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GESTÃO EDUCACIONAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA Pablo Rodrigo Bes Gestão do currículo e da aprendizagem na escola Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir currículo escolar, articulando-o à Base Nacional Comum Cur- ricular e ao projeto pedagógico. Planejar a gestão do currículo com foco na aprendizagem. Avaliar a relação das aprendizagens com o currículo praticado na escola. Introdução Um dos grandes desafios dos gestores escolares é alinhar a gestão do currículo escolar com os objetivos educacionais contemporâneos, que posicionam a aprendizagem como foco principal e os estudantes, como protagonistas. Para que a gestão curricular seja eficiente, atendendo às políticas públicas curriculares e alcançando os objetivos educacionais, é preciso desenvolver discussões no interior da escola. Os professores e todos os demais membros da comunidade escolar devem se envolver nessas discussões, legitimando e impulsionando as práticas pedagógicas. Neste capítulo, você vai estudar o currículo escolar e verificar como ele se articula com o projeto político-pedagógico (PPP) da escola e com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Você também vai ver como organizar a gestão de um currículo focalizado na aprendizagem. Por fim, vai verificar como o processo de avaliação deve ocorrer para contemplar esse tipo de currículo. O currículo escolar na contemporaneidade O currículo é decisivo para a qualidade educacional e para que haja uma aprendizagem signifi cativa. A palavra “currículo” deriva do termo latino currere, que signifi ca “caminho”, “trajetória”, “percurso a ser realizado”. Nesse sentido, você pode refl etir sobre os caminhos que percorreu durante a sua escolarização. Pense naquilo que foi ensinado a você: como ocorreu esse ensino? Por que ensinaram determinados conteúdos? Quando e como você foi avaliado durante a sua trajetória escolar? Esses questionamentos se relacionam ao conceito de currículo da contemporaneidade. Segundo Moreira e Silva (2001, p. 7), “[...] o currículo é considerado um artefato social e cultural. O currículo transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particula- res”. O conceito de currículo foi sendo ressignificado ao longo das últimas décadas, de acordo com as concepções sociais e as práticas culturais de cada período histórico. Dessa forma, para definir o currículo na atualidade, é preciso conhecer a sua evolução teórica. Observe o Quadro 1, a seguir. Ele mostra as principais teorias do currículo e os elementos que elas contemplam. Fonte: Adaptado de Silva (2016). Teorias Tradicionais Críticas Pós-críticas Discurso predominante Científico Dialético Subjetivo Racionalidade posta em prática Técnica Comunicativa Subjetiva Conceitos e termos mais utilizados Ensino Aprendizagem Avaliação Metodologia Didática Organização Planejamento Eficiência Objetivos Ideologia Reprodução cultural e social Poder Classe social Capitalismo Relações sociais de produção Conscientização Emancipação e libertação Currículo oculto Resistência Identidade Alteridade Diferença Subjetividade Significação e discurso Saber e poder Representação Cultura Gênero Raça Etnia Sexualidade Multiculturalismo Quadro 1. Teorias do currículo Gestão do currículo e da aprendizagem na escola2 As teorias tradicionais do currículo foram as primeiras a surgirem, no início do século XX. Elas foram elaboradas principalmente a partir da obra The curriculum, lançada em 1918 pelo educador americano Franklin John Bobbitt. Nessa obra, o autor associa o currículo com a racionalização dos resultados, utilizando teorias da administração científica empresarial desenvolvidas por Taylor para as indústrias da época. Vem dessa teoria tradicional a concepção que restringe o entendimento de currículo às disciplinas, aos seus conteúdos e à operacionalização deles na escola, com ênfase no ensino. As teorias críticas sobre o currículo surgem ao lado dos movimentos culturais da década de 1960, principalmente na defesa dos grupos minoritários: negros, mulheres, homossexuais, entre outros. Esses grupos se manifestaram fortemente na cultura norte-americana por meio do rock e do movimento hip- pie. A partir dessa época, compreende-se que o currículo escolar se encontra vinculado às ideologias dominantes na sociedade e que deve ter espaço para discutir também as desigualdades sociais existentes. A teoria crítica dos currículos inspirou-se nas obras de Kant, Hegel e Marx. As teorias pós-críticas do currículo, por sua vez, propõem novas análises sobre o papel do currículo escolar. Assim, vão além das questões propostas pelos conceitos marxistas e econômicos, envolvendo outros aspectos impor- tantes, como a constituição das subjetividades dos estudantes, as relações de poder, os discursos e as suas práticas. As teorias críticas do currículo utilizam a expressão “currículo oculto” para de- monstrar que existem muitos elementos que não fazem parte das prescrições curriculares oficiais e que mesmo assim podem ser aprendidos no interior da escola. O currículo oculto se realiza a partir das trocas, das interações realizadas nas relações sociais que se estabelecem entre todos que se inserem na escola, dentro e fora da sala de aula. Um bom exemplo são as atividades que ocorrem no recreio escolar. Você já se perguntou por que elas são tão atrativas, interessantes e prazerosas para os alunos? 3Gestão do currículo e da aprendizagem na escola A partir desse estudo rápido sobre as principais teorias curriculares pre- sentes no sistema educacional brasileiro, é possível conceituar o currículo escolar como o somatório: das disciplinas e dos seus conteúdos; das relações estabelecidas dentro da escola; daquilo que é dito (e não dito) e aprendido com as interações entre professor, alunos e comunidade escolar; da visão de mundo que a escola propõe; do tipo de cidadão que ela pretende formar. Pensar sobre o currículo na atualidade é perceber que ele deve estar em sintonia com o que foi proposto no projeto político-pedagógico da escola. Afinal, esse documento projeta como a escola vai cumprir a sua função social e como vai atuar em sua tarefa de propor as aprendizagens necessárias para formar cidadãos ativos. O PPP deve ser construído pelos gestores escolares de forma democrática, envolvendo todos que fazem parte da comunidade escolar. Ele costuma ser reconhecido como o documento de identidade da instituição de ensino. Veja o que afirma Veiga (1995, p. 12): [...] o projeto político-pedagógico vai além de um simples agrupamento de planos de ensino e de atividades diversas. O projeto não é algo que é construído e em seguida arquivado ou encaminhado às autoridades educacionais como prova do cumprimento de tarefas burocráticas. Ele é construído e vivenciado em todos os momentos por todos os envolvidos com o processo educativo da escola. O PPP inclui as diretrizes pedagógicas da escola, ou seja, a descrição das teorias que fundamentam as práticas cotidianas, das metodologias utilizadas no processo de ensino e aprendizagem, das formas como os conteúdos são ensinados e dos critérios de avaliação. Desse modo, a organização e o pla- nejamento curricular da escola são partes importantes e imprescindíveis do projeto político-pedagógico. Gestão do currículo e da aprendizagem na escola4 O projeto político-pedagógico é um documento que, de acordo com o artigo 12 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN), de 1996, passou a ser exigido das escolas porque está vinculado ao planejamento, à organização e à projeção das suas atividades educacionais. Em 2018, ocorreu a homologação da Base Nacional Comum Curricular para toda a educação básica. A BNCC é um “[...] documento de caráter normativo que define o conjunto orgânicoe progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BRASIL, 2018, documento on-line). Esse documento busca assegurar que todos os estudantes do sistema educacional brasileiro sejam atendidos em seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, que se encontram no Plano Nacional de Educação (2014–2024). A BNCC também serve de “[...] referência nacional para a formulação dos currículos dos sistemas e das redes escolares dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e das propostas pedagógicas das instituições escolares” (BRASIL, 2018, documento on-line). Dessa forma, todas as instituições escolares da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) que fazem parte do sistema educacional brasileiro, sejam elas públicas ou privadas, devem ter os seus projetos político-pedagógicos em consonância com o desenvolvimento das competências e habilidades propostas pela BNCC. A seguir, veja as compe- tências gerais que a BNCC (BRASIL, 2018, documento on-line) propõe que os alunos desenvolvam durante a educação básica. Valorizar e aplicar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital a fim de entender e explicar a realidade, além de continuar aprendendo e colaborando na construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 5Gestão do currículo e da aprendizagem na escola Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer às ciências, investigando, re- fletindo e desenvolvendo análises críticas com imaginação e criatividade, a fim de investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções com base em saberes de diferentes áreas. Valorizar e fruir as manifestações artísticas e culturais locais e mundiais, participando de práticas da produção artístico-cultural. Utilizar diferentes linguagens, além de conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar infor- mações e experiências em diversos contextos. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e co- municação de modo crítico, significativo, reflexivo e ético nas diversas práticas sociais, comunicando-se, acessando e disseminando informa- ções, produzindo conhecimentos, resolvendo problemas e exercendo protagonismo e autoria. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências a fim de entender as relações do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida. Tudo isso com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Argumentar a partir de fatos, dados e informações confiáveis, formu- lando, negociando e defendendo pontos de vista e decisões que respei- tem os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, cuidando de si mesmo, dos outros e do Planeta. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, reconhecendo e lidando com as suas emoções e as dos outros. Colocar em prática a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro, aos direitos humanos e à diversidade de indivíduos e de grupos sociais, sem nenhum tipo de preconceito. Agir com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e deter- minação, fazendo escolhas a partir de princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. Como você pode perceber, a gestão curricular na escola exige que seja contemplada a legislação curricular pertinente, que as escolas cumpram o que determina a BNCC e que persigam junto aos seus estudantes o desen- volvimento de objetivos de aprendizagem que possam torná-los competentes nos conteúdos propostos. Porém, o currículo ainda vai muito além daquilo Gestão do currículo e da aprendizagem na escola6 que é prescrito pelas políticas públicas. Ele deve envolver as questões locais pertinentes, discutidas e validadas pela comunidade escolar, entendendo que a escola produz os sujeitos e que o currículo carrega consigo o poder de construir identidades. A Base Nacional Comum Curricular, ao propor que as aprendizagens escolares desen- volvam determinadas competências nos estudantes, se alinha com os conceitos do mercado empresarial, reforçando ainda mais a racionalidade neoliberal, que hoje é o sistema político que governa a maioria das nações capitalistas. Dessa forma, cabe ao currículo escolar desenvolver a capacidade de crítica dos estudantes também sobre essas questões. Para conhecer mais detalhadamente a BNCC, acesse o link a seguir. https://qrgo.page.link/ZAZK3 Planejamento e gestão curricular com foco na aprendizagem No século XXI, há grande discussão em torno da inovação curricular, prin- cipalmente devido às transformações econômicas, políticas e tecnológicas ocorridas na década de 1990, com o advento da globalização. Essas mudanças reorganizaram a forma de viver em sociedade, uma vez que propuseram uma homogeneização cultural impulsionada pelas tecnologias digitais de informação e comunicação. Além disso, essas modifi cações exigiram que a população se tornasse mais fl exível e adaptável aos novos tempos, para que pudesse acompanhar a dinamicidade do mercado. Por isso, a educação precisou desenvolver sujeitos capazes de aprender constantemente, exercitando as competências técnicas materiais (saber fazer) e as imateriais (saber relacionar-se com os outros, ter criatividade, inteligência emocional, etc). Morán (2015, documento on-line) acredita que “[...] a educa- ção formal está num impasse diante de tantas mudanças na sociedade: como evoluir para tornar-se relevante e conseguir que todos aprendam de forma competente a conhecer, a construir seus projetos de vida e a conviver com os demais?”. Você deve estar se perguntando: mas o que tudo isso tem a ver 7Gestão do currículo e da aprendizagem na escola com o currículo? A relação é significativa: atualmente, promover a inovação curricular implica quebrar a história da própria didática, retirando a ênfase do ensino e transferindo-a para a aprendizagem. Embora possa parecer uma simples mudança, ela é complexa e afeta inú- meros fatores dentro da escola, como a própria função do professor. Para garantir que a aprendizagem se desenvolva, o docente precisa deixar que os estudantes assumam o protagonismo das atividades curriculares. A fim de que isso ocorra, o projeto político-pedagógico da escola deve conter essas premissas norteadoras, propondo que os docentes se aliem em busca de uma aprendizagem significativa, ou seja, que tenha sentido para os estudantes. Ao referir-se aos atributos de uma gestão escolar eficiente, Lück (2009, p. 23) esclarece que: A gestão escolar constitui uma das áreas de atuação profissional na educação destinada a realizar o planejamento, a organização, a liderança, a orientação, a mediação, a coordenação, o monitoramento e a avaliação dos processos necessários à efetividade das ações educacionais orientadas para a promoção da aprendizagem e a formação dos alunos. Como você pode perceber, a construção de um currículo escolar que se baseie na busca pela aprendizagem como processo principal responsável pela forma- ção dos estudantes é uma das grandes atribuições dos gestores escolares em suas ações cotidianas. Para entender melhor o planejamento e a organização curricular inovadora a partir do deslocamento do ensino para a aprendizagem, considere os elementos a seguir, que devem integrar um currículo com foco na aprendizagem: alunos; professores; metodologias ativas; aprendizagem significativa; realidade social; participação; globalização curricular. Uma proposta curricular que pretenda ser inovadora e que tenha o seu foco na aprendizagem deve quebrar antigos paradigmas associados com o currí- culo tradicional. Neste, o foco era o ensino em si, e osalunos ocupavam uma posição passiva e dependente dos conhecimentos repassados pelo professor. Gestão do currículo e da aprendizagem na escola8 Essa configuração foi criticada por inúmeros pesquisadores, entre eles Freire (1996), que criou a metáfora da educação bancária e uma proposta de educação problematizadora e libertadora. Dessa forma, os alunos passam a ser o centro do processo de ensino e aprendizagem; o estudante deve ser o protagonista da busca pelo conhecimento, auxiliado pelo professor sempre que necessário. O professor, por sua vez, precisa atualizar-se, entender que o mundo mudou e que, com as mudanças, as formas de aprender se reorganizaram. Hoje, os conteúdos e as bases de conhecimento são facilmente acessíveis por meio dos múltiplos recursos digitais ao alcance dos estudantes. Isso, contudo, não deve ser encarado como um obstáculo, e sim como uma possibilidade para exercer uma prática pedagógica mais próxima ao universo real dos alunos. Claro que para muitos professores a percepção da necessidade dessa mudança em seu perfil profissional pode ser assustadora e promover resistência. Nesse sentido, Masetto (2011, documento on-line) reforça a necessidade urgente de adaptação dos professores, uma vez que um currículo inovador passa a exigir: [...] uma gestão diferenciada, com valorização da mudança, favorecendo a aprendizagem dos participantes, e do compromisso dos docentes com esse novo projeto, com reorganização de tempo e espaço para aprendizagem, com revisão da infraestrutura para apoio do projeto, com formação continuada dos professores, com investimento em condições favoráveis aos trabalhos dos docentes. Como você pode notar, grande parte do sucesso dessa mudança de ênfase curricular está sobre os ombros dos docentes, que são peças-chave na con- dução das atividades pedagógicas cotidianas. Para que a aprendizagem se torne o centro do processo, os professores devem alterar a forma como veem a educação, o que muitas vezes mexe com a sua formação. Logo, os gestores escolares devem promover espaços de formação continuada que deem suporte aos professores na transição para um modelo curricular mais alinhado às demandas contemporâneas. A busca por uma aprendizagem significativa passa necessariamente pela compreensão, por parte do estudante, dos motivos pelos quais ele deve apren- der determinados conteúdos. Ou seja, ao aprender, é necessário que o aluno perceba como as aprendizagens se conectam com a sua vida diária, com os problemas que enfrenta e percebe cotidianamente. A aprendizagem deve possuir um aspecto sensorial, ou seja, deve permitir que os alunos, por meio de suas emoções, tenham seu interesse e sua motivação despertados. Para que isso ocorra, as metodologias utilizadas em sala de aula também devem ser revistas, propondo que o estudante aja de forma ativa, como participante da 9Gestão do currículo e da aprendizagem na escola busca pela aprendizagem. Dessa forma, o professor deve pesquisar técnicas e ferramentas que possam enriquecer as suas aulas, superando as tradicionais aulas exclusivamente expositivas, em que o diálogo e a interação ficam em segundo plano. Outro aspecto importante e significativo do planejamento curricular diz respeito à participação dos vários componentes da comunidade escolar nas discussões pertinentes ao tipo de sujeito que se pretende formar na escola. Essas discussões encontram seu espaço democrático a partir da construção do projeto político-pedagógico da escola de forma dialogada entre os gestores, professores, demais membros da equipe de funcionários da escola, pais ou responsáveis pelos alunos, comunidade do entorno da escola, entre outros que afetam e são afetados pelas práticas cotidianas da instituição de ensino. Dessa forma, ainda que exista um currículo prescrito, oficial, que deva ser posto em prática na escola de educação básica brasileira, o currículo real, ex- plicitado no dia a dia pelos profissionais da educação deve revestir-se de muito mais riqueza e detalhamento. A ideia é superar as competências requeridas e o desenvolvimento de habilidades enfatizadas pela Base Nacional Comum Curricular, propondo também uma aprendizagem voltada para a vida, para o convívio e para a melhoria do mundo como um todo. Para propor um currículo que contemple essas aprendizagens, é preciso reverter a forma como o ensino tem sido tradicionalmente disposto no interior das escolas. Assim, deve-se perceber os conteúdos disciplinares de forma interligada e complementar, de forma globalizada. Sacristán (2008, p. 47), ao se referir a esse aspecto histórico da organização curricular, faz a seguinte crítica: O discurso em didática sobre a prática escolar se desenvolveu fragmentando o processo global do ensino-aprendizagem. Em primeiro lugar, desligando conteúdos de métodos, ensinos de aprendizagem, fenômenos de aula em relação aos contextos nos quais se produzem, decisões técnico-pedagógicas de decisões políticas e determinantes exteriores à escola e à aula, etc. Em segundo lugar, por depender de determinadas metodologias de pesquisa pouco propensas à compreensão da unidade que se manifesta na prática entre todos estes aspectos. Assim, um currículo que queira oportunizar aprendizagens voltadas para além dos conteúdos escolares, para uma formação reflexiva, crítica, demo- crática, intercultural e cidadã, deve propor aos estudantes metodologias pe- dagógicas diversas. A ideia é que os alunos vislumbrem que tudo aquilo que aprendem na escola está na totalidade, compondo a sua realidade cotidiana. Gestão do currículo e da aprendizagem na escola10 O currículo e o processo de avaliação Uma das atividades que deve ser levada em paralelo, acompanhando as mudan- ças necessárias para a promoção de um currículo com foco na aprendizagem dos estudantes, é o processo de avaliação. Assim, com a mudança da ênfase do ensino para a aprendizagem, é necessário propor uma adequação na forma como serão acompanhadas e monitoradas as aprendizagens dos alunos. Nesse sentido, o ensino continua existindo, porém aliado à aprendizagem do estudante como foco central. A avaliação escolar encontra amparo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Em seu artigo 24, inciso V, essa lei determina que “[...] a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais” (BRASIL, 1996, documento on-line). Ou seja, a avaliação não deve ser somente quantitativa, forma ainda predominante nas escolas brasileiras na atualidade; ela deve envolver também os aspectos qualitativos. Além disso, deve existir ao longo de todo o processo de apren- dizagem, não somente na realização de provas e testes. Ao refletir sobre a importância da avaliação escolar e sobre a sua articulação com o projeto pedagógico das escolas, Luckesi (2011, p. 45) comenta o seguinte: A avaliação da aprendizagem escolar adquire seu sentido na medida em que se articula com um projeto pedagógico e com seu consequente projeto de ensino. A avaliação, tanto no geral quanto no específico da aprendizagem, não possui uma finalidade em si; ela subsidia um curso de ação que visa a construir um resultado previamente definido. A avaliação contribui para que os objetivos propostos no projeto político- -pedagógico da escola sejam constantemente monitorados e avaliados. Assim, fornece indícios aos gestores para que possam corrigir os rumos que a apren- dizagem escolar está tomando. Além disso, a avaliação é importante para que os professores verifiquem se os seus planos de aula de fato promovem as aprendizagens propostas. Haydt (2008) estabelece que a avaliação possui três funções básicas: diagnosticar, controlar e classificar. Ela costuma ser aplicada dentro das escolas de educação básica a partir de três modelos específicos: a avaliaçãodiagnóstica, a somativa e a formativa. Para entender melhor, observe o Quadro 2, a seguir. 11Gestão do currículo e da aprendizagem na escola Fonte: Adaptado de Haydt (2008). Tipo Função Propósito Quando aplicar Diagnóstica Diagnosticar Conhecer os saberes prévios dos alunos para preparar ações que favoreçam novas aprendizagens. Detectar dificuldades específicas de aprendizagem, tentando identificar as suas causas. Início do ano ou semestre letivo, ou no início de uma nova unidade de ensino. Formativa Controlar Constatar se os objetivos foram alcançados pelos alunos. Fornecer dados para aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem. Durante o ano letivo, isto é, ao longo do processo de ensino e aprendizagem. Somativa ou classificatória Classificar Classificar os resultados de aprendizagem alcançados pelos alunos de acordo com os níveis preestabelecidos. Ao final de um ano ou semestre letivo, ou ao final de uma unidade de ensino. Quadro 2. Características das avaliações diagnóstica, formativa e somativa As decisões sobre as tipologias de avaliação que serão utilizadas nas es- colas devem fazer parte das discussões em torno da construção do projeto político-pedagógico da instituição. Afinal, tais decisões se alinham com as tendências pedagógicas e com as teorias curriculares que os professores costumam assumir em suas práticas. Se o docente considera importante que a aprendizagem ocorra de modo significativo, irá promovê-la de forma dialogada e participativa, entendendo que ela deve ser: diagnóstica, para aproveitar os conhecimentos que os estudantes trazem consigo; formativa, para acompanhar a evolução dos estudantes ao longo de todo o processo de ensino e aprendizagem; Gestão do currículo e da aprendizagem na escola12 eventualmente somativa ou classificatória, para quantificar o rendimento alcançado. Dessa forma, os três tipos de avaliação podem ser utilizados pelos profes- sores com foco na avaliação da aprendizagem, uma vez que “[...] uma não é nem pior nem melhor que a outra, elas apenas têm objetivos diferenciados” (FERNANDES et al., 2007, documento on-line). O que deve ser modificado em relação à avaliação na educação básica é a preponderância da avaliação somativa ou classificatória em detrimento de todas as demais, o que empobrece o processo avaliativo e o restringe aos aspectos puramente quantitativos e classificatórios. Ao analisarem a importância da avaliação no contexto curricular da escola, Fernandes et al. (2007, documento on-line) destacam o seguinte: [...] quem avalia, o avaliador, seja ele o professor, o coordenador, o diretor etc., deve realizar a tarefa com a legitimidade técnica que sua formação profissional lhe confere. Entretanto, o professor deve estabelecer e respei- tar princípios e critérios refletidos coletivamente, referenciados no projeto político-pedagógico, na proposta curricular e em suas convicções acerca do papel social que desempenha a educação escolar. Este é o lado da legitimação política do processo de avaliação e que envolve também o coletivo da escola. Os autores reforçam a importância da avaliação e da sua necessária ar- ticulação com os princípios e critérios estabelecidos a partir das reflexões coletivas que deram origem ao projeto político-pedagógico da escola. Além disso, destacam que é preciso contemplar o que está estabelecido na proposta curricular oficial. Assim, a Base Nacional Comum Curricular é fundamental, uma vez que: [...] indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desen- volvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da ci- dadania e do mundo do trabalho), as instituições de ensino deverão avaliar como as competências estão sendo desenvolvidas pelos alunos (BRASIL, 2018, documento on-line). 13Gestão do currículo e da aprendizagem na escola Nesse sentido, para avaliar a aprendizagem de uma competência, são necessárias metodologias que possibilitem entender se os conhecimentos foram de fato aprendidos, o que é verificado a partir das atitudes demons- tradas pelos estudantes. Quanto mais a aprendizagem puder ser praticada, maiores serão as habilidades desenvolvidas pelos estudantes. Dessa forma, para que as escolas da educação básica possam cumprir com as prerrogativas curriculares da BNCC, precisam promover uma aprendizagem ativa e que seja constantemente avaliada, envolvendo os aspectos qualitativos e com ênfase na avaliação formativa. Para entender melhor como a avaliação é importante para que o currículo escolar cumpra as suas finalidades, veja a seguir algumas orientações que a BNCC (BRASIL, 2018) dá às escolas. Contextualizar os conteúdos dos componentes curriculares, definindo modos de apresentá-los, representá-los, exemplificá-los, conectá-los e torná-los significativos — sempre a partir do contexto em que a aprendizagem ocorre. Tomar decisões a respeito da organização interdisciplinar dos componen- tes curriculares e incentivar as equipes escolares a adotarem estratégias mais dinâmicas, interativas e colaborativas de ensino e aprendizagem. Utilizar metodologias e estratégias didático-pedagógicas diversas, com ritmos diferenciados e conteúdos complementares, se necessário. A ideia é verificar as necessidades de diferentes grupos de alunos, considerando suas famílias e culturas de origem, suas comunidades, seus grupos de socialização, etc. Desenvolver e pôr em prática procedimentos para motivar e engajar os alunos. Utilizar avaliações formativas de processo ou de resultado que con- siderem os contextos e as condições de aprendizagem, valendo-se de tais registros para melhorar o desempenho da escola, dos professores e dos alunos. Selecionar, produzir, aplicar e avaliar recursos didáticos e tecnológicos que apoiem o ensino e a aprendizagem. Deixar materiais de orientação à disposição dos professores, além de manter processos permanentes de formação docente, visando ao aperfeiçoamento constante dos processos. Manter processos contínuos de aprendizagem sobre gestão pedagógica e curricular para os demais educadores. Gestão do currículo e da aprendizagem na escola14 Como você pode perceber, a BNCC prescreve as competências e habili- dades a serem aprendidas nas escolas da educação básica de todo o sistema educacional brasileiro. Ao mesmo tempo, ela incentiva que as instituições de ensino personalizem os seus currículos a partir do envolvimento local e do engajamento de todos da comunidade escolar nas discussões concernentes às práticas pedagógicas que proporcionarão a formação dos sujeitos. Essas discussões têm espaço na constituição do projeto político-pedagógico da instituição de ensino, que pode fazer com que as competências de apren- dizagem propostas se articulem com as realidades locais e as suas necessi- dades e características específicas. Para que esse processo de organização, planejamento e implementação de um currículo inovador e globalizado seja eficiente, a avaliação formativa é um instrumento imprescindível. Por meio dela, os gestores escolares podem corrigir os rumos tomados, propondo novos caminhos e adaptações metodológicas sempre que necessário. Considere que um estudante do 5° ano do ensino fundamental apresentou uma dificuldade de aprendizagem na disciplina de língua portuguesa. Essa dificuldade o acompanhou durante todo o ano letivo, fazendo com que não conseguisse atingir as médias esperadas pela professora para que fosse aprovado na disciplina. A professora, então, recomendou a sua reprovação, uma vez que, mesmo realizando os exercícios de recuperação previstos, o aluno não conseguiu a média. Ocorre que esse aluno teveboas notas em todas as demais disciplinas e era considerado por todos os colegas e professores como um líder muito positivo dentro da escola, engajado em tudo o que era proposto e sempre disposto a ajudar. No conselho de classe ao final do ano, a supervisora da escola interveio fazendo a defesa do aluno e, com o PPP da escola em mãos, leu um trecho que dizia que “as avaliações qualitativas deveriam se sobrepor às quantitativas” e que, nesse caso, as avaliações utilizadas pela professora tinham sido quantitativas e classificatórias na sua totalidade, o que deveria ser revisto, levando em consideração os aspectos relacionados à subjetividade do aluno e à sua conduta global ao longo de todo o ano e em todas as disciplinas. A professora ficou um pouco contrariada, mas entendeu que a decisão do conselho de classe deveria ser seguida e, após a votação de todos os gestores e professores, o aluno acabou sendo aprovado para o 6° ano. 15Gestão do currículo e da aprendizagem na escola BRASIL. Lei no. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. 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