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PARA ANDRÉS E 
NOSSO MUNDO 
LIVRE DO TEMPO
Título original: Time Mindfulness: toma el control de tu tiempo y vive de forma más próspera y creativa
Copyright © 2020 by Cristina Benito
Direitos de tradução acordados por intermédio de Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os
direitos reservados.
Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela Agir, selo da E N
F P S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser
apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio,
seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite.
E N F P S.A.
Rua Candelária, 60 — 7.º andar — Centro — 20091-020
Rio de Janeiro — RJ — Brasil 
Tel.: (21) 3882-8200
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
B467t
Benito, Cristina
Time mindfulness: assuma o controle de seu tempo e viva de forma mais próspera e criativa /
Cristina Benito; tradução e apresentação por Edmundo Barreiros. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Agir,
2021.
216 p.
Formato: e-book, com 2.939KB
ISBN: 9786558371014
1. Aperfeiçoamento pessoal. I. Barreiros, Edmundo. II. Título.
CDD: 158.1
CDU: 130.1
André Queiroz – CRB-4/2242
SUMÁRIO
O QUE É TIME MINDFULNESS?
1 – F    
Seu cérebro e o tempo
O relógio de nossa vida
Por que o tempo é serenidade
Por que tempo é dinheiro
Por que o tempo é criatividade
Qual é seu cronoper�l?
Seu mapa de prioridades
A arte de envelhecer bem
2 – E 
O tracking de seu tempo
Os ladrões de tempo
O inimigo em casa
Do FOMO ao JOMO
O �m da procrastinação
Resolver, delegar ou eliminar
Viva simplesmente
Benefícios da vitamina “N”
3 – M  
A verdadeira produtividade
Transforme a tecnologia em sua aliada
A bússola dos biorritmos
Concentre-se e você vencerá
A pausa ativa
Novos hábitos para viver com Time Mindfulness
Sua agenda Time Mindfulness
Agora… faça
A 12   
B
A     (   
)
O QUE É TIME MINDFULNESS?
Em um de seus primeiros romances, A vida está em outro lugar, Milan
Kundera conta a história de um homem que sente estar sempre no lugar
errado. Apesar de não parar quieto, as coisas interessantes acontecem onde ele
não está. Não seriam justamente essas mudanças que fazem com que nenhum
lugar nem momento sejam adequados?
Quando você vive convencido de que a vida está em outro lugar, sem
perceber afasta o melhor da existência para longe de você a �m de con�rmar
que tem razão.
Algo parecido acontece com o tempo. Muitas pessoas vivem acreditando
que não têm tempo porque sua vida é uma sucessão de urgências, e as
obrigações e compromissos lhes roubam o dia inteiro. Outras podem estar
convencidas de que “certo tempo passado foi melhor” e têm saudade de uma
época que, talvez, no momento não souberam valorizar. Outras situam o
tempo de qualidade em um futuro hipotético, já que determinam condições
para poder desfrutar da vida: quando me aposentar, quando tiver dinheiro,
quando conseguir me organizar melhor (com certeza, este livro vai servir para
esta última).
Seja como for, assim como acontece com o protagonista de Kundera, se
o tempo ideal nunca é aquele em que se vive, seu tempo para viver está sempre
em outro lugar. E isso equivale dizer que o tempo presente não tem valor.
Enquanto você vagar pela nostalgia ou pelo desejo por aquilo que acredita não
ter, sua existência será uma triste sala de espera.
NO MEIO DA TEMPESTADE
Meu marido, o escritor Andrés Pascual, diz em suas palestras que o tempo
adequado, o momento de paz para fazer alguma coisa, não chegará nunca. É
preciso estar disposto a erguer nosso sonho desde o caos, a trabalhar no meio
da tempestade se necessário.
Todos os “quando…”, porém, mais especialmente o “quando tiver
tempo…”, mascaram nossos medos e nos condenam ao inferno da
procrastinação. Essa palavra tão feia está de�nida no dicionário como “o hábito
de atrasar o que devemos fazer, substituindo isso por atividades mais
irrelevantes”.
Enquanto acreditamos não ter tempo para viver a existência que
desejamos, desperdiçamos milhares de segundos, horas, dias inteiros surfando
entediados pelas redes sociais ou assistindo à televisão, entre tantas outras coisas
que fazemos por inércia. Deixamos nossas prioridades em stand-by e, além
dessas distrações automáticas, comparecemos a reuniões inúteis ou aceitamos
marcar compromissos que não nos acrescentam nada.
Por que, então, achamos que nos falta tempo quando deixamos que a
vida passe tão despreocupadamente? Com que solução contamos para tantas
“fugas” que perfuram nossas agendas como uma peneira, até nos deixarem sem
um momento de qualidade para nós mesmos?
ACABE COM O STAND-BY
Com este livro, você vai aprender a dar protagonismo às suas prioridades,
eliminando os “ladrões de tempo” que estão sempre à espreita e desativando as
desculpas que o levam a adiar o que deveria estar fazendo.
Para isso, além das técnicas que apresentarei neste manual, você terá de
fazer algo simples que custa muito para grande parte da humanidade: tomar
consciência.
O Time Mindfulness (TM) consiste exatamente nisso, ser consciente do
tempo, o que implica:
Decidir que fração de sua jornada (ou, pelo menos, de seu tempo livre)
você quer dedicar às coisas verdadeiramente importantes.
Deter as “fugas” por meio das quais as horas escapam inutilmente,
esvaziando seu depósito de tempo disponível.
Organizar sua agenda não de acordo com o que as outras pessoas exigem
de você, mas de acordo com suas prioridades.
Eliminar a procrastinação de seu dia a dia.
Tirar períodos de descanso que, além de recarregar as baterias do bom
humor, sejam verdadeiros oásis de criatividade.
Aprender a multiplicar o valor de cada hora, evitando a dispersão e
incorporando técnicas que aumentarão seu rendimento.
Você vai encontrar tudo isso neste programa pioneiro de TM, que está
alicerçado em uma verdade muitas vezes negada: seu tempo é seu. Talvez você
venda parte dele em troca de um salário, e também falaremos disso, mas o
restante não pertence a ninguém, só a você.
Considerando que o tempo são os trilhos pelos quais circula o trem de
nossa vida, vamos aprender a aproveitar a viagem.
Ao tomar consciência de seu tempo, você começará a dar a ele o valor
que merece. Cada hora do seu dia será preciosa porque, como cantavam os
Rolling Stones em 1964: “O tempo está do seu lado.”
Tenho certeza de que as horas dedicadas a ler este livro serão um
investimento bastante rentável, já que, muito em breve, no lugar de ir contra o
relógio, você vai fazer do relógio — e de sua agenda — seu melhor aliado para
viver a vida que deseja.
Cristina Benito
SEU CÉREBRO E O TEMPO
O RELÓGIO INTERIOR MARCA AS EXPERIÊNCIAS
Dizem que, se você quiser deixar um físico nervoso, basta perguntar a ele o
que é o tempo. Para Newton, o tempo era uma magnitude física e objetiva,
algo que se move e �ui sempre adiante, como se fosse um grande relógio
cósmico. Para Einstein, era subjetivo, pois depende da velocidade com que nos
movemos pelo espaço. Segundo o gênio alemão, o tempo �ui inclusive de
forma pessoal:
“Sente-se em uma placa quente por um minuto e vai parecer uma hora.
Sente-se ao lado de uma garota bonita por uma hora e vai parecer um minuto:
aí está a teoria da relatividade.”
Para a física quântica, todas as possibilidades convivem em um mesmo
instante.
Mais importante do que de�nir o que é tempo é decidir o que fazemos
com ele. O tempo é um presente que nos foi dado, devemos estar à sua altura e
aproveitá-lo como ele merece para a�orar nosso melhor.
KRONOS E KAIRÓS
Na Grécia Antiga se usavam duas palavras para de�nir o tempo: kronos e kairós.
A primeira se referia ao tempo mensurável, entendido como uma sequência
quantitativa. Por isso, utilizamos essa raiz para “cronômetro”, “cronologia” e
outros termos que medem a quantidade de tempo.
O acerto dos gregos foi criar maisuma palavra, kairós, que se referia à
qualidade do tempo. Eles sabiam que nós, seres humanos, temos a capacidade e
a responsabilidade de dar a cada instante a máxima qualidade.
Como diz o escritor e palestrante Álex Rovira, um beijo dura poucos
segundos, mas pode marcar uma vida, assim como um abraço, uma palavra
amável ou um gesto de entrega. Kairós equivale a estar neste exato momento,
sentir-se em sintonia com o mundo, alinhado para fazer qualquer coisa a que
se proponha. É alcançar a plenitude aqui e agora.
Mas, para isso, é preciso saber viver no presente.
Muitas vezes o passado nos impede de avançar. Se foi triste, pelo pesar ou
pela raiva que sentimos; se foi belo, pela nostalgia. O mesmo acontece com o
futuro. Nos preocupamos com coisas terríveis que ainda não aconteceram e
nos desesperamos porque esse futuro idílico que desejamos não chega. Em
ambos os casos, nós nos bloqueamos e não agimos para que o presente seja
melhor.
Não conseguimos aproveitar o que acontece neste exato — e maravilhoso
— momento.
Como a�rma o zen, o passado não existe, tudo o que aconteceu trouxe
você a este momento em que está agora. O futuro também não existe, será
você mesmo a construí-lo com seus atos no presente, aproveitando seu tempo
de forma apropriada.
VIVER SEM TEMPO
Os amondawa, um povo da Amazônia brasileira com o qual se estabeleceu
contato pela primeira vez em 1986, não têm o conceito de tempo.
O professor Chris Sinha, da Universidade de Portsmouth, que
conviveu com eles e estudou sua língua, explica que eles não consideram o
tempo como algo que se pode medir ou contar, nem sobre o qual falar de
maneira abstrata.
Eles não têm palavras nem para o tempo nem para suas divisões ou
medidas como dia, mês ou ano. Tampouco para a próxima semana nem
para o ano passado. Só para as divisões entre dia e noite e as estações
chuvosas e secas. Eles não contam nem sua própria idade. Têm nomes
diferentes para as fases de sua vida ou de acordo com o status que vão
adquirindo na tribo. Por exemplo, um menino pequeno cede seu nome a
seu irmão recém-nascido e recebe um novo.
Segundo Sinha, nós pensamos no tempo como uma coisa. Dizemos “o
�m de semana voou”, “as provas estão chegando”, “não tenho tempo”… E
acreditamos que essas declarações são objetivas, quando não passam de
metáforas que criamos e que, sem percebermos, terminaram se convertendo
em nossa forma de pensar, nos roubando a liberdade da qual ainda
desfrutam os amondawas.
NOSSO RELÓGIO DE EXPERIÊNCIAS
Há cinco anos, um grupo de cientistas da Universidade Norueguesa de Ciência
e Tecnologia recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por ter
descoberto nosso GPS cerebral; ou, dizendo de uma forma mais técnica, um
conjunto de células que habita o córtex entorrinal médio e forma um sistema
de coordenadas que nos permite entender qual é nossa situação no espaço.
Graças ao trabalho dessas células, entendo o “onde”. Mas e em relação ao
“quando”, devem ter se perguntado os médicos escandinavos. Como eu sei em
que momento me encontro, se se passou uma hora, um ano, muito ou pouco
tempo desde este ou aquele acontecimento? Como tinham descoberto um
sistema neuronal para ordenar o espaço, eles continuaram a investigar até
encontrar o que mede o tempo, que sem dúvida está localizado muito perto do
anterior, no córtex entorrinal lateral.
Como tantas vezes acontece na ciência, e na vida em geral, o que no
início parecia um fracasso, os levou ao sucesso do experimento. Quando
estavam a ponto de desistir porque o comportamento das células estudadas não
respondia a padrões �xos — na verdade era um verdadeiro caos —, eles
perceberam que isso acontecia porque o tempo varia a cada instante e para
cada pessoa.
Como diz o pesquisador: “A rede neuronal mede um tempo subjetivo
derivado do �uxo contínuo da experiência.” Isso é, trata-se de um relógio
especial que registra o tempo associado a cada uma das experiências que
vivemos. Por isso, dependendo de qual seja nosso estado mental e nossas
circunstâncias, temos a sensação de que o tempo passa mais rápido ou mais
devagar, como no exemplo apresentado por Einstein.
Essa tese cientí�ca não se diferencia muito do que propunham os grandes
�lósofos: “Não meça o tempo em horas ou dias, meça-o em ações e satisfação.”
Esses são os únicos ponteiros que têm verdadeiramente importância em sua
vida e que terão efeitos na dos outros.
OS MINUTOS DIVERTIDOS DURAM MENOS
O pesquisador Hudson Hoagland descobriu, graças a uma gripe da qual sofria
sua esposa, que a febre alta afeta nossa noção de tempo. Enquanto estava
doente, os minutos que ele passava fora de casa pareciam longuíssimos, e não
só porque ela sentia falta dele. Vários estudos con�rmaram que, quando a
temperatura corporal sobe, nosso cérebro tem a percepção de que se passou
mais tempo do que objetivamente se passou.
Emoções fortes também podem distorcer a percepção do tempo. Como
podem dizer os participantes de um experimento do conhecido divulgador
cientí�co David Eagleman: para pessoas corajosas que saltaram de uma altura
de 15 andares em uma rede, os três segundos que duraram a queda pareceram
nove. Ou as pessoas que sofrem um acidente e acreditam ver tudo em câmera
lenta. A amígdala cerebral intervém diante de situações de medo ou pânico,
alterando nosso relógio interno.
Se estamos atrasados para o trabalho, os mesmos cinco minutos que
passamos todo dia na plataforma do metrô parecerão uma hora. A espera de
resultados médicos se torna eterna, enquanto as tardes em que desfrutamos da
companhia de nossas amigas e suas con�dências voam.
As expectativas também in�uem em nossa percepção do tempo. Se acha
que não, pense no efeito da “viagem de volta”. “Quanto falta?”: certamente
essa pergunta lhe parece mais habitual nas viagens de ida, que sempre parecem
mais longas, embora tenham os mesmos quilômetros que as de volta.
Como explica o psicólogo Niels van de Ven, as viagens novas geram
nervosismo e certa ansiedade devido às expectativas depositadas sobre elas, que
ativam nosso sistema nervoso simpático, fazendo com que percebamos o
tempo de forma mais dilatada. É o contrário do que acontece no retorno.
Nossa expectativa é “vai durar muito tempo outra vez”, e paradoxalmente o
caminho nos parece mais curto.
Que efeitos práticos podemos extrair de tudo isso? Nada mais nada
menos que uma certeza: nosso cérebro tem controle sobre como experimentamos o
tempo.
Como veremos ao longo deste livro, se conseguirmos vencer o estresse e
as inércias vazias, deixaremos de ser escravos do relógio para nos convertermos
em donos de nosso tempo.
MINDFULNESS PARA UMA VIDA LONGA E PLENA
Quando olhamos para trás em nossas vidas, apesar de os minutos desfrutados e
bem aproveitados parecerem curtíssimos por estarmos nos sentindo bem, são
esses momentos que dão sentido a nossa existência.
Podemos completar, então, o título da parte anterior dizendo que os
minutos divertidos duram menos, mas prolongam a vida. Porque, se nos
deixamos levar pela rotina, o dia a dia se tornará tediosamente eterno e, de
forma paradoxal, nos deixará a sensação de que a vida passa sem percebermos.
Sensação essa que nos leva a um estado de apatia que é totalmente contrário ao
TM.
A ciência demonstrou que o mindfulness — cultivar a atenção plena e
estar concentrado no aqui e agora —, entre outros muitos benefícios, traz
serenidade e melhora a memória. Nossos cérebros armazenam mais
informação sobre os eventos que vivemos, sejam grandes ou pequenos, e isso
nos faz perceber a passagem do tempo de forma mais pausada.
Ao contrário, estar distraídos na rotina cria a sensação desagradável de
que o tempo está voando e estamos, literalmente, jogando nossa vida no lixo.
VIVA AS COISAS COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ
Maximilian Kiener, um designer austríaco de quem recomendo o projeto
precioso Why Time Flies [Por que o tempo voa], que você pode experimentar
gratuitamente em sua página na internet, explica a percepção do tempo a
partir das teorias do �lósofo francês Paul Janet.
Em seu primeiro ano de vida, umacriança está constantemente
recebendo novos estímulos, descobrindo e experimentando. Para ela, um ano,
ou mesmo um mês, é quase uma eternidade.
Da mesma forma, a primeira semana de uma longa viagem a um país
desconhecido, na qual recebemos uma grande quantidade de novas
informações, vai nos parecer muito mais longa que as seguintes. Isso explica
por que quando você volta a um lugar que foi especial em sua infância, ele lhe
parece menor, pois esse lugar foi seguido por muitos outros e, além disso, você
não o está descobrindo pela primeira vez.
Na infância vivemos o presente com plenitude, considerando que tudo é
novo para nós. Mas, à medida que envelhecemos, nossas vidas se enchem de
atividades repetitivas, começamos a viver presos ao passado ou nos projetando
no futuro… e o presente nos escapa.
Sendo assim, pode-se dizer que o TM é coisa de crianças. Que essa
de�nição seja bem-vinda! Vamos recuperar a capacidade de perceber cada
minuto da vida como uma eternidade cheia de possibilidades.
COMO FAZER SEU DIA DURAR MAIS TEMPO
orin Klosowski, especialista em tecnologia aplicada ao bem-estar, diz: “É
surpreendente a quantidade de experiências novas que se apresentam ao longo
do dia quando prestamos um pouco de atenção.”
Ele estabeleceu como objetivo de ano novo fazer uma coisa nova a cada
semana que o tirasse do piloto automático: ir a uma conferência, assumir a
palavra em um evento, escrever sobre coisas que tinha medo de enfrentar…
É sabido que a zona de conforto é mais uma prisão que um refúgio. Nós
nos atemos ao que é conhecido, reduzimos nossas “primeiras vezes”, e o tempo
avança em disparada.
Ao dizer sim às novas experiências, além de crescer como pessoas,
acumulamos novas memórias que mudam a percepção subjetiva do tempo. Ao
exprimir nossos dias, semanas ou meses, eles parecem durar mais,
enriquecendo nosso kairós. Em vez de se angustiar com a passagem inevitável
do tempo, o cérebro se dispõe a aproveitar ao máximo cada experiência.
Para fechar este capítulo, proponho uma série de truques com os quais
você pode enganar sua mente para que seus dias pareçam tão longos quanto
são para as crianças.
D      . Quando você visita um
ambiente novo — e não é preciso ir para outro continente —, seu
cérebro absorve grande quantidade de novas informações por meio dos
cinco sentidos. Curiosamente, isso faz com que o tempo seja percebido de
forma mais pausada, gerando uma sensação de relaxamento.
C  . Variar os relacionamentos pessoais também
ativa seu cérebro e atrasa o relógio. Cada novo contato chega com
histórias diferentes, assim como tem uma visão diferente do mundo que
enriquecerá a sua.
M  . Se você é autônomo, experimente trabalhar de
vez em quando em escritórios improvisados como um café ou um
parque. Pratique isso também com as atividades de seu tempo ocioso que
exigem estar sentado a uma mesa ou sofá, como ler ou aprender um
idioma.
A  . Esta ideia resume todas as anteriores. A
vontade de saber mais, de aprender, seja pro�ssionalmente ou em
qualquer disciplina vital, é a característica principal das crianças e a
virtude que estica seus dias como elástico. Dê a seu tempo a qualidade que
ele merece!
UM POUCO DE SÍNTESE
Mais importante que a quantidade de tempo é sua qualidade.
Os minutos de felicidade parecem durar menos, mas persistem por
muito tempo na memória e dão sentido à vida.
Cultivar a atenção plena prolonga o tempo, porque o vivenciamos mais
lentamente e com maior profundidade.
Experimentar o mundo com os olhos de criança quase nos leva à
eternidade.
O RELÓGIO DE NOSSA VIDA
NÃO SE PODE MEDIR TUDO
Quando ganhei meu primeiro relógio de pulso, me achei maior e importante,
com ocupações e coisas para fazer. Ele tinha uma pulseira de couro marrom e
um mostrador pequeno cor creme com o 12, o três, o seis e o nove marcados.
Para minha primeira comunhão, me deram um relógio digital Casio. Também
me lembro do relógio de ouro que deram a minha tia Angelines quando ela se
aposentou. Por outro lado, a primeira coisa que minha mãe fazia quando
íamos para a casa no interior onde passávamos os verões era tirar seu relógio de
pulso e guardá-lo em um vaso de cerâmica.
Nós nos acostumamos a ver a hora constantemente e quase sempre para
conferir o tempo que nos resta: para terminar alguma coisa, para chegar a
algum lugar… Embora hoje em dia muita gente use o celular para consultar a
hora, vivemos ligados a um relógio como a ampulheta que foi entregue pela
Bruxa Malvada do Oeste para Dorothy em O mágico de Oz, anunciando sua
última hora de vida.
Como não vamos viver angustiados pela falta de tempo?
Queiramos ou não, o relógio — esteja onde estiver — condiciona nossa
vida. E no que se refere à gestão do tempo, assim como nossa mente, ele pode
ser um aliado ou um inimigo terrível.
QUANDO ERA POSSÍVEL SENTIR O CHEIRO DO TEMPO
O primeiro sistema para medir o tempo, há cinco ou seis mil anos, nos ajudou
a nos organizarmos. Tínhamos deixado de ser nômades e precisávamos
organizar a sociedade e convocar as reuniões de vizinhos da época. Desde
então, utilizamos os métodos mais variados para controlar o tempo.
Os egípcios colocavam obeliscos para medir o meio-dia. Mais tarde
criaram os relógios de sol, que já marcavam as horas, mas apresentavam muitos
inconvenientes: não funcionavam à noite nem em dias nublados, e a duração
das horas variava de acordo com a época do ano.
Na Grécia e em Roma, para medir a duração das guardas e dos turnos de
intervenções nos tribunais, utilizava-se um cronômetro de água chamado
clepsidra, que se traduz como “ladrão de tempo”.
Na China e no Japão, era possível sentir o cheiro do tempo: as barras de
incenso marcavam a duração da visita de uma gueixa ou da meditação no
templo. Algumas delas tinham até alarme: prendia-se a elas uma campainha
para que tocasse quando o período de tempo estabelecido se consumasse.
Assim, o tempo também começava a ser escutado.
Os primeiros relógios mecânicos foram instalados nos mosteiros durante
a idade média. Ainda sem ponteiros ou mostradores, consistiam de um sistema
de pesos, molas e campainhas que indicavam as horas. Até então, durante as
vigílias, se usavam velas nas quais se faziam marcas, mas o ora et labora exigia
uma hora mais precisa para não se sobrepor às matinas ou às laudes, vésperas
ou completas.
Também foram úteis para mercadores e artesãos para organizar seus
horários comerciais, e por isso precisavam ser grandes e estar bem no alto.
E, �nalmente, acrescentaram ponteiros aos relógios. Os pêndulos �caram
mais ágeis e surgiu o ponteiro dos minutos. Daí em diante, com a Revolução
Industrial, chegou a produção em massa; as pessoas podiam ter em casa um
artefato que marcava as horas. Esse podia ser de mesa, de bolso… e de pulso,
como o que minha mãe botava no vaso.
No início, porém, é possível pensar que o uso que se fazia dos relógios
pessoais era mais inteligente do que hoje é habitual. Sabemos por crônicas da
época que os primeiros usuários se retiravam para uma sala para ver a hora,
pois não era bem visto fazer isso. Ainda hoje, o protocolo diz que é melhor ir a
cerimônias sem relógio. Deixe-o em casa e aproveite o evento, diria um bom
an�trião.
Atualmente, os relógios analógicos parecem ter seus dias contados. Nas
escolas britânicas, eles já estão sendo substituídos por digitais porque, nas
provas, as crianças não param de perguntar quanto tempo lhes resta para
terminar, já que não entendem o objeto que está preso à parede.
Chegou a hora de ensinar, nessas escolas e em todas as outras, a fazer
amizade com o tempo para viver de forma mais próspera, serena e criativa. Há
milênios observávamos o movimento dos planetas e dos astros no céu para
medi-lo. Mas sabe o que pensam as estrelas? O quanto nós somos fugazes.
CASIO: CINCO VALORES PARA ALCANÇAR O SUCESSO
Essa empresa japonesa criou o primeiro relógio digital nos anos 1970. Aos
poucos, incorporaram luz, alarme, cronômetro…Os relógios inteligentes
atuais oferecem muito mais, no entanto, a história do sucesso da Casio, uma
empresa de calculadoras que soube diversi�car, sempre será considerada um
exemplo a ser seguido.
Estes são os cinco valores que a inspiraram, todos eles presentes na
cultura japonesa:
C. Para estar sempre na hora certa, é preciso investir
esforço. Entregue-se a seus projetos com a mesma fé e determinação que os
japoneses demonstraram depois da Segunda Guerra Mundial, e o “milagre”
vai acontecer sozinho.
R. Volte a se levantar depois de cada queda. A exigência, a
responsabilidade e a superação pessoal são ensinadas aos japoneses. O
mesmo que demonstram os relógios Casio, cujos materiais resistem quando
mergulhados em água, ao levar pancadas e, também, à passagem do tempo.
F. Assim como o junco japonês, além de resistência, é
preciso ter �exibilidade. Os japoneses se adaptam, são respeitosos, evitam
causar problemas ou participar de debates que perturbam a boa convivência.
A Casio foi bem-sucedida porque criou relógios que se adaptam a todo tipo
de clientes e de situações.
T. A aposta na inovação foi o elemento-chave para a
recuperação econômica do país e para o sucesso de suas empresas.
D. O estilo japonês é caracterizado por combinar elementos
tradicionais com outros mais vanguardistas. E esta hibridização também
pode ser aplicada a nossa vida, misturando a sabedoria tradicional com as
novas tendências.
RELÓGIOS PARADOS ESTÃO CERTOS DUAS VEZES AO DIA
Embora nem todos os países tenham entrado em acordo sobre a medição do
peso ou da distância, há unanimidade em referência ao tempo. Durante o dia,
a Terra faz uma rotação completa sobre seu eixo. Um mês, 29 dias e meio, é
um ciclo completo da lua. E um pouco mais de 364 dias é a duração da viagem
da Terra pela sua órbita ao redor do Sol. Como a cada ano sobram umas seis
horas, a cada quatro temos um ano bissexto.
O que não está tão claro é o porquê das 24 horas. Parece que os egípcios
herdaram o sistema duodecimal dos sumérios, que usavam o dedo polegar para
contar as falanges dos outros quatro dedos: três em cada dedo, 12 em cada
mão, 24 horas no total.
Foram os astrônomos gregos que, seguindo o sistema hexadecimal,
dividiram as horas em sessenta minutos, e estes em sessenta segundos. Talvez
por se tratar de um número que facilita muito os cálculos por ser divisível por
2, 3, 6, 10, 12, 15, 20 e 30.
Todos os relógios do mundo se ajustam segundo um tempo-padrão de
referência universal (UTC) baseado em relógios atômicos extremamente
precisos, e além disso sempre contando com a referência solar. Na verdade, a
velocidade de rotação da Terra apresenta perturbações que devem ser
compensadas de vez em quando acrescentando-se algum segundo adicional ou
ano bissexto para manter os relógios em sintonia (desde 1972, quando
começamos a contar com a referência do UTC, isso ocorreu 27 vezes). Se não
acrescentássemos esses segundos, no ano 2100 estaríamos entre dois e três
minutos fora de sintonia com a posição do sol.
Não há problema se é necessário fazer correções. Como diz Woody
Allen: “Todos nos equivocamos, mas até um relógio parado acerta duas vezes
por dia.”
TUDO O QUE VOCÊ PODE FAZER EM UM MINUTO
Ao ler sobre essa diferença de minutos, talvez você tenha pensado: “Não é
grande coisa.” Mas já parou alguma vez para re�etir sobre todas as coisas
maravilhosas que podem ser feitas em um minuto?
Lembrar a uma pessoa o quanto você gosta dela.
Fazer respirações de ioga para se sentir melhor.
Saborear uma taça de Rioja (o vinho da minha terra).
Ter uma grande ideia ou, pelo menos, um pensamento positivo.
Dar em um amigo o abraço de que ele precisa.
Ganhar um minuto inteiro de beijos de suas sobrinhas.
Mandar uma mensagem por WhatsApp pedindo desculpas por algo que
não tenha feito certo.
Mandar outra para agradecer.
Não despreze nenhum dos minutos do relógio. Todos eles são igualmente
importantes. Lembre-se sempre de que, quando você dedica um minuto a uma
coisa, deixa de dedicá-lo a outra. E esse minuto nunca voltará.
Isso é Time Mindfulness.
KALPA, A MAIOR MEDIDA DE TEMPO CONHECIDA
Um kalpa dura tanto (4,32 bilhões de anos para o hinduísmo, 1,28 bilhão
para o budismo) que, quando Buda queria descrevê-lo para seus discípulos,
precisava recorrer a analogias.
1. Imagine uma montanha de sementes de mostarda diminutas. Um kalpa
seria o tempo que ela levaria para se esgotar se um ser celestial descesse
uma vez a cada três anos para levar uma dessas sementes.
2. Imagine uma montanha de dez quilômetros cúbicos. Um kalpa seria o
tempo que ela levaria para desaparecer se um ser celestial roçasse nela
com a ponta da manga de seu traje de seda uma vez a cada três anos.
3. Imagine a água de todos os oceanos. Um kalpa seria o tempo que levaria
para secá-la se um ser celestial descesse uma vez a cada três anos para
molhar um pincel.
Essa forma oriental de entender o tempo como algo efetivamente
in�nito contrasta com a forma mais generalizada do Ocidente, onde somos
obcecados por preencher os dias, as horas e os minutos.
TODOS OS BRANCOS TÊM UM RELÓGIO, MAS NENHUM TEM
TEMPO
Em 2015, meu marido publicou um livro de crescimento pessoal chamado A
viagem de sua vida, um diário de bordo das dez viagens que mais nos
marcaram após mais de duas décadas percorrendo o mundo juntos. A escala na
Etiópia tinha o título de “Tire seu relógio e recupere seu tempo”.
Foi nesse país tão desconhecido quanto fascinante, por volta de 2002,
que nós dois vislumbramos pela primeira vez a necessidade de nos libertarmos
da tirania do relógio.
Nesse capítulo ele contava como o chefe de uma tribo hamer, com a qual
tínhamos passado a noite, nos convidou a participar de uma festa tradicional
que seria celebrada no dia seguinte. Eu me lembro que pegamos uma pasta
com nosso plano de viagem escrito à caneta e explicamos a ele que sentíamos
muito, mas tínhamos de seguir em frente. O ancião nos olhou �xamente e
sentenciou:
— Todos os brancos têm um relógio, mas nenhum tem tempo.
Saímos da cabana pensando sobre essa frase. Ele tinha razão. Os
ocidentais se empenham em estimar o tempo em segmentos cada vez menores;
séculos, anos, dias, horas, minutos, segundos… e nós nos obrigamos a
preenchê-los e a seguir seu ritmo. Acreditamos que o tempo tem existência em
si mesmo, que esses ponteiros estão aí desde o princípio da eternidade e que os
seres humanos estão condenados a viver no ritmo determinado para nós.
O sol tinha começado a cair, mas ainda fazia calor. Amanhecer,
entardecer… Compreendemos que esse era o único relógio dos membros
daquela tribo. Para eles, a vida se dividia em momentos marcados pelos fatos
que realmente ocorriam. O tempo só existia quando eles faziam com que
existisse. Cada um marcava o ritmo a �m de agir mais, viver mais.
Naquela tribo não diziam “há dois anos” ou “há dez anos”; diziam:
“Quando este guerreiro passou pelo ritual do salto dos bois”, ou “quando nós
todos abrimos o poço em plena seca”. Por isso respeitavam tanto os anciãos,
porque tinham vivido mais coisas que os jovens (ao contrário do que nós
diríamos: falta tempo para os velhos!).
Voltamos à cabana para dizer ao ancião que íamos �car para o dia
seguinte e todos os que fossem necessários. Então notamos que o enfeite que
ele usava na testa, pendurado de uma faixa que envolvia sua cabeça, era meia
pulseira metálica de um relógio. Alguém o havia presenteado e ele tinha
arrancado o relógio — que desde então devia estar no fundo do rio Omo — e
colocado alguns elos de aço inoxidável de enfeite.
Não vou recomendar que você jogue seu relógio no lixo, mas, ao longo
dos próximos capítulos, vou lhe dar algumas sugestões de como usá-lo
corretamente e recuperar seu tempo.
UM POUCO DE SÍNTESE
Um relógio pode ser um dispositivo muito útil ou um instrumento que
nos acorrenta.
Antigamente, a etiqueta dizia que para ver a hora era melhor ir à outra
sala, um bom hábitoque devíamos recuperar.
Não se deve desperdiçar nem um minuto sequer, porque esse é um
tempo que pode ser empregado de forma maravilhosa.
Melhor do que ter um relógio de ouro e brilhantes é ter tempo.
POR QUE O TEMPO É SERENIDADE
VISTA-ME DEVAGAR PORQUE TENHO PRESSA
O tempo são os trilhos pelos quais circula o trem de nossa vida. Se os trilhos
estão cuidados e o traçado está bem pensado, nossos dias �uirão com leveza,
quase como se não tocássemos o chão.
Se deixamos de cuidar dos trilhos, permitindo que enferrujem, ou os
enchemos de bifurcações e cruzamentos, nosso trem não vai chegar a lugar
nenhum, e é possível até que ele descarrilhe ou se choque contra outros trens.
Algo semelhante acontece com as pessoas que não têm nenhum controle
sobre sua agenda.
Elas enchem suas jornadas de caos, o que acaba prejudicando os outros, e
estão sempre contra o relógio. Elas ocultam as obrigações e vão correndo de
uma urgência para outra; às vezes dedicam muito tempo a atividades
secundárias, e aí �cam faltando horas para fazer o essencial.
Esgotadas, essas pessoas vivem navegando pela desordem e reclamam de
não conseguir lidar com tudo. A vida as supera.
Tudo isso tem remédio se aplicarmos o TM, mas, antes de explicar no
que ele consiste, vamos ver o que acontece quando nos dedicamos a viver sem
tomar o controle de nosso tempo.
A VIDA SEM TIME MINDFULNESS
Administrar mal o tempo di�culta nossa vida e a enche de caos e irritação. O
que se traduz em um estado permanente de tensão e transitoriedade que acaba
minando os nervos e a própria saúde do corpo.
Por trás de muitos quadros de estresse crônico, transtornos de ansiedade e
doenças relacionadas, como úlceras ou problemas cardiovasculares, há uma
péssima gestão do tempo que nos obriga a estar em alerta permanentemente e
produz uma sensação de esgotamento.
O fato de não saber organizar nosso tempo leva a:
S      . A pessoa sem TM está em
uma corrida de obstáculos constante, porque a desorganização faz com
que precise buscar soluções de última hora, que em geral não são as
melhores. Isso implica um gasto maior de energia e, frequentemente,
também econômico, como veremos no próximo capítulo.
I  . Se não temos controle sobre nosso tempo, isso
promove o estresse de ter de decidir tudo em movimento. Por exemplo,
por não ter reservado a tempo o restaurante apropriado para um jantar
importante, você terá que se conformar com opções piores, e além disso
precisará investir um tempo extra nessa busca de última hora.
C  (    ). A falta de TM faz
com que ponhamos mais coisas na agenda do que podemos fazer, o que
resulta em angústia. Isso quando não nos esquecemos diretamente dos
compromissos marcados. Em consequência, chegamos tarde em todos os
lugares ou temos de cancelar compromissos, o que é um problema para os
outros e para a própria pessoa, já que será necessário procurar um novo
espaço na agenda, o que signi�ca novamente investir mais tempo.
S   . Todo mundo passou por isso, pelo
menos, uma vez em seus tempos de estudante. Apesar de ter boas
intenções, a hora de estudo vai sendo adiada e, no �m, você se vê na noite
da véspera da prova diante de uma pilha de anotações e com os nervos à
�or da pele. Os resultados não costumam ser os melhores — com sorte,
você salva a situação com uma nota mínima para aprovação —, e a
maratona de última hora cobra o preço sobre o corpo. Especialmente na
maturidade, roubar horas de sono por culpa de nossa desorganização
pode ser fatal.
UM SUICÍDIO BIOLÓGICO
Carlos Egea, pneumologista do hospital Vithas San José de Vitória, membro
da Sociedade Espanhola do Sono, a�rma que dormir menos de seis horas
por dia é um suicídio biológico. “Roubar” horas de descanso para fazer o
que devíamos ter feito enquanto estávamos acordados é um negócio
extremamente perigoso já que, segundo esse respeitado médico, “dormir
menos de seis horas aumenta em 30% o risco coronariano”. Além de botar
em perigo a vida — muitos acidentes de trânsito têm sua origem em um
microssono causado pela falta de descanso —, a privação de sono afeta a
concentração no trabalho, o que multiplica os erros, e os órgãos perdem a
capacidade de recuperação.
A VIDA COM TIME MINDFULNESS
Einstein dizia que “a única razão para o tempo existir é para que não aconteça
tudo simultaneamente”. E certamente essa é a �nalidade do uso inteligente do
relógio: em vez de correr como condenados, sentindo que o mundo está
caindo sobre nossas cabeças, podermos aproveitar a paisagem do trem.
A boa gestão do tempo, quando seguimos nossas prioridades e fazemos
uma coisa depois da outra, traz a serenidade de forma natural. Ela nos dá uma
sensação agradável de controle sobre nossa própria existência.
Ao contrário da aceleração, do multitasking e de seguir fazendo reparos,
seria um estilo de vida que poderia se desenvolver assim:
Acorde um pouco antes do necessário, com tempo su�ciente para não
começar o dia correndo.
Depois de seu ritual matinal — exercício, meditação, um pouco de leitura
—, disponha de tempo para tomar café da manhã com calma, planejando
os principais objetivos do dia.
Vá para a rua com tempo su�ciente para não ter de se apressar. Você pode
se permitir fazer parte do caminho a pé e prestar atenção ao mundo que o
rodeia. Não se desgaste atualizando suas redes sociais pelo caminho.
Quando estiver no local de trabalho, concentre-se em seu serviço, sem
outras distrações, para �uir com o que faz e estar com as tarefas em dia.
Assim você evitará sair mais tarde.
Aproveite o horário de almoço para conversar com os amigos ou atualizar
suas redes, se necessário.
Dedique a tarde — ou o tempo livre do dia — para fazer o que
realmente lhe apetece, sem compromissos desnecessários. Se estiver com
um amigo, é porque esse encontro realmente lhe agrada.
Em lugar de se anestesiar uma noite após a outra com séries ou em frente
à TV, aproveite seu tempo para cozinhar, conversar com a família e
repassar os acontecimentos do dia.
Tome nota do que você fez durante o dia e o que pode fazer melhor no
dia seguinte.
Um pouco de leitura em papel, ou outra atividade relaxante, será uma
boa maneira de preparar seu corpo para o sono.
Durma as horas necessárias — nunca menos de sete ou oito — para
poder enfrentar a manhã seguinte com energia e o foco concentrado nos
objetivos.
Para poder viver com esse tipo de serenidade, é preciso aprender a extrair
o sumo de cada momento. Na segunda e na terceira partes deste livro,
abordaremos técnicas e truques para conseguir fazer isso.
O HOMEM TRANQUILO
O grande mestre da serenidade Ramana Maharshi era também um verdadeiro
especialista na administração do tempo.
Conta-se desse guru indiano do século passado que ele emanava tamanha
tranquilidade e paz que, diante de sua presença, seus visitantes também
entravam em um estado de profunda meditação e calma. A ele se atribui a
frase: “É preciso que mostrem a você o caminho dentro de sua própria casa?”
Seu discípulo e biógrafo Arthur Osborne, ao falar dos hábitos cotidianos
desse sábio, faz alusão ao respeito que ele tinha por seu tempo e pelo das outras
pessoas:
Bhagavan Sri Ramana foi meticulosamente exato, muito atento, prático e
de ótimo humor. Sua vida diária foi conduzida com uma pontualidade que
os indianos de hoje teriam de chamar de puramente ocidental. Ele foi
preciso e organizado em tudo. A sala do ashram era varrida várias vezes por
dia. Os livros estavam sempre no lugar. Os tecidos que cobriam o sofá
estavam meticulosamente limpos e perfeitamente dobrados. A tanga, que
era tudo o que vestia, era de um branco resplandecente. Os relógios do
salão eram acertados diariamente com o horário da rádio. Nunca se
permitiu que o calendário �casse com a data atrasada. A rotina da vida �uía
de maneira regular.
Sri Ramana também era rígido com seus discípulos, insistindo que
cumprissem suas tarefas pontualmente.
O MOSTEIRO EM CASA
Sem a necessidade de viver em um ashram ou em um mosteiro zen, podemos
aplicaressa ordem que proporciona serenidade à vida cotidiana.
Nossa mente, que pensa constantemente, e nosso ambiente
frequentemente nos levam à intranquilidade. Integrar estas práticas ajudará
você a preservar a calma:
M     . A bagunça e a acumulação
em nosso espaço são re�exo de uma mente desordenada. Nesse sentido,
não é por acaso que spas sejam zonas limpas e praticamente vazias.
P  . Ter poucas coisas contribui para
economizar dinheiro, e a mesma coisa acontece com o tempo. Um estudo
de Harvard demonstrou que um ambiente de trabalho limpo e espaçoso é
muito mais produtivo que outro cheio de objetos e arquivos. Se você quer
melhorar sua concentração, elimine a maior quantidade de coisas de sua
área de trabalho.
L  . O café, o chá e as bebidas energéticas podem
mantê-lo ativo por algumas horas, mas, se o deixam nervoso ou irritado,
você não desfrutará de um tempo de serenidade nem de qualidade.
A     . Não basta prestar atenção a como
alimentamos o corpo, mas também a como nutrimos nossa mente. Por
isso é importante ver e ler coisas com uma mensagem otimista ou
formativa. Não desperdice seu tempo valioso enchendo sua mente de
lixo.
T    . De vez em quando, é preciso dar um
descanso à mente, passando um tempo sem televisão, fones de ouvido
nem nada que gere som. Se isso o incomoda, pode ser que algo não esteja
funcionando em sua vida, e o silêncio vai ajudá-lo a descobrir isso.
E    . Há pessoas que promovem
con�itos, que sempre estão reclamando ou fazendo drama por qualquer
coisa. Quando chegam a sua vida, trazem caos e esgotamento. Se puder,
evite-as e busque a companhia de pessoas que tenham uma personalidade
agradável. A serenidade é contagiosa.
L  . Especialmente antes de dormir, estar exposto a telas —
televisões, celulares, tablets e leitores de livros digitais — é uma garantia
de grande irritação para os nervos. Voltar à leitura analógica é uma forma
de investir nosso tempo em serenidade e em uma compreensão mais
profunda das coisas, já que associamos as telas ao instantâneo e super�cial.
SERENIDADE = PRODUTIVIDADE
Uma mente lúcida e calma pode analisar cada problema e agir com seriedade,
aplicando os recursos e medidas apropriados. Se, como produto da pressa ou
dos estimulantes, reagimos de forma excessiva diante de qualquer situação, só
conseguiremos gerar estresse, cometer erros e, portanto, desperdiçar nosso
tempo e energia.
Diz um provérbio hindu: “Não há nada que pague um instante de paz.”
E uma maneira excelente de promover essa paz consiste em ser prudente com
o relógio, evitando armadilhas que nos roubam o tempo e a serenidade, como:
Ser otimistas demais com nossa agenda.
Dar um prazo curto para uma tarefa que, na verdade, necessita de mais
tempo.
Assumir compromissos desnecessários. Dizer “sim” quando queremos
dizer “não”.
Ficar hipnotizados diante das redes sociais ou da televisão para “matar o
tempo”.
Dormir ou comer mal achando que poupamos tempo.
Sobre esse último ponto, talvez ganhemos minutos ou horas, mas nosso
rendimento ao longo do dia será de baixa qualidade e, no �m das contas,
teremos sido menos produtivos.
UM POUCO DE SÍNTESE
A má gestão do tempo leva você a estar sempre irritado e a passar o dia
correndo, o que reduz a qualidade de vida.
É uma péssima decisão roubar horas de sono, já que, além de pôr em
perigo nossa saúde, acabamos rendendo menos.
Ter controle sobre o relógio e a agenda nos traz segurança e con�ança
na vida.
Uma jornada serena é mais produtiva que a de quem vive sob o jugo do
estresse.
POR QUE TEMPO É DINHEIRO
GESTÃO DE RICOS, GESTÃO DE POBRES
Quando escrevi Money Mindfulness, meu livro sobre como gerar, conservar e
multiplicar dinheiro, dediquei um capítulo importante a esta máxima: “O
tempo é a divisa mais rentável do mundo.”
Ainda há muita gente que vive como se o tempo não custasse nada e o
gasta de forma irre�etida, sem tomar consciência de que ele é nosso recurso
mais limitado. Quem administra mal seu tempo também administra mal seu
dinheiro, já que ambos são duas faces da mesma moeda.
Cada vez que compramos alguma coisa, na verdade pagamos com nosso
tempo ou, o que dá no mesmo, com nossa vida. E, na verdade, as perdas de
tempo se convertem de forma imediata em perdas de dinheiro. Por isso, assim
como temos de prestar atenção a cada euro, devemos fazer o mesmo com cada
minuto de nossa vida. Ter a consciência real de seu valor para, a partir disso,
aproveitá-lo ao máximo.
Como dizia Gandhi, um grande gestor do tempo ao qual voltaremos
mais adiante: “Assim como não se pode perder um grão de arroz ou um pedaço
de papel, você não pode perder um minuto de seu tempo.”
NÃO VENDA SEU TEMPO, COMPRE-O
Antes de entrarmos no método prático que você encontrará na segunda parte
deste livro, é preciso observar que estamos diante de uma mudança de
paradigma. Em relação à gestão do tempo como instrumento gerador de
dinheiro, o que funcionava há uma década já não é útil hoje em dia.
Podemos resumir a nova realidade por meio de uma frase do
conferencista Harv Eker, um tanto radical, mas correta: “Os pobres vendem
seu tempo, enquanto os ricos o compram.”
Os ricos sabem que o tempo é mais valioso que o dinheiro em si, por isso
contratam pessoas para fazer as coisas que não lhe agradam ou nas quais
investir seu tempo não seria produtivo.
Os pobres, ao contrário, trocam seu tempo por dinheiro. Uma estratégia
que parte de um inconveniente do qual é impossível escapar: o tempo é
limitado. Ao funcionar assim, coloca-se limites em seus rendimentos,
cerceando toda a possibilidade de se obter riqueza.
Quando vender seu tempo, lembre-se de uma das leis de Money
Mindfulness: “Não se ganha dinheiro trabalhando mais horas, mas liberando o
tempo para pensar em novas oportunidades.”
Os novos critérios de produtividade, como explicaremos na terceira parte
deste livro, estão rompendo com o tópico de “gastar horas” em troca de um
salário �xo, porque esquentar a cadeira não equivale a ser produtivo, e não é
rentável nem para o trabalhador nem para a empresa. As empresas mais
visionárias do planeta, como a Net�ix ou outras de setores relacionados à
inovação, começaram a comprar resultados de seus empregados,
independentemente das horas que trabalhem ou se estão presencialmente no
escritório ou trabalhando remotamente.
Entretanto, ainda há muita gente que vende seu tempo por atacado,
entregando em bloco todas as horas do dia, mesmo quando grande parte delas
não são produtivas ou não se re�etem em um salário mais alto; da mesma
forma, muitos trabalhadores autônomos, apesar de serem seus próprios chefes,
trabalham de sol a sol para, com sorte, chegarem apertados no �m do mês.
E o que é pior: muitas pessoas que, embora tenham um salário alto ou
ganhem mais do que poderiam imaginar, não têm tempo de aproveitar isso
porque entregam em troca absolutamente todas as suas horas e vivem imersas
em uma busca interminável: trabalham para pagar as contas de todas as coisas
desnecessárias que vão comprando à medida que ganham mais.
Se você está em alguma dessas situações, além das estratégias �nanceiras
propostas em Money Mindfulness, sem dúvida precisa de TM. É necessário
tomar consciência tanto do valor do tempo que você dedica ao trabalho
quanto do que precisa reservar para si mesmo e para os seus a �m de levar uma
vida plena e próspera.
A AGENDA DAS PESSOAS EFICIENTES
Pense nisto que vou lhe dizer: todas as pessoas do planeta têm a mesma
quantidade de horas em um dia. Então por que há pessoas que têm muito mais
e obtêm resultados melhores que eu? É porque são mais rápidas e inteligentes,
porque têm mais facilidades? Talvez haja um pouco disso, mas é
principalmente porque sabem administrar seu principal recurso — o tempo —
de forma e�caz graças a ferramentas e hábitos que as ajudam a esticá-lo como
se fosse um elástico.
O empreendedor e escritor Kevin Kruse entrevistou mais de duzentas
pessoas de sucesso, incluindo multimilionários,empresários, atletas olímpicos e
estudantes brilhantes, e perguntou a eles qual seu principal segredo para a
produtividade. Você pode imaginar qual foi a resposta? Tratar o tempo como seu
ativo mais valioso.
Eles a�rmaram que o tempo era seu ativo mais valioso pois, com ele
podiam conseguir todo o resto, inclusive a prosperidade econômica. É possível
até recuperar dinheiro se ele foi perdido, mas não há forma de recuperar o
tempo. Uma vez gasto, não se pode sair para buscar mais, nem comprá-lo nem
pedi-lo emprestado.
Partindo dessa premissa, essas entrevistas demonstraram que as pessoas
altamente produtivas experimentam o tempo de forma diferente. Elas não seguem
sistemas complexos de gestão, com diagramas complicados. Em vez disso, têm
em comum uma série de hábitos fáceis de aplicar por qualquer um. Vou
resumir em seguida os mais signi�cativos para que você logo possa aumentar
essa lista de felizardos.
Vamos chamá-los de “hábitos para converter o tempo em ouro”.
1. Concentre-se nos minutos, não nas horas
As pessoas comuns organizam suas agendas por horas ou meias horas,
enquanto as pessoas de muito sucesso têm plena consciência de que cada
dia tem 1.440 minutos. Se dormimos oito horas, o que é altamente
recomendável, temos à disposição 960 minutos a cada dia que devem ser
aproveitados como merecem.
O potencial de cada minuto é importantíssimo e conta para o
resultado �nal. Por isso, pense duas vezes antes de pedir “um minuto” a
alguém, ou antes de você mesmo doá-lo. E em especial antes de desperdiçá-
lo.
Para manter o domínio sobre sua agenda, seu tempo e, portanto, suas
�nanças, você deve manter cada minuto sob controle.
O CLUBE DAS 5H DA MANHÃ
Robin Sharma, que começou a �car famoso em todo o mundo em 1999
com O monge que vendeu sua Ferrari, causou grande impacto recentemente
com seu livro O clube das 5 da manhã. Por meio de uma fábula na qual um
milionário excêntrico se torna mentor de dois desconhecidos, ele apresenta
um método no qual, além de evitar as distrações digitais, madrugar tem
importância capital.
Se levantar quando a maior parte da humanidade está dormindo libera
uma primeira hora preciosa para despertar o “gênio interior”, garante
Sharma, que sugere praticar o 20/20/20. Depois de madrugar, vamos
dedicar os primeiros vinte minutos a fazer exercícios e suar, já que isso
aumenta as conexões neuronais. O próximo bloco de vinte minutos será
reservado para planejar nossos objetivos, começando assim a jornada com o
foco bem dirigido. O terceiro bloco dessa hora lúcida está destinado ao
aprendizado: ler biogra�as de grandes personagens, escutar podcasts
informativos ou qualquer outra atividade que nos permita ganhar
conhecimento.
Outra das regras apresentadas por Sharma em seu livro é a 90/90/1.
Ela consiste em dedicar, durante noventa dias consecutivos, os primeiros
noventa minutos de cada dia para fazer exclusivamente uma mesma coisa
que considere ser uma grande oportunidade para si mesmo. Em vez de
responder a e-mails ou mensagens ou ler notícias na internet, o autor
garante que cumprir esse desa�o sem falhas durante três meses — o que
exigirá se levantar bem antes de ir trabalhar — produz resultados lendários.
2. Pratique uma rotina matinal
Antes de Sharma escrever seu livro, as pessoas altamente e�cazes já sabiam
que vale a pena dedicar uma hora do dia para fortalecer sua mente, seu
corpo e seu espírito com rituais matinais perfeitamente de�nidos.
Mesmo que não pratiquem o 20/20/20 nem o 90/90/1, a maioria se
levanta cedo, se hidrata bem, toma um café da manhã saudável, faz
exercícios leves e alimenta a mente com meditação, oração ou com leituras
inspiradoras ou jornais. Incorporam rituais de agradecimento ou
autorre�exão para deixar claro quais são seus objetivos para aquele dia.
O guru Vaibhav Shah dizia: “Cada vez que você vê uma pessoa de
sucesso, vê apenas sua glória pública, nunca os sacrifícios particulares para
conquistá-la.”
O melhor de aplicar TM é que você não perceberá isso como um
sacrifício extra.
3. Priorize
As pessoas ultraprodutivas se concentram em uma única coisa, o que as leva
a conseguir isso com sucesso. Como primeiro passo, identi�cam sua meta.
Dependendo de sua situação ou atividade, pode ser desde conseguir uma
promoção, mais clientes ou alcançar as vendas que lhe permitam cobrar os
100% de bônus, até manter uma família unida e saudável, ou passar em
provas que abrirão novas oportunidades para você.
Em seguida, identi�cam qual tarefa terá o maior impacto para
aproximá-las dessa meta e dedicam a ela uma ou duas horas a cada manhã,
na verdade, as primeiras horas do dia porque costumam ser as mais
produtivas. Um conselho extra: elas fazem isso evitando qualquer tipo de
interrupção (mais à frente vou explicar como conseguir isso).
ENGULA ESSE SAPO
Dan Ariely, professor de psicologia e comportamento econômico na
universidade de Duke, a�rma que a maioria das pessoas são mais produtivas
— e seu potencial cognitivo é maior — durante as primeiras horas da
manhã.
“Infelizmente”, a�rma, “as rotinas da maioria das pessoas e seus
horários de trabalho não estão projetados para maximizar esse potencial
brilhante e precoce. Um dos erros mais tristes na gestão do tempo é que as
pessoas dedicam essas duas horas mais produtivas a coisas que não exigem
grande capacidade cognitiva, como as redes sociais.”
Se não as aproveitamos para navegar pelas redes sociais, grandes
predadoras de tempo, temos a tendência de utilizar nossas primeiras horas
do dia para tarefas mais fáceis e triviais, como ver e-mails ou ler as notícias,
pois isso nos mantém na zona de conforto.
As primeiras horas do dia são também as mais e�cazes para resolver
problemas, segundo indicam dois grandes gestores do tempo que
recomendam: “Engula esse sapo.” Contra o hábito preguiçoso de começar
pelo fácil e postergar os problemas ao longo do dia, o que ocupará espaço
mental por todo o dia, a �loso�a engula esse sapo propõe que nos livremos
primeiro da tarefa mais pesada ou con�itante para assim render nas horas
seguintes sem esse peso.
4. Esqueça as listas de tarefas
As resoluções de ano novo costumam fracassar retumbantemente, salvo
raras exceções. Trata-se apenas de listas de tarefas ou objetivos, meras
anotações de coisas pendentes que você espera realizar, mas que não estão
acompanhadas de nenhum plano, nem de prazos especí�cos. Além disso,
quando as escrevemos no dia a dia, não costumamos distinguir entre o
urgente e o importante e misturamos sem ordem nem regra atividades que
poderiam ser feitas em poucos minutos com outras que, com certeza,
levarão horas para serem executadas corretamente.
Uma vez terminada a lista, mergulhamos de cabeça e começamos
com os trabalhos mais fáceis ou aqueles que são feitos rapidamente, sem
levar em conta se são ou não essenciais ou se darão algum retorno. O que
nos deixa realmente satisfeitos, porque nos leva a crer que somos e�cientes,
é eliminar tarefas da lista. Quanto mais, melhor, sem nos importarmos que
essas sejam as mais insigni�cantes.
Dessa forma, além de ser improdutiva, a lista se converte em um
lembrete constante de tudo o que nos falta fazer, o que gera estresse e
insônia.
Já nos anos 1930, a psicóloga russa que investigou o “efeito
Zeigarnik” alertou: as tarefas incompletas permanecem em sua mente até que
você as termine, ocupando espaço e roubando seu tempo e energia. Sabe como
ela chegou a essa conclusão? Observando que garçons se lembravam
melhor dos pedidos pendentes ou sem cobrar do que daqueles que haviam
acabado de servir, o que a levou a realizar alguns estudos que
demonstraram como a memória é mais e�caz com os processos não
concluídos… Basta pensar nas séries de televisão que nos prendem.
5. Programe sua agenda
Em vez de fazer listas, as pessoas altamente produtivas programam cada
tarefa em sua agenda, independentemente se é uma reunião com seu
melhor cliente, um telefonema para sua mãe ou sua sessão semanal de
coaching. Sem afetar a �exibilidade exigida pelo �uxo do dia a dia, toda
tarefa que você resolveu agendare para a qual reservou um tempo — não
há outra forma de fazer as coisas — deve ser considerada bloqueada como
se fosse uma consulta com seu médico.
Viva de acordo com essa agenda. Se uma tarefa não está agendada é
como se não existisse; e, quando está, é preciso cumpri-la, aconteça o que
acontecer, sem desculpas.
Ao contrário do que acontece quando você escreve uma tarefa em
uma lista, o fato de anotá-la em sua agenda libera sua mente. Mesmo que
não a termine e tenha de reagendá-la para o dia seguinte, o efeito é
diferente, já que você terá mais uma vez atribuído a ela um tempo e talvez
também um espaço no qual realizá-la.
E lembre-se do que nos diz Jeff Weiner, diretor-executivo do
LinkedIn: “Separe blocos de tempo para pensar, para não fazer nada.” Em
sua agenda, tudo deve estar anotado e, como veremos em detalhes em
outro capítulo, o nada também deve estar anotado.
A AGENDA DE WARREN BUFFETT
Em um encontro cara a cara entre Bill Gates e o milionário Warren Buffett
para uma rede de TV norte-americana, o primeiro disse: “Eu me lembro
quando Warren me mostrou sua agenda.” Em seguida, Buffett sacou um
caderninho de seu bolso e o entregou ao entrevistador. “Aqui não tem quase
nada…”, surpreendeu-se ele ao folheá-lo. “Absolutamente”, respondeu
Buffett, enquanto Gates brincava dizendo: “É alta tecnologia, tenha
cuidado, você pode não entender.”
Enquanto o entrevistador comprovava que em alguns meses havia
apenas três ou quatro anotações, Gates contou que, tempos atrás, ele tinha
cada minuto cheio de compromissos porque pensava que era a única
maneira possível de fazer as coisas; e que foi exatamente Buffett quem lhe
mostrou a importância de deixar tempo para pensar: “É preciso controlar
seu tempo. Diante das exigências de ter reuniões, e coisas desse tipo, sentar-
se e pensar pode ser uma prioridade alta para um CEO.”
Buffett explicou que todo mundo queria seu tempo, por isso tinha de
ser muito cuidadoso com ele: “Basicamente posso comprar qualquer coisa
que eu queira, mas não há maneira de comprar mais tempo.”
O investidor eliminou de sua agenda quase todas as tarefas que
supostamente deveria fazer: nunca fala com analistas. Raramente fala com a
mídia. Não assiste a eventos da indústria. Vai apenas a reuniões internas. Ele
morou fora de Nova York durante quase toda a sua carreira.
Tudo pela simplicidade, que por sua vez lhe proporciona tempo.
6. Use um caderno para liberar a mente
Richard Branson diz que não teria construído a Virgin se não fosse um
simples caderno que leva com ele aonde quer que vá para anotar seus
planos. Por sua vez, o magnata grego Aristóteles Onassis recomendava:
“Carregue sempre um caderno. Anote tudo: ideias, as pessoas novas que
conheceu, coisas interessantes que ouviu. Essa é uma lição de um milhão de
dólares que não ensinaram a você na escola de administração!”
Em geral, as pessoas ultraprodutivas liberam sua mente e, por isso,
ganham tempo porque não há nada pendente em seu pensamento, já que
anotam qualquer ideia em tempo real.
Datas, endereços, possíveis presentes, alternativas de férias,
restaurantes, uma garrafa de vinho de que gostou para não ter de rever
novamente a carta completa, um diagrama da mesa na primeira reunião
com clientes… eu me lembro do que dizia um professor de meu instituto:
“Quem não toma nota é um idiota.” Para os efeitos do TM, essa a�rmação
é bastante verdadeira.
A CANETA É MAIS PODEROSA QUE O TECLADO
Como demonstra um estudo dos psicólogos Pam A. Mueller e Daniel M.
Oppenheimer publicado na Psychological Science, é melhor tomar notas à
mão do que no celular. Em suas próprias palavras:
“Tomar notas no celular em vez de à mão é cada vez mais comum.
Muitos investigadores sugeriram que tomar notas em um celular é menos
e�caz que tomar notas à mão para aprender. (…) Em três estudos,
descobrimos que os estudantes que tomaram notas nos celulares obtiveram
resultados piores que os estudantes que �zeram anotações à mão.
Demonstramos que, embora tomar mais notas possa ser bené�co, a
tendência dos que tomam notas no celular é transcrever as reuniões em vez
de processar a informação e reformulá-la com suas próprias palavras. Isso
acontece em detrimento do aprendizado. Eles se lembram dos dados, mas
aplicam pior os conceitos.”
7. Delegue o que for possível
As pessoas ultraprodutivas não perguntam: como posso fazer esta tarefa?
Em vez disso, perguntam: como esta tarefa pode ser feita? Isso equivale, na
medida do possível, a eliminar o “eu” da equação. Trata-se de passar seu
tempo fazendo o que sabe fazer melhor e desenvolvendo os pontos fortes
que só você tem.
Aqui estão as famosas três perguntas de Harvard que vão permiti-lo
economizar algumas horas por semana:
O que posso deixar de fazer que não agrega valor nem a mim nem a
minha empresa?
O que posso delegar ou terceirizar, já que não sou a única pessoa que
sabe fazê-lo?
O que preciso continuar fazendo, mas posso redesenhar para fazer de
forma mais e�ciente, ou seja, com os mesmos resultados e menos
tempo?
8. Jante em casa… ou em outro planeta
As pessoas altamente produtivas sabem o que valorizam na vida, e não é
apenas o trabalho. Para alguns, é o tempo com a família, para outros, o
exercício, a formação pessoal constante… Momentos esses que estão
incluídos nessa agenda e que devemos cumprir de qualquer forma.
Como diz o executivo da Intel Andy Grove, “sempre há mais coisas a
fazer, mais do que deveria ser feito, mais do que é possível fazer”, por isso
um elemento diferencial é incluído por quem, em vez de queimar sem
parar uma hora depois da outra, aprende a dizer: “Até aqui é o su�ciente.”
Desta forma, ele se converte em um mestre em abrir mão, em se permitir
se soltar. Encontrando, assim, tempo para o que ama de verdade.
Para Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, a prioridade é
jantar em casa todos os dias; para Richard Branson, é imaginar uma
aventura em algum planeta. Só você sabe qual é a sua. Inclua isso em sua
agenda e dedique esse tempo ao que realmente quer.
Celebre o que fez e não lamente o que não conseguiu fazer. Como
recomendava o �lósofo Ralph Waldo Emerson há um século e meio:
“Termine cada dia sem remorsos. Você fez o possível. Amanhã será
outro dia.”
UM POUCO DE SÍNTESE
Cada minuto de seu tempo conta e sempre vale mais que o dinheiro.
É conveniente dedicar as primeiras horas da manhã, as de maior
rendimento, às coisas verdadeiramente importantes.
Postergar um problema só serve para que ele ocupe espaço mental por
todo o dia.
Não faça listas; agende quando e como vai fazer cada coisa.
Delegue tudo o que puder e concentre-se naquilo que só você pode
fazer.
Reservar tempo livre para pensar é o maior investimento que pode ser
feito.
POR QUE O TEMPO É CRIATIVIDADE
SOBRE A IMPORTÂNCIA DO VAZIO
Em uma conhecida fábula oriental, um homem muito rico visita um mestre de
chá famoso por sua sabedoria. Enquanto o visitante explica tudo o que fez e
conseguiu na vida, o mestre de chá vai enchendo sua xícara até que no �m a
infusão transborda e acaba se derramando sobre a mesa.
Quando o hóspede endinheirado lhe diz que pare de servir chá, pois a
xícara está cheia, o mestre retruca: “Ela está cheia como você está cheio de si
mesmo. Assim, será impossível que aprenda qualquer coisa.”
Esse conto próprio dos ensinamentos zen indica o título deste capítulo: se
não se gera espaço livre, ou seja, tempo, não é possível que surja nada de novo.
E, apesar disso, se observamos as agendas da maioria das pessoas, parece que
elas são viciadas em encher de atividades e compromissos todo o tempo
disponível.
A que se deve isso?
HORROR VACUI
Essa expressão latina signi�ca “horror ao vazio” e tem sua origem em uma
crença da antiguidade segundo a qual o vazio não podia existir no cosmo. No
âmbito da arte e da decoração, fala-se de horror vacui quando há a tendência
de encher todo espaço disponível, algo que ocorria com o barroco ou na
tradição da arte muçulmana.
As vanguardas do século XX criticaram muito o costume de encher todo
o espaço disponível, eo arquiteto austríaco Adolf Loos chegou a a�rmar em
um famoso artigo de 1908 que “o ornamento é um crime”, algo próprio de
bárbaros e de pessoas sem estilo.
No design nórdico e no admirado visual zen que distingue os produtos da
Apple, por exemplo, tenta-se abrir mão de tudo o que é acessório. Não há nada
mais belo que uma superfície branca e vazia para estimular a imaginação e a
criatividade.
A UTILIDADE DO VAZIO
No poema XI do Tao Te Ching, o mestre Lao-tsé já se referia, há dois
milênios e meio, ao poder criativo de não encher o espaço e o tempo:
Trinta raios convergem
no centro de uma roda,
mas é seu vazio
que é útil para o carro.
Modela-se a argila para fazer a vasilha,
mas de seu vazio
depende o uso da vasilha.
Abrem-se portas e janelas
nas paredes de uma casa,
e é o vazio
o que permite habitá-la.
Nós centramos nosso interesse no ser,
mas a utilidade depende do não ser.
Assim como Loos considerava que encher o espaço não combinava com a
modernidade, uma agenda abarrotada de coisas é um ato igualmente bárbaro,
já que eliminamos qualquer opção de improvisar, de produzir algo novo.
Voltemos à pergunta: por que o cidadão moderno, que carrega um
smartphone, padece de horror vacui em sua organização do tempo? Pode haver
vários motivos:
Uma �xação equivocada pela produtividade, entendendo que apenas o
“cheio” tem valor, ignorando que o “vazio” é a premissa da inovação.
A obrigação autoimposta de atender às expectativas das outras pessoas. Se
cada vez que alguém quer alguma coisa de nós, o que é pago com tempo,
dizemos que sim, �caremos sem nenhum espaço para poder fazer outras
coisas.
O medo de um encontro consigo mesmo promovido pelo espaço vazio.
Talvez essa seja a razão mais importante do preenchimento de nossa
agenda. Enquanto fazemos coisas e atendemos pessoas, não temos tempo
de pensar. E se paramos para pensar… talvez surjam perguntas
incômodas às quais temos di�culdades para responder. Muitas pessoas
enchem seu tempo com qualquer coisa para evitar esse desa�o.
Pablo Neruda advertia sobre esse tipo de horror vacui: “Um dia em
qualquer lugar, você vai indefectivelmente encontrar a si mesmo, e essa, apenas
essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga de suas horas.”
MANOBRAS DE DISTRAÇÃO
O compromisso consigo mesmo que leva à re�exão e à criatividade pode ser
evitado de muitas maneiras. A mais comum é assumir mais trabalho do que
devíamos realmente fazer, já que isso nos libera de pensar. Outra, muito
habitual, é encher o tempo livre com séries de TV — há quem veja
temporadas inteiras em um �m de semana — ou “preencher” qualquer
minuto livre no transporte público, no trajeto do trabalho para casa, com
redes sociais que raramente nos trazem algo de valor, mas que nos
“distraem”.
Em seu ensaio Os grandes prazeres, Giuseppe Scaraffia observa que esse
vício em distrair a mente das perguntas fundamentais não é exclusividade
desta época. No século XVIII, o �lósofo Benjamin Constant tinha �xação
pelos bordéis e, em um exemplo mais moderno, Ernest Hemingway se
embebedava para poder encher seu vazio, apesar de seu grande talento
criativo. Um horror vacui que o levou a se suicidar com um tiro de escopeta
em 1961 ao se sentir incapaz de continuar criando.
NO NADA, TUDO É POTENCIAL
O Gênesis bíblico começa com o nada, a partir do qual o criador faz surgir o
universo e tudo o que há dentro dele. Esse nada que contém tudo em
potencial está à disposição de qualquer pessoa que queira fazer de sua vida um
ato de criação.
Otto Scharmer, professor do MIT em Boston, defende essa necessidade
de vazio em sua “Teoria U”, que pode ser resumida com duas expressões em
inglês: apenas por meio do “Let it go” será possível o “Let it come”.
Enquanto você estiver cheio de tudo o que é velho, como o ricaço que
visitou o mestre de chá, nada de novo poderá entrar.
Considerando que este é um livro sobre o tempo, vamos ver o que
podemos liberar para criar um espaço temporal criativo:
PARE DE…
trabalhar mais horas do que as necessárias;
querer abarcar tudo como se não houvesse amanhã;
ir a compromissos que não o alimentem;
se anestesiar com a televisão e as redes sociais.
E VÃO CHEGAR…
novas ideias que, de outra forma, não teriam lhe ocorrido;
projetos empresariais, artísticos ou de autoconhecimento que podem
transformar sua vida;
descansos ou pausas para fazer uma “troca de chip”;
pessoas novas que trazem ar fresco a sua vida;
as satisfações de improvisar, conquistar a liberdade pessoal.
AS PEDRAS GRANDES
Eu me lembro de um romance simpli�cado que li enquanto estava
aprendendo inglês. Ele se chamava O céu é o limite e contava a história de um
homem ambicioso e cada vez mais ocupado que começa a trabalhar na sede de
uma empresa que ocupa um arranha-céu.
Ele começa desempenhando funções simples nos andares inferiores, mas
à medida que entrega sua vida ao trabalho, vai subindo de cargo e também de
andar. No �m de sua carreira, passa a ocupar o escritório de diretor da empresa
no andar superior.
Ao perceber que não pode mais continuar subindo e que sua carreira
engoliu totalmente sua vida pessoal, ele vai ao terraço e se lança no vazio.
Sem chegar a um �nal tão dramático, um exercício em forma de fábula
explicada nas escolas de administração pode nos ajudar a estabelecer
prioridades, assunto ao qual dedico um capítulo inteiro.
Imagine que um gestor de tempo chegue a uma sala de aula com um pote
de vidro e um saquinho de pedras.
Após os cumprimentos iniciais, ele põe as pedras no vidro e pergunta aos
alunos se ele está cheio.
Quando dizem a ele que sim, ele pega um segundo saco menor, cheio de
areia, e o derrama dentro do vidro. Os grãos penetram entre as pedras e
acabam por encher o pote de vidro.
O gestor de tempo pergunta pela segunda vez se o pote está cheio. Os
alunos voltam a dizer que sim, embora perceba-se alguma dúvida em suas
vozes. Em seguida, ele pega um jarro de água e o derrama no vidro cheio de
pedras e areia.
— Está cheio agora? — pergunta o gestor.
— Não sabemos… — responde um dos estudantes em nome dos demais.
— O que eu acabei de demonstrar em relação ao tempo?
Após alguns instantes de silêncio, uma aluna se atreve a dizer:
— Que não faz diferença o quanto sua agenda está cheia. Se você for
hábil, sempre vai conseguir incluir mais alguma coisa.
— Não — retruca o gestor de tempo. — O que quis demonstrar com
esse exercício é a necessidade de botar as pedras grandes primeiro, porque em
pouco tempo não caberão mais delas. As pedras grandes são as coisas realmente
importantes em sua vida. O resto encontra seu lugar.
Termino este capítulo com um convite para que você se faça uma
pergunta vital:
Quais são as pedras grandes de sua vida?
Coloque-as no pote de vidro, que é o tempo de sua vida, antes da areia e
da água. Como diz o gestor, se você põe primeiro o que deve ir primeiro, o
resto encontra seu lugar.
UM POUCO DE SÍNTESE
Liberar tempo é imprescindível para que coisas novas aconteçam.
O horror vacui esconde o medo de nos fazermos perguntas cujas
respostas possam mudar nossa vida.
A magia do “nada” está em conter todas as possibilidades.
Se você não largar o velho, o novo não poderá vir.
Ponha primeiro as “pedras grandes” de sua vida. O resto encontrará seu
lugar.
QUAL É SEU CRONOPERFIL?
SEIS MANEIRAS DE ADMINISTRAR O TEMPO
Vivemos com tanta pressa que poucas vezes temos consciência do uso que
fazemos dos dias, horas e minutos que a vida nos oferece. Entretanto, se
prestarmos atenção a como lidamos com o tempo, podemos introduzir
mudanças que resultarão em uma grande melhora qualitativa em nosso dia a
dia.
O tempo é o bem mais valioso que temos, pois uma vez gasto não pode
ser reposto, por isso é crucial que saibamos qual é nosso padrão na hora de
empregá-lo. Isso nos coloca no terreno do TM, que nos devolverá o controle
sobre nossa existência.
Considerando que a forma de aproveitar o tempo é algo complexo, é
possível que seu cronoper�l seja uma combinação de vários padrões,embora
certamente um deles seja o dominante. Sua função é conseguir que você
entenda e corrija seus hábitos disfuncionais relacionados com o uso do tempo
para que sua vida seja mais �uida e melhor.
Vejamos agora os cinco padrões que, se levados ao extremo, não nos
permitem desfrutar do tempo:
1. O velociraptor
Voa de um lugar para outro, em um estado de alerta permanente, tentando
realizar o maior número de tarefas possível. Seu otimismo com a agenda é
absurdo, e sempre encontra espaço para um compromisso ou missão a mais.
Isso o obriga a correr ensandecido, pegando táxis para chegar em cima da hora
ou atrasado em todos os lugares. Ao �m do dia, ele sente que não fez nem a
metade do que havia previsto, o que gera frustração. Para esse per�l, os dias
deviam ter mais de 48 horas.
Os compromissos com o velociraptor são rápidos, porque ele sempre tem
de ir a outro lugar, e frequentemente provoca confusões com a agenda. É
habitual que ele roube horas de sono para conseguir fazer um pouco mais,
embora seja pagando um preço muito alto com sua saúde.
O estresse é seu modo de vida, e seu estado de ânimo mais comum são a
ansiedade e o nervosismo. Muitas vezes ele sente que não aguenta com tudo,
mas nem por isso tira o pé do acelerador. Ele acredita erradamente que, se
parar de fazer as coisas, o mundo deixará de funcionar. Por isso, a única coisa
que pode parar um velociraptor é um choque vital — um acidente ou uma
doença, uma demissão ou a ruína econômica, uma separação —, a não ser que
ele se entregue ao TM antes de se destruir.
O conferencista Álex Rovira de�niu esse per�l com uma ordem que,
quando trabalhava como consultor, ouviu ser gritada em uma empresa: “É
urgente que seja urgente!”
PERIGOS DA VELOCIDADE
Uma fábula conta que um explorador branco, que desejava chegar o quanto
antes ao coração da África, ofereceu um pagamento extra aos carregadores
para que andassem mais rápido. Eles obedeceram durante vários dias, mas
uma tarde se sentaram no chão e se negaram a continuar.
Quando o explorador pediu explicações, eles responderam:
— Andamos tão depressa que nem sabemos mais o que estamos
fazendo. Agora precisamos esperar que nossas almas nos alcancem.
O grande perigo da pressa é que ela se converta no motor de nossa
vida, em piloto automático, até esquecermos, como os carregadores, por que
estamos correndo.
Contra essa síndrome, a primeira coisa a fazer é deter a inércia e, em
seguida, nos perguntarmos por que iniciamos o caminho e como queremos
vivê-lo.
2. O procrastinador
“Amanhã” é sua palavra favorita, ou “depois” em sua versão mais suave. Esse
per�l tem verdadeiros problemas para começar qualquer coisa, mesmo que seja
de vital importância para si mesmo.
Ele se perde nos preparativos, que no fundo são uma forma de atrasar o
início do que já devia estar fazendo. Dedica muito tempo a preparar o terreno,
e pouco ou nenhum para cultivá-lo.
Um exemplo clássico seria o estudante que dedica o primeiro dia de aula
a organizar suas anotações e fazer um calendário das páginas que estudará por
dia. Isso o deixa tranquilo e ele vai descansar ou se ocupar de outra coisa,
convencido de que “amanhã, sim”. Porém, um velho provérbio adverte que
“pela rua do amanhã se chega ao beco do nunca”. No dia seguinte, uma
mudança de planos ou um imprevisto vão obrigá-lo novamente a adiar o
início e a reprogramar o cálculo de páginas por dia, o que leva a um gasto de
tempo adicional. Um dia depois, é muito provável que a situação se repita até
que… o estudante se vê na noite da véspera da prova com um monte de
anotações que não conseguiu ver sobre a mesa e os nervos à beira de um
colapso.
Considerando que todos procrastinamos coisas na vida, vou dedicar um
capítulo inteiro a como acabar com o hábito de adiar o importante enquanto
se dedica tempo ao que é secundário.
O procrastinador vive de esperanças e, quando percebe que não cumpre
com o que determinou, acaba desesperado.
3. O precrastinador
Um artigo recente do New York Times aborda um novo cronoper�l que é o
contrário do anterior. Trata-se daquelas pessoas cuja ansiedade as leva a
antecipar tudo.
O precrastinador chega ao supermercado alguns minutos antes dele abrir,
entrega seu trabalho com uma semana de antecedência — caso um acidente o
impedisse de fazê-lo nos últimos dias — e sempre chega aos encontros
marcados antes de você.
Por trás dessa necessidade de viver em modo antecipado está o medo de
não fazer as coisas ou de permitir que elas se desviem do caminho. Melhor
chegar antes que o mundo venha abaixo.
Uma situação comum de precrastinação acontece nos portões de
embarque, onde, embora os passageiros tenham seu assento marcado, fazem
�la — às vezes de meia hora ou mais — quando poderiam estar sentados
confortavelmente até o embarque começar.
Há quem tema que sua bagagem de mão não caiba na cabine e que ela
tenha de ser despachada, mas também encontramos na �la executivos com suas
valises. O que estão fazendo ali de pé, esperando tensos que comece o
embarque?
Adam Grant, autor de livros e professor de administração e psicologia em
Wharton, a�rma que a precrastinação é “o lado sombrio de ser muito bom em
fazer as coisas. O que é proveniente da preocupação de que não haverá tempo
su�ciente para fazer bem uma coisa, em especial quando outras pessoas
dependem de você”.
Viver sempre com o chip de “antes que” leva a uma perda de tempo
constante, já que, como diz o provérbio popular: “Não adianta madrugar que
o dia não amanhecerá mais cedo.” Caso se adiante dois passos do ritmo do
mundo, estará sempre esperando que abram, aguardando o horário de um
compromisso ou irá até mesmo multiplicar seu trabalho.
Ao entregar uma tarefa com muita antecipação, você corre o risco de
duas coisas:
1. Que solicitem mudanças e melhorias, já que “há tempo” (por isso os
melhores freelancers entregam suas tarefas no limite do prazo, para que
não seja possível pedir mudanças), ou que o peçam para refazer o
trabalho.
2. Que lhe deem outras tarefas que teriam sido atribuídas a outras pessoas
pelo único fato de estar livre. Isso pode ser um problema quando você
tem um emprego assalariado em uma empresa.
Querer “tirar de cima” o que tem de fazer pode levá-lo a escolher um
tema ruim de tese de doutorado, por exemplo, ou a se juntar com a pessoa
errada. Adiar é tão perigoso quanto estar sempre à frente, pois, entre outras
coisas, você pode cair na precipitação.
4. O homem simultâneo
Ou a mulher, é claro. Esse cronoper�l pode se combinar com os outros, já que
é uma maneira de gerenciar cada passo que damos. Quem segue esse padrão
precisa fazer sempre várias coisas ao mesmo tempo, porque acha que desse jeito
“poupa tempo”.
Na verdade, o homem simultâneo consegue fazer muitas coisas, mas com
um nível baixo de atenção, o que provoca muitos acidentes e erros. Esse per�l
bota a quantidade acima da qualidade.
Enquanto ele anda pela rua, atualiza as redes sociais em seu celular, com
o risco de se chocar contra outros pedestres ou um poste.
Nas reuniões familiares ou de amigos, continua com a alma no escritório,
respondendo a chamadas ou e-mails, ou pensando em outras coisas. Ele não
percebe o que está acontecendo à sua volta porque está sempre “em outro
lugar”, como vimos no início deste livro.
O multitasking continua até mesmo nas horas de descanso. Se está
pegando sol em uma piscina, pode levar fones de ouvido para escutar um curso
de formação. Se está na cama, percebe cada vibração produzida em seu celular.
Sobre isso, um grupo de 35 psiquiatras norte-americanos que decidiu
examinar a conduta de Donald Trump advertiu que o presidente
habitualmente interagia com as redes sociais altas horas da madrugada. Um
deles chegou a lhe mandar a mensagem: “Pelo bem do país, vá dormir.”
Quando, no dia seguinte, um jornalista perguntou a ele sobre o
comentário, o presidente disse: “Se ouço que surgiu alguma coisa, preciso ver o
que está acontecendo.”
5. O O’Clock
Em teoria, esse cronoper�l seria o ponto médio exato entre o procrastinador e
o precrastinador, mas a �xaçãopela pontualidade e por viver segundo uma
agenda pode acabar com o brilho da vida.
As pessoas obstinadamente pontuais sofrem de perfeccionismo e estão em
luta constante com um mundo cuja essência é wabi-sabi, um conceito japonês
que se traduz como “a beleza da imperfeição”. Na natureza, nada é reto, nada
está terminado nem dura para sempre; aí está sua beleza.
Entretanto, o O’Clock é obcecado por converter sua vida em um
mecanismo de relojoaria. Vejamos algumas características desse per�l:
Tende a manter uma agenda milimetrada na qual enche cada espaço com
um compromisso ou atividade. Por isso, para estar com ele ou com ela,
sempre cairemos no espaço seguinte, talvez dentro de algumas semanas.
Tem medo de perder tempo, portanto, precisa ser produtivo.
Paradoxalmente, isso faz com que não desfrute verdadeiramente de nada,
já que tudo se converte em obrigação e compromisso, com o que está
perdendo seu tempo.
Se aborrece frequentemente com a falta de pontualidade dos outros, ou
quando as coisas não acontecem com a e�cácia desejada. Isso faz com que
ele esteja em um estado constante de irritação que pode levá-lo a estar em
con�ito com o mundo.
Contra essa síndrome, é possível usar a seguinte frase, do poeta Juan
Ramón Jiménez, como remédio: “Se lhes dão papel pautado, escreva do outro
lado.” Precisamos reservar tempo para improvisar. Ou seja, deixar na agenda
espaços em branco para poder viver também “de improviso”, segundo o que
nos diga o momento, no lugar de ser um robô triste que executa tarefas.
FILOSOFIA DA PONTUALIDADE PURA
Emmanuel Kant tinha tamanha obsessão com a pontualidade que se diz que
seus vizinhos de Königsberg (hoje a russa Kaliningrado) acertavam seus
relógios quando o �lósofo saía para dar seu passeio vespertino.
O autor da Crítica da razão pura fazia tudo pontualmente. Ele se
levantava da cama às 5h em ponto, dava bom-dia para seus alunos às 7h em
ponto; escrevia a partir das 9h em ponto até as 13h em ponto, quando se
sentava para comer; à tarde, debatia com seu grande amigo Joseph Green até
as 19h em ponto, voltava para casa, lia e se deitava às 22h… em ponto.
Ele nunca rompeu essa rotina. Na verdade, nunca cruzou as fronteiras
de sua pequena cidade.
Os extremos nunca são bons, por isso duvido que Kant aproveitasse
muito a vida. Uma rotina tão rigorosa nos impede de ser �exíveis, e nos
priva da liberdade de que precisamos para crescer. Entretanto, o �lósofo
alemão pode servir de exemplo para aquelas pessoas que nunca chegam na
hora e se identi�cam com o sexto e último cronoper�l.
6. O atrasado
Shakespeare dizia que “é melhor chegar três horas antes que um minuto
atrasado”. Talvez ele tenha exagerado com a frase, mas sem dúvida seria bom
que a escutassem aqueles que chegam tarde não um minuto, mas muito mais…
e além de tudo isso lhes parece normal.
Todos temos o amigo típico que usa as desculpas mais diversas para
justi�car seus atrasos (a avó de uma colega de trabalho que tive há alguns anos
morreu duas vezes). São as mesmas pessoas que dizem a você que tem coisas
muito piores do que não ser pontual e que, quando você está combinando um
plano com elas, propõem: “Passo para lhe buscar entre as 11h e o meio-dia”,
como se essa hora fosse uma coisa vazia que se pudesse desprezar. Isso quando
não soltam um “O mundo não vai acabar porque eu me atrasei alguns
minutos!”.
Não percebem que, sim, o mundo pararia se fôssemos todos como elas,
nem entendem que a mudança na direção da serenidade e da produtividade
ansiadas passa por tomar consciência do valor de cada minuto.
Podemos achar que os atrasados crônicos são desorganizados, preguiçosos
ou sem disciplina vital, mas por trás desse comportamento se escondem
mensagens ocultas muito mais profundas e preocupantes do que um mero
despistamento ou desculpas como “tinha muito trânsito”.
Há atrasados muito narcisistas, tanto que usam a falta de pontualidade
como um mecanismo de poder para submeter quem os está esperando. Com
certeza alguma vez já disseram a você: “Chego tarde porque não gosto de
esperar”, ou então “As pessoas importantes não esperam, se fazem esperar”.
Por trás dessas brincadeiras tão pouco engraçadas se esconde alguém que
se acha superior ou com mais direitos que os outros. “É que eu tinha de
terminar uma coisa”, justi�cam-se, como se seu tempo valesse mais.
Outras pessoas fazem isso por insegurança, para atrasar a má sensação de
um encontro no qual temem ser rechaçadas ou feridas; ou por rebeldia, para
deixar claro que não estão de acordo com o motivo da reunião, uma
insubordinação com a qual não conseguem nada, além de aborrecer as pessoas
e perder autoridade.
Para Pau Obiol, psicólogo da Isep Clínic Barcelona, muitos atrasados
crônicos sofrem do que ele chama da “falácia do planejamento”, que os leva a
subestimar o tempo de que precisam para fazer uma tarefa; são pessoas com
uma distorção cognitiva que faz com que emitam juízos ilusórios e incorretos
do tempo e de seus próprios recursos.
Muitas delas são conscientes de que agindo assim tornam-se mal-educadas
e desrespeitosas, e querem mudar seu comportamento, mas é difícil enfrentar
um hábito tão interiorizado. Eu mesma o comprovo todo dia desde que me
mudei de Londres para Lisboa, duas cidades nas quais o tempo transcorre em
velocidades diferentes.
O problema é quando, longe de se sentirem responsáveis, os atrasados
desprezam esse tempo que fazem você esperar, chegando a enviar mensagens
do tipo “Não se preocupe, já estou saindo de casa” depois que se passaram
trinta minutos de seu compromisso. Claro que vamos nos preocupar, e muito!
Uma vez ouvi que o ruim de ser pontual é que quando você chega a seu
compromisso não tem ninguém ali para apreciar isso. Não creio que essa seja
uma questão de dar medalhas, mas de estar à altura de nosso precioso tempo.
“Não sei como acontece, mas sou sempre o último a chegar”, costuma me
dizer um amigo. Isso é porque ele nunca leu nada sobre TM.
UM POUCO DE SÍNTESE
A arte de viver está em saber diferenciar entre o urgente e o realmente
importante.
Adiar obrigações apenas agrava o problema, carregando o tempo de
frustração.
Fazer as coisas antes da hora às vezes nos leva a ter de assumir mais
trabalho do que precisávamos realizar.
A pontualidade levada ao extremo é um gatilho da ansiedade.
Não há desculpas que justi�quem a falta de pontualidade crônica.
SEU MAPA DE PRIORIDADES
VOCÊ DEDICA SEU TEMPO AO QUE REALMENTE
IMPORTA?
No Natal de 2018, teve grande impacto um anúncio de Ruavieja, um
fabricante de licores, protagonizado por meu amigo Rafael Santandreu. Ele
mostrava um experimento feito com duplas de amigos ou familiares que não
vivem no mesmo lugar.
Depois de perguntar a eles a frequência com a qual se viam, entregavam
a eles um cálculo do tempo real que lhes restava para viver juntos.
Duas amigas íntimas aproveitariam um total de 44 dias — com tudo
somado — até que uma delas morresse. No caso de dois “melhores amigos”,
que reconheciam não ter nenhuma outra amizade tão próxima, o que lhes
restava para compartilhar eram três dias e seis horas.
Os resultados surpreendiam a todos, que emitiam comentários como
“Não pode ser…”, “Isso é terrível” ou o habitual “Precisamos nos ver mais”.
Com uma virada �nal para o espectador, o experimento terminava com
um dado aterrorizante do Instituto Nacional de Estatística. Em média, nos
próximos quarenta anos, passaremos dez anos em frente a telas, entre o celular,
o tablet e a televisão. Se dedicamos um terço de tempo para dormir, isso
signi�ca que passaremos mais de um terço do período em que estamos
acordados em frente a uma tela. Se não fazemos nosso trabalho diante de um
computador, isso signi�ca que na maior parte de nosso tempo livre estaremos
anestesiados por dispositivos digitais.
VIVER SEM ANESTESIA
Sim, eu usei a palavra “anestesia”, porque é isso o que produz o vício em redes
sociais. Vamos tratar disso mais a fundo na segunda parte deste livro, mas vale
a pena fazer uma primeira observação sobre o tema.
Na maioria das vezes não navegamos para obterinformação, nos formar
ou estabelecer uma comunicação de qualidade. Nem mesmo fazemos isso por
prazer. Ao deslizarmos de forma hipnótica pelo Instagram, Twitter, Facebook
ou seja lá onde for que busquemos entretenimento, não costumamos
experimentar um prazer especial. Nossos sentidos simplesmente se
entorpecem, e torna-se mais difícil pensar e se fazer perguntas.
Com isso, nos vemos diante de um mecanismo de fuga com o mesmo
motivo que a agenda a ponto de explodir.
Enquanto vamos “matando o tempo” — que expressão mais terrível! —,
evitamos pensar e, o que é pior, não começamos nunca aquilo que deveríamos
estar fazendo. Há dois séculos o �lósofo H. D. oreau dizia que “não se pode
matar o tempo sem ferir a eternidade”. Em nosso caso, cada hora que jogamos
no lixo é uma punhalada em nossa vida sonhada.
Na verdade, o recurso fácil de se envolver com as redes sociais, com os
videogames ou com séries pagas é uma forma encoberta de procrastinação.
Enquanto parece que fazemos alguma coisa, o que realmente devíamos estar
fazendo — visitar um amigo, aprender algo novo, começar um projeto — é
adiado mais uma vez.
OS QUATRO QUADRANTES DE COVEY
São bem conhecidos os quatro quadrantes sobre o tempo que Stephen Covey
incluiu em seu clássico Os sete hábitos das pessoas altamente e�cazes. Eles são os
seguintes:
Quadrante I: importante e urgente.
Quadrante II: importante, mas não urgente.
Quadrante III: não importante, mas urgente.
Quadrante IV: não importante nem urgente.
O urgente é aquilo que precisa de atenção imediata, mas costuma ser algo
que é importante para outra pessoa — seu chefe, por exemplo. O importante é
aquilo que alimenta seus objetivos na vida, seu propósito.
Covey diz que se você adia o importante, porque pula de uma urgência
para outra, vai chegar um momento em que o importante também se
converterá em urgente. Ou seja, você vai somar uma urgência a mais às outras
que já tem, e com isso viverá um cenário de crise contínua.
Vejamos um exemplo prático: um executivo instalado no quadrante I
passa o dia inteiro no que é urgente e importante, ou seja, apagando incêndios
em seu escritório. Ele tem outras coisas importantes na vida, como sua mulher
e seus �lhos, mas como não são urgentes (quadrante II), ou seja, não têm um
prazo �nal, ele vai procrastinando sua atenção com desculpas do tipo:
Quando eu conseguir me livrar de todo esse trabalho (erro: porque depois
de uma urgência vem a seguinte), vou dedicar mais tempo à família.
Quando chegarem as férias, vou compensar todo o tempo que não
dediquei a eles (erro: sem dúvida o executivo levará trabalho para as
férias).
Assim, de um “quando” ao próximo, um dia sua mulher lhe comunica
que não aguenta mais seu isolamento, que todo o seu tempo e energia vão para
a empresa e que ela quer se separar. O que era apenas importante agora
também é urgente. O “precisamos nos ver mais” dos amigos do anúncio aqui já
não vale, porque o executivo está prestes a perder a mulher. Ele também tenta
se aproximar dos �lhos e os leva para comer em um restaurante com várias
estrelas Michelin. Mas aí percebe que é difícil conversar com eles porque
perdeu o ritmo cotidiano e desconhece quase tudo sobre suas inquietações. Por
outro lado, o celular não para de tocar, porque a empresa se acostumou que ele
esteja disponível 24 horas por dia.
Resumindo, o executivo se meteu em uma boa enrascada. A desculpa de
que precisa trabalhar tanto para permitir todos os caprichos a sua família não
serve mais, porque ele já não tem família. Ele se transformou em um estranho
para eles.
Quando convertemos o quadrante I (importante e urgente) no centro de
nossa vida, ele se torna cada vez maior até nos engolir por completo.
Stephen Covey a�rma que as pessoas que administram com e�cácia seu
tempo têm seu núcleo no quadrante II (o importante não urgente). Elas
reduzem o quadrante I o máximo possível e não se dedicam demais aos
quadrantes III e IV.
No quadrante II estão as coisas realmente fundamentais da vida:
Seus relacionamentos pessoais, muito mais importantes que qualquer
urgência no trabalho.
Projetos criativos ou iniciativas dedicadas a seu futuro, como melhorar sua
formação ou uma ideia empresarial.
Medidas para sua saúde, como: fazer exercício, se alimentar bem etc.
A BOA NOTÍCIA
Em seu livro Las tres cosas que te quedan por hacer (As três coisas que faltam para
você fazer), o coach uruguaio Mario Reyes propõe fazer o seguinte exercício,
com o qual encerrarei este capítulo.
Imagine que você é uma pessoa de enorme sucesso. Dirige um
conversível caríssimo por uma estrada montanhosa e cheia de curvas que vai
serpenteando sobre a costa. Você tem o mar a sua esquerda e brilha um sol
radiante. Você se dirige à mansão que acaba de comprar. Lá, um cozinheiro
importante está preparando seus pratos favoritos para que você os saboreie
com uma companhia que o procurou para esse dia.
Tudo vai de vento em popa. Sua conta corrente está cheia, seus negócios
andam melhor que nunca. Talvez você não tenha descansado muito
ultimamente, é o que acontece quando se ocupa em várias frentes, mas fora
isso não há motivo para queixas.
Ao fazer uma curva acima de um penhasco, de repente você tem um
microssono. Talvez você tenha dormido apenas um décimo de segundo, mas,
quando percebe, você e seu conversível estão caindo no fundo do precipício.
Segundos depois, tudo terminou. Você se surpreende por estar consciente
no carro transformado em sucata quando um homem vestido de branco se
aproxima com um sorriso amável. Você entende que ele é uma espécie de anjo
que vem para levá-lo para o além, o que quer que seja isso.
Antes, porém, ele lhe faz uma pergunta: quais são as três coisas que faltam
para você fazer?
Querido leitor, eu peço que se coloque agora nessa situação e decida, no
quadro aqui embaixo, que três coisas importantes você lamentaria não ter feito
se tivesse que ir embora agora deste mundo.
AS TRÊS COISAS QUE FALTAM FAZER
1.
2.
3.
Mario Reyes termina esse exercício dizendo:
— Agora, vou lhe dar uma boa notícia: você está vivo e pode fazer isso.
UM POUCO DE SÍNTESE
As telas são uma forma sutil de procrastinar o que na verdade devíamos
estar fazendo.
Um bom gestor do tempo não passa a maior parte do tempo dedicado
ao urgente, mas ao importante, onde são cumpridos seus objetivos vitais.
É um erro grave cancelar o que é importante porque algo parece mais
urgente.
Preste atenção às suas prioridades na vida antes que seja tarde demais.
A ARTE DE ENVELHECER BEM
TER UM PROPÓSITO PROLONGA A VIDA
Estamos acostumados a medir o tempo desde pequenos, programando nossas
horas ou dias, talvez mesmo um ano acadêmico, mas nossa vida inteira tem
suas próprias estações. Vamos falar disso um pouco mais à frente.
Na cultura mediterrânea, muitas pessoas, ao chegar a certa idade, se
aborrecem quando lhes perguntam quantos anos têm, como se fazer
aniversário fosse algo vergonhoso. Contra essa visão absurda, diz um provérbio
irlandês: “Nunca lamente por estar �cando velho, por que muitos não tiveram
esse privilégio.”
No Japão, por outro lado, chegar aos cem anos é considerado uma
grande honra, como se a pessoa tivesse se formado na arte de viver.
Seja como for, há uma regra que deve ser respeitada na maturidade: assim
como se viveu, se envelhece. Considerando que a existência consta de tempo, à
medida que vamos nos “formando”, vemos os frutos de como gerimos nossas
horas e dias.
Uma pessoa que tenha vivido com pressa, sempre no limite de suas
forças, vai chegar à aposentadoria esgotada, e muito provavelmente entrará em
uma fase de grande aturdimento. Como veremos com detalhes no capítulo da
pausa ativa, é muito difícil passar da atividade frenética a uma parada absoluta.
A pessoa hiperocupada de repente se sente inútil e não sabe como preencher
seu tempo.
Nesses casos, é comum sofrer episódios de ansiedade e até mesmo
depressão, o que pode levar a não atender às necessidades do corpo e da vida
social, levando a uma rápida deterioração.
No outro extremo, uma pessoa que soube gerir seu tempoadequadamente chegará bem preparada para as “provas �nais”. Como não se
dedicou exclusivamente a trabalhar, pôde descobrir o que a apaixona, ao que
gostaria de dedicar seus dias quando tivesse muito mais tempo.
Usando um termo japonês que está muito na moda, terá descoberto seu
ikigai.
A IMPORTÂNCIA DE TER UM PORQUÊ PARA VIVER
Meus bons amigos Francesc Miralles e Héctor Garcia �zeram em 2015
um trabalho de campo extraordinário em Okinawa, Japão. Na verdade, em
uma aldeia no norte da ilha chamada Ōgimi.
O que há nesse povoado de três mil habitantes dedicado ao cultivo de
cítricos para que dois gaijin — estrangeiros — se deslocassem até lá para
estudá-lo? Ele tem uma coisa muito especial: Ōgimi detém o recorde mundial
de longevidade segundo o Guiness, razão pela qual ela é frequentemente
chamada de “a aldeia dos centenários”.
Depois de muitas negociações com a prefeitura dessa localidade,
�nalmente Héctor e Francesc puderam entrevistar os mais velhos do lugar.
Queriam que lhes contassem seus segredos para uma vida longa e feliz, já que
os anciãos dessa aldeia são admiravelmente alegres e vivos.
Além de comprovar que esses mestres da longevidade tinham uma
alimentação saudável — aplicam a lei dos 80%: nunca se enchem demais — e
uma vida ativa ao ar livre sem estresse, havia uma palavra que se repetia com
frequência quando perguntavam a eles: “Qual é seu segredo para uma vida
longa?”
Muitos diziam, então, que o ikigai era o que os motivava a se cuidar e a
manter a ilusão. Esse termo pode ser traduzido como “propósito vital” ou
“razão de ser”, e indica o motivo por que nos levantamos da cama com energia
para viver mais um dia.
No caso dos anciãos de Ōgimi, por ser uma localidade rural, os ikigai
mais mencionados foram a horta — não há lá nenhuma casa sem horta
própria, das quais cuidam com grande amor — e se encontrar com os amigos
às tardes.
Com certeza se esse estudo tivesse sido realizado em uma cidade o
resultado teria sido diferente. O ikigai que nos traz motivação pode ser a
prática de uma arte, viajar, a leitura, uma tarefa social que dê sentido a nossa
existência… Cada pessoa tem seu ikigai, e se ele ainda não foi encontrado, sua
missão será encontrá-lo, porque, como dizia Friedrich Nietzsche: “Quem tem
um porquê para viver pode resistir a quase qualquer como.”
AS DEZ LEIS DOS JAPONESES CENTENÁRIOS
O ensaio dos escritores Héctor Garcia (Kirai) e Francesc Miralles, Ikigai. Los
secretos de Japón para una vida larga y feliz (Ikigai: os segredos dos japoneses
para uma vida longa e feliz) foi traduzido em 54 idiomas e se encerra com
dez princípios da arte de viver segundo o que aprenderam esses autores com
os anciãos de Okinawa:
1. M-  ,   . Quem
abandona as coisas que ama e sabe fazer perde o sentido da vida.
2. F    . Caminhando devagar se chega longe.
3. N    . Também na alimentação para uma vida
longa, “menos é mais”.
4. C-   . São o melhor elixir para dissolver as
preocupações.
5. E      . Se alguém não
se lembra, o exercício faz com que sejam secretados os hormônios da
felicidade.
6. S. Uma atitude afável que faz amigos e relaxa a própria pessoa.
7. R-   . Somos feitos para nos fundir com a
natureza. Volte a ela para carregar as baterias da alma.
8. A. Dedique um momento do dia para demonstrar gratidão e
você aumentará sua fartura de felicidade.
9. V  . Pare de se lamentar pelo passado e de temer o
futuro. Tudo o que você tem é o dia de hoje. Faça o melhor uso possível dele
para que mereça ser lembrado.
10. S  . Dentro de você há uma paixão, um talento único que
dá sentido a seus dias e o empurra a dar o melhor de si mesmo até o �m. Se
você ainda não o encontrou, sua próxima missão será encontrá-lo.
PRESENTES DA MATURIDADE
A publicidade e os esportes idolatram a juventude, como se fosse uma época
perfeita da qual o ser humano não deveria sair. Porém, não se trata de um
período isento de problemas e de sofrimento. A pessoa está se de�nindo em
muitos sentidos — trabalhista, existencial e sexual —, depende dos pais e não
costuma dispor de um espaço próprio nem do dinheiro de que precisa para
seus projetos.
Por outro lado, a pessoa jovem é mais vulnerável psicologicamente. Tudo
a afeta muito mais, e ela sofre com mais facilidade tsunamis emocionais. Esse é
o motivo pelo qual muitas pessoas, ao lembrarem de sua adolescência, a�rmam
que por nada no mundo gostariam de voltar a esses tempos.
Diante de toda essa instabilidade, vejamos os presentes que nos chegam
com a maturidade:
I   . Na maturidade, já dispomos
de um lugar estável onde viver e de nosso próprio dinheiro, o que nos dá
poder de decisão sobre nossa existência.
B . A partir de certa idade, a obsessão pelo corpo �ca em
segundo plano. Sem nos descuidarmos por isso, valorizamos mais — em
nós mesmos e nos outros — outras qualidades que não se deterioram com
o tempo.
E  . Tudo o que vivemos nos permite olhar
com distanciamento para qualquer coisa que nos aconteça. Já não
entramos em pânico com as primeiras mudanças porque aprendemos que
nada é tão grave nem tão importante quanto parece.
F . Os jovens tendem a pensar que serão
felizes quando isto ou aquilo acontecer. Eles condicionam seu bem-estar a
ter coisas que no momento não têm. Com a maturidade, ao contrário,
�camos muito conscientes da fugacidade do tempo e, portanto,
saboreamos cada momento como se fosse o último.
L . Com a idade, já não nos importa tanto o que
os outros vão pensar de nós. Deixamos de fazer coisas em função das
expectativas alheias, e isso é o que nos permite viver de forma verdadeira.
A MONTANHA DA VIDA
O prestigiado psicólogo Joan Garriga, divulgador da terapia Gestalt e
responsável pela introdução das constelações familiares na América Latina, faz
uma comparação muito bonita do caminho pessoal usando uma montanha.
Durante a primeira metade da vida, nós a subimos. É o momento de nos
enchermos de aprendizados e experiências, de ganhar dinheiro, prestígio e
amigos, de conseguir bens materiais e a�rmar nosso lugar na sociedade.
Uma vez que se chega ao topo, quando se alcança o equador da
maturidade, começa o caminho de descida. Assim como na subida aprendemos
a ganhar, agora se trata de aprender a perder. E não há nada negativo nisso.
À medida que descemos a montanha, depois de ter visto desde o cume
como o mundo funciona, vamos nos desprendendo de tudo aquilo de que não
precisamos para poder seguir com uma bagagem mais leve.
Abrimos mão de relacionamentos que não nos trazem alegria, de
obrigações que não são nossas e de gastos que pressupõem uma carga
desnecessária de compromissos que não constituem nossas prioridades. Vamos
nos libertando, cada vez mais sábios e leves.
Joan Garriga comentou em uma entrevista que lhe causa tristeza ver
alguém no caminho de descida pensando em ganhos e em imitar os jovens.
Pessoas que se matam na academia e acabam se lesionando, Peter Pans
irredutíveis, veteranos que trabalham freneticamente para adquirir coisas e se
apresentarem como vencedores.
Viver dessa forma pode nos causar grandes problemas de saúde, mas
também de dinheiro, além de nos privar dos presentes da maturidade.
EXERCÍCIO: COMO VOCÊ GOSTARIA DE SER LEMBRADO?
Vou terminar este capítulo propondo um exercício que, espero, não pareça
lúgubre. Na verdade, é um exercício de vida. De forma mais concreta, ajuda a
imaginar como você deseja viver o tempo que lhe resta.
Para isso, pedirei que assuma o papel de um jornalista que foi
encarregado de escrever uma resenha biográ�ca sobre você depois de sua
morte.
Escreva em uma página os valores, conquistas e contribuições desta
pessoa que você é nos anos que ainda não viveu. Escreva a biogra�a que
gostaria de ler do outro mundo, se isso fosse possível, que re�ita a maneira
como você deseja ser lembrado.
Uma vezterminado, programe o que deve fazer para que sua vida
corresponda a esse ideal.
UM POUCO DE SÍNTESE
Envelhecemos da mesma forma que vivemos.
Ter um ikigai, uma razão para nos levantarmos de manhã, ajuda a viver
mais e melhor.
Se ainda não sabe qual é seu propósito vital, sua missão é descobri-lo.
A maturidade apresenta muito mais vantagens que inconvenientes.
Na segunda metade da vida, trata-se de se “desprender” no lugar de
adquirir.
Quando você sabe como quer ser lembrado, já tem um roteiro para sua
vida.
O TRACKING DE SEU TEMPO
ATREVA-SE A SABER NO QUE VOCÊ GASTA SUAS HORAS
Muitas noites, quando vamos para a cama, nos perguntamos aonde foram as
horas de nosso dia que termina como se tivessem vida própria e nos evitassem,
e não fôssemos nós quem as desperdiçássemos.
Quando percebemos que voltamos a falhar — a falhar com nós mesmos,
o que é ainda pior —, outros pensamentos se sucedem como um rolo
compressor que amassa nosso moral. Um muito típico: “Cada vez me sinto
mais cansado e não sobra tempo.” E o pior de todos: “Hoje não tive nem
cinco minutos para mim, para fazer o que gosto.”
É assim que nos convencemos de que merecemos um prêmio antes de
dormir… isso costuma se traduzir no desperdício de mais tempo no Instagram
ou em qualquer outra rede. A que menos me faça pensar, porque estou
esgotada. Com um pouco de sorte, um capítulo de alguma série no tablet.
No pior dos casos, talvez juntemos ao cansaço e à frustração um copo de
bebida alcoólica que vai nos fazer dormir pior e não resolverá o problema. O
dr. Andrés Martín Asuero, que levou o mindfulness para a Espanha depois de
trabalhar com Jon Kabat-Zinn, diz que “o problema não é tanto o estresse que
sofremos, mas como reagimos diante desse estresse”. Ou seja, como tentamos
compensar uma relação péssima com nosso tempo.
Caímos nesses comportamentos destrutivos quando não reservamos um
tempo de ócio consciente e escolhido por nós. Na última hora, nós o
substituímos por outros mais fáceis que nos roubarão tempo e qualidade do
descanso. E o que é pior: nos farão começar o dia seguinte nos arrastando. E
assim se passam não apenas os dias, mas também as semanas, os meses e os anos
da vida. Sempre avançando, com o piloto automático ligado, sem prestar
nenhuma atenção às horas que vão dizendo adeus (e o que dizer dos minutos,
tão valiosos, cada um com seus sessenta segundos).
Se estamos nessa situação ou em qualquer outra que não se ajuste ao que
consideramos desejável, é hora de acabar com isso. Portanto, e não podia ser de
outro jeito, precisamos começar sabendo com exatidão onde se localiza o
problema.
PRECISO DE UM DIAGNÓSTICO
Em Money Mindfulness me atrevi a dizer uma coisa que ninguém gosta de
ouvir: o ponto de partida para salvar nossa economia é fazer contas. Por mais
difícil que pareça, é preciso calcular nossas rendas e nossos gastos com uma
exatidão rigorosa e inquebrantável.
Nos encanta contar as coisas mais aleatórias: os passos que damos em um
dia, as pulsações enquanto andamos de bicicleta ou as calorias (o que dizem das
calorias!?), e meu marido — que tem um problema congênito de colesterol —
passa os dias contando as gorduras saturadas que come. Porém, da mesma
forma que nos dá preguiça calcular nossas �nanças pessoais, poucas vezes nos
preocupamos em fazer um acompanhamento detalhado para averiguar onde
gastamos nosso tempo.
Quando sentimos dor em qualquer parte do corpo, vamos ao médico
para que ele nos faça todo tipo de atrocidades para conseguir, em troca, uma
pasta com um número in�nito de indicadores analíticos. Muitas vezes não
conseguimos compreender a metade deles, mas eles nos tranquilizam porque,
depois dos exames, “pelo menos já sabemos o que há”.
Pois bem, neste capítulo lhe mostrarei como saber o que há em relação às
suas 24 horas. Vamos aprender a avaliar se as usamos bem ou mal, e só depois
poderemos fazer ajustes, prestando atenção a cada minuto.
Fazer um acompanhamento de seu tempo lhe ajudará a entender como
você o está gastando realmente, no lugar de como acredita que o está gastando.
Você nunca mais poderá dizer “não sei aonde vai meu tempo”. Pois
comprovará que está tudo aí, esperando que você o aproveite como ele deve
ser aproveitado.
EM BUSCA DAS HORAS PERDIDAS
Não é o título de um romance no estilo de Proust nem o novo �lme do
Indiana Jones, mas o primeiro desa�o que você terá de enfrentar.
Para assumir o controle de seu tempo, é preciso saber onde estão as
�ssuras, até as que parecem mínimas ou desprezíveis, e para descobrir isso você
terá de começar a anotar tudo. Isso lhe permitirá manter uma relação mais
saudável e equilibrada com seu trabalho, com seu espaço de lazer e com sua
vida em geral, já que a clareza de uma planilha vai lhe dar a opção de
estabelecer limites onde seja necessário.
Observe que mencionei uma das palavras mais aterrorizantes do
dicionário: “planilha”. O único inconveniente de fazer um diagnóstico é que
isso exigirá que anotemos tudo em tempo real.
Não vale fazer de memória. Nossa mente nos engana, por isso não basta
se perguntar no �m do dia o que aconteceu desde que você se levantou. No
início do livro, vimos como a percepção do nosso tempo muda de acordo com
a atividade que estamos realizando.
Por esse motivo, não nos resta alternativa a não ser pôr as mãos na massa
e começar a fazer um acompanhamento. O tracking de nosso dia.
Para isso, vamos recorrer ao auxílio da ferramenta mais adequada à nossa
situação e personalidade. Você pode usar uma planilha em papel ou em
qualquer dos aplicativos disponíveis a um clique de distância. Alguns são pagos,
mas quase todos têm uma versão de teste gratuita que permitirá que você veja
se ele se adapta às suas necessidades e se vale a pena pagar pelo trabalho que isso
poupa.
O mais provável é que seu próprio telefone facilite o exercício lhe
dizendo quanto tempo você passa nos diferentes aplicativos e redes sociais.
Entre em “con�gurações”, “ajustes” ou similar, dependendo da marca, e você
encontrará uma opção sobre o tempo de uso do dispositivo.
Aviso que no primeiro dia pode ser aterrorizante comprovar não só por
quanto tempo ele esteve ligado, mas também quantos minutos (horas) desse
tempo foram dedicados a aplicativos que não levam a nada de bom.
Terrores à parte, independentemente de usarmos um aplicativo adequado
ou um sistema caseiro de anotações, estou convencida de que será uma
experiência muito reveladora. Depois de uma semana fazendo esse exercício,
você terá uma ideia muito mais clara de para onde vai seu tempo e identi�cará
seus buracos negros, esses sugadores cósmicos aonde vão parar nossas horas
perdidas.
A PLANILHA
Você pode criar sua própria planilha ou empregar e adaptar a que eu proponho
em seguida. Se nunca fez esse exercício, sem dúvida será um bom começo.
Antes de pegar a caneta e começar a anotar, deixe que eu divida com você
alguns pontos-chave:
Isso não equivale a ter uma agenda para planejar seu dia, isso vem depois.
O que vamos fazer é registrar em detalhes tudo o que fazemos durante
um dia. Independentemente daquilo a que nos dedicamos, quaisquer que
sejam nossos propósitos na vida, nossos objetivos e responsabilidades (que
vão nos ajudar a priorizar e planejar, como veremos mais à frente), todos
partimos das mesmas 24 horas. Por isso vamos controlá-las de perto.
O ideal é que não haja espaços vazios em sua folha, já que na verdade eles
também não existem em seu dia. Por isso, vamos anotar cada tarefa que
�zermos e também toda vez que a interrompemos, incluindo os
momentos em que nos distraímos. Quando mudar de atividade, seja
respondendo a e-mails, elaborando um relatório, tomando café ou
conversando com colegas, é preciso anotar a atividade respectiva e a hora
de mudança.
Data e dia da semana
       
Atividade realizada
       
Hora de início
       
Hora de término
       
Duração
       
Nível de energia
       
Nível de concentração
       
Número de
interrupções
       
Valor
       
Como o simples fato de anotar tudo vai deixá-lo mais consciente, que é a
únicacoisa que pretendemos neste primeiro estágio, tente não
condicionar suas respostas, tampouco mude de comportamento.
Queremos saber para onde vai nosso tempo, ter uma imagem precisa do
que fazemos e de como investimos nosso tempo durante o dia.
D    
É recomendável começar o exercício em uma semana que seja representativa,
mas não porque ela é especial, e sim por ser habitual. Não faça isso pouco antes
de sair de férias, nem quando estiver perto de entregar um projeto importante.
Certamente você não terá tempo para preencher uma planilha.
Se o que mais lhe preocupa é sua produtividade no trabalho, comece
fazendo apenas durante as horas de trabalho. Embora eu recomende ampliar o
estudo para o total de suas horas. Em matéria de aproveitamento do tempo, é
difícil estabelecer compartimentos estanques porque tudo está conectado. Se
você administra melhor seu lazer no início da noite, renderá mais no trabalho de
manhã.
Se você trabalha de casa, é ainda mais importante que faça um tracking
de seu tempo. Muito provavelmente, durante suas horas de suposto trabalho,
você põe a máquina para lavar roupa e começa a fazer a comida; e enquanto
assiste a Game of rones e responde a um ou outro e-mail sobre as reuniões do
dia seguinte.
A 
Quando digo atividade, estou me referindo a qualquer coisa que você faça,
tanto a nível físico quanto intelectual: desde suas rotinas pelas manhãs, o
tempo que passa em deslocamento no transporte próprio ou público, no
trabalho, comendo, lendo, vendo TV, praticando esportes…
Também conta, é claro, o tempo que você dedica a não fazer nada. E este
livro tem um capítulo inteiro a respeito desse ponto importantíssimo, mas
tenha em mente algo transcendental: entrar nas redes sociais não equivale a não
fazer nada. Na verdade, não há nada mais diferente de não fazer nada que
botar seu cérebro para trabalhar a uma velocidade de cem mensagens por
minuto.
Em relação às suas atividades pro�ssionais, você pode diferenciar entre
tarefas administrativas e outras mais produtivas. Registre o tempo dedicado a
responder a e-mails ou a enviar mensagens por meio de outros tipos de redes.
H  ,     
Você pode anotar a hora de início e a duração. Ou também a hora de início e
de término e, no �m do dia, repassar a planilha e calcular todas as durações das
tarefas para que esse trabalho não represente uma interrupção a mais.
N   (1 = ; 2 = ; 3 = )
Vamos desenvolver isto mais à frente, mas adianto que para administrar
melhor seu tempo é fundamental aperfeiçoar a gestão tanto da energia quanto
da atenção.
Como exemplo, se pelas manhãs você se mostra mais energético e
criativo, devia dedicar esse tempo a realizar as tarefas mais importantes para
alcançar seus objetivos. Quando seu nível de energia estiver menor, você pode
fazer tarefas mais mecânicas, como retornar ligações ou administrar seus e-
mails. Para isso teremos em conta não apenas seus biorritmos, dos quais falarei
em detalhes, mas também outros hábitos, como são os períodos de descanso
que faz, quando come e o que come.
Nós vamos descobrir tudo isso; por enquanto, afaste a preguiça e anote
tudo.
N   (1 = ; 2 = ; 3 = )
Conseguir um nível alto de concentração em tudo o que fazemos é realmente
a �nalidade deste método. Não podia ser de outra forma já que ele está
alicerçado no mindfulness, que signi�ca prestar atenção plena ao instante
presente. Se eu o incluí na planilha de tracking é para ter uma informação de
partida sobre quais são os períodos do dia e as atividades que precisamos
trabalhar com mais intensidade.
I
Nessa planilha você deve anotar simplesmente o número de interrupções. No
capítulo seguinte, sobre os ladrões de tempo, detalharemos o conteúdo dessas
interrupções. Você �cará surpreso com o número de vezes que muda de tarefa.
A folha vai �car pequena, mas insisto: não deixe de anotar tudo.
V (, , , )
O valor está relacionado ao cumprimento dos objetivos que você determinou
ou de�niu para si mesmo. Assim vamos identi�car o tempo que estamos
perdendo em atividades que não nos agregam nenhum valor. Isso vai nos
ajudar a identi�car e a priorizar tarefas; e, em um momento posterior, até
mesmo a delegar ou eliminar tarefas, permitindo que você se concentre nas
que tenham alto valor.
SEI O QUE VOCÊ FEZ NA SEGUNDA-FEIRA ÀS 9H
Rescue of time, um dos aplicativos para o acompanhamento do tempo que
mencionei, analisou em 2017 as informações de milhares de usuários de
todo mundo correspondente a um período de 12 meses, mais de 225
milhões de horas. Estas são algumas das conclusões, levando-se em conta
uma jornada de trabalho de 8h às 18h de segunda a sexta-feira (embora já
avisem que um de nossos erros de planejamento mais graves consiste em
supor que temos oito horas de trabalho produtivo por dia, quando se sabe
que contamos apenas com 12 horas e meia por semana):
– Normalmente somos mais produtivos das 10h às 12h e das 14h às
17h.
– Começamos o dia com os e-mails, que não deixamos de consultar,
sendo essa a atividade vencedora nas segundas-feiras às 9h toda manhã. A
partir daí nós os conferimos — assim como outros aplicativos de
comunicação — quarenta vezes por dia.
– Em um dia usamos em média 56 aplicativos e sites diferentes na
internet.
– Se nos perguntarem, diremos que nunca consultamos as redes sociais
durante a jornada de trabalho, embora a realidade seja que entramos nelas
14 vezes por dia, passando nas redes cerca de 7% de cada jornada de
trabalho.
– Pulamos de uma tarefa para outra trezentas vezes por dia.
Levando-se em conta que esses dados são de pessoas que usam um
aplicativo para a gestão do tempo, o número de interrupções e o tempo que
passamos distraídos é provavelmente ainda maior. Proteger seu tempo como
você merece está em suas mãos.
O QUE ACONTECE EM CASA?
Talvez pareça exagero fazer também um tracking do que você faz em casa.
Uma planilha para nossa vida pessoal… Sem dúvida isso não parece muito
atraente!
Talvez você esteja pensando coisas como estas: em meu caso, não é
preciso, para que um casamento e uma família funcionem basta amarmos e
cuidarmos uns dos outros; as tarefas do lar parecem se fazer sozinhas, não é
preciso nem dividi-las, nem são em absoluto nenhum peso; sabemos até
quando precisamos dar tempo ou espaço ao nosso parceiro, e então fazemos
isso; sem discussões, nem uma palavra mais alta que a outra, de forma �uida,
hoje por você e amanhã por mim; sempre nos lembramos das datas
importantes, que são signi�cativas para todos, e as celebramos juntos em
harmonia…
Em um mundo idílico, isso talvez seja verdade. No mundo cheio de caos,
de complicações e de estresse em que temos de viver não costuma ser assim.
O bebê chora e dorme mal à noite; é preciso preparar o banho das
crianças e ajudá-las com as tarefas, levá-las ao médico, buscá-las nas atividades
extracurriculares, assistir às reuniões das associações de pais e mestres, e
inclusive ir a alguns aniversários. É preciso dobrar a roupa e desembalar as
compras enquanto você fala ao telefone, uma ligação que talvez seja de
trabalho; é preciso dizer que almoçamos e jantamos todo santo dia da semana,
além de fazer compras e cozinhar; e além disso nos entregaram o boleto do
seguro e não tínhamos saldo na conta.
Tudo isso nos deixa muito cansados, mas ainda arrumamos um pouco de
força para nos envolvermos em uma discussão sem �nal feliz.
Se juntarmos a isso o fato de que a sociedade se esforçou durante séculos
para tatuar em nossas mentes a que membro do casal corresponde fazer umas
tarefas ou outras, talvez comece a não parecer uma ideia tão ruim levar nosso
tracking de atividades para nossa casa, não acha?
Isso nos ajudará a tornar visíveis muitos trabalhos que passam
despercebidos. Algumas pessoas vão até descobrir por que tipo de magia nossa
roupa está limpa e dobrada nas gavetas e a das crianças, sempre no tamanho
adequado, preparada para o dia seguinteem cima da cadeira, onde também
espera pronta a mochila do futebol.
Embora, a princípio, possa parecer um obstáculo, o tracking familiar do
tempo facilita as conversas e permite exercer um controle maior sobre nossas
vidas.
UMA TAREFA DE AMOR
Como diz Bom Jovi em sua música “Labour of Love”: “O amor é um trabalho
de tempo integral, 24 horas por dia, sete dias por semana, que nunca termina.”
O título dessa música também é o nome de um aplicativo para a gestão
das tarefas domésticas. A ideia surgiu quando Bob, seu criador, percebeu a
quantidade de discussões que tinha com sua mulher sobre os trabalhos da casa.
O dia em que Catalina — é assim que ela se chama — começou em um novo
trabalho com muito mais responsabilidade, e que com certeza tornaria a
conciliação bem mais complicada, ela decidiu procurar outra maneira de fazer
as coisas.
A novidade em relação a outros aplicativos semelhantes é que, nesse, os
usuários atribuem pontos para cada tarefa, que vão se acumulando até que você
tenha o su�ciente para trocá-los por recompensas previamente estabelecidas:
noites com os amigos, mais tempo para si mesmo…
Como Bob e Catalina são muito competitivos, esse sistema funciona às
mil maravilhas para eles. Principalmente, porque os dois sabem bem que o
objetivo �nal não são as recompensas. O que procuram é uma mudança de
comportamento real e consistente a longo prazo. Entretanto, esses pequenos
prêmios servem de incentivo e os ajudam a apreciar o trabalho que cada um
realiza.
O alcance da mudança depende dos usuários; o aplicativo não foi criado
para igualar o trabalho doméstico, mas quase sempre deixa claro que a
sobrecarga de trabalho tende a cair sobre as mulheres, mães e trabalhadoras,
enquanto seu parceiro vive na ignorância e no egoísmo de achar que o que faz
é sempre o mais importante. Em sua versão premium, o Labour of Love
permite incorporar mais membros das famílias nas tarefas.
Catalina diz se sentir menos estressada desde que começaram a usar o
aplicativo: “O peso de garantir que tenhamos leite para o café da manhã ou
que a roupa esteja limpa não é mais apenas meu.”
FAMILY POINTS
Tenho uma amiga, María Matencón, que conheci em um retiro de ioga em
Ibiza. Uma tarde, conversando depois de uma sessão de meditação, ela me
contou que estava lá porque tinha acumulado Family Points su�cientes.
Quando nasceu seu segundo �lho, ela e o marido deixaram de fazer
quase todas as coisas de que gostavam, já que os dois tinham de estar
cuidando dos �lhos o tempo todo. Mas, quando o menor fez dois anos, e já
era viável que apenas um membro do casal se ocupasse deles, eles criaram
esse sistema para ganhar tempo livre e recuperar seus respectivos hobbies.
A partir de então, não vale terminar o trabalho e se despedir com um
“tenho tênis, nos vemos depois”. Primeiro, é preciso ganhar isso, acumular
pontos que podem ser trocados.
Quando uma pessoa quer se eximir das obrigações familiares que tem
durante seu tempo fora do trabalho, pergunta ao outro se pode cobri-la. Se
há consenso e é possível, o que �ca encarregado ganha Family Points, que
logo vai destinar às suas coisas.
Não se trata de deixar de lado a vida em casal e em família de que tanto
gostam e que tanto acrescenta, mas de gerenciar espaços sem dar lugar a
discussões nem ressentimentos.
Trata-se de valorizar cada minuto entregue à família e, mesmo assim,
não cair no erro de pensar que meus minutos de tempo livre valem mais.
TM puro.
BENEFÍCIOS DO TRACKING FAMILIAR
O tracking de nosso tempo é apenas o primeiro passo, mas também um passo
fundamental. Ele vai fazer com que você �que mais consciente de como usa
seu tempo tanto no trabalho quanto em casa.
Visualizar com detalhes a realidade do parceiro — sem deixar espaço para
o que acreditamos que é — e, portanto, tomar consciência da dedicação e
entrega de cada um ao projeto familiar, vai facilitar a comunicação e nos
permitir identi�car os momentos de qualidade que nos deixam mais felizes
para trabalhar o resto, de modo que todos estejam à altura.
Há alguns meses li no New York Times um artigo da escritora Amy
Westervelt, no qual ela contava como seu marido, consultor de e�ciência da
indústria automotiva, lhe propôs enfrentar o funcionamento da família no
“estilo Toyota”. Sabe o que ela respondeu? Nem pense em botar suas planilhas
de cálculo em minha vida pessoal!
Mas ele a convenceu de que aquele método baseado no kaizen (melhora
contínua) era muito mais que uma planilha de Excel, e o puseram em prática.
Os objetivos de uma empresa foram substituídos pelas metas do casal; o que
não mudou foi que se dedicaram a reunir todos os dados possíveis, até os mais
ín�mos, e depois se sentaram para discutir como podiam se aproximar mais
daquelas metas.
Eles descobriram padrões e foram estabelecendo coisas que não podiam
ser puladas (dormir um mínimo de cinco horas e meia — o que é insu�ciente
—, ir para o trabalho de trem para poder continuar de bicicleta desde a estação
e assim mexer um pouco o esqueleto antes de começar a jornada de
trabalho…).
Em vista dos dados recolhidos, �nalmente eles decidiram abrir mão de
seus trabalhos, vender sua casa cara e se mudar para um lugar mais barato no
qual poderiam potencializar esses momentos — esse tempo — que realmente
os faziam felizes.
Uma mudança radical que para eles pareceu muito natural, porque ali
estavam os dados para garantir que era a opção mais acertada.
Conhecer seu tempo é começar a tomar as rédeas dele. Isso pressupõe o
início de uma vida mais próspera e equilibrada.
UM POUCO DE SÍNTESE
Como acontece com as doenças do corpo, um diagnóstico de nossos
hábitos temporais nos permitirá solucionar nossa agenda.
Navegar pelas redes sociais não equivale a “não fazer nada”.
A qualidade de nossa gestão do tempo depende em grande parte do
número de interrupções.
Há aplicativos criados para resolver o desequilíbrio nas tarefas que gera
tantos con�itos entre os casais.
Não podemos tomar as rédeas de nosso tempo sem antes conhecer de
forma precisa o que fazemos com ele.
OS LADRÕES DE TEMPO
COMO DAR FIM ÀS FUGAS
Napoleão Bonaparte já avisou que “há ladrões que não são castigados por
ninguém, mas que nos roubam o que temos de mais precioso: o tempo”.
Como podemos ver, esse problema não é novo. Desde muito antes do
nascimento do militar francês, nós humanos estamos expostos a ladrões de
minutos. E se não os atiramos imediatamente em uma cela escura e jogamos a
chave fora foi porque não estávamos conscientes de que eram realmente
ladrões de dinheiro e de vida. Isso já parece mais sério, não é?
Como veremos neste capítulo, se na época de Napoleão já fazia falta uma
cela bem grande para os ladrões de tempo que andavam por aí, em nossa era
tecnológica precisaríamos de um presídio inteiro.
LADRÕES COTIDIANOS
Em um plano super�cial ou cotidiano — mas não menos importante —,
podemos começar fazendo uma lista com alguns ladrões conhecidos por todos:
G . Está comprovado que as pessoas que mais
perdem tempo são especialistas em consumir o daqueles que menos o têm.
Lembro-me de minhas primeiras semanas no ensino superior, quando fui para
a universidade estudar economia. Durante o primeiro mês, sempre aparecia
alguém no quarto para encher o tempo sem fazer nada de proveitoso… E com
certeza eu, sem perceber, também roubava o tempo de minhas novas amigas.
C . Encontros aos quais comparecemos por
obrigação ou por não sabermos como recusá-los. Mais à frente vamos dedicar
um capítulo inteiro à arte de dizer “não”. Por enquanto, pense que cada vez
que você diz sim para uma coisa de forma automática, está dizendo não a outra
que certamente importa muito mais. Quanto mais sins conscientes você disser,
mais longe estará de alcançar seus verdadeiros objetivos e propósitos.
C   . Quantas vezes vamos às compras sem
planejar a lista “por falta de tempo”? Não percebemos que essa forma irre�etida
de agir nos rouba muito mais tempo do que achávamos estar utilizando, já que
acabamos saindo para fazer compras mais vezese em mais lojas, além de ainda
pagar normalmente mais caro porque, depois que rompemos a rotina, também
interrompemos nossa atenção ao gasto, nos deixando levar pelo imediatismo.
G  WA  M. Desconhecidos há duas
décadas, são verdadeiros devoradores de tempo. A não ser que se trate de uma
obrigação de trabalho ou que você os tenha escolhido de forma consciente
como um meio para se comunicar com aquelas pessoas que importam, sair
educadamente dos grupos equivale a eliminar uma fuga de segundos, minutos
e horas que acaba esvaziando nossa vida.
Esses são apenas alguns exemplos. Cada pessoa tem seus próprios ladrões
cotidianos de tempo, que devem ser detectados e postos em lugar seguro.
Entretanto, vou dedicar os próximos parágrafos a uma série de criminosos que
merecem uma menção especial.
O CORREIO ELETRÔNICO
O e-mail não é um meio urgente de comunicação, por isso você não precisa
reagir como se fosse. Se você se dedica a ser o gestor de seus e-mails em vez de fazer
suas tarefas principais, estará deixando que outras pessoas preencham sua agenda,
que decidam com o que você gasta seu tempo e energia. Talvez você se
mantenha ocupado, mas isso é apenas uma ilusão de ser produtivo, porque
estará se afastando de seus objetivos.
Kevin Kruse, de quem já falamos no capítulo intitulado “Por que o
tempo é dinheiro”, detectou que um dos hábitos das pessoas muito produtivas
é não passar o dia revisando várias vezes seus e-mails. Elas fazem isso apenas de
uma a três vezes por dia. Programe em sua agenda um tempo para ler e
administrar seus e-mails. Quando �zer isso, você pode aplicar o seguinte
método:
1. Se o e-mail solicita algo que leva menos de dois minutos, faça isso agora.
Se for levar mais tempo, inclua a tarefa em sua agenda ou calendário.
2. Se pode delegar a tarefa, reenvie-o imediatamente.
3. Se pode se desfazer dele, elimine-o. Ou arquive-o, se achar necessário,
mas em um lugar onde possa encontrá-lo sem perder tempo (você pode
criar pastas para projetos).
Outros conselhos que lhe ajudarão a manter os e-mails em dia:
Saia de todas as newsletters que acumula sem prestar nenhuma atenção e
mande aquelas que deseja ler diretamente para uma pasta que você
visitará no tempo programado para sua leitura.
Desative as noti�cações que interrompem sua concentração e geram as
consequências que veremos mais à frente.
Antes de reenviar um e-mail ou adicionar pessoas em cópia — aberta ou
oculta —, aplique TM e pense nisso de forma consciente. Se enviar
menos e-mails, receberá menos e-mails. Todas essas pessoas que você
copia realmente precisam decidir ou opinar sobre cada passo? Elas têm
alguma responsabilidade no assunto ou simplesmente estão em cópia
porque você não se deu ao trabalho de tirá-las?
Informe ao destinatário sobre a próxima ação dele na primeira linha do e-
mail: não precisa de resposta, para sua informação, ação exigida etc.
NÃO VÁ AO BANHEIRO COM SEU CHEFE
A equipe da campanha da Adobe fez uma pesquisa em 2017 com mais de
mil empregados de escritório dos Estados Unidos sobre seu uso do e-mail, e
as conclusões foram assustadoras: eles os examinam praticamente as 24 horas
do dia sem se importar com onde estão, nem com quem ou o que estão fazendo.
Em média, os entrevistados da pesquisa informavam que passam 3,3
horas por dia com o e-mail do trabalho, que muitas vezes o examinam em
casa, e 2,1 horas com o e-mail pessoal, que também examinam durante o
trabalho.
36% dizem que preferem se comunicar com seus colegas de trabalho
por e-mail e 22% acreditam que veri�cam “demais” seus e-mails. O que
signi�ca que para os outros 78% a atividade descrita parece “normal”.
Como costuma se dizer, já que estamos falando dos Estados Unidos:
“Houston, temos um problema.”
AS REUNIÕES
Ao longo de minha vida pro�ssional, participei de muitas reuniões. Por isso
não me surpreendeu o resultado da pesquisa que a Harvard Business School e a
Universidade de Boston realizaram sobre duzentos diretores de empresa: 71%
deles opinavam que as reuniões são ine�cientes e improdutivas, e 65%
consideravam que elas os impediam de terminar seu próprio trabalho.
As reuniões não são ladras de tempo, são assassinas. Em geral, elas não
seguem pautas organizadas, as pessoas certas não comparecem, começam tarde
e se prolongam além da conta. Levando-se em conta que os assuntos que serão
tratados e os tempos de intervenção não estão planejados, no �m das contas
são sempre os mais extrovertidos ou os mais carreiristas que as monopolizam,
embora outros saibam ou possam acrescentar muito mais.
Mark Cuban, empresário e investidor norte-americano, diz: “Nunca vá a
uma reunião a menos que alguém esteja lhe oferecendo um cheque.” Steve
Jobs costumava fazer suas reuniões andando. Richard Branson declara com sua
argúcia habitual que “é raro que uma reunião tenha de durar mais de cinco ou
dez minutos”, um limite que o próprio Zuckerberg está estabelecendo.
Se quiser projetar a agenda de uma reunião e�caz, pode começar por
estabelecer os seguintes pontos:
Determine qual é o objetivo da reunião.
Faça uma lista das pessoas que devem estar presentes (no Google, elas têm
um máximo de dez pessoas; e Steve Jobs dizia: “Se você não tiver uma
boa razão para estar presente, não esteja”).
Determine quem vai atuar como moderador. Sua principal tarefa será,
após começar, se lembrar da duração da reunião.
Inclua em sua agenda qualquer proposta dos participantes para não deixar
espaço para as surpresas nem para temas espontâneos.
É óbvio dizer: os telefones estão proibidos.
O BICICLETÁRIO
Cyril Northcote Parkinson, um prolí�co professor e autor de sessenta livros,
enunciou há mais de meio século a chamada “lei da trivialidade”, que
explicou com a história do bicicletário.
Ele conta que um comitê teve de aprovar a construção de uma usina
nuclear, o que fez sem discussão ou deliberação, já que era uma decisão
muito importante que podia ser examinada apenas por um punhado de
especialistas respeitados por todos.
Um pouco mais tarde, o mesmo comitê precisou decidir a cor do
bicicletário onde guardar as bicicletas do pessoal. O que aconteceu? Toda a
equipe se envolveu e se meteu em um debate eterno sobre esse tema trivial,
mas sobre o qual todos podiam opinar, e ao qual se dedicou muito mais
tempo e energia que à decisão sobre a construção da usina.
Na vida diária, pedimos conselhos sobre mil decisões triviais que dão
lugar ao “efeito bicicletário” (ainda mais em meu caso, que tenho cinco
irmãs e dois irmãos). Quando não lhe restar mais saída além de fazer isso,
economize tempo da seguinte maneira:
Valorize os conselhos segundo o conhecimento e a experiência de quem
os dá, decidindo se é uma fonte que você quer escutar.
Se possível — e quase sempre é — utilize critérios objetivos para avaliar a
situação. Os juízos subjetivos não costumam ser conclusivos. Faça sua
própria lista de prós e contras de cada opção.
E, em relação à sua opinião, lembre-se de que discutir durante horas
apenas para ganhar a discussão vai radicalmente contra o TM.
AS INTERRUPÇÕES
Basta olhar para o dia de ontem prestando atenção a cada momento vivido (no
trabalho e no lazer) para tomar consciência da quantidade de interrupções que
exigiram sua atenção e o tiraram de suas tarefas.
Você trabalha em um escritório diáfano ou com paredes que não chegam
até o teto? Tem uma mesa compartilhada? Se isso acontece, saiba que as
interrupções se multiplicam. Como vai essa planilha de cálculo? Por que caiu o
wi-�? Onde podemos almoçar para mudar um pouco? A lista é interminável…
Para evitar isso, algumas pessoas levam fones de ouvido, outros vão trabalhar
de moletom e vestem o capuz.
PERIGOS DO COWORKING
Nos últimos tempos, os espaços de coworking entraram na moda.
Entre suas vantagens está a possibilidade de se criar comunidade, de
atrair talentos, sua �exibilidade e suposta economia (cuidado, porque há
alguns tão so�sticados que lhe oferecem mesas pelo preço de um escritório
convencional inteiro).
A agência de eventos na qual eu trabalhava em Londres selocalizava
em um moderníssimo espaço de coworking na City. Nossos vizinhos de mesa
eram um ator e um apresentador de televisão, ambos funcionários de uma
empresa de marketing. Eles passavam a maior parte do dia no telefone,
fazendo maravilhas com as técnicas de vendas e suas vozes radiofônicas. Eles
tinham sido realocados em várias ocasiões, e os vizinhos sempre reclamavam
do volume que eram capazes de extrair de suas cordas vocais e da forma
teatral e sempre exagerada com a qual celebravam suas vendas.
Quando eu precisava fazer uma proposta, minhas próprias ligações
para fornecedores ou �nalizar um orçamento, essas tarefas se tornavam
muito complicadas. Fora isso, eram companheiros excelentes, que
contratávamos para apresentar nossos próprios eventos — o networking
funcionava —, e eles sempre estavam dispostos a ajudar e, por que não,
tomar um chá.
Dependendo de sua pro�ssão, talvez você precise tomar medidas mais
drásticas. As enfermeiras do sistema hospitalar dos Estados Unidos usam faixas
ou jalecos de cores fortes para evitar interrupções enquanto preparam os
medicamentos para os pacientes. Outros hospitais estabelecem “zonas sem
interrupção” perto das farmácias, usando �ta adesiva vermelha no chão ou
lajotas de cor diferente.
Segundo o International Journal of Stress Management, os empregados
que experimentam interrupções frequentes sofrem uma taxa de esgotamento
9% superior à média, assim como um aumento de 4% em problemas físicos
como dores de cabeças ou dores nas costas. Isso se deve à mudança repentina
no ritmo de trabalho. Acabamos fazendo as tarefas, mas em menos tempo e
com mais desgaste, estresse, frustração e pressão.
Há um problema a mais: depois de interrompida, a maioria dos
funcionários não volta diretamente para a tarefa mais complexa, mas continua
interrompendo a si mesma: faz primeiro o fácil, embora não seja o urgente, dá
uma olhada nos e-mails novos ou nas redes sociais… Um estudo de Gloria
Mark, membro do departamento de informática da Universidade de Irvine,
a�rma que, quando nos interrompem, demoramos uma média de 23 minutos
e 15 segundos para voltar à tarefa.
Quando for interromper alguém que estiver trabalhando, pense antes:
você ligaria para a cabine do piloto durante a decolagem e a aterrissagem do
avião? Entenda que todos os trabalhos têm a mesma importância.
AS DISTRAÇÕES
Deixei para o �m esse ladrão que usa uma grande quantidade de máscaras. O
primeiro passo no processo é identi�car todas as distrações: redes sociais, sites,
dispositivos. Quais são essas coisas para as quais você se volta habitualmente
quando suas tarefas �cam entediantes?
Depois, você pode seguir estes passos:
1. Desative ou desabilite as noti�cações de todos os dispositivos ao seu redor
no trabalho: e-mail, Messenger, redes sociais… O simples “bip” de aviso,
mesmo que você não chegue a consultar a mensagem, terá atrapalhado
sua concentração, pois sua mente terá se desviado dois segundos (cinco se
você a lê, embora não responda). Se de cada minuto de seu dia,
descontando os que está dormindo, cinco segundos são passados na caixa
de noti�cações, isso resulta em torno de oitenta minutos por dia. Oitenta
minutos maravilhosos, do tipo que logo faz falta e que você sempre está
buscando. Se isso parece drástico demais, você pode deixar habilitadas as
noti�cações das mensagens de sua mãe, que sempre merece um
tratamento especial. Tudo está bem se é feito com consciência plena e
TM.
2. Se seu telefone é de trabalho, mantenha-o o mais longe possível e se
puder em modo avião.
3. Quando estiver trabalhando, feche todas as abas da internet que não
sejam necessárias.
Segundo o estudo “Digital en 2019” da We Are Social em colaboração
com a Hootsuite, na Espanha as pessoas passam em média 5,18 horas diárias
conectadas à internet por meio dos diferentes dispositivos, incluindo os canais
de TV paga.
Nós nos convencemos de que, se não estamos nas redes sociais, não
somos ninguém. O pensador e autor de best-sellers Yuval Noah Harari não
tem smartphone nem redes sociais, com a exceção do Twitter, onde está apenas
desde janeiro de 2017. Ele diz que isso o atrapalha a entender a história da
humanidade. Em uma entrevista para o El País, ele disse:
“O novo símbolo de status é a proteção contra os ladrões que querem
captar e reter nossa atenção. Não ter um smartphone é um símbolo de status.
Muitos poderosos não têm.”
Se você não tem essa força de vontade, utilize a própria tecnologia para
evitar as distrações digitais. Há limitadores de páginas da web ou timers que lhe
permitem �car desconectado pelas horas que precisar. Como acontece tantas
vezes, tudo é questão de equilíbrio.
UM POUCO DE SÍNTESE
Os ladrões cotidianos acabam esvaziando nossa despensa de tempo sem
que percebamos.
É possível viver perfeitamente consultando o e-mail três vezes por dia.
A maioria das reuniões é uma grande perda de tempo.
Dar limite às distrações nos permite ganhar uma quantidade de tempo e
qualidade de atenção.
O INIMIGO EM CASA
COMO ELIMINAR NOSSAS PRÓPRIAS INTERFERÊNCIAS
Às vezes, nós mesmos nos convertemos em nosso maior ladrão. Acontece que
frequentemente não temos consciência disso. Somos muito críticos com as
pessoas que nos fazem perder tempo, talvez nos enchendo de bobagens sem
importância, mas ao mesmo tempo somos surdos ao nosso próprio barulho, ao
ruído de fundo que contamina e empobrece nossa vida.
Vamos dedicar este capítulo ao exército de distrações que vêm “de
dentro”, mas que têm um efeito tão devastador em nossos minutos, horas e
dias e sobre a qualidade de nossa atenção quanto os ladrões dos quais falava
Napoleão.
AS RECLAMAÇÕES
Minha avó costumava me dizer: “Você vai �car irritada a vida inteira? Não?
Então não perca tempo e comece a funcionar.”
Você com certeza conhece pessoas que passaram 15 ou vinte anos
reclamando da mesma coisa e nunca �zeram nada para mudar isso. O
resultado é entediante e cansativo, por isso estou segura de que você não quer
se converter em uma delas.
Isso ocorre quando inventamos desculpas porque não nos atrevemos a
perseguir as coisas que realmente nos importam, quando nos convertemos em
vítimas que se afastam progressivamente daquilo que desejamos.
Algo parecido ocorre com as reclamações. Elas não apenas nos roubam
um tempo precioso — você se surpreenderia ao saber quantas horas gastamos
por dia reclamando do que não é como achamos que deveria ser em vez de
procurar soluções para mudar isso —, mas também geram um desgaste
energético que afeta o resto do nosso tempo útil.
Um bom exercício para evitar isso é mudar sua forma de falar, e não
apenas quando faz isso em voz alta, mas também quando fala com você
mesmo no interior de sua cabeça.
Eckart Tolle, autor de O poder do agora, nos adverte que quando vemos
uma pessoa falando sozinha em voz alta pela rua achamos que ela está louca,
entretanto, não nos damos conta de que nossa voz interior está o tempo
inteiro falando sozinha. Andamos com o rádio ligado e, além disso, muitas
vezes nos dedicamos a reclamar de tudo e de todos.
O PERFECCIONISMO
Voltaire dizia que “o perfeito é inimigo do bom”, e sem dúvida há pessoas que,
por aspirarem demais a excelência, acabam não fazendo nada. Ou amargam
sua vida de forma desnecessária.
Em meus tempos de estudante, sempre que voltava para casa depois de
ter feito uma prova e meus irmãos me perguntavam como eu tinha me saído,
eu sempre dizia que tinha ido muito mal. Eles riam e diziam: “Ai, coitada dessa
menina infeliz”, porque sabiam que, no �m, eu sempre tirava notas muito
boas. O pior de tudo é que eu realmente achava que tinha ido mal, porque
tudo aquilo que não estava perfeito me parecia um desastre.
Com o tempo, as coisas não �caram muito melhores. Aos trinta anos me
inscrevi em um curso de costura. Quando já tínhamos aprendido a costurar
botões e bainhas, a professora me passou para o estágio seguinte: fazer uma
sacola para pão ou para compras, uma saia…
Eu levei um tecido que tinha comprado em uma viagem à Índia com a
ideia de fazer uma toalha de mesa e comeceia trabalhar na máquina. Não era
muito difícil, mas estava longe de ser perfeito; assim, para evitar o mal-estar,
levei-o a uma costureira para que ela a terminasse para mim antes que eu
voltasse à aula na semana seguinte.
Naquele dia percebi quanto tempo havia perdido em minha vida
procurando uma perfeição que, diga-se de passagem, não existe. E decidi que
tinha que resolver isso.
Dedicar quatro horas para terminar uma apresentação rotineira de
PowerPoint porque não encontra a combinação de cores perfeita não faz de
você um trabalhador melhor. Isso não é e�caz nem e�ciente, e re�ete uma
péssima gestão de seu tempo. Não releia pela quarta vez esse e-mail que você
redigiu, aperte o botão de enviar antes que as alterações mínimas que você vai
introduzindo façam com que ele perca todo o frescor. Não prolongue a tarefa,
nem a adie, �cando obcecado com detalhes que não importam nem em longo
nem em curto prazos.
Até no caso daquelas tarefas de extrema importância, temos de
estabelecer limites e lembrar que é melhor terminá-las bem e a tempo do que
perfeitas (uma coisa impossível) e fora do prazo.
Aqui há algumas perguntas que você pode fazer sempre que se encontrar
em uma situação de grande exigência pessoal:
Até que ponto isto é prioridade para mim?
Levando em conta meus objetivos, que diferença há entre fazer isto em
um nível alto ou de acordo com o mínimo exigido?
Quanto tempo tenho para isto?
A INDECISÃO
Segundo um estudo publicado na Harvard Business Review, uma pessoa toma
em média duas mil decisões a cada hora em que está acordada. Isso, junto com
a grande quantidade de informação que temos disponível, faz com que muitas
vezes dediquemos um tempo excessivo a tomar decisões. E o que é pior: na
maioria das vezes, sem muita relevância. Que vinho eu peço neste restaurante,
que acessórios vou usar esta manhã…
Essas pequenas decisões nos estressam e consomem energia e tempo que
poderíamos dedicar a questões mais relevantes.
Barry Schwartz, autor do livro O paradoxo da escolha, declara:
“Estamos levando em consideração muito mais opções do que precisamos e
do que são úteis em muitos aspectos de nossa vida. Nós que somos
privilegiados vivemos em um mundo em que estamos escolhendo entre
opções muito boas. Não vale a pena se esforçar para discernir entre uma
coisa muito boa e outra coisa muito muito boa, mesmo quando o assunto
não é trivial.”
O primeiro passo para deixar de ser um indeciso é aceitar que você nunca
poderá dispor de toda a informação. Steve Jobs disse isso em seu famoso
discurso para a cerimônia de formatura de Stanford: “Só é possível ligar todos
os pontos quando você faz isso em retrospectiva. Você precisa ter fé e con�ar
em seu coração.”
Faça como ele: pense no ponto seguinte e, quando chegar a ele, você já
vai pensar no próximo. Dê a si mesmo um tempo máximo para tomar as
decisões e �que atento a ele.
NO RIO DA MUDANÇA
Joe Dispenza, autor de livros como Você é o placebo: o poder de curar a si
mesmo, explicou em uma palestra que quando você atravessa o rio da
mudança surgem dois perigos:
. O . As pessoas à nossa volta estão acostumadas que sejamos de
determinada forma, e ver em nós uma transformação cria inquietude. É
comum que projetem em nós suas dúvidas e medos. Quando estiver
nadando até a outra margem, pode ser que gritem: “Aonde vai você, seu
louco? Volte!” O conselho de Dispenza é: Não dê ouvidos aos outros
quando você já decidiu mudar.
. S  . O mesmo autor adverte que mudar é tão
incômodo quanto atravessar um rio de água gélida. Depois de se jogar na
água, talvez quando estiver na metade do rio, você pense: “Como está
fria!”, e volte à sua zona de conforto. Por isso, o segundo conselho de
Dispenza é: Não escute seus medos quando você já decidiu mudar.
Na verdade, não �que pelo caminho quando tentar alcançar a outra
margem. Continue nadando e, quando chegar ao outro lado, você analisará
se o esforço valeu a pena. Se você se permite deter pelo “que vão dizer” ou
por suas próprias dúvidas, corre o risco de não fazer nada por sua vida.
Como dizia o �lósofo britânico Alan Watts: “A palavra água não
molha.” É preciso mergulhar na piscina.
À
Só podemos saber o resultado de muitas coisas depois de terminá-las. Às
vezes, só veremos os verdadeiros frutos tempos depois de tê-las concluído.
Considerando que na vida avançamos por experimentação e erro, é melhor
terminar cada ensaio e, se as coisas não saírem como pensávamos, já vamos
conhecer um caminho que não devemos pegar.
O MULTITASKING É NA VERDADE ZAPEAR
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo se transformou em uma síndrome que
nos causa esgotamento. Além disso, tem como efeito uma baixa qualidade da
atenção e, em consequência, resultados pobres em tudo o que fazemos.
Todos já nos vimos assim mais de uma vez: respondendo a mensagens
por telefone enquanto elaboramos um relatório e estamos de olho na cozinha
ou no cuidado de uma criança.
O multitasking é muitas vezes o resultado de má organização, que pode
ter várias causas:
Não ter feito no momento certo coisas que agora se juntam com outras
tarefas.
O vício por controlar tudo em tempo real, em especial as mensagens, e-
mails e redes sociais.
Funcionar no modo “piloto automático”, o que nos leva a fazer certas
coisas por inércia junto com a tarefa principal.
Embora pareça que estamos ganhando tempo, a realidade é muito
diferente. Em seu livro Ágilmente [Agilmente, em tradução livre], o biólogo
Estanislao Bachrach a�rma: “Estima-se que essas pessoas demorem o dobro do
tempo para fazer essas tarefas e cometam o dobro de erros em cada uma delas.”
ATENÇÃO RESIDUAL
Segundo as pesquisas feitas pela professora Sophie Leroy, da Universidade de
Minnesota, quando pulamos de uma tarefa para outra, os pensamentos
persistem e se misturam, produzindo o que se conhece como atenção
residual.
Quando você deixa por um momento o que está fazendo para
consultar seus e-mails, ler as mensagens no celular, atender ao telefone ou
ter uma conversa, sua atenção permanece nessa tarefa inclusive depois de
passar à seguinte. A mente �ca presa.
O conceito de atenção residual explica por que o hábito tão frequente
de trabalhar em um estado de semidistração é potencialmente devastador para
seu desempenho. Pode parecer inofensivo dar uma olhada na caixa de
entrada a cada dez minutos mais ou menos, mas a olhada rápida introduz
um novo objetivo para nossa atenção. Pior ainda: ao ver mensagens que não
podemos responder imediatamente (o que acontece quase sempre),
retomamos a primeira tarefa com o peso de uma tarefa secundária que
deixamos sem terminar.
O certo é que, além de gerar maus resultados e ser, paradoxalmente, uma
perda de tempo, o multitasking é um grande gatilho do estresse e da ansiedade.
Nós nos sentimos saturados, contudo o mais curioso é que na verdade não
estamos fazendo várias coisas simultaneamente.
Se nos observássemos por meio de uma �lmagem, perceberíamos que na
verdade estamos zapeando. Estamos escrevendo este relatório quando o celular
toca. Nossa atenção sai do documento para entrar no chat de WhatsApp ou no
e-mail. Em seguida volta ao que estávamos fazendo antes. Nesse momento,
percebemos que a água que botamos para ferver está pronta. A atenção volta a
sair do documento e vamos até a cozinha. Enchemos a xícara de água quente,
com o saquinho de chá dentro, mas nesse momento o celular vibra.
Atendemos ao que está chegando. Quando volto novamente a atenção para o
chá, talvez tenham se passado mais de três minutos e ele esteja amargo demais.
Será preciso fazê-lo outra vez.
O que percebemos como simultaneidade na verdade é uma mudança
constante de canal entre várias atividades que acabamos fazendo tarde e mal,
além de ser esgotador, porque precisamos investir muita energia para entrar de
novo em uma atividade complexa.
DESAFIO FINAL
Se ainda duvida do que estou dizendo, experimente fazer o seguinte exercício
elaborado pela empresa Potential Project, especializada em efetividade
corporativa a partir de mindfulness:
Pegue umpapel e uma caneta e escreva o seguinte em duas linhas, uma
embaixo da outra, cronometrando o tempo que leva para fazer isto:
Posso fazer duas coisas ao mesmo tempo
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31 32
Dependendo de sua rapidez para escrever, você vai demorar de 25 a
trinta segundos.
Agora, volte a escrever a mesma coisa, mas alternando cada letra com um
dos números (como você verá, há a mesma quantidade dos dois). Ou seja,
escreva o P na primeira linha e, na debaixo, o um; em seguida o O e, abaixo, o
dois; o S e embaixo o três e assim sucessivamente.
Cronometre o tempo que leva para fazer isso e verá o que acontece: o
dobro do tempo, possíveis erros e uma carga mental que lhe pedirá um
descanso.
UM POUCO DE SÍNTESE
A mente pode ser uma fonte de intermitências incômodas quando nos
entregamos às reclamações ou à negatividade.
O perfeccionismo e a indecisão podem acabar nos deixando paralisados.
É preciso mergulhar na piscina.
O multitasking não existe: trata-se, na verdade, de uma mudança de
canal constante e esgotadora.
DO FOMO AO JOMO
VIVA SUA PRÓPRIA VIDA
Para construir uma vida mais próspera, serena e criativa, é preciso prestar
atenção a cada minuto e dedicá-lo àquelas coisas que nos aproximam de nossas
metas ou propósitos vitais.
O TM consiste em estar 100% presente no momento em que vivemos,
em vez de estar sempre com a língua de fora atrás do relógio ou de ter a mente
em qualquer outro lugar menos no que estamos fazendo. O problema é que, às
vezes, é muito difícil estar presente no momento devido a uma patologia nova
chamada FOMO que se alastrou como uma pandemia.
O medo de perdermos algo (em inglês Fear Of Missing Out, de onde vem
o acrônimo) faz com que estejamos sempre conectados e dependentes de
mundos virtuais que não nos acrescentam em nada; muito pelo contrário, eles
nos arrancam de onde estamos e enchem nossos valiosos minutos de lixo e
ansiedade.
É possível dizer que acontece conosco o mesmo que acontecia com Santa
Teresa de Jesus quando exclamava: “Vivo sem viver em mim.” Chegou o
momento de ter uma epifania como essa e voltar a nos concentrarmos em
nossa própria vida.
RESPEITE OS SINAIS
Vamos calcular valor e comprovar se estamos ou não infectados pelo vírus do
FOMO, o que acha? Começaremos pelas seguintes perguntas:
Interrompo meu trabalho quase sem exceção para responder a ligações, e-
mails ou mensagens?
Aceito qualquer solicitação de amizade virtual, já que o importante é ter
uma rede cada vez maior, para não perder uma oportunidade?
Vejo as redes sociais enquanto estou em uma reunião, seja de trabalho ou
com amigos, ou em um compromisso, como se lá fora estivessem
acontecendo coisas mais interessantes?
Vejo-as até mesmo enquanto dirijo, para não perder a mudança de status
de alguém?
Vejo-as a cada poucos minutos, independentemente do que esteja
acontecendo?
Se a resposta para duas ou mais delas é sim, padecemos de um vício que
pode provocar outros transtornos psicológicos.
Imagine um sábado qualquer. Você �ca em casa encolhido no sofá,
vendo um �lme ou lendo um livro. Tudo vai bem até que você começa a
pensar no que o resto de seus contatos está fazendo nesse momento. E estou
me referindo a todo o resto: sua galera, sua família, seus colegas de trabalho,
seus amigos (para chamá-los de alguma coisa) das redes sociais… e assim vai até
chegar à população inteira do planeta.
Você entra em qualquer dessas redes, para não perder alguma coisa, e
percebe que todos estão se divertindo muito. Em festas, casamentos, jantares,
festivais de música, praias ao anoitecer… E o pior de tudo é que você não tem
nem vontade de fazer isso. Você não gosta de DJs e já foi a mais casamentos do
que qualquer mortal poderia aguentar em uma dezena de vidas, mas se
angustia porque se sente “menos”.
Você pensa: estou perdendo um milhão de coisas, não tenho tempo para
nada, estou desperdiçando minha vida. E o pior de tudo é que, na verdade, é
isso mesmo: em vez de aproveitar seus preciosos minutos de descanso, de
leitura ou de uma conversa tranquila com seu parceiro, ou de qualquer coisa
que tenha decidido fazer, você se concentra nas bobagens dos outros e em tudo
aquilo que está deixando de fazer.
E o ciclo começa de novo. Para se sentir conectado de alguma forma a
essa comunidade virtual, você se obriga a não perder os últimos trending topics,
a comentar todas as publicações dos outros com uma criatividade que até Billy
Crystal gostaria de ter, a enfrentar esse desa�o absurdo em que está todo
mundo.
Como costuma se dizer, a comparação é a ladra da alegria. Pensamos: “A
vida dos outros é muito mais interessante que a minha.” E não vivemos nem
uma nem outra.
FOBO
O FOMO tem um primo-irmão chamado FOBO (Fear Of Better Options),
o medo de perdermos opções melhores, o que complica ainda mais as coisas.
Imagine que você está com o controle remoto da TV na mão. Você
tem um máximo de duas horas para ver um �lme de sua plataforma, já que a
partir deste momento você estará roubando tempo de sono e no dia
seguinte será menos produtivo. Você começa a passar pelos programas.
Depois de quarenta minutos ainda não se decidiu e acaba vendo algo que
não o convence, �cando entediado e terminando tarde.
O psicólogo Barry Schwartz, que já citamos no capítulo intitulado “O
inimigo em casa” para falar de indecisão, distingue quatro efeitos do excesso
de opções:
P. Devido às alternativas quase in�nitas do mundo globalizado,
você acaba adiando a decisão por não saber o que escolher.
C  . Independentemente do que escolher,
você não consegue tirar da cabeça a opção que não escolheu.
E . O leque de possibilidades gera expectativas tão
altas que sua experiência acaba parecendo decepcionante.
C. Você se sente incomodado com a ideia de que poderia ter
pensado mais e escolhido melhor.
O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA TELA
Jon Kabat-Zinn, pioneiro do mindfulness no ocidente, comenta: “A
autodistração atingiu proporções epidêmicas, e o problema não é o iPhone em
si, é o pensamento de ‘Será que alguém me enviou uma mensagem de texto’.”
Eu proponho a você o seguinte exercício. Na próxima vez que ouvir uma
noti�cação (se você ainda não se convenceu de silenciá-las) ou vir um aviso em
qualquer ícone de seu celular, não comece a ler imediatamente. Espere, respire
fundo e observe seus pensamentos. Para entender suas emoções e motivações,
você pode começar por se propor o seguinte, segundo a situação em que se
encontre:
Se você acha que a noti�cação é de trabalho e já saiu do escritório ou já
anoiteceu, pergunte a si mesmo: que sentido faz ler isso agora? Eu na
verdade sou um trabalhador melhor por estar permanentemente
conectado? Que expectativas estou gerando em meus clientes e em meu
ambiente de trabalho? Pessoalmente, tenho a inclinação de achar que se
você responder a essa mensagem você só ganhará inquietude, pela
sensação de estar trabalhando 24 horas, e com problemas de descanso.
Se sua reação é “Talvez tenham me marcado em uma foto ou eu tenha
recebido um like ou um comentário em minha publicação”, pergunte o
que signi�ca para você que as pessoas — às vezes anônimas ou
desconhecidas — demonstrem reconhecimento. Quando isso não
acontece, você se sente frustrado ou isolado?
Se o que pensa é “Quem será a pessoa que me mandou a mensagem?”,
pode perguntar a si mesmo: sou mais generoso ou um amigo melhor por
estar virtualmente disponível 24 horas e responder a qualquer noti�cação
nos trinta segundos seguintes? Ao mesmo tempo, avalie quanto tempo
você passa de verdade com esse amigo ou com as outras pessoas que
realmente importam, e há quanto tempo vocês não �cam cara a cara para
compartilhar suas coisas com verdadeira intimidade.
E uma última advertência: se o alarme não tocou nem se acendeu o ícone
de noti�cação e você �ca mal porque está sentindo um vazio… a coisa é séria.
Você pode começar por propor a si mesmo um detox de 12 horas ou mesmo se
impor o Tech Shabbat que entrou na moda com a cineasta Tiffany Shlain.Ele
consiste de tirar um descanso de qualquer tela durante 24 horas desde a sexta-
feira à tarde, como uma adaptação digital da tradição de descanso judaica.
O CÍRCULO
Para complementar nosso processo de desintoxicação das redes, podemos ler
o excelente romance O círculo, de Dave Eggers, que teve uma adaptação
para o cinema pouco recomendável.
Ele conta as aventuras da jovem Mae Holland, que é contratada pela
empresa de internet mais poderosa do mundo. Entusiasmada pela
modernidade dos escritórios e pelos entretenimentos que a companhia
oferece — inspirados no Googleplex — sua vida fora do trabalho vai
deixando de existir, assim como sua própria intimidade, já que o Círculo
força seus empregados a fazer de suas vidas privadas um espetáculo público.
Se depois de ler o romance você quiser parabenizar seu autor, terá de
fazer isso por carta, já que ele não tem redes sociais nem endereço de e-mail
público.
A SALVAÇÃO PELO JOMO
Por sorte, há outro membro da família que pode nos ajudar a acabar com essa
angústia que, no mínimo, nos dá uma sensação eterna de escassez de tempo.
Trata-se do JOMO (Joy Of Missing Out), um movimento que prega o prazer de
perder as coisas.
Uma das primeiras pessoas a cunhar esse termo foi Christina Crook,
autora do livro e Joy of Missing Out. A ideia surgiu depois de ver um
documentário no qual um padre abençoava… smartphones! Nesse momento
ela decidiu fazer jejum virtual por um mês.
“Eu estava cansada que o Facebook intermediasse minhas relações e
insatisfeita com minha compulsão de checá-lo constantemente”, explica ela.
“Eu sabia que a internet estava fazendo com que me desconectasse
emocionalmente de mim mesma e de meus entes queridos.”
O norte-americano médio passa mais de duas horas por dia nas redes
sociais, o que resulta em uns cinco anos e meio durante uma vida. “O que eu
poderia estar fazendo com esse tempo?”, perguntou-se Christina. “Para quem
é? Isso se alinha com meus valores?”
Durante seu jejum, ela descobriu uma quantidade enorme de tempo que
achava não ter. Isso gerou paz mental e uma criatividade que estava
adormecida e que, logo, permitiu a ela encontrar as soluções mais diversas sem
a ajuda do Google.
MANIFESTO JOMO
Após três anos de debates na comunidade JOMO, formada por pessoas de
todo o mundo, foi publicado este manifesto que nos mostra como nossos
dias são cheios de possibilidades quando vivemos nossa própria vida sem
sermos condicionados pelo que faz o resto das pessoas.
SOMOS AQUELES QUE…
– Construímos comunidades nas quais nos conhecemos por nossos nomes.
– Passamos bem nosso tempo, vivendo cada hora de cada dia.
– Nós nos amamos, abraçando igualmente nossos pontos fortes e fracos.
– Vivemos hoje, saboreando nossas experiências.
– Estamos agradecidos pelo que temos, não desperdiçamos tempo pensando
naquilo de que não precisamos.
– Abraçamos nossa humanidade, preferimos sentir dor do que não sentir
nada.
– Conhecemos as verdadeiras riquezas, valorizando a conexão humana
acima de tudo.
– Somos corajosos, escolhemos a aventura em vez do arrependimento.
– Somos generosos, damos a nossos entes queridos todo nosso coração e
nossa atenção.
– Desfrutamos e escolhemos o amor em vez do medo.
Superando o medo de perdermos alguma coisa, com o JOMO não
apenas liberamos tempo. Saímos da roda exaustiva de estar sempre conectados,
com a mente fora de nós mesmos, e voltamos a estar presentes em nosso
momento e lugar, vivendo tudo o que fazemos com plenitude e com todas as
suas nuances.
EVENTOS PARA FRACASSADOS
No �m, por trás dos �ltros do Instagram que nos mostram in�nitas vidas
maravilhosas cheias de opções igualmente maravilhosas, se esconde uma
realidade diferente. Todos temos dias bons e outros não tão bons; e é normal
gostar de compartilhar os mais felizes. Mas a vida é um mapa de picos e vales.
Cada ação que fazemos pode terminar em sucesso ou fracasso, e já ouvimos
muitas vezes (porque é verdade) que nenhum dos casos é uma perda de tempo.
O importante é como reagimos diante dos acontecimentos para aprender a
viver melhor e evoluir como seres humanos.
Gosto da história da noite em que omas Edison viu que seu
laboratório estava em chamas. Em vez de levar as mãos à cabeça e se lamentar,
disse a seu �lho com entusiasmo: “Vá buscar sua mãe e todos os nossos amigos,
nunca voltaremos a ver um incêndio como esse.” E completou: “Acabamos de
nos desfazer de um monte de lixo, e não sou tão velho assim para não poder
começar de novo.”
Depois de um mês, seus empregados faziam jornada dupla e produziam
os produtos novos e revolucionários nos quais ele havia pensado durante o
tempo em que teve a fábrica parada.
Se para você é difícil reagir como Edison, pode entrar em contato com o
Instituto do Fracasso. Seus fundadores pensaram que em nossa sociedade
faltava um lugar onde compartilhar livre e abertamente histórias de desengano
e frustração, sem vergonha nem sentimentos de culpa, e organizaram um
evento chamado Fuck Up Night…, que foi realizado em mais de trezentas
cidades de 86 países, com a participação de cerca de duzentas mil pessoas.
Atribui-se a Woody Allen a equação “Tragédia + Tempo = Comédia”. É
bom levar isso em conta para converter esse tempo de infortúnio em uma
alavanca, em um interruptor com o qual voltar a acender novas lâmpadas e
invenções, como o grande Edison.
UM POUCO DE SÍNTESE
O “medo de perder alguma coisa” nas redes é uma fonte de estresse
constante que não nos permite aproveitar o agora.
Se achar que a vida dos outros é mais interessante que a sua, não viverá
nem uma nem outra.
Você pode fazer um saudável “detox digital” se obrigando a se
desconectar das redes 24 horas por semana.
Como reação contra o FOMO (o medo de perder coisas) surgiu o
JOMO (o prazer de perder coisas) para recuperar o pulso natural da
vida.
Tragédia + Tempo = Comédia.
O FIM DA PROCRASTINAÇÃO
O MELHOR DA VIDA NÃO SE PODE ADIAR
Todos procrastinamos em maior ou menor medida, já que entre nossos planos
e nossas realizações se ergue um muro de tempo que pode ser muito variável.
Há pessoas que executam seus planos com precisão militar, permitindo
adiamentos apenas por motivo de força maior, enquanto outras parecem ter
como principal atividade reprogramar tudo, em um amanhã que se renova todo
dia sem nunca chegar a ser hoje.
É preconceito pensar que só procrastinam os losers, as pessoas que não
fazem nada de valor, como veremos mais à frente. Na verdade, essa má gestão
do tempo tem uma longa tradição humana.
Na Grécia Antiga existia um conceito desenvolvido por Sócrates e
Aristóteles para de�nir algo parecido: Akrasia. O que pode ser de�nido como
“agir contra o que seria melhor para nós mesmos”, ou seja, não fazer nada
apesar de saber que não nos convém.
Um dos maiores gênios italianos do Renascimento, Leonardo da Vinci,
era um procrastinador incorrigível. Levou mais de 15 anos para fazer a Mona
Lisa! Por preguiça ou por um preciosismo doentio, sua obra mais conhecida foi
pintada entre 1503 e 1519.
Parece um lapso de tempo enorme para uma obra de formato pequeno,
como sabem todos os que a viram no Museu do Louvre, mas o que nós
�zemos nos últimos 16 anos?
O MÉTODO RADICAL DE VICTOR HUGO
Um artista da escrita, três séculos depois, padecia do mesmo problema que
Leonardo, mas não dispunha de mecenas que pagassem seus gastos. Se não
terminava seus romances, não ganhava, e isso lhe trazia problemas enormes.
A crise de�nitiva chegou quando assinou um contrato para escrever Nossa
Senhora de Paris, conhecida como O corcunda de Notre Dame. Os meses iam se
passando e ele não conseguia engrenar.
Um ano depois do prazo de entrega, no outono de 1830, o editor lhe
deu um ultimato: ou entregava o romance no mês de fevereiro seguinte, ou ele
ia denunciá-lo por quebra de contrato.
Distraído — e procrastinador — por natureza, Victor Hugo teve uma
ideia radical para conseguir essa proeza. Ele pediu que levassem toda a roupa de
sua casa, �cando apenas com uma túnica cinza ridícula que cobria seu corpo
até os pés. Daquela forma era impossível que ele pudessedescer para seus
habituais cafés de Paris, e só lhe restava �car em casa, enquanto seus amigos lhe
levavam comida e alguns itens indispensáveis.
Antes de se trancar, ele comprou um vidro de tinta e começou a produzir
depressa.
Em menos de seis meses ele conseguiu terminar e entregar o romance
que acabaria por consagrá-lo, já que foi um sucesso internacional.
Essa história contra a procrastinação me faz pensar em um caso curioso
que me contaram Katinka e Marcel, um casal de amigos de Barcelona. Seu
cachorro bodeguero chamado Lucas tem o costume de esconder à noite todos
os seus sapatos, convencido de que assim eles não vão sair de casa, coisa da qual
ele não gosta nada.
Talvez não cheguemos aos extremos de Victor Hugo ou do cachorrinho
Lucas, mas seu método radical é totalmente aplicável à vida cotidiana se nos
�zermos a pergunta: o que devo deixar de fazer para conseguir realizar o que
quero? Antes de passar para a prática, vejamos por que esse mau hábito é tão
comum.
INCOERÊNCIA TEMPORAL
Os estudos sobre conduta falam de uma “incoerência temporal” que afeta
exclusivamente os humanos. Vivemos ao mesmo tempo no presente e no
futuro, já que nossa mente está sempre conectada com o que vamos viver ou
fazer em alguns dias, semanas ou anos.
Mas então o que é a incoerência temporal?
Basicamente, ela acontece quando nossa visão de longo prazo é superada
pela grati�cação imediata, situada no presente, e optamos por essa recompensa
imediata no lugar daquilo que nos bene�ciaria mais tarde.
Vivemos ao mesmo tempo com o “eu presente” e o “eu futuro”. E o eu
futuro tem um problema: ele não pode fazer nenhuma ação, só determinar
objetivos. Para agir, só temos o eu presente, e quando o cérebro prefere a
grati�cação imediata em vez de algo menos agradável, mas que teria benefícios
em longo prazo, apesar de saber que estes seriam muito maiores, a
procrastinação é disparada.
Como o “eu presente” tende a ganhar o jogo do “eu futuro”, podemos
imaginar uma vida saudável, com dinheiro e grandes progressos, mas acabamos
comendo produtos de confeitaria industrializados no café da manhã,
compramos objetos inúteis pela internet e não fazemos nada do que
planejamos.
O momento em que se passa da procrastinação para a ação costuma ser
quando as coisas �cam feias, como com Hugo, e os mecanismos de alarme são
ativados para conseguir os resultados. Até chegar esse ultimato de necessidade,
eles podem ser dois velhos amigos irreconciliáveis.
VOCÊ É PREGUIÇOSO, ESCORREGADIO OU OTIMISTA?
Segundo a dra. Ellen Hendriksen, psicóloga da Universidade de Boston, os
procrastinadores se dividem em três per�s básicos:
P. Se esquivam de sua responsabilidade basicamente por
preguiça, para evitar o esforço de enfrentá-la. Eles a postergam
inde�nidamente na vã esperança de que ela desapareça de suas agendas
por um passe de mágica, que seu entorno resolva alguma coisa por eles.
E. São especialistas em evitar o trabalho ou a tomada de
decisões mais pelo medo de fracassar ou de se equivocar que pela
di�culdade dessa ação. Por isso eles adiam a tomada de decisões enquanto
podem.
O. Analisam a tarefa que têm de fazer e, con�ando em suas
capacidades, consideram que não precisam de todo o tempo de que
dispõem. Por isso deixam-na para o último momento. Preferem trabalhar
sob pressão porque de forma inconsciente acreditam que assim
multiplicam seu rendimento, embora tenham a consciência de que
brincam com fogo.
QUATRO PASSOS CONTRA A PROCRASTINAÇÃO
O primeiro passo inevitável contra esse hábito tão disfuncional é aceitar que
procrastinamos. Só se reconhecemos em nós mesmos esse padrão poderemos
traçar um plano para desativá-lo.
A mencionada dra. Ellen Hendriksen propõe quatro passos para ajudar
todas as pessoas que desejem limitar sua procrastinação:
Trocar o negativo “tenho de fazer” pelo mais motivacional “quero fazer”.
Buscar a superação, não a perfeição. O perfeccionismo nos envia uma
mensagem paralisante: Se não é perfeito, não serve. O que pode levar, sem
que percebamos, ao desânimo.
Procrastinar inicialmente alivia nosso ânimo, mas depois vêm uma
sensação de culpa e mais estresse, por isso a terceira medida seria deixar de
pensar em curto prazo e dar poder ao “eu futuro”.
Banir as desculpas. O muito utilizado “É que…” leva a uma autoestrada
para a procrastinação. E se pararmos de nos justi�car e enfrentarmos a
tarefa?
O MÉTODO IVY LEE
James Clear propõe em Hábitos atômicos como antídoto contra a
procrastinação incorporar a nossas tarefas recompensas posteriores. Ele nos lembra
de que foi assim que se domesticou o lobo para transformá-lo no mais �el dos
amigos… Toda vez que conseguimos completar um desa�o que nos produz
agonia, devemos nos premiar com algo que nos traga satisfação.
Não é preciso esperar para colher grandes êxitos. Completar duas horas
de estudo ou remover alguns deveres de nossa planilha do Excel podem ter
como prêmio um bom passeio, um prato especial ou qualquer outra coisa que
nos entusiasme.
Clear destaca que a grande batalha para deixar de procrastinar é lutada
nos dois primeiros minutos, que é quando nossa mente oferece mais
resistência. Superada essa prova, �uiremos com a tarefa que nos propusemos.
Uma chave essencial é ter as prioridades diárias muito claras, e para isso
vamos utilizar o chamado método Ivy Lee, em homenagem a esse homem
falecido em 1934 e conhecido como o fundador das relações públicas.
Esse método centenário, mas ainda válido contra a procrastinação, consta
de cinco passos:
Ao terminar cada dia de trabalho, escreva as seis coisas mais importantes
que deve fazer no dia seguinte. Nunca mais de seis.
Priorize esses seis elementos em tudo o que �zer durante o dia.
Ao começar a manhã de trabalho, concentre-se na primeira tarefa, e não
passe para a próxima antes de tê-la terminado.
Faça o mesmo com o resto da lista. No �m do dia, passe todos os elementos
inacabados para a nova lista do dia seguinte.
Repita o processo em cada dia de trabalho.
O PRÊMIO DE IVY LEE
Esse método para não procrastinar tem mais de um século de vida e uma
história curiosa. Em 1918, Charles M. Schwab era o presidente da
Bethlehem Steel Corporation, maior estaleiro da América naquele
momento. Foi esse magnata quem marcou uma reunião com Ivy Lee, que já
era um conhecido consultor sobre produtividade. Em troca de otimizar o
funcionamento de sua empresa, ele não pediu nenhum honorário, mas a
promessa de que, se funcionasse, em três meses lhe enviaria um cheque com
o valor que o próprio Schwab considerasse que havia agregado para a
empresa. Assim, Lee compartilhou seu método com os executivos do
magnata e, três meses depois, recebeu em seu escritório um cheque no valor
de US$25 mil, cerca de US$400 mil dólares atuais.
OS TRÊS PERSONAGENS DA PROCRASTINAÇÃO
Tim Urban (um dos fundadores do conhecido blog Wait but Why) é um
procrastinador confesso que falou sobre seu problema em uma conhecida
palestra para as TED Talks na qual, com um toque de humor, explicava sua
história.
Ter de escrever um artigo em uma única noite e uma dissertação de
noventa páginas dois dias antes da data-limite eram seus destaques de
procrastinação, mas o mais interessante estava nos três personagens que regiam
sua vida: o Macaco da Grati�cação Instantânea, que tira o controle do timão
de seus dias do Criador da Decisão Racional, e só o larga quando entra em
cena o Monstro do Pânico.
Essa tríade de personagens ilustra com perfeição a dinâmica da
procrastinação: embora todos os procrastinadores saibam que deviam prestar
atenção a seu ser mais racional, que tem os olhos apontados para o amanhã,
eles se deixam levar por essa força da satisfação momentânea até que chega o
pânico e os obriga a agir.
Mas o pânico tem um problema: ele não aparece se não há um prazo
�nal marcado em vermelho no calendário.
Quando a pessoa encara um grande projeto sem data �xa de término, da
mesma forma que quando se propõe retomar um relacionamento com uma
pessoa querida com a qual perdeu pouco a pouco o contato, é possível seperder no ponto morto em que está.
A procrastinação crônica pode ser muito prejudicial ao longo da vida:
não há data-limite, ninguém vai se incomodar se você não chegar a tempo, essa
ligação pode esperar… até que um dia você descobre que já é tarde demais.
Nada disso acontecerá conosco se vivermos com TM, assumindo o
controle de nosso tempo para que os projetos não �quem na promessa.
UM POUCO DE SÍNTESE
Todo mundo tem algum nível de procrastinação, os gênios também.
A pergunta-chave é: o que devo deixar de fazer para realizar o que
quero?
A grati�cação imediata é a grande inimiga dos planos em médio e longo
prazos.
Se eliminamos as desculpas, deixamos de adiar o que devíamos fazer.
Estabelecer suas prioridades e respeitá-las acima de todas as coisas é o
caminho do sucesso.
A procrastinação crônica rouba o controle de sua vida; ela pode ser
evitada fazendo o que é importante, mesmo que não haja prazos �nais.
RESOLVER, DELEGAR OU ELIMINAR
QUANTO MENOS LISTAS, MELHOR
Embora tenhamos falado antes sobre listas, é preciso ser cuidadoso com esse
recurso. Há quem morra deixando grandes listas de coisas por fazer, o que deu
origem a vários romances.
Em O próximo item da lista, publicado por Jill Smolinski em 2008,
depois da morte de uma jovem, uma companheira de seu grupo de autoajuda
descobre uma lista com “Vinte coisas que devo fazer antes dos 25 anos”.
Decidida a tornar seus sonhos realidade como homenagem à falecida, a
protagonista enfrentará provas como “correr cinco mil metros”, “mudar a vida
de alguém” ou “beijar um desconhecido”.
JÁ PODE LEVANTAR A ÂNCORA
“Nos Estados unidos há uma verdadeira paixão popular pelas ‘coisas que
uma pessoa devia fazer antes de morrer’. Nas listas publicadas em blogs ou
mesmo em livros inspiradores há propostas emocionais como nadar com
um gol�nho ou fazer amor na praia, junto com outras mais heterogêneas
como pegar uma bola durante uma partida de futebol, tomar banho em
uma cachoeira ou ir à Oktoberfest — a festa da cerveja — de Munique.
“Entre o que os especialistas recomendam fazer antes de morrer está
justamente ‘escrever uma lista com as dez coisas que desejamos fazer antes de
morrer’. Eles garantem que ao botar no papel nossos desejos mais íntimos
facilitamos que eles se realizem, porque a escrita tem mais força que um
capricho que passa brevemente por nossa cabeça.
“Escrever uma lista também nos permite descobrir desejos nos quais
não havíamos pensado previamente. Além de dar a eles visibilidade, o papel
nos ajuda a estabelecer uma data concreta de execução, o que signi�ca um
passo a mais na direção do objetivo desejado.
“Essa radiogra�a de nossas prioridades também é um convite a romper
com a inércia e mobilizar nossas energias na direção da mudança. Outro
norte-americano, Mark Twain, re�etiu sobre essa mesma questão já no
século XIX: ‘Dentro de vinte anos você vai se arrepender mais das coisas que
não fez do que das que chegou a fazer. Portanto, já pode levantar a âncora.
Abandone esse porto. Encha as velas com o vento da mudança. Explore. Sonhe.
Descubra.’”
Silvia Adela Kohan
Uma lista pode ser um bom exercício de projeção. Mas em geral é
melhor experimentar as coisas do que anotá-las em uma lista, o que muitas
vezes equivale a deixá-las pendentes. Na verdade, as pessoas com um alto nível
de TM são inimigas das listas. Simplesmente fazem as coisas em seu momento e
lugar.
Em qualquer caso, o que em um romance inspirador nos parece poético,
pode resultar em um martírio no dia a dia, tanto nas tarefas pessoais ou
familiares quanto em nosso trabalho.
Não é nada motivador ver como a lista no Excel vai aumentando quase
até o in�nito. Contra essa praga, os especialistas em gestão do tempo
recomendam resolver, delegar ou eliminar, como veremos no método
seguinte.
O MÉTODO DOS TRÊS DS
Originalmente, eram quatro Ds, com base nas palavras em inglês Do, Delete
(ou Drop, dependendo da versão), Defer e Delegate, que se identi�cariam com
as diversas maneiras de enfrentar as tarefas que se apresentam à nossa frente
diariamente.
Entretanto, vamos eliminar o terceiro, já que o hábito de adiar leva com
muita facilidade à procrastinação, ao que já dedicamos todo um capítulo.
Portanto, toda vez que tenhamos alguma coisa para fazer, vamos tomar um
destes três caminhos:
D (). Para o que não pode ser adiado e que devemos fazer
pessoalmente sem discussão. Aqui os especialistas recomendam incluir
também a regra dos dois minutos de David Allen: fazer imediatamente
todas as tarefas que levem um máximo de dois minutos. Anotar a tarefa
em outro lugar já nos roubaria uma parte desse tempo, por isso… melhor
fazê-la imediatamente.
D (). O que não é imprescindível nem será útil deve ser
eliminado diretamente, em vez de aumentar nossa lista. Às vezes pode ser
uma decisão difícil, mas uma vez que nos acostumamos a suprimir aquilo
que não é obrigatório — e-mails, tarefas que pertencem a outras pessoas,
compromissos que não fazem sentido para nós — a vida �ca mais leve de
forma surpreendente. Vamos mergulhar nessa ideia no próximo capítulo,
dedicado a simpli�car sua agenda.
D (). O que outras pessoas podem fazer sem que o
resultado seja dramaticamente afetado deve ser delegado, já que vamos
liberar tempo para fazer coisas mais importantes. As pessoas de sucesso são
muito conscientes do valor de cada minuto e, por isso, estão acostumadas
a dividir tarefas sem que seu orgulho �que ressentido. Lembre-se das
famosas três perguntas de Harvard das quais falamos. Uma pessoa com
TM não tem de tocar todos os instrumentos de uma orquestra, tem de ser
seu maestro.
A MATRIZ DE EISENHOWER
Lembra dos quatro quadrantes sobre o tempo de Stephen Covey que
estudamos no capítulo dedicado ao mapa de prioridades? Esse autor, que
a�rmava que o importante na gestão do tempo é saber onde devemos botar nossa
atenção em cada momento, se inspirou na chamada matriz de Eisenhower para
criar seus quadrantes.
Parece que o 34.º presidente norte-americano, comandante das tropas
aliadas na Segunda Guerra Mundial, tinha �xação pela boa gestão do tempo.
Logo abaixo podemos ver sua recomendação para tratar de cada um dos
quadrantes.
  Urgente Não urgente
Importante Fazer Planejar
Não importante Delegar Eliminar ou postergar
No quadrante I estão as tarefas importantes e urgentes. É preciso muito
cuidado para não o encher; não se trata de reunir tarefas, mas de fazê-las.
Talvez haja tarefas ou compromissos que não devamos aceitar, porque as horas
do dia são limitadas e há outras coisas essenciais que estão nos cobrando: são
próprias do quadrante III e podemos delegá-las.
Em relação ao quadrante II, referente às tarefas importantes e não
urgentes, planejar não signi�ca adiar. Signi�ca que nós decidimos quando fazer
essas tarefas, sem deixar que os outros estabeleçam nossas prioridades. Se
reservamos o sábado para estar com os amigos ou a família, isso deve se
converter no centro de nosso universo. É proibido cancelar o que é
importante porque há algo que parece mais urgente.
Não há nada mais urgente que viver.
O MÉTODO ABCDE
Vejamos agora um método parecido de gestão de tempo muito difundido nos
países anglo-saxões: o ABCDE. Ele é um sistema para priorizar que inclui dois
pontos a mais que o anterior, mas tem o mesmo objetivo: organizar o tempo
de forma e�ciente determinando uma categoria para cada tarefa.
Vamos começar fazendo uma lista com as tarefas pendentes (tanto no
campo do trabalho quanto no pessoal) e, em seguida, ao seu lado vamos avaliá-
las com uma letra:
A    . Seria tudo o que teria
graves consequências se você não �zesse.
B    . Nessa categoria entraria tudo o que
deveria ser feito, mas que não afeta se não o fazemos imediatamente.
Portanto, pode ser feito em segundo lugar, dando prioridade ao A.
C    . Engloba todas as coisas que
seria bom resolver, mas que não acontece nada se não forem feitas. Talvez
com o passar do tempo nos demos conta de que não eram nada
importantes,portanto, foi bom não fazê-las.
D      . Nem tudo se pode delegar, mas,
como já vimos anteriormente, há muitas coisas que não precisamos fazer
nós mesmos. Um mestre de TM será capaz de botar muitos Ds em sua
vida.
E      . Já vimos também no método
anterior. O que é irrelevante e pode ser apagado da lista sem nos afetar
em nada deve desaparecer agora mesmo de nossa vida.
O HOMEM QUE CONTAVA ESTRELAS
Em sua maravilhosa fábula O pequeno príncipe, o herói de Saint-Exupéry viaja
para um planeta onde um homem dedicou sua vida inteira a fazer a
contabilidade das estrelas.
Intrigado por essa atividade, o pequeno príncipe pergunta por que é tão
importante contar as estrelas, algo que o homem nunca teve tempo de fazer.
Então, responde irritadíssimo:
“Há 54 anos que habito neste planeta e não fui perturbado mais que três
vezes. A primeira vez foi há 22 anos, por um abelhão que caiu sabe Deus de
onde. Ele fazia um ruído espantoso, e cometi quatro erros em uma soma. A
segunda vez foi há 11 anos, por uma crise de reumatismo. Me faltam
exercícios. Não tenho tempo de passear. Sou uma pessoa séria. A terceira vez…
é esta!”
Esse personagem de �cção encarna de forma maravilhosa o arquétipo do
homem ocupado que, com uma péssima gestão do tempo, acha que tudo o que
faz é igualmente importante. Está tão atarefado que perdeu a capacidade de
pensar no que está realmente fazendo.
A lição que podemos extrair dessa passagem de O pequeno príncipe é que,
se você passa todos os dias contando estrelas, não terá tempo de captar seu
brilho mágico nem sua distância misteriosa. Muito melhor que contar estrelas é
poder se sentar para contemplá-las.
UM POUCO DE SÍNTESE
Preparar listas de coisas a fazer é uma forma de adiá-las.
O mais importante que devíamos fazer “antes de morrer” é,
simplesmente, VIVER.
Fazer as coisas em sua hora e lugar é muito mais efetivo que anotá-las em
uma lista.
A chave do TM é saber o que nós mesmos devemos fazer e o que
podemos delegar e eliminar.
É melhor fazer agora tudo aquilo que pode ser feito em menos de dois
minutos.
Há mais valor em contemplar uma estrela com paz interior do que
contabilizar milhares delas.
VIVA SIMPLESMENTE
MENOS É MAIS TEMPO
Gandhi nos deixou muitas frases inspiradoras. Entre elas: “Viva simplesmente
para que outros simplesmente vivam.” Ele também deixou entre seus poucos
bens um relógio Ingersoll. Garantem que era a primeira coisa para qual ele
olhava ao levantar às 4h, e a última coisa que consultava antes de dormir, às
vezes depois da meia-noite. Uma jornada intensa na qual nem ele nem seus
colaboradores se permitiam gastar um único minuto de forma desnecessária.
Em uma de suas cartas, ele escreveu: “Quem faz menos do que pode é um
ladrão.”
Ele era extremamente pontual, coisa pouco habitual em um país cujos
habitantes mostram uma atitude bastante relaxada em relação ao tempo. “Se
você se preocupa com a eternidade, uns poucos minutos quase nunca são
notados”, justi�ca-se o romancista R. K. Narayan, um clássico da literatura
indiana em inglês.
É que na �loso�a hindu o tempo não é linear, mas cíclico. Na verdade, as
palavras em hindi para ontem e amanhã são muito parecidas.
Mas se havia uma coisa que o libertador da índia tinha claro é que
exprimir o tempo não signi�ca se deixar levar pela corrente de excesso e
acumulação que se impõe no mundo. Por isso, seu conselho era: “viva
simplesmente”, desfazendo-se do desnecessário e �cando com o essencial.
Assim você criará espaço para mais serenidade e criatividade. Uma máxima
valiosa que também podemos aplicar à gestão de nosso tempo.
QUEM QUERO SER?
É muito difícil tomar decisões adequadas a respeito da gestão de seu tempo se
você não sabe aonde quer chegar. O mais provável é que você permaneça
“ocupado” em atividades que não o aproximam de seus objetivos. Por isso,
antes de mais nada você devia parar para re�etir sobre quem você quer ser e
como quer viver. Essa visão pessoal vai permitir que você organize suas
prioridades e tome decisões conscientes para não desperdiçar seu tempo com
coisas desnecessárias.
Uma vez feito isso, observe as atividades programadas em sua agenda.
Identi�que as essenciais para você, as que vão levá-lo para esses objetivos ou
vão gerar novas oportunidades para alcançá-los sempre de forma alinhada com
seus valores. Pense bem, já que aqui está a chave da simpli�cação: eliminar todo
o resto.
O plano não é �car mais e�ciente para abarcar tudo, mas manter o
essencial e tirar da agenda o que é acessório. Talvez pareça que você está
deixando de lado algumas aspirações, mas sempre poderá retomá-las. Lembre-
se das estações vitais das quais falamos no capítulo dedicado à arte de
envelhecer bem. Primeiro, ative sua atenção e concentre-se nas que agora são
verdadeiramente signi�cativas para você, as que vão levá-lo a gerar ganhos ou
outro tipo de satisfação.
Se trabalha para outra pessoa, assegure-se de conhecer bem os objetivos e
critérios de priorização que pedem a você. Haverá tarefas não tão importantes
que você precisará continuar fazendo. Simpli�que-as. Seja conciso e concreto
em seus telefonemas, em e-mails, em suas reuniões e recados.
Sem dúvida também haverá compromissos que enchem seu dia de
complexidade. É possível que você nem se lembre de por que chegaram à sua
agenda. Não os arraste por mais tempo. Decida conscientemente quais
almoços de trabalho você quer preservar e quais não; que encontros semanais
com determinadas pessoas consomem sua energia; que grupos de WhatsApp,
rituais familiares e atividades você começou há algum tempo e não têm mais
nada a ver com a pessoa que você é agora: nesse caso, dispense-os.
VOLTAR AO SIMPLES
Parece que a obsessão dos suíços com o tempo e a pontualidade vai além de
fabricar relógios excelentes, pois penetra em outras esferas da tranquila vida
nos cantões. Uma amiga que foi a um casamento em Genebra me contou
estupefata como os discursos da cerimônia tratavam mais de tempo que de
amor. O momento perfeito em que os noivos tinham se conhecido, os anos
que iam dividir, como o casal evoluiria com o tempo…
Aparentemente, o avô da noiva vivia tão convencido da exatidão de
seu relógio que se negava a fazer os ajustes horários.
A Suíça já tinha me conquistado devido à minha paixão por chocolate,
mas minha admiração cresceu quando em 2011 foi fundada o APPP (Anti
PowerPoint Party – Partido Anti-PowerPoint). Essa força política vê a si
mesma como defensora de 250 milhões de pessoas em todo o mundo que, a
cada mês, são obrigadas a assistir a apresentações entediantes de PowerPoint
nada motivadoras em empresas, universidades ou outras instituições.
Segundo suas estimativas, isso equivale a um custo para os suíços, com base
no salário-hora de seu público, de 2,1 bilhões de coroas. Em troca, propõe
outros formatos alternativos mais simples e efetivos, como um quadro com
cavalete.
Eu também sou partidária de voltar ao simples. Vamos concentrar
nossos esforços no mais elementar para chegar ao mais profundo.
UM LUGAR PARA CADA COISA
Quase todos os dias perdemos alguns minutos procurando alguma coisa, desde
as chaves até um documento que queríamos ler e não sabemos onde deixamos.
No capítulo sobre por que o tempo é serenidade falamos da importância não
só que a casa esteja limpa e organizada, mas que além disso o ambiente de
trabalho permaneça desimpedido. Isso inclui seu escritório, sua mesa e seu
computador.
Manter a área de trabalho limpa de ícones facilita o trabalho e a clareza
mental. E não se esqueça de repassar tudo ao �nal do dia. Que nada �que fora
de seu lugar… mas não acumule pelo simples fato de que lhe restam muitos
gigas de memória. Elimine tudo o que não seja imprescindível para seu
trabalho.
Falando de memória, a do ser humana é ine�ciente. Por isso, ajude-a
mantendo sua mente desimpedida de coisas não essenciais aqui e agora. As
tarefas pendentes devem ter seu lugar, e esse lugar não é seu cérebro. Escreva-
as. Mas, como já recomendei, não as deixe em uma lista. Procure seu espaço —
issoé, seu dia e hora — em sua agenda ou calendário.
SISTEMATIZE AS TAREFAS QUE REPETE
Se há tarefas importantes que você faz todos os dias, ou todas as semanas,
de�na para elas um processo. Por exemplo, suas publicações na internet ou a
elaboração de uma proposta para um cliente. Você pode fazer um diagrama de
boxes ou uma checklist simples com as ações que tem de fazer para realizá-las.
Fazendo isso, certamente você descobrirá algum passo que pode eliminar.
Além disso, servirá como guia, e economizará esforço mental e erros básicos
que às vezes cometemos ao fazer uma tarefa pela enésima vez.
Outro benefício: se algum dia você puder delegar essa tarefa, terá um
protocolo de�nido à perfeição. Embora em um primeiro momento isso pareça
uma carga extra de trabalho, vai economizar muito tempo.
SEPARE TEMPO PARA AS PEQUENAS COISAS
Centenas de estudos sobre a felicidade concordam que os fatores que a
promovem são os mais simples: saúde, relacionamentos, otimismo,
generosidade e saber viver o momento presente.
Os países do norte da Europa, que costumam estar no ranking dos mais
felizes, são especialistas em desfrutar das coisas simples. O Hygge dinamarquês
faz referência ao acolhedor, a saborear os pequenos detalhes cotidianos, a dizer
não ao ritmo trepidante e parar para saborear o agora. Para os alemães, a
Gemütlichkeit descreve uma atmosfera de tranquilidade ou comodidade na
qual apreciamos o que temos a nosso alcance e nos sentimos bem com isso.
Em um ambiente diametralmente oposto, executivos em postos de
liderança, diretores, presidentes ou vice-presidentes de empresas dos Estados
Unidos declararam na Harvard Business Review que encontrar tempo para as
pequenas interações cotidianas com seus �lhos, como levá-los à escola ou ao
médico ou nos passeios pela vizinhança, gerava os momentos que deixavam as
melhores lembranças. Além disso, agir assim lhes permitia liderar em seguida
sem se sentirem culpados no trabalho.
ADMINISTRE SUAS EMOÇÕES
Por que acumulamos ocupações? O que nos leva a encher nossa agenda com
muitas coisas que não são em absoluto essenciais?
Segundo Leo Babauta, autor do blog de sucesso Zen Habits, agimos
assim por medo da incerteza. Fugimos do temor que a falta de certeza e
controle sobre nossa vida gera em nós. Para evitar sentir decepção, medo e
ansiedade, fugimos de algumas tarefas essenciais e mergulhamos em distrações
que nos dão a sensação de voltar a tomar as rédeas.
O que podemos fazer para evitar que isso aconteça? Em seu blog, Leo
propõe quatro medidas para conviver com a incerteza:
C   . Quando perceber que está se
distraindo, tome um pouco de distância e volte a ela.
C-  ,    , 
-. Trabalhe nela por no mínimo 15 minutos ininterruptos.
T       . Explore
esse sentimento, observe as sensações em seu corpo. Aprenda a con�ar em
si mesmo, em sua bondade, e a estar bem apesar de tudo.
M    .
Se você trabalhar com esses hábitos, sua vida mudará para sempre.
UM POUCO DE SÍNTESE
Uma vida simples permite aproveitar muito melhor o tempo.
Saber o que quer ser e como quer viver ajudará você a organizar melhor
sua agenda para a frente.
A chave da simplicidade consiste em eliminar tudo o que sobra.
Manter nosso escritório em ordem — e também nosso computador — é
outra forma de poupar tempo e energia.
A gestão das emoções é básica para trabalhar de forma produtiva.
BENEFÍCIOS DA VITAMINA “N”
CADA “NÃO” DITO PARA O QUE VOCÊ NÃO QUER FAZER
É UM “SIM” PARA SI MESMO
É possível que mais de uma vez você tenha se sentido como o protagonista de
Sim senhor, de Jim Carey, que passa a dizer sim para tudo depois de ir a um
curioso seminário no qual lhe asseguram que para ser feliz e fazer as outras
pessoas felizes é preciso aceitar tudo o que lhe pedem.
Isso lhe colocará em inúmeras confusões e tornará sua vida muito mais
difícil do que já era.
Em outro �lme lançado meio século antes, o genial Se meu apartamento
falasse, de Billy Wilder, um funcionário de escritório acredita que obterá mais
reconhecimento em sua empresa se disser sim para tudo o que seus superiores
querem: basicamente que lhes empreste seu pequeno apartamento para
poderem ir ali com a amante da vez.
O personagem interpretado por Jack Lemmon se vê dormindo na rua
enquanto um casado libertino leva à sua casa a mulher por quem está
apaixonado, e não sairá de sua miséria moral até que se atreva a dizer não.
Dois �lmes com dois enfoques diferentes: o executivo implacável que se
obriga a dizer sim; o empregado submisso que precisa aprender a dizer não.
Esse último é muito mais difícil para nós que o primeiro, que está pré-
instalado em nossa forma de funcionar, por isso vamos trabalhar com o “não”,
que pronunciado a tempo pode nos economizar uma quantidade enorme de
horas. Literalmente, pode salvar nossa vida.
POR QUE É TÃO DIFÍCIL DIZER “NÃO”?
Hedwig Kellner responde a essa pergunta em A arte de dizer não, apontando os
seguintes motivos que nos levam ao “sim” quando desejamos expressar o
contrário:
O desejo de nos sentirmos amados.
Sermos viciados em agradecimento.
O medo de perder a simpatia dos outros.
A angústia diante de possíveis con�itos.
Não ser capaz de enfrentar a pressão externa.
Nossa própria insegurança.
O grande problema tem origem no que entregamos em troca desse sim:
nosso tempo. Daí vem a crença de que o “não” é mais fácil para as pessoas
poderosas, que podem deixar passar oportunidades.
Em uma interessante re�exão, James Clear a�rma:
“Quando você diz não, está apenas negando uma opção; quando diz sim,
está negando todas as outras opções.”
Considerando que o tempo que nos é dado nesta vida é limitado, dizer
“não” é a única maneira de se liberar para poder se concentrar naquilo pelo
que você é apaixonado.
O QUE SIGNIFICA DIZER “NÃO”?
“As pessoas acreditam que a concentração implica dizer ‘sim’ para aquilo em
que você precisa se concentrar. Mas isso não é o que realmente signi�ca.
Signi�ca dizer ‘não’ para as outras cem ideias que existem. É preciso escolher
com critério.”
STEVE JOBS
CHAVES DA ASSERTIVIDADE
Dizer “não” sem se sentir mal é um grande sinal de assertividade. Essa palavra
tão em voga ultimamente de�ne a capacidade de expressar nossos sentimentos
e opiniões de modo compreensível para as outras pessoas, sem ofendê-las ou
desmerecê-las. Ser assertivos nos permite interagir com as outras pessoas,
afastados da evasão, da passividade ou da agressividade.
A assertividade demonstrou ser bené�ca até para pessoas com vivências
especialmente duras. Por essa razão, o Center for Integrated Healthcare (CIH),
que promove a saúde mental dos veteranos de guerra dos Estados Unidos, dá
algumas chaves para falar com um grau saudável de assertividade.
Tenha dignidade e respeito por você mesmo.
Diga não quando houver justi�cativa, sem se sentir culpado.
Expresse seus sentimentos.
Peça diretamente aquilo de que precisa.
Aceite cometer erros.
Se os veteranos de guerra, que sofreram o inimaginável em países
distantes, são capazes de assumir esse tipo de conduta, não podemos também
fazer o mesmo com uma vida mais simples?
O PÊNDULO DA ASSERTIVIDADE
Quando se começa a mudança para uma postura assertiva, depois de ter
“engolido” e aturado todo tipo de ofensas e abusos, é possível que as sementes
do rancor acabem fazendo brotar uma assertividade “mal calibrada”, usando
um termo cunhado por especialistas, que também falam do “pêndulo da
assertividade”.
Depois de anos de passividade, a primeira reação costuma ser de certa
violência, como a fera enjaulada que arremete contra tudo o que tem a sua
frente quando são abertas as portas de sua prisão. O efeito contrário, de
agressivo a passivo, também é contraproducente, mas menos vistoso: a
primeira reação pode ser �car calado e não dizer mais nada, uma coisa tão
negativa quanto parecer violento.
Por isso devemos ser cuidadosos ao passar da inibição para uma postura
ativa a �m de defender nossos direitos e nossotempo. Embora, a princípio, o
pêndulo lançado de um lado vá para o outro, em pouco tempo ele vai se
calibrar no centro.
Como aprende o protagonista de Sim senhor, �lme que mencionamos no
início deste capítulo, e que no circuito comercial da Espanha foi traduzido
como Di que sí [Diga que sim, em tradução livre], trata-se de encontrar o
equilíbrio certo. Não se trata de doar nosso tempo de forma indiscriminada,
mas tampouco de erguer um muro entre nós e as outras pessoas.
É
É preciso começar traduzindo em unidades de tempo aquilo que nos
propõem, para assim decidir se queremos dedicar essa porção de nossa vida a
isso. Se a resposta for não, a assertividade nos ajudará exatamente a comunicar
isso de forma que não seja ofensiva.
NOSSO CORPO FALA
Um grande especialista sobre o assunto na América Latina, o psicólogo Walter
Riso, explica em seu ensaio Cuestión de dignidad: aprenda a decir no y gane
autoestima siendo assertivo (Questão de dignidade: aprenda a dizer não e ganhe
autoestima sendo assertivo) os pontos fundamentais para que essa virtude não se
torne ofensiva para nosso interlocutor:
Olhar nos olhos. Quando o olhar se desvia, costuma gerar descon�ança,
o que é próprio das pessoas passivas. Contudo, o olhar deve ser tranquilo
e relaxado. Um olhar �xo e ameaçador é próprio das pessoas agressivas.
O volume da voz. As pessoas que baixam a voz não são assertivas e não
mostram segurança, enquanto as assertivas conseguem uma boa
comunicação com um volume de voz adequado.
Fluidez verbal. A pessoa assertiva é segura e não pensará nas respostas por
muito tempo, já que isso transmitiria descon�ança por falta de recursos
comunicativos.
A postura. Permanecer erguido e seguro é o contrário do que faz a pessoa
que não é assertiva, que curva os ombros, transmitindo a sensação de que
quer apenas não incomodar e desaparecer.
O conteúdo verbal da mensagem. Além da linguagem não verbal, o que
dizemos por meio das palavras deve ser claro, direto e respeitoso com as
outras pessoas e com nossos próprios pensamentos.
Esse último ponto talvez contenha a essência do que seria uma
assertividade saudável sem nos enchermos de “vitamina N”, o que nos
converteria em pessoas esquivas ou até mesmo intratáveis.
É preciso encontrar um equilíbrio entre compartilhar e preservar nosso
tempo, saber quando temos de nos doar e quando convém nos reservar. O
TM seria o centro entre os dois extremos do pêndulo; encontrar a medida
exata entre o que uma pessoa precisa para estar bem consigo mesma e com sua
colaboração com o mundo.
UM POUCO DE SÍNTESE
É muito mais fácil dizer “sim” do que “não” por medo de perder pontos
com as outras pessoas.
Cada vez que dizemos “sim” para alguma coisa ou alguém, negamos
todas as outras opções.
Quando começamos a ser assertivos, depois de termos passado anos
“engolindo” tudo, é possível ir ao outro extremo, mas com o tempo o
pêndulo vai se equilibrar.
Sempre que nos �zerem uma proposta, é importante “traduzi-la” em
tempo, saber que porção de nossa vida isso custará.
A linguagem do corpo é um suporte importante para a assertividade.
A chave da realização está no equilíbrio entre o tempo que damos e o
que reservamos para nós mesmos.
A VERDADEIRA PRODUTIVIDADE
VAMOS DAR FIM AOS FALSOS MITOS
“Não basta estar ocupados, as formigas também estão. A pergunta é: em que
estamos ocupados?” Essa frase do pensador norte-americano H. D. oreau
tem um século e meio, o que demonstra que a produtividade não é uma
obsessão nova.
Somos precedidos por milhares de horas de estudos e de páginas
publicadas sobre um tema que não terminamos de interiorizar. Continuamos
en�leirando jornadas intermináveis de trabalho sem nos desconectar durante
os breves períodos que passamos fora dele, o que nos afasta de uma vida
equilibrada e, paradoxalmente, também da própria produtividade.
A produtividade não tem nada a ver com esquentar a cadeira durante
horas, o chamado “presentismo”. Também não signi�ca realizar as tarefas de
forma mais rápida, sob pressão. Trata-se de realizar as tarefas adequadas, aquelas
que aproximam você de suas metas, e liberar tempo para se dedicar aos
propósitos não pro�ssionais que dão sentido a sua vida.
As formigas não re�etem sobre essas coisas; mas nós, sim, temos de fazer
isso, e depressa.
AS HORAS DE TRABALHO NEM SEMPRE SOMAM
Esse é o primeiro mito que precisamos destruir. Em meu livro Money
Mindfulness já adiantei que, sem menosprezar a virtude do esforço, a inércia
das horas extras — frequentemente não remuneradas — e a cultura presencial
são duas manifestações da crença disfuncional de que nascemos para trabalhar,
e não o contrário.
Uma das razões por que a jornada de trabalho se reduziu para oito horas
foi que as empresas observaram a relação inversa entre sobrecarga de trabalho e
produtividade.
No início do século XX, Henry Ford reduziu a jornada de trabalho,
dobrou os salários, deu descanso a seus trabalhadores e, em dois anos, dobrou
sua margem de lucro. Hoje em dia, na Suécia foi demonstrado que as
enfermeiras que trabalham seis horas nos centros de repouso interagem 85%
mais com os idosos que aquelas com jornadas de oito horas. Enquanto isso, os
trabalhadores de países como o México ou a Rússia dedicam à empresa 40%
mais de tempo que um alemão ou um holandês e não conseguem se aproximar
dos níveis de competitividade desses últimos. Na Espanha, foi aprovada uma
norma para o controle do horário dos trabalhadores, que costuma se estender
fora do escritório. Ainda é cedo para saber se essa medida terá algum efeito
para acabar com essas práticas, mas pelo menos foi dado o primeiro passo.
Nossa consciência despertou para um novo paradigma: trabalhamos para viver,
não o contrário.
MENOS É MAIS
A lei de Parkinson, formulada por Cyril Northcote Parkinson, explica que o
trabalho se expande até encher o tempo disponível para que seja feito.
Ao contrário disso, estabelecer limites nos ajuda a nos concentrar, a
priorizar e a simpli�car, tornando-nos mais produtivos. Quando contamos
com um tempo determinado, apreciamos isso de forma apropriada e o
utilizamos para fazer o que é realmente importante e nos bene�ciará.
Mais de um século depois dessa tese, Tim Ferriss, autor do best-seller
internacional Trabalhe 4 horas por semana, se perguntava: é normal trabalhar
quarenta horas por semana (se não mais) para conseguir uma aposentadoria
merecida aos 65 (se não mais) e começar a viver a vida?
Para criar um paradigma, ele propõe um protocolo que inclui a
eliminação de determinadas tarefas, pois considera que nosso trabalho está
cheio de “poucos vitais e muitos triviais”, e a falta de tempo é na verdade uma
falta de prioridades que tem sua origem na comodidade, pois fazemos
primeiro o que é mais simples.
A SAÚDE É O PRIMEIRO
Meu pai costumava dizer: não reclame do trabalho, que é saúde. Para ele, estar
desocupado equivalia a doença… talvez porque quando chegava em casa eu e
meus sete irmãos esperássemos por ele. Brincadeiras à parte, porque ele nos
amava muito, meu pai pertencia a essa geração que nasceu na escassez e achava
que era preciso trabalhar até não aguentar mais para ganhar a vida, como se a
existência fosse algo que se precisa comprar com horas intermináveis de
trabalho.
Um estudo do University College London na Europa, nos Estados
Unidos e na Austrália publicado na revista médica Lancet em 2015 determinou
que, quanto mais longa é a semana de trabalho, maior o risco de acidente
vascular cerebral. As pessoas que trabalham entre 41 e 48 horas têm 10% mais
risco do que aquelas que têm jornadas de 35 a quarenta horas, subindo para
33% para aquelas com semanas de 55 horas, que também têm maior
possibilidade de sofrer uma doença coronária
Certamente as horas dedicadas à empresa não são por si só as causadoras
desses males, mas favorecem outros fatores de risco como por exemplo a falta
de atividade física e o consumo exagerado de álcool. Além disso, como esses
trabalhadores estão sempre com a cabeça em outro lugar (o oposto do TM),
costumam ignorar os sinais de advertência,e com isso se atrasam o diagnóstico
e o tratamento.
Todos sabem que o cansaço e o estresse provocados pelos horários
excessivos não apenas resultam em um menor rendimento, mas além disso
aumentam a probabilidade de erros, acidentes e outras enfermidades que
favorecem o absenteísmo, com o custo que isso implica. Sem ir muito longe,
calcula-se que o estresse no trabalho custe à União Europeia entre 2,6% e
3,8% do PIB.
No outro extremo do mundo, no Japão, que até abril de 2019 não
contava com uma legislação que limitasse as horas semanais ou extras, há uma
taxa tão alta de falecimento por doenças físicas ou suicídios derivados da
pressão do trabalho que até deram um nome a isso: karoshi, ou “morte por
excesso de trabalho”.
NÃO VOU FAZER HORA EXTRA, PONTO!
Yui Higashiyama, protagonista de uma série de TV que todo mundo assiste
no Japão, é gestora de projetos em uma empresa que luta para encontrar o
equilíbrio entre a vida pessoal e a pro�ssional. Ela quer apenas sair do
escritório e passar em seu bar favorito durante o happy hour.
Akeno, pseudônimo da autora do romance em que se baseia a série,
explicou sua experiência pessoal em uma entrevista para o New York Times:
“Levei muito tempo para aceitar que não há problema em não trabalhar nos
�ns de semana ou à noite durante a semana… No Japão, o que se considera
honrado não é o que você consegue, mas que nunca tire um descanso.”
Não é preciso ir muito longe: Kasumi Yao, o produtor da série, não
tira férias há 12 anos. É que a ideia de que o trabalho exige um grande
sacrifício pessoal está muito arraigada em sua cultura, em todos os níveis.
A má notícia é que talvez você esteja mais perto do drama pro�ssional
nipônico do que imagina.
Pergunte se sua saúde deixou de ser a prioridade. Tem dor nas costas
devido às más posturas no trabalho e não vai ao massagista porque não tem
tempo? Sofre de insônia devido às preocupações que leva para casa em sua
pasta e, em vez de melhorar de hábitos ou padrões no escritório, toma um
comprimido?
Proponho a você uma forma de saber se sua saúde psicológica está em
jogo. Basta responder a estas três perguntas:
Parece que o resto de seus colegas e amigos não trabalham nada em
comparação com você?
Você acredita que se perdesse seu trabalho não seria ninguém, porque o
resto de sua vida seria um fracasso?
De um dia para outro você deixou de fazer atividades de lazer que sempre
foram uma fonte de diversão e alegria?
Todos passamos por picos extremos de trabalho. Um de meus primos,
grande empreendedor, me disse faz pouco tempo: “Aos domingos, enquanto
faço minhas necessidades, mando e-mails com o telefone.” Mas ele sabe que se
trata de uma coisa excepcional devido à fase de crescimento de sua empresa; ou
pelo menos tomou consciência de que essa situação não pode se transformar
em uma coisa normal e está preparando mudanças estruturais em sua vida.
Que este seja o último dia que você se sinta culpado por ir embora do
escritório quando acabar sua jornada de trabalho, ou por fazer isso antes das
outras pessoas. Isso não tem nada a ver com seu compromisso com o trabalho
nem com um desempenho adequado.
VIVER OCUPADO OU NÃO VIVER, EIS A QUESTÃO
“A vida é curta demais para estar ocupado”, diz o ensaísta e caricaturista Tim
Kreider.
Essa frase podia ser a solução para o segundo mito que pretendo destruir
neste capítulo. Entretanto, para muitas pessoas estar sempre ocupadas parece
um princípio religioso, um mantra vital. Parece ser um sintoma de alto status,
e de que as coisas vão muito bem para nós. Quando alguém nos pergunta
“Como vai você?”, respondemos: “Ufa, superatarefada.” E o outro responde:
“Melhor isso que o contrário, não?”
Confundimos estar ocupados com ser produtivos. Se não pulamos de
uma atividade para outra e não temos uma montanha de projetos pendentes,
nos sentimos ansiosos. Mas ocupar nosso tempo fazendo coisas que não nos
aproximam de nossos objetivos é pior que não fazer nada. Acabamos tomando
decisões ruins, �camos desmotivados, estressados e até esgotados.
Essa histeria coletiva transcende o trabalho e atinge nossos �lhos. Nós os
botamos em atividades extraescolares, de �m de semana, de férias,
acampamentos urbanos, rurais, viagens de família… Estamos todos
superocupados, somos uma família de muito sucesso! Mas a realidade é bem
diferente. O que estamos é esgotados.
A solução para a atividade intensa da falsa ocupação não é �car ocioso
nem ser preguiçoso. É sair dessa armadilha e recuperar o controle de nosso
tempo, no lugar de nos deixarmos levar. Pergunte a si mesmo qual é o uso
mais e�ciente de seu tempo hoje. Preste atenção e seja consciente de que fazer
uma coisa signi�ca deixar de fazer outra.
Como observou Peter Drucker, o pai da gestão empresarial: “Não há
nada tão inútil quanto fazer com grande e�ciência uma coisa que não devia ter
sido feita.”
CUIDADO, M&M’S NO ESCRITÓRIO!
Para Jason Fried, um dos fundadores do Basecamp e autor de vários livros
sobre produtividade, há dois fatores no escritório que nos mantêm
plenamente ocupados ao mesmo tempo que nos impedem de desenvolver
nosso trabalho com e�cácia: os M&M’s (Meetings e Managers — reuniões e
gerentes).
Para Fried, as reuniões são uma coisa tóxica e venenosa com um
grande custo para a empresa, já que não se perde uma hora, mas uma hora
por pessoa presente. Ele nos propõe um jogo: cancele agora mesmo a
próxima reunião e verá que não acontece absolutamente nada.
Por sua vez, os gerentes nos interrompem constantemente fazendo seu
trabalho, ou seja, assegurando-se de que os outros o façam. Essa é uma das
manifestações do micromanagement, ao que dediquei espaço em Money
Mindfulness. Eles nos perguntam como estamos e se já terminamos com isto
ou aquilo, ou quando vamos terminar, e, o cúmulo, convocam reuniões!
A CENTELHA ADEQUADA
Nosso sucesso não depende apenas do que fazemos durante nossa jornada de
trabalho, mas de encontrar um equilíbrio adequado entre a vida pro�ssional e
a pessoal.
Shawn Achor, autor de O jeito Harvard de ser feliz, determinou que em
uma “empresa feliz”, com funcionários que se sentem realizados com o que
fazem, as vendas aumentam 37%, e a produtividade, 31%, sem mencionar as
melhoras na qualidade de vida e na saúde do pessoal. Não é que trabalhando
duro você obterá o sucesso que vai conduzi-lo à felicidade, mas ser feliz vai
estimulá-lo a trabalhar mais duro e alcançar o sucesso.
Como favorecer esse equilíbrio desejado? James Clear, um autor que
mencionamos mais de uma vez neste livro, utiliza a teoria das quatro bocas.
Imaginemos que nossa vida é representada por uma cozinha com um
fogão de quatro bocas que simbolizam: família, amigos, saúde e trabalho. Essa
teoria sustenta que: “Para ter sucesso, devemos apagar uma das bocas. E para
sermos realmente bem-sucedidos temos que cortar duas.”
Se deseja se sobressair em seu trabalho e em seu casamento, seus amigos e
sua saúde sofrerão. Se quer estar saudável e ter sucesso como pai, pode ser
obrigado a reduzir suas ambições pro�ssionais.
Precisamos escolher. Que bocas você quer manter acesas em sua vida?
A teoria das quatro bocas revela uma verdade que não gostamos de
escutar: não podemos ter tudo. E nos faz tomar consciência de que o tempo é
limitado. “Que bocas você apagou para manter acesa a chama das outras?”
Sêneca dizia que “o que menos ocupa o homem ocupado é viver”.
Prestando atenção a cada hora e a cada minuto vamos conseguir que esse não
seja nosso caso.
UM POUCO DE SÍNTESE
Esquentar a cadeira durante muitas horas não é ser produtivo. Às vezes,
o resultado é justamente o contrário.
Quando delimitamos um tempo para realizar um trabalho, somos muito
mais efetivos que se dispomos de mais horas ou dias.
O excesso de horas de trabalho põe em sério risco nossa saúde.
Encher o tempo livre de atividades é outra forma de nos esgotarmos sem
que haja razão para isso.
As reuniões e o controle desnecessário do trabalho dos outros são dois
buracos negros pelos quais o tempo escapa.
O tempo excessivo que dedicamos a nossa carreira pro�ssional é
roubado denossa vida pessoal e familiar.
TRANSFORME A TECNOLOGIA EM SUA
ALIADA
SUAS MÁQUINAS DO TEMPO
Quando fantasiamos a respeito do futuro, deixando de lado o contato com
extraterrestres e a vida em outros planetas, sempre chega um dia em que a
tecnologia acaba superando o ser humano. De certa forma, já somos escravos
dos monstros que criamos; o Big Data, a inteligência arti�cial, algoritmos que
decidem por nós porque sabem mais de nós do que nós mesmos… E, como já
vimos em capítulos anteriores, de aplicativos que roubam nossa atenção e
nosso recurso mais valioso: o tempo.
Mas não é a tecnologia que determina se você é produtivo ou
improdutivo, feliz ou infeliz, livre ou viciado. Tudo depende do uso que você
faz dela.
Como explica o físico Michio Kaku: “A potência dos computadores
dobra a cada 18 meses. Hoje seu telefone já é mais potente que o computador
da NASA que levou o homem à Lua. Esse é o poder que existe em seu telefone
celular!” Imagine o que poderíamos fazer se usássemos com cabeça esse poder
incrível que temos no bolso?
Enquanto esperamos que a máquina do tempo deixe de ser também uma
coisa do futuro, vamos aprender a usar essa tecnologia como nossa aliada para
que nos ajude a estender as horas e a melhorar a produtividade.
BASTAM CINCO MINUTOS PARA SONHAR TODA UMA VIDA
Ultimamente se fala da tecnologia do bem-estar, de converter o tempo que
passamos em frente a uma tela em tempo de qualidade. As empresas
tecnológicas parecem se somar ao chamado: Mark Zuckerberg tinha como
desa�o pessoal para o ano 2018 que o tempo passado no Facebook fosse bem
investido.
Muitos consideram o movimento uma simples maquiagem, pois seus
resultados econômicos dependem do tempo que passamos conectados. E,
sejamos conscientes disso ou não, continuamos a �nanciá-los com nossa
atenção e nosso tempo. A prova disso é que cerca de 70% das visitas ao
YouTube vêm das recomendações feitas pela própria página, otimizadas
segundo os gostos e as visitas anteriores. Só 30% são visitas que a pessoa decide
conscientemente por conta própria.
Quem se preocupou com esse tema desde que trabalhou no
departamento de ética no design do Google foi Tristan Harris, diretor e um
dos fundadores do Center for Human Technology. Por meio dessa organização
é feito um chamado a projetar tecnologia que proteja as pessoas, devolvendo
ao ser humano a atenção que ela nos roubou.
Recomendo visitar a página em que ele explica seu gigantesco plano de
ação, que oferece muitos recursos, informação e bons conselhos. Em um
projeto desenvolvido com o Moment, um aplicativo que ajuda as pessoas a
rastrear seu tempo diante da tela, um grupo de duzentos mil usuários de
iPhone foi questionado sobre o uso que faziam dos aplicativos. A conclusão foi
que “nossos sentimentos sobre os aplicativos dependem de quanto tempo
passamos neles”.
Em relação ao Facebook, sou feliz se passo 22 minutos na rede por dia,
mas infeliz se prolongo isso até 59 minutos. A Net�ix me dá quarenta minutos
de uma felicidade que, ao chegar a 1,22 hora, se converte em arrependimento.
E com Candy Crush são 12 minutos por dia de balas deliciosas que �cam
indigestas depois de 47 minutos presa ao jogo.
Na próxima página, você verá um de seus grá�cos que fala por si:
Fonte: Center for Human Technology & Moment
Em Money Mindfulness, compartilhei o princípio dos 15 gramas de
chocolate, uma ferramenta muito saudável para o estômago e para o bolso. O
que nos proporciona o verdadeiro prazer é a primeira mordida, enquanto o
resto da barra é comido por inércia, gula ou outros impulsos igualmente
prejudiciais. Isso pode ser extrapolado para qualquer outro aspecto de nossa
vida. Comer 15 gramas não signi�ca viver com escassez, mas desfrutar das
coisas com plenitude, concentrando-se em cada mordida sem pensar na
próxima.
“Cinco minutos bastam para sonhar uma vida inteira”, dizia Mario
Benedetti. Mas como parar nos cinco minutos? Basta recuperar a atenção.
TIME MANTRA
As ferramentas de controle que podemos encontrar em nosso telefone ou
nosso computador nos mostram quanto tempo passamos nos aplicativos, e
também nos permitem bloquear as noti�cações. Isso nos ajuda a tomar
consciência de como usamos o telefone, nossa máquina favorita; mas é só um
primeiro passo. Nós mesmos devemos mudar nossos hábitos nocivos.
Na maioria das vezes que consultamos o celular fazemos isso de forma
automática, como se fosse um re�exo, sem prestar atenção nenhuma. Na
Espanha, fazemos isso em média a cada dez minutos. É a primeira coisa que
olhamos ao acordar e a última quando vamos dormir. E não só isso. Depois
que entramos em um aplicativo, de forma igualmente inconsciente �camos
nele por um tempo inde�nido.
Para evitar isso, prestemos atenção ao instante em que pegamos o celular.
Qual o fundo de bloqueio de tela você usa? Talvez uma foto de pessoas
queridas, uma paisagem na qual você passou um momento feliz ou que
gostaria de visitar, um quadro que acha inspirador… Tudo isso está bem, mas e
se usássemos a tela para nos libertarmos dela?
Sugiro que o fundo que apareça sempre que você o ligue mostre as
seguintes perguntas escritas:
Quero mesmo abrir esse aplicativo?
Para que estou fazendo isso?
Tenho tempo para isso?
Ser obrigado a ler e responder a esse mantra simples toda vez que sentir o
impulso de se conectar lhe permitirá salvar uma grande quantidade de atenção
e de tempo.
A primeira pergunta faz com que você perceba se a decisão de pegar o
celular foi ou não consciente. A segunda vai alertá-lo sobre a possibilidade de
estar fugindo de alguma coisa. Em relação à terceira, se você decide que tem
tempo, lembre-se de não passar dele.
Na página online de Julie Morgenstern, consultora de organização e
produtividade há mais de trinta anos, você pode encontrar fundos para seu
telefone com mensagens como “Be Here Now” [“Esteja aqui agora”], que vão
ajudá-lo a evitar o chamado da tecnologia durante refeições em família, estudo,
leitura ou tempo com seus amigos ou seu parceiro.
FOREST: O BOSQUE DE MEUS OBJETIVOS CUMPRIDOS
Este aplicativo promete ajudá-lo a vencer a tentação constante de �car
olhando o telefone e se concentrar no que está fazendo no trabalho, nos
estudos, com a família ou amigos. Tudo isso em troca dos 0,99 euros que
custa a versão básica.
Ele funciona da seguinte maneira: escolha um tempo durante o qual
você tenha de estar concentrado em uma tarefa, em seu objetivo. Então
você planta a semente de sua árvore e nasce uma planta. O celular é
bloqueado enquanto a planta cresce e você vai cumprindo seu objetivo. Mas
se você não derrota a tentação e sai do aplicativo para usar o celular…
Horror! Sua árvore morre.
À medida que cumpre seus objetivos, graças a seu tempo de
concentração, você vai criando seu próprio bosque virtual. E, como bônus
extra, recebe moedas virtuais que podem ser trocadas por outras espécies ou
por uma árvore de verdade, que será plantada em um bosque de verdade.
Seus criadores trabalham junto com a ONG Trees for the Future e
garantem que “até agora, o Forest ajudou nossos usuários a economizar 3,3
milhões de horas e a plantar mais de oito mil árvores reais sobre a Terra”.
Bendito seja o fruto de nossa concentração!
Caso acredite que o time mantra não será su�ciente e você precisa de um
complemento, aqui estão outras três propostas:
Procure hábitos alternativos. Em vez de lutar contra seus hábitos
nocivos tentando apenas não os realizar, substitua-os por outros hábitos
que lhe proporcionem um benefício. À noite, não carregue o telefone em
seu quarto, deixe-o do lado de fora, em troca ponha a roupa para fazer
ginástica bem perto de sua mesinha. Assim que se levantar, não con�ra
suas redes sociais; faça uma série de exercícios ou uma sessão de ioga.
Evite-as também ao se deitar; volte a ler um livro, como você fazia
quando os celulares só serviam para fazer ligações telefônicas, e as
plataformas digitais de conteúdo não existiam.
Crie seu “espaço de tecnologia zero”. Há quem tenha um quarto do
pânico completamente fechado e inacessível para se proteger deladrões.
Por que não fazer a mesma coisa com os ladrões de tempo? Escolha um
quarto — basta um canto — para fazer as coisas que importam mais que
as outras e que precisam de toda sua atenção, deixando de fora todas as
ferramentas tecnológicas. Você pode ter à porta uma estantezinha onde
botar seu telefone, como se fosse o controle de segurança de um
aeroporto. Você verá como, em pouco tempo, graças à calma do refúgio
que você vai respirar, esse lugar se converterá em seu espaço favorito.
Seja exigente e seletivo. Julie Morgenstern recomenda não ter mais de
quatro canais de comunicação entre todos os que existem: e-mail,
mensagens de texto, mensagens de Facebook, Twitter, Instagram,
chamadas telefônicas… Estabeleça limites para o conteúdo que você
consome, já que boa parte da informação que absorvemos não agrega
valor a nossa vida. Você por acaso leria sobre um assunto que não o atrai
em nada? Vale a pena gastar seu tempo com pessoas que não levam nada a
você além de drama e agressividade, ou só eu acho que no Twitter há
muita gente irritada?
ALGUNS CONSELHOS PARA TRANSFORMAR A TECNOLOGIA EM
SUA ALIADA
Use a câmera, as notas ou as anotações de voz de seu telefone para liberar
sua mente e economizar tempo ao procurar seu carro no estacionamento
ou buscar recomendações de livros e séries.
Se ainda assiste à TV ao vivo, não é nenhuma novidade que você perde
uma quantidade de tempo enorme com os anúncios. Grave esse
programa que tanto lhe interessa.
Programe o tempo que dedicará a uma série, a não ser que o plano seja
dedicar uma tarde para ver todas as temporadas de uma vez. Em geral,
programe os tempos de qualquer atividade que não seja muito produtiva.
Utilize o tempo de seus deslocamentos para escutar podcasts sobre
qualquer assunto de seu interesse, áudio-livros ou para começar a estudar
uma língua. Se o corpo pede Candy Crush, lembre-se: não mais que 12
minutos, ou suas balas �carão amargas.
Use a gestão eletrônica para tudo o que seja possível: gestão de bancos,
boletos, impostos, mudanças de provedores de serviços etc. Assim você
evitará deslocamentos e �las.
Há muitas funcionalidades e comandos em seu celular, tablet ou
computador que você não usa e que o fariam ganhar muito tempo. Por
exemplo, o matemático e professor norte-americano Jake Miller ensina
truques e atalhos para tirar o máximo de proveito de cada ferramenta do
Google. Procure seus tutoriais gratuitos em suas redes sociais e você
aprenderá como unir o Gmail ao calendário, entre outras muitas coisas.
UM POUCO SE SÍNTESE
A tecnologia em si não é boa nem má, tudo depende do uso que
fazemos dela.
O uso moderado das telas nos proporciona felicidade, e não
arrependimento. A chave está em parar a tempo.
Em média, consultamos o celular de forma automática a cada dez
minutos.
Uma mensagem na tela ou no fundo do celular pode ajudá-lo a fazer um
uso consciente dele.
Você pode ter em sua casa um santuário livre de tecnologia.
Há aplicativos e programas que nos ajudam a otimizar o tempo que
passamos com os dispositivos.
A BÚSSOLA DOS BIORRITMOS
O MUNDO É PARA AS COTOVIAS
Cada uma de nossas células tem um relógio biológico impresso em seu
genoma. Graças a ele, o corpo é capaz de controlar o ritmo de todas as
atividades orgânicas que se repetem de forma periódica, na verdade aquelas que
correspondem ao ciclo de um dia, como comer ou dormir.
Há mais de duzentos anos, o astrônomo Jean Jacques d’Ortous de
Mairan percebeu a existência desse tique-taque interno quando notou que as
plantas de mimosa se abriam durante o dia para receber a luz do sol e se
fechavam à noite para se despedir dele… uma coisa que continuavam a fazer
em testes dentro de um quarto escuro. Com ou sem luz, o tique-taque
continuava.
Com os seres humanos acontece o mesmo. Nosso relógio biológico nos
ajuda a nos sincronizarmos com as �utuações de subida e descida da luz solar e
a nos adaptar aos padrões de um dia graças ao que conhecemos como ritmo
circadiano. Isso explica que, por exemplo, seu sistema cardiovascular se prepara
para as variações posturais que você adota durante o repouso noturno.
Entretanto, apesar de esse relógio interno ter sido criado evolutivamente
para nos ajudar a viver, muitas vezes nos empenhamos em ir contra seus
ponteiros, o que leva a consequências nefastas.
EM CONTRACORRENTE
Um exemplo típico — e curioso — de reação adversa produzida quando
alteramos o ritmo é o jet lag. Ao voar por muitas horas a favor ou contra a
rotação do planeta, submetemos o corpo a uma mudança brusca de horários, e
nosso organismo se descontrola.
Outros mais graves poderiam ser os transtornos do sono resultantes de
um hábito tão simples quanto olhar o celular por muito tempo quando vamos
para a cama. Como o sol é o regulador que a cada manhã acerta nosso relógio
biológico, o cérebro responde de maneira muito sensível aos sinais luminosos.
Por isso �camos com sono algumas horas depois do crepúsculo, uma resposta
que pode se alterar devido à exposição contínua à luz arti�cial de seu celular.
Está cienti�camente comprovado: o bom funcionamento de nosso
relógio biológico — e, portanto, de nosso organismo e de nosso cérebro —
tem relação direta com a organização de nossa existência.
Michael Young, Prêmio Nobel de Medicina em 2017 por seus estudos
sobre os mecanismos moleculares que fazem funcionar o relógio interno, disse
em uma entrevista para a BBC Mundo: “Não há forma de regular os níveis de
proteínas que controlam o ritmo circadiano com remédios, mas podemos
mantê-las em um nível adequado cuidando dos horários das refeições e do
sono.”
Entretanto, nos empenhamos em romper com nossos ritmos, indo
contra a natureza para adaptar nossa agenda às exigências de longas jornadas de
trabalho, entre outras áreas de nossa vida.
Como vamos ver adiante, precisamos estabelecer um cronoplano se não
queremos sofrer, em médio e longo prazos, consequências muito mais graves
que um jet lag inofensivo por ter cruzado o oceano.
JET LAG SOCIAL
Se chega a sexta-feira e você vai se deitar mais tarde do que o habitual,
porque resolveu socializar ou porque �cou jogado no sofá vendo três
capítulos de sua série favorita, e no sábado se levanta tarde e volta a se deitar
tarde porque dormirá na manhã de domingo, provavelmente você sofrerá
de jet lag social.
Segundo um estudo �nanciado pelo Conselho de Investigação Médica
do Reino Unido e o Instituto Nacional para o Envelhecimento dos Estados
Unidos, não é importante apenas o número de horas que dormimos, mas
também a regularidade de nossos horários. A variação temporal limite nas
suas rotinas a partir da qual começam a ser observados biomarcadores pouco
saudáveis em seu corpo é de duas horas.
Os reajustes superiores dos horários de sono entre os dias de trabalho e
os dias livres alteram nosso ritmo circadiano. O efeito mais óbvio é nos
sentirmos sonolentos, mal-humorados e fadigados. Os estudantes
universitários que seguem horários irregulares demonstram pior qualidade
de sono e um consequente pior rendimento acadêmico.
Como o ritmo circadiano controla processos tão importantes como a
secreção hormonal ou a atividade das células imunológicas, há uma
correlação entre o desajuste de horário e o aumento do risco de sofrer
depressão, obesidade, doenças cardíacas ou diabetes.
Se você muda constantemente seus horários de sono e, portanto, a
exposição à luz durante os �ns de semana, os relógios em seus órgãos e
tecidos estarão sempre fora de sincronia.
QUAL É SEU CRONOTIPO?
É possível estabelecer a predisposição natural de cada pessoa a estar mais ou
menos desperta ou alerta segundo a hora do dia. Dependendo de quando
experimentamos nossos picos de energia ou momentos de descanso, se somos
mais ativos durante as horas de luz ou durante a noite, nosso cronotipo será de
um tipo ou de outro.
Dito de forma mais cientí�ca, nosso cronotipo depende de como
estamos sincronizados com o ritmo circadiano que mencionamos antes,
responsável pelos ciclos de 24 horas. E o combustível para que esse maquinário
preciso funcione é a melatonina. Essehormônio é liberado na escuridão e
provoca dois efeitos paralelos: induzir o sono e determinar a que horas do dia
estamos mais despertos e, portanto, somos mais produtivos.
Quando nascemos, já foi dado corda em nosso relógio biológico pessoal
— na verdade, as mutações que afetam os genes responsáveis por esse relógio
são hereditárias —, por isso podemos dizer que cada pessoa vem a este mundo
com um cronotipo determinado.
As pessoas matutinas são conhecidas como cotovias. Elas se levantam cedo
e com a energia em 100%. As manhãs são seu melhor momento e, à medida
que as horas se passam, o cansaço vai crescendo, apagando-as como uma vela.
Se têm a oportunidade, se deitam cedo e dormem rápido.
Os vespertinos são conhecidos como corujas. Eu sou uma delas (na
verdade, sou tanto que me assemelho mais a um morcego). Se alguém cruza
nosso caminho assim que acordamos, o máximo que vai ouvir será algum som
ininteligível. Nos arrastamos como podemos durante as primeiras horas e
vamos nos ativando à medida que o dia avança, para acabar alcançando nosso
pico de produtividade entre as 16h e as 18h. Eu posso estar completamente
esgotada às 20h, bocejar cinco vezes seguidas e ser incapaz de manter os olhos
abertos… e, de repente, meu cérebro se reativa. Eu revivo, volto a estar
totalmente desperta. Não quero nem falar em ir para a cama às 23h.
Por sorte, 70% da população alça voo como os colibris. Isso é, está a
meio caminho entre as cotovias e as corujas.
Se você tem alguma dúvida, pode dar uma olhada na internet no
questionário sobre ser matutino ou vespertino de Horne e Ostberg e, de forma
simples, de�nir seu cronotipo. Também será útil fazer isso acompanhado, se é
uma coruja que se casou com uma cotovia que não a compreende.
COMO É DURA A VIDA DAS CORUJAS!
As cotovias não têm uma boa imagem das corujas. Acham que elas se levantam
tarde porque são preguiçosas ou porque passaram a noite acordadas perdendo
tempo; e dirão que, pelo menos, restam elas, as cotovias, para madrugar e
“levantar” o país.
São as cotovias que levam a fama de serem mais produtivas e e�cientes,
além de serem um modelo social, porque dormem em uma hora decente. Mas
elas também precisam compreender que, em seu padrão mais extremo, as
corujas estão fazendo um grande esforço para se adaptar à vida típica de
escritório de 9h às 18h. Elas vivem em um jet lag permanente.
Porém, nem tudo são más notícias para os notívagos. Eles têm uma série
de capacidades e virtudes que as cotovias gostariam de ter, por exemplo:
Calma: devido à sua genética recebem uma injeção menor de cortisol
pela manhã, um dos hormônios do estresse, por isso costumam viver mais
relaxados.
Flexibilidade: acostumados a nadar sempre na contracorrente,
aprenderam a se adaptar ao tempo do resto das pessoas, principalmente
no âmbito do trabalho. Fazem malabarismos para trabalhar a 100% pela
manhã e, quando o resto sucumbe no meio da tarde, eles estão ótimos.
Planejamento: antes de se deitarem, estão su�cientemente acordados para
fazer uma coisa que é puro TM: planejar as atividades fundamentais do
dia seguinte. Como se costuma dizer, “um bom dia sempre começa na
noite anterior”.
Visão: eles demoram a pegar no sono, mas aproveitam isso para
contemplar suas vidas com perspectiva e analisar seus problemas,
relativizando as coisas e encontrando soluções mais simples.
Embora há algum tempo pareça que as coisas correm bem apenas para
aqueles que madrugam, como vimos no livro de Sharma, também há corujas
famosas, entre elas Franz Kafka, Winston Churchill, Bob Dylan, J.R.R.
Tolkien, Barack Obama e Marcel Proust. Esse último, em uma dessas noites,
escreveu as seguintes linhas:
Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não são para um
homem. Há dias longos e incômodos, que levam um tempo in�nito para
terminar, e dias que descem ladeira abaixo, pelos quais pode caminhar com
facilidade e cantando. Para percorrê-los, as naturezas — especialmente as
que são um pouco nervosas — dispõem de diferentes velocidades, como os
automóveis.
OLHO NO DESPERTADOR
Em especial as corujas, que têm um despertar mais traumático, deviam
evitar os alarmes que deixam os nervos à �or da pele assim que o dia
começa. Como recomenda Anna Sólyom em seu Pequeno curso de magia
cotidiana:
“Se você não é o tipo de pessoa que acorda por conta própria e precisa
usar um despertador, evite os sons estridentes; eles alteram seu sistema
nervoso e disparam a resposta de ‘correr ou lutar’. No lugar disso, programe
uma melodia ou uma canção de que você goste e que o encha de energia.”
UMA QUESTÃO DE PRODUTIVIDADE
De cara, pensar em planejar a jornada de trabalho de uma empresa levando em
conta os cronotipos de todos os seus funcionários pode parecer uma utopia.
Nada está mais longe da realidade. Trata-se mais de uma mudança cultural, já
que uma ou duas horas de oscilação nas equipes tradicionais podem ser
su�cientes. E a contrapartida é imensa, já que melhora a produtividade e o
estado de ânimo dos trabalhadores.
Os empregados da farmacêutica dinamarquesa AbbVie fazem seus
horários buscando o máximo aproveitamento de seus pontos fortes biológicos.
Primeiro eles recebem formação para identi�car qual é o melhor momento do
seu dia, no qual recaem os trabalhos mais criativos ou exigentes — não
surpreende que sejam as manhãs para os madrugadores e as tardes para os
notívagos. Quando descobrem seu cronotipo, dedicam os períodos de menor
energia a tarefas administrativas ou mais mecânicas, como cuidar dos e-mails
Além disso, graças ao horário �exível, evitam as horas de maior trânsito,
o que lhes poupa tempo e permite conciliar melhor sua vida pessoal e
pro�ssional. Eles podem pegar os �lhos na escola à tarde e trabalhar de casa
durante a noite, depois que eles tenham ido se deitar.
Depois de dez anos, o nível de satisfação dos empregados com a
conciliação familiar aumentou de 39% para quase 100%. Como disse
Christina Jeppesen, gerente-geral da empresa: “A �exibilidade permite que as
pessoas ofereçam os melhores resultados possíveis”; e eu acrescentaria: não só
na empresa, mas também em casa.
Vamos começar prestando atenção e escutando nosso próprio corpo,
levando em conta que só temos um e que é melhor trabalhar com ele que
contra ele. Vamos fazer um acompanhamento de nossa energia e motivação
para identi�car as horas de máxima atividade interna, durante as quais estamos
mais alertas e produtivos.
Lembre-se de que quando �zemos o tracking de nossas atividades já
incluímos um campo sobre nosso nível de energia e concentração. Para ser
precisos, devemos estudá-lo por, pelo menos, duas ou três semanas e, se
possível, sem elementos externos que contaminem os resultados, como a
cafeína.
Considere que seu cronotipo pode ter se camu�ado depois de tantos anos
de compromissos pro�ssionais e sociais que às vezes levam a hábitos contrários
ao próprio relógio interno.
Uma vez identi�cado, faça com que suas tarefas prioritárias, as mais
importantes, coincidam com suas horas mais produtivas. Simples assim, puro
TM.
Para terminar, sugiro que você não dedique a essas atividades mais que
noventa ou 120 minutos. A partir desse tempo, faça uma pausa e, se preciso,
volte a retomá-las. Por que digo isso? Os biorritmos contra-atacam. Além do
ritmo circadiano, que regula os padrões de um dia, há outro chamado ritmo
ultradiano, que regula períodos mais breves. Graças aos estudos do pesquisador
do sono Nathaniel Kleitman, sabemos que nosso cérebro não pode manter a
concentração de forma ótima por mais de duas horas.
Se dançarmos ao ritmo de nosso relógio interior, sem esgotar nosso
cérebro nem nosso corpo, a vida �cará mais fácil, alegre e produtiva.
UM POUCO DE SÍNTESE
Alguns hábitos organizados nos ajudam a �uir com nosso biorritmo, o
que nos proporciona mais energia para aproveitar melhor o tempo.
Alterar muito os horários de sono nos �ns de semana prejudicará nosso
rendimento durante toda a semana.
Conhecer o próprio cronotipo nos permite saber que momento do dia é
o mais adequado para fazer as coisas importantes.Um alarme estridente é a pior maneira de começar o dia.
A cada duas horas, no máximo, nosso cérebro precisa de um descanso
para manter sua concentração.
CONCENTRE-SE E VOCÊ VENCERÁ
QUEM PERSEGUE DOIS COELHOS NÃO CAÇA NENHUM
Uma fábula africana conta que um leão viu uma lebre dormindo no meio da
savana, mas, enquanto se aproximava em silêncio para caçá-la, passou perto de
uma gazela. Ao ver que esta oferecia um banquete melhor, saiu correndo atrás
dela em meio a fortes rugidos.
Nesse instante, a lebre acordou e correu na direção contrária. Pouco
depois, o leão, cansado de perseguir a gazela sem alcançá-la, voltou atrás da
lebre, mas descobriu que ela não havia esperado e, por culpa de sua ansiedade,
ele tinha perdido as duas presas.
Abatido, o leão voltou a vagar pela savana com a lição aprendida e
disposto a caçar a primeira presa que encontrasse.
O ensinamento que tiramos dessa história tradicional é claro: quando a
atenção se divide, não apenas não ganhamos oportunidades, como podemos perder
tudo.
ZEN: A ESCOLA DA ATENÇÃO
O ritmo frenético da vida atual cobra seu preço quando nossa mente está
revolta. Queremos fazer tantas coisas no tempo escasso de que dispomos que
acontece conosco o mesmo que com o leão: acabamos não fazendo nada bem.
Um provérbio zen resume em uma frase essa mesma ideia: “Quem
persegue dois coelhos não caça nenhum.” E essa mesma escola do budismo
concentra seus ensinamentos em acalmar a mente e o corpo para viver nosso
tempo de forma verdadeira, sendo conscientes de cada segundo que nos
presenteia a existência.
MEDITAÇÃO BÁSICA
Não é necessário ter um professor nem passar horas no zendo em frente a
uma parede para praticar a meditação. Basta se sentar — até mesmo em uma
cadeira — de forma relaxada, mantendo as costas eretas, semicerrar os olhos
e inspirar e expirar lenta e profundamente durante alguns minutos,
concentrando toda a atenção no ar que passa de forma silenciosa pelas fossas
nasais.
Jennifer Brooks, autora de A magia da meditação zen, dá sua própria
visão dos hábitos zen para melhorar a vida e a concentração por meio destes 11
passos:
D    . Mantenha a concentração em
uma única atividade de cada vez, sem fazer várias simultaneamente. Isso
nos permite sentir de verdade o que estamos fazendo. Tentar isso na hora
de comer é o mais simples: coma sem ver TV nem qualquer outra
distração, simplesmente concentrado no prato.
T        . É
preciso superar o impulso da mente de começar sempre novas tarefas, o
que está relacionado com o ponto anterior.
F . Vale a pena dedicar a cada coisa seu devido tempo, sem
pressa para terminar nada e dedicando toda sua atenção.
R    . Para alcançar a paz e ser dono de
nosso tempo, é preciso fazer menos, reduzir a lista de coisas a fazer, o que
vai implicar muito mais atenção e cuidado com cada uma delas.
N      . Deve haver
um espaço entre elas para respirar; além disso é preciso criar um colchão
de tempo, caso alguma delas se prolongue mais que o esperado.
C  . Levando em conta o que acabamos de dizer, você
pode estabelecer um tempo especí�co para fazer as coisas realmente
prioritárias. Assim você vai se assegurar de que tudo o que importa foi
feito.
D     . Pode ser acender uma vela, fazer
uma série de movimentos ou exercícios, ou qualquer outra coisa que
ajude a mente a se preparar para o trabalho.
S     . Por menor que seja a ajuda,
mesmo que seja apenas pegar alguma coisa no chão ou abrir uma porta,
fazer isso com um sorriso permitirá que você viva a atividade em “modo
zen”, sentindo o que faz com todos os sentidos.
E      . Desde objetos
que não usamos até atividades que não exigem muito esforço, soltar esse
lastro deixará a vida muito mais fácil de levar, pois vamos conservar
apenas aquilo pelo que seríamos capazes de lutar e liberar uma grande
quantidade de tempo.
C      .
Caminhar até o trabalho, lavar os pratos ou qualquer tarefa rotineira
pode servir de gatilho da meditação, vivendo nosso tempo de forma
consciente.
V  . A única coisa que pertence plenamente a você é o
aqui e agora, se concentrar a atenção na atividade que está realizando
nesse mesmo instante.
DISPERSÃO VERSUS ATENÇÃO
Como vimos em capítulos anteriores, a concentração é fundamental para viver
um tempo de qualidade e efetividade, mas isso tem um preço: a atenção plena
obriga a ignorar o resto das coisas durante esse momento.
A capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo é o que se conhece
atualmente como multitasking. E, realmente, o cérebro humano é capaz de
realizá-las simultaneamente, sempre que sua complexidade não seja muito
grande: cozinhar enquanto se assiste à televisão, botar a roupa para lavar
ouvindo música…
Na verdade, o cérebro está preparado para fazer duas coisas ao mesmo
tempo, mas não para se concentrar nas duas ao mesmo tempo. Por isso,
podemos encarar várias coisas simultaneamente, mas de forma mecânica, sem
atenção nem consciência.
Isso pode ser fantástico quando varremos a casa enquanto escutamos um
podcast, mas será um desastre se estamos calculando nosso imposto a pagar
enquanto nosso parceiro está explicando algo de vital importância.
Além dessa falta de atenção, sofremos o cansaço de passar de uma
atividade para outra, sobre o que já falamos. E a isso deve-se acrescentar que
muitas vezes, especialmente em trabalhos criativos, quando interrompemos o
�uxo, já não somos capazes de voltar ao ponto onde o havíamos deixado.
Acontece o mesmo nas conversas, que têm seu momento único, e
também em uma tarefa como escrever um relatório, um e-mail, um artigo.
Quando alguma coisa ou alguém nos interrompe enquanto estamos
escrevendo um parágrafo, levamos minutos para ser capazes de retomá-lo onde
estávamos, e na maioria das vezes uma ideia que estava fresca na cabeça
desaparece para nunca mais voltar.
De tudo isso podemos extrair uma lei muito útil: se só podemos dedicar
nossa atenção plena a uma coisa de cada vez, é preciso saber escolhê-la bem em
cada momento.
A LISTA DUPLA DE WARREN BUFFETT
Na verdade, por mais técnicas que utilizemos para otimizar o tempo,
aumentando nossa concentração, a chave fundamental para viver com TM
está na escolha de nossos objetivos.
Warren Buffett, um dos grandes investidores de nossa era, se destacou
também por sua excelente gestão do tempo com um sistema de escolha de
prioridades muito peculiar e funcional.
Um dia, falando com Mike Flint, seu piloto pessoal por dez anos, sobre
os planos deste para o futuro, Buffett pediu a ele que seguisse três passos:
Escreva suas 25 metas pro�ssionais.
Revise essa lista para escolher as cinco mais importantes.
Faça uma lista secundária com as vinte restantes.
Flint resolveu trabalhar imediatamente nas cinco metas, mas Buffett
então lhe perguntou:
— E o que você pensa em fazer com as outras vinte?
— As primeiras cinco são minha prioridade, mas as outras estão por
perto, em um segundo escalão. Também são importantes e vou trabalhar nelas
quando puder. Não são tão urgentes, mas quero dedicar a elas um bom
esforço.
— Não! — respondeu Warren Buffett. — Você está errado, Mike… O
que você não marcou se transformou na lista do que deve ser evitado a todo
custo. Não importa que você deixe de dedicar sua atenção a ela até que tenha
terminado com sucesso seu top 5.
Esse exercício me parece tão brilhante que proponho, querido leitor, que
você em seguida comece a fazê-lo, assim que tenha lido o resumo do capítulo e
antes de passar para o próximo.
UM POUCO DE SÍNTESE
A dispersão é uma grande fonte de fracassos, pois o sucesso está ligado ao
estado contrário: a atenção.
É possível meditar quando nos dedicamos simplesmente a comer com
atenção plena.
Não comece várias coisas ao mesmo tempo. Quando terminar uma,
comece a seguinte.
É preciso reservar um colchão de tempo entreas coisas que fazemos.
Os rituais preparam a mente para se concentrar em uma atividade.
Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas não nos
concentrarmos nelas.
Quando interrompemos uma atividade criativa, muitas vezes é
impossível voltar ao mesmo ponto.
Saber quais são nossos cinco grandes objetivos vitais vai nos ajudar a
viver com sentido e com TM.
A PAUSA ATIVA
QUANDO NÃO FAZER NADA PODE MUDAR TUDO
Uma fábula moderna de autor desconhecido conta que um viajante chegou a
um povoado e se dirigiu a um ancião que estava sentado em um alpendre sem
fazer nada.
— Escute, meu bom homem — disse o viajante. — Sabe para onde vai
esta estrada?
— Nunca a vi indo a lugar nenhum — respondeu o velho. — Toda
manhã, quando me levanto, olho pela janela e ela ainda está aí.
— O que quero saber é se tenho de pegá-la para ir a Fortsmith.
— Não tem nenhum sentido que você faça isso: lá eles já têm uma
estrada.
— Imagino que o senhor viveu aqui toda sua vida — comentou o
viajante, ao que o ancião respondeu:
— Ainda não.
O que pode parecer uma conversa sem nenhuma coerência é, na
verdade, um encontro cara a cara entre dois homens de características opostas;
um conhece a arte de não fazer nada; e o outro, não. O ancião é pura
presença, não precisa ir a lugar nenhum nem fazer nada para justi�car que
existe no mundo. Por isso, o viajante não entende suas respostas.
Quando você sente que corre como um frango sem cabeça, quando já
não sabe onde está nem para onde se dirige, é o momento de fazer um recesso.
BENEFÍCIOS DO “ESPAÇO NEGATIVO”
“Para a ordem monástica de São Bento, o período entre as 12h e as 15h era
conhecido como a hora sexta. Durante esse tempo, os religiosos �cavam em
silêncio completo para recuperar energias para o resto do dia. Eles
‘sexteavam’, e daí vem o nome do costume da sesta que, dez séculos depois,
o mundo inteiro identi�ca como um luxo espanhol.
“Talvez seja um luxo, mas sem dúvida é saúde física e mental, e uma
boa ferramenta para melhorar a gestão de nosso tempo.
“Contanto que não passe dos quarenta minutos (já que a partir daí
começa a gerar efeitos contrários), a sesta abre as comportas da serotonina,
nos inundando de satisfação e bem-estar; previne as cardiopatias, reduzindo
a pressão arterial e o ritmo cardíaco; e ajuda a diminuir o estresse e o risco
de sofrer de doenças cardiovasculares, ao liberar o hormônio do
crescimento, antídoto do cortisol que estimula o sistema imunológico.
“Por outro lado, segundo a Universidade de Berkeley, reinicia o
cérebro, �xa os conhecimentos já adquiridos e facilita o aprendizado,
aumentando a concentração e a produtividade. Não é magia nem lenda
urbana. Durante o sono, as lembranças recentes se transferem do
hipocampo para o neocórtex, nosso disco rígido, onde se consolidam as
lembranças em longo prazo. Inclusive — acrescenta o professor de
psiquiatria de Harvard Robert Stickgold —, depois de alcançar a fase REM
do sono, o despertar impulsiona a conexão entre ideias, de forma que
facilita a solução de problemas que nos deixavam agoniados antes do
cochilo. Até a NASA, depois de descobrir que a sesta evita 34% de erros e
melhora os re�exos ao dobrar os níveis de alerta, obriga seus pilotos a
dormir diariamente durante 26 minutos.
“Gosto de pensar que a invenção da sesta é a forma espanhola de nos
unirmos ao conceito de ‘espaço negativo’. O designer Alan Fletcher dizia
que o espaço vazio é substância, é necessário para entender e desfrutar do
objeto. Cézanne pintava o espaço vazio. Mallarmé concebia seus poemas
com tanto silêncios quanto palavras. Ralph Richardson dizia que a magia do
ator está no controle das pausas. Isaac Stern descrevia a música como esses
pequenos silêncios que há entre cada nota.
“Os japoneses têm uma palavra para esse intervalo que dá forma à
totalidade. Eles o chamam de Ma. No Ocidente não há um termo concreto.
Graças aos monges de São Bento, podíamos começar a chamá-lo de ‘sesta’.”
Andrés Pascual
O PODER DO NIKSEN
Estamos tão acostumados a nos ocuparmos em excesso, o horror vacui dirige
tanto nossa vida, que é extremamente raro ver alguém entregue à nobre arte
de não fazer nada. Inclusive, quando não estamos fazendo nada de valor,
ocupamos os sentidos com coisas que “distraem” a mente, com o que não
favorecemos o espaço vazio que a criatividade exige para dar forma a alguma
coisa nova.
Os holandeses têm uma palavra, niksen, que signi�ca “não fazer nada” de
forma genuína, como por exemplo:
Se limitar a descansar e a observar o teto do quarto, sem necessidade de
mais atividade.
Olhar pela janela para contemplar o quadro vivo e mutável do mundo.
Caminhar ou �car sentado em qualquer lugar sem outro estímulo além
do que acontece, analogicamente, ao nosso redor.
Sonhar acordados.
Esse último é um efeito bené�co da inatividade que, segundo Sandi
Mann, psicóloga da Universidade de Lancashire Central no Reino Unido, “nos
torna literalmente mais criativos, melhores para solucionar problemas, mais
capazes de ter ideias criativas (…). Deixe que a mente procure seus próprios
estímulos, é aí que começamos a sonhar acordados, e a mente começa a vagar,
e é nesse ponto que há mais probabilidades de a criatividade vir à tona.”
Quando passamos muito tempo ocupados com mil coisas, chega um
ponto em que nossa energia mental �ca esgotada, e é aí que o niksen pode fazer
milagres.
Entre os benefícios de uma sessão de niksen estão:
Resolver problemas para os quais, em nosso estado de esgotamento, não
víamos solução.
Adquirir novas perspectivas sobre a própria vida, também quando não
estamos enfrentando nenhuma di�culdade.
Recarregar as baterias do corpo e da mente; com isso, em seguida, vamos
render muito mais. Como dizia Ovídio há dois milênios: “Faça uma
pausa; o campo que descansou dá uma colheita mais abundante.”
Se você não está acostumado com o niksen, no início será difícil se
entregar a ele, já que sua zona de conforto é estar ocupado. Porém, vale a pena
abraçar esse incômodo, já que pode haver um antes e um depois em sua
existência ao parar as máquinas.
O MISTÉRIO DOS CARROS DE ALUGUEL JAPONESES
Recentemente, uma empresa japonesa de aluguel de carros fez uma
investigação depois de perceber que uma parte de seus usuários devolvia o
veículo sem ter acrescentado quilometragem nenhuma, além de algumas
centenas de metros. Isso acontecia, principalmente, nos aluguéis de meia
hora, com um custo um pouco maior que três euros.
As pesquisas feitas com clientes deram resultados surpreendentes.
Descobriu-se que muitos aluguéis eram feitos para poder fazer uma sesta —
os japoneses dormem uma média de seis horas e 35 minutos, 45 minutos a
menos que a média internacional — ou para comer com tranquilidade o
que compravam para viagem, longe do ruído de outras pessoas. Alguns,
inclusive, confessaram tê-los utilizado para uma sessão individual de
karaokê.
A conclusão a que se chegou foi que esses usuários não desejavam ir a
lugar nenhum, apenas desfrutar de um período de calma, novamente o
niksen dos holandeses.
CONSELHOS DE UM PAUSÓLOGO
Marcelo Estraviz, que hoje em dia é o maior especialista em fundraising para
ONGs no Brasil, conta que em seu passado como executivo de grandes
empresas chegou a um ponto em que ele já não era feliz com sua vida. Em suas
próprias palavras, pensava que tinha vindo a este mundo “para alguma coisa
mais que vender iogurte”, um dos setores em que ele tinha trabalhado.
Esse sentimento de insatisfação o levou a tirar um ano sabático que
mudaria totalmente sua vida. Além de melhorar sua saúde e seu estado de
ânimo, essa parada serviu para ele entender o que queria fazer com sua vida, uma
coisa impossível quando se vive sempre contra o relógio.
Com alguns meses de reserva �nanceira, ele se despediu de sua empresa e
do alto salário que recebia sem ter um plano B. Apesar disso, logo viu como a
pausa que havia feito iluminava seu caminho.
Ele decidiu, por exemplo, que não queria entregar seu tempo às
multinacionais e sim dedicar sua vida ao bem comum, incluindo as pessoas
mais necessitadas. No início,seu trabalho de consultoria para ONGs não lhe
dava muito dinheiro, mas sim uma grande quantidade de alegria. Com o
tempo, porém, ter escolhido o caminho certo permitiu que ele vivesse de sua
paixão com folgas.
Desde então, Marcelo Estraviz desfrutou de outros anos sabáticos para
“repensar” sua vida e está até ajudando outras pessoas, como pausólogo, a
realizar suas pausas ativas.
Falamos de “pausa ativa” porque nesse aparente não fazer nada está sendo
gerado um futuro que jamais poderia ser alcançado em meio à tormenta de
atividades.
Se você sente que “não aguenta com tudo” ou que precisa urgentemente
de uma mudança, considere a opção de tirar um ano sabático. Se você não
pode se permitir tanto tempo, dê apenas alguns meses para si mesmo. Alguns
conselhos de Estraviz antes de empreender essa experiência transformadora:
A pausa deve se ajustar ao colchão �nanceiro que você acumulou. Por
isso, antes de “parar as máquinas”, veja quanto tempo pode aguentar sem
ganhar dinheiro. Para um período “sabático” de seis meses, por exemplo,
você deve ter fundos para cobrir suas necessidades por nove ou dez meses,
já que você precisará de uma margem para voltar a gerar renda.
Se você é um superworkaholic, uma pausa grande demais pode lhe fazer
mal, segundo o consultor brasileiro. Para uma pessoa acostumada a
trabalhar de sol a sol, de segunda a domingo, basta um �m de semana de
verdadeira desconexão, por exemplo em um retiro. Assim como se deve
iniciar um esporte aos poucos, também é preciso aprender a fazer pausas.
Em pouco tempo você poderá ampliar o espaço sabático.
Até uma caminhada de uma hora, se deixou o celular em casa ou no
escritório, é uma pausa excelente, já que vai permitir que você respire e se
concentre em coisas às quais normalmente não presta atenção. Ao se
liberar de todos os dispositivos e obrigações, seu organismo vai fazer com
que você pense de outra forma, e terá insights até mesmo nessa primeira
hora.
AS THINK WEEKS DE BILL GATES
Há muito tempo, o fundador da Microsoft e grande �lantropo do Vale do
Silício reconhece que duas vezes por ano tira uma “semana de re�exão” em
um lugar afastado da civilização. Esses retiros, embora muito mais breves
que um ano sabático, lhe permitem re�etir sobre o futuro da tecnologia e
gerar novas ideias para sua empresa, assim como para suas obras sociais.
Esses retiros de sete dias implicam, logicamente, passar muito tempo
sozinho, já que nesse período corta qualquer contato com sua família e seus
colaboradores, e conta apenas com uma pessoa que deixa em sua porta duas
refeições simples por dia.
Bill aproveita a think week para ler livros, tomar notas, re�etir e
projetar novas iniciativas.
Na única vez que um jornalista teve acesso a esse refúgio do magnata
da tecnologia, ele pôde fotografar estantes repletas de grandes livros, um
retrato de Victor Hugo na parede, uma geladeira pequena cheia de
refrigerantes sem açúcar e muitas pastas de cor laranja para fazer anotações.
WU WEI E DESCOMPRESSÃO
Muitos milênios antes que os holandeses falassem do niksen, os �lósofos
chineses já louvavam o Wu Wei, a arte taoísta da “não ação”, como se costuma
traduzir.
Especialmente em momentos de grande caos ou tensão, nos quais
qualquer iniciativa só pode piorar as coisas, o Wu Wei recomenda não forçar
nada e esperar que o vendaval passe para pensar com clareza. Os taoístas davam
como exemplo as plantas, que crescem sem esforço e de forma imperceptível,
sem se precipitar.
Um conto tradicional para ilustrar esse conceito tem como protagonista
um devoto muito conhecido por seu zelo e dedicação. Ele meditava dia e noite
À
no templo, sem parar nem para comer ou dormir. À medida que o tempo
passava, ele foi emagrecendo e se esgotando cada vez mais.
O mestre do templo aconselhou a ele que caminhasse lentamente e que
cuidasse mais de si mesmo. Mas o devoto não lhe deu ouvidos.
— Por que corre tanto, que pressa você tem? — perguntou o mestre.
— Procuro o conhecimento — respondeu o devoto. — Não posso
perder tempo.
— E como você sabe — perguntou o mestre — que o conhecimento está
a sua frente, e que você precisa correr tão depressa atrás dele? Talvez ele esteja
atrás de você, e tudo de que precisa para encontrá-lo é �car quieto. Apesar
disso, você está se afastando.
Essa é a essência do Wu Wei.
UM POUCO DE SÍNTESE
“Não fazer nada”, na medida certa, pode ser a atividade mais produtiva
de nossa semana.
Para os viciados em atividade, “parar as máquinas” signi�ca a princípio
sair da zona de conforto.
Toda pausa bem-feita é ativa, porque traz resultados bené�cos
posteriores.
Embora não possamos nos permitir um ano sabático, uma think week
ou mesmo uma caminhada de meia hora podem fazer milagres.
Em momentos de caos e confusão, a “não ação” costuma ser o melhor
remédio.
NOVOS HÁBITOS PARA VIVER COM TIME
MINDFULNESS
A FELICIDADE É UM ANIMAL DE HÁBITOS
Os hábitos estão estreitamente ligados ao tempo, já que determinam o uso que
fazemos dele. Um fumante, por exemplo, precisa abandonar o posto de
trabalho várias vezes por dia para fumar. Tudo isso somado é uma perda de
tempo, além das consequências que tem para a saúde.
Por isso, ninguém dirá que fuma de forma habitual em uma entrevista de
emprego.
Esse é apenas um exemplo muito simples de até que ponto nossos
costumes condicionam nossa vida, e de por que substituir os perniciosos por
outros positivos resultará em mais tempo de qualidade.
SOMOS O QUE FAZEMOS
Os hábitos são todas aquelas decisões e ações que realizamos todos os dias, a
maioria de forma automática.
Muito do que vivemos, desfrutamos ou sofremos é determinado por essas
ações que ocupam grande parte de nosso tempo. Nosso estado de saúde,
felicidade ou riqueza depende em grande parte de rotinas adquiridas muito
tempo atrás e que se fossilizaram em nossa vida. Como tudo o que você faz
repetidamente acaba criando a pessoa que você é, adaptamos a frase escrita pelo
�lósofo Ludwig Feuerbach em 1850: Somos o que fazemos.
Antes de aprofundar esse assunto, vejamos como podemos criar um
hábito e, em consequência, como adquirimos os que já temos.
Tudo começa por uma atitude simples e muito fácil de assumir, para
depois ir voltando a ela. Um hábito implica tempo e repetição até que se
executa de forma inconsciente.
Uma vez adotado, um costume se torna parte de nós. É algo que fazemos
de forma inconsciente, como se estivesse dentro de nossa própria natureza. Por
isso, nos desfazer de um hábito é tão difícil como se nos desprendêssemos de
uma parte de nossa personalidade. Mais à frente responderemos à pergunta do
milhão: por que nos custa tanto?
A GRANDEZA DAS PEQUENAS MUDANÇAS
James Clear calcula em seu livro que uma melhora de 1% a cada dia signi�ca
que você será 37 vezes melhor no �m do ano. Os hábitos agem de forma
cumulativa a seu favor ou contra você. Uma pequena conquista de um dia,
mantida no tempo, cria valor em longo prazo.
Tome como exemplo um avião que voa de Los Angeles a Nova York.
Se ele se desviasse 3,5 graus de sua rota inicial, ou seja, menos de 1%,
acabaria aterrissando em Washington.
É um conceito difícil de apreciar na vida cotidiana. Frequentemente
descartamos pequenas mudanças porque não parecem importar muito no
momento. Os resultados nunca parecem chegar rapidamente, por isso
voltamos a nossas rotinas anteriores.
Esse ritmo lento de transformação também facilita que você volte a
cair nos velhos hábitos nocivos. Se come uma comida saudável hoje e a
balança não se mexe muito, você pode achar que nunca conseguirá perder
peso.
No caminho, que não é linear, muitas vezes nos desiludimos. Você
pode estudar uma língua uma hora por dia e �car desesperado porque parece
que não faz progresso. Se vai à academia três dias por semana, depois de um
mês você pode não notar nada.
Embora o resultado de um dia, uma semana ou um mês possa
aparentar ser insigni�cante, ao longo da vida ele é signi�cativo. Um
exemplo negativo seria somar calorias extras diariamente. Segundo um
estudo realizado pelo Journal of the American Medical Association,um
excesso de 370 calorias signi�ca aumentar 16 quilos em 28 anos.
SUBSTITUA E VOCÊ VENCERÁ
Então é possível mudar? Claro, mas com paciência e esforço. Segundo James
Clear, o autor de Hábitos atômicos, ao qual já nos referimos, os maus hábitos
são consequência do tédio e do estresse, desde roer as unhas até perder horas na
internet.
A forma de nos livrarmos deles, como já anunciei dois capítulos atrás, é
substituindo um hábito por outro mais saudável, não o eliminando, porque cada
um tem uma razão de ser. Cada uma dessas rotinas satisfaz uma necessidade de
nossa vida; por isso devem ser substituídas por outras mais saudáveis. Tudo o
que fazemos comporta algum tipo de benefício, por menor que seja: por
exemplo, checar constantemente os e-mails nos mantém conectados com os
outros, embora detone nossa produtividade.
Esse mesmo autor propõe um plano de ação para trocar os maus hábitos
por outros melhores:
. E      . Se cada hábito
cobre uma necessidade, você precisará encontrar sua versão saudável para
substituí-lo. Por exemplo, morder uma cenoura fresca no lugar de fumar
ou comer chocolate de forma compulsiva.
. E  . Sempre há um gatilho que dispara o hábito. No
caso do tabagismo, um deles pode ser o encontro com outros fumantes.
Pelo menos em uma primeira fase, deve-se evitar sua presença na medida
do possível.
. J     . Sempre haverá alguém
disposto a deixar um costume nocivo, e é melhor e mais divertido
celebrar as conquistas acompanhado.
. C-         .
Não abandone seus velhos amigos, mas permita-se fazer novos que
tenham esses hábitos que você admira. Como dizia o conferencista Jim
Rohn: “Você é a média das cinco pessoas com as que passa mais tempo.”
. V    . Construa essa nova identidade
em sua mente para que a sinta como natural quando se tornar realidade.
Assim não será um choque tão grande.
. N     ,     .
Houve um momento que não praticávamos esse hábito prejudicial, por
isso precisamos apenas voltar a ser o que éramos antes.
. P-   . Todo mundo, até os gênios, fracassa
algumas — ou muitas — vezes antes de alcançar seu objetivo.
Todos nós podemos mudar se avançamos com paciência, procurando nos
mover cada dia na mesma direção. Cada passo nos aproxima um pouco mais
de nossa meta, porque como disse já no século XIX o dramaturgo Charles
Reade:
Semeie um ato e colherá um hábito.
Semeie um hábito e colherá um caráter.
Semeie um caráter e colherá um destino.
POR QUE É TÃO DIFÍCIL MUDAR?
Quase todo mundo estabelece novos propósitos para si mesmo com o �m de
um ano e o início do novo, mas a taxa de sucesso é realmente baixa: menos de
10% conseguem fazer o que tinham proposto, segundo a maioria das
estatísticas. A que se deve isso?
Jory Mackay, editor do blog Rescue Time, assinala os erros mais comuns
que fazem com que as tentativas de revolução pessoal fracassem:
F    . É contraproducente botar toda
nossa energia na procura do caminho mais rápido para nosso objetivo,
em vez de começar aos poucos e desenvolver os bons hábitos.
A     . Quando você está
desenvolvendo bons hábitos, ter metas demais lhe dá uma desculpa fácil
para adiar os comportamentos que está tentando converter em rotina.
A  . A procrastinação não apenas nos impede de avançar de
forma signi�cativa, ela pode frustrar totalmente a implementação de
novos costumes.
C  -,   . Quando você estabelece
um prazo limite para implementar o novo hábito, prepara o terreno para
o fracasso e a decepção se não o cumpre. É muito melhor se
comprometer com um horário, com uma rotina. Por exemplo: fazer
exercício nas segundas, quartas e sextas. Ou escrever quinhentas palavras
por dia do livro que você tem em mãos.
N      . Para
construir um hábito sólido e duradouro, o cérebro precisa esperar e
antecipar a recompensa. Qualquer que seja sua recompensa, seja a
avalanche de endor�nas do exercício ou o orgulho de publicar, pense nela
com regularidade para manter a motivação e a emoção.
A ROTINA DE UM GÊNIO DO VIOLINO
Muitos consideram Jascha Heifetz como o maior violinista que já
existiu. Nascido em 1901, o menino prodígio russo percorreu grande parte
da Europa em sua adolescência. Ao chegar a Nova York com 17 anos, se
converteu em sensação depois de sua estreia no Carnegie Hall nesse mesmo
ano.
Heifetz ensaiava vigorosamente para manter seu nível em todas as
atuações. Uma vez ele disse: “Se não ensaio um dia, eu sei; dois dias, os críticos
sabem; três dias, o público sabe.” Até alguém com o talento extraordinário de
Heifetz precisava do poder do hábito constante para manter sua forma de
tocar o violino.
CIRURGIA DOS HÁBITOS
Como estamos vendo, a criação ou transformação de um hábito não é algo
rápido, mas está baseado na rotina e precisa de seu tempo. A pergunta é:
quanto tempo deve se passar desde que começamos a incorporar um costume
até que ele se converta quase em um ato re�exo, algo que fazemos sem pensar?
Durante muitas décadas considerou-se válida a posição do dr. Walter
Maltz, um cirurgião plástico norte-americano que �cou famoso nos anos
1950. Ele observou que, quando fazia uma operação, os pacientes levavam
cerca de 21 dias para assimilar seu novo corpo: por exemplo, durante três
semanas, os pacientes amputados continuavam sentindo um membro
inexistente.
Isso fez com que o dr. Maltz determinasse o tempo que demoramos para
assimilar uma nova situação, e ele situou esse processo no umbral dos 21 dias.
Ele botou esse descobrimento por escrito em seu livro Psicocibernética,
publicado em 1960, no qual dizia que para dissolver uma velha imagem e
assimilar uma nova leva-se um mínimo de 21 dias.
O livro foi um sucesso de vendas, com mais de trinta milhões de
exemplares vendidos, o que levou o grande público a assimilar essa ideia. O
fato de Maltz se cercar nas décadas seguintes de gurus da autoajuda como Zig
Ziglar ou Tony Robbins ajudou a consolidá-la.
Repetiu-se, então, até o esgotamento, que os humanos eram capazes de
mudar seus hábitos e sua vida em apenas três semanas. Quem não ia querer
modelar a si mesmo em apenas três semanas com resultados visíveis para toda a
vida? Assim, essa ideia tão atraente se espalhou para o mundo. E como uma
pseudoverdade repetida mil vezes se transforma em verdade, todo mundo
acreditou nisso.
ENTÃO QUANTO TEMPO LEVA PARA MUDAR UM HÁBITO?
No ano de 2010, a dra. Phillippa Lally, depois de coordenar uma equipe de
pesquisadores, publicou um estudo chamado How are habits formed: modeling
habit formation in the real world na revista European Journal of Social
Psychology. Esse estudo contou com 96 participantes que, durante 12 semanas,
escolheram um comportamento relacionado com alimentação ou bebida
saudável ou com um determinado exercício que desejavam converter em
hábito.
Entre essas atitudes desejáveis estavam: comer fruta nas refeições, beber
uma garrafa de água no almoço ou correr 15 minutos antes do jantar. Eles
teriam de realizar a ação selecionada durante 84 dias e informar até que ponto
haviam sentido que ela estava automatizada, o que indicaria a força do hábito
criado.
Partindo da hipótese de que a repetição seria a chave para a formação do
hábito escolhido, depois de analisar os dados foram obtidos resultados bem
distantes dos propostos em 1960 por Walter Maltz. Os resultados foram que a
média para automatizar um hábito é de 66 dias, variando de acordo com cada
indivíduo entre picos extremos de 18 e 254 dias.
Isso deixa os resultados longe dos propostos por Maltz, passando de 21
dias para 66 a �m de que o ato se torne natural. É um aumento considerável,
de três semanas para mais de dois meses, se ocupamos a parte média do
espectro, mas o que são dois meses para mudar uma vida?
Proponho que você experimente consigomesmo e que determine um
hábito bené�co que deseja incorporar a sua vida. Anote os dias seguidos dos
quais precisará para que ele se converta em parte de você, e saberá do quanto
precisa para dar a forma desejada a sua vida.
OS OUTROS
Quando você necessita de uma motivação extra para ser constante com um
hábito ou conseguir um determinado objetivo, use a ajuda do poder dos
outros. Já que somos seres sociais, vamos usar essa pressão de forma positiva. É
fácil criar desculpas ou inventar explicações quando só as devemos a nós
mesmos, mas, ao me comprometer com outra pessoa, será mais difícil quebrar
a promessa.
Procure alguém em quem você con�e, que também admire e valorize.
Pode ser seu parceiro, um amigo, um colega de trabalho, alguém com quem
você não quer falhar, a quem você não vai querer confessar que �cou no sofá
ou explicar por que não fez progressos. Alguém a quem deseje demonstrar que
pode con�ar em você e que você sabe que vai apoiá-lo e animá-lo quando
fraquejar, que falará de forma clara com você e não vai abandoná-lo
facilmente.
Assim comecei a meditar diariamente com minha amiga Leticia; nós duas
nos comprometemos a fazer isso por algum tempo, e nos dias em que �quei
tentada a pular a sessão, pensava nela e em alguns segundos já estava sentada.
Você pode até tornar isso público em suas redes ou usar sites como o
www.stickk.com, uma plataforma na qual você estabelece online seu
http://www.stickk.com/
compromisso e encontra apoio da comunidade. Além disso ela inclui a
possibilidade de uma punição econômica, dinheiro que você pode doar para
uma pessoa diretamente ou para uma ONG.
UM POUCO DE SÍNTESE
A maioria dos hábitos é ativada de forma automática, sem que tenhamos
consciência disso.
Quando fazemos algo diariamente, não vemos o resultado de forma
imediata, mas com o passar do tempo vamos conseguir uma grande
mudança.
Um mau hábito deve ser substituído por outro com características
positivas, já que ele obedece a uma necessidade.
Atualmente sabe-se que mudar um hábito pode levar em média 66 dias,
não três semanas como se acreditava antes.
Ter de responder a outras pessoas que admiramos vai nos motivar a
incorporar um hábito em nossa vida.
SUA AGENDA TIME MINDFULNESS
SUA MELHOR ALIADA
Agora que nos aproximamos do �nal, com tudo o que aprendemos vamos
criar uma agenda sob medida, alinhada com nossas prioridades e não segundo
as exigências dos outros. Vamos nos assegurar de que tudo o que é importante
para nós tenha um tempo determinado, não só as atividades que ajudarão a
cumprir nossos objetivos materiais, mas também aquelas que farão com que
nos sintamos satisfeitos e em paz no �m do dia.
Sua agenda TM será sua melhor aliada, porque seu trem viajará nos
trilhos até seu destino.
Parece bom demais? Basta tomar consciência de que seu tempo é seu. Pare
de vê-lo como algo etéreo e intangível. Você precisa respeitá-lo e protegê-lo
como ele merece.
O empresário e escritor Charles Buxton alertava: “Você nunca encontrará
tempo para nada. Você deve criá-lo.” Se você quer que alguma coisa aconteça,
ela tem de estar em sua agenda. O que não está nela não existe.
ANTES DE COMEÇAR
Cada um de nós é diferente, e nossa agenda será re�exo de nossa personalidade
e da etapa da vida em que nos encontramos. Talvez a enchamos de
compromissos, lembretes de compromissos, cores e desenhos; ou talvez ela
esteja praticamente vazia. Qualquer opção será adequada se for consciente e
escolhida por você.
Antes de começar, é bom levar em conta as seguintes considerações:
D       . Os dois têm
vantagens e inconvenientes. Vai depender de sua preferência e também
de suas necessidades, se você trabalha em um único lugar ou tem de
compartilhá-la.
Considerando que há apenas uma vida,    
       .
Mesmo quando você não tem uma jornada �exível, os limites sempre são
difusos. Planeje também as tarefas de casa e as compras.
A      . Marque
não apenas o horário de início, mas também o de �nalização. Ser realista
com o tempo e calcular com precisão quanto vai durar uma tarefa é uma
das habilidades mais necessárias para uma boa gestão da agenda. O
tracking do seu tempo fornecerá muitas pistas, preste atenção a partir de
agora. Enquanto não o dominar, é melhor calcular por excesso.
Leve em conta que        
. Graças a esses parênteses — limpar sua mesa e organizar
documentos não leva mais de três minutos — você vai fazer uma coisa
fundamental: terminar uma coisa e guardá-la no lugar antes de começar a
seguinte. Ver as redes sociais não vale como transição.
C     com um pouco de folga e
aproveite-os para fazer algo a mais, sempre de forma consciente, mesmo
que seja não fazer nada.
D        15 .
Cada minuto conta, mas uma divisão menor pode levar à confusão.
P    ,    
. Lembre-se da pausa ativa. Você não é uma máquina, por isso é
preciso reservar tempo ao longo do dia para um alongamento rápido,
caminhar ou descansar os olhos. Sua capacidade de atenção vai melhorar,
não é tempo perdido.
A    15    no meio da
manhã e da tarde para ter tempo de se reorganizar e ajustar as tarefas.
Sempre haverá imprevistos e atividades que saem do controle.
R    antes de incluí-los na agenda.
Tenha sempre em mente viver simplesmente.
COMECE COM SEU RITUAL MATUTINO… OU VESPERTINO
Você pode achar que a agenda começa pela manhã, mas na verdade tudo
começa no momento em que você vai se deitar no dia anterior. Seu ritual no
�m do dia, embora não se fale tanto dele, é tão importante quanto o do
começo. A qualidade de seu descanso tem benefícios para sua saúde,
rendimento físico e mental, ou seja, para seu bem-estar em geral.
Programe a hora de se deitar, já vimos os efeitos negativos de não manter
horários regulares. Uma temperatura agradável para o quarto e uma luz suave
criarão o ambiente adequado. Lembre-se de desconectar qualquer tela algumas
horas antes. O telefone é carregado fora do quarto, a roupa de ginástica deve
�car ao lado da cama, assim como algo para ler em papel.
Levante-se com tempo su�ciente para não começar o dia correndo, para
evitar desde a manhã a sensação de falta de tempo. É melhor ir para a cama dez
minutos antes que atrasar o despertador em dez minutos e começar o dia se
arrastando.
De�na seu próprio ritual matutino. Normalmente ele deve incluir
exercício, que será mais suave ou intenso de acordo com nossos biorritmos,
assim como meditação e um pouco de leitura. Se você tem di�culdade para
meditar de manhã, permita-se, pelo menos, dez minutos de re�exão: agradeça
por tudo o que conseguiu, por sua família e amigos, por sua saúde, pela casa
onde mora, por seu trabalho. E comece a pensar em seus objetivos para esse
dia.
No lugar de ler as notícias do mundo, se você separou um tempo de
leitura, dê preferência para uma leitura motivadora e inspiradora a �m de não
começar o dia cheio de negatividade.
ALIMENTAÇÃO E EXERCÍCIO
Muitas vezes, sua sensação de falta de tempo se deve ao puro esgotamento e
à falta de energia. Às vezes nos sentimos cansados só porque estamos
levemente desidratados e comemos quando devíamos beber água. Em
qualquer caso, deve ser seguida uma alimentação consciente, prestando
atenção ao que comemos, com alimentos reais e não processados, e com
moderação. Lembre-se dos 80% de que nos falaram os moradores
centenários de Ōgimi.
Uma dieta equilibrada e saudável, junto com a prática de exercícios,
melhora o bem-estar e também a produtividade.
Como Wendy Suzuki, professora de neurociências da Universidade de
Nova York, explica em seu livro Cérebro ativo, vida feliz, o exercício
estimula neurotransmissores como a serotonina, a noradrenalina ou a
dopamina, tão importantes para o estado de ânimo. A melhoria no
funcionamentodo hipocampo também tem benefícios para a imaginação.
Sua equipe de pesquisadores demonstrou que, quando se começa a fazer
esportes, isso melhora sua habilidade de concentração e adaptação, e você se
torna mais criativo.
O combustível que damos a nosso corpo tem a mesma importância. É
preciso prestar atenção ao que ele nos pede e não cair na armadilha fácil do
açúcar ou de um excesso de cafeína que resultarão em mais cansaço.
Isso não signi�ca abrir mão de vez em quando de um �ka, como os
suecos chamam a pausa para o café, transformada em toda uma instituição
social. É um momento para compartilhar, se conectar e se relacionar com os
colegas, durante o qual muitas vezes surgem grandes ideias.
INCORPORE SEUS OBJETIVOS À SUA AGENDA
Vimos em capítulos anteriores a importância de re�etir sobre quem você quer
ser e como você quer viver, e como essa visão pessoal lhe permitirá determinar
suas prioridades.
Mas devido à nossa falta de atenção, é fácil nos perdermos pelo caminho,
e que nossas ações diárias não tenham conexão com o que é essencial.
Se quer transformar suas metas em realidade, terá que separá-las e
determinar seus objetivos semanal e diariamente.
Estabeleça isso em todas as áreas de sua vida que você queira melhorar,
não só no trabalho, mas também em relação à saúde, família e amigos. Elas
devem ser claras, especí�cas e realistas. Faça todo o possível para cumpri-las,
começando por escrevê-las em sua agenda.
De�na as atividades que levarão você a alcançá-las e reserve o tempo
necessário para elas. Todos os objetivos devem corresponder a atividades. Se
você não inclui, pelo menos, uma atividade para cada um deles, não vai
cumpri-los e se perderá em distrações que não agregam nada. Aqui você tem
alguns exemplos:
Q        
. Isso pode implicar passar mais tempos juntos diariamente
para ajudá-los em suas tarefas e envolvê-los nos trabalhos da casa. Por
exemplo: cozinhar e jantar juntos em casa seis dias por semana e fazer um
plano para toda a família que ocorra ao ar livre durante o �m de semana.
Q      . Programar juntos
uma atividade uma vez por mês, falar por telefone uma vez por semana.
Sim, isso também precisa estar na agenda. Anote, como também o dia em
que você comprará os ingressos de um show. Lembre-se do anúncio do
Ruavieja!
Q    . Você terá que
escolher um lugar onde prestar serviço voluntário uma vez por semana e,
por exemplo, doar roupas duas vezes por ano.
Q     . Esse objetivo vai
implicar elaborar relatórios trimestrais de acompanhamento de sua
situação. Isso comporta sete informes por semana, que em média levam
duas horas cada um, resultando em três horas por dia de trabalho.
Depois de determinar as atividades-chave, incorpore o resto das tarefas ao
longo do dia. Alterne as que precisam de mais concentração com outras mais
leves, deixando as que exigem menos esforço para quando seus níveis de
energia estiverem mais baixos, de acordo com seu cronotipo.
A TÉCNICA POMODORO
Inventada no início dos anos 1990 pelo empresário Francesco Cirillo, essa
técnica pode ajudar você a melhorar sua capacidade de atenção e
concentração. Sua metodologia é simples: divida o tempo de trabalho em
intervalos curtos e cronometrados de 25 minutos (chamados de
“Pomodoros” devido ao timer em forma de tomate que Cirillo usava em
seus tempos de estudante universitário), separados por breves interrupções
de cinco minutos para descanso. E, a cada quatro Pomodoros, tire um
descanso mais longo.
Assim você treinará seu cérebro a se concentrar por períodos curtos,
embora você possa estendê-los de acordo com sua capacidade de
concentração. O importante é que não haja distrações durante esses
períodos e que você faça descansos regulares.
AUTORREFLEXÃO
No �m do dia, faça um pequeno exercício de revisão. Faça esta checagem
pessoal:
— Consegui fazer hoje tudo aquilo ao que me propunha?
— Respeitei a diferença entre o trabalho e o descanso? Fiz exercício? O
que posso fazer desde a manhã para ser mais e�ciente e ter uma vida mais
equilibrada?
— Qual é o objetivo número um da manhã? Se você já tem o dia
seguinte planejado, revise-o — até vários dias à frente. Determine os ajustes
necessários. Você descansará muito melhor e começará seu trabalho sem ter de
decidir, sabendo o que precisa fazer.
Uma vez por semana, revise o que �cou pendente. Se isso se repetir uma
semana após a outra, elimine ou adapte seu objetivo. Tome um pouco de
distância para ter uma boa perspectiva de seu progresso e direção, entendendo
o que está funcionando e o que não está.
Serão cinco minutos com um nítido efeito multiplicador.
QUE IMPACTO MEU DIA TEVE EM MIM E NAS OUTRAS
PESSOAS?
Para o blogueiro Tim Denning, medir unicamente as tarefas que você
completou deixa uma sensação de vazio no �m do dia. Por isso, acrescente
mais duas perguntas à re�exão:
Aprendi algo novo hoje? A maioria das pessoas evita aprender todos os
dias e substitui esse hábito de crescimento por distrações vazias. O
aprendizado é difícil, e frequentemente entediante, mas permite
desenvolver habilidades que levam a novas oportunidades que, de outra
forma, não teriam sido possíveis.
Ajudei ou inspirei alguém hoje? Sua lista de tarefas pendentes não será
lembrada dentro de alguns anos, mas sim o impacto que você teve na
vida dos outros.
SEJA FLEXÍVEL
Embora você tenha seu dia planejado e uma técnica à prova de
procrastinadores, sempre ocorrem imprevistos na forma de problemas
familiares, doenças, obstruções, atrasos de aviões ou compromissos, visitas
inesperadas ou relatórios urgentes.
A vida se empenha para estragar seus planos.
Quando as coisas não saem como o planejado, uma mente �exível lhe
ajudará a aceitar a nova situação sem �car preso na frustração ou no tédio
porque alguma coisa não saiu como o esperado.
Você poupará muito tempo e energia, mas essa é uma habilidade que
deve ser praticada. Não se deve pensar em absolutos; é preciso relativizar,
liberar as expectativas e estar aberto à mudança. Usar a criatividade e
desenvolver estilos diferentes de trabalho permitirão que você siga
economizando tempo em meio à adversidade.
Nessas horas em que está jogado no aeroporto com um sinal de wi-�
horrível, você pode fazer uma revisão de seus objetivos e detectar o que não
está funcionando, terminar o relatório do qual está fugindo há três semanas,
incluindo a apresentação em PowerPoint (se você não é membro da APPP), ou
aquela publicação em seu blog que sempre o aborrece.
Às vezes trata-se de trabalhar em horários alternativos, quando ninguém
está fazendo isso. Você perceberá como seu tempo se estica e poderá até tirar
dias de folga no meio da semana.
Quando fui morar em Londres, reclamava muito se tinha de trabalhar no
domingo. Mas com certeza durante a semana os museus, as galerias e as lojas
estão menos concorridos, e você pode encontrar preços melhores para tudo.
Se você é �exível e positivo, sempre saberá encontrar o lado bom de tudo
o que acontece.
UM POUCO DE SÍNTESE
O tempo não “se encontra”, se cria.
Uma agenda TM começa com um bom descanso para iniciar o dia em
condições ótimas.
O esporte e uma boa alimentação devem ter também seu lugar na
agenda, já que afetam a qualidade de nosso tempo.
Todo objetivo na agenda deve estar associado a uma atividade concreta.
No �m do dia, é muito esclarecedor fazer um exercício de revisão.
A �exibilidade permitirá que você transforme qualquer contratempo em
uma oportunidade inesperada.
AGORA… FAÇA
PARA TERMINAR E COMEÇAR
A meia-noite é ao mesmo tempo o �nal de um dia e o princípio de outro. Ao
longo desses 24 capítulos tivemos a companhia de um relógio muito especial
que marcou as horas do primeiro dia de sua nova vida. Aqui termina, e aqui
também começa tudo.
Compartilhamos ferramentas para transformar sua agenda em sua aliada.
Aprendemos a otimizar o tempo com técnicas de produtividade para cumprir
nossos objetivos, mas não à custa de nossafelicidade nem deixando de lado
nossa saúde ou nossas relações, e sim mantendo o equilíbrio necessário entre
alcançar a meta e desfrutar do caminho.
Se perdemos esse equilíbrio, sabemos perceber o que acontece e fazer
uma parada no caminho para que, a partir da serenidade, surjam soluções
criativas que ponham nosso trem novamente em movimento. Entendemos
que, prestando atenção e sendo conscientes do valor de cada minuto, podemos
identi�car distrações, evitar fugas e encontrar tempo para as coisas
verdadeiramente importantes.
Agora… faça.
Quando estudava li um romance de Michael Ende chamado Momo. Para
terminar este livro, quero resgatar um trecho no qual também se fala de um
relógio muito especial:
Momo percorreu a sala com um olhar e perguntou;
— Por isso que você tem tantos relógios? Um para cada homem?
— Não, Momo. Esses relógios são apenas uma paixão minha. São
apenas reproduções muito imperfeitas de algo que todo homem leva em
seu peito. Porque assim como você tem olhos para ver a luz, e ouvidos para
ouvir sons, tem um coração para perceber, com ele, o tempo. E todo
tempo que não se percebe com o coração está tão perdido quanto as cores
do arco-íris para um cego ou o canto de um pássaro para um surdo. Mas,
por desgraça, há corações cegos e surdos que não percebem nada, apesar de
baterem.
Seja qual for o momento da vida em que você se encontre, ele é o
momento perfeito, porque também é o único que existe. Seu passado não tem
por que de�nir como será sua gestão do tempo no futuro.
A partir de agora, com TM, você viverá cada minuto com o coração.
UM POUCO DE SÍNTESE
O melhor momento para começar sua nova vida é agora.
AS 12 LEIS DO TEMPO
1
O        .
Você pode vender seu tempo em troca de dinheiro ou de coisas,
mas nem com todo o ouro do mundo é possível recuperar uma
hora perdida. Por isso, ter tempo é um luxo muito maior do que
ter o relógio mais caro do mundo.
2
A     
Embora quando estamos desfrutando intensamente da vida
pareça que “o tempo voa”, a experiência permanece para sempre
na mente e no coração. Nos dedicar ao que fazemos com a paixão
de uma criança, como se fosse a primeira vez, é uma passagem
para a eternidade.
3
U      
Para nos enchermos de ideias e projetos novos, precisamos dar
espaço a eles, e isso é impossível se estamos sempre correndo de
uma urgência para outra. Uma parada para re�etir e nos inspirar
acaba rendendo mais que a ação pela ação.
4
S      
 
Sêneca dizia que “nenhum vento é favorável para quem não sabe
aonde vai”, e esse é o perigo de viver sem ter nossas prioridades
claras. Você pode acabar dilapidando o tempo em coisas
secundárias sem dar um sentido profundo a sua existência.
5
O      

O que identi�camos como “urgente” é importante para os outros,
mas não para nós mesmos. É preciso priorizar o que é importante
para você. Quem administra seu tempo com sabedoria não se
deixa �sgar pelo anzol das urgências.
6
A       
Há muitas maneiras de procrastinar: alterar os planos da agenda,
criar desculpas para não os cumprir, até mesmo nos anestesiarmos
com telas em vez de fazer o que devíamos estar fazendo. Amanhã
é uma palavra vazia de signi�cado.
7
D       
  
As redes sociais, os compromissos desnecessários, as interrupções e
outros foragidos saqueiam minutos, horas e dias inteiros sem que
às vezes tenhamos consciência. Nossa própria mente, também,
quando a enchemos de pensamentos negativos, nos rouba o
prazer de viver.
8
M      
Fazer listas pode ser outra forma de adiar, especialmente quando
algo pode ser feito agora mesmo. Viver na ação em vez de na
intenção dá valor a cada hora e nos conduz da esperança à
experiência.
9
S    
Possuir muitas coisas materiais, responsabilidades e obrigações é
pago com as pulsações da vida, já que isso exige um esforço e
vigilância constantes. É preciso “descomplicar” a existência para
poder saboreá-la.
10
C “”      “”  
  
Ser assertivo é preservar o tempo, já que cada coisa que fazemos
pelos outros deixamos de fazer para nós mesmos. Sem chegar ao
egoísmo, encontrar o equilíbrio entre o serviço ao mundo e o
respeito por si mesmo é a chave de um bom uso do tempo.
11
A    
O multitasking nos proporciona a ilusão de que estamos em
muitos lugares, mas na realidade não estamos plenamente em
nenhum deles. Além de ser esgotador para a atenção, fazer várias
coisas ao mesmo tempo nos impede de nos concentrar no que é
verdadeiramente essencial.
12
O       
Uma hora vivida com plenitude deixa mais marcas que um ano de
distrações sem substância. Não importa quanto falta para você
viver, mas sim o que fará com seu tempo.
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Morgenstern, Julie, Time management from the inside out, Holt Paperbacks,
2004.
Pascual, Andrés, El viaje de tu vida, Plaza & Janés, 2016.
Reyes, Mario, Las tres cosas que te quedan por hacer, Obelisco, 2016.
Riso, Walter, Cuestión de dignidad: aprenda a decir no y gane autoestima siendo
asertivo, Granica, 2004.
Scaraffia, Giuseppe, Los grandes placeres, Periférica, 2015.
Schwartz, Barry, e Paradox Of Choice: Why More Is Less, HarperCollins,
2018.
Sharma, Robin, El club de las cinco de la mañana, Grijalbo, 2018.
Smolinski, Jill, Los siguiente en mi lista, Ediciones B, 2011.
Sólyom, Anna, Pequeño curso de magia cotidiana, Libros Cúpula – Timun
Mas, 2018.
Suzuki, Wendy, Cerebro activo, vida feliz, Paidós Ibérica, 2015.
ARTIGOS E LINKS DE INTERESSE
(entre outros mencionados no livro):
Adobe Marketing Insights & Operations, Adobe Consumer E-mail Survey
Report, 2017.
Babauta, Leo, My most Important Productivity Method, <https://zenhabits.net>.
Center For Human Technology, <humantech.com>.
Demelo, Juno, “Precrastination: When the Early Bird Gets the Shaft”, e
New York Times.
Denning, Tim, “e Most Important Way to Measure Your Day”,
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Dooley, Ben e Eimi Yamamitsu, “In Japan It’s a Riveting TV Plot: Can a
Worker Go Home on Time?”, e New York Times.
Kiener, Maximilian, “Why Time Flies”, <www.maximiliankiener.com>.
Lally, Phillippa, How are habits formed: Modelling habit formation in the real
world, European Journal of Social Psychology.
Mackay, Jory, Productivity in 2017: What we learned from analyzing 225
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rid of your bad ones), RescueTime blog.
Ruiz, Rebecca, “Labor of Love app aims to ease women’s ‘mental load’ by
turning household chores into a game”, <www.mashable.com>.
Santaolalla, Javier, Date un Voltio, Date un Vlog, yDate un mi, YouTube.
Shellenbarger, Sue, “e Biggest Office interruptions Are…”, e Wall Street
Journal.
University College London na Europa, Estados Unidos e Austrália, “Long
working hours and risk of coronary heart disease and stroke: a systematic
review and meta-analysis of published and unpublished data for 603.838
individuals”, e Lancet.
Westervelt, Amy, “e Surprising Bene�ts of Relentlessly Auditing Your Life”,
e New York Times.
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http://humantech.com/
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D  
Daniele Cajueiro
E  
Ana Carla Sousa
P  
Adriana Torres
Júlia Ribeiro
Adriano Barros
R   
Fernanda Lut�
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Kamila Wozniak
P      
Larissa Fernandez e Leticia Fernandez
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Douglas Kenji Watanabe
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Ranna Studio
	Rosto
	Dedicatória
	Créditos
	Sumário
	O que é Time Mindfulness?
	1 – Faça amizade com o tempo
	Seu cérebro e o tempo
	O relógio de nossa vida
	Por que o tempo é serenidade
	Por que tempo é dinheiro
	Por que o tempo é criatividade
	Qual é seu cronoperfil?
	Seu mapa de prioridades
	A arte de envelhecer bem
	2 – Economize tempo
	O tracking de seu tempo
	Os ladrões de tempo
	O inimigo em casa
	Do FOMO ao JOMO
	O fim da procrastinação
	Resolver, delegar ou eliminar
	Viva simplesmente
	Benefícios da vitamina “N”
	3 – Multiplique seu tempo
	A verdadeira produtividade
	Transforme a tecnologia em sua aliada
	A bússola dos biorritmos
	Concentre-se e você vencerá
	A pausa ativa
	Novos hábitos para viver com Time Mindfulness
	Sua agenda Time Mindfulness
	Agora… faça
	As 12 leis do tempo
	Bibliografia
	Artigos e links de interesse (entre outros mencionados no livro)
	Ficha técnica

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