A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
38 pág.
Fisocratas

Pré-visualização | Página 8 de 11

Sempre caberia perguntar, é claro, por que os fabricantes de manu-
faturados, se fossem beneficiados pelo "luxo de. decoração", não gasta-
\29 
riam também seu dinheiro em produtos agrícolas de alta qualidade, 
favorecendo a capitalização do campo. Quesnay não chega a discutir a 
questão, mas ele poderia, por exemplo, recordar que os agentes ligados 
às manufaturas são muito mais numerosos que os proprietários. Redis-
tribuído dessa forma, o rendimento dos senhores da terra não iria criar, 
necessariamente, as condições de um consumo de luxo. 
"Os homens que gastam o rendimento e que compram tão caro", es-
creve ele, "devem, portanto, ser também muito menos numerosos, em 
proporção, comparativamente à soma de suas compras." 
Isto não esgota, é claro, a discussão sobre o que seria mais vantajoso 
para a agricultura e muito menos sobre o que seria mais benéfico para 
o conjunto da população. Mas não há como desconhecer o sentido essen-
cial da proposta de Quesnay. Não basta poupar nem gastar — é preciso 
gastar na direção certa, para que se possa construir um eficiente sistema 
produtivo. Este é um ponto que ele fixa bem cedo na sua reflexão eco-
nômica. Já em 1758, nas notas que acompanham o Quadro, ele deixa 
bem clara a missão que cabe ao mais importante dos proprietários: 
"Que o governo se preocupe menos com poupar do que com opera-
ções necessárias à prosperidade do reino, pois despesas muito grandes 
podem deixar de ser excessivas graças ao aumento das riquezas". 
Quesnay não exibe apenas uma clara percepção do papel dos inves-
timentos na construção da economia. Ele também entende os perigos 
do entesouramento que esteriliza recursos. Para quem se interesse pela 
"atualidade" de sua obra, este é um ponto de especial importância: uma 
antecipação, por assim dizer, da teoria da demanda efetiva. 
"Que os proprietários e os que exercem profissões lucrativas", escreve 
ele, "não sejam levados [. . . ] a entregar-se a poupanças estéreis que 
retirariam da circulação e da distribuição uma parte de seus rendimentos 
ou de seus ganhos." 
E acrescenta: 
"Que a administração das finanças, seja na percepção dos impostos, seja 
nas despesas do governo, não dê ocasião à formação de fortunas pecuniá-
rias, que furtam uma parte dos rendimentos à circulação, à distribuição 
e à reprodução" f^i. 
Em Quesnay, esse interesse pela manutenção de um nível adequado de 
dispêndio vem associado a uma indisfarçada aversão ao setor financeiro. 
25 Idem. Análise da fórmula aritmética do Quadro econômico, neste volume, p. 131. 
-o Idem. Extrato clus economias reais do Sr. de Sully, neste volume, p. 125. 
30 
que nesse momento dispõe, é óbvio, de uma posição de força diante dos 
agricultores enfraquecidos. Por isso, ele chega a propor que, a cada dez 
anos, sejam renovados os juros dos empréstimos de longo prazo, para 
evitar-se que eles se mantenham acima da taxa de valorização das terras 
— o que seria, segundo ele, causa de uma temível "depredação" da 
economia rural. É evidente que, em se tratando de finanças, Quesnay 
não se encanta nem um pouquinho com os mecanismos de mercado. 
Ele sabe muito bem que tais mecanismos, neste caso, podem simples-
mente levar a uma perigosa transferência em favor dos financistas, com 
a conseqüente destruição do aparelho produtivo sem o qual não há 
verdadeiro excedente. 
Os limites do mercado 
Se Quesnay assume, em seus escritos, a perspectiva do proprietário, 
como sustenta Gilibert, é preciso convir, no entanto, em que se trata de 
uma perspectiva iluminada por um conjunto muito especial de informa-
ções. Antes de mais nada, convém lembrar que o proprietário, na visão 
do autor do Quadro econômico, não aparece como titular de um direito 
incondicional. No próprio Quadro, os senhores da terra não têm a 
função passiva de desfrutar do produto líquido. Eles têm de usá-lo 
segundo uma certa regra — 50% com a classe produtiva, 50% com 
a estéril —, isto depois de haverem contribuído para fonnar a infra-
-estrutura da economia agrária. 
"É a necessidade das despesas que só os proprietários podem fazer, 
para o crescimento de suas riquezas e para o bem geral da sociedade", 
escreve Quesnay, "que faz com que a segurança da propriedade fun-
diária seja uma condição essencial da ordem natural do governo dos im-
périos." ^^ 
É como um proprietário ilustrado, portanto, que François Quesnay se 
volta para o exame das questões econômicas. Por mais que sua postura 
possa objetivamente atender aos interesses dos senhores da terra, é como 
um reformista que ele constrói sua doutrina do governo. Um reformista 
que, ao mesmo tempo que procura abrir caminho a um novo tipo de 
empreendedor rural, tenta ensinar aos donos da terra as condições de sua 
Idem. Anál'"". da fórmula aritmética do Quadro econômico, neste volume, 
p. 131. 
31 
sobrevivência. São condições que envolvem não só um papel ativo e 
consciente no processo produtivo, mas também um novo estilo de com-
portamento nos negócios. Assim é que François Quesnay sugere que os 
senhorios sejam moderados nos acordos de aluguel, evitando, no interesse 
próprio e no do reino, sufocar os arrendatários com encargos excessivos. 
Aqui, como no caso das finanças, interessa preservar o único setor capaz 
de verdadeiramente produzir e de manter a sociedade em funcionamento. 
Tudo isto pode parecer embaraçoso para quem se habituou, de 
acordo com boa parte dos historiadores, a ver nos fisiocratas defensores 
incondicionais do mercado e crentes fervorosos no sistema da concor-
rência. Não é Quesnay, afinal, quem diz que a maioria dos males pro-
vém de se ignorar que o mundo anda sozinho? 
"// mondo va da se, diz o italiano — palavras de grande bom senso. 
Que a ordem e a fidelidade da administração se restabeleçam e que se 
deixe cada coisa tomar seu curso natural: veremos então", escreve ele, 
"todos os nossos princípios serem executados em virtude da ordem inata 
das coisas." 
E mais: 
"O governo terá, então, o cuidado de lhes facilitar o caminho, de re-
tirar as pedras da estrada e de deixar mover-se livremente os concorren-
tes, pois são eles que garantem o estado das riquezas de uma nação" 
Certo, há uma ordem natural que a observação e a reflexão podem captar 
por trás da confusão aparente do mundo cotidiano: esta é a crença básica 
de Quesnay, que vê no mundo social um objeto de ciência comparável 
ao mundo físico, pela rigidez de suas leis e pela regularidade que revela. 
E esta ordem natural, muitos textos o indicam, é a ordem de um sistema 
competitivo, em que os interesses particulares tendem a coincidir, no 
final das contas, com o interesse geral. 
"Em todo ato de comércio", escreve Quesnay numa nota da "Análise", 
"há o vendedor e o comprador, que estipulam contraditória e livre-
mente seus interesses. E seus interesses, assim regulados por eles mesmos, 
que são seus únicos juizes competentes, estão de acordo com o interesse 
público." 
Não parece haver espaço para dúvida. No entanto, essa noção 
de harmonia natural deve ser entendida dentro de certos limites, como. 
28Ideni. Philosophie rurale, I.N.E.D., v. 2, p. 727. 
32 
aliás, em Adam Smith. Nem mesmo este, que é comumente, e com 
maior razão, invocado como o grande patrono do pensamento liberal, 
acredita incondicionalmente nas virtudes da livre iniciativa. Bem ao con-
trário, Smith procura deixar bem claro que é preciso velar para que o 
sistema se mantenha concorrencial e para que os interesses particulares 
sejam contidos dentro de certos limites, fora dos quais se romperia no 
mercado todo o equilíbrio de poder. Em Quesnay, no entanto, a con-
fiança na harmonia natural é sujeita a restrições ainda maiores que levam 
o próprio Smith a assumir uma posição crítica em face da fisiocracia. 
Antes de qualquer classificação doutrinária, é preciso levar em 
conta, portanto, que o pensamento de Quesnay se constrói pela combi-
nação de iim conjunto especial de elementos empíricos e analíticos — 
dos quais o menos especial não é, por certo, sua noção de produtividade