Prévia do material em texto
A CONVENÇÃO DE ANTIBES
«EFEITO DE RETORNO SOBRE A PSICOSE ORDINÁRIA))
(JACQUES-ALAIN MILLER)
No primeiro tempo, em Angers,
começamos ... por surpresas, pelas
nossas surpresas. Foi uma forma de
dizer, implicitamente, que nos
confrontávamos com certa rotina ou
com certo classicismo e que
queríamos distinguir momentos ou
casos que se subtraíam a uma ordem,
causando nossa surpresa. ( ... ).
Perseveramos, e, no segundo tempo
[em Arcachon], escolhemos como
tema �casos raros". Quisemos, talvez:
conceituar nossas surpresas. O fato e
que fomos levados a explicitar nossa
referência à norma clássica das
psicoses e, desse modo, colocá-la
mais radicalmente em questão.
Hoje, nos reencontramos, na
Convenção [de Antibes], no tempo
três. Lendo a coletânea, tive o
sentimento de que aquilo que
tínhamos abordado sob a perspectiva
de casos raros, abordávamos, agora,
sob a perspectiva de casos frequentes.
Demo-nos conta de que o que.
designávamos como casos raros, em
relação à nossa norma de referência, à
nossa medida de base ... eram -
sabíamos muito bem disto, por meio
da nossa prática quotidiana - casos
frequentes. Neste volume da
Convenção {de Antibes], assumimos
seu estatuto de casos frequentes.
Foi deste modo que, a posteriori,
imaginei nosso caminho. Passamos da
surpresa à raridade e da raridade à
frequência. Estava, ontem à noite, me
perguntando: "como chamaremos o
livro que poderá resultar desta
jornada"? Não será
neodesencadeamento, neoconversão,
neotransferência. Será neopsicose?
Será que realmente queremos ligar
nossa elaboração à neopsicose? Não
me agrada nem um pouco a
neopsicose. E me dizia: "no fim das
contas, falamos de psicose ordinária".
Na história da psicanálise,
interessamo-nos naturalmente pela
psicose extraordinária, por aqueles
que realmente "arrebentavam". Há
quanto tempo Schreber é referência?
Ao passo que temos aqui psicóticos
mais modestos, que nos reservam
surpresas, mas que podem, como
veremos, se fundir num tipo de média:
a psicose compensada, a psicose
suplementada, a psicose não
desencadeada, a psicose medicada, a
psicose em terapia, a psicose em
análise, a psicose que evolui, a
psicose sintomatizada, por assim dizer.
A psicose joyceana é, diferentemente
da obra de Joyce, discreta. ( ... ).
Tanto o franco psicótico quanto o
psicótico normal são variações ... da
situação humana, da nossa posição de
falante no ser, da existência do
falasser.
Jacques-Aiain Miller
(A psicose ordinária, p. 241-242)
1J P!iiCD!iE
DRDinJIRilJ
A CONVENÇÃO DE ANTIBES
"EFEITO DE RETORNO SOBRE A PSICOSE ORDINÁRIA"
(JACQUES·ALAIN MILLER)
�.EscolaBwileira
'4-' de Psí�
T@íbhoteta jf reullíana
© Copyright Editora Scriptum 2012
Edição e organização:
Maria do Carmo Dias Batista e Sérgio Laia
Tradutores:
José Luiz Gaglianoni, Lourenço Astúa de Moraes, Maria da Glória Magalhães e
Sandra Arruda Grostein
Revisão da Tradução:
Daniela de Camargo Barros Affonso (coordenadora), Ana Venite Fuzatto de Oliveira,
Antonia Claudete Amaral Livramento Prado, Kátia Ribeiro, Maria Noemi de Araújo,
Márcia Aparecida Barbeito e Marizilda Paulino
Revisão Final da Tradução e Estabelecimento do texto em português:
Frederico Zeymer Feu de Carvalho e Yolanda Vilela
Revisão da Língua Portuguesa:
Neyse de Castro Sanguinetto
Produção:
Silvano Moreira
Capa, Projeto Gráfico e Diagramação:
Fernanda Moraes
Livraria e Editora Scriptum
Rua Fernandes Tourinho, 99
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooouooooooooooooooooooooooooooo
� Batista, Maria do Carmo Dias; Laia, Sérgio (Organizadores) �
� A Psicose Ordinária I Maria do Canno Dias Batista e �
� Sérgio Laia. i
� Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2012. i i 432p. i
i I. Psicanálise. i
I
ISBN 978-85-89044-48-6
I i CDU: 616.89 i
!..=���.�����.:.�:. ................................................................... !
Savassi 1 Belo Horizonte I Minas Gerais
131132 23 17 89
Escola Brasileira de Psicanálise
Rua Felipe dos Santos, 588
Lourdes I Belo Horizonte I Minas Gerais
131132 92 75 63
www.ebp.org.br E-mail: scriptum@scriptum.com.br
SUMÁRIO
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 7
(Sandra Arruda Grostein)
NOTA DOS EDITORES BRASILEIROS 11
(Maria do Carmo Dias Batista e Sérgio laia)
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 15
PRIMEIRA PARTE: OS TEXTOS
O NEODESENCADEAMENTO
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice:
ligamentos, desligamentos e religamentos 21
Seção Clínica de Clermont-Ferrand, Antenne Clinique de Dijon
e Seção Clinica de lyon: Clínica da suspensão 53
Seção Clinica de lille:
Investigações sobre o início da psicose 77
A NEOCONVERSÃO
Seção Clínica de Bordeaux:
Usos do corpo e sintomas 99
Antennes Cliniques de Chauny-Prémontré e de Rouen:
Fenômenos de corpo e estruturas 119
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes:
Fenômenos corporais em pacientes masculinos 129
A NEOTRANSFERÊNCIA
Seção Clínica de Angers:
lalíngua da transferência nas psicoses 155
Seção Clínica de Bruxelas:
Transferência e psicose .nos limites 187
Antenne Clinique de T ottlouse:
O psicanalista como ajuda-contra 203
AUTORES DOS TEXTOS DA PRIMEIRA PARTE 227
SEGUNDA PARTE: A CONVENÇÃO
ABERTURA
1. Tríptico 235
2. A Convenção, modo de uso 239
3. Clínica fluida {f/oue) 241
DO PATOLÓGICO AO NORMAL
4. Perturbações da linguagem 249
5. Gozar da linguagem 263
6. Apfuit! do sentido 271
7. Continuidade-descontinuidade 277
8. Psicoses carvalho e junco 291
DA ÓPERA AO TEATRO DE BOLSO
9. O desejo é sua máscara 295
1 O. Fenômenos de ordem metonímica 303
11. Invenção sob medida e prêt·à·porter 309
12. Conversão do significante e localização da libido 319
13. Conft!rsão do simbólico ao real 325
14. A hiância mortífera 329
15. Corpo, carne, cadáver 333
DO PSICÓTICO AO ANALISTA
16. Do saber suposto à lalíngua exposta 345
17. A língua e o laço social 349
18. Decomposição espectral da linguagem 357
19. Word and object 361
20. Língua pública e língua privada 367
21. Como pode o sujeito psicótico servir-se de nós? 375
22. As condições da conversação com um psicótico 383
SUPLEMENTO
Efeito do retorno à psicose ordinária (Jacques-Aiain Miller) 399
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA
O fazer da clínica nos obriga a sempre inovar e inventar
em face dos sintomas que, por sua plasticidade, se renovam.
Entre 1996 e 1 999 houve na França uma série de
Conversações no âmbito das Seções Clínicas do Campo Freudiano,
visando questionar a psicose a partir dos manejos clínicos e das
manifestações sintomáticas travestidas de ineditismos.
O objetivo do livro A Psicose Ordinária - A Convenção de
Antibes é estabelecer novas convenções sobre a psicose, recuperan
do alguns conceitos clássicos da clínica lacaniana e reformulando
os, para apresentar alternativas ao estabelecimento do diagnóstico
diferencial entre neurose e psicose, na discussão de casos em
atendimento.
Para organizar a tradução da edição brasileira, e sua poste
rior publicação, foi necessário o envolvimento de algumas institui
ções e o trabalho de muitos.
Em um feliz encontro, a CLIPP - Clínica Lacaniana de
Atendimento e Pesquisas em Psicanálise e o Colégio Franco
Brasileiro, que na mesma época, em São Paulo e Paris, respectiva
mente, trabalhavam o livro "La Prychose Ordinaire", concluíram pela
necessidade de uma versão em português do texto. Estabeleceram,
então, uma parceria para tal finalidade, agradeceram a J acques-Alain
Miller por gentilmente autorizar o projeto.
O livro foi dividido em suas duas partes "naturais": os
casos clínicos e a conversação. A tradução da primeira parte ficou
sob a responsabilidade da CLIPP e a da segunda, com o Colégio, à
época sob a coordenação de José Luiz Gaglianone. No que se refe-
7
re ao título, pensou-se, num primeiro momento, em traduzir "La
P!Jchose Ordinaire" por Psicose Comum, mas optou-se por manter a
pluralidade de sentidos que "ordinária" comporta, exprimindomelhor o que se busca no desenvolvimento das discussões presen
tes no livro.
No contexto da discussão clínica, cuja série de conversa
ções Antibes finaliza, o debate visava encontrar meios de aproxi
mação da questão da psicose por meio de novas proposições con
ceituais. Já no campo editorial, a versão brasileira, diferentemente
da francesa, cuja inclusão na série das três conversações já estava
dada a priori, buscava um lugar onde pudesse ter seu valor reco
nhecido. Decidiu-se então, numa segunda parceria entre a Escola
Brasileira de Psicanálise e uma das editoras que já publicavam o
Campo Freudiano no Brasil, incluí-la na série das revistas dos
Institutos do Campo Freudiano no Brasil, iniciada com os dois
volumes da revista Clique. Projeto esse que foi posteriormente
descartado.
Finalmente, numa terceira parceria entre a Escola
Brasileira de Psicanálise (EBP) e a Editora Scriptum, decidiu-se que
a coleção que teria o melhor perfll para acolher o livro A Psicose
Ordinária seria a própria coleção da EBP.
Foi imperiosa uma revisão criteriosa da tradução, visando
principalmente à uniformização dos termos, trabalho do qual nova
mente a CLIPP participou ativamente, em conjunto com colegas da
EBP.
O longo caminho percorrido para chegar à publicação
permitiu que o termo psicose ordinária fosse apresentado ao públi
co brasileiro amplamente validado. Embora desde 1999 muito se
tenha discutido sobre a importância de incluir um diferencial entre
as psicoses, que as aproximassem da neurose, a flexibilidade com
que a expressão "psicose ordinária" é'utilizada permite que se man
tenha como um termo comum e não seja elevada à categoria de
conceito.
8
Em seu texto "Efeito de retorno sobre a psicose ordiná
ria", Jacques-Alain Miller retoma a discussão sobre o termo psico
se ordinária, dizendo que este não se encaixa em uma definição rígi
da conceitual, e que foi proposto para que cada um pudesse utilizá
lo quando necessário. Trata-se mais de uma palavra, uma expressão,
um significante, do que propriamente um conceito.
Neste volume, o leitor brasileiro terá acesso ao texto acima
citado, conjuntamente com a tradução da Convenção de Antibes,
graças à generosidade de Miller em permitir que este fosse incluído
nesta publicação. Trata-se de outro diferencial fundamental e, por
que não dizer, um ganho importante em relação ao original.
A questão central debatida durante a Conversação girava
em torno da necessidade de se estabelecer um novo termo - psico
se ordinária - pois, se consideramos que psicose quer dizer foraclu
são do significante do Nome-do-Pai, tanto a ordinária quanto a
extraordinária se submeteriam a essa condição. Contudo, a impor
tância da psicose ordinária cresce na medida em que este diagnósti
co é cada vez mais constante, confirmando que os casos apresenta
dos nesta conversação e a maneira como a discussão é conduzida,
contribuem para manter vivo o debate sobre o tratamento da psico
se que até os dias de hoje se encontra na categoria do possível.
Sandra Arruda Grostein
Diretora Geral da CLIPP
AME da EBP e da
Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
9
NOTA DOS EDITORES BRASILEIROS
Com satisfação, na Coleção EB� produto da parceria da
Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) com a editora Scriptum, lan
çamos no Brasil este livro - A psicose ordinária. Publicado original
mente na França em 1999, já pode ser considerado um clássico,
tendo em vista a reorientação que nos tem permitido operar no tra
tamento das psicoses e suas incidências na clínica psicanalítica em
geral.
"Psicose ordinária", como se verá a seguir, não é um novo
diagnóstico de psicose, mas um modo de diagnosticar e tratar as
psicoses mesmo quando elas não se apresentam claramente como
tais. Por isso, a reorientação clínica efetivada com este livro nos
autoriza, ao mesmo tempo, a dar conta do que pode atravessar as
diferentes categorias que classicamente chamamos de "neuroses",
"psicoses" e "perversões" sem, no entanto, resvalarmos para diag
nósticos pouco precisos como "borderline", "casos-limite", "casos
fronteiriços" e "transtornos mentais ... sem nenhuma outra especifi
cação". Nesse contexto, quatorze (14) anos antes do lançamento da
quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
(DSM-V), prometida para 201 3, este livro que editamos agora no
Brasil vem possibilitando - aos psicanalistas de orientação lacania
na e aos profissionai� do âmbito da saúde mental que os acompa
nham - diagnosticar sem fazer proliferar "comorbidades" (atribui
ção de vários e até contraditórios tipos de transtornos mentais a um
mesmo paciente), sem aumentar a quantidade, em uma mesma cate
goria, de diagnósticos pouco precisos por se "caracterizarem"
como sendo "sem nenhuma outra especificação". Assim, lançar a
1 1
tradução deste livro no ano anterior à publicação do DSM-V é ofe
recer àqueles que se interessam pelas psicoses e pelo que se conven
cionou a chamar de "saúde mental", um instrumento clínico preci
so e prectoso.
Outra mostra da atualidade deste livro é que, em 201 1 , por
ocasião de um encontro com vários psicanalistas de língua inglesa
em Paris, Jacques-Alain Miller apresentou a conferência "Efeito de
retorno sobre a psicose ordinária". Neste "retorno" - que conside
ramos fundamental publicar nesta edição brasileira - a noção de
"psicose ordinária" ganha em precisão e clareza, assim como suas
ressonâncias sobre a experiência psicanalítica com relação à satisfa
ção pulsional, ao significante fundamental que Lacan designou
como Nome-do-Pai e aos modos como o termo "sintoma" é lapi
dado ao longo do ensino de Lacan.
Esta tradução brasileira, como poderemos ler no Prefácio
aqui assinado por nossa colega Sandra Grostein, foi um trabalho
feito por muitos, uma efetiva pratique à piusieurs que, por sua vez, é
consonante com a própria montagem do livro original, baseada nos
trabalhos e na conversação que ganharam corpo em uma
Convenção, sustentada por vários psicanalistas de orientação laca
niana e animada por Jacques-Alain Miller, em Antibes. A esses cole
gas de língua francesa, bem como à Sandra Grostein, Angelina
Harari, Elisa Alvarenga e Leonardo Gorostiza, que foram decisivos
para a retomada de alguns contatos e a efetivação de iniciativas que
tornaram esta edição possível, nossos agradecimentos. Para fazer
ressoar pluralidade da tradução para o português em um mesmo
diapasão, contamos com o inestimável trabalho de nossos colegas
Frederico Zeymer Feu de Carvalho e Yolanda Vilela, a quem tam
bém agradecemos imensamente.
Como editores brasileiros deste A psicose ordinária, cabe
agora também destacar que iniciamos nosso trabalho no âmbito da
gestão de Rômulo Ferreira da Silva, Luiz Fernando Carrijo da
Cunha e Simone Souto na Diretoria da EBP, mas o prosseguimos,
1 2
devido à extensão que ele tomou, graças à acolhida que tivemos da
atual Diretoria da EBP, composta por Cristina Drummond, Lilany
Vieira Pacheco e Ondina Machado. Somos gratos à confiança depo
sitada em nós por esses colegas, bem como aos que compõem a
maquinaria editorial da Scriptum. Considerando que este é nosso
último trabalho conjunto na Equipe de Publicação da EBP, bem
como a magnitude deste livro, podemos dizer que fechamos este
nosso percurso "com chave de ouro". É esta chave que entregamos,
agora, na forma deste livro, aos leitores brasileiros.
Maria do Carmo Dias Batista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP),
Membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP);
Redatora da Correio- Revista da EBP.
Sérgio Laia
Analista Membro da Escola (AME) pela EBP e pela AMP;
Professor do Curso de Psicologia da
Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura) ;
Pesquisador do Programa de Pesquisa e Iniciação Científica da
Universidade FUMEC (ProPIC), com Bolsa de Produtividade
Nível 2 do Cons�lho Nacional de Desenvolvimento
Tecnológico e Científico (CNPq) e em cujas atividades está
incluídoo processo de edição deste livro.
1 3
PREFÁCIO
Dois livros em um: a primeira parte é composta por nove
relatórios, que foram elaborados de forma coletiva pelas Seções
Clínicas do Campo Freudiano; a segunda uma longa conversação
sobre esses textos, que se estende por três meias jornadas, nos dias
1 9 e 20 de setembro de 1 998.
Os textos estão divididos em três capítulos: o neodesencadeamento
(aquelas formas de "desligamento" que se distinguem do desenca
deamento clássico) , a neoconversão (fenômenos de corpo não inter
pretáveis de maneira clássica) e a neotran.iferência (a manobra da trans
ferência nas neopsicoses). Tudo se simplificou então, na conversa
ção, para dar lugar a um título único: a psicose ordinária.
Com esse volume, chamado de A Convenção de Antibes (que
aconteceu em Cannes), encerra-se um ternário iniciado com o Conciliábulo
de Angers (1996) e seguido pela Conversação de Arcachon (1997), que já foram
objeto de uma publicação na mesma coleção (IRMA). São três momen
tos de uma mesma investigação da psicose. Mesmo sendo cedo demais
para se fazer um balanço, já se pode dizer que o estilo agradou, que foi
transmitido, que o esforço prosseguiu diversificando-se: os Institutos
brasileiros do Campo Freudiano fizeram em 1998 sua primeira conversa
ção clínica, em Campos do Jordão, no estado de São Paulo; a Seção de
Bordeaux reuniu-se em. conversação no mês de janeiro de 1999; as Seções
francófonas se encontraram em Paris no começo do mês de julho do
mesmo ano para uma conversação sobre a estilística das psicoses.
Um movimento está lançado.
27 de julho de 1 999.
15
PRIMEIRA PARTE
OS TEXTOS
O NEODESENCADEAMENTO
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice*
LIGAMENTOS, DESLIGAMENTOS, RELIGAMENTOS
L INTRODUÇÃO
A comunidade analitica foi convocada, neste encontro de
Antibes, para um aggiornamento de sua elaboração teórica da clinica.
Jacques-Alain Miller1 empreendeu esse trabalho em várias oportuni
dades, dando lugar de destaque ao estudo da psicose, aos elementos
que Lacan forjou a partir do Seminário III, e que devem nos servir
de suporte neste registro de nossa prática.
A participação que o encontro das Seções Clinicas pode
ter nesse aggiornamento se baseia na dialética entre a experiência cli
nica e os quadros conceituais.
O que nos propusemos a estudar, com o termo "neode
sencadeamento", é a atualização necessária do conceito de desenca
deamento, tal como é enunciado em sua forma canônica, por
Lacan, em sua "Questão preliminar"2•
Essa atualização se escora na experiência analitica acumu
lada desde então, tal como foi esclarecida pelo ensino de Lacan. Tal
experiência leva a integrar às nossas ferramentas conceituais os
desenvolvimentos posteriores de Lacan, concernentes à psicose.
Estes consistem essencialmente em tomar em consideração a "pola
ridade"3 entre "sujeito do gozo" e "sujeito do significante". Assim
se encontrou definida a orientação crescente da clínica pela questão
do real e do aparelhamento do gozo. Lacan insiste particularmente
nesta mudança de perspectiva em sua ''Alocução sobre as psicoses
21
da criança"4• Essa via leva a dar todo o lugar à clínica "borromea
na", contemporânea dos Seminários RSI e O Sinthoma, além da clí
nica estrutural que distingue entre neurose e psicose em função da
presença ou da ausência do operador que é o N orne-do-Pai.
Parece-nos mais fácil, graças a essas ferramentas, dar conta
de numerosos casos clínicos e de suas possibilidades de tratamento,
perguntando-nos o que faz manter juntos os três registros R, S e I
da estrutura, ou o que poderia fazê-los ficar juntos, em vez de nos
orientarmos somente pela questão da foraclusão.
De um modo empírico, o que orienta a clínica consiste em
identificar o que, em um dado momento, para um sujeito, faz "desli
gamento" em relação ao Outro. Essa identificação esclarece retros
pectivamente o elemento que fazia "ligamento" para esse sujeito, e
permite dirigir o tratamento no sentido de um eventual "religamen
to". Essa noção, estritamente empírica, pode, portanto, revelar-se
operatória para a direção do tratamento.
A clínica à qual nos referimos dá lugar a casos que pode
mos qualificar - segundo o modelo da nosologia médica - de "for
mas clínicas", no sentido de variantes, e até mesmo de modos atípi
cos, em relação à "forma tipo" do desencadeamento pinçado por
Lacan em sua "Questão preliminar". Notamos que, desde essa
época, Lacan fazia de sua forma paradigmática um modelo suscetí
vel de ser declinado segundo diversas variáveis. Na literatura pulu
lam entidades como mania, melancolia, erotomania, autismo infan
til, etc., nas quais, por exemplo, a eclosão dos fenômenos elementa
res não acompanha o encontro de Um-pai ou obedece a uma tem
poralidade diferente. Os novos sintomas, a evolução da patologia ao
sabor das mudanças do Outro, são igualmente ocasiões para obser
var formas clínicas mais ou menos inéditas.
Parece-nos que, dentre essas "formas clínicas", pode-se propor
uma classificação na medida em que as variações em relação ao para
digma envolvam a temporalidade (diacronia) ou a estrutura do próprio
desencadeamento, sua "conjuntura", como dizia Lacan (sincronia).
22
A. Formas clínicas segundo a diacronia
Em Arcachon, Éric Laurent lembrava uma fórmula de
François Leguil que faz do desencadeamento5 um "momento de
concluir". Mesmo que o desencadeamento não seja senão o tempo
zero de um processo evolutivo em cujo curso se coloca a questão,
crucial para nós, sobre as organizações e suplências possíveis (o
tempo da certeza a advir), ele é, de fato, o termo ao qual chega uma
história que não pode sempre ser descrita como "um céu sereno"
no qual irromperia um raio. Pode-se, a posteriori, depois da revelação
da psicose, identificar, em bom número de casos, premissas, sinais
precursores e perturbações de evolução progressiva, seja ela contí
nua ou descontínua. Entre esses casos, Lacan tinha descrito os
"fenômenos de franja" e os estados que não hesitava em qualificar
de "pré-psicóticos". Alguns de nossos colegas, Pauline BernardS,
por exemplo, descreveram recentemente o aparecimento ou a reve
lação de fenômenos elementares e de psicoses confirmadas em pes
soas que foram privadas por tratamentos de substituição, depois de
anos ou décadas de prática toxicomaníaca. Esses sujeitos testemu
nharam, então, que essa prática encobria dificuldades concernentes
ao campo da psicose, sem desencadeamento típico. Em termos de
sintomatologia, esses sujeitos haviam permanecido "assintomáti
cos" durante toda duração de sua toxicomania. Além dos efeitos
ansiolíticos e neurolépticos da substância, é clássico descrever o
tamponamento que a droga pode colocar na divisão subjetiva e a
solução identificatória que ela autoriza pela pregnância do signifi
cante "toxicômano" no campo social. A posterion� esses sujeitos,
novamente confrontados com suas interrogações e com sua divisão
subjetiva, podem, por exemplo, alegar distúrbios alucinatórios
remontando à infância, com uma vivência de despersonalização e
de descorporificação, experimentada nos momentos de derrelição e
de grande solidão. Esses fenômenos - que marcaram esses sujeitos
pela sua intensidade emocional, a perda das referências corporais e
23
identificatórias, sua estranheza e a impossibilidade de comunicá-la a
alguém e de tirar disso uma significação - são às vezes reinterpreta
dos, a posteriori, em termos de experiência parapsicológica, de "via
gem cósmica" ou de vivência mística inefável. A convicção dos
sujeitos sobre o sentido sinestésico de uma abolição dos limites da
realidade sensível só se equipara ao caráter enigmático e angustian
te desse gozo.
Eles alegam em seguida um empobrecimento de suas tro
cas e dos laços afetivos e sociais, e uma marginalização crescente,
escandida por tempos de rupturas progressivas, repetitivas e de
intensidade crescente do laço social.
Esse percurso evocapara nós o que Éric Laurent definia,
em Arcachon, como "desligamento progressivo do Outro".
Daremos, mais adiante, vinhetas clínicas que nos parecem ilustrar
esse caso.
B. Formas clínicas segundo a sincronia
Em alguns casos, é a estrutura do momento de concluir
que se revela atípica. Os efeitos do desencadeamento parecem cer
tos e habituais, com a regressão especular, a invasão de um gozo
deslocalizado, os remanejamentos posteriores pelo delírio e a busca
de uma solução pessoal.
O que domina o quadro no momento mesmo do desenca
deamento é o encontro fortuito com um gozo - gozo do Outro
e/ ou Outro gozo - e a impossibilidade, com a qual o sujeito se
encontra confrontado, de simbolizá-lo e de encontrar para ele um
modo de subjetivação.
Diante da irrupção desse gozo, o tecido simbólico apare
ce esfarrapado - podemos pensar no que Lacan fala a propósito de
Schreber quanto ao "texto esfarrapado em que ele mesmo se
torna". O sujeito parece experimentar o buraco como tal, e o que
24
se manifesta é o desfalecimento radical de todo aparelhamento sig
nificante do gozo. Freud notava, à sua maneira, esse traço na melan
colia, distinguindo nela o modo de identificação ao objeto perdido
- poderíamos falar da "realização" dele - com relação ao que se
observa na histeria, na qual a identificação ao objeto é amenizada
pelo fato de que o sujeito dispõe daquilo que ele chama de uma
"relação de objeto", como meio de mediação, isto é, uma possibili
dade de aparelhamento pela fantasia.
Referindo-se à "Questão preliminar"7 e ao esquema I de
Lacan, o que é patente nesses casos é <!>o. Toda significação fálica
parece abolida. Mas não parece legítimo supor Po, principalmente
na ausência de encontro com Um-pai e de triangulação da situação,
e tampouco em presença, por outro lado, de uma aparente eficiên
cia da figura paterna. Quando muito, poder-se-ia deduzir Po a par
tir da suposição teórica, que é a condição lógica e necessária da
ausência da significação fálica.
Grivois8 descrevia a psicose como articulada em torno de
um "ponto central", que consiste em uma "experiência vivida pelo
sujeito fora de toda possibilidade de comunicá-la". Os casos dos
quais falamos aqui, em que não predominam os distúrbios da relação
com o simbólico, são assim centrados em uma experiência que devemos
entender como confrontação a um gozo do Outro, que o sujeito
sente como totalmente enigmático, não lhe atribuindo outro lugar
senão o de objeto e colocando-o em perigo extremo. A posteriori, o
sujeito poderá dizer que é a sua vida psíquica, a sua "própria exis
tência" - como diz um de nossos analisantes - que se encontrava
ameaçada, mais do que a vida propriamente dita. Nesse ponto, nos
sos sujeitos são bastante "Schreberianos".
Conhecemos pelo menos três casos de jovens mulheres
em que o neodesencadeamento consiste em uma vivência apocalíp
tica por ocasião de sua primeira relação sexual, em um contexto, a
priori, não traumático. O trauma só é constituído nesses casos com
a condição de que seja dado um sentido amplo ao termo, a saber, o
25
encontro com um real sem ordenação simbólica possível. Os efei
tos puderam ser de aparência melancólica, até mesmo catatônica.
Imediatamente, aparece o desarranjo do laço do sujeito com o seu
ser vivente. A impossibilidade de produzir uma significação fálica
para dar conta da situação vivenciada deixa o sujeito diante de um
desespero "que não tem mais nada a ver com nenhum sujeito",
como diz Lacan sobre os urros de Schreber. Po é aqui uma simples
hipótese que só se sustenta pelo sentimento de ausência de todo
fundamento de seu ser com o qual o sujeito está às voltas, e com a
ausência de qualquer chave que permitiria uma simbolização e um
aparelhamento desse gozo enigmático e sem limite.
A hipótese que sustentamos é que tal desencadeamento
pode ser lido em uma clínica borromeana como um desenodamen
to da estrutura ocasionado pelo esmorecimento da relação imaginá
ria com o corpo, expondo a impossibilidade de limitar o gozo, assim
como o seu caráter totalmente xenopático.
11. VINHETAS CLÍNICAS
A. Desligamentos sucessivos: dois exemplos
1 . Primeiro caso
A perspectiva de ter que interromper o curso de sua aná
lise levou um homem a consultar outro analista para avaliar a legiti
midade de sua intenção. Experimentava, contudo, as maiores difi
culdades para formular os motivos de sua desconfiança em relação
ao analista.
Parecia-lhe ter percebido nele movimentos de hostilidade
que explicariam desencadeamentos de angústias catastróficas, ime
diatamente após alguns encerramentos de sessões. No entanto, o
que detinha seu desenvolvimento é que ele tinha a experiência de ter
26
interrompido outros tratamentos, ou tentativas, de um modo simi
lar. Por isso, embora não pudesse subjetivar a repetição, não deseja
va que isso se reproduzisse.
O que nos leva a apreender a posição desse sujeito, consi
derando a clínica sob a ótica do "desligamento" do Outro em pon
tos diversificados da estrutura, é o fato de ele, no mesmo instante
em que se aproxima de uma ruptura reiterada do laço com o analis
ta, tentar religá-lo pela via de um subterfúgio, que mantém o signi
ficante da análise. Em suma, ele tenta, em um mesmo movimento
de denúncia e de identificação, dar nome às irrupções de gozo ino
mináveis.
Poderíamos dizer, desse sujeito, que ele não deixou de
obter um saber sobre suas diversas iniciativas analíticas, mas que
esse saber nunca lhe permitiu situar o gozo devastador, com o qual
ele lida periodicamente. A solução que se mostra cada vez mais pre
sente em suas invasões catastróficas consiste em produzir, no plano
da realidade, condutas em que paira a iminência de um ato de cará
ter médico-legal que tornaria irreversível a recusa de sua posição no
laço social.
Em sua análise, dava crédito às construções que articula
vam os pontos candentes de sua infância, particularmente os que
indicavam o caráter "sem recurso" do surgimento do real a partir de
certos acontecimentos. Mesmo sem chegar a reconhecê-la, pode-se
dizer que validava, que adotava a ideia de uma problemática organi
zada em três tempos: o luto impossível de sua mãe em relação a seu
exílio de uma terra marcada pela solidão dos marinheiros, a inexis
tência da palavra do pai em qualquer ocasião e as tentativas preco
ces para encontrar uma solução sexual para a perplexidade provo
cada pelos mal-entendidos. Três episódios são incansavelmente
lembrados como as marcas de seu destino: na primeira infância, a
recusa absoluta de sua mãe em deixá-lo se isolar para fazer suas
necessidades, ligada à compacidade gozante de seu olhar quando
essas necessidades se efetivavam; na adolescência, a petrificação
27
estranha do pai quando o chamou para protegê-lo de uma sedução
homossexual e, para terminar, no momento de ele mesmo se tornar
pai, a irrupção mortificante de uma compulsão pedófila.
Esses traços clínicos, distintos no tempo, nos dão a ideia
de um desligamento escalonado na história do sujeito, incidindo em
diferentes lugares. A tentativa de resistir à captura do olhar mater
no cedeu posteriormente diante do desmoronamento do apelo ao
pal.
2. Estudo do caso de uma jovem anoréxica
Mais que relatar em detalhe o caso desta moça de vinte e
cinco anos, vamos isolar alguns momentos de seu tratamento e ana
lisá-los.
a) Os desligamentos sucessivos
O termo "neodesencadeamento" não designa somente o
desencadeamento psicótico; permite-nos interrogar como o sujeito
se desliga do laço social. Ele se desliga do laço social, caso nos colo
quemos na posição de outro, de alter ego, para se ligar - podería
mos dizer, reforçando essa mesma metáfora de ligamento-desliga
mento - ao seu gozo.
Eis um exemplo paradigmático. Esse sujeito, às voltas com
sua anorexia, desenvolve um sintoma de cleptomania que ele inter
roga durante o tratamento. Confidencia suas diferentes vertentes:
_Trata-se de roubar, ou coisas que não servem para nada,ou "substitutos de alimentos", a fim de constituir estoques. Esses
estoques não devem diminuir, "por medo que isso falte". Na vertente
significante, nota-se esse deslocamento entre comer nada e roubar
substitutos de alimentos.
- o ato se declina em termos de "provocação". ·�s veze�
quando roubo e passo no caixa com uma sacola um pouco transparente, as pes-
28
soas_, atrás, podem ver alguma coisa. Se me denunciassem, isso não me impedi
ria de fazer de novo. É um descifio: vocês podem me pegar uma ve:v mas não
todas". É uma maneira de provocar o Outro e de questionar a lei.
Na vertente pulsional, o que impele ao ato se sustenta não
somente pelo dizer "é mais forte do que eu", mas também por um "é
uma bulimia-cleptomania ". Há um "nunca é suficiente. Quando volto para
casa, constato: só roubei isso?!", mas, no processo anoréxico, o que é cui
dadosamente pesado e repesado, na previsão da refeição, é sempre
reduzido e considerado como excessivo.
Um excesso marca a falta da simbolização. Com relação à
oralidade, à pulsão oral, a demanda ao Outro não está simbolizada.
Alguma coisa se desligou, se reportamos essa sequência à própria
estrutura.
b) "O malabarismo"
O que acontece quando isso responde no Outro do lado
da lei?
"Por mais que meus pais me digam que, se eu for pega, serei priva
da da liberdade, eu não a tenho atualmente". A evocação da lei e dos ris
cos corridos fracassa em apaziguar "a deriva". "Na prisão, não estarei
pior do que no hospital psiquiátrico, onde me obrigariam a me privar de meus
sintomas. Na prisão, por sua ve:v não poderiam me obrigar a comer".
Por ocasião de uma primeira interpelação em que os vigias
fazem uma ameaça: "Na próxima ve:v mandamos os cachorros!", a
paciente revela a resposta que lhe atravessou a mente: "Eles só terão
um osso para roer".
Enfim, durante uma segunda vez, quando foi levada à
delegacia e interrogada, ela disse: "Nunca fiquei em pânico por causa dos
policiais_, sentia-me em segurança, isso não me atingia. O que me contrariava
era ter de chegar mais tarde em casa para comer".
Nessas três evocações, assiste-se a uma inversão da posi
ção do sujeito que, de acordo com os termos utilizados anterior
mente, se desliga do laço social para se ligar naquilo que cifra em
29
segredo o gozo. O sujeito escapa da lei em um movimento de pên
dulo, tal como os malabaristas.
c) Clínica do real e clínica do gozo
A anorexia se constitui verdadeiramente como um parceiro
sintoma, a tal ponto que o sujeito interroga: "Eu me pergunto às vezes o
que me restaria se eu retirasse esse sintoma}}. Retirar o que encerra esse
nada, nessa busca na qual ela se esforça em comer nada, é encon
trar-se confrontada ao real. A anorexia faz borda a esse buraco do
real. Uma borda em relação ao que se inscreve como pulsão de
morte. É no momento de uma "confissão" que tomamos a medida
do que está em causa. Essa confissão, ela a enuncia assim: "Sou fas
cinada pela violência!" Uma fascinação pela violência que é dirigida
contra inocentes, vítimas, ao acaso. Essas vítimas não deixam de lhe
lembrar sua própria posição vitimada quando se deixa pegar, no
decorrer de suas passagens ao ato cleptomaníacas. Ver cenas de vio
lência serve-lhe para "exorcizar a (sua) própria violência": "O que me
fascina são os dramas ao vivo na televisão; eu gostaria de ver isso, o desmoronamento
do estádio de Heize4 ou ainda os terremotos nos quais eles mostram um monte
de imagens de mortos e de feridos. Acho que nunca há mortos o bastante. }}
Ela testemunha aquilo que a rói por dentro: a pulsão de
morte. O que a invade é esse "nunca o bastante}} da pulsão de morte.
Isso dá a medida do que se trata para ela nessa anorexia. Assiste-se
a um desligamento do laço social e a um ligamento com a pulsão.
Da mesma forma que, no tratamento do neurótico, sinto
ma e fantasia mantêm uma relação de proximidade (o sintoma só
tem sentido se é reportado à clínica da fantasia), na psicose existe
uma relação entre sintoma e delírio. É precisamente o gozo que
constitui a articulação entre esses diferentes termos.
30
B. Formas atípicas da conjuntura de desencadeamento
Quatro casos clínicos vão nos permitir questionar a exis
tência de desencadeamentos nos quais o momento fecundo não
parece depender do encontr.o com Um-pai.
1 . Uma doença da mentalidade
Mediante os meandros da queixa de um sujeito, as dificul
dades encontradas na localização estrutural, a condução do trata
mento e o manejo da transferência, o analista é levado a evocar o
caso em termos de "doença da mentalidade". Essa expressão de
Lacan nos é reportada por Jacques-Alain Miller em suas reflexões
sobre a apresentação de pacientes9•
Essa moça viera para a análise depois de dezessete anos de
cuidados psiquiátricos que lançaram mão de todo o arsenal antide
pressivo, dezessete anos escandidos por longas hospitalizações.
Cada uma delas correspondia a um paroxismo do que marcava a
tonalidade geral de sua existência: seu sentimento de estar ausente
dela mesma, de "desabitar sua vida". Tentava, em vão, representar
papéis "normais", responder ao que se esperava dela, fazer o que
era conveniente fazer. Mas fracassava sempre quando percebia que
esses papéis eram perfeitos empréstimos, que não os endossava
senão como roupas estranhas a ela, puros semblantes. A identifica
ção comum a abandonava então, como sendo imprópria: quer ela
tentasse ser "esposa, irmã, amante, mãe", como diria Apollinaire.
Se a análise lhe parecia ser sua última chance, é porque o
retorno inexorável desses estados depressivos lhe parecia, ao
mesmo tempo, como a escolha de um refúgio quanto ao caráter
insustentável de sua relação com o mundo e como uma descida para
o reino da morte. Ela fala, por exemplo, de sua primeira hospitali
zação, aos dezessete anos, como um retorno à matriz, percebendo,
ao mesmo tempo, a natureza mortífera desse retorno: "Quando
31
minha mãe vinha me visitar, via minha morte avançar em minha direção". Ela
circunscreve frequentemente, assim, a superposição das figuras do
mesmo, da mãe e da morte.
Seu percurso levou a uma dessocialização profunda, mas
carada por sua dependência em relação ao meio familiar: vive em
um apartamento que pertence a seus pais, no mesmo andar em que
eles moram. Eles asseguram sua sobrevivência, auxiliados pelo
benefício para adultos incapacitados que seu psiquiatra ajudou a
obter. Cuidam de seu fllho, que ela vê somente alguns minutos por
dia. Queixou-se muito dessa despossessão, e os pais são de fato
muito ativos nesse ponto. Mas ela chega a dizer que ficou alheia ao
nascimento de seu filho, como se fosse sua própria mãe que o tives
se colocado no mundo.
Entre as crises, sua vida é ritmada por tentativas de enfren
tar a própria situação que está na origem de sua primeira descompen
sação: a relação com os homens. Sente a cada vez como a engrenagem
vai conduzir aos mesmos efeitos, mas vai nessa direção, como a mari
posa vai para a luz. Não cessa de se confrontar com a não-relação
sexual e a sua impossibilidade de inventar uma solução que possa fazer
suplência a isso. Ela topa a cada vez com a ausência de uma fantasia
que possa enquadrar sua relação com o real e tamponar seus efeitos.
No tratamento, tenta construir algo que faça função de
fantasia, de um modo que permanece estritamente imaginário.
Trata-se, nos roteiros que ela produz, de recuperar um poder relati
vo sobre o outro, uma presença de si, e de assumir certa "masculi
nidade" ou o que chama de "feminilidade transfigurada". Esses
roteiros só se mantêm ao preço de um apagamento de fato de qual
quer parceiro, de qualquer homem, a não ser em filigrana, a título
de espera. Trata-se de tentativas de restaurar a imagem do corpo
próprio, erigir uma figura narcisicamente investida, coroada pela
aura fálica de lembranças nas quais ela se vê menininha, radiante na
luz do deserto. Para isso, ela joga com os semblantes da mascarada
e com aqueles da "natureza".32
Ela se descreve assim como 'Jora da civilização, lá onde as rife
rências do masculino e do feminino se apagam, mas onde a feminilidade verda
deira pode, de repente, resplandecer: seria mulher, sem maquiagem, sem sapa
tos, sem homem, distante, sozinha, única em meu gênero, feliz em sê-lo, mulher
de corpo com um corpo de mulher, sem necessidades de 'mais' para exprimi-lo ".
Apesar da solidez dos episódios melancoliformes, seu
engajamento na análise me levou a pensar em uma neurose severa.
Seu discurso, ao longo das sessões, reveste-se de todas as aparências
do discurso de um sujeito histérico tomado no enigma do que é
uma mulher para um homem. Coloca muito humor para dizer: "os
homens são bonitos, como mestres! Eles não são verdadeiramente os mestres,
mas é tão divertido vê-los acreditar nisso!" Ou ainda: "De qualquer maneira,
não quero, apesar de tudo, me deitar com um cara que não me dá tesão!"
As circunstâncias da descompensação inicial, mesmo
clássicas na clínica psiquiátrica, não fazem aparecer um desenca
deamento típico, no sentido do encontro com Um-pai. Todavia, a
"conjuntura dramática" vai mostrá-la subitamente como estranha
à sua vida, dessubjetivada. O momento de báscula ocorre na oca
sião da sua primeira relação sexual com um rapaz pelo qual acre
ditava estar apaixonada, pois é isso o que os outros lhe diziam. Era
preciso logicamente passar por isso, com esse parceiro ideal, visto
que era o verdadeiro duplo de seu próprio irmão. É o instante da
penetração que corresponde a uma báscula no nada. Muitas vezes
ela retomou a análise desse momento crucial e de suas repetições.
Adotava um estilo clínico, ora horrorizado, ora irônico, para des
crever, como observadora, as manobras que os homens fazem
com seu corpo, sua relação tão estranhamente interessada pelos
pedaços de sua anatomia que parecem soltos uns dos outros. O
que sente é, ao mesmo tempo, uma desfalicização radical e uma
insustentável depreciação. Fica subitamente fora de um corpo
estatuificado. O que faz desta cena um desencadeamento, precisa
mente, é seu caráter de cataclismo inicial, que leva a uma regres
são especular maciça.
33
Uma fórmula, que apareceu em uma sessão de supervisão,
define muito bem a figura paterna: "O pai é insignificante. " Essa in
significância seria a forma mínima que toma aqui Po, se quisermos
a qualquer custo aplicar a lógica do esquema I. Aqui, Po só poderia
ser deduzido como estando no princípio daquilo que se dá a ver. O
que se vê, é a elisão do falo, a ausência de significação fálica, tal
como se revela subitamente na ocasião de cada penetração.
Segundo Lacan é essa elisão que é propriamente responsável pela
"regressão à hiância mortífera do estágio do espelho"10• Pode-se ver
aqui, na petrificação de Marie-Pierre, um puro efeito de <l>o11 • É ela
mesma que ressalta o "como uma pedra" anunciado pelo seu primeiro
nome, assim como as identificações à Virgem santa e mãe que a sus
tentava até seu mal encontro com o órgão masculino.
O que dá a esse trabalho analítico um tom de perigo cons
tante é ela se colocar com o seu "o que sou ali?" - Lacan diz que,
nessa pergunta, o sujeito se formula "concernente a seu sexo e sua
contingência no ser"12 sempre à beira do abismo, sem que seus ditos
encontrem arrimo em um referente fora do significante, em um
objeto que lhe dê lastro. Ela fala de seu "ser desertado", de sua
"pura ausência" e termina se definindo assim: "Sou uma meia revira
da ao avesso".
É nesse sentido que ela faz pensar no caso da apresenta
ção de pacientes em que Lacan falava da "excelência da doença
mental". Tratava-se de uma pessoa que se dizia "interina de si
mesma" e afirmava que gostaria de "viver como uma vestimenta".
Lacan disse então: "Não há ninguém para habitar a vestimenta", e
Jacques-Alain Miller ressaltou esse "ser de puro semblante", sem
"significante-mestre e, ao mesmo tempo, sem que nenhuma subs
tância venha lhe dar lastro'm.
O pouco dessa identificação - uma meia revirada ao aves
so - ilustra, ao contrario, que é o falo que constitui o termo "no qual
o sujeito se identifica com seu ser vivente". A doença da mentalida
de, se retivermos aqui essa indicação, e a elisão do falo, fazem da
34
patologia de Marie-Pierre um abalo "na junção mais íntima do sen
timento da vida no sujeito"14•
2. Encontro com um gozo enigmático
Há vários anos, uma moça foi atendida no momento de
uma hospitalização que se seguiu a um acesso delirante. O acompa
nhamento foi interrompido prematuramente. Esse caso não pode
rá, portanto, ser o objeto de uma elaboração detalhada. Contudo,
ele nos interessa devido às circunstâncias particulares do desenca
deamento psicótico. Não havia antecedentes psiquiátricos.
Nas entrevistas ocorridas durante a hospitalização e
naquelas subsequentes, não havia sido possível determinar as cir
cunstâncias exatas da eclosão do delírio. Tratava-se de um delírio de
influência. Ela se dizia fisicamente manipulada por seus vizinhos da
cidade universitária.
O episódio psicótico começa logo depois de uma primei
ra relação sexual. Ela descreve então uma invasão do corpo por uma
sensação estranha. O orgasmo, assim descrito, não é reconhecido
como tal. Parece que essa forma de desencadeamento não respon
de à configuração clássica do encontro com Um-pai, tal como é
evocada em "De uma questão preliminar a todo tratamento possí
vel da psicose". Parece tratar-se, antes, do encontro com um gozo
enigmático, na falta da significação fálica. Isso quer dizer que se
trata muito mais do encontro com <Do, do que com Po. Certamente,
é possível referir <Do a Po; é precisamente a foraclusão do Nome-do
Pai que é a condição da ausência de significação fálica. No entanto,
a modalidade de desencadeamento é, aqui, o encontro com o gozo.
A questão que esse caso coloca diz respeito ao modo de
resposta do sujeito a esse encontro.
De fato, poderíamos evocar o Outro gozo, tal qual uma
mulher pode encontrá-lo sem poder dizer nada a respeito. Aqui,
trata-se antes da experiência de um real que deixa o sujeito despro-
35
vida quanto a suas possibilidades de resposta simbólica. O desen
cadeamento pode ser aqui - é uma hipótese - referido a esse encon
tro que desmascara os efeitos da foraclusão do Nome-do-Pai, ou
seja, a ausência de significação fálica. O que o sujeito produz como
resposta é uma nova realidade delirante: uma manipulação corporal
persecutória.
Essa modalidade de desencadeamento não é nova no sen
tido da clínica psiquiátrica, que já considerava essa forma de desen
cadeamento do delírio. Sua leitura é que é nova, e acentua o encon
tro com um gozo. Essa abordagem tem a vantagem de acentuar o
modo generalizado do tratamento do gozo pelo falasser. O modo de
resposta indica aqui a estrutura: o sujeito dispõe ou não do Nome
do-Pai como significante para articular sua resposta.
3. O caso seguinte está igualmente sujeito à discussão
Trata-se de uma moça enviada por um psiquiatra. Ela
havia tido um episódio delirante que se conteve logo após a admi
nistração de neurolépticos. A demanda formulada por ela era de
franquear a barreira de uma inibição nas relações sociais que reapa
receu após o episódio delirante. Deve-se notar que esse tratamento
será marcado, desde o começo, pela extrema defesa da paciente. Ela
manifestava pouca curiosidade pelas produções do tratamento; não
estava em relação com um sujeito suposto saber. Sua certeza tinha
como corolário uma grande indiferença relativa às produções do
tratamento. Afirmava, já de início, que não queria evocar as ideias
ridículas que a assaltaram durante o episódio delirante, considerado
como um parêntese em sua vida. Durante o ano e meio que se
seguiu, tratar-se-á pouco de um primeiro desencadeamento que
apresenta, contudo, características interessantes. Estava apaixonada
por um rapaz com o qual tinha estabelecido relações ao mesmo
tempo banais e passionais. A paixão, nesse caso, é definida por ela
da maneira quese segue: Essa moça provinha de um meio modes-
36
to, mas muito conformista. Não tinha, até então, nem depois, aliás,
questionado os valores familiares. Tivera duas ligações oficiais ante
riores, que haviam terminado de maneira anódina. Não fora marca
da por essas duas relações. Essa terceira relação apresentava um
caráter estranho, segundo seus próprios termos. A estranheza resi
dia, para ela, no fato de que esse rapaz não lhe correspondia. Era
um marginal que encontrara em uma festa. A expressão que usava
para designá-lo era: 'Não era um rapaz como convém".
A paciente nada produziu quanto às razões dessa afeição
que a ligava a esse homem que ela imaginava ser um "traficante ".
Entretanto, a ligação transcorre na clandestinidade e, para a pacien
te, em um mal-estar crescente. Ao mesmo tempo, desenvolve-se um
sentimento de desconfiança em relação a ele. Não sabia o que esse
homem queria dela. A resposta que elabora, de um modo delirante,
ao enigma de seu desejo, é que ele estava envolvido com a máfia e
que ele não queria o seu bem. Ela não dizia nada de preciso sobre
esse ponto. Nada nos atos dele demonstrava qualquer hostilidade.
Muito pelo contrário, era a insistência dele em continuar a relação e
tentar revê-la na saida de seu trabalho, depois que ela decidira pela
ruptura, que haviam reforçado o sentimento de um complô que se
tramava contra ela. Percebia o caráter delirante dessa construção
que ela qualificava de ridícula e da qual tinha profunda vergonha.
Nada podia demovê-la do caráter de evidência que isso tomava para
ela. No mesmo período, aparecem alucinações verbais nas quais ela
ouve comentários de uma voz feminina que lhe pressagia um desti
no funesto. A elaboração delirante dá lugar aqui a uma figura femi
nina, que é a rainha de um mundo paralelo ao nosso, e a condena à
dominação desse homem que se torna o instrumento de uma per
seguição organizada.
As duas elaborações delirantes contraditórias, da máfia e
da rainha do mundo paralelo, coexistiam. Desde então, muito
embora esse homem desaparecesse completamente de seu horizon
te, permanece a preocupação inconfessável de que ele ressurja desse
37
passado, que ela pretende apagar tanto quanto puder. O delírio é
aqui marcado com o mesmo cunho da fantasia neurótica. Longe de
querer desenvolver essa construção, ela só consentirá com dificul
dade em revelar, eventualmente, alguns elementos delirantes prece
dentes. Foi preciso, aqui, utilizar uma discreta insistência. O trata
mento se tornará o lugar de restauração que ela esperava: uma pos
sibilidade de relação social. O tratamento é o elemento pacificador
de uma relação delirante com o mundo.
Depois de alguns meses em que foi possível a retomada do
trabalho, um novo desencadeamento se produziu. Desta vez, ele acon
teceu durante o tratamento e estava ligado a uma observação fortuita.
Em um ônibus que a levava para casa, na saída do trabalho, encontrou
uma antiga colega que lhe perguntou pelas novidades. Ela se mostrou
satisfeita com a normalização esperada. Estava bem, mudou-se do
domicilio familiar para um pequeno apartamento que ela arrumou ao
seu gosto, e seu trabalho caminha bem, a tal ponto que acabara de se
beneficiar de um reconhecimento profissional e de um aumento de
salário. O que não cai bem é a pergunta que lhe é dirigida por essa
amiga demasiadamente atenciosa: "Então) quando você vai se apaixonar?"
A pergunta coloca um problema. Ela pôde responder que a constitui
ção de um casal é a etapa normativa esperada do seu restabelecimen
to. Contudo, essa frase é situada de imediato como destoante com o
propósito apaziguador mantido até então. Algo não vai bem. Um
segundo episódio delirante se inicia, com um tom persecutório, no
local de trabalho, onde a supervisara de seu setor se mostra mal-inten
cionada em relação a ela. A queixa não mostrava nenhuma modalida
de francamente delirante. Mas a relação até então confortável torna-se
intolerável. A relação com a analista torna-se igualmente suspeita. Não
há aí tampouco uma fala delirante, mas há, contudo, uma hostilidade
muito perceptível. O tratamento se interrompe bruscamente. Ela rei
vindica liberdade para conduzir sua vida que revela todo o contexto de
sugestão potencial que a situação analítica encerra. A certeza presente
ao longo desse trabalho se manifesta de novo nessa decisão sem apelo.
38
Nesse caso, é o enigma do desejo do Outro que parece
confrontar o sujeito com uma dimensão à qual ele não pode res
ponder. Em um primeiro momento, o enigma do desejo de um
homem suscita o delírio de uma malevolência organizada em um
mundo-Outro no qual reina uma figura feminina toda-poderosa.
No segundo momento da retomada delirante, é a pergunta da amiga
que desperta a questão adormecida. A pergunta da amiga desperta
o caráter real, impossível de dizer, do desejo do Outro. Nos dois
casos, é o encontro com um real que constitui a modalidade de
desencadeamento de uma resposta psicótica.
4. "Sobretudo, que nada se mexa"
Apresentamos aqui algumas decorrências de um tratamen
to que começou sem surpresas e para o qual a questão da estrutura
apareceu rapidamente. O problema não estava no que era dito, mas
no que não era dito e na forma como se desenrolava o tratamento.
A história de Sra. P. pode se resumir em um momento de
sessão em que ela conta seu primeiro encontro com um terapeuta:
"Foi quando vi o filme 'As palavras para dizê-lo' [Les mots pour le dire];
me reconheci e isso desencadeou tudo". Pode-se já apontar aí uma primei
ra identificação que será o modelo sobre o qual ela irá construir
todo seu trabalho posterior. Inicia então entrevistas com uma psi
quiatra, que prosseguirá por vários anos. Posteriormente, pensa ter
atingido os limites que podia alcançar com essa terapeuta e pede
para ir mais longe com uma outra mulher. Sua terapeuta a encami
nha a uma analista. Nesse momento não se coloca a questão da
estrutura; ela é encaminhada como histérica e a analista adere ime
diatamente ao que é anunciado.
Há quatro anos ela vem regularmente às suas sessões, que
acontecem sempre da mesma maneira. Começa com 'Tudo Bem. "
Ou, "Não estou nada bem'� seguido de uma explicação desse estado
em função dos acontecimentos dos dias que se passaram desde a
39
última sessão; depois, um grande silêncio que só cede sob interven
ção, interpelação, ruído, interrupção, etc.
A variabilidade de seu estado se deve sempre às suas difi
culdades com os outros e, em primeiro lugar, com sua mãe. "Ela faz
tudo para me alienar, não consigo relativizar, estouro ". Sua vida é pontua
da por contrariedades ou brigas com sua mãe ou com os próximos:
"Estou mal porque estou no pós-contrariedade com minha mãe - é o pós-briga
que é o problema. Fico repetindo isso com as pessoas. Eu as pego, eu as largo;
eu as pego, eu as largo". Sua posição no trabalho é calcada nesse mode
lo; sente-se ao mesmo tempo manipulada e manipuladora com seus
chefes e colegas. Ela diz o mesmo de seu entorno: seus vizinhos
fazem barulho. Isso seria para ela, ou é ela que não o suporta? A
questão permanece. Acaba se mudando para deixar o lugar onde
vivia, pois ali não se é anônimo. Veremos depois o que este último
termo representa para ela.
Vai morar em um apartamento, mas depois de algum
tempo a vizinha substitui os antigos vizinhos. Ela é barulhenta.
"Não suporto barulho; ela jaz de propósito? Não entendo por que ouço tudo;
estou sempre alerta, à espreita". Ouvindo essa frase, poder-se-ia questio
nar sobre o que há ou o que não há para ouvir e, efetivamente,
encontra-se em sua história um acontecimento traumático que
poderia estar em relação com isso.
Ela foi uma criança não desejada; um menino já havia nas
cido e ela chega quinze anos depois. Sobre sua vinda ao mundo, sua
mãe lhe dirá: "Você, você tem sorte, você pâde escolher" - isso por ocasião
de um aborto feito pela paciente. Seus pais têm um bar-mercearia
em um vilarejo. Tinha quinze anos quando seuirmão deixou a casa
dos pais, ficando sozinha com eles. Uma noite, ouviram barulho
embaixo na loja. Seu pai desceu, e a lembrança que ela guarda do
que aconteceu depois é de um grande grito. Seu pai acabara de ser
assassinado pelo homem que fora descoberto roubando. Esse
período permanece confuso para ela; tem até mesmo dificuldade
para situá-lo no tempo, alternando-o em vários anos de acordo com
40
os relatos, e foi somente por recortes que esse período pôde ser
situado por volta de seus quinze anos.
Diante da confusão e das dificuldades para situar esse acon
tecimento no tempo, poder-se-ia pensar nos esquecimentos da histé
rica; mas não é com um traumatismo - que poderia posteriormente
dar lugar à neurose - com o que nos deparamos, pois o modo como
ela continua, a partir desse dia, faz pensar mais em uma psicose.
Trata-se de um neodesencadeamento, quer dizer, de uma forma par
ticular de entrada na psicose? De fato, nada se desencadeia, nada se
mexe; ao contrário, tudo se petrifica tão bem que a partir daí ela con
tinua a construir sua vida de forma muito normativa.
As relações com sua mãe tornam-se insuportáveis. Sua
mãe, ao mesmo tempo em que a rejeita, lhe pede um apoio.
Termina o ensino médio e a única solução que encontra é ir embo
ra o mais rapidamente possível. Passa em um concurso administra
tivo e parte para Paris. Sente sua mãe e seu irmão aliviados com sua
partida. A partir desse dia, ela se dedica o mínimo ao seu trabalho;
tudo vai bem, encontra um companheiro com o qual ainda vive e
tem um filho. Nada emerge no nível de seu ser, nenhum desejo,
somente a angústia. "O que faz com que em determinado momento minha
cabeça caia fora .. . Pfuit . . . No entanto, tenho possibilidades, mas não as contro
lo . . . falta-me jeito para administrá-las" .
. O que se encontra sempre em sua posição em relação ao
Outro é uma identificação-alienação completamente situada no
imaginário; o outro lhe permite viver: sua mãe, a primeira terapeu
ta, a analista; muitas vezes, ela quis diminuir o número de sessões
vindo somente uma vez por semana, mas quase imediatamente se
depara com uma angústia indescritível.
Se por acaso a analista se recusa a recebê-la de novo, mais
frequentemente, revolta-se e torna-se extremamente agressiva, ao
passo que normalmente apresenta-se sempre muito sorridente, com
um sorriso muito petrificado. Essa atitude tão extremada surpreen
de e faz compreender que não era preciso mudar nada no ritual das
41
sessões, que a analista não tinha muita importância, e expressa que,
se tudo não voltar para o lugar, como antes, ela será obrigada a
encontrar uma outra pessoa que aceite reconstruir esse enquadre o
mais rapidamente possível.
Voltemos ao que significa ser anônima: ':feria necessário, para
poder viver, que eu fosse anônima; a solução seria talvez que eu morasse na casa
de meu marido ". Vive há muitos anos com seu companheiro, mas, o
que ela indica com essa frase, é que a solução seria se fazer desapa
recer atrás desse homem do qual ela não carrega o sobrenome e do
qual o único elemento conhecido é que ele é um eurasiano. A sexua
lidade nunca é evocada como um problema; deseja por vezes ter
relações sexuais com alguns de seus colegas, sem nenhum drama de
consciência. Sua posição em relação às palavras é acentuada de
novo (As palavras para dizê-lo), após ter visto um ftlme que, segundo
ela, provocou-lhe um desejo. Trata-se de Pour le meilleur et pour /e pire,
ou seja "Para o melhor e para o pior" e que, na versão brasileira é
conhecido como 1\tfelhor impossível, com Jack Nicholson: "É um escri
tor, isso fica rodando na minha cabeça, isso me deu ânimo, um sopro de vida;
da minha história eu farei um romance, adoro as palavras, elas aliviam, gosto
muito delas; as palavras me acalmam".
Mas essas palavras não permitem a metaforização.
Operam de maneira metonímica, fluindo sem parar, sem pausa pos
sível. Ela não faz apelo a uma resposta que venha do lugar do
Outro, a um saber suposto que lhe permitiria colocar-se a trabalho
na via do significante. Não há exclusão da genitalidade, mas foraclu
são da significação fática.
Qual atitude possível pode sustentar o analista diante
desse discurso? Parece - e por isso o título desta parte do texto:
"sobretudo, que nada se mexa" - que se trata de ser o receptáculo com
placente de seus males e palavras, de suas queixas. Essa é a única ati
tude que ela aceita, até agora, da analista, ao mesmo tempo em que
ela inventa soluções que lhe permitem se manter no dia a dia.
42
C. O caso particular da clínica do autismo
1 . O pequeno Noel
A criança que chamaremos de Noel foi um bebê normal
até a idade de seis meses, quando apareceram até mesmo sílabas
redob�adas, dentre elas "mama". Depois veio o silêncio, a lingua
gem que parecia a caminho para e o olhar se perde. Ele parece não
perceber a presença da mãe, mas urra, por outro lado, de maneira
paradoxal, nas suas ausências. Há desencadeamento de uma psico
se cuja expressão sintomática é autística. Esse momento é classica
mente identificado na clínica da criança entre seis e dezoito meses.
Situa-se no tempo em que a mãe teria podido articular suas respos
tas ao primeiro "mama", no tempo em que a experiência do espe
lho deveria ter-se constituído, depois das primeiras trocas de olha
res, no tempo em que o desejo deveria ter se orientado. A recusa da
voz e do olhar pode nos fazer evocar um desligamento do Outro
do significante, e do Outro do corpo e da imagem. Os primeiros
sinais patológicos de Noel, que ignora a presença, mas urra na
ausência, nos orientam quanto à ideia de que o que está em causa
concerne ao primeiro batimento simbólico da presença e da ausên
cia da mãe. A psicose se inicia por uma falta radical de qualquer
"processo primário" de simbolização. É a falha da B�jahung primor
dial que poderia corresponder ao desencadeamento.
A criança encontra um analista pela primeira vez aos seis
anos de idade. Não olhava, emite grunhidos, de tempos em tempos,
à meia voz. Padece de alucinações, mas fazia desenhos. Duas
sequências identificadas na transferência permitiram que saísse de
seu recolhimento autístico. No decorrer de uma das numerosas ses
sões, vazias, sem apelo de sua parte, o analista saiu do consultório
para ir buscar, em um cômodo ao lado, uma caneta que estava lhe
faltando. Na saída da sessão, Noel quis se precipitar para dentro
desse cômodo com grande jubilação. No encontro seguinte, a ses-
43
são não pôde acontecer devido a um atraso. O analista recebeu
Noel para lhe comunicar isso. Uma certa preocupação o levou a
observá-lo pela janela indo embora com sua mãe pela rua. É com
grande surpresa que o analista vê Noel pela primeira vez olhar para
ele. Em seguida, o olhar se torna por vezes intencional e a criança
observará sua imagem na vidraça, na sessão da noite. O grunhido
dá lugar a uma linguagem esquizofrênica e usará a caneta para se
dedicar a um trabalho de escrita e demarcação de tipo geográfico:
traçava incansavelmente um contorno que se podia supor ser tanto
o do litoral da região, quanto o de partes do corpo.
Pode-se formular a hipótese de que essas sessões colocam,
mediante uma certa transferência, a criança às voltas com uma falta
que percebe no analista e que ela refere a um objeto, a caneta, na
qual vai então investir. Esta se torna a ferramenta de um trabalho
de logificação da sua psicose. Presença e ausência parecem então
não serem mais experimentadas como um puro real insubjetivável.
2. Mickael
O neodesencadeamento, abordado a partir do desligamen
to, nos conduz a uma clínica do funcionamento. O caso Joey, de
Bettelheim, já nos convidava a considerar a abordagem da psicose
nesse sentido. O interesse do uso do termo "desligamento" nos
permite, já em um primeiro tempo, recolher casos clínicos que sus
tentam essa orientação, sem tropeçar, imediatamente, nas dificulda
des inerentes ao emaranhado das modalidades do enodamento daclínica borromeana. Somos, no entanto, levados a nos perguntar se
não se deve abordar esse desligamento de duas maneiras. A primei
ra consiste em identificar o desligamento a partir do religamento
que se opera ou que se operou a posteriori. A segunda recolhe esta
dos de desligamento sem que, todavia, um desligamento tenha sido
realizado. Um caso de autismo, aliás, clássico nesta clínica, ilustrará
este segundo ponto.
44
Mickael tem oito anos. Ele não fala e apresenta alguns tra
ços clássicos de autismo. É capaz de aproximar-se com os olhos
como se fosse para ficar grudado, tampar as orelhas e agitar-se, des
locando-se do espelho para a janela antes de ficar prostrado em um
canto do cômodo. Sua história comporta uma data que constitui um
antes e um depois, um ato, portanto. Ele tem uma evolução normal,
segundo os pais. Começa a dizer algumas palavras. Mas toda sua
evolução se interrompe no dia em que sua mãe o deixa pela primei
ra vez na escola maternal por volta dos dois anos e meio. Ali, cho
rará durante toda a manhã, durante quatro horas, a ponto de as pro
fessoras ficarem surpresas e não conseguirem consolá-lo. Quando
sua mãe volta ao meio-dia para buscá-lo, manifesta sua cólera em
relação a ela e depois disso não fala mais. Todas as tentativas de
identificar outras coordenadas dessa história conduzem sempre a
esse relato minimalista, com um pequeno detalhe: sua mãe dirá, com
efeito, um dia, depois desse relato tantas vezes repetido, que foi a
primeira vez que o deixou por tanto tempo. Esclarece que nunca,
anteriormente, o deixara mais do que cinco minutos em tempo real.
É então nessa experiência desproporcional de abandono que uma
insondável decisão desse ser se opera. Seu desligamento deve, por
tanto, ser colocado na conta de uma escolha da psicose em seu pólo
extremo, o autismo. Não existe nesse caso um mutismo. O mutis
mo consistiria em uma fala reservada. Há aqui uma detenção no
funcionamento da fala expressa em uma lingua.
O desligamento incide, portanto, precisamente, sobre o
uso da lingua e da fala que a ela se liga para fazer laço social. Esses
casos frequentes de autismo podem, de fato, enfatizar a observação
de Jacques-Alain Miller que indicava que a psicose nos permite
designar o verdadeiro núcleo traumático na relação com a lingua.
Não somente Joyce pode nos fazer entender isso, mas igualmente
os casos que recusam o núcleo traumático da lingua na medida em
que, pela sua recusa, tentam se desligar das consequências que o
funcionamento da lingua acarreta.
45
Poder-se-ia, para neste caso, formulá-lo assim: Se falar a lín
gua materna conduz necessariamente a ir à escola, e se a escola me separa tanto
tempo de minha mãe para me ligar a desconhecidos, prefiro me desligar da lín
gua materna para evitar suas consequências. A mãe afirma, aliás, que,
ainda muito tempo depois, ele manifestava sinais de agitação quan
do passava diante do prédio da escola. Se ele não está na língua, ele
está, no entanto, na linguagem, como indica o fato de que tampe os
ouvidos. Testemunha, por outro lado, alguns efeitos da linguagem
em seu corpo, como o interesse que demonstra pelos buracos das
narinas, que tampa com um movimento complicado dos dedos. A
questão para esse sujeito é saber como poderia se operar uma ten
tativa de ligamento, sabendo que, de qualquer forma, esse tratamen
to consistiria em introduzi-lo no núcleo do traumatismo do qual ele
quis se liberar.
D. A melancolia
Nem toda psicose implica um desencadeamento irreversí
vel, como no caso do presidente Schreber. Em relação à melanco
lia, adiantaremos o termo suplência intercrítica. A questão é saber quais
tratamentos do nome nas estruturas psicóticas vão prevenir o
desencadeamento e inscrever a posição do sujeito.
Não há resposta unívoca e, sem dúvida, cada caso deve ser
considerado em sua singularidade. No entanto, nos sujeitos propen
sos à melancolia, parece que se trata não de transformar a carência
simbólica relativa ao nome em prol da função do enigma, como em
Joyce, mas de camuflar esse não-apagamento do nome no simbóli
co. A superidentificação intercrítica com os papéis sociais - ampla
mente demonstrada por Tellenbach com a descrição dos traços do
Tjpus Melancolicus15 e retomada nos trabalhos de Alfred Kraus16 -,
traduz, ao contrário, uma vontade de apagamento, de tamponamen
to do buraco da foraclusão que o nome próprio não metaforizado
46
pelo falo simbólico vem presentificar. "Ser ninguém'� ou ser um "Sem
nome" sob a forma da função fálica, lhe é estruturalmente recusado no
simbólico. É antes um "se querer ser ninguém'� na falta de "ser ninguém'�
que leva o melancólico a elaborar essa "superidentificação'� muito
tempo confundida com os traços compulsivos dos obsessivos.
O termo "superidentificação", distinto do que seria a iden
tificação no registro simbólico, poderia se conceber assim:
�_o _
Nome próprio
função de suplência à - Superidentificação ao papel social
NeRie pFIÍpFie
Como escrever na estrutura essa estabilização intercrítica
reversível? Propomos a seguinte escrita17: imaginário bem-sucedido
e eficácia do significante não encadeado. Isto é, a inscrição direta, a
captura no imaginário de uma série de traços - S', S", S"', . . . , cole
ção de sentenças do supereu - que dão uma coesão imaginária ao
sujeito pré-melancólico. A captura desses traços no imaginário (e
isso é um fato clínico verificado) é suscetível de conter o transbor
damento de gozo inerente a não-falicização do nome. Essa inscri
ção, se é linguageira no sentido de uma escrita, nem por isso é sim
bólica, não sendo sustentada pela função do ideal do eu, I (A), dife
rentemente do que elabora - simbolicamente - o neurótico. Em
certo sentido, essa fórmula de suplência traduz que ''a sombra do
oijeto já estava sobre o Eu18 ".
1 . Superidentificação e ideal do eu
O que distingue essa superidentificação - termo utilizado
por Tellenbach e desenvolvido por Kraus - do ideal do eu é:
_ De um lado, seu caráter constelar - há toda uma série de
traços distintos aos quais o pré-melancólico deve se conformar, sem
esquecer "o céu estrelado " das identificações do sujeito japonês descri-
47
to por Lacan em "Lituraterra"19 e que torna este último, segundo
ele, inanalisável. Esses traços são, antes, normativos. Não têm o
caráter de exceção do ideal do eu e, daí, a ausência de orgulho no
sujeito pré-melancólico, ao contrário do que se pode constatar no
paranoico. Uma contradição entre dois desses traços é, muitas
vezes, causa de desencadeamento da crise.
_ De outro fado, seu caráter não dialético: esses traços são,
para o sujeito, não relativizáveis na elaboração simbólica e, daí, a
atração pelo que é sério e a relativa incapacidade para o humor do
sujeito pré-melancólicd0, humor que implicaria a possibilidade de
uma mediação, de um distanciamento em relação a esses valores
pré-dados. São traços marcados pelo rigor psicótico. É uma identi
ficação com o ser literal do traço significante e não com a sua fun
ção de representação. Digamos que o sujeito pré-melancólico deve
preencher suas identificações "ao pé da letra".
Notemos, por outro lado, que esses traços são empresta
dos do Outro; eles traduzem a cópia de um tipo de ideal, não do eu,
mas de uma norma social. Concebe-se desde então que as persona
lidades pré-melancólicas sejam mais facilmente tipificadas e reco
nhecíveis nas culturas em que as normas sociais são mais claramen
te definidas, até mesmo impostas, como é o caso do Japão e da
Alemanha.
2. O desencadeamento da crise
Basta que um único desses traços deixe de ser executado
imaginariamente pelo sujeito para que se tenha uma conjuntura de
desencadeamento da crise de melancolia (psicótica) . Falar-se-á aqui
de execução imaginária para dizer que não é, de forma alguma, no
nível do discurso, como elaboração simbólica, que o sujeito deve
responder com esses traços, mas no nível de seus atos na vida coti
diana, na realidade.48
Não é uma articulação identificatória diferencial, no senti
do da identificação simbólica que implica o valor diferencial do sig
nificante. É uma realização de identidade, na qual o sujeito equiva
le a cada um desses traços, compatíveis com o registro imaginário
no qual a correspondência biunívoca do sujeito e de sua imagem é
possível. Tal é a condição do ''Ijpus': em que a condição de suplên
cia não é simbólica, mas se situa na junção do imaginário e do real;
daí sua possibilidade de montagem, desmontagem e a instabilidade
relativa dessa forma de suplência; daí, igualmente, o desencadea
mento da crise cujas causas podem parecer estritamente menores
ou serem ditas, com razão, ''insignificantes ': no sentido das "life-events"
dos anglo-saxões.
Daí, também, a possibilidade de desencadeamento por
razões que se encontram no imaginário e não no simbólico. Um
abalo no campo imaginário pode descompensar a estrutura e deixar
"se exprimir" no real essa coleção relativa ao supereu e que antes
estava bem encapsulada. Por isso, não é obrigatoriamente encontra
da a conjuntura de desencadeamento das psicoses descrita por
Lacan em sua "Questão preliminar". Uma simples gripe está, à
vezes, na origem de uma nova crise. A perda da cobertura imaginá
ria torna a desencadear o processo simbólico, sempre latente.
A cura da crise não depende de um processo simbólico -
do qual conhecemos o caráter grave na crise e o caráter latente fora
dela, - mas, antes, da restauração desse cataplasma imaginário.
Trata-se de deixar o sujeito reconstruir identificações de objeto sus
cetíveis de mascarar suficientemente a abjeção de seu nome próprio
sem transbordá-lo.
49
111. CONCLUSÃO
Podemos agora propor uma definição do que fomos leva
dos a qualificar de "neodesencadeamento": convém agrupar sob
esse título as formas clínicas variadas que se distinguem da forma
típica de desencadeamento cujo paradigma é, na psicose schreberia
na, o encontro com Um-pai. Esses "neodesencadeamentos" corres
pondero à soltura do grampo2\ seja ele qual for, na ausência do que
fazia antes ponto de basta para um sujeito. Para além mesmo da plu
ralização do Nome-do-Pai, o que está em causa aqui, com o nome
de grampo, é o que Lacan qualifica de sintoma, no sentido em que
o N orne-do-Pai é uma forma tradicional e herdada do sintoma e,
sem dúvida, particularmente adequada à neurose. Nos casos que
nos concernem, uma clínica dos nós contorna a impossibilidade de
decidir entre Po ou <l>o. Ela convida a privilegiar, certamente, a loca
lização clínica da relação com o real e com o gozo. Mas a aborda
gem da estrutura joyceana, que a clínica dos nós permite a Lacan,
convida também a estudar sem hierarquização a função de cada um
dos três registros - Real, Simbólico e Imaginário, R, S e I - para o
sujeito, e a parte que cada um toma no enodamento sintomático.
50
Notas
* Relatores: Hervé Castanet e Philippe De Georges.
1 MILLER, J.-A. (1 979) "Suplemento topológico a 'Uma questão preliminar . . . "'.
In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p.1 1 9.
2 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível das
psicoses". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.537-590.
3 LACAN, J. (1973) "Apresentação das Memórias de um doente dos nervos". In:
Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.221 .
4 LACAN, ]. (1968) ''Alocução sobre as psicoses da criança". In: Outros Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.359-368.
5 LEGUIL, F. "Le déclenchement d'une psychose", Ornicar?, n.41, 1987.
6 BERNARD, P. Colloque de I' ACF Estérel-Côte d' Azur, abril 1998.
7 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.577.
8 Cf. MALEVAL, J.-C. Logique du défire, Masson, 1996, p.102.
9 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 977) "Lições sobre a
apresentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica:
A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1 998,
p.20 1 .
1 O LACAN, J. (1 9 58) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.577.
1 1 LYSY-STEVENS, A. ''Articulation cliniques de <1>0", Feuillets du Courtil.
1 2 LACAN, J. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psi
cose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.SSS.
13 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER,J.-A. (ed.) (1977) "Lições sobre a apre
sentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A
Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p.201 .
14 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.565.
1 5 TELLENBACH, H. La Méfancofie, Paris, PUF, 1979.
1 6 KRAUS, A. Identity and P.rychosis of the maniac-depressive, "O delírio melancólico
do ponto de vista da teoria da identidade", "Terapia da identidade", três suple
mentos a parte.
51
1 7 A escrita dessas fórmulas foi inspirada pela leitura do curso de Colette Soler,
não publicado, "Os poderes do simbólico", 1989, do qual as primeiras aulas são
consagradas à melancolia:
i (S, S', S", S"', ... )
Nel!'le pFIÍpFie
Trata-se aqui de um "cataplasma" - expressão que tomo de Jacques-Alain Miller
(entrevista particular).
1 8 FREUD, S. (1 917) "Luto e melancolia". In: Sigmund Freud - Obras Completas,
v. 12, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.18 1 .
1 9 LACAN, ]. "Lituraterra" (1973) In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.1 5.
20 TATOSSIAN, A. Phénoménologie des p.rychoses, relatório para o congresso de
Neurologia e Psiquiatria de língua francesa. Paris: Masson, 1979.
21 HENY, H., JOUBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 997) Os casos raros, inclassi
ficáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca
Freudiana Brasileira, 1998.
52
Seção Clínica de Clermont-Ferrand,
Antenne Clinique de Dijon e Seção Clínica de Lyon*
CLÍNICA DA SUSPENSÃO
L OS LIMITES DA TEORIA CLÁSSICA DO DESENCADEAMENTO
Lacan elabora a chamada doutrina clássica do desencadea
mento das psicoses no Seminário 3 e no texto "De uma questão pre
liminar a todo tratamento possível da psicose", isto é, no âmbito de
seu retorno a Freud (feito a partir do ponto de Arquimedes "o
inconsciente estruturado como uma linguagem") e da colocação em
primeiro plano da função do Nome-do-Pai como garantia da lei no
Outro. É uma retomada do Édipo freudiano, uma ordenação da dis
tinção neurose-psicose em relação a essa norma edipiana. A referên
cia a essa norma como critério estrutural vem esclarecer as classifi
cações psiquiátricas, propondq um sólido princípio de distinção e de
repartição das patologias, mas sem se diferenciar verdadeiramente
delas, já que a questão da causa sexual não está inclusa nessa lógica.
Desde o debate de Freud com os psiquiatras suíços (prin
cipalmente Bleuler) e Jung sobre autismo ou autoerotismo, sabemos
que a consideração da causalidade como sexual ou não-sexual é o
que permite traçar uma linha de divisão radical entre clínica psiquiá
trica e clínica psicanalítica. Se Bleuler, desde 1906 (e, depois, a psi
quiatria em geral) , admite a significação freudiana das psicoses, pois
ela dá um modelo do normal e do patológico, isso não acontece
sem a foraclusão da questão da causalidade sexual - da escolha
segundo o modo de gozo.
53
Teorizar o desencadeamento das psicoses no âmbito da
foraclusão do Nome�do-Pai permite, contudo, dar conta estrutural
mente do que os psiquiatras clássicos identificam com o termo
"descompensação", com seus fenômenos súbitos e radicais:
"Trovoadas em um céu sereno." Essa conceitualizacão introduz
igualmente uma diferença entre estrutura psicótica e fenômenospsicóticos que se apresentam mais manifestos clinicamente no
momento do desencadeamento.
A paranoia, psicose de defesa
É no âmbito da paranoia que essa teoria encontra sua per
tinência máxima. Desde a abertura do Seminário 3, Lacan lembra que
a paranoia era a psicose de referência para Freud, seguindo
Kraepelin. Para Lacan, ela é especialmente adequada para destacar
a função do Outro e dos mecanismos - foraclusão, metáfora deli
rante - que ele situa aí para dar conta da psicose nesse momento de
seu ensmo.
O lugar central da questão paterna na paranoia é verifica
do tanto no determinismo simbólico do desencadeamento - a
falta de um significante no Outro - como nas modalidades de
reconstrução do mundo pelo sujeito na metáfora delirante. Nesta
reconstrução, o sujeito vai até o ponto de se fazer o garantidor de
uma figura do pai bem mais radical - Deus, a ordem do universo,
etc. - do que aquela do neurótico. Não estando o ponto de basta
do discurso assegurado pela significação fálica comum, o sujeito
faz aí suplência por meio de uma construção muito mais imperio
sa, radicalizando a consistência e a exigência do Outro, ressaltan
do mais a vertente real do pai do que a sua dimensão de semblan
te e de uso.
À luz dessa inclinação do paranoico para dar consistência
ao Outro e ao pai, pode-se perguntar se a mudança do modo de dis-
54
curso dominante, ou seja, a passagem do discurso do mestre ao dis
curso da ciência, tem consequências sobre o tipo de soluções que os
sujeitos psicóticos encontram para fazer suplência à foraclusão.
Pode-se dizer que o neo em questão concerne primeiramente à nossa
época? Ou ele concerne a uma simples mudança conceitual no ensi
no · de Lacan? Sem dúvida, as duas coisas, pois pensamos que a últi
ma axiomática lacaniana - centrada na inexistência do Outro - per
mite justamente circunscrever com mais rigor os fenômenos clínicos
de nosso tempo e a expressão contemporânea do sintoma. Ao dis
curso do mestre responde a prevalência de uma solução psicótica
pela metáfora e pelo delírio; ao discurso da ciência, que pulveriza as
figuras do Outro em uma abundância de insígnias, corresponderia
outro tratamento do gozo, mais pela letra do que pela significação.
limites do modelo paranoico
É um fato incontestável que cada vez mais encontramos
psicóticos em análise e que seus sintomas estão cada vez menos
marcados pela predominância dos grandes delírios de estilo schre
beriano. Sem dúvida, isso se deve, em parte, aos tratamentos medi
camentosos; mas o aumento, reconhecido por todos os profissio
nais, dos casos inclassificáveis segundo a lógica clássica - e que
começamos a estudar a partir da Conversação de Arcachon sob o
título de "Casos raros" - nos leva a considerar um grande número
de sujeitos nos quais o desencadeamento é muito discreto, até
mesmo imperceptível, e nos quais os fenômenos elementares -
neologismos, alucinações, etc. - estão completamente ausentes. É o
que ocorre regularmente na esquizofrenia, assim como na clínica
das crianças, para as quais a própria hipótese de um desencadea
mento muito precoce é com muita frequência inverificável. Não é,
portanto, um acaso se Lacan toma a referência de Joyce, psicótico,
mas não louco, para dar conta dessas neopsicoses.
55
O caráter radical da teoria "clássica" do desencadeamento
explica-se por sua dependência em relação a uma lógica do significan
te concebida em termos de tudo ou nada. Puramente binária, ela faz
com que o conjunto dos fenômenos clínicos dependa de uma consi
deração exclusiva: a função dominante de um único significante, o
Nome-do-Pai, o que supõe que a extrema variedade dos fenômenos
corporais ou imaginários seja referida a uma única norma, sem levar
em conta sua relativa autonomia em relação à função do Outro. É
uma lógica mecanicista, que enfatiza mais a ação da estrutura - a falta
do significante que indexa a falta no Outro - do que a posição do
sujeito como resposta do real e como escolha segundo o modo de
gozo. Essa clínica é estruturada em torno do Outro e de sua dimen
são pacificadora, em relação à qual o gozo só pode ser legalizado,
aquela que o sujeito herda do pai como transmissor do falo. Por isso,
quando surgem fenômenos de gozo não-fálicos, eles só podem ser
tratados pelo delírio pensado como uma metáfora de substituição,
destinado a tratar a disseminação desses fenômenos por um princípio
de significação que reunifica o sujeito a partir de um novo modo de
laço com o Outro, fundado sobre o significante articulado tal como,
por exemplo, a ordem do universo para Schreber. Como resultado,
oculta-se a posição ética do psicótico, muitas vezes ressaltada por
Lacan em termos como "escolha da liberdade", "insondável decisão
do ser", etc., que podemos resumir assim: o psicótico é aquele que se
recusa a trocar o gozo pela significação. A consequência é que, pela
promoção da relação do sujeito psicótico com lalíngua, com o signifi
cante assemântico, e não com a articulação [significante] , podemos
tratar com mais eficiência os fenômenos psicóticos contemporâneos
muitas vezes fragmentados, dispersos, pluralizados, já que estão
menos referidos à figura unificadora do mestre. Além disso, os fenô
menos de gozo - pensados, em princípio, como redutíveis pela meta
forização delirante ou como simples resto da articulação significante
- podem ser doravante abordados como parte integrante de lalíngua,
aparelhagem mista do real com o simbólico.
56
A cadeia rompida e o significante no real
Não seria justo considerar o ensino clássico de Lacan
sobre o desencadeamento como pura e simplesmente ultrapassado.
Como Jacques-Alain Miller ensina em seu curso A Orientação
Lacaniana, convém, ao mesmo tempo, apreender como Lacan chega
a pensar contra Lacan, mas também como algumas de suas elabo
rações mais avançadas já estão esboçadas nos momentos mais clás
sicos de seu ensino.
Assim, a propósito do estatuto do imaginário, situado nos
anos 1 950 como uma instância de registro inferior em relação ao
simbólico, Lacan assinala, entretanto, sua função compensatória em
relação à falta no simbólico. Ele a situa inicialmente no momento
pré-psicótico do sujeito, antes do desencadeamento, observando
seu valor para um jovem - que está "por intermédio de uma imita
ção, de um atrelamento, na esteira de um de seus companheiros"22
-, esclarecendo que o sujeito "nunca entra no jogo dos significan
tes senão por um tipo de imitação externa", mas também como
uma forma de estabilização após o desencadeamento, quando evoca
a maneira como Schreber se reconstitui na alusão imaginária23•
Sem dúvida, essa clínica abre a via que consistirá em situar
o imaginário não mais como determinado pelo simbólico, mas
como lhe sendo equivalente no nó borromeano.
É na consideração mesma do estatuto do significante no
momento do desencadeamento que é possível localizar uma incidên
cia do significante no real e não só no registro do Outro simbólico.
Lacan diz isso claramente em "De uma questão preliminar . . . ", quan
do extrai do famoso "venho do salsicheiro ... " de sua paciente a
seguinte conclusão: "Esse exemplo é aqui destacado apenas para
captar no ponto essencial que a função de irrealização não é tudo no
símbolo. Pois, para que sua irrupção no real seja indubitável, basta
que ele se apresente, como é comum, sob a forma de cadeia rompi
dam4. Essa valorização do significante sozinho, não articulado, signi-
57
ficante no real, abre a via para a consideração das neopsicoses. Nelas,
o tratamento do gozo não se faz pela reconstituição da cadeia S1-S2,
ou pela metáfora delirante, mas por um tratamento a partir da letra,
ou seja, do significante como o que não significa nada. Lacan vai,
aliás, retomar esse ponto em "O aturdito", em torno da nova defini
ção que será dada ao Um-pai de "De uma questão Preliminar . . . " em
sua relação com o desencadeamento. Nos Escritos, o encontro com
um significante foracluído remete o sujeito aum buraco; o Nome
do-Pai ausente não dá acesso à significação fálica do desejo da mãe,
que permanece enigmático. O que se apresenta no lugar é Um-pai
como significante no real, sem par. Em "O aturditom5, Lacan dá a
seguinte forma lógica ao momento do desencadeamento: "É pela
irrupção de Um-pai como sem razão, que se precipita aqui o efeito
sentido como de forçamento, no campo de um Outro a ser pensado
como o mais alheio a todo sentido". Aqui, "como sem razão" indi
ca que, como o sujeito não se exclui do que enuncia, não é possível
qualquer separação entre enunciado e enunciação.
Pierre Naveau, em um excelente artigo publicado em
Ornicar? n.44, resume muito bem essa nova lógica centrada na fun
ção da exceção:
A irrupção de Um-pai evidencia, no momento do desencadeamento
da psicose, o que não tinha aparecido até então; a saber, que a exceção
paterna é colocada em funcionamento apesar de sua inexistência, mas
ao preço de um deslocamento de registro: o que deveria tomar lugar
no simbólico surge no reaF6•
Essa maneira de colocar o problema permite sair da lógi
ca deficitária da psicose - foraclusão de um significante no Outro -
para acentuar a conexão do significante com o real, e, portanto, uma
impostura do pai como garantia do Outro. A norma edipiana mos
tra seu caráter não essencial, sua impotência para regular o gozo
pela lei e pelo ideal.
58
A consequência recai não só sobre a clínica das psicoses,
mas também sobre a orientação possível do tratamento. Nos anos
1950, a posição bastante prudente de Lacan sobre esse ponto é soli
dária de uma concepção do analista que opera a partir do Outro e
que visa refrear os efeitos de gozo produzidos no sujeito psicótico
pela falha do Nome-do-Pai. A famosa posição do secretário do alie
nado, as advertências contra os riscos da erotomania ou de empuxo
ao desencadeamento pela transferência acentuam uma posição pas
siva do analista, um certo "fazer-se de morto", pois tratava-se de
opor à efervescência imaginária do psicótico o poder mortal do
símbolo.
Se considerarmos que as neopsicoses valorizam o signifi
cante no real e não sua articulação na cadeia, o enodamento dos três
registros do sujeito e não sua subordinação à única instância do sim
bólico, o caráter criativo da psicose e não sua dimensão deficitária,
o lugar do analista poderá ser definido de uma maneira diferente
daquela do lado da morte e da lei, isto é, do universal. O que nos
guia é menos a consideração de uma clínica da estrutura do que a
sustentação da invenção do sujeito em seu trabalho sobre lalíngua,
sua capacidade de encontrar uma solução singular que concilie o
vivo e o laço social. É por isso que nosso trabalho de pesquisa
apoia-se na variedade dos casos, mais por estarmos atentos à forma
singular como cada um trata o impasse de seu gozo de maneira iné
dita do que para verificar como cada um se acomodaria a nosso
modelo da psicose.
11. OS CASOS CLÍNICOS
Apresentaremos cinco casos clínicos selecionados dentre
os muitos estudados em nossos seminários.
59
Primeiro caso
O esclarecimento dado por esse caso à questão do neode
sencadeamento deve-se a uma dupla conjuntura: a dificuldade para
estabelecer o diagnóstico entre neurose e psicose e a precocidade
do desencadeamento. Tal precocidade aparece aqui em diferentes
níveis: em primeiro, o do desencadeamento; mas também o do tra
tamento, pois nos referimos aqui ao tratamento de um menino,
retomado após a interrupção de um tratamento anterior devido à
mudança na situação profissional do pai.
Este caso clinico de desencadeamento precoce enfatiza
como, diante do real encontrado por esse sujeito, um real intrusivo,
fraterno, e não dispondo do apoio significante do Nome-do-Pai,
tenta-se suprir sua ausência pelo viés de uma identificação imaginá
ria marcada pelo selo da rivalidade e do ciúme. Essa identificação
garante-lhe uma apresentação inicial ilusória, mediante um recobri
mento que não protege o sujeito contra a vertigem da desagregação
de seu ser nas proximidades do buraco. Nesse ponto, o sujeito se
precipita de equívoco em equívoco, no real, indo do consultório ao
banheiro, desenhando toaletes, indicando com isso com qual esta
tuto do significante ele está lidando: o do significante sozinho, o do
significante no real.
Em certo momento, pareceu que o desencadeamento pre
coce comprometia a teoria clássica do desencadeamento ou, pelo
menos, era seu limite. Mas, a partir da consideração da relação trau
mática com lalíngua, temos uma apresentação que permite conser
var todo o valor da noção de desencadeamento: "É a partir da con
tingência dos encontros que o destino se enlaça", diz Jacques-Alain
Miller27•
60
Segundo caso
Neste caso, o que se localiza é a presença, desde o início,
da relação imaginária com o outro, não sustentada pelo registro
especular e sim por aquele do objeto.
Para esse sujeito, não há o objeto, mas um certo número
de objetos, uma variedade de objetos que permite efetuar um enla
çamento. Essa sucessão de objetos não forma uma série no sentido
de uma convergência da qual se poderia deduzir a constituição de
uma articulação.
Assim, este caso clinico mostra uma sucessão de enlaçamen
tos em relação ao objeto, a partir dos quais se constitui uma alteridade.
A série dos diferentes tratamentos do objeto não produz um traçado,
um gargalo, uma travessia, uma passagem delimitando um antes e um
depois. Esse sujeito encontra-se mais em uma invenção perpétua.
A estabilização que se opera, cujos efeitos são observáveis
no nível do comportamento, particularmente no que concerne ao
apaziguamento e à relação com o semelhante, não provém de uma
estase em um ponto de equilibrio, mas necessita de uma invenção
contínua de sua parte. Os objetos são deixados sem que a dimensão
da perda se estabeleça. Ela passa de uma forma a outra com uma
preocupação estética que é preciso levar em consideração na psicose28,
como instauração de um laço.
Finalmente, deve-se destacar que esse tratamento passa
pelo outro, o outro que constrói o caso, que o escreve, que lhe dá
forma. Essa invenção não se produz sem a colocação em ato de um
desejo que permite que se efetue o ligamento.
Cabe acrescentar que esse outro muda, é plural, é múltiplo.
E é a partir desse plural mesmo que alguma coisa cessa de não se
escrever, ou melhor, não cessa de se escrever.
Este caso é, certamente, exemplar de uma clinica do
"Outro que não existe", mas, sobretudo, de um tratamento a partir
do "Outro que não existe".
61
Diz respeito a alguém que não se constrange com suas
construções, pois o que conta é o uso que se faz disso.
Terceiro caso
Um rapaz de dezoito anos, no terceiro ano do ensino
médio, é encaminhado com urgência por seu médico particular. O
paciente vai a sua primeira consulta acompanhado por seu pai e sua
mãe, muito preocupados com a saúde do filho.
Na primeira entrevista, seus pais expõem a situação em
um relato que ele segue atentamente. O rapaz acompanha com
grande atenção, com o olhar fixo no chão, intervindo aqui e ali para
retificar, para trazer alguma precisão ao discurso dos pais, aparente
mente de forma pertinente, ou pelo menos nunca contestada por
eles. Assim que seus pais saem do consultório, o paciente se preo
cupa em fazer uma exposição rigorosa. Seu discurso começa assim:
"Tudo parecia relativamente bem, mas de fato não estava".
O sujeito mostra-se muito tomado em seu exame, na ava
liação que faz de si mesmo, em primeiro lugar, pelo que constitui a
sua urgência subjetiva, a saber: o surgimento de pensamentos com
pulsivos sobre os quais ele se pergunta se o levarão à sua realização
em ato. Esses pensamentos compulsivos assumem várias formas:
cortar os próprios cabelos, raspar a cabeça, cortar a garganta, furar
o coração, furar os olhos.
O sujeito descreve com precisão de detalhes suas fobias de
facas, corta-papéis, canetas e outros objetos pontiagudos, cuja pre
sença em sua proximidade imediatadesencadeia crises de angústia das
quais só pode defender-se eliminando esses objetos frequentemente
encontrados no seu ambiente escolar, até o momento em que se vê
obrigado a interromper seus estudos por causa da pressão das crises.
Esses pensamentos, embora muito desagradáveis, eram
suportáveis enquanto o visavam como objeto. Foi somente quando
visaram como objeto seus colegas de classe, sua mãe e também
62
outros familiares, que eles se tornaram insuportáveis; então, procu
rou uma consulta.
A primeira entrevista termina com esta conclusão: "É como
se a ideia de ser criminoso de mim mesmo me fosse mais suportável do que a
ideia de ser criminoso de um outro!", disse ele.
Diante da angústia, a demanda de medicamentos "para
deter isso", sustentada pelos pais, é o que está em primeiro plano.
Contudo, o analista aposta no rigor que o sujeito demonstra e pro
põe-lhe a ideia, que ele terminará aceitando, de experimentar um
tratamento-teste pela fala durante algumas semanas. Concede-lhe,
de sua parte, uma prescrição de ansiolíticos; posteriormente, fica
sabendo que o paciente tomara só a metade.
Durante as entrevistas seguintes, as angústias deslocam-se,
uma forma tomando o lugar da outra. Rapidamente desaparece a
angústia de cortar os próprios cabelos, de raspar a cabeça. Esse
ponto é interpretado para o paciente como um sinal de que seus
sintomas são acessíveis ao tratamento pela fala.
A situação parece ajustar-se. A angústia é controlada a
ponto de ele poder retornar aos estudos. O sujeito vem com regu
laridade às entrevistas. Surpreende o uso que ele faz do dispositivo.
Esse sujeito, pouco inclinado a atribuir ao Outro a causa de seus
sintomas, é, entretanto, capaz de utilizar rapidamente as entrevistas
para iniciar, na presença do analista, um trabalho fora do sentido, do
pensamento.
Durante as entrevistas, impressiona a sua fixação do olhar
e uma atenção exagerada ao que se desenrola diante dele e que des
creve com grande rigor. Essa posição de espectador, à distância, do
automaton de seus pensamentos compulsivos é o que há de mais
característico no paciente, evidentemente em um transe, mas muito
diferente daquele do Homem dos Ratos de Freud, o qual se apre
senta como um pseudodelírio.
Aqui, não ocorre nada disso. Ao contrário de um delírio,
trata-se de uma descrição à distância do processo que o invade e de
63
suas variações, em uma atenção intensa, uma atitude de verdadeira
busca dos meios a serem mobilizados para limitar essa invasão.
Embora os pensamentos relativos aos cabelos tenham cedi
do rapidamente, os que se referem aos olhos, à garganta e ao coração
continuam causando-lhe embaraços, mas permitem, por sua evolução
rebelde, uma atitude experimental por parte do paciente. O meio de
defesa que esse sujeito encontra lembra o procedimento schreberiano:
"Posso combater minhas ideias ocupando-me do espírito", diz ele.
Teme períodos de inatividade, de férias, ou simplesmente
de volta para casa depois das aulas. A presença de seus colegas e o
barulho que fazem à sua volta preenchem de maneira defensiva um
silêncio que, de outra forma, o invadiria com o surgimento de seus
pensamentos compulsivos.
Dessa maneira, ele encontra soluções: efeitos sonoros,
rádio, fonte sonora que coloca atrás de si; ou ainda, uma atividade
automática: pequenos trabalhos que faz para seus pais, leituras -
com a condição de não seguir a significação. Em resumo, uma ati
vidade de defesa, fora do sentido, para poder contornar o buraco
por meio de um manejo, no real, da letra.
Assim, o sujeito abandona completamente a vertente da
significação para tratar o que o invade. Essa vertente não o impede,
no entanto, de trazer elementos determinantes na anamnese. Isso,
contudo, não é o mais importante neste caso.
A questão da psicose coloca-se para esse sujeito em rela
ção à fixidez do olhar, em relação à busca de uma castração no real,
em relação à posição do sujeito como espectador, à distância, do
automaton de seus pensamentos compulsivos - em um contexto
diferente do Homem dos Ratos - dando lugar a uma descrição do
processo invasor e de suas variações. Enfim, a questão da psicose se
coloca para esse sujeito em relação a um pôr-se a trabalho para con
tornar o buraco central, à maneira de Schreber, mobilizando uma
atividade de pensamento fora do sentido, com efeitos sonoros, um
burburinho no real.
64
Quarto caso . . .
"O idólatra" é um homem de vinte e cinco anos que está
no quarto ano do Seminário Maior, que se converteu recentemente
ao catolicismo e desejava entrevistar-se com um psicanalista católi
co para falar do acontecimento que dera um novo rumo a sua vida.
Uma observação, sobre o fato de saber se ele pensava que
Deus seria obrigado a cuidar de tantas coisas assim, permite-lhe ini
ciar um trabalho, separando-se de um Outro que cuida das coisas
do mundo.
Aos dezessete anos teve um sonho em que Deus o convi
dava para sua Igreja, sendo que tinha sido batizado na religião orto
doxa porque sua mãe, católica, queria que ele pudesse um dia fazer
a sua própria escolha. O pai, indiferente às questões religiosas, não
interveio.
Quer ser padre, mas surgem dificuldades que tinham sido
aplacadas durante um tempo devido à sua conversão. Ele quer se
certificar, por meio de uma análise de sua vida, de que não prejudi
cará a causa a que pretende servir. Não tem certeza se Deus espera
que ele seja religioso por ofício.
Diz-se incapaz de escrever desde a infância. Não pode
mais acompanhar suas aulas. Sente-se agredido pelos outros e, ao
mesmo tempo, os aterroriza. Tem uma estatura imponente e uma
voz grossa. Um elemento discreto marca o estilo de suas relações
com os outros: sente-se obrigado a dizer, nas conversas, que há
sempre mal-entendidos entre as pessoas. A materialidade das pala
vras o fere como se elas o penetrassem.
Essa intrusão da linguagem opera-se nos momentos em
que o olhar se desprende como órgão. Na análise de sua vida, loca
liza sua exclusão da comunidade dos homens na idade de seis anos:
uEu poderia ter sido autista".
O desencadeamento ocorre na época do pré-primário,
quando seu pai, que normalmente se dirige com mais facilidade a
65
sua irmã ou ao cachorro, pede-lhe para conjugar o verbo "ser":
incapaz de responder, vê nisso a prova de sua loucura e desmoro
na. "O que me falta é a base. " Encontra a solução em uma história em
quadrinhos que lhe fornece um modelo: nela, viam-se homens
guerreiros enfrentando mulheres guerreiras. Quando os homens
eram atingidos, morriam, ao passo que os corpos das mulheres
desapareciam, dando lugar ao vazio que a roupa envelopava.
Pede então à mãe uma roupa emprestada, a qual lhe servi
rá de invólucro; uma meia-calça (collan� é o suficiente para, dentro
dela, deslizar o seu ser.
Na adolescência, as meias-calças que comprava davam
um aspecto pseudoperverso às suas práticas masturbatórias. O
caráter a�tocentrado desse gozo reunia seu corpo a partir do obje
to, concentrando-o em torno de seu pênis. Esses momentos
faziam parar a sua dor, mas, pouco a pouco, a meia-calça deixava
de contornar esse gozo invasor que o despertar da primavera fize
ra aparecer.
Aos quinze anos, quis morrer, já que, como existente, não
tinha mais nenhuma razão de ser. Desalojado de seu isolamento
pelo ritual familiar das refeições, fez da comida uma fonte de hor
ror, equivalente ao verbo cuja conjugação tinha visto, estranha, na
página do livro de seus seis anos.
Para se proteger desse real, tomou um produto feito por
ele, fabricado a partir de produtos domésticos usados por sua mãe.
Deitou-se para dormir. No dia seguinte, o copo estava vazio, nada
ocorrera; então foi comer.
O efeito apaziguador da conversão relacionava-se com um
significante novo, uma significação dada ao gozo que lhe permitira
abandonar a meia-calça: fora um idólatra. Era o que dizia ter sido,
um idólatra, o que poderia representá-lo aos olhos dos cristãos, e se
sentia parasempre tendo que responder por essa marca. "Quero crer
que no dia de meu batismo1 ele [esse significante] entrou em mim para que
eu não fosse entregue à morte e à minha família. "
66
Desse modo, apresentou ao bispo seu pedido para ser
admitido no Seminário. Mas estava exposto à tentação de voltar
atrás. Fazia disso a marca singular de seu compromisso 'religioso, o
que também lhe permitia protelar o compromisso de votos perpé
tuos e manter-se distante do sacerdócio .
. . . dois momentos
Durante uma viagem ao Sinai, diante do perigo de que
Deus falasse, pudera conversar com uma garota que não ouvia.
Longe de fazer disso um milagre, pôde "religar-se" e chegar à con
clusão de que era um idólatra como todos os adoradores do
Bezerro de Ouro, mas que devia construir sua humanidade a partir
desse objeto singular que era a meia-calça. Para os outros, tratava
se de algo natural, mas ele tivera que construir sua humanidade a
partir da meia-calça, portanto, da mulher. Por isso, não era obriga
do a ocupar a posição de Moisés, a de tornar-se padre. Mas não era
casto, já que, apesar de sua renúncia à meia-calça, continuava ado
rando essa outra face de Deus, seu gozo mudo, este que Santo
Inácio convidava o penitente a rejeitar como gozo do corpo em
ligação com a prece. Esse é seu argumento para adiar os votos.
Tendo-se tornado um excelente especialista em informáti
ca, o tratamento de texto tinha regulado seu problema com a escri
ta. Sua relação com a língua vacila quando vai aos Estados Unidos
para aprender inglês, durante um ano: fenômenos elementares sur
gem, sente-se tentado a se isolar no burburinho de uma língua des
conhecida. "No começo era terríve� as palavras se despregavam, estrangeiras.
Comecei a me autosati.ifazer. Era cerebral". Graças ao afeto de sua tia,
que se tornou norte-americana ao se casar com um norte-america
no, esse sujeito pôde, como ele mesmo disse, entrar em uma nova
língua, uma nova família. Hoje, diz não ter mais uma relação cons
tante com o corpo. Adora inglês e informática, o que lhe permite
retificar, segundo suas palavras, suas pulsões e seus sentidos.
67
Mas o regresso é difícil. Sua comunidade tolera seu estado
de confusão e aceita que continue como especialista em informáti
ca, que viva como religioso e que adie a ordenação. Pode transmitir
o que sabe, mas não se deve esperar muito dele.
Comunica-se em inglês com interlocutores, mas sem que
o vejam. Faz circular a voz, "rápido, não lentamente", pela escrita
na Internet. "Gnotiff" - nome composto com as letras do nome de
seu cachorro, ao qual se endereçava seu pai - é seu nome no ciberes
paço. Substituiu o de idólatra. A solução não está do lado da metáfo
ra delirante. Ela está, antes, do lado da escrita de um ponto de não
sentido no qual seu ser pode ser identificado. A idolatria continua
sendo seu problema, a marca do que ele foi e que ainda hoje lhe per
mite nomear as sensações corporais que o invadem.
Ele consulta o analista uma ou duas vezes por ano e con
sidera que este o está acompanhando. Encontra soluções particula
res para inscrever uma falta no campo do Outro sem ter que ser o
seu garantidor.
Por enquanto, distancia-se da tentação de reconstruir o
mundo e usa a religião para criar para si uma nova relação com
lalíngua, o que não é sem consequências sobre seu gozo transexual,
que consegue assim limitar.
Quinto caso: um momento de desligamento
Quanto a Jean, o desencadeamento ocorreu há muito
tempo. Agora, ele tem trinta e três anos e consulta o analista há dez
anos. Sua família vive em Luxemburgo, onde nasceu. Fala fluente
mente o francês e o alemão e considera o luxemburguês um dialeto.
Depois de uma intervenção infeliz que tornou inoperante
o uso da gramática que inventara para si próprio, permitindo-lhe
manter-se em lalíngua, Jean é impelido, obrigado a uma resposta no
real que ele tenta colocar em ato assim: tem que se fotografar intei
ramente nu, depois raspar todos os pelos do corpo, fotografar-se
68
novamente e expor essas fotos como uma peiformance. No momen
to da sessão em que fala desse "projeto", se expressa tanto em ale
mão como em francês. A fórmula "eu nack!' detém o analista, que
não sabe se deve ouvir essa palavra em francês ou em alemão, pois
acter, em francês, é um verbo que Jean utiliza.
Ao preparar este texto, o analista deu-se conta de que
nunca perguntava em que idioma o paciente falava, mas apenas
como se escrevia o que dizia. O sujeito desdobra o conjunto dos
significantes convocados para o seu achado, cuja chave só ele terá.
Nacken é um verbo alemão que significa "extenuar-se", que Jean já
tinha usado porque é muito próximo a die Nacke (a nuca) .
O adjetivo nackt significa "nu", "em pelo", "desprovido".
Akt significa um "nu", no sentido acadêmico, e é também um "ato"
teatral. Diferentes traduções se superpõem entre "nu" e "Akt ",
"nack!' e "ato". Poderíamos estabelecer um continuum de significa
ções entre esses significantes.
O achado gramatical de Jean consiste em fazer uma brico
lagem com uma palavra utilizada entre as duas línguas, que queira
dizer "ato" e "nu", ao mesmo tempo, nas duas línguas. Estanca de
maneira singular a espiral da metonímia. Vetorializa as línguas para
encontrar a palavra correta que o separe da obrigação de colocar
realmente em jogo o seu corpo. Será que se trata de uma tentativa
de inventar "um Outro da gramática", como propunha Jacques
Alain Miller em Angers29, para que o real da língua já não lhe faça
signo e, assim, forjar a palavra que cura, e que o livraria de passar
ao ato?
Concebe a análise como um lugar para elaborar algo sobre
o irreconciliável que ele situa entre "localização (repere) e orgânico".
Esse sujeito tenta na análise um enodamento entre o que expressa pelo
binário ''iiocalizávei/ irreparável" (irrepérable/ irréparabie) onde "corte" e
"sutura" tentam se enodar.
Ele tenta entregar-se a uma língua na qual o corpo possa
se sustentar. É obrigado a tratar do real da língua para enodar o
69
corpo. É o ponto de religamento. Inventa uma gramática que lhe
permite neologizar gramaticalmente. Quando isso se solta, porque
esse uso é precário, ele delira seu corpo. No momento em que o
enodamento na língua não dá mais abrigo ao corpo, ele utiliza real
mente seu corpo.
A análise é para ele um lugar de criação de referências que
lhe permitem suportar uma relação com o mundo. "Saí do autismo
por milagre e traumatismo, e aqui pode haver suspensão", disse.
111. QUE ENSINAMENTOS TIRAR DOS CASOS CLÍNICOS?
O desligamento, como expressão maior do neodesenca
deamento, opõe-se ao desencadeamento clássico. Relacionamos o
neodesencadeamento-desligamento à metonímia, opondo-o, assim,
ao desencadeamento clássico, relacionado à metáfora.
O que está em jogo nessa questão do neodesencadeamento /
desencadeamento clássico, relaciona-se à maneira segundo a qual
explicaremos esses diversos modos de instalação das psicoses.
Explicamos a instalação classicamente súbita de um delírio pela
metáfora delirante, ou seja, pela substituição metafórica, que obede
ce à lei do tudo ou nada. Explicamos outros modos de instalação,
progressivos, precoces, até mesmo precocíssimos a ponto de apare
cerem logo de início (o que contradiz a própria noção de desenca
deamento), ou ainda modos alternativamente progressivos e regres
sivos, pela substituição parcial (não pela lei do tudo ou nada), pelos
desligamentos e religamentos que a metonímia delirante evidencia.
É a clínica que nos conduz ao Outro primordial, por ter
que considerar uma estrutura clínica de partida, neurose ou psico
se, e considerar como um dado prévio a escolha do sujeito de se ins
crever em uma estrutura clínica. A isso nos conduz nossa posição
de clínicos. A noção de desencadeamento vem enfatizar a passagem
do estrutural ao clinicamente manifesto.
70
Ao contrário desse ponto de partida com base no Outro,
existe o ponto de partida com base no gozo, com o Outro quenão
existe. Aqui, é a própria escolha do engajamento do sujeito na estrutu
ra clínica que se encontra problematizada. Então, temos que lidar
menos com a oposição desencadeamento /desligamento que com a
questão dos desligamentos e religamentos, inclusive com a problemá
tica do ligamento com o Outro. Essa é uma perspectiva comandada
mais pela consideração do tratamento que pela consideração da clínica.
Haveria clínica psicanalítica concebível somente com base
no Outro primordial?
O último ensino de Lacan convida a um novo exame do
estatuto a ser dado ao sintoma. Considerar o Outro primordial leva
a estimar que o Outro é o melhor meio para se tratar o gozo.
No que diz respeito ao tratamento do gozo, duas vias
devem então ser distinguidas:
_ Passar pelo Outro para o tratamento do gozo evidencia o esta
tuto predominante da fantasia, isto é, o valor de localização, de con
densação, de recuperação do gozo, correlato à mortificação signifi
cante do sujeito. Trata-se, por essa via, de um tratamento do gozo
pelo objeto como resto.
_ Sem passar pelo Outro para o tratamento do gozo evidencia o
estatuto do significante sozinho, o laço do simbólico com o real, e
não mais uma apresentação do sintoma na vertente deficitária em
relação a uma norma - mesmo que seja a norma-do-macho (má/e
norme) - e sim uma apresentação do sintoma na vertente que faz
valer a invenção do sujeito, a função L: (x) , ou seja, a versão do sin
toma que convém ao Outro que não existe. Esta versão adquire
toda sua dimensão com a clínica borromeana, na qual o Outro é
substituído pelo enodamento, que equivale, em uma estrutura ter
nária, ao ponto de basta na articulação em uma estrutura binária.
O neodesencadeamento se esclarece, assim, por meio do
nó borromeano, do Outro que não existe e do registro do signifi
cante sozinho, St .
71
IV. CONCLUAMOS
Embora esclarecida pela oposição da metáfora e da metoní
mia, a oposição desencadeamento clássico versus neodesencadeamento
desligamento permanece no sistema de oposição binária, com sua
estrutura hierárquica. A estrutura binária de oposição conduz imedia
tamente a uma hierarquia. Assim, o binário simbólico e imaginário
faz prevalecer o símbolo sobre o imaginário. Da mesma forma, o
binário da articulação significante S1-Sz, o binário da estrutura de lin
guagem, introduz uma hierarquia do Um em relação ao Outro.
Assim, a atualidade de nosso trabalho levou-nos a consi
derar dois destinos do Um:
_ o destino do Um em direção ao dois, na oposição signi-
fi cante;
_ o destino do Um em direção ao três, no enodamento.
Se, no primeiro Lacan, a metáfora delirante aparece no
lugar da metáfora paterna, que está ausente, no segundo Lacan, o
psicótico tem, como o neurótico, uma relação com o sintoma como
modalidade de tratamento do real pelo simbólico. Encontramos aí
a noção de aparelhamento, que anuncia aquela do enodamento. A
consideração desse tratamento do gozo - da causa sexual - é o que
diferencia a clínica psicanalítica do campo psiquiátrico, de onde ela
está excluída.
O conceito de aparelho pode dar um nome à série de
ligamentos?
O primeiro desses aparelhos, que Jacques-Alain Miller vai
desenvolver em seu curso "Do sintoma à fantasia e retorno", é o
estádio do espelho. É um aparelho que trata o gozo. Permite seriar
os ligamentos nos quais uma formação imaginária vem flXar o sujeito:
fenômeno psicossomático (FPS), prática artística, perversão, gemi
nação particular de um casal.
Mas a solução imaginária é sempre aleatória pela ausência
de um distanciamento do corpo e sempre é possível um retorno
72
libidinal. Pode-se notar, então, em todos esses casos que privilegiam
um enlaçamento imaginário, a importância de uma inscrição da cas
tração no real, como o "cílio" de Pierre Naveau30•
O sintoma é um aparelho que permite colocar em série os
ligamentos em que um uso particular do simbólico - por meio de
um médium, da informática, de uma prática artística, de um empre
go da língua-lalíngua - fixa o sujeito.
O aparelho da linguagem é outro aparelho.
Falar de enodamento remete a uma clínica borromeana na
qual, como observa Jacques-Alain Miller no final do Seminário das
sete sessões: ''A equivalência entre os três registros tem como efeito
considerar que um registro pode se substituir a uma falha surgida
em outro [ . . . ] o imaginário pode se transformar em significante",
uma prática do objeto pode se contrapor à falta simbólica. Nos
casos comprovados de psicose, observa-se uma remissão à imagem,
na qual o imaginário se fixa em determinado momento e, a esse
preço, o sujeito sustenta-se no mundo. Assim, uma mulher se faz
tatuar uma maquiagem permanente nos olhos para poder levantar
se de manhã diante de um homem. No caso de Jean, a "performance"
faz pensar em uma afinidade com a perversão. Há um elemento
notável: trata-se de traços de perversão, traços que se repetem iden
ticamente.
Por outro lado, há enlaçamentos "autossimbólicos" devi
do a um funcionamento em dois níveis, internos ao simbólico. Essa
problemática do neodesencadeamento mostra-nos a passagem de
uma clínica da contiguidade, cuja referência é linguística, a uma clí
nica da continuidade e sua incidência na condução do tratamento.
O conjunto dos casos leva-nos a indicações precisas sobre
a posição do analista. Se o esquizofrênico denuncia pela ironia a ine
xistência do Outro, é melhor não levá-lo a esse ponto de inexistên
cia do Outro no tratamento. Por exemplo, quando ele é recoberto
por um remendo imaginário: FPS (Fenômeno Psicossomático), prá
tica artística, escolha do objeto amoroso especularizado.
73
Somos, portanto, levados a colocar em questão a posição
do secretário do alienado, em prol da sustentação para a criação
quanto ao objeto e, também, na escrita do caso. Éric Laurent, em
Arcachon, detalhou a maneira pela qual o analista se faz destinatá
rio do signo ínfimo do paciente. Com esses signos sustenta-se seu
trabalho de construção, e não se desvia disso.
A manobra analítica não consiste, portanto, em um mero
registro, em um secretariado; tampouco se trata de "socializar". O
reenlaçamento, que está a cargo do sujeito, se ele é uma alternativa
para a metáfora delirante, não é uma reinscrição do sujeito sob os
significantes ideais anteriores ao desligamento. Ele supõe uma
invenção particular e um destinatário atento, como testemunham os
casos.
74
Notas
•
Relatores: Jacques Borie, Jean-Robert Rabanel e Claude Viret.
1 LACAN, J. (1955-1956) "Do significante e do significado". In: O Seminário, livro
3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p.220.
2 Ibid., p.1 87.
3 LACAN, J. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.542.
4 LACAN, J. (1973) "O aturdi to". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.466.
5 NAVEAU, P. (1 988). Sur le déclenchement de la psychose, Ornicar? Paris, n.44,
p.79.
6 MILLER, J.-A. (1996) "Lacan com Joyce". In: Correio n.65. São Paulo: Escola
Brasileira de Psicanálise, 2010, p.33.
7 Tal como acontece com James Joyce.
8 HENRY, F.,JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.). Le conciabule d'Angers: effets de
surprise dans les p.rychoses. Paris: Agalma/Seuil, 1997.
9 N.E.: NAVEAU, P. História d'olho. In: HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER,
J.-A. (ed.) (1 997) Os Casos Raros, Inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação
de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p.59-61 .
75
Seção Clínica de Lille*
INVESTIGAÇÕES SOBRE O INÍCIO DA PSICOSE
I . ENTRADAS NA PSICOSE1
Não encontramos nenhum caso que questione a estrutura
da psicose desenvolvida por Lacan na "Questão preliminar"2: fora
clusão do Nome-do-Pai e ausência da significação fálica. Essa estru
tura tem, contudo, manifestações clinicas diversas. Po e <Do desig
nam aqui, como no texto de Lacan, os "abismos"3 que podem ser
cavados, no simbólicoe no imaginário respectivamente, por essa
foraclusão e essa ausência. Trata-se, portanto, de "abismos" locali
záveis clinicamente pela emergência de fenômenos precisos.
Os fenômenos que designamos por Po são as alucinações
e as perturbações da linguagem. Estas últimas, descritas no Seminário 3,
vão do eco do pensamento à língua fundamental, passando pelas
diversas formas de automatismo mental4• Incluímos aí, portanto, as
perturbações da fala e da enunciação, as alucinações verbais e os
fenômenos de pensamento imposto. Caracterizamo-las por meio
do termo "anideico", emprestado de De Clérambault, para excluir
lhes as ideias delirantes, consideradas aqui de um ponto de vista
"ideico", ou seja, semântico.
A "imagem da criatura"5 beira, para Lacan, o "abismo" <Do.
O falo é o significante do sexo, portanto as ideias delirantes ligadas
à sexualidade e ao corpo atestam a presença de <Do, assim como
algumas passagens ao ato (automutilações) e alguns tipos de disfun
ções corporais. O falo é o médium entre os sexos; portanto, as ideias
77
delirantes relativas ao amor e às relações sexuais devem ser
igualmente referidas a <I>o. O falo é o significante da vida ou da ani
mação do gozo. Portanto, a perda enigmática do sentimento da
vida, chegando às vezes até ao suicídio, e a mortificação do gozo,
dizem respeito a <I>o. Somente as perturbações da linguagem pro
vam "automaticamente" a foraclusão do Nome-do-Pai. Os fenôme
nos que acabamos de descrever, assim como as alucinações visuais
e sinestésicas, têm um estatuto muitas vezes difícil de determinar na
prática. Na ausência de perturbações da linguagem, a psicose deve,
portanto, ser demonstrada de outra maneira, por um estudo do
conjunto do quadro clínico a partir da articulação detalhada de seus
elementos.
Da "Questão preliminar" deduzimos um esquema de
desencadeamento6 da psicose relativo à segunda "doença" de
Schrebee, que se traduz pelo seguinte encadeamento temporal: 1 )
apelo ao significante foracluído do Nome-do-Pai (por Um-pai) ; 2)
formação de Po; 3) formação de <I>o.
Mas, há entradas na psicose que se ordenam de acordo
com outras sequências temporais.
A. Entradas na psicose, sem perturbações da linguagem
Um primeiro tipo de entrada na psicose é caracterizado
pela ausência de perturbações da linguagem, o que, lembremos, é
compatível com a foraclusão do Nome-do-Pai.
1 . Um-pai � <I>o
Nesses casos, há um encadeamento direto entre o surgi
mento de Um-pai e uma manifestação proveniente de <I>o.
78
Exemplo 1 : Um transexualismo feminino1
Uma moça, Ven, vestida com roupas masculinas, quer
operar os seios e o sexo para ser "transformada" em um rapaz. Seu
pai foi enviado ao campo de concentração, no Camboja, quando ela
tinha três anos. A mãe decidiu ficar com o ftlho de dois anos e
enviou sua ftlha para longe, com sua família. Quando a menina fez
seis anos, o pai fugiu e imediatamente chamou a filha de volta. A
família reunida passou então um ano em um campo de refugiados
antes de chegar à França. As lembranças de Ven datam da volta de
seu pai. Antes, é o nada. Justamente à mesma época, assistiu a uma
cena que foi a matriz de seu transexualismo: seu irmão urina em pé.
Sentiu desde então que ela era (e devia ser) um menino. Essa ideia
não a abandonou mais. A volta do pai precipitou, portanto, a for
mação de uma ideia delirante incidindo sobre o corpo e o sexo.
Adulta, Ven não apresenta nenhuma perturbação de linguagem. A
psicose só é localizável mediante um exame muito atento. É perse
guida pelos olhares femininos que atravessam suas roupas e advi
nham que ela não tem pênis. Tem, por outro lado, uma ideia deli
rante discreta sobre a determinação da anatomia pelo desejo pater
no. Sua concepção do amor por uma mulher é inteiramente deter
minada pela cena inicial que fez do pênis a insígnia real do amor da
mãe pelo filho.
Exemplo 2: Um heroinômano
Um rapaz de trinta anos, drogado desde a adolescência,
vem falar de seus problemas de impotência em um Centro para
toxicômanos. Sua história é escandida por três momentos cruciais.
Aos quatro anos, a criança viu o pai, que voltava do "futebol", apa
recer no vão da porta com uma cabeça de lobo. Aos oito anos, ten
tou fazer amor com uma garotinha e não conseguiu, o que sente
ainda hoje como um fracasso doloroso. Aos quinze anos, a cena se
79
repetiu. Desde então, drogava-se para "ficar de pau duro", e conse
gue fazer amor sob efeito da heroína. Esse primeiro ato sexual teria
causado "hemorragias intestinais" e teria sido então operado para
"retirar pedaços do intestino". Desde então, sofre "dores de barri
ga" inexplicáveis. Leva uma vida errante e tenta trabalhar no campo
do esporte (ideal paterno) . De fato, é sustentado por sua família e
sua companheira. Ela está atualmente grávida e ele, muito angustia
do. Acabou de perceber, embaixo do pé, uma "bola" de carne que
aumenta quando faz amor e que viria geneticamente de um avô.
Constata-se, portanto, nessa psicose que data da infância, a emer
gência de um delírio, até mesmo alucinações sinestésicas, na aproxi
mação da paternidade.
Os pontos comuns a esses dois casos são a ausência de
perturbação de linguagem e uma priorização do corpo e do sexo. Se
por um lado o quadro clínico pendeu para a psicose, por outro lado
esses casos suscitaram hesitações: em relação à histeria, no primei
ro; em relação à fobia ou à neurose obsessiva, no segundo. Tudo
começa pelo encontro com Um-pai na infância, ora dedutível do
relato do sujeito (exemplo 1), ora marcado por uma cena inesquecí
vel (exemplo 2). Esse encontro precipita uma significação delirante
"monomaníaca" sexual ("mudar de sexo", "fazer amor") . Nos dois
casos, não há nenhum deslocamento - signo da ausência do recal
que - entre a matriz infantil imaginária da ideia delirante e a busca
ininterrupta desde a infância de sua realização sintomática.
O mesmo tipo de sequência pode se desenvolver com o
encontro de Um-pai acontecendo somente na idade adulta. Foi o
caso de Schreber, quando de sua primeira doença (1 884) , ocasiona
da por sua candidatura ao Reichstag. Durou um ano "sem que ocor
resse um único desses episódios que tocam o domínio do sobrena
tural"9. De acordo com seu testemunho, os primeiros fenômenos
elementares começaram por um estalo em outubro de 1 893, ou seja,
apenas nove anos depois. Quando da sua primeira doença, Schreber
sofreu de ideias hipocondríacas e de uma obsessão de emagreci-
80
menta. Teria sido curado e levado em seguida uma vida tranquila,
apesar de sua decepção renovada quanto à paternidade. Esse pri
meiro episódio pode então ser escrito: "Um-pai" � <l>o, sendo <l>o
caracterizado, ainda aqui, por ideias delirantes sobre o corpo.
2. <l>o sem "Um·pai"
Outras entradas na psicose são análogas às anteriores, sem
que se encontre aí, entretanto, a condição inicial do "Um-pai". É
por exemplo o caso de transexualismos ditos "primários" por
Stoller10• Esses sujeitos, nascidos machos, sempre se sentiram femi
ninos, às vezes desde a idade de um ano. Tratar-se-ia de uma forma
"originária" de empuxo-à-mulher, devido à identificação imaginária
com a mãe1 1 •
Exemplo 3: A moça "dragão"
Uma moça vem consultar um analista, pois não consegue
trabalhar. 'Trabalhar é perder a vida!", diz ela. Essa frase é tomada ao
pé da letra. É assolada por ideias mortíferas: vai desaparecer sem
deixar rastros, exceto se ela tiver talento ou filhos. Além disso, pro
gramou uma operação plástica no maxilar. Ela teria perdido sua
beleza aos três anos de idade, quando um menino jogou uma bola
em seu rosto. É sua lembrança mais antiga. Sua mãe, uma bela
mulher, diz sem parar que sua filha é feia. Ela adere incondicional
mente a esse discurso: "Sou um dragão", diz ela. Ela "sabe" como
se tornou feia e como reparar isso por intermédio de uma interven
ção real no corpo. A operação lhe devolverá sua beleza e lhe trará,
além disso, o amor dos meninos. De fato, ela transformou, porinversão e permutação, a frase que enuncia o acidente de seus três
.anos, em uma outra frase que a leva à cirurgia: "menino -golpe no rosto
-feia" transforma-se em "operação no rosto - bonita - menino". Ela se
reflete em sua mãe: "Minha mãe não pode me ver'� diz; em seguida, diz:
81
"quero mudar de rosto, pois não consigo me olhar no espelho". Uma data é
destacada: aos seis anos, a mãe que a superprotegia a "abandonou"
para ir trabalhar. O trabalho, portanto, foi associado a perder, não a
vida, mas a mãe. Tem-se a impressão de uma evolução progressiva
para uma cirurgia inelutável, castração no real que lhe aparece como
uma solução em uma relação amorosa por vir. Essa "solução" evoca
a eviração schreberiana na via da transformação em mulher; a apro
ximação da cirurgia é acompanhada do sentimento de "segunda
morte" que assombra o sujeito: fenômenos imputáveis à <Do.
Exemplo 4: o alcoólatra incestuoso
Um rapaz de vinte e sete anos é hospitalizado depois de
uma errância alcoólica de oito dias, acompanhada por ideias suici
das após ter sido abandonado por sua companheira. Começou a
beber no seu aniversário de quatorze anos, com um amigo. No ano
seguinte, teve relações sexuais com garotas e sofreu uma queda no
desempenho escolar. Seus pais se separaram quando tinha um ano.
Foi então deixado por sua mãe com a avó materna, que impediu que
o pai entrasse em sua casa. Com a idade de dois anos, voltou para a
casa de sua mãe, que havia se casado novamente. Diz nunca ter con
seguido reconhecer seu pai, que parece, contudo, ter feito muitos
esforços em relação a ele. Por outro lado, esteve sempre em asma
se com sua mãe: descreve relações íntimas que teriam passado "do
corpo à linguagem". É o único que sabe "levá-la" [ ''la prendre'r2 em
casa e seu padrasto deve passar por ele para ter acesso a sua mulher.
Sua mãe o conhece melhor que ele mesmo, e tudo o que ele nos diz
vem dela. É como se ele falasse no discurso indireto: "Minha mãe diz
de mim que . . . ", em vez de dizer: "Eu me acho . . . ". Dessa relação de con
fidência com sua mãe, tira o poder de falar com as mulheres.
Consequentemente, aparece como o "líder" de uma pequena turma.
Mas lhe é difícil ficar ao lado de outros homens. Nas reuniões da
turma, bebe para poder falar com eles. Quando não bebe, fica ini-
82
bido, sem ideias. Se beber, pode até dizer maldades: sua mãe o
chama de "o cobra". Pouco antes de ser internado, soube que sua
mãe se encontrava com seu padrasto antes do divórcio. Ele desmo
ronou: '3' ou filho de quem?". O diagnóstico não era evidente.
Inclinamo-nos pela psicose devido à sua relação com o pai. Este é
rejeitado, não reconhecido, e o sujeito diz nunca ter tido o menor
conflito com um personagem paterno, nem, aliás, a menor dificul
dade em sua vida. Por outro lado, tanto a relação com o álcool e a
inibição para falar com os homens, quanto sua facilidade grande
demais para conversar com as mulheres, é um pouco o inverso do
que encontramos habitualmente na neurose. Se o diagnóstico está
correto, a entrada na psicose se faz pela alcoolização massiva no dia
de seu aniversário. A partir daí, o álcool ajuda-o a suportar os outros
rapazes, pois o modelo da relação com a mãe não funciona com
eles. Não encontramos alteração simbólica manifesta, mas a acen
tuação, a cada vez que é "largado" (laisser-tomber) por uma mulher,
de um "se deixar morrer". Não se trataria, sob o pano de fundo da
ausência do falo como médium entre os sexos e significante-mestre
da virilidade, de um duplo fracasso? Fracasso de uma tentativa de
constituir um sintoma (o alcoolismo) que faça laço social com os
homens e fracasso da relação "incestuosa" que possa lhe garantir
um laço que se mantenha com uma mulher.
Os traços comuns desses casos de psicose são a ausência
de perturbações de linguagem e a inexistência de uma condição ini
cial do tipo "Um-pai". No primeiro caso, o sujeito é progressiva
mente obnubilado por uma cirurgia; no segundo, o alcoolismo se
instala brutalmente na puberdade e toma pouco a pouco um con
torno suicida. Essas perturbações são a manifestação de uma ausên
cia da significação fálica, que escava lentamente <l>o. Nada garante,
contudo, que essas entradas precoces na psicose não serão seguidas
um dia por um desencadeamento (Po) . A foraclusão do Nome-do
Pai torna sempre possível uma desestabilização da ordem simbólica
que formará Po.
83
3 . <l>o, e mais tarde Po
Schreber está neste caso, se considerarmos a sucessão de
suas duas "doenças", com nove anos de diferença. É somente
durante a segunda doença que Po se constitui ("estalo" de origem
divina) . <l>o, já formado quando da primeira doença, aprofunda-se
ainda mais. Alguns sujeitos testemunham assim o que aconteceu
antes do desencadeamento, se reservarmos esse termo para a for
mação de Po.
Exemplo 5: A moça assediada sexualmente
Uma moça de 25 anos é hospitalizada repetidas vezes em
alguns meses. É perseguida por seu marido, a quem ela acusa de
cometer assédio sexual. Adere, contudo, ao discurso de seu mari
do, que a chama de "puta". Vozes riem dela e a insultam, repreen
dendo-a por ter feito mal a seu marido. Sua mãe a teria renegado.
No trabalho, zombam de seu nome. Sofre de alucinações visuais,
de suas "presenças": "coisas negras" caem sobre ela. Uma forma
vaga a fixa e a acompanha: são os mortos da família. Tem certeza
que vai se suicidar. Faz o relato do processo psicótico desde sua
tenra infância.
Aos dois anos e meio, feriu-se caindo, quebrou o braço e
seu pai ainda lhe bateu. Os primeiros fenômenos psicóticos apare
ceram por volta dos sete anos. Primos mais velhos lhe fizeram carí
cias sexuais. Sentiu-se então dividida e anestesiada, como em uma
nuvem. Rezava para que Deus a fizesse morrer. Desde essa época,
idealiza a morte. Quando as "presenças" surgiram, pensou que era
sua avó, recentemente falecida. Uma única vez ouviu uma voz (pro
vavelmente ligada a seu pai) dizer: "Estou bravo com você". Aos
onze anos, seu irmão a violentou. Sentiu então uma "quebra". Isso
ocorreu na puberdade e ela desenvolveu um delírio de filiação. Foi
verificar sua certidão de nascimento. Acusou seus pais de a terem
84
oferecido como isca a seus primos. Aos vinte e um, o noivado e,
logo em seguida, o casamento fizeram de seu marido o perseguidor.
O automatismo mental então se desencadeou.
Trata-se de um sujeito que se situa desde sempre como o
objeto de gozo de um parceiro masculino (pai, primos, irmão, mari
do) . Na época de uma tentativa de sedução - ou talvez simplesmen
te por causa da sexualidade infantil -, <t>o se constitui (gozo morti
ficante, presença de um duplo) . Desde essa época um fenômeno
elementar demonstra a falha da ordem simbólica. Aos onze anos, Po
se aprofunda: um delírio de filiação acompanha a ideia de um estu
pro pelo irmão - será a ideia do incesto fraterno que a leva a elabo
rar o seu pertencimento a uma outra família? Depois, o casamento
faz realmente com que apareça a decomposição avançada da ordem
simbólica, que acarreta, como em Schreber, remanejamentos imagi
nários.
Esses exemplos, como muitos outros, mostram que o tra
balho delirante é um Work in progress que pode durar toda uma vida.
Há, contudo, casos ( cf. I .A. l e I.A.2) em que a evolução delirante
para depois da constituição de <t>o ou se estabiliza durante longos
períodos, sem decomposição da ordem simbólica. Nesses casos,
apesar da ausência de perturbações de linguagem, pode-se identifi
car a foraclusão do Nome-do-Pai por alguns signos, como a ausên
cia simbólica do pai no exemplo 4. Esse é evidentemente o ponto
delicado. A entrada na psicose se manifesta minimamente por uma
ideia delirante sobre o corpo (exemplos 1 , 2, 3), ou mais intensiva
mente por uma significação mortífera in,vasiva. Esta pode ser asso
ciada ao trabalho (exemplo 3), aos laços com os outros (exemplo 4)
ou à sexualidade (exemplo 5) . Aqui se demonstra a dificuldade do
laço social na psicose. Um "produto"(álcool, droga) pode ajudar a
estabelecer esse laço, ali onde o falo teria sido necessário (exemplos
2 e 4), e onde o sujeito não consegue construir um sinthoma (cf. I .B.) .
O imaginário é acometido no nível da imagem do corpo, ou pela
alteração do sentimento da vida, e até mesmo pela perda do senti-
85
do ou do valor atribuído a esta. Os atos se seguem. O início pode
ser brutal (cf. I.A. 1 e I .A.2 exemplo 4), ou muito progressivo (exem
plo 3) , com agravações nos momentos do desenvolvimento em que
a pulsão solicita mais o corpo (primeira infância, puberdade, primei
ros encontros sexuais). O apelo, por intermédio de Um-pai, ao sig
nificante foracluído do Nome-do-Pai, não é sempre o que precede
esse tipo de entrada na psicose (cf. I.A.2) . Contrariamente ao desen
cadeamento-tipo da segunda doença de Schreber, a descontinuida
de ou a "quebra" - de acordo com a expressão da paciente do
exemplo 5 - não é sempre sentida pelo sujeito. Este diz às vezes que
sempre esteve mal, mas que ninguém nunca percebera . . .
Essas entradas na psicose (<l>o) , que são muito mais
"variações"13 da relação do sujeito com o gozo e com o imaginá
rio do que desencadeamentos (Po) , acentuam a importância da
função fálica como função de gozo. O desencadeamento (Po) é o
modo de entrada na psicose que Lacan enfatiza no momento em
que afirma a primazia do simbólico sobre o imaginário e o real. A
entrada na psicose (<l>o) se percebe talvez melhor a partir do seu
ensino nos anos 1 97014• A última parte do ensino de Lacan, que
incide sobre o sinthoma, oferece ainda novas perspectivas sobre o
processo psicótico.
B. A função do sintoma
O sinthoma é um sintoma que tem como função fazer com
que as coisas fiquem juntas, enlaçando o real, o simbólico e o ima
ginário15. Jacques-Alain Miller propôs chamar de "desligamentos"
as crises suscitadas por certas disfunções do "aparelho do sinto
ma"16: ora é um desencadeamento (Po) , ou uma entrada na psicose
(<l>o), ora é um momento de desestabilização17 que anuncia uma res
tauração ou uma reelaboração do sintoma anterior.
86
Exemplo 6: Missão cumprida
Filho espiritual de sua tia e da Igreja, os quais ele chamava
de seus verdadeiros pais, este homem de cinquenta anos constituíra
muito cedo um ideal para si. Queria realizar as "palavras em ade":
castidade, honestidade, fidelidade. Sua prática de coroinha era o sin
toma em que o ideal das "palavras em ade" tornava-se missão. Da
tutela de sua tia, passou diretamente à de sua esposa: a paternidade
foi acrescentada à lista das "palavras em ade". De sua filha, decidiu
ser o educador exclusivo. Quando seu filho nasceu, sentiu-se dividi
do quanto à sua missão: como cuidar exclusiva e totalmente de duas
crianças ao mesmo tempo? Dores apareceram pelo corpo e, duran
te quinze anos, procurou conhecer a doença mortal que o minava
(<Do) . Sua nomeação para um cargo importante, que confirmava a
envergadura universal de sua missão educativa, fez desaparecer
todos esses males. Mas, um ano depois, sua filha passou brilhante
mente em um concurso, colocando fim a uma parte essencial de sua
missão de pai. Um sentimento de indignidade acompanhou então a
sensação brutal de ter o sexo cortado. Estava se restabelecendo
quando seu fllho, por seu próprio sucesso, lhe causou uma recaída.
Desmoronou em um estado melancoliforme antes de encontrar sua
posição paranoica apoiada em sua missão educativa social. As peri
pécias de sua vida fazem com que a missão de educador da qual ele
se sentiu investido, e que constitui seu sinthoma, oscile. No caso dela
o abandonar, o sujeito torna-se vítima de fenômenos hipocondría
cos e de distúrbios de humor, sem que se tenha, por enquanto,
detectado perturbações da linguagem.
Exemplo 7: O caça-níquel
Um rapaz de vinte e dois anos de idade vem consultar um
analista há nove anos para se livrar de uma obsessão de jogo que o
arruinava. Fora iniciado no caça-níqueis por um irmão mais velho
87
após um episódio doloroso de sua adolescência. Agredido por um
colega do colégio em presença de um disciplinário, lera no olhar
deste que era um "maricas". Aos vinte e dois anos, a pedido de seu
pai, falecido pouco depois por conta de um alcoolismo patológico,
substituiu seu irmão à frente da loja paterna. Sua mãe era de uma
família rica e seu pai, de origem modesta, dedicara-se a fazer fruti
ficar o dinheiro de sua esposa, trabalhando como um escravo. O
paciente jogava e perdia dinheiro líquido de origem duvidosa que
sua mãe lhe dava. Devolvia à sua mãe uma parte do que ganhava na
loja, a fim de cobrir déficits obscuros. "Ser o caça-níqueis de sua mãe"
poderia ser a escrita de um sinthoma que constitui sua mãe como sua
parceira, permitindo-lhe suceder a seu pai. De fato, o caça-níqueis é
um aparelho que pega seu dinheiro e que, nos raros casos em que
você ganha, lhe devolve um pouco. Da mesma forma, o sujeito fazia
desaparecer nele o dinheiro "sujo" de sua mãe; depois, transforma
do ele mesmo em caça-níqueis vivo, produzia dinheiro "limpo" que
voltava a ser "sujo" e materno. Assim, estabelecia-se uma circulação
entre o dinheiro "limpo" do sujeito e o dinheiro "sujo" da mãe que
continuou funcionando depois que interrompeu o jogo. Um conta
dor sugeriu-lhe separar as contas e os circuitos em jogo, uma vez
que essas trocas beiravam à ilegalidade. Era necessário que ele reto
masse a loja em seu nome, já que até então era chamado de "o filho
de Nicole" (sua mãe) . Uma série de distúrbios corporais imputáveis
à <!>o apareceram então: placas de calor se deslocavam dentro de seu
corpo, suas veias se comprimiam. Convencido de estar acometido
por doença incurável e abatido por uma fraqueza sexual que via
refletir-se nos olhos de sua mulher, começou a tratar seu mal-estar
com máquinas de botjy building e um treinamento intensivo de power
training. Ideias insistentes de ciúmes começaram a persegui-lo. Por
enquanto, o analista não identificou perturbação de linguagem.
Outros casos evidenciaram momentos de decomposição
simbólica ou imaginária, quando o sinthoma, previamente construí
do pelo sujeito, ameaçava não mais poder se escrever. Esse sinthoma
88
pode, muitas vezes, ser apreendido por um conjunto de relações
constantes na vida do sujeito, como uma missão (exemplo 6), uma
relação dual (exemplo 7), ou uma relação implicando três termos ou
maiS.
11. INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CONCEIT018
O que é um desencadeamento para a psiquiatria clássica?
Haveria para ela outros desencadeamentos, além da paranoia?
A. Uma invenção de lacan
Na "Questão preliminar", o desencadeamento parece cor
responder a "esse mecanismo coerente das eclosões delirantes" que
Lacan almejava desde 1 931 19• Ele acrescentava a isso: uma causa aci
dental (o encontro de Um-pai) ; a dissolução de um elemento esta
bilizador (uma identificação); e a operatividade de uma causa espe
cífica (a foraclusão do significante paterno) . Algumas citações da
tese de Lacan fazem pensar que ele tomou emprestado o termo de
Kraepelin. De fato, seu equivalente germânico, Ausliisung, raro em
Kraepelin, mais frequente em Bleuler, designa em ambos o efeito de
uma causa acidental. Aliás, é nesse sentido que Lacan o usava em
sua tese para observar, por exemplo, a ação dos tóxicos, ou da emo
ção, ou da menopausa, na emergência de uma psicose.
Descobrimos que o desencadeamento, como conceito da
teoria analítica da psicose, é um termo lacaniano. Hoje, ele designa
correntemente o início clinico de uma psicose. Entretanto, está
ausente do glossário tradicional da psiquiatria francesa convidada,
desde Philippe Pinel, a aplicar à alienação mental o esquema médi
co e seu vocabulário. ''A marcha da loucura é ( . . . ) a mesma que a de
todas as outras doenças do corpo humano", escreve Georget, um
89
aluno de Pinel. E reconhecia nela pródromos, um tempo de incu
bação, um período de invasão, um estado de excitação - em que a
loucura está no summum de sua intensidade - e modos deresolução.
Nada de traços de desencadeamento, portanto, no corpus psiquiátri
co antes de Lacan.
B. Nos clássicos
Os psiquiatras se interessaram evidentemente pelo início
da doença mental. O início se inscreve na evolução, mas é em parte
ligado à causa. Isso permanece verdadeiro para o desencadeamen
to, em que se unem início clínico e foraclusão estrutural.
Dois modelos, que permitem estudar os diferentes inícios,
organizam, desde Pinel, o campo das doenças mentais: o dos con
juntos sintomáticos, constituído pela coleta dos signos manifestos,
e o das entidades clínicas, que procedem de causas subjacentes e
dependem das teorias causais elaboradas a seu propósitd0•
No cerne dessas classificações opera o binário das causas
predisponentes (ou endógenas, próprias do indivíduo) e das causas
determinantes (ou exógenas, acidentais), das quais se avalia a impor
tância respectiva. O esforço da psiquiatria para circunscrever cada
vez melhor as causas predisponentes, conduziu ao abandono das
classificações sintomáticas em proveito das classificações etiológi
cas, modificando ao mesmo tempo a questão do início da psicose.
1 . Para a psiquiatria dos conjuntos sintomáticos (Pinel e
seus alunos), a causa tem uma incidência sobre o inicio da doença.
O início está próximo da causa: um abalo moral poderoso determi
na uma explosão imediata do delírio. O início leva à causa: quando
a causa age mais lentamente, a eclosão do delírio é precedida por
um período de incubação insidioso que aproxima o clínico adverti
do da "fonte" da doença.
90
A facticidade dos agrupamentos de sintomas conduzirá
alguns praticantes a "deixar os doentes se mostrarem livremente", a
fim de melhor discernir os "tipos patológicos". Pouco a pouco,
impôs-se a eles regularidades evolutivas, tais como "o delírio de per
seguição" em três tempos (Lasegue), "o delírio de perseguição de
evolução sistemática" em quatro períodos O· Falret) , "a loucura de
dupla forma" e "a loucura circular" O· Baillarger e J.-P. Falret), que
pleiteavam um princípio organizador. Passava-se das classificações
sintomáticas aos "estados psíquicos tais como existem na nature
za". Mas, ao passo que Falret recusava-se a insistir sobre esse "grave
acidente" que é "a explosão do delírio" e desviava sua atenção para
o discreto período de incubação, Lasegue, ao contrário, privilegiava
a "floração" do período de estado, porque a considerava como o
melhor período de observação de um delírio de perseguição. Um
pensava que os pródromos da alienação mental eram muito próxi
mos dos signos da predisposição; o outro, que o delírio de persegui
ção não era "a exacerbação de uma forma natural".
2. Na psiquiatria das entidades, é a causa, hipotética, que
determina a �ncepção que se faz do início da psicose.
Degenerescência, constituição, processo mórbido, são causas que se
mostram de forma diferente no início das formas mórbidas que
foram construídas a partir delas.
a) A degenerescência (uma transformação patológica her
dada que atinge o tecido nervoso) imprime cedo sua marca na evo
lução da psicose: mais no corpo, para alguns; mais no intelecto, para
outros. Bénédict-Augustin Morei, o inventor dessa degenerescência
(1 857) , observa que os fenômenos hipocondríacos do período de
incubação, que vão das sensações indefiníveis e das cefalalgias ao
sofrimento geral, são apenas a acentuação dos "fenômenos neuro
páticos bizarros" precoces nos quais já se mostrava a predisposição.
Para Magnan, a degenerescência é responsável pela desordem súbi
ta de uma irrupção delirante, de um "delírio escancarado". O "delí-
91
rio dos degenerados" carrega a marca do desequihbrio psíquico
constitucional. O menor pretexto o faz eclodir, e ele pode desapa
recer como aparecera. O "delírio crônico", ao contrário, desenvol
ve-se em uma ordem determinada, de quatro períodos: o doente,
entregue as suas interpretações delirantes, fica inquieto no primeiro,
alucinado e perseguido no segundo, ambicioso no terceiro, demen
te no quarto.
O modo de entrada na psicose adquire um valor preditivo.
A acuidade do início faz esperar a curabilidade, uma instalação deli
rante lenta e progressiva anuncia a cronicidade. Para Kraepelin, que
havia isolado algumas entidades psiquiátricas ao final de uma longa
evolução, quando as mesmas doenças têm o mesmo estado termi
nal, o diagnóstico dos sintomas iniciais adquirem um valor prognós
tico considerável.
b) O lugar dado à constituição tem abordagens diversas. Se
a singularidade pessoal (persiinliche Eigenarf), isolada por Kraepelin
como o signo de uma predisposição, aparece aumentada na para
noia, a demência precoce só é raramente a amplificação de um traço
de singularidade observado na infância.
As psicoses constitucionais - que se opõem às psicoses aci
dentais - desenvolvem-se em um terreno preparado pela hereditarie
dade, mas também pela degenerescência, pelos acidentes da gravidez
e pelas doenças infantis (o indivíduo herda dele mesmo, dizia
Lasegue), e até mesmo pela educação. O peso da predisposição
reduz, às vezes, a nada, a parte das causas coadjuvantes na eclosão
psicótica. Um doente que, por uma constituição "paranoiana"
(Régis), recebeu no nascimento o germe da "loucura verdadeira",
pode desenvolver em um determinado momento, e à menor ocasião,
uma psicose sistematizada progressiva. E lembrar-nos-emos do
lugar concedido pelo mesmo Régis aos fenômenos hipocondríacos
no momento inaugural dessa psicose sistematizada (e alucinatória) .
Para Genil-Perrin, seria vão querer delimitar o período de
incubação de um delírio de interpretação, pois o doente, que "car-
92
rega seu delírio latente desde a mais tenra idade", não faz senão exa
gerar as suas tendências paranoicas constitucionais.
Nessas concepções organicistas, há uma continuidade
entre a causa e os efeitos, muitas vezes precoces, da doença mental:
a "propensão congênita da constituição" (Séglas) se prolonga na
doença e nela se lê precocemente, ora na desordem intelectual, ora
nos fenômenos corporais.
c) O processo mórbido na esquizofrenia designa, para
Bleuler, a afecção cerebral da qual depende a perda das associações.
Esse processo cria uma predisposição para reagir a causas ocasio
nais, que estão na origem de uma sintomatologia contingente. Esses
fatores ocasionais desencadeiam sintomas, mas não a doença, cuja
evolução, habitualmente insidiosa, pode permanecer muito tempo
assintomática. A anamnese dificilmente identifica se modificações
do caráter ou de outros fenômenos indicam o verdadeiro início ou
se elas pertencem à predisposição. Um episódio psicótico agudo se
confunde facilmente com a exacerbação de uma sintomatologia
antiga que passou despercebida. Ele indica, em todo caso, a esqui
zofrenia, e não a paranoia, que é um sistema de ideias delirantes
logicamente ligadas e que toma seu ponto de partida de falsas pre
missas.
C. Rupturas epistemológicas
O processo mórbido, como as outras causalidades orgâni
cas, concebe a entrada na doença como o efeito direto da causa pre
disponente.
O processo psíquico Qaspers) é, por outro lado, disrupti
vo; ele introduz na personalidade um elemento estrangeiro que a
modifica em definitivo. É um "enxerto parasitáriom\ um elemento
novo, heterogêneo, cuja expressão clínica é a experiência de signifi
cação pessoal (Neisser) . Parece, de fato, que é a distinção de Jaspers
93
entre os fenômenos ligados às relações de compreensão - em que
a causa e o efeito são contíguos -, e os fenômenos devidos ao hiato
da intrusão parasitária - em que a causa desenvolve efeitos irredu
tíveis à compreensão -, que conduziu Lacan a privilegiar, em 1 958,
um modo de entrada na psicose por um fenômeno agudo em que
se atesta a irrupção de uma causa.
Em sua tese de 1 932, centrada na entidade "paranoia", a
partir do caso Aimée, Lacan isola uma causa específica: a fixação
libidinal, que dá a chave do processo. Inclui essa psicose, por deten
ção (arrêl) dapersonalidade (fixação libidinal), nas psicoses paranoi
cas, contentando-se com uma enumeração das outras formas de
ps1cose.
Sua escolha pela paranoia testemunhava, no mínimo, seu
apego ao texto de Freud. Sabemos que Freud era pouco entusiasta
da esquizofrenia, ao passo que a paranoia respondia a sua teoria da
libido. Mas foram necessários Clérambault e seu "anideísmo", assim
como a teoria do significante, para que a ruptura inaugurada a par
tir de Jaspers fosse fundada teoricamente. Foi o triunfo do paradig
ma schreberiano.
D. O que há de novo?
Do lado da Associação Internacional de Psicanálise (IPA),
um sobrevoo incipiente na literatura mostra que a psicose não é
mais assunto de psicanalistas. Do lado dos psiquiatras, um novo
impulso, do qual a psicanálise está decididamente excluída, motiva
os defensores de uma corrente que se apoia em Kraepelin para uma
vasta pesquisa sobre as fases mais precoces da esquizofrenia22• Do
lado dos que seguem Lacan, desde o momento em que o conceito
de foraclusão rompeu definitivamente com a psiquiatria, a psicaná
lise das psicoses não cessa de suscitar novas elaborações.
94
Notas
*
Relatores: Genevieve Morel e Herbert Wachsberger
1 Parte I: redigida por Genevieve Morel.
2 LACAN, ]. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.581 .
3 Ibid., p.577.
4 LACAN, J. (1955-1956) "As imediações do buraco". In: O Seminário, livro 3: as
psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p.284, 349.
5 LACAN, ]. (19 58) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.577. No caso de
Schreber, em que "a elisão do falo" é trazida "para resolvê-la na hiância mortífe
ra do estágio do espelho". O laço entre <l>o e a imagem do corpo é frequente na
psicose.
6 LACAN, ]. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.564. "No
ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o Nome-do-Pai, pode pois
responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito
metafórico, provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica".
Ver também p.577, a discussão sobre a anterioridade de Po em relação a <l>o;
p.578 e 583, a relação dialética entre Po e <l>o; p.583-584, as conjunturas de
desencadeamento.
7 SCHREBER, D. P. (1905) Memórias de um doente dos nervos. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1984, capítulos 2 e 3: 1" Junho de 1 893, nomeação de Presidente
da Câmara do Tribunal de Apelação do Land de Dresden; zo) outubro 1 893,
"estalos" sobrenaturais; 3°) março 1 894, elaboração do "assassinato de almas".
8 Os exemplos são publicados in extenso no Hors-série n.3 dos Cahiers de Lille: ex.
2 de Vincent Calais, ex. 4 de Brigitte Duquesne e Emmanuel Fleury, ex. 5 de
Carine Decool, ex. 6 de Brigitte Lemonnier, ex. 7 de Philippe Bouillot.
9 SCHREBER, D. P., Op. cit., p.44.
1 0 STOLLER, R. ]. Masculin ouféminin? Paris: PUF, Le ftl rouge, 1989, p.44-45.
1 1 MOREL, G. "Identifications et sexuation", La Cause freudienne, n.37, outubro
de 1 997, p.72 para o caso de Ives; "Un cas de transvestisme féminin", La Cause
freudienne, n.30, maio 1 995, p.20 para o caso de Ven.
1 2 N.R.: o verbo "prendre" em francês tem, igualmente, o sentido de "tomar ou
pegar sexualmente" quando referido a uma mulher.
95
1 3 Inspiramo-nos em F. Jullien para opor a "variação" (evolução contínua) e a
diferença ligada à descontinuidade significante. Un sage est sans idée. Paris: Seuil,
1998, p. 1 82 e 212.
14 LACAN,J. (1973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.466. Assim, uma frase coloca em série "a irrupção de Um-pai" e
"o efeito de empuxo-à-mulher". Mas, em "Questão preliminar", a frase "esse
outro abismo foi formado pelo simples efeito no imaginário pelo apelo vão feito
no simbólico à metáfora paterna?", mostra que, desde 1 958, Lacan considerava
entradas na psicose do tipo "Um-pai ---+ <1>0" (cf. A).
1 5 LACAN, J. (1 975-1976) "Do uso lógico do sinthoma ou Freud com Joyce" e
"Joyce e as falas impostas". In: O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2007, p.21 e 91 .
1 6 HENY, H., JO�IBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 997) Os Casos Raros,
Inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo:
Biblioteca Freudiana Brasileira, 1 998, p.1 09, 1 1 7 e 1 06.
17 LACAN, J. (1946) "Formulações sobre a causalidade psíquica". In: Escritos. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p. 18 1 e 1 85. Em certos casos, poder-se-ia
talvez reintroduzir o termo "momento fecundo".
1 8 Parte 11: redigida por Hcrbert Wachsberger.
1 9 LACAN,J. "Structure des psychoses paranoi'aques", LA Semaine des Hópitaux de
Paris, n. 1 4, 1931 . Retomado em Ornicar? n.44, 1988, p.5- 18.
20 HACKING, I. L'âme réécrite. Étude sur la personnalité multiple et les
sciences de la mémoire (1995), traduzido do inglês por Julie Brumberg
Chaumont e Bertrand Revol, com a colaboração de André Leblanc e de
Christophe Dabitch, Institut Synthélabo para o progresso do conhecimento, Le
Plessis-Robinson, 1998.
2 1 JASPERS, K. "Eifersuchtswahn", Zeitschrift der gesamten Neurologie und
P.rychiatrie, 1910, 1 : 567-637. Citado por Lacan em sua tese, p.1 44.
22 Ver a Schizophrenia Bulletin, 1996, volume 22, n.2: Ear!J Detection and Intervention
in S chizophrenia.
96
A NEO C ONVERSÃO
Seção Clínica de Bordeaux*
USOS DO CORPO E SINTOMAS
Foi no curso de Jacques-Alain Miller de 1 987-1 988, Ce qui
fait insigne1 , que a Seção Clínica de Bordeaux, criada dois anos
depois, se inspirou para considerar em seus ensinamentos e em seus
trabalhos a dimensão fora do discurso do sintoma. Interessou-nos
"a referência à insígnia Joyce, manejando a letra fora dos efeitos de
significado, com fins de gozo purom. A partir daí, há um interesse
sempre renovado tanto pelas psicoses clássicas quanto pelas psico
ses não desencadeadas: era preciso atualizar a estrutura, extrair dela
a sua lógica. O resultado foi que essa parte do ensinamento de
Lacan, por mais teórica e até mesmo literária que pareça, não se
mostra menos clínica.
O diagnóstico de histeria, no discurso corrente, repousa
frequentemente em alguns sintomas típicos: acometimento de uma
função, teatralismo, aversão na relação com o objeto, prevalência
dos atos sobre o discurso.
Freud opõe em seu artigo princeps sobre "O sentido dos
sintomas"3, sintomas típicos e sintomas individuais: "Se for possível
obter uma explicação satisfatória do sentido dos sintomas neuróti
cos individuais à luz dos fatos e acontecimentos vividos pelo doen
te, nossa arte não é suficiente para encontrar o sentido dos sinto
mas típicos, muito mais frequentes".
Se os sintomas individuais têm uma relação com a história
do paciente e os acontecimentos vividos, "os sintomas típicos
podem ser remetidos a acontecimentos igualmente típicos, isto é,
99
comuns a todos os homens". Mas o questionamento radical de
Lacan, a partir dos anos 1 970, vai acentuar mais o real incluído no
sintoma do que seu sentido. Essa "reviravolta", assim produzida,
abala a concepção de "sintomas típicos".
A conversão é um sintoma que se inscreve no rúvel do
corpo, como decifrável pelo saber inconsciente. É conhecida por
tornar-se cada vez mais rara na clínica das neuroses. Por outro lado,
os fenômenos de corpo que são susceptíveis de ressoar com a lin
guagem e de modificação pela palavra, se multiplicam.
Apresentamos aqui alguns casos com sintomas típicos, em
que o corpo é concernido de maneira diferente e original.
No caso n. 1 , Sylvie, trata-se de um uso do corpo que visa
inscrever um gozo que não pode ser decifrado. Os laços desse uso
do corpo com o sintoma, a função da letra e da escrita, são aí estu
dados.
No caso n. 2, da senhorita Anna, evidencia-seum uso dife
rente do corpo que coloca em jogo um manejo da imagem, que não
é sem relação com a conversão, mas que dela se difere fundamen
talmente. O sintoma de corpo é aqui um ciframento que não pode
se situar em relação ao deciframento inconsciente, mas apoia-se na
1magem.
No caso n. 3, Murielle, a dor é, de alguma forma, o ponto
de origem de uma prótese corporal real que faz suplência à psicose.
A dor real é a premissa desse aparelhamento do gozo.
Enfim, a pequena nota sobre a oposição Fenômeno
Psicossomático (FPS)/Conversão, mostra o papel prevalente da sig
nificação fálica, ausente aqui e presente ali, para "fixar" o modo e a
própria possibilidade de "leitura" do sintoma.
Se é necessário um corpo para apresentar um sintoma de
conversão, vê-se aqui que uma neoconversão pode permitir a um
sujeito se fazer um corpo a partir de seu sintoma. A questão será,
então, a que tipo de tratamento pela palavra essas neoconversões se
articulam.
100
I . FAZER-SE UM NOME - FAZER-SE UM CORPO
Quando é internada pela primeira vez aos vinte e oito
anos, Sylvie já tem um longo passado de tentativas de suicídio e de
marcas feitas em seu corpo.
Fazer-se um corpo
Esses distúrbios apareceram quando tinha quinze anos e
persistem por períodos aproximados: Sylvie escarifica o rosto e os
antebraços com lâminas de barbear. Às vezes também engole doses
maciças de comprimidos. Não tem nada a dizer a respeito disso e
não sabe por que o faz. Sylvie não consegue pensar nada sobre esse
assunto. Pode apenas trazer alguns detalhes sobre as circunstâncias
de desencadeamento das primeiras passagens ao ato: acabara de ser
reprovada em um exame de admissão e um garoto de sua classe
zombava dela e repetia que ela era um zero a esquerda (nulleJ. "Isso
se tornara insuportável".
Sylvie continuou, contudo, seus estudos e conseguiu um
diploma universitário. Foi esse o momento da primeira internação,
em razão da violência da passagem ao ato e dos riscos que ela corria.
Durante o período de internação, no final de alguns meses,
as mesmas sequências se reproduzem. Quando passa ao lado de um
grupo, se as pessoas riem, sente que zombam dela e essa certeza
desencadeia a mesma resposta: marcas feitas com lâmina de barbear
nas faces, diante de um espelho, desenhando uma espécie de máscara,
com traços oblíquos, sempre a mesma. Faz isso "para ver o sangue
escorrer, para que o mal saia". Experimenta então um alívio muito
nítido de uma angústia que descreve como intolerável. Pode então se
olhar e suportar o olhar dos outros: ela tem um corpo, é o seu corpo.
As outras conjunturas do desencadeamento são essencialmente liga
das a sua confrontação com o "trabalho", que ela busca e teme.
101
Depois de circunstâncias particulares, Sylvie coloca um
termo às internações e pede um analista. O tratamento medicamen
toso continua.
A transferência e as cartas
O movimento que então se operou sob transferência é
muito interessante. Ele pode ser esclarecido pela última parte do
ensinamento de Lacan sobre o sintoma e a questão do sinthomd'.
Desde os primeiros encontros, Sylvie traz cadernos, alguns
datando de mais de dez anos, outros recentes, escritos durante sua
internação. Adquirira o hábito de anotar seus pensamentos e tam
bém o que fazia, os livros que lia. Era uma espécie de diário.
Logo depois, Sylvie passa a enviar cartas a seu analista,
demonstrando uma conotação erotomaníaca da transferência: '54mo
você" se alterna com "Odeio você porque você me despreza) vou me suicidafj
não virei maisn. Sylvie vem sempre a suas sessões - não faltou a
nenhuma em dez anos. Certifica-se simplesmente de que suas car
tas sejam efetivamente recebidas.
Um verdadeiro roteiro preside a escrita dessas cartas.
Todos os dias, Sylvie se levanta às sete horas e vai tomar seu café da
manhã em uma cafeteria da cidade. Instala-se lá, sempre na mesma
mesa, diante de um espelho, olha-se, acende um cigarro e escreve.
Há um detalhe complementar: ela mesma coloca suas cartas no cor
reio; sente uma grande angústia antes de largar a carta na fenda da
caixa e, quando consegue se decidir, obtém um alívio de sua angús
tia. Esse alívio obtido é idêntico ao que, anteriormente, seguia o
corte na pele. É o ponto crucial: o efeito de cessão da carta pode
ser assimilado a uma cessão de gozo e tem como correlato a seda
ção da angústia.
As escarificações do rosto, desde esse episódio agora anti
go, nunca mais se reproduzem. Ali onde havia um corte marcando
diretamente a pele e o próprio corpo do sujeito, apresenta-se um
102
fenômeno de duas vertentes: por um lado, imaginária, sob a forma
da imagem no espelho, que deve estar presente; por outro lado, sim
bólica, pela escrita da carta.
O que permitiu esse movimento? É a própria transferên
cia delirante que autoriza outra entrada em jogo do real nesse caso
particular. O analista ocupa aqui o lugar do Outro real, real no sen
tido do que volta sempre ao mesmo lugar, lugar em torno do qual
ela faz girar seu uso do tempo, seus deslocamentos, até mesmo suas
viagens e a rede de amigos.
Nos últimos anos de seu ensino, Lacan isola o real como
o que permite enodar simbólico e imaginário. A transferência per
mite esse enodamento tornando caduca a necessidade das passa
gens ao ato.
Com a entrada na transferência, assistimos a uma substi
tuição: a transferência permite que não seja mais o masoquismo
como tal o que opera esse nó, mas é a transferência como real que
vem efetuar essa operação. A introdução do Outro real da transfe
rência abre uma outra possibilidade diferente da repetição da passa
gem ao ato.
É preciso retomar aqui um ponto, desenvolvido por
Jacques-Alain Miller em seu curso de 1 987-88, C e qui fait insigne.
Existem, a partir do significante S1, duas vias. Uma é a via simbóli
ca propriamente dita, com a série: palavra, discurso, saber, incons
ciente. A outra é a via do real, que é também a da letra, fundamen
talmente não interpretável. É nessa segunda vertente, fora do efei
to de significação, fora da elaboração de saber, fora do discurso, que
se situa o tratamento de Sylvie. Ela não suporta tomar minimamen
te a palavra, nem a menor significação.
Ela se diz incapaz de falar, de pensar, de refletir, e se sente
perseguida pelo menor comentário. Progressivamente, o envio de
cartas para. Inaugura-se então o segundo momento do tratamento.
103
Fazer-se um nome
Ela vai, então, encontrar outra solução para "apoiar seu
pensamento": retoma a redação de seu diário. Esse diário - um
caderno de notas - é trazido por ela a cada sessão. A sessão propria
mente dita consiste na leitura declamatória do que escreveu.
Contudo, esse diário é profundamente diferente do que era antes do
tratamento: é preciso distinguir um diário n. 1 , escrito antes do tra
tamento, e um diário n. 2, escrito após o início do tratamento. No
diário n. 2, cada texto, redigido em forma de cartas, é emoldurado
por dois nomes próprios: o do destinatário das cartas e o seu.
Isso quer dizer que o diário inclui o endereçamento ao
Outro e a função do nome próprio. ''A característica do nome pró
prio está sempre associada à sua ligação com uma escrita". A escri
ta hieroglífica emoldurava os nomes próprios com um cartucho. No
caso de Sylvie, o nome próprio é o próprio cartucho. Pode-se esta
belecer uma relação com a prática da escrita de Joyce, ressaltada por
Lacan6: cada capítulo de Ulisses é apoiado por um certo tipo de mol
dura, ligado ao próprio estofo do conteúdo.
Eis seu sintoma atual: a escrita lhe permite religar uma
letra a um nome próprio. Aí está sua pequena invenção: uma escri
ta como "fazer que dá apoio ao seu pensamento".
Sylvie passou a uma escrita outra (autre) - com um peque
no a - , que inclui, circunscreve um gozo, um sinthoma que reúne
sintoma e fantasia. Além disso, assim bordejada pela escrita, a ses
são recitativa é possível, suportável, sem que o ato de tomar a pala
vra remeta o sujeito a um puro risco, semlimite.
Algumas observações da relação de Joyce com seu corpo
ressoam com as passagens ao ato de Sylvie em seu rosto. A ausên
cia de afeto com relação à dor e à violência, uma certa aversão pelo
saco de pele. Mas, para o ego de Sylvie, os espelhos são sempre neces
sários: olha-se neles com frequência. (j'e os tirassem de mim, eu teria
uma crise do espelho'� diz ironicamente. Sylvie se separa de um gozo
1 04
incluso no corpo, pela criação de seus cadernos de notas, verdadei
ro fora-do-corpo que concentra e circunscreve o gozo a mais. Mas,
se esses escritos se enodam à imagem especular, é preciso, contudo,
que Sylvie dê voz na sessão, para que a cessão dessa carta, o seu
depósito, se opere e se constitua também um laço com o Outro,
diferente do seu corpo. Uma nota biográfica toma aqui seu valor: o
grande homem da família de Sylvie é o avô materno, herói nacional,
que ela não conheceu. Contudo, sempre ouviu contar que, no
momento de seu enterro, as maiores personagens do Estado deslo
caram-se para ler, no cemitério, seu panegírico.
1 1 . SENHORITA ANNA E O DISCURSO IMITATIVO
A senhorita Anna procura uma consulta devido a crises de
angústia aguda com choros, acompanhadas, às vezes, de desmaios.
A. Uma moça bem comportada
Ela se apresenta com um ar de eterna mocinha recatada e
ligeiramente antiquada. Na verdade, a senhorita Anna fez estudos
superiores com sucesso, fala várias línguas, o que torna muito estra
nha a sua apresentação. Nunca exerceu atividade profissional nor
mal, apesar de numerosas tentativas de inserção social.
Fala com afetação, como uma garotinha, e evoca seus con
flitos de infância com seus irmãos, pelos quais experimenta uma
profunda afeição. Preocupava-se, em particular, com que eles não
apanhassem do pai severo e fazia tudo para defendê-los.
O avô paterno, oriundo de uma excelente família, fizera
maus negócios e a avó paterna, tendo perdido a visão, não podia
sustentar seu filho. Assim, o pai de Anna foi confiado, ainda crian
ça, à assistência pública, e as relações familiares foram totalmente
interrompidas.
105
A senhorita Anna é muito apegada ao passado glorioso de
sua família, sobre a qual fez numerosas pesquisas históricas e genea
lógicas. Interessa-se pelas grandes famílias e pelo papel destas na
história. Interessa-se também pelo aspecto misterioso do abandono
do qual seu pai foi objeto.
B. Crises passionais
Rapidamente, a paciente evoca a severidade desse pai e
chega à ideia de que ele teria exercido uma sedução violenta sobre
ela, o que parece ser, ao que tudo indica, uma versão delirante do
Édipo. É nesse momento que começa a acompanhar seu discurso
com gestos, evocando as atitudes teatrais e passionais descritas por
Charcot na histeria.
Esconde o rosto, torce as mãos, imitando as brigas com
seus irmãos menores que lhe torciam os dedos, empurra um agres
sor fictício. Rapidamente, seus gestos vão se separar de seu discur
so. Embora ela possa muito bem traduzi-los nos significantes de
sua história, não se pode dizer que os decifre. Muito ao contrário,
essas estereotipias gestuais resumem a "gesta" de uma história
petrificada em sua encenação. Simula um discurso sem palavras,
que não é mais a ilustração do que ela pode dizer. Esses gestos tra
duzem uma violência punitiva centrada nela mesma (ao se estapear,
por exemplo) .
C. O olhar da ancestral
Ela evoca, então, a figura misteriosa de sua avó paterna
cega e, imediatamente, as cenas imitadas vão figurar o fato de que
ela fura os próprios olhos. Isso vai constituir uma virada no trata
mento. Desenvolve, então, uma transferência erotomaníaca típica
que confirma sua psicose e passa por um período depressivo evo
cando ideias de suicídio e de danações delirantes.
106
Uma lembrança de infância lhe retoma: um ftlme que a
apavorava terrivelmente. Nele, uma moça tem seu rosto destruído
pelo fogo em um acidente, restando-lhe somente os olhos. Seu pai,
um cirurgião, assassinava moças para retirar seus rostos e enxertá
los no de sua filha. Assim se opõe o olhar morto da avó e o rosto
providenciado pelo pai que vem emoldurá-lo.
A senhorita Anna vai, então, durante o tempo das sessões,
imitar os gestos de um cirurgião praticando essa operação, dese
nhando um rosto sobre seu rosto. E isso, qualquer que seja o dis
curso que mantenha. A linguagem sem fala vem de alguma forma
encarnar um complexo, separado do discurso articulado nas falas.
Esses gestos só aparecem nas sessões; em sua vida cotidiana, são
apenas esboçados de forma imperceptível.
Sua construção imitativa e silenciosa é, ela mesma, uma
espécie de véu enxertado que faz existir, para além do que ela dá a
ver, o objeto olhar como ausente. A cena faz dela um quadro vivo
que doma o olhar do Outro.
Esse nó sintomático na esfera gestual vai pacificar o
humor e o delírio. O estado da senhorita Anna melhora. As tempes
tades transferenciais ligadas à erotomania atenuam-se.
A senhorita Anna pode, a partir daí, exercer uma atividade
profissional que consiste em mostrar quadros (pinturas) às pessoas.
D. Conversão e usos do corpo
Bleuler observara, em 19 1 1 7, que os complexos sintomáti
cos catatônicos eram particularmente clivados na esquizofrenia. O
paciente funciona como um terceiro em relação a gestos automáti
cos que lhe parecem estranhos. Nas estereotipias, os complexos não
são clivados, mas permanentemente presentes: ''A solteirona que
imita o movimento de um sapateiro amou um deles por mais de
trinta anos. Aquela que está se balançando conheceu seu amado
durante uma quadrilha".
107
Esse caso da senhorita Anna difere do que traz Freud no
fim de seu artigo sobre "O inconsciente"8, isto é, casos de lingua
gem de órgãos, em que a linguagem se passa no corpo: alguém
que deve "mudar de posição" se vê impelido a mudar seu corpo
de lugar. São fenômenos que Freud distingue das conversões na
neurose.
Ora, a senhorita Anna não traduz seu sintoma, que fica no
registro visual. E se pode comentá-lo, observamos que o essencial
para ela se situa em uma cena, mais do que na literalidade de uma
palavra. É como se o discurso verbal se apoiasse sobre a mímica
silenciosa que lhe restituísse uma enunciação. Freud, no mesmo
artigo, ressalta que os pacientes esquizofrênicos compensam o
desinvestimento dos objetos pelo superinvestimento das palavras,
como se a palavra permitisse ser substituída pela coisa. A cena da
senhorita Anna é, de fato, um meio de reencontrar a função do
objeto pelo viés de um uso original de sua imagem. Essa cena cons
titui um enodamento sintomático, já que reúne um pedaço simbóli
co de sua história, a imagem de seu corpo que se presta a dar corpo
a essa história e o real não simbolizável do olhar de sua avó. Se, na
conversão, o corpo serve de suporte aos significantes recalcados do
sujeito, aqui é a imagem da cena imitada que restitui um corpo à
paciente. O que constitui esse corpo é a imagem e o pequeno rela
to que o anima. Ele serve de égide à paciente para entrar no discur
so e, a partir daí, na vida. Como Jacques-Alain Miller ressaltou, em
seu curso de 1 1 de junho de 1 9979, há duas coisas com as quais nos
embaraçamos: o imaginário (sua imagem, portanto) e o real. O uso
do sintoma consiste em aprendermos, a partir daí, a nos virar com
o destino que nos preparam os discursos que nos precederam; é o
que faz a senhorita Anna no tratamento. Ela usa o que a embaraça
para converter as palavras discordantes de sua história familiar em
uma "cena de família" reduzida e aceitável.
108
UI. CONVERSÃO
Murielle é uma moça de vinte anos que foi encaminhada a
um serviço de psiquiatria com um diagnóstico que hesitava entre
uma etiologia orgânica e uma conversão histérica. Na carta de
admissão, pode-se ler o seguinte: "Apresentou artralgias dos punhos
e calcanhares, de ritmo inflamatório, causando intensas queixas . . . O
desencadeamento é brutal: em plena noite, apresentou dores inten
sas nas quatro extremidades, semdeformação, sem aumento de
calor local; chamou várias vezes os médicos de plantão nas noites
seguintes, depois acabou sendo internada para um check-up orgânico
que se verificou negativo".
O diagnóstico de conversão histérica é então colocado
"em relação com a labilidade emocional e o teatralismo no quadro
de uma depressão".
A. Quero sarar
No momento de sua entrada no serviço médico, pede
imediatamente uma cadeira de rodas para se deslocar. Com
nossa ajuda, termina descendo muito lentamente da ambulância
e leva cinco minutos percorrendo a pé os vinte metros que a
separam do consultório médico. Seu sofrimento é aparentemen
te muito grande, mas, de imediato, anuncia: "Quero sarar". O
diagnóstico de estrutura deve, portanto, ser estabelecido o mais
cedo possível.
Entrevistas densas e uma investigação difícil, no período
de mais de uma semana, vão, no final das contas, levar a recusar o
diagnóstico presumido de conversão histérica e a orientá-lo para
uma hipocondria, isto é, um retorno de gozo no corpo, situado no
quadro de uma estrutura psicótica de tipo paranoica.
As entrevistas são difíceis, pois Murielle está totalmente
presa em seu sofrimento e é preciso, a cada vez, tirá-la desse ema-
109
ranhado para poder levá-la a dizer algumas palavras sobre o que
pôde causar o desencadeamento desse episódio. Nos primeiros dias,
diante da eritrodermia que apresenta, da leve febrícula e da ampli
tude de seu sofrimento, uma consulta é solicitada a um especialista
em processos inflamatórios para afastar qualquer síndrome orgâni
ca rara que pudesse ter escapado. Qualquer processo orgânico é
então definitivamente eliminado.
B. O desencadeamento do episódio: o outro paterno
Pouco a pouco, Murielle aceita falar de sua história e dos
acontecimentos recentes, mas seu discurso é constantemente inter
rompido por queixas, até mesmo gritos de sofrimento.
Apesar de ser muito boa aluna, foi reprovada por poucos
pontos, alguns meses antes, no exame para obtenção do diploma de
turismo. Na volta às aulas, 'Jõi o abismo, eu não tinha mais nada". Acaba
dizendo que o diploma de turismo representava para ela um ideal:
ser aeromoça. Ideal que parece, agora, completamente abandonado,
na opinião dessa jovem com aparência de criança comportada pré
púbere e que nunca pôde se distanciar de seus pais. Um primeiro
apoio imaginário desmoronava.
Detivemo-nos em seguida, nas entrevistas, em precisar o
estatuto do forte laço que mantinha com seu pai, para finalmente
afastar o que poderia ser tomado como uma fixação edipiana ao pai,
ao amor do pai ao modo histérico. O que aparece, então, é que ela
se encontrava presa a uma identificação especular ao pai, despren
dida de qualquer estruturação ternária simbólica, vindo se colocar
no lugar da estrutura edipiana que falhou.
Pouco antes do desencadeamento do episódio, seu pai foi
internado, pela primeira vez, para uma intervenção cirúrgica. Esse
enfraquecimento do pai é para ela insuportável: ((Fiquei transtornada,
chocada; quando fui ver meu pai no hospita� ele acabara de acordar; parecia
muito mais velho e sofria muito".
1 1 0
Alguns dias mais tarde, depois de ter se ausentado, encon
tra seu pai de novo em um grande sofrimento e ele é internado
novamente.
Os "sintomas" de Murielle começam na noite seguinte.
No dia do aniversário de seu pai, alguns dias mais tarde,
suas dores chegam ao paroxismo e é a sua vez de ser internada no
serviço médico.
Observamos que nos primeiros dias de sua internação,
toda vez que lhe faziam perguntas sobre seu pai, contorcia-se de
dor; ela mesma acabou constatando essa ligação imediata entre a
evocação do pai e suas crises paroxísticas.
Não deixamos de notar essa colagem identificatória e a
importância que tomou para ela a deterioração da imagem desse
pai e seu sofrimento, quando vai vê-lo no hospital. O pai que pas
sou toda sua infância, desde seu nascimento até a idade de treze
anos, em famílias de adoção, sofre há muitos anos de crises de
"espasmofilia" durante as quais fica oprimido, treme, chora e pre
cisa se deitar.
Pode-se pensar que a estruturação edipiana desse homem
foi, no mínimo, conturbada, o que não é sem ligação com a relação
de grande proximidade que mantém com sua ftlha: eles têm, aliás,
sempre funcionado em sintonia, o humor de um, seguindo o humor
do outro.
Murielle é, então, levada a desvelar "a história" de sua esco
liose. Aos onze anos, um médico escolar descobre uma escoliose que
requer o uso de um colete. O pai é acometido de uma escoliose com
deformação. Uma irmã mais velha foi operada de escoliose.
Dos onze aos dezoito anos, Murielle usou um colete todas
as noites: o colete é composto por duas conchas de gesso fixadas
entre elas e renovadas a cada dois meses. É o pai que, todas as noi
tes, "a coloca" em seu colete e amarra nas costas os cadarços que o
mantém. Seu corpo é, portanto, mantido em uma concha; só os
membros ficam livres.
1 1 1
Aos dezoito anos, é tomada uma decisão médica para tirar
definitivamente o colete de gesso. Ela suporta mal essa decisão: "Eu
me sentia mais apoiada'� diz ela.
C. Uma mobilidade de gozo
Três meses depois da retirada do colete, Murielle apresen
ta um episódio de interpretação persecutória.
Começa então seu curso de turismo. No dia de uma prova,
"uma garota disse que eu tinha colado; eu tinha só levantado a minha pasta
para pegar umas folha� ela achou que eu estava lendo as anotações . . . A partir
desse dia, todo mundo se afastou de mim na sala de aula, ninguém mais fala
va comigo; no dia seguinte, quando entrei na sala de aula, ouvi comentários,
cochichos: "olhe, é ela". Não havia mais ninguém do meu lado. Todo mundo
acreditou nela. Eu deixei para lá. Eles me rejeitaram o resto do ano".
No ano seguinte, época em que morava sozinha em um
pequeno apartamento durante o período escolar, seu pai foi buscá
la para as férias: ''Quando voltei de férias, minha bicicleta havia desapareci
do. Havia um código para abrir a garagem, pensei que tinham me espionado.
Algumas vezes quando eu passava no ponto de ônibus, havia uns homens que
conversavam no ponto, mas não pegavam o ônibus . . . Não é normal conversar
em um ponto de ônibus sem entrar no ônibus.. . Eles observavam as pessoas.
Pensei que estavam me vigiando e tinha medo, sozinha no meu quarto".
No momento dos resultados do exame final, três meses
antes do episódio que a levou para a clínica, manifestara ainda
alguns elementos interpretativos: "Houve o exame, não consegui passar,
eu tirei 9,8 em 20. Pedi revisão de prova, não havia praticamente nenhuma
correção, riscos, nenhuma explicação. Não quis repetir o ano porque, o que
teriam pensado de mim? A diretora tinha dito: 'há alguns que têm um histó
rico ruim e que conseguirão o diploma, outros que têm um bom histórico e não
conseguirão '". Seu discurso permanece alusivo, mas sua interpretação
é precisa: ela foi vítima de uma injustiça, e a diretora é a causa do
seu fracasso.
1 1 2
Observamos assim, no decorrer de nossas entrevistas com
Murielle, que ela é visada pelo Outro, e em particular pelo olhar,
desde a infância. Precisemos que alguns elementos persecutórios
teriam passado completamente despercebidos se as entrevistas não
tivessem sido guiada:s, por meio de um trabalho de poda, para o des
velamento pelo sujeito de sua tendência interpretativa.
Em quais referências teóricas do ensino de Lacan nos
apoiamos?
Parece que, para Murielle, o nó triangular é defeituoso. A
questão nunca é referida ao casal parenta!. Ela permanece às voltas
com o laço dual com o pai, em espelho. O gozo, por esse fato, não
é separado nem do Outro nem do corpo, e oscila entre um e outro.
Foi o pai que, "na realidade", se esforçou, mediante atos
cotidianos repetidos, para lhe "fazer um corpo", pela aparelhagem
do colete. Assim, por meio da construção desse corpo-concha, o
gozo fica contido, o que não acontece sem dor.
Não é evidente que um sujeito se atribuaum corpo. Murielle
nos indica isso mais de uma maneira. Aos quinze anos, apesar de sua
"prótese" corporal, ela perde, em alguns meses, mais de dez quilos,
que recupera muito rapidamente sem que ela nem sua família possam
desvendar a causa. Vê-se muito frequentemente isso na psicose de
adolescentes, como se o corpo não concernisse ao sujeito.
Desde que o corpo de Murielle deixou de ser contido pelo
colete, surgiu, então, uma série interpretativa. O gozo, que não é
mais circunscrito pelo colete, encontrou uma nova localização no
Outro e, mais precisamente, no olhar do Outro.
Em um segundo tempo, no momento do desencadeamen
to do episódio que a levou à internação, ocorre o desmoronamen
to de seus dois apoios imaginários: o ideal profissional (aeromoça)
e a doença do pai, provocando uma nova invasão de gozo, mas,
desta vez, com um retorno no corpo. Observamos, aliás, que esse
retorno se opera fora do espaço corporal antes contido pelo colete
(os quatro membros) .
1 1 3
É interessante observar, neste caso, essa mobilidade do
gozo que passa do corpo aparelhado, com seu cortejo de sofrimen
to, à interpretação delirante do olhar do Outro e, em seguida, retor
na no corpo pelo viés da hipocondria.
Murielle se faz um corpo doente, em espelho com o corpo
doente do pai, em uma identificação imediata e não dialetizada. É
por isso que não se pode confundir hipocondria com conversão
histérica. Nesta, é o inconsciente que fala por meio do corpo, com
toda a dialética simbólica da constituição do sintoma.
IV. CONVERSÃO H ISTÉRICA E FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO
A distinção entre sintoma de conversão histérica e fenôme
no psicossomático (FPS) não coloca, a priori, nenhuma dificuldade.
A conversão histérica é a prova viva de que o corpo não se
confunde com a anatomia e que sua imersão na linguagem o mor
tifica e o erotiza, ao mesmo tempo.
O FPS prova, ao contrário, que um curto-circuito do sim
bólico, uma evasiva quanto à estrutura da linguagem, não é sem
consequência anatômica, sem consequência para a realidade do
corpo.
Essa oposição demanda ser relativizada, contudo, conside
rando que nos dois casos o sujeito está concernido, tanto no nível
do seu desejo quanto do seu ser de gozo.
A. A conversão freudiana
Vejamos primeiramente como Freud concebeu a conver
são histérica. Teorizando, em 1 896, a conversão histérica como o
efeito de um processo de defesa diante de um excedente sexual
incompatível, Freud a distinguiu da "conversão" linguageira do
corpo que anima todo ser falante. A conversão histérica não é o
1 14
resultado de um efeito de linguagem, de uma sugestão hipnótica,
mas um modo de resposta complexa do sujeito a um resto não tra
duzido do sexual, em conexão com uma representação e um afeto.
A defesa, via recalque, tenta transpor e fixar esse resto no corpo de
uma forma figurada. Esse "salto do psiquismo à inervação somática'�
como Freud o designa em seu prefácio ao 'Homem dos ratos'� esca
pou à sua conceitualização enquanto ele não esclareceu o papel da
pulsão. Em relação a isso, o artigo de 1 91 0, ''A concepção psicana
litica da perturbação psicogênica da visão", é decisivo. Freud
demonstra nesse texto como a conversão histérica testemunha a
interferência da significação da pulsão (die Bedeutung der Triebe) na
vida da representação (Vorstellungsleben) .
A conversão apenas em aparência escapa à exigência pul
sional. Ela é, na realidade, a colocação em ato de uma satisfação pul
sional clandestina que se opera apesar dos ideais do eu. Isso está
ligado ao fracasso do recalcamento que, longe de refrear a ativida
de pulsional, somente a favorece, repelindo-a cada vez mais para o
inconsciente, onde encontra todas as condições para persistir e pro
liferar.
O reforço da pulsão ligado ao fracasso do recalque prefi
gura o paradoxo do supereu. Em relação a isso, o caso da conver
são histérica de órgãos é significativo. Quálquer órgão dos sentidos
tem uma dupla função, a de manter a vida e a de desempenhar um
papel erógeno; o órgão serve às pulsões do eu e às pulsões sexuais.
Ora, "não é fácil servir a dois senhores ao mesmo tempo", nos diz Freud.
Quanto mais a erogeneidade do órgão é reprimida, mais sua ativi
dade pulsional cresce no inconsciente. Se um vqyeur histérico fica
cego de tanto olhar, sua cegueira demonstra um gozo escópico exa
cerbado.
No fim de seu artigo, Freud se interroga sobre as conse
quências desse gozo do órgão. Considera a possibilidade de uma
alteração orgânica decorrente da ''intensificação da significação erógena"
(der gesteigerten erogenen BedeutuniJ. Tais sintomas, que ele qualifica de
1 1 5
"neuróticos", são desconhecidos tanto porque não são diretamente
acessíveis à psicanálise quanto porque os clínicos se enganam ao
deixar de lado o ponto de vista da sexualidade.
B. Superpulsão
Freud emite a hipótese segundo a qual certas condições
particulares deveriam estar presentes, de início, para que houvesse
"um exagero do papel erógeno do órgão". A tradução para o português,
"exagero do papel erógeno do órgão", não traduz fielmente o
termo freudiano Übertreibung, literalmente "superpulsão, superativi
dade pulsional". Esse Übertreibung do órgão é ainda o que Freud
chama somatisches Entgegenkommen do órgão, literalmente "encontro
somático do órgão", que é traduzido geralmente por "complacên
cia somática do órgão".
Colocar o Ü berlreibung como um denominador comum
constitui, certamente, um avanço, mas não explica por que um sujei
to fará uma conversão histérica e não uma doença orgânica.
Ao situar o FPS em relação à estrutura de linguagem,
Lacan aparta um novo esclarecimento concernente à clínica dife
rencial dessas duas manifestações somáticas.
Afirmando a significação do falo como a ação e a paixão
do significante no corpo, assim mortificado em seu gozo, Lacan nos
permite situar a conversão histérica no registro de um gozo fálico
fora do corpo. Isso é claro tanto nas manifestações deficitárias
como nas pantomimas fantasmáticas que as conversões histéricas
evidenciam.
O FPS, por outro lado, escapa à regulação fálica, muito
embora não seja sem relação com a ação do significante. É preciso
conceber para isso uma causalidade que participe da linguagem,
mas sem ter a sua estrutura. Lacan emite a hipótese de uma indu
ção significante, um S1, ou seu equivalente, na forma de uma solda
gero do intervalo entre dois significantes na holófrase. Esse fenô-
1 1 6
meno de linguagem não permite o livre jogo da afânise do sujeito.
Tudo acontece como se, tal como um selo, uma espécie de escrita
ilegível viesse se inscrever no corpo como um tipo de enquadra
mento do nome próprio, no lugar mesmo do que deveria ter sido
um sintoma.
Como conceber o Übertreibung em questão se ele não é
regido pelo operador fálico e se ele não procede de um mais-de
gozar que implicaria, ao contrário, a oposição de dois significantes?
O sujeito é responsável por esse tipo de gozo? Baseados em quê
estamos autorizados, se não for para deslocar, pelo menos para tra
zer à baila, o gozo em jogo nesses FPS pelo efeito da fala?
Tudo depende da estrutura clínica. Um FPS não tem a
mesma função na neurose e na psicose. Na neurose, o FPS pode
fazer signo de um déficit momentâneo da defesa do sujeito no
encontro com um acontecimento, uma lembrança insuportável, um
traumatismo ou um segredo até então intransmissível, por exemplo.
Na psicose, o FPS, em sua função de enquadramento do nome pró
prio, vem circunscrever, no lugar do corpo, um espaço delimitado e
separado, permitindo a um sujeito se fazer um nome sem passar
pelo Nome-do-Pai.
Quando não se trata de psicose, mas de neurose, pode-se
considerar a escrita psicossomática como o índice de um modo de
gozo ilícito que escapa à castração e que se relaciona, mais frequen
temente, com um traço de perversão que vem desmenti-la. Somente
a invenção do inconsciente, via transferência, tem chance de des
compactar a soldagem significante e revelarao sujeito a fixação de
gozo que ele se recusava a ceder, esse excesso de gozo, Übertreibung,
de cuja responsabilidade ele se esquiva por meio de seu estatuto de
doente.
Cabe ao desejo do analista extrair o sujeito desse querer
gozar em que seu corpo o mantém fascinado, em uma trapaça sem
nome, mesmo que esta tome o nome de uma doença.
1 1 7
Notas
* Relatores: Carole Dewambrechies-La Sagna e Jean-Pierre Deffieux.
1 MILLER, J.-A. (1986-1987) Los signos de! goce. Buenos Aires: Paidós, 1998.
2 MILLER J.-A. (1987) "Lacan com Joyce". In: Correio n.65. São Paulo: Escola
Brasileira de Psicanálise, 201 O, p.33.
3 FREUD, S. (19 16-1 917) "O Sentido dos Sintomas". In: Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XVI, Rio de Janeiro:
Imago, 1976, p.305-322.
4 De fato, nu!fe, nesse contexto, poderia ser traduzido de modo mais preciso por
"uma boba". Entretanto, considerando que essa zombaria evidencia, para Sylvie,
uma ausência de corpo, a expressão "zero à esquerda", por designar um "nada",
pareceu-nos mais interessante.
5 LACAN, J. (1975) "Joyce, o sintoma". In: O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
6 LACAN, ]. Le Séminaire, livre XXI: Les non-dupes errent, inédito.
7 BLEULER, E. Démentia Praecox ou groupe des schizophrénies, Paris, 1993,
p.559-561 .
8 FREUD, S.(1 915) "O Inconsciente". In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud (Edição Standard Brasileira), v.XIV, Rio de Janeiro: Imago, 197 4, p.207 -224.
9 MILLER, J.-A. en colaboración con Éric LAURENT (1 996-1 997) El Otro que
no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Pai dós, 2006.
1 1 8
Antennes Cliniques de Chauny-Prémontré e de Rouen*
FENÔMENOS DE CORPO E ESTRUTURAS
O presente relatório tomou como ponto de partida "a
neoconversão" anunciada como "os fenômenos de corpo não-his
téricos, não-interpretáveis ao modo freudiano".
Comecemos com alguns esclarecimentos. Para os fenômenos
de corpo remetemos à etimologia: em grego, "fenômeno" é aquilo
que aparece. O seu sentido ampliado designa "aquilo que é sur
preendente", podendo ser tomado como o que faz sintoma para um
sujeito. Trata-se, portanto, daqueles fenômenos que aparecem
tendo como suporte o corpo e que fazem sintoma para o sujeito
sem que haja aí uma lesão. Este último esclarecimento nos permite
distinguir esses fenômenos de corpo dos fenômenos ditos psicos
somáticos.
I. COM FREUD
Os termos neoconversão e não-histérico exigem outras obser
vações. Se deles separarmos os prefixos, obteremos conversão e his
térico, termos da elaboração freudiana. Podemos extrair da contri
buição de Éric Blumel os seguintes pontos: Ele lembrava esta
frase de Freud: "Tratamento psíquico significa ( . . . ): tratamento -
de perturbações psíquicas ou corporais - com a ajuda de meios
que agem primeira e imediatamente na alma do homem. Tal meio
é, antes de tudo, a palavra, e as palavras são efetivamente a ferra-
1 1 9
menta essencial do tratamento psíquico"1 • Tese: as palavras têm
uma ação nas perturbações psíquicas ou corporais. Corolário:
essas perturbações têm uma estrutura que deve ser análoga a das
palavras. Tese e corolário fixam o âmbito do que está em jogo na
psicanálise: a articulação da perturbação e da palavra, do sintoma
e do significante. E o primeiro nome que a psicanálise dá a essa
articulação é conversão.
Ainda citando Freud: ''A histeria se comporta em suas
paralisias e outras manifestações como se a anatomia não existisse
( . . . ) . Toma os órgãos no sentido vulgar e popular do nome que car
regam; a perna é a perna até a inserção do quadril"2• A perturbação
se produz quando o nome, a representação de um órgão, é investi
da de um valor afetivo muito grande. O que confere um valor afe
tivo por demais intenso a uma representação é o acontecimento
traumático. Mas, a perturbação não se reduz a ser apenas a cicatriz
de um ferimento, a marca de sua causa. A perturbação tem com
causa uma relação simbólica, isto é, uma relação que repousa sobre
o princípio da substituição, substituição arbitrária. Essa indicação é
preciosa; nela percebemos a entrada em cena da função significan
te. É exatamente porque há uma primeira substituição, que consis
te em substituir o braço anatômico real pelo significante braço, que,
em seguida, outras substituições significantes são possíveis.
Mas, não existe somente a vertente "significante". Da
mesma forma que a angústia resulta de uma transformação da ten
são sexual não satisfeita, a histeria resulta "de uma espécie de con
versão de uma excitação psíquica que toma uma falsa via levando a
reações somáticas"3• Assim, Freud propõe o nome de conversão
na histeria para designar a "soma de excitação ( . . . ) remetida ao cor
poral"4. Para fazer um sintoma histérico é preciso, portanto, o
concurso de uma representação que sofre o recalque e de um
afeto separado dessa representação e transformado em manifesta
ção corporal. Esses dois registros são reunidos nos Estudos sobre a
histeria pela fórmula: "Conversão simbólica"5•
1 20
Contudo, o sintoma só é conversão na histeria? Ou pode
se abordar a clínica com a fórmula: se conversão, logo histeria?
É surpreendente constatar que as referências à conversão,
assim como à "complacência somática", tenham aparentemente
desaparecido dos trabalhos de Freud posteriores a 191 O. Tal obser
vação deve ser completada por uma nota que figura em uma carta
de 1 91 7, endereçada a Groddeck: "O ato inconsciente exerce nos
processos somáticos uma ação plástica intensa, que o ato conscien
te nunca obtém"6• Parece que o mecanismo de conversão ainda per
manece válido, mas ele não é mais considerado como traço distinti
vo da histeria. A conversão não é mais um domínio reservado
somente à histeria; torna-se o domínio do inconsciente. Isso tem
duas consequências: por um lado, a necessidade de renunciar à
abrangência do diagnóstico diferencial da conversão, que não é mais
patognomônica da histeria; por outro lado, a estrutura da conver
são, não sendo mais apenas a do sintoma histérico é, portanto,
capaz de dar conta da estrutura do sintoma em sua generalidade.
1 1 . COM LACAN
Pode-se notar que no índex dos termos de Freud em ale
mão, nos Escritos) não se encontra o termo Konvertion. "Conversão"
tampouco aparece no "índice ponderado dos principais conceitos",
realizado por Jacques-Alain Miller nesse mesmo volume. Restaria
desenvolver como se articulam histeria e conversão no texto dos
Escritos. Pode-se supor, entretanto, que Lacan tenha sido pouco elo
quente sobre o termo conversão porque este dá nome a um proces
so que é pouco explicável; Lacan se detém mais sobre os elementos
estruturais.
No entanto, graças à contribuição de Bernard Lecreur,
podemos abordar outras incidências do termo conversão no ensino
de Lacan. Na lição do dia 23 de abril de 1 958 do Seminário
1 2 1
Formações do inconsciente, Lacan diz: "No sintoma, e é isso o que quer
dizer conversão, o desejo é idêntico à manifestação somática, assim
como o direito está para o seu avesso". Nesta mesma lição, Lacan
estuda o caso Elizabeth, transmitido por Freud, ressaltando a iden
tidade que há entre a dor - no alto da coxa - e o desejo - pelo pai.
A dor é o desejo, a conversão o mostra.
Diferentemente de Freud, pode-se afirmar que Lacan
enfatiza a continuidade entre o psíquico e o somático. A relação que
existe entre o desejo e a manifestação somática é um continuum. Um
é o avesso do outro, ainda que um se prolongue no outro. A con
versão é, portanto, o que identifica o desejo - considerado a partir
de sua causa, o objeto a - com a inscrição corporal de uma falta -
a castração, - tp. Mas, ao mesmo tempo em que a conversão coloca
a identificação de a e de - tp, ela mostra também que essa identifi
cação é impossível; aí está sua dimensão propriamente sintomática.
Ora, para encarnar a impossibilidade de reunir o objeto a e a
castração, - tp, a conversãosupõe um Outro, ele mesmo marcado
pela falta, um Outro dividido. O exemplo de Elizabeth é instrutivo
em relação a isso. Quando ela sofre com sua perna, a dor só vale
como equivalente do desejo se essa dor estiver relacionada a um
ideal: ser uma garota capaz de se colocar à altura de um pai acome
tido por uma doença cujo destino, marcado pela impotência, não é
sem grandeza em relação ao sacrifício que ele implica.
Consequentemente, Bernard Lecreur propõe escrever a conversão
ass1m:
A.
122
A. Sobre a neoconversão
Se a observação de certos fenômenos nos leva a constatar
que a parte subjetiva da conversão (identificação do desejo com a
manifestação corporal, a = - <p) não se coloca mais sob a dependên
cia de um Outro marcado por uma falta, mas de um Outro não-bar
rado, então poderemos, talvez, considerar o que é a neoconversão.
Tomemos como argumento da mudança de estatuto do
Outro, certas práticas para as quais se acha valorizado um saber
"sem limites": o Outro da ciência, no caso do toxicômano, e o
Outro da mostração, um "imaginário" tendo função de agente, no
caso da anorexia. Nesses dois tipos de práticas que determinam
comportamentos e cujo estatuto de sintoma é problemático, o uso
que é feito do corpo não é mais marcado pela castração do Outro.
A neoconversão poderia logicamente se escrever:
A
(a = - <p)
Ressaltamos a diferença de que a passagem de A para A
modifica o conjunto. De fato, a ausência da castração no Outro não
permite mais fazer a leitura da parte subjetiva que se origina da con
versão. Em outras palavras, é a barra de fração que separa o Outro
da linha do sujeito que se encontra tocada. A condição primeira que
torna possível essa leitura é a de reconhecer o texto como Outro.
Quando essa condição falta, o uso - no sentido do "fazer" - substi
tui a leitura. O uso, assim considerado, não implica mais um Outro
furado, mas um Outro da imagem, ou um Outro do saber, não
suposto. O corpo, nesses casos, mostra como um sujeito lida com
seu desejo para poder gozar.
123
1 . Anorexia
No curso que ministrou com Éric Laurent, O Outro que não
existe e seus comitês de ética, Jacques-Alain Miller nos convida a consi
derar a anorexia como aquilo que mostra a estrutura do desejo.
Como consequência, acentua-se a dimensão da mostração, de
forma a situar a pulsão, não mais do lado do objeto oral, mas em
ligação com o objeto escópico. Tal mudança de perspectiva implica
a magreza como uma encarnação do falo e visa uma satisfação da
pulsão que passa pelas vias de uma imagem sem falhas, uma ima
gem toda. O Outro é assim um olho que envelopa e dá consistên
cia à imagem em detrimento da significação fálica.
Podemos acrescentar a essa contribuição de Bernard
Leccrur, uma observação de Marie-Claude Sureau sobre um caso
em que a anorexia como sintoma faz signo a um Outro que é obri
gado a ver, pois não quer ouvir nada.
2. Toxicomania
O que mostra o toxicômano? Mostra que é suficiente
tomar o corpo a partir do mais-de-gozar obtido pela droga para
resolver a questão da satisfação do desejo. Essa pergunta é feita a
partir dos termos que a dimensão do uso, e até mesmo do empre
go, supõe. O recurso a um certo fazer vem suspender a incidência
da castração. Esse fazer se apoia em uma identificação que, contra
riamente ao sintoma, não se encontra nunca recolocada em causa
pelo gozo que ele propicia. Considerado a partir do uso - a partir
do mais-de-gozar - o corpo torna-se idêntico ao desejo.
1 24
8. Outros horizontes sobre a neoconversão
O termo "neoconversão"7 pode ser situado em relação a
uma problemática mais abrangente. Tentemos distinguir seus vários
niveis: em primeiro lugar, a clínica que o ensino de Lacan, principal
mente à luz de suas últimas elaborações, torna possível; em seguida,
a presença da psicanálise no aqui e agora e as demandas que lhe são
encaminhadas; e, enfim, as modificações estruturais da civilização
no período atual.
Da clínica elaborada por Jacques Lacan, extraímos esque
maticamente:
- uma abordagem do sintoma desenvolvida segundo duas
vertentes: aquela do gozo autista e aquela do Outro e suas relações
com a civilização;
- os três registros - real, simbólico e imaginário - coloca
dos como solidários e sem supremacia do simbólico, seu enoda
mento supletivo, configurando uma clínica borromeana amplamen
te abordada em A conversação de Arcachon;
- uma conceitualização complexa dos gozos;
- remanejamentos na teoria das psicoses que franqueiam o
"tratamento possível" e que, levando em conta as experiências e ela
borações dos alunos de Lacan, permitem acolher numerosas
demandas de sujeitos psicóticos.
Alguns aspectos da civilização contemporânea e suas inci
dências para a psicanálise foram abordados por Éric Laurent e
Jacques-Alain Miller em seu curso de 1 997-1 998. Eles assinalavam
o enfraquecimento e até mesmo a queda dos ideais, paralelamente à
promoção do mais-de-gozar reacfy made, que talvez deva ser associa
do a uma maior presença dos "fenômenos de corpo".
Mais especificamente, em relação ao nosso tema, enfatiza
mos o deslocamento da figura de mestria do médico e os efeitos do
"progresso da ciência na relação da medicina com o corpo"8•
1 25
1 1 1 . UM CASO COMO FORMA DE IlUSTRAÇÃO
Um homem que se aproximava dos cinquenta anos foi
aconselhado a consultar um psicanalista em razão de um sintoma
que persistia há cerca de vinte anos. Trata-se de um enrijecimento
dos músculos mandibulares e de um adormecimento do braço
esquerdo. O sintoma apareceu no momento do despertar difícil de
uma anestesia geral em razão de uma cirurgia. Nesse período, o
paciente submeteu-se a inúmeros exames médicos e tratamentos
farmacológicos, sem maiores alívios.
As entrevistas analíticas permitiram desdobramentos signifi
cantes: ''Ali onde estava um gozo autístico, a análise fez advir os efei
tos de significado", como mostra Jacques-Alain Miller no prefácio de
jqyce com Lacan. Nesse sujeito, o sintoma se conectava a um enxame de
significantes referidos à morte e ao cadáver. O sintoma desaparecia.
Esses significantes veiculavam um gozo - ttJ que se dissociou do gozo
petrificado no corpo? Pode-se, por causa disso, considerar que esse
fenômeno de corpo é interpretável ao modo freudiano?
Resta decifrar o que conduziu a conversão a se localizar
nesses lugares do corpo, ainda mais porque o sintoma retoma e
varia em função dos acontecimentos da vida do sujeito e dos avata
res da transferência. O paciente evoca os restos de líquido anestési
co que seriam ainda atuantes - "essa porcaria" que, como ele suge
re, lhe teria sido administrada em quantidade excessiva. Várias figu
ras de um Outro comilão do gozo9 aparecem em suas falas, sem
poupar a transferência.
A partir dos elementos apresentados, parece difícil decidir
entre a alternativa da análise do sintoma até o real da pulsão e o tra
tamento pelo sintoma, conforme resumido por Jean-Louis Gault.
Deparamo-nos assim com uma vasta problemática, a dos casos em
que a fronteira neurose-psicose não é fácil de ser estabelecida, ainda
mais que o dispositivo analítico parece embaralhar, às vezes, esta
grande divisão de águas.
1 26
Notas
*
Relator: José-Luis Garcia Castellano.
1 FREUD, S. (1905) "Tratamento Psíquico (ou Anímico)". In: Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v. VII, Rio de Janeiro:
Imago, 1989, p.276.
2 FREUD, S. (1 888-1 893) "Algumas Considerações para um Estudo
Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas". In: Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.I, Rio de Janeiro: Imago,
1 990, p.240.
3 FREUD, S. (1 894) "Rascunho E: Como se origina a angústia". In: Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.I, Rio de
Janeiro: Imago, 1990, p.276.
4 FREUD, S. (1 894) "As neuropsicoses de defesa". In: Obras Psicológicas Completas
de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira),v.III, Rio de Janeiro: Imago, 1987,
p.56.
5 FREUD, S. (1 893-1 895) "Estudos sobre a Histeria". In: Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.II, Rio de Janeiro:
Imago, 1988, p. 1 85.
6 FREUD, S. Correspondance 1873-1939.Paris: Gallimard, 1979, p.345.
7 Não seria mais adequado no lugar do termo neoconversão falar de sintoma
corporal?
8 LACAN, ]. "O lugar da psicanálise na medicina". In: Opção Lacaniana n.32.
Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Edições Eolia,
dez/2001 , p. l l .
9 MILLER, J.-A. (1 993) "Clínica irônica". In: Matemas I. Rio de Janeiro: Zorge
Zahar Editor, 1996, p. 197.
1 27
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes*
FENÔMENOS CORPORAIS EM PACIENTES MASCULINOS
A Seção Clínica de Rennes e a Antenne Clinique de Nantes
escolheram expor quatro casos de homens, nos quais o esforço para
se defenderem do real levaram os sujeitos a eleger uma parte do
corpo como dolorosa e a elevar essa dor ao estatuto de um sintoma
endereçado a um analista. Embora se trate de fenômenos puramen
te ligados ao efeito do significante no corpo como vivo, essas "neo
conversões" não pertencem, em nossa opinião, ao registro da estru
tura histérica. Apresentaremos estes casos em sequência e propore
mos, depois, uma perspectiva dessas vinhetas clínicas como tentati
vas para construir, graças à ética do dizer, modos de enodamentos
psicóticos que tomam apoio em fenômenos localizados no corpo.
I. O HOMEM DOS CEM MIL CABELOS1
No ano passado, em A conversação em Arcachon, foi o cílio;
este ano, será o cabelo. O lugar dos fâneros em nossa clínica encon
tra sua justificativa na interpretação do falo, dada por Lacan. Ele
colocou esse elemento decrépito na série dos fâneros, como
Jacques-Alain Miller sublinhara. O falo é um fânero e reciproca
mente o fânero - o cílio, o cabelo - é suscetível de tomar a signifi
cação do falo.
Um homem se queixa de calvície. Encaminhara-se ao ana
l i sta em um momento de grande desamparo subjetivo. No decorrer
1 29
dos dez últimos anos, seu estado se deteriorara progressivamente.
Os obstáculos surgiram desde o início de sua vida profissional de
engenheiro. Entediava-se e descobrira que, fundamentalmente, não
era feito para essa profissão. Uma exigência subjetiva à qual, confor
me lhe parecia, deveria corresponder, impunha-se a ele: era músico
e devia responder a esse chamado. Abandonou, portanto, uma car
reira bem definida como técnico, em troca de uma existência mais
precária como artista.
No momento da consulta, aos trinta e cinco anos, leva
uma vida miserável. Corre atrás de míseros cachês, cada vez mais
raros, e é reduzido a viver do RMF. Entretanto, o que motiva a
grande desordem desse sujeito é de uma outra natureza. Ele amou
uma mulher com a qual teve um relacionamento durante dois anos.
No início, ela estava ligada a um outro homem e essa situação se
manteve durante algum tempo, período em que ele se tornara o
amante dessa mulher. Nossos três protagonistas faziam parte de
uma mesma pequena formação orquestral na qual a mulher ocupa
va o posto de cantora. Enquanto houve lugar para o segundo
homem na vida dessa mulher, nosso paciente pôde gozar disso sem
maiores problemas. Um dia, como ele mesmo desejara, tornou-se o
seu único eleito. Escolheu viver com ela, com toda legitimidade;
então, as primeiras perturbações apareceram. Primeiramente, uma
ansiedade difusa; depois um abatimento progressivo e, subitamen
te, começou a perder cabelo aos tufos. Como esse estado persistia
e agravava-se, acabou concluindo que a causa disso era essa mulher.
Fazia a seguinte interpretação: a mulher que ele amava e desejava,
com a qual tinha prazer de viver e que lhe correspondia, represen
tava para ele um perigo. Decidiu abandoná-la e consultar um médi
co. Pôde constatar imediatamente uma melhora de seu estado e a
interrupção da queda de cabelos. Entretanto, ficou marcado por
essa experiência e desejava encontrar um analista.
No início, não falara da calvície. Mencionou, na ocasião,
um episódio de queda de cabelos que ocorreu no decorrer da aná-
1 30
lise. Ele levava a existência aleatória de um artista intermitente e
juntara-se a uma pequena orquestra. Teve então que viver um con
flito interno doloroso. Um dos músicos o aterrorizara querendo
fazê-lo beber. Ele deveria ter abandonado essas más companhias;
entretanto, escolhera permanecer no grupo por amor à música.
Essa decisão, que ia contra seu desejo profundo, deixava
o mortificado. Constatou o efeito nefasto disso em seu corpo.
Começou de novo a perder cabelos, centenas de fios por dia.
Foi nesse momento que começou a falar sobre sua teoria
da calvície. Há algum tempo, debruçara-se sobre esse fenômeno e
dedicara-se a encontrar uma explicação. Conduzia essa reflexão
com método e escrevia regularmente, em um caderno, o fruto de
suas cogitações ou o resultado de suas pesquisas.
Ele tem uma concepção unívoca do distúrbio: perde o
cabelo quando não é mais ele mesmo, isto é, quando faz algo que
não está em conformidade com seu verdadeiro desejo. Para usar
uma de suas fórmulas, é quando não está "inteiro" que os cabelos
caem.
Lembra-se que ele mesmo não se dera conta disso; foram
os amigos que o fizeram notar. Constataram a presença de cabelo
em abundância no box do chuveiro depois de sua passagem por ele.
Então, compararam fotos e notaram uma calvície nascente.
Consultou um acupunturista que lhe explicara o mecanismo. O
cabelo morre, mas só cai depois de três meses. Notara que as coi
sas se passavam diferentemente em seu caso. Perdia os cabelos ins
tantaneamente. Quando não fazia o que correspondia a seus dese
jos, quando obedecia ao desejo dos outros, ou a convenções, ele
sentia o efeito disso no nível dos cabelos.
Conhecia, claro, as expressões "arrancar os cabelos" ou
"ficar de cabelos brancos", mas não é disso que se trata. O que
acontece com ele se situa no nível do próprio cabelo. Consultou
várias enciclopédias e descobriu algo interessante na anatomia do
sistema piloso. Notou que na base de cada fio de cabelo há um mús-
13 1
culo eretor, cuja contração faz eriçar o cabelo. Em seu caderno,
reproduziu o esquema que mostra como o cabelo se ergue quando
o músculo se contrai. Acrescentou que um adulto possui de cem a
cento e cinquenta mil fios de cabelo e, portanto, a mesma quantida
de de músculos eretores no crânio.
Quando todos esses músculos se contraem, os fios de
cabelo se levantam na cabeça. Era o que ele sentia. Um grande arre
pio percorria a superfície de seu crânio de frente para trás e perdia
seus cabelos. Explicava: "É o que acontecia quando eu não fazia o que cor
respondia ao que era realmente eu} e ao que era meu caminho de vida n.
Leu que existia a expressão "arrepiar os cabelos", reação
provocada pelo medo, que correspondia exatamente ao que ele sen
tia. Há ainda uma outra expressão por ele anotada: "à tous crins'3•
Por exemplo, um "homme à tous crins" ("homem a todo vapor") é um
homem inteiro. Quando não queria se afastar de seu caminho de
vida, era para ficar inteiro. Inversamente, quando perdia cabelos,
não estava inteiro, isso porque fazia algo que não queria realmente.
Certamente, quando o cabelo se levanta, ele sai ligeiramen
te de seu lugar, mas não cai. Para que ele caia, é preciso que a ação
se repita. Aqui, voltaram-lhe seus conhecimentos de mecânica. Não
se consegue de uma só vez desatarraxar um parafuso fortemente
apertado. Para conseguir isso é preferível proceder por pequenos
esforços sucessivos com uma chave de fendas. Foi o que aconteceu
no nível do cabelo. A repetição das contrações acaba fazendo com
que caiam. A queda dos cabelos se produz quando os músculos ere
tores são excitados de maneira prolongada.
Ele verificou essa hipótese. Já lhe aconteceu de sentir seus
cabelos se erguerem na cabeça de forma intensa, mas pontual. Em
seguida dessa situação, que durou só um instante, ele não perdeucabelo. Por outro lado, em circunstâncias em que se deixara levar
contra sua vontade - como na orquestra -, tivera a sensação de
cabelos eriçados na cabeça durante várias semanas. Essa grande ten
são era dolorosa; à noite, o couro cabeludo lhe queimava e percebia
1 32
que os músculos eretores ficavam paralisados. Então, os cabelos
caíam aos tufos. Desde que decidira abandonar os músicos com os
quais tocava a contragosto, parou de perder cabelos. Não tinha mais
essa sensação de eriçamento no vértice do crânio. Sentia-se nova
mente inteiro.
Esse sujeito sintomatiza o real ao seu modo. Responde ao
terror que experimenta diante do enigma do desejo do Outro, e sua
vontade de gozo, dando corpo a essa angústia. Aparelha-se com um
sistema piloso suportado por cem mil músculos eretores, para loca
lizar, na superfície do crânio, o arrepio que então o invade.
Elaborou assim o complexo do cabelo: com seus cabelos erguidos
sobre a cabeça, é o homem apavorado diante do abismo da foraclu
são da significação fálica. O órgão piloso se ergue, então, como um
ponto de detenção (point d'arrê�, e torna-se o gnomon que lhe desig
na a toda hora o ponto de verdade de seu desejo.
11. O HOMEM DOS POLEGARES QUE ESTALAM4
Há dezoito anos, M. vem me consultar quando se encon
tra "entre duas mulheres". Queixa-se da primeira quando a separa
ção se mostra provável, me deixa assim que recruta a segunda, e vai
viver na casa desta última alguns dias mais tarde.
Muito depressivo, transpirando de ansiedade, considera-se,
toda vez, "colocado para fora" pela mulher na qual acaba de bater.
Deleita-se ao indexar com um vocabulário injurioso seus
caprichos, seus modos de gozo, sexuais, financeiros, seu modo de
apropriação do bebê que fez nelas. Procura provocar divisão e
angústia nessas mulheres.
Entre duas mulheres, vive na casa de seus pais; relaciona
se com sua mãe da mesma maneira.
Quando da primeira entrevista, evoca seu medo de que, no
final do ato sexual, seu pênis fique na vagina de sua parceira.
1 33
No final de cinco anos, o quadro inicial se modifica: muito
angustiado, queixa-se de estalos no polegar da mão direita. Diz: "É
como uma mutilação, poderia me conformar se me dissessem que é de nascença";
e explica todas as suas dificuldades dessa forma: ''É meu dedo que me
angustia", concluindo: "Não posso viver com uma mulhe!j é complexo
demais".
O desencadeamento do sintoma ocorreu da seguinte
maneira: invocando uma dor no joelho, M. recusa, um dia, ter rela
ções sexuais com sua companheira, que exprime sua grande decep
ção; de forma súbita, ele desfere-lhe um violento soco nas costas.
No dia seguinte, sobrevém seu sintoma.
Cinco anos mais tarde, após o rompimento com essa
mulher, o quadro apresenta um aspecto diferente: uma queixa sem
limites satura completamente as sessões. M. lista diferentes tipos de
estalos de seu polegar e enumera sua combinação com certas ações:
cortar a carne, acender um cigarro, lavar-se, assoar-se, pentear-se,
tocar a braguilha, escrever e, principalmente, assinar. Desenvolve,
então, uma prática que só encontra seu limite no esgotamento, quer
se trate, por exemplo, de ascender um isqueiro até que se esvazie de
todo gás ou de preencher páginas inteiras com assinaturas. Uma
sequência se impõe: estalo inaugural profundo e explosivo; sensa
ção intolerável de que o polegar cai no vazio; finalmente, prática de
"verificação" até que os estalos secundários criados pelas flexões
sob a superfície da pele parem. "Vão cortá-lo '� exclama; "mas, e então,
o outro?". Notemos aqui o efeito de bilateralização.
Como pano de fundo, há queixas que dizem respeito a sua
vestimenta fálica: rugas em volta dos olhos, queda de cabelos, cor
pulência, etc. Teme não poder mais seduzir.
Uma série de fenômenos de corpo pôde se construir:
estrabismo divergente no momento de seu primeiro relacionamen
to; dores resistentes no joelho direito que se tornam bilaterais na
véspera de um exame exploratório, o que faz com que ele diga: "é
psicológico '�· rigidez da nuca e das costas. Cada sintoma apoia-se em
1 34
uma "sugestão": fala brutal, tapa ofensivo, pequeno choque. Na clí
nica, uma perfusão de antidepressivos não funciona: "meu braço vai
apodrecer, vai ser preciso amputá-lo ".
Encontra em seus pais explicações para sua tendência em
bater nas mulheres: "Dê o fora!, dizia minha mãe para meu pai; eu repro
duzo isso". "Bato porque meu pai deveria ter lhe dado um tapa para fazê-la
parar. Ela o rebaixava e ameaçava ir embora". A mãe de M. é apresenta
da como uma personagem autoritária e infiel, que rejeita e depois
quer de volta, como todas essas mulheres das quais ele se separou;
o pai é apresentado como impotente e deprimido: "É a minha vin-
- " gança, nao quero ser corno manso .
Sua adolescência foi marcada por um acontecimento:
fora surpreendido por sua mãe com um terço enrolado em volta
do pênis. Ela lhe disse: "Se você continuar fazendo isso, vai ficar doente".
Na noite seguinte, ocorreram poluções noturnas acompanhadas
por rituais obsessivos e angústias muito vivas. Desapareceram aos
vinte e um anos com a primeira relação sexual e a retomada da
masturbação.
"É psicológico, doutor? Ai, ai, ai!". Esse enunciado em forma
de questão é repetido sem cessar pelo paciente, seja durante as ses
sões, seja ao telefone. É conveniente responder a isso com um "cer
tamente!'� para evitar sua reiteração imediata. Nenhuma vacilação,
nenhum apelo ao sentido.
A temática fálica apresenta um caráter não dialético, não
correlato à função paterna. Em dezoito anos de encontros, as
associações foram raríssimas; nada de sonhos, nem de lapsos, nem
de esquecimentos. Nenhuma perturbação de linguagem.
Nenhuma teoria delirante. Um eixo imaginário preservado permi
tiu-lhe trabalhar e suportar uma relação terapêutica de preferência
amigável. Vem, entre duas mulheres, me tomar como testemunha
de seus gozos desregrados, do poder delas para aceitá-lo ou rejei
tá-lo, e de fenômenos de corpo intoleráveis. Fica nisso. Sustenta
se nesse duplo imaginário que eu encarno e que ele abandona
1 35
quando o encontra em uma mulher, o que desmorona quando as
experiências sexuais com ela o confrontam com o insuportável;
nesse momento, a violência predomina. A duração sem preceden
tes de seu último concubinato, seis anos, foi acompanhada de
fenômenos de corpo invasivos e duráveis. A ruptura dessa relação
radicalizou o quadro correlativamente a um empobrecimento de
seu laço social. Sua busca por uma mulher lhe parece desde então
ainda mais destinada ao fracasso, enquanto sua "vestimenta fálica"
se deteriora.
Não há subversão da função de órgão pela função fálica
como no sintoma de conversão histérica. O esquizofrênico tem que
lidar com <l>o; seus fenômenos de corpo, de coloração hipocondría
ca, são acompanhados por uma grande angústia. Ele tenta localizar
o gozo em um órgão, suas práticas de verificação para cifrá-lo não
fazem realmente limite. Ele tenta construir um sintoma.
Atualmente, deve-se temer a automutilação ou o suicídio.
1 1 1 . VITOR, O ENRIJECID05
Victor tem dezenove anos. É um rapaz frágil com um
andar completamente particular, de aparência robótica. Mantém-se
muito reto, a testa inclinada, a cabeça ligeiramente reclinada para o
lado. Anda de maneira sincopada, dobrando muito pouco os joe
lhos, jogando as pernas para frente esboçando deslizamentos para
os lados dos pés ligeiramente descolados do chão.
Quando fala, olha frequentemente de viés para o interlo
cutor. Na maior parte do tempo, não o olha de forma alguma. Sua
história patológica começa na infância, por volta de dez anos. A
família vivia há muitos anos no estrangeiro, onde o pai ocupava a
função de diretor de uma fábrica. Viviam separados da população
local, protegidos por guarda-costas que acompanhavam o jovem
Victor e sua irmã à escola.
136
Victor, totalmente isolado de seus colegas de classe e
quase mudo em casa, manifestava-se por meio decrises de violên
cia destruidora dirigida aos objetos de seu quarto. Uma recusa obs
tinada em continuar a frequentar a escola acarretou a decisão do
retorno da família para a França, onde retomou a escolaridade.
Seus estudos secundários ocorrem, então, com resultados
bastante bons, contrastando com seu isolamento persistente. Não
fez amigos. Falava pouco em casa e ainda menos no colégio.
Psiquiatras são consultados repetidas vezes. Seus pais se
opõem a que tome remédios. Por volta de quatorze anos e de novo
aos dezoito, queixa-se de ser objeto de zombarias da parte de seus
colegas do colégio.
Repete o terceiro ano do ensino médio, sua escolaridade
tendo sido interrompida repetidas vezes por sua recusa em ir às
aulas. As ideias de perseguição concernindo a seus colegas de colé
gio não parecem ser organizadas em um delírio sistematizado:
pensa que todos zombam dele.
Um tratamento de curta duração é então realizado com
um terapeuta behaviorista que tenta reeducar os distúrbios da mar
cha; depois, começa uma terapia familiar reunindo Victor, seus pais
e sua irmã mais velha. Os sentimentos de perseguição de Victor se
amenizam, com a paranoia de seu pai ocupando o primeiro plano
das sessões. Victor, tomando cada vez mais a palavra para participar
das críticas ao comportamento de seu pai, é então encaminhado a
uma psicanalista. Espera das entrevistas um apaziguamento de suas
dificuldades relacionais. Explica que tem, de fato, demasiada ten
dência a pensar que seus colegas zombam dele, "ao passo que talvez se
trate de uma simples brincadeira".
Durante suas primeiras sessões, dedica-se a fazer um resu
mo mecânico de suas atividades dos dias anteriores, ressaltando
seus bons resultados escolares e suas preocupações quando suas
notas são ruins. Insiste sobre suas performances relacionais. Quer
mostrar os progressos de sua capacidade em fazer trocas com seu
1 37
próximo: refeição feita em comum no restaurante universitário, tro
cas de brincadeiras, exposições orais no anfiteatro, trabalhos em
grupo. Tenta fazer amigos. Trata-se sempre de amigos de seu sexo.
Victor não fala com as garotas e nunca evoca sua existência.
O computador ocupa todo seu lazer. Aparelhagem ade
quada para evitar o uso da fala, a internet lhe permite enviar, ao
outro lado do mundo, mensagens das quais só a comunicação o fas
cina, pois o conteúdo parece lhe ser indiferente.
Evoca muito pouco seus sentimentos, exceto sua raiva em
relação a seu pai, que "se arrasta pela casa em vez de procurar trabalho} que
amola todo mundo com sua perseguição
}
que é insuportável". De fato, o pai
pediu demissão de seu trabalho no momento de um conflito com a
direção geral de sua empresa, durante o qual parece ter se mostra
do muito rígido, tornando a ruptura irremediável. Acredita ser,
desde então, perseguido, vigiado, seguido e até mesmo ameaçado
por capangas dessa empresa. Victor se gaba de lhe dizer tudo o que
pensa e de apoiar sua mãe quando o casal briga. "É um vagabundo n.
O desemprego do pai e suas reações depressivas transformaram o
equilíbrio familiar e o destituíram de sua posição de tirano. Uma
crise, durante as férias no campo, deixa Victor muito impressiona
do: o pai, acreditando que a casa estivesse cercada e a família em
perigo, tentou proibir qualquer saída de casa durante vários dias. '54
perseguição é a doença da família} mas eu estou tentando me corrigir}}.
Durante várias semanas, Victor teve, repetidas vezes, aces
sos de raiva durante a refeição no restaurante universitário: não
aceita as brincadeiras dos colegas e derruba alguns objetos.
Uma queixa - teve um problema nas pernas depois de um
longo passeio em família - permite que eu me informe sobre suas
dificuldades para andar. Ele me tranquiliza: seu terapeuta (behavio
rista) o ajudara muito mandando-o fazer exercícios, "voltas em torno
do hospital obrigando-se a dobrar os joelhos}}. Antes, andava "com as pernas
completamente duras}}. De fato, ele as dobra, nesse momento, muito
ligeiramente.
138
Começou a ficar assim por volta dos quatorze anos;
depois de alguns meses, seu andar suavizara-se, mas no último ano
do colegial ele havia novamente "se tornado muito duro". Fiz com
que observasse que essa dificuldade para andar ocorrera em um
momento em que estava mal; ele concordou: ((Foi quando eu me
sentia perseguido ".
Começou a sessão seguinte declarando: ((Eu andava assim
porque tinha medo que me chamassem de bicha". Não disse mais nada
sobre isso, exceto que a ideia lhe viera sem que ninguém o tivesse
assim insultado. ((Presto muita atenção quando ando, penso nisso o tempo
todo". Evocou novamente esse andar nas sessões seguintes, entran
do no consultório com um andar cada vez mais flexível, depois
quase normal, mantendo, contudo, uma certa rigidez do tronco.
Foi na idade em que a puberdade transforma o corpo que
Victor apresentou esse andar de autômato. Podemos supor que, em
resposta às excitações sexuais, no lugar da significação fática - não
permitida pela ausência do enodamento edipiano de sua psicose
infantil, Po -, a rigidez do corpo tentou fazer limite à desagregação
do imaginário, ao abismo de <l>o.
Victor luta contra o empuxo-à-mulher. Teme que o
tomem por homossexual. Por intermédio dessa ereção de todo o
corpo, sustentada por uma atenção estafante, ele se endireita para se
opor à feminização.
O fato de Victor ter podido dizer algumas palavras sobre
essa feminização e que isso tenha bastado para que sua dolorosa
mostração fática cedesse, não significa que a significantização faça
barragem à invasão de gozo; isso significa que, se uma estabilização
provisória tornou-se possível atualmente, foi porque o pai, até
então presente e absoluto demais, foi destituído de sua autoridade
pelo desemprego e pela evidência de seu delírio. É isso que permi
te a Victor ocupar o lugar do único indivíduo cujo espírito é racio
nal e, a esse título, beneficiar a família com seus conselhos pautados
na lógica, situando-se assim mais perto de seu ideal de técnico em
1 39
informática - situação fortalecida pelos estudos que empreende
nessa especialidade. Ele pode, então, renunciar a essa contração
voluntária de seus músculos e ao seu andar "viril", não sendo mais
assolado por invasões do gozo deslocalizado.
IV. O INVENTOR DO MÉTOD06
Aos quarenta e oito anos, um professor de ginástica, que
exerce sua profissão com interesse e prazer, foi levado a tirar uma
longa licença por doença após um episódio de dores que se torna
ram mais agudas desde o que ele chama de "o incidente" ou "o aci
dente". Este incidente consistiu em uma queda, sem gravidade, no
decorrer da qual ele caiu para trás arrastando consigo um de seus
alunos, sobre o corpo do qual ele aterrissou.
Essa não é, entretanto, a razão que o levou à consulta.
Queixa-se, em primeiro lugar, ao enfermeiro que recebeu seu pedi
do por telefone, de uma retomada importante de uma atividade oní
rica que lhe parecia, ao mesmo tempo, preocupante e insuportável.
Tinha a ideia que seu inconsciente tinha algo a lhe dizer, mas não
conseguia saber o quê sem a ajuda de um analista.
Desta vez, decidira encaminhar-se a um analista freudiano,
resultando em sua escolha de se dirigir à Escola da Causa Freudiana.
Já fizera, de fato, uma análise de oito anos com um analista junguia
no. Esse tratamento interrompera-se com a morte do terapeuta.
Tentara, em seguida, por dois anos, continuá-lo com uma mulher,
mas parecera-lhe que com ela esta iniciativa não poderia chegar a
nada.
Pelo primeiro terapeuta devotava uma grande admiração,
observando, apesar disso, uma certa insatisfação quanto à sua
maneira de interpretar os sonhos. Sobre os outros resultados obti
dos pela análise, não consegui obter outras informações além da
contribuição de um bem-estar que o satisfazia.
140
Vive sozinho. Mantém relações sociais regulares com sua
irmã gêmea e seu cunhado, e sempre se deu bem com essa irmã.
Tem também um irmãodez anos mais velho, com quem tem pou
cas oportunidades de encontro.
Não tem laço afetivo durável com uma mulher. Teve opor
tunidades de encontrar algumas delas e de manter relações sexuais,
mas estas não lhe fazem falta; declara não ter tempo para isso.
Suas outras relações são com colegas, esportistas como
ele, em particular um casal de jovens professores com quem se dá
bem e a quem ele dá conselhos. Pratica dança com eles, e treina para
o esporte com o homem. É muito expansivo e relaciona-se facil
mente - ultimamente com padres de sua paróquia, com os quais
discute a Bíblia -, mas suas relações são, na maior parte do tempo,
tanto superficiais quanto ocasionais.
Dentre os acontecimentos notáveis de sua vida figura o
falecimento de sua mãe, quando tinha onze anos. Diz nunca ter
feito o luto, apesar de sua terapia. O falecimento acidental recente
de seu sobrinho adolescente - o ftlho de sua irmã - também o
tocou muito. Ao ponto que fez disso o início de suas preocupações
corporais e de suas dores. Não falou disso com ninguém, pois,
nesse momento, interrompera suas entrevistas com sua terapeuta.
No momento de nosso primeiro encontro, as dores cor
porais são imediatamente evocadas: ele me assinala de cara que
não posso apertar sua mão muito forte, pois com isso corro o
risco de lhe ocasionar dores em todos os músculos dos braços e
peitorais. Faz questão de que eu saiba disso e me lembrará disso
eventualmente.
Essas dores são sempre descritas muito precisamente nos
termos da anatomia; concernem principalmente aos músculos das
costas, dos membros ou aos músculos pélvicos. São também
nevralgias diversas ou dores articulares. O paciente consulta nume
rosos osteopatas ou fisioterapeutas que nunca o satisfazem, mas
cujos nomes circulam nos meios do esporte.
1 41
Muito embora não acredite na origem médica dessas
dores, tem uma teoria precisa no que diz respeito a sua ocorrência.
Tem a ideia muito precisa de que essas dores se desenvolveram por
causa do fracasso de sua "pesquisa". Não está longe de pensar que
são os "sonhos" que perturbam o que ele chama de sua "obra".
Começara, de fato, desde a morte de seu analista junguia
no, a desenvolver o que chama de um treinamento, um método, ou
ainda uma pesquisa. Tal pesquisa veio na sequência de sua "análise".
Trata-se de uma sequência de movimentos que inventou e
que pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite - isso pode durar
de uma a duas horas e apresenta, para ele, uma virtude de alivio e
de contenção das dores.
Ora, há algum tempo, essa pesquisa não dá mais resulta
dos e é aí que reaparecem as dores. Retoma então para a análise,
invadido por sonhos que são essencialmente pesadelos ou que com
preendem fantasias de exibição de caráter homossexual.
Retoma a análise com a ideia de encontrar nela o que ele
chama de uma "conversão", isto é, poder produzir aí o equivalente
de suas práticas corporais a partir do saber contido em seus sonhos.
Espera poder fazer com isso a invenção certa, e não duvida de que
eu saberei me manter no lugar que ele me indicará. Comunica-me
qual deve ser a posição do analista e insiste, particularmente, no fato
de querer um analista que não hesite em infringir as regras.
Asseguro-lhe que ele veio ao lugar certo. Tratar-se-ia de um caso de
histeria? Ou de uma psicose tamponada sucessivamente por uma
prática de terapia e depois por uma invenção do sujeito destinada a
localizar o gozo sobre o corpo - apoiando-se sobre o imaginário
desse corpo e em uma simbolização escorada pelo reconhecimento
social do exercício da profissão de professor de ginástica? A segun
da hipótese tem nossa preferência, ainda que esse homem esteja
perfeitamente integrado no tecido social.
142
Notas
*
Relatores: Roger Cassin, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen, Bernard
Porcheret e François Sauvagnat.
1 Parte redigida por Jean-Louis Gault.
2 N.R.: RMI (Revenu minimum d'insertion). Trata-se de um benefício oferecido
pelo estado francês às pessoas sem recursos. Foi substituído em 2009 pelo RSA
(Revenu de solidarité active), de caráter mais amplo.
3 N.R.: ao pé da letra "a toda crina", com toda energia, a todo vapor. Podemos
observar ainda a homofonia existente entre "crinl' e o verbo "craindre" (temer).
4 Parte redigida por Bernard Porcheret.
5 Parte redigida por Roger Cassin.
6 Parte redigida por Pierre-Gilles Guéguen.
143
FENÔMENOS CORPORAIS PSICÓTICOS:
AS TRADIÇÕES PSIQUIÁTRICAS E
SUAS PROBLEMATIZAÇÕES POR LACAN*
De algum modo, a questão das neoconversões é uma ques
tão clássica, na medida em que se colocou progressivamente no fim
do século XIX para diferenciar distúrbios histéricos puros e diver
sas somatizações ligadas a um quadro psicótico - excluímos aqui os
eventuais fenômenos psicossomáticos dos quais se sabe, no entanto,
que não são raros. A noção freudiana de conversão histérica desta
cou-se, de um lado, a partir dos avanços neurológicos da escola de
Charcot - possibilidade de diagnosticar lesões neurológicas a partir
de sinais; por exemplo, o sinal de Babinsky, etc. - e, por outro lado, a
partir da limitação da entidade histérica exigida pela corrente kraepe
liniana, colocando fora do jogo a noção de psicose histérica desenvol
vida no fim do século XIX, que incluía a paranoia histérica, a demên
cia histérica, a melancolia histérica, a histero-epilepsia, etc.
A. Hipocondria delirante mal localizada como testemunho de Po
A questão da diferenciação entre hipocondria psicótica e
sintoma histérico de conversão foi levantada, repetidas vezes, por
colegas 1• Parece útil distinguir aqui os casos de hipocondria mal
localizada, e diferenciá-los dos casos em que o órgão aparece como
um verdadeiro alvo imutável (ver rubrica seguinte: <l>o) .
A hipocondria "indeterminada" - que vai de um senti
mento de mal-estar a uma sensação dolorosa, mas sempre associa-
145
do a uma indeterminação intolerável - era considerada por um dos
maiores teóricos dos delírios crônicos, Bénédict Motel (1 850),
como o fenômeno elementar psicótico por excelência, que determi
nava secretamente o conjunto dos distúrbios delirantes. Essa con
cepção foi retomada como um dos dois tipos de distúrbios - afeto
de perplexidade ou hipocondria - anteriores ao aparecimento do
delírio de relação para os autores germanófonos, que tentaram deli
mitar a paranoia a partir de mecanismos elementares mínimos - iní
cio dos anos 1 890. Freud a evoca repetidas vezes, principalmente a
propósito de Schreber - "parece-me que a hipocondria tem a
mesma relação com a paranoia que a neurose de angústia tem com
a histeria" -, e Lacan debaterá isso com Macalpine. Essa noção é
ainda completamente familiar a alguns psiquiatras contemporâneos
- nos "pródromos" e nos "vanguardistas" da Escola de Bonn, por
exemplo. Parece razoável colocar os fenômenos corporais descritos
em relação aos efeitos catastróficos da incursão de Um-pai.
B. Dismorfofobia psicótica: <l>o
Ao contrário da rubrica anterior, constata-se nesses casos
uma focalização "precisa" em um ou vários órgãos, dado como des
truído, morto, monstruoso, etc. Foi apenas em um segundo
momento que a dismorfofobia, termo forjado por Morselli (1 886)
- que pensava integrá-lo na série das fobias - deixou de ser consi
derada no caso de adolescentes neurastênicos e perfeccionistas,
para ser considerada no caso de sujeitos claramente psicóticos, que
pode ser comparada, ademais, com fenômenos de negação de
órgãos. Digamos que, bastante frequentemente, o fracasso da cas
tração simbólica se manifesta aqui de forma bruta, o que tende a
fazer considerar esse tipo de fenômeno sob o ângulo do <f>o descri
to por Lacan e, principalmente, do empuxo-à-mulher: "Na falta de
poder ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher
146
que falta aos homens", o que Lacan descreveu em 1 9733 como uma
espécie de movimento de retorno: <l>o --+ A Mulher.
Toda uma série de fenômenos pode ser descrita aqui,
fenômenosem relação aos quais o problema é saber, como observa
Lacan:
- se <l>o é o efeito (em primeiro grau), no imaginário, do
apelo vão feito no simbólico à metáfora paterna;
- ou se <l>o é o produto (em segundo grau) da elisão do falo
reduzida à hiância mortífera do estádio do espelho, a fim de resol
vê-la.
Neste último caso, tratar-se-ia (novamente) de uma solu
ção que retomaria a simbolização primordial efetuada pela mãe
(Desejo da Mãe/sujeito) .
Deve-se constatar que, longe de conceber o "empuxo-à
mulher" como uma feminização automática, os resultados são
variados, indo do sentimento delirante de ser acusado de homosse
xualidade a um franco "tornar-se mulher" transexualista, passando
por tentativas da ordem de uma supercompensação delirante - caso
de Otto Gross, em que a hipersexualidade "genital" apoia-se na
veneração do culto de Ishtar, e das diversas elaborações "genitais"
de Wilhelm Reich - às vezes bem tamponadas por elaborações do
tipo aparelhamento do corpo.
A segunda eventualidade descrita por Lacan - resolver a
elisão do Nome-do-Pai em posição fálica pelo <l>o - deve também,
em nossa opinião, ser compreendida como uma tentativa de suplên
cia - "a fim de resolvê-la" - centrada na função de um órgão como
"tapa-buraco" da foraclusão.
147
C. Fenômenos corporais esquizofrênicos: R/ /S/ /1 (Real // Simbólico // Imaginário)
Uma das autonomizações mais "brutas" das dimensões
imaginária, real e simbólica é provavelmente a catatonia, com os
fenômenos motores de catalepsia, flexibilidade cerosa, impulsões
motoras, estereotipias e, quanto a eventuais proferições verbais, a
verbigeração ou salada de palavras. O diagnóstico diferencial histe
ria/ catatonia é uma questão clássica que foi objeto de um debate
em torno da síndrome de Ganser, a partir de 1 898. A fixidez dos
distúrbios, seu caráter não mobilizável, sua ocorrência segundo um
"processo", são classicamente evocados como características da
catatonia, mas os autores variam consideravelmente quanto à dura
bilidade dos distúrbios4• Lacan dá conta disso, em 1 959, em termos
de regressão tópica ao estádio do espelho; os termos "deixar cair"
ou "largar", "abandonar" (laisser-tomber) foram também evocados.
Tais sintomas indicam que a cadeia significante praticamente não
toca o gozo. No entanto, essa ausência de enodamento "neurótico"
entre S (Simbólico) e I (Imaginário) não impede que modos parti
culares de suplência sejam possíveis. Fenomenologicamente, isso
vai do "está tudo bom" característico da paciente descrita por Karl
Landauer5 às personalidades "as if" de Helene Deutsch, nas quais as
identificações não encontram nenhuma escora da ordem da fanta
sia, passando pela equivalência esquizofrênica entre representações
de coisas e representações de palavras, em Freud.
D. Neoconversão e problemática RSI
Discutir a questão das neoconversões "não redutíveis pela
interpretação freudiana clássica" implica, por um lado, discutir
modos de formação sintomáticos, isto é, tentativas de solução à ine
xistência do Outro6 da parte de sujeitos psicóticos; implica, por
outro lado, discutir sintomas que colocam em jogo o corpo.
148
Pode-se acrescentar que os modos de formação de sinto
mas aqui considerados devem ser distinguidos do sintoma de con
versão freudiano como "condensação", enquanto metáfora, isto é,
operação de imposição de sentido - f (S' /S) S = S(+)s - operada
pelo significante, subentendida por uma subtração de gozo (- tp) .
De acordo com os termos de � terceira", "o sintoma é irrupção
dessa anomalia na qual consiste o gozo fálico, na medida em que aí
se mostra e desabrocha essa falta fundamental que qualifico de não
relação sexual". Ali onde, como escreve Lacan em RSf, diante do
embaraço que tem com o falo, o pequeno Hans inventa para si
"toda uma série de equivalentes para esse falo ( . . . ) diversamente
ostensivos", é forçoso constatar que tal recurso ao efeito de senti
do não é possível para o sujeito psicótico. No entanto, em vez de
supor (como faz Freud) as dimensões do Real, do Simbólico e do
Imaginário enlaçadas pela "realidade psíquica"8, Lacan propôs, no
final de RSI, "pluralizar" os Nomes-do-pai: "Nomeação do imagi
nário como inibição, nominação do real como angústia, nominação
do simbólico, flor do próprio simbólico, como sintoma."9 A etapa
seguinte, com o sinthoma, permitiu-lhe colocar a questão dos modos
pelos quais, nos sujeitos psicóticos, suplências ao Nome-do-Pai
podem estar articuladas e enlaçadas. Os casos apresentados permi
tem colocar em série a maneira pela qual, diante do abismo de sig
nificação que se abre, convocando aí o corpo, diferentes respostas
são tentadas.
Todos são confrontados em alguma medida a <Do, porém
com variações quanto à severidade dessa confrontação. Assim, ao
passo que o complexo do cabelo é a ocasião, para o paciente, de se
entregar a uma elaboração significante que parece ter-lhe fornecido
uma espécie de gnomon de seu desejo, ali onde seu ideal musical o
abandona, o homem dos polegares que estalam parece entregue ao
insondável de um gozo que retorna sem mediação. O inventor do
método de ginástica parece, graças a isso, tamponar muito bem as
inquietudes que seu corpo lhe causa; contudo, efeitos de significa-
149
ção sobrevêm - por meio de sonhos - e temperam as entrevistas.
Quanto a Victor, o enrijecido, ele consegue fazer com que seu sin
toma de rigidez ceda frente à oferta da palavra, seja colocando-se
sob o significante ideal da "conduta sensata", seja descompletando
o pai gozador.
1 50
Notas
*
Parte redigida por François Sauvagnat.
1 DEFFIEUX, J.-P. "La conversion d'un siecle à l'autre". In: La Cause freudienne,
n.38. Revue de psychanalyse. Paris: École de la Cause freudienne, p.27.
2 FREUD, S. (191 1) "O Caso Schreber". In: Obras Completas, v.10, São Paulo:
Companhia das Letras, 2010, p.13.
3 LACAN, ]. (1 973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.467.
4 A versão muito deficitária que Henri Ey dá disso ("hebefreno-catatonia") não é,
de forma alguma, objeto de um consenso.
5 LANDAUER, K. "Spontanheilung einer Katatonie", Int. Zj Ps., 1 926.
6 MILLER, J.-A. (1 997-1998) "Equívocos sobre el Otro". In: Elpartenaire-sínto
ma. Buenos Aires: Paidós, 2008, p.235.
7 Cf. Ornicar?, n.2, p.104.
8 FREUD, S. (1924) "A perda da realidade na Neurose e na Psicose". In: Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XIX, Rio de
Janeiro: Imago, 1 976, p.229.
9 Cf. Ornicar?, n.S, p.66.
15 1
A NEOTRANSFERÊNC IA
Seção Clínica de Angers*
lAlÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA NAS PSICOSES
Por que "neotransferência"? Seria o neométodo do qual fala
va Freud para as psicoses? "É preciso desistir de tentar com os psi
cóticos nosso método terapêutico", dizia em 1 938, "até o momen
to em que descobrirmos, para esse tipo de doentes, um método
mais adaptado"1•
Em 1 958, Lacan estava no seguinte ponto: "Dizer o que
podemos fazer nesse terreno, seria prematuro, porque seria ir,
agora, 'além de Freud"'2• Em 1 977, Jacques-Alain Miller lançava
novamente a questão: "Quem explicará a transferência do psicó
tico?"3.
Então, por que "neo"? O que há de novo em 1 998?
Certamente, a questão não é mais essa de recuar diante da
psicose. Depois das escansões das Jornadas da Escola, em 1 983 e
1 987, e do Encontro Internacional de Buenos Aires, em 1 988,
alguns efeitos da prática com as psicoses foram publicados em Le
conciliabule d'Angers, e uma nova clínica, uma clínica continuísta das
"neopsicoses", em A Conversação de Arcachon.
É preciso entender que a clínica das neopsicoses criou
uma "neoposição" do analista? Ou foi a neoposição do analista que
criou uma "neotransferência" nas psicoses?
Partamos do princípio de que a oferta dá forma à deman
da, e que a oferta do psicanalista ao psicótico - nova ou não -
pode instituir uma nova forma de demanda e, portanto, uma neo
transferência.
1 55
I.HIPÓTESE DE LALÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA
Façamos a seguinte hipótese: a criação e o uso de uma
"lalíngua da transferência" como neotransferência nas psicoses.
Tal hipótese parte da constatação de que o par s'!}eito
suposto saber - transferência funcionaria de outra maneira nas psico
ses. Lacan explicita, de fato, em seu Seminário Mais, ainda: "Se
enunciei que, a transferência, é o sujeito suposto saber que a moti
va, isto não é senão aplicação particular, especificada, do que está
aí por experiência"4• Ora, o sujeito suposto saber não pode ser,
aqui, o que motiva a transferência, já que o saber já está ali, do
lado do psicótico.
Propomos, então, examinar o par lalíngua-transferência,
enunciando, à maneira de Lacan que, se é lalíngua que motiva a neo
transferência, [isso] seria apenas aplicação particular, especificada,
da prática com as psicoses, onde lalíngua da transferência aparece
como novo artefato para tecer o laço social.
Partamos de uma sequência extraída do caso de uma psi
cose mascarada por uma deficiência intelectual leve, que Jean
Lelievre expôs em seu Mémoiré da Seção Clínica de Angers:
'Você sabe falar em Donald?'� perguntou a garotinha. "Não!'� res
pondeu ele. Cuspindo e babando cada vez mais, ela começou, então, a matra
quear: "Quack! quack, quack! quack-quack-quack! '� "O que tenho que
escutar?" perguntava-se ele, desapontado. Continuando a matraquear, a crian
ça apontava o relógio de pulso com o dedo. "São quacktro e dez" surpreendeu
se ele ao dizer, matraqueando por sua vez. Isso fez com que ela risse. A língua
Donald acabava de ser inventada.
Desde essa sessão, raros eram os momentos não consagrados à práti
ca e à aprendizagem dessa língua. O Donald tornara-se a língua da transferên
cia. Seu uso ultrapassava, aliás, o âmbito das sessões, invadindo a casa da famí
lia e a instituição onde a garotinha crescia.
Façamos aqui duas observações preliminares: por um lado,
a língua Donald aparece como uma criação linguageira da garotinha
1 56
- uma coisa muito dela, diria Michel Leiris6 - e encarna "laiíngua"
que Lacan escreve em uma única palavra; por outro lado, a apren
dizagem e a prática da língua Donald pelo par criança-terapeuta
introduzem a necessidade de "lalíngua da transferência" para forjar
o laço social.
Mas, a prática com as psicoses deve, necessariamente, pas
sar pela criação e pela prática de uma lalíngua da transferência?
Mesmo em se tratando de psicoses, nada impede de acre
ditar no inconsciente. Como ressalta Lacan: "É porque há o incons
ciente, isto é, lalíngua, no que é por coabitação com ela que se defi
ne um ser chamado falante, que o significante pode ser chamado a
fazer sinal, a constituir signo. Entendam esse signo como lhes agra
dar, inclusive o thing do inglês, a coisa"7•
Aproximemos esse uso de lalíngua da transferência ao uso
da língua estrangeira, fora de sentido, utilizado por Daniele Rouillon
no caso intitulado "Les bienjaits du hors-sens''6 (Os benefícios do fora
de sentido), do Conciliabule d'Angers. Em resposta à língua das cifras
praticada por seu paciente: "Saint Gobain 60 1 + 0,2; Saint Louis 601
+ 2 '� o analista pratica a língua estrangeira: '!.4nd what do you SC!J now?
_ Wel� I SC!J that white is not black. " Aqui, a prática de lalíngua não pro
voca o riso do paciente, mas certo apaziguamento.
Aproximemos também esse uso de lalíngua da transferên
cia da língua às cegas, utilizada por Gabriel Lombardi em sua notá
vel contribuição intitulada "Cure d'un mutique"9, do mesmo volume.
Diante do silêncio do paciente, entrecortado por um "eu vejo pon
tinhos", o analista pratica, sem o travessão da réplica, a língua às
cegas: 'Decidi, então, falar com ele, eu mesmo, às cegas, (. . . ) sem o horizonte
de uma resposta".
Em todos esses casos clinicas, vê-se bem que o que moti
va a neotransferência não é o sujeito suposto saber, mas lalíngua
como o que permite a um significante poder fazer signo. E fazer
signo de quê? - fazer signo de algo que está fora do sentido: ono
matopeia, algarismos, traço.
1 57
Afirmaremos, portanto, que é pelo significante enquanto o
que pode fazer signo, e não pelo sentido, que se joga a partida da
neotransferência como vetor do tratamento.
1 1 . TEORIA DE LALÍNGUA
Evoquemos agora o artigo intitulado "Teoria d'alíngua"10,
de 1 974, em que Jacques-Alain Miller explora a palavra iaiíngua cria
da por Lacan dois anos antes. Nesse artigo, a psicanálise é um modo
de abordagem de iaiíngua, e ialíngua seria inaugural, da mesma
maneira que o inconsciente estruturado como uma linguagem.
Em um artigo mais antigo, intitulado "U ou 'não há meta
linguagem"' 1 1 , Jacques-Alain Miller já desenvolvia o termo precur
sor de ialíngua: a língua U - língua única e última. Nesse artigo, a psi
canálise não é, senão, a travessia da língua única.
Poder-se-ia dizer que Freud toma seu ponto de partida via
pulsão, Lacan via linguagem e Jacques-Alain Miller via iaiíngua.
A. O que é lalíngua?
"Laiíngua é feita de qualquer coisa, do que está por ai,
tanto nas áreas de serviço quanto nos salões", explicita Miller em
1 97 4. Nesse sentido, temos ialíngua Donald de Ophélie, feita de
onomatopeias que estão por ai nos desenhos animados, e iaiíngua
dos algarismos, do paciente de Daniele Rouillon, feita da cotação da
bolsa que ele ouve no rádio.
''A língua é essencialmente aluvial, feita dos aluviões que se
acumulam a partir dos mal-entendidos e das criações linguageiras de
cada um'm, acrescentará Miller, em 1 996, em A fuga do sentido. Tal
sedimentação se faz sobre as marcas deixadas pelos outros sujeitos.
1 58
1 . Un beau gazouillis (Um belo gorjeio)13
Para tomar um exemplo literário, citemos "presbitério", de
Colette1\ palavra que passeava pelo jardim de sua infância e da qual
ela faz o nome científico de um pequeno caracol. A criança se cha
mava "Bel-Gazou", como Un beau gazouillis, belo gorjeio. Não será
isso lalíngua? Vejamos o exemplo:
A palavra "presbitério" acabava de cair em meus ouvidos sensíveis e
causar aí uma devastação. "É, certamente, o presbitério mais alegre
que já conheci", dissera alguém. Eu recolhera em mim a palavra mis
teriosa, como se bordada com um relevo áspero, no começo, termi
nando em uma longa e sonhadora sílaba.
Ornada por um segredo e uma dúvida, eu dormia com a palavra e a
levava para o meu muro. "Presbitério!" Jogava-a, por cima do teto do
galinheiro e do jardim de Miron, para o horizonte enevoado de
Moutiers. De cima do muro, a palavra soava em anátema: "Vamos!
Todos vocês são presbitérios!", gritava eu aos banidos invisíveis.
Um pouco mais tarde, a palavra perdeu seu veneno, e percebi que
"presbitério" podia bem ser o nome científico do pequeno caracol lis
trado de amarelo e preto.
Uma imprudência pôs tudo a perder _"Mamãe! Olhe o lindo peque
no presbitério que encontrei!" Calei-me tarde demais. Tive que apren
der o que fazia tanta questão de ignorar, e chamar "as coisas pelo seu
nome" _"Um presbitério, veja só, é a casa do padre".
Lutei contra a violação, abracei os farrapos de minha extravagância,
quis obrigar o padre a morar na concha vazia do caracolzinho chama
do "presbitério". E depois, cedi. Rejeitando os fragmentos do caracol
zinho esmagado, recolhi a bela palavra, subi até meu terraço estreito
sombreado pelos velhos lilases. Batizei-o de "Presbitério", e fiz-me
padre sobre o muro.
2. A integral dos equívocos
"Uma língua entre outras não é nada além do que a inte
gral dos equívocos que sua história deixou persistir"15, escreve
I ,acan em "O aturdido". Depois, acrescenta em Mais, ainda:
159
"Lalíngua é o que me permitiu, ainda há pouco, fazer de meu Sz uma
questão e me perguntar - será que é bem deles (d'euxys que se trata
na linguagem?"17 O que Jacques-Alain Miller traduz em 1 974 por:
''A homofonia é o motor da lalíngua"18•
E, de fato, é pela homofonia entre "quack" e "quatro" que
o "quacktro e de:( do terapeuta aparece de surpresa, no caso de
Ophélie, eque lalíngua Donald, lalíngua do som, encontra-se inven
tada como lalíngua da transferência. É uma operação ao modo de
Michel Leirís e, como diz Jacques-Alaín Miller em 1 996, "integral
mente sujeita ao equívoco"19•
B. Que relação lalíngua mantém com a linguagem?
Lacan distingue em O Seminário Mais, aindd-0, um saber sobre
lalíngua que cabe à linguagem, e um saber-fazer com lalíngua testemu
nhado pelo inconsciente. É o que Jacques-Alain Miller1 traduz em
1 974 por: "a linguagem não é lalíngua, ( . . . ) ela é secundária em rela
ção à lalíngua, ( . . . ) ela é o resultado de um trabalho sobre lalíngua" e
também por: "não há sujeito suposto saber na lingua, não há cata
lepse da lingua, não há domínio da lingua".
1 . lalíngua rebelde e indomável
Lalíngua não é domável porque não há em lalíngua dois ditos
que sejam parecidos, "só há diferenças". Essa é uma forma de levar
a sério a tese de Saussure, isto é, que o sentido primeiro do significan
te está perdido para sempre: pequeno s desaparece sob grande S.
Bel-Gazou experimenta isso depois de ter brincado com a
palavra "presbitério '� insere-a no discurso da ciência e depois no dis
curso comum: '/1 palavra perdeu seu veneno".
Como fazer valer essas diferenças? No campo da lingua
gem, a articulação significante St-Sz desencadeia os efeitos de sen-
160
tido, há significação aos borbotões. O sujeito é identificável. No
campo de lalíngua, antes, portanto, de colocar ordem nos significan
tes, tem-se uma cadeia significante sem efeito de sentido. É o mate
ma SI I s de A fuga do sentido22•
É a experiência que faz o paciente de Daniele Rouillon
quando os números da bolsa se alinham uns ao lado dos outros,
sem efeito de sentido. O sujeito se encontra separado da cadeia sig
nificante, fora da cadeia. Há um saber-fazer com lalíngua, mas não
um saber sobre lalíngua.
2. lalíngua inaugural e o
inconsciente estruturado como uma linguagem
É aqui que aparece a falsa separação da qual fala Jacques
Alain Miller em "Produzir o sujeito?"23: o sujeito está fora do sen
tido, separado da cadeia significante, ele surge do nada, é uma cria
tura de significante; mas o sujeito deve também emergir do ser
vivo, ele surge de seu primeiro estatuto de objeto, do objeto
"causo" (causette/4 do desejo da mãe.
Esta é a constatação que faz, por exemplo, certa educado
ra, a propósito de um autista. "Em que língua é preciso falar com ele?'�
perguntava-se. 'Vsei minha língua materna, sem me preocupar em saber se
ele compreendia e sem esperar resposta. Isso durou dois anos. Seu olhar não cru
zava o meu. Quando lhe jogava uma bola, ele não a devolvia. Uma manhã,
enquanto eu lhe virava as costas, pediu-me uma bala, isso me causou o mesmo
efeito que aquele que me causaria se o meu gato começasse a falar".
Talvez seja preciso ouvir, nesse sentido, o que Lacan enun
cia em o Seminário Mais, ainda: "Lalíngua nos afeta, primeiro, por
tudo o que ela comporta como efeitos que são afetos. Se se pode
dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é no
que os efeitos de lalíngua, que já estão lá como saber, vão bem além
de tudo que o ser que fala é suscetível de enunciar.m5
1 6 1
C. Qual relação mantém lalíngua com a pulsão?
Voltemos a Freud e à articulação que faz Lacan no
Seminário 1 1 entre a pulsão e a cadeia significante.
Para Freud, diz ele, a pulsão funciona como uma cadeia
significante, ordenada pela gramática. Essa cadeia contorna o obje
to pulsional, mas não o atinge. A pulsão se caracteriza como sendo
acéfala, diz-nos Lacan26• É, portanto, "um ser do tipo quod, cujo quid
permanece misterioso, velado", explicita Jacques-Alain Miller7 em
Le Conciliabule d'Angers - o quod quer dizer algo, mas não se sabe o
que isso quer dizer.
Em seu curso intitulado Silet, Jacques-Alain Miller faz da
pulsão uma articulação entre a repetição e a transferência, isto é,
uma repetição significante cujo produto é um gozo: ''A repetição
como automatismo é equivalente a uma cadeia significante que, ao
mesmo tempo, elude e designa o lugar central do real, que a trans
ferência coloca em atom8• E ele propõe o seguinte esquema:
oc automática
transferência
Portanto, se existe uma relação entre lalíngua e a pulsão, é
via repetição e transferência: um gozo produzido pela cadeia signi
ficante. Temos aí um esboço de lalíngua da transferência: uma cadeia
significante de lalíngua, fora de sentido, que aparelha o gozo, dese
nhando o percurso que vai do simbólico ao real.
1 62
1 . A verdade em ato, livre, desencadeada
Se a cadeia significante de lalíngua produz um efeito de ver
dade, é em ato. Como escreve Jacques-Alain Miller29, em 1 974: sem
essa lalíngua, não haveria verdade; e a verdade nessa lalíngua não
pode ser definida - ela está aí presente em ato, livre, desencadeada.
Basta nos lembrarmos da raiva do Homem dos Ratos con
tra seu pai e da cadeia significante que ele usa naquele momento -
"Du, Lampe, Tasche (lâmpada, toalha, prato) ( . . . )"30 - para nos dar
mos conta disso que ela visa, sem, no entanto, atingir: o lugar cen
tral do real. Isso que faz com que o pai diga que ele é um futuro cri
nunoso.
Daí a palavra "ir-a-sível (ire-a-cible)'"30, escrita em 1 989 por
Jacques-Alain Miller em O banquete dos analistas: a raiva visa o objeto a.
Da mesma forma, a repetição do ''V!j'o pontinhos" do
paciente de Lombardi, sempre acompanhada de excitação, parece
indicar o lugar de um real inacessível: "Ele não podia descrever nada des
ses pontos, nem quantidade nem qualidade, somente a pequenez indescritível
deles. Nada. Nenhuma palavra'JJ2•
2. O insulto e o nome próprio de gozo
Portanto, os efeitos de lalíngua vão bem além de tudo o que
o ser que fala é suscetível de enunciar. E um dos primeiros efeitos
de lalíngua é o afeto, em particular, a cólera. Ora, se a pulsão tem
uma coloração vazia, é porque ela não atinge o objeto, ao passo que
o afeto toma, aqui, a cor do objeto.
Basta abrir um álbum de Tintiff3 para perceber que assim
que o capitão Haddock entra em cena, animado pela cólera, jorran
do uma série de insultos: "Vagabundo! Mercenário! Ectoplasma!",
na realidade, todos os significantes falham ao tentar dizê-lo.
Como diz Jacques-Alain Miller: "É, então, que se pode
dizer qualquer significante, qualquer um que, na queda, na anulação
1 63
de todos os significantes - A barrado -, qualquer um que, ao esca
par do desastre possa vir aí, como uma flecha, tentar ser o signifi
cante do ser do Outro, ou seja, o significante do Outro como obje
to pequeno a."34
A fórmula do insulto que ele propõe pode, então, ser escrita:
s {�}
Enquanto o cap1tao Haddock, como bom neurótico,
busca ainda seu nome de insulto depois da morte de Hergé,
Ophélie, por sua vez, como psicótica, acerta na mosca: seu nome de
insulto está ali desde o início. Desde a primeira sessão, ela cospe um
insulto: "Parece uma lebre!", um nome de animal que produz um equí
voco em lalíngua com o nome próprio do terapeuta, "Lelievre"
["Alebre'l "Não estou contente de ter vindo vê-lo! Com o seu corte de cabelo1
você parece uma lebre!".
Ophélie faz sua entrada na cena analítica pelo ódio. Pelo
insulto, ela atinge o kakon de seu ser no Outro.
O ódio "é uma das vias para o ser", explicitaJacques-Alain
Miller. Ele afirma igualmente: "o insulto vem quando não há mais
palavra para dizê-lo, quando não se pode mais raciocinar, e quando
se está sufocado pela cólera"35•
É assim que se poderia ouvir também o "el Doctor esta
cachuso "J6, que fazia rir o paciente de Gabriel Lombardi. Desta
vez, não é de ódio que se trata, mas de ironia. É a função do sem
blante que está aí desnudada: não-tola.
1 64
1 1 1 . ALGORITMOISl DA TRANSFERÊNCIA
Se Freud concebeu a ideia de um método mais adaptado
às psicoses, Lacan, contudo, não nos deu sua fórmula.
O algoritmo da transferência, proposto por Lacan37 em
1967, retoma a fórmula do inconsciente estruturado como uma lin
guagem. Essa fórmula é apenasuma aplicação particular da expe
riência.
St Sq
s(S1, Sz, ... , Sn)
Qual seria, então, a fórmula da neotransferência como
aplicação particular da prática com as psicoses?
A. O significante da transferência e o Um encarnado em lalíngua
O significante da transferência, ST, formalizado por Lacan
na escrita do sujeito suposto saber, não é um significante qualquer.
Seria o significante Um, ou significante-mestre, tal como Lacan o
definiu no Seminário Mais, ainda: "Ele é a ordem significante, no
que ela se instaura pelo envolvimento pelo qual toda a cadeia sub
siste"38.
Pode-se fazer referência, aqui, ao artigo de Jacques-Alain
Miller intitulado "Matrice"39, que distingue a marca e o lugar do
Tudo e do Nada, com um esquema da estratificação que ele comen
ta assim: ''A marca como unidade é apenas a totalidade concentra
da. E a totalidade é a marca dilatada, multiplicada". Dai o esquema:
R) ) ) ) )
1 65
Poder-se-ia aproximar essa estratificação do que Lacan
chama "a unidade da copulação do sujeito com o saber" no
Seminário Mais, ainda: "O S1 , esse um, o enxame, significante-mestre,
é o que garante a unidade, a unidade de copulação do sujeito com
o saber"40. Assim, tem-se o esquema:
S1 (S1 (S1 (S1 Sz)))
"O Um encarnado na lalíngua é algo que resta indeciso entre o fone
ma, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento. É o do que se trata
no que chamo de significante-mestre"41 •
Considerando o Eu-vrjo-pontinhos como o Um encarnado
em lalíngua, o significante-mestre que se instaura a partir do envelo
pamento por onde toda a cadeia subsiste, isto é, a marca, como uni
dade, mas também como totalidade concentrada, o que o paciente
de Lombardi grita seria, então, todo seu pensamento.
1 . O imperativo do significante e a alta tensão do significante
"O significante é inicialmente imperativo"42, diz Lacan em
1 972. Mas será que há uma diferença entre o significante Um encar
nado em lalíngua, esse significante-mestre que comanda toda a
cadeia, e o que Lacan chama em 1 958 de "a alta tensão do signifi
cante"43?
A língua fundamental de Schreber44 é feita de neologismos,
que constituem o que Lacan45 chama de um neocódigo.
O imperativo, ou a alta tensão do significante, pode se
escrever ass1m:
s
1 66
Quanto às mensagens interrompidas, como diz Jacques
Alain Miller em A fuga do sentido46, isso funcionaria um pouco como
um Witz: na cadeia significante, uma parte permanece vazia e à
espera do que viria à cabeça, para dar o sentido.
s
o
Quer se trate do "Eu v�jo pontinhos'� quer se trate do "Saint
Gobain 601 + 0,2" ou do "Quack-quack-quack!", em cada caso, o sen
tido está em suspenso.
Mas, trata-se de neologismos ou de ritornelos?
Lacan observa, de fato, que, assim que essa alta tensão do
significante cai, as alucinações se reduzem a ritornelos ou a ladai
nhas, vazias de significação.
Jacques-Alain Miller faz dessas ladainhas uma espécie de
círculo sobre si mesmo do significante, sem o lastro do significado.
O que pode se escrever assim:
2. A solidão semântica
A propósito da voluptuosidade da alma de Schreber,
Seelenwollust, Lacan observa que "o inconsciente se preocupa mais
com o significante do que com o significado" e que "a dimensão em
que a letra se manifesta no inconsciente ( . . . ) é bem menos etimoló
gica (precisamente, diacrônica) do que homofônica (precisamente,
sincrônica)"47• O sentido de mortificação viria da homofonia entre
1 67
S eelen, as almas, e S een, os lagos onde as almas permaneceram algum
tempo.
No caso de Ophélie, é porque o terapeuta e a criança zom
bam do significado que a língua Donald pode ser inventada como
lalíngua da transferência.
Uma vez desprovido do significado, o significante funcio
na sozinho, voltando-se sobre si mesmo em círculos, mas como sig
nificante Um, envelopando toda a cadeia significante e fazendo
apelo ao efeito de sentido apenas de forma alusiva, sem intenção de
significação.
Obtém-se, assim, a fórmula de Jacques-Alain Miller48:
S // s oo
Aqui, os efeitos de sentido são infinitos e completamente
separados do significante. Tudo pode ser dito sem que uma signifi
cação seja retida.
B. O saber suposto e o saber já-posto nas psicoses
Lacan49 distingue, no Seminário Mais, ainda, dois saberes
inconscientes: o saber sobre lalíngua, que é apanágio da linguagem, e
o saber-fazer com lalíngua, que é apanágio do inconsciente.
Como esses dois saberes se articulam na psicose?
1 . Saber sobre lalíngua e saber-fazer com lalíngua
"Todo amor se apoia em alguma relação entre dois sabe
res inconscientes"50, explícita Lacan. E, se há relação, é porque há
distinção: o inconsciente é um saber-fazer com lalíngua; ao passo que
a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalíngua.
1 68
Fazer essa distinção é também fazer a distinção entre
inconsciente e linguagem. A linguagem seria apenas uma hipótese
ou uma suposição de saber sobre lalíngua: ''A linguagem, de come
ço, ela não existe. A linguagem é o que se tenta saber concernente
mente à função de lalíngua"51 • Enquanto o inconsciente é o testemu
nho de um saber-fazer com lalíngua que escapa ao ser falante.
Nos três casos clínicos tomados como exemplos, os de
Gabriel Lombardi, de Daniele Rouillon e de Jean Lelievre, o tera
peuta testemunha a cada vez de um saber-fazer com lalíngua, que, ao
mesmo tempo, lhe escapa. Os três apostam, portanto, nos efeitos de
lalíngua, isto é, sobre um saber já-posto, mas que vai bem além do
que pode ser enunciado.
Poder-se-ia mesmo dizer, nos três casos, que o terapeuta
se comporta como o rato no labirinto52 de Lacan: faz signo ao
paciente de sua própria presença como unidade, até mesmo como
unidade-ratoeira, isto é, capaz de aprendizagem de lalíngua.
2. A aprendizagem de lalíngua e o sujeito suposto saber
Pela analogia entre a unidade-ratoeira e o ser analista, a
questão do saber se transforma na questão de um aprender: ''A ques
tão ( . . . ) é de saber se a unidade-ratoeira vai aprender a aprender"53•
É o que fazem nossos três terapeutas: aprendem a apren
der. Comportam-se, no labirinto de lalíngua, nessa montagem feita
de lalíngua da transferência, de certo modo, como analistas-ratos.
E, como diz Lacan, o experimentador, "aquele que, nesse
negócio, sabe alguma coisa"5\ seria, então, o psicótico, "alguém para
quem a relação com o saber é fundada em uma relação com lalíngua,
na habitação de lalíngua, ou na coabitação com ela".
É porque o analista supõe ao psicótico um saber-fazer com
a língua que ele se presta à sua aprendizagem, e que, graças ao dese
jo do analista, esse saber já-posto no psicótico poderia se elaborar,
então, como elucubração de saber sobre lalíngua.
1 69
C. A transferência e o amor do Outro
Se for verdade que um casal fala a mesma língua e que ela
é estranha a um terceiro, lalíngua da transferência poderia bem ser
essa do amor: entre psicótico e analista não há encontro sem o
amor do Outro. A experiência do labirinto interrompe-se neste
ponto: não é pedido ao experimentador para amar seu rato e vice
versa.
No casal Ophélie-Lelievre, trata-se realmente de um amódio:
a garotinha entra pelo ódio, e lalíngua da transferência se estabelece
no amor do Outro.
1 . O algoritmo de Gabriel Lombardi
Na "Cure d'un mutique", Gabriel Lombardi está, inicialmen
te, como o rato perdido no labirinto. A única coisa da qual ele tem
certeza é que o inconsciente do paciente é feito de lalíngua. O "Eu
vo/o pontinhos" lhe indica essa coabitação com lalíngua.
O paciente indica ao terapeuta uma relação com o saber
fazer com lalíngua, que podemos escrever assim:
a
Sz
paciente
saber-fazer
com lalíngua
terapeuta
O terapeuta faz signo de sua presença produzindo, antes
de tudo, lalíngua às cegas, fundada sobre a mesma relação com o
saber-fazer com lalíngua: lalíngua fora de sentido, às cegas, como St .
Por meio dessa operação, ele se presta à aprendizagem de
lalíngua, como sujeito vazio, posto a trabalhopelo saber do pacien
te, ao qual ele supõe alguma coisa para além do que é enunciado.
1 70
a
Sz
paciente
saber-fazer
com lalíngua
terapeuta
lalíngua
às cegas
Toda a questão é de saber por que, certo dia, o paciente
aceita a montagem e se volta dizendo: "Eu escrevo poemas".
Insondável decisão do ser, talvez, mas é aqui que se invertem as
posições e se situa o encontro, ou seja: ''A ilusão de que alguma
coisa não somente se articula, mas se inscreve"5\ diz Lacan.
O "Eu escrevo poemas" produzido pelo paciente em uma lín
gua anasalada, quase inaudível, não é, evidentemente, para ser lido,
mas traduz o cessa de não se escrever de uma "relação de sujeito a sujei
to, sujeito enquanto ele é apenas o efeito do saber inconsciente".
Tanto o paciente quanto o terapeuta se reconhecem,
então, como sujeito, enquanto efeito do saber inconsciente.
Escrevamos a inversão e a relação de sujeito a sujeito
assim:
paciente ..1L • 0
Sz ><
terapeuta ..1L • 0
Sz
terapeuta
paciente
Haveria, portanto, produção do sujeito e captura da trans
ferência em um efeito de cristalização massiva de lalíngua como rede
do gozo.
2. A erotomania delirante
Toda a questão é, então, saber como evitar a erotomania
delirante, que Jacques-Alain Miller56 formula assim:
171
...1L
Sz
Daí o drama do amor do qual fala Lacan57•
Que diferença há entre o ''K!einer F!echsig" de Schreber e o
"E! doutor esta cachuso" do paciente de Lombardi? A transferência
para com Flechsig e a transferência para com Lombardi têm o
mesmo estatuto?
Nos dois casos, o sujeito acredita no amor do Outro.
Nos dois casos, uma metáfora delirante se instala: ser a mulher de
Deus para Schreber, ser o filho de Deus para o paciente de
Lombardi. Mas, se as Memórias de Schreber constituem uma res
posta metafórica a esse amor do Outro, a leitura da Bíblia pelo
paciente de Lombardi adia essa resposta, ela favorece a metoní
mia e põe o sujeito a trabalho mediante um novo artefato para
tecer o laço com o Outro social, muito mais do que com o Outro
do delírio.
A obstinação de Lombardi em se fazer o ponto de basta e
o destinatário do "Eu escrevo poemas" orienta em direção a um novo
laço social.
IV. LALÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA:
UM ARTEFATO PARA TECER O LAÇO SOCIAL
Portanto, "Eu escrevo poemas ", diz o paciente de
Lombardi com uma voz anasalada, muito pouco compreensível.
Mas este Screvopoemas - que poderíamos escrever em uma só
palavra - permanece puro significante de !a!íngua, separado do
significado. Isso pode querer dizer qualquer coisa. É o que cons
tata de Lombardi quando o paciente lhe estende, primeiro, "um
papel amassado e sujo em que havia duas linhas de uma escrita
ilegível".
172
Contudo, não há ainda diálogo. E Lacan precisa a propó
sito de lalíngua: "Mas lalíngua serve em primeiro lugar ao diálogo?
Como articulei outrora, nada é menos certo"58•
Como fazer limite ao monólogo autista do gozo?
A. Do nenhum-diálogo (pas-de-dialogue) ao laço social
Lacan propõe a solução da interpretação em seu
Seminário . . . ou pire: "não há diálogo, eu disse, mas esse nenhum-diá
logo (pas-de-dialogue) tem seu limite na interpretação, por onde se
assegura, como para o número, o real"59• O que Jacques-Alain Miller
traduz por "a interpretação analítica faz limite" na medida em que,
"como a formalização matemática, ela atinge um real", passa por
um "isso não quer dizer nada", vai "ao contrário do sentido", e
"supõe o escrito"60• É o que propõe Éric Laurent em A conversação
de Arcachon: "É preciso entrar na matriz do discurso pelo signo, e
não pelo sentido"61 •
É, de fato, pelo signo, ou melhor, pelo thing, que os três
pacientes podem entrar em um laço social: onomatopeia, algarismo,
ou traço escrito. Trata-se de alguma coisa que vai na contramão do
sentido.
1 . Lalíngua da transferência e o discurso analítico
No caso de Ophélie, bem antes da aprendizagem da língua
Donald, o thing do qual o terapeuta se faz inicialmente o destinatá
rio poderia bem ser a massa-de-modelar-massa-de-mastigar.
Desde a primeira sessão, de fato, Ophélie pedira massa de
modelar. Ela a amassara durante um longo tempo, comendo regular
mente pequenos pedaços. Usou-a, em seguida, regularmente, para
jogá-la no rosto do terapeuta como a injúria - ''parece uma lebre"- da
primeira sessão. O terapeuta devia curvar-se à modelagem dos ani-
173
mais que ela pedia, e nenhuma outra criança podia mexer neles. A
massa-de-modelar-massa-de-mastigar tornara-se uma coisa só dela.
É passando da massa-de-modelar-massa-de-mastigar à criação
do Donald - lalíngua, também ela mastigada - que Ophélie pode
entrar em um laço social e, portanto, na matriz de um discurso. A
aprendizagem de lalíngua da transferência, como aparelhamento do
gozo, torna-se, então, um verdadeiro artefato para tecer o laço
social.
Como diz Jacques-Alain Miller: ''A única coisa que volta a
colocar ordem nessa semântica absoluta, paralela à solidão do gozo,
é ser tomado em um discurso, isto é, como diz Lacan, em um laço
social"62• Segundo Lacan: "No final das contas, só existe isso, o laço
social. Represento-o com o termo de discurso."63
Para a pequena Ophélie, que ensinava a língua Donald a
seu terapeuta, lalíngua da transferência servia, primeiramente, de
barreira a uma elucubração de saber sobre lalíngua; esta perdeu
pouco a pouco seu veneno, e a criança acabou chamando as coisas
pelos seus nomes.
Da mesma forma, os traços escritos do paciente de
Lombardi, inicialmente ilegíveis, tornam-se pouco � pouco legíveis:
"Outros poemas vêm em seguida, poemas de um amor abstrato,
cada vez mais claramente escritos".
2. Lalíngua da transferência e a função do Witz
"Pelo contrário, é somente por um laço social típico que se
tem uma chance de poder ler, de poder interpretar, de poder fazer
limite ao nenhum-diálogo (pas-de-dialogue) . E é por isso que é pelo
laço social que, definitivamente, o significado é suscetível de man
ter o mesmo sentido"64, explícita Jacques-Alain Miller.
Lalíngua da transferência leva o paciente de Lombardi, ini
cialmente, a escrever, depois a ler e, finalmente, a evocar lembran
ças de infância. Finalmente, ele irá elaborar um certo saber sobre
174
lalíngua, que utilizará em um Witz: 'Trata-se de uma propaganda na tevê.
Vê-se a imagem da cruz vazia, sem Cristo e sem pregos. Uma voz em off di:r
'�e tivessem usado pregos Goldstein, as coisas seriam diferentes".
Um outro psicótico brincava de charadinhas com o tera
peuta: "você sabe o que dizia a mulher de A/thusser antes de morrer? Ela
dizia: Alto-cê aperta forte demais" (Halte! Tu serres trop for!). Ou ainda:
'Você sabe o que dizia um árabe ao dentista? Ele dizia: Estou cheio do meu
dente! ( 'J'en ai ras ma dent - ramadan/'}65 Você entendeu?"
A presença do analista é essencial, até mesmo decisiva, já
que seu riso decide se o Witz cumpriu sua missão, se a cessão de
gozo ao Outro do laço social funcionou.
8. Os impasses de lalíngua da transferência
Lalíngua da transferência tem seus limites. Vimos lalíngua
da erotomania, mas há também essa do semblante e aquela do sin
toma.
1 . lalíngua da transferência em suas relações com o semblante
Como diz Lacan: "Um discurso analítico visa o sentido" e
faz surgir "a ideia de que esse sentido é semblante"66•
É a experiência do paciente de Lombardi, cujo Witz não
fornece o sentido e indica somente a sua direção.
Nos exemplos precedentes, percebe-se que o Witz é usado
de forma alusiva, indicando a direção do sentido e ridicularizando a
significação fática: o filho de Deus, sem pregos Goldstein, não existe;
a morte, como a religião, é apenas uma história de jogo de palavras.
É aqui que se pode distinguir a alusão com tendência alu
cinatória, mas que não é da ordem do semblante, e o Witz com ten
dência socializante, e que é da ordem do semblante. De fato, não se
vê o presidente Schreber utilizar Witz a propósito de Deus. Por
175
outro lado, as vozes podem ridicularizare até mesmo insultar Deus:
"Die Sonne ist eine Uhre".
2. lalíngua da transferência em suas relações com o sintoma
Na neurose, a análise começa pela precipitação do sinto
ma, com um enlace do sujeito suposto saber ao desejo do analista.
Na psicose, seria mais uma cristalização do sintoma, com captura
do gozo por lalíngua da transferência.
Mas deixemos essa questão e lembremos somente que é
porque o psicanalista insiste em se fazer o destinatário dos signos
ínfimos do real de lalíngua, sem se preocupar com o sentido, que ele
pode ter uma chance de se tornar o parceiro do psicótico na lalíngua
da transferência. Assim, ele pode permitir que o sujeito psicótico se
engaje em um laço social na direção de uma elaboração de saber.
É o que faz Lombardi com seu paciente, levando-o a
escrever poemas, a ler a Bíblia e, finalmente, a pintar. É talvez tam
bém o que faz Lelievre com Ophélie, levando-a primeiro a passar
da massa-de-modelar-massa-de-mastigar à língua Donald.
C. Uma prática no plural
Escolhemos lalíngua da transferência como neotransferên
cia. Restam ainda duas perguntas: Há uma ou várias neotransferên
cias? Há uma ou várias lalínguas da transferência?
1 . Uma ou várias neotransferências?
Depois de lalíngua, seria preciso retomar a letra e a aparolrP
como outros aparelhamentos de gozo. Deixaremos isso de lado.
176
2. Uma ou várias lalínguas da transferência?
Os três casos clínicos tomados como exemplos mostram
que lalíngua da transferência é, a cada vez, diferente.
Além disso, se prosseguissemos com a analogia entre lalín
gua da transferência e a composição labiríntica haveria, para cada psi
cótico, a sua lalíngua da transferência, assim como para cada experi
mentador a sua composição labiríntica: "Não se inventa não importa
qual composição labiríntica e, se isso sai do mesmo experimentador
ou de dois experimentadores diferentes, é algo que merece ser inter
rogado"68. Portanto, não há uma) mas várias lalínguas da transferência.
E Lacan acrescenta: "O que pertence ao saber coloca uma
outra questão, por exemplo, a questão de como isso se ensina".
Gabriel Lombardi lembrava, de fato, em seu artigo sobre
a "Cure d)un mutique", que o mundo terapêutico irá sempre esperar
pelo "como fazer" com um psicótico. Ele explicita que não se tem
acesso à posição de analista a partir da posição de analista, mas a par
tir de uma destituição do sujeito que deve ser a cada vez renovada.
E é o psicótico quem renova o convite.
Para ascender a essa posição tratar-se-ia, então, de passar da
posição de sujeito à posição de objeto, ou ainda, como salienta
Lacan, passar da unidade ratoeira para a sua rasura. Obter-se-ia,
assim, o objeto "cachuso" do caso de Gabriel Lombardi, o objeto
"lebre" do caso de Ophélie e, talvez, o objeto "amorrern (Fammourir)
do caso de Daniele Rouillon.
V. CONCLUSÃO: O ANALISTA FERREIRO
Depois de A conversação de Arcachon) vimos que a questão
girava em torno do aparelhamento que permitiria lutar contra os
desligamentos sucessivos nas neopsicoses. É segundo essa perspec
tiva que retomaremos, aqui, o caso de Ophélie.
177
A. De que psicose se trata?
Ophélie encontra seu terapeuta aos onze anos de idade.
Colocada em um instituto por causa de distúrbios psicomotores,
andando mal e caindo frequentemente, falando mal e babando
muito, a criança apresenta um retardo mental e estaturo-ponderal
que a classifica como criança deficiente.
Trata-se de uma psicose? Qual?
Como assinala Jacques-Alain Miller em seu artigo "Lições
sobre a apresentação de doentes", a doença da mentalidade decor
re da emancipação da relação imaginária e toma o estilo de uma
errância, ao passo que a doença do Outro procede da crença em um
Outro não barrado e toma o estilo de uma consistência. Nos dois
casos, o gozo é desregulado: em um caso, ele é flutuante e aparece
por toda parte; no outro caso, é invasivo e do Outro.
O caso de Ophélie seria da alçada de uma doença da men
talidade: o Outro é deficitário, as identificações não estão cristaliza
das em Um, a relação imaginária prevalece e o gozo é flutuante.
Acrescentemos simplesmente que não houve desencadea
mento no sentido lacaniano do encontro com Um-pai. Por outro
lado, falta à Ophélie a ferramenta necessária para tamponar o gozo.
8. A classificação opheliana: um enlaçamento inacabado
De que se queixa a garotinha?
Não é, certamente, de sua deficiência. Quer se trate de
suas dificuldades para dormir, de seu retardo psicomotor, de sua
falta de jeito, de sua hipersialorreia, de seus momentos de introver
são ou de excitação, todos esses fenômenos incomodam apenas os
que a rodeiam. Aliás, essa foi a primeira resposta que ela deu ao seu
terapeuta: "Esses problemas para dormir a incomodam? _ Não!".
Ela se queixa, primeiramente, de sua relação com o outro
imaginário, seu semelhante. O jardim de sua infância não é povoa-
178
do de caraco1s, como para Bel-Gazou, mas de pequenos outros,
doentes como ela.
Desde as primeiras sessões aparece uma espécie de classi
ficação: os verdadeiros e os falsos de um lado, os bons e os maus
de outro.
Na primeira categoria, os verdadeiros e os falsos, Ophélie colo
ca sua irmã gêmea, uma "falsa" gêmea, que não é doente: 'Tenho
uma irmã gêmea, mas é falsa!" _ E você se dá bem com ela? _ Não, ela manda
sempre em mim!': No par especular que forma com sua irmã, m - i(a),
ela está às voltas com uma imagem do outro separada de sua pró
pria imagem, i(a), mas esse par lhe permite também investir o outro
como imagem de si, o mesmo, m. É por isso que ela não poderá
conceber a sua terapia sem a presença de sua irmã: "Quero que minha
irmã venha também! Ah! É mesmo? Ela nunca acredita em mim! O
que isso quer dizer? _ Ela nunca acredita quando digo que ela também preci
sa consultar alguém!". Na ausência da irmã, um colega de classe a
acompanhará até a porta do consultório na sessão seguinte.
Aqui, é o sentido-gozado que é interrogado via a verdade
da filiação: que sentido pode ter, efetivamente, um laço fraterno se
não for sustentado por nenhum Nome-do-Pai? Por meio dessa
categoria do "verdadeiro-falso", construída sobre a imagem, ela
constrói uma espécie de remendo entre imaginário e simbólico
onde se alojam os efeitos de sentido entre o que ela experimenta ser,
m, e uma imagem falsa dela mesma, i(a).
Na segunda categoria dos pequenos outros, os bons e os
maus, Ophélie coloca seu terapeuta entre os maus, os que não têm
as mesmas pernas que ela: 'Você é médico, não quero ver você! _ Não sou
médico. _ É sim! _ Como você sabe? _ Pelas suas pernas, você tem pernas de
médico _ Eu não tenho as mesmas pernas que você? _ Não, você não anda
como eu!".
Aqui, é o gozo do Outro que é interrogado via a realidade
de seu corpo: há os bonzinhos, enfermos como ela, cujo gozo está
subordinado a uma deficiência física, um gozo conhecido, circuns-
179
crito, bordejado pelo imaginário; e há os maus, os saudáveis que não
andam como ela, cujo gozo é estrangeiro, até mesmo ameaçador,
real. Pela categoria do "bom-mau", construída sobre a imagem, ela
fabrica, então, uma espécie de remendo entre imaginário e real.
Ophélie teria, portanto, fabricado um enodamento centra
do na prevalência do imaginário: o imaginário se dobra, articulan
do-se de um lado com o simbólico e, de outro, com o real. Isso
pode ser ilustrado pelo nó borromeano da figura 5 da página 1 69
do Seminário Mais) ainda, colocando o imaginário no centro do nó
como uma orelha dobrada:
I
@ 0
Por outro lado, simbólico e real não mantêm nenhuma
relação entre eles, a não ser via o imaginário. Aqui, o gozo fálico não
pode se inscrever e a função do semblante é evacuada.
Com efeito, se Ophélie mastiga massa de modelar, por
outro lado ela não "mastiga" suas palavras. Quando o Outro se dis
tancia e a deixa, ela se fecha em um autoerotismo: é então que come
sistematicamente dejetos, cascas, pequenos pedaços de massa de
modelar, babando cada vez mais, sem se preocuparnem um pouco
com as reações das pessoas à sua volta. Quando o Outro se aproxi
ma novamente ou faz intrusão, as injúrias e os golpes são então lan
çados contra o intruso.
No fundo, o problema de Ophélie é ter construído uma
estrutura certamente borromeana baseada, porém, em uma relação
binária. Daí a sua fragilização quanto à intrusão de um terceiro.
Trata-se, portanto, de um nó flutuante, em que o simbólico e o real
podem se recobrir sem, contudo, jamais se articularem um ao outro.
1 80
C. lalíngua Donald como instrumento de forja
Vimos anteriormente como Ophélie fazia sua entrada na
cena analítica: surpresa de Ophélie primeiramente diante da produ
ção de seu equívoco, "parece uma lebre", sobre o nome próprio do
terapeuta, o que demonstra um saberfazer com lalíngua; depois, sur
presa, ao mesmo tempo do terapeuta e da criança, diante do lapso
"quacktro e dez" do terapeuta, o que demonstra, dessa vez, um saber
sobre a língua. Finalmente, aprendizagem e elaboração da língua
Donald como lalíngua da transferência, enlaçando saber-fazer com e
saber sobre lalíngua.
No decorrer dessa longa aprendizagem, uma fobia se
esclarecerá.
Poder-se-ia dizer que lalíngua Donald usada pelo casal
Ophélie-Lelievre é o que permite à criança e ao terapeuta forjarem,
sessão após sessão, os elos faltantes da cadeia significante, elos que
permitiriam, talvez, grampear aqui o simbólico e o real, cristalizan
do o enodamento que a criança fabricara sozinha a partir da preva
lência do anel imaginário dobrado.
Esse novo enlaçamento poderia ser representado pela
figura 6 que encontramos na página 1 69 do Seminário Mais, ainda, e
que simplificamos aqui:
18 1
Vã esperança, provavelmente, visto que lalíngua da transfe
rência tomaria o lugar do semblante. Mas nada nos impede de acre
ditar que, se o analista for suficientemente dócil à aprendizagem de
lalíngua da transferência, a cadeia poderá um dia se fechar por um
Witz, como no caso do paciente de Lombardi.
Se a estrutura do Witz se parece com aquela das mensa
gens interrompidas de Schreber, vê-se, nesse caso, que, na operação
da transferência que articula simbólico e real, o sentido é remetido
ao Outro do laço social via o semblante, ao passo que, para
Schreber, o sentido é remetido ao Outro do delírio via o imaginário.
Terminemos com o que nos inspira a olhadela no
esquema acima: não se vê ali a figura do Mickey, com suas duas
orelhas redondas, substituir as orelhas de uma lebre? Isso não foi
premeditado.
182
Notas
*
Relatora: Fabienne Henry
1 FREUD, S. (1 938) ''A Técnica da Psicanálise". In: Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XXIII, Rio de Janeiro: Imago, 1975,
p. 199.
2 LACAN, ]. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.589.
3 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 977) "Lições sobre a
apresentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica:
A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998,
p.202.
4 LACAN, J. (1 972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.1 97.
5 LELIEVRE, J. "Le cas Ophélie", Déficience intellectuelle légere - Un mode d'être au
monde, Mémoire n.3 da Seção Clínica de Angers, Grammatica, inverno 1997,
Número suplementar de L'Archive n.4.
6 LEIRIS, M. "Biffures", La reg/e dujeu, p.9-21 .
7 LACAN, J. (1972-1 973) "Rodinhas de barbante". In: Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 18 1 .
8 ROUILLON, D. "Les bienfaits du hors-sens", Le Conciliabule d'Angers, Paris,
Agalma-Le Seuil, Le Paon, 1 997, p.1 63.
9 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique", Le Conciliabule d'Angers, op. cit. , p.135.
1 0 MILLER, J.-A. (1 975) "Teoria d'alíngua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p.55. Dirigido ao congresso da Escola
Freudiana e pronunciado em Roma, esse discurso parece constituir o "Relatório
de Roma" de Miller.
1 1 MILLER, J.-A. "U ou 'i! n'y a pas de méta-langage", Reduction linguarum ad
unam, Leibniz: a língua U, derivada do termo de Haskel B. Curry de "U-langua
ge"- The Language being used.
1 2 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula VII do dia 31/01/1996.
1 3 N.T.: Em francês Un beau gazouliis significa Um belo gorjeio; em dialeto pro
vença!: Uma bela linguagem.
1 4 COLETTE, S.D. "Le curé sur le mur". La maison de Claudine, Livre de poche,
1922.
1 83
1 5 LACAN, J. (1973) "O aturdi to". In: Outros Esm"tos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.492.
1 6 N.E.: Em francês, d'eux evoca, homofonicamente, tanto "deles" (d'eux), quan
to "dois" (deux).
1 7 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90.
1 8 MILLER, J.-A. (1 975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55.
1 9 MILLER J.-A. "La fuite du sens", aula VI do dia 1 7/01 / 1996.
20 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90.
21 MILLER, J.-A. (1975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55.
22 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 1 4/02/1 996.
23 MILLER, J.-A. (1983) "Produzir o sujeito?". In: Matemas I. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1 996, p.1 55.
24 N.R.: mantivemos aqui a tradução proposta por Sérgio Laia em "Produzir o
sujeito?" In: Matemas I (cf. MILLER, J.-A. Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1 996, p.1 57. Trad. Sérgio Laia).
25 LACAN, J. (1 972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90.
26 LACAN, J. (1964) "A pulsão parcial e seu circuito". In: O Seminário, livro 1 1: Os
quatros concet"tos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 988,
p. 1 71 .
2 7 MILLER, J.-A. "Clôture", Le Conciliabule d'Angers, p.229.
28 MILLER, J.-A. (1 994-1 995) "O nó da repetição e da pulsão". In: Silet: Os para
doxos da ptilsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 1 68.
29 MILLER, J.-A. (1975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55.
30 FREUD, S. (1 909) "Notas sobre um caso de neurose obsessiva". In: Obra.r
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.X, Rio de
Janeiro: Imago, 1 976, p.208.
3 1 MILLER, J.-A. (1989-1 990) "El deseo dei padre". In: E/ banquete de los analis
tas. Buenos Aires: Paidós, 2000, p. 107. N.T.: Em francês, no termo "ira-a-cible",
encontramos as palavras "ira", a letra a (de objeto a e a palavra "cible" ("alvo") .
1 84
Na transposição desse termo para o português - "ir-a-scível", perde-se a referên
cia ao "alvo", embora o sentido de uma direção não deixa de ser aludido por "ir
a ... ".
32 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique", Le conciliabule d'Angers, op. cit., p.1 35.
33 HERGÉ, Albums de Tintin.
34 MILLER, J.-A. (1 989-1990) "El deseo dei padre". In: E/ banquete de los analis
tas. Buenos Aires: Paidós, 2000, p.107.
35 Ibid.
36 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique". In: Le conciliabule d'Angers, op. cit., p
1 35.
37 LACAN, J. (1973) "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista
da Escola". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.253.
38 LACAN, J. (1972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 196.
39 MILLER, J.-A. "Matrice", Ornicar?, n.4.
40 LACAN, J. (1972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p 195.
41 Ibid, p.196.
42 Ibid, p.45.
43 LACAN, J. (1 9 58) "De uma questão preliminar a todotratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.545.
44 SCHREBER, D. P. (1 905) Memórias de um doente dos nervos. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1984.
45 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.544.
46 MILLER, J.-A. "La fui te du sens", aula XIII do dia 27/03/1996.
47 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.576.
48 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula XIV do dia 3/04/1996.
49 LACAN, J. (1972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 190.
50 Ibid, p.196.
51 Ibid, p.189.
1 85
52 Ibid., p. 193.
53 Ibid.
54 Ibid.
55 Ibid., p. 198.
56 MILLER, J.-A. (1 983) "Produzir o sujeito?". In: Matemas I. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1996, p.1 55.
57 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 199.
58 Ibid, p.1 90.
59 LACAN, J. (1971-1 972) O Seminário, livro 19 . . . . ou pior. Rio de Janeiro: Zahar,
201 2.
60 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 14/02/1996.
61 Cf.: HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed) (1997) Os casos raros,
inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca
Freudiana Brasileira, 1998, p.1 25.
62 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 1 4/02/1 996.
63 LACAN, J. (1 972-1973) ''Aristóteles e Freud: A Outra Satisfação". In: O
Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.74.
64 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 14/02/1996.
65 N.R.: A expressão: J'en ai ras ma dent, que significa literalmente "Estou cheio
do meu dente", apresenta homofonia com o termo Ramadan, mês durante o qual
os mulçumanos devem se impor a abstinência (comida, bebida, tabaco, sexo)
entre o nascer e o pôr do sol.
66 LACAN, J. (1 972-1973) "Letra de uma carta de almor". In: O Seminário, livro
20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.1 06.
67 N.E.: no original, apparofe, termo criado por Lacan e no qual encontramos uma
referência à fala (paro/e) como aparelho (apparei� de gozo. A tradução aparo/a é
aquela adotada por V era Ribeiro, Angelina Harari e Marcus André Vieira nos tex
tos de: LACAN, Jacques. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2003, p.395 e 602.
68 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais,
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 193 (trad. mod.).
1 86
Seção Clínica de Bruxelas*
TRANSFERÊNCIA E PSICOSE NOS LIMITES
Queremos relatar aqui, para a reflexão na Convenção de
Antibes, três casos clinicas de psicoses que apresentam particulari
dades quanto à transferência.
Em dois textos, publicados em 1 9881 e 1 9892, Éric Laurent
refletia sobre a mudança operada na IPA durante os anos 1 960. De
fato, antes dessa data, encontramos numerosos estudos sobre a psi
cose, ao passo que, depois disso, os autores passaram a orientar suas
questões para os estados limites, incluindo os casos de desencadea
mento sob transferência. É igualmente a partir desse período que
floresce a noção de holding como modo particular da transferência a
ser sustentado pelo analista nos estados limites e frente às persona
lidades nardsicas, conceito que recobre o de borderline, menos grave.
O holding é uma técnica que pretende orientar a escuta analítica visan
do o apoio da personalidade, muito mais do que a análise do mate
rial sintomático. Grosso modo, embora haja vários usos e modalida
des do holding, pode-se dizer que todos se ligam a uma corrente
oriunda do último desvio de Ferenczi, sobre a análise mútua.
Queremos, portanto, nos perguntar sobre o que pode ser
uma prática da transferência nesses casos, quando somos orienta
dos pelo ensino de Lacan. Nossa resposta permanecerá parcial,
visto que é formulada a partir de três casos particulares. Esses casos
colocam a questão dos limites da transferência e da psicose.
O primeiro é um caso clássico de esquizofrenia acompa
nhado em instituição. Nele, a transferência se organiza em torno de
1 87
muitos, mas também com uma analista em particular. Pode-se ler aí
como o trabalho feito por muitos sustenta a imagem corporal não
investida narcisicamente, mas é na transferência particular que
surge, para essa paciente, a possibilidade de se sustentar a partir de
uma nomeação.
O segundo caso é tipicamente um caso que seria chama
do, por outros, um estado limite. Trata-se, com efeito, de um sujei
to ligado ao Outro por uma suplência que nomeia a sua relação com
o mundo: o tumor, significante assemântico. No decorrer do trata
mento, mas por uma razão independente deste - a cura do tumor -
produz-se um desligamento pela perda dessa suplência. A posição
do analista na transferência encontra-se, então, modificada.
No terceiro caso, trata-se de uma perturbação do humor.
A transferência é o lugar do suporte de sua historização, mas tam
bém de seu invólucro narcísico.
Observemos que, nos três casos, a tônica maior incide, a
cada vez, sobre a elaboração significante. Que esta seja um proces
so de organização do delírio ou, mais simplesmente, de historização
ou, ainda, uma tentativa de nomeação, trata-se sempre de tentar
organizar uma suplência de tipo sintomático, o que é muito diferen
te de querer sustentar ou organizar a personalidade.
Observemos ainda que um desses casos coloca a questão
da transferência múltipla. Isso se produz na instituição. Mas, nem
por isso a posição da transferência no tratamento analítico com um
certo número de sujeitos é menos interessante. Lembremos que um
de nós apresentou em Angers um caso de tratamento realizado
junto a três psicanalistas, paralelamente - essa intervenção foi publi
cada sob um pseudônimo4•
Finalmente, em alguns sujeitos, é o caso do primeiro e do
terceiro dos nossos casos, a manobra da transferência serve de
suporte ao narcisismo abalado ou inexistente do sujeito.
1 88
I. PRIMEIRO CASO
Eva tem onze anos e sempre foi esquizofrênica. Vive em
um real no qual as referências temporais, a escrita e o cálculo não
puderam se inscrever, nem mesmo o valor do dinheiro. Para ela, dez
moedas de um franco valem sempre mais do que uma moeda de
vinte; ter tomado uma vez seu remédio em casa, pela manhã, não a
impedirá de voltar a tomá-lo no Courtil, pois, uma vez mais uma
vez não é igual a duas vezes, mas uma só a cada vez.
O tema favorito de Eva é sua família. Fala disso longamen
te e de forma muito coerente. Notemos que, para ela, sua interna
ção no Courtil é uma exclusão da família, uma vez que é a única a
não dormir em casa, como observa.
Eva tem, de certa forma, duas faces que convivem uma
com a outra. É uma garota encantadora, extremamente educada,
que abraça e oferece balas. Consola as amigas, as acaricia e as defen
de quando tem oportunidade. Mas, em um segundo, torna-se inju
riosa, bate e agride o outro, pequeno ou grande, em um furor que
dá a impressão de que só se interromperá com o aniquilamento.
Uma única certeza vale, então: "o outro a chateou, xingou ou
bateu", e o que quer que lhe digamos, é ainda pior, pois se sente, de
novo, injustamente agredida. Esse furor de golpes parece não ter
encontrado, até o momento, nenhuma cessação.
Quando surgem os golpes? Quando se sente excluída da rela
ção com outras crianças e tem a impressão de que falam dela; quando
uma criança toma um objeto que ela cobiça; quando um recém chega
do toma um novo lugar no grupo; quando uma criança com quem ela
se encontra é agredida ou, ocupada com outra coisa, a deixa de lado;
quando se sente ofendida, às vezes sem razão aparente, alucinatoria
mente. Portanto, tudo o que irrompe entre ela e o outro, seja uma pes
soa ou um objetoa que está imaginariamente ligada, provoca uma ten
são agressiva que pode chegar à destruição do intruso, até mesmo a
própria criança a quem estava ligada, se esta romper a ligação.
1 89
Levantamos a hipótese de que os golpes são a realização
da figura paterna do gozo, essa dos chutes "na bunda". Para fazer
um pai edipiano que introduz a lei e o desejo, são necessárias duas
figuras paternas: o pai do gozo e o pai proibidor. No caso de Eva,
somente o pai do gozo funciona. No momento em que o eixo ima
ginário que a sustenta é rompido, ali onde o pai proibidor deveria
vir regular o mundo sustentando a lei, há apenas o pai feroz que
surge em seu furor sem limites. Não é de uma identificação com o
pai que se trata, mas de um retorno da ferocidade do pai no real.
Nenhum apelo à lei, portanto, surte efeito nesses momentos, nem a
interdição, a punição ou o diretor da instituição interrompem o pro
cesso; até mesmo ao contrário, sustentam-no e o reforçam. Em sua
última visita ao diretor, que a repreendeu seriamente, Eva disse à
atendente que a acompanhava durante a advertência: "Esse aí é
louco!", posição eminentemente irônica que mostra claramente a ine
xistência do Outro ao denunciar o semblante. Ela está às voltas
somente com um Outro louco, desregrado, um Outro real, aquele
do gozo.
O que pode vir, então, tamponar isso? Algumas mulheres
da equipe investidas por Eva podem limitar as irrupções de golpes,
muito embora não o consigam sempre. Com elas é um verdadeiro
enrosco físico, um agarramento ao corpo do Outro. Ela se joga nos
braços, se faz envolver e acarinhar. Fora da instituição, anda ao lado
da atendente apoiando-se em seu braço, fingindo cair para ser
levantada. Pede que a vistam e lavem o seu cabelo no banho. É
encantadora e cooperativa. Eva se sustenta numa figura materna, e
esse enrosco a envelopa, a segura, a constitui. Pode, então, passar
noites tranquilas, desapegar-se do apoio imaginário que encontrava
junto dos outros e evitar o insuportável que a precipitaria nos gol
pes. Mas, mesmo que se conseguisse fortalecer esse agarramento e
o seu consequente apaziguamento, conseguiríamos generalizá-lo em
outros momentos e lugares? Dessa bengala imaginária de que Eva
se serve atualmente para revestir seu corpo e fazê-lo se sustentar,
1 90
podemos esperar fazer suplência? No entanto, parece que contra a
ferocidade do pai a única arma possível é um furor de ternuras.
O lugar que Eva pede para a atendente ocupar é justamen
te esse que vai ajudá-la a se constituir enquanto ser vestido, paliati
vo ao corpo despedaçado, introduzindo um obstáculo ao surgimen
to do gozo desenfreado. Isso possibilita que Eva constitua para si
um novo lugar no mundo que não seja mais aquele do ser de deje
to, que sempre toma golpes dos outros, que é excluída da família ou
do grupo, objeto dejeto do Outro.
O que se relatou até aqui diz respeito a uma posição trans
ferencial que pode ser ocupada por vários atendentes da equipe.
Abordemos agora a especificidade da transferência que
Eva estabeleceu com uma atendente da instituição, que chamare
mos de K., e as condições que nortearam sua instalação.
Primeiro momento: em uma noite de confusão no grupo,
K. toma a decisão de restabelecer a ordem energicamente. Pune
uma criança e depois outra, mas não pune Eva. Toda vez que Eva
se sente visada, K. responde que não está lhe dando uma bronca. K.
a deixa em crise no chão, deitada, chorando e batendo os pés. Volta,
em seguida, para perto dela, preocupada com seu estado. Em pran
tos, Eva explica que em casa ela também tem crises, que os outros
a aborrecem, mas é ela quem leva a pior.
Segundo momento: depois de ter dado vários golpes vio
lentos em diversas pessoas, Eva é levada ao diretor para ser reenvia
da à sua casa. K. a encontra na recepção para acompanhá-la, e ela,
então, chora em seus braços, desculpando-se.
Terceiro momento: durante um passeio, Eva passará todo
o tempo de braços dados com K., deixando-se às vezes despencar
no chão, com o pretexto de dor nos pés. K. a levanta a cada vez,
garantindo-lhe que não a abandonará (laisser tomber) .
Quarto momento: Eva pede que K. seja sua "fiadora" e
escreve uma carta endereçada à reunião que oficializará, em segui
da, seu pedido.
19 1
Quinto momento: Eva diz, agora, a cada encontro com
K.: "Você é minha fiadora". Fala disso aos outros, atribuindo gran
de importância ao fato. Quando uma criança maltrata K., ela adver
te: "Não toque em minha fiadora". Um enunciado ainda mais sur
preendente foi dito a uma terceira pessoa ao designar K.: "Eu sou
a sua fiadora", enunciado inicialmente taxado de transitivista, mas
do qual, a posteriori, pode-se perguntar se não é muito mais uma ten
tativa de nomeação de sua posição em referência ao Outro. Esse
lugar de fiadora, que não atribui ao outro diretamente uma identifi
cação permitirá, talvez, a abertura suficiente sobre um "x" que
poderia, então, tentar nomear-se, circunscrever-se em uma constru
ção identificatória que viria revestir o objeto e barrar o gozo - não
mais pontualmente, na presença do Outro, mas que se inscreveria e
funcionaria fora dessa presença. Se, apesar da falta de inscrição sim
bólica tão patente nessa criança, a função de fiadora, que ela mesma
solicitou, pôde se inscrever, não é impensável que uma identificação
possa, em compensação, se construir e operar como suplência, e
não mais como bengala imaginária, na falta do simbólico.
O dizer não ao gozo não seria aqui gritar mais forte que o
supereu - figura do gozo paterno - mas proteger, envolver, reves
tir, erguer muralhas de amabilidades contra essa ferocidade.
1 1 . SEGUNDO CASO
Trata-se do tratamento de uma mulher psicótica que con
duz seu analista de surpresa em surpresa, ao ritmo das surpresas
que ela mesma encontra. A palavra "tratamento" deve ser tomada
aqui entre aspas: os encontros com esse sujeito situam-se ora do
lado das preliminares a qualquer tratamento da psicose, ora do
lado das soluções que ele mesmo encontra na medida em que
caminha. Nesse ponto, ele converge para a via que Lacan nos indi
ca. A moça, que consulta seu analista há mais ou menos dez anos,
1 92
introduz uma curiosa distorção na maneira de tratar aquilo que a
surpreende.
O significante assemântico é um significante sozinho.
Poderia ser, por exemplo, para a paciente em questão, a palavra
"tumor", tal como se inscreve em uma série sem fim, onde "tu mor
res (tu meurs) , tu mentes (tu mens) ; eu me minto (je me mens), eu me
mato (je me tue), tu me matas (tu me tues)", só valem por sua materia
lidade sonora como restos não simbolizados da língua materna. O
significante assemântico vale como instrumento de gozo. Vem, por
esse fato, no lugar do que falta no Outro.
Essa moça, de aproximadamente trinta anos de idade, fora
operada de um tumor maligno no cérebro. Os médicos lhe disseram
que era preciso esperar cinco anos para que pudesse se considerar fora
de perigo. Angústias de morte e afetos depressivos levaram-na a con
sultar um psiquiatra, que lhe prescreveu uma psicanálise. Essa pacien
te havia acabado de ler Mars, de Fritz Horn. É a história de um pacien
te acometido por um câncer que o leva à morte, e que tenta, com a
ajuda de sua biografia, delinear as causas psicológicas de sua doença.
Essa mulher enuncia, logo de saída, que espera de uma
psicanálise que esta lhe confirme a origem psicológica de seu tumor,
e que isso a torne imune contra uma recaída. A certeza dessa alega
ção leva o analista a acolher essa demanda com muita reserva.
Foram necessários anos de reconstrução de sua história para que
aparecesse a dimensão delirante dessa alegação. O conteúdo das
sessões revelou-se muito diferente conforme estivéssemos antes ou
depois da data fatídica. Antes, é a reconstrução de sua história em
torno do significante "tumor" que domina e polariza seus dizeres.
Depois dessa data limite, a coisa será completamente diferente: a
paciente desenvolve, apartir daí, uma série de fenômenos elemen
tares que farão aparecer em quê esse tumor lhe servira.
Ela situa seu primeiro mal encontro com o Outro no
momento de uma morte da qual é testemunha. Sua profissão leva
ra-a a assistir a uma operação médica que terminara com a morte
1 93
do paciente. 'Poder-se-ia pensar que foi por minha causa, disse ela, porque a
pessoa responsável tem a mesma cor de cabelo que eu, e um nome que se parece
com o meu. É como meu pai. O destino dele também é marcado por uma his
tória de nome. O segundo nome de meu pai é Anastase, que quer dizer imor
tal. Ele era dono de uma funerária. O primeiro nome de meu pai é "Léopold'�·
ele preferia que o chamassem Pol. Paul é o ex-namorado de minha mãe; Léa, é
a ex-namorada de meu pai. Eles se casaram no momento em que ambos esta
vam no luto de uma relação anterior. Pedindo para que o chamassem de Po�
meu pai abandonou Léa. " Essa analisante fazia frequentemente varia
ções dessa ordem, colocando em primeiro lugar o que o sentido
deve à materialidade sonora dos significantes.
Esse episódio antecede um outro acontecimento que
duplica a impressão que ela tem de ser culpada. Um de seus
irmãos havia se suicidado depois de uma briga com ela. Sente-se
responsável por esse suicídio, exatamente como se sentira respon
sável por não ter podido salvar, alguns anos antes, uma de suas
irmãs que acabara igualmente de se suicidar. Descobriu-.se, pouco
tempo depois, que ela tinha um tumor no cérebro, do qual foi
operada com urgência.
Essa mulher irá explorar obstinadamente os determinan
tes simbólicos de seu tumor, ao ponto de descobrir o que se apre
senta a ela como uma certeza. Seu tumor decorre do lugar que sua
mãe lhe deu: ocupar o lugar de um morto. Ela passou muito tempo
a desdobrar essa certeza referindo-a a sua história, a seus sonhos e
aos dizeres de sua mãe. Antes de seu nascimento, sua mãe perdeu
gêmeos dos quais estava grávida. Esse aborto espontâneo teria sido
causado por uma queda da escada provocada por uma criança, ou
por uma bola que um de seus ftlhos teria jogado acidentalmente.
Ela nasceu dez meses mais tarde e recebeu um nome duplo, que
retoma os nomes dos gêmeos. Acredita ter tido, ela mesma, uma
irmã gêmea que teria morrido ao nascer, mas não encontrou traços
disso nos registros de nascimento. Aproxima, finalmente, as cir
cunstâncias de seu nascimento com o que se passara com sua mãe.
1 94
''M.inha mãe me disse que eía mesma fora concebida no caso de que sua irmã
viesse a morrer. Ela era como eu, uma criança reserva".
Estávamos nesse momento de sua análise em um univer
so sem surpresas. Tudo aí já estava determinado. Mas, então, que
estatuto dar a esses cinco anos passados na reconstrução de uma
história? O tumor cerebral e sua recuperação por meio de uma
reconstrução histórica parecem ter-lhe permitido tomar alguma dis
tância em relação a um Outro bastante inquietante, a menos que
essa reconstrução fosse, ela mesma, delirante.
A questão que tudo isso colocou foi de saber se convinha
ou não seguir no sentido dessa construção. Reconstruir a história
equivale a atribuir a cada um o lugar que ele ocupa. Em que lugar
convinha ao psicanalista se colocar, e, sobretudo, em que lugar con
vinha a ele não se colocar? O que regia esse momento dos encon
tros era uma certeza. ''M.inha mãe sabe. Ela não suportava a mentira. Ela
sabe e eu não sei". O tumor não faz enigma para essa analisante.
A paciente se casa depois de alguns anos de análise e dá à
luz a um menino. Sua mãe morre no dia seguinte, depois de ter visto
a fotografia do neto. ''M.inha mãe me deixou seu lugar. É como se eu pen
sasse que ainda não nasci". É nessa época que ela fica sabendo, pelos
médicos, que não corre mais risco de recidiva.
Até esse momento, as coisas iam bem para ela, apesar de
todo o contexto dramático com o qual envolve seu tumor. Casou
se, é mãe de uma criança, renuncia a uma atividade profissional
muito ligada à morte para dedicar-se a um trabalho de tradutora e
documentalista. Inegavelmente, o fato de ter reconstruído sua his
tória em torno de uma certeza, "Ocupo o lugar de um morto ", a apazi
guara. Porém, o nascimento de seu filho, a morte de sua mãe, jun
tamente com o comunicado de sua cura, inauguram um quadro clí
nico completamente diferente. O que acelerou a regressão imaginá
ria? Será a palavra do médico anunciando-lhe, após cinco anos, que
o risco de recidiva estava afastado? Ou será o acontecimento que
une o nascimento de seu filho e a morte de sua mãe?
195
O apoio que ela encontrava no significante "tumor" de
repente lhe falta, revelando, ao mesmo tempo, em quê ele lhe ser
via. Esse tumor tinha, para ela, valor de ponto de basta. Esse tumor
parece ter tido para ela o mesmo estatuto de uma metáfora deliran
te, com a diferença que ela teria se passado no real do corpo. Esse
tumor lhe assegurava um ponto de ancoragem no campo do Outro,
que ela não parou de consolidar fazendo referência à sua história. A
cura do tumor lhe tirou esse ponto de ancoragem. Ela se viu, de
repente, confrontada com um Outro gozador.
Este se apresenta, desde então, sob as mais diversas for
mas. Ouve vozes que a xingam de safada, que lhe dizem "tu men
tes", ou ainda, que deve se matar (se tuer) . Sente-se espionada. As
pessoas lhe fazem sinais que não entende e que lhe amedrontam.
Constata que objetos desaparecem de sua casa, ou ainda que a qui
lometragem de seu carro mudou. Tem a impressão de que alguém
está entrando em sua casa ou andando com o seu carro. Encontra
comprimidos em sua casa e teme que um estranho tente fazer de
seu filho de quatro anos um drogado.
A intrusão do Outro é onipresente em seu universo. O que
domina o quadro nesse caso é uma total incompreensão do que lhe
acontece. A perplexidade e também a angústia que acompanham
todos esses fenômenos fazem com que ela pense nisso continua
mente. Essa figura do Outro toma na transferência uma forma
inversa, oferecendo, ao mesmo tempo, ao analista uma estreita, mas
real, margem de manobra: '3' e não acreditarem em mim} eu me mato (je
me tu e) J� diz repetidamente. Não acreditar nela equivale, para ela, a
uma condenação à morte. Da letra "tumor" (tumeur) ao significante
"matar" (tuer) se traça toda uma série de signos que só tem sentido
pela proximidade sonora: tu morres (tu meurs) , tu mentes (tu mens),
eu me mato (je me tue), tu me matas (tu me tues) , etc.
A clinica do desligamento também se manifesta, por
exemplo, nesses sujeitos que não podem terminar uma frase ou que
não conseguem encerrar a sessão. Isso é particularmente patente
1 96
nesta paciente. Os finais de sessão lhe colocam tanta dificuldade
que ela continua falando mesmo depois que o analista se levanta, e
depois na soleira da porta e ainda no corredor. O abandono do
Outro, ou ainda, a perda de um bom uso do ponto de basta, é mar
cado por uma dificuldade e até mesmo uma recusa em concluir.
Jacques-Alain Miller chegou a se perguntar, em Arcachon, se não
podíamos considerar essa dificuldade com o ponto de basta como
um fenômeno elementar, tal qual as alucinações, os neologismos e
a certeza psicótica.
Buscar o que há de mais singular nas pequenas invenções
de um sujeito coloca-nos na via do tratamento que ele já encontrou.
Na presente situação clínica, tratava-se principalmente de levar a
sério uma indicação que ela dava ao analista: '�e não acreditarem em
mim, eu me mato". Acompanhá-la na via da reconstrução de um
mundo habitável passa por levar em conta seu delírio. O verdadei
ro leitmotiv de sua vida deve ser tomado como um apelo de que exis
tam pequenos outros que levem a sério seu delírio, seus fenômenos
psicóticos, que são a solução que ela encontrou para não morrer. A
posição do psicanalista é, nesse caso, bastante reduzida. De supor
te passivo do saber que ela supunha ao seu tumor, o psicanalista
viu-se reduzido a ter que sustentar a posição de ao-menos-um a
acreditar nela, nem demais nem muitopouco.
Dois tipos de intervenções se deduzem daí, segundo ela se dê
no nível do significante ou no nível do gozo. No nível do significante,
ali onde o psicótico solicita um Outro que sabe, um Outro a partir de
então persecutório, o psicanalista poderia ficar tentado a tomar a des
completude do Outro sobre si. Poderia ficar tentado, como alguns sus
tentaram, a operar sobre a falta no Outro se apresentando, ele mesmo,
como faltoso. O que surge, de imediato, é que tal manobra não pode
ser feita nem pensada senão a partir de um lugar de exceção, de um
lugar onde o Outro não seria, justamente, faltoso. Tomar a falta sobre
si só é possível a partir de um lugar em que o Outro sabe, pois é pre
cisamente isso que é patogênico para o psicótico.
1 97
Se o sujeito suposto saber é patogênico para o sujeito psi
cótico, importa que o analista possa, sobre esse ponto, optar por
uma posição de abstenção. Descompletar o Outro é, em primeiro
lugar, intervir de um lugar onde isso não se sabe. Isso pode tomar
uma forma muito concreta. É, por exemplo, recusar toda mensa
gem de esperança, toda forma de promessa. Prometer a um sujeito
psicótico dias futuros mais felizes pode, eventualmente, precipitá-lo
em uma passagem ao ato para desmenti-lo.
Descompletar o Outro pode ser também introduzir sua
divisão no real. Não se dirigir diretamente ao psicótico pode ser
uma forma concreta de introduzir no real uma falta no Outro5•
Desdobrar o interlocutor ali onde o psicótico situa o Outro de seu
delírio, constitui uma outra maneira de intervir6•
Colette Soler propõe um tipo de intervenção que procede
do que ela chama "orientação do gozo"7• Tratar-se-ia, nesse caso,
por um lado, de introduzir um limite ao gozo quando este se faz
invasivo e destrutivo, e, por outro lado, sustentar o gozo quando
este se abre no sentido de uma realização efetiva do sujeito.
O que quer dizer limitar o gozo? Essa paciente construiu
para si, por meio de seu delírio, um Outro que quer a sua morte. É,
portanto, esse Outro que deve ser destituído. Destituir o Outro do
gozo pode tomar formas muito concretas. Pode tomar a forma de
uma lenta restauração do Outro da alienação a partir da localização
dos signos e das marcas que esse Outro deixou na história do sujei
to. Isso consiste também em sustentar o sujeito nas pequenas inven
ções que ele instaura para se defender desse Outro gozador: assoar
o nariz para não ouvir vozes, substituir o telefone com fio por um
celular, menos propício ao transporte de vozes, ensinar seu filho a
fazer tranças com pedaços de corda que um desconhecido teria
usado para tentar enforcá-lo, delimitar a função dos diferentes
cômodos da casa a partir de um jogo de construção, etc. Uma
forma de destituir o Outro poderia ser, aqui, trazê-lo de volta para
o terreno dos jogos infantis.
1 98
1 1 1 . TERCEIRO CASO
Quando o senhor B., um maníaco-depressivo, encontra
sua analista pela primeira vez, ele está à procura de alguém "que escu
te suas construções e que não tenha medo". Tem trinta e dois anos e vive
em um abrigo de pós-tratamento há três meses.
Foi hospitalizado pela primeira vez aos dezessete anos.
Seus pais haviam se recusado a comprar para ele um par de sapatos
igual ao do namorado. A perda dessa relação especular com o
namorado levou-o ao hospital. Ele descreve tal hospitalização como
um inferno, um campo de concentração. Sua vida é, em seguida,
pontuada por tentativas de volta à vida social (trabalho, vida comum
com um homem, etc.) , tentativas que terminam todas em fracassos
e em novas hospitalizações.
No início de sua análise perde dois empregos, pois fica
nervoso com os clientes e responde-lhes rispidamente. Fica um ano
sem trabalho, abandona o abrigo de pós-tratamento e se inscreve
para obter um apartamento supervisionado. Duas coisas o susten
tam durante esse momento difícil: o pagamento de suas dívidas a
terceiros e o relato, ao longo das sessões, de suas dificuldades de
viver, da vida pobre que leva por causa de sua falta de dinheiro e do
vazio de sua vida afetiva.
Em seguida, encontra um trabalho e se instala em um apar
tamento. Leva adiante seu trabalho há mais de três anos, o que nunca
lhe acontecera, e não é hospitalizado há cinco anos, o que também
nunca lhe acontecera desde sua primeira hospitalização. Isso se deve,
parece, a três elementos: a uma construção subjetiva, a sua homos
sexualidade como sintoma e às modalidades da transferência.
Ele dá início a uma construção do manejo do dinheiro que
alterna entre gastos em momentos de excitação e pagamentos em
seguida. Os pagamentos são momentos difíceis que ocupam todo
seu tempo e sua mente. Para sua analista está também sempre
devendo algumas sessões, que são pagas rigorosamente.
1 99
A homossexualidade como sintoma forma um ponto de
tensão entre seus ideais (família, ftlhos, mulher, etc.) e sua vida nas
saunas, nos parques e bares em uma busca declarada, mas não assu
mida, de uma relação afetiva estável.
Sua transferência à psicanálise toma um lugar estabiliza
dor. Ele trabalha em sua análise. Uma intervenção de sua analista:
'Venha, faço questão que o trabalho continue", faz com que retome as
consultas: �h! Então eu irei". Ressaltemos que é ele quem conduz
essa análise: "Hqje, será uma análise freudiana", diz; ou então: "hqje, será
uma análise psicometaftsica". No entanto, a psicanalista e stá ali e o
enquadre se mantém; este enquadre é flexível, mas não cede a seus
"caprichos". Como ele mesmo diz, ele "não poderá comprar sua psica
nálise como se compra uma cadeira".
O psiquiatra trata sua psicose maníaco-depressiva com
medicamentos. O paciente considera que é uma doença, como a
diabetes, por exemplo, mas que não o define, não é um "você é
isso". A psicanálise, ao contrário, permite-lhe buscar quem ele é e
como se arranjar com suas tensões.
A psicanalista faz poucas interpretações e propõe, sobre
tudo, uma escuta dessa palavra endereçada. Ela intervém oportuna
mente para esvaziar um cenário como esse que ele elaborara ao
começar seu novo trabalho: �credito que estou me tornando o filho espi
ritual de meu patrão!". Ela fez, então, com que ele observasse que fora
contratado somente para trabalhar.
Esse trabalho de análise é, em parte, a oferta de um supor
te narcísico na busca de um laço social desse paciente.
200
Notas
•
Relator: Alexandre Stevens
1 LAURENT, É. "Limites de la psychose", Les p�chiatres et la p�chana!Jse al!fourd'hui,
GRAPP, 1988.
2 LAURENT, É. "Aux limites de la psychose: discussion de trois cas", Les Feuillets
du Courtil, n.l .
3 Ver: ASSOCIATION MUNDIAL D E PSYCHANALYSE (ed.). Les pouvoirs de
la paro/e, Le Seuil, 1 996.
4 ZERGHEM, M. "La pratique à plusieurs - Dédoublements de l'analyste", Le
conciliabule d'Angers, Agalma-Le Seuil, Le Paon, 1 997.
5 ZENONI, A. "Clinique d'un enfant psychotique", Préliminaire, n.4.
6 KUSNIEREK, M. "lntroduction aux Journées du RP".
7 SOLER, C. "Quelle place pour l'analyste ?", Actes de ECF, XIII, p.30.
Z01
Antenne Clin(que de Toulouse*
O PSICANALISTA COMO AJUDA-CONTRA
O que é um percurso analítico? Poder-se-ia descrevê-lo,
com Lacan, partindo do destino do sintoma no tratamento, do
complemento de saber à função de enodamento, ou seja, do "sinto
ma patológico" - aquele do qual o sujeito se queixa e pelo qual sofre
- até a sua armadura - o sinthoma, o resíduo que sobrevive a seu
deciframento e à interpretação.
Se essa perspectiva pode ser tida como invariável em
Lacan, ela coloca, contudo, três questões:
1 . Como e em que condições se efetua essa passagem do
sintoma ao sinthoma?
2. Qual é a função e qual é o destino do agente dessa ope
ração, o analista?
3. Esse processo é rigorosamente o mesmo, e o analista
mantém o mesmo lugar de acordo com a estrutura do sujeito, seja
ela a neurose ou a psicose?
Desejamos trazer uma contribuição para a solução da ter
ceira questão.
I. DO COMPLEMENTO DE SABER À FUNÇÃO DE ENODAMENTO
Tomemos comoponto de partida o que propõe Lacan,
em 1 966, no relatório de seu Seminário Prob/emes cruciaux pour la
p.rychanafyse:
203
''A dificuldade de ser do psicanalista decorre daquilo que ele encontra
como ser do sujeito: a saber, o sintoma.
Que o sintoma seja ser-da-verdade, é nisso que todos consentem, por
sabermos o que quer dizer psicanálise, não importa o que se faça para
em baralhá -la.
Donde vemos o que custa, para o ser-do-saber, reconhecer as for
mas afortunadas daquilo com que ele só se acopla sob o signo do
infortúnio.
Que esse ser-do-saber tenha que se reduzir a ser apenas o complemen
to do sintoma, eis o que o horroriza e aquilo que, ao elidi-lo, ele faz
funcionar no sentido de um adiamento indefinido do estatuto da psi
canálise como científica, entenda-se"'.
Salientemos simplesmente aqui o lugar e a função inaugu
rais do analista. É como ser-do-saber que ele entra no processo ana
lítico para completar o ser-de-verdade do sintoma. É essa comple
mentação, portanto, que enlaça sintoma e transferência, fazendo do
sintoma inicialmente incompleto um sintoma sob transferência. O
fato de que o analista venha a ocupar, em seguida, a função de sem
blante do objeto a, não desenlaça ipso facto aquilo que estava enlaça
do. É porque a complementação do sintoma pelo ser-de-saber do
analista vai colocar o sintoma na dependência direta da transferên
cia. No processo assim iniciado, o sintoma pode ser decifrado e
reduzido, mas não poderia atingir sua função de sinthoma senão com
a condição de que seu deciframento seja "concomitante a um pro
cesso de resolução da transferência"2•
Assim, esvaziado de seu sentido, seu gozo sendo desvalo
rizado, o sintoma torna-se sinthoma, ou seja, um sintoma que acome
te o fora-do-discurso - um sintoma que vira as costas e dispensa
todo ser-de-saber, um sintoma fechado ao artifício psicanalítico e
reduzido a uma dupla função: função topológica - de enodamento
-, e função de gozo - da letra. Mas, para esta última, deciframento
e resolução da transferência permanecem insuficientes. É preciso aí
uma outra condição que Lacan enuncia em "Lituraterra": " . . . só se
goza com isso ao chover aí a fala de interpretaçãom.
204
Pode-se considerar, no caso da neurose, que o psicanalista
que foi complemento do sintoma no início da experiência assim
permaneça ao seu término, uma vez que o sintoma se reduz à sua
armadura?
Parece antes que a noção de sinthoma objeta a qualquer
ideia de complemento - em particular complemento de saber -, e
que a resolução da transferência fecha definitivamente o
sintoma/ sinthoma ao acesso do Outro, estabelecendo uma nova
forma de autismo do gozo, aquele da letra que satura a função do
sintoma: I: (x) .
No entanto, isso se coloca diferentemente nos casos de
psicoses, desencadeadas ou não.
É notável que seja em seu seminário sobre Joyce que
Lacan tenha estabelecido mais claramente a função do analista não
mais como "complemento" do sintoma, mas como sinthoma.
Lacan considera que o psicanalista só pode se conceber
como sintoma, ou seja, no final das contas, "uma ajuda da qual, nos
termos do Gênesis, pode-se dizer que é uma reviravolta". Uma revi
ravolta em relação ao sintoma analítico, ao sintoma do analisante
completado pelo sujeito suposto saber. Aí, o analista, como sinto
ma, faz ex-sistir aquilo contra o que o inconsciente do sujeito ana
lisante possa se apoiar. Apoio que Lacan faz jogar com pensar, falan
do de appensamento. Apoia-se contra um significante para pensar. Para
Lacan, o nó borromeano é apoio para o appensamento de quê? Do
furo freudiano, do qual a hipótese do inconsciente toma seu supor
te. Que esse furo - por onde se revela que não há Outro do Outro
- possa fornecer uma ajuda, uma ajuda contra o inconsciente
homossexual, tal é a reviravolta lacaniana do analista-sinthoma.
Essa afirmação, se ela é generalizável a toda psicanálise,
vale mais particularmente para a clínica da psicose, mas com a con
dição de definir topologicamente as psicoses como falta ou dificul
dade de enodamento dos elementos da estrutura - psicoses da
infância -, ou como acidente de desenodamento - psicoses adultas.
205
Parece claro, a partir daí, que a perspectiva borromeana da psicose
exclui a hipótese de uma complementação do sintoma psicótico
pelo ser-de-saber do psicanalista. Para isso há, pelo menos, duas
razões. Por um lado, contrariamente ao sintoma neurótico, o sinto
ma psicótico é menos um ser-de-verdade do que um ser-de-gozo.
De fato, o ser-de-verdade é o outro nome da metáfora do sintoma
na medida em que a metáfora do recalque é constitutiva do campo
da verdade. Se o sintoma neurótico é um ser-de-verdade, é na estri
ta medida em que é um retorno do recalcado e tem a estrutura de
metáfora. Sabe-se que não acontece o mesmo para o sintoma psi
cótico que procede da foraclusão. O que faz retorno no real pode
ser nomeado de outro modo senão como ser-de-gozo?
É, portanto, pela mesma razão que o sintoma psicótico
não se interpreta, que ele não se complementa. Por outro lado, nas
psicoses, trata-se quase sempre de obter um enodamento ali onde
ele tem dificuldade de se efetuar, de evitar um desenodamento ali
onde o sujeito corre um risco ou de ajudar a refazer um nó ali
onde o anterior se desenodou - como nas psicoses adultas desen
cadeadas.
Na neurose, a operação do analista visa obter a correção
do nó que se realiza com a passagem do sintoma ao sinthoma. Na
psicose, porque não há análise - não há deciframento do sintoma,
não há construção da fantasia, não há resolução da transferência,
não há interpretação -, é o próprio analista que é convocado no
lugar do sintoma. De fato, nenhuma elaboração significante, nenhu
ma pacificação do gozo, nenhuma estabilização é suficiente para
fazer passar o sintoma psicótico ao sinthoma. Se, na neurose, o ana
lista satura a função do sujeito suposto saber, não seria o caso de
dizer que, na clínica das psicoses, é a função de sinthoma que ele é
convocado a suportar?
É preciso ressaltar que essa posição do analista-sinthoma
que Lacan define na lição do dia 1 3 de abril de 1 976 não é especifi
camente reservada à análise do sujeito psicótico. No entanto, não
206
podemos senão ficar surpreendidos pelo fato de que sua lógica não
contradiga isso, muito pelo contrário. É como se Lacan tivesse se
servido da psicose, em seus últimos Seminários, para redefinir os
conceitos da psicanálise. Assim, a posição do analista-sinthoma vale
tanto para a neurose quanto para a psicose. Aí, há continuidade; não
da neurose à psicose, mas, antes, continuidade na posição do analis
ta, pois ela é fundada a partir da psicose tomada como modelo das
relações do sujeito com o Outro e com o gozo.
Ali onde Freud só sustenta sua hipótese do inconsciente
supondo o Nome-do-Pai - a pessoa suposta ao recalcamento, o
recalque em pessoa -, Lacan faz do sinthoma uma resposta que vale
como uma ajuda contra o complexo de Édipo. Ajuda contra pela
qual "a psicanálise, por ser bem sucedida, prova que podemos
muito bem prescindir do Nome-do-Pai, com a condição de nos ser
virmos dele".
Eis aqui o axioma lacaniano que deveria ser colocado à
prova da análise com o psicótico, que é muito mais desprovido do
que o neurótico do Nome-do-Pai. Ao neurótico, pouco importa
servir-se do Nome-do-Pai, pois prescindir dele quase não lhe faz
diferença. Mas o psicótico, como fazer para que ele se sirva disso de
que ele poderia prescindir, se isso não lhe faltasse cruelmente?
Seria necessário, então, que o analista fosse, como sinthoma,
uma ajuda contra o que o impele na direção d'A mulher em seu
encontro com Um-pai, uma ajuda contra seu "sem razão" que lhe
serve de apoio contra o significante do Outro que não existe, S (A) .
Dois casos clínicos examinados do ponto de vista da dinâ
mica transferencial nos ensinam que, a partir do momento em que
se considera o final da análise, pode-se concernir um para além do
Édipo.
207
11. "NÃOSOU MAIS UMA MULHER"
Vários tempos escandem o modo de aproximação da Sra.
A. em direção à psicanálise. No primeiro momento, ela encontra a
psicanálise por ocasião de um sintoma de seu filho pequeno.
Percebe que está implicada no sintoma desta criança, que nasceu
pouco tempo após a morte de seu marido, e que reage ao luto no
qual ela se mantém. O sintoma do filho, embora bastante espetacu
lar, cedeu rapidamente, criando na mãe um certo encantamento
face ao poder da palavra.
O analista não vê utilidade em prolongar as entrevistas,
pois parece que a criança não tem mais grande coisa a dizer, fican
do aliviada somente pelo fato de que sua mãe encontrou um início
de solução para além dela. Portanto, não tem mais necessidade de
levar adiante seu sintoma para sustentar essa mãe.
Um pouco depois, a mãe retomará o contato, desta vez
para ela mesma, pois não precisa mais usar a questão de seu filho
como sintoma. Sente, contudo, necessidade de falar: as entrevistas
enfatizaram a hiância criada pelo falecimento de seu marido. Evoca
os despertares penosos que vêm escandir o desaparecimento desse
homem que encontra em seus sonhos cotidianamente. É com muita
dificuldade que confia o teor desses sonhos, como se, falando deles,
ela traísse o falecido. Instala-se, então, uma certa reticência em se
engajar na relação transferencial porque ela vem em concorrência a
esse luto impossível de fazer.
Um momento crucial marca a entrada da Sra. A. no pro
cesso transferencial. Está claro, então, que a Sra. A. vem por ela
mesma, seu filho não lhe coloca mais problemas e a morte do mari
do não aparece mais como a única origem de seus males. Nesse dia,
a Sra. A. fala de um mal-estar que carrega desde a adolescência e do
qual nunca havia falado.
Tinha então dezoito anos e acabara de passar no vestibu
lar. Era verão, seu pai e sua mãe se reuniram após muito tempo de
208
separação devido à profissão do pai, que trabalhava no estrangeiro
(en expatrie) . A família alugou uma casa de campo de uma proprietá
ria que, ouviu-se dizer, acabara de morrer de um tumor no cérebro,
sendo essa a única sombra no quadro desse verão que poderia ser
idílico. A moça está, portanto, na praia, aproveitando o sol e, de
repente, sente algo indefinível: o mundo lhe parece estranho, e ime
diatamente sente-se estranha a ela mesma. Não fala a ninguém
sobre o episódio do qual leva dois anos para se recuperar sem a
ajuda de ninguém. Diz, então, nunca ter sofrido tanto na vida.
Conclui essa sessão dizendo que tinha claramente a impressão de
que tudo isso era da ordem da loucura e, sobretudo, que sempre
havia pensado em nunca contar isso a um especialista, que poderia
etiquetá-la.
Percebe que essa angústia nunca a abandonou completa
mente, sempre está ali, pronta para surgir, precisamente nos
momentos em que, por conta de sua profissão, é levada a tomar a
palavra em público. Fica, em alguns momentos, à beira do desliga
mento, e teme ser desvelada em uma posição de impostura.
O relato de sua angústia de adolescente marca, portanto,
uma virada no tratamento. A Sra. A. vai desdobrar a partir daí algu
mas das identificações que prevaleceram em seu ambiente familiar,
até chegar a seu irmão mais velho natimorto que teria sido necessá
rio substituir no desejo de sua mãe.
A liberação desse ponto faz com que recue. Por que razão
remoer essas velhas histórias? Viera pela saúde de seu ftlho, ele está
bem agora. Pode ir embora.
Apesar de tudo, ela volta, mas de novo acompanhada de
seu ftlho e por uma razão bastante banal: ninguém podia tomar
conta do garoto naquele dia.
O analista escolhe deixar de lado o garoto e a Sra. A. não
pode mais recuar em relação a falar do segredo de família que pro
cura calar, já há algum tempo, e que diz respeito à vida íntima do
avô paterno que teve o papel de patriarca. Este segredo desvelado
209
sublinha a impostura dessa figura patriarcal e a dificuldade da Sra.
A. em se localizar na questão: o que é uma mulher? Faltou pouco,
nesse dia, para que a presença do garoto impedisse a Sra. A. de che
gar a esse indizível.
A Sra. A. fica aliviada de ter podido colocar uma palavra
sobre essa situação familiar do avô. Mas pouco depois dessa sessão,
ela volta a desaparecer.
Voltará, muito angustiada, seis meses mais tarde. Um
acontecimento de sua vida de mulher acaba de lembrar-lhe a angús
tia sentida frente a sua mãe, que acabara de ser submetida a uma his
terectomia: 'Tiraram-me tudo) não sou mais uma mulher)), dissera ela a
sua ftlha. Ora, a Sra. A. fora · tomada por essa frase sem compreen
der seu sentido. Lembra-se que após esse episódio tivera o que cha
mam de "crise de nervos"; depois, que uma angústia surgira alguns
dias mais tarde: a impressão súbita de ser masculina. Essa sensação
sinestésica angustiante voltou regularmente, sendo acompanhada
por um sentimento de vergonha. Era preciso esconder isso de qual
quer jeito.
Permaneceu, portanto, sozinha com essa sensação, que
voltava de vez em quando e que desencadeava muita angústia. Hoje,
faz o laço entre essa sensação corporal e a frase de sua mãe que
havia desencadeado sua perplexidade: "Não sou mais uma mulher)� É
como se essa sensação corporal viesse assinalar, em eco com a frase
da mãe, que ela também não era mais uma mulher.
É importante notar que essa angústia desapareceu duran
te toda sua vida conjugal, mas que ressurgiu no momento em que
ficou viúva. A Sra. A. pode agora reconhecer que é disso que se
trata nessa angústia do despertar de todas as manhãs quando seu
novo companheiro passa a noite com ela.
Poder-se-ia, portanto, supor que o casamento conseguiu
manter algum ponto de basta, algum enodamento, devido talvez ao
aspecto muito narcísico desse amor que lhe permitia encontrar no
corpo do outro uma metáfora para fazer calar esse gozo impossível.
2 1 0
Nesse amor fusional, ela podia se imaginar sendo o outro masculi
no, sem problemas. Por outro lado, quando ele morre, o luto torna
se particularmente impossível e, no atual momento, pode-se com
preender por quê: ela não só perde seu marido, mas também o que
tinha para ela valor de sintoma, ou seja, o que lhe permitia metafo
rizar esse gozo transexual. Então, são essas sensações no limite da
alucinação que a espreitam ao despertar quando ela tem a quase cer
teza de que esse homem está ali. Sim, ele está realmente ali, mas
nela, como na época de suas angústias adolescentes.
Essas angústias precederam o momento de despersonali
zação que sobreveio no verão do vestibular. É preciso assinalar que
esse momento corresponde a uma degradação da posição social do
pai, revelando uma falha da função paterna.
Por esse fato, pareceria difícil para essa paciente encontrar
a solução do sintoma para remediar a não-relação sexual e inscre
ver, assim, alguma ordem na copulação significante.
A relação dessa paciente com o significante é marcada por
uma espécie de espontaneidade que lhe vale efeitos de surpresa e
sideração, o que poderia fazer dela uma campeã da associação livre,
mas que revela, antes, que em certos momentos ela está às voltas
com o deslizamento metonímico. Isso a angustia e impõe rupturas
no laço analítico.
Na rubrica das relações dessa paciente com o significante,
é preciso situar a impressão angustiante de masculinidade. O efeito
sentido em seu corpo pela via sinestésica - e não pela via sintomá
tica - em resposta à frase do Outro materno, "Não sou mais uma
mulher, tiraram-me tudo '� indica que ela está presa na rede do que ela
entende como uma injunção, o que coloca seu corpo em uma com
pleta dependência em relação ao Outro; e é nessa submissão, e não
fora dela, que ela goza. O sujeito se encontra reduzido ao ser de seu
corpo, o que está na estrutura da experiência de despersonalização.
No entanto, vemos que essa paciente tem o recurso de
poder escapar por alguns momentos dessa captura. Durante a vida
2 1 1
de seu marido, parece que não teve episódios angustiantes.Mas,
desde seu falecimento, as angústias reapareceram. É preciso dizer
que o marido morto é realmente uma figura emblemática do mes
tre hegeliano. Ora, vê-se bem que é então seu filho que vai atraí-la
para fora dessa relação, na medida em que ele se obstina a não res
ponder à sua demanda, encarnando, assim, o ponto de gozo à deriva.
Por seu sintoma, ele serve de sintoma a sua mãe.
O fato de privar essa mãe de seu sintoma poderia ter feito
com que vacilasse e revelasse sua estrutura; em casos semelhantes,
isso pode sempre acontecer. Ora, isso não acontece aqui. Parece
que a transferência lhe permite encontrar o apoio que lhe falta.
Porém, essa relação transferencial parece constituir tam
bém uma ameaça. E por isso, espontaneamente, no momento do
surgimento do que nós estaríamos tentados a chamar de um fenô
meno elementar, ela escolhera calar-se por temor de uma resposta
do Outro. Nessa época, evitara cuidadosamente ir buscar do lado
do Outro um "ser-de-saber" para completar seu "ser-de-verdade".
1 1 1 . EM QUE CONSISTE SER UM HOMEM NORMAL?
O Sr. D. dá testemunho nas primeiras entrevistas do que
ele nomeia de uma "angústia existencial", concernente às suas difi
culdades de investir seus estudos universitários e o fracasso de suas
relações sociais e afetivas com as mulheres.
É um rapaz de vinte e quatro anos, brilhante, culto, estu
dante de ciências, que, no entanto, fracassou em todos os exames
desde seu sucesso no vestibular, "em razão de suas dificuldades psi
cológicas", diz. É, portanto, essa série de fracassos e maus resulta
dos que o leva a encontrar um ''psl' para lhe apontar uma causa.
O analista logo observa a discordância existente entre, de
um lado, uma apresentação controlada de si mesmo e das circuns
tâncias históricas desses "fracassos" e, de outro lado, uma enuncia-
2 1 2
ção "flutuante" de suas dificuldades. Oscila, de fato, entre dizeres
em que surgem interrogações angustiadas sobre as perturbações
que o afetam e comentários irônicos e agressivos sobre o enquadre
proposto pelo analista ou sobre as suas intervenções.
Sofre, diz ele, por não poder sair de casa, por medo de
enfrentar o olhar dos outros. Quando está em um anfiteatro, é obri
gado a se posicionar de uma maneira tal que os outros estudantes
fiquem atrás de si e que ele fique perto de uma saída para poder ir
embora caso sinta um mal-estar. Se o olhar dos outros se coloca
sobre ele, é invadido por sensações corporais desagradáveis, que ele
chama de "descargas", uma espécie de formigamento que enrubes
ce e invade seu rosto. Pode, também, sentir suas mãos dormentes,
como se não fizessem mais parte de seu corpo. Não suporta essa
sensação de desprendimento de seu corpo. Sente se predispor men
talmente a essas descargas, enrijecendo seu corpo, mas é impotente
para controlá-las, apesar dos estratagemas que emprega: se fixa em
uma ideia, ou olha para seus interlocutores nos olhos para lhes fazer
abaixar o olhar. Esses fenômenos o invadem, e ele mobiliza uma tal
energia para neutralizá-los que não consegue mais se concentrar em
seu trabalho, desabando em prantos, com a vontade de se aniquilar
para fazer com que o sofrimento pare.
Foi em seu primeiro ano de faculdade que sentiu pela pri
meira vez essas descargas, no exato momento em que devia fazer
uma demonstração no quadro negro. Acreditava-se "inspecionado"
pelo olhar inquisidor de seus colegas e de seus professores. Ele, que
fora sempre um aluno brilhante, no momento mesmo em que lhe
pedem para se mostrar à altura disso, falha, é invadido por esses
fenômenos "sinestésicos" de desprendimento de seu corpo.
Interpreta esse episódio e seus fracassos como o cumprimento da
predição de uma professora em cuja casa sua mãe era empregada, e
que lhe dissera que "o êxito escolar de seu fllho não duraria!". As
afirmações dessa mulher, desprezando-o socialmente e desvalori
zando, assim, seu êxito escolar, eram comprovadas - acreditava com
213
convicção - por seus fracassos posteriores, como se ele estivesse se
colocando, em seguida, em posição de obedecer a essa injunção de
gozo de um Outro arrogante. Na certeza dos efeitos dessa predição
ele não estaria atribuindo ao Outro uma autodifamação?
Em um escrito que endereçará ao analista, tenta apreender
esses fenômenos de descargas. Elas ocorrem em um contexto de
luta contra suas ideias megalomaníacas, para escapar do olhar de
desprezo de seus colegas. Suas "descargas" são, nesse momento,
como manifestações de invasão de um gozo em ser o objeto do
olhar de desprezo dos outros.
Da mesma maneira com que se queixa das "descargas"
que o submergem, e das tensões que elas provocam nos laços
sociais, diz também ser invadido, às vezes, por acessos aniquilado
res de angústia, e isso desde que efetuou o serviço militar com os
caçadores alpinos. Desabava quando tinha que ser submetido a
provas físicas (tais como ser enterrado na neve) . Ficava petrifica
do, pensava estar morrendo. Não pôde pedir uma dispensa, por
causa de seus fracassos nos exames, mas, também, porque em sua
família "não se pode livrar-se do serviço militar" - seu tio-avô
"era coronel".
O que o preocupa atualmente é a solidão amorosa, não
consegue encontrar mulheres que correspondam a seu ideal femini
no, mas, sobretudo, teve experiências sexuais desastrosas que teme
ver se renovarem quando encontra uma mulher. É, de fato, tomado
por uma angústia-pânico no momento de penetrar uma mulher. Só
de pensar que seu sexo poderia estar nas mãos de uma mulher, diz
ele, desaba, e não pode suportar a relação sexual.
Existe, com certeza, no Sr. D., um apelo à mediação de um
saber para explicar a si próprio a significação das perturbações que
o afetam e o sentimento de sua própria estranheza. Mas é o estatu
to desse saber esperado que faz problema, haja visto as reações sus
citadas pelas intervenções do analista. Estas visavam relançar suas
falas, mas eram interpretadas tão logo emitidas e ele acrescentava aí
214
novos significantes que atribuía ao analista deformando, assim, seus
dizeres, a ponto de torná-los incompreensíveis. Frente ao "é o que
você acredita!", dito pelo analista, mostrava-se desestabilizado, mas
continuava a lhe atribuir dizeres e os seus próprios pensamentos. A
voz ouvida era o eco de seus pensamentos interiores. Ele instituía o
analista como parceiro de suas interpretações delirantes. Protegia-se
também do surgimento de um dizer inédito ou da confrontação
com o vazio de seu silêncio repassando o texto de suas sessões
antes de vir. Foi o que admitiu, com muita agressividade, quando o
analista o questionou a respeito de um pedido de mudança de horá
rio de uma das sessões, interrogando-o sobre "o que ele fazia que não
podia vir direto". Ele ouviu ainda: "Como um adulto!". Atribuíra uma
resposta à questão, interpretando em sua alucinação auditiva que o
analista o tratava como uma criança. A voz sonorizava assim o olhar
infantilizante que ele imaginava voltado sobre ele.
Nesse período, inunda o analista com seus escritos e lhe
traz uma fita cassete na qual gravou sua voz. Em seus escritos, tenta
apreender, localizar o gozo de suas descargas. O fato de trazer essa
fita faz do analista o depositário desse objeto-voz que o estorva. Ele
não mais lhe atribui sua voz na alucinação auditiva: ele lhe dá o obje
to-voz! Tenta assim despregar, exteriorizar entre-dois, esse objeto
voz, em um lugar terceiro que a transferência o permitiu instituir.
Ao devolver-lhe a fita algumas semanas depois sem tê-la
ouvido, o analista lhe faz saber que o que mais importava era o que
ele podia dizer durante as suas sessões. O que motivou esse ato foi
o desejo de não dar consistência ao "tudo faz sentido" que o paciente
esperava do Outro do "saber absoluto" da psicanálise. Se ele se
mostrou espantado com isso, houve, a partir de então, uma mudan
ça em sua implicação na transferência e um apaziguamento de sua
interpretação delirante.
Vai trazer uma série de situaçõesem torno de sua interro
gação sobre sua identidade sexual: "Será que sou um homem normal?",
perguntava ele.
2 1 5
"Quando vim pela primeira ve� vi seu nome junto ao de sua colega;
pensei que vocês fossem um casai homossexua4 e que vocês iam fazer com que
eu me tornasse homossexual!" De fato, no decorrer de uma conferência
do antropólogo Coppens sobre a origem do homo sapiens, ele o ouviu
dizer para si: "É uma mulher!" Foi então tomado por um tal mal
estar, que teve que se retirar; tais palavras o atingiram como se fos
sem dirigidas a ele. Já sentira essa alusão a sua identidade sexual
durante uma situação de inspeção; pensou que o inspetor queria
"inspecionar seu sexo " e aí, também, foi tomado por um tal mal-estar
que acabou abandonando o anfiteatro. É do Outro que ele ouve a
resposta ao que ele é como ser sexuado, mas isso desencadeia sua
angústia, como se não pudesse sustentar essa questão.
Também encontra-se confrontado a uma parasitagem do
significante sexual masculino, que se impõe a ele toda vez que lê a
sigla informática Bit ("bite" = pênis), em um texto, ou quando o pro
fessor de física desenha no quadro a rede magnética cujo contorno
forma os órgãos genitais. Ele não pode brincar com isso, como
fazem seus colegas, ou se contentar em pensar no valor metafórico
desses signos.
O que surge com essa parasitagem é o "real" do sexo,
como se o significante sexual não estivesse naquele momento meta
forizado.
Vai, repetidas vezes, evocar uma lembrança infantil trau
mática que o marcou. Aos seis anos de idade submeteu-se a uma
operação por causa de uma fimose. Sua mãe não soube limpar seu
sexo corretamente, o que se reproduziu em seguida com seu irmão
mais novo, também operado. Depois da cirurgia, acordou com o
sexo ensanguentado e não entendeu o que estava acontecendo;
acreditou que não tinha mais sexo, que se tornara uma menina.
Ainda revê a mãe refazendo os curativos, em cima da mesa da cozi
nha, ali onde, habitualmente, ela pelava os coelhos. Ela convidava
sua avó e suas tias para verem esse estranho espetáculo, diz ele, com
emoção. Ele se lembra de seus gritos de dor.
2 1 6
Há uma fixação de gozo do Outro sobre seu pênis reduzi
do à carne. É, aliás, nessa sessão que ele vai falar de sua angústia
pânico de ter que colocar seu sexo nas mãos das mulheres.
Irá então elaborar, durante várias sessões, essa versão trau
mática de uma cena de castração vivida como real. A subtração de
seu pênis - caído nas mãos de sua mãe - serve para dar um sentido
à elisão do falo, pelo fato de a castração simbólica não ter podido
operar: o desejo da mãe não pôde ser localizado como suficiente
mente orientado para o pai.
Uma vez que o malogro da metáfora paterna não permitiu
a introdução da significação fálica, o significante fálico não pôde
operar.
Apoiando-se na presença "real" do analista, na transferên
cia, ele vai organizar suas experiências de despedaçamento, tentan
do encontrar para elas um sentido unificador. Diante dessa presen
ça tão "reduzida" quanto possível, diante das manifestações tão ver
tiginosas quanto reversíveis de seu amor de transferência se trans
formando em ódio, o Senhor D. pôde trazer o caráter destrutivo de
seu ódio pelas mulheres, esse que ele provocava na transferência,
posicionando-se assim como objeto do gozo do Outro: "Faço tudo
para provocar sua cólera, esse ódio que tenho de você me impede de trabalhar
aqui".
Algumas sessões mais tarde, diz ter pensado estar nesse
lugar da mulher, gozando de ser uma mulher penetrada por uma
outra mulher, com um sexo masculino postiço. Acrescenta que não
gostaria de ter prazer em ser uma mulher penetrada por um homem.
Quando se imaginou nesse lugar, teve medo de ser transformado,
sentiu em seus membros alguma coisa como se eles se reduzissem a
uma linha. Será uma defesa contra o "empuxo-à-mulher"?
Esperava que a resposta que construiu para si na transfe
rência, sobre sua identidade sexual, lhe fosse fornecida pelo analis
ta e se impacientava com a retenção desse saber quando pergunta
va se era um homem normal ou um homossexual.
2 1 7
Pode-se também pensar que a parasitagem do "tudo faz
sentido sexual", que perturba sua visão dos símbolos fálicos ou sua
leitura das siglas informáticas, é o retorno no real do significante de
seu sexo que foi foracluído do simbólico. É um dos efeitos da fora
clusão do Nome-do-Pai.
Na sessão seguinte, anuncia que teve um sonho. "Sonhei que
estava em cima de uma ponte como aquela em que se passa para vir
aqui; estava com um amigo, com quem tinha brincadeiras sexuais
quando criança. Queria apresentá-lo para você, você estava com a sua
amiga do outro lado. A ponte se fendia, eu mergulhava, voava e che
gava à outra margem. Na fenda, havia um homenzinho dourado, pare
cendo um Buda, que fazia rodar um CD ROM. Não conseguia ler o
que ele tinha na memória, não conseguia inseri-lo no computador".
Interpreta-o como um signo de seu desejo de suspender
sua análise: ''A fenda da ponte indica que não vale mais a pena vir.
Penso que está na hora, para mim, de escolher entre a psicanálise e
o budismo, já que você não quer dizer o que você sabe sobre mim
e não me guia suficientemente".
Ele voltará quando conseguir decidir se quer ou não se
engajar nesse trabalho analítico. Esse desejo de deixar a análise
ocorreu em um momento crucial e delicado, momento em que se
queixava de estar desestabilizado pelo fato de o analista se furtar a
ocupar o lugar do saber absoluto do Outro que ele viera procurar
na teoria psicanalítica e porque ele não podia fazer disso o que pre
tendia. Ao mesmo tempo, a presença do analista na transferência o
levava a construir para si esboços de respostas ao vazio enigmático
com o qual o confrontavam esses fenômenos de descargas e essa
parasitagem do sentido sexual. Teria que, de fato, fazer uma esco
lha. Mas poderia fazê-la diante da necessidade de fazer existir um
Outro do saber em relação ao gozo ao qual ele se consagrava?
O cartão postal recebido seis meses depois desta interrup
ção, em que agradecia pelo prazer que tinha na companhia das mulhe
res, mostra que o analista ocupa ainda esse lugar de endereçamento.
218
IV. O PSICANAliSTA COMO AJUDA·CONTRA
Os dois casos examinados do ponto de vista da dinâmica
transferencial indicam-nos que o analista pôde encontrar uma
maneira de entrar em jogo sem despertar o gozo do Outro, mas
mantendo precisamente fora de suas significações devastadoras um
objeto que ele soube acolher.
Com o Senhor D., por exemplo, o analista evita encarnar
o parceiro que teria o ser de saber apto a fazer consistir o saber abso
luto do Mestre hegeliano, figura emblemática do Supereu do psicó
tico. Bem ao contrário, o fato de acolher a voz de seu paciente, tal
como ele a oferece, isto é, em fitas cassete e sem nada dizer sobre
isso, nos parece ter mantido fora de qualquer significante uma parte
de ser sobre a qual o sujeito vai poder se apoiar para evitar a solu
ção do empuxo-à-mulher. É, parece-nos, o analista que se encarre
ga dessa função, sendo o lugar em que um gozo à deriva pode
sobreviver à injunção , do "tudo faz sentido".
De uma forma bastante similar, a transferência se enoda
no caso da Sra. A. em torno desse ftlho que ela traz como sintoma
e que o analista acolhe. Mas, contrariamente ao que essa mãe espe
rava, ele o deixa de lado, ou seja, não faz disso nem um ser-de-ver
dade nem um ser-de-saber para a mãe. No entanto, ele o acolhe e a
coisa se renova, pois, repetidas vezes, em momentos cruciais, a Sra.
A. teve necessidade de ser acompanhada por seu filho. Fazendo-se
lugar de acolhimento para esse objeto fora da injunção do supereu
onde tudo deve fazer sentido, ainda aí o analista é levado a repre
sentar o lugar de um gozo à deriva. É nisso que ele toma ao seu encar
go a posição feminina podendo, assim, servir de sintoma para o
sujeito analisante.
Um ponto essencial foi o foco de nossas pesquisas. Trata
se da questão ressaltadapelo famoso gozo à deriva que destacamos no
Seminário A Lógica da fantasia. Lembremos que, para Lacan, esse
ponto de gozo à deriva da metáfora do gozo do Mestre permite ao
2 1 9
escravo suportar sua postçao, pois ela lhe torna sustentável uma
posição de sujeito à distância de seu corpo como metáfora do gozo
do Outro.
Esse gozo à deriva faz pensar nessa parte de gozo que exce
de ao gozo fálico, isto é, no gozo feminino. A lógica da experiência
clínica nos conduz muito naturalmente a pensar que essa parte de
gozo que escapa ao ideal do todo fálico pode, em certos casos, fun
cionar como um limite e notadamente oferecer um refúgio ao ser
do sujeito que não tem como argumentar quanto à função fálica.
O que coloca o corpo à distância do gozo do Outro é o
sujeito - muito embora só haja gozo do corpo, como Lacan ressal
ta nas últimas lições de seu Seminário sobre A Lógica da fantasia. "O
sujeito dilacera o corpo do gozo", diz Lacan no dia 30 de maio de
1 967. Quando Lacan evoca essa posição do sujeito em relação ao
seu corpo e ao seu gozo, recorre à metáfora hegeliana do mestre e
do escravo.
Para Lacan, o escravo aliena seu corpo no corpo do mes
tre, ou seja, do Outro, na medida em que seu corpo serve de metá
fora de gozo para o mestre; mas não todo o seu corpo entra nessa
metáfora, há alguma coisa que fica à margem. É essa "alguma coisa"
que permite ao escravo, como sujeito, não se confundir com a posi
ção de objeto de seu corpo que metaforiza o gozo do mestre. Como
sujeito, o escravo goza, mas, à margem da alienação; há para ele um
gozo "à deriva"\ esse de um objeto que escapa ao corpo do Outro.
É nisso que ele é fora-do-corpo.
Mestre � Corpo do escravo I I Escravo � objeto fora do corpo
S I (a) do Mestre I I Sujeito I Gozo à deriva
o corpo como outro I I o sujeito o gozo à deriva
220
O gozo do escravo não é de se fazer o objeto do gozo do
mestre, o gozo do escravo está à deriva e é o que o salva do aprisio
namento na fantasia do mestre hegeliano.
Poder-se-ia, sem dúvida, considerar a estrutura das rela
ções do sujeito psicótico com o Outro segundo o modelo das rela
ções do escravo totalmente dependente do mestre hegeliano\ sem
possibilidade de gozo à deriva, um escravo, portanto, cujo gozo se
igualaria ao gozo do Outro que devastaria seu corpo.
Dessa forma, portanto, chegamos à conclusão de que o
analista-sintoma preenche sua função abrigando o gozo à deriva e
nisso ele garante a função não-todo (pas tout). É inegável, na perspec
tiva da clínica que examinamos, que essa função faz limite. É esse
ponto que desenvolveremos agora.
Isso nos remeteu a uma leitura minuciosa das fórmulas da
sexuação. Essas fórmulas aparecem pela primeira vez em 1 97 1 ;
explicitam-se, em 1 972, no Seminário . . . ou pior, são desenvolvidas no
Seminário Mais, ainda; encontramos um comentário muito preciso
desse famoso não-todo (pas tout) em "O aturdito ". Finalmente, encon
tramos em 'Televisão " observações precisas sobre a posição femini
na em relação à loucura e ao não-todo (pas tout)
Na leitura desses textos, torna-se evidente que essas fór
mulas da sexuação não devem ser manejadas como ferramentas
matemáticas, pois Lacan introduz novos quantificadores que a
matemática não conhece. É, portanto, vão, tentar se situar aí com a
lógica matemática. Além do mais, Lacan joga muito frequentemen
te com o equívoco e, assim, os enunciados se entrechocam.
Seja como for, há um certo número de enunciados que
vão no sentido de descrever o primeiro quantificador da sexualida
de feminina como: não há x que diga não à função fálica, ou seja,
não há A Mulher. Mas esse enunciado é imediatamente correlacio
nado ao fato do não-todo, ou seja, ao segundo quantificador, pois,
para Lacan, é a mesma coisa dizer que não há A Mulher e dizer que
a mulher é não-toda. Os dois quantificadores estão, portanto, ligados.
221
É apenas em "O aturdito" que Lacan considera que os dois quanti
ficadores possam funcionar separadamente, mas, então, é para
designar muito explicitamente o empuxo-à-mulher na psicose:
"O sujeito, na metade em que se determina pelos quantificadores
negados, vem de que nada existente constitui um limite da função, que
não pode certificar-se de coisa alguma que seja de um universo. Assim,
por se fundarem nessa metade, "elas" são não-todas, o que tem também
como consequência, e pela mesma razão, que tampouco nenhuma
delas é toda. Desenvolvendo a inscrição que fi:r. da psicose de Schreber
por uma função hiperbólica, poderia demonstrar, no que ele tem de
sarcástico, o efeito de empuxo-à-mulher que se especifica pelo primei
ro quantificador ( . . . )"6•
Isso diz, claramente, que na psicose há foraclusão da exce
ção e que, por esse fato, a função fálica amputada de sua exceção,
por querer tudo dizer, já não poderia dizer mais nada. O primeiro
quantificador sozinho descreve, portanto, o empuxo-à-mulher. É
um enunciado desse gênero que encontramos em Televisão quando
Lacan diz sobre as mulheres que "o universal do que elas desejam é
a loucura: todas as mulheres são loucas, como se diz. É por isso
mesmo que não são todas, isto é, não loucas-de-todo . . . (pas folles-du
tout . . . )"7. A frase é equívoca. As mulheres são loucas por serem não
todas, ou seriam elas loucas se fossem todas? Parece que o final da
frase é sem equívoco: elas são não-todas, portanto, nada loucas jpas
folles du tou� . Pode-se deduzir daí que a loucura feminina seria a ten
dência ao universal fálico que nas mulheres é sem limite devido à
ausência de exceção e que o não-todo viria, portanto, como limite
certamente, dificilmente considerável de um ponto de vista mate
mático, mas muito mais eficaz para se sustentar na vida quando se
está inscrito desse lado como ser falante.
É preciso considerar esse não-todo em sua relação com o
Outro. É o que Lacan ressalta em seu Seminário A angústia.
Diferentemente do mestre hegeliano que é, antes de tudo, uma
consciência, uma pura consciência de si, o Outro da teoria lacaniana é
222
inconsciente, ele não sabe. Ele não sabe que o escravo representa o
objeto de seu desejo e é o que torna sustentável a posição do escra
vo. Não tudo da realidade desse objeto é apreensível pelo Outro
que é o lugar onde se aliena o saber do objeto; é o que torna a alie
nação suportável. "Por causa do inconsciente podemos ser esse
objeto"8•
Ora, podemos dizer que o que caracteriza o Outro do psi
cótico é que ele não é inconsciente, mas, antes, onisciente. A mano
bra do analista na transferência deve, portanto, opor-se a essa ins
tância e visar à regulação do espaço do "não-sábio-de-tudo"9•
Essa ideia de manejar o não-todo para se opor à devasta
ção do supereu psicótico está implicitamente no centro da tese que
Lacan desenvolve em seu Seminário O sinthoma a propósito do ana
lista-sinthoma. Ele enuncia aí que "não se pode conceber o psicana
lista de outra forma senão como um sinthoma". Acrescenta que é
preciso concebê-lo, no final das contas, como "uma ajuda da qual
podemos dizer que é uma inversão dos termos do Gênesis"10• Lacan
responde aí a uma questão que fazia alusão a uma nova tradução do
Gênesis que enuncia que "Deus criou para o homem uma ajuda
contra ele". Então, trata-se de ir contra o quê se não for à consis
tência do Outro? "Evidentemente", a tendência do sujeito é de sub
jetivar esse ponto, a fim, não somente de garantir a consistência do
Outro, mas, também, de se servir de seus significantes para tentar
reduzir aí o seu ser. Donde a aproximação operada por Lacan entre
esse ponto, A mulher, Deus . . . e o Outro do Outro. O analista-sintho
ma opera uma inversão propondo o não-todo no lugar do Outro do
Outro, "posto que, assim como o Outro do Outro, é o que acabo
por definir há um instante como esse furinho aí. A hipótese do
inconsciente tem seu suporte justamente na medida em que esse
furinho possa, por si só, fornecer uma ajuda"1 1 •
223
Notas
*
Relator: Bernard Nominé
1LACAN, ). (1973) "Problemas cruciais para a psicanálise". In: Outros Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.208-209.
2 BRUNO, P. "L'identification au symptôme", 6/4/2, n.7, p.1 17.
3 LACAN, ). (1973) "Lituraterra". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.23.
4 LACAN, J. Le Séminaire XIV, "La logique du fantasme", sessão do dia
17/06/1 967: "Eu, eu gozo do seu corpo, isso significa que o seu corpo se torna
a metáfora do meu gozo. Hegel, de qualquer maneira, não esquece que isso é
somente uma metáfora do servo, e resta que, para ele, como para o que eu inter
rogo no ato sexual, há um outro gozo que está à deriva".
5 Os maternas dos discursos devem ser meticulosamente lidos. O discurso do
mestre fornece, certamente, a matriz do inconsciente. Ele significa que o sujeito
é irredutível ao significante - que há, portanto, um furo originário no saber. Mas,
não basta concluir daí que o que ele é como objeto é o que escapa à representa
ção significante e o torna desejante. Pois essa conclusão, pelo menos em sua pri
meira parte, vale igualmente em linguística onde o teórico sabe do fracasso estru
tural da representação. Poderíamos, então, colocar uma equivalência entre o $, o
S1, que o representa, e o objeto a rebelde à representação. É o que compreendeu
perfeitamente o capitalista. Em todo caso ele tira daí uma justa consequência ao
identificar a mais-valia com a espécie de objeto que lhe falta: riferir-se ao materna do
discurso capitalista. S /Sl � S2/ a (Lacan, Milão, 12.05.72). Esse discurso é uma
versão do mestre e do escravo. Se substituirmos o escravo pelo proletário, com
preende-se um pouco o que está em jogo. Lacan explica-nos, de fato, que o pro
letário é privado de qualquer objeto pelo capitalista. Nisso, o proletário prefigura
a saída do capitalismo, na qual Max apostou. O proletário é um elemento ao
mesmo tempo incluído e excluído do capitalismo: ele é um sintoma social. A psi
canálise inscreve o sintoma no particular. Ela objeta à confusão entre mais-valia
e mais-de-gozar - esse gozo cuja deriva é mascarada enquanto o sujeito o con
fundir com a mais valia, ou enquanto o sujeito pensar que é despossuído dele
pelo Outro (o capitalista, por exemplo). É também essa não confusão que pare
ce visada no que Lacan qualifica de "saída do capitalismo"; dessa vez, devido ao
consentimento do sujeito, no momento mesmo em que ele descobre que o gozo
que ele atribuía ao Outro (que ele supunha subtraído pelo Outro) era seu gozo
de neurótico. Para dizer a verdade, o final de uma análise revelaria desse ponto de
vista a estrutura: "Sl / S � S2/ a I Gozo à deriva." Não há sujeito sem signifi-
224
cante. Mas, se há significante, então, o sujeito se reduz a termo a esse gozo irre
dutível que ele deve ao fato de portar o significante no real - identificação com
o sintoma. Inscrever um sujeito em um discurso - sujeito, aqui, psicótico já que
fora do discurso - implica em dividi-lo como falante desse objeto que dá teste
munho de sua irredutibilidade ao saber do Outro.
6 LACAN, ]. (1973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2003, p.466.
7 A construção "pas folles-du-touf' admite também os sentidos de "nada têm de
loucas" e de "não loucas pelo todo". Cf. nota 12 p.538 de Outros Escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003.
8 LACAN, ]. (1 962-1963) "Angústia, signo do desejo". In: O Seminário, livro 10: a
angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. p.35.
9 LACAN, ]. (1 975) Le savoir et la vérité ". In: Le Seminaire, livre 20: Encore, p.90:
"Au niveau de ce pas-tout, il n'y a que l'Autre à ne pas savoir. C'est l'Autre qui fait
le pas-tout, justement en ce qu'il est la part du pas-savant-du-tout dans ce pas
tout". N.R.: Na tradução brasileira de. "O saber e a verdade", temos: "No nível
desse não-todo, há somente o Outro a não saber. É o Outro que faz o não-todo,
justamente por ele ser a parte que não-sabe-de-tudo neste não-todo"(LACAN, ].
(1972-1 973). O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1982, p. 133.
1 0 LACAN, ]. (1 975-1976) "Do inconsciente ao real". In: O Seminário, livro 23: o
sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.13 1
1 1 lbid.
225
AUTORES DOS TEXTOS DA PRIMEIRA PARTE
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice
Relatores: Hervé Castanet e Philippe De Georges.
Hervé Castanet. Christine De Georges, Philippe De Georges, Nicole Guey,
Monique Guillot-Chevalier, David Halfon, Gilbert Jannot, François Morei,
Sylvette Perazzi, Jacques Ruff.
Seção Clínica de Clermont-Ferrand, Antenne Clinique de Dijon
e Seção Clinica de Lyon
Relatores: Jacques Borie, Jean-Robert Rabanel e Claude Viret.
Michele Astier, Marie-Frédérique Attali-Doineau, Barbara Bonneau, Jacques Borie,
Nicole Borie, Pierre Bosson, Jean-Frédéric Bouchet. Aline Bouhey, Jean-Pierre Brunhes,
François Caron, Christine Cartéron, Gabriel Chantelauze, Laurence Charmont,
Claude Claverie, Marie-Hélêne Couloumy, Jean-François Cottes, Hervé Damase,
Jacqueline Dhéret, Francis Felzine, Christian Fontvieille, Pierre Forestier,
Christine Guillet-Cuénot, Françoise Héraud, Michel Héraud, Marga Karsz-Mendelenko,
Jacques Lacourt. Yves Le Bon, Dany Lots, Jacques Marblé, Patrice Margot,
Maria Lucia Martin, Didier Mathey, Gilles Mochicourt, Jean-Pierre Mordier,
Lisa Muller, Gérard Querré, Simone Rabanel, Jean-Robert Rabanel,
Richard Rebibou, Jean-Pierre Rouillon, Jean-Louis Soyer, Délia Steinmann,
Claudine Valette, Thierry Vigneron, Claude Viret, Alain Vivier,
Nicole Virat-Tréglia, Wanda Wlodarczyk.
Seção Clínica de Lille
Relatores: Geneviêve Morei e Herbert Wachsberger.
Sylvie Boudailliez, Philippe Bouillot, Annick Brauman, Vincent Calais, Carine Decool,
Hélêne Deltombe, Brigitte Duquesne, Emmanuel Fleury, Dominique Holvoet,
Nadia Jambart, Franz Kaltenbeck, Diana Kamienny-Boczkowski, Brigitte Lemonnier,
Geneviêve Loison, Geneviêve Morei, Bernard Seynhaeve, Herbert Wachsberger.
227
Seçio Clínica de Bordeaux
Relatores: Carole Dewambrechies-La Sagna e Jean-Pierre Deffieux.
Marie-Françoise Bahans, Florence Bonichon, Annick Boucheny, Geneviêve Bouquier,
Marie-Ciaire Bouter, Anne-Marie Brossier, Chantal Cabot, Camille Cambron,
Claudine Casanova, Marianne Caussêque-Portillo, lsabelle Cordier, Mireille Dargelas,
Rigo De Bortoli, Jean-Pierre Deffieux, Marguerite Derrien,
Carole Dewambrechies-La Sagna, Viviane Durand, Michêle Fourton, Paul Gil,
Anne-Marie Girardeau, Dominique Jammet, Françoise Kovache-Serrec, Philippe Lacadée,
Catherine Lacanze-Paule, Éveline Lachaux, Philippe La Sagna, Édith Magnin
Alain Merlet, Albert N'Guyen, Ghislaine Panetta, Marie-France Prémon, Daniel Roy,
Daniel Sallenave, Hélêne Seyrat, Annie Smadja, Catherine Vacher.
Antenne Clinique de Chauny-Prémontré e Antenne Clinique de Rouen
Relator: José-Luis Garcia Castellano.
Éric Blumel, Corinne Bognar, Roland Broca, Christophe Delcourt, Marie-Hélêne Doguet,
Jean-Michel Dutilloy, José-Luis Castellano, Éric Guillot, Raymonde Jdanoff,
Françoise Koehler, Bernard Lecoeur, Nicole Maisonneuve, Claude Parchliniak,
Jean-Pierre Parchliniak, Marie-Ciaude Sureau, Valéria Pera-Guillot, Jean-Louis Woerle.
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes
Relatores: Roger Cassin, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen,
Bernard Porcheret e François Sauvagnat.
Josienne Cassin, Roger Cassin, Gilles Chatenay, Claudette Damas, Sophie Duportail,
Mareei Eydoux, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen, Jacques Guihard,
Françoise Hamon, Hervé Hubert, Jean-Ciaude Maleval, Roger Merien, Michêle Miech,
Jean-Loup Morin, Bernard Porcheret. Marie-Paule Rabiller, François Sauvagnat,
Pierre Stréliski.
Seçio Clínica de Angers
Relator: Fabienne Henry.
Jean-Yves Beillevaire, Mireille Boisselier-Nédelec, Ghislaine Boucasse, Annie Cariou,
Alain Cochard, Solange David, Catherine Dubois, Dominique Fraboulet, Françoise Frank,
Guilaine Guilaumé,Fabienne Henry, Raymond Lamboley, Marie-Françoise Lamoine,
Jean Leliêvre, lsabelle Lesage, Monique Marcelon, Vincent Moreau, Marie-Odile Nicolas,
Claudine Nollet, Anne Paillé, Hega Rosenkranz, Jean-René Savary, Gérard Seyeux,
Marc Soria, Pierre Stréliski, Bertrand Tricoire.
228
Seção CUnica de Bruxelas
RtJitJtor: Alexandre Stevens.
léonce Boigelot, Katty langelez, Anne lysy-Stevens, Pierre Malengreau,
Alexandre Stevens, Guy de Villers Grand-Champs, Alfredo Zenoni.
Ant11nn• CliniqutJ de Toulouse
RllltJtor: Bernard Nominé.
Sidi Asko Faré, Michel Bousseyroux, Anne Castelbou, Fabienne Guillen, Bernard Nominé,
Michel lapeyre, Pierre Rogar, Maria-Jean Sauret, André Soueix, Christiane Terrisse.
229
SEG U N DA PARTE
A CONVENÇÃO
ABERTURA
1 . TRÍPTICO
Philippe De Georges - Ao acolhê-los, nesta Convenção, tenho
o privilégio de dizer-lhes algumas palavras. A primeira será: "Bem
vindos!" Bem-vindos a todos e a cada um. Eis o que tenho o pra
zer de dizer-lhes "de viva voz". Insisto nesse "de viva voz", pois é
bem diferente de nos comunicarmos por fax ou internet. Vocês
estão aqui presentes, com sua presença real, com essa presença real
tão essencial à análise, análise que não se concebe in absentia.
Presença que dá corpo, que encarna a palavra, que implica o regis
tro pulsional, que constitui a enunciação. Bem-vindos, em nome da
Antenne Clinique de Nice, de seus participantes, daqueles que nela
ensinam e de seus conferencistas.
Minha primeira saudação será especialmente para aqueles
cuja vinda assegura o enlaçamento desse encontro com nossa
comunidade internacional. Penso em Jorge Forbes, conduzido aqui
por uma corrente da América; Antonio Di Ciaccia, trazido por um
vento transalpino; Hebe Tizio e Rosa Calvet, a quem devemos os
momentos tão intensos vividos, ainda há pouco, em Barcelona.
Durante os preparativos de Barcelona, nossos anfitriões
catalães evocaram Amphitryon. Tomarei emprestada a referência
como modo de me colocar sob seus auspícios: que possamos ser
tão acolhedores quanto eles, que possamos assegurar como eles o
sucesso de nossos trabalhos.
Amphitryon me lembrou a frase do falso Sósia: "O verda
deiro Amphitryon é aquele em cuja casa jantamos!". Pois bem! Aqui,
como na peça de Moliere, a frase é falsa: são os que ensinam na
Antenne Clinique de Nice que, de fato, recebem vocês na Côte d'Azur,
235
mas seu mento é pequeno. Os verdadeiros organizadores desse
encontro, aqueles graças aos quais vocês são tão numerosos, são de
Bordeaux e de Angers. É, com efeito, a Fabienne Henry e Michel
Jolibois a quem devemos o volume preparatório, no qual sei que
muitos mergulharam com ardor. Foram eles que, com seu reconhe
cido savoirfaire, nos trouxeram essa ferramenta indispensável aos
nossos trabalhos. E é, sobretudo, a Carole Dewambrechies-La
Sagna e a Jean-Pierre Deffieux a quem devemos a realização do
encontro. Eis, portanto, nossos verdadeiros anfitriões.
Esse primeiro esclarecimento requer um segundo. Nossa
Convenção de hoje é a terceira parte de um tríptico. Tudo começou
em Angers, com o Conciliábulo. Em seguida, tivemos a
Conversação de Arcachon. Finalmente, desde que muitos colegas
viram com bons olhos a aliança entre um trabalho decidido e o sol
da Côte d'Azur, a escolha por Antibes se confirmou. Se me mostrei,
na época de Arcachon, decidido a que as coisas fossem assim, é por
que tive a possibilidade de manifestar o lugar que nossa pequena
comunidade, imprensada entre o Estérel e a costa, pretende ter no
Campo Freudiano. Nosso desejo é, de fato, o de ocupar um bom
lugar nesse turbilhão. É a nossa primeira oportunidade de receber
mos em casa tantos colegas: alguns de vocês j á vieram animar nos
sas conferências e nossas trocas, mas nunca tantos, e, sobretudo,
nunca juntos.
Lamentamos ter sido impossível encontrar em Antibes um
lugar que correspondesse às exigências de uma tal conversação. É
por isso que estamos em Cannes, neste palácio prestigioso, conhe
cido, sobretudo, por suas lentejoulas, seus strass e suas estrelas: trou
xemos à Croisette1 nossa paixão de lavradores do Campo Freudiano.
Estamos, aqui, com efeito, para lavrar, semear, cultivar o Campo
cuja reconquista está sempre na ordem do dia.
O programa de nossa Convenção está marcado pelo triplo.
Não é, sem dúvida, por acaso, mas estrutural. Não estamos, desde
Arcachon, sob o signo da clínica borromeana? A triplicidade de RSI
236
- real, simbólico, imaginário - corresponde, em Cannes, às três par
tes de nossa reflexão: neodesencadeamento, neoconversão, neotran.iferência.
Desse modo, somos convidados a um aggiornamento da clínica, da
construção empírica da clínica. Trata-se, indubitavelmente, de um
índice da parte a ser tomada pelas Antennes e Seções Clínicas no seio
do Instituto do Campo Freudiano, nos novos desenvolvimentos
que esta refundação impõe.
Minha fala está escandida por "um, dois, três", como se
procurasse indicar o tempo - vocês certamente o perceberam.
Visto que o termo "convenção" não pode deixar de reme
ter a algo da Revolução, pensei em algumas frases de Victor Hugo,
em Os Miseráveis. Durante os funerais do general Lamarque, Hugo
nos faz ouvir o discurso do insurgente Enjolras. Este passa pelas
três consistências que são, para ele, "liberdade, igualdade, fraterni
dade". Eu o cito: "O ponto de interseção dessas soberanias que se
agregam se chama sociedade. Sendo essa interseção uma junção,
esse ponto é um nó. Daí o que chamamos de laço social".
Qual a junção, qual nó nos diz respeito hoje? Na interse
ção da clínica com a teoria, não estaríamos às voltas com o que o
"Relatório de Barcelona" chamou de "a Conversação continuada
com os textos fundadores do acontecimento Freud, um perpétuo
Midrash que confronta incessantemente a experiência com a trama
significante que a estrutura"2?
Desejo a todos, portanto, um excelente trabalho e passo a
palavra a Jacques-Alain Miller.
237
2. A CONVENÇÃO, MODO DE USO
Jacques·Aiain Miller - Está previsto que esta seja uma con
venção. Trata-se de convergir para um acordo: acordo sobre o uso
das palavras, acordo sobre a descrição, acordo sobre a classificação.
Logo, convenção sim, concílio não. Talvez seja também uma recrea
ção, como me dizia Gilbert Jannot. Como temos um certo número
de horas a passar juntos, debruçados sobre trabalhos bastante sérios
que iremos ler e discutir, tomemos a Convenção como um vasto
comitê de leitura.
Como preâmbulo, direi algumas palavras que poderíamos
colocar sob o título ''A Convenção, modo de uso".
O aparelho que constituímos aqui é idêntico àquele da
Conversação do ano passado: falamos com base no escrito, sobre a
coletânea de nove textos. Ao mesmo tempo, a diferença entre a
coletânea anterior e a de hoje é clara: os textos de Arcachon foram
apresentados a título individual, enquanto os trabalhos dessa con
venção são relatórios oriundos de uma elaboração coletiva. Além
disso, o caso é sempre colocado em série, tomado em cadeia, ao
passo que nos dois anos anteriores era apreendido em sua particu
laridade disjunta e a classificação era produto de um esforço ulte
rior, talvez até mesmo do esforço que então fazíamos. Sendo o caso
colocado em série, qual a sua função? A de ilustrar, a de corroborar
teses. O caso serve à tese ou permite induzi-la.
O fato é que muitos me disseram: "Nossa! Como é pesa
do este volume! Como faremos para falar disso tudo em tão pouco
tempo?" Não dizíamos isso em Arcachon. Isso se deve ao fato de
que, aqui, o suporte da palavra é muito elaborado, é um produto já
239
tecido, tramado, o que, sem dúvida, levará a uma outra espécie de
comentário que ainda está para ser encontrada. Conto, para isso,
com as trocas entre os redatores. Seremos, sem dúvida, levados a
reconceitualizar, a superconceitualizar, não sem voltar ao detalhe
dos casos.
Se eu tomo mais precauções que nas duas reuniões prece
dentes - o Conciliábulo e a Conversação - é porque a presenteConvenção me parece destinada a ser muito menos espontânea,
sobretudo pela seguinte razão: agora, dois livros já foram lançados.
Eles estão nas livrarias e tiveram suas repercussões. Falávamos a
fundo perdido, como sempre, sem nos preocupar com a forma que
isso tomaria. Esse não é mais o caso, e esses cálculos afetarão nos
sas trocas. Segundo alguns, isso pode ter um efeito de incitação exa
gerada a falar ou de excessiva moderação para se expressar. É o que
me leva a fazer um pequeno anúncio para tranquilizar a todos: não
é certo que tenhamos, desta vez, que publicar nossas discussões.
Após essas precauções, vamos aos fatos.
240
3. CLÍNICA FLUIDA IFLOUEJ
No primeiro tempo, em Angers, começamos - aleatoria
mente, em desespero de causa - por surpresas, pelas nossas surpre
sas. Foi uma forma de dizer, implicitamente, que nos confrontáva
mos com certa rotina ou com certo classicismo e que queríamos
distinguir momentos ou casos que se subtraíam a uma ordem, cau
sando nossa surpresa. Situamo-nos, logo de saída, até mesmo sem
sabê-lo, em relação a uma rotina ou a uma norma, uma ordem pré
via, para isolar surpresas.
Perseveramos, e, no segundo tempo, escolhemos como
tema "Casos raros". Quisemos, talvez, conceituar nossas surpresas.
O fato é que fomos levados a explicitar nossa referência à norma
clássica das psicoses e, desse modo, colocá-la mais radicalmente em
questão.
Hoje, nos reencontramos, na Convenção, no tempo três.
Lendo a coletânea, tive o sentimento de que aquilo que tínhamos
abordado sob a perspectiva de casos raros, abordávamos, agora, sob
a perspectiva de casos frequentes. Demo-nos conta de que o que
designávamos como casos raros, em relação à nossa norma de refe
rência, à nossa medida de base, ou seja, a "Questão preliminar . . . ",
eram - sabíamos muito bem disto, por meio da nossa prática quo
tidiana - casos frequentes. Nesse volume da Convenção, assumimos
seu estatuto de casos frequentes.
Foi deste modo que, a posteriori, imaginei nosso caminho.
Passamos da surpresa à raridade e da raridade à frequência. Estava,
ontem à noite, me perguntando: "como chamaremos o livro que
poderá resultar desta jornada"? Não será neodesencadeamento, neoconver-
241
são, neotransferência. Será neopsicose? Será que realmente queremos ligar
nossa elaboração à neopsicose? Não me agrada nem um pouco a
neopsicose. E me dizia: "no fim das contas, falamos de psicose
ordinária".
Na história da psicanálise, interessamo-nos naturalmente
pela psicose extraordinária, por aqueles que realmente "arrebenta
vam". Há quanto tempo Schreber é referência? Ao passo que temos
aqui psicóticos mais modestos, que nos reservam surpresas, mas
que podem, como veremos, se fundir num tipo de média: a psicose
compensada, a psicose suplementada, a psicose não desencadeada,
a psicose medicada, a psicose em terapia, a psicose em análise, a psi
cose que evolui, a psicose sintomatizada, por assim dizer. A psico
se joyceana é, diferentemente da obra de Joyce, discreta.
Estamos divididos entre dois pontos de vista contrastan
tes, que não se excluem mutuamente.
Em uma primeira aproximação, há uma descontinuidade
entre psicose e neurose, duas classes bem separadas. É a norma, o
'bê-á-bá' do que é ensinado a partir de Lacan. O segundo ponto de
vista aponta para uma continuidade, duas saídas diferentes para a
mesma dificuldade de ser. É o que justifica o fato de Genevieve
Morei ter ido procurar, na sabedoria asiática revista por François
Julien, o "variacional". Tanto o franco psicótico quanto o psicótico
normal são variações - o que dizer? - da situação humana, da nossa
posição de falante no ser, da existência do falasser.
A vantagem deste ponto de vista - sabemos disso, e
Lacan o explorou, pois ele apresenta muitas vantagens para tratar
a neurose - é a de estabelecer um certo "todos iguais"; todos
iguais na condição humana. O psicótico não é uma exceção; o
normal tampouco o é. Essa igualdade foi acentuada por Lacan na
sua época existencialista, em "Formulações sobre a causalidade
psíquica", lembrando ao psiquiatra que ele não é, em essência,
diferente do louco - ele apontou isso de novo no final de seu
ensmo.
242
É precisamente essa igualdade que nos leva a falar de
modos e, particularmente, de modos de gozo. Mais precisamente,
falamos de modos uma vez que fizemos desaparecer a descontinuida
de das classes. Todos iguais frente ao gozo, todos iguais frente à
morte, etc. Nós não distinguimos classes, mas modos, que são varia
ções. A partir daí, dá-se lugar à aproximação.
Se o Outro existe, podemos escolher pelo sim ou pelo não.
Nas situações em que o Outro existe, há critérios, "repartidores"
[répartitoires] - segundo a expressão de Damourette e Pichon, que
Lacan usa uma ou duas vezes, e da qual gosto muito. Mas quando
o Outro não existe, não estamos simplesmente no sim ou não, mas
no mats ou menos.
Aliás, é a verdade. Perguntava-me: qual a verdade das coi
sas humanas? No fim das contas, é a curva de Gauss. Aonde quer
que formos, onde quer que estivermos, tudo se apresenta como
uma curva de Gauss. Nas extremidades, há o radicalmente oposto;
no meio, sob forma de um sino, há o mais ou menos. É sempre
assim, aonde quer que se vá e seja lá o que consideremos. Dizia-me
que era a solução para todos os nossos males: o real das coisas
humanas se apresenta sob a forma da curva de Gauss.
Aqui entre nós, por exemplo, a curva de Gauss está com
certeza presente. Sabemos, logo de início, que se formos testados
sobre algo, obteremos uma curva de Gauss.
É em uma das pontas desta linha mágica que está, como
costumamos dizer, o "seguro e certo". Vamos decompor um pouco
o "seguro e certo": Há o certo. O certo é muito raro. É realmente
um caso raro, sobretudo em nosso campo. Lacan reservava a certe
za para seu materna da histeria. Há, em seguida, o "seguro mas não
certo", como diz Lacan. É um outro grau: sabemos que é assim,
mas não podemos demonstrá-lo, colocá-lo numa fórmula. Enfim,
há o "não seguro". Nós trabalhamos no não seguro. Não somente
não é certo, como também não é seguro. Nadamos no não seguro.
É o nosso pasto, se me permitem, é a nossa pastagem.
243
Podemos ler nosso volume - talvez não todo o volume,
mas mais ou menos todo o volume - e dizer: "Puxa! Pois bem! Não
é seguro. No fim das contas, não é seguro".
Com Lacan, estamos sempre dizendo: "seguramente,
seguramente". Mas como, em seguida, ele não diz exatamente a mesma
coisa, fica-se um pouco embaraçado com esse "seguramente".
Portanto, finalmente, não é seguro. "Não é seguro" é a
reposta universal. Em nosso campo, podemos sempre levantar a
mão e dizer "isso não é seguro". Tudo depende do tom com o qual
vamos dizê-lo, a convicção, enfim, o objeto a que vamos alojar
nesse significante. "Não é seguro. Não. Realmente, não é".
Sem dúvida, é também por esta razão que começamos
pelas surpresas, pois podemos dizer: "Isso seguramente me sur
preendeu".
Então, aproximemo-nos daquilo que somos e do que dize
mos. Ontem à noite, por exemplo, na Croisette, conversava com cole
gas durante o jantar. Um deles, muito eminente, versado em teoria
e tudo mais, dizia: "eu chamei sua atenção quanto a isso - tenho
uma paciente um pouco psicótica". Efetivamente falamos assim. É
da ordem do mais ou menos.
Um matemático da equipe de apoio de Lacan, do seu SOS
matemática, Guilbaud, se interessou muitíssimo por esse mais ou
menos. Ele fez um livro a partir de suas aulas sobre o mais ou menos,
na Maison des Sciences de I'Homme, as quais cheguei a frequentar.
Uma versão muito operatória e de fácil manejo, que foi
muito mencionada, é a teoria dos conjuntos fuzzy (jlous) de Zadeh,
da qual falei à época. Ela permite distinguir graus de pertencimen
to a um conjunto. Na língua, ela abrange as modalizações que pode
mos sempre fazer.
A Croisette, assim como La promenade des Anglais, em Nice,
ou as Planches de Deauville, não são somente lugares onde nos damos
a ver, maslugares onde se conversa fiado. É em razão do pensa
mento aproximativo. Não é preciso que façamos disso um deleite.
244
É justamente porque estamos condenados, na prática, ao pensa
mento aproximativo, que devemos manter nossa postulação em
direção ao materna. É precisamente por estarmos no mais ou
menos que Lacan nos disse: "Olhem para lá, olhem em direção ao
materna". Ainda que possamos somente fazer quase-maternas,
vamos, ainda assim, continuar a olhar nessa direção.
O próprio pensamento aproximativo tem seus maternas.
E, por outro lado, a conversação é necessária até mesmo para os
matemáticos. Não pode existir matemática se os matemáticos não
conversarem entre si. A conversação é necessária para saber o que
procurar, quais os maternas interessantes, os promissores, os que
estão fora de moda. Em suma, é preciso uma Croisette dos maternas.
Não pensem que estou exagerando. É preciso saber que,
na França - descobri isto durante as férias -, existe uma rede de
cidades de veraneio absolutamente deliciosas, mas que só acolhem
as ciências "duras". Eu disse: "Será que um dia não poderíamos
penetrar aí?" _ ''Ah, sim, a psicanálise, hum . . . ". Os físicos e mate
máticos são acolhidos e tratados como os reis da cocada preta, mas
nós, não.
245
DO PATOlÓG ICO AO NORMAl
Jacques-Aiain Miller - Alguém gostaria, para começar a
primeira parte, de assinalar algum ponto,
seja este um detalhe ou algo mais geral?
4. PERTURBAÇÕES DA LINGUAGEM
Hélêne Mniestris - Minha questão se refere à indicação clíni
ca feita na Seção Clínica de Lille, a partir de Po e <I>o, que me permi
tiu ver como poderíamos usar a deformação do esquema L, adap
tada ao caso de Schreber, em outros casos clínicos. Achei essa clíni
ca fina e preciosa. Vocês poderiam precisar quais são os fenômenos
ligados ao <I>o? Mais especificamente, vocês classificariam sistemati
camente o delírio entre esses fenômenos, ou somente as ideias deli
rantes que dizem respeito ao corpo?
Serge Cottet - Intervenho a respeito desse mesmo relatório,
o de Lille, para uma questão geral que se refere às perturbações da
linguagem. Esse relatório, em sua primeira parte, coloca em evidên
cia casos que comportam sinais comprovados de psicose, mas nos
quais faltam as manifestações clássicas da foraclusão, sobretudo, e
frequentemente, perturbações da linguagem. Acrescentemos que
esta ausência é compatível com a foraclusão. Apresentam-se, assim,
psicóticos que têm uma relação normal com a linguagem.
Gostaria, então, de obter algumas precisões: sobre o uso
do significante "dragão" no exemplo 3; sobre aquilo que o sujeito,
no exemplo 4, chama de "relações íntimas passadas do corpo à lin
guagem": ele apresentou alguma tese ou teoria da linguagem?
Elementos de automatismo mental são observados: gostaria de
saber a relação destes com eventuais perturbações da linguagem
mais clássica. A respeito do educador que se sentiu incumbido de
uma missão, gostaria de obter precisões sobre as modalidades dessa
vivência de "se sentir incumbido"; e saber que uso o jovem do caça-
249
níqueis faz do significante "maricas", que acha que lê nos olhos de
um colega, e do binário "dinheiro limpo-dinheiro sujo".
Não seria o caso de trazermos, hoje, precisões a respeito
do que entendemos por perturbações da linguagem? Seria possível
distinguir, por um lado, a decomposição clássica do significante,
como no Seminário 3 e, por outro, fenômenos de despedaçamento
do significante? Não poderíamos precisar o que se pode entender
como perturbação da significação, ou ainda, a relação normal do
sujeito com a linguagem como sintoma? Inspiro-me em uma breve
discussão sobre o exemplo de Jean-Pierre Deffieux, em Arcachon.
Trata-se do enunciado "falta-me energia", a propósito do qual
Carole Dewambrechies observou que poderíamos, eventualmente,
considerar como uma perturbação da linguagem. Jacques-Alain
Miller havia proposto a categoria de "neossemantema". Teríamos,
assim, mais um neo e, talvez, fosse melhor não multiplicá-los. Porém,
isso assinala uma relação com a linguagem na qual a perturbação
seria comprovada. Esse enunciado colocava um ponto de basta no
discurso do sujeito, sua relação com a energia - afinal de contas, tal
vez não seja uma metáfora; a questão é saber se ele fazia disso um
uso corrente ou privado.
Jacques-Aiain M iller - Tratar-se-ia, então, de estender o con
ceito de perturbação de linguagem para além do franco neologismo,
indo até o ponto de nele incluir o uso paranormal da linguagem, o
uso levemente deslocado, a perturbação intersticial. A partir disso,
seria possível estender ainda mais o conceito de perturbação da lin
guagem. Poderíamos até dizer que falar é uma perturbação da lin
guagem. Eu estou convencido disso.
Sylvette Perazzi - Mas quais as diferenças que vocês fariam
entre o neologismo propriamente dito e o neologismo tomado em
seu sentido ampliado, no qual um psicótico toma uma palavra de
acepção corrente e a utiliza como neologismo?
250
Jean-Pierre Deffieux - Sempre fiquei surpreso com o fato de
que tivéssemos, durante muitos anos, retido essencialmente o neo
logismo entre as perturbações da linguagem. De fato, é o que
encontramos no Seminário 3. Mas, em "Formulações sobre a causa
lidade psíquica", Lacan faz uma longa lista, fina e diversificada, das
perturbações da linguagem. Nunca realmente interessou-nos a pre
cisão disso que, neste texto, ele define como perturbações da lingua
gem. Lacan fala do toque de singularidade que marca as perturba
ções da linguagem.
Genevieve Morei - O ponto de vista adotado na primeira
parte do relatório de Lille corresponde ao que Jacques-Alain Miller
disse a respeito da clínica aproximativa, ou seja, não considerar as
diferentes partes do ensino de Lacan como pontos de vista exclusi
vos: tudo pode ser usado; podemos trabalhar em um caso tanto
com a "Questão preliminar", com a função fálica dos anos 1 970,
quanto com a função sintoma, de 1 97 5. Esse ponto de vista expli
ca nossa classificação dos casos. Parece-me que encontramos, na
"Questão preliminar", muitas coisas que poderíamos estender em
todos os sentidos, com as quais podemos até mesmo ultrapassar o
enquadre estrito que ela parece ter, ou que teve para nós. Para as
perturbações da linguagem e os delírios, me baseei neste texto:
tomei o que Lacan chamou de abismos Po e <I>o. Diferenciei o abis
mo Po, a foraclusão do Nome-do-Pai.
No abismo Po, classifiquei tudo aquilo que é alucinatório e
as perturbações da linguagem. O próprio Lacan coloca os pássaros
que aparecem no parque do lado do abismo Po, quando, na verda
de, trata-se de algo puramente visual. Mas existe aí uma dificuldade.
As alucinações visuais e sinestésicas, a meu ver, têm, na prática, um
estatuto difícil de determinar: quando alguém diz que sente dor na
perna, é muito difícil saber se é ou não uma alucinação, enquanto
que quando alguém diz que ouve vozes, a questão está resolvida.
Esta é uma diferença prática que se apresentou a mim.
251
Nas perturbações da linguagem, tomei tudo o que pode
ria remeter a essa categoria, ou seja: palavra, enunciação, tudo o
que diz respeito à escuta, tudo o que De Clérambault aí coloca, o
que é muito vasto, indo do eco do pensamento ao diálogo das
vozes. O neologismo, é claro, aparece nesta série; concordo em
dizer que alguns empregos de palavras de uso corrente são neo
lógicos.
Para a moça "dragão", por exemplo, um caso que acompa
nhei, "dragão" não é um neologismo: é bizarrice local. Eu mesmo
não conhecia a expressão. Fiz então a pergunta para vários adoles
centes: isso corresponde ao que, em Marselha, onde fui criada, cha
mamos "tribufu". Pode se dizer de uma menina que ela é um "dra
gão", pois o dragão é um bicho feio. Perguntei, então, à jovem, por
que dizia "dragão" e ela me respondeu que se dizia "dragão" do
mesmo modo que se diria "mocreia". Verifiquei com outras pessoas
que me confirmaram ser a coisa mais banal do mundo dizer