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APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina Objetivos 1. Revisar a anatomofisiologia da mão e do ombro. 2. Compreender a etiologia, epidemiologia, fatores de risco, quadro clínico, diagnóstico e tratamento da síndrome do manguito rotador e da síndrome do túnel do carpo. 3. Discutir os aspectos legais da saúde do trabalhador. Anatomofisiologia Ombro O corpo humano possui 2 cíngulos dos membros superiores que prendem os ossos dos membros superiores ao esqueleto axial. Cada um dos dois cíngulos dos MMSS consiste em uma clavícula e uma escápula. A clavícula é o osso anterior e se articula com o manúbrio do esterno na articulação esternoclavicular. A escápula se articula com a clavícula na articulação acromioclavicular e com o úmero na articulação do ombro. Os cíngulos dos membros superiores não se articulam com a coluna vertebral e são mantidos em posição e estabilizados por um grupo de grandes músculos que se estendem da coluna vertebral e das costelas à escápula. O complexo articular do ombro é composto por 5 articulações, sendo a principal a glenoumeral, a mais móvel. Articulação Glenoumeral: é sinovial do tipo esferoíde, que permite uma grande amplitude de movimentos, porém é menos estável que as outras. É formada pela cabeça do úmero e a cavidade glenoidal da escápula, que acomoda apenas cerca de 1/3 da cabeça do úmero. É a mais móvel do corpo humano. Possibilita flexão, extensão, hiperextensão, abdução, adução, rotação medial, rotação lateral e circundução do braço. Os ligamentos glenoumerais, transverso umeral e coracoumeral fazem parte da membrana fibrosa que circunda a articulação e reforçam a cápsula anterior. O arco coracoacromial é uma estrutura muito importante que contém o ligamento coracoacromial, que impede o deslocamento superior da cabeça do úmero. Além dos ligamentos e da cápsula articular, alguns músculos são responsáveis por manter essas estruturas unidas: o músculo supraespinhal, infraespinhal, redondo menor e subescapular, que juntos formam o manguito rotador. A maior parte da estabilidade da articulação do ombro é conferida pela disposição dos músculos do manguito rotador. Articulação Esternoclavicular: é o único ponto de transmissão de choques do membro superior para o esqueleto axial. APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina É sinovial do tipo selar e dividida em dois compartimentos por um DISCO ARTICULAR (maior durabilidade dessa articulação). Esse disco está fixado aos ligamentos esternoclaviculares anterior e posterior e ao ligamento interclavicular. O ligamento interclavicular se estende de uma clavícula a outra, na extremidade esternal superior, o que torna a articulação muito forte. Articulação Acromioclavicular: é sinovial, plana, formada pela extremidade acromial da clavícula e o acrômio da escápula. A membrana fibrosa reveste a cápsula articular; internamente, é revestida pela membrana sinovial. Essa articulação é reforçada pelo ligamento acromioclavicular, ligamento coracoacromial e pelo ligamento coracoclavicular, que é composto pelo ligamento conoide e trapezoide. Articulação Escapulotorácica: não possui uma classificação própria! Anatomicamente = falsa / biomecânica = muito importante! Possui, entre as superfícies ósseas da escápula e da caixa torácica, um músculo subescapular (que fixa a escápula nas costelas), que não compõe nenhuma classificação de articulações. Define a saúde da articulação glenoumeral. É uma articulação funcional, não é sinovial. É diartrose = permite movimentos amplos, e em várias direções = multiaxial. Articulação Subacromial: não possui classificação própria, sendo um espaço abaixo do acrômio. Representa 90% das lesões que acometem o ombro. É uma articulação funcional e diartrose: permite movimentos amplos (menos que as outras, 10º). Mão A mão é aparte mais distal do esqueleto apendicular superior, formada pelo carpo, metacarpo e falanges, é uma região muito rica em terminações nervosas sensitivas (tato, dor e temperatura). Carpo São 8 ossos do carpo, dispostos em duas fileiras, que deslizam entre si, ampliando os movimentos da articulação do punho. Na fileira proximal, de lateral para medial encontram-se: Escafoide: que apresenta o tubérculo do escafoide; Semilunar: que possui uma forma de lua; Piramidal: osso em forma de pirâmide; Pisiforme: situado na face palmar do piramidal. Na fileira distal do carpo, também de lateral para medial, encontramos: Trapézio: que tem quatro faces; Trapezoide: um osso cuneiforme; Capitato: o maior osso carpal; Hamato: também de formato cuneiforme, que apresenta uma proeminência em gancho na porção anterior, o hámulo do hamato. Metacarpo O metacarpo é constituído por 5 ossos, formando o esqueleto da palma da mão. Esses ossos têm APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina uma base, que se relaciona com os ossos carpais, um corpo e uma cabeça, que se articula com as falanges proximais. Falanges Cada dedo possui três falanges, a proximal, a média e distal, com exceção do primeiro quirodáctilo, que possui apenas a falange proximal e a distal. As falanges, assim como os metacarpos, possuem uma base proximal, um corpo e uma cabeça distal; as proximais são maiores e as terminais, achatadas nas extremidades sob os leitos ungueais. As raízes (ramos anteriores) dos nervos espinais C5- C8 e T1 foram o plexo braquial, que se estende inferior e lateralmente em ambos os lados das últimas quatro vértebras cervicais e da 1ª vértebra torácica. Ele passa acima da 1ª costela, posteriormente à clavícula, e então entra na axila. Esse plexo fornece quase toda a inervação dos ombros e dos MMSS e 5 grandes ramos terminais se originam do plexo braquial: 1) O nervo axilar supre os músculos deltoide e redondo menor; 2) O nervo musculocutâneo inerva os músculos anteriores do braço; 3) O nervo radial supre os músculos da região posterior do braço e do antebraço; 4) O nervo mediano inerva a maioria dos músculos da região antebraquial anterior e alguns músculos da mão; 5) O nervo ulnar supre os músculos anteromediais do antebraço e a maioria dos músculos da mão. O espaço côncavo anterior formado pelo pisiforme e hamato (no lado ulnar) e escafoide e trapézio (no lado radial), com a cobertura superior do retináculo dos músculos flexores (fortes feixes fibrosos de tecido conjuntivo), consiste no túnel do carpo. Os longos tendões dos flexores dos dedos e do polegar, além do nervo mediano, passam pelo túnel do carpo. Então, o túnel do carpo é uma passagem por onde o nervo mediano corre junto com tendões dos músculos flexor longo do polegar, flexor superficial dos dedos e flexor profundo dos dedos, que vão para os dedos desde o antebraço até a palma da mão. Síndrome do Manguito Rotador A dor no ombro constitui a 2ª maior queixa que leva os pacientes a procurar um consultório ortopédico, perdendo apenas para a dor lombar. Dentre as causas de dor no ombro, a maioria é referente às patologias do manguito rotador (MR), destacando-se as roturas dessa estrutura musculotendínea. Em razão da dor e da limitação funcional que causa nos pacientes (o ombro é peça fundamental no posicionamento da mão no espaço), pode acarretar prejuízo nas atividades habituais, esportivas e profissionais. Epidemiologia A rotura do MR tem incidência variável na população, em estudos anatômicos apenas 6% de cadáveres com <60 anos apresentaramlesões nos ombros, enquanto aqueles com mais idade apresentam lesões em 30%. A rotura parcial é mais frequente em indivíduos jovens e a completa, em idosos, por causa do caráter degenerativo. A rotura parcial apresenta o dobro de incidência. Etiopatogenia Aspectos anatômicos: O MR é formado pela confluência dos tendões dos músculos supraespinhal (SE), infraespinhal (IE), redondo APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina menor (RME) e subescapular (SUB). Ele abraça 2/3 da cabeça do úmero como se fosse uma coifa e, além de reforçar a cápsula articular a ele aderente, mantém, dinamicamente, a cabeça do úmero aposta à rasa cavidade glenoide. Não há consenso entre os autores a respeito das causas das patologias do manguito rotador, mas destaca-se: Trauma: o paciente refere que caiu sobre o membro afetado, que sofreu uma luxação glenoumeral traumática, que um estiramento abrupto aconteceu enquanto realizava alguma atividade com os membros elevados, entre outras causas. Obs: É preciso estar atento aos casos de ruptura do MR associada a luxação glenoumeral traumática, especialmente em paciente >40anos. Hipovascularização na inserção músculo supraespinhal; Impacto subacromial primário As roturas do MR podem ser classificadas quanto a duração e etiologia, espessura, extensão e formato da lesão. DURAÇÃO E ETIOLOGIA Roturas agudas ou traumáticas: decorrentes de um evento traumático bem estabelecido. Roturas crônicas ou degenerativas: paciente com longo período de evolução dos sintomas. Extensão aguda de uma rotura crônica: quando um trauma ocorre num ombro já previamente sintomático, com piora clínica. ESPESSURA Rotura pacial: ocorre a rotura sem o comprometimento de toda do tendão e sem comunicação do espaço articular com o subacromial. Pode ser subdividida em: Articular: quando ocorre na superfície inferior do tendão, face articular (é a mais comum) Bursal: superfície superior, face bursal Intrassubstancial (mais rara) EXTENSÃO Pequena (< 1cm); Média (< 3 cm); Grande (< 5 cm) Extensa (> 5 cm) = geralmente 2 ou mais tendões estão rotos. FORMATO DA LESÃO Os formatos são classificados em “V”, “U”, “C” ou “L” Fisiopatologia De acordo com Neer, a lesão dos tendões que recobrem a cabeça umeral é de caráter evolutivo, passando por três estágios. Estágio I: mais comum em jovens devido ao excesso do uso do MMSS no esporte ou trabalho, mas pode ocorrer em qualquer idade, há hemorragia na área do impacto seguida de processo inflamatório e edema local. Nessa fase, pode ser reversível se interrompida a atividade que o desencadeia e instituído tratamento eficiente (medicamento anti-inflamatório e fisioterapia). Estágio II: mais frequente em pacientes entre 25 e 40 anos, ocorre fibrose do tendão que se forma a partir do processo inflamatório e edematoso persistente, como consequência da repetição dos microtraumatismos. O tendão do SE fica APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina espessado, bem como as paredes da bolsa serosa subacromial e eventualmente também o tendão da cabeça longa do bíceps (CLB). Estágio III: Ruptura completa do MR com alterações ósseas típicas ao raio X (esclerose óssea, cistos subcondrais, osteófitos na porção anterior e na articulação acromioclavicular e contato da cabeça do úmero com o acrômio, nos casos de ruptura maciça). Inicia a partir dos 45 a 50 anos e é caracterizado pelas roturas tendíneas e suas consequências. A rotura se inicia, no tendão do SE, a partir da “área crítica”, podendo progredir para os demais tendões Neer enfatiza a importância dos fatores extrínsecos como as principais causas das roturas do MR, sendo representados pela morfologia do desfiladeiro do supraespinal e o excesso de uso do membro superior. Fatores extrínsecos - Morfologia do desfiladeiro do supraespinal: para realizar o movimento de elevação do braço, a cabeça do úmero, os tendões que nela se inserem e as bolsas serosas que a envolvem, deve deslizar harmonicamente sob o arco coracoacromial (acrômio e ligamento coacromial) e sob a articulação acromioclavicular, que formam um verdadeiro teto para o úmero. O contorno e o diâmetro vertical do desfiladeiro dependem do formato e da inclinação do acrômio e do formato da superfície inferior da articulação acromioclavicular. • Acrômios tipos II e III e ângulos de inclinação mais agudos diminuem a luz do desfiladeiro. • O os acromiale, que é a ausência de fusão entre os núcleos de ossificação do acrômio, também pode ser causa do impacto subacromial. Excesso de uso do membro superior O uso forçado das articulações e dos músculos costuma provocar alterações fisiológicas e estruturais que o próprio organismo tem condições de corrigir, se houver tempo e repouso suficientes. Várias causas são responsáveis pelos distúrbios musculares decorrentes da sobrecarga funcional, como: lesões inflamatórias por perturbação do metabolismo do cálcio muscular; alterações por hipóxia; acúmulo de ácido láctico; sobrecarga das fibras musculares do tipo 1 ou alteração do padrão de estimulação gama do músculo. O resultado final será perturbação da força e do sincronismo musculares e, consequentemente, falência dos mecanismos motores e estabilizadores dinâmicos do ombro. Outro fator importante é o estiramento excessivo do MR, dos ligamentos e da cápsula articular aos esforços exagerados e prolongados, que provoca deformações plásticas irreversíveis e lesões estruturais microtraumáticas (microrroturas). Isso pode ocorrer nos ombros de esportistas de alto nível (nadadores, ginastas, tenistas e atletas arremessadores em geral) e principalmente de esportistas amadores, quase sempre menos preparados fisicamente. Fatores intrínsecos hipovascularização tendínea, defendida por Uhthoff, é referente ao envelhecimento biológico do tendão e a características vasculares locais. Envelhecimento biológico dos tendões: é importante para as roturas do MR, uma vez que provoca alterações morfológicas e bioquímicas nos tendões caracterizadas pela diminuição dos tenoblastos, adelgaçamento dos tenócitos e diminuição das organelas citoplasmáticas, além de alteração da matriz colágena, diminuição dos mucopolissacarídeos e do teor aquoso. APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina Vascularização do manguito rotador: quando o braço está em abdução, os vasos do tendão do SE, da superior do tendão do tendão do IE e da CLB estão livres e cheio de sangue, enquanto, com o braço ao lado do corpo, quando os referidos tendões, além de tracionados, ficam comprimidos contra a cabeça do úmero, há neles uma área, centrada no SE e junto ao tubérculo maior, de constante hipovascularidade, onde acontece a degeneração tendínea. Ainda existe controvérsia sobre a patogênese da rotura do MR, e acredita- se que tanto fatores intrínsecos como extrínsecos são responsáveis para que ela ocorra. Tanto em idosos como em esportistas, a maioria delas se inicia pela superfície articular e parecem ser primariamente de origem degenerativa. Estudos demonstraram que a zona crítica de menor vascularização ocorre predominantemente na superfície articular, sendo a superfície bursal mais bem irrigada. Resumo fisiopatologia A lesão inicia, em geral, no tendão supraespinal, nas porções articular e profunda, e progride da parte profunda para a superficial e anterior para posterior, atingindo o músculo infraespinhal. A capacidade de manter a estabilidade glenoumeralé perdida, e ocorre a migração anterior e superior da cabeça umeral. A partir desse momento, o tendão longo do bíceps passa a exercer função estabilizadora da cabeça umeral, tornando-se, aos poucos, espessado e alargado. Com a progressão da lesão, o tendão do subescapular é acometido, assim como o ligamento transverso do úmero, causando luxação medial da porção longa do bíceps, gerando maior instabilidade e progredindo para degeneração articular, denominada cuf tear arthropathy (artrose glenoumeral associada à lesão irreparável do manguito). Uma vez que ocorre a ruptura do tendão, este retrai e, aos poucos, acontece a substituição das fibras musculares por gordura (lipossubstituição ou infiltração gordurosa). Estudos demonstram que, uma vez que ocorre a lipossubstituição e que o padrão anatômico das fibras musculares se altera, o processo é irreversível, mesmo após o reparo da lesão. Quadro clínico A dor é proporcional ao grau de inflamação e necrose do músculo e não ao tamanho da ruptura. Além disso, a dor é melhor suportada de dia, uma vez que o braço em leve abdução e flexão anterior e a ação da gravidade mantém certa “tração” sobre o membro superior, diminuindo o impacto do MR contra o arco coracoacromial. Durante o sono, essa posição do braço não é possível, e a dor pelo estiramento do músculo inflamado ou rompido se instala. A dor pode ser espontânea e aumentar com os movimentos. Costuma ser mais intensa no músculo íntegro ou com ruptura parcial. Quando a ruptura é completa, ocorre o relaxamento das fibras do supraespinal, promovendo a diminuição do quadro doloroso. A dor Pode ser localizada ao redor do ombro ou irradipr-se até a região escapular (origem dos músculos supra e infraespinais) e o cotovelo (representação pelos dermátomos) Creptação é observada pela palpação com dois dedos à frente do acrômio, mostrando as partes moles raspando contra a superfície inferior do acrômio. Pode estar presente nas fases 2 e 3 de Neer. Força muscular: as forças de abdução e rotação externa tendem a estar diminuídas nas lesões totais. Nas lesões parciais e mesmo nas totais pequenas, a força pode estar normal. Contratura (capsulite adesiva): 14% dos casos e deve-se ao processo inflamatório que se instala na cápsula articular e à imobilidade do membro superior determinada pela dor. APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina Tendinite ou ruptura da cabeça longa do bíceps também podem ocorrer. Anamnese Profissão, prática esportiva, tempo de sintomatologia, padrão da dor e limitação funcional devem ser questionados. Além disso, existência de trauma, evolução da dor, presença de dor aos movimentos, período do dia, intermitência da dor e tratamentos instituídos devem ser abordados. Exame físico O exame físico se inicia com a inspeção estática, onde possíveis atrofias musculares podem ser detectadas, especialmente do SE e do IE nas roturas crônicas. Na inspeção dinâmica, é importante observar tanto a amplitude de movimento como o movimento escapulotorácico. O arco de movimento pode estar diminuído globalmente, quando estiver presente o componente doloroso (síndrome do impacto) ou existir capsulite adesiva secundária. Alterações geram desequilíbrios biomecânicos no ombro, propiciando sobrecarga aos músculos do MR, podendo desencadear roturas secundárias. Alguns testes específicos podem apresentar positividade variável, como os testes de impacto de Neer, Hawkins-Kennedy e Yocum. Para avaliação do SE, utiliza-se o teste de Jobe e o teste do supraespinhal: Para o IE, os testes de Patte, do infraespinal e o da cancela; Para avaliação do SUB são empregados o teste de Gerber, o teste do subescapular (abdominal press test)1 e o bear hug test. Exames de imagem Radiografia: avalia sinais sugestivos de impacto e rotura do MR (esclerose, cistos e irregularidades no tubérculo maior, esclerose e presença de osteófito no acrômio). O formato e a espessura do acrômio, a presença de os acromiale e de artrose acromioclavicular também podem ser avaliados. APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina Ressonância magnética: é o exame de escolha para avaliação de possível rotura do MR, já que tem altos índices de especificidade e sensibilidade. Com sua análise, é possível mensurar a lesão (espessura, retração, número de tendões acometidos) e obter informações sobre a qualidade dos ventres musculares do MR (presença de infiltração gordurosa). Tem como vantagem adicional avaliar possíveis lesões associadas intra-articulares. Ultrassonografia: Apresenta especificidade e sensibilidade comparáveis à RM, no entanto, a US tem como desvantagens ser operador- dependente e não poder avaliar as patologias intra-articulares concomitantes. Como vantagem, menor custo e melhor aceitação pelo paciente. Tratamento O tratamento das roturas do MR depende da sua espessura (parcial ou completa), do seu tamanho (extensão), da idade e do tipo de atividade do paciente, não esquecendo que pendências trabalhistas podem interferir no resultado final. Tratamento conservador: é indicado nas roturas parciais e nas roturas completas em pacientes com baixa demanda funcional ou sem condições clinicas para realização da cirurgia. Tem como objetivos combater a dor, restabelecer a amplitude de movimentos e fortalecer a musculatura estabilizadora e depressora da cabeça do úmero. Consiste em: Retirada dos fatores de risco causadores da rotura; Analgesia e medidas anti-inflamatórias: uso de analgésicos simples ou opioides, utilização de antiinflamatórios não hormonais orais e hormonais por via sistêmica (intramuscular), infiltrações do espaço subacromial com corticosteroides, uso de meios fisioterápicos e acupuntura; Restabelecimento da amplitude de movimentos articulares (exercícios passivos e ativos); Fortalecimento do MR para restaurar o mecanismo depressor da cabeça do úmero (exercícios isométricos, isotônicos e de coordenação motora); O tratamento conservador deve ser mantido por, no mínimo,3 meses, podendo se prolongar na dependência da melhora apresentada pelo paciente. Tratamento cirúrgico: é indicado para pacientes nos quais o tratamento conservador não foi efetivo, nas roturas completas do manguito em indivíduos com alta demanda funcional e naquelas de origem aguda/traumática. Pode ser realizado por via aberta ou artroscópica e consiste basicamente nos seguintes procedimentos: Desbridamento intra-articular e subacromial. Descompressão subacromial (DSA): seção do ligamento coracoacromial, acromioplastia anteroinferior, exérese de osteófitos acromioclaviculares. Reparação dos tendões rotos. O resultado final, a longo prazo, obtido com os dois métodos (aberto e artroscópico) é semelhante, entretanto, existe vantagem no método artroscópico pela menor agressão ao deltoide, pela menor morbidade e reabilitação pós-operatória mais rápida. Atualmente, a preferência é pela técnica artroscópica. Síndrome do túnel do carpo O termo neuropatia compressiva refere-se à compressão do nervo periférico por estruturas anatômicas adjacentes em regiões bem conhecidas, como o punho na síndrome do túnel do carpo (é a mais comum!). É mais frequente em mulheres, tem acometimento bilateral em cerca de 50% dos casos e apresenta maior incidência entre as 4ª e 6ª décadas de vida. A gravidade da lesão compressiva do nervo periférico depende de dois fatores: intensidade da pressão e tempo. Pressões a partir de 20-30 mmHg já causam prejuízo na microcirculação neural, e com 80-120mmHg há sua interrupção.Os distúrbios na microcirculação causam um aumento na permeabilidade dos vasos epineurais APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina e endoneurais, levando a edema, com aumento da pressão intrafascicular. Além disso, em pressões de 30 mmHg já ocorre desmielinização, decorrente de necrose e apoptose das células de Schwann. Alterações neurofisiológicas e sintomas de parestesia foram induzidos em voluntários humanos com aplicação de 30 a 40 mmHg de compressão do nervo mediano. O nervo mediano origina-se das cordas medial e lateral do plexo braquial, em seu trajeto para o antebraço, acompanha a artéria braquial entre o tendão do bíceps e o músculo braquial. O nervo interósseo anterior emerge do tronco do mediano na parte distal da fossa antecubital, que, por sua vez, emitirá ramos para o flexor profundo dos dedos (indicador e médio), o flexor longo do polegar e o pronador quadrado. Assim, o nervo mediano segue seu curso no antebraço entre os flexores superficiais e profundos até adentrar no túnel do carpo. A cerca de 4 a 5 cm do punho, o ramo sensitivo cutâneo palmar emerge para suprir a sensibilidade da região palmar radial. Fisiopatologia (mecanismos de infecção) O túnel do carpo é um espaço anatômico na face anterior do punho, constituído no seu assoalho côncavo pelos ossos do carpo, como uma canaleta, e fechado acima pelo forte e inextensível “ligamento carpal transverso”. Pode- se dividir as causas relacionadas ao aparecimento dessa condição fundamentalmente em 3 categorias: Alterações anatômicas nas estruturas ou na configuração do canal carpal; Condições locais (tenossinovites) ou sistêmicas (diabetes, hipotiroidismo, alcoolismo, AR, gravidez) que levem ao edema das estruturas que atravessam o túnel; Esforço ou à ocupação profissional (uso repetitivo das mãos e pulsos, trabalhar com ferramentas vibratórias, extensão e flexão prolongadas do punho, uso das mãos em baixas temperaturas). Manifestações cínicas Os sintomas mais comuns são dor ou parestesia no território do nervo mediano. Esses sintomas normalmente se acentuam durante a noite: a dormência tem característica de ser noturna e, em geral, é o sintoma inicial da patologia. Também pode ocorrer fraqueza nas mãos, história de queda de objetos, alteração da sudorese e da temperatura da mão. É frequente a queixa de coceira na palma da mão. Mais tardiamente, podem ocorrer alterações motoras, como fraqueza de oponência do polegar e hipotrofia tenar por comprometimento do ramo motor do mediano para o músculo abdutor curto do polegar. Diagnóstico No exame físico, pode-se lançar mão de testes provocativos com o teste de Phalen (flexão do punho em 90º por 1-2 minutos), teste de Durkan (compressão manual direta sobre o nervo mediano no punho), sendo considerados positivos caso haja aparecimento dos sintomas de parestesia ou dor. O teste de Phalen invertido é o mesmo teste, porém é realizado com os punhos em extensão máxima, ou seja, em posição de “reza”. O sinal de Tinel, descrito como o aparecimento de “choque” secundário à percussão do nervo e com irradiação para seu território correspondente, também pode estar presente. Os pacientes com suspeita de síndrome do túnel do carpo devem ser avaliados à procura de outras patologias do membro superior (tenossinovites, patologias do ombro) e cervicopatias que podem confundir o diagnóstico ou, como na maioria das vezes, coexistir com o quadro de compressão do nervo mediano, devendo, portanto, ser tratadas paralelamente. A eletroneuromiografia é um excelente exame para ajudar a confirmar a compressão nervosa. Nos casos típicos e de longa duração, não há necessidade desse exame complementar para APG 4 – “OSSOS DO ORIFÍCIO E UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” SÍND. DO MANGUITO ROTADOR E SÍND. DO TÚNEL DO CARPO Magny Emanuele Lima – Medicina estabelecer o diagnóstico. Ele é útil quando se deseja conhecer a intensidade da compressão e na presença de comprometimento motor, assim como para auxiliar na previsão do tratamento cirúrgico. Apesar de ser um exame de alta sensibilidade e especificidade, existe porcentagem de positividade em pacientes assintomáticos (falso-positivo) ou de negatividade (falso-negativo) em indivíduos sintomáticos. Tratamento O tratamento da síndrome do túnel do carpo depende da gravidade dos sintomas e da magnitude da lesão, que por sua vez, é, na maior parte das vezes, tempo dependente. Causas sistêmicas devem ser identificadas e tratadas, como o controle da glicemia. Tratamento conservador: é reservado para os casos mais leves ou recentes (até 6 meses), sem atrofia tenar ou comprometimento importante de sensibilidade ou em situações em que o fator causal da compressão for transitório, como na gravidez. Pode-se utilizar órteses, AINEs (não havendo contraindicação), injeção de corticosteroides do canal carpal, uso oral de vitamina B6, US e alterações posturais e de hábitos. O uso de órteses, mantendo o punho imobilizado em posição neutra, é eficaz nos estágios iniciais, e muitos pacientes apresentam remissão dos sintomas após o tratamento, sem necessidade de intervenção cirúrgica. Tratamento cirúrgico: está reservado para falhas do tratamento conservador e para os casos mais graves. Consiste na descompressão do canal carpal realizada por meio da secção do ligamento carpal transverso. A cirurgia pode ser aberta ou endoscópica. O tratamento cirúrgico tem alto índice de sucesso, no entanto, 1,7 a 3,1% dos pacientes permanecem sintomáticos. Aspectos legais da saúde do trabalhador A Saúde do Trabalhador é o conjunto de atividades do campo da saúde coletiva que se destina, por meio das ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. A Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat) integra as ações de Vigilância em Saúde, com foco na promoção da saúde dos trabalhadores e prevenção de riscos advindos das condições laborais, causadores de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. O trabalho e as condições em que ele é realizado podem constituir fatores determinantes para a ocorrência de doenças, agravos e óbitos. Os riscos ocupacionais, capazes de causar danos à saúde do trabalhador, podem ser classificados em físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, psicossociais, ambientais e mecânicos (de acidentes). A investigação epidemiológica das doenças e dos agravos relacionados ao trabalho – acidentes de trabalho; acidentes com exposição a material biológico; perda auditiva induzida por ruído; dermatoses relacionadas ao trabalho; câncer relacionado ao trabalho; pneumoconioses; transtornos mentais relacionados ao trabalho; e lesão por esforço repetitivo/doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (LER/Dort) – constitui-se uma atividade obrigatória a ser realizada a partir da suspeita do caso ou da informação sobre outros trabalhadores expostos aos mesmos fatores de risco. Deve-se avaliar as circunstâncias da ocorrência da doença ou agravo, assim como a relação com trabalho. Os casos de doenças e de agravos relacionados ao trabalho apresentados anteriormente devem ser notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação após a confirmação da relação com o trabalho, por meio da investigação epidemiológica.