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PARA ANDRÉS E NOSSO MUNDO LIVRE DO TEMPO Título original: Time Mindfulness: toma el control de tu tiempo y vive de forma más próspera y creativa Copyright © 2020 by Cristina Benito Direitos de tradução acordados por intermédio de Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os direitos reservados. Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela Agir, selo da E N F P S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. E N F P S.A. Rua Candelária, 60 — 7.º andar — Centro — 20091-020 Rio de Janeiro — RJ — Brasil Tel.: (21) 3882-8200 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B467t Benito, Cristina Time mindfulness: assuma o controle de seu tempo e viva de forma mais próspera e criativa / Cristina Benito; tradução e apresentação por Edmundo Barreiros. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2021. 216 p. Formato: e-book, com 2.939KB ISBN: 9786558371014 1. Aperfeiçoamento pessoal. I. Barreiros, Edmundo. II. Título. CDD: 158.1 CDU: 130.1 André Queiroz – CRB-4/2242 SUMÁRIO O QUE É TIME MINDFULNESS? 1 – F Seu cérebro e o tempo O relógio de nossa vida Por que o tempo é serenidade Por que tempo é dinheiro Por que o tempo é criatividade Qual é seu cronoper�l? Seu mapa de prioridades A arte de envelhecer bem 2 – E O tracking de seu tempo Os ladrões de tempo O inimigo em casa Do FOMO ao JOMO O �m da procrastinação Resolver, delegar ou eliminar Viva simplesmente Benefícios da vitamina “N” 3 – M A verdadeira produtividade Transforme a tecnologia em sua aliada A bússola dos biorritmos Concentre-se e você vencerá A pausa ativa Novos hábitos para viver com Time Mindfulness Sua agenda Time Mindfulness Agora… faça A 12 B A ( ) O QUE É TIME MINDFULNESS? Em um de seus primeiros romances, A vida está em outro lugar, Milan Kundera conta a história de um homem que sente estar sempre no lugar errado. Apesar de não parar quieto, as coisas interessantes acontecem onde ele não está. Não seriam justamente essas mudanças que fazem com que nenhum lugar nem momento sejam adequados? Quando você vive convencido de que a vida está em outro lugar, sem perceber afasta o melhor da existência para longe de você a �m de con�rmar que tem razão. Algo parecido acontece com o tempo. Muitas pessoas vivem acreditando que não têm tempo porque sua vida é uma sucessão de urgências, e as obrigações e compromissos lhes roubam o dia inteiro. Outras podem estar convencidas de que “certo tempo passado foi melhor” e têm saudade de uma época que, talvez, no momento não souberam valorizar. Outras situam o tempo de qualidade em um futuro hipotético, já que determinam condições para poder desfrutar da vida: quando me aposentar, quando tiver dinheiro, quando conseguir me organizar melhor (com certeza, este livro vai servir para esta última). Seja como for, assim como acontece com o protagonista de Kundera, se o tempo ideal nunca é aquele em que se vive, seu tempo para viver está sempre em outro lugar. E isso equivale dizer que o tempo presente não tem valor. Enquanto você vagar pela nostalgia ou pelo desejo por aquilo que acredita não ter, sua existência será uma triste sala de espera. NO MEIO DA TEMPESTADE Meu marido, o escritor Andrés Pascual, diz em suas palestras que o tempo adequado, o momento de paz para fazer alguma coisa, não chegará nunca. É preciso estar disposto a erguer nosso sonho desde o caos, a trabalhar no meio da tempestade se necessário. Todos os “quando…”, porém, mais especialmente o “quando tiver tempo…”, mascaram nossos medos e nos condenam ao inferno da procrastinação. Essa palavra tão feia está de�nida no dicionário como “o hábito de atrasar o que devemos fazer, substituindo isso por atividades mais irrelevantes”. Enquanto acreditamos não ter tempo para viver a existência que desejamos, desperdiçamos milhares de segundos, horas, dias inteiros surfando entediados pelas redes sociais ou assistindo à televisão, entre tantas outras coisas que fazemos por inércia. Deixamos nossas prioridades em stand-by e, além dessas distrações automáticas, comparecemos a reuniões inúteis ou aceitamos marcar compromissos que não nos acrescentam nada. Por que, então, achamos que nos falta tempo quando deixamos que a vida passe tão despreocupadamente? Com que solução contamos para tantas “fugas” que perfuram nossas agendas como uma peneira, até nos deixarem sem um momento de qualidade para nós mesmos? ACABE COM O STAND-BY Com este livro, você vai aprender a dar protagonismo às suas prioridades, eliminando os “ladrões de tempo” que estão sempre à espreita e desativando as desculpas que o levam a adiar o que deveria estar fazendo. Para isso, além das técnicas que apresentarei neste manual, você terá de fazer algo simples que custa muito para grande parte da humanidade: tomar consciência. O Time Mindfulness (TM) consiste exatamente nisso, ser consciente do tempo, o que implica: Decidir que fração de sua jornada (ou, pelo menos, de seu tempo livre) você quer dedicar às coisas verdadeiramente importantes. Deter as “fugas” por meio das quais as horas escapam inutilmente, esvaziando seu depósito de tempo disponível. Organizar sua agenda não de acordo com o que as outras pessoas exigem de você, mas de acordo com suas prioridades. Eliminar a procrastinação de seu dia a dia. Tirar períodos de descanso que, além de recarregar as baterias do bom humor, sejam verdadeiros oásis de criatividade. Aprender a multiplicar o valor de cada hora, evitando a dispersão e incorporando técnicas que aumentarão seu rendimento. Você vai encontrar tudo isso neste programa pioneiro de TM, que está alicerçado em uma verdade muitas vezes negada: seu tempo é seu. Talvez você venda parte dele em troca de um salário, e também falaremos disso, mas o restante não pertence a ninguém, só a você. Considerando que o tempo são os trilhos pelos quais circula o trem de nossa vida, vamos aprender a aproveitar a viagem. Ao tomar consciência de seu tempo, você começará a dar a ele o valor que merece. Cada hora do seu dia será preciosa porque, como cantavam os Rolling Stones em 1964: “O tempo está do seu lado.” Tenho certeza de que as horas dedicadas a ler este livro serão um investimento bastante rentável, já que, muito em breve, no lugar de ir contra o relógio, você vai fazer do relógio — e de sua agenda — seu melhor aliado para viver a vida que deseja. Cristina Benito SEU CÉREBRO E O TEMPO O RELÓGIO INTERIOR MARCA AS EXPERIÊNCIAS Dizem que, se você quiser deixar um físico nervoso, basta perguntar a ele o que é o tempo. Para Newton, o tempo era uma magnitude física e objetiva, algo que se move e �ui sempre adiante, como se fosse um grande relógio cósmico. Para Einstein, era subjetivo, pois depende da velocidade com que nos movemos pelo espaço. Segundo o gênio alemão, o tempo �ui inclusive de forma pessoal: “Sente-se em uma placa quente por um minuto e vai parecer uma hora. Sente-se ao lado de uma garota bonita por uma hora e vai parecer um minuto: aí está a teoria da relatividade.” Para a física quântica, todas as possibilidades convivem em um mesmo instante. Mais importante do que de�nir o que é tempo é decidir o que fazemos com ele. O tempo é um presente que nos foi dado, devemos estar à sua altura e aproveitá-lo como ele merece para a�orar nosso melhor. KRONOS E KAIRÓS Na Grécia Antiga se usavam duas palavras para de�nir o tempo: kronos e kairós. A primeira se referia ao tempo mensurável, entendido como uma sequência quantitativa. Por isso, utilizamos essa raiz para “cronômetro”, “cronologia” e outros termos que medem a quantidade de tempo. O acerto dos gregos foi criar maisuma palavra, kairós, que se referia à qualidade do tempo. Eles sabiam que nós, seres humanos, temos a capacidade e a responsabilidade de dar a cada instante a máxima qualidade. Como diz o escritor e palestrante Álex Rovira, um beijo dura poucos segundos, mas pode marcar uma vida, assim como um abraço, uma palavra amável ou um gesto de entrega. Kairós equivale a estar neste exato momento, sentir-se em sintonia com o mundo, alinhado para fazer qualquer coisa a que se proponha. É alcançar a plenitude aqui e agora. Mas, para isso, é preciso saber viver no presente. Muitas vezes o passado nos impede de avançar. Se foi triste, pelo pesar ou pela raiva que sentimos; se foi belo, pela nostalgia. O mesmo acontece com o futuro. Nos preocupamos com coisas terríveis que ainda não aconteceram e nos desesperamos porque esse futuro idílico que desejamos não chega. Em ambos os casos, nós nos bloqueamos e não agimos para que o presente seja melhor. Não conseguimos aproveitar o que acontece neste exato — e maravilhoso — momento. Como a�rma o zen, o passado não existe, tudo o que aconteceu trouxe você a este momento em que está agora. O futuro também não existe, será você mesmo a construí-lo com seus atos no presente, aproveitando seu tempo de forma apropriada. VIVER SEM TEMPO Os amondawa, um povo da Amazônia brasileira com o qual se estabeleceu contato pela primeira vez em 1986, não têm o conceito de tempo. O professor Chris Sinha, da Universidade de Portsmouth, que conviveu com eles e estudou sua língua, explica que eles não consideram o tempo como algo que se pode medir ou contar, nem sobre o qual falar de maneira abstrata. Eles não têm palavras nem para o tempo nem para suas divisões ou medidas como dia, mês ou ano. Tampouco para a próxima semana nem para o ano passado. Só para as divisões entre dia e noite e as estações chuvosas e secas. Eles não contam nem sua própria idade. Têm nomes diferentes para as fases de sua vida ou de acordo com o status que vão adquirindo na tribo. Por exemplo, um menino pequeno cede seu nome a seu irmão recém-nascido e recebe um novo. Segundo Sinha, nós pensamos no tempo como uma coisa. Dizemos “o �m de semana voou”, “as provas estão chegando”, “não tenho tempo”… E acreditamos que essas declarações são objetivas, quando não passam de metáforas que criamos e que, sem percebermos, terminaram se convertendo em nossa forma de pensar, nos roubando a liberdade da qual ainda desfrutam os amondawas. NOSSO RELÓGIO DE EXPERIÊNCIAS Há cinco anos, um grupo de cientistas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por ter descoberto nosso GPS cerebral; ou, dizendo de uma forma mais técnica, um conjunto de células que habita o córtex entorrinal médio e forma um sistema de coordenadas que nos permite entender qual é nossa situação no espaço. Graças ao trabalho dessas células, entendo o “onde”. Mas e em relação ao “quando”, devem ter se perguntado os médicos escandinavos. Como eu sei em que momento me encontro, se se passou uma hora, um ano, muito ou pouco tempo desde este ou aquele acontecimento? Como tinham descoberto um sistema neuronal para ordenar o espaço, eles continuaram a investigar até encontrar o que mede o tempo, que sem dúvida está localizado muito perto do anterior, no córtex entorrinal lateral. Como tantas vezes acontece na ciência, e na vida em geral, o que no início parecia um fracasso, os levou ao sucesso do experimento. Quando estavam a ponto de desistir porque o comportamento das células estudadas não respondia a padrões �xos — na verdade era um verdadeiro caos —, eles perceberam que isso acontecia porque o tempo varia a cada instante e para cada pessoa. Como diz o pesquisador: “A rede neuronal mede um tempo subjetivo derivado do �uxo contínuo da experiência.” Isso é, trata-se de um relógio especial que registra o tempo associado a cada uma das experiências que vivemos. Por isso, dependendo de qual seja nosso estado mental e nossas circunstâncias, temos a sensação de que o tempo passa mais rápido ou mais devagar, como no exemplo apresentado por Einstein. Essa tese cientí�ca não se diferencia muito do que propunham os grandes �lósofos: “Não meça o tempo em horas ou dias, meça-o em ações e satisfação.” Esses são os únicos ponteiros que têm verdadeiramente importância em sua vida e que terão efeitos na dos outros. OS MINUTOS DIVERTIDOS DURAM MENOS O pesquisador Hudson Hoagland descobriu, graças a uma gripe da qual sofria sua esposa, que a febre alta afeta nossa noção de tempo. Enquanto estava doente, os minutos que ele passava fora de casa pareciam longuíssimos, e não só porque ela sentia falta dele. Vários estudos con�rmaram que, quando a temperatura corporal sobe, nosso cérebro tem a percepção de que se passou mais tempo do que objetivamente se passou. Emoções fortes também podem distorcer a percepção do tempo. Como podem dizer os participantes de um experimento do conhecido divulgador cientí�co David Eagleman: para pessoas corajosas que saltaram de uma altura de 15 andares em uma rede, os três segundos que duraram a queda pareceram nove. Ou as pessoas que sofrem um acidente e acreditam ver tudo em câmera lenta. A amígdala cerebral intervém diante de situações de medo ou pânico, alterando nosso relógio interno. Se estamos atrasados para o trabalho, os mesmos cinco minutos que passamos todo dia na plataforma do metrô parecerão uma hora. A espera de resultados médicos se torna eterna, enquanto as tardes em que desfrutamos da companhia de nossas amigas e suas con�dências voam. As expectativas também in�uem em nossa percepção do tempo. Se acha que não, pense no efeito da “viagem de volta”. “Quanto falta?”: certamente essa pergunta lhe parece mais habitual nas viagens de ida, que sempre parecem mais longas, embora tenham os mesmos quilômetros que as de volta. Como explica o psicólogo Niels van de Ven, as viagens novas geram nervosismo e certa ansiedade devido às expectativas depositadas sobre elas, que ativam nosso sistema nervoso simpático, fazendo com que percebamos o tempo de forma mais dilatada. É o contrário do que acontece no retorno. Nossa expectativa é “vai durar muito tempo outra vez”, e paradoxalmente o caminho nos parece mais curto. Que efeitos práticos podemos extrair de tudo isso? Nada mais nada menos que uma certeza: nosso cérebro tem controle sobre como experimentamos o tempo. Como veremos ao longo deste livro, se conseguirmos vencer o estresse e as inércias vazias, deixaremos de ser escravos do relógio para nos convertermos em donos de nosso tempo. MINDFULNESS PARA UMA VIDA LONGA E PLENA Quando olhamos para trás em nossas vidas, apesar de os minutos desfrutados e bem aproveitados parecerem curtíssimos por estarmos nos sentindo bem, são esses momentos que dão sentido a nossa existência. Podemos completar, então, o título da parte anterior dizendo que os minutos divertidos duram menos, mas prolongam a vida. Porque, se nos deixamos levar pela rotina, o dia a dia se tornará tediosamente eterno e, de forma paradoxal, nos deixará a sensação de que a vida passa sem percebermos. Sensação essa que nos leva a um estado de apatia que é totalmente contrário ao TM. A ciência demonstrou que o mindfulness — cultivar a atenção plena e estar concentrado no aqui e agora —, entre outros muitos benefícios, traz serenidade e melhora a memória. Nossos cérebros armazenam mais informação sobre os eventos que vivemos, sejam grandes ou pequenos, e isso nos faz perceber a passagem do tempo de forma mais pausada. Ao contrário, estar distraídos na rotina cria a sensação desagradável de que o tempo está voando e estamos, literalmente, jogando nossa vida no lixo. VIVA AS COISAS COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ Maximilian Kiener, um designer austríaco de quem recomendo o projeto precioso Why Time Flies [Por que o tempo voa], que você pode experimentar gratuitamente em sua página na internet, explica a percepção do tempo a partir das teorias do �lósofo francês Paul Janet. Em seu primeiro ano de vida, umacriança está constantemente recebendo novos estímulos, descobrindo e experimentando. Para ela, um ano, ou mesmo um mês, é quase uma eternidade. Da mesma forma, a primeira semana de uma longa viagem a um país desconhecido, na qual recebemos uma grande quantidade de novas informações, vai nos parecer muito mais longa que as seguintes. Isso explica por que quando você volta a um lugar que foi especial em sua infância, ele lhe parece menor, pois esse lugar foi seguido por muitos outros e, além disso, você não o está descobrindo pela primeira vez. Na infância vivemos o presente com plenitude, considerando que tudo é novo para nós. Mas, à medida que envelhecemos, nossas vidas se enchem de atividades repetitivas, começamos a viver presos ao passado ou nos projetando no futuro… e o presente nos escapa. Sendo assim, pode-se dizer que o TM é coisa de crianças. Que essa de�nição seja bem-vinda! Vamos recuperar a capacidade de perceber cada minuto da vida como uma eternidade cheia de possibilidades. COMO FAZER SEU DIA DURAR MAIS TEMPO orin Klosowski, especialista em tecnologia aplicada ao bem-estar, diz: “É surpreendente a quantidade de experiências novas que se apresentam ao longo do dia quando prestamos um pouco de atenção.” Ele estabeleceu como objetivo de ano novo fazer uma coisa nova a cada semana que o tirasse do piloto automático: ir a uma conferência, assumir a palavra em um evento, escrever sobre coisas que tinha medo de enfrentar… É sabido que a zona de conforto é mais uma prisão que um refúgio. Nós nos atemos ao que é conhecido, reduzimos nossas “primeiras vezes”, e o tempo avança em disparada. Ao dizer sim às novas experiências, além de crescer como pessoas, acumulamos novas memórias que mudam a percepção subjetiva do tempo. Ao exprimir nossos dias, semanas ou meses, eles parecem durar mais, enriquecendo nosso kairós. Em vez de se angustiar com a passagem inevitável do tempo, o cérebro se dispõe a aproveitar ao máximo cada experiência. Para fechar este capítulo, proponho uma série de truques com os quais você pode enganar sua mente para que seus dias pareçam tão longos quanto são para as crianças. D . Quando você visita um ambiente novo — e não é preciso ir para outro continente —, seu cérebro absorve grande quantidade de novas informações por meio dos cinco sentidos. Curiosamente, isso faz com que o tempo seja percebido de forma mais pausada, gerando uma sensação de relaxamento. C . Variar os relacionamentos pessoais também ativa seu cérebro e atrasa o relógio. Cada novo contato chega com histórias diferentes, assim como tem uma visão diferente do mundo que enriquecerá a sua. M . Se você é autônomo, experimente trabalhar de vez em quando em escritórios improvisados como um café ou um parque. Pratique isso também com as atividades de seu tempo ocioso que exigem estar sentado a uma mesa ou sofá, como ler ou aprender um idioma. A . Esta ideia resume todas as anteriores. A vontade de saber mais, de aprender, seja pro�ssionalmente ou em qualquer disciplina vital, é a característica principal das crianças e a virtude que estica seus dias como elástico. Dê a seu tempo a qualidade que ele merece! UM POUCO DE SÍNTESE Mais importante que a quantidade de tempo é sua qualidade. Os minutos de felicidade parecem durar menos, mas persistem por muito tempo na memória e dão sentido à vida. Cultivar a atenção plena prolonga o tempo, porque o vivenciamos mais lentamente e com maior profundidade. Experimentar o mundo com os olhos de criança quase nos leva à eternidade. O RELÓGIO DE NOSSA VIDA NÃO SE PODE MEDIR TUDO Quando ganhei meu primeiro relógio de pulso, me achei maior e importante, com ocupações e coisas para fazer. Ele tinha uma pulseira de couro marrom e um mostrador pequeno cor creme com o 12, o três, o seis e o nove marcados. Para minha primeira comunhão, me deram um relógio digital Casio. Também me lembro do relógio de ouro que deram a minha tia Angelines quando ela se aposentou. Por outro lado, a primeira coisa que minha mãe fazia quando íamos para a casa no interior onde passávamos os verões era tirar seu relógio de pulso e guardá-lo em um vaso de cerâmica. Nós nos acostumamos a ver a hora constantemente e quase sempre para conferir o tempo que nos resta: para terminar alguma coisa, para chegar a algum lugar… Embora hoje em dia muita gente use o celular para consultar a hora, vivemos ligados a um relógio como a ampulheta que foi entregue pela Bruxa Malvada do Oeste para Dorothy em O mágico de Oz, anunciando sua última hora de vida. Como não vamos viver angustiados pela falta de tempo? Queiramos ou não, o relógio — esteja onde estiver — condiciona nossa vida. E no que se refere à gestão do tempo, assim como nossa mente, ele pode ser um aliado ou um inimigo terrível. QUANDO ERA POSSÍVEL SENTIR O CHEIRO DO TEMPO O primeiro sistema para medir o tempo, há cinco ou seis mil anos, nos ajudou a nos organizarmos. Tínhamos deixado de ser nômades e precisávamos organizar a sociedade e convocar as reuniões de vizinhos da época. Desde então, utilizamos os métodos mais variados para controlar o tempo. Os egípcios colocavam obeliscos para medir o meio-dia. Mais tarde criaram os relógios de sol, que já marcavam as horas, mas apresentavam muitos inconvenientes: não funcionavam à noite nem em dias nublados, e a duração das horas variava de acordo com a época do ano. Na Grécia e em Roma, para medir a duração das guardas e dos turnos de intervenções nos tribunais, utilizava-se um cronômetro de água chamado clepsidra, que se traduz como “ladrão de tempo”. Na China e no Japão, era possível sentir o cheiro do tempo: as barras de incenso marcavam a duração da visita de uma gueixa ou da meditação no templo. Algumas delas tinham até alarme: prendia-se a elas uma campainha para que tocasse quando o período de tempo estabelecido se consumasse. Assim, o tempo também começava a ser escutado. Os primeiros relógios mecânicos foram instalados nos mosteiros durante a idade média. Ainda sem ponteiros ou mostradores, consistiam de um sistema de pesos, molas e campainhas que indicavam as horas. Até então, durante as vigílias, se usavam velas nas quais se faziam marcas, mas o ora et labora exigia uma hora mais precisa para não se sobrepor às matinas ou às laudes, vésperas ou completas. Também foram úteis para mercadores e artesãos para organizar seus horários comerciais, e por isso precisavam ser grandes e estar bem no alto. E, �nalmente, acrescentaram ponteiros aos relógios. Os pêndulos �caram mais ágeis e surgiu o ponteiro dos minutos. Daí em diante, com a Revolução Industrial, chegou a produção em massa; as pessoas podiam ter em casa um artefato que marcava as horas. Esse podia ser de mesa, de bolso… e de pulso, como o que minha mãe botava no vaso. No início, porém, é possível pensar que o uso que se fazia dos relógios pessoais era mais inteligente do que hoje é habitual. Sabemos por crônicas da época que os primeiros usuários se retiravam para uma sala para ver a hora, pois não era bem visto fazer isso. Ainda hoje, o protocolo diz que é melhor ir a cerimônias sem relógio. Deixe-o em casa e aproveite o evento, diria um bom an�trião. Atualmente, os relógios analógicos parecem ter seus dias contados. Nas escolas britânicas, eles já estão sendo substituídos por digitais porque, nas provas, as crianças não param de perguntar quanto tempo lhes resta para terminar, já que não entendem o objeto que está preso à parede. Chegou a hora de ensinar, nessas escolas e em todas as outras, a fazer amizade com o tempo para viver de forma mais próspera, serena e criativa. Há milênios observávamos o movimento dos planetas e dos astros no céu para medi-lo. Mas sabe o que pensam as estrelas? O quanto nós somos fugazes. CASIO: CINCO VALORES PARA ALCANÇAR O SUCESSO Essa empresa japonesa criou o primeiro relógio digital nos anos 1970. Aos poucos, incorporaram luz, alarme, cronômetro…Os relógios inteligentes atuais oferecem muito mais, no entanto, a história do sucesso da Casio, uma empresa de calculadoras que soube diversi�car, sempre será considerada um exemplo a ser seguido. Estes são os cinco valores que a inspiraram, todos eles presentes na cultura japonesa: C. Para estar sempre na hora certa, é preciso investir esforço. Entregue-se a seus projetos com a mesma fé e determinação que os japoneses demonstraram depois da Segunda Guerra Mundial, e o “milagre” vai acontecer sozinho. R. Volte a se levantar depois de cada queda. A exigência, a responsabilidade e a superação pessoal são ensinadas aos japoneses. O mesmo que demonstram os relógios Casio, cujos materiais resistem quando mergulhados em água, ao levar pancadas e, também, à passagem do tempo. F. Assim como o junco japonês, além de resistência, é preciso ter �exibilidade. Os japoneses se adaptam, são respeitosos, evitam causar problemas ou participar de debates que perturbam a boa convivência. A Casio foi bem-sucedida porque criou relógios que se adaptam a todo tipo de clientes e de situações. T. A aposta na inovação foi o elemento-chave para a recuperação econômica do país e para o sucesso de suas empresas. D. O estilo japonês é caracterizado por combinar elementos tradicionais com outros mais vanguardistas. E esta hibridização também pode ser aplicada a nossa vida, misturando a sabedoria tradicional com as novas tendências. RELÓGIOS PARADOS ESTÃO CERTOS DUAS VEZES AO DIA Embora nem todos os países tenham entrado em acordo sobre a medição do peso ou da distância, há unanimidade em referência ao tempo. Durante o dia, a Terra faz uma rotação completa sobre seu eixo. Um mês, 29 dias e meio, é um ciclo completo da lua. E um pouco mais de 364 dias é a duração da viagem da Terra pela sua órbita ao redor do Sol. Como a cada ano sobram umas seis horas, a cada quatro temos um ano bissexto. O que não está tão claro é o porquê das 24 horas. Parece que os egípcios herdaram o sistema duodecimal dos sumérios, que usavam o dedo polegar para contar as falanges dos outros quatro dedos: três em cada dedo, 12 em cada mão, 24 horas no total. Foram os astrônomos gregos que, seguindo o sistema hexadecimal, dividiram as horas em sessenta minutos, e estes em sessenta segundos. Talvez por se tratar de um número que facilita muito os cálculos por ser divisível por 2, 3, 6, 10, 12, 15, 20 e 30. Todos os relógios do mundo se ajustam segundo um tempo-padrão de referência universal (UTC) baseado em relógios atômicos extremamente precisos, e além disso sempre contando com a referência solar. Na verdade, a velocidade de rotação da Terra apresenta perturbações que devem ser compensadas de vez em quando acrescentando-se algum segundo adicional ou ano bissexto para manter os relógios em sintonia (desde 1972, quando começamos a contar com a referência do UTC, isso ocorreu 27 vezes). Se não acrescentássemos esses segundos, no ano 2100 estaríamos entre dois e três minutos fora de sintonia com a posição do sol. Não há problema se é necessário fazer correções. Como diz Woody Allen: “Todos nos equivocamos, mas até um relógio parado acerta duas vezes por dia.” TUDO O QUE VOCÊ PODE FAZER EM UM MINUTO Ao ler sobre essa diferença de minutos, talvez você tenha pensado: “Não é grande coisa.” Mas já parou alguma vez para re�etir sobre todas as coisas maravilhosas que podem ser feitas em um minuto? Lembrar a uma pessoa o quanto você gosta dela. Fazer respirações de ioga para se sentir melhor. Saborear uma taça de Rioja (o vinho da minha terra). Ter uma grande ideia ou, pelo menos, um pensamento positivo. Dar em um amigo o abraço de que ele precisa. Ganhar um minuto inteiro de beijos de suas sobrinhas. Mandar uma mensagem por WhatsApp pedindo desculpas por algo que não tenha feito certo. Mandar outra para agradecer. Não despreze nenhum dos minutos do relógio. Todos eles são igualmente importantes. Lembre-se sempre de que, quando você dedica um minuto a uma coisa, deixa de dedicá-lo a outra. E esse minuto nunca voltará. Isso é Time Mindfulness. KALPA, A MAIOR MEDIDA DE TEMPO CONHECIDA Um kalpa dura tanto (4,32 bilhões de anos para o hinduísmo, 1,28 bilhão para o budismo) que, quando Buda queria descrevê-lo para seus discípulos, precisava recorrer a analogias. 1. Imagine uma montanha de sementes de mostarda diminutas. Um kalpa seria o tempo que ela levaria para se esgotar se um ser celestial descesse uma vez a cada três anos para levar uma dessas sementes. 2. Imagine uma montanha de dez quilômetros cúbicos. Um kalpa seria o tempo que ela levaria para desaparecer se um ser celestial roçasse nela com a ponta da manga de seu traje de seda uma vez a cada três anos. 3. Imagine a água de todos os oceanos. Um kalpa seria o tempo que levaria para secá-la se um ser celestial descesse uma vez a cada três anos para molhar um pincel. Essa forma oriental de entender o tempo como algo efetivamente in�nito contrasta com a forma mais generalizada do Ocidente, onde somos obcecados por preencher os dias, as horas e os minutos. TODOS OS BRANCOS TÊM UM RELÓGIO, MAS NENHUM TEM TEMPO Em 2015, meu marido publicou um livro de crescimento pessoal chamado A viagem de sua vida, um diário de bordo das dez viagens que mais nos marcaram após mais de duas décadas percorrendo o mundo juntos. A escala na Etiópia tinha o título de “Tire seu relógio e recupere seu tempo”. Foi nesse país tão desconhecido quanto fascinante, por volta de 2002, que nós dois vislumbramos pela primeira vez a necessidade de nos libertarmos da tirania do relógio. Nesse capítulo ele contava como o chefe de uma tribo hamer, com a qual tínhamos passado a noite, nos convidou a participar de uma festa tradicional que seria celebrada no dia seguinte. Eu me lembro que pegamos uma pasta com nosso plano de viagem escrito à caneta e explicamos a ele que sentíamos muito, mas tínhamos de seguir em frente. O ancião nos olhou �xamente e sentenciou: — Todos os brancos têm um relógio, mas nenhum tem tempo. Saímos da cabana pensando sobre essa frase. Ele tinha razão. Os ocidentais se empenham em estimar o tempo em segmentos cada vez menores; séculos, anos, dias, horas, minutos, segundos… e nós nos obrigamos a preenchê-los e a seguir seu ritmo. Acreditamos que o tempo tem existência em si mesmo, que esses ponteiros estão aí desde o princípio da eternidade e que os seres humanos estão condenados a viver no ritmo determinado para nós. O sol tinha começado a cair, mas ainda fazia calor. Amanhecer, entardecer… Compreendemos que esse era o único relógio dos membros daquela tribo. Para eles, a vida se dividia em momentos marcados pelos fatos que realmente ocorriam. O tempo só existia quando eles faziam com que existisse. Cada um marcava o ritmo a �m de agir mais, viver mais. Naquela tribo não diziam “há dois anos” ou “há dez anos”; diziam: “Quando este guerreiro passou pelo ritual do salto dos bois”, ou “quando nós todos abrimos o poço em plena seca”. Por isso respeitavam tanto os anciãos, porque tinham vivido mais coisas que os jovens (ao contrário do que nós diríamos: falta tempo para os velhos!). Voltamos à cabana para dizer ao ancião que íamos �car para o dia seguinte e todos os que fossem necessários. Então notamos que o enfeite que ele usava na testa, pendurado de uma faixa que envolvia sua cabeça, era meia pulseira metálica de um relógio. Alguém o havia presenteado e ele tinha arrancado o relógio — que desde então devia estar no fundo do rio Omo — e colocado alguns elos de aço inoxidável de enfeite. Não vou recomendar que você jogue seu relógio no lixo, mas, ao longo dos próximos capítulos, vou lhe dar algumas sugestões de como usá-lo corretamente e recuperar seu tempo. UM POUCO DE SÍNTESE Um relógio pode ser um dispositivo muito útil ou um instrumento que nos acorrenta. Antigamente, a etiqueta dizia que para ver a hora era melhor ir à outra sala, um bom hábitoque devíamos recuperar. Não se deve desperdiçar nem um minuto sequer, porque esse é um tempo que pode ser empregado de forma maravilhosa. Melhor do que ter um relógio de ouro e brilhantes é ter tempo. POR QUE O TEMPO É SERENIDADE VISTA-ME DEVAGAR PORQUE TENHO PRESSA O tempo são os trilhos pelos quais circula o trem de nossa vida. Se os trilhos estão cuidados e o traçado está bem pensado, nossos dias �uirão com leveza, quase como se não tocássemos o chão. Se deixamos de cuidar dos trilhos, permitindo que enferrujem, ou os enchemos de bifurcações e cruzamentos, nosso trem não vai chegar a lugar nenhum, e é possível até que ele descarrilhe ou se choque contra outros trens. Algo semelhante acontece com as pessoas que não têm nenhum controle sobre sua agenda. Elas enchem suas jornadas de caos, o que acaba prejudicando os outros, e estão sempre contra o relógio. Elas ocultam as obrigações e vão correndo de uma urgência para outra; às vezes dedicam muito tempo a atividades secundárias, e aí �cam faltando horas para fazer o essencial. Esgotadas, essas pessoas vivem navegando pela desordem e reclamam de não conseguir lidar com tudo. A vida as supera. Tudo isso tem remédio se aplicarmos o TM, mas, antes de explicar no que ele consiste, vamos ver o que acontece quando nos dedicamos a viver sem tomar o controle de nosso tempo. A VIDA SEM TIME MINDFULNESS Administrar mal o tempo di�culta nossa vida e a enche de caos e irritação. O que se traduz em um estado permanente de tensão e transitoriedade que acaba minando os nervos e a própria saúde do corpo. Por trás de muitos quadros de estresse crônico, transtornos de ansiedade e doenças relacionadas, como úlceras ou problemas cardiovasculares, há uma péssima gestão do tempo que nos obriga a estar em alerta permanentemente e produz uma sensação de esgotamento. O fato de não saber organizar nosso tempo leva a: S . A pessoa sem TM está em uma corrida de obstáculos constante, porque a desorganização faz com que precise buscar soluções de última hora, que em geral não são as melhores. Isso implica um gasto maior de energia e, frequentemente, também econômico, como veremos no próximo capítulo. I . Se não temos controle sobre nosso tempo, isso promove o estresse de ter de decidir tudo em movimento. Por exemplo, por não ter reservado a tempo o restaurante apropriado para um jantar importante, você terá que se conformar com opções piores, e além disso precisará investir um tempo extra nessa busca de última hora. C ( ). A falta de TM faz com que ponhamos mais coisas na agenda do que podemos fazer, o que resulta em angústia. Isso quando não nos esquecemos diretamente dos compromissos marcados. Em consequência, chegamos tarde em todos os lugares ou temos de cancelar compromissos, o que é um problema para os outros e para a própria pessoa, já que será necessário procurar um novo espaço na agenda, o que signi�ca novamente investir mais tempo. S . Todo mundo passou por isso, pelo menos, uma vez em seus tempos de estudante. Apesar de ter boas intenções, a hora de estudo vai sendo adiada e, no �m, você se vê na noite da véspera da prova diante de uma pilha de anotações e com os nervos à �or da pele. Os resultados não costumam ser os melhores — com sorte, você salva a situação com uma nota mínima para aprovação —, e a maratona de última hora cobra o preço sobre o corpo. Especialmente na maturidade, roubar horas de sono por culpa de nossa desorganização pode ser fatal. UM SUICÍDIO BIOLÓGICO Carlos Egea, pneumologista do hospital Vithas San José de Vitória, membro da Sociedade Espanhola do Sono, a�rma que dormir menos de seis horas por dia é um suicídio biológico. “Roubar” horas de descanso para fazer o que devíamos ter feito enquanto estávamos acordados é um negócio extremamente perigoso já que, segundo esse respeitado médico, “dormir menos de seis horas aumenta em 30% o risco coronariano”. Além de botar em perigo a vida — muitos acidentes de trânsito têm sua origem em um microssono causado pela falta de descanso —, a privação de sono afeta a concentração no trabalho, o que multiplica os erros, e os órgãos perdem a capacidade de recuperação. A VIDA COM TIME MINDFULNESS Einstein dizia que “a única razão para o tempo existir é para que não aconteça tudo simultaneamente”. E certamente essa é a �nalidade do uso inteligente do relógio: em vez de correr como condenados, sentindo que o mundo está caindo sobre nossas cabeças, podermos aproveitar a paisagem do trem. A boa gestão do tempo, quando seguimos nossas prioridades e fazemos uma coisa depois da outra, traz a serenidade de forma natural. Ela nos dá uma sensação agradável de controle sobre nossa própria existência. Ao contrário da aceleração, do multitasking e de seguir fazendo reparos, seria um estilo de vida que poderia se desenvolver assim: Acorde um pouco antes do necessário, com tempo su�ciente para não começar o dia correndo. Depois de seu ritual matinal — exercício, meditação, um pouco de leitura —, disponha de tempo para tomar café da manhã com calma, planejando os principais objetivos do dia. Vá para a rua com tempo su�ciente para não ter de se apressar. Você pode se permitir fazer parte do caminho a pé e prestar atenção ao mundo que o rodeia. Não se desgaste atualizando suas redes sociais pelo caminho. Quando estiver no local de trabalho, concentre-se em seu serviço, sem outras distrações, para �uir com o que faz e estar com as tarefas em dia. Assim você evitará sair mais tarde. Aproveite o horário de almoço para conversar com os amigos ou atualizar suas redes, se necessário. Dedique a tarde — ou o tempo livre do dia — para fazer o que realmente lhe apetece, sem compromissos desnecessários. Se estiver com um amigo, é porque esse encontro realmente lhe agrada. Em lugar de se anestesiar uma noite após a outra com séries ou em frente à TV, aproveite seu tempo para cozinhar, conversar com a família e repassar os acontecimentos do dia. Tome nota do que você fez durante o dia e o que pode fazer melhor no dia seguinte. Um pouco de leitura em papel, ou outra atividade relaxante, será uma boa maneira de preparar seu corpo para o sono. Durma as horas necessárias — nunca menos de sete ou oito — para poder enfrentar a manhã seguinte com energia e o foco concentrado nos objetivos. Para poder viver com esse tipo de serenidade, é preciso aprender a extrair o sumo de cada momento. Na segunda e na terceira partes deste livro, abordaremos técnicas e truques para conseguir fazer isso. O HOMEM TRANQUILO O grande mestre da serenidade Ramana Maharshi era também um verdadeiro especialista na administração do tempo. Conta-se desse guru indiano do século passado que ele emanava tamanha tranquilidade e paz que, diante de sua presença, seus visitantes também entravam em um estado de profunda meditação e calma. A ele se atribui a frase: “É preciso que mostrem a você o caminho dentro de sua própria casa?” Seu discípulo e biógrafo Arthur Osborne, ao falar dos hábitos cotidianos desse sábio, faz alusão ao respeito que ele tinha por seu tempo e pelo das outras pessoas: Bhagavan Sri Ramana foi meticulosamente exato, muito atento, prático e de ótimo humor. Sua vida diária foi conduzida com uma pontualidade que os indianos de hoje teriam de chamar de puramente ocidental. Ele foi preciso e organizado em tudo. A sala do ashram era varrida várias vezes por dia. Os livros estavam sempre no lugar. Os tecidos que cobriam o sofá estavam meticulosamente limpos e perfeitamente dobrados. A tanga, que era tudo o que vestia, era de um branco resplandecente. Os relógios do salão eram acertados diariamente com o horário da rádio. Nunca se permitiu que o calendário �casse com a data atrasada. A rotina da vida �uía de maneira regular. Sri Ramana também era rígido com seus discípulos, insistindo que cumprissem suas tarefas pontualmente. O MOSTEIRO EM CASA Sem a necessidade de viver em um ashram ou em um mosteiro zen, podemos aplicaressa ordem que proporciona serenidade à vida cotidiana. Nossa mente, que pensa constantemente, e nosso ambiente frequentemente nos levam à intranquilidade. Integrar estas práticas ajudará você a preservar a calma: M . A bagunça e a acumulação em nosso espaço são re�exo de uma mente desordenada. Nesse sentido, não é por acaso que spas sejam zonas limpas e praticamente vazias. P . Ter poucas coisas contribui para economizar dinheiro, e a mesma coisa acontece com o tempo. Um estudo de Harvard demonstrou que um ambiente de trabalho limpo e espaçoso é muito mais produtivo que outro cheio de objetos e arquivos. Se você quer melhorar sua concentração, elimine a maior quantidade de coisas de sua área de trabalho. L . O café, o chá e as bebidas energéticas podem mantê-lo ativo por algumas horas, mas, se o deixam nervoso ou irritado, você não desfrutará de um tempo de serenidade nem de qualidade. A . Não basta prestar atenção a como alimentamos o corpo, mas também a como nutrimos nossa mente. Por isso é importante ver e ler coisas com uma mensagem otimista ou formativa. Não desperdice seu tempo valioso enchendo sua mente de lixo. T . De vez em quando, é preciso dar um descanso à mente, passando um tempo sem televisão, fones de ouvido nem nada que gere som. Se isso o incomoda, pode ser que algo não esteja funcionando em sua vida, e o silêncio vai ajudá-lo a descobrir isso. E . Há pessoas que promovem con�itos, que sempre estão reclamando ou fazendo drama por qualquer coisa. Quando chegam a sua vida, trazem caos e esgotamento. Se puder, evite-as e busque a companhia de pessoas que tenham uma personalidade agradável. A serenidade é contagiosa. L . Especialmente antes de dormir, estar exposto a telas — televisões, celulares, tablets e leitores de livros digitais — é uma garantia de grande irritação para os nervos. Voltar à leitura analógica é uma forma de investir nosso tempo em serenidade e em uma compreensão mais profunda das coisas, já que associamos as telas ao instantâneo e super�cial. SERENIDADE = PRODUTIVIDADE Uma mente lúcida e calma pode analisar cada problema e agir com seriedade, aplicando os recursos e medidas apropriados. Se, como produto da pressa ou dos estimulantes, reagimos de forma excessiva diante de qualquer situação, só conseguiremos gerar estresse, cometer erros e, portanto, desperdiçar nosso tempo e energia. Diz um provérbio hindu: “Não há nada que pague um instante de paz.” E uma maneira excelente de promover essa paz consiste em ser prudente com o relógio, evitando armadilhas que nos roubam o tempo e a serenidade, como: Ser otimistas demais com nossa agenda. Dar um prazo curto para uma tarefa que, na verdade, necessita de mais tempo. Assumir compromissos desnecessários. Dizer “sim” quando queremos dizer “não”. Ficar hipnotizados diante das redes sociais ou da televisão para “matar o tempo”. Dormir ou comer mal achando que poupamos tempo. Sobre esse último ponto, talvez ganhemos minutos ou horas, mas nosso rendimento ao longo do dia será de baixa qualidade e, no �m das contas, teremos sido menos produtivos. UM POUCO DE SÍNTESE A má gestão do tempo leva você a estar sempre irritado e a passar o dia correndo, o que reduz a qualidade de vida. É uma péssima decisão roubar horas de sono, já que, além de pôr em perigo nossa saúde, acabamos rendendo menos. Ter controle sobre o relógio e a agenda nos traz segurança e con�ança na vida. Uma jornada serena é mais produtiva que a de quem vive sob o jugo do estresse. POR QUE TEMPO É DINHEIRO GESTÃO DE RICOS, GESTÃO DE POBRES Quando escrevi Money Mindfulness, meu livro sobre como gerar, conservar e multiplicar dinheiro, dediquei um capítulo importante a esta máxima: “O tempo é a divisa mais rentável do mundo.” Ainda há muita gente que vive como se o tempo não custasse nada e o gasta de forma irre�etida, sem tomar consciência de que ele é nosso recurso mais limitado. Quem administra mal seu tempo também administra mal seu dinheiro, já que ambos são duas faces da mesma moeda. Cada vez que compramos alguma coisa, na verdade pagamos com nosso tempo ou, o que dá no mesmo, com nossa vida. E, na verdade, as perdas de tempo se convertem de forma imediata em perdas de dinheiro. Por isso, assim como temos de prestar atenção a cada euro, devemos fazer o mesmo com cada minuto de nossa vida. Ter a consciência real de seu valor para, a partir disso, aproveitá-lo ao máximo. Como dizia Gandhi, um grande gestor do tempo ao qual voltaremos mais adiante: “Assim como não se pode perder um grão de arroz ou um pedaço de papel, você não pode perder um minuto de seu tempo.” NÃO VENDA SEU TEMPO, COMPRE-O Antes de entrarmos no método prático que você encontrará na segunda parte deste livro, é preciso observar que estamos diante de uma mudança de paradigma. Em relação à gestão do tempo como instrumento gerador de dinheiro, o que funcionava há uma década já não é útil hoje em dia. Podemos resumir a nova realidade por meio de uma frase do conferencista Harv Eker, um tanto radical, mas correta: “Os pobres vendem seu tempo, enquanto os ricos o compram.” Os ricos sabem que o tempo é mais valioso que o dinheiro em si, por isso contratam pessoas para fazer as coisas que não lhe agradam ou nas quais investir seu tempo não seria produtivo. Os pobres, ao contrário, trocam seu tempo por dinheiro. Uma estratégia que parte de um inconveniente do qual é impossível escapar: o tempo é limitado. Ao funcionar assim, coloca-se limites em seus rendimentos, cerceando toda a possibilidade de se obter riqueza. Quando vender seu tempo, lembre-se de uma das leis de Money Mindfulness: “Não se ganha dinheiro trabalhando mais horas, mas liberando o tempo para pensar em novas oportunidades.” Os novos critérios de produtividade, como explicaremos na terceira parte deste livro, estão rompendo com o tópico de “gastar horas” em troca de um salário �xo, porque esquentar a cadeira não equivale a ser produtivo, e não é rentável nem para o trabalhador nem para a empresa. As empresas mais visionárias do planeta, como a Net�ix ou outras de setores relacionados à inovação, começaram a comprar resultados de seus empregados, independentemente das horas que trabalhem ou se estão presencialmente no escritório ou trabalhando remotamente. Entretanto, ainda há muita gente que vende seu tempo por atacado, entregando em bloco todas as horas do dia, mesmo quando grande parte delas não são produtivas ou não se re�etem em um salário mais alto; da mesma forma, muitos trabalhadores autônomos, apesar de serem seus próprios chefes, trabalham de sol a sol para, com sorte, chegarem apertados no �m do mês. E o que é pior: muitas pessoas que, embora tenham um salário alto ou ganhem mais do que poderiam imaginar, não têm tempo de aproveitar isso porque entregam em troca absolutamente todas as suas horas e vivem imersas em uma busca interminável: trabalham para pagar as contas de todas as coisas desnecessárias que vão comprando à medida que ganham mais. Se você está em alguma dessas situações, além das estratégias �nanceiras propostas em Money Mindfulness, sem dúvida precisa de TM. É necessário tomar consciência tanto do valor do tempo que você dedica ao trabalho quanto do que precisa reservar para si mesmo e para os seus a �m de levar uma vida plena e próspera. A AGENDA DAS PESSOAS EFICIENTES Pense nisto que vou lhe dizer: todas as pessoas do planeta têm a mesma quantidade de horas em um dia. Então por que há pessoas que têm muito mais e obtêm resultados melhores que eu? É porque são mais rápidas e inteligentes, porque têm mais facilidades? Talvez haja um pouco disso, mas é principalmente porque sabem administrar seu principal recurso — o tempo — de forma e�caz graças a ferramentas e hábitos que as ajudam a esticá-lo como se fosse um elástico. O empreendedor e escritor Kevin Kruse entrevistou mais de duzentas pessoas de sucesso, incluindo multimilionários,empresários, atletas olímpicos e estudantes brilhantes, e perguntou a eles qual seu principal segredo para a produtividade. Você pode imaginar qual foi a resposta? Tratar o tempo como seu ativo mais valioso. Eles a�rmaram que o tempo era seu ativo mais valioso pois, com ele podiam conseguir todo o resto, inclusive a prosperidade econômica. É possível até recuperar dinheiro se ele foi perdido, mas não há forma de recuperar o tempo. Uma vez gasto, não se pode sair para buscar mais, nem comprá-lo nem pedi-lo emprestado. Partindo dessa premissa, essas entrevistas demonstraram que as pessoas altamente produtivas experimentam o tempo de forma diferente. Elas não seguem sistemas complexos de gestão, com diagramas complicados. Em vez disso, têm em comum uma série de hábitos fáceis de aplicar por qualquer um. Vou resumir em seguida os mais signi�cativos para que você logo possa aumentar essa lista de felizardos. Vamos chamá-los de “hábitos para converter o tempo em ouro”. 1. Concentre-se nos minutos, não nas horas As pessoas comuns organizam suas agendas por horas ou meias horas, enquanto as pessoas de muito sucesso têm plena consciência de que cada dia tem 1.440 minutos. Se dormimos oito horas, o que é altamente recomendável, temos à disposição 960 minutos a cada dia que devem ser aproveitados como merecem. O potencial de cada minuto é importantíssimo e conta para o resultado �nal. Por isso, pense duas vezes antes de pedir “um minuto” a alguém, ou antes de você mesmo doá-lo. E em especial antes de desperdiçá- lo. Para manter o domínio sobre sua agenda, seu tempo e, portanto, suas �nanças, você deve manter cada minuto sob controle. O CLUBE DAS 5H DA MANHà Robin Sharma, que começou a �car famoso em todo o mundo em 1999 com O monge que vendeu sua Ferrari, causou grande impacto recentemente com seu livro O clube das 5 da manhã. Por meio de uma fábula na qual um milionário excêntrico se torna mentor de dois desconhecidos, ele apresenta um método no qual, além de evitar as distrações digitais, madrugar tem importância capital. Se levantar quando a maior parte da humanidade está dormindo libera uma primeira hora preciosa para despertar o “gênio interior”, garante Sharma, que sugere praticar o 20/20/20. Depois de madrugar, vamos dedicar os primeiros vinte minutos a fazer exercícios e suar, já que isso aumenta as conexões neuronais. O próximo bloco de vinte minutos será reservado para planejar nossos objetivos, começando assim a jornada com o foco bem dirigido. O terceiro bloco dessa hora lúcida está destinado ao aprendizado: ler biogra�as de grandes personagens, escutar podcasts informativos ou qualquer outra atividade que nos permita ganhar conhecimento. Outra das regras apresentadas por Sharma em seu livro é a 90/90/1. Ela consiste em dedicar, durante noventa dias consecutivos, os primeiros noventa minutos de cada dia para fazer exclusivamente uma mesma coisa que considere ser uma grande oportunidade para si mesmo. Em vez de responder a e-mails ou mensagens ou ler notícias na internet, o autor garante que cumprir esse desa�o sem falhas durante três meses — o que exigirá se levantar bem antes de ir trabalhar — produz resultados lendários. 2. Pratique uma rotina matinal Antes de Sharma escrever seu livro, as pessoas altamente e�cazes já sabiam que vale a pena dedicar uma hora do dia para fortalecer sua mente, seu corpo e seu espírito com rituais matinais perfeitamente de�nidos. Mesmo que não pratiquem o 20/20/20 nem o 90/90/1, a maioria se levanta cedo, se hidrata bem, toma um café da manhã saudável, faz exercícios leves e alimenta a mente com meditação, oração ou com leituras inspiradoras ou jornais. Incorporam rituais de agradecimento ou autorre�exão para deixar claro quais são seus objetivos para aquele dia. O guru Vaibhav Shah dizia: “Cada vez que você vê uma pessoa de sucesso, vê apenas sua glória pública, nunca os sacrifícios particulares para conquistá-la.” O melhor de aplicar TM é que você não perceberá isso como um sacrifício extra. 3. Priorize As pessoas ultraprodutivas se concentram em uma única coisa, o que as leva a conseguir isso com sucesso. Como primeiro passo, identi�cam sua meta. Dependendo de sua situação ou atividade, pode ser desde conseguir uma promoção, mais clientes ou alcançar as vendas que lhe permitam cobrar os 100% de bônus, até manter uma família unida e saudável, ou passar em provas que abrirão novas oportunidades para você. Em seguida, identi�cam qual tarefa terá o maior impacto para aproximá-las dessa meta e dedicam a ela uma ou duas horas a cada manhã, na verdade, as primeiras horas do dia porque costumam ser as mais produtivas. Um conselho extra: elas fazem isso evitando qualquer tipo de interrupção (mais à frente vou explicar como conseguir isso). ENGULA ESSE SAPO Dan Ariely, professor de psicologia e comportamento econômico na universidade de Duke, a�rma que a maioria das pessoas são mais produtivas — e seu potencial cognitivo é maior — durante as primeiras horas da manhã. “Infelizmente”, a�rma, “as rotinas da maioria das pessoas e seus horários de trabalho não estão projetados para maximizar esse potencial brilhante e precoce. Um dos erros mais tristes na gestão do tempo é que as pessoas dedicam essas duas horas mais produtivas a coisas que não exigem grande capacidade cognitiva, como as redes sociais.” Se não as aproveitamos para navegar pelas redes sociais, grandes predadoras de tempo, temos a tendência de utilizar nossas primeiras horas do dia para tarefas mais fáceis e triviais, como ver e-mails ou ler as notícias, pois isso nos mantém na zona de conforto. As primeiras horas do dia são também as mais e�cazes para resolver problemas, segundo indicam dois grandes gestores do tempo que recomendam: “Engula esse sapo.” Contra o hábito preguiçoso de começar pelo fácil e postergar os problemas ao longo do dia, o que ocupará espaço mental por todo o dia, a �loso�a engula esse sapo propõe que nos livremos primeiro da tarefa mais pesada ou con�itante para assim render nas horas seguintes sem esse peso. 4. Esqueça as listas de tarefas As resoluções de ano novo costumam fracassar retumbantemente, salvo raras exceções. Trata-se apenas de listas de tarefas ou objetivos, meras anotações de coisas pendentes que você espera realizar, mas que não estão acompanhadas de nenhum plano, nem de prazos especí�cos. Além disso, quando as escrevemos no dia a dia, não costumamos distinguir entre o urgente e o importante e misturamos sem ordem nem regra atividades que poderiam ser feitas em poucos minutos com outras que, com certeza, levarão horas para serem executadas corretamente. Uma vez terminada a lista, mergulhamos de cabeça e começamos com os trabalhos mais fáceis ou aqueles que são feitos rapidamente, sem levar em conta se são ou não essenciais ou se darão algum retorno. O que nos deixa realmente satisfeitos, porque nos leva a crer que somos e�cientes, é eliminar tarefas da lista. Quanto mais, melhor, sem nos importarmos que essas sejam as mais insigni�cantes. Dessa forma, além de ser improdutiva, a lista se converte em um lembrete constante de tudo o que nos falta fazer, o que gera estresse e insônia. Já nos anos 1930, a psicóloga russa que investigou o “efeito Zeigarnik” alertou: as tarefas incompletas permanecem em sua mente até que você as termine, ocupando espaço e roubando seu tempo e energia. Sabe como ela chegou a essa conclusão? Observando que garçons se lembravam melhor dos pedidos pendentes ou sem cobrar do que daqueles que haviam acabado de servir, o que a levou a realizar alguns estudos que demonstraram como a memória é mais e�caz com os processos não concluídos… Basta pensar nas séries de televisão que nos prendem. 5. Programe sua agenda Em vez de fazer listas, as pessoas altamente produtivas programam cada tarefa em sua agenda, independentemente se é uma reunião com seu melhor cliente, um telefonema para sua mãe ou sua sessão semanal de coaching. Sem afetar a �exibilidade exigida pelo �uxo do dia a dia, toda tarefa que você resolveu agendare para a qual reservou um tempo — não há outra forma de fazer as coisas — deve ser considerada bloqueada como se fosse uma consulta com seu médico. Viva de acordo com essa agenda. Se uma tarefa não está agendada é como se não existisse; e, quando está, é preciso cumpri-la, aconteça o que acontecer, sem desculpas. Ao contrário do que acontece quando você escreve uma tarefa em uma lista, o fato de anotá-la em sua agenda libera sua mente. Mesmo que não a termine e tenha de reagendá-la para o dia seguinte, o efeito é diferente, já que você terá mais uma vez atribuído a ela um tempo e talvez também um espaço no qual realizá-la. E lembre-se do que nos diz Jeff Weiner, diretor-executivo do LinkedIn: “Separe blocos de tempo para pensar, para não fazer nada.” Em sua agenda, tudo deve estar anotado e, como veremos em detalhes em outro capítulo, o nada também deve estar anotado. A AGENDA DE WARREN BUFFETT Em um encontro cara a cara entre Bill Gates e o milionário Warren Buffett para uma rede de TV norte-americana, o primeiro disse: “Eu me lembro quando Warren me mostrou sua agenda.” Em seguida, Buffett sacou um caderninho de seu bolso e o entregou ao entrevistador. “Aqui não tem quase nada…”, surpreendeu-se ele ao folheá-lo. “Absolutamente”, respondeu Buffett, enquanto Gates brincava dizendo: “É alta tecnologia, tenha cuidado, você pode não entender.” Enquanto o entrevistador comprovava que em alguns meses havia apenas três ou quatro anotações, Gates contou que, tempos atrás, ele tinha cada minuto cheio de compromissos porque pensava que era a única maneira possível de fazer as coisas; e que foi exatamente Buffett quem lhe mostrou a importância de deixar tempo para pensar: “É preciso controlar seu tempo. Diante das exigências de ter reuniões, e coisas desse tipo, sentar- se e pensar pode ser uma prioridade alta para um CEO.” Buffett explicou que todo mundo queria seu tempo, por isso tinha de ser muito cuidadoso com ele: “Basicamente posso comprar qualquer coisa que eu queira, mas não há maneira de comprar mais tempo.” O investidor eliminou de sua agenda quase todas as tarefas que supostamente deveria fazer: nunca fala com analistas. Raramente fala com a mídia. Não assiste a eventos da indústria. Vai apenas a reuniões internas. Ele morou fora de Nova York durante quase toda a sua carreira. Tudo pela simplicidade, que por sua vez lhe proporciona tempo. 6. Use um caderno para liberar a mente Richard Branson diz que não teria construído a Virgin se não fosse um simples caderno que leva com ele aonde quer que vá para anotar seus planos. Por sua vez, o magnata grego Aristóteles Onassis recomendava: “Carregue sempre um caderno. Anote tudo: ideias, as pessoas novas que conheceu, coisas interessantes que ouviu. Essa é uma lição de um milhão de dólares que não ensinaram a você na escola de administração!” Em geral, as pessoas ultraprodutivas liberam sua mente e, por isso, ganham tempo porque não há nada pendente em seu pensamento, já que anotam qualquer ideia em tempo real. Datas, endereços, possíveis presentes, alternativas de férias, restaurantes, uma garrafa de vinho de que gostou para não ter de rever novamente a carta completa, um diagrama da mesa na primeira reunião com clientes… eu me lembro do que dizia um professor de meu instituto: “Quem não toma nota é um idiota.” Para os efeitos do TM, essa a�rmação é bastante verdadeira. A CANETA É MAIS PODEROSA QUE O TECLADO Como demonstra um estudo dos psicólogos Pam A. Mueller e Daniel M. Oppenheimer publicado na Psychological Science, é melhor tomar notas à mão do que no celular. Em suas próprias palavras: “Tomar notas no celular em vez de à mão é cada vez mais comum. Muitos investigadores sugeriram que tomar notas em um celular é menos e�caz que tomar notas à mão para aprender. (…) Em três estudos, descobrimos que os estudantes que tomaram notas nos celulares obtiveram resultados piores que os estudantes que �zeram anotações à mão. Demonstramos que, embora tomar mais notas possa ser bené�co, a tendência dos que tomam notas no celular é transcrever as reuniões em vez de processar a informação e reformulá-la com suas próprias palavras. Isso acontece em detrimento do aprendizado. Eles se lembram dos dados, mas aplicam pior os conceitos.” 7. Delegue o que for possível As pessoas ultraprodutivas não perguntam: como posso fazer esta tarefa? Em vez disso, perguntam: como esta tarefa pode ser feita? Isso equivale, na medida do possível, a eliminar o “eu” da equação. Trata-se de passar seu tempo fazendo o que sabe fazer melhor e desenvolvendo os pontos fortes que só você tem. Aqui estão as famosas três perguntas de Harvard que vão permiti-lo economizar algumas horas por semana: O que posso deixar de fazer que não agrega valor nem a mim nem a minha empresa? O que posso delegar ou terceirizar, já que não sou a única pessoa que sabe fazê-lo? O que preciso continuar fazendo, mas posso redesenhar para fazer de forma mais e�ciente, ou seja, com os mesmos resultados e menos tempo? 8. Jante em casa… ou em outro planeta As pessoas altamente produtivas sabem o que valorizam na vida, e não é apenas o trabalho. Para alguns, é o tempo com a família, para outros, o exercício, a formação pessoal constante… Momentos esses que estão incluídos nessa agenda e que devemos cumprir de qualquer forma. Como diz o executivo da Intel Andy Grove, “sempre há mais coisas a fazer, mais do que deveria ser feito, mais do que é possível fazer”, por isso um elemento diferencial é incluído por quem, em vez de queimar sem parar uma hora depois da outra, aprende a dizer: “Até aqui é o su�ciente.” Desta forma, ele se converte em um mestre em abrir mão, em se permitir se soltar. Encontrando, assim, tempo para o que ama de verdade. Para Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, a prioridade é jantar em casa todos os dias; para Richard Branson, é imaginar uma aventura em algum planeta. Só você sabe qual é a sua. Inclua isso em sua agenda e dedique esse tempo ao que realmente quer. Celebre o que fez e não lamente o que não conseguiu fazer. Como recomendava o �lósofo Ralph Waldo Emerson há um século e meio: “Termine cada dia sem remorsos. Você fez o possível. Amanhã será outro dia.” UM POUCO DE SÍNTESE Cada minuto de seu tempo conta e sempre vale mais que o dinheiro. É conveniente dedicar as primeiras horas da manhã, as de maior rendimento, às coisas verdadeiramente importantes. Postergar um problema só serve para que ele ocupe espaço mental por todo o dia. Não faça listas; agende quando e como vai fazer cada coisa. Delegue tudo o que puder e concentre-se naquilo que só você pode fazer. Reservar tempo livre para pensar é o maior investimento que pode ser feito. POR QUE O TEMPO É CRIATIVIDADE SOBRE A IMPORTÂNCIA DO VAZIO Em uma conhecida fábula oriental, um homem muito rico visita um mestre de chá famoso por sua sabedoria. Enquanto o visitante explica tudo o que fez e conseguiu na vida, o mestre de chá vai enchendo sua xícara até que no �m a infusão transborda e acaba se derramando sobre a mesa. Quando o hóspede endinheirado lhe diz que pare de servir chá, pois a xícara está cheia, o mestre retruca: “Ela está cheia como você está cheio de si mesmo. Assim, será impossível que aprenda qualquer coisa.” Esse conto próprio dos ensinamentos zen indica o título deste capítulo: se não se gera espaço livre, ou seja, tempo, não é possível que surja nada de novo. E, apesar disso, se observamos as agendas da maioria das pessoas, parece que elas são viciadas em encher de atividades e compromissos todo o tempo disponível. A que se deve isso? HORROR VACUI Essa expressão latina signi�ca “horror ao vazio” e tem sua origem em uma crença da antiguidade segundo a qual o vazio não podia existir no cosmo. No âmbito da arte e da decoração, fala-se de horror vacui quando há a tendência de encher todo espaço disponível, algo que ocorria com o barroco ou na tradição da arte muçulmana. As vanguardas do século XX criticaram muito o costume de encher todo o espaço disponível, eo arquiteto austríaco Adolf Loos chegou a a�rmar em um famoso artigo de 1908 que “o ornamento é um crime”, algo próprio de bárbaros e de pessoas sem estilo. No design nórdico e no admirado visual zen que distingue os produtos da Apple, por exemplo, tenta-se abrir mão de tudo o que é acessório. Não há nada mais belo que uma superfície branca e vazia para estimular a imaginação e a criatividade. A UTILIDADE DO VAZIO No poema XI do Tao Te Ching, o mestre Lao-tsé já se referia, há dois milênios e meio, ao poder criativo de não encher o espaço e o tempo: Trinta raios convergem no centro de uma roda, mas é seu vazio que é útil para o carro. Modela-se a argila para fazer a vasilha, mas de seu vazio depende o uso da vasilha. Abrem-se portas e janelas nas paredes de uma casa, e é o vazio o que permite habitá-la. Nós centramos nosso interesse no ser, mas a utilidade depende do não ser. Assim como Loos considerava que encher o espaço não combinava com a modernidade, uma agenda abarrotada de coisas é um ato igualmente bárbaro, já que eliminamos qualquer opção de improvisar, de produzir algo novo. Voltemos à pergunta: por que o cidadão moderno, que carrega um smartphone, padece de horror vacui em sua organização do tempo? Pode haver vários motivos: Uma �xação equivocada pela produtividade, entendendo que apenas o “cheio” tem valor, ignorando que o “vazio” é a premissa da inovação. A obrigação autoimposta de atender às expectativas das outras pessoas. Se cada vez que alguém quer alguma coisa de nós, o que é pago com tempo, dizemos que sim, �caremos sem nenhum espaço para poder fazer outras coisas. O medo de um encontro consigo mesmo promovido pelo espaço vazio. Talvez essa seja a razão mais importante do preenchimento de nossa agenda. Enquanto fazemos coisas e atendemos pessoas, não temos tempo de pensar. E se paramos para pensar… talvez surjam perguntas incômodas às quais temos di�culdades para responder. Muitas pessoas enchem seu tempo com qualquer coisa para evitar esse desa�o. Pablo Neruda advertia sobre esse tipo de horror vacui: “Um dia em qualquer lugar, você vai indefectivelmente encontrar a si mesmo, e essa, apenas essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga de suas horas.” MANOBRAS DE DISTRAÇÃO O compromisso consigo mesmo que leva à re�exão e à criatividade pode ser evitado de muitas maneiras. A mais comum é assumir mais trabalho do que devíamos realmente fazer, já que isso nos libera de pensar. Outra, muito habitual, é encher o tempo livre com séries de TV — há quem veja temporadas inteiras em um �m de semana — ou “preencher” qualquer minuto livre no transporte público, no trajeto do trabalho para casa, com redes sociais que raramente nos trazem algo de valor, mas que nos “distraem”. Em seu ensaio Os grandes prazeres, Giuseppe Scaraffia observa que esse vício em distrair a mente das perguntas fundamentais não é exclusividade desta época. No século XVIII, o �lósofo Benjamin Constant tinha �xação pelos bordéis e, em um exemplo mais moderno, Ernest Hemingway se embebedava para poder encher seu vazio, apesar de seu grande talento criativo. Um horror vacui que o levou a se suicidar com um tiro de escopeta em 1961 ao se sentir incapaz de continuar criando. NO NADA, TUDO É POTENCIAL O Gênesis bíblico começa com o nada, a partir do qual o criador faz surgir o universo e tudo o que há dentro dele. Esse nada que contém tudo em potencial está à disposição de qualquer pessoa que queira fazer de sua vida um ato de criação. Otto Scharmer, professor do MIT em Boston, defende essa necessidade de vazio em sua “Teoria U”, que pode ser resumida com duas expressões em inglês: apenas por meio do “Let it go” será possível o “Let it come”. Enquanto você estiver cheio de tudo o que é velho, como o ricaço que visitou o mestre de chá, nada de novo poderá entrar. Considerando que este é um livro sobre o tempo, vamos ver o que podemos liberar para criar um espaço temporal criativo: PARE DE… trabalhar mais horas do que as necessárias; querer abarcar tudo como se não houvesse amanhã; ir a compromissos que não o alimentem; se anestesiar com a televisão e as redes sociais. E VÃO CHEGAR… novas ideias que, de outra forma, não teriam lhe ocorrido; projetos empresariais, artísticos ou de autoconhecimento que podem transformar sua vida; descansos ou pausas para fazer uma “troca de chip”; pessoas novas que trazem ar fresco a sua vida; as satisfações de improvisar, conquistar a liberdade pessoal. AS PEDRAS GRANDES Eu me lembro de um romance simpli�cado que li enquanto estava aprendendo inglês. Ele se chamava O céu é o limite e contava a história de um homem ambicioso e cada vez mais ocupado que começa a trabalhar na sede de uma empresa que ocupa um arranha-céu. Ele começa desempenhando funções simples nos andares inferiores, mas à medida que entrega sua vida ao trabalho, vai subindo de cargo e também de andar. No �m de sua carreira, passa a ocupar o escritório de diretor da empresa no andar superior. Ao perceber que não pode mais continuar subindo e que sua carreira engoliu totalmente sua vida pessoal, ele vai ao terraço e se lança no vazio. Sem chegar a um �nal tão dramático, um exercício em forma de fábula explicada nas escolas de administração pode nos ajudar a estabelecer prioridades, assunto ao qual dedico um capítulo inteiro. Imagine que um gestor de tempo chegue a uma sala de aula com um pote de vidro e um saquinho de pedras. Após os cumprimentos iniciais, ele põe as pedras no vidro e pergunta aos alunos se ele está cheio. Quando dizem a ele que sim, ele pega um segundo saco menor, cheio de areia, e o derrama dentro do vidro. Os grãos penetram entre as pedras e acabam por encher o pote de vidro. O gestor de tempo pergunta pela segunda vez se o pote está cheio. Os alunos voltam a dizer que sim, embora perceba-se alguma dúvida em suas vozes. Em seguida, ele pega um jarro de água e o derrama no vidro cheio de pedras e areia. — Está cheio agora? — pergunta o gestor. — Não sabemos… — responde um dos estudantes em nome dos demais. — O que eu acabei de demonstrar em relação ao tempo? Após alguns instantes de silêncio, uma aluna se atreve a dizer: — Que não faz diferença o quanto sua agenda está cheia. Se você for hábil, sempre vai conseguir incluir mais alguma coisa. — Não — retruca o gestor de tempo. — O que quis demonstrar com esse exercício é a necessidade de botar as pedras grandes primeiro, porque em pouco tempo não caberão mais delas. As pedras grandes são as coisas realmente importantes em sua vida. O resto encontra seu lugar. Termino este capítulo com um convite para que você se faça uma pergunta vital: Quais são as pedras grandes de sua vida? Coloque-as no pote de vidro, que é o tempo de sua vida, antes da areia e da água. Como diz o gestor, se você põe primeiro o que deve ir primeiro, o resto encontra seu lugar. UM POUCO DE SÍNTESE Liberar tempo é imprescindível para que coisas novas aconteçam. O horror vacui esconde o medo de nos fazermos perguntas cujas respostas possam mudar nossa vida. A magia do “nada” está em conter todas as possibilidades. Se você não largar o velho, o novo não poderá vir. Ponha primeiro as “pedras grandes” de sua vida. O resto encontrará seu lugar. QUAL É SEU CRONOPERFIL? SEIS MANEIRAS DE ADMINISTRAR O TEMPO Vivemos com tanta pressa que poucas vezes temos consciência do uso que fazemos dos dias, horas e minutos que a vida nos oferece. Entretanto, se prestarmos atenção a como lidamos com o tempo, podemos introduzir mudanças que resultarão em uma grande melhora qualitativa em nosso dia a dia. O tempo é o bem mais valioso que temos, pois uma vez gasto não pode ser reposto, por isso é crucial que saibamos qual é nosso padrão na hora de empregá-lo. Isso nos coloca no terreno do TM, que nos devolverá o controle sobre nossa existência. Considerando que a forma de aproveitar o tempo é algo complexo, é possível que seu cronoper�l seja uma combinação de vários padrões,embora certamente um deles seja o dominante. Sua função é conseguir que você entenda e corrija seus hábitos disfuncionais relacionados com o uso do tempo para que sua vida seja mais �uida e melhor. Vejamos agora os cinco padrões que, se levados ao extremo, não nos permitem desfrutar do tempo: 1. O velociraptor Voa de um lugar para outro, em um estado de alerta permanente, tentando realizar o maior número de tarefas possível. Seu otimismo com a agenda é absurdo, e sempre encontra espaço para um compromisso ou missão a mais. Isso o obriga a correr ensandecido, pegando táxis para chegar em cima da hora ou atrasado em todos os lugares. Ao �m do dia, ele sente que não fez nem a metade do que havia previsto, o que gera frustração. Para esse per�l, os dias deviam ter mais de 48 horas. Os compromissos com o velociraptor são rápidos, porque ele sempre tem de ir a outro lugar, e frequentemente provoca confusões com a agenda. É habitual que ele roube horas de sono para conseguir fazer um pouco mais, embora seja pagando um preço muito alto com sua saúde. O estresse é seu modo de vida, e seu estado de ânimo mais comum são a ansiedade e o nervosismo. Muitas vezes ele sente que não aguenta com tudo, mas nem por isso tira o pé do acelerador. Ele acredita erradamente que, se parar de fazer as coisas, o mundo deixará de funcionar. Por isso, a única coisa que pode parar um velociraptor é um choque vital — um acidente ou uma doença, uma demissão ou a ruína econômica, uma separação —, a não ser que ele se entregue ao TM antes de se destruir. O conferencista Álex Rovira de�niu esse per�l com uma ordem que, quando trabalhava como consultor, ouviu ser gritada em uma empresa: “É urgente que seja urgente!” PERIGOS DA VELOCIDADE Uma fábula conta que um explorador branco, que desejava chegar o quanto antes ao coração da África, ofereceu um pagamento extra aos carregadores para que andassem mais rápido. Eles obedeceram durante vários dias, mas uma tarde se sentaram no chão e se negaram a continuar. Quando o explorador pediu explicações, eles responderam: — Andamos tão depressa que nem sabemos mais o que estamos fazendo. Agora precisamos esperar que nossas almas nos alcancem. O grande perigo da pressa é que ela se converta no motor de nossa vida, em piloto automático, até esquecermos, como os carregadores, por que estamos correndo. Contra essa síndrome, a primeira coisa a fazer é deter a inércia e, em seguida, nos perguntarmos por que iniciamos o caminho e como queremos vivê-lo. 2. O procrastinador “Amanhã” é sua palavra favorita, ou “depois” em sua versão mais suave. Esse per�l tem verdadeiros problemas para começar qualquer coisa, mesmo que seja de vital importância para si mesmo. Ele se perde nos preparativos, que no fundo são uma forma de atrasar o início do que já devia estar fazendo. Dedica muito tempo a preparar o terreno, e pouco ou nenhum para cultivá-lo. Um exemplo clássico seria o estudante que dedica o primeiro dia de aula a organizar suas anotações e fazer um calendário das páginas que estudará por dia. Isso o deixa tranquilo e ele vai descansar ou se ocupar de outra coisa, convencido de que “amanhã, sim”. Porém, um velho provérbio adverte que “pela rua do amanhã se chega ao beco do nunca”. No dia seguinte, uma mudança de planos ou um imprevisto vão obrigá-lo novamente a adiar o início e a reprogramar o cálculo de páginas por dia, o que leva a um gasto de tempo adicional. Um dia depois, é muito provável que a situação se repita até que… o estudante se vê na noite da véspera da prova com um monte de anotações que não conseguiu ver sobre a mesa e os nervos à beira de um colapso. Considerando que todos procrastinamos coisas na vida, vou dedicar um capítulo inteiro a como acabar com o hábito de adiar o importante enquanto se dedica tempo ao que é secundário. O procrastinador vive de esperanças e, quando percebe que não cumpre com o que determinou, acaba desesperado. 3. O precrastinador Um artigo recente do New York Times aborda um novo cronoper�l que é o contrário do anterior. Trata-se daquelas pessoas cuja ansiedade as leva a antecipar tudo. O precrastinador chega ao supermercado alguns minutos antes dele abrir, entrega seu trabalho com uma semana de antecedência — caso um acidente o impedisse de fazê-lo nos últimos dias — e sempre chega aos encontros marcados antes de você. Por trás dessa necessidade de viver em modo antecipado está o medo de não fazer as coisas ou de permitir que elas se desviem do caminho. Melhor chegar antes que o mundo venha abaixo. Uma situação comum de precrastinação acontece nos portões de embarque, onde, embora os passageiros tenham seu assento marcado, fazem �la — às vezes de meia hora ou mais — quando poderiam estar sentados confortavelmente até o embarque começar. Há quem tema que sua bagagem de mão não caiba na cabine e que ela tenha de ser despachada, mas também encontramos na �la executivos com suas valises. O que estão fazendo ali de pé, esperando tensos que comece o embarque? Adam Grant, autor de livros e professor de administração e psicologia em Wharton, a�rma que a precrastinação é “o lado sombrio de ser muito bom em fazer as coisas. O que é proveniente da preocupação de que não haverá tempo su�ciente para fazer bem uma coisa, em especial quando outras pessoas dependem de você”. Viver sempre com o chip de “antes que” leva a uma perda de tempo constante, já que, como diz o provérbio popular: “Não adianta madrugar que o dia não amanhecerá mais cedo.” Caso se adiante dois passos do ritmo do mundo, estará sempre esperando que abram, aguardando o horário de um compromisso ou irá até mesmo multiplicar seu trabalho. Ao entregar uma tarefa com muita antecipação, você corre o risco de duas coisas: 1. Que solicitem mudanças e melhorias, já que “há tempo” (por isso os melhores freelancers entregam suas tarefas no limite do prazo, para que não seja possível pedir mudanças), ou que o peçam para refazer o trabalho. 2. Que lhe deem outras tarefas que teriam sido atribuídas a outras pessoas pelo único fato de estar livre. Isso pode ser um problema quando você tem um emprego assalariado em uma empresa. Querer “tirar de cima” o que tem de fazer pode levá-lo a escolher um tema ruim de tese de doutorado, por exemplo, ou a se juntar com a pessoa errada. Adiar é tão perigoso quanto estar sempre à frente, pois, entre outras coisas, você pode cair na precipitação. 4. O homem simultâneo Ou a mulher, é claro. Esse cronoper�l pode se combinar com os outros, já que é uma maneira de gerenciar cada passo que damos. Quem segue esse padrão precisa fazer sempre várias coisas ao mesmo tempo, porque acha que desse jeito “poupa tempo”. Na verdade, o homem simultâneo consegue fazer muitas coisas, mas com um nível baixo de atenção, o que provoca muitos acidentes e erros. Esse per�l bota a quantidade acima da qualidade. Enquanto ele anda pela rua, atualiza as redes sociais em seu celular, com o risco de se chocar contra outros pedestres ou um poste. Nas reuniões familiares ou de amigos, continua com a alma no escritório, respondendo a chamadas ou e-mails, ou pensando em outras coisas. Ele não percebe o que está acontecendo à sua volta porque está sempre “em outro lugar”, como vimos no início deste livro. O multitasking continua até mesmo nas horas de descanso. Se está pegando sol em uma piscina, pode levar fones de ouvido para escutar um curso de formação. Se está na cama, percebe cada vibração produzida em seu celular. Sobre isso, um grupo de 35 psiquiatras norte-americanos que decidiu examinar a conduta de Donald Trump advertiu que o presidente habitualmente interagia com as redes sociais altas horas da madrugada. Um deles chegou a lhe mandar a mensagem: “Pelo bem do país, vá dormir.” Quando, no dia seguinte, um jornalista perguntou a ele sobre o comentário, o presidente disse: “Se ouço que surgiu alguma coisa, preciso ver o que está acontecendo.” 5. O O’Clock Em teoria, esse cronoper�l seria o ponto médio exato entre o procrastinador e o precrastinador, mas a �xaçãopela pontualidade e por viver segundo uma agenda pode acabar com o brilho da vida. As pessoas obstinadamente pontuais sofrem de perfeccionismo e estão em luta constante com um mundo cuja essência é wabi-sabi, um conceito japonês que se traduz como “a beleza da imperfeição”. Na natureza, nada é reto, nada está terminado nem dura para sempre; aí está sua beleza. Entretanto, o O’Clock é obcecado por converter sua vida em um mecanismo de relojoaria. Vejamos algumas características desse per�l: Tende a manter uma agenda milimetrada na qual enche cada espaço com um compromisso ou atividade. Por isso, para estar com ele ou com ela, sempre cairemos no espaço seguinte, talvez dentro de algumas semanas. Tem medo de perder tempo, portanto, precisa ser produtivo. Paradoxalmente, isso faz com que não desfrute verdadeiramente de nada, já que tudo se converte em obrigação e compromisso, com o que está perdendo seu tempo. Se aborrece frequentemente com a falta de pontualidade dos outros, ou quando as coisas não acontecem com a e�cácia desejada. Isso faz com que ele esteja em um estado constante de irritação que pode levá-lo a estar em con�ito com o mundo. Contra essa síndrome, é possível usar a seguinte frase, do poeta Juan Ramón Jiménez, como remédio: “Se lhes dão papel pautado, escreva do outro lado.” Precisamos reservar tempo para improvisar. Ou seja, deixar na agenda espaços em branco para poder viver também “de improviso”, segundo o que nos diga o momento, no lugar de ser um robô triste que executa tarefas. FILOSOFIA DA PONTUALIDADE PURA Emmanuel Kant tinha tamanha obsessão com a pontualidade que se diz que seus vizinhos de Königsberg (hoje a russa Kaliningrado) acertavam seus relógios quando o �lósofo saía para dar seu passeio vespertino. O autor da Crítica da razão pura fazia tudo pontualmente. Ele se levantava da cama às 5h em ponto, dava bom-dia para seus alunos às 7h em ponto; escrevia a partir das 9h em ponto até as 13h em ponto, quando se sentava para comer; à tarde, debatia com seu grande amigo Joseph Green até as 19h em ponto, voltava para casa, lia e se deitava às 22h… em ponto. Ele nunca rompeu essa rotina. Na verdade, nunca cruzou as fronteiras de sua pequena cidade. Os extremos nunca são bons, por isso duvido que Kant aproveitasse muito a vida. Uma rotina tão rigorosa nos impede de ser �exíveis, e nos priva da liberdade de que precisamos para crescer. Entretanto, o �lósofo alemão pode servir de exemplo para aquelas pessoas que nunca chegam na hora e se identi�cam com o sexto e último cronoper�l. 6. O atrasado Shakespeare dizia que “é melhor chegar três horas antes que um minuto atrasado”. Talvez ele tenha exagerado com a frase, mas sem dúvida seria bom que a escutassem aqueles que chegam tarde não um minuto, mas muito mais… e além de tudo isso lhes parece normal. Todos temos o amigo típico que usa as desculpas mais diversas para justi�car seus atrasos (a avó de uma colega de trabalho que tive há alguns anos morreu duas vezes). São as mesmas pessoas que dizem a você que tem coisas muito piores do que não ser pontual e que, quando você está combinando um plano com elas, propõem: “Passo para lhe buscar entre as 11h e o meio-dia”, como se essa hora fosse uma coisa vazia que se pudesse desprezar. Isso quando não soltam um “O mundo não vai acabar porque eu me atrasei alguns minutos!”. Não percebem que, sim, o mundo pararia se fôssemos todos como elas, nem entendem que a mudança na direção da serenidade e da produtividade ansiadas passa por tomar consciência do valor de cada minuto. Podemos achar que os atrasados crônicos são desorganizados, preguiçosos ou sem disciplina vital, mas por trás desse comportamento se escondem mensagens ocultas muito mais profundas e preocupantes do que um mero despistamento ou desculpas como “tinha muito trânsito”. Há atrasados muito narcisistas, tanto que usam a falta de pontualidade como um mecanismo de poder para submeter quem os está esperando. Com certeza alguma vez já disseram a você: “Chego tarde porque não gosto de esperar”, ou então “As pessoas importantes não esperam, se fazem esperar”. Por trás dessas brincadeiras tão pouco engraçadas se esconde alguém que se acha superior ou com mais direitos que os outros. “É que eu tinha de terminar uma coisa”, justi�cam-se, como se seu tempo valesse mais. Outras pessoas fazem isso por insegurança, para atrasar a má sensação de um encontro no qual temem ser rechaçadas ou feridas; ou por rebeldia, para deixar claro que não estão de acordo com o motivo da reunião, uma insubordinação com a qual não conseguem nada, além de aborrecer as pessoas e perder autoridade. Para Pau Obiol, psicólogo da Isep Clínic Barcelona, muitos atrasados crônicos sofrem do que ele chama da “falácia do planejamento”, que os leva a subestimar o tempo de que precisam para fazer uma tarefa; são pessoas com uma distorção cognitiva que faz com que emitam juízos ilusórios e incorretos do tempo e de seus próprios recursos. Muitas delas são conscientes de que agindo assim tornam-se mal-educadas e desrespeitosas, e querem mudar seu comportamento, mas é difícil enfrentar um hábito tão interiorizado. Eu mesma o comprovo todo dia desde que me mudei de Londres para Lisboa, duas cidades nas quais o tempo transcorre em velocidades diferentes. O problema é quando, longe de se sentirem responsáveis, os atrasados desprezam esse tempo que fazem você esperar, chegando a enviar mensagens do tipo “Não se preocupe, já estou saindo de casa” depois que se passaram trinta minutos de seu compromisso. Claro que vamos nos preocupar, e muito! Uma vez ouvi que o ruim de ser pontual é que quando você chega a seu compromisso não tem ninguém ali para apreciar isso. Não creio que essa seja uma questão de dar medalhas, mas de estar à altura de nosso precioso tempo. “Não sei como acontece, mas sou sempre o último a chegar”, costuma me dizer um amigo. Isso é porque ele nunca leu nada sobre TM. UM POUCO DE SÍNTESE A arte de viver está em saber diferenciar entre o urgente e o realmente importante. Adiar obrigações apenas agrava o problema, carregando o tempo de frustração. Fazer as coisas antes da hora às vezes nos leva a ter de assumir mais trabalho do que precisávamos realizar. A pontualidade levada ao extremo é um gatilho da ansiedade. Não há desculpas que justi�quem a falta de pontualidade crônica. SEU MAPA DE PRIORIDADES VOCÊ DEDICA SEU TEMPO AO QUE REALMENTE IMPORTA? No Natal de 2018, teve grande impacto um anúncio de Ruavieja, um fabricante de licores, protagonizado por meu amigo Rafael Santandreu. Ele mostrava um experimento feito com duplas de amigos ou familiares que não vivem no mesmo lugar. Depois de perguntar a eles a frequência com a qual se viam, entregavam a eles um cálculo do tempo real que lhes restava para viver juntos. Duas amigas íntimas aproveitariam um total de 44 dias — com tudo somado — até que uma delas morresse. No caso de dois “melhores amigos”, que reconheciam não ter nenhuma outra amizade tão próxima, o que lhes restava para compartilhar eram três dias e seis horas. Os resultados surpreendiam a todos, que emitiam comentários como “Não pode ser…”, “Isso é terrível” ou o habitual “Precisamos nos ver mais”. Com uma virada �nal para o espectador, o experimento terminava com um dado aterrorizante do Instituto Nacional de Estatística. Em média, nos próximos quarenta anos, passaremos dez anos em frente a telas, entre o celular, o tablet e a televisão. Se dedicamos um terço de tempo para dormir, isso signi�ca que passaremos mais de um terço do período em que estamos acordados em frente a uma tela. Se não fazemos nosso trabalho diante de um computador, isso signi�ca que na maior parte de nosso tempo livre estaremos anestesiados por dispositivos digitais. VIVER SEM ANESTESIA Sim, eu usei a palavra “anestesia”, porque é isso o que produz o vício em redes sociais. Vamos tratar disso mais a fundo na segunda parte deste livro, mas vale a pena fazer uma primeira observação sobre o tema. Na maioria das vezes não navegamos para obterinformação, nos formar ou estabelecer uma comunicação de qualidade. Nem mesmo fazemos isso por prazer. Ao deslizarmos de forma hipnótica pelo Instagram, Twitter, Facebook ou seja lá onde for que busquemos entretenimento, não costumamos experimentar um prazer especial. Nossos sentidos simplesmente se entorpecem, e torna-se mais difícil pensar e se fazer perguntas. Com isso, nos vemos diante de um mecanismo de fuga com o mesmo motivo que a agenda a ponto de explodir. Enquanto vamos “matando o tempo” — que expressão mais terrível! —, evitamos pensar e, o que é pior, não começamos nunca aquilo que deveríamos estar fazendo. Há dois séculos o �lósofo H. D. oreau dizia que “não se pode matar o tempo sem ferir a eternidade”. Em nosso caso, cada hora que jogamos no lixo é uma punhalada em nossa vida sonhada. Na verdade, o recurso fácil de se envolver com as redes sociais, com os videogames ou com séries pagas é uma forma encoberta de procrastinação. Enquanto parece que fazemos alguma coisa, o que realmente devíamos estar fazendo — visitar um amigo, aprender algo novo, começar um projeto — é adiado mais uma vez. OS QUATRO QUADRANTES DE COVEY São bem conhecidos os quatro quadrantes sobre o tempo que Stephen Covey incluiu em seu clássico Os sete hábitos das pessoas altamente e�cazes. Eles são os seguintes: Quadrante I: importante e urgente. Quadrante II: importante, mas não urgente. Quadrante III: não importante, mas urgente. Quadrante IV: não importante nem urgente. O urgente é aquilo que precisa de atenção imediata, mas costuma ser algo que é importante para outra pessoa — seu chefe, por exemplo. O importante é aquilo que alimenta seus objetivos na vida, seu propósito. Covey diz que se você adia o importante, porque pula de uma urgência para outra, vai chegar um momento em que o importante também se converterá em urgente. Ou seja, você vai somar uma urgência a mais às outras que já tem, e com isso viverá um cenário de crise contínua. Vejamos um exemplo prático: um executivo instalado no quadrante I passa o dia inteiro no que é urgente e importante, ou seja, apagando incêndios em seu escritório. Ele tem outras coisas importantes na vida, como sua mulher e seus �lhos, mas como não são urgentes (quadrante II), ou seja, não têm um prazo �nal, ele vai procrastinando sua atenção com desculpas do tipo: Quando eu conseguir me livrar de todo esse trabalho (erro: porque depois de uma urgência vem a seguinte), vou dedicar mais tempo à família. Quando chegarem as férias, vou compensar todo o tempo que não dediquei a eles (erro: sem dúvida o executivo levará trabalho para as férias). Assim, de um “quando” ao próximo, um dia sua mulher lhe comunica que não aguenta mais seu isolamento, que todo o seu tempo e energia vão para a empresa e que ela quer se separar. O que era apenas importante agora também é urgente. O “precisamos nos ver mais” dos amigos do anúncio aqui já não vale, porque o executivo está prestes a perder a mulher. Ele também tenta se aproximar dos �lhos e os leva para comer em um restaurante com várias estrelas Michelin. Mas aí percebe que é difícil conversar com eles porque perdeu o ritmo cotidiano e desconhece quase tudo sobre suas inquietações. Por outro lado, o celular não para de tocar, porque a empresa se acostumou que ele esteja disponível 24 horas por dia. Resumindo, o executivo se meteu em uma boa enrascada. A desculpa de que precisa trabalhar tanto para permitir todos os caprichos a sua família não serve mais, porque ele já não tem família. Ele se transformou em um estranho para eles. Quando convertemos o quadrante I (importante e urgente) no centro de nossa vida, ele se torna cada vez maior até nos engolir por completo. Stephen Covey a�rma que as pessoas que administram com e�cácia seu tempo têm seu núcleo no quadrante II (o importante não urgente). Elas reduzem o quadrante I o máximo possível e não se dedicam demais aos quadrantes III e IV. No quadrante II estão as coisas realmente fundamentais da vida: Seus relacionamentos pessoais, muito mais importantes que qualquer urgência no trabalho. Projetos criativos ou iniciativas dedicadas a seu futuro, como melhorar sua formação ou uma ideia empresarial. Medidas para sua saúde, como: fazer exercício, se alimentar bem etc. A BOA NOTÍCIA Em seu livro Las tres cosas que te quedan por hacer (As três coisas que faltam para você fazer), o coach uruguaio Mario Reyes propõe fazer o seguinte exercício, com o qual encerrarei este capítulo. Imagine que você é uma pessoa de enorme sucesso. Dirige um conversível caríssimo por uma estrada montanhosa e cheia de curvas que vai serpenteando sobre a costa. Você tem o mar a sua esquerda e brilha um sol radiante. Você se dirige à mansão que acaba de comprar. Lá, um cozinheiro importante está preparando seus pratos favoritos para que você os saboreie com uma companhia que o procurou para esse dia. Tudo vai de vento em popa. Sua conta corrente está cheia, seus negócios andam melhor que nunca. Talvez você não tenha descansado muito ultimamente, é o que acontece quando se ocupa em várias frentes, mas fora isso não há motivo para queixas. Ao fazer uma curva acima de um penhasco, de repente você tem um microssono. Talvez você tenha dormido apenas um décimo de segundo, mas, quando percebe, você e seu conversível estão caindo no fundo do precipício. Segundos depois, tudo terminou. Você se surpreende por estar consciente no carro transformado em sucata quando um homem vestido de branco se aproxima com um sorriso amável. Você entende que ele é uma espécie de anjo que vem para levá-lo para o além, o que quer que seja isso. Antes, porém, ele lhe faz uma pergunta: quais são as três coisas que faltam para você fazer? Querido leitor, eu peço que se coloque agora nessa situação e decida, no quadro aqui embaixo, que três coisas importantes você lamentaria não ter feito se tivesse que ir embora agora deste mundo. AS TRÊS COISAS QUE FALTAM FAZER 1. 2. 3. Mario Reyes termina esse exercício dizendo: — Agora, vou lhe dar uma boa notícia: você está vivo e pode fazer isso. UM POUCO DE SÍNTESE As telas são uma forma sutil de procrastinar o que na verdade devíamos estar fazendo. Um bom gestor do tempo não passa a maior parte do tempo dedicado ao urgente, mas ao importante, onde são cumpridos seus objetivos vitais. É um erro grave cancelar o que é importante porque algo parece mais urgente. Preste atenção às suas prioridades na vida antes que seja tarde demais. A ARTE DE ENVELHECER BEM TER UM PROPÓSITO PROLONGA A VIDA Estamos acostumados a medir o tempo desde pequenos, programando nossas horas ou dias, talvez mesmo um ano acadêmico, mas nossa vida inteira tem suas próprias estações. Vamos falar disso um pouco mais à frente. Na cultura mediterrânea, muitas pessoas, ao chegar a certa idade, se aborrecem quando lhes perguntam quantos anos têm, como se fazer aniversário fosse algo vergonhoso. Contra essa visão absurda, diz um provérbio irlandês: “Nunca lamente por estar �cando velho, por que muitos não tiveram esse privilégio.” No Japão, por outro lado, chegar aos cem anos é considerado uma grande honra, como se a pessoa tivesse se formado na arte de viver. Seja como for, há uma regra que deve ser respeitada na maturidade: assim como se viveu, se envelhece. Considerando que a existência consta de tempo, à medida que vamos nos “formando”, vemos os frutos de como gerimos nossas horas e dias. Uma pessoa que tenha vivido com pressa, sempre no limite de suas forças, vai chegar à aposentadoria esgotada, e muito provavelmente entrará em uma fase de grande aturdimento. Como veremos com detalhes no capítulo da pausa ativa, é muito difícil passar da atividade frenética a uma parada absoluta. A pessoa hiperocupada de repente se sente inútil e não sabe como preencher seu tempo. Nesses casos, é comum sofrer episódios de ansiedade e até mesmo depressão, o que pode levar a não atender às necessidades do corpo e da vida social, levando a uma rápida deterioração. No outro extremo, uma pessoa que soube gerir seu tempoadequadamente chegará bem preparada para as “provas �nais”. Como não se dedicou exclusivamente a trabalhar, pôde descobrir o que a apaixona, ao que gostaria de dedicar seus dias quando tivesse muito mais tempo. Usando um termo japonês que está muito na moda, terá descoberto seu ikigai. A IMPORTÂNCIA DE TER UM PORQUÊ PARA VIVER Meus bons amigos Francesc Miralles e Héctor Garcia �zeram em 2015 um trabalho de campo extraordinário em Okinawa, Japão. Na verdade, em uma aldeia no norte da ilha chamada Ōgimi. O que há nesse povoado de três mil habitantes dedicado ao cultivo de cítricos para que dois gaijin — estrangeiros — se deslocassem até lá para estudá-lo? Ele tem uma coisa muito especial: Ōgimi detém o recorde mundial de longevidade segundo o Guiness, razão pela qual ela é frequentemente chamada de “a aldeia dos centenários”. Depois de muitas negociações com a prefeitura dessa localidade, �nalmente Héctor e Francesc puderam entrevistar os mais velhos do lugar. Queriam que lhes contassem seus segredos para uma vida longa e feliz, já que os anciãos dessa aldeia são admiravelmente alegres e vivos. Além de comprovar que esses mestres da longevidade tinham uma alimentação saudável — aplicam a lei dos 80%: nunca se enchem demais — e uma vida ativa ao ar livre sem estresse, havia uma palavra que se repetia com frequência quando perguntavam a eles: “Qual é seu segredo para uma vida longa?” Muitos diziam, então, que o ikigai era o que os motivava a se cuidar e a manter a ilusão. Esse termo pode ser traduzido como “propósito vital” ou “razão de ser”, e indica o motivo por que nos levantamos da cama com energia para viver mais um dia. No caso dos anciãos de Ōgimi, por ser uma localidade rural, os ikigai mais mencionados foram a horta — não há lá nenhuma casa sem horta própria, das quais cuidam com grande amor — e se encontrar com os amigos às tardes. Com certeza se esse estudo tivesse sido realizado em uma cidade o resultado teria sido diferente. O ikigai que nos traz motivação pode ser a prática de uma arte, viajar, a leitura, uma tarefa social que dê sentido a nossa existência… Cada pessoa tem seu ikigai, e se ele ainda não foi encontrado, sua missão será encontrá-lo, porque, como dizia Friedrich Nietzsche: “Quem tem um porquê para viver pode resistir a quase qualquer como.” AS DEZ LEIS DOS JAPONESES CENTENÁRIOS O ensaio dos escritores Héctor Garcia (Kirai) e Francesc Miralles, Ikigai. Los secretos de Japón para una vida larga y feliz (Ikigai: os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz) foi traduzido em 54 idiomas e se encerra com dez princípios da arte de viver segundo o que aprenderam esses autores com os anciãos de Okinawa: 1. M- , . Quem abandona as coisas que ama e sabe fazer perde o sentido da vida. 2. F . Caminhando devagar se chega longe. 3. N . Também na alimentação para uma vida longa, “menos é mais”. 4. C- . São o melhor elixir para dissolver as preocupações. 5. E . Se alguém não se lembra, o exercício faz com que sejam secretados os hormônios da felicidade. 6. S. Uma atitude afável que faz amigos e relaxa a própria pessoa. 7. R- . Somos feitos para nos fundir com a natureza. Volte a ela para carregar as baterias da alma. 8. A. Dedique um momento do dia para demonstrar gratidão e você aumentará sua fartura de felicidade. 9. V . Pare de se lamentar pelo passado e de temer o futuro. Tudo o que você tem é o dia de hoje. Faça o melhor uso possível dele para que mereça ser lembrado. 10. S . Dentro de você há uma paixão, um talento único que dá sentido a seus dias e o empurra a dar o melhor de si mesmo até o �m. Se você ainda não o encontrou, sua próxima missão será encontrá-lo. PRESENTES DA MATURIDADE A publicidade e os esportes idolatram a juventude, como se fosse uma época perfeita da qual o ser humano não deveria sair. Porém, não se trata de um período isento de problemas e de sofrimento. A pessoa está se de�nindo em muitos sentidos — trabalhista, existencial e sexual —, depende dos pais e não costuma dispor de um espaço próprio nem do dinheiro de que precisa para seus projetos. Por outro lado, a pessoa jovem é mais vulnerável psicologicamente. Tudo a afeta muito mais, e ela sofre com mais facilidade tsunamis emocionais. Esse é o motivo pelo qual muitas pessoas, ao lembrarem de sua adolescência, a�rmam que por nada no mundo gostariam de voltar a esses tempos. Diante de toda essa instabilidade, vejamos os presentes que nos chegam com a maturidade: I . Na maturidade, já dispomos de um lugar estável onde viver e de nosso próprio dinheiro, o que nos dá poder de decisão sobre nossa existência. B . A partir de certa idade, a obsessão pelo corpo �ca em segundo plano. Sem nos descuidarmos por isso, valorizamos mais — em nós mesmos e nos outros — outras qualidades que não se deterioram com o tempo. E . Tudo o que vivemos nos permite olhar com distanciamento para qualquer coisa que nos aconteça. Já não entramos em pânico com as primeiras mudanças porque aprendemos que nada é tão grave nem tão importante quanto parece. F . Os jovens tendem a pensar que serão felizes quando isto ou aquilo acontecer. Eles condicionam seu bem-estar a ter coisas que no momento não têm. Com a maturidade, ao contrário, �camos muito conscientes da fugacidade do tempo e, portanto, saboreamos cada momento como se fosse o último. L . Com a idade, já não nos importa tanto o que os outros vão pensar de nós. Deixamos de fazer coisas em função das expectativas alheias, e isso é o que nos permite viver de forma verdadeira. A MONTANHA DA VIDA O prestigiado psicólogo Joan Garriga, divulgador da terapia Gestalt e responsável pela introdução das constelações familiares na América Latina, faz uma comparação muito bonita do caminho pessoal usando uma montanha. Durante a primeira metade da vida, nós a subimos. É o momento de nos enchermos de aprendizados e experiências, de ganhar dinheiro, prestígio e amigos, de conseguir bens materiais e a�rmar nosso lugar na sociedade. Uma vez que se chega ao topo, quando se alcança o equador da maturidade, começa o caminho de descida. Assim como na subida aprendemos a ganhar, agora se trata de aprender a perder. E não há nada negativo nisso. À medida que descemos a montanha, depois de ter visto desde o cume como o mundo funciona, vamos nos desprendendo de tudo aquilo de que não precisamos para poder seguir com uma bagagem mais leve. Abrimos mão de relacionamentos que não nos trazem alegria, de obrigações que não são nossas e de gastos que pressupõem uma carga desnecessária de compromissos que não constituem nossas prioridades. Vamos nos libertando, cada vez mais sábios e leves. Joan Garriga comentou em uma entrevista que lhe causa tristeza ver alguém no caminho de descida pensando em ganhos e em imitar os jovens. Pessoas que se matam na academia e acabam se lesionando, Peter Pans irredutíveis, veteranos que trabalham freneticamente para adquirir coisas e se apresentarem como vencedores. Viver dessa forma pode nos causar grandes problemas de saúde, mas também de dinheiro, além de nos privar dos presentes da maturidade. EXERCÍCIO: COMO VOCÊ GOSTARIA DE SER LEMBRADO? Vou terminar este capítulo propondo um exercício que, espero, não pareça lúgubre. Na verdade, é um exercício de vida. De forma mais concreta, ajuda a imaginar como você deseja viver o tempo que lhe resta. Para isso, pedirei que assuma o papel de um jornalista que foi encarregado de escrever uma resenha biográ�ca sobre você depois de sua morte. Escreva em uma página os valores, conquistas e contribuições desta pessoa que você é nos anos que ainda não viveu. Escreva a biogra�a que gostaria de ler do outro mundo, se isso fosse possível, que re�ita a maneira como você deseja ser lembrado. Uma vezterminado, programe o que deve fazer para que sua vida corresponda a esse ideal. UM POUCO DE SÍNTESE Envelhecemos da mesma forma que vivemos. Ter um ikigai, uma razão para nos levantarmos de manhã, ajuda a viver mais e melhor. Se ainda não sabe qual é seu propósito vital, sua missão é descobri-lo. A maturidade apresenta muito mais vantagens que inconvenientes. Na segunda metade da vida, trata-se de se “desprender” no lugar de adquirir. Quando você sabe como quer ser lembrado, já tem um roteiro para sua vida. O TRACKING DE SEU TEMPO ATREVA-SE A SABER NO QUE VOCÊ GASTA SUAS HORAS Muitas noites, quando vamos para a cama, nos perguntamos aonde foram as horas de nosso dia que termina como se tivessem vida própria e nos evitassem, e não fôssemos nós quem as desperdiçássemos. Quando percebemos que voltamos a falhar — a falhar com nós mesmos, o que é ainda pior —, outros pensamentos se sucedem como um rolo compressor que amassa nosso moral. Um muito típico: “Cada vez me sinto mais cansado e não sobra tempo.” E o pior de todos: “Hoje não tive nem cinco minutos para mim, para fazer o que gosto.” É assim que nos convencemos de que merecemos um prêmio antes de dormir… isso costuma se traduzir no desperdício de mais tempo no Instagram ou em qualquer outra rede. A que menos me faça pensar, porque estou esgotada. Com um pouco de sorte, um capítulo de alguma série no tablet. No pior dos casos, talvez juntemos ao cansaço e à frustração um copo de bebida alcoólica que vai nos fazer dormir pior e não resolverá o problema. O dr. Andrés Martín Asuero, que levou o mindfulness para a Espanha depois de trabalhar com Jon Kabat-Zinn, diz que “o problema não é tanto o estresse que sofremos, mas como reagimos diante desse estresse”. Ou seja, como tentamos compensar uma relação péssima com nosso tempo. Caímos nesses comportamentos destrutivos quando não reservamos um tempo de ócio consciente e escolhido por nós. Na última hora, nós o substituímos por outros mais fáceis que nos roubarão tempo e qualidade do descanso. E o que é pior: nos farão começar o dia seguinte nos arrastando. E assim se passam não apenas os dias, mas também as semanas, os meses e os anos da vida. Sempre avançando, com o piloto automático ligado, sem prestar nenhuma atenção às horas que vão dizendo adeus (e o que dizer dos minutos, tão valiosos, cada um com seus sessenta segundos). Se estamos nessa situação ou em qualquer outra que não se ajuste ao que consideramos desejável, é hora de acabar com isso. Portanto, e não podia ser de outro jeito, precisamos começar sabendo com exatidão onde se localiza o problema. PRECISO DE UM DIAGNÓSTICO Em Money Mindfulness me atrevi a dizer uma coisa que ninguém gosta de ouvir: o ponto de partida para salvar nossa economia é fazer contas. Por mais difícil que pareça, é preciso calcular nossas rendas e nossos gastos com uma exatidão rigorosa e inquebrantável. Nos encanta contar as coisas mais aleatórias: os passos que damos em um dia, as pulsações enquanto andamos de bicicleta ou as calorias (o que dizem das calorias!?), e meu marido — que tem um problema congênito de colesterol — passa os dias contando as gorduras saturadas que come. Porém, da mesma forma que nos dá preguiça calcular nossas �nanças pessoais, poucas vezes nos preocupamos em fazer um acompanhamento detalhado para averiguar onde gastamos nosso tempo. Quando sentimos dor em qualquer parte do corpo, vamos ao médico para que ele nos faça todo tipo de atrocidades para conseguir, em troca, uma pasta com um número in�nito de indicadores analíticos. Muitas vezes não conseguimos compreender a metade deles, mas eles nos tranquilizam porque, depois dos exames, “pelo menos já sabemos o que há”. Pois bem, neste capítulo lhe mostrarei como saber o que há em relação às suas 24 horas. Vamos aprender a avaliar se as usamos bem ou mal, e só depois poderemos fazer ajustes, prestando atenção a cada minuto. Fazer um acompanhamento de seu tempo lhe ajudará a entender como você o está gastando realmente, no lugar de como acredita que o está gastando. Você nunca mais poderá dizer “não sei aonde vai meu tempo”. Pois comprovará que está tudo aí, esperando que você o aproveite como ele deve ser aproveitado. EM BUSCA DAS HORAS PERDIDAS Não é o título de um romance no estilo de Proust nem o novo �lme do Indiana Jones, mas o primeiro desa�o que você terá de enfrentar. Para assumir o controle de seu tempo, é preciso saber onde estão as �ssuras, até as que parecem mínimas ou desprezíveis, e para descobrir isso você terá de começar a anotar tudo. Isso lhe permitirá manter uma relação mais saudável e equilibrada com seu trabalho, com seu espaço de lazer e com sua vida em geral, já que a clareza de uma planilha vai lhe dar a opção de estabelecer limites onde seja necessário. Observe que mencionei uma das palavras mais aterrorizantes do dicionário: “planilha”. O único inconveniente de fazer um diagnóstico é que isso exigirá que anotemos tudo em tempo real. Não vale fazer de memória. Nossa mente nos engana, por isso não basta se perguntar no �m do dia o que aconteceu desde que você se levantou. No início do livro, vimos como a percepção do nosso tempo muda de acordo com a atividade que estamos realizando. Por esse motivo, não nos resta alternativa a não ser pôr as mãos na massa e começar a fazer um acompanhamento. O tracking de nosso dia. Para isso, vamos recorrer ao auxílio da ferramenta mais adequada à nossa situação e personalidade. Você pode usar uma planilha em papel ou em qualquer dos aplicativos disponíveis a um clique de distância. Alguns são pagos, mas quase todos têm uma versão de teste gratuita que permitirá que você veja se ele se adapta às suas necessidades e se vale a pena pagar pelo trabalho que isso poupa. O mais provável é que seu próprio telefone facilite o exercício lhe dizendo quanto tempo você passa nos diferentes aplicativos e redes sociais. Entre em “con�gurações”, “ajustes” ou similar, dependendo da marca, e você encontrará uma opção sobre o tempo de uso do dispositivo. Aviso que no primeiro dia pode ser aterrorizante comprovar não só por quanto tempo ele esteve ligado, mas também quantos minutos (horas) desse tempo foram dedicados a aplicativos que não levam a nada de bom. Terrores à parte, independentemente de usarmos um aplicativo adequado ou um sistema caseiro de anotações, estou convencida de que será uma experiência muito reveladora. Depois de uma semana fazendo esse exercício, você terá uma ideia muito mais clara de para onde vai seu tempo e identi�cará seus buracos negros, esses sugadores cósmicos aonde vão parar nossas horas perdidas. A PLANILHA Você pode criar sua própria planilha ou empregar e adaptar a que eu proponho em seguida. Se nunca fez esse exercício, sem dúvida será um bom começo. Antes de pegar a caneta e começar a anotar, deixe que eu divida com você alguns pontos-chave: Isso não equivale a ter uma agenda para planejar seu dia, isso vem depois. O que vamos fazer é registrar em detalhes tudo o que fazemos durante um dia. Independentemente daquilo a que nos dedicamos, quaisquer que sejam nossos propósitos na vida, nossos objetivos e responsabilidades (que vão nos ajudar a priorizar e planejar, como veremos mais à frente), todos partimos das mesmas 24 horas. Por isso vamos controlá-las de perto. O ideal é que não haja espaços vazios em sua folha, já que na verdade eles também não existem em seu dia. Por isso, vamos anotar cada tarefa que �zermos e também toda vez que a interrompemos, incluindo os momentos em que nos distraímos. Quando mudar de atividade, seja respondendo a e-mails, elaborando um relatório, tomando café ou conversando com colegas, é preciso anotar a atividade respectiva e a hora de mudança. Data e dia da semana Atividade realizada Hora de início Hora de término Duração Nível de energia Nível de concentração Número de interrupções Valor Como o simples fato de anotar tudo vai deixá-lo mais consciente, que é a únicacoisa que pretendemos neste primeiro estágio, tente não condicionar suas respostas, tampouco mude de comportamento. Queremos saber para onde vai nosso tempo, ter uma imagem precisa do que fazemos e de como investimos nosso tempo durante o dia. D É recomendável começar o exercício em uma semana que seja representativa, mas não porque ela é especial, e sim por ser habitual. Não faça isso pouco antes de sair de férias, nem quando estiver perto de entregar um projeto importante. Certamente você não terá tempo para preencher uma planilha. Se o que mais lhe preocupa é sua produtividade no trabalho, comece fazendo apenas durante as horas de trabalho. Embora eu recomende ampliar o estudo para o total de suas horas. Em matéria de aproveitamento do tempo, é difícil estabelecer compartimentos estanques porque tudo está conectado. Se você administra melhor seu lazer no início da noite, renderá mais no trabalho de manhã. Se você trabalha de casa, é ainda mais importante que faça um tracking de seu tempo. Muito provavelmente, durante suas horas de suposto trabalho, você põe a máquina para lavar roupa e começa a fazer a comida; e enquanto assiste a Game of rones e responde a um ou outro e-mail sobre as reuniões do dia seguinte. A Quando digo atividade, estou me referindo a qualquer coisa que você faça, tanto a nível físico quanto intelectual: desde suas rotinas pelas manhãs, o tempo que passa em deslocamento no transporte próprio ou público, no trabalho, comendo, lendo, vendo TV, praticando esportes… Também conta, é claro, o tempo que você dedica a não fazer nada. E este livro tem um capítulo inteiro a respeito desse ponto importantíssimo, mas tenha em mente algo transcendental: entrar nas redes sociais não equivale a não fazer nada. Na verdade, não há nada mais diferente de não fazer nada que botar seu cérebro para trabalhar a uma velocidade de cem mensagens por minuto. Em relação às suas atividades pro�ssionais, você pode diferenciar entre tarefas administrativas e outras mais produtivas. Registre o tempo dedicado a responder a e-mails ou a enviar mensagens por meio de outros tipos de redes. H , Você pode anotar a hora de início e a duração. Ou também a hora de início e de término e, no �m do dia, repassar a planilha e calcular todas as durações das tarefas para que esse trabalho não represente uma interrupção a mais. N (1 = ; 2 = ; 3 = ) Vamos desenvolver isto mais à frente, mas adianto que para administrar melhor seu tempo é fundamental aperfeiçoar a gestão tanto da energia quanto da atenção. Como exemplo, se pelas manhãs você se mostra mais energético e criativo, devia dedicar esse tempo a realizar as tarefas mais importantes para alcançar seus objetivos. Quando seu nível de energia estiver menor, você pode fazer tarefas mais mecânicas, como retornar ligações ou administrar seus e- mails. Para isso teremos em conta não apenas seus biorritmos, dos quais falarei em detalhes, mas também outros hábitos, como são os períodos de descanso que faz, quando come e o que come. Nós vamos descobrir tudo isso; por enquanto, afaste a preguiça e anote tudo. N (1 = ; 2 = ; 3 = ) Conseguir um nível alto de concentração em tudo o que fazemos é realmente a �nalidade deste método. Não podia ser de outra forma já que ele está alicerçado no mindfulness, que signi�ca prestar atenção plena ao instante presente. Se eu o incluí na planilha de tracking é para ter uma informação de partida sobre quais são os períodos do dia e as atividades que precisamos trabalhar com mais intensidade. I Nessa planilha você deve anotar simplesmente o número de interrupções. No capítulo seguinte, sobre os ladrões de tempo, detalharemos o conteúdo dessas interrupções. Você �cará surpreso com o número de vezes que muda de tarefa. A folha vai �car pequena, mas insisto: não deixe de anotar tudo. V (, , , ) O valor está relacionado ao cumprimento dos objetivos que você determinou ou de�niu para si mesmo. Assim vamos identi�car o tempo que estamos perdendo em atividades que não nos agregam nenhum valor. Isso vai nos ajudar a identi�car e a priorizar tarefas; e, em um momento posterior, até mesmo a delegar ou eliminar tarefas, permitindo que você se concentre nas que tenham alto valor. SEI O QUE VOCÊ FEZ NA SEGUNDA-FEIRA ÀS 9H Rescue of time, um dos aplicativos para o acompanhamento do tempo que mencionei, analisou em 2017 as informações de milhares de usuários de todo mundo correspondente a um período de 12 meses, mais de 225 milhões de horas. Estas são algumas das conclusões, levando-se em conta uma jornada de trabalho de 8h às 18h de segunda a sexta-feira (embora já avisem que um de nossos erros de planejamento mais graves consiste em supor que temos oito horas de trabalho produtivo por dia, quando se sabe que contamos apenas com 12 horas e meia por semana): – Normalmente somos mais produtivos das 10h às 12h e das 14h às 17h. – Começamos o dia com os e-mails, que não deixamos de consultar, sendo essa a atividade vencedora nas segundas-feiras às 9h toda manhã. A partir daí nós os conferimos — assim como outros aplicativos de comunicação — quarenta vezes por dia. – Em um dia usamos em média 56 aplicativos e sites diferentes na internet. – Se nos perguntarem, diremos que nunca consultamos as redes sociais durante a jornada de trabalho, embora a realidade seja que entramos nelas 14 vezes por dia, passando nas redes cerca de 7% de cada jornada de trabalho. – Pulamos de uma tarefa para outra trezentas vezes por dia. Levando-se em conta que esses dados são de pessoas que usam um aplicativo para a gestão do tempo, o número de interrupções e o tempo que passamos distraídos é provavelmente ainda maior. Proteger seu tempo como você merece está em suas mãos. O QUE ACONTECE EM CASA? Talvez pareça exagero fazer também um tracking do que você faz em casa. Uma planilha para nossa vida pessoal… Sem dúvida isso não parece muito atraente! Talvez você esteja pensando coisas como estas: em meu caso, não é preciso, para que um casamento e uma família funcionem basta amarmos e cuidarmos uns dos outros; as tarefas do lar parecem se fazer sozinhas, não é preciso nem dividi-las, nem são em absoluto nenhum peso; sabemos até quando precisamos dar tempo ou espaço ao nosso parceiro, e então fazemos isso; sem discussões, nem uma palavra mais alta que a outra, de forma �uida, hoje por você e amanhã por mim; sempre nos lembramos das datas importantes, que são signi�cativas para todos, e as celebramos juntos em harmonia… Em um mundo idílico, isso talvez seja verdade. No mundo cheio de caos, de complicações e de estresse em que temos de viver não costuma ser assim. O bebê chora e dorme mal à noite; é preciso preparar o banho das crianças e ajudá-las com as tarefas, levá-las ao médico, buscá-las nas atividades extracurriculares, assistir às reuniões das associações de pais e mestres, e inclusive ir a alguns aniversários. É preciso dobrar a roupa e desembalar as compras enquanto você fala ao telefone, uma ligação que talvez seja de trabalho; é preciso dizer que almoçamos e jantamos todo santo dia da semana, além de fazer compras e cozinhar; e além disso nos entregaram o boleto do seguro e não tínhamos saldo na conta. Tudo isso nos deixa muito cansados, mas ainda arrumamos um pouco de força para nos envolvermos em uma discussão sem �nal feliz. Se juntarmos a isso o fato de que a sociedade se esforçou durante séculos para tatuar em nossas mentes a que membro do casal corresponde fazer umas tarefas ou outras, talvez comece a não parecer uma ideia tão ruim levar nosso tracking de atividades para nossa casa, não acha? Isso nos ajudará a tornar visíveis muitos trabalhos que passam despercebidos. Algumas pessoas vão até descobrir por que tipo de magia nossa roupa está limpa e dobrada nas gavetas e a das crianças, sempre no tamanho adequado, preparada para o dia seguinteem cima da cadeira, onde também espera pronta a mochila do futebol. Embora, a princípio, possa parecer um obstáculo, o tracking familiar do tempo facilita as conversas e permite exercer um controle maior sobre nossas vidas. UMA TAREFA DE AMOR Como diz Bom Jovi em sua música “Labour of Love”: “O amor é um trabalho de tempo integral, 24 horas por dia, sete dias por semana, que nunca termina.” O título dessa música também é o nome de um aplicativo para a gestão das tarefas domésticas. A ideia surgiu quando Bob, seu criador, percebeu a quantidade de discussões que tinha com sua mulher sobre os trabalhos da casa. O dia em que Catalina — é assim que ela se chama — começou em um novo trabalho com muito mais responsabilidade, e que com certeza tornaria a conciliação bem mais complicada, ela decidiu procurar outra maneira de fazer as coisas. A novidade em relação a outros aplicativos semelhantes é que, nesse, os usuários atribuem pontos para cada tarefa, que vão se acumulando até que você tenha o su�ciente para trocá-los por recompensas previamente estabelecidas: noites com os amigos, mais tempo para si mesmo… Como Bob e Catalina são muito competitivos, esse sistema funciona às mil maravilhas para eles. Principalmente, porque os dois sabem bem que o objetivo �nal não são as recompensas. O que procuram é uma mudança de comportamento real e consistente a longo prazo. Entretanto, esses pequenos prêmios servem de incentivo e os ajudam a apreciar o trabalho que cada um realiza. O alcance da mudança depende dos usuários; o aplicativo não foi criado para igualar o trabalho doméstico, mas quase sempre deixa claro que a sobrecarga de trabalho tende a cair sobre as mulheres, mães e trabalhadoras, enquanto seu parceiro vive na ignorância e no egoísmo de achar que o que faz é sempre o mais importante. Em sua versão premium, o Labour of Love permite incorporar mais membros das famílias nas tarefas. Catalina diz se sentir menos estressada desde que começaram a usar o aplicativo: “O peso de garantir que tenhamos leite para o café da manhã ou que a roupa esteja limpa não é mais apenas meu.” FAMILY POINTS Tenho uma amiga, María Matencón, que conheci em um retiro de ioga em Ibiza. Uma tarde, conversando depois de uma sessão de meditação, ela me contou que estava lá porque tinha acumulado Family Points su�cientes. Quando nasceu seu segundo �lho, ela e o marido deixaram de fazer quase todas as coisas de que gostavam, já que os dois tinham de estar cuidando dos �lhos o tempo todo. Mas, quando o menor fez dois anos, e já era viável que apenas um membro do casal se ocupasse deles, eles criaram esse sistema para ganhar tempo livre e recuperar seus respectivos hobbies. A partir de então, não vale terminar o trabalho e se despedir com um “tenho tênis, nos vemos depois”. Primeiro, é preciso ganhar isso, acumular pontos que podem ser trocados. Quando uma pessoa quer se eximir das obrigações familiares que tem durante seu tempo fora do trabalho, pergunta ao outro se pode cobri-la. Se há consenso e é possível, o que �ca encarregado ganha Family Points, que logo vai destinar às suas coisas. Não se trata de deixar de lado a vida em casal e em família de que tanto gostam e que tanto acrescenta, mas de gerenciar espaços sem dar lugar a discussões nem ressentimentos. Trata-se de valorizar cada minuto entregue à família e, mesmo assim, não cair no erro de pensar que meus minutos de tempo livre valem mais. TM puro. BENEFÍCIOS DO TRACKING FAMILIAR O tracking de nosso tempo é apenas o primeiro passo, mas também um passo fundamental. Ele vai fazer com que você �que mais consciente de como usa seu tempo tanto no trabalho quanto em casa. Visualizar com detalhes a realidade do parceiro — sem deixar espaço para o que acreditamos que é — e, portanto, tomar consciência da dedicação e entrega de cada um ao projeto familiar, vai facilitar a comunicação e nos permitir identi�car os momentos de qualidade que nos deixam mais felizes para trabalhar o resto, de modo que todos estejam à altura. Há alguns meses li no New York Times um artigo da escritora Amy Westervelt, no qual ela contava como seu marido, consultor de e�ciência da indústria automotiva, lhe propôs enfrentar o funcionamento da família no “estilo Toyota”. Sabe o que ela respondeu? Nem pense em botar suas planilhas de cálculo em minha vida pessoal! Mas ele a convenceu de que aquele método baseado no kaizen (melhora contínua) era muito mais que uma planilha de Excel, e o puseram em prática. Os objetivos de uma empresa foram substituídos pelas metas do casal; o que não mudou foi que se dedicaram a reunir todos os dados possíveis, até os mais ín�mos, e depois se sentaram para discutir como podiam se aproximar mais daquelas metas. Eles descobriram padrões e foram estabelecendo coisas que não podiam ser puladas (dormir um mínimo de cinco horas e meia — o que é insu�ciente —, ir para o trabalho de trem para poder continuar de bicicleta desde a estação e assim mexer um pouco o esqueleto antes de começar a jornada de trabalho…). Em vista dos dados recolhidos, �nalmente eles decidiram abrir mão de seus trabalhos, vender sua casa cara e se mudar para um lugar mais barato no qual poderiam potencializar esses momentos — esse tempo — que realmente os faziam felizes. Uma mudança radical que para eles pareceu muito natural, porque ali estavam os dados para garantir que era a opção mais acertada. Conhecer seu tempo é começar a tomar as rédeas dele. Isso pressupõe o início de uma vida mais próspera e equilibrada. UM POUCO DE SÍNTESE Como acontece com as doenças do corpo, um diagnóstico de nossos hábitos temporais nos permitirá solucionar nossa agenda. Navegar pelas redes sociais não equivale a “não fazer nada”. A qualidade de nossa gestão do tempo depende em grande parte do número de interrupções. Há aplicativos criados para resolver o desequilíbrio nas tarefas que gera tantos con�itos entre os casais. Não podemos tomar as rédeas de nosso tempo sem antes conhecer de forma precisa o que fazemos com ele. OS LADRÕES DE TEMPO COMO DAR FIM ÀS FUGAS Napoleão Bonaparte já avisou que “há ladrões que não são castigados por ninguém, mas que nos roubam o que temos de mais precioso: o tempo”. Como podemos ver, esse problema não é novo. Desde muito antes do nascimento do militar francês, nós humanos estamos expostos a ladrões de minutos. E se não os atiramos imediatamente em uma cela escura e jogamos a chave fora foi porque não estávamos conscientes de que eram realmente ladrões de dinheiro e de vida. Isso já parece mais sério, não é? Como veremos neste capítulo, se na época de Napoleão já fazia falta uma cela bem grande para os ladrões de tempo que andavam por aí, em nossa era tecnológica precisaríamos de um presídio inteiro. LADRÕES COTIDIANOS Em um plano super�cial ou cotidiano — mas não menos importante —, podemos começar fazendo uma lista com alguns ladrões conhecidos por todos: G . Está comprovado que as pessoas que mais perdem tempo são especialistas em consumir o daqueles que menos o têm. Lembro-me de minhas primeiras semanas no ensino superior, quando fui para a universidade estudar economia. Durante o primeiro mês, sempre aparecia alguém no quarto para encher o tempo sem fazer nada de proveitoso… E com certeza eu, sem perceber, também roubava o tempo de minhas novas amigas. C . Encontros aos quais comparecemos por obrigação ou por não sabermos como recusá-los. Mais à frente vamos dedicar um capítulo inteiro à arte de dizer “não”. Por enquanto, pense que cada vez que você diz sim para uma coisa de forma automática, está dizendo não a outra que certamente importa muito mais. Quanto mais sins conscientes você disser, mais longe estará de alcançar seus verdadeiros objetivos e propósitos. C . Quantas vezes vamos às compras sem planejar a lista “por falta de tempo”? Não percebemos que essa forma irre�etida de agir nos rouba muito mais tempo do que achávamos estar utilizando, já que acabamos saindo para fazer compras mais vezese em mais lojas, além de ainda pagar normalmente mais caro porque, depois que rompemos a rotina, também interrompemos nossa atenção ao gasto, nos deixando levar pelo imediatismo. G WA M. Desconhecidos há duas décadas, são verdadeiros devoradores de tempo. A não ser que se trate de uma obrigação de trabalho ou que você os tenha escolhido de forma consciente como um meio para se comunicar com aquelas pessoas que importam, sair educadamente dos grupos equivale a eliminar uma fuga de segundos, minutos e horas que acaba esvaziando nossa vida. Esses são apenas alguns exemplos. Cada pessoa tem seus próprios ladrões cotidianos de tempo, que devem ser detectados e postos em lugar seguro. Entretanto, vou dedicar os próximos parágrafos a uma série de criminosos que merecem uma menção especial. O CORREIO ELETRÔNICO O e-mail não é um meio urgente de comunicação, por isso você não precisa reagir como se fosse. Se você se dedica a ser o gestor de seus e-mails em vez de fazer suas tarefas principais, estará deixando que outras pessoas preencham sua agenda, que decidam com o que você gasta seu tempo e energia. Talvez você se mantenha ocupado, mas isso é apenas uma ilusão de ser produtivo, porque estará se afastando de seus objetivos. Kevin Kruse, de quem já falamos no capítulo intitulado “Por que o tempo é dinheiro”, detectou que um dos hábitos das pessoas muito produtivas é não passar o dia revisando várias vezes seus e-mails. Elas fazem isso apenas de uma a três vezes por dia. Programe em sua agenda um tempo para ler e administrar seus e-mails. Quando �zer isso, você pode aplicar o seguinte método: 1. Se o e-mail solicita algo que leva menos de dois minutos, faça isso agora. Se for levar mais tempo, inclua a tarefa em sua agenda ou calendário. 2. Se pode delegar a tarefa, reenvie-o imediatamente. 3. Se pode se desfazer dele, elimine-o. Ou arquive-o, se achar necessário, mas em um lugar onde possa encontrá-lo sem perder tempo (você pode criar pastas para projetos). Outros conselhos que lhe ajudarão a manter os e-mails em dia: Saia de todas as newsletters que acumula sem prestar nenhuma atenção e mande aquelas que deseja ler diretamente para uma pasta que você visitará no tempo programado para sua leitura. Desative as noti�cações que interrompem sua concentração e geram as consequências que veremos mais à frente. Antes de reenviar um e-mail ou adicionar pessoas em cópia — aberta ou oculta —, aplique TM e pense nisso de forma consciente. Se enviar menos e-mails, receberá menos e-mails. Todas essas pessoas que você copia realmente precisam decidir ou opinar sobre cada passo? Elas têm alguma responsabilidade no assunto ou simplesmente estão em cópia porque você não se deu ao trabalho de tirá-las? Informe ao destinatário sobre a próxima ação dele na primeira linha do e- mail: não precisa de resposta, para sua informação, ação exigida etc. NÃO VÁ AO BANHEIRO COM SEU CHEFE A equipe da campanha da Adobe fez uma pesquisa em 2017 com mais de mil empregados de escritório dos Estados Unidos sobre seu uso do e-mail, e as conclusões foram assustadoras: eles os examinam praticamente as 24 horas do dia sem se importar com onde estão, nem com quem ou o que estão fazendo. Em média, os entrevistados da pesquisa informavam que passam 3,3 horas por dia com o e-mail do trabalho, que muitas vezes o examinam em casa, e 2,1 horas com o e-mail pessoal, que também examinam durante o trabalho. 36% dizem que preferem se comunicar com seus colegas de trabalho por e-mail e 22% acreditam que veri�cam “demais” seus e-mails. O que signi�ca que para os outros 78% a atividade descrita parece “normal”. Como costuma se dizer, já que estamos falando dos Estados Unidos: “Houston, temos um problema.” AS REUNIÕES Ao longo de minha vida pro�ssional, participei de muitas reuniões. Por isso não me surpreendeu o resultado da pesquisa que a Harvard Business School e a Universidade de Boston realizaram sobre duzentos diretores de empresa: 71% deles opinavam que as reuniões são ine�cientes e improdutivas, e 65% consideravam que elas os impediam de terminar seu próprio trabalho. As reuniões não são ladras de tempo, são assassinas. Em geral, elas não seguem pautas organizadas, as pessoas certas não comparecem, começam tarde e se prolongam além da conta. Levando-se em conta que os assuntos que serão tratados e os tempos de intervenção não estão planejados, no �m das contas são sempre os mais extrovertidos ou os mais carreiristas que as monopolizam, embora outros saibam ou possam acrescentar muito mais. Mark Cuban, empresário e investidor norte-americano, diz: “Nunca vá a uma reunião a menos que alguém esteja lhe oferecendo um cheque.” Steve Jobs costumava fazer suas reuniões andando. Richard Branson declara com sua argúcia habitual que “é raro que uma reunião tenha de durar mais de cinco ou dez minutos”, um limite que o próprio Zuckerberg está estabelecendo. Se quiser projetar a agenda de uma reunião e�caz, pode começar por estabelecer os seguintes pontos: Determine qual é o objetivo da reunião. Faça uma lista das pessoas que devem estar presentes (no Google, elas têm um máximo de dez pessoas; e Steve Jobs dizia: “Se você não tiver uma boa razão para estar presente, não esteja”). Determine quem vai atuar como moderador. Sua principal tarefa será, após começar, se lembrar da duração da reunião. Inclua em sua agenda qualquer proposta dos participantes para não deixar espaço para as surpresas nem para temas espontâneos. É óbvio dizer: os telefones estão proibidos. O BICICLETÁRIO Cyril Northcote Parkinson, um prolí�co professor e autor de sessenta livros, enunciou há mais de meio século a chamada “lei da trivialidade”, que explicou com a história do bicicletário. Ele conta que um comitê teve de aprovar a construção de uma usina nuclear, o que fez sem discussão ou deliberação, já que era uma decisão muito importante que podia ser examinada apenas por um punhado de especialistas respeitados por todos. Um pouco mais tarde, o mesmo comitê precisou decidir a cor do bicicletário onde guardar as bicicletas do pessoal. O que aconteceu? Toda a equipe se envolveu e se meteu em um debate eterno sobre esse tema trivial, mas sobre o qual todos podiam opinar, e ao qual se dedicou muito mais tempo e energia que à decisão sobre a construção da usina. Na vida diária, pedimos conselhos sobre mil decisões triviais que dão lugar ao “efeito bicicletário” (ainda mais em meu caso, que tenho cinco irmãs e dois irmãos). Quando não lhe restar mais saída além de fazer isso, economize tempo da seguinte maneira: Valorize os conselhos segundo o conhecimento e a experiência de quem os dá, decidindo se é uma fonte que você quer escutar. Se possível — e quase sempre é — utilize critérios objetivos para avaliar a situação. Os juízos subjetivos não costumam ser conclusivos. Faça sua própria lista de prós e contras de cada opção. E, em relação à sua opinião, lembre-se de que discutir durante horas apenas para ganhar a discussão vai radicalmente contra o TM. AS INTERRUPÇÕES Basta olhar para o dia de ontem prestando atenção a cada momento vivido (no trabalho e no lazer) para tomar consciência da quantidade de interrupções que exigiram sua atenção e o tiraram de suas tarefas. Você trabalha em um escritório diáfano ou com paredes que não chegam até o teto? Tem uma mesa compartilhada? Se isso acontece, saiba que as interrupções se multiplicam. Como vai essa planilha de cálculo? Por que caiu o wi-�? Onde podemos almoçar para mudar um pouco? A lista é interminável… Para evitar isso, algumas pessoas levam fones de ouvido, outros vão trabalhar de moletom e vestem o capuz. PERIGOS DO COWORKING Nos últimos tempos, os espaços de coworking entraram na moda. Entre suas vantagens está a possibilidade de se criar comunidade, de atrair talentos, sua �exibilidade e suposta economia (cuidado, porque há alguns tão so�sticados que lhe oferecem mesas pelo preço de um escritório convencional inteiro). A agência de eventos na qual eu trabalhava em Londres selocalizava em um moderníssimo espaço de coworking na City. Nossos vizinhos de mesa eram um ator e um apresentador de televisão, ambos funcionários de uma empresa de marketing. Eles passavam a maior parte do dia no telefone, fazendo maravilhas com as técnicas de vendas e suas vozes radiofônicas. Eles tinham sido realocados em várias ocasiões, e os vizinhos sempre reclamavam do volume que eram capazes de extrair de suas cordas vocais e da forma teatral e sempre exagerada com a qual celebravam suas vendas. Quando eu precisava fazer uma proposta, minhas próprias ligações para fornecedores ou �nalizar um orçamento, essas tarefas se tornavam muito complicadas. Fora isso, eram companheiros excelentes, que contratávamos para apresentar nossos próprios eventos — o networking funcionava —, e eles sempre estavam dispostos a ajudar e, por que não, tomar um chá. Dependendo de sua pro�ssão, talvez você precise tomar medidas mais drásticas. As enfermeiras do sistema hospitalar dos Estados Unidos usam faixas ou jalecos de cores fortes para evitar interrupções enquanto preparam os medicamentos para os pacientes. Outros hospitais estabelecem “zonas sem interrupção” perto das farmácias, usando �ta adesiva vermelha no chão ou lajotas de cor diferente. Segundo o International Journal of Stress Management, os empregados que experimentam interrupções frequentes sofrem uma taxa de esgotamento 9% superior à média, assim como um aumento de 4% em problemas físicos como dores de cabeças ou dores nas costas. Isso se deve à mudança repentina no ritmo de trabalho. Acabamos fazendo as tarefas, mas em menos tempo e com mais desgaste, estresse, frustração e pressão. Há um problema a mais: depois de interrompida, a maioria dos funcionários não volta diretamente para a tarefa mais complexa, mas continua interrompendo a si mesma: faz primeiro o fácil, embora não seja o urgente, dá uma olhada nos e-mails novos ou nas redes sociais… Um estudo de Gloria Mark, membro do departamento de informática da Universidade de Irvine, a�rma que, quando nos interrompem, demoramos uma média de 23 minutos e 15 segundos para voltar à tarefa. Quando for interromper alguém que estiver trabalhando, pense antes: você ligaria para a cabine do piloto durante a decolagem e a aterrissagem do avião? Entenda que todos os trabalhos têm a mesma importância. AS DISTRAÇÕES Deixei para o �m esse ladrão que usa uma grande quantidade de máscaras. O primeiro passo no processo é identi�car todas as distrações: redes sociais, sites, dispositivos. Quais são essas coisas para as quais você se volta habitualmente quando suas tarefas �cam entediantes? Depois, você pode seguir estes passos: 1. Desative ou desabilite as noti�cações de todos os dispositivos ao seu redor no trabalho: e-mail, Messenger, redes sociais… O simples “bip” de aviso, mesmo que você não chegue a consultar a mensagem, terá atrapalhado sua concentração, pois sua mente terá se desviado dois segundos (cinco se você a lê, embora não responda). Se de cada minuto de seu dia, descontando os que está dormindo, cinco segundos são passados na caixa de noti�cações, isso resulta em torno de oitenta minutos por dia. Oitenta minutos maravilhosos, do tipo que logo faz falta e que você sempre está buscando. Se isso parece drástico demais, você pode deixar habilitadas as noti�cações das mensagens de sua mãe, que sempre merece um tratamento especial. Tudo está bem se é feito com consciência plena e TM. 2. Se seu telefone é de trabalho, mantenha-o o mais longe possível e se puder em modo avião. 3. Quando estiver trabalhando, feche todas as abas da internet que não sejam necessárias. Segundo o estudo “Digital en 2019” da We Are Social em colaboração com a Hootsuite, na Espanha as pessoas passam em média 5,18 horas diárias conectadas à internet por meio dos diferentes dispositivos, incluindo os canais de TV paga. Nós nos convencemos de que, se não estamos nas redes sociais, não somos ninguém. O pensador e autor de best-sellers Yuval Noah Harari não tem smartphone nem redes sociais, com a exceção do Twitter, onde está apenas desde janeiro de 2017. Ele diz que isso o atrapalha a entender a história da humanidade. Em uma entrevista para o El País, ele disse: “O novo símbolo de status é a proteção contra os ladrões que querem captar e reter nossa atenção. Não ter um smartphone é um símbolo de status. Muitos poderosos não têm.” Se você não tem essa força de vontade, utilize a própria tecnologia para evitar as distrações digitais. Há limitadores de páginas da web ou timers que lhe permitem �car desconectado pelas horas que precisar. Como acontece tantas vezes, tudo é questão de equilíbrio. UM POUCO DE SÍNTESE Os ladrões cotidianos acabam esvaziando nossa despensa de tempo sem que percebamos. É possível viver perfeitamente consultando o e-mail três vezes por dia. A maioria das reuniões é uma grande perda de tempo. Dar limite às distrações nos permite ganhar uma quantidade de tempo e qualidade de atenção. O INIMIGO EM CASA COMO ELIMINAR NOSSAS PRÓPRIAS INTERFERÊNCIAS Às vezes, nós mesmos nos convertemos em nosso maior ladrão. Acontece que frequentemente não temos consciência disso. Somos muito críticos com as pessoas que nos fazem perder tempo, talvez nos enchendo de bobagens sem importância, mas ao mesmo tempo somos surdos ao nosso próprio barulho, ao ruído de fundo que contamina e empobrece nossa vida. Vamos dedicar este capítulo ao exército de distrações que vêm “de dentro”, mas que têm um efeito tão devastador em nossos minutos, horas e dias e sobre a qualidade de nossa atenção quanto os ladrões dos quais falava Napoleão. AS RECLAMAÇÕES Minha avó costumava me dizer: “Você vai �car irritada a vida inteira? Não? Então não perca tempo e comece a funcionar.” Você com certeza conhece pessoas que passaram 15 ou vinte anos reclamando da mesma coisa e nunca �zeram nada para mudar isso. O resultado é entediante e cansativo, por isso estou segura de que você não quer se converter em uma delas. Isso ocorre quando inventamos desculpas porque não nos atrevemos a perseguir as coisas que realmente nos importam, quando nos convertemos em vítimas que se afastam progressivamente daquilo que desejamos. Algo parecido ocorre com as reclamações. Elas não apenas nos roubam um tempo precioso — você se surpreenderia ao saber quantas horas gastamos por dia reclamando do que não é como achamos que deveria ser em vez de procurar soluções para mudar isso —, mas também geram um desgaste energético que afeta o resto do nosso tempo útil. Um bom exercício para evitar isso é mudar sua forma de falar, e não apenas quando faz isso em voz alta, mas também quando fala com você mesmo no interior de sua cabeça. Eckart Tolle, autor de O poder do agora, nos adverte que quando vemos uma pessoa falando sozinha em voz alta pela rua achamos que ela está louca, entretanto, não nos damos conta de que nossa voz interior está o tempo inteiro falando sozinha. Andamos com o rádio ligado e, além disso, muitas vezes nos dedicamos a reclamar de tudo e de todos. O PERFECCIONISMO Voltaire dizia que “o perfeito é inimigo do bom”, e sem dúvida há pessoas que, por aspirarem demais a excelência, acabam não fazendo nada. Ou amargam sua vida de forma desnecessária. Em meus tempos de estudante, sempre que voltava para casa depois de ter feito uma prova e meus irmãos me perguntavam como eu tinha me saído, eu sempre dizia que tinha ido muito mal. Eles riam e diziam: “Ai, coitada dessa menina infeliz”, porque sabiam que, no �m, eu sempre tirava notas muito boas. O pior de tudo é que eu realmente achava que tinha ido mal, porque tudo aquilo que não estava perfeito me parecia um desastre. Com o tempo, as coisas não �caram muito melhores. Aos trinta anos me inscrevi em um curso de costura. Quando já tínhamos aprendido a costurar botões e bainhas, a professora me passou para o estágio seguinte: fazer uma sacola para pão ou para compras, uma saia… Eu levei um tecido que tinha comprado em uma viagem à Índia com a ideia de fazer uma toalha de mesa e comeceia trabalhar na máquina. Não era muito difícil, mas estava longe de ser perfeito; assim, para evitar o mal-estar, levei-o a uma costureira para que ela a terminasse para mim antes que eu voltasse à aula na semana seguinte. Naquele dia percebi quanto tempo havia perdido em minha vida procurando uma perfeição que, diga-se de passagem, não existe. E decidi que tinha que resolver isso. Dedicar quatro horas para terminar uma apresentação rotineira de PowerPoint porque não encontra a combinação de cores perfeita não faz de você um trabalhador melhor. Isso não é e�caz nem e�ciente, e re�ete uma péssima gestão de seu tempo. Não releia pela quarta vez esse e-mail que você redigiu, aperte o botão de enviar antes que as alterações mínimas que você vai introduzindo façam com que ele perca todo o frescor. Não prolongue a tarefa, nem a adie, �cando obcecado com detalhes que não importam nem em longo nem em curto prazos. Até no caso daquelas tarefas de extrema importância, temos de estabelecer limites e lembrar que é melhor terminá-las bem e a tempo do que perfeitas (uma coisa impossível) e fora do prazo. Aqui há algumas perguntas que você pode fazer sempre que se encontrar em uma situação de grande exigência pessoal: Até que ponto isto é prioridade para mim? Levando em conta meus objetivos, que diferença há entre fazer isto em um nível alto ou de acordo com o mínimo exigido? Quanto tempo tenho para isto? A INDECISÃO Segundo um estudo publicado na Harvard Business Review, uma pessoa toma em média duas mil decisões a cada hora em que está acordada. Isso, junto com a grande quantidade de informação que temos disponível, faz com que muitas vezes dediquemos um tempo excessivo a tomar decisões. E o que é pior: na maioria das vezes, sem muita relevância. Que vinho eu peço neste restaurante, que acessórios vou usar esta manhã… Essas pequenas decisões nos estressam e consomem energia e tempo que poderíamos dedicar a questões mais relevantes. Barry Schwartz, autor do livro O paradoxo da escolha, declara: “Estamos levando em consideração muito mais opções do que precisamos e do que são úteis em muitos aspectos de nossa vida. Nós que somos privilegiados vivemos em um mundo em que estamos escolhendo entre opções muito boas. Não vale a pena se esforçar para discernir entre uma coisa muito boa e outra coisa muito muito boa, mesmo quando o assunto não é trivial.” O primeiro passo para deixar de ser um indeciso é aceitar que você nunca poderá dispor de toda a informação. Steve Jobs disse isso em seu famoso discurso para a cerimônia de formatura de Stanford: “Só é possível ligar todos os pontos quando você faz isso em retrospectiva. Você precisa ter fé e con�ar em seu coração.” Faça como ele: pense no ponto seguinte e, quando chegar a ele, você já vai pensar no próximo. Dê a si mesmo um tempo máximo para tomar as decisões e �que atento a ele. NO RIO DA MUDANÇA Joe Dispenza, autor de livros como Você é o placebo: o poder de curar a si mesmo, explicou em uma palestra que quando você atravessa o rio da mudança surgem dois perigos: . O . As pessoas à nossa volta estão acostumadas que sejamos de determinada forma, e ver em nós uma transformação cria inquietude. É comum que projetem em nós suas dúvidas e medos. Quando estiver nadando até a outra margem, pode ser que gritem: “Aonde vai você, seu louco? Volte!” O conselho de Dispenza é: Não dê ouvidos aos outros quando você já decidiu mudar. . S . O mesmo autor adverte que mudar é tão incômodo quanto atravessar um rio de água gélida. Depois de se jogar na água, talvez quando estiver na metade do rio, você pense: “Como está fria!”, e volte à sua zona de conforto. Por isso, o segundo conselho de Dispenza é: Não escute seus medos quando você já decidiu mudar. Na verdade, não �que pelo caminho quando tentar alcançar a outra margem. Continue nadando e, quando chegar ao outro lado, você analisará se o esforço valeu a pena. Se você se permite deter pelo “que vão dizer” ou por suas próprias dúvidas, corre o risco de não fazer nada por sua vida. Como dizia o �lósofo britânico Alan Watts: “A palavra água não molha.” É preciso mergulhar na piscina. À Só podemos saber o resultado de muitas coisas depois de terminá-las. Às vezes, só veremos os verdadeiros frutos tempos depois de tê-las concluído. Considerando que na vida avançamos por experimentação e erro, é melhor terminar cada ensaio e, se as coisas não saírem como pensávamos, já vamos conhecer um caminho que não devemos pegar. O MULTITASKING É NA VERDADE ZAPEAR Fazer muitas coisas ao mesmo tempo se transformou em uma síndrome que nos causa esgotamento. Além disso, tem como efeito uma baixa qualidade da atenção e, em consequência, resultados pobres em tudo o que fazemos. Todos já nos vimos assim mais de uma vez: respondendo a mensagens por telefone enquanto elaboramos um relatório e estamos de olho na cozinha ou no cuidado de uma criança. O multitasking é muitas vezes o resultado de má organização, que pode ter várias causas: Não ter feito no momento certo coisas que agora se juntam com outras tarefas. O vício por controlar tudo em tempo real, em especial as mensagens, e- mails e redes sociais. Funcionar no modo “piloto automático”, o que nos leva a fazer certas coisas por inércia junto com a tarefa principal. Embora pareça que estamos ganhando tempo, a realidade é muito diferente. Em seu livro Ágilmente [Agilmente, em tradução livre], o biólogo Estanislao Bachrach a�rma: “Estima-se que essas pessoas demorem o dobro do tempo para fazer essas tarefas e cometam o dobro de erros em cada uma delas.” ATENÇÃO RESIDUAL Segundo as pesquisas feitas pela professora Sophie Leroy, da Universidade de Minnesota, quando pulamos de uma tarefa para outra, os pensamentos persistem e se misturam, produzindo o que se conhece como atenção residual. Quando você deixa por um momento o que está fazendo para consultar seus e-mails, ler as mensagens no celular, atender ao telefone ou ter uma conversa, sua atenção permanece nessa tarefa inclusive depois de passar à seguinte. A mente �ca presa. O conceito de atenção residual explica por que o hábito tão frequente de trabalhar em um estado de semidistração é potencialmente devastador para seu desempenho. Pode parecer inofensivo dar uma olhada na caixa de entrada a cada dez minutos mais ou menos, mas a olhada rápida introduz um novo objetivo para nossa atenção. Pior ainda: ao ver mensagens que não podemos responder imediatamente (o que acontece quase sempre), retomamos a primeira tarefa com o peso de uma tarefa secundária que deixamos sem terminar. O certo é que, além de gerar maus resultados e ser, paradoxalmente, uma perda de tempo, o multitasking é um grande gatilho do estresse e da ansiedade. Nós nos sentimos saturados, contudo o mais curioso é que na verdade não estamos fazendo várias coisas simultaneamente. Se nos observássemos por meio de uma �lmagem, perceberíamos que na verdade estamos zapeando. Estamos escrevendo este relatório quando o celular toca. Nossa atenção sai do documento para entrar no chat de WhatsApp ou no e-mail. Em seguida volta ao que estávamos fazendo antes. Nesse momento, percebemos que a água que botamos para ferver está pronta. A atenção volta a sair do documento e vamos até a cozinha. Enchemos a xícara de água quente, com o saquinho de chá dentro, mas nesse momento o celular vibra. Atendemos ao que está chegando. Quando volto novamente a atenção para o chá, talvez tenham se passado mais de três minutos e ele esteja amargo demais. Será preciso fazê-lo outra vez. O que percebemos como simultaneidade na verdade é uma mudança constante de canal entre várias atividades que acabamos fazendo tarde e mal, além de ser esgotador, porque precisamos investir muita energia para entrar de novo em uma atividade complexa. DESAFIO FINAL Se ainda duvida do que estou dizendo, experimente fazer o seguinte exercício elaborado pela empresa Potential Project, especializada em efetividade corporativa a partir de mindfulness: Pegue umpapel e uma caneta e escreva o seguinte em duas linhas, uma embaixo da outra, cronometrando o tempo que leva para fazer isto: Posso fazer duas coisas ao mesmo tempo 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 Dependendo de sua rapidez para escrever, você vai demorar de 25 a trinta segundos. Agora, volte a escrever a mesma coisa, mas alternando cada letra com um dos números (como você verá, há a mesma quantidade dos dois). Ou seja, escreva o P na primeira linha e, na debaixo, o um; em seguida o O e, abaixo, o dois; o S e embaixo o três e assim sucessivamente. Cronometre o tempo que leva para fazer isso e verá o que acontece: o dobro do tempo, possíveis erros e uma carga mental que lhe pedirá um descanso. UM POUCO DE SÍNTESE A mente pode ser uma fonte de intermitências incômodas quando nos entregamos às reclamações ou à negatividade. O perfeccionismo e a indecisão podem acabar nos deixando paralisados. É preciso mergulhar na piscina. O multitasking não existe: trata-se, na verdade, de uma mudança de canal constante e esgotadora. DO FOMO AO JOMO VIVA SUA PRÓPRIA VIDA Para construir uma vida mais próspera, serena e criativa, é preciso prestar atenção a cada minuto e dedicá-lo àquelas coisas que nos aproximam de nossas metas ou propósitos vitais. O TM consiste em estar 100% presente no momento em que vivemos, em vez de estar sempre com a língua de fora atrás do relógio ou de ter a mente em qualquer outro lugar menos no que estamos fazendo. O problema é que, às vezes, é muito difícil estar presente no momento devido a uma patologia nova chamada FOMO que se alastrou como uma pandemia. O medo de perdermos algo (em inglês Fear Of Missing Out, de onde vem o acrônimo) faz com que estejamos sempre conectados e dependentes de mundos virtuais que não nos acrescentam em nada; muito pelo contrário, eles nos arrancam de onde estamos e enchem nossos valiosos minutos de lixo e ansiedade. É possível dizer que acontece conosco o mesmo que acontecia com Santa Teresa de Jesus quando exclamava: “Vivo sem viver em mim.” Chegou o momento de ter uma epifania como essa e voltar a nos concentrarmos em nossa própria vida. RESPEITE OS SINAIS Vamos calcular valor e comprovar se estamos ou não infectados pelo vírus do FOMO, o que acha? Começaremos pelas seguintes perguntas: Interrompo meu trabalho quase sem exceção para responder a ligações, e- mails ou mensagens? Aceito qualquer solicitação de amizade virtual, já que o importante é ter uma rede cada vez maior, para não perder uma oportunidade? Vejo as redes sociais enquanto estou em uma reunião, seja de trabalho ou com amigos, ou em um compromisso, como se lá fora estivessem acontecendo coisas mais interessantes? Vejo-as até mesmo enquanto dirijo, para não perder a mudança de status de alguém? Vejo-as a cada poucos minutos, independentemente do que esteja acontecendo? Se a resposta para duas ou mais delas é sim, padecemos de um vício que pode provocar outros transtornos psicológicos. Imagine um sábado qualquer. Você �ca em casa encolhido no sofá, vendo um �lme ou lendo um livro. Tudo vai bem até que você começa a pensar no que o resto de seus contatos está fazendo nesse momento. E estou me referindo a todo o resto: sua galera, sua família, seus colegas de trabalho, seus amigos (para chamá-los de alguma coisa) das redes sociais… e assim vai até chegar à população inteira do planeta. Você entra em qualquer dessas redes, para não perder alguma coisa, e percebe que todos estão se divertindo muito. Em festas, casamentos, jantares, festivais de música, praias ao anoitecer… E o pior de tudo é que você não tem nem vontade de fazer isso. Você não gosta de DJs e já foi a mais casamentos do que qualquer mortal poderia aguentar em uma dezena de vidas, mas se angustia porque se sente “menos”. Você pensa: estou perdendo um milhão de coisas, não tenho tempo para nada, estou desperdiçando minha vida. E o pior de tudo é que, na verdade, é isso mesmo: em vez de aproveitar seus preciosos minutos de descanso, de leitura ou de uma conversa tranquila com seu parceiro, ou de qualquer coisa que tenha decidido fazer, você se concentra nas bobagens dos outros e em tudo aquilo que está deixando de fazer. E o ciclo começa de novo. Para se sentir conectado de alguma forma a essa comunidade virtual, você se obriga a não perder os últimos trending topics, a comentar todas as publicações dos outros com uma criatividade que até Billy Crystal gostaria de ter, a enfrentar esse desa�o absurdo em que está todo mundo. Como costuma se dizer, a comparação é a ladra da alegria. Pensamos: “A vida dos outros é muito mais interessante que a minha.” E não vivemos nem uma nem outra. FOBO O FOMO tem um primo-irmão chamado FOBO (Fear Of Better Options), o medo de perdermos opções melhores, o que complica ainda mais as coisas. Imagine que você está com o controle remoto da TV na mão. Você tem um máximo de duas horas para ver um �lme de sua plataforma, já que a partir deste momento você estará roubando tempo de sono e no dia seguinte será menos produtivo. Você começa a passar pelos programas. Depois de quarenta minutos ainda não se decidiu e acaba vendo algo que não o convence, �cando entediado e terminando tarde. O psicólogo Barry Schwartz, que já citamos no capítulo intitulado “O inimigo em casa” para falar de indecisão, distingue quatro efeitos do excesso de opções: P. Devido às alternativas quase in�nitas do mundo globalizado, você acaba adiando a decisão por não saber o que escolher. C . Independentemente do que escolher, você não consegue tirar da cabeça a opção que não escolheu. E . O leque de possibilidades gera expectativas tão altas que sua experiência acaba parecendo decepcionante. C. Você se sente incomodado com a ideia de que poderia ter pensado mais e escolhido melhor. O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA TELA Jon Kabat-Zinn, pioneiro do mindfulness no ocidente, comenta: “A autodistração atingiu proporções epidêmicas, e o problema não é o iPhone em si, é o pensamento de ‘Será que alguém me enviou uma mensagem de texto’.” Eu proponho a você o seguinte exercício. Na próxima vez que ouvir uma noti�cação (se você ainda não se convenceu de silenciá-las) ou vir um aviso em qualquer ícone de seu celular, não comece a ler imediatamente. Espere, respire fundo e observe seus pensamentos. Para entender suas emoções e motivações, você pode começar por se propor o seguinte, segundo a situação em que se encontre: Se você acha que a noti�cação é de trabalho e já saiu do escritório ou já anoiteceu, pergunte a si mesmo: que sentido faz ler isso agora? Eu na verdade sou um trabalhador melhor por estar permanentemente conectado? Que expectativas estou gerando em meus clientes e em meu ambiente de trabalho? Pessoalmente, tenho a inclinação de achar que se você responder a essa mensagem você só ganhará inquietude, pela sensação de estar trabalhando 24 horas, e com problemas de descanso. Se sua reação é “Talvez tenham me marcado em uma foto ou eu tenha recebido um like ou um comentário em minha publicação”, pergunte o que signi�ca para você que as pessoas — às vezes anônimas ou desconhecidas — demonstrem reconhecimento. Quando isso não acontece, você se sente frustrado ou isolado? Se o que pensa é “Quem será a pessoa que me mandou a mensagem?”, pode perguntar a si mesmo: sou mais generoso ou um amigo melhor por estar virtualmente disponível 24 horas e responder a qualquer noti�cação nos trinta segundos seguintes? Ao mesmo tempo, avalie quanto tempo você passa de verdade com esse amigo ou com as outras pessoas que realmente importam, e há quanto tempo vocês não �cam cara a cara para compartilhar suas coisas com verdadeira intimidade. E uma última advertência: se o alarme não tocou nem se acendeu o ícone de noti�cação e você �ca mal porque está sentindo um vazio… a coisa é séria. Você pode começar por propor a si mesmo um detox de 12 horas ou mesmo se impor o Tech Shabbat que entrou na moda com a cineasta Tiffany Shlain.Ele consiste de tirar um descanso de qualquer tela durante 24 horas desde a sexta- feira à tarde, como uma adaptação digital da tradição de descanso judaica. O CÍRCULO Para complementar nosso processo de desintoxicação das redes, podemos ler o excelente romance O círculo, de Dave Eggers, que teve uma adaptação para o cinema pouco recomendável. Ele conta as aventuras da jovem Mae Holland, que é contratada pela empresa de internet mais poderosa do mundo. Entusiasmada pela modernidade dos escritórios e pelos entretenimentos que a companhia oferece — inspirados no Googleplex — sua vida fora do trabalho vai deixando de existir, assim como sua própria intimidade, já que o Círculo força seus empregados a fazer de suas vidas privadas um espetáculo público. Se depois de ler o romance você quiser parabenizar seu autor, terá de fazer isso por carta, já que ele não tem redes sociais nem endereço de e-mail público. A SALVAÇÃO PELO JOMO Por sorte, há outro membro da família que pode nos ajudar a acabar com essa angústia que, no mínimo, nos dá uma sensação eterna de escassez de tempo. Trata-se do JOMO (Joy Of Missing Out), um movimento que prega o prazer de perder as coisas. Uma das primeiras pessoas a cunhar esse termo foi Christina Crook, autora do livro e Joy of Missing Out. A ideia surgiu depois de ver um documentário no qual um padre abençoava… smartphones! Nesse momento ela decidiu fazer jejum virtual por um mês. “Eu estava cansada que o Facebook intermediasse minhas relações e insatisfeita com minha compulsão de checá-lo constantemente”, explica ela. “Eu sabia que a internet estava fazendo com que me desconectasse emocionalmente de mim mesma e de meus entes queridos.” O norte-americano médio passa mais de duas horas por dia nas redes sociais, o que resulta em uns cinco anos e meio durante uma vida. “O que eu poderia estar fazendo com esse tempo?”, perguntou-se Christina. “Para quem é? Isso se alinha com meus valores?” Durante seu jejum, ela descobriu uma quantidade enorme de tempo que achava não ter. Isso gerou paz mental e uma criatividade que estava adormecida e que, logo, permitiu a ela encontrar as soluções mais diversas sem a ajuda do Google. MANIFESTO JOMO Após três anos de debates na comunidade JOMO, formada por pessoas de todo o mundo, foi publicado este manifesto que nos mostra como nossos dias são cheios de possibilidades quando vivemos nossa própria vida sem sermos condicionados pelo que faz o resto das pessoas. SOMOS AQUELES QUE… – Construímos comunidades nas quais nos conhecemos por nossos nomes. – Passamos bem nosso tempo, vivendo cada hora de cada dia. – Nós nos amamos, abraçando igualmente nossos pontos fortes e fracos. – Vivemos hoje, saboreando nossas experiências. – Estamos agradecidos pelo que temos, não desperdiçamos tempo pensando naquilo de que não precisamos. – Abraçamos nossa humanidade, preferimos sentir dor do que não sentir nada. – Conhecemos as verdadeiras riquezas, valorizando a conexão humana acima de tudo. – Somos corajosos, escolhemos a aventura em vez do arrependimento. – Somos generosos, damos a nossos entes queridos todo nosso coração e nossa atenção. – Desfrutamos e escolhemos o amor em vez do medo. Superando o medo de perdermos alguma coisa, com o JOMO não apenas liberamos tempo. Saímos da roda exaustiva de estar sempre conectados, com a mente fora de nós mesmos, e voltamos a estar presentes em nosso momento e lugar, vivendo tudo o que fazemos com plenitude e com todas as suas nuances. EVENTOS PARA FRACASSADOS No �m, por trás dos �ltros do Instagram que nos mostram in�nitas vidas maravilhosas cheias de opções igualmente maravilhosas, se esconde uma realidade diferente. Todos temos dias bons e outros não tão bons; e é normal gostar de compartilhar os mais felizes. Mas a vida é um mapa de picos e vales. Cada ação que fazemos pode terminar em sucesso ou fracasso, e já ouvimos muitas vezes (porque é verdade) que nenhum dos casos é uma perda de tempo. O importante é como reagimos diante dos acontecimentos para aprender a viver melhor e evoluir como seres humanos. Gosto da história da noite em que omas Edison viu que seu laboratório estava em chamas. Em vez de levar as mãos à cabeça e se lamentar, disse a seu �lho com entusiasmo: “Vá buscar sua mãe e todos os nossos amigos, nunca voltaremos a ver um incêndio como esse.” E completou: “Acabamos de nos desfazer de um monte de lixo, e não sou tão velho assim para não poder começar de novo.” Depois de um mês, seus empregados faziam jornada dupla e produziam os produtos novos e revolucionários nos quais ele havia pensado durante o tempo em que teve a fábrica parada. Se para você é difícil reagir como Edison, pode entrar em contato com o Instituto do Fracasso. Seus fundadores pensaram que em nossa sociedade faltava um lugar onde compartilhar livre e abertamente histórias de desengano e frustração, sem vergonha nem sentimentos de culpa, e organizaram um evento chamado Fuck Up Night…, que foi realizado em mais de trezentas cidades de 86 países, com a participação de cerca de duzentas mil pessoas. Atribui-se a Woody Allen a equação “Tragédia + Tempo = Comédia”. É bom levar isso em conta para converter esse tempo de infortúnio em uma alavanca, em um interruptor com o qual voltar a acender novas lâmpadas e invenções, como o grande Edison. UM POUCO DE SÍNTESE O “medo de perder alguma coisa” nas redes é uma fonte de estresse constante que não nos permite aproveitar o agora. Se achar que a vida dos outros é mais interessante que a sua, não viverá nem uma nem outra. Você pode fazer um saudável “detox digital” se obrigando a se desconectar das redes 24 horas por semana. Como reação contra o FOMO (o medo de perder coisas) surgiu o JOMO (o prazer de perder coisas) para recuperar o pulso natural da vida. Tragédia + Tempo = Comédia. O FIM DA PROCRASTINAÇÃO O MELHOR DA VIDA NÃO SE PODE ADIAR Todos procrastinamos em maior ou menor medida, já que entre nossos planos e nossas realizações se ergue um muro de tempo que pode ser muito variável. Há pessoas que executam seus planos com precisão militar, permitindo adiamentos apenas por motivo de força maior, enquanto outras parecem ter como principal atividade reprogramar tudo, em um amanhã que se renova todo dia sem nunca chegar a ser hoje. É preconceito pensar que só procrastinam os losers, as pessoas que não fazem nada de valor, como veremos mais à frente. Na verdade, essa má gestão do tempo tem uma longa tradição humana. Na Grécia Antiga existia um conceito desenvolvido por Sócrates e Aristóteles para de�nir algo parecido: Akrasia. O que pode ser de�nido como “agir contra o que seria melhor para nós mesmos”, ou seja, não fazer nada apesar de saber que não nos convém. Um dos maiores gênios italianos do Renascimento, Leonardo da Vinci, era um procrastinador incorrigível. Levou mais de 15 anos para fazer a Mona Lisa! Por preguiça ou por um preciosismo doentio, sua obra mais conhecida foi pintada entre 1503 e 1519. Parece um lapso de tempo enorme para uma obra de formato pequeno, como sabem todos os que a viram no Museu do Louvre, mas o que nós �zemos nos últimos 16 anos? O MÉTODO RADICAL DE VICTOR HUGO Um artista da escrita, três séculos depois, padecia do mesmo problema que Leonardo, mas não dispunha de mecenas que pagassem seus gastos. Se não terminava seus romances, não ganhava, e isso lhe trazia problemas enormes. A crise de�nitiva chegou quando assinou um contrato para escrever Nossa Senhora de Paris, conhecida como O corcunda de Notre Dame. Os meses iam se passando e ele não conseguia engrenar. Um ano depois do prazo de entrega, no outono de 1830, o editor lhe deu um ultimato: ou entregava o romance no mês de fevereiro seguinte, ou ele ia denunciá-lo por quebra de contrato. Distraído — e procrastinador — por natureza, Victor Hugo teve uma ideia radical para conseguir essa proeza. Ele pediu que levassem toda a roupa de sua casa, �cando apenas com uma túnica cinza ridícula que cobria seu corpo até os pés. Daquela forma era impossível que ele pudessedescer para seus habituais cafés de Paris, e só lhe restava �car em casa, enquanto seus amigos lhe levavam comida e alguns itens indispensáveis. Antes de se trancar, ele comprou um vidro de tinta e começou a produzir depressa. Em menos de seis meses ele conseguiu terminar e entregar o romance que acabaria por consagrá-lo, já que foi um sucesso internacional. Essa história contra a procrastinação me faz pensar em um caso curioso que me contaram Katinka e Marcel, um casal de amigos de Barcelona. Seu cachorro bodeguero chamado Lucas tem o costume de esconder à noite todos os seus sapatos, convencido de que assim eles não vão sair de casa, coisa da qual ele não gosta nada. Talvez não cheguemos aos extremos de Victor Hugo ou do cachorrinho Lucas, mas seu método radical é totalmente aplicável à vida cotidiana se nos �zermos a pergunta: o que devo deixar de fazer para conseguir realizar o que quero? Antes de passar para a prática, vejamos por que esse mau hábito é tão comum. INCOERÊNCIA TEMPORAL Os estudos sobre conduta falam de uma “incoerência temporal” que afeta exclusivamente os humanos. Vivemos ao mesmo tempo no presente e no futuro, já que nossa mente está sempre conectada com o que vamos viver ou fazer em alguns dias, semanas ou anos. Mas então o que é a incoerência temporal? Basicamente, ela acontece quando nossa visão de longo prazo é superada pela grati�cação imediata, situada no presente, e optamos por essa recompensa imediata no lugar daquilo que nos bene�ciaria mais tarde. Vivemos ao mesmo tempo com o “eu presente” e o “eu futuro”. E o eu futuro tem um problema: ele não pode fazer nenhuma ação, só determinar objetivos. Para agir, só temos o eu presente, e quando o cérebro prefere a grati�cação imediata em vez de algo menos agradável, mas que teria benefícios em longo prazo, apesar de saber que estes seriam muito maiores, a procrastinação é disparada. Como o “eu presente” tende a ganhar o jogo do “eu futuro”, podemos imaginar uma vida saudável, com dinheiro e grandes progressos, mas acabamos comendo produtos de confeitaria industrializados no café da manhã, compramos objetos inúteis pela internet e não fazemos nada do que planejamos. O momento em que se passa da procrastinação para a ação costuma ser quando as coisas �cam feias, como com Hugo, e os mecanismos de alarme são ativados para conseguir os resultados. Até chegar esse ultimato de necessidade, eles podem ser dois velhos amigos irreconciliáveis. VOCÊ É PREGUIÇOSO, ESCORREGADIO OU OTIMISTA? Segundo a dra. Ellen Hendriksen, psicóloga da Universidade de Boston, os procrastinadores se dividem em três per�s básicos: P. Se esquivam de sua responsabilidade basicamente por preguiça, para evitar o esforço de enfrentá-la. Eles a postergam inde�nidamente na vã esperança de que ela desapareça de suas agendas por um passe de mágica, que seu entorno resolva alguma coisa por eles. E. São especialistas em evitar o trabalho ou a tomada de decisões mais pelo medo de fracassar ou de se equivocar que pela di�culdade dessa ação. Por isso eles adiam a tomada de decisões enquanto podem. O. Analisam a tarefa que têm de fazer e, con�ando em suas capacidades, consideram que não precisam de todo o tempo de que dispõem. Por isso deixam-na para o último momento. Preferem trabalhar sob pressão porque de forma inconsciente acreditam que assim multiplicam seu rendimento, embora tenham a consciência de que brincam com fogo. QUATRO PASSOS CONTRA A PROCRASTINAÇÃO O primeiro passo inevitável contra esse hábito tão disfuncional é aceitar que procrastinamos. Só se reconhecemos em nós mesmos esse padrão poderemos traçar um plano para desativá-lo. A mencionada dra. Ellen Hendriksen propõe quatro passos para ajudar todas as pessoas que desejem limitar sua procrastinação: Trocar o negativo “tenho de fazer” pelo mais motivacional “quero fazer”. Buscar a superação, não a perfeição. O perfeccionismo nos envia uma mensagem paralisante: Se não é perfeito, não serve. O que pode levar, sem que percebamos, ao desânimo. Procrastinar inicialmente alivia nosso ânimo, mas depois vêm uma sensação de culpa e mais estresse, por isso a terceira medida seria deixar de pensar em curto prazo e dar poder ao “eu futuro”. Banir as desculpas. O muito utilizado “É que…” leva a uma autoestrada para a procrastinação. E se pararmos de nos justi�car e enfrentarmos a tarefa? O MÉTODO IVY LEE James Clear propõe em Hábitos atômicos como antídoto contra a procrastinação incorporar a nossas tarefas recompensas posteriores. Ele nos lembra de que foi assim que se domesticou o lobo para transformá-lo no mais �el dos amigos… Toda vez que conseguimos completar um desa�o que nos produz agonia, devemos nos premiar com algo que nos traga satisfação. Não é preciso esperar para colher grandes êxitos. Completar duas horas de estudo ou remover alguns deveres de nossa planilha do Excel podem ter como prêmio um bom passeio, um prato especial ou qualquer outra coisa que nos entusiasme. Clear destaca que a grande batalha para deixar de procrastinar é lutada nos dois primeiros minutos, que é quando nossa mente oferece mais resistência. Superada essa prova, �uiremos com a tarefa que nos propusemos. Uma chave essencial é ter as prioridades diárias muito claras, e para isso vamos utilizar o chamado método Ivy Lee, em homenagem a esse homem falecido em 1934 e conhecido como o fundador das relações públicas. Esse método centenário, mas ainda válido contra a procrastinação, consta de cinco passos: Ao terminar cada dia de trabalho, escreva as seis coisas mais importantes que deve fazer no dia seguinte. Nunca mais de seis. Priorize esses seis elementos em tudo o que �zer durante o dia. Ao começar a manhã de trabalho, concentre-se na primeira tarefa, e não passe para a próxima antes de tê-la terminado. Faça o mesmo com o resto da lista. No �m do dia, passe todos os elementos inacabados para a nova lista do dia seguinte. Repita o processo em cada dia de trabalho. O PRÊMIO DE IVY LEE Esse método para não procrastinar tem mais de um século de vida e uma história curiosa. Em 1918, Charles M. Schwab era o presidente da Bethlehem Steel Corporation, maior estaleiro da América naquele momento. Foi esse magnata quem marcou uma reunião com Ivy Lee, que já era um conhecido consultor sobre produtividade. Em troca de otimizar o funcionamento de sua empresa, ele não pediu nenhum honorário, mas a promessa de que, se funcionasse, em três meses lhe enviaria um cheque com o valor que o próprio Schwab considerasse que havia agregado para a empresa. Assim, Lee compartilhou seu método com os executivos do magnata e, três meses depois, recebeu em seu escritório um cheque no valor de US$25 mil, cerca de US$400 mil dólares atuais. OS TRÊS PERSONAGENS DA PROCRASTINAÇÃO Tim Urban (um dos fundadores do conhecido blog Wait but Why) é um procrastinador confesso que falou sobre seu problema em uma conhecida palestra para as TED Talks na qual, com um toque de humor, explicava sua história. Ter de escrever um artigo em uma única noite e uma dissertação de noventa páginas dois dias antes da data-limite eram seus destaques de procrastinação, mas o mais interessante estava nos três personagens que regiam sua vida: o Macaco da Grati�cação Instantânea, que tira o controle do timão de seus dias do Criador da Decisão Racional, e só o larga quando entra em cena o Monstro do Pânico. Essa tríade de personagens ilustra com perfeição a dinâmica da procrastinação: embora todos os procrastinadores saibam que deviam prestar atenção a seu ser mais racional, que tem os olhos apontados para o amanhã, eles se deixam levar por essa força da satisfação momentânea até que chega o pânico e os obriga a agir. Mas o pânico tem um problema: ele não aparece se não há um prazo �nal marcado em vermelho no calendário. Quando a pessoa encara um grande projeto sem data �xa de término, da mesma forma que quando se propõe retomar um relacionamento com uma pessoa querida com a qual perdeu pouco a pouco o contato, é possível seperder no ponto morto em que está. A procrastinação crônica pode ser muito prejudicial ao longo da vida: não há data-limite, ninguém vai se incomodar se você não chegar a tempo, essa ligação pode esperar… até que um dia você descobre que já é tarde demais. Nada disso acontecerá conosco se vivermos com TM, assumindo o controle de nosso tempo para que os projetos não �quem na promessa. UM POUCO DE SÍNTESE Todo mundo tem algum nível de procrastinação, os gênios também. A pergunta-chave é: o que devo deixar de fazer para realizar o que quero? A grati�cação imediata é a grande inimiga dos planos em médio e longo prazos. Se eliminamos as desculpas, deixamos de adiar o que devíamos fazer. Estabelecer suas prioridades e respeitá-las acima de todas as coisas é o caminho do sucesso. A procrastinação crônica rouba o controle de sua vida; ela pode ser evitada fazendo o que é importante, mesmo que não haja prazos �nais. RESOLVER, DELEGAR OU ELIMINAR QUANTO MENOS LISTAS, MELHOR Embora tenhamos falado antes sobre listas, é preciso ser cuidadoso com esse recurso. Há quem morra deixando grandes listas de coisas por fazer, o que deu origem a vários romances. Em O próximo item da lista, publicado por Jill Smolinski em 2008, depois da morte de uma jovem, uma companheira de seu grupo de autoajuda descobre uma lista com “Vinte coisas que devo fazer antes dos 25 anos”. Decidida a tornar seus sonhos realidade como homenagem à falecida, a protagonista enfrentará provas como “correr cinco mil metros”, “mudar a vida de alguém” ou “beijar um desconhecido”. JÁ PODE LEVANTAR A ÂNCORA “Nos Estados unidos há uma verdadeira paixão popular pelas ‘coisas que uma pessoa devia fazer antes de morrer’. Nas listas publicadas em blogs ou mesmo em livros inspiradores há propostas emocionais como nadar com um gol�nho ou fazer amor na praia, junto com outras mais heterogêneas como pegar uma bola durante uma partida de futebol, tomar banho em uma cachoeira ou ir à Oktoberfest — a festa da cerveja — de Munique. “Entre o que os especialistas recomendam fazer antes de morrer está justamente ‘escrever uma lista com as dez coisas que desejamos fazer antes de morrer’. Eles garantem que ao botar no papel nossos desejos mais íntimos facilitamos que eles se realizem, porque a escrita tem mais força que um capricho que passa brevemente por nossa cabeça. “Escrever uma lista também nos permite descobrir desejos nos quais não havíamos pensado previamente. Além de dar a eles visibilidade, o papel nos ajuda a estabelecer uma data concreta de execução, o que signi�ca um passo a mais na direção do objetivo desejado. “Essa radiogra�a de nossas prioridades também é um convite a romper com a inércia e mobilizar nossas energias na direção da mudança. Outro norte-americano, Mark Twain, re�etiu sobre essa mesma questão já no século XIX: ‘Dentro de vinte anos você vai se arrepender mais das coisas que não fez do que das que chegou a fazer. Portanto, já pode levantar a âncora. Abandone esse porto. Encha as velas com o vento da mudança. Explore. Sonhe. Descubra.’” Silvia Adela Kohan Uma lista pode ser um bom exercício de projeção. Mas em geral é melhor experimentar as coisas do que anotá-las em uma lista, o que muitas vezes equivale a deixá-las pendentes. Na verdade, as pessoas com um alto nível de TM são inimigas das listas. Simplesmente fazem as coisas em seu momento e lugar. Em qualquer caso, o que em um romance inspirador nos parece poético, pode resultar em um martírio no dia a dia, tanto nas tarefas pessoais ou familiares quanto em nosso trabalho. Não é nada motivador ver como a lista no Excel vai aumentando quase até o in�nito. Contra essa praga, os especialistas em gestão do tempo recomendam resolver, delegar ou eliminar, como veremos no método seguinte. O MÉTODO DOS TRÊS DS Originalmente, eram quatro Ds, com base nas palavras em inglês Do, Delete (ou Drop, dependendo da versão), Defer e Delegate, que se identi�cariam com as diversas maneiras de enfrentar as tarefas que se apresentam à nossa frente diariamente. Entretanto, vamos eliminar o terceiro, já que o hábito de adiar leva com muita facilidade à procrastinação, ao que já dedicamos todo um capítulo. Portanto, toda vez que tenhamos alguma coisa para fazer, vamos tomar um destes três caminhos: D (). Para o que não pode ser adiado e que devemos fazer pessoalmente sem discussão. Aqui os especialistas recomendam incluir também a regra dos dois minutos de David Allen: fazer imediatamente todas as tarefas que levem um máximo de dois minutos. Anotar a tarefa em outro lugar já nos roubaria uma parte desse tempo, por isso… melhor fazê-la imediatamente. D (). O que não é imprescindível nem será útil deve ser eliminado diretamente, em vez de aumentar nossa lista. Às vezes pode ser uma decisão difícil, mas uma vez que nos acostumamos a suprimir aquilo que não é obrigatório — e-mails, tarefas que pertencem a outras pessoas, compromissos que não fazem sentido para nós — a vida �ca mais leve de forma surpreendente. Vamos mergulhar nessa ideia no próximo capítulo, dedicado a simpli�car sua agenda. D (). O que outras pessoas podem fazer sem que o resultado seja dramaticamente afetado deve ser delegado, já que vamos liberar tempo para fazer coisas mais importantes. As pessoas de sucesso são muito conscientes do valor de cada minuto e, por isso, estão acostumadas a dividir tarefas sem que seu orgulho �que ressentido. Lembre-se das famosas três perguntas de Harvard das quais falamos. Uma pessoa com TM não tem de tocar todos os instrumentos de uma orquestra, tem de ser seu maestro. A MATRIZ DE EISENHOWER Lembra dos quatro quadrantes sobre o tempo de Stephen Covey que estudamos no capítulo dedicado ao mapa de prioridades? Esse autor, que a�rmava que o importante na gestão do tempo é saber onde devemos botar nossa atenção em cada momento, se inspirou na chamada matriz de Eisenhower para criar seus quadrantes. Parece que o 34.º presidente norte-americano, comandante das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, tinha �xação pela boa gestão do tempo. Logo abaixo podemos ver sua recomendação para tratar de cada um dos quadrantes. Urgente Não urgente Importante Fazer Planejar Não importante Delegar Eliminar ou postergar No quadrante I estão as tarefas importantes e urgentes. É preciso muito cuidado para não o encher; não se trata de reunir tarefas, mas de fazê-las. Talvez haja tarefas ou compromissos que não devamos aceitar, porque as horas do dia são limitadas e há outras coisas essenciais que estão nos cobrando: são próprias do quadrante III e podemos delegá-las. Em relação ao quadrante II, referente às tarefas importantes e não urgentes, planejar não signi�ca adiar. Signi�ca que nós decidimos quando fazer essas tarefas, sem deixar que os outros estabeleçam nossas prioridades. Se reservamos o sábado para estar com os amigos ou a família, isso deve se converter no centro de nosso universo. É proibido cancelar o que é importante porque há algo que parece mais urgente. Não há nada mais urgente que viver. O MÉTODO ABCDE Vejamos agora um método parecido de gestão de tempo muito difundido nos países anglo-saxões: o ABCDE. Ele é um sistema para priorizar que inclui dois pontos a mais que o anterior, mas tem o mesmo objetivo: organizar o tempo de forma e�ciente determinando uma categoria para cada tarefa. Vamos começar fazendo uma lista com as tarefas pendentes (tanto no campo do trabalho quanto no pessoal) e, em seguida, ao seu lado vamos avaliá- las com uma letra: A . Seria tudo o que teria graves consequências se você não �zesse. B . Nessa categoria entraria tudo o que deveria ser feito, mas que não afeta se não o fazemos imediatamente. Portanto, pode ser feito em segundo lugar, dando prioridade ao A. C . Engloba todas as coisas que seria bom resolver, mas que não acontece nada se não forem feitas. Talvez com o passar do tempo nos demos conta de que não eram nada importantes,portanto, foi bom não fazê-las. D . Nem tudo se pode delegar, mas, como já vimos anteriormente, há muitas coisas que não precisamos fazer nós mesmos. Um mestre de TM será capaz de botar muitos Ds em sua vida. E . Já vimos também no método anterior. O que é irrelevante e pode ser apagado da lista sem nos afetar em nada deve desaparecer agora mesmo de nossa vida. O HOMEM QUE CONTAVA ESTRELAS Em sua maravilhosa fábula O pequeno príncipe, o herói de Saint-Exupéry viaja para um planeta onde um homem dedicou sua vida inteira a fazer a contabilidade das estrelas. Intrigado por essa atividade, o pequeno príncipe pergunta por que é tão importante contar as estrelas, algo que o homem nunca teve tempo de fazer. Então, responde irritadíssimo: “Há 54 anos que habito neste planeta e não fui perturbado mais que três vezes. A primeira vez foi há 22 anos, por um abelhão que caiu sabe Deus de onde. Ele fazia um ruído espantoso, e cometi quatro erros em uma soma. A segunda vez foi há 11 anos, por uma crise de reumatismo. Me faltam exercícios. Não tenho tempo de passear. Sou uma pessoa séria. A terceira vez… é esta!” Esse personagem de �cção encarna de forma maravilhosa o arquétipo do homem ocupado que, com uma péssima gestão do tempo, acha que tudo o que faz é igualmente importante. Está tão atarefado que perdeu a capacidade de pensar no que está realmente fazendo. A lição que podemos extrair dessa passagem de O pequeno príncipe é que, se você passa todos os dias contando estrelas, não terá tempo de captar seu brilho mágico nem sua distância misteriosa. Muito melhor que contar estrelas é poder se sentar para contemplá-las. UM POUCO DE SÍNTESE Preparar listas de coisas a fazer é uma forma de adiá-las. O mais importante que devíamos fazer “antes de morrer” é, simplesmente, VIVER. Fazer as coisas em sua hora e lugar é muito mais efetivo que anotá-las em uma lista. A chave do TM é saber o que nós mesmos devemos fazer e o que podemos delegar e eliminar. É melhor fazer agora tudo aquilo que pode ser feito em menos de dois minutos. Há mais valor em contemplar uma estrela com paz interior do que contabilizar milhares delas. VIVA SIMPLESMENTE MENOS É MAIS TEMPO Gandhi nos deixou muitas frases inspiradoras. Entre elas: “Viva simplesmente para que outros simplesmente vivam.” Ele também deixou entre seus poucos bens um relógio Ingersoll. Garantem que era a primeira coisa para qual ele olhava ao levantar às 4h, e a última coisa que consultava antes de dormir, às vezes depois da meia-noite. Uma jornada intensa na qual nem ele nem seus colaboradores se permitiam gastar um único minuto de forma desnecessária. Em uma de suas cartas, ele escreveu: “Quem faz menos do que pode é um ladrão.” Ele era extremamente pontual, coisa pouco habitual em um país cujos habitantes mostram uma atitude bastante relaxada em relação ao tempo. “Se você se preocupa com a eternidade, uns poucos minutos quase nunca são notados”, justi�ca-se o romancista R. K. Narayan, um clássico da literatura indiana em inglês. É que na �loso�a hindu o tempo não é linear, mas cíclico. Na verdade, as palavras em hindi para ontem e amanhã são muito parecidas. Mas se havia uma coisa que o libertador da índia tinha claro é que exprimir o tempo não signi�ca se deixar levar pela corrente de excesso e acumulação que se impõe no mundo. Por isso, seu conselho era: “viva simplesmente”, desfazendo-se do desnecessário e �cando com o essencial. Assim você criará espaço para mais serenidade e criatividade. Uma máxima valiosa que também podemos aplicar à gestão de nosso tempo. QUEM QUERO SER? É muito difícil tomar decisões adequadas a respeito da gestão de seu tempo se você não sabe aonde quer chegar. O mais provável é que você permaneça “ocupado” em atividades que não o aproximam de seus objetivos. Por isso, antes de mais nada você devia parar para re�etir sobre quem você quer ser e como quer viver. Essa visão pessoal vai permitir que você organize suas prioridades e tome decisões conscientes para não desperdiçar seu tempo com coisas desnecessárias. Uma vez feito isso, observe as atividades programadas em sua agenda. Identi�que as essenciais para você, as que vão levá-lo para esses objetivos ou vão gerar novas oportunidades para alcançá-los sempre de forma alinhada com seus valores. Pense bem, já que aqui está a chave da simpli�cação: eliminar todo o resto. O plano não é �car mais e�ciente para abarcar tudo, mas manter o essencial e tirar da agenda o que é acessório. Talvez pareça que você está deixando de lado algumas aspirações, mas sempre poderá retomá-las. Lembre- se das estações vitais das quais falamos no capítulo dedicado à arte de envelhecer bem. Primeiro, ative sua atenção e concentre-se nas que agora são verdadeiramente signi�cativas para você, as que vão levá-lo a gerar ganhos ou outro tipo de satisfação. Se trabalha para outra pessoa, assegure-se de conhecer bem os objetivos e critérios de priorização que pedem a você. Haverá tarefas não tão importantes que você precisará continuar fazendo. Simpli�que-as. Seja conciso e concreto em seus telefonemas, em e-mails, em suas reuniões e recados. Sem dúvida também haverá compromissos que enchem seu dia de complexidade. É possível que você nem se lembre de por que chegaram à sua agenda. Não os arraste por mais tempo. Decida conscientemente quais almoços de trabalho você quer preservar e quais não; que encontros semanais com determinadas pessoas consomem sua energia; que grupos de WhatsApp, rituais familiares e atividades você começou há algum tempo e não têm mais nada a ver com a pessoa que você é agora: nesse caso, dispense-os. VOLTAR AO SIMPLES Parece que a obsessão dos suíços com o tempo e a pontualidade vai além de fabricar relógios excelentes, pois penetra em outras esferas da tranquila vida nos cantões. Uma amiga que foi a um casamento em Genebra me contou estupefata como os discursos da cerimônia tratavam mais de tempo que de amor. O momento perfeito em que os noivos tinham se conhecido, os anos que iam dividir, como o casal evoluiria com o tempo… Aparentemente, o avô da noiva vivia tão convencido da exatidão de seu relógio que se negava a fazer os ajustes horários. A Suíça já tinha me conquistado devido à minha paixão por chocolate, mas minha admiração cresceu quando em 2011 foi fundada o APPP (Anti PowerPoint Party – Partido Anti-PowerPoint). Essa força política vê a si mesma como defensora de 250 milhões de pessoas em todo o mundo que, a cada mês, são obrigadas a assistir a apresentações entediantes de PowerPoint nada motivadoras em empresas, universidades ou outras instituições. Segundo suas estimativas, isso equivale a um custo para os suíços, com base no salário-hora de seu público, de 2,1 bilhões de coroas. Em troca, propõe outros formatos alternativos mais simples e efetivos, como um quadro com cavalete. Eu também sou partidária de voltar ao simples. Vamos concentrar nossos esforços no mais elementar para chegar ao mais profundo. UM LUGAR PARA CADA COISA Quase todos os dias perdemos alguns minutos procurando alguma coisa, desde as chaves até um documento que queríamos ler e não sabemos onde deixamos. No capítulo sobre por que o tempo é serenidade falamos da importância não só que a casa esteja limpa e organizada, mas que além disso o ambiente de trabalho permaneça desimpedido. Isso inclui seu escritório, sua mesa e seu computador. Manter a área de trabalho limpa de ícones facilita o trabalho e a clareza mental. E não se esqueça de repassar tudo ao �nal do dia. Que nada �que fora de seu lugar… mas não acumule pelo simples fato de que lhe restam muitos gigas de memória. Elimine tudo o que não seja imprescindível para seu trabalho. Falando de memória, a do ser humana é ine�ciente. Por isso, ajude-a mantendo sua mente desimpedida de coisas não essenciais aqui e agora. As tarefas pendentes devem ter seu lugar, e esse lugar não é seu cérebro. Escreva- as. Mas, como já recomendei, não as deixe em uma lista. Procure seu espaço — issoé, seu dia e hora — em sua agenda ou calendário. SISTEMATIZE AS TAREFAS QUE REPETE Se há tarefas importantes que você faz todos os dias, ou todas as semanas, de�na para elas um processo. Por exemplo, suas publicações na internet ou a elaboração de uma proposta para um cliente. Você pode fazer um diagrama de boxes ou uma checklist simples com as ações que tem de fazer para realizá-las. Fazendo isso, certamente você descobrirá algum passo que pode eliminar. Além disso, servirá como guia, e economizará esforço mental e erros básicos que às vezes cometemos ao fazer uma tarefa pela enésima vez. Outro benefício: se algum dia você puder delegar essa tarefa, terá um protocolo de�nido à perfeição. Embora em um primeiro momento isso pareça uma carga extra de trabalho, vai economizar muito tempo. SEPARE TEMPO PARA AS PEQUENAS COISAS Centenas de estudos sobre a felicidade concordam que os fatores que a promovem são os mais simples: saúde, relacionamentos, otimismo, generosidade e saber viver o momento presente. Os países do norte da Europa, que costumam estar no ranking dos mais felizes, são especialistas em desfrutar das coisas simples. O Hygge dinamarquês faz referência ao acolhedor, a saborear os pequenos detalhes cotidianos, a dizer não ao ritmo trepidante e parar para saborear o agora. Para os alemães, a Gemütlichkeit descreve uma atmosfera de tranquilidade ou comodidade na qual apreciamos o que temos a nosso alcance e nos sentimos bem com isso. Em um ambiente diametralmente oposto, executivos em postos de liderança, diretores, presidentes ou vice-presidentes de empresas dos Estados Unidos declararam na Harvard Business Review que encontrar tempo para as pequenas interações cotidianas com seus �lhos, como levá-los à escola ou ao médico ou nos passeios pela vizinhança, gerava os momentos que deixavam as melhores lembranças. Além disso, agir assim lhes permitia liderar em seguida sem se sentirem culpados no trabalho. ADMINISTRE SUAS EMOÇÕES Por que acumulamos ocupações? O que nos leva a encher nossa agenda com muitas coisas que não são em absoluto essenciais? Segundo Leo Babauta, autor do blog de sucesso Zen Habits, agimos assim por medo da incerteza. Fugimos do temor que a falta de certeza e controle sobre nossa vida gera em nós. Para evitar sentir decepção, medo e ansiedade, fugimos de algumas tarefas essenciais e mergulhamos em distrações que nos dão a sensação de voltar a tomar as rédeas. O que podemos fazer para evitar que isso aconteça? Em seu blog, Leo propõe quatro medidas para conviver com a incerteza: C . Quando perceber que está se distraindo, tome um pouco de distância e volte a ela. C- , , -. Trabalhe nela por no mínimo 15 minutos ininterruptos. T . Explore esse sentimento, observe as sensações em seu corpo. Aprenda a con�ar em si mesmo, em sua bondade, e a estar bem apesar de tudo. M . Se você trabalhar com esses hábitos, sua vida mudará para sempre. UM POUCO DE SÍNTESE Uma vida simples permite aproveitar muito melhor o tempo. Saber o que quer ser e como quer viver ajudará você a organizar melhor sua agenda para a frente. A chave da simplicidade consiste em eliminar tudo o que sobra. Manter nosso escritório em ordem — e também nosso computador — é outra forma de poupar tempo e energia. A gestão das emoções é básica para trabalhar de forma produtiva. BENEFÍCIOS DA VITAMINA “N” CADA “NÃO” DITO PARA O QUE VOCÊ NÃO QUER FAZER É UM “SIM” PARA SI MESMO É possível que mais de uma vez você tenha se sentido como o protagonista de Sim senhor, de Jim Carey, que passa a dizer sim para tudo depois de ir a um curioso seminário no qual lhe asseguram que para ser feliz e fazer as outras pessoas felizes é preciso aceitar tudo o que lhe pedem. Isso lhe colocará em inúmeras confusões e tornará sua vida muito mais difícil do que já era. Em outro �lme lançado meio século antes, o genial Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder, um funcionário de escritório acredita que obterá mais reconhecimento em sua empresa se disser sim para tudo o que seus superiores querem: basicamente que lhes empreste seu pequeno apartamento para poderem ir ali com a amante da vez. O personagem interpretado por Jack Lemmon se vê dormindo na rua enquanto um casado libertino leva à sua casa a mulher por quem está apaixonado, e não sairá de sua miséria moral até que se atreva a dizer não. Dois �lmes com dois enfoques diferentes: o executivo implacável que se obriga a dizer sim; o empregado submisso que precisa aprender a dizer não. Esse último é muito mais difícil para nós que o primeiro, que está pré- instalado em nossa forma de funcionar, por isso vamos trabalhar com o “não”, que pronunciado a tempo pode nos economizar uma quantidade enorme de horas. Literalmente, pode salvar nossa vida. POR QUE É TÃO DIFÍCIL DIZER “NÃO”? Hedwig Kellner responde a essa pergunta em A arte de dizer não, apontando os seguintes motivos que nos levam ao “sim” quando desejamos expressar o contrário: O desejo de nos sentirmos amados. Sermos viciados em agradecimento. O medo de perder a simpatia dos outros. A angústia diante de possíveis con�itos. Não ser capaz de enfrentar a pressão externa. Nossa própria insegurança. O grande problema tem origem no que entregamos em troca desse sim: nosso tempo. Daí vem a crença de que o “não” é mais fácil para as pessoas poderosas, que podem deixar passar oportunidades. Em uma interessante re�exão, James Clear a�rma: “Quando você diz não, está apenas negando uma opção; quando diz sim, está negando todas as outras opções.” Considerando que o tempo que nos é dado nesta vida é limitado, dizer “não” é a única maneira de se liberar para poder se concentrar naquilo pelo que você é apaixonado. O QUE SIGNIFICA DIZER “NÃO”? “As pessoas acreditam que a concentração implica dizer ‘sim’ para aquilo em que você precisa se concentrar. Mas isso não é o que realmente signi�ca. Signi�ca dizer ‘não’ para as outras cem ideias que existem. É preciso escolher com critério.” STEVE JOBS CHAVES DA ASSERTIVIDADE Dizer “não” sem se sentir mal é um grande sinal de assertividade. Essa palavra tão em voga ultimamente de�ne a capacidade de expressar nossos sentimentos e opiniões de modo compreensível para as outras pessoas, sem ofendê-las ou desmerecê-las. Ser assertivos nos permite interagir com as outras pessoas, afastados da evasão, da passividade ou da agressividade. A assertividade demonstrou ser bené�ca até para pessoas com vivências especialmente duras. Por essa razão, o Center for Integrated Healthcare (CIH), que promove a saúde mental dos veteranos de guerra dos Estados Unidos, dá algumas chaves para falar com um grau saudável de assertividade. Tenha dignidade e respeito por você mesmo. Diga não quando houver justi�cativa, sem se sentir culpado. Expresse seus sentimentos. Peça diretamente aquilo de que precisa. Aceite cometer erros. Se os veteranos de guerra, que sofreram o inimaginável em países distantes, são capazes de assumir esse tipo de conduta, não podemos também fazer o mesmo com uma vida mais simples? O PÊNDULO DA ASSERTIVIDADE Quando se começa a mudança para uma postura assertiva, depois de ter “engolido” e aturado todo tipo de ofensas e abusos, é possível que as sementes do rancor acabem fazendo brotar uma assertividade “mal calibrada”, usando um termo cunhado por especialistas, que também falam do “pêndulo da assertividade”. Depois de anos de passividade, a primeira reação costuma ser de certa violência, como a fera enjaulada que arremete contra tudo o que tem a sua frente quando são abertas as portas de sua prisão. O efeito contrário, de agressivo a passivo, também é contraproducente, mas menos vistoso: a primeira reação pode ser �car calado e não dizer mais nada, uma coisa tão negativa quanto parecer violento. Por isso devemos ser cuidadosos ao passar da inibição para uma postura ativa a �m de defender nossos direitos e nossotempo. Embora, a princípio, o pêndulo lançado de um lado vá para o outro, em pouco tempo ele vai se calibrar no centro. Como aprende o protagonista de Sim senhor, �lme que mencionamos no início deste capítulo, e que no circuito comercial da Espanha foi traduzido como Di que sí [Diga que sim, em tradução livre], trata-se de encontrar o equilíbrio certo. Não se trata de doar nosso tempo de forma indiscriminada, mas tampouco de erguer um muro entre nós e as outras pessoas. É É preciso começar traduzindo em unidades de tempo aquilo que nos propõem, para assim decidir se queremos dedicar essa porção de nossa vida a isso. Se a resposta for não, a assertividade nos ajudará exatamente a comunicar isso de forma que não seja ofensiva. NOSSO CORPO FALA Um grande especialista sobre o assunto na América Latina, o psicólogo Walter Riso, explica em seu ensaio Cuestión de dignidad: aprenda a decir no y gane autoestima siendo assertivo (Questão de dignidade: aprenda a dizer não e ganhe autoestima sendo assertivo) os pontos fundamentais para que essa virtude não se torne ofensiva para nosso interlocutor: Olhar nos olhos. Quando o olhar se desvia, costuma gerar descon�ança, o que é próprio das pessoas passivas. Contudo, o olhar deve ser tranquilo e relaxado. Um olhar �xo e ameaçador é próprio das pessoas agressivas. O volume da voz. As pessoas que baixam a voz não são assertivas e não mostram segurança, enquanto as assertivas conseguem uma boa comunicação com um volume de voz adequado. Fluidez verbal. A pessoa assertiva é segura e não pensará nas respostas por muito tempo, já que isso transmitiria descon�ança por falta de recursos comunicativos. A postura. Permanecer erguido e seguro é o contrário do que faz a pessoa que não é assertiva, que curva os ombros, transmitindo a sensação de que quer apenas não incomodar e desaparecer. O conteúdo verbal da mensagem. Além da linguagem não verbal, o que dizemos por meio das palavras deve ser claro, direto e respeitoso com as outras pessoas e com nossos próprios pensamentos. Esse último ponto talvez contenha a essência do que seria uma assertividade saudável sem nos enchermos de “vitamina N”, o que nos converteria em pessoas esquivas ou até mesmo intratáveis. É preciso encontrar um equilíbrio entre compartilhar e preservar nosso tempo, saber quando temos de nos doar e quando convém nos reservar. O TM seria o centro entre os dois extremos do pêndulo; encontrar a medida exata entre o que uma pessoa precisa para estar bem consigo mesma e com sua colaboração com o mundo. UM POUCO DE SÍNTESE É muito mais fácil dizer “sim” do que “não” por medo de perder pontos com as outras pessoas. Cada vez que dizemos “sim” para alguma coisa ou alguém, negamos todas as outras opções. Quando começamos a ser assertivos, depois de termos passado anos “engolindo” tudo, é possível ir ao outro extremo, mas com o tempo o pêndulo vai se equilibrar. Sempre que nos �zerem uma proposta, é importante “traduzi-la” em tempo, saber que porção de nossa vida isso custará. A linguagem do corpo é um suporte importante para a assertividade. A chave da realização está no equilíbrio entre o tempo que damos e o que reservamos para nós mesmos. A VERDADEIRA PRODUTIVIDADE VAMOS DAR FIM AOS FALSOS MITOS “Não basta estar ocupados, as formigas também estão. A pergunta é: em que estamos ocupados?” Essa frase do pensador norte-americano H. D. oreau tem um século e meio, o que demonstra que a produtividade não é uma obsessão nova. Somos precedidos por milhares de horas de estudos e de páginas publicadas sobre um tema que não terminamos de interiorizar. Continuamos en�leirando jornadas intermináveis de trabalho sem nos desconectar durante os breves períodos que passamos fora dele, o que nos afasta de uma vida equilibrada e, paradoxalmente, também da própria produtividade. A produtividade não tem nada a ver com esquentar a cadeira durante horas, o chamado “presentismo”. Também não signi�ca realizar as tarefas de forma mais rápida, sob pressão. Trata-se de realizar as tarefas adequadas, aquelas que aproximam você de suas metas, e liberar tempo para se dedicar aos propósitos não pro�ssionais que dão sentido a sua vida. As formigas não re�etem sobre essas coisas; mas nós, sim, temos de fazer isso, e depressa. AS HORAS DE TRABALHO NEM SEMPRE SOMAM Esse é o primeiro mito que precisamos destruir. Em meu livro Money Mindfulness já adiantei que, sem menosprezar a virtude do esforço, a inércia das horas extras — frequentemente não remuneradas — e a cultura presencial são duas manifestações da crença disfuncional de que nascemos para trabalhar, e não o contrário. Uma das razões por que a jornada de trabalho se reduziu para oito horas foi que as empresas observaram a relação inversa entre sobrecarga de trabalho e produtividade. No início do século XX, Henry Ford reduziu a jornada de trabalho, dobrou os salários, deu descanso a seus trabalhadores e, em dois anos, dobrou sua margem de lucro. Hoje em dia, na Suécia foi demonstrado que as enfermeiras que trabalham seis horas nos centros de repouso interagem 85% mais com os idosos que aquelas com jornadas de oito horas. Enquanto isso, os trabalhadores de países como o México ou a Rússia dedicam à empresa 40% mais de tempo que um alemão ou um holandês e não conseguem se aproximar dos níveis de competitividade desses últimos. Na Espanha, foi aprovada uma norma para o controle do horário dos trabalhadores, que costuma se estender fora do escritório. Ainda é cedo para saber se essa medida terá algum efeito para acabar com essas práticas, mas pelo menos foi dado o primeiro passo. Nossa consciência despertou para um novo paradigma: trabalhamos para viver, não o contrário. MENOS É MAIS A lei de Parkinson, formulada por Cyril Northcote Parkinson, explica que o trabalho se expande até encher o tempo disponível para que seja feito. Ao contrário disso, estabelecer limites nos ajuda a nos concentrar, a priorizar e a simpli�car, tornando-nos mais produtivos. Quando contamos com um tempo determinado, apreciamos isso de forma apropriada e o utilizamos para fazer o que é realmente importante e nos bene�ciará. Mais de um século depois dessa tese, Tim Ferriss, autor do best-seller internacional Trabalhe 4 horas por semana, se perguntava: é normal trabalhar quarenta horas por semana (se não mais) para conseguir uma aposentadoria merecida aos 65 (se não mais) e começar a viver a vida? Para criar um paradigma, ele propõe um protocolo que inclui a eliminação de determinadas tarefas, pois considera que nosso trabalho está cheio de “poucos vitais e muitos triviais”, e a falta de tempo é na verdade uma falta de prioridades que tem sua origem na comodidade, pois fazemos primeiro o que é mais simples. A SAÚDE É O PRIMEIRO Meu pai costumava dizer: não reclame do trabalho, que é saúde. Para ele, estar desocupado equivalia a doença… talvez porque quando chegava em casa eu e meus sete irmãos esperássemos por ele. Brincadeiras à parte, porque ele nos amava muito, meu pai pertencia a essa geração que nasceu na escassez e achava que era preciso trabalhar até não aguentar mais para ganhar a vida, como se a existência fosse algo que se precisa comprar com horas intermináveis de trabalho. Um estudo do University College London na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália publicado na revista médica Lancet em 2015 determinou que, quanto mais longa é a semana de trabalho, maior o risco de acidente vascular cerebral. As pessoas que trabalham entre 41 e 48 horas têm 10% mais risco do que aquelas que têm jornadas de 35 a quarenta horas, subindo para 33% para aquelas com semanas de 55 horas, que também têm maior possibilidade de sofrer uma doença coronária Certamente as horas dedicadas à empresa não são por si só as causadoras desses males, mas favorecem outros fatores de risco como por exemplo a falta de atividade física e o consumo exagerado de álcool. Além disso, como esses trabalhadores estão sempre com a cabeça em outro lugar (o oposto do TM), costumam ignorar os sinais de advertência,e com isso se atrasam o diagnóstico e o tratamento. Todos sabem que o cansaço e o estresse provocados pelos horários excessivos não apenas resultam em um menor rendimento, mas além disso aumentam a probabilidade de erros, acidentes e outras enfermidades que favorecem o absenteísmo, com o custo que isso implica. Sem ir muito longe, calcula-se que o estresse no trabalho custe à União Europeia entre 2,6% e 3,8% do PIB. No outro extremo do mundo, no Japão, que até abril de 2019 não contava com uma legislação que limitasse as horas semanais ou extras, há uma taxa tão alta de falecimento por doenças físicas ou suicídios derivados da pressão do trabalho que até deram um nome a isso: karoshi, ou “morte por excesso de trabalho”. NÃO VOU FAZER HORA EXTRA, PONTO! Yui Higashiyama, protagonista de uma série de TV que todo mundo assiste no Japão, é gestora de projetos em uma empresa que luta para encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e a pro�ssional. Ela quer apenas sair do escritório e passar em seu bar favorito durante o happy hour. Akeno, pseudônimo da autora do romance em que se baseia a série, explicou sua experiência pessoal em uma entrevista para o New York Times: “Levei muito tempo para aceitar que não há problema em não trabalhar nos �ns de semana ou à noite durante a semana… No Japão, o que se considera honrado não é o que você consegue, mas que nunca tire um descanso.” Não é preciso ir muito longe: Kasumi Yao, o produtor da série, não tira férias há 12 anos. É que a ideia de que o trabalho exige um grande sacrifício pessoal está muito arraigada em sua cultura, em todos os níveis. A má notícia é que talvez você esteja mais perto do drama pro�ssional nipônico do que imagina. Pergunte se sua saúde deixou de ser a prioridade. Tem dor nas costas devido às más posturas no trabalho e não vai ao massagista porque não tem tempo? Sofre de insônia devido às preocupações que leva para casa em sua pasta e, em vez de melhorar de hábitos ou padrões no escritório, toma um comprimido? Proponho a você uma forma de saber se sua saúde psicológica está em jogo. Basta responder a estas três perguntas: Parece que o resto de seus colegas e amigos não trabalham nada em comparação com você? Você acredita que se perdesse seu trabalho não seria ninguém, porque o resto de sua vida seria um fracasso? De um dia para outro você deixou de fazer atividades de lazer que sempre foram uma fonte de diversão e alegria? Todos passamos por picos extremos de trabalho. Um de meus primos, grande empreendedor, me disse faz pouco tempo: “Aos domingos, enquanto faço minhas necessidades, mando e-mails com o telefone.” Mas ele sabe que se trata de uma coisa excepcional devido à fase de crescimento de sua empresa; ou pelo menos tomou consciência de que essa situação não pode se transformar em uma coisa normal e está preparando mudanças estruturais em sua vida. Que este seja o último dia que você se sinta culpado por ir embora do escritório quando acabar sua jornada de trabalho, ou por fazer isso antes das outras pessoas. Isso não tem nada a ver com seu compromisso com o trabalho nem com um desempenho adequado. VIVER OCUPADO OU NÃO VIVER, EIS A QUESTÃO “A vida é curta demais para estar ocupado”, diz o ensaísta e caricaturista Tim Kreider. Essa frase podia ser a solução para o segundo mito que pretendo destruir neste capítulo. Entretanto, para muitas pessoas estar sempre ocupadas parece um princípio religioso, um mantra vital. Parece ser um sintoma de alto status, e de que as coisas vão muito bem para nós. Quando alguém nos pergunta “Como vai você?”, respondemos: “Ufa, superatarefada.” E o outro responde: “Melhor isso que o contrário, não?” Confundimos estar ocupados com ser produtivos. Se não pulamos de uma atividade para outra e não temos uma montanha de projetos pendentes, nos sentimos ansiosos. Mas ocupar nosso tempo fazendo coisas que não nos aproximam de nossos objetivos é pior que não fazer nada. Acabamos tomando decisões ruins, �camos desmotivados, estressados e até esgotados. Essa histeria coletiva transcende o trabalho e atinge nossos �lhos. Nós os botamos em atividades extraescolares, de �m de semana, de férias, acampamentos urbanos, rurais, viagens de família… Estamos todos superocupados, somos uma família de muito sucesso! Mas a realidade é bem diferente. O que estamos é esgotados. A solução para a atividade intensa da falsa ocupação não é �car ocioso nem ser preguiçoso. É sair dessa armadilha e recuperar o controle de nosso tempo, no lugar de nos deixarmos levar. Pergunte a si mesmo qual é o uso mais e�ciente de seu tempo hoje. Preste atenção e seja consciente de que fazer uma coisa signi�ca deixar de fazer outra. Como observou Peter Drucker, o pai da gestão empresarial: “Não há nada tão inútil quanto fazer com grande e�ciência uma coisa que não devia ter sido feita.” CUIDADO, M&M’S NO ESCRITÓRIO! Para Jason Fried, um dos fundadores do Basecamp e autor de vários livros sobre produtividade, há dois fatores no escritório que nos mantêm plenamente ocupados ao mesmo tempo que nos impedem de desenvolver nosso trabalho com e�cácia: os M&M’s (Meetings e Managers — reuniões e gerentes). Para Fried, as reuniões são uma coisa tóxica e venenosa com um grande custo para a empresa, já que não se perde uma hora, mas uma hora por pessoa presente. Ele nos propõe um jogo: cancele agora mesmo a próxima reunião e verá que não acontece absolutamente nada. Por sua vez, os gerentes nos interrompem constantemente fazendo seu trabalho, ou seja, assegurando-se de que os outros o façam. Essa é uma das manifestações do micromanagement, ao que dediquei espaço em Money Mindfulness. Eles nos perguntam como estamos e se já terminamos com isto ou aquilo, ou quando vamos terminar, e, o cúmulo, convocam reuniões! A CENTELHA ADEQUADA Nosso sucesso não depende apenas do que fazemos durante nossa jornada de trabalho, mas de encontrar um equilíbrio adequado entre a vida pro�ssional e a pessoal. Shawn Achor, autor de O jeito Harvard de ser feliz, determinou que em uma “empresa feliz”, com funcionários que se sentem realizados com o que fazem, as vendas aumentam 37%, e a produtividade, 31%, sem mencionar as melhoras na qualidade de vida e na saúde do pessoal. Não é que trabalhando duro você obterá o sucesso que vai conduzi-lo à felicidade, mas ser feliz vai estimulá-lo a trabalhar mais duro e alcançar o sucesso. Como favorecer esse equilíbrio desejado? James Clear, um autor que mencionamos mais de uma vez neste livro, utiliza a teoria das quatro bocas. Imaginemos que nossa vida é representada por uma cozinha com um fogão de quatro bocas que simbolizam: família, amigos, saúde e trabalho. Essa teoria sustenta que: “Para ter sucesso, devemos apagar uma das bocas. E para sermos realmente bem-sucedidos temos que cortar duas.” Se deseja se sobressair em seu trabalho e em seu casamento, seus amigos e sua saúde sofrerão. Se quer estar saudável e ter sucesso como pai, pode ser obrigado a reduzir suas ambições pro�ssionais. Precisamos escolher. Que bocas você quer manter acesas em sua vida? A teoria das quatro bocas revela uma verdade que não gostamos de escutar: não podemos ter tudo. E nos faz tomar consciência de que o tempo é limitado. “Que bocas você apagou para manter acesa a chama das outras?” Sêneca dizia que “o que menos ocupa o homem ocupado é viver”. Prestando atenção a cada hora e a cada minuto vamos conseguir que esse não seja nosso caso. UM POUCO DE SÍNTESE Esquentar a cadeira durante muitas horas não é ser produtivo. Às vezes, o resultado é justamente o contrário. Quando delimitamos um tempo para realizar um trabalho, somos muito mais efetivos que se dispomos de mais horas ou dias. O excesso de horas de trabalho põe em sério risco nossa saúde. Encher o tempo livre de atividades é outra forma de nos esgotarmos sem que haja razão para isso. As reuniões e o controle desnecessário do trabalho dos outros são dois buracos negros pelos quais o tempo escapa. O tempo excessivo que dedicamos a nossa carreira pro�ssional é roubado denossa vida pessoal e familiar. TRANSFORME A TECNOLOGIA EM SUA ALIADA SUAS MÁQUINAS DO TEMPO Quando fantasiamos a respeito do futuro, deixando de lado o contato com extraterrestres e a vida em outros planetas, sempre chega um dia em que a tecnologia acaba superando o ser humano. De certa forma, já somos escravos dos monstros que criamos; o Big Data, a inteligência arti�cial, algoritmos que decidem por nós porque sabem mais de nós do que nós mesmos… E, como já vimos em capítulos anteriores, de aplicativos que roubam nossa atenção e nosso recurso mais valioso: o tempo. Mas não é a tecnologia que determina se você é produtivo ou improdutivo, feliz ou infeliz, livre ou viciado. Tudo depende do uso que você faz dela. Como explica o físico Michio Kaku: “A potência dos computadores dobra a cada 18 meses. Hoje seu telefone já é mais potente que o computador da NASA que levou o homem à Lua. Esse é o poder que existe em seu telefone celular!” Imagine o que poderíamos fazer se usássemos com cabeça esse poder incrível que temos no bolso? Enquanto esperamos que a máquina do tempo deixe de ser também uma coisa do futuro, vamos aprender a usar essa tecnologia como nossa aliada para que nos ajude a estender as horas e a melhorar a produtividade. BASTAM CINCO MINUTOS PARA SONHAR TODA UMA VIDA Ultimamente se fala da tecnologia do bem-estar, de converter o tempo que passamos em frente a uma tela em tempo de qualidade. As empresas tecnológicas parecem se somar ao chamado: Mark Zuckerberg tinha como desa�o pessoal para o ano 2018 que o tempo passado no Facebook fosse bem investido. Muitos consideram o movimento uma simples maquiagem, pois seus resultados econômicos dependem do tempo que passamos conectados. E, sejamos conscientes disso ou não, continuamos a �nanciá-los com nossa atenção e nosso tempo. A prova disso é que cerca de 70% das visitas ao YouTube vêm das recomendações feitas pela própria página, otimizadas segundo os gostos e as visitas anteriores. Só 30% são visitas que a pessoa decide conscientemente por conta própria. Quem se preocupou com esse tema desde que trabalhou no departamento de ética no design do Google foi Tristan Harris, diretor e um dos fundadores do Center for Human Technology. Por meio dessa organização é feito um chamado a projetar tecnologia que proteja as pessoas, devolvendo ao ser humano a atenção que ela nos roubou. Recomendo visitar a página em que ele explica seu gigantesco plano de ação, que oferece muitos recursos, informação e bons conselhos. Em um projeto desenvolvido com o Moment, um aplicativo que ajuda as pessoas a rastrear seu tempo diante da tela, um grupo de duzentos mil usuários de iPhone foi questionado sobre o uso que faziam dos aplicativos. A conclusão foi que “nossos sentimentos sobre os aplicativos dependem de quanto tempo passamos neles”. Em relação ao Facebook, sou feliz se passo 22 minutos na rede por dia, mas infeliz se prolongo isso até 59 minutos. A Net�ix me dá quarenta minutos de uma felicidade que, ao chegar a 1,22 hora, se converte em arrependimento. E com Candy Crush são 12 minutos por dia de balas deliciosas que �cam indigestas depois de 47 minutos presa ao jogo. Na próxima página, você verá um de seus grá�cos que fala por si: Fonte: Center for Human Technology & Moment Em Money Mindfulness, compartilhei o princípio dos 15 gramas de chocolate, uma ferramenta muito saudável para o estômago e para o bolso. O que nos proporciona o verdadeiro prazer é a primeira mordida, enquanto o resto da barra é comido por inércia, gula ou outros impulsos igualmente prejudiciais. Isso pode ser extrapolado para qualquer outro aspecto de nossa vida. Comer 15 gramas não signi�ca viver com escassez, mas desfrutar das coisas com plenitude, concentrando-se em cada mordida sem pensar na próxima. “Cinco minutos bastam para sonhar uma vida inteira”, dizia Mario Benedetti. Mas como parar nos cinco minutos? Basta recuperar a atenção. TIME MANTRA As ferramentas de controle que podemos encontrar em nosso telefone ou nosso computador nos mostram quanto tempo passamos nos aplicativos, e também nos permitem bloquear as noti�cações. Isso nos ajuda a tomar consciência de como usamos o telefone, nossa máquina favorita; mas é só um primeiro passo. Nós mesmos devemos mudar nossos hábitos nocivos. Na maioria das vezes que consultamos o celular fazemos isso de forma automática, como se fosse um re�exo, sem prestar atenção nenhuma. Na Espanha, fazemos isso em média a cada dez minutos. É a primeira coisa que olhamos ao acordar e a última quando vamos dormir. E não só isso. Depois que entramos em um aplicativo, de forma igualmente inconsciente �camos nele por um tempo inde�nido. Para evitar isso, prestemos atenção ao instante em que pegamos o celular. Qual o fundo de bloqueio de tela você usa? Talvez uma foto de pessoas queridas, uma paisagem na qual você passou um momento feliz ou que gostaria de visitar, um quadro que acha inspirador… Tudo isso está bem, mas e se usássemos a tela para nos libertarmos dela? Sugiro que o fundo que apareça sempre que você o ligue mostre as seguintes perguntas escritas: Quero mesmo abrir esse aplicativo? Para que estou fazendo isso? Tenho tempo para isso? Ser obrigado a ler e responder a esse mantra simples toda vez que sentir o impulso de se conectar lhe permitirá salvar uma grande quantidade de atenção e de tempo. A primeira pergunta faz com que você perceba se a decisão de pegar o celular foi ou não consciente. A segunda vai alertá-lo sobre a possibilidade de estar fugindo de alguma coisa. Em relação à terceira, se você decide que tem tempo, lembre-se de não passar dele. Na página online de Julie Morgenstern, consultora de organização e produtividade há mais de trinta anos, você pode encontrar fundos para seu telefone com mensagens como “Be Here Now” [“Esteja aqui agora”], que vão ajudá-lo a evitar o chamado da tecnologia durante refeições em família, estudo, leitura ou tempo com seus amigos ou seu parceiro. FOREST: O BOSQUE DE MEUS OBJETIVOS CUMPRIDOS Este aplicativo promete ajudá-lo a vencer a tentação constante de �car olhando o telefone e se concentrar no que está fazendo no trabalho, nos estudos, com a família ou amigos. Tudo isso em troca dos 0,99 euros que custa a versão básica. Ele funciona da seguinte maneira: escolha um tempo durante o qual você tenha de estar concentrado em uma tarefa, em seu objetivo. Então você planta a semente de sua árvore e nasce uma planta. O celular é bloqueado enquanto a planta cresce e você vai cumprindo seu objetivo. Mas se você não derrota a tentação e sai do aplicativo para usar o celular… Horror! Sua árvore morre. À medida que cumpre seus objetivos, graças a seu tempo de concentração, você vai criando seu próprio bosque virtual. E, como bônus extra, recebe moedas virtuais que podem ser trocadas por outras espécies ou por uma árvore de verdade, que será plantada em um bosque de verdade. Seus criadores trabalham junto com a ONG Trees for the Future e garantem que “até agora, o Forest ajudou nossos usuários a economizar 3,3 milhões de horas e a plantar mais de oito mil árvores reais sobre a Terra”. Bendito seja o fruto de nossa concentração! Caso acredite que o time mantra não será su�ciente e você precisa de um complemento, aqui estão outras três propostas: Procure hábitos alternativos. Em vez de lutar contra seus hábitos nocivos tentando apenas não os realizar, substitua-os por outros hábitos que lhe proporcionem um benefício. À noite, não carregue o telefone em seu quarto, deixe-o do lado de fora, em troca ponha a roupa para fazer ginástica bem perto de sua mesinha. Assim que se levantar, não con�ra suas redes sociais; faça uma série de exercícios ou uma sessão de ioga. Evite-as também ao se deitar; volte a ler um livro, como você fazia quando os celulares só serviam para fazer ligações telefônicas, e as plataformas digitais de conteúdo não existiam. Crie seu “espaço de tecnologia zero”. Há quem tenha um quarto do pânico completamente fechado e inacessível para se proteger deladrões. Por que não fazer a mesma coisa com os ladrões de tempo? Escolha um quarto — basta um canto — para fazer as coisas que importam mais que as outras e que precisam de toda sua atenção, deixando de fora todas as ferramentas tecnológicas. Você pode ter à porta uma estantezinha onde botar seu telefone, como se fosse o controle de segurança de um aeroporto. Você verá como, em pouco tempo, graças à calma do refúgio que você vai respirar, esse lugar se converterá em seu espaço favorito. Seja exigente e seletivo. Julie Morgenstern recomenda não ter mais de quatro canais de comunicação entre todos os que existem: e-mail, mensagens de texto, mensagens de Facebook, Twitter, Instagram, chamadas telefônicas… Estabeleça limites para o conteúdo que você consome, já que boa parte da informação que absorvemos não agrega valor a nossa vida. Você por acaso leria sobre um assunto que não o atrai em nada? Vale a pena gastar seu tempo com pessoas que não levam nada a você além de drama e agressividade, ou só eu acho que no Twitter há muita gente irritada? ALGUNS CONSELHOS PARA TRANSFORMAR A TECNOLOGIA EM SUA ALIADA Use a câmera, as notas ou as anotações de voz de seu telefone para liberar sua mente e economizar tempo ao procurar seu carro no estacionamento ou buscar recomendações de livros e séries. Se ainda assiste à TV ao vivo, não é nenhuma novidade que você perde uma quantidade de tempo enorme com os anúncios. Grave esse programa que tanto lhe interessa. Programe o tempo que dedicará a uma série, a não ser que o plano seja dedicar uma tarde para ver todas as temporadas de uma vez. Em geral, programe os tempos de qualquer atividade que não seja muito produtiva. Utilize o tempo de seus deslocamentos para escutar podcasts sobre qualquer assunto de seu interesse, áudio-livros ou para começar a estudar uma língua. Se o corpo pede Candy Crush, lembre-se: não mais que 12 minutos, ou suas balas �carão amargas. Use a gestão eletrônica para tudo o que seja possível: gestão de bancos, boletos, impostos, mudanças de provedores de serviços etc. Assim você evitará deslocamentos e �las. Há muitas funcionalidades e comandos em seu celular, tablet ou computador que você não usa e que o fariam ganhar muito tempo. Por exemplo, o matemático e professor norte-americano Jake Miller ensina truques e atalhos para tirar o máximo de proveito de cada ferramenta do Google. Procure seus tutoriais gratuitos em suas redes sociais e você aprenderá como unir o Gmail ao calendário, entre outras muitas coisas. UM POUCO SE SÍNTESE A tecnologia em si não é boa nem má, tudo depende do uso que fazemos dela. O uso moderado das telas nos proporciona felicidade, e não arrependimento. A chave está em parar a tempo. Em média, consultamos o celular de forma automática a cada dez minutos. Uma mensagem na tela ou no fundo do celular pode ajudá-lo a fazer um uso consciente dele. Você pode ter em sua casa um santuário livre de tecnologia. Há aplicativos e programas que nos ajudam a otimizar o tempo que passamos com os dispositivos. A BÚSSOLA DOS BIORRITMOS O MUNDO É PARA AS COTOVIAS Cada uma de nossas células tem um relógio biológico impresso em seu genoma. Graças a ele, o corpo é capaz de controlar o ritmo de todas as atividades orgânicas que se repetem de forma periódica, na verdade aquelas que correspondem ao ciclo de um dia, como comer ou dormir. Há mais de duzentos anos, o astrônomo Jean Jacques d’Ortous de Mairan percebeu a existência desse tique-taque interno quando notou que as plantas de mimosa se abriam durante o dia para receber a luz do sol e se fechavam à noite para se despedir dele… uma coisa que continuavam a fazer em testes dentro de um quarto escuro. Com ou sem luz, o tique-taque continuava. Com os seres humanos acontece o mesmo. Nosso relógio biológico nos ajuda a nos sincronizarmos com as �utuações de subida e descida da luz solar e a nos adaptar aos padrões de um dia graças ao que conhecemos como ritmo circadiano. Isso explica que, por exemplo, seu sistema cardiovascular se prepara para as variações posturais que você adota durante o repouso noturno. Entretanto, apesar de esse relógio interno ter sido criado evolutivamente para nos ajudar a viver, muitas vezes nos empenhamos em ir contra seus ponteiros, o que leva a consequências nefastas. EM CONTRACORRENTE Um exemplo típico — e curioso — de reação adversa produzida quando alteramos o ritmo é o jet lag. Ao voar por muitas horas a favor ou contra a rotação do planeta, submetemos o corpo a uma mudança brusca de horários, e nosso organismo se descontrola. Outros mais graves poderiam ser os transtornos do sono resultantes de um hábito tão simples quanto olhar o celular por muito tempo quando vamos para a cama. Como o sol é o regulador que a cada manhã acerta nosso relógio biológico, o cérebro responde de maneira muito sensível aos sinais luminosos. Por isso �camos com sono algumas horas depois do crepúsculo, uma resposta que pode se alterar devido à exposição contínua à luz arti�cial de seu celular. Está cienti�camente comprovado: o bom funcionamento de nosso relógio biológico — e, portanto, de nosso organismo e de nosso cérebro — tem relação direta com a organização de nossa existência. Michael Young, Prêmio Nobel de Medicina em 2017 por seus estudos sobre os mecanismos moleculares que fazem funcionar o relógio interno, disse em uma entrevista para a BBC Mundo: “Não há forma de regular os níveis de proteínas que controlam o ritmo circadiano com remédios, mas podemos mantê-las em um nível adequado cuidando dos horários das refeições e do sono.” Entretanto, nos empenhamos em romper com nossos ritmos, indo contra a natureza para adaptar nossa agenda às exigências de longas jornadas de trabalho, entre outras áreas de nossa vida. Como vamos ver adiante, precisamos estabelecer um cronoplano se não queremos sofrer, em médio e longo prazos, consequências muito mais graves que um jet lag inofensivo por ter cruzado o oceano. JET LAG SOCIAL Se chega a sexta-feira e você vai se deitar mais tarde do que o habitual, porque resolveu socializar ou porque �cou jogado no sofá vendo três capítulos de sua série favorita, e no sábado se levanta tarde e volta a se deitar tarde porque dormirá na manhã de domingo, provavelmente você sofrerá de jet lag social. Segundo um estudo �nanciado pelo Conselho de Investigação Médica do Reino Unido e o Instituto Nacional para o Envelhecimento dos Estados Unidos, não é importante apenas o número de horas que dormimos, mas também a regularidade de nossos horários. A variação temporal limite nas suas rotinas a partir da qual começam a ser observados biomarcadores pouco saudáveis em seu corpo é de duas horas. Os reajustes superiores dos horários de sono entre os dias de trabalho e os dias livres alteram nosso ritmo circadiano. O efeito mais óbvio é nos sentirmos sonolentos, mal-humorados e fadigados. Os estudantes universitários que seguem horários irregulares demonstram pior qualidade de sono e um consequente pior rendimento acadêmico. Como o ritmo circadiano controla processos tão importantes como a secreção hormonal ou a atividade das células imunológicas, há uma correlação entre o desajuste de horário e o aumento do risco de sofrer depressão, obesidade, doenças cardíacas ou diabetes. Se você muda constantemente seus horários de sono e, portanto, a exposição à luz durante os �ns de semana, os relógios em seus órgãos e tecidos estarão sempre fora de sincronia. QUAL É SEU CRONOTIPO? É possível estabelecer a predisposição natural de cada pessoa a estar mais ou menos desperta ou alerta segundo a hora do dia. Dependendo de quando experimentamos nossos picos de energia ou momentos de descanso, se somos mais ativos durante as horas de luz ou durante a noite, nosso cronotipo será de um tipo ou de outro. Dito de forma mais cientí�ca, nosso cronotipo depende de como estamos sincronizados com o ritmo circadiano que mencionamos antes, responsável pelos ciclos de 24 horas. E o combustível para que esse maquinário preciso funcione é a melatonina. Essehormônio é liberado na escuridão e provoca dois efeitos paralelos: induzir o sono e determinar a que horas do dia estamos mais despertos e, portanto, somos mais produtivos. Quando nascemos, já foi dado corda em nosso relógio biológico pessoal — na verdade, as mutações que afetam os genes responsáveis por esse relógio são hereditárias —, por isso podemos dizer que cada pessoa vem a este mundo com um cronotipo determinado. As pessoas matutinas são conhecidas como cotovias. Elas se levantam cedo e com a energia em 100%. As manhãs são seu melhor momento e, à medida que as horas se passam, o cansaço vai crescendo, apagando-as como uma vela. Se têm a oportunidade, se deitam cedo e dormem rápido. Os vespertinos são conhecidos como corujas. Eu sou uma delas (na verdade, sou tanto que me assemelho mais a um morcego). Se alguém cruza nosso caminho assim que acordamos, o máximo que vai ouvir será algum som ininteligível. Nos arrastamos como podemos durante as primeiras horas e vamos nos ativando à medida que o dia avança, para acabar alcançando nosso pico de produtividade entre as 16h e as 18h. Eu posso estar completamente esgotada às 20h, bocejar cinco vezes seguidas e ser incapaz de manter os olhos abertos… e, de repente, meu cérebro se reativa. Eu revivo, volto a estar totalmente desperta. Não quero nem falar em ir para a cama às 23h. Por sorte, 70% da população alça voo como os colibris. Isso é, está a meio caminho entre as cotovias e as corujas. Se você tem alguma dúvida, pode dar uma olhada na internet no questionário sobre ser matutino ou vespertino de Horne e Ostberg e, de forma simples, de�nir seu cronotipo. Também será útil fazer isso acompanhado, se é uma coruja que se casou com uma cotovia que não a compreende. COMO É DURA A VIDA DAS CORUJAS! As cotovias não têm uma boa imagem das corujas. Acham que elas se levantam tarde porque são preguiçosas ou porque passaram a noite acordadas perdendo tempo; e dirão que, pelo menos, restam elas, as cotovias, para madrugar e “levantar” o país. São as cotovias que levam a fama de serem mais produtivas e e�cientes, além de serem um modelo social, porque dormem em uma hora decente. Mas elas também precisam compreender que, em seu padrão mais extremo, as corujas estão fazendo um grande esforço para se adaptar à vida típica de escritório de 9h às 18h. Elas vivem em um jet lag permanente. Porém, nem tudo são más notícias para os notívagos. Eles têm uma série de capacidades e virtudes que as cotovias gostariam de ter, por exemplo: Calma: devido à sua genética recebem uma injeção menor de cortisol pela manhã, um dos hormônios do estresse, por isso costumam viver mais relaxados. Flexibilidade: acostumados a nadar sempre na contracorrente, aprenderam a se adaptar ao tempo do resto das pessoas, principalmente no âmbito do trabalho. Fazem malabarismos para trabalhar a 100% pela manhã e, quando o resto sucumbe no meio da tarde, eles estão ótimos. Planejamento: antes de se deitarem, estão su�cientemente acordados para fazer uma coisa que é puro TM: planejar as atividades fundamentais do dia seguinte. Como se costuma dizer, “um bom dia sempre começa na noite anterior”. Visão: eles demoram a pegar no sono, mas aproveitam isso para contemplar suas vidas com perspectiva e analisar seus problemas, relativizando as coisas e encontrando soluções mais simples. Embora há algum tempo pareça que as coisas correm bem apenas para aqueles que madrugam, como vimos no livro de Sharma, também há corujas famosas, entre elas Franz Kafka, Winston Churchill, Bob Dylan, J.R.R. Tolkien, Barack Obama e Marcel Proust. Esse último, em uma dessas noites, escreveu as seguintes linhas: Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não são para um homem. Há dias longos e incômodos, que levam um tempo in�nito para terminar, e dias que descem ladeira abaixo, pelos quais pode caminhar com facilidade e cantando. Para percorrê-los, as naturezas — especialmente as que são um pouco nervosas — dispõem de diferentes velocidades, como os automóveis. OLHO NO DESPERTADOR Em especial as corujas, que têm um despertar mais traumático, deviam evitar os alarmes que deixam os nervos à �or da pele assim que o dia começa. Como recomenda Anna Sólyom em seu Pequeno curso de magia cotidiana: “Se você não é o tipo de pessoa que acorda por conta própria e precisa usar um despertador, evite os sons estridentes; eles alteram seu sistema nervoso e disparam a resposta de ‘correr ou lutar’. No lugar disso, programe uma melodia ou uma canção de que você goste e que o encha de energia.” UMA QUESTÃO DE PRODUTIVIDADE De cara, pensar em planejar a jornada de trabalho de uma empresa levando em conta os cronotipos de todos os seus funcionários pode parecer uma utopia. Nada está mais longe da realidade. Trata-se mais de uma mudança cultural, já que uma ou duas horas de oscilação nas equipes tradicionais podem ser su�cientes. E a contrapartida é imensa, já que melhora a produtividade e o estado de ânimo dos trabalhadores. Os empregados da farmacêutica dinamarquesa AbbVie fazem seus horários buscando o máximo aproveitamento de seus pontos fortes biológicos. Primeiro eles recebem formação para identi�car qual é o melhor momento do seu dia, no qual recaem os trabalhos mais criativos ou exigentes — não surpreende que sejam as manhãs para os madrugadores e as tardes para os notívagos. Quando descobrem seu cronotipo, dedicam os períodos de menor energia a tarefas administrativas ou mais mecânicas, como cuidar dos e-mails Além disso, graças ao horário �exível, evitam as horas de maior trânsito, o que lhes poupa tempo e permite conciliar melhor sua vida pessoal e pro�ssional. Eles podem pegar os �lhos na escola à tarde e trabalhar de casa durante a noite, depois que eles tenham ido se deitar. Depois de dez anos, o nível de satisfação dos empregados com a conciliação familiar aumentou de 39% para quase 100%. Como disse Christina Jeppesen, gerente-geral da empresa: “A �exibilidade permite que as pessoas ofereçam os melhores resultados possíveis”; e eu acrescentaria: não só na empresa, mas também em casa. Vamos começar prestando atenção e escutando nosso próprio corpo, levando em conta que só temos um e que é melhor trabalhar com ele que contra ele. Vamos fazer um acompanhamento de nossa energia e motivação para identi�car as horas de máxima atividade interna, durante as quais estamos mais alertas e produtivos. Lembre-se de que quando �zemos o tracking de nossas atividades já incluímos um campo sobre nosso nível de energia e concentração. Para ser precisos, devemos estudá-lo por, pelo menos, duas ou três semanas e, se possível, sem elementos externos que contaminem os resultados, como a cafeína. Considere que seu cronotipo pode ter se camu�ado depois de tantos anos de compromissos pro�ssionais e sociais que às vezes levam a hábitos contrários ao próprio relógio interno. Uma vez identi�cado, faça com que suas tarefas prioritárias, as mais importantes, coincidam com suas horas mais produtivas. Simples assim, puro TM. Para terminar, sugiro que você não dedique a essas atividades mais que noventa ou 120 minutos. A partir desse tempo, faça uma pausa e, se preciso, volte a retomá-las. Por que digo isso? Os biorritmos contra-atacam. Além do ritmo circadiano, que regula os padrões de um dia, há outro chamado ritmo ultradiano, que regula períodos mais breves. Graças aos estudos do pesquisador do sono Nathaniel Kleitman, sabemos que nosso cérebro não pode manter a concentração de forma ótima por mais de duas horas. Se dançarmos ao ritmo de nosso relógio interior, sem esgotar nosso cérebro nem nosso corpo, a vida �cará mais fácil, alegre e produtiva. UM POUCO DE SÍNTESE Alguns hábitos organizados nos ajudam a �uir com nosso biorritmo, o que nos proporciona mais energia para aproveitar melhor o tempo. Alterar muito os horários de sono nos �ns de semana prejudicará nosso rendimento durante toda a semana. Conhecer o próprio cronotipo nos permite saber que momento do dia é o mais adequado para fazer as coisas importantes.Um alarme estridente é a pior maneira de começar o dia. A cada duas horas, no máximo, nosso cérebro precisa de um descanso para manter sua concentração. CONCENTRE-SE E VOCÊ VENCERÁ QUEM PERSEGUE DOIS COELHOS NÃO CAÇA NENHUM Uma fábula africana conta que um leão viu uma lebre dormindo no meio da savana, mas, enquanto se aproximava em silêncio para caçá-la, passou perto de uma gazela. Ao ver que esta oferecia um banquete melhor, saiu correndo atrás dela em meio a fortes rugidos. Nesse instante, a lebre acordou e correu na direção contrária. Pouco depois, o leão, cansado de perseguir a gazela sem alcançá-la, voltou atrás da lebre, mas descobriu que ela não havia esperado e, por culpa de sua ansiedade, ele tinha perdido as duas presas. Abatido, o leão voltou a vagar pela savana com a lição aprendida e disposto a caçar a primeira presa que encontrasse. O ensinamento que tiramos dessa história tradicional é claro: quando a atenção se divide, não apenas não ganhamos oportunidades, como podemos perder tudo. ZEN: A ESCOLA DA ATENÇÃO O ritmo frenético da vida atual cobra seu preço quando nossa mente está revolta. Queremos fazer tantas coisas no tempo escasso de que dispomos que acontece conosco o mesmo que com o leão: acabamos não fazendo nada bem. Um provérbio zen resume em uma frase essa mesma ideia: “Quem persegue dois coelhos não caça nenhum.” E essa mesma escola do budismo concentra seus ensinamentos em acalmar a mente e o corpo para viver nosso tempo de forma verdadeira, sendo conscientes de cada segundo que nos presenteia a existência. MEDITAÇÃO BÁSICA Não é necessário ter um professor nem passar horas no zendo em frente a uma parede para praticar a meditação. Basta se sentar — até mesmo em uma cadeira — de forma relaxada, mantendo as costas eretas, semicerrar os olhos e inspirar e expirar lenta e profundamente durante alguns minutos, concentrando toda a atenção no ar que passa de forma silenciosa pelas fossas nasais. Jennifer Brooks, autora de A magia da meditação zen, dá sua própria visão dos hábitos zen para melhorar a vida e a concentração por meio destes 11 passos: D . Mantenha a concentração em uma única atividade de cada vez, sem fazer várias simultaneamente. Isso nos permite sentir de verdade o que estamos fazendo. Tentar isso na hora de comer é o mais simples: coma sem ver TV nem qualquer outra distração, simplesmente concentrado no prato. T . É preciso superar o impulso da mente de começar sempre novas tarefas, o que está relacionado com o ponto anterior. F . Vale a pena dedicar a cada coisa seu devido tempo, sem pressa para terminar nada e dedicando toda sua atenção. R . Para alcançar a paz e ser dono de nosso tempo, é preciso fazer menos, reduzir a lista de coisas a fazer, o que vai implicar muito mais atenção e cuidado com cada uma delas. N . Deve haver um espaço entre elas para respirar; além disso é preciso criar um colchão de tempo, caso alguma delas se prolongue mais que o esperado. C . Levando em conta o que acabamos de dizer, você pode estabelecer um tempo especí�co para fazer as coisas realmente prioritárias. Assim você vai se assegurar de que tudo o que importa foi feito. D . Pode ser acender uma vela, fazer uma série de movimentos ou exercícios, ou qualquer outra coisa que ajude a mente a se preparar para o trabalho. S . Por menor que seja a ajuda, mesmo que seja apenas pegar alguma coisa no chão ou abrir uma porta, fazer isso com um sorriso permitirá que você viva a atividade em “modo zen”, sentindo o que faz com todos os sentidos. E . Desde objetos que não usamos até atividades que não exigem muito esforço, soltar esse lastro deixará a vida muito mais fácil de levar, pois vamos conservar apenas aquilo pelo que seríamos capazes de lutar e liberar uma grande quantidade de tempo. C . Caminhar até o trabalho, lavar os pratos ou qualquer tarefa rotineira pode servir de gatilho da meditação, vivendo nosso tempo de forma consciente. V . A única coisa que pertence plenamente a você é o aqui e agora, se concentrar a atenção na atividade que está realizando nesse mesmo instante. DISPERSÃO VERSUS ATENÇÃO Como vimos em capítulos anteriores, a concentração é fundamental para viver um tempo de qualidade e efetividade, mas isso tem um preço: a atenção plena obriga a ignorar o resto das coisas durante esse momento. A capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo é o que se conhece atualmente como multitasking. E, realmente, o cérebro humano é capaz de realizá-las simultaneamente, sempre que sua complexidade não seja muito grande: cozinhar enquanto se assiste à televisão, botar a roupa para lavar ouvindo música… Na verdade, o cérebro está preparado para fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas não para se concentrar nas duas ao mesmo tempo. Por isso, podemos encarar várias coisas simultaneamente, mas de forma mecânica, sem atenção nem consciência. Isso pode ser fantástico quando varremos a casa enquanto escutamos um podcast, mas será um desastre se estamos calculando nosso imposto a pagar enquanto nosso parceiro está explicando algo de vital importância. Além dessa falta de atenção, sofremos o cansaço de passar de uma atividade para outra, sobre o que já falamos. E a isso deve-se acrescentar que muitas vezes, especialmente em trabalhos criativos, quando interrompemos o �uxo, já não somos capazes de voltar ao ponto onde o havíamos deixado. Acontece o mesmo nas conversas, que têm seu momento único, e também em uma tarefa como escrever um relatório, um e-mail, um artigo. Quando alguma coisa ou alguém nos interrompe enquanto estamos escrevendo um parágrafo, levamos minutos para ser capazes de retomá-lo onde estávamos, e na maioria das vezes uma ideia que estava fresca na cabeça desaparece para nunca mais voltar. De tudo isso podemos extrair uma lei muito útil: se só podemos dedicar nossa atenção plena a uma coisa de cada vez, é preciso saber escolhê-la bem em cada momento. A LISTA DUPLA DE WARREN BUFFETT Na verdade, por mais técnicas que utilizemos para otimizar o tempo, aumentando nossa concentração, a chave fundamental para viver com TM está na escolha de nossos objetivos. Warren Buffett, um dos grandes investidores de nossa era, se destacou também por sua excelente gestão do tempo com um sistema de escolha de prioridades muito peculiar e funcional. Um dia, falando com Mike Flint, seu piloto pessoal por dez anos, sobre os planos deste para o futuro, Buffett pediu a ele que seguisse três passos: Escreva suas 25 metas pro�ssionais. Revise essa lista para escolher as cinco mais importantes. Faça uma lista secundária com as vinte restantes. Flint resolveu trabalhar imediatamente nas cinco metas, mas Buffett então lhe perguntou: — E o que você pensa em fazer com as outras vinte? — As primeiras cinco são minha prioridade, mas as outras estão por perto, em um segundo escalão. Também são importantes e vou trabalhar nelas quando puder. Não são tão urgentes, mas quero dedicar a elas um bom esforço. — Não! — respondeu Warren Buffett. — Você está errado, Mike… O que você não marcou se transformou na lista do que deve ser evitado a todo custo. Não importa que você deixe de dedicar sua atenção a ela até que tenha terminado com sucesso seu top 5. Esse exercício me parece tão brilhante que proponho, querido leitor, que você em seguida comece a fazê-lo, assim que tenha lido o resumo do capítulo e antes de passar para o próximo. UM POUCO DE SÍNTESE A dispersão é uma grande fonte de fracassos, pois o sucesso está ligado ao estado contrário: a atenção. É possível meditar quando nos dedicamos simplesmente a comer com atenção plena. Não comece várias coisas ao mesmo tempo. Quando terminar uma, comece a seguinte. É preciso reservar um colchão de tempo entreas coisas que fazemos. Os rituais preparam a mente para se concentrar em uma atividade. Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas não nos concentrarmos nelas. Quando interrompemos uma atividade criativa, muitas vezes é impossível voltar ao mesmo ponto. Saber quais são nossos cinco grandes objetivos vitais vai nos ajudar a viver com sentido e com TM. A PAUSA ATIVA QUANDO NÃO FAZER NADA PODE MUDAR TUDO Uma fábula moderna de autor desconhecido conta que um viajante chegou a um povoado e se dirigiu a um ancião que estava sentado em um alpendre sem fazer nada. — Escute, meu bom homem — disse o viajante. — Sabe para onde vai esta estrada? — Nunca a vi indo a lugar nenhum — respondeu o velho. — Toda manhã, quando me levanto, olho pela janela e ela ainda está aí. — O que quero saber é se tenho de pegá-la para ir a Fortsmith. — Não tem nenhum sentido que você faça isso: lá eles já têm uma estrada. — Imagino que o senhor viveu aqui toda sua vida — comentou o viajante, ao que o ancião respondeu: — Ainda não. O que pode parecer uma conversa sem nenhuma coerência é, na verdade, um encontro cara a cara entre dois homens de características opostas; um conhece a arte de não fazer nada; e o outro, não. O ancião é pura presença, não precisa ir a lugar nenhum nem fazer nada para justi�car que existe no mundo. Por isso, o viajante não entende suas respostas. Quando você sente que corre como um frango sem cabeça, quando já não sabe onde está nem para onde se dirige, é o momento de fazer um recesso. BENEFÍCIOS DO “ESPAÇO NEGATIVO” “Para a ordem monástica de São Bento, o período entre as 12h e as 15h era conhecido como a hora sexta. Durante esse tempo, os religiosos �cavam em silêncio completo para recuperar energias para o resto do dia. Eles ‘sexteavam’, e daí vem o nome do costume da sesta que, dez séculos depois, o mundo inteiro identi�ca como um luxo espanhol. “Talvez seja um luxo, mas sem dúvida é saúde física e mental, e uma boa ferramenta para melhorar a gestão de nosso tempo. “Contanto que não passe dos quarenta minutos (já que a partir daí começa a gerar efeitos contrários), a sesta abre as comportas da serotonina, nos inundando de satisfação e bem-estar; previne as cardiopatias, reduzindo a pressão arterial e o ritmo cardíaco; e ajuda a diminuir o estresse e o risco de sofrer de doenças cardiovasculares, ao liberar o hormônio do crescimento, antídoto do cortisol que estimula o sistema imunológico. “Por outro lado, segundo a Universidade de Berkeley, reinicia o cérebro, �xa os conhecimentos já adquiridos e facilita o aprendizado, aumentando a concentração e a produtividade. Não é magia nem lenda urbana. Durante o sono, as lembranças recentes se transferem do hipocampo para o neocórtex, nosso disco rígido, onde se consolidam as lembranças em longo prazo. Inclusive — acrescenta o professor de psiquiatria de Harvard Robert Stickgold —, depois de alcançar a fase REM do sono, o despertar impulsiona a conexão entre ideias, de forma que facilita a solução de problemas que nos deixavam agoniados antes do cochilo. Até a NASA, depois de descobrir que a sesta evita 34% de erros e melhora os re�exos ao dobrar os níveis de alerta, obriga seus pilotos a dormir diariamente durante 26 minutos. “Gosto de pensar que a invenção da sesta é a forma espanhola de nos unirmos ao conceito de ‘espaço negativo’. O designer Alan Fletcher dizia que o espaço vazio é substância, é necessário para entender e desfrutar do objeto. Cézanne pintava o espaço vazio. Mallarmé concebia seus poemas com tanto silêncios quanto palavras. Ralph Richardson dizia que a magia do ator está no controle das pausas. Isaac Stern descrevia a música como esses pequenos silêncios que há entre cada nota. “Os japoneses têm uma palavra para esse intervalo que dá forma à totalidade. Eles o chamam de Ma. No Ocidente não há um termo concreto. Graças aos monges de São Bento, podíamos começar a chamá-lo de ‘sesta’.” Andrés Pascual O PODER DO NIKSEN Estamos tão acostumados a nos ocuparmos em excesso, o horror vacui dirige tanto nossa vida, que é extremamente raro ver alguém entregue à nobre arte de não fazer nada. Inclusive, quando não estamos fazendo nada de valor, ocupamos os sentidos com coisas que “distraem” a mente, com o que não favorecemos o espaço vazio que a criatividade exige para dar forma a alguma coisa nova. Os holandeses têm uma palavra, niksen, que signi�ca “não fazer nada” de forma genuína, como por exemplo: Se limitar a descansar e a observar o teto do quarto, sem necessidade de mais atividade. Olhar pela janela para contemplar o quadro vivo e mutável do mundo. Caminhar ou �car sentado em qualquer lugar sem outro estímulo além do que acontece, analogicamente, ao nosso redor. Sonhar acordados. Esse último é um efeito bené�co da inatividade que, segundo Sandi Mann, psicóloga da Universidade de Lancashire Central no Reino Unido, “nos torna literalmente mais criativos, melhores para solucionar problemas, mais capazes de ter ideias criativas (…). Deixe que a mente procure seus próprios estímulos, é aí que começamos a sonhar acordados, e a mente começa a vagar, e é nesse ponto que há mais probabilidades de a criatividade vir à tona.” Quando passamos muito tempo ocupados com mil coisas, chega um ponto em que nossa energia mental �ca esgotada, e é aí que o niksen pode fazer milagres. Entre os benefícios de uma sessão de niksen estão: Resolver problemas para os quais, em nosso estado de esgotamento, não víamos solução. Adquirir novas perspectivas sobre a própria vida, também quando não estamos enfrentando nenhuma di�culdade. Recarregar as baterias do corpo e da mente; com isso, em seguida, vamos render muito mais. Como dizia Ovídio há dois milênios: “Faça uma pausa; o campo que descansou dá uma colheita mais abundante.” Se você não está acostumado com o niksen, no início será difícil se entregar a ele, já que sua zona de conforto é estar ocupado. Porém, vale a pena abraçar esse incômodo, já que pode haver um antes e um depois em sua existência ao parar as máquinas. O MISTÉRIO DOS CARROS DE ALUGUEL JAPONESES Recentemente, uma empresa japonesa de aluguel de carros fez uma investigação depois de perceber que uma parte de seus usuários devolvia o veículo sem ter acrescentado quilometragem nenhuma, além de algumas centenas de metros. Isso acontecia, principalmente, nos aluguéis de meia hora, com um custo um pouco maior que três euros. As pesquisas feitas com clientes deram resultados surpreendentes. Descobriu-se que muitos aluguéis eram feitos para poder fazer uma sesta — os japoneses dormem uma média de seis horas e 35 minutos, 45 minutos a menos que a média internacional — ou para comer com tranquilidade o que compravam para viagem, longe do ruído de outras pessoas. Alguns, inclusive, confessaram tê-los utilizado para uma sessão individual de karaokê. A conclusão a que se chegou foi que esses usuários não desejavam ir a lugar nenhum, apenas desfrutar de um período de calma, novamente o niksen dos holandeses. CONSELHOS DE UM PAUSÓLOGO Marcelo Estraviz, que hoje em dia é o maior especialista em fundraising para ONGs no Brasil, conta que em seu passado como executivo de grandes empresas chegou a um ponto em que ele já não era feliz com sua vida. Em suas próprias palavras, pensava que tinha vindo a este mundo “para alguma coisa mais que vender iogurte”, um dos setores em que ele tinha trabalhado. Esse sentimento de insatisfação o levou a tirar um ano sabático que mudaria totalmente sua vida. Além de melhorar sua saúde e seu estado de ânimo, essa parada serviu para ele entender o que queria fazer com sua vida, uma coisa impossível quando se vive sempre contra o relógio. Com alguns meses de reserva �nanceira, ele se despediu de sua empresa e do alto salário que recebia sem ter um plano B. Apesar disso, logo viu como a pausa que havia feito iluminava seu caminho. Ele decidiu, por exemplo, que não queria entregar seu tempo às multinacionais e sim dedicar sua vida ao bem comum, incluindo as pessoas mais necessitadas. No início,seu trabalho de consultoria para ONGs não lhe dava muito dinheiro, mas sim uma grande quantidade de alegria. Com o tempo, porém, ter escolhido o caminho certo permitiu que ele vivesse de sua paixão com folgas. Desde então, Marcelo Estraviz desfrutou de outros anos sabáticos para “repensar” sua vida e está até ajudando outras pessoas, como pausólogo, a realizar suas pausas ativas. Falamos de “pausa ativa” porque nesse aparente não fazer nada está sendo gerado um futuro que jamais poderia ser alcançado em meio à tormenta de atividades. Se você sente que “não aguenta com tudo” ou que precisa urgentemente de uma mudança, considere a opção de tirar um ano sabático. Se você não pode se permitir tanto tempo, dê apenas alguns meses para si mesmo. Alguns conselhos de Estraviz antes de empreender essa experiência transformadora: A pausa deve se ajustar ao colchão �nanceiro que você acumulou. Por isso, antes de “parar as máquinas”, veja quanto tempo pode aguentar sem ganhar dinheiro. Para um período “sabático” de seis meses, por exemplo, você deve ter fundos para cobrir suas necessidades por nove ou dez meses, já que você precisará de uma margem para voltar a gerar renda. Se você é um superworkaholic, uma pausa grande demais pode lhe fazer mal, segundo o consultor brasileiro. Para uma pessoa acostumada a trabalhar de sol a sol, de segunda a domingo, basta um �m de semana de verdadeira desconexão, por exemplo em um retiro. Assim como se deve iniciar um esporte aos poucos, também é preciso aprender a fazer pausas. Em pouco tempo você poderá ampliar o espaço sabático. Até uma caminhada de uma hora, se deixou o celular em casa ou no escritório, é uma pausa excelente, já que vai permitir que você respire e se concentre em coisas às quais normalmente não presta atenção. Ao se liberar de todos os dispositivos e obrigações, seu organismo vai fazer com que você pense de outra forma, e terá insights até mesmo nessa primeira hora. AS THINK WEEKS DE BILL GATES Há muito tempo, o fundador da Microsoft e grande �lantropo do Vale do Silício reconhece que duas vezes por ano tira uma “semana de re�exão” em um lugar afastado da civilização. Esses retiros, embora muito mais breves que um ano sabático, lhe permitem re�etir sobre o futuro da tecnologia e gerar novas ideias para sua empresa, assim como para suas obras sociais. Esses retiros de sete dias implicam, logicamente, passar muito tempo sozinho, já que nesse período corta qualquer contato com sua família e seus colaboradores, e conta apenas com uma pessoa que deixa em sua porta duas refeições simples por dia. Bill aproveita a think week para ler livros, tomar notas, re�etir e projetar novas iniciativas. Na única vez que um jornalista teve acesso a esse refúgio do magnata da tecnologia, ele pôde fotografar estantes repletas de grandes livros, um retrato de Victor Hugo na parede, uma geladeira pequena cheia de refrigerantes sem açúcar e muitas pastas de cor laranja para fazer anotações. WU WEI E DESCOMPRESSÃO Muitos milênios antes que os holandeses falassem do niksen, os �lósofos chineses já louvavam o Wu Wei, a arte taoísta da “não ação”, como se costuma traduzir. Especialmente em momentos de grande caos ou tensão, nos quais qualquer iniciativa só pode piorar as coisas, o Wu Wei recomenda não forçar nada e esperar que o vendaval passe para pensar com clareza. Os taoístas davam como exemplo as plantas, que crescem sem esforço e de forma imperceptível, sem se precipitar. Um conto tradicional para ilustrar esse conceito tem como protagonista um devoto muito conhecido por seu zelo e dedicação. Ele meditava dia e noite À no templo, sem parar nem para comer ou dormir. À medida que o tempo passava, ele foi emagrecendo e se esgotando cada vez mais. O mestre do templo aconselhou a ele que caminhasse lentamente e que cuidasse mais de si mesmo. Mas o devoto não lhe deu ouvidos. — Por que corre tanto, que pressa você tem? — perguntou o mestre. — Procuro o conhecimento — respondeu o devoto. — Não posso perder tempo. — E como você sabe — perguntou o mestre — que o conhecimento está a sua frente, e que você precisa correr tão depressa atrás dele? Talvez ele esteja atrás de você, e tudo de que precisa para encontrá-lo é �car quieto. Apesar disso, você está se afastando. Essa é a essência do Wu Wei. UM POUCO DE SÍNTESE “Não fazer nada”, na medida certa, pode ser a atividade mais produtiva de nossa semana. Para os viciados em atividade, “parar as máquinas” signi�ca a princípio sair da zona de conforto. Toda pausa bem-feita é ativa, porque traz resultados bené�cos posteriores. Embora não possamos nos permitir um ano sabático, uma think week ou mesmo uma caminhada de meia hora podem fazer milagres. Em momentos de caos e confusão, a “não ação” costuma ser o melhor remédio. NOVOS HÁBITOS PARA VIVER COM TIME MINDFULNESS A FELICIDADE É UM ANIMAL DE HÁBITOS Os hábitos estão estreitamente ligados ao tempo, já que determinam o uso que fazemos dele. Um fumante, por exemplo, precisa abandonar o posto de trabalho várias vezes por dia para fumar. Tudo isso somado é uma perda de tempo, além das consequências que tem para a saúde. Por isso, ninguém dirá que fuma de forma habitual em uma entrevista de emprego. Esse é apenas um exemplo muito simples de até que ponto nossos costumes condicionam nossa vida, e de por que substituir os perniciosos por outros positivos resultará em mais tempo de qualidade. SOMOS O QUE FAZEMOS Os hábitos são todas aquelas decisões e ações que realizamos todos os dias, a maioria de forma automática. Muito do que vivemos, desfrutamos ou sofremos é determinado por essas ações que ocupam grande parte de nosso tempo. Nosso estado de saúde, felicidade ou riqueza depende em grande parte de rotinas adquiridas muito tempo atrás e que se fossilizaram em nossa vida. Como tudo o que você faz repetidamente acaba criando a pessoa que você é, adaptamos a frase escrita pelo �lósofo Ludwig Feuerbach em 1850: Somos o que fazemos. Antes de aprofundar esse assunto, vejamos como podemos criar um hábito e, em consequência, como adquirimos os que já temos. Tudo começa por uma atitude simples e muito fácil de assumir, para depois ir voltando a ela. Um hábito implica tempo e repetição até que se executa de forma inconsciente. Uma vez adotado, um costume se torna parte de nós. É algo que fazemos de forma inconsciente, como se estivesse dentro de nossa própria natureza. Por isso, nos desfazer de um hábito é tão difícil como se nos desprendêssemos de uma parte de nossa personalidade. Mais à frente responderemos à pergunta do milhão: por que nos custa tanto? A GRANDEZA DAS PEQUENAS MUDANÇAS James Clear calcula em seu livro que uma melhora de 1% a cada dia signi�ca que você será 37 vezes melhor no �m do ano. Os hábitos agem de forma cumulativa a seu favor ou contra você. Uma pequena conquista de um dia, mantida no tempo, cria valor em longo prazo. Tome como exemplo um avião que voa de Los Angeles a Nova York. Se ele se desviasse 3,5 graus de sua rota inicial, ou seja, menos de 1%, acabaria aterrissando em Washington. É um conceito difícil de apreciar na vida cotidiana. Frequentemente descartamos pequenas mudanças porque não parecem importar muito no momento. Os resultados nunca parecem chegar rapidamente, por isso voltamos a nossas rotinas anteriores. Esse ritmo lento de transformação também facilita que você volte a cair nos velhos hábitos nocivos. Se come uma comida saudável hoje e a balança não se mexe muito, você pode achar que nunca conseguirá perder peso. No caminho, que não é linear, muitas vezes nos desiludimos. Você pode estudar uma língua uma hora por dia e �car desesperado porque parece que não faz progresso. Se vai à academia três dias por semana, depois de um mês você pode não notar nada. Embora o resultado de um dia, uma semana ou um mês possa aparentar ser insigni�cante, ao longo da vida ele é signi�cativo. Um exemplo negativo seria somar calorias extras diariamente. Segundo um estudo realizado pelo Journal of the American Medical Association,um excesso de 370 calorias signi�ca aumentar 16 quilos em 28 anos. SUBSTITUA E VOCÊ VENCERÁ Então é possível mudar? Claro, mas com paciência e esforço. Segundo James Clear, o autor de Hábitos atômicos, ao qual já nos referimos, os maus hábitos são consequência do tédio e do estresse, desde roer as unhas até perder horas na internet. A forma de nos livrarmos deles, como já anunciei dois capítulos atrás, é substituindo um hábito por outro mais saudável, não o eliminando, porque cada um tem uma razão de ser. Cada uma dessas rotinas satisfaz uma necessidade de nossa vida; por isso devem ser substituídas por outras mais saudáveis. Tudo o que fazemos comporta algum tipo de benefício, por menor que seja: por exemplo, checar constantemente os e-mails nos mantém conectados com os outros, embora detone nossa produtividade. Esse mesmo autor propõe um plano de ação para trocar os maus hábitos por outros melhores: . E . Se cada hábito cobre uma necessidade, você precisará encontrar sua versão saudável para substituí-lo. Por exemplo, morder uma cenoura fresca no lugar de fumar ou comer chocolate de forma compulsiva. . E . Sempre há um gatilho que dispara o hábito. No caso do tabagismo, um deles pode ser o encontro com outros fumantes. Pelo menos em uma primeira fase, deve-se evitar sua presença na medida do possível. . J . Sempre haverá alguém disposto a deixar um costume nocivo, e é melhor e mais divertido celebrar as conquistas acompanhado. . C- . Não abandone seus velhos amigos, mas permita-se fazer novos que tenham esses hábitos que você admira. Como dizia o conferencista Jim Rohn: “Você é a média das cinco pessoas com as que passa mais tempo.” . V . Construa essa nova identidade em sua mente para que a sinta como natural quando se tornar realidade. Assim não será um choque tão grande. . N , . Houve um momento que não praticávamos esse hábito prejudicial, por isso precisamos apenas voltar a ser o que éramos antes. . P- . Todo mundo, até os gênios, fracassa algumas — ou muitas — vezes antes de alcançar seu objetivo. Todos nós podemos mudar se avançamos com paciência, procurando nos mover cada dia na mesma direção. Cada passo nos aproxima um pouco mais de nossa meta, porque como disse já no século XIX o dramaturgo Charles Reade: Semeie um ato e colherá um hábito. Semeie um hábito e colherá um caráter. Semeie um caráter e colherá um destino. POR QUE É TÃO DIFÍCIL MUDAR? Quase todo mundo estabelece novos propósitos para si mesmo com o �m de um ano e o início do novo, mas a taxa de sucesso é realmente baixa: menos de 10% conseguem fazer o que tinham proposto, segundo a maioria das estatísticas. A que se deve isso? Jory Mackay, editor do blog Rescue Time, assinala os erros mais comuns que fazem com que as tentativas de revolução pessoal fracassem: F . É contraproducente botar toda nossa energia na procura do caminho mais rápido para nosso objetivo, em vez de começar aos poucos e desenvolver os bons hábitos. A . Quando você está desenvolvendo bons hábitos, ter metas demais lhe dá uma desculpa fácil para adiar os comportamentos que está tentando converter em rotina. A . A procrastinação não apenas nos impede de avançar de forma signi�cativa, ela pode frustrar totalmente a implementação de novos costumes. C -, . Quando você estabelece um prazo limite para implementar o novo hábito, prepara o terreno para o fracasso e a decepção se não o cumpre. É muito melhor se comprometer com um horário, com uma rotina. Por exemplo: fazer exercício nas segundas, quartas e sextas. Ou escrever quinhentas palavras por dia do livro que você tem em mãos. N . Para construir um hábito sólido e duradouro, o cérebro precisa esperar e antecipar a recompensa. Qualquer que seja sua recompensa, seja a avalanche de endor�nas do exercício ou o orgulho de publicar, pense nela com regularidade para manter a motivação e a emoção. A ROTINA DE UM GÊNIO DO VIOLINO Muitos consideram Jascha Heifetz como o maior violinista que já existiu. Nascido em 1901, o menino prodígio russo percorreu grande parte da Europa em sua adolescência. Ao chegar a Nova York com 17 anos, se converteu em sensação depois de sua estreia no Carnegie Hall nesse mesmo ano. Heifetz ensaiava vigorosamente para manter seu nível em todas as atuações. Uma vez ele disse: “Se não ensaio um dia, eu sei; dois dias, os críticos sabem; três dias, o público sabe.” Até alguém com o talento extraordinário de Heifetz precisava do poder do hábito constante para manter sua forma de tocar o violino. CIRURGIA DOS HÁBITOS Como estamos vendo, a criação ou transformação de um hábito não é algo rápido, mas está baseado na rotina e precisa de seu tempo. A pergunta é: quanto tempo deve se passar desde que começamos a incorporar um costume até que ele se converta quase em um ato re�exo, algo que fazemos sem pensar? Durante muitas décadas considerou-se válida a posição do dr. Walter Maltz, um cirurgião plástico norte-americano que �cou famoso nos anos 1950. Ele observou que, quando fazia uma operação, os pacientes levavam cerca de 21 dias para assimilar seu novo corpo: por exemplo, durante três semanas, os pacientes amputados continuavam sentindo um membro inexistente. Isso fez com que o dr. Maltz determinasse o tempo que demoramos para assimilar uma nova situação, e ele situou esse processo no umbral dos 21 dias. Ele botou esse descobrimento por escrito em seu livro Psicocibernética, publicado em 1960, no qual dizia que para dissolver uma velha imagem e assimilar uma nova leva-se um mínimo de 21 dias. O livro foi um sucesso de vendas, com mais de trinta milhões de exemplares vendidos, o que levou o grande público a assimilar essa ideia. O fato de Maltz se cercar nas décadas seguintes de gurus da autoajuda como Zig Ziglar ou Tony Robbins ajudou a consolidá-la. Repetiu-se, então, até o esgotamento, que os humanos eram capazes de mudar seus hábitos e sua vida em apenas três semanas. Quem não ia querer modelar a si mesmo em apenas três semanas com resultados visíveis para toda a vida? Assim, essa ideia tão atraente se espalhou para o mundo. E como uma pseudoverdade repetida mil vezes se transforma em verdade, todo mundo acreditou nisso. ENTÃO QUANTO TEMPO LEVA PARA MUDAR UM HÁBITO? No ano de 2010, a dra. Phillippa Lally, depois de coordenar uma equipe de pesquisadores, publicou um estudo chamado How are habits formed: modeling habit formation in the real world na revista European Journal of Social Psychology. Esse estudo contou com 96 participantes que, durante 12 semanas, escolheram um comportamento relacionado com alimentação ou bebida saudável ou com um determinado exercício que desejavam converter em hábito. Entre essas atitudes desejáveis estavam: comer fruta nas refeições, beber uma garrafa de água no almoço ou correr 15 minutos antes do jantar. Eles teriam de realizar a ação selecionada durante 84 dias e informar até que ponto haviam sentido que ela estava automatizada, o que indicaria a força do hábito criado. Partindo da hipótese de que a repetição seria a chave para a formação do hábito escolhido, depois de analisar os dados foram obtidos resultados bem distantes dos propostos em 1960 por Walter Maltz. Os resultados foram que a média para automatizar um hábito é de 66 dias, variando de acordo com cada indivíduo entre picos extremos de 18 e 254 dias. Isso deixa os resultados longe dos propostos por Maltz, passando de 21 dias para 66 a �m de que o ato se torne natural. É um aumento considerável, de três semanas para mais de dois meses, se ocupamos a parte média do espectro, mas o que são dois meses para mudar uma vida? Proponho que você experimente consigomesmo e que determine um hábito bené�co que deseja incorporar a sua vida. Anote os dias seguidos dos quais precisará para que ele se converta em parte de você, e saberá do quanto precisa para dar a forma desejada a sua vida. OS OUTROS Quando você necessita de uma motivação extra para ser constante com um hábito ou conseguir um determinado objetivo, use a ajuda do poder dos outros. Já que somos seres sociais, vamos usar essa pressão de forma positiva. É fácil criar desculpas ou inventar explicações quando só as devemos a nós mesmos, mas, ao me comprometer com outra pessoa, será mais difícil quebrar a promessa. Procure alguém em quem você con�e, que também admire e valorize. Pode ser seu parceiro, um amigo, um colega de trabalho, alguém com quem você não quer falhar, a quem você não vai querer confessar que �cou no sofá ou explicar por que não fez progressos. Alguém a quem deseje demonstrar que pode con�ar em você e que você sabe que vai apoiá-lo e animá-lo quando fraquejar, que falará de forma clara com você e não vai abandoná-lo facilmente. Assim comecei a meditar diariamente com minha amiga Leticia; nós duas nos comprometemos a fazer isso por algum tempo, e nos dias em que �quei tentada a pular a sessão, pensava nela e em alguns segundos já estava sentada. Você pode até tornar isso público em suas redes ou usar sites como o www.stickk.com, uma plataforma na qual você estabelece online seu http://www.stickk.com/ compromisso e encontra apoio da comunidade. Além disso ela inclui a possibilidade de uma punição econômica, dinheiro que você pode doar para uma pessoa diretamente ou para uma ONG. UM POUCO DE SÍNTESE A maioria dos hábitos é ativada de forma automática, sem que tenhamos consciência disso. Quando fazemos algo diariamente, não vemos o resultado de forma imediata, mas com o passar do tempo vamos conseguir uma grande mudança. Um mau hábito deve ser substituído por outro com características positivas, já que ele obedece a uma necessidade. Atualmente sabe-se que mudar um hábito pode levar em média 66 dias, não três semanas como se acreditava antes. Ter de responder a outras pessoas que admiramos vai nos motivar a incorporar um hábito em nossa vida. SUA AGENDA TIME MINDFULNESS SUA MELHOR ALIADA Agora que nos aproximamos do �nal, com tudo o que aprendemos vamos criar uma agenda sob medida, alinhada com nossas prioridades e não segundo as exigências dos outros. Vamos nos assegurar de que tudo o que é importante para nós tenha um tempo determinado, não só as atividades que ajudarão a cumprir nossos objetivos materiais, mas também aquelas que farão com que nos sintamos satisfeitos e em paz no �m do dia. Sua agenda TM será sua melhor aliada, porque seu trem viajará nos trilhos até seu destino. Parece bom demais? Basta tomar consciência de que seu tempo é seu. Pare de vê-lo como algo etéreo e intangível. Você precisa respeitá-lo e protegê-lo como ele merece. O empresário e escritor Charles Buxton alertava: “Você nunca encontrará tempo para nada. Você deve criá-lo.” Se você quer que alguma coisa aconteça, ela tem de estar em sua agenda. O que não está nela não existe. ANTES DE COMEÇAR Cada um de nós é diferente, e nossa agenda será re�exo de nossa personalidade e da etapa da vida em que nos encontramos. Talvez a enchamos de compromissos, lembretes de compromissos, cores e desenhos; ou talvez ela esteja praticamente vazia. Qualquer opção será adequada se for consciente e escolhida por você. Antes de começar, é bom levar em conta as seguintes considerações: D . Os dois têm vantagens e inconvenientes. Vai depender de sua preferência e também de suas necessidades, se você trabalha em um único lugar ou tem de compartilhá-la. Considerando que há apenas uma vida, . Mesmo quando você não tem uma jornada �exível, os limites sempre são difusos. Planeje também as tarefas de casa e as compras. A . Marque não apenas o horário de início, mas também o de �nalização. Ser realista com o tempo e calcular com precisão quanto vai durar uma tarefa é uma das habilidades mais necessárias para uma boa gestão da agenda. O tracking do seu tempo fornecerá muitas pistas, preste atenção a partir de agora. Enquanto não o dominar, é melhor calcular por excesso. Leve em conta que . Graças a esses parênteses — limpar sua mesa e organizar documentos não leva mais de três minutos — você vai fazer uma coisa fundamental: terminar uma coisa e guardá-la no lugar antes de começar a seguinte. Ver as redes sociais não vale como transição. C com um pouco de folga e aproveite-os para fazer algo a mais, sempre de forma consciente, mesmo que seja não fazer nada. D 15 . Cada minuto conta, mas uma divisão menor pode levar à confusão. P , . Lembre-se da pausa ativa. Você não é uma máquina, por isso é preciso reservar tempo ao longo do dia para um alongamento rápido, caminhar ou descansar os olhos. Sua capacidade de atenção vai melhorar, não é tempo perdido. A 15 no meio da manhã e da tarde para ter tempo de se reorganizar e ajustar as tarefas. Sempre haverá imprevistos e atividades que saem do controle. R antes de incluí-los na agenda. Tenha sempre em mente viver simplesmente. COMECE COM SEU RITUAL MATUTINO… OU VESPERTINO Você pode achar que a agenda começa pela manhã, mas na verdade tudo começa no momento em que você vai se deitar no dia anterior. Seu ritual no �m do dia, embora não se fale tanto dele, é tão importante quanto o do começo. A qualidade de seu descanso tem benefícios para sua saúde, rendimento físico e mental, ou seja, para seu bem-estar em geral. Programe a hora de se deitar, já vimos os efeitos negativos de não manter horários regulares. Uma temperatura agradável para o quarto e uma luz suave criarão o ambiente adequado. Lembre-se de desconectar qualquer tela algumas horas antes. O telefone é carregado fora do quarto, a roupa de ginástica deve �car ao lado da cama, assim como algo para ler em papel. Levante-se com tempo su�ciente para não começar o dia correndo, para evitar desde a manhã a sensação de falta de tempo. É melhor ir para a cama dez minutos antes que atrasar o despertador em dez minutos e começar o dia se arrastando. De�na seu próprio ritual matutino. Normalmente ele deve incluir exercício, que será mais suave ou intenso de acordo com nossos biorritmos, assim como meditação e um pouco de leitura. Se você tem di�culdade para meditar de manhã, permita-se, pelo menos, dez minutos de re�exão: agradeça por tudo o que conseguiu, por sua família e amigos, por sua saúde, pela casa onde mora, por seu trabalho. E comece a pensar em seus objetivos para esse dia. No lugar de ler as notícias do mundo, se você separou um tempo de leitura, dê preferência para uma leitura motivadora e inspiradora a �m de não começar o dia cheio de negatividade. ALIMENTAÇÃO E EXERCÍCIO Muitas vezes, sua sensação de falta de tempo se deve ao puro esgotamento e à falta de energia. Às vezes nos sentimos cansados só porque estamos levemente desidratados e comemos quando devíamos beber água. Em qualquer caso, deve ser seguida uma alimentação consciente, prestando atenção ao que comemos, com alimentos reais e não processados, e com moderação. Lembre-se dos 80% de que nos falaram os moradores centenários de Ōgimi. Uma dieta equilibrada e saudável, junto com a prática de exercícios, melhora o bem-estar e também a produtividade. Como Wendy Suzuki, professora de neurociências da Universidade de Nova York, explica em seu livro Cérebro ativo, vida feliz, o exercício estimula neurotransmissores como a serotonina, a noradrenalina ou a dopamina, tão importantes para o estado de ânimo. A melhoria no funcionamentodo hipocampo também tem benefícios para a imaginação. Sua equipe de pesquisadores demonstrou que, quando se começa a fazer esportes, isso melhora sua habilidade de concentração e adaptação, e você se torna mais criativo. O combustível que damos a nosso corpo tem a mesma importância. É preciso prestar atenção ao que ele nos pede e não cair na armadilha fácil do açúcar ou de um excesso de cafeína que resultarão em mais cansaço. Isso não signi�ca abrir mão de vez em quando de um �ka, como os suecos chamam a pausa para o café, transformada em toda uma instituição social. É um momento para compartilhar, se conectar e se relacionar com os colegas, durante o qual muitas vezes surgem grandes ideias. INCORPORE SEUS OBJETIVOS À SUA AGENDA Vimos em capítulos anteriores a importância de re�etir sobre quem você quer ser e como você quer viver, e como essa visão pessoal lhe permitirá determinar suas prioridades. Mas devido à nossa falta de atenção, é fácil nos perdermos pelo caminho, e que nossas ações diárias não tenham conexão com o que é essencial. Se quer transformar suas metas em realidade, terá que separá-las e determinar seus objetivos semanal e diariamente. Estabeleça isso em todas as áreas de sua vida que você queira melhorar, não só no trabalho, mas também em relação à saúde, família e amigos. Elas devem ser claras, especí�cas e realistas. Faça todo o possível para cumpri-las, começando por escrevê-las em sua agenda. De�na as atividades que levarão você a alcançá-las e reserve o tempo necessário para elas. Todos os objetivos devem corresponder a atividades. Se você não inclui, pelo menos, uma atividade para cada um deles, não vai cumpri-los e se perderá em distrações que não agregam nada. Aqui você tem alguns exemplos: Q . Isso pode implicar passar mais tempos juntos diariamente para ajudá-los em suas tarefas e envolvê-los nos trabalhos da casa. Por exemplo: cozinhar e jantar juntos em casa seis dias por semana e fazer um plano para toda a família que ocorra ao ar livre durante o �m de semana. Q . Programar juntos uma atividade uma vez por mês, falar por telefone uma vez por semana. Sim, isso também precisa estar na agenda. Anote, como também o dia em que você comprará os ingressos de um show. Lembre-se do anúncio do Ruavieja! Q . Você terá que escolher um lugar onde prestar serviço voluntário uma vez por semana e, por exemplo, doar roupas duas vezes por ano. Q . Esse objetivo vai implicar elaborar relatórios trimestrais de acompanhamento de sua situação. Isso comporta sete informes por semana, que em média levam duas horas cada um, resultando em três horas por dia de trabalho. Depois de determinar as atividades-chave, incorpore o resto das tarefas ao longo do dia. Alterne as que precisam de mais concentração com outras mais leves, deixando as que exigem menos esforço para quando seus níveis de energia estiverem mais baixos, de acordo com seu cronotipo. A TÉCNICA POMODORO Inventada no início dos anos 1990 pelo empresário Francesco Cirillo, essa técnica pode ajudar você a melhorar sua capacidade de atenção e concentração. Sua metodologia é simples: divida o tempo de trabalho em intervalos curtos e cronometrados de 25 minutos (chamados de “Pomodoros” devido ao timer em forma de tomate que Cirillo usava em seus tempos de estudante universitário), separados por breves interrupções de cinco minutos para descanso. E, a cada quatro Pomodoros, tire um descanso mais longo. Assim você treinará seu cérebro a se concentrar por períodos curtos, embora você possa estendê-los de acordo com sua capacidade de concentração. O importante é que não haja distrações durante esses períodos e que você faça descansos regulares. AUTORREFLEXÃO No �m do dia, faça um pequeno exercício de revisão. Faça esta checagem pessoal: — Consegui fazer hoje tudo aquilo ao que me propunha? — Respeitei a diferença entre o trabalho e o descanso? Fiz exercício? O que posso fazer desde a manhã para ser mais e�ciente e ter uma vida mais equilibrada? — Qual é o objetivo número um da manhã? Se você já tem o dia seguinte planejado, revise-o — até vários dias à frente. Determine os ajustes necessários. Você descansará muito melhor e começará seu trabalho sem ter de decidir, sabendo o que precisa fazer. Uma vez por semana, revise o que �cou pendente. Se isso se repetir uma semana após a outra, elimine ou adapte seu objetivo. Tome um pouco de distância para ter uma boa perspectiva de seu progresso e direção, entendendo o que está funcionando e o que não está. Serão cinco minutos com um nítido efeito multiplicador. QUE IMPACTO MEU DIA TEVE EM MIM E NAS OUTRAS PESSOAS? Para o blogueiro Tim Denning, medir unicamente as tarefas que você completou deixa uma sensação de vazio no �m do dia. Por isso, acrescente mais duas perguntas à re�exão: Aprendi algo novo hoje? A maioria das pessoas evita aprender todos os dias e substitui esse hábito de crescimento por distrações vazias. O aprendizado é difícil, e frequentemente entediante, mas permite desenvolver habilidades que levam a novas oportunidades que, de outra forma, não teriam sido possíveis. Ajudei ou inspirei alguém hoje? Sua lista de tarefas pendentes não será lembrada dentro de alguns anos, mas sim o impacto que você teve na vida dos outros. SEJA FLEXÍVEL Embora você tenha seu dia planejado e uma técnica à prova de procrastinadores, sempre ocorrem imprevistos na forma de problemas familiares, doenças, obstruções, atrasos de aviões ou compromissos, visitas inesperadas ou relatórios urgentes. A vida se empenha para estragar seus planos. Quando as coisas não saem como o planejado, uma mente �exível lhe ajudará a aceitar a nova situação sem �car preso na frustração ou no tédio porque alguma coisa não saiu como o esperado. Você poupará muito tempo e energia, mas essa é uma habilidade que deve ser praticada. Não se deve pensar em absolutos; é preciso relativizar, liberar as expectativas e estar aberto à mudança. Usar a criatividade e desenvolver estilos diferentes de trabalho permitirão que você siga economizando tempo em meio à adversidade. Nessas horas em que está jogado no aeroporto com um sinal de wi-� horrível, você pode fazer uma revisão de seus objetivos e detectar o que não está funcionando, terminar o relatório do qual está fugindo há três semanas, incluindo a apresentação em PowerPoint (se você não é membro da APPP), ou aquela publicação em seu blog que sempre o aborrece. Às vezes trata-se de trabalhar em horários alternativos, quando ninguém está fazendo isso. Você perceberá como seu tempo se estica e poderá até tirar dias de folga no meio da semana. Quando fui morar em Londres, reclamava muito se tinha de trabalhar no domingo. Mas com certeza durante a semana os museus, as galerias e as lojas estão menos concorridos, e você pode encontrar preços melhores para tudo. Se você é �exível e positivo, sempre saberá encontrar o lado bom de tudo o que acontece. UM POUCO DE SÍNTESE O tempo não “se encontra”, se cria. Uma agenda TM começa com um bom descanso para iniciar o dia em condições ótimas. O esporte e uma boa alimentação devem ter também seu lugar na agenda, já que afetam a qualidade de nosso tempo. Todo objetivo na agenda deve estar associado a uma atividade concreta. No �m do dia, é muito esclarecedor fazer um exercício de revisão. A �exibilidade permitirá que você transforme qualquer contratempo em uma oportunidade inesperada. AGORA… FAÇA PARA TERMINAR E COMEÇAR A meia-noite é ao mesmo tempo o �nal de um dia e o princípio de outro. Ao longo desses 24 capítulos tivemos a companhia de um relógio muito especial que marcou as horas do primeiro dia de sua nova vida. Aqui termina, e aqui também começa tudo. Compartilhamos ferramentas para transformar sua agenda em sua aliada. Aprendemos a otimizar o tempo com técnicas de produtividade para cumprir nossos objetivos, mas não à custa de nossafelicidade nem deixando de lado nossa saúde ou nossas relações, e sim mantendo o equilíbrio necessário entre alcançar a meta e desfrutar do caminho. Se perdemos esse equilíbrio, sabemos perceber o que acontece e fazer uma parada no caminho para que, a partir da serenidade, surjam soluções criativas que ponham nosso trem novamente em movimento. Entendemos que, prestando atenção e sendo conscientes do valor de cada minuto, podemos identi�car distrações, evitar fugas e encontrar tempo para as coisas verdadeiramente importantes. Agora… faça. Quando estudava li um romance de Michael Ende chamado Momo. Para terminar este livro, quero resgatar um trecho no qual também se fala de um relógio muito especial: Momo percorreu a sala com um olhar e perguntou; — Por isso que você tem tantos relógios? Um para cada homem? — Não, Momo. Esses relógios são apenas uma paixão minha. São apenas reproduções muito imperfeitas de algo que todo homem leva em seu peito. Porque assim como você tem olhos para ver a luz, e ouvidos para ouvir sons, tem um coração para perceber, com ele, o tempo. E todo tempo que não se percebe com o coração está tão perdido quanto as cores do arco-íris para um cego ou o canto de um pássaro para um surdo. Mas, por desgraça, há corações cegos e surdos que não percebem nada, apesar de baterem. Seja qual for o momento da vida em que você se encontre, ele é o momento perfeito, porque também é o único que existe. Seu passado não tem por que de�nir como será sua gestão do tempo no futuro. A partir de agora, com TM, você viverá cada minuto com o coração. UM POUCO DE SÍNTESE O melhor momento para começar sua nova vida é agora. AS 12 LEIS DO TEMPO 1 O . Você pode vender seu tempo em troca de dinheiro ou de coisas, mas nem com todo o ouro do mundo é possível recuperar uma hora perdida. Por isso, ter tempo é um luxo muito maior do que ter o relógio mais caro do mundo. 2 A Embora quando estamos desfrutando intensamente da vida pareça que “o tempo voa”, a experiência permanece para sempre na mente e no coração. Nos dedicar ao que fazemos com a paixão de uma criança, como se fosse a primeira vez, é uma passagem para a eternidade. 3 U Para nos enchermos de ideias e projetos novos, precisamos dar espaço a eles, e isso é impossível se estamos sempre correndo de uma urgência para outra. Uma parada para re�etir e nos inspirar acaba rendendo mais que a ação pela ação. 4 S Sêneca dizia que “nenhum vento é favorável para quem não sabe aonde vai”, e esse é o perigo de viver sem ter nossas prioridades claras. Você pode acabar dilapidando o tempo em coisas secundárias sem dar um sentido profundo a sua existência. 5 O O que identi�camos como “urgente” é importante para os outros, mas não para nós mesmos. É preciso priorizar o que é importante para você. Quem administra seu tempo com sabedoria não se deixa �sgar pelo anzol das urgências. 6 A Há muitas maneiras de procrastinar: alterar os planos da agenda, criar desculpas para não os cumprir, até mesmo nos anestesiarmos com telas em vez de fazer o que devíamos estar fazendo. Amanhã é uma palavra vazia de signi�cado. 7 D As redes sociais, os compromissos desnecessários, as interrupções e outros foragidos saqueiam minutos, horas e dias inteiros sem que às vezes tenhamos consciência. Nossa própria mente, também, quando a enchemos de pensamentos negativos, nos rouba o prazer de viver. 8 M Fazer listas pode ser outra forma de adiar, especialmente quando algo pode ser feito agora mesmo. Viver na ação em vez de na intenção dá valor a cada hora e nos conduz da esperança à experiência. 9 S Possuir muitas coisas materiais, responsabilidades e obrigações é pago com as pulsações da vida, já que isso exige um esforço e vigilância constantes. É preciso “descomplicar” a existência para poder saboreá-la. 10 C “” “” Ser assertivo é preservar o tempo, já que cada coisa que fazemos pelos outros deixamos de fazer para nós mesmos. Sem chegar ao egoísmo, encontrar o equilíbrio entre o serviço ao mundo e o respeito por si mesmo é a chave de um bom uso do tempo. 11 A O multitasking nos proporciona a ilusão de que estamos em muitos lugares, mas na realidade não estamos plenamente em nenhum deles. Além de ser esgotador para a atenção, fazer várias coisas ao mesmo tempo nos impede de nos concentrar no que é verdadeiramente essencial. 12 O Uma hora vivida com plenitude deixa mais marcas que um ano de distrações sem substância. Não importa quanto falta para você viver, mas sim o que fará com seu tempo. BIBLIOGRAFIA Achor, Shaun, La felicidade como ventaja, RBA Libros, 2011. Allen, David, Organízate con e�cacia, Empresa Activa, 2015. Bachrach, Estanislao, Ágilmente, Conecta 2015. 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Seu mapa de prioridades A arte de envelhecer bem 2 – Economize tempo O tracking de seu tempo Os ladrões de tempo O inimigo em casa Do FOMO ao JOMO O fim da procrastinação Resolver, delegar ou eliminar Viva simplesmente Benefícios da vitamina “N” 3 – Multiplique seu tempo A verdadeira produtividade Transforme a tecnologia em sua aliada A bússola dos biorritmos Concentre-se e você vencerá A pausa ativa Novos hábitos para viver com Time Mindfulness Sua agenda Time Mindfulness Agora… faça As 12 leis do tempo Bibliografia Artigos e links de interesse (entre outros mencionados no livro) Ficha técnica