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37 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 EDUCAÇÃO INCLUSIVA • Fatores extrínsecos – teratógenos: determinados tipos de irradiações; doenças maternas (problemas viróticos – rubéola, encefalite –, agentes imunológicos, falta de vitaminas, fundamentalmente, da vitamina A); excesso de ingestão de álcool pela mãe durante a gestação; envenenamento por chumbo, encontrado em algumas tintas de parede e colocado na boca por crianças pequenas. 3.1.3 Fatores genéticos Na formação de um novo ser humano, o pai e a mãe do futuro bebê contribuem com 23 cromossomos cada um, e, dessa forma, centenas de genes permanecem na posição certa em cada cromossomo, desempenhando o processo químico exato para produzir um novo ser humano. Algumas vezes, porém, esse processo pode deturpar‑se, ocorrendo anormalidades genéticas e resultando, frequentemente, em aborto espontâneo. Quando não ocorre o aborto e a gravidez ocorre normalmente, muitas vezes, somente no momento do parto é que os pais tomam conhecimento da patologia genética de seu filho. Dois distúrbios genéticos específicos, dos mais de cem já identificados pela comunidade científica, serão aqui mencionados: síndrome de Down e fenilcetonúria. 3.1.3.1 Síndrome de Down Esse termo surgiu com John Langdon Haydon Down, em 1866, que estudou essa anormalidade genética e batizou‑a de “mongolismo”, em virtude da semelhança física que esses sujeitos apresentam em relação à raça mongol. Tal condição leva o sujeito à deficiência mental moderada ou leve, acrescida de vários problemas de audição, formação do esqueleto, hipotonia muscular e coração. A aprendizagem é lenta, assim como suas respostas, por isso a estimulação precoce, bem como o currículo e os programas específicos, podem amenizar os problemas que as crianças apresentam. A causa da síndrome de Down é uma alteração cromossômica que ocorre de forma acidental durante a divisão celular, uma vez que há a presença de 47 cromossomos, em vez de 46. A presença de um cromossomo extra no par 21 é chamada de Trissomia do 21 ou Síndrome de Down. É importante saber o número de células que foram afetadas. Elas podem se apresentar de duas maneiras: global, quando todas as células foram afetadas, e mosaico, quando somente algumas foram afetadas. Nesse segundo caso, o embrião, se chegar até o final, terá os traços morfológicos menos evidentes do que no primeiro caso. Detectar as diferenças entre os casos é importante para a intervenção educacional (GONZÁLEZ, 2007). 3.1.3.2 Fenilcetonúria Outra condição causada por anomalias genéticas é a fenilcetonúria, ou seja, defeito em um único gene, que leva ao retardo mental grave. É a incapacidade que o organismo tem de quebrar uma partícula química, a fenilalanina, que, acumulada em grande quantidade no sangue, resulta em dano severo ao cérebro em formação. Embora seja um distúrbio genético, pode ser prevenida por meio de uma dieta com baixos teores de fenilalanina durante os primeiros anos de desenvolvimento da criança. 38 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 Unidade I 3.1.4 Fatores teratogênicos Relacionados ao ambiente no qual o sujeito vive, podem estar ligados aos distúrbios no desenvolvimento. Alguns exemplos desses fatores são: ingestão de drogas pela mãe durante a gravidez, bem como doenças que possam contrair durante esse período; situações de carência nutricional e alimentar; e doenças que a criança possa adquirir nos primeiros anos de vida. Até o final do século passado, o diagnóstico da síndrome de Down, bem como de outras patologias, só era feito após o nascimento da criança, ou até mais tarde. O desenvolvimento de técnicas diagnósticas permitiu um avanço nessa área e o diagnóstico precoce. • Teste screening bioquímico‑materno antes da gravidez detecta se a mãe é portadora da síndrome. • Ultrassonografia do feto a partir da 16ª semana de gravidez, observando‑se a dobra ou a espessura da nuca. • Aneuploidias fetais e amniocentese: retirada de um pouco do líquido da placenta ou líquido amniótico para biópsia das células do feto encontradas nesse líquido. Assim, logo no início da gravidez, os pais de alto risco podem saber se terão ou não um filho deficiente. Exemplo de aplicação Esses procedimentos médicos podem gerar um problema moral de graves consequências: os pais teriam o direito de interromper a gravidez quando recebem a informação de que terão uma criança deficiente? Faça uma pesquisa sobre a temática e responda a esse questionamento de forma reflexiva e argumentativa. Saiba mais Os filmes a seguir trabalham com a questão da deficiência intelectual: GABY: uma história verdadeira. Direção e produção: Luis Mandoki. EUA: LK‑TEL, 1987. 1 videocassete (110 min). OLEANNA. Direção: David Mamet. EUA: Alpha Filmes, 1994. 1 videocassete. (89 min). O OITAVO dia. Direção: Jaco van Dormael. Produção: Philippe Godeau. Bélgica: Lume Filmes, 1996. 1 DVD (118 min). 39 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 EDUCAÇÃO INCLUSIVA RAIN Man. Direção: Barry Levinson. Produção: Mark Johnson. EUA: United Artists, 1988. 1 videocassete. (133 min). UM ESTRANHO no ninho. Direção: Miloš Forman. Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. EUA: United Artists, 1975. 1 videocassete. (133 min). 3.1.5 Atendimento Educacional Especializado Saber qual deficiência, o que a ocasiona e os sintomas presentes na condição de seu aparecimento não assegura uma melhora no desenvolvimento e na aprendizagem dessas pessoas, uma vez que tais informações apenas delimitam as características presentes em cada um dos quadros clínicos. A identificação do tipo de deficiência é importante, mas não fundamental para a intervenção pedagógica, psicológica e social, já que as ações para a melhora no desenvolvimento global do sujeito partem da avaliação criteriosa de cada uma das áreas mencionadas. Assim, a falta de diagnóstico clínico não pode ser empecilho para o desenvolvimento de práticas vinculando as áreas psicológicas, educativas e sociais que assegurem o melhor desenvolvimento do sujeito. A oferta de atendimento educacional especializado aos que necessitam impôs como obrigatoriedade um repensar das funções de cada um dos docentes envolvidos no processo de aprendizagem daqueles com necessidades educacionais especiais. Isso porque houve a necessidade de pensar o que é próprio do atendimento educacional especializado e o que é de responsabilidade da escola regular, delimitando, em consequência, a função de cada um desses serviços, mas não se esquecendo de que estes trabalham de forma conjunta na busca de um mesmo objetivo, que é assegurar a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos. Durante algum tempo, pensou‑se que o melhor caminho para fazer os deficientes intelectuais aprenderem seria a priorização de aprendizagens pautadas pelo conhecimento prático e concreto. Contudo, essa prática nega a possibilidade de essas pessoas conseguirem raciocinar e pensar no plano abstrato. Não queremos dizer com isso que não se deva trabalhar com o concreto, mas não podemos utilizar somente essa estratégia para garantir a aprendizagem, pois a apropriação, pelos alunos, do conhecimento instituído historicamente não se faz apenas por meio de práticas, mas também de abstrações que farão o sujeito superar o conhecimento do senso comum, em uma aprendizagem acadêmica e científica. O perigo desse equívoco é empobrecer cada vez mais a condição de as pessoas com deficiência mental lidarem com o pensamento, raciocinarem, utilizarem a capacidade de descobrir o que é visível e preverem o invisível, criarem e inovarem, enfim, terem acesso a tudo o que é próprio da ação de conhecer (BRASIL, 2007a, p. 20‑1). 40 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 Unidade I O atendimento educacional especializado trabalhará com conhecimentos que são diferentes daqueles desenvolvidosna escola regular, contudo fundamentais na superação das dificuldades impostas pela deficiência. Esse tipo de atendimento tem por função superar os limites das pessoas com necessidades educacionais especiais. No que se refere às pessoas com deficiência intelectual, a acessibilidade do conhecimento não depende de suportes externos, como o Braille, a comunicação alternativa etc., adotados exclusivamente para dar conta das especificidades das pessoas com deficiências visual e física, mas da retirada de uma condição passiva diante do conhecimento para uma apropriação ativa do saber. Já no caso específico da leitura e da escrita, o atendimento educacional especializado não deverá sistematizar e ensinar as noções dessas áreas, como é o foco da escola regular, mas buscar conhecimentos que deem subsídios ao aluno para que ele conquiste a competência da leitura e da escrita na escola regular. O atendimento educacional especializado tem por objetivo fazer o aluno sair da condição de não saber e não querer saber para a de querer saber. Para isso, é necessária a atividade intelectual de abstração, que se resume em ações práticas no nível do pensamento. Quando o aluno traz a sua vivência para a sala de aula e consegue posicionar‑se diante dela de forma autônoma, migra de uma situação de passividade diante do conhecimento para a posição de questionamento e de tomada de posição quanto a uma determinada situação. A partir do momento em que o aluno consegue sair da condição de indiferença em relação ao que o rodeia, ele passa a ter condições de identificar as dificuldades encontradas na resolução dos problemas e, na tentativa de resolvê‑los, busca novos caminhos e saberes que serão incorporados aos já adquiridos. 3.2 O aluno com deficiência visual 3.2.1 Os olhos Os olhos, órgãos da visão, estão alojados nas cavidades orbitárias, que lhes dão proteção e os mantêm próximos ao sistema nervoso central, de que são verdadeiros prolongamentos exteriorizados. Possuem forma esférica, o que lhes garante maior mobilidade. O globo ocular é formado por três envoltórios: • Esclera ou esclerótica: membrana mais externa e mais resistente do globo ocular. É o chamado “branco do olho”; sua parte anterior torna‑se fina, transparente e delicada, formando uma saliência que constitui a córnea, a qual permite a entrada de luz no olho. • Coroide: é uma membrana intermediária, rica em vasos sanguíneos e pigmentos. Em sua parte anterior, torna‑se visível pela transparência da córnea. Tal área recebe o nome de íris 41 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 EDUCAÇÃO INCLUSIVA – responsável pela cor dos olhos. No centro da íris há um orifício chamado pupila, conhecido como “menina do olho”, que tem como função controlar a quantidade de luz no globo ocular. A luz que chega aos olhos sofre refração ao passar pela córnea, por um líquido claro (humor aquoso), por uma lente gelatinosa (cristalino) e por um líquido bastante viscoso (humor vítreo). Esse conjunto funciona como um sistema de lentes convergentes que forma uma imagem na parte sensível do olho: a retina. • Retina: membrana interna do globo ocular composta por neurônios especializados; na parte posterior, apresenta uma pequena depressão, próxima ao nervo ótico, denominada mácula, região mais sensível à luz e por onde as imagens são vistas com maior nitidez. As células fotossensíveis são de dois tipos: cones e bastonetes. Os cones percebem as radiações luminosas, diferenciando as cores; os bastonetes também percebem as radiações, mas não distinguem as cores – captam imagens mesmo com pouca luz, sendo importantes para a visão na obscuridade. Estruturas auxiliares do olho: • Pálpebras: são duas pregas móveis, uma superior e outra inferior, que protegem o globo ocular contra impurezas, traumas etc.; ao se fecharem, possibilitam ao globo ocular o descanso, impedindo a entrada de luz; espalham as lágrimas na frente do olho, lubrificando‑o. As pálpebras e a esclera são revestidas por uma membrana fina e transparente chamada conjuntiva. • Cílios: são pelos distribuídos nas margens das pálpebras, que protegem o globo ocular de agentes agressores. • Glândulas lacrimais: órgãos responsáveis pela produção de lágrimas. A lágrima facilita o deslizamento das pálpebras e promove a remoção de impurezas e germes, além de participar da nutrição e oxigenação da córnea. • Sobrancelhas: pelos dispostos na margem superior de cada órbita, protegendo o globo ocular do suor. • Músculos motores: são os músculos reto superior, reto inferior, reto lateral, reto medial, oblíquo superior e oblíquo inferior, que permitem ao globo ocular movimentos em várias direções. Os raios de luz refletidos de um objeto entram nos nossos olhos, atravessam as estruturas oculares – a córnea, a pupila, os humores, o cristalino – e chegam ao fundo do olho, até a retina, onde existem células sensíveis à luz. A imagem transformada em impulsos nervosos é enviada através do nervo óptico ao cérebro, no qual as informações (cor, forma, tamanho e posição) são “interpretadas”, fazendo a imagem do objeto em foco ser vista na posição correta. 42 Re vi sã o: J ul ia na - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 14 -0 8- 20 13 Unidade I 3.2.2 Saúde visual Todos têm na família ou pelo menos conhecem alguém que usa óculos. Geralmente, pensamos logo em nossos avós, pois a maioria dos idosos tem dificuldade para enxergar. Entretanto, problemas de visão podem ocorrer na infância e na adolescência. Pesquisas revelam que uma em cada cinco crianças em idade escolar sofre de problemas de visão. Uma criança não tem como comparar se está enxergando bem ou não e dificilmente vai se queixar, o que pode trazer sérios problemas para o aprendizado e a saúde. Os sintomas podem ser: • dificuldade de leitura: ao ler um livro, preste atenção se precisa aproximá‑lo dos olhos ou se é necessário afastá‑lo. Observe se as letras ficam meio embaçadas, como se houvesse uma nuvem de fumaça sobre seus olhos; • piscamento: observe se você pisca muitas vezes ao focalizar algum objeto, ou durante a leitura; • sensibilidade exagerada à luz: em ambientes claros, não se consegue abrir os olhos totalmente, os quais, em seguida, começam a lacrimejar; • terçol frequente: é uma inflamação geralmente localizada nas pálpebras, como se fosse uma espinha grande, deixando a região avermelhada e inchada; • dores de cabeça: geralmente durante ou após a leitura, ou ao assistir à televisão; • tonteiras: também são frequentes durante a leitura. 3.2.3 Definição de deficiência visual A deficiência visual é uma perda na área da visão que pode ser do tipo cegueira – total incapacidade para enxergar – ou do tipo deficiência visual – alterações no sistema visual – quando o sujeito perde a acuidade visual, a capacidade de distinguir imagens, requerendo a utilização de prótese. Quando um sujeito não tiver associado outro tipo de incapacidade, além da falta de visão, compensará utilizando seus outros sentidos, por exemplo, o tato, a audição ou o olfato. De acordo com Kirk e Gallagher (2000), podemos identificar três grupos diferentes de problemas na área da visão: (1) cegos, (2) visão parcial e (3) visão reduzida. Os sujeitos cegos tem apenas a percepção da luz ou ausência total dessa percepção e precisam aprender a se comunicar por meio do braile ou de outros meios que não estejam relacionados ao uso direto da visão. Os sujeitos com visão parcial apresentam limitações para ver objetos distantes, mas são capazes de enxergar quando objetos e pessoas estão a pouca distância.