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A Histeria e a Psicanálise Histeria: A histeria é uma palavra de origem grega (hystera) que significa útero. A origem do termo nos indica o motivo dessa desordem ter sido nomeada de tal forma, pois as observações dos médicos, psicanalistas e neurologistas dos séculos XIX e XX apontavam para uma predominância da histeria nas mulheres. uma neurose caracterizada por quadros clínicos variados. Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, através de sintomas corporais paroxísticos (ataques ou convulsões de aparência epiléptica) ou duradouros (paralisias, contraturas, cegueira). O Conceito de Psicosomática: A Psicossomática estuda como a nossa mente se relaciona com o nosso corpo e a produção de doenças. Segundo Julio de Melo Filho (2010), uma pesquisa em Psicossomática se debruça: “[...] sobre a relação mente-corpo, sobre os mecanismos de produção de enfermidades, notadamente sobre os fenômenos do estresse” As Três fases da Psicossomática: Fase Psicanalítica: É a primeira fase descrita pelos autores do livro que usamos como referência no Brasil, quando o assunto é Psicossomática. Freud, o pai da Psicanálise, entendia que ideias reprimidas podiam acarretar conversões sintomáticas no corpo do sujeito. É o que já vimos anteriormente com a histeria e sua conversão em um sintoma físico, sem um correspondente orgânico lesionado: Nesse sentido, para a Psicanálise, algumas enfermidades que não podiam ser explicadas por lesões físicas, que, por consequência, eram consideradas psicossomáticas, tinham suas origens no inconsciente. Para enfatizar a diferença entre a histeria e uma doença psicossomática, é importante destacar que, na histeria, não existe um correspondente físico lesionado para os sintomas do sujeito e, na Psicossomática, também pode não existir essa relação. Contudo, diferentemente da histeria, que nunca apresenta um órgão, tecido ou músculo que apresente distúrbios, na Psicossomática, é possível que isto ocorra devido às questões da psique. Fase behaviorista: A segunda fase diz respeito à behaviorista da Psicossomática. Os behavioristas formavam grupos que nos séculos XIX e XX queriam fazer da Psicologia uma ciência mais objetiva e quantificável. O interesse dos behavioristas era prever e controlar o comportamento (WATSON, 1913, p. 1). O Positivismo, corrente filosófica que defendia a neutralidade, objetividade e sistematização das pesquisas, exerceu grande influência nas obras behavioristas. É de se imaginar que esses preceitos foram usados nos estudos behavioristas sobre as doenças psicossomáticas, diferente de grande parte da comunidade que as estuda, que compreende a existência da mente e seus efeitos sobre o corpo. Os behavioristas, ainda que admitam a existência da mente, não estão interessados em seu estudo, uma vez que, para esses teóricos, o que importa é o comportamento e o ambiente em que o sujeito está inserido. Para eles, a mente é uma substância abstrata que não pode ser medida, quantificada e observada de forma direta, neutra e empírica. Alguns behavioristas chegam a afirmar que a psicossomática está mais para a vertente dualista do que para uma concepção monista. Se, para os behavioristas, a mente não deve ser estudada, já que está inacessível aos nossos métodos de pesquisa realmente válidos, como eles entendem a Psicossomática? Para os behavioristas, essas alterações fisiológicas sem causa orgânica aparente podem ser compreendidas olhando para as contingências. Contingências: Pode ser entendida como a probabilidade de um determinado evento (o estresse, por exemplo) acontecer depois de um outro evento (uma bronca do chefe no trabalho, por exemplo). Assim, o estresse é contingente à bronca do chefe no trabalho. Segundo a definição da APA: “s. relação condicional, probabilística, entre dois eventos.” Uma série de contingências aversivas são experimentadas pelas pessoas em suas rotinas. O ambiente de trabalho e as tarefas laborais podem, por exemplo, resultar em níveis elevados de estresse incessante. Para os behavioristas, o ambiente do sujeito que somatiza precisa ser transformado em algo mais positivo para sua saúde, principalmente, se esse sujeito não tem condições de contornar as contingências aversivas de sua vida por conta própria. Fase multidisciplinar: É a terceira fase da Psicossomática. Filho et al. (2010, p. 29) afirmam que a terceira fase é: “[...] atividade essencialmente de interação, de interconexão entre vários profissionais de saúde.” Uma abordagem multidisciplinar pressupõe a contribuição de diversos profissionais para atender um mesmo paciente. Pensar a Psicossomática desta forma implica na aposta de que o psicólogo, o médico, o psiquiatra, o nutricionista, o neurologista ou qualquer outra especialidade, não consegue dar conta da integralidade do sujeito de forma isolada. A multidisciplinaridade está relacionada ao conceito de um ser humano biopsicossocial. França e Rodrigues (2005) resumem bem essa afirmação, para eles: “[...] o que somos hoje é resultado de nossa interação com o mundo e todas as nossas experiências do passado e de expectativas futuras. É um sistema único, constituído por três subsistemas: mente, corpo e relacionamentos sociais”. A Psicossomática não resume apenas as doenças psicossomáticas. Engloba uma compreensão de ser humano biopsicossocial e a importância de um trabalho multidisciplinar para oferecer a melhor assistência possível para as pessoas que necessitam de cuidados em saúde. O DSM e a Psicossomática: As doenças chamadas psicossomáticas, por serem desencadeadas ou agravadas por questões psicológicas, podem ser manifestadas em dores, alterações gastrointestinais, tremores, manchas na pele, falta de ar e esses sintomas tendem a se intensificar em situações de estresse. O diagnóstico é complexo e se dá por exclusão. Não há uma causa específica, mas alguns fatores são recorrentes, como a sobrecarga profissional, vivência de evento traumático, situações de violência, luto, ansiedade, preocupação excessiva, entre outras situações possíveis de desencadear estresse. A dificuldade em falar sobre o sofrimento psicológico vivenciado parece ser um fator relevante nesses casos. Nosso organismo, quando sobrecarregado, possui três vias de descarga das excitações: o pensamento, o comportamento e o organismo. Assim, o sofrimento intenso ou mesmo a sobrecarga de atividades pode perturbar o funcionamento do organismo e favorecer, de acordo com a cultura, os traços de personalidade e o momento de vida, o surgimento de patologias psíquicas ou somáticas. Isso acontece quando o conflito psíquico e o sofrimento ultrapassam a capacidade habitual da pessoa de tolerar situações de estresse, impedindo que estas sejam elaboradas. O adoecimento aparece como uma tentativa de equilíbrio para o corpo e, quando é percebido dessa forma, implica não somente em tratar os sintomas da doença, mas também mudar os fatores que propiciaram seu desencadeamento. O DSM-V classifica como portador de Transtorno com Sintomas Somáticos os indivíduos que apresentam qualquer número de sintomas somáticos acompanhados por pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos, relacionados aos sintomas em si ou preocupações associadas com a saúde, caracterizado por: · Pensamentos desproporcionais e persistentes sobre a gravidade dos próprios sintomas · Nível persistentemente elevado de ansiedade sobre a saúde ou sintomas · Excesso de tempo e energia dedicados a estes sintomas ou problemas de saúde O diagnóstico de Transtorno de Ansiedade de Doença é recebido por indivíduos que experimentam um alto nível de ansiedade, com temor de estar doente, mas sem sintomas somáticos. Estes indivíduos eram classificados como hipocondríacos até o DSM-IV e esta categoria foi excluída devido ao caráter pejorativo que o termo adquiriu como “quem tem mania de doença”. O Transtorno Factício foi incluído no capítulo dos Sintomas Somáticos e Outros Transtornos Relacionados com um diagnóstico para indivíduos queapresentam falsificação de sintomas físicos ou psicológicos, sem um incentivo externo evidente, motivado por assumir o papel de enfermo. Nesses casos, não falamos em adoecimento psicossomático. São situações em que os sintomas não existentes são usados como justificativa para determinado comportamento ou mesmo para obter benefícios, sejam eles conscientes ou inconscientes. Outro quadro estudado anteriormente, quando contextualizamos o que ficou conhecido como Histeria de Conversão pela Psicanálise, é o que hoje está classificado como Transtorno Conversivo. Nesse quadro, é necessária a presença de um ou mais sintomas de alterações da função motora e sensorial voluntária, tendo os exames neurológicos descartando outras causas para a sintomatologia apresentada. Nesses casos, o sintoma não é falseado como no Transtorno Factício, nem o organismo apresenta algum tipo de lesão orgânica de fato como no Transtorno de Sintomas Somáticos. A pessoa de fato sente o que está relatando, mas não há alteração no organismo que justifique o que está relatando sentir. Verificando o Aprendizado 1. Estudamos que a histeria foi objeto de interesse de médicos como Charcot e Freud. Muitas histéricas chegavam aos consultórios médicos e podiam apresentar uma gama de sintomas extensa como: cegueira, cãimbras nos membros superiores e até mesmo desmaios. Sobre a histeria, é correto afirmar que: R: Na histeria, não existe lesão física. · Apesar da possibilidade de a histeria aparecer com sintomas bem distintos, dependendo da pessoa, algo em comum entre as histéricas era a inexistência de uma lesão física no corpo que justificasse os sintomas que a pessoa experimentava. Ou seja, de fato, ela sentia o que estava dizendo, mas não havia correspondência com alguma lesão física no corpo. 2. A Psicossomática se interessa pela influência de aspectos psíquicos em doenças corporais. Sobre o conceito de Psicossomática, é incorreto afirmar que: R: Histeria e psicossomática são sinônimos. · Como estudamos na histeria, não existe lesão orgânica no corpo do sujeito. Já na Psicossomática a lesão orgânica pode existir. Logo, elas não são sinônimas.