Logo Passei Direto
Buscar
Material
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A CONVENÇÃO DE ANTIBES 
«EFEITO DE RETORNO SOBRE A PSICOSE ORDINÁRIA)) 
(JACQUES-ALAIN MILLER) 
No primeiro tempo, em Angers, 
começamos ... por surpresas, pelas 
nossas surpresas. Foi uma forma de 
dizer, implicitamente, que nos 
confrontávamos com certa rotina ou 
com certo classicismo e que 
queríamos distinguir momentos ou 
casos que se subtraíam a uma ordem, 
causando nossa surpresa. ( ... ). 
Perseveramos, e, no segundo tempo 
[em Arcachon], escolhemos como 
tema �casos raros". Quisemos, talvez: 
conceituar nossas surpresas. O fato e 
que fomos levados a explicitar nossa 
referência à norma clássica das 
psicoses e, desse modo, colocá-la 
mais radicalmente em questão. 
Hoje, nos reencontramos, na 
Convenção [de Antibes], no tempo 
três. Lendo a coletânea, tive o 
sentimento de que aquilo que 
tínhamos abordado sob a perspectiva 
de casos raros, abordávamos, agora, 
sob a perspectiva de casos frequentes. 
Demo-nos conta de que o que. 
designávamos como casos raros, em 
relação à nossa norma de referência, à 
nossa medida de base ... eram -
sabíamos muito bem disto, por meio 
da nossa prática quotidiana - casos 
frequentes. Neste volume da 
Convenção {de Antibes], assumimos 
seu estatuto de casos frequentes. 
Foi deste modo que, a posteriori, 
imaginei nosso caminho. Passamos da 
surpresa à raridade e da raridade à 
frequência. Estava, ontem à noite, me 
perguntando: "como chamaremos o 
livro que poderá resultar desta 
jornada"? Não será 
neodesencadeamento, neoconversão, 
neotransferência. Será neopsicose? 
Será que realmente queremos ligar 
nossa elaboração à neopsicose? Não 
me agrada nem um pouco a 
neopsicose. E me dizia: "no fim das 
contas, falamos de psicose ordinária". 
Na história da psicanálise, 
interessamo-nos naturalmente pela 
psicose extraordinária, por aqueles 
que realmente "arrebentavam". Há 
quanto tempo Schreber é referência? 
Ao passo que temos aqui psicóticos 
mais modestos, que nos reservam 
surpresas, mas que podem, como 
veremos, se fundir num tipo de média: 
a psicose compensada, a psicose 
suplementada, a psicose não 
desencadeada, a psicose medicada, a 
psicose em terapia, a psicose em 
análise, a psicose que evolui, a 
psicose sintomatizada, por assim dizer. 
A psicose joyceana é, diferentemente 
da obra de Joyce, discreta. ( ... ). 
Tanto o franco psicótico quanto o 
psicótico normal são variações ... da 
situação humana, da nossa posição de 
falante no ser, da existência do 
falasser. 
Jacques-Aiain Miller 
(A psicose ordinária, p. 241-242) 
1J P!iiCD!iE 
DRDinJIRilJ 
A CONVENÇÃO DE ANTIBES 
"EFEITO DE RETORNO SOBRE A PSICOSE ORDINÁRIA" 
(JACQUES·ALAIN MILLER) 
�.EscolaBwileira 
'4-' de Psí� 
T@íbhoteta jf reullíana 
© Copyright Editora Scriptum 2012 
Edição e organização: 
Maria do Carmo Dias Batista e Sérgio Laia 
Tradutores: 
José Luiz Gaglianoni, Lourenço Astúa de Moraes, Maria da Glória Magalhães e 
Sandra Arruda Grostein 
Revisão da Tradução: 
Daniela de Camargo Barros Affonso (coordenadora), Ana Venite Fuzatto de Oliveira, 
Antonia Claudete Amaral Livramento Prado, Kátia Ribeiro, Maria Noemi de Araújo, 
Márcia Aparecida Barbeito e Marizilda Paulino 
Revisão Final da Tradução e Estabelecimento do texto em português: 
Frederico Zeymer Feu de Carvalho e Yolanda Vilela 
Revisão da Língua Portuguesa: 
Neyse de Castro Sanguinetto 
Produção: 
Silvano Moreira 
Capa, Projeto Gráfico e Diagramação: 
Fernanda Moraes 
Livraria e Editora Scriptum 
Rua Fernandes Tourinho, 99 
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooouooooooooooooooooooooooooooo 
� Batista, Maria do Carmo Dias; Laia, Sérgio (Organizadores) � 
� A Psicose Ordinária I Maria do Canno Dias Batista e � 
� Sérgio Laia. i 
� Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2012. i i 432p. i 
i I. Psicanálise. i 
I 
ISBN 978-85-89044-48-6 
I i CDU: 616.89 i 
!..=���.�����.:.�:. ................................................................... ! 
Savassi 1 Belo Horizonte I Minas Gerais 
131132 23 17 89 
Escola Brasileira de Psicanálise 
Rua Felipe dos Santos, 588 
Lourdes I Belo Horizonte I Minas Gerais 
131132 92 75 63 
www.ebp.org.br E-mail: scriptum@scriptum.com.br 
SUMÁRIO 
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 7 
(Sandra Arruda Grostein) 
NOTA DOS EDITORES BRASILEIROS 11 
(Maria do Carmo Dias Batista e Sérgio laia) 
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 15 
PRIMEIRA PARTE: OS TEXTOS 
O NEODESENCADEAMENTO 
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice: 
ligamentos, desligamentos e religamentos 21 
Seção Clínica de Clermont-Ferrand, Antenne Clinique de Dijon 
e Seção Clinica de lyon: Clínica da suspensão 53 
Seção Clinica de lille: 
Investigações sobre o início da psicose 77 
A NEOCONVERSÃO 
Seção Clínica de Bordeaux: 
Usos do corpo e sintomas 99 
Antennes Cliniques de Chauny-Prémontré e de Rouen: 
Fenômenos de corpo e estruturas 119 
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes: 
Fenômenos corporais em pacientes masculinos 129 
A NEOTRANSFERÊNCIA 
Seção Clínica de Angers: 
lalíngua da transferência nas psicoses 155 
Seção Clínica de Bruxelas: 
Transferência e psicose .nos limites 187 
Antenne Clinique de T ottlouse: 
O psicanalista como ajuda-contra 203 
AUTORES DOS TEXTOS DA PRIMEIRA PARTE 227 
SEGUNDA PARTE: A CONVENÇÃO 
ABERTURA 
1. Tríptico 235 
2. A Convenção, modo de uso 239 
3. Clínica fluida {f/oue) 241 
DO PATOLÓGICO AO NORMAL 
4. Perturbações da linguagem 249 
5. Gozar da linguagem 263 
6. Apfuit! do sentido 271 
7. Continuidade-descontinuidade 277 
8. Psicoses carvalho e junco 291 
DA ÓPERA AO TEATRO DE BOLSO 
9. O desejo é sua máscara 295 
1 O. Fenômenos de ordem metonímica 303 
11. Invenção sob medida e prêt·à·porter 309 
12. Conversão do significante e localização da libido 319 
13. Conft!rsão do simbólico ao real 325 
14. A hiância mortífera 329 
15. Corpo, carne, cadáver 333 
DO PSICÓTICO AO ANALISTA 
16. Do saber suposto à lalíngua exposta 345 
17. A língua e o laço social 349 
18. Decomposição espectral da linguagem 357 
19. Word and object 361 
20. Língua pública e língua privada 367 
21. Como pode o sujeito psicótico servir-se de nós? 375 
22. As condições da conversação com um psicótico 383 
SUPLEMENTO 
Efeito do retorno à psicose ordinária (Jacques-Aiain Miller) 399 
PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 
O fazer da clínica nos obriga a sempre inovar e inventar 
em face dos sintomas que, por sua plasticidade, se renovam. 
Entre 1996 e 1 999 houve na França uma série de 
Conversações no âmbito das Seções Clínicas do Campo Freudiano, 
visando questionar a psicose a partir dos manejos clínicos e das 
manifestações sintomáticas travestidas de ineditismos. 
O objetivo do livro A Psicose Ordinária - A Convenção de 
Antibes é estabelecer novas convenções sobre a psicose, recuperan­
do alguns conceitos clássicos da clínica lacaniana e reformulando­
os, para apresentar alternativas ao estabelecimento do diagnóstico 
diferencial entre neurose e psicose, na discussão de casos em 
atendimento. 
Para organizar a tradução da edição brasileira, e sua poste­
rior publicação, foi necessário o envolvimento de algumas institui­
ções e o trabalho de muitos. 
Em um feliz encontro, a CLIPP - Clínica Lacaniana de 
Atendimento e Pesquisas em Psicanálise e o Colégio Franco­
Brasileiro, que na mesma época, em São Paulo e Paris, respectiva­
mente, trabalhavam o livro "La Prychose Ordinaire", concluíram pela 
necessidade de uma versão em português do texto. Estabeleceram, 
então, uma parceria para tal finalidade, agradeceram a J acques-Alain 
Miller por gentilmente autorizar o projeto. 
O livro foi dividido em suas duas partes "naturais": os 
casos clínicos e a conversação. A tradução da primeira parte ficou 
sob a responsabilidade da CLIPP e a da segunda, com o Colégio, à 
época sob a coordenação de José Luiz Gaglianone. No que se refe-
7 
re ao título, pensou-se, num primeiro momento, em traduzir "La 
P!Jchose Ordinaire" por Psicose Comum, mas optou-se por manter a 
pluralidade de sentidos que "ordinária" comporta, exprimindomelhor o que se busca no desenvolvimento das discussões presen­
tes no livro. 
No contexto da discussão clínica, cuja série de conversa­
ções Antibes finaliza, o debate visava encontrar meios de aproxi­
mação da questão da psicose por meio de novas proposições con­
ceituais. Já no campo editorial, a versão brasileira, diferentemente 
da francesa, cuja inclusão na série das três conversações já estava 
dada a priori, buscava um lugar onde pudesse ter seu valor reco­
nhecido. Decidiu-se então, numa segunda parceria entre a Escola 
Brasileira de Psicanálise e uma das editoras que já publicavam o 
Campo Freudiano no Brasil, incluí-la na série das revistas dos 
Institutos do Campo Freudiano no Brasil, iniciada com os dois 
volumes da revista Clique. Projeto esse que foi posteriormente 
descartado. 
Finalmente, numa terceira parceria entre a Escola 
Brasileira de Psicanálise (EBP) e a Editora Scriptum, decidiu-se que 
a coleção que teria o melhor perfll para acolher o livro A Psicose 
Ordinária seria a própria coleção da EBP. 
Foi imperiosa uma revisão criteriosa da tradução, visando 
principalmente à uniformização dos termos, trabalho do qual nova­
mente a CLIPP participou ativamente, em conjunto com colegas da 
EBP. 
O longo caminho percorrido para chegar à publicação 
permitiu que o termo psicose ordinária fosse apresentado ao públi­
co brasileiro amplamente validado. Embora desde 1999 muito se 
tenha discutido sobre a importância de incluir um diferencial entre 
as psicoses, que as aproximassem da neurose, a flexibilidade com 
que a expressão "psicose ordinária" é'utilizada permite que se man­
tenha como um termo comum e não seja elevada à categoria de 
conceito. 
8 
Em seu texto "Efeito de retorno sobre a psicose ordiná­
ria", Jacques-Alain Miller retoma a discussão sobre o termo psico­
se ordinária, dizendo que este não se encaixa em uma definição rígi­
da conceitual, e que foi proposto para que cada um pudesse utilizá­
lo quando necessário. Trata-se mais de uma palavra, uma expressão, 
um significante, do que propriamente um conceito. 
Neste volume, o leitor brasileiro terá acesso ao texto acima 
citado, conjuntamente com a tradução da Convenção de Antibes, 
graças à generosidade de Miller em permitir que este fosse incluído 
nesta publicação. Trata-se de outro diferencial fundamental e, por­
que não dizer, um ganho importante em relação ao original. 
A questão central debatida durante a Conversação girava 
em torno da necessidade de se estabelecer um novo termo - psico­
se ordinária - pois, se consideramos que psicose quer dizer foraclu­
são do significante do Nome-do-Pai, tanto a ordinária quanto a 
extraordinária se submeteriam a essa condição. Contudo, a impor­
tância da psicose ordinária cresce na medida em que este diagnósti­
co é cada vez mais constante, confirmando que os casos apresenta­
dos nesta conversação e a maneira como a discussão é conduzida, 
contribuem para manter vivo o debate sobre o tratamento da psico­
se que até os dias de hoje se encontra na categoria do possível. 
Sandra Arruda Grostein 
Diretora Geral da CLIPP 
AME da EBP e da 
Associação Mundial de Psicanálise (AMP) 
9 
NOTA DOS EDITORES BRASILEIROS 
Com satisfação, na Coleção EB� produto da parceria da 
Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) com a editora Scriptum, lan­
çamos no Brasil este livro - A psicose ordinária. Publicado original­
mente na França em 1999, já pode ser considerado um clássico, 
tendo em vista a reorientação que nos tem permitido operar no tra­
tamento das psicoses e suas incidências na clínica psicanalítica em 
geral. 
"Psicose ordinária", como se verá a seguir, não é um novo 
diagnóstico de psicose, mas um modo de diagnosticar e tratar as 
psicoses mesmo quando elas não se apresentam claramente como 
tais. Por isso, a reorientação clínica efetivada com este livro nos 
autoriza, ao mesmo tempo, a dar conta do que pode atravessar as 
diferentes categorias que classicamente chamamos de "neuroses", 
"psicoses" e "perversões" sem, no entanto, resvalarmos para diag­
nósticos pouco precisos como "borderline", "casos-limite", "casos 
fronteiriços" e "transtornos mentais ... sem nenhuma outra especifi­
cação". Nesse contexto, quatorze (14) anos antes do lançamento da 
quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 
(DSM-V), prometida para 201 3, este livro que editamos agora no 
Brasil vem possibilitando - aos psicanalistas de orientação lacania­
na e aos profissionai� do âmbito da saúde mental que os acompa­
nham - diagnosticar sem fazer proliferar "comorbidades" (atribui­
ção de vários e até contraditórios tipos de transtornos mentais a um 
mesmo paciente), sem aumentar a quantidade, em uma mesma cate­
goria, de diagnósticos pouco precisos por se "caracterizarem" 
como sendo "sem nenhuma outra especificação". Assim, lançar a 
1 1 
tradução deste livro no ano anterior à publicação do DSM-V é ofe­
recer àqueles que se interessam pelas psicoses e pelo que se conven­
cionou a chamar de "saúde mental", um instrumento clínico preci­
so e prectoso. 
Outra mostra da atualidade deste livro é que, em 201 1 , por 
ocasião de um encontro com vários psicanalistas de língua inglesa 
em Paris, Jacques-Alain Miller apresentou a conferência "Efeito de 
retorno sobre a psicose ordinária". Neste "retorno" - que conside­
ramos fundamental publicar nesta edição brasileira - a noção de 
"psicose ordinária" ganha em precisão e clareza, assim como suas 
ressonâncias sobre a experiência psicanalítica com relação à satisfa­
ção pulsional, ao significante fundamental que Lacan designou 
como Nome-do-Pai e aos modos como o termo "sintoma" é lapi­
dado ao longo do ensino de Lacan. 
Esta tradução brasileira, como poderemos ler no Prefácio 
aqui assinado por nossa colega Sandra Grostein, foi um trabalho 
feito por muitos, uma efetiva pratique à piusieurs que, por sua vez, é 
consonante com a própria montagem do livro original, baseada nos 
trabalhos e na conversação que ganharam corpo em uma 
Convenção, sustentada por vários psicanalistas de orientação laca­
niana e animada por Jacques-Alain Miller, em Antibes. A esses cole­
gas de língua francesa, bem como à Sandra Grostein, Angelina 
Harari, Elisa Alvarenga e Leonardo Gorostiza, que foram decisivos 
para a retomada de alguns contatos e a efetivação de iniciativas que 
tornaram esta edição possível, nossos agradecimentos. Para fazer 
ressoar pluralidade da tradução para o português em um mesmo 
diapasão, contamos com o inestimável trabalho de nossos colegas 
Frederico Zeymer Feu de Carvalho e Yolanda Vilela, a quem tam­
bém agradecemos imensamente. 
Como editores brasileiros deste A psicose ordinária, cabe 
agora também destacar que iniciamos nosso trabalho no âmbito da 
gestão de Rômulo Ferreira da Silva, Luiz Fernando Carrijo da 
Cunha e Simone Souto na Diretoria da EBP, mas o prosseguimos, 
1 2 
devido à extensão que ele tomou, graças à acolhida que tivemos da 
atual Diretoria da EBP, composta por Cristina Drummond, Lilany 
Vieira Pacheco e Ondina Machado. Somos gratos à confiança depo­
sitada em nós por esses colegas, bem como aos que compõem a 
maquinaria editorial da Scriptum. Considerando que este é nosso 
último trabalho conjunto na Equipe de Publicação da EBP, bem 
como a magnitude deste livro, podemos dizer que fechamos este 
nosso percurso "com chave de ouro". É esta chave que entregamos, 
agora, na forma deste livro, aos leitores brasileiros. 
Maria do Carmo Dias Batista 
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), 
Membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); 
Redatora da Correio- Revista da EBP. 
Sérgio Laia 
Analista Membro da Escola (AME) pela EBP e pela AMP; 
Professor do Curso de Psicologia da 
Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura) ; 
Pesquisador do Programa de Pesquisa e Iniciação Científica da 
Universidade FUMEC (ProPIC), com Bolsa de Produtividade 
Nível 2 do Cons�lho Nacional de Desenvolvimento 
Tecnológico e Científico (CNPq) e em cujas atividades está 
incluídoo processo de edição deste livro. 
1 3 
PREFÁCIO 
Dois livros em um: a primeira parte é composta por nove 
relatórios, que foram elaborados de forma coletiva pelas Seções 
Clínicas do Campo Freudiano; a segunda uma longa conversação 
sobre esses textos, que se estende por três meias jornadas, nos dias 
1 9 e 20 de setembro de 1 998. 
Os textos estão divididos em três capítulos: o neodesencadeamento 
(aquelas formas de "desligamento" que se distinguem do desenca­
deamento clássico) , a neoconversão (fenômenos de corpo não inter­
pretáveis de maneira clássica) e a neotran.iferência (a manobra da trans­
ferência nas neopsicoses). Tudo se simplificou então, na conversa­
ção, para dar lugar a um título único: a psicose ordinária. 
Com esse volume, chamado de A Convenção de Antibes (que 
aconteceu em Cannes), encerra-se um ternário iniciado com o Conciliábulo 
de Angers (1996) e seguido pela Conversação de Arcachon (1997), que já foram 
objeto de uma publicação na mesma coleção (IRMA). São três momen­
tos de uma mesma investigação da psicose. Mesmo sendo cedo demais 
para se fazer um balanço, já se pode dizer que o estilo agradou, que foi 
transmitido, que o esforço prosseguiu diversificando-se: os Institutos 
brasileiros do Campo Freudiano fizeram em 1998 sua primeira conversa­
ção clínica, em Campos do Jordão, no estado de São Paulo; a Seção de 
Bordeaux reuniu-se em. conversação no mês de janeiro de 1999; as Seções 
francófonas se encontraram em Paris no começo do mês de julho do 
mesmo ano para uma conversação sobre a estilística das psicoses. 
Um movimento está lançado. 
27 de julho de 1 999. 
15 
PRIMEIRA PARTE 
OS TEXTOS 
O NEODESENCADEAMENTO 
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice* 
LIGAMENTOS, DESLIGAMENTOS, RELIGAMENTOS 
L INTRODUÇÃO 
A comunidade analitica foi convocada, neste encontro de 
Antibes, para um aggiornamento de sua elaboração teórica da clinica. 
Jacques-Alain Miller1 empreendeu esse trabalho em várias oportuni­
dades, dando lugar de destaque ao estudo da psicose, aos elementos 
que Lacan forjou a partir do Seminário III, e que devem nos servir 
de suporte neste registro de nossa prática. 
A participação que o encontro das Seções Clinicas pode 
ter nesse aggiornamento se baseia na dialética entre a experiência cli­
nica e os quadros conceituais. 
O que nos propusemos a estudar, com o termo "neode­
sencadeamento", é a atualização necessária do conceito de desenca­
deamento, tal como é enunciado em sua forma canônica, por 
Lacan, em sua "Questão preliminar"2• 
Essa atualização se escora na experiência analitica acumu­
lada desde então, tal como foi esclarecida pelo ensino de Lacan. Tal 
experiência leva a integrar às nossas ferramentas conceituais os 
desenvolvimentos posteriores de Lacan, concernentes à psicose. 
Estes consistem essencialmente em tomar em consideração a "pola­
ridade"3 entre "sujeito do gozo" e "sujeito do significante". Assim 
se encontrou definida a orientação crescente da clínica pela questão 
do real e do aparelhamento do gozo. Lacan insiste particularmente 
nesta mudança de perspectiva em sua ''Alocução sobre as psicoses 
21 
da criança"4• Essa via leva a dar todo o lugar à clínica "borromea­
na", contemporânea dos Seminários RSI e O Sinthoma, além da clí­
nica estrutural que distingue entre neurose e psicose em função da 
presença ou da ausência do operador que é o N orne-do-Pai. 
Parece-nos mais fácil, graças a essas ferramentas, dar conta 
de numerosos casos clínicos e de suas possibilidades de tratamento, 
perguntando-nos o que faz manter juntos os três registros R, S e I 
da estrutura, ou o que poderia fazê-los ficar juntos, em vez de nos 
orientarmos somente pela questão da foraclusão. 
De um modo empírico, o que orienta a clínica consiste em 
identificar o que, em um dado momento, para um sujeito, faz "desli­
gamento" em relação ao Outro. Essa identificação esclarece retros­
pectivamente o elemento que fazia "ligamento" para esse sujeito, e 
permite dirigir o tratamento no sentido de um eventual "religamen­
to". Essa noção, estritamente empírica, pode, portanto, revelar-se 
operatória para a direção do tratamento. 
A clínica à qual nos referimos dá lugar a casos que pode­
mos qualificar - segundo o modelo da nosologia médica - de "for­
mas clínicas", no sentido de variantes, e até mesmo de modos atípi­
cos, em relação à "forma tipo" do desencadeamento pinçado por 
Lacan em sua "Questão preliminar". Notamos que, desde essa 
época, Lacan fazia de sua forma paradigmática um modelo suscetí­
vel de ser declinado segundo diversas variáveis. Na literatura pulu­
lam entidades como mania, melancolia, erotomania, autismo infan­
til, etc., nas quais, por exemplo, a eclosão dos fenômenos elementa­
res não acompanha o encontro de Um-pai ou obedece a uma tem­
poralidade diferente. Os novos sintomas, a evolução da patologia ao 
sabor das mudanças do Outro, são igualmente ocasiões para obser­
var formas clínicas mais ou menos inéditas. 
Parece-nos que, dentre essas "formas clínicas", pode-se propor 
uma classificação na medida em que as variações em relação ao para­
digma envolvam a temporalidade (diacronia) ou a estrutura do próprio 
desencadeamento, sua "conjuntura", como dizia Lacan (sincronia). 
22 
A. Formas clínicas segundo a diacronia 
Em Arcachon, Éric Laurent lembrava uma fórmula de 
François Leguil que faz do desencadeamento5 um "momento de 
concluir". Mesmo que o desencadeamento não seja senão o tempo 
zero de um processo evolutivo em cujo curso se coloca a questão, 
crucial para nós, sobre as organizações e suplências possíveis (o 
tempo da certeza a advir), ele é, de fato, o termo ao qual chega uma 
história que não pode sempre ser descrita como "um céu sereno" 
no qual irromperia um raio. Pode-se, a posteriori, depois da revelação 
da psicose, identificar, em bom número de casos, premissas, sinais 
precursores e perturbações de evolução progressiva, seja ela contí­
nua ou descontínua. Entre esses casos, Lacan tinha descrito os 
"fenômenos de franja" e os estados que não hesitava em qualificar 
de "pré-psicóticos". Alguns de nossos colegas, Pauline BernardS, 
por exemplo, descreveram recentemente o aparecimento ou a reve­
lação de fenômenos elementares e de psicoses confirmadas em pes­
soas que foram privadas por tratamentos de substituição, depois de 
anos ou décadas de prática toxicomaníaca. Esses sujeitos testemu­
nharam, então, que essa prática encobria dificuldades concernentes 
ao campo da psicose, sem desencadeamento típico. Em termos de 
sintomatologia, esses sujeitos haviam permanecido "assintomáti­
cos" durante toda duração de sua toxicomania. Além dos efeitos 
ansiolíticos e neurolépticos da substância, é clássico descrever o 
tamponamento que a droga pode colocar na divisão subjetiva e a 
solução identificatória que ela autoriza pela pregnância do signifi­
cante "toxicômano" no campo social. A posterion� esses sujeitos, 
novamente confrontados com suas interrogações e com sua divisão 
subjetiva, podem, por exemplo, alegar distúrbios alucinatórios 
remontando à infância, com uma vivência de despersonalização e 
de descorporificação, experimentada nos momentos de derrelição e 
de grande solidão. Esses fenômenos - que marcaram esses sujeitos 
pela sua intensidade emocional, a perda das referências corporais e 
23 
identificatórias, sua estranheza e a impossibilidade de comunicá-la a 
alguém e de tirar disso uma significação - são às vezes reinterpreta­
dos, a posteriori, em termos de experiência parapsicológica, de "via­
gem cósmica" ou de vivência mística inefável. A convicção dos 
sujeitos sobre o sentido sinestésico de uma abolição dos limites da 
realidade sensível só se equipara ao caráter enigmático e angustian­
te desse gozo. 
Eles alegam em seguida um empobrecimento de suas tro­
cas e dos laços afetivos e sociais, e uma marginalização crescente, 
escandida por tempos de rupturas progressivas, repetitivas e de 
intensidade crescente do laço social. 
Esse percurso evocapara nós o que Éric Laurent definia, 
em Arcachon, como "desligamento progressivo do Outro". 
Daremos, mais adiante, vinhetas clínicas que nos parecem ilustrar 
esse caso. 
B. Formas clínicas segundo a sincronia 
Em alguns casos, é a estrutura do momento de concluir 
que se revela atípica. Os efeitos do desencadeamento parecem cer­
tos e habituais, com a regressão especular, a invasão de um gozo 
deslocalizado, os remanejamentos posteriores pelo delírio e a busca 
de uma solução pessoal. 
O que domina o quadro no momento mesmo do desenca­
deamento é o encontro fortuito com um gozo - gozo do Outro 
e/ ou Outro gozo - e a impossibilidade, com a qual o sujeito se 
encontra confrontado, de simbolizá-lo e de encontrar para ele um 
modo de subjetivação. 
Diante da irrupção desse gozo, o tecido simbólico apare­
ce esfarrapado - podemos pensar no que Lacan fala a propósito de 
Schreber quanto ao "texto esfarrapado em que ele mesmo se 
torna". O sujeito parece experimentar o buraco como tal, e o que 
24 
se manifesta é o desfalecimento radical de todo aparelhamento sig­
nificante do gozo. Freud notava, à sua maneira, esse traço na melan­
colia, distinguindo nela o modo de identificação ao objeto perdido 
- poderíamos falar da "realização" dele - com relação ao que se 
observa na histeria, na qual a identificação ao objeto é amenizada 
pelo fato de que o sujeito dispõe daquilo que ele chama de uma 
"relação de objeto", como meio de mediação, isto é, uma possibili­
dade de aparelhamento pela fantasia. 
Referindo-se à "Questão preliminar"7 e ao esquema I de 
Lacan, o que é patente nesses casos é <!>o. Toda significação fálica 
parece abolida. Mas não parece legítimo supor Po, principalmente 
na ausência de encontro com Um-pai e de triangulação da situação, 
e tampouco em presença, por outro lado, de uma aparente eficiên­
cia da figura paterna. Quando muito, poder-se-ia deduzir Po a par­
tir da suposição teórica, que é a condição lógica e necessária da 
ausência da significação fálica. 
Grivois8 descrevia a psicose como articulada em torno de 
um "ponto central", que consiste em uma "experiência vivida pelo 
sujeito fora de toda possibilidade de comunicá-la". Os casos dos 
quais falamos aqui, em que não predominam os distúrbios da relação 
com o simbólico, são assim centrados em uma experiência que devemos 
entender como confrontação a um gozo do Outro, que o sujeito 
sente como totalmente enigmático, não lhe atribuindo outro lugar 
senão o de objeto e colocando-o em perigo extremo. A posteriori, o 
sujeito poderá dizer que é a sua vida psíquica, a sua "própria exis­
tência" - como diz um de nossos analisantes - que se encontrava 
ameaçada, mais do que a vida propriamente dita. Nesse ponto, nos­
sos sujeitos são bastante "Schreberianos". 
Conhecemos pelo menos três casos de jovens mulheres 
em que o neodesencadeamento consiste em uma vivência apocalíp­
tica por ocasião de sua primeira relação sexual, em um contexto, a 
priori, não traumático. O trauma só é constituído nesses casos com 
a condição de que seja dado um sentido amplo ao termo, a saber, o 
25 
encontro com um real sem ordenação simbólica possível. Os efei­
tos puderam ser de aparência melancólica, até mesmo catatônica. 
Imediatamente, aparece o desarranjo do laço do sujeito com o seu 
ser vivente. A impossibilidade de produzir uma significação fálica 
para dar conta da situação vivenciada deixa o sujeito diante de um 
desespero "que não tem mais nada a ver com nenhum sujeito", 
como diz Lacan sobre os urros de Schreber. Po é aqui uma simples 
hipótese que só se sustenta pelo sentimento de ausência de todo 
fundamento de seu ser com o qual o sujeito está às voltas, e com a 
ausência de qualquer chave que permitiria uma simbolização e um 
aparelhamento desse gozo enigmático e sem limite. 
A hipótese que sustentamos é que tal desencadeamento 
pode ser lido em uma clínica borromeana como um desenodamen­
to da estrutura ocasionado pelo esmorecimento da relação imaginá­
ria com o corpo, expondo a impossibilidade de limitar o gozo, assim 
como o seu caráter totalmente xenopático. 
11. VINHETAS CLÍNICAS 
A. Desligamentos sucessivos: dois exemplos 
1 . Primeiro caso 
A perspectiva de ter que interromper o curso de sua aná­
lise levou um homem a consultar outro analista para avaliar a legiti­
midade de sua intenção. Experimentava, contudo, as maiores difi­
culdades para formular os motivos de sua desconfiança em relação 
ao analista. 
Parecia-lhe ter percebido nele movimentos de hostilidade 
que explicariam desencadeamentos de angústias catastróficas, ime­
diatamente após alguns encerramentos de sessões. No entanto, o 
que detinha seu desenvolvimento é que ele tinha a experiência de ter 
26 
interrompido outros tratamentos, ou tentativas, de um modo simi­
lar. Por isso, embora não pudesse subjetivar a repetição, não deseja­
va que isso se reproduzisse. 
O que nos leva a apreender a posição desse sujeito, consi­
derando a clínica sob a ótica do "desligamento" do Outro em pon­
tos diversificados da estrutura, é o fato de ele, no mesmo instante 
em que se aproxima de uma ruptura reiterada do laço com o analis­
ta, tentar religá-lo pela via de um subterfúgio, que mantém o signi­
ficante da análise. Em suma, ele tenta, em um mesmo movimento 
de denúncia e de identificação, dar nome às irrupções de gozo ino­
mináveis. 
Poderíamos dizer, desse sujeito, que ele não deixou de 
obter um saber sobre suas diversas iniciativas analíticas, mas que 
esse saber nunca lhe permitiu situar o gozo devastador, com o qual 
ele lida periodicamente. A solução que se mostra cada vez mais pre­
sente em suas invasões catastróficas consiste em produzir, no plano 
da realidade, condutas em que paira a iminência de um ato de cará­
ter médico-legal que tornaria irreversível a recusa de sua posição no 
laço social. 
Em sua análise, dava crédito às construções que articula­
vam os pontos candentes de sua infância, particularmente os que 
indicavam o caráter "sem recurso" do surgimento do real a partir de 
certos acontecimentos. Mesmo sem chegar a reconhecê-la, pode-se 
dizer que validava, que adotava a ideia de uma problemática organi­
zada em três tempos: o luto impossível de sua mãe em relação a seu 
exílio de uma terra marcada pela solidão dos marinheiros, a inexis­
tência da palavra do pai em qualquer ocasião e as tentativas preco­
ces para encontrar uma solução sexual para a perplexidade provo­
cada pelos mal-entendidos. Três episódios são incansavelmente 
lembrados como as marcas de seu destino: na primeira infância, a 
recusa absoluta de sua mãe em deixá-lo se isolar para fazer suas 
necessidades, ligada à compacidade gozante de seu olhar quando 
essas necessidades se efetivavam; na adolescência, a petrificação 
27 
estranha do pai quando o chamou para protegê-lo de uma sedução 
homossexual e, para terminar, no momento de ele mesmo se tornar 
pai, a irrupção mortificante de uma compulsão pedófila. 
Esses traços clínicos, distintos no tempo, nos dão a ideia 
de um desligamento escalonado na história do sujeito, incidindo em 
diferentes lugares. A tentativa de resistir à captura do olhar mater­
no cedeu posteriormente diante do desmoronamento do apelo ao 
pal. 
2. Estudo do caso de uma jovem anoréxica 
Mais que relatar em detalhe o caso desta moça de vinte e 
cinco anos, vamos isolar alguns momentos de seu tratamento e ana­
lisá-los. 
a) Os desligamentos sucessivos 
O termo "neodesencadeamento" não designa somente o 
desencadeamento psicótico; permite-nos interrogar como o sujeito 
se desliga do laço social. Ele se desliga do laço social, caso nos colo­
quemos na posição de outro, de alter ego, para se ligar - podería­
mos dizer, reforçando essa mesma metáfora de ligamento-desliga­
mento - ao seu gozo. 
Eis um exemplo paradigmático. Esse sujeito, às voltas com 
sua anorexia, desenvolve um sintoma de cleptomania que ele inter­
roga durante o tratamento. Confidencia suas diferentes vertentes: 
_Trata-se de roubar, ou coisas que não servem para nada,ou "substitutos de alimentos", a fim de constituir estoques. Esses 
estoques não devem diminuir, "por medo que isso falte". Na vertente 
significante, nota-se esse deslocamento entre comer nada e roubar 
substitutos de alimentos. 
- o ato se declina em termos de "provocação". ·�s veze� 
quando roubo e passo no caixa com uma sacola um pouco transparente, as pes-
28 
soas_, atrás, podem ver alguma coisa. Se me denunciassem, isso não me impedi­
ria de fazer de novo. É um descifio: vocês podem me pegar uma ve:v mas não 
todas". É uma maneira de provocar o Outro e de questionar a lei. 
Na vertente pulsional, o que impele ao ato se sustenta não 
somente pelo dizer "é mais forte do que eu", mas também por um "é 
uma bulimia-cleptomania ". Há um "nunca é suficiente. Quando volto para 
casa, constato: só roubei isso?!", mas, no processo anoréxico, o que é cui­
dadosamente pesado e repesado, na previsão da refeição, é sempre 
reduzido e considerado como excessivo. 
Um excesso marca a falta da simbolização. Com relação à 
oralidade, à pulsão oral, a demanda ao Outro não está simbolizada. 
Alguma coisa se desligou, se reportamos essa sequência à própria 
estrutura. 
b) "O malabarismo" 
O que acontece quando isso responde no Outro do lado 
da lei? 
"Por mais que meus pais me digam que, se eu for pega, serei priva­
da da liberdade, eu não a tenho atualmente". A evocação da lei e dos ris­
cos corridos fracassa em apaziguar "a deriva". "Na prisão, não estarei 
pior do que no hospital psiquiátrico, onde me obrigariam a me privar de meus 
sintomas. Na prisão, por sua ve:v não poderiam me obrigar a comer". 
Por ocasião de uma primeira interpelação em que os vigias 
fazem uma ameaça: "Na próxima ve:v mandamos os cachorros!", a 
paciente revela a resposta que lhe atravessou a mente: "Eles só terão 
um osso para roer". 
Enfim, durante uma segunda vez, quando foi levada à 
delegacia e interrogada, ela disse: "Nunca fiquei em pânico por causa dos 
policiais_, sentia-me em segurança, isso não me atingia. O que me contrariava 
era ter de chegar mais tarde em casa para comer". 
Nessas três evocações, assiste-se a uma inversão da posi­
ção do sujeito que, de acordo com os termos utilizados anterior­
mente, se desliga do laço social para se ligar naquilo que cifra em 
29 
segredo o gozo. O sujeito escapa da lei em um movimento de pên­
dulo, tal como os malabaristas. 
c) Clínica do real e clínica do gozo 
A anorexia se constitui verdadeiramente como um parceiro­
sintoma, a tal ponto que o sujeito interroga: "Eu me pergunto às vezes o 
que me restaria se eu retirasse esse sintoma}}. Retirar o que encerra esse 
nada, nessa busca na qual ela se esforça em comer nada, é encon­
trar-se confrontada ao real. A anorexia faz borda a esse buraco do 
real. Uma borda em relação ao que se inscreve como pulsão de 
morte. É no momento de uma "confissão" que tomamos a medida 
do que está em causa. Essa confissão, ela a enuncia assim: "Sou fas­
cinada pela violência!" Uma fascinação pela violência que é dirigida 
contra inocentes, vítimas, ao acaso. Essas vítimas não deixam de lhe 
lembrar sua própria posição vitimada quando se deixa pegar, no 
decorrer de suas passagens ao ato cleptomaníacas. Ver cenas de vio­
lência serve-lhe para "exorcizar a (sua) própria violência": "O que me 
fascina são os dramas ao vivo na televisão; eu gostaria de ver isso, o desmoronamento 
do estádio de Heize4 ou ainda os terremotos nos quais eles mostram um monte 
de imagens de mortos e de feridos. Acho que nunca há mortos o bastante. }} 
Ela testemunha aquilo que a rói por dentro: a pulsão de 
morte. O que a invade é esse "nunca o bastante}} da pulsão de morte. 
Isso dá a medida do que se trata para ela nessa anorexia. Assiste-se 
a um desligamento do laço social e a um ligamento com a pulsão. 
Da mesma forma que, no tratamento do neurótico, sinto­
ma e fantasia mantêm uma relação de proximidade (o sintoma só 
tem sentido se é reportado à clínica da fantasia), na psicose existe 
uma relação entre sintoma e delírio. É precisamente o gozo que 
constitui a articulação entre esses diferentes termos. 
30 
B. Formas atípicas da conjuntura de desencadeamento 
Quatro casos clínicos vão nos permitir questionar a exis­
tência de desencadeamentos nos quais o momento fecundo não 
parece depender do encontr.o com Um-pai. 
1 . Uma doença da mentalidade 
Mediante os meandros da queixa de um sujeito, as dificul­
dades encontradas na localização estrutural, a condução do trata­
mento e o manejo da transferência, o analista é levado a evocar o 
caso em termos de "doença da mentalidade". Essa expressão de 
Lacan nos é reportada por Jacques-Alain Miller em suas reflexões 
sobre a apresentação de pacientes9• 
Essa moça viera para a análise depois de dezessete anos de 
cuidados psiquiátricos que lançaram mão de todo o arsenal antide­
pressivo, dezessete anos escandidos por longas hospitalizações. 
Cada uma delas correspondia a um paroxismo do que marcava a 
tonalidade geral de sua existência: seu sentimento de estar ausente 
dela mesma, de "desabitar sua vida". Tentava, em vão, representar 
papéis "normais", responder ao que se esperava dela, fazer o que 
era conveniente fazer. Mas fracassava sempre quando percebia que 
esses papéis eram perfeitos empréstimos, que não os endossava 
senão como roupas estranhas a ela, puros semblantes. A identifica­
ção comum a abandonava então, como sendo imprópria: quer ela 
tentasse ser "esposa, irmã, amante, mãe", como diria Apollinaire. 
Se a análise lhe parecia ser sua última chance, é porque o 
retorno inexorável desses estados depressivos lhe parecia, ao 
mesmo tempo, como a escolha de um refúgio quanto ao caráter 
insustentável de sua relação com o mundo e como uma descida para 
o reino da morte. Ela fala, por exemplo, de sua primeira hospitali­
zação, aos dezessete anos, como um retorno à matriz, percebendo, 
ao mesmo tempo, a natureza mortífera desse retorno: "Quando 
31 
minha mãe vinha me visitar, via minha morte avançar em minha direção". Ela 
circunscreve frequentemente, assim, a superposição das figuras do 
mesmo, da mãe e da morte. 
Seu percurso levou a uma dessocialização profunda, mas­
carada por sua dependência em relação ao meio familiar: vive em 
um apartamento que pertence a seus pais, no mesmo andar em que 
eles moram. Eles asseguram sua sobrevivência, auxiliados pelo 
benefício para adultos incapacitados que seu psiquiatra ajudou a 
obter. Cuidam de seu fllho, que ela vê somente alguns minutos por 
dia. Queixou-se muito dessa despossessão, e os pais são de fato 
muito ativos nesse ponto. Mas ela chega a dizer que ficou alheia ao 
nascimento de seu filho, como se fosse sua própria mãe que o tives­
se colocado no mundo. 
Entre as crises, sua vida é ritmada por tentativas de enfren­
tar a própria situação que está na origem de sua primeira descompen­
sação: a relação com os homens. Sente a cada vez como a engrenagem 
vai conduzir aos mesmos efeitos, mas vai nessa direção, como a mari­
posa vai para a luz. Não cessa de se confrontar com a não-relação 
sexual e a sua impossibilidade de inventar uma solução que possa fazer 
suplência a isso. Ela topa a cada vez com a ausência de uma fantasia 
que possa enquadrar sua relação com o real e tamponar seus efeitos. 
No tratamento, tenta construir algo que faça função de 
fantasia, de um modo que permanece estritamente imaginário. 
Trata-se, nos roteiros que ela produz, de recuperar um poder relati­
vo sobre o outro, uma presença de si, e de assumir certa "masculi­
nidade" ou o que chama de "feminilidade transfigurada". Esses 
roteiros só se mantêm ao preço de um apagamento de fato de qual­
quer parceiro, de qualquer homem, a não ser em filigrana, a título 
de espera. Trata-se de tentativas de restaurar a imagem do corpo 
próprio, erigir uma figura narcisicamente investida, coroada pela 
aura fálica de lembranças nas quais ela se vê menininha, radiante na 
luz do deserto. Para isso, ela joga com os semblantes da mascarada 
e com aqueles da "natureza".32 
Ela se descreve assim como 'Jora da civilização, lá onde as rife­
rências do masculino e do feminino se apagam, mas onde a feminilidade verda­
deira pode, de repente, resplandecer: seria mulher, sem maquiagem, sem sapa­
tos, sem homem, distante, sozinha, única em meu gênero, feliz em sê-lo, mulher 
de corpo com um corpo de mulher, sem necessidades de 'mais' para exprimi-lo ". 
Apesar da solidez dos episódios melancoliformes, seu 
engajamento na análise me levou a pensar em uma neurose severa. 
Seu discurso, ao longo das sessões, reveste-se de todas as aparências 
do discurso de um sujeito histérico tomado no enigma do que é 
uma mulher para um homem. Coloca muito humor para dizer: "os 
homens são bonitos, como mestres! Eles não são verdadeiramente os mestres, 
mas é tão divertido vê-los acreditar nisso!" Ou ainda: "De qualquer maneira, 
não quero, apesar de tudo, me deitar com um cara que não me dá tesão!" 
As circunstâncias da descompensação inicial, mesmo 
clássicas na clínica psiquiátrica, não fazem aparecer um desenca­
deamento típico, no sentido do encontro com Um-pai. Todavia, a 
"conjuntura dramática" vai mostrá-la subitamente como estranha 
à sua vida, dessubjetivada. O momento de báscula ocorre na oca­
sião da sua primeira relação sexual com um rapaz pelo qual acre­
ditava estar apaixonada, pois é isso o que os outros lhe diziam. Era 
preciso logicamente passar por isso, com esse parceiro ideal, visto 
que era o verdadeiro duplo de seu próprio irmão. É o instante da 
penetração que corresponde a uma báscula no nada. Muitas vezes 
ela retomou a análise desse momento crucial e de suas repetições. 
Adotava um estilo clínico, ora horrorizado, ora irônico, para des­
crever, como observadora, as manobras que os homens fazem 
com seu corpo, sua relação tão estranhamente interessada pelos 
pedaços de sua anatomia que parecem soltos uns dos outros. O 
que sente é, ao mesmo tempo, uma desfalicização radical e uma 
insustentável depreciação. Fica subitamente fora de um corpo 
estatuificado. O que faz desta cena um desencadeamento, precisa­
mente, é seu caráter de cataclismo inicial, que leva a uma regres­
são especular maciça. 
33 
Uma fórmula, que apareceu em uma sessão de supervisão, 
define muito bem a figura paterna: "O pai é insignificante. " Essa in­
significância seria a forma mínima que toma aqui Po, se quisermos 
a qualquer custo aplicar a lógica do esquema I. Aqui, Po só poderia 
ser deduzido como estando no princípio daquilo que se dá a ver. O 
que se vê, é a elisão do falo, a ausência de significação fálica, tal 
como se revela subitamente na ocasião de cada penetração. 
Segundo Lacan é essa elisão que é propriamente responsável pela 
"regressão à hiância mortífera do estágio do espelho"10• Pode-se ver 
aqui, na petrificação de Marie-Pierre, um puro efeito de <l>o11 • É ela 
mesma que ressalta o "como uma pedra" anunciado pelo seu primeiro 
nome, assim como as identificações à Virgem santa e mãe que a sus­
tentava até seu mal encontro com o órgão masculino. 
O que dá a esse trabalho analítico um tom de perigo cons­
tante é ela se colocar com o seu "o que sou ali?" - Lacan diz que, 
nessa pergunta, o sujeito se formula "concernente a seu sexo e sua 
contingência no ser"12 sempre à beira do abismo, sem que seus ditos 
encontrem arrimo em um referente fora do significante, em um 
objeto que lhe dê lastro. Ela fala de seu "ser desertado", de sua 
"pura ausência" e termina se definindo assim: "Sou uma meia revira­
da ao avesso". 
É nesse sentido que ela faz pensar no caso da apresenta­
ção de pacientes em que Lacan falava da "excelência da doença 
mental". Tratava-se de uma pessoa que se dizia "interina de si 
mesma" e afirmava que gostaria de "viver como uma vestimenta". 
Lacan disse então: "Não há ninguém para habitar a vestimenta", e 
Jacques-Alain Miller ressaltou esse "ser de puro semblante", sem 
"significante-mestre e, ao mesmo tempo, sem que nenhuma subs­
tância venha lhe dar lastro'm. 
O pouco dessa identificação - uma meia revirada ao aves­
so - ilustra, ao contrario, que é o falo que constitui o termo "no qual 
o sujeito se identifica com seu ser vivente". A doença da mentalida­
de, se retivermos aqui essa indicação, e a elisão do falo, fazem da 
34 
patologia de Marie-Pierre um abalo "na junção mais íntima do sen­
timento da vida no sujeito"14• 
2. Encontro com um gozo enigmático 
Há vários anos, uma moça foi atendida no momento de 
uma hospitalização que se seguiu a um acesso delirante. O acompa­
nhamento foi interrompido prematuramente. Esse caso não pode­
rá, portanto, ser o objeto de uma elaboração detalhada. Contudo, 
ele nos interessa devido às circunstâncias particulares do desenca­
deamento psicótico. Não havia antecedentes psiquiátricos. 
Nas entrevistas ocorridas durante a hospitalização e 
naquelas subsequentes, não havia sido possível determinar as cir­
cunstâncias exatas da eclosão do delírio. Tratava-se de um delírio de 
influência. Ela se dizia fisicamente manipulada por seus vizinhos da 
cidade universitária. 
O episódio psicótico começa logo depois de uma primei­
ra relação sexual. Ela descreve então uma invasão do corpo por uma 
sensação estranha. O orgasmo, assim descrito, não é reconhecido 
como tal. Parece que essa forma de desencadeamento não respon­
de à configuração clássica do encontro com Um-pai, tal como é 
evocada em "De uma questão preliminar a todo tratamento possí­
vel da psicose". Parece tratar-se, antes, do encontro com um gozo 
enigmático, na falta da significação fálica. Isso quer dizer que se 
trata muito mais do encontro com <Do, do que com Po. Certamente, 
é possível referir <Do a Po; é precisamente a foraclusão do Nome-do­
Pai que é a condição da ausência de significação fálica. No entanto, 
a modalidade de desencadeamento é, aqui, o encontro com o gozo. 
A questão que esse caso coloca diz respeito ao modo de 
resposta do sujeito a esse encontro. 
De fato, poderíamos evocar o Outro gozo, tal qual uma 
mulher pode encontrá-lo sem poder dizer nada a respeito. Aqui, 
trata-se antes da experiência de um real que deixa o sujeito despro-
35 
vida quanto a suas possibilidades de resposta simbólica. O desen­
cadeamento pode ser aqui - é uma hipótese - referido a esse encon­
tro que desmascara os efeitos da foraclusão do Nome-do-Pai, ou 
seja, a ausência de significação fálica. O que o sujeito produz como 
resposta é uma nova realidade delirante: uma manipulação corporal 
persecutória. 
Essa modalidade de desencadeamento não é nova no sen­
tido da clínica psiquiátrica, que já considerava essa forma de desen­
cadeamento do delírio. Sua leitura é que é nova, e acentua o encon­
tro com um gozo. Essa abordagem tem a vantagem de acentuar o 
modo generalizado do tratamento do gozo pelo falasser. O modo de 
resposta indica aqui a estrutura: o sujeito dispõe ou não do Nome­
do-Pai como significante para articular sua resposta. 
3. O caso seguinte está igualmente sujeito à discussão 
Trata-se de uma moça enviada por um psiquiatra. Ela 
havia tido um episódio delirante que se conteve logo após a admi­
nistração de neurolépticos. A demanda formulada por ela era de 
franquear a barreira de uma inibição nas relações sociais que reapa­
receu após o episódio delirante. Deve-se notar que esse tratamento 
será marcado, desde o começo, pela extrema defesa da paciente. Ela 
manifestava pouca curiosidade pelas produções do tratamento; não 
estava em relação com um sujeito suposto saber. Sua certeza tinha 
como corolário uma grande indiferença relativa às produções do 
tratamento. Afirmava, já de início, que não queria evocar as ideias 
ridículas que a assaltaram durante o episódio delirante, considerado 
como um parêntese em sua vida. Durante o ano e meio que se 
seguiu, tratar-se-á pouco de um primeiro desencadeamento que 
apresenta, contudo, características interessantes. Estava apaixonada 
por um rapaz com o qual tinha estabelecido relações ao mesmo 
tempo banais e passionais. A paixão, nesse caso, é definida por ela 
da maneira quese segue: Essa moça provinha de um meio modes-
36 
to, mas muito conformista. Não tinha, até então, nem depois, aliás, 
questionado os valores familiares. Tivera duas ligações oficiais ante­
riores, que haviam terminado de maneira anódina. Não fora marca­
da por essas duas relações. Essa terceira relação apresentava um 
caráter estranho, segundo seus próprios termos. A estranheza resi­
dia, para ela, no fato de que esse rapaz não lhe correspondia. Era 
um marginal que encontrara em uma festa. A expressão que usava 
para designá-lo era: 'Não era um rapaz como convém". 
A paciente nada produziu quanto às razões dessa afeição 
que a ligava a esse homem que ela imaginava ser um "traficante ". 
Entretanto, a ligação transcorre na clandestinidade e, para a pacien­
te, em um mal-estar crescente. Ao mesmo tempo, desenvolve-se um 
sentimento de desconfiança em relação a ele. Não sabia o que esse 
homem queria dela. A resposta que elabora, de um modo delirante, 
ao enigma de seu desejo, é que ele estava envolvido com a máfia e 
que ele não queria o seu bem. Ela não dizia nada de preciso sobre 
esse ponto. Nada nos atos dele demonstrava qualquer hostilidade. 
Muito pelo contrário, era a insistência dele em continuar a relação e 
tentar revê-la na saida de seu trabalho, depois que ela decidira pela 
ruptura, que haviam reforçado o sentimento de um complô que se 
tramava contra ela. Percebia o caráter delirante dessa construção 
que ela qualificava de ridícula e da qual tinha profunda vergonha. 
Nada podia demovê-la do caráter de evidência que isso tomava para 
ela. No mesmo período, aparecem alucinações verbais nas quais ela 
ouve comentários de uma voz feminina que lhe pressagia um desti­
no funesto. A elaboração delirante dá lugar aqui a uma figura femi­
nina, que é a rainha de um mundo paralelo ao nosso, e a condena à 
dominação desse homem que se torna o instrumento de uma per­
seguição organizada. 
As duas elaborações delirantes contraditórias, da máfia e 
da rainha do mundo paralelo, coexistiam. Desde então, muito 
embora esse homem desaparecesse completamente de seu horizon­
te, permanece a preocupação inconfessável de que ele ressurja desse 
37 
passado, que ela pretende apagar tanto quanto puder. O delírio é 
aqui marcado com o mesmo cunho da fantasia neurótica. Longe de 
querer desenvolver essa construção, ela só consentirá com dificul­
dade em revelar, eventualmente, alguns elementos delirantes prece­
dentes. Foi preciso, aqui, utilizar uma discreta insistência. O trata­
mento se tornará o lugar de restauração que ela esperava: uma pos­
sibilidade de relação social. O tratamento é o elemento pacificador 
de uma relação delirante com o mundo. 
Depois de alguns meses em que foi possível a retomada do 
trabalho, um novo desencadeamento se produziu. Desta vez, ele acon­
teceu durante o tratamento e estava ligado a uma observação fortuita. 
Em um ônibus que a levava para casa, na saída do trabalho, encontrou 
uma antiga colega que lhe perguntou pelas novidades. Ela se mostrou 
satisfeita com a normalização esperada. Estava bem, mudou-se do 
domicilio familiar para um pequeno apartamento que ela arrumou ao 
seu gosto, e seu trabalho caminha bem, a tal ponto que acabara de se 
beneficiar de um reconhecimento profissional e de um aumento de 
salário. O que não cai bem é a pergunta que lhe é dirigida por essa 
amiga demasiadamente atenciosa: "Então) quando você vai se apaixonar?" 
A pergunta coloca um problema. Ela pôde responder que a constitui­
ção de um casal é a etapa normativa esperada do seu restabelecimen­
to. Contudo, essa frase é situada de imediato como destoante com o 
propósito apaziguador mantido até então. Algo não vai bem. Um 
segundo episódio delirante se inicia, com um tom persecutório, no 
local de trabalho, onde a supervisara de seu setor se mostra mal-inten­
cionada em relação a ela. A queixa não mostrava nenhuma modalida­
de francamente delirante. Mas a relação até então confortável torna-se 
intolerável. A relação com a analista torna-se igualmente suspeita. Não 
há aí tampouco uma fala delirante, mas há, contudo, uma hostilidade 
muito perceptível. O tratamento se interrompe bruscamente. Ela rei­
vindica liberdade para conduzir sua vida que revela todo o contexto de 
sugestão potencial que a situação analítica encerra. A certeza presente 
ao longo desse trabalho se manifesta de novo nessa decisão sem apelo. 
38 
Nesse caso, é o enigma do desejo do Outro que parece 
confrontar o sujeito com uma dimensão à qual ele não pode res­
ponder. Em um primeiro momento, o enigma do desejo de um 
homem suscita o delírio de uma malevolência organizada em um 
mundo-Outro no qual reina uma figura feminina toda-poderosa. 
No segundo momento da retomada delirante, é a pergunta da amiga 
que desperta a questão adormecida. A pergunta da amiga desperta 
o caráter real, impossível de dizer, do desejo do Outro. Nos dois 
casos, é o encontro com um real que constitui a modalidade de 
desencadeamento de uma resposta psicótica. 
4. "Sobretudo, que nada se mexa" 
Apresentamos aqui algumas decorrências de um tratamen­
to que começou sem surpresas e para o qual a questão da estrutura 
apareceu rapidamente. O problema não estava no que era dito, mas 
no que não era dito e na forma como se desenrolava o tratamento. 
A história de Sra. P. pode se resumir em um momento de 
sessão em que ela conta seu primeiro encontro com um terapeuta: 
"Foi quando vi o filme 'As palavras para dizê-lo' [Les mots pour le dire]; 
me reconheci e isso desencadeou tudo". Pode-se já apontar aí uma primei­
ra identificação que será o modelo sobre o qual ela irá construir 
todo seu trabalho posterior. Inicia então entrevistas com uma psi­
quiatra, que prosseguirá por vários anos. Posteriormente, pensa ter 
atingido os limites que podia alcançar com essa terapeuta e pede 
para ir mais longe com uma outra mulher. Sua terapeuta a encami­
nha a uma analista. Nesse momento não se coloca a questão da 
estrutura; ela é encaminhada como histérica e a analista adere ime­
diatamente ao que é anunciado. 
Há quatro anos ela vem regularmente às suas sessões, que 
acontecem sempre da mesma maneira. Começa com 'Tudo Bem. " 
Ou, "Não estou nada bem'� seguido de uma explicação desse estado 
em função dos acontecimentos dos dias que se passaram desde a 
39 
última sessão; depois, um grande silêncio que só cede sob interven­
ção, interpelação, ruído, interrupção, etc. 
A variabilidade de seu estado se deve sempre às suas difi­
culdades com os outros e, em primeiro lugar, com sua mãe. "Ela faz 
tudo para me alienar, não consigo relativizar, estouro ". Sua vida é pontua­
da por contrariedades ou brigas com sua mãe ou com os próximos: 
"Estou mal porque estou no pós-contrariedade com minha mãe - é o pós-briga 
que é o problema. Fico repetindo isso com as pessoas. Eu as pego, eu as largo; 
eu as pego, eu as largo". Sua posição no trabalho é calcada nesse mode­
lo; sente-se ao mesmo tempo manipulada e manipuladora com seus 
chefes e colegas. Ela diz o mesmo de seu entorno: seus vizinhos 
fazem barulho. Isso seria para ela, ou é ela que não o suporta? A 
questão permanece. Acaba se mudando para deixar o lugar onde 
vivia, pois ali não se é anônimo. Veremos depois o que este último 
termo representa para ela. 
Vai morar em um apartamento, mas depois de algum 
tempo a vizinha substitui os antigos vizinhos. Ela é barulhenta. 
"Não suporto barulho; ela jaz de propósito? Não entendo por que ouço tudo; 
estou sempre alerta, à espreita". Ouvindo essa frase, poder-se-ia questio­
nar sobre o que há ou o que não há para ouvir e, efetivamente, 
encontra-se em sua história um acontecimento traumático que 
poderia estar em relação com isso. 
Ela foi uma criança não desejada; um menino já havia nas­
cido e ela chega quinze anos depois. Sobre sua vinda ao mundo, sua 
mãe lhe dirá: "Você, você tem sorte, você pâde escolher" - isso por ocasião 
de um aborto feito pela paciente. Seus pais têm um bar-mercearia 
em um vilarejo. Tinha quinze anos quando seuirmão deixou a casa 
dos pais, ficando sozinha com eles. Uma noite, ouviram barulho 
embaixo na loja. Seu pai desceu, e a lembrança que ela guarda do 
que aconteceu depois é de um grande grito. Seu pai acabara de ser 
assassinado pelo homem que fora descoberto roubando. Esse 
período permanece confuso para ela; tem até mesmo dificuldade 
para situá-lo no tempo, alternando-o em vários anos de acordo com 
40 
os relatos, e foi somente por recortes que esse período pôde ser 
situado por volta de seus quinze anos. 
Diante da confusão e das dificuldades para situar esse acon­
tecimento no tempo, poder-se-ia pensar nos esquecimentos da histé­
rica; mas não é com um traumatismo - que poderia posteriormente 
dar lugar à neurose - com o que nos deparamos, pois o modo como 
ela continua, a partir desse dia, faz pensar mais em uma psicose. 
Trata-se de um neodesencadeamento, quer dizer, de uma forma par­
ticular de entrada na psicose? De fato, nada se desencadeia, nada se 
mexe; ao contrário, tudo se petrifica tão bem que a partir daí ela con­
tinua a construir sua vida de forma muito normativa. 
As relações com sua mãe tornam-se insuportáveis. Sua 
mãe, ao mesmo tempo em que a rejeita, lhe pede um apoio. 
Termina o ensino médio e a única solução que encontra é ir embo­
ra o mais rapidamente possível. Passa em um concurso administra­
tivo e parte para Paris. Sente sua mãe e seu irmão aliviados com sua 
partida. A partir desse dia, ela se dedica o mínimo ao seu trabalho; 
tudo vai bem, encontra um companheiro com o qual ainda vive e 
tem um filho. Nada emerge no nível de seu ser, nenhum desejo, 
somente a angústia. "O que faz com que em determinado momento minha 
cabeça caia fora .. . Pfuit . . . No entanto, tenho possibilidades, mas não as contro­
lo . . . falta-me jeito para administrá-las" . 
. O que se encontra sempre em sua posição em relação ao 
Outro é uma identificação-alienação completamente situada no 
imaginário; o outro lhe permite viver: sua mãe, a primeira terapeu­
ta, a analista; muitas vezes, ela quis diminuir o número de sessões 
vindo somente uma vez por semana, mas quase imediatamente se 
depara com uma angústia indescritível. 
Se por acaso a analista se recusa a recebê-la de novo, mais 
frequentemente, revolta-se e torna-se extremamente agressiva, ao 
passo que normalmente apresenta-se sempre muito sorridente, com 
um sorriso muito petrificado. Essa atitude tão extremada surpreen­
de e faz compreender que não era preciso mudar nada no ritual das 
41 
sessões, que a analista não tinha muita importância, e expressa que, 
se tudo não voltar para o lugar, como antes, ela será obrigada a 
encontrar uma outra pessoa que aceite reconstruir esse enquadre o 
mais rapidamente possível. 
Voltemos ao que significa ser anônima: ':feria necessário, para 
poder viver, que eu fosse anônima; a solução seria talvez que eu morasse na casa 
de meu marido ". Vive há muitos anos com seu companheiro, mas, o 
que ela indica com essa frase, é que a solução seria se fazer desapa­
recer atrás desse homem do qual ela não carrega o sobrenome e do 
qual o único elemento conhecido é que ele é um eurasiano. A sexua­
lidade nunca é evocada como um problema; deseja por vezes ter 
relações sexuais com alguns de seus colegas, sem nenhum drama de 
consciência. Sua posição em relação às palavras é acentuada de 
novo (As palavras para dizê-lo), após ter visto um ftlme que, segundo 
ela, provocou-lhe um desejo. Trata-se de Pour le meilleur et pour /e pire, 
ou seja "Para o melhor e para o pior" e que, na versão brasileira é 
conhecido como 1\tfelhor impossível, com Jack Nicholson: "É um escri­
tor, isso fica rodando na minha cabeça, isso me deu ânimo, um sopro de vida; 
da minha história eu farei um romance, adoro as palavras, elas aliviam, gosto 
muito delas; as palavras me acalmam". 
Mas essas palavras não permitem a metaforização. 
Operam de maneira metonímica, fluindo sem parar, sem pausa pos­
sível. Ela não faz apelo a uma resposta que venha do lugar do 
Outro, a um saber suposto que lhe permitiria colocar-se a trabalho 
na via do significante. Não há exclusão da genitalidade, mas foraclu­
são da significação fática. 
Qual atitude possível pode sustentar o analista diante 
desse discurso? Parece - e por isso o título desta parte do texto: 
"sobretudo, que nada se mexa" - que se trata de ser o receptáculo com­
placente de seus males e palavras, de suas queixas. Essa é a única ati­
tude que ela aceita, até agora, da analista, ao mesmo tempo em que 
ela inventa soluções que lhe permitem se manter no dia a dia. 
42 
C. O caso particular da clínica do autismo 
1 . O pequeno Noel 
A criança que chamaremos de Noel foi um bebê normal 
até a idade de seis meses, quando apareceram até mesmo sílabas 
redob�adas, dentre elas "mama". Depois veio o silêncio, a lingua­
gem que parecia a caminho para e o olhar se perde. Ele parece não 
perceber a presença da mãe, mas urra, por outro lado, de maneira 
paradoxal, nas suas ausências. Há desencadeamento de uma psico­
se cuja expressão sintomática é autística. Esse momento é classica­
mente identificado na clínica da criança entre seis e dezoito meses. 
Situa-se no tempo em que a mãe teria podido articular suas respos­
tas ao primeiro "mama", no tempo em que a experiência do espe­
lho deveria ter-se constituído, depois das primeiras trocas de olha­
res, no tempo em que o desejo deveria ter se orientado. A recusa da 
voz e do olhar pode nos fazer evocar um desligamento do Outro 
do significante, e do Outro do corpo e da imagem. Os primeiros 
sinais patológicos de Noel, que ignora a presença, mas urra na 
ausência, nos orientam quanto à ideia de que o que está em causa 
concerne ao primeiro batimento simbólico da presença e da ausên­
cia da mãe. A psicose se inicia por uma falta radical de qualquer 
"processo primário" de simbolização. É a falha da B�jahung primor­
dial que poderia corresponder ao desencadeamento. 
A criança encontra um analista pela primeira vez aos seis 
anos de idade. Não olhava, emite grunhidos, de tempos em tempos, 
à meia voz. Padece de alucinações, mas fazia desenhos. Duas 
sequências identificadas na transferência permitiram que saísse de 
seu recolhimento autístico. No decorrer de uma das numerosas ses­
sões, vazias, sem apelo de sua parte, o analista saiu do consultório 
para ir buscar, em um cômodo ao lado, uma caneta que estava lhe 
faltando. Na saída da sessão, Noel quis se precipitar para dentro 
desse cômodo com grande jubilação. No encontro seguinte, a ses-
43 
são não pôde acontecer devido a um atraso. O analista recebeu 
Noel para lhe comunicar isso. Uma certa preocupação o levou a 
observá-lo pela janela indo embora com sua mãe pela rua. É com 
grande surpresa que o analista vê Noel pela primeira vez olhar para 
ele. Em seguida, o olhar se torna por vezes intencional e a criança 
observará sua imagem na vidraça, na sessão da noite. O grunhido 
dá lugar a uma linguagem esquizofrênica e usará a caneta para se 
dedicar a um trabalho de escrita e demarcação de tipo geográfico: 
traçava incansavelmente um contorno que se podia supor ser tanto 
o do litoral da região, quanto o de partes do corpo. 
Pode-se formular a hipótese de que essas sessões colocam, 
mediante uma certa transferência, a criança às voltas com uma falta 
que percebe no analista e que ela refere a um objeto, a caneta, na 
qual vai então investir. Esta se torna a ferramenta de um trabalho 
de logificação da sua psicose. Presença e ausência parecem então 
não serem mais experimentadas como um puro real insubjetivável. 
2. Mickael 
O neodesencadeamento, abordado a partir do desligamen­
to, nos conduz a uma clínica do funcionamento. O caso Joey, de 
Bettelheim, já nos convidava a considerar a abordagem da psicose 
nesse sentido. O interesse do uso do termo "desligamento" nos 
permite, já em um primeiro tempo, recolher casos clínicos que sus­
tentam essa orientação, sem tropeçar, imediatamente, nas dificulda­
des inerentes ao emaranhado das modalidades do enodamento daclínica borromeana. Somos, no entanto, levados a nos perguntar se 
não se deve abordar esse desligamento de duas maneiras. A primei­
ra consiste em identificar o desligamento a partir do religamento 
que se opera ou que se operou a posteriori. A segunda recolhe esta­
dos de desligamento sem que, todavia, um desligamento tenha sido 
realizado. Um caso de autismo, aliás, clássico nesta clínica, ilustrará 
este segundo ponto. 
44 
Mickael tem oito anos. Ele não fala e apresenta alguns tra­
ços clássicos de autismo. É capaz de aproximar-se com os olhos 
como se fosse para ficar grudado, tampar as orelhas e agitar-se, des­
locando-se do espelho para a janela antes de ficar prostrado em um 
canto do cômodo. Sua história comporta uma data que constitui um 
antes e um depois, um ato, portanto. Ele tem uma evolução normal, 
segundo os pais. Começa a dizer algumas palavras. Mas toda sua 
evolução se interrompe no dia em que sua mãe o deixa pela primei­
ra vez na escola maternal por volta dos dois anos e meio. Ali, cho­
rará durante toda a manhã, durante quatro horas, a ponto de as pro­
fessoras ficarem surpresas e não conseguirem consolá-lo. Quando 
sua mãe volta ao meio-dia para buscá-lo, manifesta sua cólera em 
relação a ela e depois disso não fala mais. Todas as tentativas de 
identificar outras coordenadas dessa história conduzem sempre a 
esse relato minimalista, com um pequeno detalhe: sua mãe dirá, com 
efeito, um dia, depois desse relato tantas vezes repetido, que foi a 
primeira vez que o deixou por tanto tempo. Esclarece que nunca, 
anteriormente, o deixara mais do que cinco minutos em tempo real. 
É então nessa experiência desproporcional de abandono que uma 
insondável decisão desse ser se opera. Seu desligamento deve, por­
tanto, ser colocado na conta de uma escolha da psicose em seu pólo 
extremo, o autismo. Não existe nesse caso um mutismo. O mutis­
mo consistiria em uma fala reservada. Há aqui uma detenção no 
funcionamento da fala expressa em uma lingua. 
O desligamento incide, portanto, precisamente, sobre o 
uso da lingua e da fala que a ela se liga para fazer laço social. Esses 
casos frequentes de autismo podem, de fato, enfatizar a observação 
de Jacques-Alain Miller que indicava que a psicose nos permite 
designar o verdadeiro núcleo traumático na relação com a lingua. 
Não somente Joyce pode nos fazer entender isso, mas igualmente 
os casos que recusam o núcleo traumático da lingua na medida em 
que, pela sua recusa, tentam se desligar das consequências que o 
funcionamento da lingua acarreta. 
45 
Poder-se-ia, para neste caso, formulá-lo assim: Se falar a lín­
gua materna conduz necessariamente a ir à escola, e se a escola me separa tanto 
tempo de minha mãe para me ligar a desconhecidos, prefiro me desligar da lín­
gua materna para evitar suas consequências. A mãe afirma, aliás, que, 
ainda muito tempo depois, ele manifestava sinais de agitação quan­
do passava diante do prédio da escola. Se ele não está na língua, ele 
está, no entanto, na linguagem, como indica o fato de que tampe os 
ouvidos. Testemunha, por outro lado, alguns efeitos da linguagem 
em seu corpo, como o interesse que demonstra pelos buracos das 
narinas, que tampa com um movimento complicado dos dedos. A 
questão para esse sujeito é saber como poderia se operar uma ten­
tativa de ligamento, sabendo que, de qualquer forma, esse tratamen­
to consistiria em introduzi-lo no núcleo do traumatismo do qual ele 
quis se liberar. 
D. A melancolia 
Nem toda psicose implica um desencadeamento irreversí­
vel, como no caso do presidente Schreber. Em relação à melanco­
lia, adiantaremos o termo suplência intercrítica. A questão é saber quais 
tratamentos do nome nas estruturas psicóticas vão prevenir o 
desencadeamento e inscrever a posição do sujeito. 
Não há resposta unívoca e, sem dúvida, cada caso deve ser 
considerado em sua singularidade. No entanto, nos sujeitos propen­
sos à melancolia, parece que se trata não de transformar a carência 
simbólica relativa ao nome em prol da função do enigma, como em 
Joyce, mas de camuflar esse não-apagamento do nome no simbóli­
co. A superidentificação intercrítica com os papéis sociais - ampla­
mente demonstrada por Tellenbach com a descrição dos traços do 
Tjpus Melancolicus15 e retomada nos trabalhos de Alfred Kraus16 -, 
traduz, ao contrário, uma vontade de apagamento, de tamponamen­
to do buraco da foraclusão que o nome próprio não metaforizado 
46 
pelo falo simbólico vem presentificar. "Ser ninguém'� ou ser um "Sem­
nome" sob a forma da função fálica, lhe é estruturalmente recusado no 
simbólico. É antes um "se querer ser ninguém'� na falta de "ser ninguém'� 
que leva o melancólico a elaborar essa "superidentificação'� muito 
tempo confundida com os traços compulsivos dos obsessivos. 
O termo "superidentificação", distinto do que seria a iden­
tificação no registro simbólico, poderia se conceber assim: 
�_o _ 
Nome próprio 
função de suplência à - Superidentificação ao papel social 
NeRie pFIÍpFie 
Como escrever na estrutura essa estabilização intercrítica 
reversível? Propomos a seguinte escrita17: imaginário bem-sucedido 
e eficácia do significante não encadeado. Isto é, a inscrição direta, a 
captura no imaginário de uma série de traços - S', S", S"', . . . , cole­
ção de sentenças do supereu - que dão uma coesão imaginária ao 
sujeito pré-melancólico. A captura desses traços no imaginário (e 
isso é um fato clínico verificado) é suscetível de conter o transbor­
damento de gozo inerente a não-falicização do nome. Essa inscri­
ção, se é linguageira no sentido de uma escrita, nem por isso é sim­
bólica, não sendo sustentada pela função do ideal do eu, I (A), dife­
rentemente do que elabora - simbolicamente - o neurótico. Em 
certo sentido, essa fórmula de suplência traduz que ''a sombra do 
oijeto já estava sobre o Eu18 ". 
1 . Superidentificação e ideal do eu 
O que distingue essa superidentificação - termo utilizado 
por Tellenbach e desenvolvido por Kraus - do ideal do eu é: 
_ De um lado, seu caráter constelar - há toda uma série de 
traços distintos aos quais o pré-melancólico deve se conformar, sem 
esquecer "o céu estrelado " das identificações do sujeito japonês descri-
47 
to por Lacan em "Lituraterra"19 e que torna este último, segundo 
ele, inanalisável. Esses traços são, antes, normativos. Não têm o 
caráter de exceção do ideal do eu e, daí, a ausência de orgulho no 
sujeito pré-melancólico, ao contrário do que se pode constatar no 
paranoico. Uma contradição entre dois desses traços é, muitas 
vezes, causa de desencadeamento da crise. 
_ De outro fado, seu caráter não dialético: esses traços são, 
para o sujeito, não relativizáveis na elaboração simbólica e, daí, a 
atração pelo que é sério e a relativa incapacidade para o humor do 
sujeito pré-melancólicd0, humor que implicaria a possibilidade de 
uma mediação, de um distanciamento em relação a esses valores 
pré-dados. São traços marcados pelo rigor psicótico. É uma identi­
ficação com o ser literal do traço significante e não com a sua fun­
ção de representação. Digamos que o sujeito pré-melancólico deve 
preencher suas identificações "ao pé da letra". 
Notemos, por outro lado, que esses traços são empresta­
dos do Outro; eles traduzem a cópia de um tipo de ideal, não do eu, 
mas de uma norma social. Concebe-se desde então que as persona­
lidades pré-melancólicas sejam mais facilmente tipificadas e reco­
nhecíveis nas culturas em que as normas sociais são mais claramen­
te definidas, até mesmo impostas, como é o caso do Japão e da 
Alemanha. 
2. O desencadeamento da crise 
Basta que um único desses traços deixe de ser executado 
imaginariamente pelo sujeito para que se tenha uma conjuntura de 
desencadeamento da crise de melancolia (psicótica) . Falar-se-á aqui 
de execução imaginária para dizer que não é, de forma alguma, no 
nível do discurso, como elaboração simbólica, que o sujeito deve 
responder com esses traços, mas no nível de seus atos na vida coti­
diana, na realidade.48 
Não é uma articulação identificatória diferencial, no senti­
do da identificação simbólica que implica o valor diferencial do sig­
nificante. É uma realização de identidade, na qual o sujeito equiva­
le a cada um desses traços, compatíveis com o registro imaginário 
no qual a correspondência biunívoca do sujeito e de sua imagem é 
possível. Tal é a condição do ''Ijpus': em que a condição de suplên­
cia não é simbólica, mas se situa na junção do imaginário e do real; 
daí sua possibilidade de montagem, desmontagem e a instabilidade 
relativa dessa forma de suplência; daí, igualmente, o desencadea­
mento da crise cujas causas podem parecer estritamente menores 
ou serem ditas, com razão, ''insignificantes ': no sentido das "life-events" 
dos anglo-saxões. 
Daí, também, a possibilidade de desencadeamento por 
razões que se encontram no imaginário e não no simbólico. Um 
abalo no campo imaginário pode descompensar a estrutura e deixar 
"se exprimir" no real essa coleção relativa ao supereu e que antes 
estava bem encapsulada. Por isso, não é obrigatoriamente encontra­
da a conjuntura de desencadeamento das psicoses descrita por 
Lacan em sua "Questão preliminar". Uma simples gripe está, à 
vezes, na origem de uma nova crise. A perda da cobertura imaginá­
ria torna a desencadear o processo simbólico, sempre latente. 
A cura da crise não depende de um processo simbólico -
do qual conhecemos o caráter grave na crise e o caráter latente fora 
dela, - mas, antes, da restauração desse cataplasma imaginário. 
Trata-se de deixar o sujeito reconstruir identificações de objeto sus­
cetíveis de mascarar suficientemente a abjeção de seu nome próprio 
sem transbordá-lo. 
49 
111. CONCLUSÃO 
Podemos agora propor uma definição do que fomos leva­
dos a qualificar de "neodesencadeamento": convém agrupar sob 
esse título as formas clínicas variadas que se distinguem da forma 
típica de desencadeamento cujo paradigma é, na psicose schreberia­
na, o encontro com Um-pai. Esses "neodesencadeamentos" corres­
pondero à soltura do grampo2\ seja ele qual for, na ausência do que 
fazia antes ponto de basta para um sujeito. Para além mesmo da plu­
ralização do Nome-do-Pai, o que está em causa aqui, com o nome 
de grampo, é o que Lacan qualifica de sintoma, no sentido em que 
o N orne-do-Pai é uma forma tradicional e herdada do sintoma e, 
sem dúvida, particularmente adequada à neurose. Nos casos que 
nos concernem, uma clínica dos nós contorna a impossibilidade de 
decidir entre Po ou <l>o. Ela convida a privilegiar, certamente, a loca­
lização clínica da relação com o real e com o gozo. Mas a aborda­
gem da estrutura joyceana, que a clínica dos nós permite a Lacan, 
convida também a estudar sem hierarquização a função de cada um 
dos três registros - Real, Simbólico e Imaginário, R, S e I - para o 
sujeito, e a parte que cada um toma no enodamento sintomático. 
50 
Notas 
* Relatores: Hervé Castanet e Philippe De Georges. 
1 MILLER, J.-A. (1 979) "Suplemento topológico a 'Uma questão preliminar . . . "'. 
In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p.1 1 9. 
2 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível das 
psicoses". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.537-590. 
3 LACAN, J. (1973) "Apresentação das Memórias de um doente dos nervos". In: 
Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.221 . 
4 LACAN, ]. (1968) ''Alocução sobre as psicoses da criança". In: Outros Escritos. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.359-368. 
5 LEGUIL, F. "Le déclenchement d'une psychose", Ornicar?, n.41, 1987. 
6 BERNARD, P. Colloque de I' ACF Estérel-Côte d' Azur, abril 1998. 
7 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.577. 
8 Cf. MALEVAL, J.-C. Logique du défire, Masson, 1996, p.102. 
9 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 977) "Lições sobre a 
apresentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: 
A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1 998, 
p.20 1 . 
1 O LACAN, J. (1 9 58) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.577. 
1 1 LYSY-STEVENS, A. ''Articulation cliniques de <1>0", Feuillets du Courtil. 
1 2 LACAN, J. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psi­
cose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.SSS. 
13 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER,J.-A. (ed.) (1977) "Lições sobre a apre­
sentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A 
Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p.201 . 
14 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.565. 
1 5 TELLENBACH, H. La Méfancofie, Paris, PUF, 1979. 
1 6 KRAUS, A. Identity and P.rychosis of the maniac-depressive, "O delírio melancólico 
do ponto de vista da teoria da identidade", "Terapia da identidade", três suple­
mentos a parte. 
51 
1 7 A escrita dessas fórmulas foi inspirada pela leitura do curso de Colette Soler, 
não publicado, "Os poderes do simbólico", 1989, do qual as primeiras aulas são 
consagradas à melancolia: 
i (S, S', S", S"', ... ) 
Nel!'le pFIÍpFie 
Trata-se aqui de um "cataplasma" - expressão que tomo de Jacques-Alain Miller 
(entrevista particular). 
1 8 FREUD, S. (1 917) "Luto e melancolia". In: Sigmund Freud - Obras Completas, 
v. 12, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.18 1 . 
1 9 LACAN, ]. "Lituraterra" (1973) In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.1 5. 
20 TATOSSIAN, A. Phénoménologie des p.rychoses, relatório para o congresso de 
Neurologia e Psiquiatria de língua francesa. Paris: Masson, 1979. 
21 HENY, H., JOUBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 997) Os casos raros, inclassi­
ficáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca 
Freudiana Brasileira, 1998. 
52 
Seção Clínica de Clermont-Ferrand, 
Antenne Clinique de Dijon e Seção Clínica de Lyon* 
CLÍNICA DA SUSPENSÃO 
L OS LIMITES DA TEORIA CLÁSSICA DO DESENCADEAMENTO 
Lacan elabora a chamada doutrina clássica do desencadea­
mento das psicoses no Seminário 3 e no texto "De uma questão pre­
liminar a todo tratamento possível da psicose", isto é, no âmbito de 
seu retorno a Freud (feito a partir do ponto de Arquimedes "o 
inconsciente estruturado como uma linguagem") e da colocação em 
primeiro plano da função do Nome-do-Pai como garantia da lei no 
Outro. É uma retomada do Édipo freudiano, uma ordenação da dis­
tinção neurose-psicose em relação a essa norma edipiana. A referên­
cia a essa norma como critério estrutural vem esclarecer as classifi­
cações psiquiátricas, propondq um sólido princípio de distinção e de 
repartição das patologias, mas sem se diferenciar verdadeiramente 
delas, já que a questão da causa sexual não está inclusa nessa lógica. 
Desde o debate de Freud com os psiquiatras suíços (prin­
cipalmente Bleuler) e Jung sobre autismo ou autoerotismo, sabemos 
que a consideração da causalidade como sexual ou não-sexual é o 
que permite traçar uma linha de divisão radical entre clínica psiquiá­
trica e clínica psicanalítica. Se Bleuler, desde 1906 (e, depois, a psi­
quiatria em geral) , admite a significação freudiana das psicoses, pois 
ela dá um modelo do normal e do patológico, isso não acontece 
sem a foraclusão da questão da causalidade sexual - da escolha 
segundo o modo de gozo. 
53 
Teorizar o desencadeamento das psicoses no âmbito da 
foraclusão do Nome�do-Pai permite, contudo, dar conta estrutural­
mente do que os psiquiatras clássicos identificam com o termo 
"descompensação", com seus fenômenos súbitos e radicais: 
"Trovoadas em um céu sereno." Essa conceitualizacão introduz 
igualmente uma diferença entre estrutura psicótica e fenômenospsicóticos que se apresentam mais manifestos clinicamente no 
momento do desencadeamento. 
A paranoia, psicose de defesa 
É no âmbito da paranoia que essa teoria encontra sua per­
tinência máxima. Desde a abertura do Seminário 3, Lacan lembra que 
a paranoia era a psicose de referência para Freud, seguindo 
Kraepelin. Para Lacan, ela é especialmente adequada para destacar 
a função do Outro e dos mecanismos - foraclusão, metáfora deli­
rante - que ele situa aí para dar conta da psicose nesse momento de 
seu ensmo. 
O lugar central da questão paterna na paranoia é verifica­
do tanto no determinismo simbólico do desencadeamento - a 
falta de um significante no Outro - como nas modalidades de 
reconstrução do mundo pelo sujeito na metáfora delirante. Nesta 
reconstrução, o sujeito vai até o ponto de se fazer o garantidor de 
uma figura do pai bem mais radical - Deus, a ordem do universo, 
etc. - do que aquela do neurótico. Não estando o ponto de basta 
do discurso assegurado pela significação fálica comum, o sujeito 
faz aí suplência por meio de uma construção muito mais imperio­
sa, radicalizando a consistência e a exigência do Outro, ressaltan­
do mais a vertente real do pai do que a sua dimensão de semblan­
te e de uso. 
À luz dessa inclinação do paranoico para dar consistência 
ao Outro e ao pai, pode-se perguntar se a mudança do modo de dis-
54 
curso dominante, ou seja, a passagem do discurso do mestre ao dis­
curso da ciência, tem consequências sobre o tipo de soluções que os 
sujeitos psicóticos encontram para fazer suplência à foraclusão. 
Pode-se dizer que o neo em questão concerne primeiramente à nossa 
época? Ou ele concerne a uma simples mudança conceitual no ensi­
no · de Lacan? Sem dúvida, as duas coisas, pois pensamos que a últi­
ma axiomática lacaniana - centrada na inexistência do Outro - per­
mite justamente circunscrever com mais rigor os fenômenos clínicos 
de nosso tempo e a expressão contemporânea do sintoma. Ao dis­
curso do mestre responde a prevalência de uma solução psicótica 
pela metáfora e pelo delírio; ao discurso da ciência, que pulveriza as 
figuras do Outro em uma abundância de insígnias, corresponderia 
outro tratamento do gozo, mais pela letra do que pela significação. 
limites do modelo paranoico 
É um fato incontestável que cada vez mais encontramos 
psicóticos em análise e que seus sintomas estão cada vez menos 
marcados pela predominância dos grandes delírios de estilo schre­
beriano. Sem dúvida, isso se deve, em parte, aos tratamentos medi­
camentosos; mas o aumento, reconhecido por todos os profissio­
nais, dos casos inclassificáveis segundo a lógica clássica - e que 
começamos a estudar a partir da Conversação de Arcachon sob o 
título de "Casos raros" - nos leva a considerar um grande número 
de sujeitos nos quais o desencadeamento é muito discreto, até 
mesmo imperceptível, e nos quais os fenômenos elementares -
neologismos, alucinações, etc. - estão completamente ausentes. É o 
que ocorre regularmente na esquizofrenia, assim como na clínica 
das crianças, para as quais a própria hipótese de um desencadea­
mento muito precoce é com muita frequência inverificável. Não é, 
portanto, um acaso se Lacan toma a referência de Joyce, psicótico, 
mas não louco, para dar conta dessas neopsicoses. 
55 
O caráter radical da teoria "clássica" do desencadeamento 
explica-se por sua dependência em relação a uma lógica do significan­
te concebida em termos de tudo ou nada. Puramente binária, ela faz 
com que o conjunto dos fenômenos clínicos dependa de uma consi­
deração exclusiva: a função dominante de um único significante, o 
Nome-do-Pai, o que supõe que a extrema variedade dos fenômenos 
corporais ou imaginários seja referida a uma única norma, sem levar 
em conta sua relativa autonomia em relação à função do Outro. É 
uma lógica mecanicista, que enfatiza mais a ação da estrutura - a falta 
do significante que indexa a falta no Outro - do que a posição do 
sujeito como resposta do real e como escolha segundo o modo de 
gozo. Essa clínica é estruturada em torno do Outro e de sua dimen­
são pacificadora, em relação à qual o gozo só pode ser legalizado, 
aquela que o sujeito herda do pai como transmissor do falo. Por isso, 
quando surgem fenômenos de gozo não-fálicos, eles só podem ser 
tratados pelo delírio pensado como uma metáfora de substituição, 
destinado a tratar a disseminação desses fenômenos por um princípio 
de significação que reunifica o sujeito a partir de um novo modo de 
laço com o Outro, fundado sobre o significante articulado tal como, 
por exemplo, a ordem do universo para Schreber. Como resultado, 
oculta-se a posição ética do psicótico, muitas vezes ressaltada por 
Lacan em termos como "escolha da liberdade", "insondável decisão 
do ser", etc., que podemos resumir assim: o psicótico é aquele que se 
recusa a trocar o gozo pela significação. A consequência é que, pela 
promoção da relação do sujeito psicótico com lalíngua, com o signifi­
cante assemântico, e não com a articulação [significante] , podemos 
tratar com mais eficiência os fenômenos psicóticos contemporâneos 
muitas vezes fragmentados, dispersos, pluralizados, já que estão 
menos referidos à figura unificadora do mestre. Além disso, os fenô­
menos de gozo - pensados, em princípio, como redutíveis pela meta­
forização delirante ou como simples resto da articulação significante 
- podem ser doravante abordados como parte integrante de lalíngua, 
aparelhagem mista do real com o simbólico. 
56 
A cadeia rompida e o significante no real 
Não seria justo considerar o ensino clássico de Lacan 
sobre o desencadeamento como pura e simplesmente ultrapassado. 
Como Jacques-Alain Miller ensina em seu curso A Orientação 
Lacaniana, convém, ao mesmo tempo, apreender como Lacan chega 
a pensar contra Lacan, mas também como algumas de suas elabo­
rações mais avançadas já estão esboçadas nos momentos mais clás­
sicos de seu ensino. 
Assim, a propósito do estatuto do imaginário, situado nos 
anos 1 950 como uma instância de registro inferior em relação ao 
simbólico, Lacan assinala, entretanto, sua função compensatória em 
relação à falta no simbólico. Ele a situa inicialmente no momento 
pré-psicótico do sujeito, antes do desencadeamento, observando 
seu valor para um jovem - que está "por intermédio de uma imita­
ção, de um atrelamento, na esteira de um de seus companheiros"22 
-, esclarecendo que o sujeito "nunca entra no jogo dos significan­
tes senão por um tipo de imitação externa", mas também como 
uma forma de estabilização após o desencadeamento, quando evoca 
a maneira como Schreber se reconstitui na alusão imaginária23• 
Sem dúvida, essa clínica abre a via que consistirá em situar 
o imaginário não mais como determinado pelo simbólico, mas 
como lhe sendo equivalente no nó borromeano. 
É na consideração mesma do estatuto do significante no 
momento do desencadeamento que é possível localizar uma incidên­
cia do significante no real e não só no registro do Outro simbólico. 
Lacan diz isso claramente em "De uma questão preliminar . . . ", quan­
do extrai do famoso "venho do salsicheiro ... " de sua paciente a 
seguinte conclusão: "Esse exemplo é aqui destacado apenas para 
captar no ponto essencial que a função de irrealização não é tudo no 
símbolo. Pois, para que sua irrupção no real seja indubitável, basta 
que ele se apresente, como é comum, sob a forma de cadeia rompi­
dam4. Essa valorização do significante sozinho, não articulado, signi-
57 
ficante no real, abre a via para a consideração das neopsicoses. Nelas, 
o tratamento do gozo não se faz pela reconstituição da cadeia S1-S2, 
ou pela metáfora delirante, mas por um tratamento a partir da letra, 
ou seja, do significante como o que não significa nada. Lacan vai, 
aliás, retomar esse ponto em "O aturdito", em torno da nova defini­
ção que será dada ao Um-pai de "De uma questão Preliminar . . . " em 
sua relação com o desencadeamento. Nos Escritos, o encontro com 
um significante foracluído remete o sujeito aum buraco; o Nome­
do-Pai ausente não dá acesso à significação fálica do desejo da mãe, 
que permanece enigmático. O que se apresenta no lugar é Um-pai 
como significante no real, sem par. Em "O aturditom5, Lacan dá a 
seguinte forma lógica ao momento do desencadeamento: "É pela 
irrupção de Um-pai como sem razão, que se precipita aqui o efeito 
sentido como de forçamento, no campo de um Outro a ser pensado 
como o mais alheio a todo sentido". Aqui, "como sem razão" indi­
ca que, como o sujeito não se exclui do que enuncia, não é possível 
qualquer separação entre enunciado e enunciação. 
Pierre Naveau, em um excelente artigo publicado em 
Ornicar? n.44, resume muito bem essa nova lógica centrada na fun­
ção da exceção: 
A irrupção de Um-pai evidencia, no momento do desencadeamento 
da psicose, o que não tinha aparecido até então; a saber, que a exceção 
paterna é colocada em funcionamento apesar de sua inexistência, mas 
ao preço de um deslocamento de registro: o que deveria tomar lugar 
no simbólico surge no reaF6• 
Essa maneira de colocar o problema permite sair da lógi­
ca deficitária da psicose - foraclusão de um significante no Outro -
para acentuar a conexão do significante com o real, e, portanto, uma 
impostura do pai como garantia do Outro. A norma edipiana mos­
tra seu caráter não essencial, sua impotência para regular o gozo 
pela lei e pelo ideal. 
58 
A consequência recai não só sobre a clínica das psicoses, 
mas também sobre a orientação possível do tratamento. Nos anos 
1950, a posição bastante prudente de Lacan sobre esse ponto é soli­
dária de uma concepção do analista que opera a partir do Outro e 
que visa refrear os efeitos de gozo produzidos no sujeito psicótico 
pela falha do Nome-do-Pai. A famosa posição do secretário do alie­
nado, as advertências contra os riscos da erotomania ou de empuxo 
ao desencadeamento pela transferência acentuam uma posição pas­
siva do analista, um certo "fazer-se de morto", pois tratava-se de 
opor à efervescência imaginária do psicótico o poder mortal do 
símbolo. 
Se considerarmos que as neopsicoses valorizam o signifi­
cante no real e não sua articulação na cadeia, o enodamento dos três 
registros do sujeito e não sua subordinação à única instância do sim­
bólico, o caráter criativo da psicose e não sua dimensão deficitária, 
o lugar do analista poderá ser definido de uma maneira diferente 
daquela do lado da morte e da lei, isto é, do universal. O que nos 
guia é menos a consideração de uma clínica da estrutura do que a 
sustentação da invenção do sujeito em seu trabalho sobre lalíngua, 
sua capacidade de encontrar uma solução singular que concilie o 
vivo e o laço social. É por isso que nosso trabalho de pesquisa 
apoia-se na variedade dos casos, mais por estarmos atentos à forma 
singular como cada um trata o impasse de seu gozo de maneira iné­
dita do que para verificar como cada um se acomodaria a nosso 
modelo da psicose. 
11. OS CASOS CLÍNICOS 
Apresentaremos cinco casos clínicos selecionados dentre 
os muitos estudados em nossos seminários. 
59 
Primeiro caso 
O esclarecimento dado por esse caso à questão do neode­
sencadeamento deve-se a uma dupla conjuntura: a dificuldade para 
estabelecer o diagnóstico entre neurose e psicose e a precocidade 
do desencadeamento. Tal precocidade aparece aqui em diferentes 
níveis: em primeiro, o do desencadeamento; mas também o do tra­
tamento, pois nos referimos aqui ao tratamento de um menino, 
retomado após a interrupção de um tratamento anterior devido à 
mudança na situação profissional do pai. 
Este caso clinico de desencadeamento precoce enfatiza 
como, diante do real encontrado por esse sujeito, um real intrusivo, 
fraterno, e não dispondo do apoio significante do Nome-do-Pai, 
tenta-se suprir sua ausência pelo viés de uma identificação imaginá­
ria marcada pelo selo da rivalidade e do ciúme. Essa identificação 
garante-lhe uma apresentação inicial ilusória, mediante um recobri­
mento que não protege o sujeito contra a vertigem da desagregação 
de seu ser nas proximidades do buraco. Nesse ponto, o sujeito se 
precipita de equívoco em equívoco, no real, indo do consultório ao 
banheiro, desenhando toaletes, indicando com isso com qual esta­
tuto do significante ele está lidando: o do significante sozinho, o do 
significante no real. 
Em certo momento, pareceu que o desencadeamento pre­
coce comprometia a teoria clássica do desencadeamento ou, pelo 
menos, era seu limite. Mas, a partir da consideração da relação trau­
mática com lalíngua, temos uma apresentação que permite conser­
var todo o valor da noção de desencadeamento: "É a partir da con­
tingência dos encontros que o destino se enlaça", diz Jacques-Alain 
Miller27• 
60 
Segundo caso 
Neste caso, o que se localiza é a presença, desde o início, 
da relação imaginária com o outro, não sustentada pelo registro 
especular e sim por aquele do objeto. 
Para esse sujeito, não há o objeto, mas um certo número 
de objetos, uma variedade de objetos que permite efetuar um enla­
çamento. Essa sucessão de objetos não forma uma série no sentido 
de uma convergência da qual se poderia deduzir a constituição de 
uma articulação. 
Assim, este caso clinico mostra uma sucessão de enlaçamen­
tos em relação ao objeto, a partir dos quais se constitui uma alteridade. 
A série dos diferentes tratamentos do objeto não produz um traçado, 
um gargalo, uma travessia, uma passagem delimitando um antes e um 
depois. Esse sujeito encontra-se mais em uma invenção perpétua. 
A estabilização que se opera, cujos efeitos são observáveis 
no nível do comportamento, particularmente no que concerne ao 
apaziguamento e à relação com o semelhante, não provém de uma 
estase em um ponto de equilibrio, mas necessita de uma invenção 
contínua de sua parte. Os objetos são deixados sem que a dimensão 
da perda se estabeleça. Ela passa de uma forma a outra com uma 
preocupação estética que é preciso levar em consideração na psicose28, 
como instauração de um laço. 
Finalmente, deve-se destacar que esse tratamento passa 
pelo outro, o outro que constrói o caso, que o escreve, que lhe dá 
forma. Essa invenção não se produz sem a colocação em ato de um 
desejo que permite que se efetue o ligamento. 
Cabe acrescentar que esse outro muda, é plural, é múltiplo. 
E é a partir desse plural mesmo que alguma coisa cessa de não se 
escrever, ou melhor, não cessa de se escrever. 
Este caso é, certamente, exemplar de uma clinica do 
"Outro que não existe", mas, sobretudo, de um tratamento a partir 
do "Outro que não existe". 
61 
Diz respeito a alguém que não se constrange com suas 
construções, pois o que conta é o uso que se faz disso. 
Terceiro caso 
Um rapaz de dezoito anos, no terceiro ano do ensino 
médio, é encaminhado com urgência por seu médico particular. O 
paciente vai a sua primeira consulta acompanhado por seu pai e sua 
mãe, muito preocupados com a saúde do filho. 
Na primeira entrevista, seus pais expõem a situação em 
um relato que ele segue atentamente. O rapaz acompanha com 
grande atenção, com o olhar fixo no chão, intervindo aqui e ali para 
retificar, para trazer alguma precisão ao discurso dos pais, aparente­
mente de forma pertinente, ou pelo menos nunca contestada por 
eles. Assim que seus pais saem do consultório, o paciente se preo­
cupa em fazer uma exposição rigorosa. Seu discurso começa assim: 
"Tudo parecia relativamente bem, mas de fato não estava". 
O sujeito mostra-se muito tomado em seu exame, na ava­
liação que faz de si mesmo, em primeiro lugar, pelo que constitui a 
sua urgência subjetiva, a saber: o surgimento de pensamentos com­
pulsivos sobre os quais ele se pergunta se o levarão à sua realização 
em ato. Esses pensamentos compulsivos assumem várias formas: 
cortar os próprios cabelos, raspar a cabeça, cortar a garganta, furar 
o coração, furar os olhos. 
O sujeito descreve com precisão de detalhes suas fobias de 
facas, corta-papéis, canetas e outros objetos pontiagudos, cuja pre­
sença em sua proximidade imediatadesencadeia crises de angústia das 
quais só pode defender-se eliminando esses objetos frequentemente 
encontrados no seu ambiente escolar, até o momento em que se vê 
obrigado a interromper seus estudos por causa da pressão das crises. 
Esses pensamentos, embora muito desagradáveis, eram 
suportáveis enquanto o visavam como objeto. Foi somente quando 
visaram como objeto seus colegas de classe, sua mãe e também 
62 
outros familiares, que eles se tornaram insuportáveis; então, procu­
rou uma consulta. 
A primeira entrevista termina com esta conclusão: "É como 
se a ideia de ser criminoso de mim mesmo me fosse mais suportável do que a 
ideia de ser criminoso de um outro!", disse ele. 
Diante da angústia, a demanda de medicamentos "para 
deter isso", sustentada pelos pais, é o que está em primeiro plano. 
Contudo, o analista aposta no rigor que o sujeito demonstra e pro­
põe-lhe a ideia, que ele terminará aceitando, de experimentar um 
tratamento-teste pela fala durante algumas semanas. Concede-lhe, 
de sua parte, uma prescrição de ansiolíticos; posteriormente, fica 
sabendo que o paciente tomara só a metade. 
Durante as entrevistas seguintes, as angústias deslocam-se, 
uma forma tomando o lugar da outra. Rapidamente desaparece a 
angústia de cortar os próprios cabelos, de raspar a cabeça. Esse 
ponto é interpretado para o paciente como um sinal de que seus 
sintomas são acessíveis ao tratamento pela fala. 
A situação parece ajustar-se. A angústia é controlada a 
ponto de ele poder retornar aos estudos. O sujeito vem com regu­
laridade às entrevistas. Surpreende o uso que ele faz do dispositivo. 
Esse sujeito, pouco inclinado a atribuir ao Outro a causa de seus 
sintomas, é, entretanto, capaz de utilizar rapidamente as entrevistas 
para iniciar, na presença do analista, um trabalho fora do sentido, do 
pensamento. 
Durante as entrevistas, impressiona a sua fixação do olhar 
e uma atenção exagerada ao que se desenrola diante dele e que des­
creve com grande rigor. Essa posição de espectador, à distância, do 
automaton de seus pensamentos compulsivos é o que há de mais 
característico no paciente, evidentemente em um transe, mas muito 
diferente daquele do Homem dos Ratos de Freud, o qual se apre­
senta como um pseudodelírio. 
Aqui, não ocorre nada disso. Ao contrário de um delírio, 
trata-se de uma descrição à distância do processo que o invade e de 
63 
suas variações, em uma atenção intensa, uma atitude de verdadeira 
busca dos meios a serem mobilizados para limitar essa invasão. 
Embora os pensamentos relativos aos cabelos tenham cedi­
do rapidamente, os que se referem aos olhos, à garganta e ao coração 
continuam causando-lhe embaraços, mas permitem, por sua evolução 
rebelde, uma atitude experimental por parte do paciente. O meio de 
defesa que esse sujeito encontra lembra o procedimento schreberiano: 
"Posso combater minhas ideias ocupando-me do espírito", diz ele. 
Teme períodos de inatividade, de férias, ou simplesmente 
de volta para casa depois das aulas. A presença de seus colegas e o 
barulho que fazem à sua volta preenchem de maneira defensiva um 
silêncio que, de outra forma, o invadiria com o surgimento de seus 
pensamentos compulsivos. 
Dessa maneira, ele encontra soluções: efeitos sonoros, 
rádio, fonte sonora que coloca atrás de si; ou ainda, uma atividade 
automática: pequenos trabalhos que faz para seus pais, leituras -
com a condição de não seguir a significação. Em resumo, uma ati­
vidade de defesa, fora do sentido, para poder contornar o buraco 
por meio de um manejo, no real, da letra. 
Assim, o sujeito abandona completamente a vertente da 
significação para tratar o que o invade. Essa vertente não o impede, 
no entanto, de trazer elementos determinantes na anamnese. Isso, 
contudo, não é o mais importante neste caso. 
A questão da psicose coloca-se para esse sujeito em rela­
ção à fixidez do olhar, em relação à busca de uma castração no real, 
em relação à posição do sujeito como espectador, à distância, do 
automaton de seus pensamentos compulsivos - em um contexto 
diferente do Homem dos Ratos - dando lugar a uma descrição do 
processo invasor e de suas variações. Enfim, a questão da psicose se 
coloca para esse sujeito em relação a um pôr-se a trabalho para con­
tornar o buraco central, à maneira de Schreber, mobilizando uma 
atividade de pensamento fora do sentido, com efeitos sonoros, um 
burburinho no real. 
64 
Quarto caso . . . 
"O idólatra" é um homem de vinte e cinco anos que está 
no quarto ano do Seminário Maior, que se converteu recentemente 
ao catolicismo e desejava entrevistar-se com um psicanalista católi­
co para falar do acontecimento que dera um novo rumo a sua vida. 
Uma observação, sobre o fato de saber se ele pensava que 
Deus seria obrigado a cuidar de tantas coisas assim, permite-lhe ini­
ciar um trabalho, separando-se de um Outro que cuida das coisas 
do mundo. 
Aos dezessete anos teve um sonho em que Deus o convi­
dava para sua Igreja, sendo que tinha sido batizado na religião orto­
doxa porque sua mãe, católica, queria que ele pudesse um dia fazer 
a sua própria escolha. O pai, indiferente às questões religiosas, não 
interveio. 
Quer ser padre, mas surgem dificuldades que tinham sido 
aplacadas durante um tempo devido à sua conversão. Ele quer se 
certificar, por meio de uma análise de sua vida, de que não prejudi­
cará a causa a que pretende servir. Não tem certeza se Deus espera 
que ele seja religioso por ofício. 
Diz-se incapaz de escrever desde a infância. Não pode 
mais acompanhar suas aulas. Sente-se agredido pelos outros e, ao 
mesmo tempo, os aterroriza. Tem uma estatura imponente e uma 
voz grossa. Um elemento discreto marca o estilo de suas relações 
com os outros: sente-se obrigado a dizer, nas conversas, que há 
sempre mal-entendidos entre as pessoas. A materialidade das pala­
vras o fere como se elas o penetrassem. 
Essa intrusão da linguagem opera-se nos momentos em 
que o olhar se desprende como órgão. Na análise de sua vida, loca­
liza sua exclusão da comunidade dos homens na idade de seis anos: 
uEu poderia ter sido autista". 
O desencadeamento ocorre na época do pré-primário, 
quando seu pai, que normalmente se dirige com mais facilidade a 
65 
sua irmã ou ao cachorro, pede-lhe para conjugar o verbo "ser": 
incapaz de responder, vê nisso a prova de sua loucura e desmoro­
na. "O que me falta é a base. " Encontra a solução em uma história em 
quadrinhos que lhe fornece um modelo: nela, viam-se homens 
guerreiros enfrentando mulheres guerreiras. Quando os homens 
eram atingidos, morriam, ao passo que os corpos das mulheres 
desapareciam, dando lugar ao vazio que a roupa envelopava. 
Pede então à mãe uma roupa emprestada, a qual lhe servi­
rá de invólucro; uma meia-calça (collan� é o suficiente para, dentro 
dela, deslizar o seu ser. 
Na adolescência, as meias-calças que comprava davam 
um aspecto pseudoperverso às suas práticas masturbatórias. O 
caráter a�tocentrado desse gozo reunia seu corpo a partir do obje­
to, concentrando-o em torno de seu pênis. Esses momentos 
faziam parar a sua dor, mas, pouco a pouco, a meia-calça deixava 
de contornar esse gozo invasor que o despertar da primavera fize­
ra aparecer. 
Aos quinze anos, quis morrer, já que, como existente, não 
tinha mais nenhuma razão de ser. Desalojado de seu isolamento 
pelo ritual familiar das refeições, fez da comida uma fonte de hor­
ror, equivalente ao verbo cuja conjugação tinha visto, estranha, na 
página do livro de seus seis anos. 
Para se proteger desse real, tomou um produto feito por 
ele, fabricado a partir de produtos domésticos usados por sua mãe. 
Deitou-se para dormir. No dia seguinte, o copo estava vazio, nada 
ocorrera; então foi comer. 
O efeito apaziguador da conversão relacionava-se com um 
significante novo, uma significação dada ao gozo que lhe permitira 
abandonar a meia-calça: fora um idólatra. Era o que dizia ter sido, 
um idólatra, o que poderia representá-lo aos olhos dos cristãos, e se 
sentia parasempre tendo que responder por essa marca. "Quero crer 
que no dia de meu batismo1 ele [esse significante] entrou em mim para que 
eu não fosse entregue à morte e à minha família. " 
66 
Desse modo, apresentou ao bispo seu pedido para ser 
admitido no Seminário. Mas estava exposto à tentação de voltar 
atrás. Fazia disso a marca singular de seu compromisso 'religioso, o 
que também lhe permitia protelar o compromisso de votos perpé­
tuos e manter-se distante do sacerdócio . 
. . . dois momentos 
Durante uma viagem ao Sinai, diante do perigo de que 
Deus falasse, pudera conversar com uma garota que não ouvia. 
Longe de fazer disso um milagre, pôde "religar-se" e chegar à con­
clusão de que era um idólatra como todos os adoradores do 
Bezerro de Ouro, mas que devia construir sua humanidade a partir 
desse objeto singular que era a meia-calça. Para os outros, tratava­
se de algo natural, mas ele tivera que construir sua humanidade a 
partir da meia-calça, portanto, da mulher. Por isso, não era obriga­
do a ocupar a posição de Moisés, a de tornar-se padre. Mas não era 
casto, já que, apesar de sua renúncia à meia-calça, continuava ado­
rando essa outra face de Deus, seu gozo mudo, este que Santo 
Inácio convidava o penitente a rejeitar como gozo do corpo em 
ligação com a prece. Esse é seu argumento para adiar os votos. 
Tendo-se tornado um excelente especialista em informáti­
ca, o tratamento de texto tinha regulado seu problema com a escri­
ta. Sua relação com a língua vacila quando vai aos Estados Unidos 
para aprender inglês, durante um ano: fenômenos elementares sur­
gem, sente-se tentado a se isolar no burburinho de uma língua des­
conhecida. "No começo era terríve� as palavras se despregavam, estrangeiras. 
Comecei a me autosati.ifazer. Era cerebral". Graças ao afeto de sua tia, 
que se tornou norte-americana ao se casar com um norte-america­
no, esse sujeito pôde, como ele mesmo disse, entrar em uma nova 
língua, uma nova família. Hoje, diz não ter mais uma relação cons­
tante com o corpo. Adora inglês e informática, o que lhe permite 
retificar, segundo suas palavras, suas pulsões e seus sentidos. 
67 
Mas o regresso é difícil. Sua comunidade tolera seu estado 
de confusão e aceita que continue como especialista em informáti­
ca, que viva como religioso e que adie a ordenação. Pode transmitir 
o que sabe, mas não se deve esperar muito dele. 
Comunica-se em inglês com interlocutores, mas sem que 
o vejam. Faz circular a voz, "rápido, não lentamente", pela escrita 
na Internet. "Gnotiff" - nome composto com as letras do nome de 
seu cachorro, ao qual se endereçava seu pai - é seu nome no ciberes­
paço. Substituiu o de idólatra. A solução não está do lado da metáfo­
ra delirante. Ela está, antes, do lado da escrita de um ponto de não­
sentido no qual seu ser pode ser identificado. A idolatria continua 
sendo seu problema, a marca do que ele foi e que ainda hoje lhe per­
mite nomear as sensações corporais que o invadem. 
Ele consulta o analista uma ou duas vezes por ano e con­
sidera que este o está acompanhando. Encontra soluções particula­
res para inscrever uma falta no campo do Outro sem ter que ser o 
seu garantidor. 
Por enquanto, distancia-se da tentação de reconstruir o 
mundo e usa a religião para criar para si uma nova relação com 
lalíngua, o que não é sem consequências sobre seu gozo transexual, 
que consegue assim limitar. 
Quinto caso: um momento de desligamento 
Quanto a Jean, o desencadeamento ocorreu há muito 
tempo. Agora, ele tem trinta e três anos e consulta o analista há dez 
anos. Sua família vive em Luxemburgo, onde nasceu. Fala fluente­
mente o francês e o alemão e considera o luxemburguês um dialeto. 
Depois de uma intervenção infeliz que tornou inoperante 
o uso da gramática que inventara para si próprio, permitindo-lhe 
manter-se em lalíngua, Jean é impelido, obrigado a uma resposta no 
real que ele tenta colocar em ato assim: tem que se fotografar intei­
ramente nu, depois raspar todos os pelos do corpo, fotografar-se 
68 
novamente e expor essas fotos como uma peiformance. No momen­
to da sessão em que fala desse "projeto", se expressa tanto em ale­
mão como em francês. A fórmula "eu nack!' detém o analista, que 
não sabe se deve ouvir essa palavra em francês ou em alemão, pois 
acter, em francês, é um verbo que Jean utiliza. 
Ao preparar este texto, o analista deu-se conta de que 
nunca perguntava em que idioma o paciente falava, mas apenas 
como se escrevia o que dizia. O sujeito desdobra o conjunto dos 
significantes convocados para o seu achado, cuja chave só ele terá. 
Nacken é um verbo alemão que significa "extenuar-se", que Jean já 
tinha usado porque é muito próximo a die Nacke (a nuca) . 
O adjetivo nackt significa "nu", "em pelo", "desprovido". 
Akt significa um "nu", no sentido acadêmico, e é também um "ato" 
teatral. Diferentes traduções se superpõem entre "nu" e "Akt ", 
"nack!' e "ato". Poderíamos estabelecer um continuum de significa­
ções entre esses significantes. 
O achado gramatical de Jean consiste em fazer uma brico­
lagem com uma palavra utilizada entre as duas línguas, que queira 
dizer "ato" e "nu", ao mesmo tempo, nas duas línguas. Estanca de 
maneira singular a espiral da metonímia. Vetorializa as línguas para 
encontrar a palavra correta que o separe da obrigação de colocar 
realmente em jogo o seu corpo. Será que se trata de uma tentativa 
de inventar "um Outro da gramática", como propunha Jacques­
Alain Miller em Angers29, para que o real da língua já não lhe faça 
signo e, assim, forjar a palavra que cura, e que o livraria de passar 
ao ato? 
Concebe a análise como um lugar para elaborar algo sobre 
o irreconciliável que ele situa entre "localização (repere) e orgânico". 
Esse sujeito tenta na análise um enodamento entre o que expressa pelo 
binário ''iiocalizávei/ irreparável" (irrepérable/ irréparabie) onde "corte" e 
"sutura" tentam se enodar. 
Ele tenta entregar-se a uma língua na qual o corpo possa 
se sustentar. É obrigado a tratar do real da língua para enodar o 
69 
corpo. É o ponto de religamento. Inventa uma gramática que lhe 
permite neologizar gramaticalmente. Quando isso se solta, porque 
esse uso é precário, ele delira seu corpo. No momento em que o 
enodamento na língua não dá mais abrigo ao corpo, ele utiliza real­
mente seu corpo. 
A análise é para ele um lugar de criação de referências que 
lhe permitem suportar uma relação com o mundo. "Saí do autismo 
por milagre e traumatismo, e aqui pode haver suspensão", disse. 
111. QUE ENSINAMENTOS TIRAR DOS CASOS CLÍNICOS? 
O desligamento, como expressão maior do neodesenca­
deamento, opõe-se ao desencadeamento clássico. Relacionamos o 
neodesencadeamento-desligamento à metonímia, opondo-o, assim, 
ao desencadeamento clássico, relacionado à metáfora. 
O que está em jogo nessa questão do neodesencadeamento / 
desencadeamento clássico, relaciona-se à maneira segundo a qual 
explicaremos esses diversos modos de instalação das psicoses. 
Explicamos a instalação classicamente súbita de um delírio pela 
metáfora delirante, ou seja, pela substituição metafórica, que obede­
ce à lei do tudo ou nada. Explicamos outros modos de instalação, 
progressivos, precoces, até mesmo precocíssimos a ponto de apare­
cerem logo de início (o que contradiz a própria noção de desenca­
deamento), ou ainda modos alternativamente progressivos e regres­
sivos, pela substituição parcial (não pela lei do tudo ou nada), pelos 
desligamentos e religamentos que a metonímia delirante evidencia. 
É a clínica que nos conduz ao Outro primordial, por ter 
que considerar uma estrutura clínica de partida, neurose ou psico­
se, e considerar como um dado prévio a escolha do sujeito de se ins­
crever em uma estrutura clínica. A isso nos conduz nossa posição 
de clínicos. A noção de desencadeamento vem enfatizar a passagem 
do estrutural ao clinicamente manifesto. 
70 
Ao contrário desse ponto de partida com base no Outro, 
existe o ponto de partida com base no gozo, com o Outro quenão 
existe. Aqui, é a própria escolha do engajamento do sujeito na estrutu­
ra clínica que se encontra problematizada. Então, temos que lidar 
menos com a oposição desencadeamento /desligamento que com a 
questão dos desligamentos e religamentos, inclusive com a problemá­
tica do ligamento com o Outro. Essa é uma perspectiva comandada 
mais pela consideração do tratamento que pela consideração da clínica. 
Haveria clínica psicanalítica concebível somente com base 
no Outro primordial? 
O último ensino de Lacan convida a um novo exame do 
estatuto a ser dado ao sintoma. Considerar o Outro primordial leva 
a estimar que o Outro é o melhor meio para se tratar o gozo. 
No que diz respeito ao tratamento do gozo, duas vias 
devem então ser distinguidas: 
_ Passar pelo Outro para o tratamento do gozo evidencia o esta­
tuto predominante da fantasia, isto é, o valor de localização, de con­
densação, de recuperação do gozo, correlato à mortificação signifi­
cante do sujeito. Trata-se, por essa via, de um tratamento do gozo 
pelo objeto como resto. 
_ Sem passar pelo Outro para o tratamento do gozo evidencia o 
estatuto do significante sozinho, o laço do simbólico com o real, e 
não mais uma apresentação do sintoma na vertente deficitária em 
relação a uma norma - mesmo que seja a norma-do-macho (má/e­
norme) - e sim uma apresentação do sintoma na vertente que faz 
valer a invenção do sujeito, a função L: (x) , ou seja, a versão do sin­
toma que convém ao Outro que não existe. Esta versão adquire 
toda sua dimensão com a clínica borromeana, na qual o Outro é 
substituído pelo enodamento, que equivale, em uma estrutura ter­
nária, ao ponto de basta na articulação em uma estrutura binária. 
O neodesencadeamento se esclarece, assim, por meio do 
nó borromeano, do Outro que não existe e do registro do signifi­
cante sozinho, St . 
71 
IV. CONCLUAMOS 
Embora esclarecida pela oposição da metáfora e da metoní­
mia, a oposição desencadeamento clássico versus neodesencadeamento­
desligamento permanece no sistema de oposição binária, com sua 
estrutura hierárquica. A estrutura binária de oposição conduz imedia­
tamente a uma hierarquia. Assim, o binário simbólico e imaginário 
faz prevalecer o símbolo sobre o imaginário. Da mesma forma, o 
binário da articulação significante S1-Sz, o binário da estrutura de lin­
guagem, introduz uma hierarquia do Um em relação ao Outro. 
Assim, a atualidade de nosso trabalho levou-nos a consi­
derar dois destinos do Um: 
_ o destino do Um em direção ao dois, na oposição signi-
fi cante; 
_ o destino do Um em direção ao três, no enodamento. 
Se, no primeiro Lacan, a metáfora delirante aparece no 
lugar da metáfora paterna, que está ausente, no segundo Lacan, o 
psicótico tem, como o neurótico, uma relação com o sintoma como 
modalidade de tratamento do real pelo simbólico. Encontramos aí 
a noção de aparelhamento, que anuncia aquela do enodamento. A 
consideração desse tratamento do gozo - da causa sexual - é o que 
diferencia a clínica psicanalítica do campo psiquiátrico, de onde ela 
está excluída. 
O conceito de aparelho pode dar um nome à série de 
ligamentos? 
O primeiro desses aparelhos, que Jacques-Alain Miller vai 
desenvolver em seu curso "Do sintoma à fantasia e retorno", é o 
estádio do espelho. É um aparelho que trata o gozo. Permite seriar 
os ligamentos nos quais uma formação imaginária vem flXar o sujeito: 
fenômeno psicossomático (FPS), prática artística, perversão, gemi­
nação particular de um casal. 
Mas a solução imaginária é sempre aleatória pela ausência 
de um distanciamento do corpo e sempre é possível um retorno 
72 
libidinal. Pode-se notar, então, em todos esses casos que privilegiam 
um enlaçamento imaginário, a importância de uma inscrição da cas­
tração no real, como o "cílio" de Pierre Naveau30• 
O sintoma é um aparelho que permite colocar em série os 
ligamentos em que um uso particular do simbólico - por meio de 
um médium, da informática, de uma prática artística, de um empre­
go da língua-lalíngua - fixa o sujeito. 
O aparelho da linguagem é outro aparelho. 
Falar de enodamento remete a uma clínica borromeana na 
qual, como observa Jacques-Alain Miller no final do Seminário das 
sete sessões: ''A equivalência entre os três registros tem como efeito 
considerar que um registro pode se substituir a uma falha surgida 
em outro [ . . . ] o imaginário pode se transformar em significante", 
uma prática do objeto pode se contrapor à falta simbólica. Nos 
casos comprovados de psicose, observa-se uma remissão à imagem, 
na qual o imaginário se fixa em determinado momento e, a esse 
preço, o sujeito sustenta-se no mundo. Assim, uma mulher se faz 
tatuar uma maquiagem permanente nos olhos para poder levantar­
se de manhã diante de um homem. No caso de Jean, a "performance" 
faz pensar em uma afinidade com a perversão. Há um elemento 
notável: trata-se de traços de perversão, traços que se repetem iden­
ticamente. 
Por outro lado, há enlaçamentos "autossimbólicos" devi­
do a um funcionamento em dois níveis, internos ao simbólico. Essa 
problemática do neodesencadeamento mostra-nos a passagem de 
uma clínica da contiguidade, cuja referência é linguística, a uma clí­
nica da continuidade e sua incidência na condução do tratamento. 
O conjunto dos casos leva-nos a indicações precisas sobre 
a posição do analista. Se o esquizofrênico denuncia pela ironia a ine­
xistência do Outro, é melhor não levá-lo a esse ponto de inexistên­
cia do Outro no tratamento. Por exemplo, quando ele é recoberto 
por um remendo imaginário: FPS (Fenômeno Psicossomático), prá­
tica artística, escolha do objeto amoroso especularizado. 
73 
Somos, portanto, levados a colocar em questão a posição 
do secretário do alienado, em prol da sustentação para a criação 
quanto ao objeto e, também, na escrita do caso. Éric Laurent, em 
Arcachon, detalhou a maneira pela qual o analista se faz destinatá­
rio do signo ínfimo do paciente. Com esses signos sustenta-se seu 
trabalho de construção, e não se desvia disso. 
A manobra analítica não consiste, portanto, em um mero 
registro, em um secretariado; tampouco se trata de "socializar". O 
reenlaçamento, que está a cargo do sujeito, se ele é uma alternativa 
para a metáfora delirante, não é uma reinscrição do sujeito sob os 
significantes ideais anteriores ao desligamento. Ele supõe uma 
invenção particular e um destinatário atento, como testemunham os 
casos. 
74 
Notas 
• 
Relatores: Jacques Borie, Jean-Robert Rabanel e Claude Viret. 
1 LACAN, J. (1955-1956) "Do significante e do significado". In: O Seminário, livro 
3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p.220. 
2 Ibid., p.1 87. 
3 LACAN, J. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.542. 
4 LACAN, J. (1973) "O aturdi to". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.466. 
5 NAVEAU, P. (1 988). Sur le déclenchement de la psychose, Ornicar? Paris, n.44, 
p.79. 
6 MILLER, J.-A. (1996) "Lacan com Joyce". In: Correio n.65. São Paulo: Escola 
Brasileira de Psicanálise, 2010, p.33. 
7 Tal como acontece com James Joyce. 
8 HENRY, F.,JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.). Le conciabule d'Angers: effets de 
surprise dans les p.rychoses. Paris: Agalma/Seuil, 1997. 
9 N.E.: NAVEAU, P. História d'olho. In: HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, 
J.-A. (ed.) (1 997) Os Casos Raros, Inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação 
de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p.59-61 . 
75 
Seção Clínica de Lille* 
INVESTIGAÇÕES SOBRE O INÍCIO DA PSICOSE 
I . ENTRADAS NA PSICOSE1 
Não encontramos nenhum caso que questione a estrutura 
da psicose desenvolvida por Lacan na "Questão preliminar"2: fora­
clusão do Nome-do-Pai e ausência da significação fálica. Essa estru­
tura tem, contudo, manifestações clinicas diversas. Po e <Do desig­
nam aqui, como no texto de Lacan, os "abismos"3 que podem ser 
cavados, no simbólicoe no imaginário respectivamente, por essa 
foraclusão e essa ausência. Trata-se, portanto, de "abismos" locali­
záveis clinicamente pela emergência de fenômenos precisos. 
Os fenômenos que designamos por Po são as alucinações 
e as perturbações da linguagem. Estas últimas, descritas no Seminário 3, 
vão do eco do pensamento à língua fundamental, passando pelas 
diversas formas de automatismo mental4• Incluímos aí, portanto, as 
perturbações da fala e da enunciação, as alucinações verbais e os 
fenômenos de pensamento imposto. Caracterizamo-las por meio 
do termo "anideico", emprestado de De Clérambault, para excluir­
lhes as ideias delirantes, consideradas aqui de um ponto de vista 
"ideico", ou seja, semântico. 
A "imagem da criatura"5 beira, para Lacan, o "abismo" <Do. 
O falo é o significante do sexo, portanto as ideias delirantes ligadas 
à sexualidade e ao corpo atestam a presença de <Do, assim como 
algumas passagens ao ato (automutilações) e alguns tipos de disfun­
ções corporais. O falo é o médium entre os sexos; portanto, as ideias 
77 
delirantes relativas ao amor e às relações sexuais devem ser 
igualmente referidas a <I>o. O falo é o significante da vida ou da ani­
mação do gozo. Portanto, a perda enigmática do sentimento da 
vida, chegando às vezes até ao suicídio, e a mortificação do gozo, 
dizem respeito a <I>o. Somente as perturbações da linguagem pro­
vam "automaticamente" a foraclusão do Nome-do-Pai. Os fenôme­
nos que acabamos de descrever, assim como as alucinações visuais 
e sinestésicas, têm um estatuto muitas vezes difícil de determinar na 
prática. Na ausência de perturbações da linguagem, a psicose deve, 
portanto, ser demonstrada de outra maneira, por um estudo do 
conjunto do quadro clínico a partir da articulação detalhada de seus 
elementos. 
Da "Questão preliminar" deduzimos um esquema de 
desencadeamento6 da psicose relativo à segunda "doença" de 
Schrebee, que se traduz pelo seguinte encadeamento temporal: 1 ) 
apelo ao significante foracluído do Nome-do-Pai (por Um-pai) ; 2) 
formação de Po; 3) formação de <I>o. 
Mas, há entradas na psicose que se ordenam de acordo 
com outras sequências temporais. 
A. Entradas na psicose, sem perturbações da linguagem 
Um primeiro tipo de entrada na psicose é caracterizado 
pela ausência de perturbações da linguagem, o que, lembremos, é 
compatível com a foraclusão do Nome-do-Pai. 
1 . Um-pai � <I>o 
Nesses casos, há um encadeamento direto entre o surgi­
mento de Um-pai e uma manifestação proveniente de <I>o. 
78 
Exemplo 1 : Um transexualismo feminino1 
Uma moça, Ven, vestida com roupas masculinas, quer 
operar os seios e o sexo para ser "transformada" em um rapaz. Seu 
pai foi enviado ao campo de concentração, no Camboja, quando ela 
tinha três anos. A mãe decidiu ficar com o ftlho de dois anos e 
enviou sua ftlha para longe, com sua família. Quando a menina fez 
seis anos, o pai fugiu e imediatamente chamou a filha de volta. A 
família reunida passou então um ano em um campo de refugiados 
antes de chegar à França. As lembranças de Ven datam da volta de 
seu pai. Antes, é o nada. Justamente à mesma época, assistiu a uma 
cena que foi a matriz de seu transexualismo: seu irmão urina em pé. 
Sentiu desde então que ela era (e devia ser) um menino. Essa ideia 
não a abandonou mais. A volta do pai precipitou, portanto, a for­
mação de uma ideia delirante incidindo sobre o corpo e o sexo. 
Adulta, Ven não apresenta nenhuma perturbação de linguagem. A 
psicose só é localizável mediante um exame muito atento. É perse­
guida pelos olhares femininos que atravessam suas roupas e advi­
nham que ela não tem pênis. Tem, por outro lado, uma ideia deli­
rante discreta sobre a determinação da anatomia pelo desejo pater­
no. Sua concepção do amor por uma mulher é inteiramente deter­
minada pela cena inicial que fez do pênis a insígnia real do amor da 
mãe pelo filho. 
Exemplo 2: Um heroinômano 
Um rapaz de trinta anos, drogado desde a adolescência, 
vem falar de seus problemas de impotência em um Centro para 
toxicômanos. Sua história é escandida por três momentos cruciais. 
Aos quatro anos, a criança viu o pai, que voltava do "futebol", apa­
recer no vão da porta com uma cabeça de lobo. Aos oito anos, ten­
tou fazer amor com uma garotinha e não conseguiu, o que sente 
ainda hoje como um fracasso doloroso. Aos quinze anos, a cena se 
79 
repetiu. Desde então, drogava-se para "ficar de pau duro", e conse­
gue fazer amor sob efeito da heroína. Esse primeiro ato sexual teria 
causado "hemorragias intestinais" e teria sido então operado para 
"retirar pedaços do intestino". Desde então, sofre "dores de barri­
ga" inexplicáveis. Leva uma vida errante e tenta trabalhar no campo 
do esporte (ideal paterno) . De fato, é sustentado por sua família e 
sua companheira. Ela está atualmente grávida e ele, muito angustia­
do. Acabou de perceber, embaixo do pé, uma "bola" de carne que 
aumenta quando faz amor e que viria geneticamente de um avô. 
Constata-se, portanto, nessa psicose que data da infância, a emer­
gência de um delírio, até mesmo alucinações sinestésicas, na aproxi­
mação da paternidade. 
Os pontos comuns a esses dois casos são a ausência de 
perturbação de linguagem e uma priorização do corpo e do sexo. Se 
por um lado o quadro clínico pendeu para a psicose, por outro lado 
esses casos suscitaram hesitações: em relação à histeria, no primei­
ro; em relação à fobia ou à neurose obsessiva, no segundo. Tudo 
começa pelo encontro com Um-pai na infância, ora dedutível do 
relato do sujeito (exemplo 1), ora marcado por uma cena inesquecí­
vel (exemplo 2). Esse encontro precipita uma significação delirante 
"monomaníaca" sexual ("mudar de sexo", "fazer amor") . Nos dois 
casos, não há nenhum deslocamento - signo da ausência do recal­
que - entre a matriz infantil imaginária da ideia delirante e a busca 
ininterrupta desde a infância de sua realização sintomática. 
O mesmo tipo de sequência pode se desenvolver com o 
encontro de Um-pai acontecendo somente na idade adulta. Foi o 
caso de Schreber, quando de sua primeira doença (1 884) , ocasiona­
da por sua candidatura ao Reichstag. Durou um ano "sem que ocor­
resse um único desses episódios que tocam o domínio do sobrena­
tural"9. De acordo com seu testemunho, os primeiros fenômenos 
elementares começaram por um estalo em outubro de 1 893, ou seja, 
apenas nove anos depois. Quando da sua primeira doença, Schreber 
sofreu de ideias hipocondríacas e de uma obsessão de emagreci-
80 
menta. Teria sido curado e levado em seguida uma vida tranquila, 
apesar de sua decepção renovada quanto à paternidade. Esse pri­
meiro episódio pode então ser escrito: "Um-pai" � <l>o, sendo <l>o 
caracterizado, ainda aqui, por ideias delirantes sobre o corpo. 
2. <l>o sem "Um·pai" 
Outras entradas na psicose são análogas às anteriores, sem 
que se encontre aí, entretanto, a condição inicial do "Um-pai". É 
por exemplo o caso de transexualismos ditos "primários" por 
Stoller10• Esses sujeitos, nascidos machos, sempre se sentiram femi­
ninos, às vezes desde a idade de um ano. Tratar-se-ia de uma forma 
"originária" de empuxo-à-mulher, devido à identificação imaginária 
com a mãe1 1 • 
Exemplo 3: A moça "dragão" 
Uma moça vem consultar um analista, pois não consegue 
trabalhar. 'Trabalhar é perder a vida!", diz ela. Essa frase é tomada ao 
pé da letra. É assolada por ideias mortíferas: vai desaparecer sem 
deixar rastros, exceto se ela tiver talento ou filhos. Além disso, pro­
gramou uma operação plástica no maxilar. Ela teria perdido sua 
beleza aos três anos de idade, quando um menino jogou uma bola 
em seu rosto. É sua lembrança mais antiga. Sua mãe, uma bela 
mulher, diz sem parar que sua filha é feia. Ela adere incondicional­
mente a esse discurso: "Sou um dragão", diz ela. Ela "sabe" como 
se tornou feia e como reparar isso por intermédio de uma interven­
ção real no corpo. A operação lhe devolverá sua beleza e lhe trará, 
além disso, o amor dos meninos. De fato, ela transformou, porinversão e permutação, a frase que enuncia o acidente de seus três 
.anos, em uma outra frase que a leva à cirurgia: "menino -golpe no rosto 
-feia" transforma-se em "operação no rosto - bonita - menino". Ela se 
reflete em sua mãe: "Minha mãe não pode me ver'� diz; em seguida, diz: 
81 
"quero mudar de rosto, pois não consigo me olhar no espelho". Uma data é 
destacada: aos seis anos, a mãe que a superprotegia a "abandonou" 
para ir trabalhar. O trabalho, portanto, foi associado a perder, não a 
vida, mas a mãe. Tem-se a impressão de uma evolução progressiva 
para uma cirurgia inelutável, castração no real que lhe aparece como 
uma solução em uma relação amorosa por vir. Essa "solução" evoca 
a eviração schreberiana na via da transformação em mulher; a apro­
ximação da cirurgia é acompanhada do sentimento de "segunda 
morte" que assombra o sujeito: fenômenos imputáveis à <Do. 
Exemplo 4: o alcoólatra incestuoso 
Um rapaz de vinte e sete anos é hospitalizado depois de 
uma errância alcoólica de oito dias, acompanhada por ideias suici­
das após ter sido abandonado por sua companheira. Começou a 
beber no seu aniversário de quatorze anos, com um amigo. No ano 
seguinte, teve relações sexuais com garotas e sofreu uma queda no 
desempenho escolar. Seus pais se separaram quando tinha um ano. 
Foi então deixado por sua mãe com a avó materna, que impediu que 
o pai entrasse em sua casa. Com a idade de dois anos, voltou para a 
casa de sua mãe, que havia se casado novamente. Diz nunca ter con­
seguido reconhecer seu pai, que parece, contudo, ter feito muitos 
esforços em relação a ele. Por outro lado, esteve sempre em asma­
se com sua mãe: descreve relações íntimas que teriam passado "do 
corpo à linguagem". É o único que sabe "levá-la" [ ''la prendre'r2 em 
casa e seu padrasto deve passar por ele para ter acesso a sua mulher. 
Sua mãe o conhece melhor que ele mesmo, e tudo o que ele nos diz 
vem dela. É como se ele falasse no discurso indireto: "Minha mãe diz 
de mim que . . . ", em vez de dizer: "Eu me acho . . . ". Dessa relação de con­
fidência com sua mãe, tira o poder de falar com as mulheres. 
Consequentemente, aparece como o "líder" de uma pequena turma. 
Mas lhe é difícil ficar ao lado de outros homens. Nas reuniões da 
turma, bebe para poder falar com eles. Quando não bebe, fica ini-
82 
bido, sem ideias. Se beber, pode até dizer maldades: sua mãe o 
chama de "o cobra". Pouco antes de ser internado, soube que sua 
mãe se encontrava com seu padrasto antes do divórcio. Ele desmo­
ronou: '3' ou filho de quem?". O diagnóstico não era evidente. 
Inclinamo-nos pela psicose devido à sua relação com o pai. Este é 
rejeitado, não reconhecido, e o sujeito diz nunca ter tido o menor 
conflito com um personagem paterno, nem, aliás, a menor dificul­
dade em sua vida. Por outro lado, tanto a relação com o álcool e a 
inibição para falar com os homens, quanto sua facilidade grande 
demais para conversar com as mulheres, é um pouco o inverso do 
que encontramos habitualmente na neurose. Se o diagnóstico está 
correto, a entrada na psicose se faz pela alcoolização massiva no dia 
de seu aniversário. A partir daí, o álcool ajuda-o a suportar os outros 
rapazes, pois o modelo da relação com a mãe não funciona com 
eles. Não encontramos alteração simbólica manifesta, mas a acen­
tuação, a cada vez que é "largado" (laisser-tomber) por uma mulher, 
de um "se deixar morrer". Não se trataria, sob o pano de fundo da 
ausência do falo como médium entre os sexos e significante-mestre 
da virilidade, de um duplo fracasso? Fracasso de uma tentativa de 
constituir um sintoma (o alcoolismo) que faça laço social com os 
homens e fracasso da relação "incestuosa" que possa lhe garantir 
um laço que se mantenha com uma mulher. 
Os traços comuns desses casos de psicose são a ausência 
de perturbações de linguagem e a inexistência de uma condição ini­
cial do tipo "Um-pai". No primeiro caso, o sujeito é progressiva­
mente obnubilado por uma cirurgia; no segundo, o alcoolismo se 
instala brutalmente na puberdade e toma pouco a pouco um con­
torno suicida. Essas perturbações são a manifestação de uma ausên­
cia da significação fálica, que escava lentamente <l>o. Nada garante, 
contudo, que essas entradas precoces na psicose não serão seguidas 
um dia por um desencadeamento (Po) . A foraclusão do Nome-do­
Pai torna sempre possível uma desestabilização da ordem simbólica 
que formará Po. 
83 
3 . <l>o, e mais tarde Po 
Schreber está neste caso, se considerarmos a sucessão de 
suas duas "doenças", com nove anos de diferença. É somente 
durante a segunda doença que Po se constitui ("estalo" de origem 
divina) . <l>o, já formado quando da primeira doença, aprofunda-se 
ainda mais. Alguns sujeitos testemunham assim o que aconteceu 
antes do desencadeamento, se reservarmos esse termo para a for­
mação de Po. 
Exemplo 5: A moça assediada sexualmente 
Uma moça de 25 anos é hospitalizada repetidas vezes em 
alguns meses. É perseguida por seu marido, a quem ela acusa de 
cometer assédio sexual. Adere, contudo, ao discurso de seu mari­
do, que a chama de "puta". Vozes riem dela e a insultam, repreen­
dendo-a por ter feito mal a seu marido. Sua mãe a teria renegado. 
No trabalho, zombam de seu nome. Sofre de alucinações visuais, 
de suas "presenças": "coisas negras" caem sobre ela. Uma forma 
vaga a fixa e a acompanha: são os mortos da família. Tem certeza 
que vai se suicidar. Faz o relato do processo psicótico desde sua 
tenra infância. 
Aos dois anos e meio, feriu-se caindo, quebrou o braço e 
seu pai ainda lhe bateu. Os primeiros fenômenos psicóticos apare­
ceram por volta dos sete anos. Primos mais velhos lhe fizeram carí­
cias sexuais. Sentiu-se então dividida e anestesiada, como em uma 
nuvem. Rezava para que Deus a fizesse morrer. Desde essa época, 
idealiza a morte. Quando as "presenças" surgiram, pensou que era 
sua avó, recentemente falecida. Uma única vez ouviu uma voz (pro­
vavelmente ligada a seu pai) dizer: "Estou bravo com você". Aos 
onze anos, seu irmão a violentou. Sentiu então uma "quebra". Isso 
ocorreu na puberdade e ela desenvolveu um delírio de filiação. Foi 
verificar sua certidão de nascimento. Acusou seus pais de a terem 
84 
oferecido como isca a seus primos. Aos vinte e um, o noivado e, 
logo em seguida, o casamento fizeram de seu marido o perseguidor. 
O automatismo mental então se desencadeou. 
Trata-se de um sujeito que se situa desde sempre como o 
objeto de gozo de um parceiro masculino (pai, primos, irmão, mari­
do) . Na época de uma tentativa de sedução - ou talvez simplesmen­
te por causa da sexualidade infantil -, <t>o se constitui (gozo morti­
ficante, presença de um duplo) . Desde essa época um fenômeno 
elementar demonstra a falha da ordem simbólica. Aos onze anos, Po 
se aprofunda: um delírio de filiação acompanha a ideia de um estu­
pro pelo irmão - será a ideia do incesto fraterno que a leva a elabo­
rar o seu pertencimento a uma outra família? Depois, o casamento 
faz realmente com que apareça a decomposição avançada da ordem 
simbólica, que acarreta, como em Schreber, remanejamentos imagi­
nários. 
Esses exemplos, como muitos outros, mostram que o tra­
balho delirante é um Work in progress que pode durar toda uma vida. 
Há, contudo, casos ( cf. I .A. l e I.A.2) em que a evolução delirante 
para depois da constituição de <t>o ou se estabiliza durante longos 
períodos, sem decomposição da ordem simbólica. Nesses casos, 
apesar da ausência de perturbações de linguagem, pode-se identifi­
car a foraclusão do Nome-do-Pai por alguns signos, como a ausên­
cia simbólica do pai no exemplo 4. Esse é evidentemente o ponto 
delicado. A entrada na psicose se manifesta minimamente por uma 
ideia delirante sobre o corpo (exemplos 1 , 2, 3), ou mais intensiva­
mente por uma significação mortífera in,vasiva. Esta pode ser asso­
ciada ao trabalho (exemplo 3), aos laços com os outros (exemplo 4) 
ou à sexualidade (exemplo 5) . Aqui se demonstra a dificuldade do 
laço social na psicose. Um "produto"(álcool, droga) pode ajudar a 
estabelecer esse laço, ali onde o falo teria sido necessário (exemplos 
2 e 4), e onde o sujeito não consegue construir um sinthoma (cf. I .B.) . 
O imaginário é acometido no nível da imagem do corpo, ou pela 
alteração do sentimento da vida, e até mesmo pela perda do senti-
85 
do ou do valor atribuído a esta. Os atos se seguem. O início pode 
ser brutal (cf. I.A. 1 e I .A.2 exemplo 4), ou muito progressivo (exem­
plo 3) , com agravações nos momentos do desenvolvimento em que 
a pulsão solicita mais o corpo (primeira infância, puberdade, primei­
ros encontros sexuais). O apelo, por intermédio de Um-pai, ao sig­
nificante foracluído do Nome-do-Pai, não é sempre o que precede 
esse tipo de entrada na psicose (cf. I.A.2) . Contrariamente ao desen­
cadeamento-tipo da segunda doença de Schreber, a descontinuida­
de ou a "quebra" - de acordo com a expressão da paciente do 
exemplo 5 - não é sempre sentida pelo sujeito. Este diz às vezes que 
sempre esteve mal, mas que ninguém nunca percebera . . . 
Essas entradas na psicose (<l>o) , que são muito mais 
"variações"13 da relação do sujeito com o gozo e com o imaginá­
rio do que desencadeamentos (Po) , acentuam a importância da 
função fálica como função de gozo. O desencadeamento (Po) é o 
modo de entrada na psicose que Lacan enfatiza no momento em 
que afirma a primazia do simbólico sobre o imaginário e o real. A 
entrada na psicose (<l>o) se percebe talvez melhor a partir do seu 
ensino nos anos 1 97014• A última parte do ensino de Lacan, que 
incide sobre o sinthoma, oferece ainda novas perspectivas sobre o 
processo psicótico. 
B. A função do sintoma 
O sinthoma é um sintoma que tem como função fazer com 
que as coisas fiquem juntas, enlaçando o real, o simbólico e o ima­
ginário15. Jacques-Alain Miller propôs chamar de "desligamentos" 
as crises suscitadas por certas disfunções do "aparelho do sinto­
ma"16: ora é um desencadeamento (Po) , ou uma entrada na psicose 
(<l>o), ora é um momento de desestabilização17 que anuncia uma res­
tauração ou uma reelaboração do sintoma anterior. 
86 
Exemplo 6: Missão cumprida 
Filho espiritual de sua tia e da Igreja, os quais ele chamava 
de seus verdadeiros pais, este homem de cinquenta anos constituíra 
muito cedo um ideal para si. Queria realizar as "palavras em ade": 
castidade, honestidade, fidelidade. Sua prática de coroinha era o sin­
toma em que o ideal das "palavras em ade" tornava-se missão. Da 
tutela de sua tia, passou diretamente à de sua esposa: a paternidade 
foi acrescentada à lista das "palavras em ade". De sua filha, decidiu 
ser o educador exclusivo. Quando seu filho nasceu, sentiu-se dividi­
do quanto à sua missão: como cuidar exclusiva e totalmente de duas 
crianças ao mesmo tempo? Dores apareceram pelo corpo e, duran­
te quinze anos, procurou conhecer a doença mortal que o minava 
(<Do) . Sua nomeação para um cargo importante, que confirmava a 
envergadura universal de sua missão educativa, fez desaparecer 
todos esses males. Mas, um ano depois, sua filha passou brilhante­
mente em um concurso, colocando fim a uma parte essencial de sua 
missão de pai. Um sentimento de indignidade acompanhou então a 
sensação brutal de ter o sexo cortado. Estava se restabelecendo 
quando seu fllho, por seu próprio sucesso, lhe causou uma recaída. 
Desmoronou em um estado melancoliforme antes de encontrar sua 
posição paranoica apoiada em sua missão educativa social. As peri­
pécias de sua vida fazem com que a missão de educador da qual ele 
se sentiu investido, e que constitui seu sinthoma, oscile. No caso dela 
o abandonar, o sujeito torna-se vítima de fenômenos hipocondría­
cos e de distúrbios de humor, sem que se tenha, por enquanto, 
detectado perturbações da linguagem. 
Exemplo 7: O caça-níquel 
Um rapaz de vinte e dois anos de idade vem consultar um 
analista há nove anos para se livrar de uma obsessão de jogo que o 
arruinava. Fora iniciado no caça-níqueis por um irmão mais velho 
87 
após um episódio doloroso de sua adolescência. Agredido por um 
colega do colégio em presença de um disciplinário, lera no olhar 
deste que era um "maricas". Aos vinte e dois anos, a pedido de seu 
pai, falecido pouco depois por conta de um alcoolismo patológico, 
substituiu seu irmão à frente da loja paterna. Sua mãe era de uma 
família rica e seu pai, de origem modesta, dedicara-se a fazer fruti­
ficar o dinheiro de sua esposa, trabalhando como um escravo. O 
paciente jogava e perdia dinheiro líquido de origem duvidosa que 
sua mãe lhe dava. Devolvia à sua mãe uma parte do que ganhava na 
loja, a fim de cobrir déficits obscuros. "Ser o caça-níqueis de sua mãe" 
poderia ser a escrita de um sinthoma que constitui sua mãe como sua 
parceira, permitindo-lhe suceder a seu pai. De fato, o caça-níqueis é 
um aparelho que pega seu dinheiro e que, nos raros casos em que 
você ganha, lhe devolve um pouco. Da mesma forma, o sujeito fazia 
desaparecer nele o dinheiro "sujo" de sua mãe; depois, transforma­
do ele mesmo em caça-níqueis vivo, produzia dinheiro "limpo" que 
voltava a ser "sujo" e materno. Assim, estabelecia-se uma circulação 
entre o dinheiro "limpo" do sujeito e o dinheiro "sujo" da mãe que 
continuou funcionando depois que interrompeu o jogo. Um conta­
dor sugeriu-lhe separar as contas e os circuitos em jogo, uma vez 
que essas trocas beiravam à ilegalidade. Era necessário que ele reto­
masse a loja em seu nome, já que até então era chamado de "o filho 
de Nicole" (sua mãe) . Uma série de distúrbios corporais imputáveis 
à <!>o apareceram então: placas de calor se deslocavam dentro de seu 
corpo, suas veias se comprimiam. Convencido de estar acometido 
por doença incurável e abatido por uma fraqueza sexual que via 
refletir-se nos olhos de sua mulher, começou a tratar seu mal-estar 
com máquinas de botjy building e um treinamento intensivo de power­
training. Ideias insistentes de ciúmes começaram a persegui-lo. Por 
enquanto, o analista não identificou perturbação de linguagem. 
Outros casos evidenciaram momentos de decomposição 
simbólica ou imaginária, quando o sinthoma, previamente construí­
do pelo sujeito, ameaçava não mais poder se escrever. Esse sinthoma 
88 
pode, muitas vezes, ser apreendido por um conjunto de relações 
constantes na vida do sujeito, como uma missão (exemplo 6), uma 
relação dual (exemplo 7), ou uma relação implicando três termos ou 
maiS. 
11. INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CONCEIT018 
O que é um desencadeamento para a psiquiatria clássica? 
Haveria para ela outros desencadeamentos, além da paranoia? 
A. Uma invenção de lacan 
Na "Questão preliminar", o desencadeamento parece cor­
responder a "esse mecanismo coerente das eclosões delirantes" que 
Lacan almejava desde 1 931 19• Ele acrescentava a isso: uma causa aci­
dental (o encontro de Um-pai) ; a dissolução de um elemento esta­
bilizador (uma identificação); e a operatividade de uma causa espe­
cífica (a foraclusão do significante paterno) . Algumas citações da 
tese de Lacan fazem pensar que ele tomou emprestado o termo de 
Kraepelin. De fato, seu equivalente germânico, Ausliisung, raro em 
Kraepelin, mais frequente em Bleuler, designa em ambos o efeito de 
uma causa acidental. Aliás, é nesse sentido que Lacan o usava em 
sua tese para observar, por exemplo, a ação dos tóxicos, ou da emo­
ção, ou da menopausa, na emergência de uma psicose. 
Descobrimos que o desencadeamento, como conceito da 
teoria analítica da psicose, é um termo lacaniano. Hoje, ele designa 
correntemente o início clinico de uma psicose. Entretanto, está 
ausente do glossário tradicional da psiquiatria francesa convidada, 
desde Philippe Pinel, a aplicar à alienação mental o esquema médi­
co e seu vocabulário. ''A marcha da loucura é ( . . . ) a mesma que a de 
todas as outras doenças do corpo humano", escreve Georget, um 
89 
aluno de Pinel. E reconhecia nela pródromos, um tempo de incu­
bação, um período de invasão, um estado de excitação - em que a 
loucura está no summum de sua intensidade - e modos deresolução. 
Nada de traços de desencadeamento, portanto, no corpus psiquiátri­
co antes de Lacan. 
B. Nos clássicos 
Os psiquiatras se interessaram evidentemente pelo início 
da doença mental. O início se inscreve na evolução, mas é em parte 
ligado à causa. Isso permanece verdadeiro para o desencadeamen­
to, em que se unem início clínico e foraclusão estrutural. 
Dois modelos, que permitem estudar os diferentes inícios, 
organizam, desde Pinel, o campo das doenças mentais: o dos con­
juntos sintomáticos, constituído pela coleta dos signos manifestos, 
e o das entidades clínicas, que procedem de causas subjacentes e 
dependem das teorias causais elaboradas a seu propósitd0• 
No cerne dessas classificações opera o binário das causas 
predisponentes (ou endógenas, próprias do indivíduo) e das causas 
determinantes (ou exógenas, acidentais), das quais se avalia a impor­
tância respectiva. O esforço da psiquiatria para circunscrever cada 
vez melhor as causas predisponentes, conduziu ao abandono das 
classificações sintomáticas em proveito das classificações etiológi­
cas, modificando ao mesmo tempo a questão do início da psicose. 
1 . Para a psiquiatria dos conjuntos sintomáticos (Pinel e 
seus alunos), a causa tem uma incidência sobre o inicio da doença. 
O início está próximo da causa: um abalo moral poderoso determi­
na uma explosão imediata do delírio. O início leva à causa: quando 
a causa age mais lentamente, a eclosão do delírio é precedida por 
um período de incubação insidioso que aproxima o clínico adverti­
do da "fonte" da doença. 
90 
A facticidade dos agrupamentos de sintomas conduzirá 
alguns praticantes a "deixar os doentes se mostrarem livremente", a 
fim de melhor discernir os "tipos patológicos". Pouco a pouco, 
impôs-se a eles regularidades evolutivas, tais como "o delírio de per­
seguição" em três tempos (Lasegue), "o delírio de perseguição de 
evolução sistemática" em quatro períodos O· Falret) , "a loucura de 
dupla forma" e "a loucura circular" O· Baillarger e J.-P. Falret), que 
pleiteavam um princípio organizador. Passava-se das classificações 
sintomáticas aos "estados psíquicos tais como existem na nature­
za". Mas, ao passo que Falret recusava-se a insistir sobre esse "grave 
acidente" que é "a explosão do delírio" e desviava sua atenção para 
o discreto período de incubação, Lasegue, ao contrário, privilegiava 
a "floração" do período de estado, porque a considerava como o 
melhor período de observação de um delírio de perseguição. Um 
pensava que os pródromos da alienação mental eram muito próxi­
mos dos signos da predisposição; o outro, que o delírio de persegui­
ção não era "a exacerbação de uma forma natural". 
2. Na psiquiatria das entidades, é a causa, hipotética, que 
determina a �ncepção que se faz do início da psicose. 
Degenerescência, constituição, processo mórbido, são causas que se 
mostram de forma diferente no início das formas mórbidas que 
foram construídas a partir delas. 
a) A degenerescência (uma transformação patológica her­
dada que atinge o tecido nervoso) imprime cedo sua marca na evo­
lução da psicose: mais no corpo, para alguns; mais no intelecto, para 
outros. Bénédict-Augustin Morei, o inventor dessa degenerescência 
(1 857) , observa que os fenômenos hipocondríacos do período de 
incubação, que vão das sensações indefiníveis e das cefalalgias ao 
sofrimento geral, são apenas a acentuação dos "fenômenos neuro­
páticos bizarros" precoces nos quais já se mostrava a predisposição. 
Para Magnan, a degenerescência é responsável pela desordem súbi­
ta de uma irrupção delirante, de um "delírio escancarado". O "delí-
91 
rio dos degenerados" carrega a marca do desequihbrio psíquico 
constitucional. O menor pretexto o faz eclodir, e ele pode desapa­
recer como aparecera. O "delírio crônico", ao contrário, desenvol­
ve-se em uma ordem determinada, de quatro períodos: o doente, 
entregue as suas interpretações delirantes, fica inquieto no primeiro, 
alucinado e perseguido no segundo, ambicioso no terceiro, demen­
te no quarto. 
O modo de entrada na psicose adquire um valor preditivo. 
A acuidade do início faz esperar a curabilidade, uma instalação deli­
rante lenta e progressiva anuncia a cronicidade. Para Kraepelin, que 
havia isolado algumas entidades psiquiátricas ao final de uma longa 
evolução, quando as mesmas doenças têm o mesmo estado termi­
nal, o diagnóstico dos sintomas iniciais adquirem um valor prognós­
tico considerável. 
b) O lugar dado à constituição tem abordagens diversas. Se 
a singularidade pessoal (persiinliche Eigenarf), isolada por Kraepelin 
como o signo de uma predisposição, aparece aumentada na para­
noia, a demência precoce só é raramente a amplificação de um traço 
de singularidade observado na infância. 
As psicoses constitucionais - que se opõem às psicoses aci­
dentais - desenvolvem-se em um terreno preparado pela hereditarie­
dade, mas também pela degenerescência, pelos acidentes da gravidez 
e pelas doenças infantis (o indivíduo herda dele mesmo, dizia 
Lasegue), e até mesmo pela educação. O peso da predisposição 
reduz, às vezes, a nada, a parte das causas coadjuvantes na eclosão 
psicótica. Um doente que, por uma constituição "paranoiana" 
(Régis), recebeu no nascimento o germe da "loucura verdadeira", 
pode desenvolver em um determinado momento, e à menor ocasião, 
uma psicose sistematizada progressiva. E lembrar-nos-emos do 
lugar concedido pelo mesmo Régis aos fenômenos hipocondríacos 
no momento inaugural dessa psicose sistematizada (e alucinatória) . 
Para Genil-Perrin, seria vão querer delimitar o período de 
incubação de um delírio de interpretação, pois o doente, que "car-
92 
rega seu delírio latente desde a mais tenra idade", não faz senão exa­
gerar as suas tendências paranoicas constitucionais. 
Nessas concepções organicistas, há uma continuidade 
entre a causa e os efeitos, muitas vezes precoces, da doença mental: 
a "propensão congênita da constituição" (Séglas) se prolonga na 
doença e nela se lê precocemente, ora na desordem intelectual, ora 
nos fenômenos corporais. 
c) O processo mórbido na esquizofrenia designa, para 
Bleuler, a afecção cerebral da qual depende a perda das associações. 
Esse processo cria uma predisposição para reagir a causas ocasio­
nais, que estão na origem de uma sintomatologia contingente. Esses 
fatores ocasionais desencadeiam sintomas, mas não a doença, cuja 
evolução, habitualmente insidiosa, pode permanecer muito tempo 
assintomática. A anamnese dificilmente identifica se modificações 
do caráter ou de outros fenômenos indicam o verdadeiro início ou 
se elas pertencem à predisposição. Um episódio psicótico agudo se 
confunde facilmente com a exacerbação de uma sintomatologia 
antiga que passou despercebida. Ele indica, em todo caso, a esqui­
zofrenia, e não a paranoia, que é um sistema de ideias delirantes 
logicamente ligadas e que toma seu ponto de partida de falsas pre­
missas. 
C. Rupturas epistemológicas 
O processo mórbido, como as outras causalidades orgâni­
cas, concebe a entrada na doença como o efeito direto da causa pre­
disponente. 
O processo psíquico Qaspers) é, por outro lado, disrupti­
vo; ele introduz na personalidade um elemento estrangeiro que a 
modifica em definitivo. É um "enxerto parasitáriom\ um elemento 
novo, heterogêneo, cuja expressão clínica é a experiência de signifi­
cação pessoal (Neisser) . Parece, de fato, que é a distinção de Jaspers 
93 
entre os fenômenos ligados às relações de compreensão - em que 
a causa e o efeito são contíguos -, e os fenômenos devidos ao hiato 
da intrusão parasitária - em que a causa desenvolve efeitos irredu­
tíveis à compreensão -, que conduziu Lacan a privilegiar, em 1 958, 
um modo de entrada na psicose por um fenômeno agudo em que 
se atesta a irrupção de uma causa. 
Em sua tese de 1 932, centrada na entidade "paranoia", a 
partir do caso Aimée, Lacan isola uma causa específica: a fixação 
libidinal, que dá a chave do processo. Inclui essa psicose, por deten­
ção (arrêl) dapersonalidade (fixação libidinal), nas psicoses paranoi­
cas, contentando-se com uma enumeração das outras formas de 
ps1cose. 
Sua escolha pela paranoia testemunhava, no mínimo, seu 
apego ao texto de Freud. Sabemos que Freud era pouco entusiasta 
da esquizofrenia, ao passo que a paranoia respondia a sua teoria da 
libido. Mas foram necessários Clérambault e seu "anideísmo", assim 
como a teoria do significante, para que a ruptura inaugurada a par­
tir de Jaspers fosse fundada teoricamente. Foi o triunfo do paradig­
ma schreberiano. 
D. O que há de novo? 
Do lado da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), 
um sobrevoo incipiente na literatura mostra que a psicose não é 
mais assunto de psicanalistas. Do lado dos psiquiatras, um novo 
impulso, do qual a psicanálise está decididamente excluída, motiva 
os defensores de uma corrente que se apoia em Kraepelin para uma 
vasta pesquisa sobre as fases mais precoces da esquizofrenia22• Do 
lado dos que seguem Lacan, desde o momento em que o conceito 
de foraclusão rompeu definitivamente com a psiquiatria, a psicaná­
lise das psicoses não cessa de suscitar novas elaborações. 
94 
Notas 
* 
Relatores: Genevieve Morel e Herbert Wachsberger 
1 Parte I: redigida por Genevieve Morel. 
2 LACAN, ]. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.581 . 
3 Ibid., p.577. 
4 LACAN, J. (1955-1956) "As imediações do buraco". In: O Seminário, livro 3: as 
psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p.284, 349. 
5 LACAN, ]. (19 58) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.577. No caso de 
Schreber, em que "a elisão do falo" é trazida "para resolvê-la na hiância mortífe­
ra do estágio do espelho". O laço entre <l>o e a imagem do corpo é frequente na 
psicose. 
6 LACAN, ]. (1 958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.564. "No 
ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o Nome-do-Pai, pode pois 
responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito 
metafórico, provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica". 
Ver também p.577, a discussão sobre a anterioridade de Po em relação a <l>o; 
p.578 e 583, a relação dialética entre Po e <l>o; p.583-584, as conjunturas de 
desencadeamento. 
7 SCHREBER, D. P. (1905) Memórias de um doente dos nervos. Rio de Janeiro: 
Edições Graal, 1984, capítulos 2 e 3: 1" Junho de 1 893, nomeação de Presidente 
da Câmara do Tribunal de Apelação do Land de Dresden; zo) outubro 1 893, 
"estalos" sobrenaturais; 3°) março 1 894, elaboração do "assassinato de almas". 
8 Os exemplos são publicados in extenso no Hors-série n.3 dos Cahiers de Lille: ex. 
2 de Vincent Calais, ex. 4 de Brigitte Duquesne e Emmanuel Fleury, ex. 5 de 
Carine Decool, ex. 6 de Brigitte Lemonnier, ex. 7 de Philippe Bouillot. 
9 SCHREBER, D. P., Op. cit., p.44. 
1 0 STOLLER, R. ]. Masculin ouféminin? Paris: PUF, Le ftl rouge, 1989, p.44-45. 
1 1 MOREL, G. "Identifications et sexuation", La Cause freudienne, n.37, outubro 
de 1 997, p.72 para o caso de Ives; "Un cas de transvestisme féminin", La Cause 
freudienne, n.30, maio 1 995, p.20 para o caso de Ven. 
1 2 N.R.: o verbo "prendre" em francês tem, igualmente, o sentido de "tomar ou 
pegar sexualmente" quando referido a uma mulher. 
95 
1 3 Inspiramo-nos em F. Jullien para opor a "variação" (evolução contínua) e a 
diferença ligada à descontinuidade significante. Un sage est sans idée. Paris: Seuil, 
1998, p. 1 82 e 212. 
14 LACAN,J. (1973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.466. Assim, uma frase coloca em série "a irrupção de Um-pai" e 
"o efeito de empuxo-à-mulher". Mas, em "Questão preliminar", a frase "esse 
outro abismo foi formado pelo simples efeito no imaginário pelo apelo vão feito 
no simbólico à metáfora paterna?", mostra que, desde 1 958, Lacan considerava 
entradas na psicose do tipo "Um-pai ---+ <1>0" (cf. A). 
1 5 LACAN, J. (1 975-1976) "Do uso lógico do sinthoma ou Freud com Joyce" e 
"Joyce e as falas impostas". In: O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 2007, p.21 e 91 . 
1 6 HENY, H., JO�IBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 997) Os Casos Raros, 
Inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: 
Biblioteca Freudiana Brasileira, 1 998, p.1 09, 1 1 7 e 1 06. 
17 LACAN, J. (1946) "Formulações sobre a causalidade psíquica". In: Escritos. Rio 
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p. 18 1 e 1 85. Em certos casos, poder-se-ia 
talvez reintroduzir o termo "momento fecundo". 
1 8 Parte 11: redigida por Hcrbert Wachsberger. 
1 9 LACAN,J. "Structure des psychoses paranoi'aques", LA Semaine des Hópitaux de 
Paris, n. 1 4, 1931 . Retomado em Ornicar? n.44, 1988, p.5- 18. 
20 HACKING, I. L'âme réécrite. Étude sur la personnalité multiple et les 
sciences de la mémoire (1995), traduzido do inglês por Julie Brumberg­
Chaumont e Bertrand Revol, com a colaboração de André Leblanc e de 
Christophe Dabitch, Institut Synthélabo para o progresso do conhecimento, Le 
Plessis-Robinson, 1998. 
2 1 JASPERS, K. "Eifersuchtswahn", Zeitschrift der gesamten Neurologie und 
P.rychiatrie, 1910, 1 : 567-637. Citado por Lacan em sua tese, p.1 44. 
22 Ver a Schizophrenia Bulletin, 1996, volume 22, n.2: Ear!J Detection and Intervention 
in S chizophrenia. 
96 
A NEO C ONVERSÃO 
Seção Clínica de Bordeaux* 
USOS DO CORPO E SINTOMAS 
Foi no curso de Jacques-Alain Miller de 1 987-1 988, Ce qui 
fait insigne1 , que a Seção Clínica de Bordeaux, criada dois anos 
depois, se inspirou para considerar em seus ensinamentos e em seus 
trabalhos a dimensão fora do discurso do sintoma. Interessou-nos 
"a referência à insígnia Joyce, manejando a letra fora dos efeitos de 
significado, com fins de gozo purom. A partir daí, há um interesse 
sempre renovado tanto pelas psicoses clássicas quanto pelas psico­
ses não desencadeadas: era preciso atualizar a estrutura, extrair dela 
a sua lógica. O resultado foi que essa parte do ensinamento de 
Lacan, por mais teórica e até mesmo literária que pareça, não se 
mostra menos clínica. 
O diagnóstico de histeria, no discurso corrente, repousa 
frequentemente em alguns sintomas típicos: acometimento de uma 
função, teatralismo, aversão na relação com o objeto, prevalência 
dos atos sobre o discurso. 
Freud opõe em seu artigo princeps sobre "O sentido dos 
sintomas"3, sintomas típicos e sintomas individuais: "Se for possível 
obter uma explicação satisfatória do sentido dos sintomas neuróti­
cos individuais à luz dos fatos e acontecimentos vividos pelo doen­
te, nossa arte não é suficiente para encontrar o sentido dos sinto­
mas típicos, muito mais frequentes". 
Se os sintomas individuais têm uma relação com a história 
do paciente e os acontecimentos vividos, "os sintomas típicos 
podem ser remetidos a acontecimentos igualmente típicos, isto é, 
99 
comuns a todos os homens". Mas o questionamento radical de 
Lacan, a partir dos anos 1 970, vai acentuar mais o real incluído no 
sintoma do que seu sentido. Essa "reviravolta", assim produzida, 
abala a concepção de "sintomas típicos". 
A conversão é um sintoma que se inscreve no rúvel do 
corpo, como decifrável pelo saber inconsciente. É conhecida por 
tornar-se cada vez mais rara na clínica das neuroses. Por outro lado, 
os fenômenos de corpo que são susceptíveis de ressoar com a lin­
guagem e de modificação pela palavra, se multiplicam. 
Apresentamos aqui alguns casos com sintomas típicos, em 
que o corpo é concernido de maneira diferente e original. 
No caso n. 1 , Sylvie, trata-se de um uso do corpo que visa 
inscrever um gozo que não pode ser decifrado. Os laços desse uso 
do corpo com o sintoma, a função da letra e da escrita, são aí estu­
dados. 
No caso n. 2, da senhorita Anna, evidencia-seum uso dife­
rente do corpo que coloca em jogo um manejo da imagem, que não 
é sem relação com a conversão, mas que dela se difere fundamen­
talmente. O sintoma de corpo é aqui um ciframento que não pode 
se situar em relação ao deciframento inconsciente, mas apoia-se na 
1magem. 
No caso n. 3, Murielle, a dor é, de alguma forma, o ponto 
de origem de uma prótese corporal real que faz suplência à psicose. 
A dor real é a premissa desse aparelhamento do gozo. 
Enfim, a pequena nota sobre a oposição Fenômeno 
Psicossomático (FPS)/Conversão, mostra o papel prevalente da sig­
nificação fálica, ausente aqui e presente ali, para "fixar" o modo e a 
própria possibilidade de "leitura" do sintoma. 
Se é necessário um corpo para apresentar um sintoma de 
conversão, vê-se aqui que uma neoconversão pode permitir a um 
sujeito se fazer um corpo a partir de seu sintoma. A questão será, 
então, a que tipo de tratamento pela palavra essas neoconversões se 
articulam. 
100 
I . FAZER-SE UM NOME - FAZER-SE UM CORPO 
Quando é internada pela primeira vez aos vinte e oito 
anos, Sylvie já tem um longo passado de tentativas de suicídio e de 
marcas feitas em seu corpo. 
Fazer-se um corpo 
Esses distúrbios apareceram quando tinha quinze anos e 
persistem por períodos aproximados: Sylvie escarifica o rosto e os 
antebraços com lâminas de barbear. Às vezes também engole doses 
maciças de comprimidos. Não tem nada a dizer a respeito disso e 
não sabe por que o faz. Sylvie não consegue pensar nada sobre esse 
assunto. Pode apenas trazer alguns detalhes sobre as circunstâncias 
de desencadeamento das primeiras passagens ao ato: acabara de ser 
reprovada em um exame de admissão e um garoto de sua classe 
zombava dela e repetia que ela era um zero a esquerda (nulleJ. "Isso 
se tornara insuportável". 
Sylvie continuou, contudo, seus estudos e conseguiu um 
diploma universitário. Foi esse o momento da primeira internação, 
em razão da violência da passagem ao ato e dos riscos que ela corria. 
Durante o período de internação, no final de alguns meses, 
as mesmas sequências se reproduzem. Quando passa ao lado de um 
grupo, se as pessoas riem, sente que zombam dela e essa certeza 
desencadeia a mesma resposta: marcas feitas com lâmina de barbear 
nas faces, diante de um espelho, desenhando uma espécie de máscara, 
com traços oblíquos, sempre a mesma. Faz isso "para ver o sangue 
escorrer, para que o mal saia". Experimenta então um alívio muito 
nítido de uma angústia que descreve como intolerável. Pode então se 
olhar e suportar o olhar dos outros: ela tem um corpo, é o seu corpo. 
As outras conjunturas do desencadeamento são essencialmente liga­
das a sua confrontação com o "trabalho", que ela busca e teme. 
101 
Depois de circunstâncias particulares, Sylvie coloca um 
termo às internações e pede um analista. O tratamento medicamen­
toso continua. 
A transferência e as cartas 
O movimento que então se operou sob transferência é 
muito interessante. Ele pode ser esclarecido pela última parte do 
ensinamento de Lacan sobre o sintoma e a questão do sinthomd'. 
Desde os primeiros encontros, Sylvie traz cadernos, alguns 
datando de mais de dez anos, outros recentes, escritos durante sua 
internação. Adquirira o hábito de anotar seus pensamentos e tam­
bém o que fazia, os livros que lia. Era uma espécie de diário. 
Logo depois, Sylvie passa a enviar cartas a seu analista, 
demonstrando uma conotação erotomaníaca da transferência: '54mo 
você" se alterna com "Odeio você porque você me despreza) vou me suicidafj 
não virei maisn. Sylvie vem sempre a suas sessões - não faltou a 
nenhuma em dez anos. Certifica-se simplesmente de que suas car­
tas sejam efetivamente recebidas. 
Um verdadeiro roteiro preside a escrita dessas cartas. 
Todos os dias, Sylvie se levanta às sete horas e vai tomar seu café da 
manhã em uma cafeteria da cidade. Instala-se lá, sempre na mesma 
mesa, diante de um espelho, olha-se, acende um cigarro e escreve. 
Há um detalhe complementar: ela mesma coloca suas cartas no cor­
reio; sente uma grande angústia antes de largar a carta na fenda da 
caixa e, quando consegue se decidir, obtém um alívio de sua angús­
tia. Esse alívio obtido é idêntico ao que, anteriormente, seguia o 
corte na pele. É o ponto crucial: o efeito de cessão da carta pode 
ser assimilado a uma cessão de gozo e tem como correlato a seda­
ção da angústia. 
As escarificações do rosto, desde esse episódio agora anti­
go, nunca mais se reproduzem. Ali onde havia um corte marcando 
diretamente a pele e o próprio corpo do sujeito, apresenta-se um 
102 
fenômeno de duas vertentes: por um lado, imaginária, sob a forma 
da imagem no espelho, que deve estar presente; por outro lado, sim­
bólica, pela escrita da carta. 
O que permitiu esse movimento? É a própria transferên­
cia delirante que autoriza outra entrada em jogo do real nesse caso 
particular. O analista ocupa aqui o lugar do Outro real, real no sen­
tido do que volta sempre ao mesmo lugar, lugar em torno do qual 
ela faz girar seu uso do tempo, seus deslocamentos, até mesmo suas 
viagens e a rede de amigos. 
Nos últimos anos de seu ensino, Lacan isola o real como 
o que permite enodar simbólico e imaginário. A transferência per­
mite esse enodamento tornando caduca a necessidade das passa­
gens ao ato. 
Com a entrada na transferência, assistimos a uma substi­
tuição: a transferência permite que não seja mais o masoquismo 
como tal o que opera esse nó, mas é a transferência como real que 
vem efetuar essa operação. A introdução do Outro real da transfe­
rência abre uma outra possibilidade diferente da repetição da passa­
gem ao ato. 
É preciso retomar aqui um ponto, desenvolvido por 
Jacques-Alain Miller em seu curso de 1 987-88, C e qui fait insigne. 
Existem, a partir do significante S1, duas vias. Uma é a via simbóli­
ca propriamente dita, com a série: palavra, discurso, saber, incons­
ciente. A outra é a via do real, que é também a da letra, fundamen­
talmente não interpretável. É nessa segunda vertente, fora do efei­
to de significação, fora da elaboração de saber, fora do discurso, que 
se situa o tratamento de Sylvie. Ela não suporta tomar minimamen­
te a palavra, nem a menor significação. 
Ela se diz incapaz de falar, de pensar, de refletir, e se sente 
perseguida pelo menor comentário. Progressivamente, o envio de 
cartas para. Inaugura-se então o segundo momento do tratamento. 
103 
Fazer-se um nome 
Ela vai, então, encontrar outra solução para "apoiar seu 
pensamento": retoma a redação de seu diário. Esse diário - um 
caderno de notas - é trazido por ela a cada sessão. A sessão propria­
mente dita consiste na leitura declamatória do que escreveu. 
Contudo, esse diário é profundamente diferente do que era antes do 
tratamento: é preciso distinguir um diário n. 1 , escrito antes do tra­
tamento, e um diário n. 2, escrito após o início do tratamento. No 
diário n. 2, cada texto, redigido em forma de cartas, é emoldurado 
por dois nomes próprios: o do destinatário das cartas e o seu. 
Isso quer dizer que o diário inclui o endereçamento ao 
Outro e a função do nome próprio. ''A característica do nome pró­
prio está sempre associada à sua ligação com uma escrita". A escri­
ta hieroglífica emoldurava os nomes próprios com um cartucho. No 
caso de Sylvie, o nome próprio é o próprio cartucho. Pode-se esta­
belecer uma relação com a prática da escrita de Joyce, ressaltada por 
Lacan6: cada capítulo de Ulisses é apoiado por um certo tipo de mol­
dura, ligado ao próprio estofo do conteúdo. 
Eis seu sintoma atual: a escrita lhe permite religar uma 
letra a um nome próprio. Aí está sua pequena invenção: uma escri­
ta como "fazer que dá apoio ao seu pensamento". 
Sylvie passou a uma escrita outra (autre) - com um peque­
no a - , que inclui, circunscreve um gozo, um sinthoma que reúne 
sintoma e fantasia. Além disso, assim bordejada pela escrita, a ses­
são recitativa é possível, suportável, sem que o ato de tomar a pala­
vra remeta o sujeito a um puro risco, semlimite. 
Algumas observações da relação de Joyce com seu corpo 
ressoam com as passagens ao ato de Sylvie em seu rosto. A ausên­
cia de afeto com relação à dor e à violência, uma certa aversão pelo 
saco de pele. Mas, para o ego de Sylvie, os espelhos são sempre neces­
sários: olha-se neles com frequência. (j'e os tirassem de mim, eu teria 
uma crise do espelho'� diz ironicamente. Sylvie se separa de um gozo 
1 04 
incluso no corpo, pela criação de seus cadernos de notas, verdadei­
ro fora-do-corpo que concentra e circunscreve o gozo a mais. Mas, 
se esses escritos se enodam à imagem especular, é preciso, contudo, 
que Sylvie dê voz na sessão, para que a cessão dessa carta, o seu 
depósito, se opere e se constitua também um laço com o Outro, 
diferente do seu corpo. Uma nota biográfica toma aqui seu valor: o 
grande homem da família de Sylvie é o avô materno, herói nacional, 
que ela não conheceu. Contudo, sempre ouviu contar que, no 
momento de seu enterro, as maiores personagens do Estado deslo­
caram-se para ler, no cemitério, seu panegírico. 
1 1 . SENHORITA ANNA E O DISCURSO IMITATIVO 
A senhorita Anna procura uma consulta devido a crises de 
angústia aguda com choros, acompanhadas, às vezes, de desmaios. 
A. Uma moça bem comportada 
Ela se apresenta com um ar de eterna mocinha recatada e 
ligeiramente antiquada. Na verdade, a senhorita Anna fez estudos 
superiores com sucesso, fala várias línguas, o que torna muito estra­
nha a sua apresentação. Nunca exerceu atividade profissional nor­
mal, apesar de numerosas tentativas de inserção social. 
Fala com afetação, como uma garotinha, e evoca seus con­
flitos de infância com seus irmãos, pelos quais experimenta uma 
profunda afeição. Preocupava-se, em particular, com que eles não 
apanhassem do pai severo e fazia tudo para defendê-los. 
O avô paterno, oriundo de uma excelente família, fizera 
maus negócios e a avó paterna, tendo perdido a visão, não podia 
sustentar seu filho. Assim, o pai de Anna foi confiado, ainda crian­
ça, à assistência pública, e as relações familiares foram totalmente 
interrompidas. 
105 
A senhorita Anna é muito apegada ao passado glorioso de 
sua família, sobre a qual fez numerosas pesquisas históricas e genea­
lógicas. Interessa-se pelas grandes famílias e pelo papel destas na 
história. Interessa-se também pelo aspecto misterioso do abandono 
do qual seu pai foi objeto. 
B. Crises passionais 
Rapidamente, a paciente evoca a severidade desse pai e 
chega à ideia de que ele teria exercido uma sedução violenta sobre 
ela, o que parece ser, ao que tudo indica, uma versão delirante do 
Édipo. É nesse momento que começa a acompanhar seu discurso 
com gestos, evocando as atitudes teatrais e passionais descritas por 
Charcot na histeria. 
Esconde o rosto, torce as mãos, imitando as brigas com 
seus irmãos menores que lhe torciam os dedos, empurra um agres­
sor fictício. Rapidamente, seus gestos vão se separar de seu discur­
so. Embora ela possa muito bem traduzi-los nos significantes de 
sua história, não se pode dizer que os decifre. Muito ao contrário, 
essas estereotipias gestuais resumem a "gesta" de uma história 
petrificada em sua encenação. Simula um discurso sem palavras, 
que não é mais a ilustração do que ela pode dizer. Esses gestos tra­
duzem uma violência punitiva centrada nela mesma (ao se estapear, 
por exemplo) . 
C. O olhar da ancestral 
Ela evoca, então, a figura misteriosa de sua avó paterna 
cega e, imediatamente, as cenas imitadas vão figurar o fato de que 
ela fura os próprios olhos. Isso vai constituir uma virada no trata­
mento. Desenvolve, então, uma transferência erotomaníaca típica 
que confirma sua psicose e passa por um período depressivo evo­
cando ideias de suicídio e de danações delirantes. 
106 
Uma lembrança de infância lhe retoma: um ftlme que a 
apavorava terrivelmente. Nele, uma moça tem seu rosto destruído 
pelo fogo em um acidente, restando-lhe somente os olhos. Seu pai, 
um cirurgião, assassinava moças para retirar seus rostos e enxertá­
los no de sua filha. Assim se opõe o olhar morto da avó e o rosto 
providenciado pelo pai que vem emoldurá-lo. 
A senhorita Anna vai, então, durante o tempo das sessões, 
imitar os gestos de um cirurgião praticando essa operação, dese­
nhando um rosto sobre seu rosto. E isso, qualquer que seja o dis­
curso que mantenha. A linguagem sem fala vem de alguma forma 
encarnar um complexo, separado do discurso articulado nas falas. 
Esses gestos só aparecem nas sessões; em sua vida cotidiana, são 
apenas esboçados de forma imperceptível. 
Sua construção imitativa e silenciosa é, ela mesma, uma 
espécie de véu enxertado que faz existir, para além do que ela dá a 
ver, o objeto olhar como ausente. A cena faz dela um quadro vivo 
que doma o olhar do Outro. 
Esse nó sintomático na esfera gestual vai pacificar o 
humor e o delírio. O estado da senhorita Anna melhora. As tempes­
tades transferenciais ligadas à erotomania atenuam-se. 
A senhorita Anna pode, a partir daí, exercer uma atividade 
profissional que consiste em mostrar quadros (pinturas) às pessoas. 
D. Conversão e usos do corpo 
Bleuler observara, em 19 1 1 7, que os complexos sintomáti­
cos catatônicos eram particularmente clivados na esquizofrenia. O 
paciente funciona como um terceiro em relação a gestos automáti­
cos que lhe parecem estranhos. Nas estereotipias, os complexos não 
são clivados, mas permanentemente presentes: ''A solteirona que 
imita o movimento de um sapateiro amou um deles por mais de 
trinta anos. Aquela que está se balançando conheceu seu amado 
durante uma quadrilha". 
107 
Esse caso da senhorita Anna difere do que traz Freud no 
fim de seu artigo sobre "O inconsciente"8, isto é, casos de lingua­
gem de órgãos, em que a linguagem se passa no corpo: alguém 
que deve "mudar de posição" se vê impelido a mudar seu corpo 
de lugar. São fenômenos que Freud distingue das conversões na 
neurose. 
Ora, a senhorita Anna não traduz seu sintoma, que fica no 
registro visual. E se pode comentá-lo, observamos que o essencial 
para ela se situa em uma cena, mais do que na literalidade de uma 
palavra. É como se o discurso verbal se apoiasse sobre a mímica 
silenciosa que lhe restituísse uma enunciação. Freud, no mesmo 
artigo, ressalta que os pacientes esquizofrênicos compensam o 
desinvestimento dos objetos pelo superinvestimento das palavras, 
como se a palavra permitisse ser substituída pela coisa. A cena da 
senhorita Anna é, de fato, um meio de reencontrar a função do 
objeto pelo viés de um uso original de sua imagem. Essa cena cons­
titui um enodamento sintomático, já que reúne um pedaço simbóli­
co de sua história, a imagem de seu corpo que se presta a dar corpo 
a essa história e o real não simbolizável do olhar de sua avó. Se, na 
conversão, o corpo serve de suporte aos significantes recalcados do 
sujeito, aqui é a imagem da cena imitada que restitui um corpo à 
paciente. O que constitui esse corpo é a imagem e o pequeno rela­
to que o anima. Ele serve de égide à paciente para entrar no discur­
so e, a partir daí, na vida. Como Jacques-Alain Miller ressaltou, em 
seu curso de 1 1 de junho de 1 9979, há duas coisas com as quais nos 
embaraçamos: o imaginário (sua imagem, portanto) e o real. O uso 
do sintoma consiste em aprendermos, a partir daí, a nos virar com 
o destino que nos preparam os discursos que nos precederam; é o 
que faz a senhorita Anna no tratamento. Ela usa o que a embaraça 
para converter as palavras discordantes de sua história familiar em 
uma "cena de família" reduzida e aceitável. 
108 
UI. CONVERSÃO 
Murielle é uma moça de vinte anos que foi encaminhada a 
um serviço de psiquiatria com um diagnóstico que hesitava entre 
uma etiologia orgânica e uma conversão histérica. Na carta de 
admissão, pode-se ler o seguinte: "Apresentou artralgias dos punhos 
e calcanhares, de ritmo inflamatório, causando intensas queixas . . . O 
desencadeamento é brutal: em plena noite, apresentou dores inten­
sas nas quatro extremidades, semdeformação, sem aumento de 
calor local; chamou várias vezes os médicos de plantão nas noites 
seguintes, depois acabou sendo internada para um check-up orgânico 
que se verificou negativo". 
O diagnóstico de conversão histérica é então colocado 
"em relação com a labilidade emocional e o teatralismo no quadro 
de uma depressão". 
A. Quero sarar 
No momento de sua entrada no serviço médico, pede 
imediatamente uma cadeira de rodas para se deslocar. Com 
nossa ajuda, termina descendo muito lentamente da ambulância 
e leva cinco minutos percorrendo a pé os vinte metros que a 
separam do consultório médico. Seu sofrimento é aparentemen­
te muito grande, mas, de imediato, anuncia: "Quero sarar". O 
diagnóstico de estrutura deve, portanto, ser estabelecido o mais 
cedo possível. 
Entrevistas densas e uma investigação difícil, no período 
de mais de uma semana, vão, no final das contas, levar a recusar o 
diagnóstico presumido de conversão histérica e a orientá-lo para 
uma hipocondria, isto é, um retorno de gozo no corpo, situado no 
quadro de uma estrutura psicótica de tipo paranoica. 
As entrevistas são difíceis, pois Murielle está totalmente 
presa em seu sofrimento e é preciso, a cada vez, tirá-la desse ema-
109 
ranhado para poder levá-la a dizer algumas palavras sobre o que 
pôde causar o desencadeamento desse episódio. Nos primeiros dias, 
diante da eritrodermia que apresenta, da leve febrícula e da ampli­
tude de seu sofrimento, uma consulta é solicitada a um especialista 
em processos inflamatórios para afastar qualquer síndrome orgâni­
ca rara que pudesse ter escapado. Qualquer processo orgânico é 
então definitivamente eliminado. 
B. O desencadeamento do episódio: o outro paterno 
Pouco a pouco, Murielle aceita falar de sua história e dos 
acontecimentos recentes, mas seu discurso é constantemente inter­
rompido por queixas, até mesmo gritos de sofrimento. 
Apesar de ser muito boa aluna, foi reprovada por poucos 
pontos, alguns meses antes, no exame para obtenção do diploma de 
turismo. Na volta às aulas, 'Jõi o abismo, eu não tinha mais nada". Acaba 
dizendo que o diploma de turismo representava para ela um ideal: 
ser aeromoça. Ideal que parece, agora, completamente abandonado, 
na opinião dessa jovem com aparência de criança comportada pré­
púbere e que nunca pôde se distanciar de seus pais. Um primeiro 
apoio imaginário desmoronava. 
Detivemo-nos em seguida, nas entrevistas, em precisar o 
estatuto do forte laço que mantinha com seu pai, para finalmente 
afastar o que poderia ser tomado como uma fixação edipiana ao pai, 
ao amor do pai ao modo histérico. O que aparece, então, é que ela 
se encontrava presa a uma identificação especular ao pai, despren­
dida de qualquer estruturação ternária simbólica, vindo se colocar 
no lugar da estrutura edipiana que falhou. 
Pouco antes do desencadeamento do episódio, seu pai foi 
internado, pela primeira vez, para uma intervenção cirúrgica. Esse 
enfraquecimento do pai é para ela insuportável: ((Fiquei transtornada, 
chocada; quando fui ver meu pai no hospita� ele acabara de acordar; parecia 
muito mais velho e sofria muito". 
1 1 0 
Alguns dias mais tarde, depois de ter se ausentado, encon­
tra seu pai de novo em um grande sofrimento e ele é internado 
novamente. 
Os "sintomas" de Murielle começam na noite seguinte. 
No dia do aniversário de seu pai, alguns dias mais tarde, 
suas dores chegam ao paroxismo e é a sua vez de ser internada no 
serviço médico. 
Observamos que nos primeiros dias de sua internação, 
toda vez que lhe faziam perguntas sobre seu pai, contorcia-se de 
dor; ela mesma acabou constatando essa ligação imediata entre a 
evocação do pai e suas crises paroxísticas. 
Não deixamos de notar essa colagem identificatória e a 
importância que tomou para ela a deterioração da imagem desse 
pai e seu sofrimento, quando vai vê-lo no hospital. O pai que pas­
sou toda sua infância, desde seu nascimento até a idade de treze 
anos, em famílias de adoção, sofre há muitos anos de crises de 
"espasmofilia" durante as quais fica oprimido, treme, chora e pre­
cisa se deitar. 
Pode-se pensar que a estruturação edipiana desse homem 
foi, no mínimo, conturbada, o que não é sem ligação com a relação 
de grande proximidade que mantém com sua ftlha: eles têm, aliás, 
sempre funcionado em sintonia, o humor de um, seguindo o humor 
do outro. 
Murielle é, então, levada a desvelar "a história" de sua esco­
liose. Aos onze anos, um médico escolar descobre uma escoliose que 
requer o uso de um colete. O pai é acometido de uma escoliose com 
deformação. Uma irmã mais velha foi operada de escoliose. 
Dos onze aos dezoito anos, Murielle usou um colete todas 
as noites: o colete é composto por duas conchas de gesso fixadas 
entre elas e renovadas a cada dois meses. É o pai que, todas as noi­
tes, "a coloca" em seu colete e amarra nas costas os cadarços que o 
mantém. Seu corpo é, portanto, mantido em uma concha; só os 
membros ficam livres. 
1 1 1 
Aos dezoito anos, é tomada uma decisão médica para tirar 
definitivamente o colete de gesso. Ela suporta mal essa decisão: "Eu 
me sentia mais apoiada'� diz ela. 
C. Uma mobilidade de gozo 
Três meses depois da retirada do colete, Murielle apresen­
ta um episódio de interpretação persecutória. 
Começa então seu curso de turismo. No dia de uma prova, 
"uma garota disse que eu tinha colado; eu tinha só levantado a minha pasta 
para pegar umas folha� ela achou que eu estava lendo as anotações . . . A partir 
desse dia, todo mundo se afastou de mim na sala de aula, ninguém mais fala­
va comigo; no dia seguinte, quando entrei na sala de aula, ouvi comentários, 
cochichos: "olhe, é ela". Não havia mais ninguém do meu lado. Todo mundo 
acreditou nela. Eu deixei para lá. Eles me rejeitaram o resto do ano". 
No ano seguinte, época em que morava sozinha em um 
pequeno apartamento durante o período escolar, seu pai foi buscá­
la para as férias: ''Quando voltei de férias, minha bicicleta havia desapareci­
do. Havia um código para abrir a garagem, pensei que tinham me espionado. 
Algumas vezes quando eu passava no ponto de ônibus, havia uns homens que 
conversavam no ponto, mas não pegavam o ônibus . . . Não é normal conversar 
em um ponto de ônibus sem entrar no ônibus.. . Eles observavam as pessoas. 
Pensei que estavam me vigiando e tinha medo, sozinha no meu quarto". 
No momento dos resultados do exame final, três meses 
antes do episódio que a levou para a clínica, manifestara ainda 
alguns elementos interpretativos: "Houve o exame, não consegui passar, 
eu tirei 9,8 em 20. Pedi revisão de prova, não havia praticamente nenhuma 
correção, riscos, nenhuma explicação. Não quis repetir o ano porque, o que 
teriam pensado de mim? A diretora tinha dito: 'há alguns que têm um histó­
rico ruim e que conseguirão o diploma, outros que têm um bom histórico e não 
conseguirão '". Seu discurso permanece alusivo, mas sua interpretação 
é precisa: ela foi vítima de uma injustiça, e a diretora é a causa do 
seu fracasso. 
1 1 2 
Observamos assim, no decorrer de nossas entrevistas com 
Murielle, que ela é visada pelo Outro, e em particular pelo olhar, 
desde a infância. Precisemos que alguns elementos persecutórios 
teriam passado completamente despercebidos se as entrevistas não 
tivessem sido guiada:s, por meio de um trabalho de poda, para o des­
velamento pelo sujeito de sua tendência interpretativa. 
Em quais referências teóricas do ensino de Lacan nos 
apoiamos? 
Parece que, para Murielle, o nó triangular é defeituoso. A 
questão nunca é referida ao casal parenta!. Ela permanece às voltas 
com o laço dual com o pai, em espelho. O gozo, por esse fato, não 
é separado nem do Outro nem do corpo, e oscila entre um e outro. 
Foi o pai que, "na realidade", se esforçou, mediante atos 
cotidianos repetidos, para lhe "fazer um corpo", pela aparelhagem 
do colete. Assim, por meio da construção desse corpo-concha, o 
gozo fica contido, o que não acontece sem dor. 
Não é evidente que um sujeito se atribuaum corpo. Murielle 
nos indica isso mais de uma maneira. Aos quinze anos, apesar de sua 
"prótese" corporal, ela perde, em alguns meses, mais de dez quilos, 
que recupera muito rapidamente sem que ela nem sua família possam 
desvendar a causa. Vê-se muito frequentemente isso na psicose de 
adolescentes, como se o corpo não concernisse ao sujeito. 
Desde que o corpo de Murielle deixou de ser contido pelo 
colete, surgiu, então, uma série interpretativa. O gozo, que não é 
mais circunscrito pelo colete, encontrou uma nova localização no 
Outro e, mais precisamente, no olhar do Outro. 
Em um segundo tempo, no momento do desencadeamen­
to do episódio que a levou à internação, ocorre o desmoronamen­
to de seus dois apoios imaginários: o ideal profissional (aeromoça) 
e a doença do pai, provocando uma nova invasão de gozo, mas, 
desta vez, com um retorno no corpo. Observamos, aliás, que esse 
retorno se opera fora do espaço corporal antes contido pelo colete 
(os quatro membros) . 
1 1 3 
É interessante observar, neste caso, essa mobilidade do 
gozo que passa do corpo aparelhado, com seu cortejo de sofrimen­
to, à interpretação delirante do olhar do Outro e, em seguida, retor­
na no corpo pelo viés da hipocondria. 
Murielle se faz um corpo doente, em espelho com o corpo 
doente do pai, em uma identificação imediata e não dialetizada. É 
por isso que não se pode confundir hipocondria com conversão 
histérica. Nesta, é o inconsciente que fala por meio do corpo, com 
toda a dialética simbólica da constituição do sintoma. 
IV. CONVERSÃO H ISTÉRICA E FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO 
A distinção entre sintoma de conversão histérica e fenôme­
no psicossomático (FPS) não coloca, a priori, nenhuma dificuldade. 
A conversão histérica é a prova viva de que o corpo não se 
confunde com a anatomia e que sua imersão na linguagem o mor­
tifica e o erotiza, ao mesmo tempo. 
O FPS prova, ao contrário, que um curto-circuito do sim­
bólico, uma evasiva quanto à estrutura da linguagem, não é sem 
consequência anatômica, sem consequência para a realidade do 
corpo. 
Essa oposição demanda ser relativizada, contudo, conside­
rando que nos dois casos o sujeito está concernido, tanto no nível 
do seu desejo quanto do seu ser de gozo. 
A. A conversão freudiana 
Vejamos primeiramente como Freud concebeu a conver­
são histérica. Teorizando, em 1 896, a conversão histérica como o 
efeito de um processo de defesa diante de um excedente sexual 
incompatível, Freud a distinguiu da "conversão" linguageira do 
corpo que anima todo ser falante. A conversão histérica não é o 
1 14 
resultado de um efeito de linguagem, de uma sugestão hipnótica, 
mas um modo de resposta complexa do sujeito a um resto não tra­
duzido do sexual, em conexão com uma representação e um afeto. 
A defesa, via recalque, tenta transpor e fixar esse resto no corpo de 
uma forma figurada. Esse "salto do psiquismo à inervação somática'� 
como Freud o designa em seu prefácio ao 'Homem dos ratos'� esca­
pou à sua conceitualização enquanto ele não esclareceu o papel da 
pulsão. Em relação a isso, o artigo de 1 91 0, ''A concepção psicana­
litica da perturbação psicogênica da visão", é decisivo. Freud 
demonstra nesse texto como a conversão histérica testemunha a 
interferência da significação da pulsão (die Bedeutung der Triebe) na 
vida da representação (Vorstellungsleben) . 
A conversão apenas em aparência escapa à exigência pul­
sional. Ela é, na realidade, a colocação em ato de uma satisfação pul­
sional clandestina que se opera apesar dos ideais do eu. Isso está 
ligado ao fracasso do recalcamento que, longe de refrear a ativida­
de pulsional, somente a favorece, repelindo-a cada vez mais para o 
inconsciente, onde encontra todas as condições para persistir e pro­
liferar. 
O reforço da pulsão ligado ao fracasso do recalque prefi­
gura o paradoxo do supereu. Em relação a isso, o caso da conver­
são histérica de órgãos é significativo. Quálquer órgão dos sentidos 
tem uma dupla função, a de manter a vida e a de desempenhar um 
papel erógeno; o órgão serve às pulsões do eu e às pulsões sexuais. 
Ora, "não é fácil servir a dois senhores ao mesmo tempo", nos diz Freud. 
Quanto mais a erogeneidade do órgão é reprimida, mais sua ativi­
dade pulsional cresce no inconsciente. Se um vqyeur histérico fica 
cego de tanto olhar, sua cegueira demonstra um gozo escópico exa­
cerbado. 
No fim de seu artigo, Freud se interroga sobre as conse­
quências desse gozo do órgão. Considera a possibilidade de uma 
alteração orgânica decorrente da ''intensificação da significação erógena" 
(der gesteigerten erogenen BedeutuniJ. Tais sintomas, que ele qualifica de 
1 1 5 
"neuróticos", são desconhecidos tanto porque não são diretamente 
acessíveis à psicanálise quanto porque os clínicos se enganam ao 
deixar de lado o ponto de vista da sexualidade. 
B. Superpulsão 
Freud emite a hipótese segundo a qual certas condições 
particulares deveriam estar presentes, de início, para que houvesse 
"um exagero do papel erógeno do órgão". A tradução para o português, 
"exagero do papel erógeno do órgão", não traduz fielmente o 
termo freudiano Übertreibung, literalmente "superpulsão, superativi­
dade pulsional". Esse Übertreibung do órgão é ainda o que Freud 
chama somatisches Entgegenkommen do órgão, literalmente "encontro 
somático do órgão", que é traduzido geralmente por "complacên­
cia somática do órgão". 
Colocar o Ü berlreibung como um denominador comum 
constitui, certamente, um avanço, mas não explica por que um sujei­
to fará uma conversão histérica e não uma doença orgânica. 
Ao situar o FPS em relação à estrutura de linguagem, 
Lacan aparta um novo esclarecimento concernente à clínica dife­
rencial dessas duas manifestações somáticas. 
Afirmando a significação do falo como a ação e a paixão 
do significante no corpo, assim mortificado em seu gozo, Lacan nos 
permite situar a conversão histérica no registro de um gozo fálico 
fora do corpo. Isso é claro tanto nas manifestações deficitárias 
como nas pantomimas fantasmáticas que as conversões histéricas 
evidenciam. 
O FPS, por outro lado, escapa à regulação fálica, muito 
embora não seja sem relação com a ação do significante. É preciso 
conceber para isso uma causalidade que participe da linguagem, 
mas sem ter a sua estrutura. Lacan emite a hipótese de uma indu­
ção significante, um S1, ou seu equivalente, na forma de uma solda­
gero do intervalo entre dois significantes na holófrase. Esse fenô-
1 1 6 
meno de linguagem não permite o livre jogo da afânise do sujeito. 
Tudo acontece como se, tal como um selo, uma espécie de escrita 
ilegível viesse se inscrever no corpo como um tipo de enquadra­
mento do nome próprio, no lugar mesmo do que deveria ter sido 
um sintoma. 
Como conceber o Übertreibung em questão se ele não é 
regido pelo operador fálico e se ele não procede de um mais-de­
gozar que implicaria, ao contrário, a oposição de dois significantes? 
O sujeito é responsável por esse tipo de gozo? Baseados em quê 
estamos autorizados, se não for para deslocar, pelo menos para tra­
zer à baila, o gozo em jogo nesses FPS pelo efeito da fala? 
Tudo depende da estrutura clínica. Um FPS não tem a 
mesma função na neurose e na psicose. Na neurose, o FPS pode 
fazer signo de um déficit momentâneo da defesa do sujeito no 
encontro com um acontecimento, uma lembrança insuportável, um 
traumatismo ou um segredo até então intransmissível, por exemplo. 
Na psicose, o FPS, em sua função de enquadramento do nome pró­
prio, vem circunscrever, no lugar do corpo, um espaço delimitado e 
separado, permitindo a um sujeito se fazer um nome sem passar 
pelo Nome-do-Pai. 
Quando não se trata de psicose, mas de neurose, pode-se 
considerar a escrita psicossomática como o índice de um modo de 
gozo ilícito que escapa à castração e que se relaciona, mais frequen­
temente, com um traço de perversão que vem desmenti-la. Somente 
a invenção do inconsciente, via transferência, tem chance de des­
compactar a soldagem significante e revelarao sujeito a fixação de 
gozo que ele se recusava a ceder, esse excesso de gozo, Übertreibung, 
de cuja responsabilidade ele se esquiva por meio de seu estatuto de 
doente. 
Cabe ao desejo do analista extrair o sujeito desse querer 
gozar em que seu corpo o mantém fascinado, em uma trapaça sem 
nome, mesmo que esta tome o nome de uma doença. 
1 1 7 
Notas 
* Relatores: Carole Dewambrechies-La Sagna e Jean-Pierre Deffieux. 
1 MILLER, J.-A. (1986-1987) Los signos de! goce. Buenos Aires: Paidós, 1998. 
2 MILLER J.-A. (1987) "Lacan com Joyce". In: Correio n.65. São Paulo: Escola 
Brasileira de Psicanálise, 201 O, p.33. 
3 FREUD, S. (19 16-1 917) "O Sentido dos Sintomas". In: Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XVI, Rio de Janeiro: 
Imago, 1976, p.305-322. 
4 De fato, nu!fe, nesse contexto, poderia ser traduzido de modo mais preciso por 
"uma boba". Entretanto, considerando que essa zombaria evidencia, para Sylvie, 
uma ausência de corpo, a expressão "zero à esquerda", por designar um "nada", 
pareceu-nos mais interessante. 
5 LACAN, J. (1975) "Joyce, o sintoma". In: O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 
6 LACAN, ]. Le Séminaire, livre XXI: Les non-dupes errent, inédito. 
7 BLEULER, E. Démentia Praecox ou groupe des schizophrénies, Paris, 1993, 
p.559-561 . 
8 FREUD, S.(1 915) "O Inconsciente". In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund 
Freud (Edição Standard Brasileira), v.XIV, Rio de Janeiro: Imago, 197 4, p.207 -224. 
9 MILLER, J.-A. en colaboración con Éric LAURENT (1 996-1 997) El Otro que 
no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Pai dós, 2006. 
1 1 8 
Antennes Cliniques de Chauny-Prémontré e de Rouen* 
FENÔMENOS DE CORPO E ESTRUTURAS 
O presente relatório tomou como ponto de partida "a 
neoconversão" anunciada como "os fenômenos de corpo não-his­
téricos, não-interpretáveis ao modo freudiano". 
Comecemos com alguns esclarecimentos. Para os fenômenos 
de corpo remetemos à etimologia: em grego, "fenômeno" é aquilo 
que aparece. O seu sentido ampliado designa "aquilo que é sur­
preendente", podendo ser tomado como o que faz sintoma para um 
sujeito. Trata-se, portanto, daqueles fenômenos que aparecem 
tendo como suporte o corpo e que fazem sintoma para o sujeito 
sem que haja aí uma lesão. Este último esclarecimento nos permite 
distinguir esses fenômenos de corpo dos fenômenos ditos psicos­
somáticos. 
I. COM FREUD 
Os termos neoconversão e não-histérico exigem outras obser­
vações. Se deles separarmos os prefixos, obteremos conversão e his­
térico, termos da elaboração freudiana. Podemos extrair da contri­
buição de Éric Blumel os seguintes pontos: Ele lembrava esta 
frase de Freud: "Tratamento psíquico significa ( . . . ): tratamento -
de perturbações psíquicas ou corporais - com a ajuda de meios 
que agem primeira e imediatamente na alma do homem. Tal meio 
é, antes de tudo, a palavra, e as palavras são efetivamente a ferra-
1 1 9 
menta essencial do tratamento psíquico"1 • Tese: as palavras têm 
uma ação nas perturbações psíquicas ou corporais. Corolário: 
essas perturbações têm uma estrutura que deve ser análoga a das 
palavras. Tese e corolário fixam o âmbito do que está em jogo na 
psicanálise: a articulação da perturbação e da palavra, do sintoma 
e do significante. E o primeiro nome que a psicanálise dá a essa 
articulação é conversão. 
Ainda citando Freud: ''A histeria se comporta em suas 
paralisias e outras manifestações como se a anatomia não existisse 
( . . . ) . Toma os órgãos no sentido vulgar e popular do nome que car­
regam; a perna é a perna até a inserção do quadril"2• A perturbação 
se produz quando o nome, a representação de um órgão, é investi­
da de um valor afetivo muito grande. O que confere um valor afe­
tivo por demais intenso a uma representação é o acontecimento 
traumático. Mas, a perturbação não se reduz a ser apenas a cicatriz 
de um ferimento, a marca de sua causa. A perturbação tem com 
causa uma relação simbólica, isto é, uma relação que repousa sobre 
o princípio da substituição, substituição arbitrária. Essa indicação é 
preciosa; nela percebemos a entrada em cena da função significan­
te. É exatamente porque há uma primeira substituição, que consis­
te em substituir o braço anatômico real pelo significante braço, que, 
em seguida, outras substituições significantes são possíveis. 
Mas, não existe somente a vertente "significante". Da 
mesma forma que a angústia resulta de uma transformação da ten­
são sexual não satisfeita, a histeria resulta "de uma espécie de con­
versão de uma excitação psíquica que toma uma falsa via levando a 
reações somáticas"3• Assim, Freud propõe o nome de conversão 
na histeria para designar a "soma de excitação ( . . . ) remetida ao cor­
poral"4. Para fazer um sintoma histérico é preciso, portanto, o 
concurso de uma representação que sofre o recalque e de um 
afeto separado dessa representação e transformado em manifesta­
ção corporal. Esses dois registros são reunidos nos Estudos sobre a 
histeria pela fórmula: "Conversão simbólica"5• 
1 20 
Contudo, o sintoma só é conversão na histeria? Ou pode­
se abordar a clínica com a fórmula: se conversão, logo histeria? 
É surpreendente constatar que as referências à conversão, 
assim como à "complacência somática", tenham aparentemente 
desaparecido dos trabalhos de Freud posteriores a 191 O. Tal obser­
vação deve ser completada por uma nota que figura em uma carta 
de 1 91 7, endereçada a Groddeck: "O ato inconsciente exerce nos 
processos somáticos uma ação plástica intensa, que o ato conscien­
te nunca obtém"6• Parece que o mecanismo de conversão ainda per­
manece válido, mas ele não é mais considerado como traço distinti­
vo da histeria. A conversão não é mais um domínio reservado 
somente à histeria; torna-se o domínio do inconsciente. Isso tem 
duas consequências: por um lado, a necessidade de renunciar à 
abrangência do diagnóstico diferencial da conversão, que não é mais 
patognomônica da histeria; por outro lado, a estrutura da conver­
são, não sendo mais apenas a do sintoma histérico é, portanto, 
capaz de dar conta da estrutura do sintoma em sua generalidade. 
1 1 . COM LACAN 
Pode-se notar que no índex dos termos de Freud em ale­
mão, nos Escritos) não se encontra o termo Konvertion. "Conversão" 
tampouco aparece no "índice ponderado dos principais conceitos", 
realizado por Jacques-Alain Miller nesse mesmo volume. Restaria 
desenvolver como se articulam histeria e conversão no texto dos 
Escritos. Pode-se supor, entretanto, que Lacan tenha sido pouco elo­
quente sobre o termo conversão porque este dá nome a um proces­
so que é pouco explicável; Lacan se detém mais sobre os elementos 
estruturais. 
No entanto, graças à contribuição de Bernard Lecreur, 
podemos abordar outras incidências do termo conversão no ensino 
de Lacan. Na lição do dia 23 de abril de 1 958 do Seminário 
1 2 1 
Formações do inconsciente, Lacan diz: "No sintoma, e é isso o que quer 
dizer conversão, o desejo é idêntico à manifestação somática, assim 
como o direito está para o seu avesso". Nesta mesma lição, Lacan 
estuda o caso Elizabeth, transmitido por Freud, ressaltando a iden­
tidade que há entre a dor - no alto da coxa - e o desejo - pelo pai. 
A dor é o desejo, a conversão o mostra. 
Diferentemente de Freud, pode-se afirmar que Lacan 
enfatiza a continuidade entre o psíquico e o somático. A relação que 
existe entre o desejo e a manifestação somática é um continuum. Um 
é o avesso do outro, ainda que um se prolongue no outro. A con­
versão é, portanto, o que identifica o desejo - considerado a partir 
de sua causa, o objeto a - com a inscrição corporal de uma falta -
a castração, - tp. Mas, ao mesmo tempo em que a conversão coloca 
a identificação de a e de - tp, ela mostra também que essa identifi­
cação é impossível; aí está sua dimensão propriamente sintomática. 
Ora, para encarnar a impossibilidade de reunir o objeto a e a 
castração, - tp, a conversãosupõe um Outro, ele mesmo marcado 
pela falta, um Outro dividido. O exemplo de Elizabeth é instrutivo 
em relação a isso. Quando ela sofre com sua perna, a dor só vale 
como equivalente do desejo se essa dor estiver relacionada a um 
ideal: ser uma garota capaz de se colocar à altura de um pai acome­
tido por uma doença cujo destino, marcado pela impotência, não é 
sem grandeza em relação ao sacrifício que ele implica. 
Consequentemente, Bernard Lecreur propõe escrever a conversão 
ass1m: 
A. 
122 
A. Sobre a neoconversão 
Se a observação de certos fenômenos nos leva a constatar 
que a parte subjetiva da conversão (identificação do desejo com a 
manifestação corporal, a = - <p) não se coloca mais sob a dependên­
cia de um Outro marcado por uma falta, mas de um Outro não-bar­
rado, então poderemos, talvez, considerar o que é a neoconversão. 
Tomemos como argumento da mudança de estatuto do 
Outro, certas práticas para as quais se acha valorizado um saber 
"sem limites": o Outro da ciência, no caso do toxicômano, e o 
Outro da mostração, um "imaginário" tendo função de agente, no 
caso da anorexia. Nesses dois tipos de práticas que determinam 
comportamentos e cujo estatuto de sintoma é problemático, o uso 
que é feito do corpo não é mais marcado pela castração do Outro. 
A neoconversão poderia logicamente se escrever: 
A 
(a = - <p) 
Ressaltamos a diferença de que a passagem de A para A 
modifica o conjunto. De fato, a ausência da castração no Outro não 
permite mais fazer a leitura da parte subjetiva que se origina da con­
versão. Em outras palavras, é a barra de fração que separa o Outro 
da linha do sujeito que se encontra tocada. A condição primeira que 
torna possível essa leitura é a de reconhecer o texto como Outro. 
Quando essa condição falta, o uso - no sentido do "fazer" - substi­
tui a leitura. O uso, assim considerado, não implica mais um Outro 
furado, mas um Outro da imagem, ou um Outro do saber, não 
suposto. O corpo, nesses casos, mostra como um sujeito lida com 
seu desejo para poder gozar. 
123 
1 . Anorexia 
No curso que ministrou com Éric Laurent, O Outro que não 
existe e seus comitês de ética, Jacques-Alain Miller nos convida a consi­
derar a anorexia como aquilo que mostra a estrutura do desejo. 
Como consequência, acentua-se a dimensão da mostração, de 
forma a situar a pulsão, não mais do lado do objeto oral, mas em 
ligação com o objeto escópico. Tal mudança de perspectiva implica 
a magreza como uma encarnação do falo e visa uma satisfação da 
pulsão que passa pelas vias de uma imagem sem falhas, uma ima­
gem toda. O Outro é assim um olho que envelopa e dá consistên­
cia à imagem em detrimento da significação fálica. 
Podemos acrescentar a essa contribuição de Bernard 
Leccrur, uma observação de Marie-Claude Sureau sobre um caso 
em que a anorexia como sintoma faz signo a um Outro que é obri­
gado a ver, pois não quer ouvir nada. 
2. Toxicomania 
O que mostra o toxicômano? Mostra que é suficiente 
tomar o corpo a partir do mais-de-gozar obtido pela droga para 
resolver a questão da satisfação do desejo. Essa pergunta é feita a 
partir dos termos que a dimensão do uso, e até mesmo do empre­
go, supõe. O recurso a um certo fazer vem suspender a incidência 
da castração. Esse fazer se apoia em uma identificação que, contra­
riamente ao sintoma, não se encontra nunca recolocada em causa 
pelo gozo que ele propicia. Considerado a partir do uso - a partir 
do mais-de-gozar - o corpo torna-se idêntico ao desejo. 
1 24 
8. Outros horizontes sobre a neoconversão 
O termo "neoconversão"7 pode ser situado em relação a 
uma problemática mais abrangente. Tentemos distinguir seus vários 
niveis: em primeiro lugar, a clínica que o ensino de Lacan, principal­
mente à luz de suas últimas elaborações, torna possível; em seguida, 
a presença da psicanálise no aqui e agora e as demandas que lhe são 
encaminhadas; e, enfim, as modificações estruturais da civilização 
no período atual. 
Da clínica elaborada por Jacques Lacan, extraímos esque­
maticamente: 
- uma abordagem do sintoma desenvolvida segundo duas 
vertentes: aquela do gozo autista e aquela do Outro e suas relações 
com a civilização; 
- os três registros - real, simbólico e imaginário - coloca­
dos como solidários e sem supremacia do simbólico, seu enoda­
mento supletivo, configurando uma clínica borromeana amplamen­
te abordada em A conversação de Arcachon; 
- uma conceitualização complexa dos gozos; 
- remanejamentos na teoria das psicoses que franqueiam o 
"tratamento possível" e que, levando em conta as experiências e ela­
borações dos alunos de Lacan, permitem acolher numerosas 
demandas de sujeitos psicóticos. 
Alguns aspectos da civilização contemporânea e suas inci­
dências para a psicanálise foram abordados por Éric Laurent e 
Jacques-Alain Miller em seu curso de 1 997-1 998. Eles assinalavam 
o enfraquecimento e até mesmo a queda dos ideais, paralelamente à 
promoção do mais-de-gozar reacfy made, que talvez deva ser associa­
do a uma maior presença dos "fenômenos de corpo". 
Mais especificamente, em relação ao nosso tema, enfatiza­
mos o deslocamento da figura de mestria do médico e os efeitos do 
"progresso da ciência na relação da medicina com o corpo"8• 
1 25 
1 1 1 . UM CASO COMO FORMA DE IlUSTRAÇÃO 
Um homem que se aproximava dos cinquenta anos foi 
aconselhado a consultar um psicanalista em razão de um sintoma 
que persistia há cerca de vinte anos. Trata-se de um enrijecimento 
dos músculos mandibulares e de um adormecimento do braço 
esquerdo. O sintoma apareceu no momento do despertar difícil de 
uma anestesia geral em razão de uma cirurgia. Nesse período, o 
paciente submeteu-se a inúmeros exames médicos e tratamentos 
farmacológicos, sem maiores alívios. 
As entrevistas analíticas permitiram desdobramentos signifi­
cantes: ''Ali onde estava um gozo autístico, a análise fez advir os efei­
tos de significado", como mostra Jacques-Alain Miller no prefácio de 
jqyce com Lacan. Nesse sujeito, o sintoma se conectava a um enxame de 
significantes referidos à morte e ao cadáver. O sintoma desaparecia. 
Esses significantes veiculavam um gozo - ttJ que se dissociou do gozo 
petrificado no corpo? Pode-se, por causa disso, considerar que esse 
fenômeno de corpo é interpretável ao modo freudiano? 
Resta decifrar o que conduziu a conversão a se localizar 
nesses lugares do corpo, ainda mais porque o sintoma retoma e 
varia em função dos acontecimentos da vida do sujeito e dos avata­
res da transferência. O paciente evoca os restos de líquido anestési­
co que seriam ainda atuantes - "essa porcaria" que, como ele suge­
re, lhe teria sido administrada em quantidade excessiva. Várias figu­
ras de um Outro comilão do gozo9 aparecem em suas falas, sem 
poupar a transferência. 
A partir dos elementos apresentados, parece difícil decidir 
entre a alternativa da análise do sintoma até o real da pulsão e o tra­
tamento pelo sintoma, conforme resumido por Jean-Louis Gault. 
Deparamo-nos assim com uma vasta problemática, a dos casos em 
que a fronteira neurose-psicose não é fácil de ser estabelecida, ainda 
mais que o dispositivo analítico parece embaralhar, às vezes, esta 
grande divisão de águas. 
1 26 
Notas 
* 
Relator: José-Luis Garcia Castellano. 
1 FREUD, S. (1905) "Tratamento Psíquico (ou Anímico)". In: Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v. VII, Rio de Janeiro: 
Imago, 1989, p.276. 
2 FREUD, S. (1 888-1 893) "Algumas Considerações para um Estudo 
Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas". In: Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.I, Rio de Janeiro: Imago, 
1 990, p.240. 
3 FREUD, S. (1 894) "Rascunho E: Como se origina a angústia". In: Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.I, Rio de 
Janeiro: Imago, 1990, p.276. 
4 FREUD, S. (1 894) "As neuropsicoses de defesa". In: Obras Psicológicas Completas 
de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira),v.III, Rio de Janeiro: Imago, 1987, 
p.56. 
5 FREUD, S. (1 893-1 895) "Estudos sobre a Histeria". In: Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.II, Rio de Janeiro: 
Imago, 1988, p. 1 85. 
6 FREUD, S. Correspondance 1873-1939.Paris: Gallimard, 1979, p.345. 
7 Não seria mais adequado no lugar do termo neoconversão falar de sintoma 
corporal? 
8 LACAN, ]. "O lugar da psicanálise na medicina". In: Opção Lacaniana n.32. 
Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Edições Eolia, 
dez/2001 , p. l l . 
9 MILLER, J.-A. (1 993) "Clínica irônica". In: Matemas I. Rio de Janeiro: Zorge 
Zahar Editor, 1996, p. 197. 
1 27 
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes* 
FENÔMENOS CORPORAIS EM PACIENTES MASCULINOS 
A Seção Clínica de Rennes e a Antenne Clinique de Nantes 
escolheram expor quatro casos de homens, nos quais o esforço para 
se defenderem do real levaram os sujeitos a eleger uma parte do 
corpo como dolorosa e a elevar essa dor ao estatuto de um sintoma 
endereçado a um analista. Embora se trate de fenômenos puramen­
te ligados ao efeito do significante no corpo como vivo, essas "neo­
conversões" não pertencem, em nossa opinião, ao registro da estru­
tura histérica. Apresentaremos estes casos em sequência e propore­
mos, depois, uma perspectiva dessas vinhetas clínicas como tentati­
vas para construir, graças à ética do dizer, modos de enodamentos 
psicóticos que tomam apoio em fenômenos localizados no corpo. 
I. O HOMEM DOS CEM MIL CABELOS1 
No ano passado, em A conversação em Arcachon, foi o cílio; 
este ano, será o cabelo. O lugar dos fâneros em nossa clínica encon­
tra sua justificativa na interpretação do falo, dada por Lacan. Ele 
colocou esse elemento decrépito na série dos fâneros, como 
Jacques-Alain Miller sublinhara. O falo é um fânero e reciproca­
mente o fânero - o cílio, o cabelo - é suscetível de tomar a signifi­
cação do falo. 
Um homem se queixa de calvície. Encaminhara-se ao ana­
l i sta em um momento de grande desamparo subjetivo. No decorrer 
1 29 
dos dez últimos anos, seu estado se deteriorara progressivamente. 
Os obstáculos surgiram desde o início de sua vida profissional de 
engenheiro. Entediava-se e descobrira que, fundamentalmente, não 
era feito para essa profissão. Uma exigência subjetiva à qual, confor­
me lhe parecia, deveria corresponder, impunha-se a ele: era músico 
e devia responder a esse chamado. Abandonou, portanto, uma car­
reira bem definida como técnico, em troca de uma existência mais 
precária como artista. 
No momento da consulta, aos trinta e cinco anos, leva 
uma vida miserável. Corre atrás de míseros cachês, cada vez mais 
raros, e é reduzido a viver do RMF. Entretanto, o que motiva a 
grande desordem desse sujeito é de uma outra natureza. Ele amou 
uma mulher com a qual teve um relacionamento durante dois anos. 
No início, ela estava ligada a um outro homem e essa situação se 
manteve durante algum tempo, período em que ele se tornara o 
amante dessa mulher. Nossos três protagonistas faziam parte de 
uma mesma pequena formação orquestral na qual a mulher ocupa­
va o posto de cantora. Enquanto houve lugar para o segundo 
homem na vida dessa mulher, nosso paciente pôde gozar disso sem 
maiores problemas. Um dia, como ele mesmo desejara, tornou-se o 
seu único eleito. Escolheu viver com ela, com toda legitimidade; 
então, as primeiras perturbações apareceram. Primeiramente, uma 
ansiedade difusa; depois um abatimento progressivo e, subitamen­
te, começou a perder cabelo aos tufos. Como esse estado persistia 
e agravava-se, acabou concluindo que a causa disso era essa mulher. 
Fazia a seguinte interpretação: a mulher que ele amava e desejava, 
com a qual tinha prazer de viver e que lhe correspondia, represen­
tava para ele um perigo. Decidiu abandoná-la e consultar um médi­
co. Pôde constatar imediatamente uma melhora de seu estado e a 
interrupção da queda de cabelos. Entretanto, ficou marcado por 
essa experiência e desejava encontrar um analista. 
No início, não falara da calvície. Mencionou, na ocasião, 
um episódio de queda de cabelos que ocorreu no decorrer da aná-
1 30 
lise. Ele levava a existência aleatória de um artista intermitente e 
juntara-se a uma pequena orquestra. Teve então que viver um con­
flito interno doloroso. Um dos músicos o aterrorizara querendo 
fazê-lo beber. Ele deveria ter abandonado essas más companhias; 
entretanto, escolhera permanecer no grupo por amor à música. 
Essa decisão, que ia contra seu desejo profundo, deixava­
o mortificado. Constatou o efeito nefasto disso em seu corpo. 
Começou de novo a perder cabelos, centenas de fios por dia. 
Foi nesse momento que começou a falar sobre sua teoria 
da calvície. Há algum tempo, debruçara-se sobre esse fenômeno e 
dedicara-se a encontrar uma explicação. Conduzia essa reflexão 
com método e escrevia regularmente, em um caderno, o fruto de 
suas cogitações ou o resultado de suas pesquisas. 
Ele tem uma concepção unívoca do distúrbio: perde o 
cabelo quando não é mais ele mesmo, isto é, quando faz algo que 
não está em conformidade com seu verdadeiro desejo. Para usar 
uma de suas fórmulas, é quando não está "inteiro" que os cabelos 
caem. 
Lembra-se que ele mesmo não se dera conta disso; foram 
os amigos que o fizeram notar. Constataram a presença de cabelo 
em abundância no box do chuveiro depois de sua passagem por ele. 
Então, compararam fotos e notaram uma calvície nascente. 
Consultou um acupunturista que lhe explicara o mecanismo. O 
cabelo morre, mas só cai depois de três meses. Notara que as coi­
sas se passavam diferentemente em seu caso. Perdia os cabelos ins­
tantaneamente. Quando não fazia o que correspondia a seus dese­
jos, quando obedecia ao desejo dos outros, ou a convenções, ele 
sentia o efeito disso no nível dos cabelos. 
Conhecia, claro, as expressões "arrancar os cabelos" ou 
"ficar de cabelos brancos", mas não é disso que se trata. O que 
acontece com ele se situa no nível do próprio cabelo. Consultou 
várias enciclopédias e descobriu algo interessante na anatomia do 
sistema piloso. Notou que na base de cada fio de cabelo há um mús-
13 1 
culo eretor, cuja contração faz eriçar o cabelo. Em seu caderno, 
reproduziu o esquema que mostra como o cabelo se ergue quando 
o músculo se contrai. Acrescentou que um adulto possui de cem a 
cento e cinquenta mil fios de cabelo e, portanto, a mesma quantida­
de de músculos eretores no crânio. 
Quando todos esses músculos se contraem, os fios de 
cabelo se levantam na cabeça. Era o que ele sentia. Um grande arre­
pio percorria a superfície de seu crânio de frente para trás e perdia 
seus cabelos. Explicava: "É o que acontecia quando eu não fazia o que cor­
respondia ao que era realmente eu} e ao que era meu caminho de vida n. 
Leu que existia a expressão "arrepiar os cabelos", reação 
provocada pelo medo, que correspondia exatamente ao que ele sen­
tia. Há ainda uma outra expressão por ele anotada: "à tous crins'3• 
Por exemplo, um "homme à tous crins" ("homem a todo vapor") é um 
homem inteiro. Quando não queria se afastar de seu caminho de 
vida, era para ficar inteiro. Inversamente, quando perdia cabelos, 
não estava inteiro, isso porque fazia algo que não queria realmente. 
Certamente, quando o cabelo se levanta, ele sai ligeiramen­
te de seu lugar, mas não cai. Para que ele caia, é preciso que a ação 
se repita. Aqui, voltaram-lhe seus conhecimentos de mecânica. Não 
se consegue de uma só vez desatarraxar um parafuso fortemente 
apertado. Para conseguir isso é preferível proceder por pequenos 
esforços sucessivos com uma chave de fendas. Foi o que aconteceu 
no nível do cabelo. A repetição das contrações acaba fazendo com 
que caiam. A queda dos cabelos se produz quando os músculos ere­
tores são excitados de maneira prolongada. 
Ele verificou essa hipótese. Já lhe aconteceu de sentir seus 
cabelos se erguerem na cabeça de forma intensa, mas pontual. Em 
seguida dessa situação, que durou só um instante, ele não perdeucabelo. Por outro lado, em circunstâncias em que se deixara levar 
contra sua vontade - como na orquestra -, tivera a sensação de 
cabelos eriçados na cabeça durante várias semanas. Essa grande ten­
são era dolorosa; à noite, o couro cabeludo lhe queimava e percebia 
1 32 
que os músculos eretores ficavam paralisados. Então, os cabelos 
caíam aos tufos. Desde que decidira abandonar os músicos com os 
quais tocava a contragosto, parou de perder cabelos. Não tinha mais 
essa sensação de eriçamento no vértice do crânio. Sentia-se nova­
mente inteiro. 
Esse sujeito sintomatiza o real ao seu modo. Responde ao 
terror que experimenta diante do enigma do desejo do Outro, e sua 
vontade de gozo, dando corpo a essa angústia. Aparelha-se com um 
sistema piloso suportado por cem mil músculos eretores, para loca­
lizar, na superfície do crânio, o arrepio que então o invade. 
Elaborou assim o complexo do cabelo: com seus cabelos erguidos 
sobre a cabeça, é o homem apavorado diante do abismo da foraclu­
são da significação fálica. O órgão piloso se ergue, então, como um 
ponto de detenção (point d'arrê�, e torna-se o gnomon que lhe desig­
na a toda hora o ponto de verdade de seu desejo. 
11. O HOMEM DOS POLEGARES QUE ESTALAM4 
Há dezoito anos, M. vem me consultar quando se encon­
tra "entre duas mulheres". Queixa-se da primeira quando a separa­
ção se mostra provável, me deixa assim que recruta a segunda, e vai 
viver na casa desta última alguns dias mais tarde. 
Muito depressivo, transpirando de ansiedade, considera-se, 
toda vez, "colocado para fora" pela mulher na qual acaba de bater. 
Deleita-se ao indexar com um vocabulário injurioso seus 
caprichos, seus modos de gozo, sexuais, financeiros, seu modo de 
apropriação do bebê que fez nelas. Procura provocar divisão e 
angústia nessas mulheres. 
Entre duas mulheres, vive na casa de seus pais; relaciona­
se com sua mãe da mesma maneira. 
Quando da primeira entrevista, evoca seu medo de que, no 
final do ato sexual, seu pênis fique na vagina de sua parceira. 
1 33 
No final de cinco anos, o quadro inicial se modifica: muito 
angustiado, queixa-se de estalos no polegar da mão direita. Diz: "É 
como uma mutilação, poderia me conformar se me dissessem que é de nascença"; 
e explica todas as suas dificuldades dessa forma: ''É meu dedo que me 
angustia", concluindo: "Não posso viver com uma mulhe!j é complexo 
demais". 
O desencadeamento do sintoma ocorreu da seguinte 
maneira: invocando uma dor no joelho, M. recusa, um dia, ter rela­
ções sexuais com sua companheira, que exprime sua grande decep­
ção; de forma súbita, ele desfere-lhe um violento soco nas costas. 
No dia seguinte, sobrevém seu sintoma. 
Cinco anos mais tarde, após o rompimento com essa 
mulher, o quadro apresenta um aspecto diferente: uma queixa sem 
limites satura completamente as sessões. M. lista diferentes tipos de 
estalos de seu polegar e enumera sua combinação com certas ações: 
cortar a carne, acender um cigarro, lavar-se, assoar-se, pentear-se, 
tocar a braguilha, escrever e, principalmente, assinar. Desenvolve, 
então, uma prática que só encontra seu limite no esgotamento, quer 
se trate, por exemplo, de ascender um isqueiro até que se esvazie de 
todo gás ou de preencher páginas inteiras com assinaturas. Uma 
sequência se impõe: estalo inaugural profundo e explosivo; sensa­
ção intolerável de que o polegar cai no vazio; finalmente, prática de 
"verificação" até que os estalos secundários criados pelas flexões 
sob a superfície da pele parem. "Vão cortá-lo '� exclama; "mas, e então, 
o outro?". Notemos aqui o efeito de bilateralização. 
Como pano de fundo, há queixas que dizem respeito a sua 
vestimenta fálica: rugas em volta dos olhos, queda de cabelos, cor­
pulência, etc. Teme não poder mais seduzir. 
Uma série de fenômenos de corpo pôde se construir: 
estrabismo divergente no momento de seu primeiro relacionamen­
to; dores resistentes no joelho direito que se tornam bilaterais na 
véspera de um exame exploratório, o que faz com que ele diga: "é 
psicológico '�· rigidez da nuca e das costas. Cada sintoma apoia-se em 
1 34 
uma "sugestão": fala brutal, tapa ofensivo, pequeno choque. Na clí­
nica, uma perfusão de antidepressivos não funciona: "meu braço vai 
apodrecer, vai ser preciso amputá-lo ". 
Encontra em seus pais explicações para sua tendência em 
bater nas mulheres: "Dê o fora!, dizia minha mãe para meu pai; eu repro­
duzo isso". "Bato porque meu pai deveria ter lhe dado um tapa para fazê-la 
parar. Ela o rebaixava e ameaçava ir embora". A mãe de M. é apresenta­
da como uma personagem autoritária e infiel, que rejeita e depois 
quer de volta, como todas essas mulheres das quais ele se separou; 
o pai é apresentado como impotente e deprimido: "É a minha vin-
- " gança, nao quero ser corno manso . 
Sua adolescência foi marcada por um acontecimento: 
fora surpreendido por sua mãe com um terço enrolado em volta 
do pênis. Ela lhe disse: "Se você continuar fazendo isso, vai ficar doente". 
Na noite seguinte, ocorreram poluções noturnas acompanhadas 
por rituais obsessivos e angústias muito vivas. Desapareceram aos 
vinte e um anos com a primeira relação sexual e a retomada da 
masturbação. 
"É psicológico, doutor? Ai, ai, ai!". Esse enunciado em forma 
de questão é repetido sem cessar pelo paciente, seja durante as ses­
sões, seja ao telefone. É conveniente responder a isso com um "cer­
tamente!'� para evitar sua reiteração imediata. Nenhuma vacilação, 
nenhum apelo ao sentido. 
A temática fálica apresenta um caráter não dialético, não 
correlato à função paterna. Em dezoito anos de encontros, as 
associações foram raríssimas; nada de sonhos, nem de lapsos, nem 
de esquecimentos. Nenhuma perturbação de linguagem. 
Nenhuma teoria delirante. Um eixo imaginário preservado permi­
tiu-lhe trabalhar e suportar uma relação terapêutica de preferência 
amigável. Vem, entre duas mulheres, me tomar como testemunha 
de seus gozos desregrados, do poder delas para aceitá-lo ou rejei­
tá-lo, e de fenômenos de corpo intoleráveis. Fica nisso. Sustenta­
se nesse duplo imaginário que eu encarno e que ele abandona 
1 35 
quando o encontra em uma mulher, o que desmorona quando as 
experiências sexuais com ela o confrontam com o insuportável; 
nesse momento, a violência predomina. A duração sem preceden­
tes de seu último concubinato, seis anos, foi acompanhada de 
fenômenos de corpo invasivos e duráveis. A ruptura dessa relação 
radicalizou o quadro correlativamente a um empobrecimento de 
seu laço social. Sua busca por uma mulher lhe parece desde então 
ainda mais destinada ao fracasso, enquanto sua "vestimenta fálica" 
se deteriora. 
Não há subversão da função de órgão pela função fálica 
como no sintoma de conversão histérica. O esquizofrênico tem que 
lidar com <l>o; seus fenômenos de corpo, de coloração hipocondría­
ca, são acompanhados por uma grande angústia. Ele tenta localizar 
o gozo em um órgão, suas práticas de verificação para cifrá-lo não 
fazem realmente limite. Ele tenta construir um sintoma. 
Atualmente, deve-se temer a automutilação ou o suicídio. 
1 1 1 . VITOR, O ENRIJECID05 
Victor tem dezenove anos. É um rapaz frágil com um 
andar completamente particular, de aparência robótica. Mantém-se 
muito reto, a testa inclinada, a cabeça ligeiramente reclinada para o 
lado. Anda de maneira sincopada, dobrando muito pouco os joe­
lhos, jogando as pernas para frente esboçando deslizamentos para 
os lados dos pés ligeiramente descolados do chão. 
Quando fala, olha frequentemente de viés para o interlo­
cutor. Na maior parte do tempo, não o olha de forma alguma. Sua 
história patológica começa na infância, por volta de dez anos. A 
família vivia há muitos anos no estrangeiro, onde o pai ocupava a 
função de diretor de uma fábrica. Viviam separados da população 
local, protegidos por guarda-costas que acompanhavam o jovem 
Victor e sua irmã à escola. 
136 
Victor, totalmente isolado de seus colegas de classe e 
quase mudo em casa, manifestava-se por meio decrises de violên­
cia destruidora dirigida aos objetos de seu quarto. Uma recusa obs­
tinada em continuar a frequentar a escola acarretou a decisão do 
retorno da família para a França, onde retomou a escolaridade. 
Seus estudos secundários ocorrem, então, com resultados 
bastante bons, contrastando com seu isolamento persistente. Não 
fez amigos. Falava pouco em casa e ainda menos no colégio. 
Psiquiatras são consultados repetidas vezes. Seus pais se 
opõem a que tome remédios. Por volta de quatorze anos e de novo 
aos dezoito, queixa-se de ser objeto de zombarias da parte de seus 
colegas do colégio. 
Repete o terceiro ano do ensino médio, sua escolaridade 
tendo sido interrompida repetidas vezes por sua recusa em ir às 
aulas. As ideias de perseguição concernindo a seus colegas de colé­
gio não parecem ser organizadas em um delírio sistematizado: 
pensa que todos zombam dele. 
Um tratamento de curta duração é então realizado com 
um terapeuta behaviorista que tenta reeducar os distúrbios da mar­
cha; depois, começa uma terapia familiar reunindo Victor, seus pais 
e sua irmã mais velha. Os sentimentos de perseguição de Victor se 
amenizam, com a paranoia de seu pai ocupando o primeiro plano 
das sessões. Victor, tomando cada vez mais a palavra para participar 
das críticas ao comportamento de seu pai, é então encaminhado a 
uma psicanalista. Espera das entrevistas um apaziguamento de suas 
dificuldades relacionais. Explica que tem, de fato, demasiada ten­
dência a pensar que seus colegas zombam dele, "ao passo que talvez se 
trate de uma simples brincadeira". 
Durante suas primeiras sessões, dedica-se a fazer um resu­
mo mecânico de suas atividades dos dias anteriores, ressaltando 
seus bons resultados escolares e suas preocupações quando suas 
notas são ruins. Insiste sobre suas performances relacionais. Quer 
mostrar os progressos de sua capacidade em fazer trocas com seu 
1 37 
próximo: refeição feita em comum no restaurante universitário, tro­
cas de brincadeiras, exposições orais no anfiteatro, trabalhos em 
grupo. Tenta fazer amigos. Trata-se sempre de amigos de seu sexo. 
Victor não fala com as garotas e nunca evoca sua existência. 
O computador ocupa todo seu lazer. Aparelhagem ade­
quada para evitar o uso da fala, a internet lhe permite enviar, ao 
outro lado do mundo, mensagens das quais só a comunicação o fas­
cina, pois o conteúdo parece lhe ser indiferente. 
Evoca muito pouco seus sentimentos, exceto sua raiva em 
relação a seu pai, que "se arrasta pela casa em vez de procurar trabalho} que 
amola todo mundo com sua perseguição
} 
que é insuportável". De fato, o pai 
pediu demissão de seu trabalho no momento de um conflito com a 
direção geral de sua empresa, durante o qual parece ter se mostra­
do muito rígido, tornando a ruptura irremediável. Acredita ser, 
desde então, perseguido, vigiado, seguido e até mesmo ameaçado 
por capangas dessa empresa. Victor se gaba de lhe dizer tudo o que 
pensa e de apoiar sua mãe quando o casal briga. "É um vagabundo n. 
O desemprego do pai e suas reações depressivas transformaram o 
equilíbrio familiar e o destituíram de sua posição de tirano. Uma 
crise, durante as férias no campo, deixa Victor muito impressiona­
do: o pai, acreditando que a casa estivesse cercada e a família em 
perigo, tentou proibir qualquer saída de casa durante vários dias. '54 
perseguição é a doença da família} mas eu estou tentando me corrigir}}. 
Durante várias semanas, Victor teve, repetidas vezes, aces­
sos de raiva durante a refeição no restaurante universitário: não 
aceita as brincadeiras dos colegas e derruba alguns objetos. 
Uma queixa - teve um problema nas pernas depois de um 
longo passeio em família - permite que eu me informe sobre suas 
dificuldades para andar. Ele me tranquiliza: seu terapeuta (behavio­
rista) o ajudara muito mandando-o fazer exercícios, "voltas em torno 
do hospital obrigando-se a dobrar os joelhos}}. Antes, andava "com as pernas 
completamente duras}}. De fato, ele as dobra, nesse momento, muito 
ligeiramente. 
138 
Começou a ficar assim por volta dos quatorze anos; 
depois de alguns meses, seu andar suavizara-se, mas no último ano 
do colegial ele havia novamente "se tornado muito duro". Fiz com 
que observasse que essa dificuldade para andar ocorrera em um 
momento em que estava mal; ele concordou: ((Foi quando eu me 
sentia perseguido ". 
Começou a sessão seguinte declarando: ((Eu andava assim 
porque tinha medo que me chamassem de bicha". Não disse mais nada 
sobre isso, exceto que a ideia lhe viera sem que ninguém o tivesse 
assim insultado. ((Presto muita atenção quando ando, penso nisso o tempo 
todo". Evocou novamente esse andar nas sessões seguintes, entran­
do no consultório com um andar cada vez mais flexível, depois 
quase normal, mantendo, contudo, uma certa rigidez do tronco. 
Foi na idade em que a puberdade transforma o corpo que 
Victor apresentou esse andar de autômato. Podemos supor que, em 
resposta às excitações sexuais, no lugar da significação fática - não 
permitida pela ausência do enodamento edipiano de sua psicose 
infantil, Po -, a rigidez do corpo tentou fazer limite à desagregação 
do imaginário, ao abismo de <l>o. 
Victor luta contra o empuxo-à-mulher. Teme que o 
tomem por homossexual. Por intermédio dessa ereção de todo o 
corpo, sustentada por uma atenção estafante, ele se endireita para se 
opor à feminização. 
O fato de Victor ter podido dizer algumas palavras sobre 
essa feminização e que isso tenha bastado para que sua dolorosa 
mostração fática cedesse, não significa que a significantização faça 
barragem à invasão de gozo; isso significa que, se uma estabilização 
provisória tornou-se possível atualmente, foi porque o pai, até 
então presente e absoluto demais, foi destituído de sua autoridade 
pelo desemprego e pela evidência de seu delírio. É isso que permi­
te a Victor ocupar o lugar do único indivíduo cujo espírito é racio­
nal e, a esse título, beneficiar a família com seus conselhos pautados 
na lógica, situando-se assim mais perto de seu ideal de técnico em 
1 39 
informática - situação fortalecida pelos estudos que empreende 
nessa especialidade. Ele pode, então, renunciar a essa contração 
voluntária de seus músculos e ao seu andar "viril", não sendo mais 
assolado por invasões do gozo deslocalizado. 
IV. O INVENTOR DO MÉTOD06 
Aos quarenta e oito anos, um professor de ginástica, que 
exerce sua profissão com interesse e prazer, foi levado a tirar uma 
longa licença por doença após um episódio de dores que se torna­
ram mais agudas desde o que ele chama de "o incidente" ou "o aci­
dente". Este incidente consistiu em uma queda, sem gravidade, no 
decorrer da qual ele caiu para trás arrastando consigo um de seus 
alunos, sobre o corpo do qual ele aterrissou. 
Essa não é, entretanto, a razão que o levou à consulta. 
Queixa-se, em primeiro lugar, ao enfermeiro que recebeu seu pedi­
do por telefone, de uma retomada importante de uma atividade oní­
rica que lhe parecia, ao mesmo tempo, preocupante e insuportável. 
Tinha a ideia que seu inconsciente tinha algo a lhe dizer, mas não 
conseguia saber o quê sem a ajuda de um analista. 
Desta vez, decidira encaminhar-se a um analista freudiano, 
resultando em sua escolha de se dirigir à Escola da Causa Freudiana. 
Já fizera, de fato, uma análise de oito anos com um analista junguia­
no. Esse tratamento interrompera-se com a morte do terapeuta. 
Tentara, em seguida, por dois anos, continuá-lo com uma mulher, 
mas parecera-lhe que com ela esta iniciativa não poderia chegar a 
nada. 
Pelo primeiro terapeuta devotava uma grande admiração, 
observando, apesar disso, uma certa insatisfação quanto à sua 
maneira de interpretar os sonhos. Sobre os outros resultados obti­
dos pela análise, não consegui obter outras informações além da 
contribuição de um bem-estar que o satisfazia. 
140 
Vive sozinho. Mantém relações sociais regulares com sua 
irmã gêmea e seu cunhado, e sempre se deu bem com essa irmã. 
Tem também um irmãodez anos mais velho, com quem tem pou­
cas oportunidades de encontro. 
Não tem laço afetivo durável com uma mulher. Teve opor­
tunidades de encontrar algumas delas e de manter relações sexuais, 
mas estas não lhe fazem falta; declara não ter tempo para isso. 
Suas outras relações são com colegas, esportistas como 
ele, em particular um casal de jovens professores com quem se dá 
bem e a quem ele dá conselhos. Pratica dança com eles, e treina para 
o esporte com o homem. É muito expansivo e relaciona-se facil­
mente - ultimamente com padres de sua paróquia, com os quais 
discute a Bíblia -, mas suas relações são, na maior parte do tempo, 
tanto superficiais quanto ocasionais. 
Dentre os acontecimentos notáveis de sua vida figura o 
falecimento de sua mãe, quando tinha onze anos. Diz nunca ter 
feito o luto, apesar de sua terapia. O falecimento acidental recente 
de seu sobrinho adolescente - o ftlho de sua irmã - também o 
tocou muito. Ao ponto que fez disso o início de suas preocupações 
corporais e de suas dores. Não falou disso com ninguém, pois, 
nesse momento, interrompera suas entrevistas com sua terapeuta. 
No momento de nosso primeiro encontro, as dores cor­
porais são imediatamente evocadas: ele me assinala de cara que 
não posso apertar sua mão muito forte, pois com isso corro o 
risco de lhe ocasionar dores em todos os músculos dos braços e 
peitorais. Faz questão de que eu saiba disso e me lembrará disso 
eventualmente. 
Essas dores são sempre descritas muito precisamente nos 
termos da anatomia; concernem principalmente aos músculos das 
costas, dos membros ou aos músculos pélvicos. São também 
nevralgias diversas ou dores articulares. O paciente consulta nume­
rosos osteopatas ou fisioterapeutas que nunca o satisfazem, mas 
cujos nomes circulam nos meios do esporte. 
1 41 
Muito embora não acredite na origem médica dessas 
dores, tem uma teoria precisa no que diz respeito a sua ocorrência. 
Tem a ideia muito precisa de que essas dores se desenvolveram por 
causa do fracasso de sua "pesquisa". Não está longe de pensar que 
são os "sonhos" que perturbam o que ele chama de sua "obra". 
Começara, de fato, desde a morte de seu analista junguia­
no, a desenvolver o que chama de um treinamento, um método, ou 
ainda uma pesquisa. Tal pesquisa veio na sequência de sua "análise". 
Trata-se de uma sequência de movimentos que inventou e 
que pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite - isso pode durar 
de uma a duas horas e apresenta, para ele, uma virtude de alivio e 
de contenção das dores. 
Ora, há algum tempo, essa pesquisa não dá mais resulta­
dos e é aí que reaparecem as dores. Retoma então para a análise, 
invadido por sonhos que são essencialmente pesadelos ou que com­
preendem fantasias de exibição de caráter homossexual. 
Retoma a análise com a ideia de encontrar nela o que ele 
chama de uma "conversão", isto é, poder produzir aí o equivalente 
de suas práticas corporais a partir do saber contido em seus sonhos. 
Espera poder fazer com isso a invenção certa, e não duvida de que 
eu saberei me manter no lugar que ele me indicará. Comunica-me 
qual deve ser a posição do analista e insiste, particularmente, no fato 
de querer um analista que não hesite em infringir as regras. 
Asseguro-lhe que ele veio ao lugar certo. Tratar-se-ia de um caso de 
histeria? Ou de uma psicose tamponada sucessivamente por uma 
prática de terapia e depois por uma invenção do sujeito destinada a 
localizar o gozo sobre o corpo - apoiando-se sobre o imaginário 
desse corpo e em uma simbolização escorada pelo reconhecimento 
social do exercício da profissão de professor de ginástica? A segun­
da hipótese tem nossa preferência, ainda que esse homem esteja 
perfeitamente integrado no tecido social. 
142 
Notas 
* 
Relatores: Roger Cassin, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen, Bernard 
Porcheret e François Sauvagnat. 
1 Parte redigida por Jean-Louis Gault. 
2 N.R.: RMI (Revenu minimum d'insertion). Trata-se de um benefício oferecido 
pelo estado francês às pessoas sem recursos. Foi substituído em 2009 pelo RSA 
(Revenu de solidarité active), de caráter mais amplo. 
3 N.R.: ao pé da letra "a toda crina", com toda energia, a todo vapor. Podemos 
observar ainda a homofonia existente entre "crinl' e o verbo "craindre" (temer). 
4 Parte redigida por Bernard Porcheret. 
5 Parte redigida por Roger Cassin. 
6 Parte redigida por Pierre-Gilles Guéguen. 
143 
FENÔMENOS CORPORAIS PSICÓTICOS: 
AS TRADIÇÕES PSIQUIÁTRICAS E 
SUAS PROBLEMATIZAÇÕES POR LACAN* 
De algum modo, a questão das neoconversões é uma ques­
tão clássica, na medida em que se colocou progressivamente no fim 
do século XIX para diferenciar distúrbios histéricos puros e diver­
sas somatizações ligadas a um quadro psicótico - excluímos aqui os 
eventuais fenômenos psicossomáticos dos quais se sabe, no entanto, 
que não são raros. A noção freudiana de conversão histérica desta­
cou-se, de um lado, a partir dos avanços neurológicos da escola de 
Charcot - possibilidade de diagnosticar lesões neurológicas a partir 
de sinais; por exemplo, o sinal de Babinsky, etc. - e, por outro lado, a 
partir da limitação da entidade histérica exigida pela corrente kraepe­
liniana, colocando fora do jogo a noção de psicose histérica desenvol­
vida no fim do século XIX, que incluía a paranoia histérica, a demên­
cia histérica, a melancolia histérica, a histero-epilepsia, etc. 
A. Hipocondria delirante mal localizada como testemunho de Po 
A questão da diferenciação entre hipocondria psicótica e 
sintoma histérico de conversão foi levantada, repetidas vezes, por 
colegas 1• Parece útil distinguir aqui os casos de hipocondria mal 
localizada, e diferenciá-los dos casos em que o órgão aparece como 
um verdadeiro alvo imutável (ver rubrica seguinte: <l>o) . 
A hipocondria "indeterminada" - que vai de um senti­
mento de mal-estar a uma sensação dolorosa, mas sempre associa-
145 
do a uma indeterminação intolerável - era considerada por um dos 
maiores teóricos dos delírios crônicos, Bénédict Motel (1 850), 
como o fenômeno elementar psicótico por excelência, que determi­
nava secretamente o conjunto dos distúrbios delirantes. Essa con­
cepção foi retomada como um dos dois tipos de distúrbios - afeto 
de perplexidade ou hipocondria - anteriores ao aparecimento do 
delírio de relação para os autores germanófonos, que tentaram deli­
mitar a paranoia a partir de mecanismos elementares mínimos - iní­
cio dos anos 1 890. Freud a evoca repetidas vezes, principalmente a 
propósito de Schreber - "parece-me que a hipocondria tem a 
mesma relação com a paranoia que a neurose de angústia tem com 
a histeria" -, e Lacan debaterá isso com Macalpine. Essa noção é 
ainda completamente familiar a alguns psiquiatras contemporâneos 
- nos "pródromos" e nos "vanguardistas" da Escola de Bonn, por 
exemplo. Parece razoável colocar os fenômenos corporais descritos 
em relação aos efeitos catastróficos da incursão de Um-pai. 
B. Dismorfofobia psicótica: <l>o 
Ao contrário da rubrica anterior, constata-se nesses casos 
uma focalização "precisa" em um ou vários órgãos, dado como des­
truído, morto, monstruoso, etc. Foi apenas em um segundo 
momento que a dismorfofobia, termo forjado por Morselli (1 886) 
- que pensava integrá-lo na série das fobias - deixou de ser consi­
derada no caso de adolescentes neurastênicos e perfeccionistas, 
para ser considerada no caso de sujeitos claramente psicóticos, que 
pode ser comparada, ademais, com fenômenos de negação de 
órgãos. Digamos que, bastante frequentemente, o fracasso da cas­
tração simbólica se manifesta aqui de forma bruta, o que tende a 
fazer considerar esse tipo de fenômeno sob o ângulo do <f>o descri­
to por Lacan e, principalmente, do empuxo-à-mulher: "Na falta de 
poder ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher 
146 
que falta aos homens", o que Lacan descreveu em 1 9733 como uma 
espécie de movimento de retorno: <l>o --+ A Mulher. 
Toda uma série de fenômenos pode ser descrita aqui, 
fenômenosem relação aos quais o problema é saber, como observa 
Lacan: 
- se <l>o é o efeito (em primeiro grau), no imaginário, do 
apelo vão feito no simbólico à metáfora paterna; 
- ou se <l>o é o produto (em segundo grau) da elisão do falo 
reduzida à hiância mortífera do estádio do espelho, a fim de resol­
vê-la. 
Neste último caso, tratar-se-ia (novamente) de uma solu­
ção que retomaria a simbolização primordial efetuada pela mãe 
(Desejo da Mãe/sujeito) . 
Deve-se constatar que, longe de conceber o "empuxo-à­
mulher" como uma feminização automática, os resultados são 
variados, indo do sentimento delirante de ser acusado de homosse­
xualidade a um franco "tornar-se mulher" transexualista, passando 
por tentativas da ordem de uma supercompensação delirante - caso 
de Otto Gross, em que a hipersexualidade "genital" apoia-se na 
veneração do culto de Ishtar, e das diversas elaborações "genitais" 
de Wilhelm Reich - às vezes bem tamponadas por elaborações do 
tipo aparelhamento do corpo. 
A segunda eventualidade descrita por Lacan - resolver a 
elisão do Nome-do-Pai em posição fálica pelo <l>o - deve também, 
em nossa opinião, ser compreendida como uma tentativa de suplên­
cia - "a fim de resolvê-la" - centrada na função de um órgão como 
"tapa-buraco" da foraclusão. 
147 
C. Fenômenos corporais esquizofrênicos: R/ /S/ /1 (Real // Simbólico // Imaginário) 
Uma das autonomizações mais "brutas" das dimensões 
imaginária, real e simbólica é provavelmente a catatonia, com os 
fenômenos motores de catalepsia, flexibilidade cerosa, impulsões 
motoras, estereotipias e, quanto a eventuais proferições verbais, a 
verbigeração ou salada de palavras. O diagnóstico diferencial histe­
ria/ catatonia é uma questão clássica que foi objeto de um debate 
em torno da síndrome de Ganser, a partir de 1 898. A fixidez dos 
distúrbios, seu caráter não mobilizável, sua ocorrência segundo um 
"processo", são classicamente evocados como características da 
catatonia, mas os autores variam consideravelmente quanto à dura­
bilidade dos distúrbios4• Lacan dá conta disso, em 1 959, em termos 
de regressão tópica ao estádio do espelho; os termos "deixar cair" 
ou "largar", "abandonar" (laisser-tomber) foram também evocados. 
Tais sintomas indicam que a cadeia significante praticamente não 
toca o gozo. No entanto, essa ausência de enodamento "neurótico" 
entre S (Simbólico) e I (Imaginário) não impede que modos parti­
culares de suplência sejam possíveis. Fenomenologicamente, isso 
vai do "está tudo bom" característico da paciente descrita por Karl 
Landauer5 às personalidades "as if" de Helene Deutsch, nas quais as 
identificações não encontram nenhuma escora da ordem da fanta­
sia, passando pela equivalência esquizofrênica entre representações 
de coisas e representações de palavras, em Freud. 
D. Neoconversão e problemática RSI 
Discutir a questão das neoconversões "não redutíveis pela 
interpretação freudiana clássica" implica, por um lado, discutir 
modos de formação sintomáticos, isto é, tentativas de solução à ine­
xistência do Outro6 da parte de sujeitos psicóticos; implica, por 
outro lado, discutir sintomas que colocam em jogo o corpo. 
148 
Pode-se acrescentar que os modos de formação de sinto­
mas aqui considerados devem ser distinguidos do sintoma de con­
versão freudiano como "condensação", enquanto metáfora, isto é, 
operação de imposição de sentido - f (S' /S) S = S(+)s - operada 
pelo significante, subentendida por uma subtração de gozo (- tp) . 
De acordo com os termos de � terceira", "o sintoma é irrupção 
dessa anomalia na qual consiste o gozo fálico, na medida em que aí 
se mostra e desabrocha essa falta fundamental que qualifico de não­
relação sexual". Ali onde, como escreve Lacan em RSf, diante do 
embaraço que tem com o falo, o pequeno Hans inventa para si 
"toda uma série de equivalentes para esse falo ( . . . ) diversamente 
ostensivos", é forçoso constatar que tal recurso ao efeito de senti­
do não é possível para o sujeito psicótico. No entanto, em vez de 
supor (como faz Freud) as dimensões do Real, do Simbólico e do 
Imaginário enlaçadas pela "realidade psíquica"8, Lacan propôs, no 
final de RSI, "pluralizar" os Nomes-do-pai: "Nomeação do imagi­
nário como inibição, nominação do real como angústia, nominação 
do simbólico, flor do próprio simbólico, como sintoma."9 A etapa 
seguinte, com o sinthoma, permitiu-lhe colocar a questão dos modos 
pelos quais, nos sujeitos psicóticos, suplências ao Nome-do-Pai 
podem estar articuladas e enlaçadas. Os casos apresentados permi­
tem colocar em série a maneira pela qual, diante do abismo de sig­
nificação que se abre, convocando aí o corpo, diferentes respostas 
são tentadas. 
Todos são confrontados em alguma medida a <Do, porém 
com variações quanto à severidade dessa confrontação. Assim, ao 
passo que o complexo do cabelo é a ocasião, para o paciente, de se 
entregar a uma elaboração significante que parece ter-lhe fornecido 
uma espécie de gnomon de seu desejo, ali onde seu ideal musical o 
abandona, o homem dos polegares que estalam parece entregue ao 
insondável de um gozo que retorna sem mediação. O inventor do 
método de ginástica parece, graças a isso, tamponar muito bem as 
inquietudes que seu corpo lhe causa; contudo, efeitos de significa-
149 
ção sobrevêm - por meio de sonhos - e temperam as entrevistas. 
Quanto a Victor, o enrijecido, ele consegue fazer com que seu sin­
toma de rigidez ceda frente à oferta da palavra, seja colocando-se 
sob o significante ideal da "conduta sensata", seja descompletando 
o pai gozador. 
1 50 
Notas 
* 
Parte redigida por François Sauvagnat. 
1 DEFFIEUX, J.-P. "La conversion d'un siecle à l'autre". In: La Cause freudienne, 
n.38. Revue de psychanalyse. Paris: École de la Cause freudienne, p.27. 
2 FREUD, S. (191 1) "O Caso Schreber". In: Obras Completas, v.10, São Paulo: 
Companhia das Letras, 2010, p.13. 
3 LACAN, ]. (1 973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.467. 
4 A versão muito deficitária que Henri Ey dá disso ("hebefreno-catatonia") não é, 
de forma alguma, objeto de um consenso. 
5 LANDAUER, K. "Spontanheilung einer Katatonie", Int. Zj Ps., 1 926. 
6 MILLER, J.-A. (1 997-1998) "Equívocos sobre el Otro". In: Elpartenaire-sínto­
ma. Buenos Aires: Paidós, 2008, p.235. 
7 Cf. Ornicar?, n.2, p.104. 
8 FREUD, S. (1924) "A perda da realidade na Neurose e na Psicose". In: Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XIX, Rio de 
Janeiro: Imago, 1 976, p.229. 
9 Cf. Ornicar?, n.S, p.66. 
15 1 
A NEOTRANSFERÊNC IA 
Seção Clínica de Angers* 
lAlÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA NAS PSICOSES 
Por que "neotransferência"? Seria o neométodo do qual fala­
va Freud para as psicoses? "É preciso desistir de tentar com os psi­
cóticos nosso método terapêutico", dizia em 1 938, "até o momen­
to em que descobrirmos, para esse tipo de doentes, um método 
mais adaptado"1• 
Em 1 958, Lacan estava no seguinte ponto: "Dizer o que 
podemos fazer nesse terreno, seria prematuro, porque seria ir, 
agora, 'além de Freud"'2• Em 1 977, Jacques-Alain Miller lançava 
novamente a questão: "Quem explicará a transferência do psicó­
tico?"3. 
Então, por que "neo"? O que há de novo em 1 998? 
Certamente, a questão não é mais essa de recuar diante da 
psicose. Depois das escansões das Jornadas da Escola, em 1 983 e 
1 987, e do Encontro Internacional de Buenos Aires, em 1 988, 
alguns efeitos da prática com as psicoses foram publicados em Le 
conciliabule d'Angers, e uma nova clínica, uma clínica continuísta das 
"neopsicoses", em A Conversação de Arcachon. 
É preciso entender que a clínica das neopsicoses criou 
uma "neoposição" do analista? Ou foi a neoposição do analista que 
criou uma "neotransferência" nas psicoses? 
Partamos do princípio de que a oferta dá forma à deman­
da, e que a oferta do psicanalista ao psicótico - nova ou não -
pode instituir uma nova forma de demanda e, portanto, uma neo­
transferência. 
1 55 
I.HIPÓTESE DE LALÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA 
Façamos a seguinte hipótese: a criação e o uso de uma 
"lalíngua da transferência" como neotransferência nas psicoses. 
Tal hipótese parte da constatação de que o par s'!}eito 
suposto saber - transferência funcionaria de outra maneira nas psico­
ses. Lacan explicita, de fato, em seu Seminário Mais, ainda: "Se 
enunciei que, a transferência, é o sujeito suposto saber que a moti­
va, isto não é senão aplicação particular, especificada, do que está 
aí por experiência"4• Ora, o sujeito suposto saber não pode ser, 
aqui, o que motiva a transferência, já que o saber já está ali, do 
lado do psicótico. 
Propomos, então, examinar o par lalíngua-transferência, 
enunciando, à maneira de Lacan que, se é lalíngua que motiva a neo­
transferência, [isso] seria apenas aplicação particular, especificada, 
da prática com as psicoses, onde lalíngua da transferência aparece 
como novo artefato para tecer o laço social. 
Partamos de uma sequência extraída do caso de uma psi­
cose mascarada por uma deficiência intelectual leve, que Jean 
Lelievre expôs em seu Mémoiré da Seção Clínica de Angers: 
'Você sabe falar em Donald?'� perguntou a garotinha. "Não!'� res­
pondeu ele. Cuspindo e babando cada vez mais, ela começou, então, a matra­
quear: "Quack! quack, quack! quack-quack-quack! '� "O que tenho que 
escutar?" perguntava-se ele, desapontado. Continuando a matraquear, a crian­
ça apontava o relógio de pulso com o dedo. "São quacktro e dez" surpreendeu­
se ele ao dizer, matraqueando por sua vez. Isso fez com que ela risse. A língua 
Donald acabava de ser inventada. 
Desde essa sessão, raros eram os momentos não consagrados à práti­
ca e à aprendizagem dessa língua. O Donald tornara-se a língua da transferên­
cia. Seu uso ultrapassava, aliás, o âmbito das sessões, invadindo a casa da famí­
lia e a instituição onde a garotinha crescia. 
Façamos aqui duas observações preliminares: por um lado, 
a língua Donald aparece como uma criação linguageira da garotinha 
1 56 
- uma coisa muito dela, diria Michel Leiris6 - e encarna "laiíngua" 
que Lacan escreve em uma única palavra; por outro lado, a apren­
dizagem e a prática da língua Donald pelo par criança-terapeuta 
introduzem a necessidade de "lalíngua da transferência" para forjar 
o laço social. 
Mas, a prática com as psicoses deve, necessariamente, pas­
sar pela criação e pela prática de uma lalíngua da transferência? 
Mesmo em se tratando de psicoses, nada impede de acre­
ditar no inconsciente. Como ressalta Lacan: "É porque há o incons­
ciente, isto é, lalíngua, no que é por coabitação com ela que se defi­
ne um ser chamado falante, que o significante pode ser chamado a 
fazer sinal, a constituir signo. Entendam esse signo como lhes agra­
dar, inclusive o thing do inglês, a coisa"7• 
Aproximemos esse uso de lalíngua da transferência ao uso 
da língua estrangeira, fora de sentido, utilizado por Daniele Rouillon 
no caso intitulado "Les bienjaits du hors-sens''6 (Os benefícios do fora 
de sentido), do Conciliabule d'Angers. Em resposta à língua das cifras 
praticada por seu paciente: "Saint Gobain 60 1 + 0,2; Saint Louis 601 
+ 2 '� o analista pratica a língua estrangeira: '!.4nd what do you SC!J now? 
_ Wel� I SC!J that white is not black. " Aqui, a prática de lalíngua não pro­
voca o riso do paciente, mas certo apaziguamento. 
Aproximemos também esse uso de lalíngua da transferên­
cia da língua às cegas, utilizada por Gabriel Lombardi em sua notá­
vel contribuição intitulada "Cure d'un mutique"9, do mesmo volume. 
Diante do silêncio do paciente, entrecortado por um "eu vejo pon­
tinhos", o analista pratica, sem o travessão da réplica, a língua às 
cegas: 'Decidi, então, falar com ele, eu mesmo, às cegas, (. . . ) sem o horizonte 
de uma resposta". 
Em todos esses casos clinicas, vê-se bem que o que moti­
va a neotransferência não é o sujeito suposto saber, mas lalíngua 
como o que permite a um significante poder fazer signo. E fazer 
signo de quê? - fazer signo de algo que está fora do sentido: ono­
matopeia, algarismos, traço. 
1 57 
Afirmaremos, portanto, que é pelo significante enquanto o 
que pode fazer signo, e não pelo sentido, que se joga a partida da 
neotransferência como vetor do tratamento. 
1 1 . TEORIA DE LALÍNGUA 
Evoquemos agora o artigo intitulado "Teoria d'alíngua"10, 
de 1 974, em que Jacques-Alain Miller explora a palavra iaiíngua cria­
da por Lacan dois anos antes. Nesse artigo, a psicanálise é um modo 
de abordagem de iaiíngua, e ialíngua seria inaugural, da mesma 
maneira que o inconsciente estruturado como uma linguagem. 
Em um artigo mais antigo, intitulado "U ou 'não há meta­
linguagem"' 1 1 , Jacques-Alain Miller já desenvolvia o termo precur­
sor de ialíngua: a língua U - língua única e última. Nesse artigo, a psi­
canálise não é, senão, a travessia da língua única. 
Poder-se-ia dizer que Freud toma seu ponto de partida via 
pulsão, Lacan via linguagem e Jacques-Alain Miller via iaiíngua. 
A. O que é lalíngua? 
"Laiíngua é feita de qualquer coisa, do que está por ai, 
tanto nas áreas de serviço quanto nos salões", explicita Miller em 
1 97 4. Nesse sentido, temos ialíngua Donald de Ophélie, feita de 
onomatopeias que estão por ai nos desenhos animados, e iaiíngua 
dos algarismos, do paciente de Daniele Rouillon, feita da cotação da 
bolsa que ele ouve no rádio. 
''A língua é essencialmente aluvial, feita dos aluviões que se 
acumulam a partir dos mal-entendidos e das criações linguageiras de 
cada um'm, acrescentará Miller, em 1 996, em A fuga do sentido. Tal 
sedimentação se faz sobre as marcas deixadas pelos outros sujeitos. 
1 58 
1 . Un beau gazouillis (Um belo gorjeio)13 
Para tomar um exemplo literário, citemos "presbitério", de 
Colette1\ palavra que passeava pelo jardim de sua infância e da qual 
ela faz o nome científico de um pequeno caracol. A criança se cha­
mava "Bel-Gazou", como Un beau gazouillis, belo gorjeio. Não será 
isso lalíngua? Vejamos o exemplo: 
A palavra "presbitério" acabava de cair em meus ouvidos sensíveis e 
causar aí uma devastação. "É, certamente, o presbitério mais alegre 
que já conheci", dissera alguém. Eu recolhera em mim a palavra mis­
teriosa, como se bordada com um relevo áspero, no começo, termi­
nando em uma longa e sonhadora sílaba. 
Ornada por um segredo e uma dúvida, eu dormia com a palavra e a 
levava para o meu muro. "Presbitério!" Jogava-a, por cima do teto do 
galinheiro e do jardim de Miron, para o horizonte enevoado de 
Moutiers. De cima do muro, a palavra soava em anátema: "Vamos! 
Todos vocês são presbitérios!", gritava eu aos banidos invisíveis. 
Um pouco mais tarde, a palavra perdeu seu veneno, e percebi que 
"presbitério" podia bem ser o nome científico do pequeno caracol lis­
trado de amarelo e preto. 
Uma imprudência pôs tudo a perder _"Mamãe! Olhe o lindo peque­
no presbitério que encontrei!" Calei-me tarde demais. Tive que apren­
der o que fazia tanta questão de ignorar, e chamar "as coisas pelo seu 
nome" _"Um presbitério, veja só, é a casa do padre". 
Lutei contra a violação, abracei os farrapos de minha extravagância, 
quis obrigar o padre a morar na concha vazia do caracolzinho chama­
do "presbitério". E depois, cedi. Rejeitando os fragmentos do caracol­
zinho esmagado, recolhi a bela palavra, subi até meu terraço estreito 
sombreado pelos velhos lilases. Batizei-o de "Presbitério", e fiz-me 
padre sobre o muro. 
2. A integral dos equívocos 
"Uma língua entre outras não é nada além do que a inte­
gral dos equívocos que sua história deixou persistir"15, escreve 
I ,acan em "O aturdido". Depois, acrescenta em Mais, ainda: 
159 
"Lalíngua é o que me permitiu, ainda há pouco, fazer de meu Sz uma 
questão e me perguntar - será que é bem deles (d'euxys que se trata 
na linguagem?"17 O que Jacques-Alain Miller traduz em 1 974 por: 
''A homofonia é o motor da lalíngua"18• 
E, de fato, é pela homofonia entre "quack" e "quatro" que 
o "quacktro e de:( do terapeuta aparece de surpresa, no caso de 
Ophélie, eque lalíngua Donald, lalíngua do som, encontra-se inven­
tada como lalíngua da transferência. É uma operação ao modo de 
Michel Leirís e, como diz Jacques-Alaín Miller em 1 996, "integral­
mente sujeita ao equívoco"19• 
B. Que relação lalíngua mantém com a linguagem? 
Lacan distingue em O Seminário Mais, aindd-0, um saber sobre 
lalíngua que cabe à linguagem, e um saber-fazer com lalíngua testemu­
nhado pelo inconsciente. É o que Jacques-Alain Miller1 traduz em 
1 974 por: "a linguagem não é lalíngua, ( . . . ) ela é secundária em rela­
ção à lalíngua, ( . . . ) ela é o resultado de um trabalho sobre lalíngua" e 
também por: "não há sujeito suposto saber na lingua, não há cata­
lepse da lingua, não há domínio da lingua". 
1 . lalíngua rebelde e indomável 
Lalíngua não é domável porque não há em lalíngua dois ditos 
que sejam parecidos, "só há diferenças". Essa é uma forma de levar 
a sério a tese de Saussure, isto é, que o sentido primeiro do significan­
te está perdido para sempre: pequeno s desaparece sob grande S. 
Bel-Gazou experimenta isso depois de ter brincado com a 
palavra "presbitério '� insere-a no discurso da ciência e depois no dis­
curso comum: '/1 palavra perdeu seu veneno". 
Como fazer valer essas diferenças? No campo da lingua­
gem, a articulação significante St-Sz desencadeia os efeitos de sen-
160 
tido, há significação aos borbotões. O sujeito é identificável. No 
campo de lalíngua, antes, portanto, de colocar ordem nos significan­
tes, tem-se uma cadeia significante sem efeito de sentido. É o mate­
ma SI I s de A fuga do sentido22• 
É a experiência que faz o paciente de Daniele Rouillon 
quando os números da bolsa se alinham uns ao lado dos outros, 
sem efeito de sentido. O sujeito se encontra separado da cadeia sig­
nificante, fora da cadeia. Há um saber-fazer com lalíngua, mas não 
um saber sobre lalíngua. 
2. lalíngua inaugural e o 
inconsciente estruturado como uma linguagem 
É aqui que aparece a falsa separação da qual fala Jacques­
Alain Miller em "Produzir o sujeito?"23: o sujeito está fora do sen­
tido, separado da cadeia significante, ele surge do nada, é uma cria­
tura de significante; mas o sujeito deve também emergir do ser 
vivo, ele surge de seu primeiro estatuto de objeto, do objeto 
"causo" (causette/4 do desejo da mãe. 
Esta é a constatação que faz, por exemplo, certa educado­
ra, a propósito de um autista. "Em que língua é preciso falar com ele?'� 
perguntava-se. 'Vsei minha língua materna, sem me preocupar em saber se 
ele compreendia e sem esperar resposta. Isso durou dois anos. Seu olhar não cru­
zava o meu. Quando lhe jogava uma bola, ele não a devolvia. Uma manhã, 
enquanto eu lhe virava as costas, pediu-me uma bala, isso me causou o mesmo 
efeito que aquele que me causaria se o meu gato começasse a falar". 
Talvez seja preciso ouvir, nesse sentido, o que Lacan enun­
cia em o Seminário Mais, ainda: "Lalíngua nos afeta, primeiro, por 
tudo o que ela comporta como efeitos que são afetos. Se se pode 
dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é no 
que os efeitos de lalíngua, que já estão lá como saber, vão bem além 
de tudo que o ser que fala é suscetível de enunciar.m5 
1 6 1 
C. Qual relação mantém lalíngua com a pulsão? 
Voltemos a Freud e à articulação que faz Lacan no 
Seminário 1 1 entre a pulsão e a cadeia significante. 
Para Freud, diz ele, a pulsão funciona como uma cadeia 
significante, ordenada pela gramática. Essa cadeia contorna o obje­
to pulsional, mas não o atinge. A pulsão se caracteriza como sendo 
acéfala, diz-nos Lacan26• É, portanto, "um ser do tipo quod, cujo quid 
permanece misterioso, velado", explicita Jacques-Alain Miller7 em 
Le Conciliabule d'Angers - o quod quer dizer algo, mas não se sabe o 
que isso quer dizer. 
Em seu curso intitulado Silet, Jacques-Alain Miller faz da 
pulsão uma articulação entre a repetição e a transferência, isto é, 
uma repetição significante cujo produto é um gozo: ''A repetição 
como automatismo é equivalente a uma cadeia significante que, ao 
mesmo tempo, elude e designa o lugar central do real, que a trans­
ferência coloca em atom8• E ele propõe o seguinte esquema: 
oc automática 
transferência 
Portanto, se existe uma relação entre lalíngua e a pulsão, é 
via repetição e transferência: um gozo produzido pela cadeia signi­
ficante. Temos aí um esboço de lalíngua da transferência: uma cadeia 
significante de lalíngua, fora de sentido, que aparelha o gozo, dese­
nhando o percurso que vai do simbólico ao real. 
1 62 
1 . A verdade em ato, livre, desencadeada 
Se a cadeia significante de lalíngua produz um efeito de ver­
dade, é em ato. Como escreve Jacques-Alain Miller29, em 1 974: sem 
essa lalíngua, não haveria verdade; e a verdade nessa lalíngua não 
pode ser definida - ela está aí presente em ato, livre, desencadeada. 
Basta nos lembrarmos da raiva do Homem dos Ratos con­
tra seu pai e da cadeia significante que ele usa naquele momento -
"Du, Lampe, Tasche (lâmpada, toalha, prato) ( . . . )"30 - para nos dar­
mos conta disso que ela visa, sem, no entanto, atingir: o lugar cen­
tral do real. Isso que faz com que o pai diga que ele é um futuro cri­
nunoso. 
Daí a palavra "ir-a-sível (ire-a-cible)'"30, escrita em 1 989 por 
Jacques-Alain Miller em O banquete dos analistas: a raiva visa o objeto a. 
Da mesma forma, a repetição do ''V!j'o pontinhos" do 
paciente de Lombardi, sempre acompanhada de excitação, parece 
indicar o lugar de um real inacessível: "Ele não podia descrever nada des­
ses pontos, nem quantidade nem qualidade, somente a pequenez indescritível 
deles. Nada. Nenhuma palavra'JJ2• 
2. O insulto e o nome próprio de gozo 
Portanto, os efeitos de lalíngua vão bem além de tudo o que 
o ser que fala é suscetível de enunciar. E um dos primeiros efeitos 
de lalíngua é o afeto, em particular, a cólera. Ora, se a pulsão tem 
uma coloração vazia, é porque ela não atinge o objeto, ao passo que 
o afeto toma, aqui, a cor do objeto. 
Basta abrir um álbum de Tintiff3 para perceber que assim 
que o capitão Haddock entra em cena, animado pela cólera, jorran­
do uma série de insultos: "Vagabundo! Mercenário! Ectoplasma!", 
na realidade, todos os significantes falham ao tentar dizê-lo. 
Como diz Jacques-Alain Miller: "É, então, que se pode 
dizer qualquer significante, qualquer um que, na queda, na anulação 
1 63 
de todos os significantes - A barrado -, qualquer um que, ao esca­
par do desastre possa vir aí, como uma flecha, tentar ser o signifi­
cante do ser do Outro, ou seja, o significante do Outro como obje­
to pequeno a."34 
A fórmula do insulto que ele propõe pode, então, ser escrita: 
s {�} 
Enquanto o cap1tao Haddock, como bom neurótico, 
busca ainda seu nome de insulto depois da morte de Hergé, 
Ophélie, por sua vez, como psicótica, acerta na mosca: seu nome de 
insulto está ali desde o início. Desde a primeira sessão, ela cospe um 
insulto: "Parece uma lebre!", um nome de animal que produz um equí­
voco em lalíngua com o nome próprio do terapeuta, "Lelievre" 
["Alebre'l "Não estou contente de ter vindo vê-lo! Com o seu corte de cabelo1 
você parece uma lebre!". 
Ophélie faz sua entrada na cena analítica pelo ódio. Pelo 
insulto, ela atinge o kakon de seu ser no Outro. 
O ódio "é uma das vias para o ser", explicitaJacques-Alain 
Miller. Ele afirma igualmente: "o insulto vem quando não há mais 
palavra para dizê-lo, quando não se pode mais raciocinar, e quando 
se está sufocado pela cólera"35• 
É assim que se poderia ouvir também o "el Doctor esta 
cachuso "J6, que fazia rir o paciente de Gabriel Lombardi. Desta 
vez, não é de ódio que se trata, mas de ironia. É a função do sem­
blante que está aí desnudada: não-tola. 
1 64 
1 1 1 . ALGORITMOISl DA TRANSFERÊNCIA 
Se Freud concebeu a ideia de um método mais adaptado 
às psicoses, Lacan, contudo, não nos deu sua fórmula. 
O algoritmo da transferência, proposto por Lacan37 em 
1967, retoma a fórmula do inconsciente estruturado como uma lin­
guagem. Essa fórmula é apenasuma aplicação particular da expe­
riência. 
St Sq 
s(S1, Sz, ... , Sn) 
Qual seria, então, a fórmula da neotransferência como 
aplicação particular da prática com as psicoses? 
A. O significante da transferência e o Um encarnado em lalíngua 
O significante da transferência, ST, formalizado por Lacan 
na escrita do sujeito suposto saber, não é um significante qualquer. 
Seria o significante Um, ou significante-mestre, tal como Lacan o 
definiu no Seminário Mais, ainda: "Ele é a ordem significante, no 
que ela se instaura pelo envolvimento pelo qual toda a cadeia sub­
siste"38. 
Pode-se fazer referência, aqui, ao artigo de Jacques-Alain 
Miller intitulado "Matrice"39, que distingue a marca e o lugar do 
Tudo e do Nada, com um esquema da estratificação que ele comen­
ta assim: ''A marca como unidade é apenas a totalidade concentra­
da. E a totalidade é a marca dilatada, multiplicada". Dai o esquema: 
R) ) ) ) ) 
1 65 
Poder-se-ia aproximar essa estratificação do que Lacan 
chama "a unidade da copulação do sujeito com o saber" no 
Seminário Mais, ainda: "O S1 , esse um, o enxame, significante-mestre, 
é o que garante a unidade, a unidade de copulação do sujeito com 
o saber"40. Assim, tem-se o esquema: 
S1 (S1 (S1 (S1 Sz))) 
"O Um encarnado na lalíngua é algo que resta indeciso entre o fone­
ma, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento. É o do que se trata 
no que chamo de significante-mestre"41 • 
Considerando o Eu-vrjo-pontinhos como o Um encarnado 
em lalíngua, o significante-mestre que se instaura a partir do envelo­
pamento por onde toda a cadeia subsiste, isto é, a marca, como uni­
dade, mas também como totalidade concentrada, o que o paciente 
de Lombardi grita seria, então, todo seu pensamento. 
1 . O imperativo do significante e a alta tensão do significante 
"O significante é inicialmente imperativo"42, diz Lacan em 
1 972. Mas será que há uma diferença entre o significante Um encar­
nado em lalíngua, esse significante-mestre que comanda toda a 
cadeia, e o que Lacan chama em 1 958 de "a alta tensão do signifi­
cante"43? 
A língua fundamental de Schreber44 é feita de neologismos, 
que constituem o que Lacan45 chama de um neocódigo. 
O imperativo, ou a alta tensão do significante, pode se 
escrever ass1m: 
s 
1 66 
Quanto às mensagens interrompidas, como diz Jacques­
Alain Miller em A fuga do sentido46, isso funcionaria um pouco como 
um Witz: na cadeia significante, uma parte permanece vazia e à 
espera do que viria à cabeça, para dar o sentido. 
s 
o 
Quer se trate do "Eu v�jo pontinhos'� quer se trate do "Saint 
Gobain 601 + 0,2" ou do "Quack-quack-quack!", em cada caso, o sen­
tido está em suspenso. 
Mas, trata-se de neologismos ou de ritornelos? 
Lacan observa, de fato, que, assim que essa alta tensão do 
significante cai, as alucinações se reduzem a ritornelos ou a ladai­
nhas, vazias de significação. 
Jacques-Alain Miller faz dessas ladainhas uma espécie de 
círculo sobre si mesmo do significante, sem o lastro do significado. 
O que pode se escrever assim: 
2. A solidão semântica 
A propósito da voluptuosidade da alma de Schreber, 
Seelenwollust, Lacan observa que "o inconsciente se preocupa mais 
com o significante do que com o significado" e que "a dimensão em 
que a letra se manifesta no inconsciente ( . . . ) é bem menos etimoló­
gica (precisamente, diacrônica) do que homofônica (precisamente, 
sincrônica)"47• O sentido de mortificação viria da homofonia entre 
1 67 
S eelen, as almas, e S een, os lagos onde as almas permaneceram algum 
tempo. 
No caso de Ophélie, é porque o terapeuta e a criança zom­
bam do significado que a língua Donald pode ser inventada como 
lalíngua da transferência. 
Uma vez desprovido do significado, o significante funcio­
na sozinho, voltando-se sobre si mesmo em círculos, mas como sig­
nificante Um, envelopando toda a cadeia significante e fazendo 
apelo ao efeito de sentido apenas de forma alusiva, sem intenção de 
significação. 
Obtém-se, assim, a fórmula de Jacques-Alain Miller48: 
S // s oo 
Aqui, os efeitos de sentido são infinitos e completamente 
separados do significante. Tudo pode ser dito sem que uma signifi­
cação seja retida. 
B. O saber suposto e o saber já-posto nas psicoses 
Lacan49 distingue, no Seminário Mais, ainda, dois saberes 
inconscientes: o saber sobre lalíngua, que é apanágio da linguagem, e 
o saber-fazer com lalíngua, que é apanágio do inconsciente. 
Como esses dois saberes se articulam na psicose? 
1 . Saber sobre lalíngua e saber-fazer com lalíngua 
"Todo amor se apoia em alguma relação entre dois sabe­
res inconscientes"50, explícita Lacan. E, se há relação, é porque há 
distinção: o inconsciente é um saber-fazer com lalíngua; ao passo que 
a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalíngua. 
1 68 
Fazer essa distinção é também fazer a distinção entre 
inconsciente e linguagem. A linguagem seria apenas uma hipótese 
ou uma suposição de saber sobre lalíngua: ''A linguagem, de come­
ço, ela não existe. A linguagem é o que se tenta saber concernente­
mente à função de lalíngua"51 • Enquanto o inconsciente é o testemu­
nho de um saber-fazer com lalíngua que escapa ao ser falante. 
Nos três casos clínicos tomados como exemplos, os de 
Gabriel Lombardi, de Daniele Rouillon e de Jean Lelievre, o tera­
peuta testemunha a cada vez de um saber-fazer com lalíngua, que, ao 
mesmo tempo, lhe escapa. Os três apostam, portanto, nos efeitos de 
lalíngua, isto é, sobre um saber já-posto, mas que vai bem além do 
que pode ser enunciado. 
Poder-se-ia mesmo dizer, nos três casos, que o terapeuta 
se comporta como o rato no labirinto52 de Lacan: faz signo ao 
paciente de sua própria presença como unidade, até mesmo como 
unidade-ratoeira, isto é, capaz de aprendizagem de lalíngua. 
2. A aprendizagem de lalíngua e o sujeito suposto saber 
Pela analogia entre a unidade-ratoeira e o ser analista, a 
questão do saber se transforma na questão de um aprender: ''A ques­
tão ( . . . ) é de saber se a unidade-ratoeira vai aprender a aprender"53• 
É o que fazem nossos três terapeutas: aprendem a apren­
der. Comportam-se, no labirinto de lalíngua, nessa montagem feita 
de lalíngua da transferência, de certo modo, como analistas-ratos. 
E, como diz Lacan, o experimentador, "aquele que, nesse 
negócio, sabe alguma coisa"5\ seria, então, o psicótico, "alguém para 
quem a relação com o saber é fundada em uma relação com lalíngua, 
na habitação de lalíngua, ou na coabitação com ela". 
É porque o analista supõe ao psicótico um saber-fazer com 
a língua que ele se presta à sua aprendizagem, e que, graças ao dese­
jo do analista, esse saber já-posto no psicótico poderia se elaborar, 
então, como elucubração de saber sobre lalíngua. 
1 69 
C. A transferência e o amor do Outro 
Se for verdade que um casal fala a mesma língua e que ela 
é estranha a um terceiro, lalíngua da transferência poderia bem ser 
essa do amor: entre psicótico e analista não há encontro sem o 
amor do Outro. A experiência do labirinto interrompe-se neste 
ponto: não é pedido ao experimentador para amar seu rato e vice­
versa. 
No casal Ophélie-Lelievre, trata-se realmente de um amódio: 
a garotinha entra pelo ódio, e lalíngua da transferência se estabelece 
no amor do Outro. 
1 . O algoritmo de Gabriel Lombardi 
Na "Cure d'un mutique", Gabriel Lombardi está, inicialmen­
te, como o rato perdido no labirinto. A única coisa da qual ele tem 
certeza é que o inconsciente do paciente é feito de lalíngua. O "Eu 
vo/o pontinhos" lhe indica essa coabitação com lalíngua. 
O paciente indica ao terapeuta uma relação com o saber­
fazer com lalíngua, que podemos escrever assim: 
a 
Sz 
paciente 
saber-fazer 
com lalíngua 
terapeuta 
O terapeuta faz signo de sua presença produzindo, antes 
de tudo, lalíngua às cegas, fundada sobre a mesma relação com o 
saber-fazer com lalíngua: lalíngua fora de sentido, às cegas, como St . 
Por meio dessa operação, ele se presta à aprendizagem de 
lalíngua, como sujeito vazio, posto a trabalhopelo saber do pacien­
te, ao qual ele supõe alguma coisa para além do que é enunciado. 
1 70 
a 
Sz 
paciente 
saber-fazer 
com lalíngua 
terapeuta 
lalíngua 
às cegas 
Toda a questão é de saber por que, certo dia, o paciente 
aceita a montagem e se volta dizendo: "Eu escrevo poemas". 
Insondável decisão do ser, talvez, mas é aqui que se invertem as 
posições e se situa o encontro, ou seja: ''A ilusão de que alguma 
coisa não somente se articula, mas se inscreve"5\ diz Lacan. 
O "Eu escrevo poemas" produzido pelo paciente em uma lín­
gua anasalada, quase inaudível, não é, evidentemente, para ser lido, 
mas traduz o cessa de não se escrever de uma "relação de sujeito a sujei­
to, sujeito enquanto ele é apenas o efeito do saber inconsciente". 
Tanto o paciente quanto o terapeuta se reconhecem, 
então, como sujeito, enquanto efeito do saber inconsciente. 
Escrevamos a inversão e a relação de sujeito a sujeito 
assim: 
paciente ..1L • 0 
Sz >< 
terapeuta ..1L • 0 
Sz 
terapeuta 
paciente 
Haveria, portanto, produção do sujeito e captura da trans­
ferência em um efeito de cristalização massiva de lalíngua como rede 
do gozo. 
2. A erotomania delirante 
Toda a questão é, então, saber como evitar a erotomania 
delirante, que Jacques-Alain Miller56 formula assim: 
171 
...1L 
Sz 
Daí o drama do amor do qual fala Lacan57• 
Que diferença há entre o ''K!einer F!echsig" de Schreber e o 
"E! doutor esta cachuso" do paciente de Lombardi? A transferência 
para com Flechsig e a transferência para com Lombardi têm o 
mesmo estatuto? 
Nos dois casos, o sujeito acredita no amor do Outro. 
Nos dois casos, uma metáfora delirante se instala: ser a mulher de 
Deus para Schreber, ser o filho de Deus para o paciente de 
Lombardi. Mas, se as Memórias de Schreber constituem uma res­
posta metafórica a esse amor do Outro, a leitura da Bíblia pelo 
paciente de Lombardi adia essa resposta, ela favorece a metoní­
mia e põe o sujeito a trabalho mediante um novo artefato para 
tecer o laço com o Outro social, muito mais do que com o Outro 
do delírio. 
A obstinação de Lombardi em se fazer o ponto de basta e 
o destinatário do "Eu escrevo poemas" orienta em direção a um novo 
laço social. 
IV. LALÍNGUA DA TRANSFERÊNCIA: 
UM ARTEFATO PARA TECER O LAÇO SOCIAL 
Portanto, "Eu escrevo poemas ", diz o paciente de 
Lombardi com uma voz anasalada, muito pouco compreensível. 
Mas este Screvopoemas - que poderíamos escrever em uma só 
palavra - permanece puro significante de !a!íngua, separado do 
significado. Isso pode querer dizer qualquer coisa. É o que cons­
tata de Lombardi quando o paciente lhe estende, primeiro, "um 
papel amassado e sujo em que havia duas linhas de uma escrita 
ilegível". 
172 
Contudo, não há ainda diálogo. E Lacan precisa a propó­
sito de lalíngua: "Mas lalíngua serve em primeiro lugar ao diálogo? 
Como articulei outrora, nada é menos certo"58• 
Como fazer limite ao monólogo autista do gozo? 
A. Do nenhum-diálogo (pas-de-dialogue) ao laço social 
Lacan propõe a solução da interpretação em seu 
Seminário . . . ou pire: "não há diálogo, eu disse, mas esse nenhum-diá­
logo (pas-de-dialogue) tem seu limite na interpretação, por onde se 
assegura, como para o número, o real"59• O que Jacques-Alain Miller 
traduz por "a interpretação analítica faz limite" na medida em que, 
"como a formalização matemática, ela atinge um real", passa por 
um "isso não quer dizer nada", vai "ao contrário do sentido", e 
"supõe o escrito"60• É o que propõe Éric Laurent em A conversação 
de Arcachon: "É preciso entrar na matriz do discurso pelo signo, e 
não pelo sentido"61 • 
É, de fato, pelo signo, ou melhor, pelo thing, que os três 
pacientes podem entrar em um laço social: onomatopeia, algarismo, 
ou traço escrito. Trata-se de alguma coisa que vai na contramão do 
sentido. 
1 . Lalíngua da transferência e o discurso analítico 
No caso de Ophélie, bem antes da aprendizagem da língua 
Donald, o thing do qual o terapeuta se faz inicialmente o destinatá­
rio poderia bem ser a massa-de-modelar-massa-de-mastigar. 
Desde a primeira sessão, de fato, Ophélie pedira massa de 
modelar. Ela a amassara durante um longo tempo, comendo regular­
mente pequenos pedaços. Usou-a, em seguida, regularmente, para 
jogá-la no rosto do terapeuta como a injúria - ''parece uma lebre"- da 
primeira sessão. O terapeuta devia curvar-se à modelagem dos ani-
173 
mais que ela pedia, e nenhuma outra criança podia mexer neles. A 
massa-de-modelar-massa-de-mastigar tornara-se uma coisa só dela. 
É passando da massa-de-modelar-massa-de-mastigar à criação 
do Donald - lalíngua, também ela mastigada - que Ophélie pode 
entrar em um laço social e, portanto, na matriz de um discurso. A 
aprendizagem de lalíngua da transferência, como aparelhamento do 
gozo, torna-se, então, um verdadeiro artefato para tecer o laço 
social. 
Como diz Jacques-Alain Miller: ''A única coisa que volta a 
colocar ordem nessa semântica absoluta, paralela à solidão do gozo, 
é ser tomado em um discurso, isto é, como diz Lacan, em um laço 
social"62• Segundo Lacan: "No final das contas, só existe isso, o laço 
social. Represento-o com o termo de discurso."63 
Para a pequena Ophélie, que ensinava a língua Donald a 
seu terapeuta, lalíngua da transferência servia, primeiramente, de 
barreira a uma elucubração de saber sobre lalíngua; esta perdeu 
pouco a pouco seu veneno, e a criança acabou chamando as coisas 
pelos seus nomes. 
Da mesma forma, os traços escritos do paciente de 
Lombardi, inicialmente ilegíveis, tornam-se pouco � pouco legíveis: 
"Outros poemas vêm em seguida, poemas de um amor abstrato, 
cada vez mais claramente escritos". 
2. Lalíngua da transferência e a função do Witz 
"Pelo contrário, é somente por um laço social típico que se 
tem uma chance de poder ler, de poder interpretar, de poder fazer 
limite ao nenhum-diálogo (pas-de-dialogue) . E é por isso que é pelo 
laço social que, definitivamente, o significado é suscetível de man­
ter o mesmo sentido"64, explícita Jacques-Alain Miller. 
Lalíngua da transferência leva o paciente de Lombardi, ini­
cialmente, a escrever, depois a ler e, finalmente, a evocar lembran­
ças de infância. Finalmente, ele irá elaborar um certo saber sobre 
174 
lalíngua, que utilizará em um Witz: 'Trata-se de uma propaganda na tevê. 
Vê-se a imagem da cruz vazia, sem Cristo e sem pregos. Uma voz em off di:r 
'�e tivessem usado pregos Goldstein, as coisas seriam diferentes". 
Um outro psicótico brincava de charadinhas com o tera­
peuta: "você sabe o que dizia a mulher de A/thusser antes de morrer? Ela 
dizia: Alto-cê aperta forte demais" (Halte! Tu serres trop for!). Ou ainda: 
'Você sabe o que dizia um árabe ao dentista? Ele dizia: Estou cheio do meu 
dente! ( 'J'en ai ras ma dent - ramadan/'}65 Você entendeu?" 
A presença do analista é essencial, até mesmo decisiva, já 
que seu riso decide se o Witz cumpriu sua missão, se a cessão de 
gozo ao Outro do laço social funcionou. 
8. Os impasses de lalíngua da transferência 
Lalíngua da transferência tem seus limites. Vimos lalíngua 
da erotomania, mas há também essa do semblante e aquela do sin­
toma. 
1 . lalíngua da transferência em suas relações com o semblante 
Como diz Lacan: "Um discurso analítico visa o sentido" e 
faz surgir "a ideia de que esse sentido é semblante"66• 
É a experiência do paciente de Lombardi, cujo Witz não 
fornece o sentido e indica somente a sua direção. 
Nos exemplos precedentes, percebe-se que o Witz é usado 
de forma alusiva, indicando a direção do sentido e ridicularizando a 
significação fática: o filho de Deus, sem pregos Goldstein, não existe; 
a morte, como a religião, é apenas uma história de jogo de palavras. 
É aqui que se pode distinguir a alusão com tendência alu­
cinatória, mas que não é da ordem do semblante, e o Witz com ten­
dência socializante, e que é da ordem do semblante. De fato, não se 
vê o presidente Schreber utilizar Witz a propósito de Deus. Por 
175 
outro lado, as vozes podem ridicularizare até mesmo insultar Deus: 
"Die Sonne ist eine Uhre". 
2. lalíngua da transferência em suas relações com o sintoma 
Na neurose, a análise começa pela precipitação do sinto­
ma, com um enlace do sujeito suposto saber ao desejo do analista. 
Na psicose, seria mais uma cristalização do sintoma, com captura 
do gozo por lalíngua da transferência. 
Mas deixemos essa questão e lembremos somente que é 
porque o psicanalista insiste em se fazer o destinatário dos signos 
ínfimos do real de lalíngua, sem se preocupar com o sentido, que ele 
pode ter uma chance de se tornar o parceiro do psicótico na lalíngua 
da transferência. Assim, ele pode permitir que o sujeito psicótico se 
engaje em um laço social na direção de uma elaboração de saber. 
É o que faz Lombardi com seu paciente, levando-o a 
escrever poemas, a ler a Bíblia e, finalmente, a pintar. É talvez tam­
bém o que faz Lelievre com Ophélie, levando-a primeiro a passar 
da massa-de-modelar-massa-de-mastigar à língua Donald. 
C. Uma prática no plural 
Escolhemos lalíngua da transferência como neotransferên­
cia. Restam ainda duas perguntas: Há uma ou várias neotransferên­
cias? Há uma ou várias lalínguas da transferência? 
1 . Uma ou várias neotransferências? 
Depois de lalíngua, seria preciso retomar a letra e a aparolrP 
como outros aparelhamentos de gozo. Deixaremos isso de lado. 
176 
2. Uma ou várias lalínguas da transferência? 
Os três casos clínicos tomados como exemplos mostram 
que lalíngua da transferência é, a cada vez, diferente. 
Além disso, se prosseguissemos com a analogia entre lalín­
gua da transferência e a composição labiríntica haveria, para cada psi­
cótico, a sua lalíngua da transferência, assim como para cada experi­
mentador a sua composição labiríntica: "Não se inventa não importa 
qual composição labiríntica e, se isso sai do mesmo experimentador 
ou de dois experimentadores diferentes, é algo que merece ser inter­
rogado"68. Portanto, não há uma) mas várias lalínguas da transferência. 
E Lacan acrescenta: "O que pertence ao saber coloca uma 
outra questão, por exemplo, a questão de como isso se ensina". 
Gabriel Lombardi lembrava, de fato, em seu artigo sobre 
a "Cure d)un mutique", que o mundo terapêutico irá sempre esperar 
pelo "como fazer" com um psicótico. Ele explicita que não se tem 
acesso à posição de analista a partir da posição de analista, mas a par­
tir de uma destituição do sujeito que deve ser a cada vez renovada. 
E é o psicótico quem renova o convite. 
Para ascender a essa posição tratar-se-ia, então, de passar da 
posição de sujeito à posição de objeto, ou ainda, como salienta 
Lacan, passar da unidade ratoeira para a sua rasura. Obter-se-ia, 
assim, o objeto "cachuso" do caso de Gabriel Lombardi, o objeto 
"lebre" do caso de Ophélie e, talvez, o objeto "amorrern (Fammourir) 
do caso de Daniele Rouillon. 
V. CONCLUSÃO: O ANALISTA FERREIRO 
Depois de A conversação de Arcachon) vimos que a questão 
girava em torno do aparelhamento que permitiria lutar contra os 
desligamentos sucessivos nas neopsicoses. É segundo essa perspec­
tiva que retomaremos, aqui, o caso de Ophélie. 
177 
A. De que psicose se trata? 
Ophélie encontra seu terapeuta aos onze anos de idade. 
Colocada em um instituto por causa de distúrbios psicomotores, 
andando mal e caindo frequentemente, falando mal e babando 
muito, a criança apresenta um retardo mental e estaturo-ponderal 
que a classifica como criança deficiente. 
Trata-se de uma psicose? Qual? 
Como assinala Jacques-Alain Miller em seu artigo "Lições 
sobre a apresentação de doentes", a doença da mentalidade decor­
re da emancipação da relação imaginária e toma o estilo de uma 
errância, ao passo que a doença do Outro procede da crença em um 
Outro não barrado e toma o estilo de uma consistência. Nos dois 
casos, o gozo é desregulado: em um caso, ele é flutuante e aparece 
por toda parte; no outro caso, é invasivo e do Outro. 
O caso de Ophélie seria da alçada de uma doença da men­
talidade: o Outro é deficitário, as identificações não estão cristaliza­
das em Um, a relação imaginária prevalece e o gozo é flutuante. 
Acrescentemos simplesmente que não houve desencadea­
mento no sentido lacaniano do encontro com Um-pai. Por outro 
lado, falta à Ophélie a ferramenta necessária para tamponar o gozo. 
8. A classificação opheliana: um enlaçamento inacabado 
De que se queixa a garotinha? 
Não é, certamente, de sua deficiência. Quer se trate de 
suas dificuldades para dormir, de seu retardo psicomotor, de sua 
falta de jeito, de sua hipersialorreia, de seus momentos de introver­
são ou de excitação, todos esses fenômenos incomodam apenas os 
que a rodeiam. Aliás, essa foi a primeira resposta que ela deu ao seu 
terapeuta: "Esses problemas para dormir a incomodam? _ Não!". 
Ela se queixa, primeiramente, de sua relação com o outro 
imaginário, seu semelhante. O jardim de sua infância não é povoa-
178 
do de caraco1s, como para Bel-Gazou, mas de pequenos outros, 
doentes como ela. 
Desde as primeiras sessões aparece uma espécie de classi­
ficação: os verdadeiros e os falsos de um lado, os bons e os maus 
de outro. 
Na primeira categoria, os verdadeiros e os falsos, Ophélie colo­
ca sua irmã gêmea, uma "falsa" gêmea, que não é doente: 'Tenho 
uma irmã gêmea, mas é falsa!" _ E você se dá bem com ela? _ Não, ela manda 
sempre em mim!': No par especular que forma com sua irmã, m - i(a), 
ela está às voltas com uma imagem do outro separada de sua pró­
pria imagem, i(a), mas esse par lhe permite também investir o outro 
como imagem de si, o mesmo, m. É por isso que ela não poderá 
conceber a sua terapia sem a presença de sua irmã: "Quero que minha 
irmã venha também! Ah! É mesmo? Ela nunca acredita em mim! O 
que isso quer dizer? _ Ela nunca acredita quando digo que ela também preci­
sa consultar alguém!". Na ausência da irmã, um colega de classe a 
acompanhará até a porta do consultório na sessão seguinte. 
Aqui, é o sentido-gozado que é interrogado via a verdade 
da filiação: que sentido pode ter, efetivamente, um laço fraterno se 
não for sustentado por nenhum Nome-do-Pai? Por meio dessa 
categoria do "verdadeiro-falso", construída sobre a imagem, ela 
constrói uma espécie de remendo entre imaginário e simbólico 
onde se alojam os efeitos de sentido entre o que ela experimenta ser, 
m, e uma imagem falsa dela mesma, i(a). 
Na segunda categoria dos pequenos outros, os bons e os 
maus, Ophélie coloca seu terapeuta entre os maus, os que não têm 
as mesmas pernas que ela: 'Você é médico, não quero ver você! _ Não sou 
médico. _ É sim! _ Como você sabe? _ Pelas suas pernas, você tem pernas de 
médico _ Eu não tenho as mesmas pernas que você? _ Não, você não anda 
como eu!". 
Aqui, é o gozo do Outro que é interrogado via a realidade 
de seu corpo: há os bonzinhos, enfermos como ela, cujo gozo está 
subordinado a uma deficiência física, um gozo conhecido, circuns-
179 
crito, bordejado pelo imaginário; e há os maus, os saudáveis que não 
andam como ela, cujo gozo é estrangeiro, até mesmo ameaçador, 
real. Pela categoria do "bom-mau", construída sobre a imagem, ela 
fabrica, então, uma espécie de remendo entre imaginário e real. 
Ophélie teria, portanto, fabricado um enodamento centra­
do na prevalência do imaginário: o imaginário se dobra, articulan­
do-se de um lado com o simbólico e, de outro, com o real. Isso 
pode ser ilustrado pelo nó borromeano da figura 5 da página 1 69 
do Seminário Mais) ainda, colocando o imaginário no centro do nó 
como uma orelha dobrada: 
I 
@ 0 
Por outro lado, simbólico e real não mantêm nenhuma 
relação entre eles, a não ser via o imaginário. Aqui, o gozo fálico não 
pode se inscrever e a função do semblante é evacuada. 
Com efeito, se Ophélie mastiga massa de modelar, por 
outro lado ela não "mastiga" suas palavras. Quando o Outro se dis­
tancia e a deixa, ela se fecha em um autoerotismo: é então que come 
sistematicamente dejetos, cascas, pequenos pedaços de massa de 
modelar, babando cada vez mais, sem se preocuparnem um pouco 
com as reações das pessoas à sua volta. Quando o Outro se aproxi­
ma novamente ou faz intrusão, as injúrias e os golpes são então lan­
çados contra o intruso. 
No fundo, o problema de Ophélie é ter construído uma 
estrutura certamente borromeana baseada, porém, em uma relação 
binária. Daí a sua fragilização quanto à intrusão de um terceiro. 
Trata-se, portanto, de um nó flutuante, em que o simbólico e o real 
podem se recobrir sem, contudo, jamais se articularem um ao outro. 
1 80 
C. lalíngua Donald como instrumento de forja 
Vimos anteriormente como Ophélie fazia sua entrada na 
cena analítica: surpresa de Ophélie primeiramente diante da produ­
ção de seu equívoco, "parece uma lebre", sobre o nome próprio do 
terapeuta, o que demonstra um saberfazer com lalíngua; depois, sur­
presa, ao mesmo tempo do terapeuta e da criança, diante do lapso 
"quacktro e dez" do terapeuta, o que demonstra, dessa vez, um saber 
sobre a língua. Finalmente, aprendizagem e elaboração da língua 
Donald como lalíngua da transferência, enlaçando saber-fazer com e 
saber sobre lalíngua. 
No decorrer dessa longa aprendizagem, uma fobia se 
esclarecerá. 
Poder-se-ia dizer que lalíngua Donald usada pelo casal 
Ophélie-Lelievre é o que permite à criança e ao terapeuta forjarem, 
sessão após sessão, os elos faltantes da cadeia significante, elos que 
permitiriam, talvez, grampear aqui o simbólico e o real, cristalizan­
do o enodamento que a criança fabricara sozinha a partir da preva­
lência do anel imaginário dobrado. 
Esse novo enlaçamento poderia ser representado pela 
figura 6 que encontramos na página 1 69 do Seminário Mais, ainda, e 
que simplificamos aqui: 
18 1 
Vã esperança, provavelmente, visto que lalíngua da transfe­
rência tomaria o lugar do semblante. Mas nada nos impede de acre­
ditar que, se o analista for suficientemente dócil à aprendizagem de 
lalíngua da transferência, a cadeia poderá um dia se fechar por um 
Witz, como no caso do paciente de Lombardi. 
Se a estrutura do Witz se parece com aquela das mensa­
gens interrompidas de Schreber, vê-se, nesse caso, que, na operação 
da transferência que articula simbólico e real, o sentido é remetido 
ao Outro do laço social via o semblante, ao passo que, para 
Schreber, o sentido é remetido ao Outro do delírio via o imaginário. 
Terminemos com o que nos inspira a olhadela no 
esquema acima: não se vê ali a figura do Mickey, com suas duas 
orelhas redondas, substituir as orelhas de uma lebre? Isso não foi 
premeditado. 
182 
Notas 
* 
Relatora: Fabienne Henry 
1 FREUD, S. (1 938) ''A Técnica da Psicanálise". In: Obras Psicológicas Completas de 
Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.XXIII, Rio de Janeiro: Imago, 1975, 
p. 199. 
2 LACAN, ]. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.589. 
3 HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed.) (1 977) "Lições sobre a 
apresentação de doentes". In: Os casos raros, inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: 
A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, 
p.202. 
4 LACAN, J. (1 972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.1 97. 
5 LELIEVRE, J. "Le cas Ophélie", Déficience intellectuelle légere - Un mode d'être au 
monde, Mémoire n.3 da Seção Clínica de Angers, Grammatica, inverno 1997, 
Número suplementar de L'Archive n.4. 
6 LEIRIS, M. "Biffures", La reg/e dujeu, p.9-21 . 
7 LACAN, J. (1972-1 973) "Rodinhas de barbante". In: Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 18 1 . 
8 ROUILLON, D. "Les bienfaits du hors-sens", Le Conciliabule d'Angers, Paris, 
Agalma-Le Seuil, Le Paon, 1 997, p.1 63. 
9 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique", Le Conciliabule d'Angers, op. cit. , p.135. 
1 0 MILLER, J.-A. (1 975) "Teoria d'alíngua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p.55. Dirigido ao congresso da Escola 
Freudiana e pronunciado em Roma, esse discurso parece constituir o "Relatório 
de Roma" de Miller. 
1 1 MILLER, J.-A. "U ou 'i! n'y a pas de méta-langage", Reduction linguarum ad 
unam, Leibniz: a língua U, derivada do termo de Haskel B. Curry de "U-langua­
ge"- The Language being used. 
1 2 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula VII do dia 31/01/1996. 
1 3 N.T.: Em francês Un beau gazouliis significa Um belo gorjeio; em dialeto pro­
vença!: Uma bela linguagem. 
1 4 COLETTE, S.D. "Le curé sur le mur". La maison de Claudine, Livre de poche, 
1922. 
1 83 
1 5 LACAN, J. (1973) "O aturdi to". In: Outros Esm"tos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.492. 
1 6 N.E.: Em francês, d'eux evoca, homofonicamente, tanto "deles" (d'eux), quan­
to "dois" (deux). 
1 7 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90. 
1 8 MILLER, J.-A. (1 975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55. 
1 9 MILLER J.-A. "La fuite du sens", aula VI do dia 1 7/01 / 1996. 
20 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90. 
21 MILLER, J.-A. (1975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55. 
22 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 1 4/02/1 996. 
23 MILLER, J.-A. (1983) "Produzir o sujeito?". In: Matemas I. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 1 996, p.1 55. 
24 N.R.: mantivemos aqui a tradução proposta por Sérgio Laia em "Produzir o 
sujeito?" In: Matemas I (cf. MILLER, J.-A. Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
1 996, p.1 57. Trad. Sérgio Laia). 
25 LACAN, J. (1 972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 1 90. 
26 LACAN, J. (1964) "A pulsão parcial e seu circuito". In: O Seminário, livro 1 1: Os 
quatros concet"tos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 988, 
p. 1 71 . 
2 7 MILLER, J.-A. "Clôture", Le Conciliabule d'Angers, p.229. 
28 MILLER, J.-A. (1 994-1 995) "O nó da repetição e da pulsão". In: Silet: Os para­
doxos da ptilsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 1 68. 
29 MILLER, J.-A. (1975) "Teoria d'alingua (rudimento)". In: Matemas I. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 996, p.55. 
30 FREUD, S. (1 909) "Notas sobre um caso de neurose obsessiva". In: Obra.r 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Edição Standard Brasileira), v.X, Rio de 
Janeiro: Imago, 1 976, p.208. 
3 1 MILLER, J.-A. (1989-1 990) "El deseo dei padre". In: E/ banquete de los analis­
tas. Buenos Aires: Paidós, 2000, p. 107. N.T.: Em francês, no termo "ira-a-cible", 
encontramos as palavras "ira", a letra a (de objeto a e a palavra "cible" ("alvo") . 
1 84 
Na transposição desse termo para o português - "ir-a-scível", perde-se a referên­
cia ao "alvo", embora o sentido de uma direção não deixa de ser aludido por "ir 
a ... ". 
32 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique", Le conciliabule d'Angers, op. cit., p.1 35. 
33 HERGÉ, Albums de Tintin. 
34 MILLER, J.-A. (1 989-1990) "El deseo dei padre". In: E/ banquete de los analis­
tas. Buenos Aires: Paidós, 2000, p.107. 
35 Ibid. 
36 LOMBARDI, G. "Cure d'un mutique". In: Le conciliabule d'Angers, op. cit., p 
1 35. 
37 LACAN, J. (1973) "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista 
da Escola". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.253. 
38 LACAN, J. (1972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 196. 
39 MILLER, J.-A. "Matrice", Ornicar?, n.4. 
40 LACAN, J. (1972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p 195. 
41 Ibid, p.196. 
42 Ibid, p.45. 
43 LACAN, J. (1 9 58) "De uma questão preliminar a todotratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.545. 
44 SCHREBER, D. P. (1 905) Memórias de um doente dos nervos. Rio de Janeiro: 
Edições Graal, 1984. 
45 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.544. 
46 MILLER, J.-A. "La fui te du sens", aula XIII do dia 27/03/1996. 
47 LACAN, J. (1958) "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da 
psicose". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 998, p.576. 
48 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula XIV do dia 3/04/1996. 
49 LACAN, J. (1972-1 973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 190. 
50 Ibid, p.196. 
51 Ibid, p.189. 
1 85 
52 Ibid., p. 193. 
53 Ibid. 
54 Ibid. 
55 Ibid., p. 198. 
56 MILLER, J.-A. (1 983) "Produzir o sujeito?". In: Matemas I. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 1996, p.1 55. 
57 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 199. 
58 Ibid, p.1 90. 
59 LACAN, J. (1971-1 972) O Seminário, livro 19 . . . . ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 
201 2. 
60 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 14/02/1996. 
61 Cf.: HENY, H., JOLIBOIS, M. e MILLER, J.-A. (ed) (1997) Os casos raros, 
inclassificáveis, da Clínica Psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca 
Freudiana Brasileira, 1998, p.1 25. 
62 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 1 4/02/1 996. 
63 LACAN, J. (1 972-1973) ''Aristóteles e Freud: A Outra Satisfação". In: O 
Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.74. 
64 MILLER, J.-A. "La fuite du sens", aula IX do dia 14/02/1996. 
65 N.R.: A expressão: J'en ai ras ma dent, que significa literalmente "Estou cheio 
do meu dente", apresenta homofonia com o termo Ramadan, mês durante o qual 
os mulçumanos devem se impor a abstinência (comida, bebida, tabaco, sexo) 
entre o nascer e o pôr do sol. 
66 LACAN, J. (1 972-1973) "Letra de uma carta de almor". In: O Seminário, livro 
20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.1 06. 
67 N.E.: no original, apparofe, termo criado por Lacan e no qual encontramos uma 
referência à fala (paro/e) como aparelho (apparei� de gozo. A tradução aparo/a é 
aquela adotada por V era Ribeiro, Angelina Harari e Marcus André Vieira nos tex­
tos de: LACAN, Jacques. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 
2003, p.395 e 602. 
68 LACAN, J. (1 972-1973) "O rato no labirinto". In: O Seminário, livro 20: Mais, 
ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1 982, p. 193 (trad. mod.). 
1 86 
Seção Clínica de Bruxelas* 
TRANSFERÊNCIA E PSICOSE NOS LIMITES 
Queremos relatar aqui, para a reflexão na Convenção de 
Antibes, três casos clinicas de psicoses que apresentam particulari­
dades quanto à transferência. 
Em dois textos, publicados em 1 9881 e 1 9892, Éric Laurent 
refletia sobre a mudança operada na IPA durante os anos 1 960. De 
fato, antes dessa data, encontramos numerosos estudos sobre a psi­
cose, ao passo que, depois disso, os autores passaram a orientar suas 
questões para os estados limites, incluindo os casos de desencadea­
mento sob transferência. É igualmente a partir desse período que 
floresce a noção de holding como modo particular da transferência a 
ser sustentado pelo analista nos estados limites e frente às persona­
lidades nardsicas, conceito que recobre o de borderline, menos grave. 
O holding é uma técnica que pretende orientar a escuta analítica visan­
do o apoio da personalidade, muito mais do que a análise do mate­
rial sintomático. Grosso modo, embora haja vários usos e modalida­
des do holding, pode-se dizer que todos se ligam a uma corrente 
oriunda do último desvio de Ferenczi, sobre a análise mútua. 
Queremos, portanto, nos perguntar sobre o que pode ser 
uma prática da transferência nesses casos, quando somos orienta­
dos pelo ensino de Lacan. Nossa resposta permanecerá parcial, 
visto que é formulada a partir de três casos particulares. Esses casos 
colocam a questão dos limites da transferência e da psicose. 
O primeiro é um caso clássico de esquizofrenia acompa­
nhado em instituição. Nele, a transferência se organiza em torno de 
1 87 
muitos, mas também com uma analista em particular. Pode-se ler aí 
como o trabalho feito por muitos sustenta a imagem corporal não 
investida narcisicamente, mas é na transferência particular que 
surge, para essa paciente, a possibilidade de se sustentar a partir de 
uma nomeação. 
O segundo caso é tipicamente um caso que seria chama­
do, por outros, um estado limite. Trata-se, com efeito, de um sujei­
to ligado ao Outro por uma suplência que nomeia a sua relação com 
o mundo: o tumor, significante assemântico. No decorrer do trata­
mento, mas por uma razão independente deste - a cura do tumor -
produz-se um desligamento pela perda dessa suplência. A posição 
do analista na transferência encontra-se, então, modificada. 
No terceiro caso, trata-se de uma perturbação do humor. 
A transferência é o lugar do suporte de sua historização, mas tam­
bém de seu invólucro narcísico. 
Observemos que, nos três casos, a tônica maior incide, a 
cada vez, sobre a elaboração significante. Que esta seja um proces­
so de organização do delírio ou, mais simplesmente, de historização 
ou, ainda, uma tentativa de nomeação, trata-se sempre de tentar 
organizar uma suplência de tipo sintomático, o que é muito diferen­
te de querer sustentar ou organizar a personalidade. 
Observemos ainda que um desses casos coloca a questão 
da transferência múltipla. Isso se produz na instituição. Mas, nem 
por isso a posição da transferência no tratamento analítico com um 
certo número de sujeitos é menos interessante. Lembremos que um 
de nós apresentou em Angers um caso de tratamento realizado 
junto a três psicanalistas, paralelamente - essa intervenção foi publi­
cada sob um pseudônimo4• 
Finalmente, em alguns sujeitos, é o caso do primeiro e do 
terceiro dos nossos casos, a manobra da transferência serve de 
suporte ao narcisismo abalado ou inexistente do sujeito. 
1 88 
I. PRIMEIRO CASO 
Eva tem onze anos e sempre foi esquizofrênica. Vive em 
um real no qual as referências temporais, a escrita e o cálculo não 
puderam se inscrever, nem mesmo o valor do dinheiro. Para ela, dez 
moedas de um franco valem sempre mais do que uma moeda de 
vinte; ter tomado uma vez seu remédio em casa, pela manhã, não a 
impedirá de voltar a tomá-lo no Courtil, pois, uma vez mais uma 
vez não é igual a duas vezes, mas uma só a cada vez. 
O tema favorito de Eva é sua família. Fala disso longamen­
te e de forma muito coerente. Notemos que, para ela, sua interna­
ção no Courtil é uma exclusão da família, uma vez que é a única a 
não dormir em casa, como observa. 
Eva tem, de certa forma, duas faces que convivem uma 
com a outra. É uma garota encantadora, extremamente educada, 
que abraça e oferece balas. Consola as amigas, as acaricia e as defen­
de quando tem oportunidade. Mas, em um segundo, torna-se inju­
riosa, bate e agride o outro, pequeno ou grande, em um furor que 
dá a impressão de que só se interromperá com o aniquilamento. 
Uma única certeza vale, então: "o outro a chateou, xingou ou 
bateu", e o que quer que lhe digamos, é ainda pior, pois se sente, de 
novo, injustamente agredida. Esse furor de golpes parece não ter 
encontrado, até o momento, nenhuma cessação. 
Quando surgem os golpes? Quando se sente excluída da rela­
ção com outras crianças e tem a impressão de que falam dela; quando 
uma criança toma um objeto que ela cobiça; quando um recém chega­
do toma um novo lugar no grupo; quando uma criança com quem ela 
se encontra é agredida ou, ocupada com outra coisa, a deixa de lado; 
quando se sente ofendida, às vezes sem razão aparente, alucinatoria­
mente. Portanto, tudo o que irrompe entre ela e o outro, seja uma pes­
soa ou um objetoa que está imaginariamente ligada, provoca uma ten­
são agressiva que pode chegar à destruição do intruso, até mesmo a 
própria criança a quem estava ligada, se esta romper a ligação. 
1 89 
Levantamos a hipótese de que os golpes são a realização 
da figura paterna do gozo, essa dos chutes "na bunda". Para fazer 
um pai edipiano que introduz a lei e o desejo, são necessárias duas 
figuras paternas: o pai do gozo e o pai proibidor. No caso de Eva, 
somente o pai do gozo funciona. No momento em que o eixo ima­
ginário que a sustenta é rompido, ali onde o pai proibidor deveria 
vir regular o mundo sustentando a lei, há apenas o pai feroz que 
surge em seu furor sem limites. Não é de uma identificação com o 
pai que se trata, mas de um retorno da ferocidade do pai no real. 
Nenhum apelo à lei, portanto, surte efeito nesses momentos, nem a 
interdição, a punição ou o diretor da instituição interrompem o pro­
cesso; até mesmo ao contrário, sustentam-no e o reforçam. Em sua 
última visita ao diretor, que a repreendeu seriamente, Eva disse à 
atendente que a acompanhava durante a advertência: "Esse aí é 
louco!", posição eminentemente irônica que mostra claramente a ine­
xistência do Outro ao denunciar o semblante. Ela está às voltas 
somente com um Outro louco, desregrado, um Outro real, aquele 
do gozo. 
O que pode vir, então, tamponar isso? Algumas mulheres 
da equipe investidas por Eva podem limitar as irrupções de golpes, 
muito embora não o consigam sempre. Com elas é um verdadeiro 
enrosco físico, um agarramento ao corpo do Outro. Ela se joga nos 
braços, se faz envolver e acarinhar. Fora da instituição, anda ao lado 
da atendente apoiando-se em seu braço, fingindo cair para ser 
levantada. Pede que a vistam e lavem o seu cabelo no banho. É 
encantadora e cooperativa. Eva se sustenta numa figura materna, e 
esse enrosco a envelopa, a segura, a constitui. Pode, então, passar 
noites tranquilas, desapegar-se do apoio imaginário que encontrava 
junto dos outros e evitar o insuportável que a precipitaria nos gol­
pes. Mas, mesmo que se conseguisse fortalecer esse agarramento e 
o seu consequente apaziguamento, conseguiríamos generalizá-lo em 
outros momentos e lugares? Dessa bengala imaginária de que Eva 
se serve atualmente para revestir seu corpo e fazê-lo se sustentar, 
1 90 
podemos esperar fazer suplência? No entanto, parece que contra a 
ferocidade do pai a única arma possível é um furor de ternuras. 
O lugar que Eva pede para a atendente ocupar é justamen­
te esse que vai ajudá-la a se constituir enquanto ser vestido, paliati­
vo ao corpo despedaçado, introduzindo um obstáculo ao surgimen­
to do gozo desenfreado. Isso possibilita que Eva constitua para si 
um novo lugar no mundo que não seja mais aquele do ser de deje­
to, que sempre toma golpes dos outros, que é excluída da família ou 
do grupo, objeto dejeto do Outro. 
O que se relatou até aqui diz respeito a uma posição trans­
ferencial que pode ser ocupada por vários atendentes da equipe. 
Abordemos agora a especificidade da transferência que 
Eva estabeleceu com uma atendente da instituição, que chamare­
mos de K., e as condições que nortearam sua instalação. 
Primeiro momento: em uma noite de confusão no grupo, 
K. toma a decisão de restabelecer a ordem energicamente. Pune 
uma criança e depois outra, mas não pune Eva. Toda vez que Eva 
se sente visada, K. responde que não está lhe dando uma bronca. K. 
a deixa em crise no chão, deitada, chorando e batendo os pés. Volta, 
em seguida, para perto dela, preocupada com seu estado. Em pran­
tos, Eva explica que em casa ela também tem crises, que os outros 
a aborrecem, mas é ela quem leva a pior. 
Segundo momento: depois de ter dado vários golpes vio­
lentos em diversas pessoas, Eva é levada ao diretor para ser reenvia­
da à sua casa. K. a encontra na recepção para acompanhá-la, e ela, 
então, chora em seus braços, desculpando-se. 
Terceiro momento: durante um passeio, Eva passará todo 
o tempo de braços dados com K., deixando-se às vezes despencar 
no chão, com o pretexto de dor nos pés. K. a levanta a cada vez, 
garantindo-lhe que não a abandonará (laisser tomber) . 
Quarto momento: Eva pede que K. seja sua "fiadora" e 
escreve uma carta endereçada à reunião que oficializará, em segui­
da, seu pedido. 
19 1 
Quinto momento: Eva diz, agora, a cada encontro com 
K.: "Você é minha fiadora". Fala disso aos outros, atribuindo gran­
de importância ao fato. Quando uma criança maltrata K., ela adver­
te: "Não toque em minha fiadora". Um enunciado ainda mais sur­
preendente foi dito a uma terceira pessoa ao designar K.: "Eu sou 
a sua fiadora", enunciado inicialmente taxado de transitivista, mas 
do qual, a posteriori, pode-se perguntar se não é muito mais uma ten­
tativa de nomeação de sua posição em referência ao Outro. Esse 
lugar de fiadora, que não atribui ao outro diretamente uma identifi­
cação permitirá, talvez, a abertura suficiente sobre um "x" que 
poderia, então, tentar nomear-se, circunscrever-se em uma constru­
ção identificatória que viria revestir o objeto e barrar o gozo - não 
mais pontualmente, na presença do Outro, mas que se inscreveria e 
funcionaria fora dessa presença. Se, apesar da falta de inscrição sim­
bólica tão patente nessa criança, a função de fiadora, que ela mesma 
solicitou, pôde se inscrever, não é impensável que uma identificação 
possa, em compensação, se construir e operar como suplência, e 
não mais como bengala imaginária, na falta do simbólico. 
O dizer não ao gozo não seria aqui gritar mais forte que o 
supereu - figura do gozo paterno - mas proteger, envolver, reves­
tir, erguer muralhas de amabilidades contra essa ferocidade. 
1 1 . SEGUNDO CASO 
Trata-se do tratamento de uma mulher psicótica que con­
duz seu analista de surpresa em surpresa, ao ritmo das surpresas 
que ela mesma encontra. A palavra "tratamento" deve ser tomada 
aqui entre aspas: os encontros com esse sujeito situam-se ora do 
lado das preliminares a qualquer tratamento da psicose, ora do 
lado das soluções que ele mesmo encontra na medida em que 
caminha. Nesse ponto, ele converge para a via que Lacan nos indi­
ca. A moça, que consulta seu analista há mais ou menos dez anos, 
1 92 
introduz uma curiosa distorção na maneira de tratar aquilo que a 
surpreende. 
O significante assemântico é um significante sozinho. 
Poderia ser, por exemplo, para a paciente em questão, a palavra 
"tumor", tal como se inscreve em uma série sem fim, onde "tu mor­
res (tu meurs) , tu mentes (tu mens) ; eu me minto (je me mens), eu me 
mato (je me tue), tu me matas (tu me tues)", só valem por sua materia­
lidade sonora como restos não simbolizados da língua materna. O 
significante assemântico vale como instrumento de gozo. Vem, por 
esse fato, no lugar do que falta no Outro. 
Essa moça, de aproximadamente trinta anos de idade, fora 
operada de um tumor maligno no cérebro. Os médicos lhe disseram 
que era preciso esperar cinco anos para que pudesse se considerar fora 
de perigo. Angústias de morte e afetos depressivos levaram-na a con­
sultar um psiquiatra, que lhe prescreveu uma psicanálise. Essa pacien­
te havia acabado de ler Mars, de Fritz Horn. É a história de um pacien­
te acometido por um câncer que o leva à morte, e que tenta, com a 
ajuda de sua biografia, delinear as causas psicológicas de sua doença. 
Essa mulher enuncia, logo de saída, que espera de uma 
psicanálise que esta lhe confirme a origem psicológica de seu tumor, 
e que isso a torne imune contra uma recaída. A certeza dessa alega­
ção leva o analista a acolher essa demanda com muita reserva. 
Foram necessários anos de reconstrução de sua história para que 
aparecesse a dimensão delirante dessa alegação. O conteúdo das 
sessões revelou-se muito diferente conforme estivéssemos antes ou 
depois da data fatídica. Antes, é a reconstrução de sua história em 
torno do significante "tumor" que domina e polariza seus dizeres. 
Depois dessa data limite, a coisa será completamente diferente: a 
paciente desenvolve, apartir daí, uma série de fenômenos elemen­
tares que farão aparecer em quê esse tumor lhe servira. 
Ela situa seu primeiro mal encontro com o Outro no 
momento de uma morte da qual é testemunha. Sua profissão leva­
ra-a a assistir a uma operação médica que terminara com a morte 
1 93 
do paciente. 'Poder-se-ia pensar que foi por minha causa, disse ela, porque a 
pessoa responsável tem a mesma cor de cabelo que eu, e um nome que se parece 
com o meu. É como meu pai. O destino dele também é marcado por uma his­
tória de nome. O segundo nome de meu pai é Anastase, que quer dizer imor­
tal. Ele era dono de uma funerária. O primeiro nome de meu pai é "Léopold'�· 
ele preferia que o chamassem Pol. Paul é o ex-namorado de minha mãe; Léa, é 
a ex-namorada de meu pai. Eles se casaram no momento em que ambos esta­
vam no luto de uma relação anterior. Pedindo para que o chamassem de Po� 
meu pai abandonou Léa. " Essa analisante fazia frequentemente varia­
ções dessa ordem, colocando em primeiro lugar o que o sentido 
deve à materialidade sonora dos significantes. 
Esse episódio antecede um outro acontecimento que 
duplica a impressão que ela tem de ser culpada. Um de seus 
irmãos havia se suicidado depois de uma briga com ela. Sente-se 
responsável por esse suicídio, exatamente como se sentira respon­
sável por não ter podido salvar, alguns anos antes, uma de suas 
irmãs que acabara igualmente de se suicidar. Descobriu-.se, pouco 
tempo depois, que ela tinha um tumor no cérebro, do qual foi 
operada com urgência. 
Essa mulher irá explorar obstinadamente os determinan­
tes simbólicos de seu tumor, ao ponto de descobrir o que se apre­
senta a ela como uma certeza. Seu tumor decorre do lugar que sua 
mãe lhe deu: ocupar o lugar de um morto. Ela passou muito tempo 
a desdobrar essa certeza referindo-a a sua história, a seus sonhos e 
aos dizeres de sua mãe. Antes de seu nascimento, sua mãe perdeu 
gêmeos dos quais estava grávida. Esse aborto espontâneo teria sido 
causado por uma queda da escada provocada por uma criança, ou 
por uma bola que um de seus ftlhos teria jogado acidentalmente. 
Ela nasceu dez meses mais tarde e recebeu um nome duplo, que 
retoma os nomes dos gêmeos. Acredita ter tido, ela mesma, uma 
irmã gêmea que teria morrido ao nascer, mas não encontrou traços 
disso nos registros de nascimento. Aproxima, finalmente, as cir­
cunstâncias de seu nascimento com o que se passara com sua mãe. 
1 94 
''M.inha mãe me disse que eía mesma fora concebida no caso de que sua irmã 
viesse a morrer. Ela era como eu, uma criança reserva". 
Estávamos nesse momento de sua análise em um univer­
so sem surpresas. Tudo aí já estava determinado. Mas, então, que 
estatuto dar a esses cinco anos passados na reconstrução de uma 
história? O tumor cerebral e sua recuperação por meio de uma 
reconstrução histórica parecem ter-lhe permitido tomar alguma dis­
tância em relação a um Outro bastante inquietante, a menos que 
essa reconstrução fosse, ela mesma, delirante. 
A questão que tudo isso colocou foi de saber se convinha 
ou não seguir no sentido dessa construção. Reconstruir a história 
equivale a atribuir a cada um o lugar que ele ocupa. Em que lugar 
convinha ao psicanalista se colocar, e, sobretudo, em que lugar con­
vinha a ele não se colocar? O que regia esse momento dos encon­
tros era uma certeza. ''M.inha mãe sabe. Ela não suportava a mentira. Ela 
sabe e eu não sei". O tumor não faz enigma para essa analisante. 
A paciente se casa depois de alguns anos de análise e dá à 
luz a um menino. Sua mãe morre no dia seguinte, depois de ter visto 
a fotografia do neto. ''M.inha mãe me deixou seu lugar. É como se eu pen­
sasse que ainda não nasci". É nessa época que ela fica sabendo, pelos 
médicos, que não corre mais risco de recidiva. 
Até esse momento, as coisas iam bem para ela, apesar de 
todo o contexto dramático com o qual envolve seu tumor. Casou­
se, é mãe de uma criança, renuncia a uma atividade profissional 
muito ligada à morte para dedicar-se a um trabalho de tradutora e 
documentalista. Inegavelmente, o fato de ter reconstruído sua his­
tória em torno de uma certeza, "Ocupo o lugar de um morto ", a apazi­
guara. Porém, o nascimento de seu filho, a morte de sua mãe, jun­
tamente com o comunicado de sua cura, inauguram um quadro clí­
nico completamente diferente. O que acelerou a regressão imaginá­
ria? Será a palavra do médico anunciando-lhe, após cinco anos, que 
o risco de recidiva estava afastado? Ou será o acontecimento que 
une o nascimento de seu filho e a morte de sua mãe? 
195 
O apoio que ela encontrava no significante "tumor" de 
repente lhe falta, revelando, ao mesmo tempo, em quê ele lhe ser­
via. Esse tumor tinha, para ela, valor de ponto de basta. Esse tumor 
parece ter tido para ela o mesmo estatuto de uma metáfora deliran­
te, com a diferença que ela teria se passado no real do corpo. Esse 
tumor lhe assegurava um ponto de ancoragem no campo do Outro, 
que ela não parou de consolidar fazendo referência à sua história. A 
cura do tumor lhe tirou esse ponto de ancoragem. Ela se viu, de 
repente, confrontada com um Outro gozador. 
Este se apresenta, desde então, sob as mais diversas for­
mas. Ouve vozes que a xingam de safada, que lhe dizem "tu men­
tes", ou ainda, que deve se matar (se tuer) . Sente-se espionada. As 
pessoas lhe fazem sinais que não entende e que lhe amedrontam. 
Constata que objetos desaparecem de sua casa, ou ainda que a qui­
lometragem de seu carro mudou. Tem a impressão de que alguém 
está entrando em sua casa ou andando com o seu carro. Encontra 
comprimidos em sua casa e teme que um estranho tente fazer de 
seu filho de quatro anos um drogado. 
A intrusão do Outro é onipresente em seu universo. O que 
domina o quadro nesse caso é uma total incompreensão do que lhe 
acontece. A perplexidade e também a angústia que acompanham 
todos esses fenômenos fazem com que ela pense nisso continua­
mente. Essa figura do Outro toma na transferência uma forma 
inversa, oferecendo, ao mesmo tempo, ao analista uma estreita, mas 
real, margem de manobra: '3' e não acreditarem em mim} eu me mato (je 
me tu e) J� diz repetidamente. Não acreditar nela equivale, para ela, a 
uma condenação à morte. Da letra "tumor" (tumeur) ao significante 
"matar" (tuer) se traça toda uma série de signos que só tem sentido 
pela proximidade sonora: tu morres (tu meurs) , tu mentes (tu mens), 
eu me mato (je me tue), tu me matas (tu me tues) , etc. 
A clinica do desligamento também se manifesta, por 
exemplo, nesses sujeitos que não podem terminar uma frase ou que 
não conseguem encerrar a sessão. Isso é particularmente patente 
1 96 
nesta paciente. Os finais de sessão lhe colocam tanta dificuldade 
que ela continua falando mesmo depois que o analista se levanta, e 
depois na soleira da porta e ainda no corredor. O abandono do 
Outro, ou ainda, a perda de um bom uso do ponto de basta, é mar­
cado por uma dificuldade e até mesmo uma recusa em concluir. 
Jacques-Alain Miller chegou a se perguntar, em Arcachon, se não 
podíamos considerar essa dificuldade com o ponto de basta como 
um fenômeno elementar, tal qual as alucinações, os neologismos e 
a certeza psicótica. 
Buscar o que há de mais singular nas pequenas invenções 
de um sujeito coloca-nos na via do tratamento que ele já encontrou. 
Na presente situação clínica, tratava-se principalmente de levar a 
sério uma indicação que ela dava ao analista: '�e não acreditarem em 
mim, eu me mato". Acompanhá-la na via da reconstrução de um 
mundo habitável passa por levar em conta seu delírio. O verdadei­
ro leitmotiv de sua vida deve ser tomado como um apelo de que exis­
tam pequenos outros que levem a sério seu delírio, seus fenômenos 
psicóticos, que são a solução que ela encontrou para não morrer. A 
posição do psicanalista é, nesse caso, bastante reduzida. De supor­
te passivo do saber que ela supunha ao seu tumor, o psicanalista 
viu-se reduzido a ter que sustentar a posição de ao-menos-um a 
acreditar nela, nem demais nem muitopouco. 
Dois tipos de intervenções se deduzem daí, segundo ela se dê 
no nível do significante ou no nível do gozo. No nível do significante, 
ali onde o psicótico solicita um Outro que sabe, um Outro a partir de 
então persecutório, o psicanalista poderia ficar tentado a tomar a des­
completude do Outro sobre si. Poderia ficar tentado, como alguns sus­
tentaram, a operar sobre a falta no Outro se apresentando, ele mesmo, 
como faltoso. O que surge, de imediato, é que tal manobra não pode 
ser feita nem pensada senão a partir de um lugar de exceção, de um 
lugar onde o Outro não seria, justamente, faltoso. Tomar a falta sobre 
si só é possível a partir de um lugar em que o Outro sabe, pois é pre­
cisamente isso que é patogênico para o psicótico. 
1 97 
Se o sujeito suposto saber é patogênico para o sujeito psi­
cótico, importa que o analista possa, sobre esse ponto, optar por 
uma posição de abstenção. Descompletar o Outro é, em primeiro 
lugar, intervir de um lugar onde isso não se sabe. Isso pode tomar 
uma forma muito concreta. É, por exemplo, recusar toda mensa­
gem de esperança, toda forma de promessa. Prometer a um sujeito 
psicótico dias futuros mais felizes pode, eventualmente, precipitá-lo 
em uma passagem ao ato para desmenti-lo. 
Descompletar o Outro pode ser também introduzir sua 
divisão no real. Não se dirigir diretamente ao psicótico pode ser 
uma forma concreta de introduzir no real uma falta no Outro5• 
Desdobrar o interlocutor ali onde o psicótico situa o Outro de seu 
delírio, constitui uma outra maneira de intervir6• 
Colette Soler propõe um tipo de intervenção que procede 
do que ela chama "orientação do gozo"7• Tratar-se-ia, nesse caso, 
por um lado, de introduzir um limite ao gozo quando este se faz 
invasivo e destrutivo, e, por outro lado, sustentar o gozo quando 
este se abre no sentido de uma realização efetiva do sujeito. 
O que quer dizer limitar o gozo? Essa paciente construiu 
para si, por meio de seu delírio, um Outro que quer a sua morte. É, 
portanto, esse Outro que deve ser destituído. Destituir o Outro do 
gozo pode tomar formas muito concretas. Pode tomar a forma de 
uma lenta restauração do Outro da alienação a partir da localização 
dos signos e das marcas que esse Outro deixou na história do sujei­
to. Isso consiste também em sustentar o sujeito nas pequenas inven­
ções que ele instaura para se defender desse Outro gozador: assoar 
o nariz para não ouvir vozes, substituir o telefone com fio por um 
celular, menos propício ao transporte de vozes, ensinar seu filho a 
fazer tranças com pedaços de corda que um desconhecido teria 
usado para tentar enforcá-lo, delimitar a função dos diferentes 
cômodos da casa a partir de um jogo de construção, etc. Uma 
forma de destituir o Outro poderia ser, aqui, trazê-lo de volta para 
o terreno dos jogos infantis. 
1 98 
1 1 1 . TERCEIRO CASO 
Quando o senhor B., um maníaco-depressivo, encontra 
sua analista pela primeira vez, ele está à procura de alguém "que escu­
te suas construções e que não tenha medo". Tem trinta e dois anos e vive 
em um abrigo de pós-tratamento há três meses. 
Foi hospitalizado pela primeira vez aos dezessete anos. 
Seus pais haviam se recusado a comprar para ele um par de sapatos 
igual ao do namorado. A perda dessa relação especular com o 
namorado levou-o ao hospital. Ele descreve tal hospitalização como 
um inferno, um campo de concentração. Sua vida é, em seguida, 
pontuada por tentativas de volta à vida social (trabalho, vida comum 
com um homem, etc.) , tentativas que terminam todas em fracassos 
e em novas hospitalizações. 
No início de sua análise perde dois empregos, pois fica 
nervoso com os clientes e responde-lhes rispidamente. Fica um ano 
sem trabalho, abandona o abrigo de pós-tratamento e se inscreve 
para obter um apartamento supervisionado. Duas coisas o susten­
tam durante esse momento difícil: o pagamento de suas dívidas a 
terceiros e o relato, ao longo das sessões, de suas dificuldades de 
viver, da vida pobre que leva por causa de sua falta de dinheiro e do 
vazio de sua vida afetiva. 
Em seguida, encontra um trabalho e se instala em um apar­
tamento. Leva adiante seu trabalho há mais de três anos, o que nunca 
lhe acontecera, e não é hospitalizado há cinco anos, o que também 
nunca lhe acontecera desde sua primeira hospitalização. Isso se deve, 
parece, a três elementos: a uma construção subjetiva, a sua homos­
sexualidade como sintoma e às modalidades da transferência. 
Ele dá início a uma construção do manejo do dinheiro que 
alterna entre gastos em momentos de excitação e pagamentos em 
seguida. Os pagamentos são momentos difíceis que ocupam todo 
seu tempo e sua mente. Para sua analista está também sempre 
devendo algumas sessões, que são pagas rigorosamente. 
1 99 
A homossexualidade como sintoma forma um ponto de 
tensão entre seus ideais (família, ftlhos, mulher, etc.) e sua vida nas 
saunas, nos parques e bares em uma busca declarada, mas não assu­
mida, de uma relação afetiva estável. 
Sua transferência à psicanálise toma um lugar estabiliza­
dor. Ele trabalha em sua análise. Uma intervenção de sua analista: 
'Venha, faço questão que o trabalho continue", faz com que retome as 
consultas: �h! Então eu irei". Ressaltemos que é ele quem conduz 
essa análise: "Hqje, será uma análise freudiana", diz; ou então: "hqje, será 
uma análise psicometaftsica". No entanto, a psicanalista e stá ali e o 
enquadre se mantém; este enquadre é flexível, mas não cede a seus 
"caprichos". Como ele mesmo diz, ele "não poderá comprar sua psica­
nálise como se compra uma cadeira". 
O psiquiatra trata sua psicose maníaco-depressiva com 
medicamentos. O paciente considera que é uma doença, como a 
diabetes, por exemplo, mas que não o define, não é um "você é 
isso". A psicanálise, ao contrário, permite-lhe buscar quem ele é e 
como se arranjar com suas tensões. 
A psicanalista faz poucas interpretações e propõe, sobre­
tudo, uma escuta dessa palavra endereçada. Ela intervém oportuna­
mente para esvaziar um cenário como esse que ele elaborara ao 
começar seu novo trabalho: �credito que estou me tornando o filho espi­
ritual de meu patrão!". Ela fez, então, com que ele observasse que fora 
contratado somente para trabalhar. 
Esse trabalho de análise é, em parte, a oferta de um supor­
te narcísico na busca de um laço social desse paciente. 
200 
Notas 
• 
Relator: Alexandre Stevens 
1 LAURENT, É. "Limites de la psychose", Les p�chiatres et la p�chana!Jse al!fourd'hui, 
GRAPP, 1988. 
2 LAURENT, É. "Aux limites de la psychose: discussion de trois cas", Les Feuillets 
du Courtil, n.l . 
3 Ver: ASSOCIATION MUNDIAL D E PSYCHANALYSE (ed.). Les pouvoirs de 
la paro/e, Le Seuil, 1 996. 
4 ZERGHEM, M. "La pratique à plusieurs - Dédoublements de l'analyste", Le 
conciliabule d'Angers, Agalma-Le Seuil, Le Paon, 1 997. 
5 ZENONI, A. "Clinique d'un enfant psychotique", Préliminaire, n.4. 
6 KUSNIEREK, M. "lntroduction aux Journées du RP". 
7 SOLER, C. "Quelle place pour l'analyste ?", Actes de ECF, XIII, p.30. 
Z01 
Antenne Clin(que de Toulouse* 
O PSICANALISTA COMO AJUDA-CONTRA 
O que é um percurso analítico? Poder-se-ia descrevê-lo, 
com Lacan, partindo do destino do sintoma no tratamento, do 
complemento de saber à função de enodamento, ou seja, do "sinto­
ma patológico" - aquele do qual o sujeito se queixa e pelo qual sofre 
- até a sua armadura - o sinthoma, o resíduo que sobrevive a seu 
deciframento e à interpretação. 
Se essa perspectiva pode ser tida como invariável em 
Lacan, ela coloca, contudo, três questões: 
1 . Como e em que condições se efetua essa passagem do 
sintoma ao sinthoma? 
2. Qual é a função e qual é o destino do agente dessa ope­
ração, o analista? 
3. Esse processo é rigorosamente o mesmo, e o analista 
mantém o mesmo lugar de acordo com a estrutura do sujeito, seja 
ela a neurose ou a psicose? 
Desejamos trazer uma contribuição para a solução da ter­
ceira questão. 
I. DO COMPLEMENTO DE SABER À FUNÇÃO DE ENODAMENTO 
Tomemos comoponto de partida o que propõe Lacan, 
em 1 966, no relatório de seu Seminário Prob/emes cruciaux pour la 
p.rychanafyse: 
203 
''A dificuldade de ser do psicanalista decorre daquilo que ele encontra 
como ser do sujeito: a saber, o sintoma. 
Que o sintoma seja ser-da-verdade, é nisso que todos consentem, por 
sabermos o que quer dizer psicanálise, não importa o que se faça para 
em baralhá -la. 
Donde vemos o que custa, para o ser-do-saber, reconhecer as for­
mas afortunadas daquilo com que ele só se acopla sob o signo do 
infortúnio. 
Que esse ser-do-saber tenha que se reduzir a ser apenas o complemen­
to do sintoma, eis o que o horroriza e aquilo que, ao elidi-lo, ele faz 
funcionar no sentido de um adiamento indefinido do estatuto da psi­
canálise como científica, entenda-se"'. 
Salientemos simplesmente aqui o lugar e a função inaugu­
rais do analista. É como ser-do-saber que ele entra no processo ana­
lítico para completar o ser-de-verdade do sintoma. É essa comple­
mentação, portanto, que enlaça sintoma e transferência, fazendo do 
sintoma inicialmente incompleto um sintoma sob transferência. O 
fato de que o analista venha a ocupar, em seguida, a função de sem­
blante do objeto a, não desenlaça ipso facto aquilo que estava enlaça­
do. É porque a complementação do sintoma pelo ser-de-saber do 
analista vai colocar o sintoma na dependência direta da transferên­
cia. No processo assim iniciado, o sintoma pode ser decifrado e 
reduzido, mas não poderia atingir sua função de sinthoma senão com 
a condição de que seu deciframento seja "concomitante a um pro­
cesso de resolução da transferência"2• 
Assim, esvaziado de seu sentido, seu gozo sendo desvalo­
rizado, o sintoma torna-se sinthoma, ou seja, um sintoma que acome­
te o fora-do-discurso - um sintoma que vira as costas e dispensa 
todo ser-de-saber, um sintoma fechado ao artifício psicanalítico e 
reduzido a uma dupla função: função topológica - de enodamento 
-, e função de gozo - da letra. Mas, para esta última, deciframento 
e resolução da transferência permanecem insuficientes. É preciso aí 
uma outra condição que Lacan enuncia em "Lituraterra": " . . . só se 
goza com isso ao chover aí a fala de interpretaçãom. 
204 
Pode-se considerar, no caso da neurose, que o psicanalista 
que foi complemento do sintoma no início da experiência assim 
permaneça ao seu término, uma vez que o sintoma se reduz à sua 
armadura? 
Parece antes que a noção de sinthoma objeta a qualquer 
ideia de complemento - em particular complemento de saber -, e 
que a resolução da transferência fecha definitivamente o 
sintoma/ sinthoma ao acesso do Outro, estabelecendo uma nova 
forma de autismo do gozo, aquele da letra que satura a função do 
sintoma: I: (x) . 
No entanto, isso se coloca diferentemente nos casos de 
psicoses, desencadeadas ou não. 
É notável que seja em seu seminário sobre Joyce que 
Lacan tenha estabelecido mais claramente a função do analista não 
mais como "complemento" do sintoma, mas como sinthoma. 
Lacan considera que o psicanalista só pode se conceber 
como sintoma, ou seja, no final das contas, "uma ajuda da qual, nos 
termos do Gênesis, pode-se dizer que é uma reviravolta". Uma revi­
ravolta em relação ao sintoma analítico, ao sintoma do analisante 
completado pelo sujeito suposto saber. Aí, o analista, como sinto­
ma, faz ex-sistir aquilo contra o que o inconsciente do sujeito ana­
lisante possa se apoiar. Apoio que Lacan faz jogar com pensar, falan­
do de appensamento. Apoia-se contra um significante para pensar. Para 
Lacan, o nó borromeano é apoio para o appensamento de quê? Do 
furo freudiano, do qual a hipótese do inconsciente toma seu supor­
te. Que esse furo - por onde se revela que não há Outro do Outro 
- possa fornecer uma ajuda, uma ajuda contra o inconsciente 
homossexual, tal é a reviravolta lacaniana do analista-sinthoma. 
Essa afirmação, se ela é generalizável a toda psicanálise, 
vale mais particularmente para a clínica da psicose, mas com a con­
dição de definir topologicamente as psicoses como falta ou dificul­
dade de enodamento dos elementos da estrutura - psicoses da 
infância -, ou como acidente de desenodamento - psicoses adultas. 
205 
Parece claro, a partir daí, que a perspectiva borromeana da psicose 
exclui a hipótese de uma complementação do sintoma psicótico 
pelo ser-de-saber do psicanalista. Para isso há, pelo menos, duas 
razões. Por um lado, contrariamente ao sintoma neurótico, o sinto­
ma psicótico é menos um ser-de-verdade do que um ser-de-gozo. 
De fato, o ser-de-verdade é o outro nome da metáfora do sintoma 
na medida em que a metáfora do recalque é constitutiva do campo 
da verdade. Se o sintoma neurótico é um ser-de-verdade, é na estri­
ta medida em que é um retorno do recalcado e tem a estrutura de 
metáfora. Sabe-se que não acontece o mesmo para o sintoma psi­
cótico que procede da foraclusão. O que faz retorno no real pode 
ser nomeado de outro modo senão como ser-de-gozo? 
É, portanto, pela mesma razão que o sintoma psicótico 
não se interpreta, que ele não se complementa. Por outro lado, nas 
psicoses, trata-se quase sempre de obter um enodamento ali onde 
ele tem dificuldade de se efetuar, de evitar um desenodamento ali 
onde o sujeito corre um risco ou de ajudar a refazer um nó ali 
onde o anterior se desenodou - como nas psicoses adultas desen­
cadeadas. 
Na neurose, a operação do analista visa obter a correção 
do nó que se realiza com a passagem do sintoma ao sinthoma. Na 
psicose, porque não há análise - não há deciframento do sintoma, 
não há construção da fantasia, não há resolução da transferência, 
não há interpretação -, é o próprio analista que é convocado no 
lugar do sintoma. De fato, nenhuma elaboração significante, nenhu­
ma pacificação do gozo, nenhuma estabilização é suficiente para 
fazer passar o sintoma psicótico ao sinthoma. Se, na neurose, o ana­
lista satura a função do sujeito suposto saber, não seria o caso de 
dizer que, na clínica das psicoses, é a função de sinthoma que ele é 
convocado a suportar? 
É preciso ressaltar que essa posição do analista-sinthoma 
que Lacan define na lição do dia 1 3 de abril de 1 976 não é especifi­
camente reservada à análise do sujeito psicótico. No entanto, não 
206 
podemos senão ficar surpreendidos pelo fato de que sua lógica não 
contradiga isso, muito pelo contrário. É como se Lacan tivesse se 
servido da psicose, em seus últimos Seminários, para redefinir os 
conceitos da psicanálise. Assim, a posição do analista-sinthoma vale 
tanto para a neurose quanto para a psicose. Aí, há continuidade; não 
da neurose à psicose, mas, antes, continuidade na posição do analis­
ta, pois ela é fundada a partir da psicose tomada como modelo das 
relações do sujeito com o Outro e com o gozo. 
Ali onde Freud só sustenta sua hipótese do inconsciente 
supondo o Nome-do-Pai - a pessoa suposta ao recalcamento, o 
recalque em pessoa -, Lacan faz do sinthoma uma resposta que vale 
como uma ajuda contra o complexo de Édipo. Ajuda contra pela 
qual "a psicanálise, por ser bem sucedida, prova que podemos 
muito bem prescindir do Nome-do-Pai, com a condição de nos ser­
virmos dele". 
Eis aqui o axioma lacaniano que deveria ser colocado à 
prova da análise com o psicótico, que é muito mais desprovido do 
que o neurótico do Nome-do-Pai. Ao neurótico, pouco importa 
servir-se do Nome-do-Pai, pois prescindir dele quase não lhe faz 
diferença. Mas o psicótico, como fazer para que ele se sirva disso de 
que ele poderia prescindir, se isso não lhe faltasse cruelmente? 
Seria necessário, então, que o analista fosse, como sinthoma, 
uma ajuda contra o que o impele na direção d'A mulher em seu 
encontro com Um-pai, uma ajuda contra seu "sem razão" que lhe 
serve de apoio contra o significante do Outro que não existe, S (A) . 
Dois casos clínicos examinados do ponto de vista da dinâ­
mica transferencial nos ensinam que, a partir do momento em que 
se considera o final da análise, pode-se concernir um para além do 
Édipo. 
207 
11. "NÃOSOU MAIS UMA MULHER" 
Vários tempos escandem o modo de aproximação da Sra. 
A. em direção à psicanálise. No primeiro momento, ela encontra a 
psicanálise por ocasião de um sintoma de seu filho pequeno. 
Percebe que está implicada no sintoma desta criança, que nasceu 
pouco tempo após a morte de seu marido, e que reage ao luto no 
qual ela se mantém. O sintoma do filho, embora bastante espetacu­
lar, cedeu rapidamente, criando na mãe um certo encantamento 
face ao poder da palavra. 
O analista não vê utilidade em prolongar as entrevistas, 
pois parece que a criança não tem mais grande coisa a dizer, fican­
do aliviada somente pelo fato de que sua mãe encontrou um início 
de solução para além dela. Portanto, não tem mais necessidade de 
levar adiante seu sintoma para sustentar essa mãe. 
Um pouco depois, a mãe retomará o contato, desta vez 
para ela mesma, pois não precisa mais usar a questão de seu filho 
como sintoma. Sente, contudo, necessidade de falar: as entrevistas 
enfatizaram a hiância criada pelo falecimento de seu marido. Evoca 
os despertares penosos que vêm escandir o desaparecimento desse 
homem que encontra em seus sonhos cotidianamente. É com muita 
dificuldade que confia o teor desses sonhos, como se, falando deles, 
ela traísse o falecido. Instala-se, então, uma certa reticência em se 
engajar na relação transferencial porque ela vem em concorrência a 
esse luto impossível de fazer. 
Um momento crucial marca a entrada da Sra. A. no pro­
cesso transferencial. Está claro, então, que a Sra. A. vem por ela 
mesma, seu filho não lhe coloca mais problemas e a morte do mari­
do não aparece mais como a única origem de seus males. Nesse dia, 
a Sra. A. fala de um mal-estar que carrega desde a adolescência e do 
qual nunca havia falado. 
Tinha então dezoito anos e acabara de passar no vestibu­
lar. Era verão, seu pai e sua mãe se reuniram após muito tempo de 
208 
separação devido à profissão do pai, que trabalhava no estrangeiro 
(en expatrie) . A família alugou uma casa de campo de uma proprietá­
ria que, ouviu-se dizer, acabara de morrer de um tumor no cérebro, 
sendo essa a única sombra no quadro desse verão que poderia ser 
idílico. A moça está, portanto, na praia, aproveitando o sol e, de 
repente, sente algo indefinível: o mundo lhe parece estranho, e ime­
diatamente sente-se estranha a ela mesma. Não fala a ninguém 
sobre o episódio do qual leva dois anos para se recuperar sem a 
ajuda de ninguém. Diz, então, nunca ter sofrido tanto na vida. 
Conclui essa sessão dizendo que tinha claramente a impressão de 
que tudo isso era da ordem da loucura e, sobretudo, que sempre 
havia pensado em nunca contar isso a um especialista, que poderia 
etiquetá-la. 
Percebe que essa angústia nunca a abandonou completa­
mente, sempre está ali, pronta para surgir, precisamente nos 
momentos em que, por conta de sua profissão, é levada a tomar a 
palavra em público. Fica, em alguns momentos, à beira do desliga­
mento, e teme ser desvelada em uma posição de impostura. 
O relato de sua angústia de adolescente marca, portanto, 
uma virada no tratamento. A Sra. A. vai desdobrar a partir daí algu­
mas das identificações que prevaleceram em seu ambiente familiar, 
até chegar a seu irmão mais velho natimorto que teria sido necessá­
rio substituir no desejo de sua mãe. 
A liberação desse ponto faz com que recue. Por que razão 
remoer essas velhas histórias? Viera pela saúde de seu ftlho, ele está 
bem agora. Pode ir embora. 
Apesar de tudo, ela volta, mas de novo acompanhada de 
seu ftlho e por uma razão bastante banal: ninguém podia tomar 
conta do garoto naquele dia. 
O analista escolhe deixar de lado o garoto e a Sra. A. não 
pode mais recuar em relação a falar do segredo de família que pro­
cura calar, já há algum tempo, e que diz respeito à vida íntima do 
avô paterno que teve o papel de patriarca. Este segredo desvelado 
209 
sublinha a impostura dessa figura patriarcal e a dificuldade da Sra. 
A. em se localizar na questão: o que é uma mulher? Faltou pouco, 
nesse dia, para que a presença do garoto impedisse a Sra. A. de che­
gar a esse indizível. 
A Sra. A. fica aliviada de ter podido colocar uma palavra 
sobre essa situação familiar do avô. Mas pouco depois dessa sessão, 
ela volta a desaparecer. 
Voltará, muito angustiada, seis meses mais tarde. Um 
acontecimento de sua vida de mulher acaba de lembrar-lhe a angús­
tia sentida frente a sua mãe, que acabara de ser submetida a uma his­
terectomia: 'Tiraram-me tudo) não sou mais uma mulher)), dissera ela a 
sua ftlha. Ora, a Sra. A. fora · tomada por essa frase sem compreen­
der seu sentido. Lembra-se que após esse episódio tivera o que cha­
mam de "crise de nervos"; depois, que uma angústia surgira alguns 
dias mais tarde: a impressão súbita de ser masculina. Essa sensação 
sinestésica angustiante voltou regularmente, sendo acompanhada 
por um sentimento de vergonha. Era preciso esconder isso de qual­
quer jeito. 
Permaneceu, portanto, sozinha com essa sensação, que 
voltava de vez em quando e que desencadeava muita angústia. Hoje, 
faz o laço entre essa sensação corporal e a frase de sua mãe que 
havia desencadeado sua perplexidade: "Não sou mais uma mulher)� É 
como se essa sensação corporal viesse assinalar, em eco com a frase 
da mãe, que ela também não era mais uma mulher. 
É importante notar que essa angústia desapareceu duran­
te toda sua vida conjugal, mas que ressurgiu no momento em que 
ficou viúva. A Sra. A. pode agora reconhecer que é disso que se 
trata nessa angústia do despertar de todas as manhãs quando seu 
novo companheiro passa a noite com ela. 
Poder-se-ia, portanto, supor que o casamento conseguiu 
manter algum ponto de basta, algum enodamento, devido talvez ao 
aspecto muito narcísico desse amor que lhe permitia encontrar no 
corpo do outro uma metáfora para fazer calar esse gozo impossível. 
2 1 0 
Nesse amor fusional, ela podia se imaginar sendo o outro masculi­
no, sem problemas. Por outro lado, quando ele morre, o luto torna­
se particularmente impossível e, no atual momento, pode-se com­
preender por quê: ela não só perde seu marido, mas também o que 
tinha para ela valor de sintoma, ou seja, o que lhe permitia metafo­
rizar esse gozo transexual. Então, são essas sensações no limite da 
alucinação que a espreitam ao despertar quando ela tem a quase cer­
teza de que esse homem está ali. Sim, ele está realmente ali, mas 
nela, como na época de suas angústias adolescentes. 
Essas angústias precederam o momento de despersonali­
zação que sobreveio no verão do vestibular. É preciso assinalar que 
esse momento corresponde a uma degradação da posição social do 
pai, revelando uma falha da função paterna. 
Por esse fato, pareceria difícil para essa paciente encontrar 
a solução do sintoma para remediar a não-relação sexual e inscre­
ver, assim, alguma ordem na copulação significante. 
A relação dessa paciente com o significante é marcada por 
uma espécie de espontaneidade que lhe vale efeitos de surpresa e 
sideração, o que poderia fazer dela uma campeã da associação livre, 
mas que revela, antes, que em certos momentos ela está às voltas 
com o deslizamento metonímico. Isso a angustia e impõe rupturas 
no laço analítico. 
Na rubrica das relações dessa paciente com o significante, 
é preciso situar a impressão angustiante de masculinidade. O efeito 
sentido em seu corpo pela via sinestésica - e não pela via sintomá­
tica - em resposta à frase do Outro materno, "Não sou mais uma 
mulher, tiraram-me tudo '� indica que ela está presa na rede do que ela 
entende como uma injunção, o que coloca seu corpo em uma com­
pleta dependência em relação ao Outro; e é nessa submissão, e não 
fora dela, que ela goza. O sujeito se encontra reduzido ao ser de seu 
corpo, o que está na estrutura da experiência de despersonalização. 
No entanto, vemos que essa paciente tem o recurso de 
poder escapar por alguns momentos dessa captura. Durante a vida 
2 1 1 
de seu marido, parece que não teve episódios angustiantes.Mas, 
desde seu falecimento, as angústias reapareceram. É preciso dizer 
que o marido morto é realmente uma figura emblemática do mes­
tre hegeliano. Ora, vê-se bem que é então seu filho que vai atraí-la 
para fora dessa relação, na medida em que ele se obstina a não res­
ponder à sua demanda, encarnando, assim, o ponto de gozo à deriva. 
Por seu sintoma, ele serve de sintoma a sua mãe. 
O fato de privar essa mãe de seu sintoma poderia ter feito 
com que vacilasse e revelasse sua estrutura; em casos semelhantes, 
isso pode sempre acontecer. Ora, isso não acontece aqui. Parece 
que a transferência lhe permite encontrar o apoio que lhe falta. 
Porém, essa relação transferencial parece constituir tam­
bém uma ameaça. E por isso, espontaneamente, no momento do 
surgimento do que nós estaríamos tentados a chamar de um fenô­
meno elementar, ela escolhera calar-se por temor de uma resposta 
do Outro. Nessa época, evitara cuidadosamente ir buscar do lado 
do Outro um "ser-de-saber" para completar seu "ser-de-verdade". 
1 1 1 . EM QUE CONSISTE SER UM HOMEM NORMAL? 
O Sr. D. dá testemunho nas primeiras entrevistas do que 
ele nomeia de uma "angústia existencial", concernente às suas difi­
culdades de investir seus estudos universitários e o fracasso de suas 
relações sociais e afetivas com as mulheres. 
É um rapaz de vinte e quatro anos, brilhante, culto, estu­
dante de ciências, que, no entanto, fracassou em todos os exames 
desde seu sucesso no vestibular, "em razão de suas dificuldades psi­
cológicas", diz. É, portanto, essa série de fracassos e maus resulta­
dos que o leva a encontrar um ''psl' para lhe apontar uma causa. 
O analista logo observa a discordância existente entre, de 
um lado, uma apresentação controlada de si mesmo e das circuns­
tâncias históricas desses "fracassos" e, de outro lado, uma enuncia-
2 1 2 
ção "flutuante" de suas dificuldades. Oscila, de fato, entre dizeres 
em que surgem interrogações angustiadas sobre as perturbações 
que o afetam e comentários irônicos e agressivos sobre o enquadre 
proposto pelo analista ou sobre as suas intervenções. 
Sofre, diz ele, por não poder sair de casa, por medo de 
enfrentar o olhar dos outros. Quando está em um anfiteatro, é obri­
gado a se posicionar de uma maneira tal que os outros estudantes 
fiquem atrás de si e que ele fique perto de uma saída para poder ir 
embora caso sinta um mal-estar. Se o olhar dos outros se coloca 
sobre ele, é invadido por sensações corporais desagradáveis, que ele 
chama de "descargas", uma espécie de formigamento que enrubes­
ce e invade seu rosto. Pode, também, sentir suas mãos dormentes, 
como se não fizessem mais parte de seu corpo. Não suporta essa 
sensação de desprendimento de seu corpo. Sente se predispor men­
talmente a essas descargas, enrijecendo seu corpo, mas é impotente 
para controlá-las, apesar dos estratagemas que emprega: se fixa em 
uma ideia, ou olha para seus interlocutores nos olhos para lhes fazer 
abaixar o olhar. Esses fenômenos o invadem, e ele mobiliza uma tal 
energia para neutralizá-los que não consegue mais se concentrar em 
seu trabalho, desabando em prantos, com a vontade de se aniquilar 
para fazer com que o sofrimento pare. 
Foi em seu primeiro ano de faculdade que sentiu pela pri­
meira vez essas descargas, no exato momento em que devia fazer 
uma demonstração no quadro negro. Acreditava-se "inspecionado" 
pelo olhar inquisidor de seus colegas e de seus professores. Ele, que 
fora sempre um aluno brilhante, no momento mesmo em que lhe 
pedem para se mostrar à altura disso, falha, é invadido por esses 
fenômenos "sinestésicos" de desprendimento de seu corpo. 
Interpreta esse episódio e seus fracassos como o cumprimento da 
predição de uma professora em cuja casa sua mãe era empregada, e 
que lhe dissera que "o êxito escolar de seu fllho não duraria!". As 
afirmações dessa mulher, desprezando-o socialmente e desvalori­
zando, assim, seu êxito escolar, eram comprovadas - acreditava com 
213 
convicção - por seus fracassos posteriores, como se ele estivesse se 
colocando, em seguida, em posição de obedecer a essa injunção de 
gozo de um Outro arrogante. Na certeza dos efeitos dessa predição 
ele não estaria atribuindo ao Outro uma autodifamação? 
Em um escrito que endereçará ao analista, tenta apreender 
esses fenômenos de descargas. Elas ocorrem em um contexto de 
luta contra suas ideias megalomaníacas, para escapar do olhar de 
desprezo de seus colegas. Suas "descargas" são, nesse momento, 
como manifestações de invasão de um gozo em ser o objeto do 
olhar de desprezo dos outros. 
Da mesma maneira com que se queixa das "descargas" 
que o submergem, e das tensões que elas provocam nos laços 
sociais, diz também ser invadido, às vezes, por acessos aniquilado­
res de angústia, e isso desde que efetuou o serviço militar com os 
caçadores alpinos. Desabava quando tinha que ser submetido a 
provas físicas (tais como ser enterrado na neve) . Ficava petrifica­
do, pensava estar morrendo. Não pôde pedir uma dispensa, por 
causa de seus fracassos nos exames, mas, também, porque em sua 
família "não se pode livrar-se do serviço militar" - seu tio-avô 
"era coronel". 
O que o preocupa atualmente é a solidão amorosa, não 
consegue encontrar mulheres que correspondam a seu ideal femini­
no, mas, sobretudo, teve experiências sexuais desastrosas que teme 
ver se renovarem quando encontra uma mulher. É, de fato, tomado 
por uma angústia-pânico no momento de penetrar uma mulher. Só 
de pensar que seu sexo poderia estar nas mãos de uma mulher, diz 
ele, desaba, e não pode suportar a relação sexual. 
Existe, com certeza, no Sr. D., um apelo à mediação de um 
saber para explicar a si próprio a significação das perturbações que 
o afetam e o sentimento de sua própria estranheza. Mas é o estatu­
to desse saber esperado que faz problema, haja visto as reações sus­
citadas pelas intervenções do analista. Estas visavam relançar suas 
falas, mas eram interpretadas tão logo emitidas e ele acrescentava aí 
214 
novos significantes que atribuía ao analista deformando, assim, seus 
dizeres, a ponto de torná-los incompreensíveis. Frente ao "é o que 
você acredita!", dito pelo analista, mostrava-se desestabilizado, mas 
continuava a lhe atribuir dizeres e os seus próprios pensamentos. A 
voz ouvida era o eco de seus pensamentos interiores. Ele instituía o 
analista como parceiro de suas interpretações delirantes. Protegia-se 
também do surgimento de um dizer inédito ou da confrontação 
com o vazio de seu silêncio repassando o texto de suas sessões 
antes de vir. Foi o que admitiu, com muita agressividade, quando o 
analista o questionou a respeito de um pedido de mudança de horá­
rio de uma das sessões, interrogando-o sobre "o que ele fazia que não 
podia vir direto". Ele ouviu ainda: "Como um adulto!". Atribuíra uma 
resposta à questão, interpretando em sua alucinação auditiva que o 
analista o tratava como uma criança. A voz sonorizava assim o olhar 
infantilizante que ele imaginava voltado sobre ele. 
Nesse período, inunda o analista com seus escritos e lhe 
traz uma fita cassete na qual gravou sua voz. Em seus escritos, tenta 
apreender, localizar o gozo de suas descargas. O fato de trazer essa 
fita faz do analista o depositário desse objeto-voz que o estorva. Ele 
não mais lhe atribui sua voz na alucinação auditiva: ele lhe dá o obje­
to-voz! Tenta assim despregar, exteriorizar entre-dois, esse objeto­
voz, em um lugar terceiro que a transferência o permitiu instituir. 
Ao devolver-lhe a fita algumas semanas depois sem tê-la 
ouvido, o analista lhe faz saber que o que mais importava era o que 
ele podia dizer durante as suas sessões. O que motivou esse ato foi 
o desejo de não dar consistência ao "tudo faz sentido" que o paciente 
esperava do Outro do "saber absoluto" da psicanálise. Se ele se 
mostrou espantado com isso, houve, a partir de então, uma mudan­
ça em sua implicação na transferência e um apaziguamento de sua 
interpretação delirante. 
Vai trazer uma série de situaçõesem torno de sua interro­
gação sobre sua identidade sexual: "Será que sou um homem normal?", 
perguntava ele. 
2 1 5 
"Quando vim pela primeira ve� vi seu nome junto ao de sua colega; 
pensei que vocês fossem um casai homossexua4 e que vocês iam fazer com que 
eu me tornasse homossexual!" De fato, no decorrer de uma conferência 
do antropólogo Coppens sobre a origem do homo sapiens, ele o ouviu 
dizer para si: "É uma mulher!" Foi então tomado por um tal mal­
estar, que teve que se retirar; tais palavras o atingiram como se fos­
sem dirigidas a ele. Já sentira essa alusão a sua identidade sexual 
durante uma situação de inspeção; pensou que o inspetor queria 
"inspecionar seu sexo " e aí, também, foi tomado por um tal mal-estar 
que acabou abandonando o anfiteatro. É do Outro que ele ouve a 
resposta ao que ele é como ser sexuado, mas isso desencadeia sua 
angústia, como se não pudesse sustentar essa questão. 
Também encontra-se confrontado a uma parasitagem do 
significante sexual masculino, que se impõe a ele toda vez que lê a 
sigla informática Bit ("bite" = pênis), em um texto, ou quando o pro­
fessor de física desenha no quadro a rede magnética cujo contorno 
forma os órgãos genitais. Ele não pode brincar com isso, como 
fazem seus colegas, ou se contentar em pensar no valor metafórico 
desses signos. 
O que surge com essa parasitagem é o "real" do sexo, 
como se o significante sexual não estivesse naquele momento meta­
forizado. 
Vai, repetidas vezes, evocar uma lembrança infantil trau­
mática que o marcou. Aos seis anos de idade submeteu-se a uma 
operação por causa de uma fimose. Sua mãe não soube limpar seu 
sexo corretamente, o que se reproduziu em seguida com seu irmão 
mais novo, também operado. Depois da cirurgia, acordou com o 
sexo ensanguentado e não entendeu o que estava acontecendo; 
acreditou que não tinha mais sexo, que se tornara uma menina. 
Ainda revê a mãe refazendo os curativos, em cima da mesa da cozi­
nha, ali onde, habitualmente, ela pelava os coelhos. Ela convidava 
sua avó e suas tias para verem esse estranho espetáculo, diz ele, com 
emoção. Ele se lembra de seus gritos de dor. 
2 1 6 
Há uma fixação de gozo do Outro sobre seu pênis reduzi­
do à carne. É, aliás, nessa sessão que ele vai falar de sua angústia­
pânico de ter que colocar seu sexo nas mãos das mulheres. 
Irá então elaborar, durante várias sessões, essa versão trau­
mática de uma cena de castração vivida como real. A subtração de 
seu pênis - caído nas mãos de sua mãe - serve para dar um sentido 
à elisão do falo, pelo fato de a castração simbólica não ter podido 
operar: o desejo da mãe não pôde ser localizado como suficiente­
mente orientado para o pai. 
Uma vez que o malogro da metáfora paterna não permitiu 
a introdução da significação fálica, o significante fálico não pôde 
operar. 
Apoiando-se na presença "real" do analista, na transferên­
cia, ele vai organizar suas experiências de despedaçamento, tentan­
do encontrar para elas um sentido unificador. Diante dessa presen­
ça tão "reduzida" quanto possível, diante das manifestações tão ver­
tiginosas quanto reversíveis de seu amor de transferência se trans­
formando em ódio, o Senhor D. pôde trazer o caráter destrutivo de 
seu ódio pelas mulheres, esse que ele provocava na transferência, 
posicionando-se assim como objeto do gozo do Outro: "Faço tudo 
para provocar sua cólera, esse ódio que tenho de você me impede de trabalhar 
aqui". 
Algumas sessões mais tarde, diz ter pensado estar nesse 
lugar da mulher, gozando de ser uma mulher penetrada por uma 
outra mulher, com um sexo masculino postiço. Acrescenta que não 
gostaria de ter prazer em ser uma mulher penetrada por um homem. 
Quando se imaginou nesse lugar, teve medo de ser transformado, 
sentiu em seus membros alguma coisa como se eles se reduzissem a 
uma linha. Será uma defesa contra o "empuxo-à-mulher"? 
Esperava que a resposta que construiu para si na transfe­
rência, sobre sua identidade sexual, lhe fosse fornecida pelo analis­
ta e se impacientava com a retenção desse saber quando pergunta­
va se era um homem normal ou um homossexual. 
2 1 7 
Pode-se também pensar que a parasitagem do "tudo faz 
sentido sexual", que perturba sua visão dos símbolos fálicos ou sua 
leitura das siglas informáticas, é o retorno no real do significante de 
seu sexo que foi foracluído do simbólico. É um dos efeitos da fora­
clusão do Nome-do-Pai. 
Na sessão seguinte, anuncia que teve um sonho. "Sonhei que 
estava em cima de uma ponte como aquela em que se passa para vir 
aqui; estava com um amigo, com quem tinha brincadeiras sexuais 
quando criança. Queria apresentá-lo para você, você estava com a sua 
amiga do outro lado. A ponte se fendia, eu mergulhava, voava e che­
gava à outra margem. Na fenda, havia um homenzinho dourado, pare­
cendo um Buda, que fazia rodar um CD ROM. Não conseguia ler o 
que ele tinha na memória, não conseguia inseri-lo no computador". 
Interpreta-o como um signo de seu desejo de suspender 
sua análise: ''A fenda da ponte indica que não vale mais a pena vir. 
Penso que está na hora, para mim, de escolher entre a psicanálise e 
o budismo, já que você não quer dizer o que você sabe sobre mim 
e não me guia suficientemente". 
Ele voltará quando conseguir decidir se quer ou não se 
engajar nesse trabalho analítico. Esse desejo de deixar a análise 
ocorreu em um momento crucial e delicado, momento em que se 
queixava de estar desestabilizado pelo fato de o analista se furtar a 
ocupar o lugar do saber absoluto do Outro que ele viera procurar 
na teoria psicanalítica e porque ele não podia fazer disso o que pre­
tendia. Ao mesmo tempo, a presença do analista na transferência o 
levava a construir para si esboços de respostas ao vazio enigmático 
com o qual o confrontavam esses fenômenos de descargas e essa 
parasitagem do sentido sexual. Teria que, de fato, fazer uma esco­
lha. Mas poderia fazê-la diante da necessidade de fazer existir um 
Outro do saber em relação ao gozo ao qual ele se consagrava? 
O cartão postal recebido seis meses depois desta interrup­
ção, em que agradecia pelo prazer que tinha na companhia das mulhe­
res, mostra que o analista ocupa ainda esse lugar de endereçamento. 
218 
IV. O PSICANAliSTA COMO AJUDA·CONTRA 
Os dois casos examinados do ponto de vista da dinâmica 
transferencial indicam-nos que o analista pôde encontrar uma 
maneira de entrar em jogo sem despertar o gozo do Outro, mas 
mantendo precisamente fora de suas significações devastadoras um 
objeto que ele soube acolher. 
Com o Senhor D., por exemplo, o analista evita encarnar 
o parceiro que teria o ser de saber apto a fazer consistir o saber abso­
luto do Mestre hegeliano, figura emblemática do Supereu do psicó­
tico. Bem ao contrário, o fato de acolher a voz de seu paciente, tal 
como ele a oferece, isto é, em fitas cassete e sem nada dizer sobre 
isso, nos parece ter mantido fora de qualquer significante uma parte 
de ser sobre a qual o sujeito vai poder se apoiar para evitar a solu­
ção do empuxo-à-mulher. É, parece-nos, o analista que se encarre­
ga dessa função, sendo o lugar em que um gozo à deriva pode 
sobreviver à injunção , do "tudo faz sentido". 
De uma forma bastante similar, a transferência se enoda 
no caso da Sra. A. em torno desse ftlho que ela traz como sintoma 
e que o analista acolhe. Mas, contrariamente ao que essa mãe espe­
rava, ele o deixa de lado, ou seja, não faz disso nem um ser-de-ver­
dade nem um ser-de-saber para a mãe. No entanto, ele o acolhe e a 
coisa se renova, pois, repetidas vezes, em momentos cruciais, a Sra. 
A. teve necessidade de ser acompanhada por seu filho. Fazendo-se 
lugar de acolhimento para esse objeto fora da injunção do supereu 
onde tudo deve fazer sentido, ainda aí o analista é levado a repre­
sentar o lugar de um gozo à deriva. É nisso que ele toma ao seu encar­
go a posição feminina podendo, assim, servir de sintoma para o 
sujeito analisante. 
Um ponto essencial foi o foco de nossas pesquisas. Trata­
se da questão ressaltadapelo famoso gozo à deriva que destacamos no 
Seminário A Lógica da fantasia. Lembremos que, para Lacan, esse 
ponto de gozo à deriva da metáfora do gozo do Mestre permite ao 
2 1 9 
escravo suportar sua postçao, pois ela lhe torna sustentável uma 
posição de sujeito à distância de seu corpo como metáfora do gozo 
do Outro. 
Esse gozo à deriva faz pensar nessa parte de gozo que exce­
de ao gozo fálico, isto é, no gozo feminino. A lógica da experiência 
clínica nos conduz muito naturalmente a pensar que essa parte de 
gozo que escapa ao ideal do todo fálico pode, em certos casos, fun­
cionar como um limite e notadamente oferecer um refúgio ao ser 
do sujeito que não tem como argumentar quanto à função fálica. 
O que coloca o corpo à distância do gozo do Outro é o 
sujeito - muito embora só haja gozo do corpo, como Lacan ressal­
ta nas últimas lições de seu Seminário sobre A Lógica da fantasia. "O 
sujeito dilacera o corpo do gozo", diz Lacan no dia 30 de maio de 
1 967. Quando Lacan evoca essa posição do sujeito em relação ao 
seu corpo e ao seu gozo, recorre à metáfora hegeliana do mestre e 
do escravo. 
Para Lacan, o escravo aliena seu corpo no corpo do mes­
tre, ou seja, do Outro, na medida em que seu corpo serve de metá­
fora de gozo para o mestre; mas não todo o seu corpo entra nessa 
metáfora, há alguma coisa que fica à margem. É essa "alguma coisa" 
que permite ao escravo, como sujeito, não se confundir com a posi­
ção de objeto de seu corpo que metaforiza o gozo do mestre. Como 
sujeito, o escravo goza, mas, à margem da alienação; há para ele um 
gozo "à deriva"\ esse de um objeto que escapa ao corpo do Outro. 
É nisso que ele é fora-do-corpo. 
Mestre � Corpo do escravo I I Escravo � objeto fora do corpo 
S I (a) do Mestre I I Sujeito I Gozo à deriva 
o corpo como outro I I o sujeito o gozo à deriva 
220 
O gozo do escravo não é de se fazer o objeto do gozo do 
mestre, o gozo do escravo está à deriva e é o que o salva do aprisio­
namento na fantasia do mestre hegeliano. 
Poder-se-ia, sem dúvida, considerar a estrutura das rela­
ções do sujeito psicótico com o Outro segundo o modelo das rela­
ções do escravo totalmente dependente do mestre hegeliano\ sem 
possibilidade de gozo à deriva, um escravo, portanto, cujo gozo se 
igualaria ao gozo do Outro que devastaria seu corpo. 
Dessa forma, portanto, chegamos à conclusão de que o 
analista-sintoma preenche sua função abrigando o gozo à deriva e 
nisso ele garante a função não-todo (pas tout). É inegável, na perspec­
tiva da clínica que examinamos, que essa função faz limite. É esse 
ponto que desenvolveremos agora. 
Isso nos remeteu a uma leitura minuciosa das fórmulas da 
sexuação. Essas fórmulas aparecem pela primeira vez em 1 97 1 ; 
explicitam-se, em 1 972, no Seminário . . . ou pior, são desenvolvidas no 
Seminário Mais, ainda; encontramos um comentário muito preciso 
desse famoso não-todo (pas tout) em "O aturdito ". Finalmente, encon­
tramos em 'Televisão " observações precisas sobre a posição femini­
na em relação à loucura e ao não-todo (pas tout) 
Na leitura desses textos, torna-se evidente que essas fór­
mulas da sexuação não devem ser manejadas como ferramentas 
matemáticas, pois Lacan introduz novos quantificadores que a 
matemática não conhece. É, portanto, vão, tentar se situar aí com a 
lógica matemática. Além do mais, Lacan joga muito frequentemen­
te com o equívoco e, assim, os enunciados se entrechocam. 
Seja como for, há um certo número de enunciados que 
vão no sentido de descrever o primeiro quantificador da sexualida­
de feminina como: não há x que diga não à função fálica, ou seja, 
não há A Mulher. Mas esse enunciado é imediatamente correlacio­
nado ao fato do não-todo, ou seja, ao segundo quantificador, pois, 
para Lacan, é a mesma coisa dizer que não há A Mulher e dizer que 
a mulher é não-toda. Os dois quantificadores estão, portanto, ligados. 
221 
É apenas em "O aturdito" que Lacan considera que os dois quanti­
ficadores possam funcionar separadamente, mas, então, é para 
designar muito explicitamente o empuxo-à-mulher na psicose: 
"O sujeito, na metade em que se determina pelos quantificadores 
negados, vem de que nada existente constitui um limite da função, que 
não pode certificar-se de coisa alguma que seja de um universo. Assim, 
por se fundarem nessa metade, "elas" são não-todas, o que tem também 
como consequência, e pela mesma razão, que tampouco nenhuma 
delas é toda. Desenvolvendo a inscrição que fi:r. da psicose de Schreber 
por uma função hiperbólica, poderia demonstrar, no que ele tem de 
sarcástico, o efeito de empuxo-à-mulher que se especifica pelo primei­
ro quantificador ( . . . )"6• 
Isso diz, claramente, que na psicose há foraclusão da exce­
ção e que, por esse fato, a função fálica amputada de sua exceção, 
por querer tudo dizer, já não poderia dizer mais nada. O primeiro 
quantificador sozinho descreve, portanto, o empuxo-à-mulher. É 
um enunciado desse gênero que encontramos em Televisão quando 
Lacan diz sobre as mulheres que "o universal do que elas desejam é 
a loucura: todas as mulheres são loucas, como se diz. É por isso 
mesmo que não são todas, isto é, não loucas-de-todo . . . (pas folles-du­
tout . . . )"7. A frase é equívoca. As mulheres são loucas por serem não­
todas, ou seriam elas loucas se fossem todas? Parece que o final da 
frase é sem equívoco: elas são não-todas, portanto, nada loucas jpas 
folles du tou� . Pode-se deduzir daí que a loucura feminina seria a ten­
dência ao universal fálico que nas mulheres é sem limite devido à 
ausência de exceção e que o não-todo viria, portanto, como limite ­
certamente, dificilmente considerável de um ponto de vista mate­
mático, mas muito mais eficaz para se sustentar na vida quando se 
está inscrito desse lado como ser falante. 
É preciso considerar esse não-todo em sua relação com o 
Outro. É o que Lacan ressalta em seu Seminário A angústia. 
Diferentemente do mestre hegeliano que é, antes de tudo, uma 
consciência, uma pura consciência de si, o Outro da teoria lacaniana é 
222 
inconsciente, ele não sabe. Ele não sabe que o escravo representa o 
objeto de seu desejo e é o que torna sustentável a posição do escra­
vo. Não tudo da realidade desse objeto é apreensível pelo Outro 
que é o lugar onde se aliena o saber do objeto; é o que torna a alie­
nação suportável. "Por causa do inconsciente podemos ser esse 
objeto"8• 
Ora, podemos dizer que o que caracteriza o Outro do psi­
cótico é que ele não é inconsciente, mas, antes, onisciente. A mano­
bra do analista na transferência deve, portanto, opor-se a essa ins­
tância e visar à regulação do espaço do "não-sábio-de-tudo"9• 
Essa ideia de manejar o não-todo para se opor à devasta­
ção do supereu psicótico está implicitamente no centro da tese que 
Lacan desenvolve em seu Seminário O sinthoma a propósito do ana­
lista-sinthoma. Ele enuncia aí que "não se pode conceber o psicana­
lista de outra forma senão como um sinthoma". Acrescenta que é 
preciso concebê-lo, no final das contas, como "uma ajuda da qual 
podemos dizer que é uma inversão dos termos do Gênesis"10• Lacan 
responde aí a uma questão que fazia alusão a uma nova tradução do 
Gênesis que enuncia que "Deus criou para o homem uma ajuda 
contra ele". Então, trata-se de ir contra o quê se não for à consis­
tência do Outro? "Evidentemente", a tendência do sujeito é de sub­
jetivar esse ponto, a fim, não somente de garantir a consistência do 
Outro, mas, também, de se servir de seus significantes para tentar 
reduzir aí o seu ser. Donde a aproximação operada por Lacan entre 
esse ponto, A mulher, Deus . . . e o Outro do Outro. O analista-sintho­
ma opera uma inversão propondo o não-todo no lugar do Outro do 
Outro, "posto que, assim como o Outro do Outro, é o que acabo 
por definir há um instante como esse furinho aí. A hipótese do 
inconsciente tem seu suporte justamente na medida em que esse 
furinho possa, por si só, fornecer uma ajuda"1 1 • 
223 
Notas 
* 
Relator: Bernard Nominé 
1LACAN, ). (1973) "Problemas cruciais para a psicanálise". In: Outros Escritos. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p.208-209. 
2 BRUNO, P. "L'identification au symptôme", 6/4/2, n.7, p.1 17. 
3 LACAN, ). (1973) "Lituraterra". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.23. 
4 LACAN, J. Le Séminaire XIV, "La logique du fantasme", sessão do dia 
17/06/1 967: "Eu, eu gozo do seu corpo, isso significa que o seu corpo se torna 
a metáfora do meu gozo. Hegel, de qualquer maneira, não esquece que isso é 
somente uma metáfora do servo, e resta que, para ele, como para o que eu inter­
rogo no ato sexual, há um outro gozo que está à deriva". 
5 Os maternas dos discursos devem ser meticulosamente lidos. O discurso do 
mestre fornece, certamente, a matriz do inconsciente. Ele significa que o sujeito 
é irredutível ao significante - que há, portanto, um furo originário no saber. Mas, 
não basta concluir daí que o que ele é como objeto é o que escapa à representa­
ção significante e o torna desejante. Pois essa conclusão, pelo menos em sua pri­
meira parte, vale igualmente em linguística onde o teórico sabe do fracasso estru­
tural da representação. Poderíamos, então, colocar uma equivalência entre o $, o 
S1, que o representa, e o objeto a rebelde à representação. É o que compreendeu 
perfeitamente o capitalista. Em todo caso ele tira daí uma justa consequência ao 
identificar a mais-valia com a espécie de objeto que lhe falta: riferir-se ao materna do 
discurso capitalista. S /Sl � S2/ a (Lacan, Milão, 12.05.72). Esse discurso é uma 
versão do mestre e do escravo. Se substituirmos o escravo pelo proletário, com­
preende-se um pouco o que está em jogo. Lacan explica-nos, de fato, que o pro­
letário é privado de qualquer objeto pelo capitalista. Nisso, o proletário prefigura 
a saída do capitalismo, na qual Max apostou. O proletário é um elemento ao 
mesmo tempo incluído e excluído do capitalismo: ele é um sintoma social. A psi­
canálise inscreve o sintoma no particular. Ela objeta à confusão entre mais-valia 
e mais-de-gozar - esse gozo cuja deriva é mascarada enquanto o sujeito o con­
fundir com a mais valia, ou enquanto o sujeito pensar que é despossuído dele 
pelo Outro (o capitalista, por exemplo). É também essa não confusão que pare­
ce visada no que Lacan qualifica de "saída do capitalismo"; dessa vez, devido ao 
consentimento do sujeito, no momento mesmo em que ele descobre que o gozo 
que ele atribuía ao Outro (que ele supunha subtraído pelo Outro) era seu gozo 
de neurótico. Para dizer a verdade, o final de uma análise revelaria desse ponto de 
vista a estrutura: "Sl / S � S2/ a I Gozo à deriva." Não há sujeito sem signifi-
224 
cante. Mas, se há significante, então, o sujeito se reduz a termo a esse gozo irre­
dutível que ele deve ao fato de portar o significante no real - identificação com 
o sintoma. Inscrever um sujeito em um discurso - sujeito, aqui, psicótico já que 
fora do discurso - implica em dividi-lo como falante desse objeto que dá teste­
munho de sua irredutibilidade ao saber do Outro. 
6 LACAN, ]. (1973) "O aturdito". In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2003, p.466. 
7 A construção "pas folles-du-touf' admite também os sentidos de "nada têm de 
loucas" e de "não loucas pelo todo". Cf. nota 12 p.538 de Outros Escritos. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003. 
8 LACAN, ]. (1 962-1963) "Angústia, signo do desejo". In: O Seminário, livro 10: a 
angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. p.35. 
9 LACAN, ]. (1 975) Le savoir et la vérité ". In: Le Seminaire, livre 20: Encore, p.90: 
"Au niveau de ce pas-tout, il n'y a que l'Autre à ne pas savoir. C'est l'Autre qui fait 
le pas-tout, justement en ce qu'il est la part du pas-savant-du-tout dans ce pas­
tout". N.R.: Na tradução brasileira de. "O saber e a verdade", temos: "No nível 
desse não-todo, há somente o Outro a não saber. É o Outro que faz o não-todo, 
justamente por ele ser a parte que não-sabe-de-tudo neste não-todo"(LACAN, ]. 
(1972-1 973). O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 
1982, p. 133. 
1 0 LACAN, ]. (1 975-1976) "Do inconsciente ao real". In: O Seminário, livro 23: o 
sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.13 1 
1 1 lbid. 
225 
AUTORES DOS TEXTOS DA PRIMEIRA PARTE 
Seção Clínica de Aix-Marseille e Antenne Clinique de Nice 
Relatores: Hervé Castanet e Philippe De Georges. 
Hervé Castanet. Christine De Georges, Philippe De Georges, Nicole Guey, 
Monique Guillot-Chevalier, David Halfon, Gilbert Jannot, François Morei, 
Sylvette Perazzi, Jacques Ruff. 
Seção Clínica de Clermont-Ferrand, Antenne Clinique de Dijon 
e Seção Clinica de Lyon 
Relatores: Jacques Borie, Jean-Robert Rabanel e Claude Viret. 
Michele Astier, Marie-Frédérique Attali-Doineau, Barbara Bonneau, Jacques Borie, 
Nicole Borie, Pierre Bosson, Jean-Frédéric Bouchet. Aline Bouhey, Jean-Pierre Brunhes, 
François Caron, Christine Cartéron, Gabriel Chantelauze, Laurence Charmont, 
Claude Claverie, Marie-Hélêne Couloumy, Jean-François Cottes, Hervé Damase, 
Jacqueline Dhéret, Francis Felzine, Christian Fontvieille, Pierre Forestier, 
Christine Guillet-Cuénot, Françoise Héraud, Michel Héraud, Marga Karsz-Mendelenko, 
Jacques Lacourt. Yves Le Bon, Dany Lots, Jacques Marblé, Patrice Margot, 
Maria Lucia Martin, Didier Mathey, Gilles Mochicourt, Jean-Pierre Mordier, 
Lisa Muller, Gérard Querré, Simone Rabanel, Jean-Robert Rabanel, 
Richard Rebibou, Jean-Pierre Rouillon, Jean-Louis Soyer, Délia Steinmann, 
Claudine Valette, Thierry Vigneron, Claude Viret, Alain Vivier, 
Nicole Virat-Tréglia, Wanda Wlodarczyk. 
Seção Clínica de Lille 
Relatores: Geneviêve Morei e Herbert Wachsberger. 
Sylvie Boudailliez, Philippe Bouillot, Annick Brauman, Vincent Calais, Carine Decool, 
Hélêne Deltombe, Brigitte Duquesne, Emmanuel Fleury, Dominique Holvoet, 
Nadia Jambart, Franz Kaltenbeck, Diana Kamienny-Boczkowski, Brigitte Lemonnier, 
Geneviêve Loison, Geneviêve Morei, Bernard Seynhaeve, Herbert Wachsberger. 
227 
Seçio Clínica de Bordeaux 
Relatores: Carole Dewambrechies-La Sagna e Jean-Pierre Deffieux. 
Marie-Françoise Bahans, Florence Bonichon, Annick Boucheny, Geneviêve Bouquier, 
Marie-Ciaire Bouter, Anne-Marie Brossier, Chantal Cabot, Camille Cambron, 
Claudine Casanova, Marianne Caussêque-Portillo, lsabelle Cordier, Mireille Dargelas, 
Rigo De Bortoli, Jean-Pierre Deffieux, Marguerite Derrien, 
Carole Dewambrechies-La Sagna, Viviane Durand, Michêle Fourton, Paul Gil, 
Anne-Marie Girardeau, Dominique Jammet, Françoise Kovache-Serrec, Philippe Lacadée, 
Catherine Lacanze-Paule, Éveline Lachaux, Philippe La Sagna, Édith Magnin 
Alain Merlet, Albert N'Guyen, Ghislaine Panetta, Marie-France Prémon, Daniel Roy, 
Daniel Sallenave, Hélêne Seyrat, Annie Smadja, Catherine Vacher. 
Antenne Clinique de Chauny-Prémontré e Antenne Clinique de Rouen 
Relator: José-Luis Garcia Castellano. 
Éric Blumel, Corinne Bognar, Roland Broca, Christophe Delcourt, Marie-Hélêne Doguet, 
Jean-Michel Dutilloy, José-Luis Castellano, Éric Guillot, Raymonde Jdanoff, 
Françoise Koehler, Bernard Lecoeur, Nicole Maisonneuve, Claude Parchliniak, 
Jean-Pierre Parchliniak, Marie-Ciaude Sureau, Valéria Pera-Guillot, Jean-Louis Woerle. 
Antenne Clinique de Nantes e Seção Clínica de Rennes 
Relatores: Roger Cassin, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen, 
Bernard Porcheret e François Sauvagnat. 
Josienne Cassin, Roger Cassin, Gilles Chatenay, Claudette Damas, Sophie Duportail, 
Mareei Eydoux, Jean-Louis Gault, Pierre-Gilles Guéguen, Jacques Guihard, 
Françoise Hamon, Hervé Hubert, Jean-Ciaude Maleval, Roger Merien, Michêle Miech, 
Jean-Loup Morin, Bernard Porcheret. Marie-Paule Rabiller, François Sauvagnat, 
Pierre Stréliski. 
Seçio Clínica de Angers 
Relator: Fabienne Henry. 
Jean-Yves Beillevaire, Mireille Boisselier-Nédelec, Ghislaine Boucasse, Annie Cariou, 
Alain Cochard, Solange David, Catherine Dubois, Dominique Fraboulet, Françoise Frank, 
Guilaine Guilaumé,Fabienne Henry, Raymond Lamboley, Marie-Françoise Lamoine, 
Jean Leliêvre, lsabelle Lesage, Monique Marcelon, Vincent Moreau, Marie-Odile Nicolas, 
Claudine Nollet, Anne Paillé, Hega Rosenkranz, Jean-René Savary, Gérard Seyeux, 
Marc Soria, Pierre Stréliski, Bertrand Tricoire. 
228 
Seção CUnica de Bruxelas 
RtJitJtor: Alexandre Stevens. 
léonce Boigelot, Katty langelez, Anne lysy-Stevens, Pierre Malengreau, 
Alexandre Stevens, Guy de Villers Grand-Champs, Alfredo Zenoni. 
Ant11nn• CliniqutJ de Toulouse 
RllltJtor: Bernard Nominé. 
Sidi Asko Faré, Michel Bousseyroux, Anne Castelbou, Fabienne Guillen, Bernard Nominé, 
Michel lapeyre, Pierre Rogar, Maria-Jean Sauret, André Soueix, Christiane Terrisse. 
229 
SEG U N DA PARTE 
A CONVENÇÃO 
ABERTURA 
1 . TRÍPTICO 
Philippe De Georges - Ao acolhê-los, nesta Convenção, tenho 
o privilégio de dizer-lhes algumas palavras. A primeira será: "Bem­
vindos!" Bem-vindos a todos e a cada um. Eis o que tenho o pra­
zer de dizer-lhes "de viva voz". Insisto nesse "de viva voz", pois é 
bem diferente de nos comunicarmos por fax ou internet. Vocês 
estão aqui presentes, com sua presença real, com essa presença real 
tão essencial à análise, análise que não se concebe in absentia. 
Presença que dá corpo, que encarna a palavra, que implica o regis­
tro pulsional, que constitui a enunciação. Bem-vindos, em nome da 
Antenne Clinique de Nice, de seus participantes, daqueles que nela 
ensinam e de seus conferencistas. 
Minha primeira saudação será especialmente para aqueles 
cuja vinda assegura o enlaçamento desse encontro com nossa 
comunidade internacional. Penso em Jorge Forbes, conduzido aqui 
por uma corrente da América; Antonio Di Ciaccia, trazido por um 
vento transalpino; Hebe Tizio e Rosa Calvet, a quem devemos os 
momentos tão intensos vividos, ainda há pouco, em Barcelona. 
Durante os preparativos de Barcelona, nossos anfitriões 
catalães evocaram Amphitryon. Tomarei emprestada a referência 
como modo de me colocar sob seus auspícios: que possamos ser 
tão acolhedores quanto eles, que possamos assegurar como eles o 
sucesso de nossos trabalhos. 
Amphitryon me lembrou a frase do falso Sósia: "O verda­
deiro Amphitryon é aquele em cuja casa jantamos!". Pois bem! Aqui, 
como na peça de Moliere, a frase é falsa: são os que ensinam na 
Antenne Clinique de Nice que, de fato, recebem vocês na Côte d'Azur, 
235 
mas seu mento é pequeno. Os verdadeiros organizadores desse 
encontro, aqueles graças aos quais vocês são tão numerosos, são de 
Bordeaux e de Angers. É, com efeito, a Fabienne Henry e Michel 
Jolibois a quem devemos o volume preparatório, no qual sei que 
muitos mergulharam com ardor. Foram eles que, com seu reconhe­
cido savoirfaire, nos trouxeram essa ferramenta indispensável aos 
nossos trabalhos. E é, sobretudo, a Carole Dewambrechies-La 
Sagna e a Jean-Pierre Deffieux a quem devemos a realização do 
encontro. Eis, portanto, nossos verdadeiros anfitriões. 
Esse primeiro esclarecimento requer um segundo. Nossa 
Convenção de hoje é a terceira parte de um tríptico. Tudo começou 
em Angers, com o Conciliábulo. Em seguida, tivemos a 
Conversação de Arcachon. Finalmente, desde que muitos colegas 
viram com bons olhos a aliança entre um trabalho decidido e o sol 
da Côte d'Azur, a escolha por Antibes se confirmou. Se me mostrei, 
na época de Arcachon, decidido a que as coisas fossem assim, é por­
que tive a possibilidade de manifestar o lugar que nossa pequena 
comunidade, imprensada entre o Estérel e a costa, pretende ter no 
Campo Freudiano. Nosso desejo é, de fato, o de ocupar um bom 
lugar nesse turbilhão. É a nossa primeira oportunidade de receber­
mos em casa tantos colegas: alguns de vocês j á vieram animar nos­
sas conferências e nossas trocas, mas nunca tantos, e, sobretudo, 
nunca juntos. 
Lamentamos ter sido impossível encontrar em Antibes um 
lugar que correspondesse às exigências de uma tal conversação. É 
por isso que estamos em Cannes, neste palácio prestigioso, conhe­
cido, sobretudo, por suas lentejoulas, seus strass e suas estrelas: trou­
xemos à Croisette1 nossa paixão de lavradores do Campo Freudiano. 
Estamos, aqui, com efeito, para lavrar, semear, cultivar o Campo 
cuja reconquista está sempre na ordem do dia. 
O programa de nossa Convenção está marcado pelo triplo. 
Não é, sem dúvida, por acaso, mas estrutural. Não estamos, desde 
Arcachon, sob o signo da clínica borromeana? A triplicidade de RSI 
236 
- real, simbólico, imaginário - corresponde, em Cannes, às três par­
tes de nossa reflexão: neodesencadeamento, neoconversão, neotran.iferência. 
Desse modo, somos convidados a um aggiornamento da clínica, da 
construção empírica da clínica. Trata-se, indubitavelmente, de um 
índice da parte a ser tomada pelas Antennes e Seções Clínicas no seio 
do Instituto do Campo Freudiano, nos novos desenvolvimentos 
que esta refundação impõe. 
Minha fala está escandida por "um, dois, três", como se 
procurasse indicar o tempo - vocês certamente o perceberam. 
Visto que o termo "convenção" não pode deixar de reme­
ter a algo da Revolução, pensei em algumas frases de Victor Hugo, 
em Os Miseráveis. Durante os funerais do general Lamarque, Hugo 
nos faz ouvir o discurso do insurgente Enjolras. Este passa pelas 
três consistências que são, para ele, "liberdade, igualdade, fraterni­
dade". Eu o cito: "O ponto de interseção dessas soberanias que se 
agregam se chama sociedade. Sendo essa interseção uma junção, 
esse ponto é um nó. Daí o que chamamos de laço social". 
Qual a junção, qual nó nos diz respeito hoje? Na interse­
ção da clínica com a teoria, não estaríamos às voltas com o que o 
"Relatório de Barcelona" chamou de "a Conversação continuada 
com os textos fundadores do acontecimento Freud, um perpétuo 
Midrash que confronta incessantemente a experiência com a trama 
significante que a estrutura"2? 
Desejo a todos, portanto, um excelente trabalho e passo a 
palavra a Jacques-Alain Miller. 
237 
2. A CONVENÇÃO, MODO DE USO 
Jacques·Aiain Miller - Está previsto que esta seja uma con­
venção. Trata-se de convergir para um acordo: acordo sobre o uso 
das palavras, acordo sobre a descrição, acordo sobre a classificação. 
Logo, convenção sim, concílio não. Talvez seja também uma recrea­
ção, como me dizia Gilbert Jannot. Como temos um certo número 
de horas a passar juntos, debruçados sobre trabalhos bastante sérios 
que iremos ler e discutir, tomemos a Convenção como um vasto 
comitê de leitura. 
Como preâmbulo, direi algumas palavras que poderíamos 
colocar sob o título ''A Convenção, modo de uso". 
O aparelho que constituímos aqui é idêntico àquele da 
Conversação do ano passado: falamos com base no escrito, sobre a 
coletânea de nove textos. Ao mesmo tempo, a diferença entre a 
coletânea anterior e a de hoje é clara: os textos de Arcachon foram 
apresentados a título individual, enquanto os trabalhos dessa con­
venção são relatórios oriundos de uma elaboração coletiva. Além 
disso, o caso é sempre colocado em série, tomado em cadeia, ao 
passo que nos dois anos anteriores era apreendido em sua particu­
laridade disjunta e a classificação era produto de um esforço ulte­
rior, talvez até mesmo do esforço que então fazíamos. Sendo o caso 
colocado em série, qual a sua função? A de ilustrar, a de corroborar 
teses. O caso serve à tese ou permite induzi-la. 
O fato é que muitos me disseram: "Nossa! Como é pesa­
do este volume! Como faremos para falar disso tudo em tão pouco 
tempo?" Não dizíamos isso em Arcachon. Isso se deve ao fato de 
que, aqui, o suporte da palavra é muito elaborado, é um produto já 
239 
tecido, tramado, o que, sem dúvida, levará a uma outra espécie de 
comentário que ainda está para ser encontrada. Conto, para isso, 
com as trocas entre os redatores. Seremos, sem dúvida, levados a 
reconceitualizar, a superconceitualizar, não sem voltar ao detalhe 
dos casos. 
Se eu tomo mais precauções que nas duas reuniões prece­
dentes - o Conciliábulo e a Conversação - é porque a presenteConvenção me parece destinada a ser muito menos espontânea, 
sobretudo pela seguinte razão: agora, dois livros já foram lançados. 
Eles estão nas livrarias e tiveram suas repercussões. Falávamos a 
fundo perdido, como sempre, sem nos preocupar com a forma que 
isso tomaria. Esse não é mais o caso, e esses cálculos afetarão nos­
sas trocas. Segundo alguns, isso pode ter um efeito de incitação exa­
gerada a falar ou de excessiva moderação para se expressar. É o que 
me leva a fazer um pequeno anúncio para tranquilizar a todos: não 
é certo que tenhamos, desta vez, que publicar nossas discussões. 
Após essas precauções, vamos aos fatos. 
240 
3. CLÍNICA FLUIDA IFLOUEJ 
No primeiro tempo, em Angers, começamos - aleatoria­
mente, em desespero de causa - por surpresas, pelas nossas surpre­
sas. Foi uma forma de dizer, implicitamente, que nos confrontáva­
mos com certa rotina ou com certo classicismo e que queríamos 
distinguir momentos ou casos que se subtraíam a uma ordem, cau­
sando nossa surpresa. Situamo-nos, logo de saída, até mesmo sem 
sabê-lo, em relação a uma rotina ou a uma norma, uma ordem pré­
via, para isolar surpresas. 
Perseveramos, e, no segundo tempo, escolhemos como 
tema "Casos raros". Quisemos, talvez, conceituar nossas surpresas. 
O fato é que fomos levados a explicitar nossa referência à norma 
clássica das psicoses e, desse modo, colocá-la mais radicalmente em 
questão. 
Hoje, nos reencontramos, na Convenção, no tempo três. 
Lendo a coletânea, tive o sentimento de que aquilo que tínhamos 
abordado sob a perspectiva de casos raros, abordávamos, agora, sob 
a perspectiva de casos frequentes. Demo-nos conta de que o que 
designávamos como casos raros, em relação à nossa norma de refe­
rência, à nossa medida de base, ou seja, a "Questão preliminar . . . ", 
eram - sabíamos muito bem disto, por meio da nossa prática quo­
tidiana - casos frequentes. Nesse volume da Convenção, assumimos 
seu estatuto de casos frequentes. 
Foi deste modo que, a posteriori, imaginei nosso caminho. 
Passamos da surpresa à raridade e da raridade à frequência. Estava, 
ontem à noite, me perguntando: "como chamaremos o livro que 
poderá resultar desta jornada"? Não será neodesencadeamento, neoconver-
241 
são, neotransferência. Será neopsicose? Será que realmente queremos ligar 
nossa elaboração à neopsicose? Não me agrada nem um pouco a 
neopsicose. E me dizia: "no fim das contas, falamos de psicose 
ordinária". 
Na história da psicanálise, interessamo-nos naturalmente 
pela psicose extraordinária, por aqueles que realmente "arrebenta­
vam". Há quanto tempo Schreber é referência? Ao passo que temos 
aqui psicóticos mais modestos, que nos reservam surpresas, mas 
que podem, como veremos, se fundir num tipo de média: a psicose 
compensada, a psicose suplementada, a psicose não desencadeada, 
a psicose medicada, a psicose em terapia, a psicose em análise, a psi­
cose que evolui, a psicose sintomatizada, por assim dizer. A psico­
se joyceana é, diferentemente da obra de Joyce, discreta. 
Estamos divididos entre dois pontos de vista contrastan­
tes, que não se excluem mutuamente. 
Em uma primeira aproximação, há uma descontinuidade 
entre psicose e neurose, duas classes bem separadas. É a norma, o 
'bê-á-bá' do que é ensinado a partir de Lacan. O segundo ponto de 
vista aponta para uma continuidade, duas saídas diferentes para a 
mesma dificuldade de ser. É o que justifica o fato de Genevieve 
Morei ter ido procurar, na sabedoria asiática revista por François 
Julien, o "variacional". Tanto o franco psicótico quanto o psicótico 
normal são variações - o que dizer? - da situação humana, da nossa 
posição de falante no ser, da existência do falasser. 
A vantagem deste ponto de vista - sabemos disso, e 
Lacan o explorou, pois ele apresenta muitas vantagens para tratar 
a neurose - é a de estabelecer um certo "todos iguais"; todos 
iguais na condição humana. O psicótico não é uma exceção; o 
normal tampouco o é. Essa igualdade foi acentuada por Lacan na 
sua época existencialista, em "Formulações sobre a causalidade 
psíquica", lembrando ao psiquiatra que ele não é, em essência, 
diferente do louco - ele apontou isso de novo no final de seu 
ensmo. 
242 
É precisamente essa igualdade que nos leva a falar de 
modos e, particularmente, de modos de gozo. Mais precisamente, 
falamos de modos uma vez que fizemos desaparecer a descontinuida­
de das classes. Todos iguais frente ao gozo, todos iguais frente à 
morte, etc. Nós não distinguimos classes, mas modos, que são varia­
ções. A partir daí, dá-se lugar à aproximação. 
Se o Outro existe, podemos escolher pelo sim ou pelo não. 
Nas situações em que o Outro existe, há critérios, "repartidores" 
[répartitoires] - segundo a expressão de Damourette e Pichon, que 
Lacan usa uma ou duas vezes, e da qual gosto muito. Mas quando 
o Outro não existe, não estamos simplesmente no sim ou não, mas 
no mats ou menos. 
Aliás, é a verdade. Perguntava-me: qual a verdade das coi­
sas humanas? No fim das contas, é a curva de Gauss. Aonde quer 
que formos, onde quer que estivermos, tudo se apresenta como 
uma curva de Gauss. Nas extremidades, há o radicalmente oposto; 
no meio, sob forma de um sino, há o mais ou menos. É sempre 
assim, aonde quer que se vá e seja lá o que consideremos. Dizia-me 
que era a solução para todos os nossos males: o real das coisas 
humanas se apresenta sob a forma da curva de Gauss. 
Aqui entre nós, por exemplo, a curva de Gauss está com 
certeza presente. Sabemos, logo de início, que se formos testados 
sobre algo, obteremos uma curva de Gauss. 
É em uma das pontas desta linha mágica que está, como 
costumamos dizer, o "seguro e certo". Vamos decompor um pouco 
o "seguro e certo": Há o certo. O certo é muito raro. É realmente 
um caso raro, sobretudo em nosso campo. Lacan reservava a certe­
za para seu materna da histeria. Há, em seguida, o "seguro mas não 
certo", como diz Lacan. É um outro grau: sabemos que é assim, 
mas não podemos demonstrá-lo, colocá-lo numa fórmula. Enfim, 
há o "não seguro". Nós trabalhamos no não seguro. Não somente 
não é certo, como também não é seguro. Nadamos no não seguro. 
É o nosso pasto, se me permitem, é a nossa pastagem. 
243 
Podemos ler nosso volume - talvez não todo o volume, 
mas mais ou menos todo o volume - e dizer: "Puxa! Pois bem! Não 
é seguro. No fim das contas, não é seguro". 
Com Lacan, estamos sempre dizendo: "seguramente, 
seguramente". Mas como, em seguida, ele não diz exatamente a mesma 
coisa, fica-se um pouco embaraçado com esse "seguramente". 
Portanto, finalmente, não é seguro. "Não é seguro" é a 
reposta universal. Em nosso campo, podemos sempre levantar a 
mão e dizer "isso não é seguro". Tudo depende do tom com o qual 
vamos dizê-lo, a convicção, enfim, o objeto a que vamos alojar 
nesse significante. "Não é seguro. Não. Realmente, não é". 
Sem dúvida, é também por esta razão que começamos 
pelas surpresas, pois podemos dizer: "Isso seguramente me sur­
preendeu". 
Então, aproximemo-nos daquilo que somos e do que dize­
mos. Ontem à noite, por exemplo, na Croisette, conversava com cole­
gas durante o jantar. Um deles, muito eminente, versado em teoria 
e tudo mais, dizia: "eu chamei sua atenção quanto a isso - tenho 
uma paciente um pouco psicótica". Efetivamente falamos assim. É 
da ordem do mais ou menos. 
Um matemático da equipe de apoio de Lacan, do seu SOS­
matemática, Guilbaud, se interessou muitíssimo por esse mais ou 
menos. Ele fez um livro a partir de suas aulas sobre o mais ou menos, 
na Maison des Sciences de I'Homme, as quais cheguei a frequentar. 
Uma versão muito operatória e de fácil manejo, que foi 
muito mencionada, é a teoria dos conjuntos fuzzy (jlous) de Zadeh, 
da qual falei à época. Ela permite distinguir graus de pertencimen­
to a um conjunto. Na língua, ela abrange as modalizações que pode­
mos sempre fazer. 
A Croisette, assim como La promenade des Anglais, em Nice, 
ou as Planches de Deauville, não são somente lugares onde nos damos 
a ver, maslugares onde se conversa fiado. É em razão do pensa­
mento aproximativo. Não é preciso que façamos disso um deleite. 
244 
É justamente porque estamos condenados, na prática, ao pensa­
mento aproximativo, que devemos manter nossa postulação em 
direção ao materna. É precisamente por estarmos no mais ou 
menos que Lacan nos disse: "Olhem para lá, olhem em direção ao 
materna". Ainda que possamos somente fazer quase-maternas, 
vamos, ainda assim, continuar a olhar nessa direção. 
O próprio pensamento aproximativo tem seus maternas. 
E, por outro lado, a conversação é necessária até mesmo para os 
matemáticos. Não pode existir matemática se os matemáticos não 
conversarem entre si. A conversação é necessária para saber o que 
procurar, quais os maternas interessantes, os promissores, os que 
estão fora de moda. Em suma, é preciso uma Croisette dos maternas. 
Não pensem que estou exagerando. É preciso saber que, 
na França - descobri isto durante as férias -, existe uma rede de 
cidades de veraneio absolutamente deliciosas, mas que só acolhem 
as ciências "duras". Eu disse: "Será que um dia não poderíamos 
penetrar aí?" _ ''Ah, sim, a psicanálise, hum . . . ". Os físicos e mate­
máticos são acolhidos e tratados como os reis da cocada preta, mas 
nós, não. 
245 
DO PATOlÓG ICO AO NORMAl 
Jacques-Aiain Miller - Alguém gostaria, para começar a 
primeira parte, de assinalar algum ponto, 
seja este um detalhe ou algo mais geral? 
4. PERTURBAÇÕES DA LINGUAGEM 
Hélêne Mniestris - Minha questão se refere à indicação clíni­
ca feita na Seção Clínica de Lille, a partir de Po e <I>o, que me permi­
tiu ver como poderíamos usar a deformação do esquema L, adap­
tada ao caso de Schreber, em outros casos clínicos. Achei essa clíni­
ca fina e preciosa. Vocês poderiam precisar quais são os fenômenos 
ligados ao <I>o? Mais especificamente, vocês classificariam sistemati­
camente o delírio entre esses fenômenos, ou somente as ideias deli­
rantes que dizem respeito ao corpo? 
Serge Cottet - Intervenho a respeito desse mesmo relatório, 
o de Lille, para uma questão geral que se refere às perturbações da 
linguagem. Esse relatório, em sua primeira parte, coloca em evidên­
cia casos que comportam sinais comprovados de psicose, mas nos 
quais faltam as manifestações clássicas da foraclusão, sobretudo, e 
frequentemente, perturbações da linguagem. Acrescentemos que 
esta ausência é compatível com a foraclusão. Apresentam-se, assim, 
psicóticos que têm uma relação normal com a linguagem. 
Gostaria, então, de obter algumas precisões: sobre o uso 
do significante "dragão" no exemplo 3; sobre aquilo que o sujeito, 
no exemplo 4, chama de "relações íntimas passadas do corpo à lin­
guagem": ele apresentou alguma tese ou teoria da linguagem? 
Elementos de automatismo mental são observados: gostaria de 
saber a relação destes com eventuais perturbações da linguagem 
mais clássica. A respeito do educador que se sentiu incumbido de 
uma missão, gostaria de obter precisões sobre as modalidades dessa 
vivência de "se sentir incumbido"; e saber que uso o jovem do caça-
249 
níqueis faz do significante "maricas", que acha que lê nos olhos de 
um colega, e do binário "dinheiro limpo-dinheiro sujo". 
Não seria o caso de trazermos, hoje, precisões a respeito 
do que entendemos por perturbações da linguagem? Seria possível 
distinguir, por um lado, a decomposição clássica do significante, 
como no Seminário 3 e, por outro, fenômenos de despedaçamento 
do significante? Não poderíamos precisar o que se pode entender 
como perturbação da significação, ou ainda, a relação normal do 
sujeito com a linguagem como sintoma? Inspiro-me em uma breve 
discussão sobre o exemplo de Jean-Pierre Deffieux, em Arcachon. 
Trata-se do enunciado "falta-me energia", a propósito do qual 
Carole Dewambrechies observou que poderíamos, eventualmente, 
considerar como uma perturbação da linguagem. Jacques-Alain 
Miller havia proposto a categoria de "neossemantema". Teríamos, 
assim, mais um neo e, talvez, fosse melhor não multiplicá-los. Porém, 
isso assinala uma relação com a linguagem na qual a perturbação 
seria comprovada. Esse enunciado colocava um ponto de basta no 
discurso do sujeito, sua relação com a energia - afinal de contas, tal­
vez não seja uma metáfora; a questão é saber se ele fazia disso um 
uso corrente ou privado. 
Jacques-Aiain M iller - Tratar-se-ia, então, de estender o con­
ceito de perturbação de linguagem para além do franco neologismo, 
indo até o ponto de nele incluir o uso paranormal da linguagem, o 
uso levemente deslocado, a perturbação intersticial. A partir disso, 
seria possível estender ainda mais o conceito de perturbação da lin­
guagem. Poderíamos até dizer que falar é uma perturbação da lin­
guagem. Eu estou convencido disso. 
Sylvette Perazzi - Mas quais as diferenças que vocês fariam 
entre o neologismo propriamente dito e o neologismo tomado em 
seu sentido ampliado, no qual um psicótico toma uma palavra de 
acepção corrente e a utiliza como neologismo? 
250 
Jean-Pierre Deffieux - Sempre fiquei surpreso com o fato de 
que tivéssemos, durante muitos anos, retido essencialmente o neo­
logismo entre as perturbações da linguagem. De fato, é o que 
encontramos no Seminário 3. Mas, em "Formulações sobre a causa­
lidade psíquica", Lacan faz uma longa lista, fina e diversificada, das 
perturbações da linguagem. Nunca realmente interessou-nos a pre­
cisão disso que, neste texto, ele define como perturbações da lingua­
gem. Lacan fala do toque de singularidade que marca as perturba­
ções da linguagem. 
Genevieve Morei - O ponto de vista adotado na primeira 
parte do relatório de Lille corresponde ao que Jacques-Alain Miller 
disse a respeito da clínica aproximativa, ou seja, não considerar as 
diferentes partes do ensino de Lacan como pontos de vista exclusi­
vos: tudo pode ser usado; podemos trabalhar em um caso tanto 
com a "Questão preliminar", com a função fálica dos anos 1 970, 
quanto com a função sintoma, de 1 97 5. Esse ponto de vista expli­
ca nossa classificação dos casos. Parece-me que encontramos, na 
"Questão preliminar", muitas coisas que poderíamos estender em 
todos os sentidos, com as quais podemos até mesmo ultrapassar o 
enquadre estrito que ela parece ter, ou que teve para nós. Para as 
perturbações da linguagem e os delírios, me baseei neste texto: 
tomei o que Lacan chamou de abismos Po e <I>o. Diferenciei o abis­
mo Po, a foraclusão do Nome-do-Pai. 
No abismo Po, classifiquei tudo aquilo que é alucinatório e 
as perturbações da linguagem. O próprio Lacan coloca os pássaros 
que aparecem no parque do lado do abismo Po, quando, na verda­
de, trata-se de algo puramente visual. Mas existe aí uma dificuldade. 
As alucinações visuais e sinestésicas, a meu ver, têm, na prática, um 
estatuto difícil de determinar: quando alguém diz que sente dor na 
perna, é muito difícil saber se é ou não uma alucinação, enquanto 
que quando alguém diz que ouve vozes, a questão está resolvida. 
Esta é uma diferença prática que se apresentou a mim. 
251 
Nas perturbações da linguagem, tomei tudo o que pode­
ria remeter a essa categoria, ou seja: palavra, enunciação, tudo o 
que diz respeito à escuta, tudo o que De Clérambault aí coloca, o 
que é muito vasto, indo do eco do pensamento ao diálogo das 
vozes. O neologismo, é claro, aparece nesta série; concordo em 
dizer que alguns empregos de palavras de uso corrente são neo­
lógicos. 
Para a moça "dragão", por exemplo, um caso que acompa­
nhei, "dragão" não é um neologismo: é bizarrice local. Eu mesmo 
não conhecia a expressão. Fiz então a pergunta para vários adoles­
centes: isso corresponde ao que, em Marselha, onde fui criada, cha­
mamos "tribufu". Pode se dizer de uma menina que ela é um "dra­
gão", pois o dragão é um bicho feio. Perguntei, então, à jovem, por­
que dizia "dragão" e ela me respondeu que se dizia "dragão" do 
mesmo modo que se diria "mocreia". Verifiquei com outras pessoas 
que me confirmaram ser a coisa mais banal do mundo dizer

Mais conteúdos dessa disciplina