KARL ENGISH - Introduçao ao Pensamento Jurídico
291 pág.

KARL ENGISH - Introduçao ao Pensamento Jurídico


DisciplinaFilosofia Geral e Jurídica978 materiais9.377 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Um tal processo 
aproxima-se da "jurisprudência socialmente finalizada" 
proposta por G. OHR, NJW 67, pp. 1255 e ss., na esteira de 
H. LANGE, e significa seguramente em larga medida uma 
preferência pelo método teleológico, se bem que ESSER 
presuma existir aqui uma certa arbitrariedade e em parte 
uma orientação por um resultado. CANARIS, Systemdenken, pp. 
91 e s., nota 23, pronuncia-se agora clara e decididamente 
por uma "firme hierarquia entre os diferentes meios de 
interpretação", colocando no topo a interpretação 
teleológica.
14. Para esclarecer o ponto desde já (ver infra, no texto), 
seja notado aqui a título de exemplo que, quando se tome 
partido pela teoria subjectiva da interpretação de que 
falaremos no próximo capítulo, teoria essa outrora 
dominante e ainda hoje muitas vezes sustentada, segundo a 
qual o que importa é determinar a vontade do legislador 
histórico, desde que esta encontre na lei "uma qualquer 
expressão" (ver infra, no texto), a chamada interpretação 
gramatical forma na verdade uma moldura para as 
possibilidades interpretativas, mas quanto ao mais a 
"escolha dos métodos" orienta-se pela adequação do método a 
considerar para trazer à luz a vontade real do legislador. 
Um metodólogo da craveira de Philipp HECK tinha a este 
respeito uma concepção muito clara (se bem que 
possivelmente já não válida hoje: cfr. ESSER, 
Vorverständnis, pp. 129 e s.). Uma tal concepção deverá 
estar também no espírito do BGH, quando declara: "Servem à 
finalidade de descobrir a vontade objectivada do legislador 
os métodos de interpretação, reciprocamente complementares, 
que partem do teor literal da norma, do seu contexto de 
sentido assim como dos materiais legislativos e da história 
do aparecimento do preceito" (BGHZiv. 49, p. 223, citada 
por ESSER, ob. cit., p. 122). Importa em todo o caso 
procurar um princípio da determinação da relação entre os 
métodos interpretativos que em alguma medida - na medida do 
exequível dentro dos limites da capacidade de conhecer do 
jurista - seja plausível e de credibilidade garantida. Ora 
este problema é-nos posto. Talvez não possa ser resolvido 
com validade geral. Talvez exista, pois, apenas uma solução 
ligada à situação em causa (SAX, Analogieverbot, pp. 75 e 
s.: sobre isto, no próximo capítulo). Se, pelo contrário, 
se considera este problema como absolutamente insolúvel, 
então não haverá já sequer qualquer modo de, por 
aproximações
---
164
sucessivas, dominar os problemas da heurística jurídica em 
termos de despertar confiança (cfr. OBERMEYER, NJW 66, p. 
1888 r.). Pois todo o transcender não mediatizado para os 
domínios do Direito Natural, da Justiça, da Racionalidade, 
expõe-nos à relatividade das opiniões (dos pontos de vista 
partidários, das "concepções do mundo"), que aí dominam, e, 
em último termo, ao decisionismo das sentenças dos 
tribunais superiores, relativamente às quais nos 
perguntamos em vão em que é que elas propriamente podem 
assentar e por que é que se podem orientar senão pelas suas 
próprias valorações, com uma validade tão-só relativa, 
sempre que se trata de questões de aplicação do direito 
ainda por esclarecer. Sempre que as leis vinculam os 
tribunais e as autoridades administrativas, somos remetidos 
para uma metódica da descoberta do direito elaborada até ao 
fim, acabada, à qual pertence também um princípio 
regulativo sobre a "escolha dos métodos" credível e 
caucionado do ponto de vista do direito positivo. Que, para 
tanto, designadamente no quadro do método teleológico da 
descoberta do direito, que surge como particularmente 
importante, são chamados à cotação pontos de vista de 
justiça, de prática conveniência e de razoabilidade, eis o 
que de per si bem se compreende e o que é posto em relevo 
em muitas passagens deste livro. Não obstante as diferenças 
de acentuação, creio por isso não me achar em contradição 
insanável com os pontos de vista de KRIELE e ESSER, menos 
conservadores e mais reservados relativamente à apreciação 
e valoração da metodologia tradicional, desde que estes não 
ponham de forma alguma em questão a vinculação fundamental 
da jurisprudência à lei. Cfr. relativamente ao que 
antecede, nomeadamente, LARENZ, Methodenlehre, 2ª ed., 
1969, pp. 323 e ss., 3ª ed., 1975, pp. 144 e ss., e 
ZIPPELIUS, Methodenlehre, 2ª ed., 1974, p. 85, aos quais 
apenas posso dar a minha adesão.
---
165
Capítulo V
INTERPRETAÇÃO E COMPREENSÃO DAS REGRAS JURÍDICAS. 
CONTINUAÇÃO: O LEGISLADOR OU A LEI?
A moderna doutrina filosófica da compreensão conhece 
múltiplas distinções do "compreender". Distingue-se, v. 
gr., o puro "compreender de um sentido", enquanto apreensão 
do conteúdo real (objectivo) de uma expressão, do 
"compreender pelos motivos", enquanto apreensão dos motivos 
daquele que se exprime (G. SIMMEL, M. WEBER e outros). De 
forma semelhante, JASPERS distingue o "compreender 
espiritual" de conteúdos mentados do "compreender 
psicológico" a partir dos motivos. Como escopo último do 
compreender considera-se ainda um encontro espiritual com a 
individualidade que se exprime (ROTHACKER, BOLLNOW). Mais, 
JASPERS conhece, além do compreender espiritual e do 
psicológico, um compreender existencial e metafísico, e 
também BOLLNOW fala dum contacto de "existência a 
existência". Se aqui se descobre a tendência de avançar 
pela compreensão do real (objectivo) para o pessoal, do que 
exteriormente aparece para o fundamento profundo, DILTHEY, 
pelo contrário, considerou como grau mais elevado do 
compreender a apropriação das "manifestações
---
166
da vida duradoiramente fixadas" como tais, sobretudo dos 
monumentos escritos. Para ele, "a arte do compreender" 
teria "o seu ponto central na interpretação dos restos de 
existência humana contidos no escrito". Aqui teria o seu 
ponto de partida a filologia e toda a verdadeira arte do 
compreender. Todavia, BOECKH havia descrito o compreender 
filológico, numa formulação muitas vezes citada da sua 
"Enciclopédia", como "conhecimento do conhecido" (mais 
exactamente: como "o conhecimento daquilo que foi produzido 
pelo espírito humano, isto é, do conhecido"). Em 
conformidade com esta mesma ideia, diz DILTHEY: "O espírito 
compreende aquilo que ele criou". Com base nestas últimas 
considerações tem-se caracterizado a interpretação 
filológica como método empírico. Assim, diz RADBRUCH na sua 
Rechtsphilosophie: "A interpretação filológica visa a 
determinação de um facto, do sentido subjectivamente 
mentado, dos pensamentos efectivamente pensados de homens 
reais". Acrescenta, porém, que a moderna ciência da 
literatura se emancipa cada vez mais de uma tal 
interpretação filológica e se volta para a "investigação do 
sentido objectivamente válido da poesia", para desta 
maneira "compreender melhor o autor do que ele se 
compreendeu a si próprio", segundo afirma um modo de dizer 
- um tanto escolar - que já remonta a KANT. A este melhor 
compreender se referem também os grandes poetas, ora 
ironicamente ora a sério. Em "A tempestade" de Shakespeare, 
diz Gonzalo: "Vós haveis falado mais acertadamente do que 
estava na vossa intenção", ao que Sebastian responde: "E 
vós havei-lo entendido mais inteligentemente do que eu o 
pensei". De
---
167
GOETHE são conhecidos dois versos das Zahmen Xenien: 
"Interpretai com frescura e vivacidade - se não tirarmos e 
libertarmos o sentido da letra, algo aí nos ficará oculto". 
De um modo muito belo, diz ANDRÉ GIDE em Paludes: "Antes de 
explicar o meu livro aos outros, aguardo que os outros mo 
expliquem a mim. Querer explicá-lo primeiro significaria ao 
mesmo tempo limitar o seu sentido; pois, ainda que saibamos 
aquilo que quisemos dizer, não sabemos
Gabriela
Gabriela fez um comentário
A edição é de 2001?
0 aprovações
viviane
viviane fez um comentário
poderia me enviar por e-mail? gostei muito, gostaria de usar como base.
0 aprovações
Matty
Matty fez um comentário
Poderia me enviar por e-mail? grato: walter.xbalanque
0 aprovações
Carregar mais