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1 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! Exame Primário Habilidades Médicas VIII Fisiologia do Choque A avaliação e tratamento pré-hospitalar do paciente com trauma visam prevenir ou reverter o metabolismo anaeróbico, evitando a morte celular e, por fim, a morte do paciente. Garantir que os sistemas essenciais do corpo estejam funcionando corretamente (via aérea patente, respiração e circulação adequadas – principal ênfase). Tolerância dos órgãos à isquemia ÓRGÃO TEMPO DE ISQUEMIA QUENTE Coração, cérebro, pulmões 4 – 6 minutos Rins, fígado, trato gastrintestinal 45 – 90 minutos Músculo, osso, pele 4 – 6 horas Definição de Choque É um estado de alteração na função celular do metabolismo aeróbico para anaeróbico devido à hipoperfusão das células teciduais – LOGO, a oferta de O2 é inadequada para satisfazer as necessidades metabólicas do organismo. Princípio de Fick É uma descrição dos componentes necessários para a oxigenação das células no organismo, de forma simplificada, esses 3 elementos são: 1. Ligação do O2 com as hemácias nos pulmões; 2. Oferta de hemácias às células teciduais; 3. Distribuição do oxigênio das hemácias para as células dos tecidos. É CRUCIAL para este processo que o paciente possua hemácias suficientes para realizar a distribuição de O2 para seus tecidos por TODO O ORGANISMO! Ademais, sua via aérea deve estar desobstruída e ter VENTILAÇÃO com VOLUME e PROFUNDIDADE adequados. Os princípios de Fick devem ser garantidos para que não haja maior morte celular e consequentemente do paciente - para tal o socorrista deve: Controlar a hemorragia exsanguinante em extremidades; Manter via aérea e ventilação adequadas para fornecer quantidades adequadas de oxigênio para as hemácias; Usar oxigênio suplementar como parte da ventilação do paciente; Manter o paciente aquecido para facilitar a oferta de oxigênio, a qual pode ser prejudicada por um estado de hipotermia; Manter a circulação adequada, a fim de perfundir o tecido celular com sangue oxigenado. Com base nos componentes do sistema de perfusão (coração / bomba, volume líquido, vasos sanguíneos / “encanamentos”), o choque pode ser dividido em: 1. Hipovolêmico: primariamente de causa hemorrágica no paciente com trauma, relacionado à perda de células sanguíneas e de volume com capacidade de transportar O2 – CAUSA + COMUM DE CHOQUE no paciente com trauma; 2. Distributivo (ou vasogênico): relacionado a anormalidades no tônus vascular – tem bárias causas (lesão na medula, anafilaxia, etc.); 2 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! 3. Cardiogênico: relacionado à interferência na ação de bomba do coração. A pré-carga (volume de sangue que entra no coração) e a pós-carga (pressão que o sangue tem que empurrar quando é comprimido para fora do VE) do coração direito (pulmonar) e do coração esquerdo (sistêmico) são conceitos CRUCIAIS para compreensão do tema. PAM= pressão diastólica + 1/3 da pressão de pulso Pressão de pulso= sistólica - diastólica Uma PAM normal está entre: 70 – 100 mmHg Volume sistólico: volume sanguíneo bombeado pelo sistema circulatório a cada contração ventricular Débito cardíaco: volume sanguíneo bombeado pelo sistema sanguíneo em 1 minuto Débito cardíaco (DC)= FC x volume sistólico DC normal= 5 – 6 L/min Choque Hipovolêmico - + COMUM NO TRAUMA Perda de água e volume sanguíneo por hemorragia. Um adulto de 70 kg tem cerca de 5 litros de volume sanguíneo. O choque hemorrágico (choque hipovolêmico pela perda de sangue) é classificado em 4 classes: Hemorragia classe I: perda de até 15% do volume sanguíneo – até 750 mL. Tem poucas manifestações clínicas; taquicardia mínima; sem alterações mensuráveis na PA ou FR; a maioria exige apenas líquidos de manutenção; Hemorragia classe II: perda de 15 – 30% do volume sanguíneo – 750 a 1500 mL. A maioria consegue compensar essa perda pela ativação do SNS; há aumento da FR, taquicardia; a PA está compensada aqui, portanto, ainda em níveis normais; o débito urinário reduz para 20 a 30 mL/hora. Pode necessitar (ou não) de transfusão sanguínea – mas respondem bem apenas com cristaloides; Hemorragia classe III: perda de 30-40% do volume sanguíneo – 1500 a 2000 ml. Nesse ponto a maioria não consegue mais compensar e ocorre a hipotensão. Há taquicardia (> 120 a 140 bpm), taquipneia (30 a 40 irpm) e ansiedade grave ou confusão. O débito urinário cai para 5 a 15 mL/hora. Muitos necessitarão de transfusão sanguínea + intervenção cirúrgica; Hemorragia classe IV: perda de >40% do volume sanguíneo - + 2000 mL. Há taquicardia marcada (> 120 – 140 bpm), taquipneia (irpm > 35), confusão profunda ou letargia e grande redução na PAS (geralmente 60 mmHg). Esses pacientes têm apenas mais alguns minutos de vida. A sobrevida depende do imediato controle da hemorragia e reposição volêmica vigorosa + transfusão de sangue e plasma – mínima qtd de cristaloides. A rapidez do desenvolvimento do choque depende da rapidez da perda sanguínea na circulação. No ambiente pré-hospitalar os socorristas devem controlar a perda sanguínea externa, administrar solução intravenosa (IV) mínima de eletrólitos (se possível plasma) e transportar o paciente rapidamente para o hospital; o ácido tranexâmico (ATX) é um estabilizador de coágulos importantíssimo neste contexto. A solução cristaloide comumente preferida RINGER LACTATO. Se a perda sanguínea foi significativa: administrar concentrado de hemácias e plasma em uma relação de 1:1 ou 1:2. Choque Distributivo (vasogênico) Ocorre quando o reservatório vascular aumenta sem aumento proporcional no volume de líquido. Comum em pacientes com lesão de medula espinal. 3 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! “Choque” Neurogênico Ocorre quando a lesão de medula espinal interrompe o trajeto do SNS. Perde-se o controle simpático do sistema vascular e os vasos periféricos dilatam abaixo do nível da lesão. Logo, há redução marcante na resistência vascular sistêmica e vasodilatação periférica. O paciente costuma ter bradicardia, temperatura quente, pele seca e PA normal. SINAIS ASSOCIADOS AOS TIPOS DE CHOQUE Sinal vital HIPOVOLÊMICO NEUROGÊNICO CARDIOGÊNICO Temperatura / qualidade da pele Fria, pegajosa Quente, seca Fria, pegajosa Cor da pele Pálida, cianótica Rosada Pálida, cianótica Pressão arterial Redução Redução Redução Nível de consciência Alterado Lúcido Alterado Tempo de enchimento capilar Lento Normal Lento Choque Cardiogênico Resulta da falha da bomba cardíaca. Causas intrínsecas: dano ao músculo cardíaco, ruptura valvar; Causas extrínsecas: tamponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo. No geral há redução do débito cardíaco, perfusão reduzida, aumento da pós-carga. AVALIAÇÃO XABCDE a avaliação primária do paciente com trauma enfatiza o controle do sangramento externo potencialmente fatal como primeira etapa na sequência. X. Controle do sangramento externo grave (exsanguinação); A – Manejo da via aérea e estabilização da coluna cervical; B – Respiração (ventilação e oxigenação) (breathing); C – Circulação (perfusão e outras hemorragias); D – Incapacidade (disability); E – Exposição / ambiente (environment). Hemorragia Exsanguinante A hemorragia exsanguinante mata um paciente + rápido que os outros mecanismos de trauma. Portanto, DEVE SER CONTROLADO IMEDIATAMENTE!!! Pesquisamos imediatamente a fonte do sangramento e intervimos– torniquete (seguro utilizar por até 120 a 150 min), curativo compressivo ou cobertura do um ferimento. Via Aérea Deve ser avaliada rapidamente sempre. Os que necessitam de manejo imediato: 1. Pacientes que não estão respirando; 2. Pacientes com evidente comprometimento da via aérea; 3. Pacientes com frequência ventilatória > 20 irpm; 4. Pacientes com respiração ruidosa. Respiração A taquipneia costuma ser um sinal precoce de metabolismo anaeróbico e choque. Estimamos 4 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! não quantidade (ñ perdemos tempo nisso), mas sim se as ventilações estão lentas, normais, rápidas ou muito rápidas. Ventilação lenta + choque indica choque profundo. Ventilação rápida alerta para buscar a causa do choque. Se o paciente tenta tirar a máscara do rosto, tem “sede de mais ar”, logo deduzimos que o O2 não está sendo suficiente. Oximetria < 94%? Preocupante! Circulação Aqui avaliamos: Hemorragia e quantidade de perda sanguínea; Perfusão com sangue oxigenado. (lembrar do “C”ensualizar) Verificar: TEC, pulso periférico, cor da pele, temperatura, pulso central, PA, turgência de jugular, ausculta cardíaca, palpação de fígado, débito urinário. A perda do pulso radial indica hipovolemia grave (ou dano vascular no membro). Se o pulso estiver presente: avaliar se é forte, fraco ou filiforme, se a frequência é normal, rápida ou muito lenta e se a frequência do pulso é regular e irregular. * avaliar se o paciente está ansioso, confuso, torporoso, comatoso. . . A cor da pele deve estar rosada (bem oxigenada e sem metabolismo anaeróbico). Pele azul ou mosqueada indica hemoglobina desoxigenada e falta de oxigenação adequada na periferia. Quanto à temperatura da pele, à medida que o organismo desvia o sangue da pele para as regiões mais importantes, a temperatura da pele diminui. O paciente com trauma em choque por hipovolemia tem a pele pegajosa. Incapacidade - Disability Em pacientes com trauma pelo menos 6 condições podem produzir alterações no SN ou comportamental: Hipóxia; AVC; Choque com perfusão cerebral comprometida; LCT; Intoxicação por álcool ou drogas; Processos metabólicos, como diabetes, convulsões e eclâmpsia. A que MATARÁ o paciente + rápido sem tratamento: hipóxia Exposição / Ambiente O corpo do paciente é exposto para avaliar a possibilidade de locais menos evidentes de perda sanguínea externa e pistas que indiquem hemorragia interna. MANEJO As etapas do manejo do choque são: 1. Controlar qualquer hemorragia externa grave; 2. Garantir a oxigenação (adequação da via aérea e da ventilação); 3. Identificar qualquer hemorragia (controlar o sangramento externo e reconhecer a probabilidade de hemorragia interna); 4. Transportar o paciente até os cuidados definitivos; 5. Administrar líquidos ou sangue quando apropriado. Os pacientes que se enquadram nas categorias de choque classes II a IV devem receber bolus iniciais de 250 ml de solução salina repetidos até um total de 2 litros ou até PAS de 80 mmHg. Os pacientes pediátricos devem receber bolus de 20 mL/kg de solução cristaloide aquecida. A resposta pode ser rápida, transitória ou mínima / ausente. 5 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! Uma terapia promissora no manejo do trauma é o uso do ácido tranexâmico quando administrado dentro de 3 horas do momento da lesão. Algoritmo para manejo da reposição volêmica Hemorragia não controlada= suspeita de hemorragia intratorácica, intra-abdominal ou retroperitoneal PMV= para manter veia (cerca de 30 mL/h) Considerar PAM 85-90 mmHg para lesão de medula espinal. Hemorragia controlada - com curativo compressivo, agente hemostático tópico ou torniquete. Solução cristaloide aquecida (39° se possível) 6 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! Resposta rápida= retornar os sinais vitais ao normal Manter os sinais vitais normais= FC < 100/min; PAS> 100 mmHg para adultos Resposta transitória= sinais vitais inicialmente melhoram, depois pioram Resposta mínima ou ausente= pouca ou nenhuma alteração nos sinais vitais Algoritmo para manejo do choque 1. Deve-se colocar um torniquete manufaturado, um manguito de esfigmomanômetro ou uma gravata logo proximalmente ao local de sangramento, sendo apertado até que cesse o sangramento. O tempo de aplicação é marcado no torniquete. 2. A avaliação da perfusão inclui a presença, a qualidade e a localização dos pulsos; cor da pele, temperatura e umidade; e tempo de enchimento capilar. 4. Instalar dois cateteres IV de grosso calibre durante o trajeto. ------------------------------------------------------------ Resumo. . . No paciente traumatizado, a hemorragia é a causa + comum de choque; O choque é um estado de alteração generalizada na função celular de metabolismo aeróbico para metabolismo anaeróbico secundária à hipoperfusão das células teciduais, na qual a oferta de oxigênio em nível celular é inadequada para satisfazer as necessidades metabólicas. Como resultado, a produção celular de energia diminui e as funções celulares ficam prejudicadas em um período de tempo relativamente curto, levando à morte celular; O choque pode ser classificado em: hipovolêmico (principalmente hemorrágico no trauma), distributivo ou vasogênico e cardiogênico; As etapas no manejo do choque são: controlar qualquer hemorragia arterial, garantir oxigenação, identificar 7 Khilver Doanne Sousa Soares Material restrito, favor não reproduzir nem distribuir sua posse!!! Nenhum serviço de impressão e xerox pode redistribuir este material a outros clientes!!! qualquer tipo de hemorragia, transportar até os cuidados definitivos, administrar terapia com líquidos ou sangue quando apropriado. A hemorragia externa deve ser controlada por meio de compressão direta, seguida pela aplicação de um curativo compressivo. Se isso não foi rapidamente efetivo: torniquete. TODOS os pacientes com trauma + choque tem que ser encaminhados ao serviço até uma instituição para cuidados definitivos o quanto antes A infusão excessiva de líquidos deve ser evitada para minimizar sangramento adicional e formação de edema no paciente. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ Referências PHTLS Atendimento Pré-hospitalizado ao Traumatizado. 9° ed. Jones & Bartlett Learning, 2020.