O mal estar da civilização
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O mal estar da civilização


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tinham a significação de morte; eram anunciadas por um temor da morte e consistiam em 
estados sonolentos, letárgicos. A moléstia o acometeu pela primeira vez quando ainda menino, sob 
a forma de uma melancolia súbita e infundada, uma sensação, como mais tarde contou a seu 
amigo Soloviev, de que iria morrer ali mesmo. E, na realidade, seguia-se um estado exatamente 
semelhante à morte real. Seu irmão Andriei conta que, mesmo quando ainda muito moço, Fiodor 
costumava deixar espalhadas pequenas anotações antes de dormir, dizendo que tinha medo de 
poder cair, durante a noite, num sono semelhante à morte; assim, implorava que seu enterro fosse 
adiado por cinco dias. (Fülöp-Miller e Eckstein, 1925, lx.) 
Conhecemos o significado e a intenção dessas crises semelhantes à morte. Significam 
uma identificação com uma pessoa morta, seja com alguém que está realmente morto ou com 
alguém que ainda está vivo e que o indivíduo deseja que morra. O último caso é o mais 
significativo. A crise possui então o valor de uma punição. Quisemos que outra pessoa morresse; 
agora somos nós essa outra pessoa e estamos mortos. Nesse ponto, a teoria psicanalítica introduz 
a afirmação de que, para um menino, essa outra pessoa geralmente é o pai, e de que a crise 
(denominada de histérica) constitui assim uma autopunição por um desejo de morte contra um pai 
odiado. 
O parricídio de acordo com uma conceituação bem conhecida, é o crime principal e 
primevo da humanidade, assim como do indivíduo. (Ver meu Totem e Tabu, 1912-13.) É, em todo 
caso, a fonte principal do sentimento de culpa, embora não saibamos se a única; as pesquisas 
ainda não conseguiram estabelecer com certeza a origem mental da culpa e da necessidade de 
expiação. Mas não lhe é necessário ser a única. A situação psicológica é complicada e exige 
elucidação. O relacionamento de um menino com o pai é, como dizemos, \u201eambivalente\u201f. Além do 
ódio que procura livrar-se do pai como rival, uma certa medida de ternura por ele também está 
habitualmente presente. As duas atitudes mentais se combinam para produzir a identificação com 
o pai; o menino deseja estar no lugar do pai porque o admira e quer ser como ele, e também por 
desejar colocá-lo fora do caminho. Todo esse desenvolvimento se defronta com um poderoso 
obstáculo. Em determinado momento, a criança vem a compreender que a tentativa de afastar o 
pai como rival seria punida por ele com a castração. Assim, pelo temor à castração - isto é, no 
interesse de preservar sua masculinidade - abandona seu desejo de possuir a mãe e livrar-se do 
pai. Na medida em que esse desejo permanece no inconsciente, constitui a base do sentimento de 
culpa. Acreditamos que o que aqui descrevemos, são processos normais, o destino normal do 
chamado \u201ecomplexo de Édipo\u201f; não obstante, exige uma importante amplificação. 
Uma outra complicação surge quando o fator constitucional que denominamos de 
bissexualidade se acha, comparativamente, fortemente desenvolvido numa criança, porque então, 
sob a ameaça à masculinidade do menino, por meio da castração, sua inclinação é fortalecida a 
divergir no sentido da feminilidade, a colocar-se no lugar da mãe e a assumir o papel desta como 
objeto do amor do pai. Mas o temor à castração torna essa solução também impossível. O menino 
entende que também deve submeter-se à castração, se deseja ser amado pelo pai como se fosse 
uma mulher. Dessa maneira, ambos dos impulsos, o ódio pelo pai e o amor pelo pai, experimentam 
repressão. Há uma certa distinção psicológica do fato de o ódio pelo pai ser abandonado por causa 
do temor a um perigo externo (castração), ao passo que o amor pelo pai é tratado como um perigo 
interno, embora, fundamentalmente, remonte ao mesmo perigo externo. 
O que torna inaceitável o ódio pelo pai é o temor a este; a castração é terrível, seja como 
punição ou como preço do amor. Dos dois fatores que reprimem o ódio pelo pai, o primeiro, ou 
seja, o medo direto da punição e da castração, pode ser chamado de anormal; sua intensificação 
patogênica só parece surgir com o acréscimo do segundo fator, o temor à atitude feminina. Dessa 
maneira, uma forte disposição bissexual inata se torna uma das precondições ou reforços da 
neurose. Uma disposição desse tipo deve ser certamente suposta em Dostoievski, e ela se mostra 
sob forma viável (como homossexualismo latente) no importante papel desempenhado pelas 
amizades masculinas na vida dele, em suas atitudes estranhamente ternas para com rivais no 
amor e em sua notável compreensão de situações que só são explicáveis pelo homossexualismo 
reprimido, como muitos exemplos extraídos de seus romances demonstram. 
Lamento, embora não possa alterar os fatos, que essa exposição das atitudes de amor e 
ódio para com o pai e as transformações delas sob a ameaça da castração pareça desagradável e 
incrível a leitores não familiarizados com a psicanálise. Eu deveria esperar que era precisamente o 
complexo de castração que estava fadado a despertar o repúdio mais geral. Mas posso apenas 
insistir em que a experiência psicanalítica colocou especificamente esse assunto para além do 
alcance da dúvida e nos ensinou a reconhecer nele a chave para toda neurose. É essa chave, 
então, que temos de aplicar à chamada epilepsia de nosso autor. Como são estranhas à nossa 
consciência as coisas pelas quais nossa vida mental inconsciente é governada! 
Mas o que foi dito até agora não esgota as conseqüências da repressão do ódio pelo pai 
no complexo de Édipo. Há algo de novo a ser acrescentado, a saber: que, apesar de tudo, a 
identificação com o pai finalmente constrói um lugar permanente para si mesma no ego. É recebida 
dentro deste, mas lá se estabelece como um agente separado, em contraste com o restante do 
conteúdo do ego. Damos-lhe então o nome de superego e atribuímos-lhe, como herdeiro da 
influência parental, as funções mais importantes. Se o pai foi duro, violento e cruel, o superego 
assume dele esses atributos e nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter 
sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, isto é, 
no fundo, passivo, de uma maneira feminina. Uma grande necessidade de punição se desenvolve 
no ego, que em parte se oferece como vítima ao destino e em parte encontra satisfação nos maus 
tratos que lhe são dados pelo superego (isto é, no sentimento de culpa), pois toda punição é, em 
última análise, uma castração, e, como tal, realização da antiga atitude passiva para com o pai. 
Mesmo o Destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai. 
Os processos normais da formação da consciência devem ser semelhantes aos anormais, 
aqui descritos. Ainda não conseguimos fixar a linha limítrofe entre eles. Observar-se-á que, aqui, a 
parcela maior no resultado é atribuída ao componente passivo de feminilidade reprimida. Além 
disso, deve ser de importância, como fator acidental, que o pai, que é temido em qualquer caso, 
seja também especialmente violento na realidade. Isso foi verdadeiro no caso de Dostoievski e 
podemos fazer remontar a origem de seu extraordinário sentimento de culpa e de sua conduta de 
vida masoquista a um componente feminino especialmente intenso. Assim, a fórmula para 
Dostoievski é a seguinte: uma pessoa com uma disposição bissexual inata especialmente intensa, 
que pode defender-se com intensidade especial contra a dependência de um pai especialmente 
severo. Essa característica de bissexualidade surge como acréscimo aos componentes de sua 
natureza que já identificamos. Seus sintomas precoces de crises semelhantes à morte podem ser 
assim compreendidos como uma identificação paterna por parte de seu ego, a qual é permitida 
pelo superego como punição. \u201eVocê queria matar seu pai, a fim de ser você mesmo o pai. Agora, 
você é seu pai, mas um pai morto\u201f - o mecanismo regular dos sintomas histéricos. E, além disso: 
\u201eAgora, seu pai está matando