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Antropologia
Responsável pelo Conteúdo:
Prof.ª Dr.ª Andrea Borelli
Prof. Pietro Henrique Delallibera
Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin
Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
Antropologia e Diversidade Étnica I: 
Relativismo Cultural, Diversidade e 
Direitos Humanos
 
 
• Examinar brevemente as raízes do debate entre relativismo e universalismo para compreen­
der este que é um dos problemas mais importantes da Antropologia Contemporânea. Ao final, 
apresentaremos, em linhas gerais, algumas das possíveis respostas para resolver esse impasse;
• Invertigar uma das linhas teóricas que mais ajudaram a romper com a Antropologia Clássica 
e inaugurar a fase moderna da nossa Disciplina e, por outro, o debate em torno dos Direitos 
Humanos e da diversidade cultural é um dos mais atuais das Ciências Humanas, especial­
mente, quando vinculado à questão das identidade (o que seria a Antropologia Clássica na 
visão dos autores?).
OBJETIVOS DE APRENDIZADO 
• O Conceito de Diversidade;
• Universalismo: Um Pouco de História;
• O Relativismo Cultural;
• Diversidade e Direitos Humanos.
UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
Contextualização
Leia atentamente esta notícia publicada no site do jornal Folha de São Paulo:
Garota estuprada nas Maldivas é condenada a cem chibatadas
da BBC Brasil, 26/02/2013
Uma jovem de 15 anos vítima de estupro foi condenada a receber cem chibatadas por 
manter relações sexuais sem ser casada, de acordo com autoridades das Maldivas.
As acusações contra a garota foram feitas no ano passado depois que a polícia in­
vestigou denúncias de que o padrasto a teria estuprado e matado o filho dos dois. 
Ele ainda será julgado.
Promotores, no entanto, dizem que a condenação da garota não tem relação com o 
caso de estupro.
A Anistia Internacional disse que a sentença é “cruel, degradante e desumana”. O go­
verno das Maldivas disse que não concorda com a punição e que tentará mudar a lei.
A porta­voz do tribunal de menores, Zaima Nasheed, disse que a jovem também de­
verá permanecer em um reformatório por oito meses. Ela defendeu a condenação, 
dizendo que a menina cometeu voluntariamente um ato ilegal.
Autoridades locais afirmam que ela será punida quando completar 18 anos, a não 
ser que peça o adiantamento da punição.
O caso nos tribunais teve início depois que a polícia foi chamada para investigar 
o corpo de um bebê morto, que foi encontrado enterrado na ilha de Feydhoo no 
Atol de Shaviyani, norte do país. O padrasto da garota foi acusado de estuprá­la, 
engravidá­la e de matar o bebê. A mãe também é acusada de não denunciar o 
abuso às autoridades.
O sistema judiciário das Maldivas, um arquipélago islâmico com uma população de 
cerca de 400 mil pessoas, tem elementos da sharia (lei islâmica) e do direito britânico.
O pesquisador da Anistia Internacional Ahmed Faiz disse que o açoite é “cruel, de­
gradante e desumano” e pediu que as autoridades abandonem a prática. “Estamos 
muito surpresos que o governo não esteja fazendo nada para anular esse tipo de 
punição, removê­lo totalmente da legislação”. “Esse não é o único caso. Está acon­
tecendo frequentemente ­ no mês passado houve outra garota que foi violentada e 
condenada a chibatadas”, afirmou.
Faiz disse ainda que não sabe quando a sentença do caso anterior foi executada, já 
que as pessoas não querem discutir abertamente a situação.
Nesta Unidade, veremos que o princípio da diversidade cultural, surgido no bojo 
de uma renovação teórica da Antropologia, no início do século XX, é hoje uma ban-
deira defendida em nível internacional. 
Se pudermos afirmar que a valorização da diferença e a crítica à hierarquização 
das culturas já se tornaram praticamente consensuais, seria impossível negar, no 
entanto, alguns problemas suscitados pela questão da diversidade e que merecem a 
atenção de qualquer cientista social. 
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Destacaríamos dois deles, apresentados, ainda hoje, como desafios para a Disci-
plina: os dilemas éticos decorrentes de uma defesa incondicional do relativismo cultu-
ral (relativismo moral) e as dificuldades de se pôr em prática um programa universal 
de Direitos Humanos em consonância com as diferentes tradições culturais.
Para a Antropologia, as especificidades étnico-culturais são extremamente importantes.
Nesse sentido, apesar de não ser algo fácil de fazer, é preciso problematizar o 
relativismo cultural em relação ao relativismo moral. 
“Todo mundo é diferente. Mas são alguns mais diferentes que outros? Podemos dizer que 
essas pessoas aqui têm mais em comum, umas com as outras, do que qualquer uma delas 
tem com aquelas pessoas lá? Afinal, foi assim que sempre fomos ensinados a classificar as 
pessoas em diferentes culturas.” (INGOLD, 2019, p. 21).
Tendo por base a notícia e as questões acima, reflita sobre as leis no nosso país. O que é proi­
bido aqui e em outros países não? O que é permitido aqui e criticado por outros governos?
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
O Conceito de Diversidade
Apesar de ser biologicamente homogênea, estima-se que a espécie humana esteja 
dividida em cerca de seis mil povos, cada um com idiomas, práticas religiosas, modos 
de interação com o ambiente natural, relações de parentesco, organizações políticas 
e estruturas sociais próprias. 
Cada uma dessas Sociedades – vivas e, portanto, dinâmicas – pode, ainda, se 
dividir em agremiações menores, definidas por seu estilo de vida, sua orientação 
sexual, sua ideologia etc. 
A esse mosaico de traços culturais distintos, damos o nome de diversidade. Sua 
importância reside no fato de que a experiência do homem no mundo ao longo de 
seus milênios de história só é rica e potencialmente ilimitada porque há, entre indiví-
duos ou povos inteiros, significativas diferenças.
Ideologia
As ideias parecem muitas vezes resultar de um esforço intelectual, uma simples 
elaboração teórica objetiva e neutra. Frequentemente, a noção de ideologia esteve 
integrada a uma associação científica desconectada das noções de seu tempo. Por­
tanto, muitas vezes usamos essas ideias para “explicar a realidade, sem se perceber 
que são elas que precisam ser explicadas pela realidade social e histórica” se tornan­
do algo não totalmente concreto para as ciências (CHAUÍ, 2012, p. 20­21).
Em linguagem antropológica, existe uma distinção muito clara entre “diferença” e “de­
sigualdade”. O primeiro termo se refere à riqueza de práticas culturais e saberes das So­
ciedades humanas, ou seja, à “diversidade”, e carrega, portanto, um valor positivo, que 
tem como oposto a ideia de homogeneização, padronização, mesmice. Já o segundo 
tem sentido negativo, relacionado à imposição de desvantagens e injustiças. Isso quer 
dizer que situações de “igualdade” e “diferença” podem e devem coexistir.
É importante ter em mente que o conceito de diversidade cultural se refere a um uni­
verso muito mais abrangente e complexo que o das diferenças observáveis. Isso por­
que, admitindo­se que a espécie humana é biologicamente homogênea, as distinções 
entre os povos se revelam sempre construções sociais, ou seja, inexistentes enquanto 
fatos naturais e concretos, mas formadas no plano dos conceitos, das mentalidades, 
das práticas sociais. Logo, a percepção das diferenças entre a minha cultura e as de­
mais só se torna possível quando existe uma ideia mais ou menos acabada daquilo que 
constitui a minha cultura. Para além da constatação dos variados tipos de vestimentas, 
moradias, rituais religiosos, modelos de família etc. que cada povo desenvolve, o con­
ceito de diversidade cultural é uma importante ferramenta para que a Antropologia 
pense a questão da identidade cultural e do autorreconhecimento.
Diversidade Cultural
A luta em defesa da diversidade ganhou um marco histórico em novembro de 2001. 
Naquela data – momento particularmente delicado,já que os Estados Unidos ha­
viam acabado de sofrer os ataques terroristas ao World Trade Center, animados, como 
se sabe, pelo extremismo islâmico – a UNESCO emitiu sua Declaração Universal so-
bre a Diversidade Cultural, documento que estabeleceu diretrizes internacionais 
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para a preservação das manifestações culturais de todos os povos. Nele, lemos que 
a diversidade é um “patrimônio comum da Humanidade”, “tão vital para a espécie 
humana quanto a biodiversidade é para a natureza”. Em uma palavra, a importância 
desse texto reside no fato de que, a partir dele, a proteção da diversidade ganhou o 
respaldo oficial das Nações Unidas.
Artigo 5º. Os direitos culturais, enquadramento propício à diversidade culturaldiversidade cul­
tural. Os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos, os quais são universais, 
indissociáveis e interdependentes. O desenvolvimento de uma diversidade criativa exige a ple­
na realização dos direitos culturais, tal como são definidos no artigo 27º da Declaração Universal 
dos Direitos Humanos e nos artigos 13º e 15º do Pacto Internacional dos Direitos Económicos, 
Sociais e Culturais. Qualquer pessoa deverá poder expressar­se, criar e difundir suas obras na 
língua que desejar e, em particular, na sua língua materna; qualquer pessoa tem direito a uma 
educação e uma formação de qualidade que respeite plenamente sua identidade cultural; qual­
quer pessoa deve poder participar na vida cultural que escolha e exercer as suas próprias práti­
cas culturais, dentro dos limites que impõe o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades 
fundamentais (Trecho da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. p. 3).
Fonte: https://bit.ly/35wvo1Z
Figura 1 – Diversidade religiosa: à esquerda, sacerdote achanti, 
umas das etnias de Gana e, ao lado, missa católica
Fonte: libral.org
Figura 2 
Fonte: Wikimedia Commons
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
Além de ser relevante teoricamente, a Declaração tem o seu sentido prático vital: 
ela lançou diretrizes com as quais todos os países signatários da ONU passaram a 
estar comprometidos, o que garante que governos possam ser objetivamente pres-
sionados a preservar as várias práticas culturais, além de ter facilitado a atuação de 
entidades não governamentais que agem em prol dessa causa.
Da revisão de leis à liberação de verbas destinadas à manutenção de comunidades 
tradicionais: todas essas decisões políticas, muitas vezes com impacto social imedia-
to, ganharam força e respaldo internacional após a assinatura do documento.
A Declaração também afirma que a proteção das diferentes práticas e saberes é 
um “imperativo ético indissociável do respeito à dignidade da pessoa humana”, ou 
seja, que a garantia da diversidade cultural passa a integrar o rol de pré-condições 
necessárias ao pleno exercício dos Direitos Humanos.
Essa ideia suscita um dos problemas centrais da Antropologia contemporânea: 
como efetivar os Direitos Humanos, universais por definição, sem agredir as práticas 
e as concepções morais particulares das diferentes culturas, muitas vezes frontalmen-
te contrárias às noções humanistas típicas do Ocidente?
Nossa Disciplina já engendrou algumas respostas para essa questão, mas, antes 
de examiná-las, é preciso reconstruir as raízes teóricas desse debate.
Universalismo: Um Pouco de História
Na virada do século XV para o XVI, período comumente associado ao início da 
chamada Idade Moderna, a Europa passou por uma série de transformações que mo-
dificaram permanentemente as estruturas políticas, sociais e culturais do Ocidente. 
O Renascimento, a descoberta do “Novo Mundo” (América) e de seus habitantes, 
o pensamento humanista, o resgate da cultura clássica greco-romana, a Reforma e a 
Contrarreforma, o crescente descolamento entre a produção de conhecimento e o saber 
dogmático preservado pela Igreja: todos esses complexos processos históricos ajudaram 
a moldar um conjunto de valores e de modelos de pensamento que compuseram – e, em 
grande medida, ainda compõem – algo que, passados mais de cinco séculos, identifica-
mos genericamente como parte de uma “cultura” ou “tradição” ocidental.
Cultura
As diferenças existentes entre os homens, portanto, não podem ser explicadas em 
termos das limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu 
meio ambiente. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas 
próprias limitações: um animal frágil, [...]. Sem asas, dominou os ares,; sem guelras 
ou membranas próprias, conquistou os mares. Tudo isso porque difere dos outros 
animais por ser o único que possui cultura. Mas que cultura? (LARAIA, , 2018, p. 24). 
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Um bom exemplo de como algumas noções criadas naquele período ainda estão 
vivas no plano das mentalidades é a moderna concepção de “fazer Ciência”. 
Até as décadas finais da Idade Média, um empreendimento intelectual adequado 
era aquele que seguia um método de investigação puramente dedutivo e especulativo. 
Esse modelo se baseava na ideia de que, por meio das operações da razão, e so-
mente delas, seria possível alcançar um conhecimento verdadeiro. 
A Ciência de Laboratório, aquela que testa na prática as Teorias a respeito do 
homem e da natureza, era tida como algo menor, de pouco prestígio, típico dos 
cientistas amadores. 
Foi preciso que pensadores como Francis Bacon (1561-1626), René Descartes 
(1596-1650) e, um pouco mais tarde, Isaac Newton (1643-1727) defendessem o va-
lor do conhecimento empírico para que a experimentação laboratorial e a compro-
vação prática de modelos teóricos se tornassem etapas obrigatórias de praticamente 
todo trabalho científico. 
Essa concepção de Ciência é a mesma que, em linhas gerais, nos acompanha até 
hoje, especialmente, em seu sentido mais coloquial. 
Como visto nas outras unidades, a própria Antropologia é tributária desse mo-
delo, já que desde os seus primórdios considera o trabalho de campo um momento 
imprescindível da investigação.
Exemplos à parte, o que mais nos interessa aqui é assinalar que esse pacote de 
transformações culturais que varreu o Ocidente trouxe consigo também uma con-
cepção extremamente inovadora de “Homem” e de “Humanidade”, marcada, dentre 
outras coisas, pela noção de universalidade. 
É claro que os pensadores modernos abordaram o assunto de diversas formas, 
mas algumas ideias-chave estão presentes em praticamente todos os seus escritos 
políticos, científicos e filosóficos: a universalidade dos direitos fundamentais, um co-
rolário da ideia de que todo homem nasce igual, independentemente de sua posi-
ção social ou descendência, a aplicação do conceito de evolução às Sociedades 
humanas, ou seja, a hierarquização das diferentes culturas entre mais primitivas 
( comumente associadas a etnias africanas e nativas americanas) e mais civilizadas (a 
Europa), uma concepção linear de história, segundo a qual culturas mais atrasadas 
precisam evoluir em direção ao modelo “superior” ocidental e, finalmente, a ideia de 
que o homem e suas realizações culturais – formas de organização política, práticas 
religiosas, linguagens etc. – podem e devem ser estudados racional e empiricamente, 
a exemplo do que ocorria no campo das Ciências Naturais.
Esse “homem universal”, eurocêntrico nos costumes e dotado de uma razão que 
se julga capaz de tudo compreender, aparece nos textos do Iluminismo – filho legíti-
mo dessas revoluções culturais da Idade Moderna – e, por exemplo, na Declaração 
dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento que marca o triunfo da Revo-
lução Francesa de 1789. 
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
Também não é um acaso que justamente no século XVIII a expressão “natureza 
humana” tenha se tornado corriqueira no vocabulário científico e filosófico ocidental, 
aparecendo na obra de pensadores tão distintos quanto o escocês David Hume (1711-
1776), o alemãoImmanuel Kant (1724-1804) ou o francês Jean-Jacques Rousseau 
(1712-1778). 
Com isso, o que se queria dizer era tanto que o homem é dotado de características 
e modos de pensamento universais, independentemente de sua bagagem cultural – 
isto é, que ele é dotado de uma essência, uma “natureza” – quanto que as leis que 
regem o funcionamento das Sociedades poderiam ser reveladas pela razão. 
Em outras palavras, a mesma Ciência que compreendia cada vez melhor a natu-
reza física e química do mundo poderia conceituar também a natureza do homem.
Figura 3 – Jean­Jacques Rousseau, Immanuel Kant e David Hume
Fonte: Adaptado de Wikimedia Commons
Jean-Jacques Rousseau, Immanuel Kant e David Hume: filósofos que, durante o 
período moderno, usaram e desenvolveram a ideia de “natureza humana”. 
A Antropologia ganha o status de Disciplina acadêmica justamente no século 
XIX, pois esteve comprometida desde os seus primórdios com esse tipo de aborda-
gem universalista e, em maior ou menor grau, evolucionista. 
Daí que as primeiras expedições propriamente científicas à África e à Ásia ( alvos 
sistemáticos do colonialismo europeu a partir da década de 1860) tenham sido 
animadas por ideias profundamente eurocêntricas – como, por exemplo, “civili-
zação” – e, acima de tudo, por conceitos e juízos de valor tipicamente ocidentais, 
que diziam muito pouco sobre a forma como as próprias sociedades estudadas 
enxergavam suas culturas.
Com a proliferação dos estudos antropológicos e a multiplicação de informações 
sobre povos até então desconhecidos, essa perspectiva universalista do século XIX 
começou a perder força, tendo alguns de seus alicerces teóricos confrontados com 
novos estudos culturais e com os dados coletados em campo. 
Essa crítica ao universalismo atingiu a maturidade no Início do século XX, inaugu-
rando um dos mais fecundos debates antropológicos da história.
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O Relativismo Cultural
Na Unidade anterior, tratamos da importância que o Funcionalismo e o Estrutura-
lismo tiveram para livrar a Antropologia de seu conteúdo evolucionista. Mas vimos, 
também, que autores como Malinowski ainda estavam presos ao paradigma univer-
salista, aquele que procura “leis gerais” aplicáveis a todas as culturas. 
A corrente de pensamento de que trataremos agora também surgiu no início do sécu-
lo XX, como parte dessa grande revolução teórica e metodológica das Ciências Huma-
nas, mas ela fez com que a Antropologia avançasse em uma direção particular, diferente 
em vários aspectos daquela trilhada pela escola funcionalista: o Relativismo Cultural.
Seu princípio básico é a ideia de que cada cultura constitui um todo singular de 
traços comportamentais, simbolismos, linguagens etc. dotados de um valor unica-
mente posicional. 
Isso quer dizer que qualquer prática cultural só adquire sentido pleno quando 
encaixada em seu contexto original – por outra, quando sabemos a “posição” espe-
cífica que ela ocupa no sistema cultural que a gerou. 
Essa é uma proposição cara também ao Estruturalismo, corrente que, como vi-
mos, influenciou o trabalho de Claude Lévi-Strauss. 
A Antropologia universalista se concentra em demonstrar que as diferenças entre as 
culturas são aparentes, pois escondem modos de funcionamento muito parecidos em 
essência, característicos de tudo aquilo que é humano. Por exemplo: cada povo tem 
sua religião, mas é comum a toda Sociedade humana criar formas de se relacionar com 
o transcendental e o sagrado, cada povo sepulta seus mortos de uma maneira , mas é 
comum a todo grupo humano criar rituais funerários, e assim por diante. 
Já a hipótese relativista insiste na impossibilidade das comparações e analogias 
entre diferentes culturas. Usando o exemplo acima, um relativista afirmaria que, 
embora todo povo tenha, de fato, uma religião, somente um indivíduo inserido numa 
certa cultura poderá entender plenamente os significados de seus ritos sagrados, 
inapreensíveis para o olhar externo, o Ou seja, para cada Sociedade, a morte e seus 
rituais ocorrem de maneira diversa. 
O Relativismo Cultural ganhou força no início do século passado como decorrên-
cia dos problemas teóricos que a própria Antropologia enfrentava. 
Com a crescente profissionalização da área, acompanhada por um aumento sig-
nificativo no número de trabalhos científicos e dados coletados em campo ao longo 
do século XIX, a principal preocupação dos estudiosos passou a ser, por um lado, 
encontrar conceitos amplos o suficiente para abarcar todas as culturas conhecidas e, 
por outro, compreender e nomear práticas de diferentes povos de maneira adequada ,
precisa, com categorias que fossem mais do que meras “aproximações”. 
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
O principal nome dessa linhagem teórica é o antropólogo alemão (posteriormen-
te radicado nos Estados Unidos) Franz Boas (1858-1942), hoje considerado um dos 
“pais” da moderna Antropologia. 
Boas foi pioneiro em defender que o pesquisador não pode ignorar a coerência 
interna de uma cultura, mudando para sempre o campo que hoje chamamos de 
Antropologia Cultural. 
Em seus escritos, o Relativismo não é somente uma postura filosófica, mas tam-
bém uma questão prática, de Metodologia do Trabalho Científico. Boas acreditava 
que o estudioso munido desse princípio teria finalmente a ferramenta necessária 
para compreender corretamente os universos simbólicos de outros povos, buscan-
do uma outra alternativa ao Eurocentrismo (e ao Eetnocentrismo) com o qual a 
Disciplina se viu imersa. 
Muitas dessas ideias surgiram a partir da experiência pessoal de Boas em traba-
lhos de campo, como o realizado a respeito do povo inuit (indígenas esquimós), que 
habita a Ilha de Baffin, extremo norte do Canadá. 
O antropólogo passou meses vivendo da mesma forma que os nativos para tentar 
reter o máximo possível das suas práticas e, assim, entender as soluções encontradas 
por eles para se adaptarem ao clima hostil do Ártico. 
Algumas dessas considerações a respeito do Relativismo Cultural aparecem em 
artigos como O estudo da geografia (1887), mas a questão foi apresentada de for-
ma acabada pela primeira vez em 1911, no livro A mente do ser humano primitivo.
Figura 4 – Metodologia “imersiva”: Boas vestindo trajes inuit. 
À direita, mãe e filhos da Ilha de Baffin em trajes similares.
Fonte: Adaptado de journals.openedition.org e Wikimedia Commons
O trabalho de Franz Boas impactou ainda outros temas da Disciplina. Em pri-
meiro lugar, porque ele foi um dos principais responsáveis pela definição da ideia 
de “Etnocentrismo” e, em segundo lugar, porque forjou um conceito inovador de 
cultura, baseado na relação entre indivíduo e sociedade.
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Com isso, Boas retirava de cena a crença nos determinantes biológicos da cultura, 
algo extremamente ousado num tempo em que o Darwinismo social era plenamente 
aceito como explicação científica para o “atraso” de certas Sociedades. 
O autor também foi um dos primeiros a destacar a dimensão histórica dos fenô-
menos culturais, afirmando que a singularidade de cada cultura se deve ao fato de 
que elas surgem e se desenvolvem em momentos únicos e específicos. Daí que parte 
essencial do trabalho antropológico seja investigar o passado de uma prática cultural 
para encontrar suas raízes e causas. 
Os costumes passaram a ser vistos tão somente como criações mutáveis de uma 
 Sociedade qualquer, inserida em condições naturais e históricas particulares fundamen-
tais para valorizar as diferentes perspectivas presentes nas dinâmicas culturais dos povos.
Diversidade e Direitos Humanos
Com o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que vitimou aproximada-
mente 70 milhões de pessoas, e a subsequente revelação dos crimes do nazismo, o tema 
dos Direitos Humanos passou a ter importância inédita para o jogo político internacional. 
Isso levaria a recém-criada Organização das Nações Unidas a assinar, em 1948, 
sua Declaração Universal dos Direitos Humanos.O texto até hoje serve de referência para definir quais são os direitos fundamen-
tais do homem e quais as diretrizes básicas para defendê-los, além de tê-los alçado à 
condição de patrimônio mundial.
Seis décadas depois da Declaração, a garantia dos Direitos Humanos já se tornou 
valor inquestionável, mas sua aplicação prática suscita alguns problemas, geralmen-
te, relacionados a uma questão que ronda o tema desde que ele ganhou seus primei-
ros teóricos e defensores, ainda na Idade Moderna: como falar em direitos universais 
abstratos, atemporais e aplicáveis a qualquer ser humano se eles sempre existirão 
em uma realidade concreta, historicamente determinada e marcada pelas diferenças 
entre as várias culturas? 
Nos termos da Antropologia Relativista, poderíamos reformular a questão da se-
guinte maneira: como conciliar a ideia universalista de Direitos Humanos com o 
respeito à diversidade?
Um corolário do Relativismo Cultural é o chamado “Relativismo Moral”, ou seja, 
a crença de que cada cultura tem seu sistema próprio de valores e que ele não pode, 
portanto, ser avaliado nos termos de uma moralidade alheia – geralmente ociden-
tal. Uma defesa radical do relativismo moral gera questões problemáticas do ponto 
de vista dos Direitos Humanos, como, por exemplo: várias sociedades consideram 
aceitável o uso de castigos físicos violentos como punição para crimes (apedreja-
mentos, açoitamento, decepamento de membros), a mutilação genital, o assassi-
nato de crianças com algum tipo de má-formação física etc. De um ponto de vista 
estritamente relativista, todas essas ações são moralmente toleráveis, pois se dão em 
um contexto cultural que as considera normais.
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
É preciso tomar cuidado para não confundir o Relativismo Moral com o Relativismo 
Cultural. Esse último refere-se, como vimos, a uma postura teórico-metodológica que 
serve de estratégia para o estudo de uma Sociedade estranha ao antropólogo, evi-
tando que ele cometa o erro de observar o mundo a partir de seu próprio repertório 
cultural, como se uma lente distorcesse suas conclusões a respeito de determinado 
povo. Portanto, a adoção do primado relativista não implica obrigatoriamente negar 
valores universais e compactuar com toda e qualquer ação, desde que ela esteja in-
serida no seu contexto originário.
Mas o Relativismo Moral extremo é somente a faceta mais chamativa dos pro-
blemas éticos gerados pela incorporação da diversidade cultural ao conjunto dos 
Direitos Humanos. 
A área jurídica fornece alguns dos melhores exemplos de como o respeito à diver-
sidade pode dificultar a aplicação de regras teoricamente universais. 
Fiquemos com dois deles, diretamente relacionados ao nosso país:
• Comunidades indígenas reivindicam o direito de equiparar seus códigos tradi-
cionais à Lei vigente no Estado em que elas se inserem. A tradição seria alçada 
à condição de algo próximo a um direito consuetudinário, com peso idêntico ou 
superior ao dos códigos legais válidos para todo o restante do território nacional. 
Caso a Legislação oficial seja imposta a esses grupos, não estaríamos diante de 
um caso de violação do direito à diversidade – haja vista que o conjunto regras 
de conduta de uma Sociedade constitui um de seus mais significativos traços 
culturais? Por outro lado, esse tipo de concessão não estaria ferindo o princípio 
da igualdade perante a Lei que, ademais, define-se como universal?
• As chamadas “ações afirmativas”, ou qualquer tipo de política voltada às mino-
rias, ferem alguns princípios universalistas. No entanto, é possível argumentar 
que, justamente por observarem as diferenças sociais, étnicas ou econômicas, 
elas permitem a realização de alguns dos direitos fundamentais previstos na 
Constituição, como igualdade plena, democracia e cidadania. Como conciliar 
as duas posições, de modo a assegurar todos os direitos em questão? Essas 
são somente algumas das dificuldades que o problema da diversidade coloca ao 
projeto universalista de Direitos Humanos.
Ao longo do século XX, a Antropologia procurou responder tais perguntas e de 
algum modo unir o relativismo aos princípios universalistas. 
Uma das lições tiradas desse esforço foi a de que o problema da aceitação plena 
dos Direitos Humanos não é exclusivo dos povos não ocidentais. Também na nossa 
Sociedade, alguns dos Direitos Fundamentais podem entrar em rota de colisão com 
costumes e estruturas de pensamento profundamente arraigadas. 
Pensemos no exemplo da garantia de igualdade às mulheres. Poderíamos dizer 
que uma comunidade muçulmana guiada pela sharia (Lei Islâmica, inspirada nos 
ensinamentos do Alcorão) é contrária a esse que é um dos Direitos Humanos reco-
nhecidos pela ONU. 
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No entanto, há inúmeros exemplos, históricos ou contemporâneos, de grupos no 
interior de países ocidentais também contrários em maior ou menor grau à igualdade 
feminina, ou seja, não somente em “comunidades originárias” ou culturalmente dis-
tintas da nossa, o Direito moderno e universalista encontra dificuldades para ser 
plenamente implantado. 
Sem que se assuma o relativismo absoluto, esse exemplo aponta para o fato de 
que dicotomias como Ocidente-Oriente ou Ocidente-Mundo Árabe são extremamen-
te problemáticas do ponto de vista da teoria antropológica, especialmente, quando 
lidos à luz dos estudos sobre a diversidade cultural.
Observe atentamente a reportagem publicada no Jornal Extra, em 15/03/2018: 
Marielle, os direitos e os humanos: esclarecimento do EXTRA aos leitores
Desde a noite desta quarta­feira, quando foi publicada a notícia do assassinato da vereadora 
Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro, chegaram ao site e às redes sociais do 
EXTRA milhares de comentários de leitores. Grande parte lamentava o ato de barbárie no 
Rio, mas outros muitos criticavam e até debochavam de Marielle por ela ser uma defensora 
dos direitos humanos.
“Pior coisa do mundo são os direitos humanos”, dizia um deles. “Quem defende os direitos 
humanos gosta de bandido”, afirmava outro. Com 20 anos de trajetória como um jornal po­
pular com enfoque na garantia desses direitos para TODOS os humanos, o EXTRA, no papel 
de veículo de INFORMAÇÃO, se sente na obrigação de esclarecer aos seus leitores o que são, 
afinal de contas, os direitos humanos.
 Leia a matéria na íntegra, disponível em: https://glo.bo/3lBNQvP
Por que o Jornal Extra precisou fazer esse esclarecimento aos leitores? Você concorda com a pos­
tura do Jornal? Há algum dos Artigos destacados com o qualdentre os quais você não concorda?
Nos dias atuais, a maior parte das soluções encontradas pelas Ciências Humanas 
para o conflito entre diversidade e Direitos Humanos gira em torno da ideia de que as 
culturas não são sistemas fechados, autossuficientes e alheios ao mundo que a cerca.
Logo, o contato intercultural pode abrir espaços para a penetração dos valores 
universais humanistas sem que haja, necessariamente, imposição e, portanto, des-
respeito à diversidade dos povos.
A presença dos europeus nesses locais fez com que a tradição cultural do Velho 
Mundo entrasse em contato direto com a dos povos nativos, promovendo, entre elas, 
o diálogo, a troca de saberes, experiências e costumes. 
Assim, surgiram vários casos de Sociedades que, embora mantenham traços 
da sua cultura originária, incorporaram elementos do legado ocidental trazido 
pelos colonizadores.
Em termos práticos: em países como Gana, a instituição da chefia ou as “famílias 
amplas”, parentelas que chegam a abarcar comunidades inteiras, foram mantidas, 
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
mas há um parlamento constituído em moldes europeus que organiza a macropolíti-
ca nacional e dá voz às lideranças dos grupos étnicos.
Figura 5 – Berito Kubar’Uwa, liderança do povo U’wa, da Colômbia
Fonte: worldconsciouspact.org
Em Síntese
Com esta breve apresentação,vimos o quanto o estudo da diversidade étnica contribui 
para pensarmos uma Sociedade mais justa e igualitária, respeitando as diferenças, mas 
ao mesmo tempo, problematizando o relativismo cultural. 
Os direitos humanos convergem para pensarmos direitos (e deveres) comuns contribuindo 
para a construção de uma cidadania de orientação mais ou menos comum ao mundo todo.
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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
 Livros
Antropologia cultural
BOAS, F. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.
Raça Linguagem e cultura (coletânea de artigos)
BOAS, F. Raça Linguagem e cultura (coletânea de artigos).
 Leitura
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (UNESCO, 2001)
https://bit.ly/2IveF6Q
Declaração Universal sobre os Direitos Humanos (ONU, 1948)
https://bit.ly/36HK0uO
Anotações sobre o universal e a diversidade
ORTIZ, R. Anotações sobre o universal e a diversidade. Revista Brasileira de 
Educação. v. 12, n. 34, 2007. 
https://bit.ly/3lB0QC3
Antropologia e direitos humanos: tos humanos: alteridade e ética no movimento de expansão dos 
direitos fundamentais
SEGATO, R. L. Antropologia e direitos humanos: alteridade e ética no movimento 
de expansão dos direitos fundamentais. Revista MANA, Rio de Janeiro, v. 12, n. 
1, p. 207-236, 2006. 
https://bit.ly/3npKjBk
Gênese, evolução e universalidade dos direitos humanos frente à diversidade de culturas
MBAYA, E. Gênese, evolução e universalidade dos direitos humanos frente à 
diversidade de culturas. Revista do Instituto de Estudos Avançados, Universidade 
de São Paulo, São Paulo, v. 11, n. 30, 1997.
https://bit.ly/38LI1IA
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UNIDADE Antropologia e Diversidade Étnica I: Relativismo 
Cultural, Diversidade e Direitos Humanos
Referências
BOAS, F. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.
CHAUÍ, M. O que é Ideologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 2012. 
INGOLD, T. Antropologia para que serve? Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 2019.
LARAIA, R. de B. Cultura – Um conceito antropológico. São Paulo: Zahar, 2018.
ORTIZ, R. Anotações sobre o universal e a diversidade. Revista Brasileira de Edu-
cação, LocalCampinas, v. 12, n. 34, 2007. Disponível em: <www.scielo.br/pdf/
rbedu/v12n34/a02v1234.pdf>.
SEGATO, R. L. Antropologia e direitos humanos: alteridade e ética no movimento de 
expansão dos direitos fundamentais. Revista MANA, LocalRio de Janeiro, n. 12, v. 
1, p. 207-236, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-
-93132006000100008&script=sci_arttext>.
Sites Visitados
DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL ( UNESCO, 
2001). Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001271/ 
127160por.pdf>.
DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE OS DIREITOS HUMANOS  (ONU, 
1948). Disponível em: <http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_in-
ter_universal.htm>.
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