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Fisocratas

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exclusiva da agricultura. Em primeiro lugar, em que consiste, exata-
mente, o componente liberal de sua obra econômica? À primeira vista, 
seu liberalismo se constitui, antes de mais nada, por oposição à política 
de restrições comerciais, que ele associa à tradição colbertista. O racio-
cínio é na aparência muito simples: se o excesso de impostos, o entrave 
à circulação de mercadorias e a proibição de exportar alimentos contri-
buem para deprimir a agricultura e despovoar os campos, então o regime 
de livre comércio deve ser o mais adequado à prosperidade de um reino 
agrícola. Numa leitura apressada, o assunto se resolve desta maneira. 
Mas a questão é um pouco mais complexa. Devemos lembrar, antes de 
mais nada, que François Quesnay realiza, de modo mais completo que 
os mercantilistas, a transposição, para o plano social, da noção de ordem 
que se encontra nas chamadas ciências naturais. Esta noção, é bom 
lembrar, aparece em sua obra com uma coloração claramente mecani-
cista. Vejam-se, por exemplo, as imagens que aparecem no famoso capí-
tulo 7 de Filosofia rural: 
"Trata-se de um objeto profundo", escreve ele sobre o estudo da econo-
mia, "que só poderemos atingir pelas vias da simplicidade, seguindo 
a ordem física, a ordem recíproca das causas e dos efeitos, abstraindo 
todas as irregularidades introduzidas pelas administrações políticas, por-
que o nosso único f im é atingir a verdade mais simples através da 
descrição elementar de todas as peças de ligação que entram na constru-
ção da máquina econômica". 
Aqui se vê, a propósito, que o economista e o médico François Quesnay 
não vêem nenhuma diferença de natureza entre o mundo físico, o mundo 
biológico e o mundo social: 
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"Foi necessário, em primeiro lugar, tomar conhecimento de todo o fun-
cionamento desta máquina regeneradora. Trata-se aqui de dissecá-la 
e de descobrir a sua organização pela definição anatômica de todas as 
suas partes e pela descrição dos seus pontos de contato, da sua conexão 
e da cooperação entre as suas funções" 
Ora, esta noção de ordem natural implica a idéia de uma legislação 
que transcende, necessariamente, as regras positivas de cada sociedade. 
É nesta perspectiva que o lema il mondo va da se ganha seu pleno 
significado. Admitida esta noção, torna-se fácil sustentar que a sabedoria 
consista, em primeiro lugar, em respeitar a natureza e em procurar extrair 
de suas forças o maior proveito. E felizmente, poderia dizer Quesnay, 
o conhecimento dessa ordem não é privilégio dos homens de ciência, 
embora estes, sem dtivida, tenham acesso a um tipo mais amplo e mais 
completo de saber. De certo modo a natureza se manifesta na cons-
ciência prática de todo homem capaz de distinguir seus interesses. 
A passagem desta convicção à defesa do livre comércio interna-
cional é ainda auxiliada por dois outros elementos que opõem Quesnay 
à tradição mercantilista: 1) a idéia de que toda troca é, em última aná-
lise, intercâmbio de mercadoria por mercadoria; 2) a concepção da ri-
queza como algo formado por elementos "reais", isto é, por objetos de 
uso e pelo ouro ou por quaisquer símbolos monetários. Não há lugar, 
neste conjunto de noções, para a busca de superávits comerciais como o 
objetivo essencial do comércio entre as nações. De resto, Quesnay mani-
festa claramente sua convicção de que as trocas internacionais podem e 
tendem a ser, quando livres, uma atividade vantajosa para todos os par-
ceiros, e não, como tantos acreditaram, um jogo em que uns sempre 
tendem a ganhar às custas dos outros. É necessário lembrar, além disso, 
que ele repetidamente se refere ao comércio externo como um importante 
regulador da oferta e dos preços. 
Vejamos agora, em segundo lugar, os elementos que limitam o libe-
ralismo de Quesnay. O mais importante, sem dúvida, é sua concepção 
da agricultura como único setor verdadeiramente produtivo. É em tomo 
dele, e para seu fortalecimento, que se deve organizar toda a economia, 
segundo a doutrina dos fisiocratas. Isto diferencia as próprias funções 
do governo, obrigado a tratar as várias atividades de acordo com pesos 
também variados: 
29 Idem, íbidem, p. 688. 
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"Que o governo econômico", escreve ele, "só se ocupe em favorecer 
as despesas produtivas e o comércio exterior dos produtos da terra e que 
deixe as despesas estéreis seguirem por si mesmas" ^o. 
Estamos aqui, claramente, diante do que Smith chamou "sistema de pre-
ferência", por oposição ao "sistema de restrição" concebido pelos mer-
cantilistas. Neste "sistema de preferência", o mercado pode ter um papel 
importante, mas certamente não exclusivo. Na verdade, se a ordem 
natural se manifesta, muitas vezes, na percepção do interesse próprio, 
não é garantido que isso sempre aconteça. Comerciantes, financistas e 
mesmo proprietários podem, na busca de vantagens imediatas, pôr em 
xeque a boa distribuição dos ganhos e das despesas, comprometendo a 
saúde do corpo econômico da sociedade. É por isto que François Ques-
nay pode escrever, no artigo "Homens", de 1757, que "os interesses dos 
particulares não se prestam à visão do bem geral". E ele na verdade vai 
mais longe, afirmando que "não se podem esperar tais vantagens senão 
da sabedoria do governo". Afirmação estranha, sem dúvida, se o libera-
lismo desse autor fosse tão irrestrito quanto certas passagens parecem 
indicar. Mas esta idéia de sabedoria é tão essencial ao pensamento de 
Quesnay quanto a noção de uma ordem transcendente às instituições 
humanas. 
A força da razão 
Por muitas razões se pode dizer que François Quesnay é um homem 
de seu tempo — e uma das mais fortes é sem dúvida a sua confiança 
no poder das luzes e da razão. Ele é bastante realista para reconhecer 
que os homens são em geral mais sensíveis à voz do interesse imediato 
do que a qualquer outro apelo, mas declara-se igualmente disposto a 
acreditar que a educação e a difusão da ciência possam orientar as von-
tades para o caminho certo. 
"Num governo onde todas as ordens de cidadãos", escreve ele, "têm 
luzes bastantes para conhecer evidentemente e para demonstrar com 
segurança a ordem legítima mais vantajosa ao príncipe e à nação, encon-
traríamos um déspota que empreendesse, com apoio das forças militares 
do Estado, fazer manifestariente o mal pelo mal?"®i 
É destas luzes que vêm, segundo Quesnay, as forças que sustentam os 
governos empenhados na obediência às leis naturais — porque é nestas 
Idem. Extrato das economias reais do Sr. de Sully, neste volume, p. 125. 
31 Idem. Despotisme de Ia Chine, I.N.E.D., v. 2, p. 921. 
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leis, acima de tudo, que devem moldar-se as sociedades bem constituí-
das. Na verdade, não cabe ao povo nem ao príncipe a tarefa de legislar, 
já que o homem não é o criador das leis que regem de fato a economia. 
"O poder legislativo, freqüentemente disputado entre o soberano e a 
nação", diz Quesnay, "não pertence primitivamente nem a um nem a 
outro. Sua origem está na vontade suprema do criador e no conjunto 
das leis da ordem física mais vantajosa ao gênero humano." 
Se a boa legislação não pode ser mais que a "declaração das leis 
naturais", o conhecimento destas leis será o que François Quesnay deno-
mina "ciência do governo". Obrigatório para o estadista, esse conheci-
mento deve, no entanto, difundir-se tanto quanto possível por toda a 
sociedade. 
"A primeira lei positiva, a lei fundamental de todas as outras leis po-
sitivas", está escrito no artigo "Direito natural", "é a instituição da ins-
trução pública e privada das leis da ordem natural." 
Para Quesnay, trata-se das leis — físicas e morais — que foram insti-
tuídas por Deus e que, como tais, são as "mais vantajosas ao gênero 
humano". Vantajosas, é claro, apenas potencialmente, se o homem não 
souber usar a "prerrogativa de poder contemplá-las e conhecê-las". 
Construir a sociedade, segundo Quesnay, eqüivale de certo modo a 
uma tarefa técnica. Assim como a agronomia deve revelar as leis que 
regem a produção no mundo vegetal, para dar ao agricultor as indicações