOs
essenciais (defesa, polícia, justiça, diplomacia, impostos) .
A Admi-
nistraçäo Pública dos nossos dias@ sendo tudo isto, é muito
mais
 uma administraçäo de desenvolvi-
do que isto, porque tem de ser 1
mento do país: tem de orientar e impulsionar o progresso
econo-
 de promover o desenvolvimento,
mico e social. E näo tem apenas
tem também de o acompanhar - o que é coisa diversa. Corri
efeito, um dos mais significativos fenômenos que se
verificaram
na Administraçäo Pública portuguesa do século XX é que ela foi
por vezes capaz de promover Ou deixar expandir-se o
desenvolvi-
mento do país, mas näo foi capaz, em muitos casos, de acompa-
É fácil encontrar exemplos
rito.
 enorme do
nhar esse mesmo desenvolvime parque
esclarecedores: o do trânsito (expansäo çâo proporcional de
automóvel, näo acompanhada pela constru
203
estradas e parques de estacionamento), o do urbanismo (cresci-
mento acelerado das urbanizaçöes de iniciativa particular, näo
 acompanhado pela adaptaçäo correlativa das estruturas
administra
 I tivas de enquadramento), o da rede telefónica
(desenvolvimento
 1 significativo do parque industrial e do nível cultural da
populaçäo,
 näo acompanhado pela expansäo proporcional dos sistemas tele-
 fónico, telegráfico e de telex). Daí toda uma série de
disfunçöes,
 que a reforma administrativa näo pode deixar de analisar e de
 procurar remediar.
 Mas, ao contrário do que normalmente se pensa, a reforma
 administrativa näo tem apenas por objectivo conseguir maior
efl-
 É ciência para a Administraçäo Pública, na prossecuçäo dos
fins que
 lhe estäo cometidos: tem também de assegurar uma maior dose
 de coerência da actividade administrativa com os princípios a
que a
 Administraçäo se acha submetida.
 Assim, se uma Administraçäo Pública vive sujeita, como a
 nossa, ao princípio da legalidade, em virtude do qual o
respeito da
 lei tem de ser assegurado escrupulosamente, a reforma
adminis-
 trativa tem de programar toda uma série de providências ten-
 dentes a garantir um acatamento ainda mais fiel e ainda mais
 k@ completo da lei. Se a Administraçäo Pública deve estar
submetida
 e todos pensamos que deve - a um princípio geral de morali-
 dade administrativa, a reforma administrativa tem de incluir
provi-
 dências tendentes a assegurar num grau cada vez maior esse
valor
 I fundamental. Se a Administraçäo Pública deve ocupar uma
posi-
 1
 Çäo subalterna em relaçäo à política - o que parece näo
suscitar
 dúvidas -, a reforma administrativa tem de contar com medidas
1
 que mantenham a superioridade da segunda em relaçäo à
primeira
 e evitem o reino da tecnocracia. Se a Administraçäo Pública
deve
 ver robustecido o seu prestígio e fortalecido a sua
autoridade - e
 quem negará que assim deva ser? -, a reforma administrativa
há-
 -de prever esquemas e adoptar soluçöes capazes de permitir
sobre-
 por com êxito à força dos grupos e à indisciplina dos
indivíduos
 o primado do interesse colectivo. Se a Administraçäo Pública
 204
deve subordinar-se a um principio de participaçäo - e assim
deverá
ser -, a reforma administrativa tem de estruturar novas modah-
dades de audiência e de colaboraçäo dos particulares no
processo
de preparaçäo das decisöes administrativas. E, enfim, se a
Admi-
nistraçâo Pública deve, por respeito para consigo própria e
para
com os cidadäos em geral, submeter-se a formas cada vez mais
apuradas de controle - e deve, sem prejuízo das necessárias
garan-
tias de actuaçäo expedita e independente -, entäo a reforma
administrativa há-de incluir providências tendentes a
aperfeiçoar
os instrumentos existentes de controle da acçäo administrativa
ou
a criar outros novos.
 Antes de terminar, e ainda a propósito da coerência que a
reforma administrativa tem de visar, näo pode deixar de
referir-se
az parte dessa coerência a tarefa de estruturar e moldar uma
que f
Administraçäo Pública convenientemente ajustada às funçöes do
Estado que o poder político se propuser prosseguir. De facto,
todos compreenderäo que näo podem ser idênticas, no mundo
de hoje, a reforma administrativa preconizada p or um parti
'do
democrata-cristäo, por um partido social-democrata, por um
partido socialista ou por um partido comunista: o sentido e o
conteúdo de uma reforma administrativa dependeräo sempre,
essencialmente, do tipo de regime político e de sistema econó-
mico-social em que se vive ou que se prentenda construir. Pois
a
reforma administrativa näo é apenas uma técnica posta ao
serviço
da eficiência, mas também, e sobretudo, uma política posta ao
serviço do homem.
 rcado,
 Assim, os adeptos de uma economia social de me
europeia e ocidental, subordinaräo sempre a ideia de reforma
administrativa à defesa do indivíduo e do pluralismo perante o
Poder - e, portanto, faräo dela um factor de combate à
hipertrofi,i
do Estado. Diferentemente, os sequazes de uma economia e &
uma sociedade socialistas submeteräo sempre a noçäo de reforma
administrativa ao princípio da apropriaçäo colectiva dos meios
de
produçäo - e, portanto, faräo dela um factor de alargamento da
205
presença e da maior intervençäo do Estado na vida económica,
social e cultural do país (1)
 (1) A matéria deste número corresponde, com algumas
variantes, a um
artigo Por nós publicado há tempos: v. DiOGo FREITAS DOAMARAL,
Conceito
de Reforma Administrativa, in «Dernocracia e Liberdade», 1 1,
1979, p. 1 1 e segs.
 (1) Sobre reforma administrativa v., entre outros: GERALDE.
CAIDEN,
Administratíve Reform, Londres, 1969; CARLULE, La Reforma
Administrativa en
Alemania, trad. esp., Madrid, 1967; RiCHARD CLARK, New trends
in
Govemment, Londres, 1971;jAmEs W. FESLER, Public
Administration - neory
and Pactice, New Jersey, 1980; FREDFRIK S. LANE (ed.), Current
is,,es ín Public
Administration, 2.a ed.,
Guilherme
Guilherme fez um comentário
Para quem não sabe, o Dr. Freitas do Amaral é um doutrinador português, pelo que, talvez, não possa ajudar muito aos colegas brasileiros (embora acredite que o bom estudante saberá sempre apreciar o conhecimento, especialmente vindo de um autor tão distinto). Abraço, bons estudos!
0 aprovações
Lara
Lara fez um comentário
É de que ano?
0 aprovações
Lara
Lara fez um comentário
Livro estranho...
0 aprovações
Hélder
Hélder fez um comentário
Não consigo baixar o livro de Curso de Direito Administrativo do Prof. Dr. Freitas do Amaral O que faço
2 aprovações
Carregar mais