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2019 Formação Econômica do Brasil Profª. Andréa Oliveira Hopf Diaz Profª. Josélia Elvira Teixeira Copyright © UNIASSELVI 2019 Elaboração: Profª. Andréa Oliveira Hopf Diaz Profª. Josélia Elvira Teixeira Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: D542f Diaz, Andréa Oliveira Hopf Formação econômica do Brasil. / Andréa Oliveira Hopf Diaz; Josélia Elvira Teixeira. – Indaial: UNIASSELVI, 2019. 183 p.; il. ISBN 978-85-515-0254-9 1.Brasil – Condições econômicas – Brasil. I. Teixeira, Josélia Elvira. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 330.981 III aprEsEntação Seja bem-vindo a nova jornada que iniciaremos com o nosso livro de estudos da Disciplina Formação Econômica do Brasil. É imprescindível para a compreensão da história e desenvolvimento econômico do Brasil que tomemos conhecimento das condições sociais, econômicas e políticas presentes em cada etapa de consolidação do país, desde o contexto de descobrimento, o período colonial e sua participação nos processos seguintes de desenvolvimento econômico e posteriores consequências. Como futuro profissional da área da economia, ter conhecimento da gênese de nosso país em relação a esses aspectos o capacitará a relacionar, elucidar e articular os acontecimentos, inclusive, com aqueles associados a transformações externas, quanto à cultura, a interesses e à dinâmica dos efeitos na formação de uma sociedade. Pense nos seguintes questionamentos: qual a influência europeia na formação da economia brasileira? Quais as raízes ou os fundamentos do nosso processo de industrialização? Como este contexto se relaciona diante do processo de redemocratização e dos nossos problemas? Serão estes nossos problemas econômicos estruturais? Isto é, relacionados justamente a condições de formação política de nosso país? Tranquilize-se, pois vamos apresentar uma série de episódios que certamente colaborarão para elucidar essas e outras questões que surgirão ao longo da leitura e da realização das autoatividades! Serão inúmeras descobertas! Vamos lá!? Na Unidade 1, será apresentado o contexto de expansão europeia e a colonização. Para que a leitura e o ensino a distância sejam mais bem aproveitados, os conteúdos das unidades foram organizados em três tópicos. Veja os tópicos desta unidade: as grandes navegações; os fundamentos da colonização: formação e expansão econômica no período colonial; e o modelo primário exportador no Brasil. Em cada momento, podemos perceber a cronologia de eventos que vai, aos poucos, dando certa identidade e cultura, também produtiva ao nosso país. Na Unidade 2, é apresentada a introdução do processo de industrialização brasileiro. Para isso, a divisão também em tópicos, o auxiliará a relacionar os acontecimentos, diante de inúmeros interesses e desafios do país, que nem sempre convergem, mas que são dinâmicos e requerem uma IV atenção mais especial. Enquanto o Tópico 1 trata das origens do capitalismo no século XIX; o Tópico 2, destaca o desenvolvimento da indústria no início do século XX; seguido do processo de substituição de importações, iniciado na década de 1930, assunto que continua na unidade a seguir, mas que já ganha destaque aqui, no Tópico 3 desta unidade. Finalmente, a última unidade do livro de Formação Econômica do Brasil foi organizada para que você compreenda e reflita sobre o desenvolvimento da economia brasileira entre as décadas de 1950 e 1990. Deste modo, iniciaremos com a revisão de alguns conceitos elementares a respeito do Plano de Metas com o propósito de trilhar o caminho do planejamento econômico brasileiro até o final da década de 1980. O Tópico 1 é denominado “industrialização e desenvolvimento” e no qual se procura conhecer a importância do planejamento para a economia da década de 1950 por meio do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek. Além deste tema, ainda neste tópico estudaremos a participação do capital estrangeiro na economia brasileira com a atuação de grandes oligopólios. No Tópico 2, “milagre econômico”, a ênfase estará na análise relativa à década de 1970, período de forte crescimento da economia e de um projeto de desenvolvimento posto em prática para o país. Entretanto, este tópico parte da crise interna brasileira dos 1960 e do importante avanço com o Plano Trienal. Por fim, o livro é concluído com o Tópico 3, reservado ao exame da crise econômica dos anos 1980, com foco na dívida externa e na desestruturação interna. Deste modo, são revisadas as principais medidas utilizadas para conter o processo de hiperinflação com os planos de estabilização econômica e o processo de redemocratização trazido pelas eleições diretas no Brasil. Fique atento, que ao final de cada tópico, presente em cada unidade, são propostas autoatividades que contribuirão para a reflexão e aprendizado dos assuntos abordados. A leitura complementar, um texto a parte presente no livro de estudos, tem como objetivo trazer algo inédito e permitir a relação com o que foi abordado ao longo dos estudos. Qualquer dúvida, não hesite! Busque os tutores! Esperamos que este estudo se converta em uma etapa de grande avanço em seu conhecimento, e vá ao encontro de suas aspirações, sejam pessoais e profissionais. Desejamos uma excelente jornada de estudos! Grande abraço! V Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA VI VII UNIDADE 1 – EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO ......................................................... 1 TÓPICO 1 – AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV ........................... 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 A EUROPA NO FINAL DA IDADE MÉDIA ................................................................................... 4 3 POR QUE AS ESPECIÁRIAS ERAM IMPORTANTES NO SÉCULO XV? ............................... 6 4 POR QUE PORTUGAL FOI O PRIMEIRO PAÍS A DAR INÍCIO ÀS GRANDES NAVEGAÇÕES DO SÉCULO XV? .............................................................................. 7 5 ESPANHA NAS DESCOBERTAS MARÍTIMAS DO SÉCULO XV ........................................... 13 6 MUDANÇAS E CONSEQUÊNCIAS DA EXPANSÃO MARÍTIMA DO SÉCULO XV ......... 20 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................23 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 24 TÓPICO 2 – FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL ......................................... 27 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 27 2 INÍCIO DA OCUPAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL .............................................................. 28 3 O INÍCIO DAS ATIVIDADES ECONÔMICAS NO BRASIL ..................................................... 32 3.1 A EXPLORAÇÃO DO PAU-BRASIL E O POVOAMENTO DA COLÔNIA .......................... 32 3.2 O POVOAMENTO E O FORTALECIMENTO DE ATIVIDADES ECONÔMICAS NA COLÔNIA ..................................................................................................... 33 3.3 A CULTURA DO AÇÚCAR NA COLÔNIA ............................................................................... 35 3.4 O CICLO DA MINERAÇÃO (SÉCULO XVIII) ........................................................................... 42 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 46 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 47 TÓPICO 3 – O MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR NO BRASIL ........................................... 49 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 49 2 A INSTALAÇÃO DA FAMÍLIA PORTUGUESA NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NO BRASIL .................................................................................................. 49 3 O CULTIVO DO CAFÉ E A CONSOLIDAÇÃO DO MODELO PRIMÁRIO-EXPORTADOR ............................................................................................................... 50 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 55 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 56 UNIDADE 2 – A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO ................................................................................................................. 57 TÓPICO 1 – AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX.............................................. 59 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 59 2 REPÚBLICA VELHA: AMBIENTE POLÍTICO E ECONÔMICO ............................................... 60 sumário VIII 2.1 A DINÂMICA DE INTERESSES .................................................................................................... 60 2.2 A ECONOMIA MONETÁRIA INCIPIENTE ............................................................................... 64 3 A BASE ECONÔMICA CAFEEIRA .................................................................................................. 70 3.1 AS CONDIÇÕES DE OCORRÊNCIA E MERCADO ................................................................ 70 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 81 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 82 TÓPICO 2 – O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX ........ 83 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 83 2 A QUESTÃO DO TRABALHO NA CAFEICULTURA ................................................................. 83 2.1 IMIGRAÇÃO E DINAMISMO ECONÔMICO............................................................................ 84 3 O DESENVOLVIMENTISMO E NACIONALISMO ECONÔMICO ....................................... 91 3.1 OS PRECEDENTES DE UM PROJETO MAIOR ......................................................................... 91 3.2 O POPULISMO COMO VIA ECONÔMICA ............................................................................... 96 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................104 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................105 TÓPICO 3 – O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 ..........................................................................................................107 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................107 2 A CRISE E O CRESCIMENTO ECONÔMICO .............................................................................107 3 AS CONDIÇÕES E O DECORRER DO PROCESSO (SI) ..........................................................113 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................118 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................121 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................122 UNIDADE 3 – A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX ...................................................123 TÓPICO 1 – INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ..................................................125 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................125 2 A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO ECONÔMICO .......................................................126 3 JUSCELINO KUBITSCHEK E O PLANO DE METAS (1956-1961) ...........................................130 4 PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO E OLIGOPÓLIOS ....................................135 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................139 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................140 TÓPICO 2 – MILAGRE ECONÔMICO.............................................................................................141 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................141 2 A CRISE INDUSTRIAL ENDÓGENA NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1960 ..........................141 3 CRESCIMENTO ECONÔMICO NO GOVERNO JOÃO GOULART (1961-1964): CRISE POLÍTICA E O PLANO TRIENAL DE CELSO FURTADO ..........................................144 4 GOLPE MILITAR DE 1964 E O MODELO DEPENDENTE E ASSOCIADO .........................148 5 PROGRAMA DE ACELERAÇÃO ECONÔMICA DO GOVERNO (1964-1967): ESTABILIZAÇÃO E MUDANÇAS INSTITUCIONAIS .............................................................149 6 O PROJETO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA DO GOVERNO MILITAR ..............154 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................158 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................160 TÓPICO 3 – REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO ....................................................................161 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1612 A CRISE ECONÔMICA DOS ANOS 1980: DÍVIDA EXTERNA E DESESTRUTURAÇÃO INTERNA .................................................................................................161 IX 3 ESTAGNAÇÃO E INFLAÇÃO BRASILEIRA: OS PLANOS DE ESTABILIZAÇÃO ECONÔMICA ......................................................................................................................................165 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................174 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................176 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................177 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................179 X 1 UNIDADE 1 EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender como se encontrava a estrutura política, econômica e social nos fins do século XIV; • compreender como nasceu a ideia das navegações marítimas no século XV; • entender por que as especiarias eram importantes para o comércio europeu; • observar as fases da expansão marítima portuguesa; • analisar como a Espanha entrou como concorrente de Portugal na expansão marítima do século XV; • entender o que foi o Tratado de Tordesilhas; • analisar quais foram fatores que levaram ao declínio da Espanha; • entender as mudanças e consequências da expansão marítima no século XV; • compreender o processo histórico das grandes navegações e os fatores econômicos que determinaram a busca por novos territórios; • entender como as grandes navegações mudaram a economia, a sociedade e a política da Europa; • analisar como se deu a colonização do Brasil e se estabeleceram as primeiras atividades econômicas; • identificar os principais ciclos econômicos na formação econômica do Brasil e suas consequências no desenvolvimento; • compreender por que a Inglaterra foi beneficiada com a vinda dos portugueses para o Brasil; • analisar o que foi a Abertura dos Portos; • entender que tipo de economia foi se propagando no Brasil colônia; • relacionar economia e trabalho no período monárquico no Brasil; • entender por que a abolição foi extinta; • analisar as vantagens das oligarquias cafeeiras do café no Brasil. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV TÓPICO 2 – FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL TÓPICO 3 – O MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR NO BRASIL 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 1 INTRODUÇÃO Este tópico tem como proposta entender os motivos que levaram os reinos como (Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda) a buscar por novas rotas de comércio por mares até então desconhecidos como o Oceano Atlântico e Índico. Veremos que estes reinos estavam em busca das especiarias na África e Ásia para comerciarem na Europa, pois o comércio era de domínio dos genoveses e venezianos pelo mar Mediterrâneo. As Grandes Navegações do século XV foram impulsionadas desde os fins do século XIV, em decorrência das Cruzadas, que estimularam os europeus perseguirem novos e mais rápidos acessos a Jerusalém. Além disso, o contato com outras mercadorias do Oriente criou novas demandas para os povos europeus, que viram oportunidades de comércio desses produtos. Surgia, assim, uma classe social burguesa que almejava prosperar por meio da inovação comercial, que posteriormente deu início a Revolução Comercial. Portugal também passava por conflitos internos, conhecidos como a Reconquista, que também foi um dos fatores que o levaram a lutar pela sua autonomia política formando um só reino. Portugal apareceu como o primeiro país a se lançar aos mares. A sua posição geográfica favorável, o comércio pesqueiro, a ideia de divulgar o cristianismo, a conquista de novas terras e metais preciosos, que estavam escassos na Europa, foram os principais fatores que impulsionam o pioneirismo português nas grandes navegações e colonização. No entanto, a Espanha após a sua unificação por meio dos reinos cristãos e retomada dos territórios do domínio dos mouros voltou-se para as explorações marítimas, concorrendo com Portugal pelo domínio de outros territórios, como África e Ásia. Desta forma, caros acadêmicos, vamos discutir especialmente as grandes navegações lideradas por Portugal e Espanha. Assim, poderemos compreender os primórdios da formação econômica das Américas e, especialmente, como a colonização irá marcar historicamente e ditar os rumos da economia e desenvolvimento do Brasil pelos outros séculos. Vamos voltar às raízes da formação econômica brasileira, que será fundamental para você analisar como esse percurso influencia até os dias correntes a posição do Brasil no comércio internacional, na formação estrutural da economia agrário-exportadora e de como os traços dos primeiros colonizadores ainda prevalecem como herança cultural no povo brasileiro. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 4 2 A EUROPA NO FINAL DA IDADE MÉDIA Para compreender como nasceu a ideia de navegar para outros lugares do mundo no século XV, é importante retroceder no tempo para analisar como os europeus viveram e estavam vivendo na Alta e Baixa Idade Média, período que corresponde aos séculos V ao XV, buscando relacionar a forma da organização social, política e econômica conhecida como feudalismo. Na Idade Média, a economia feudal era autossuficiente, o comércio praticamente não existia e as trocas ocorriam por meio de poucos produtos necessários para a manutenção dos feudos. O poder político era descentralizado, impedia a organização da arrecadação fiscal, o que impossibilitava a formação de um exército ou de polícia, bem como estruturar canais de comercialização de excedentes produtivos. As estradas eram muito precárias, de difícil trânsito. Cada feudo tinha suas próprias regras, pois eram independentes e utilizavam as mais variadas formas de pesos, medidas e moedas, impossibilitando a monetização da economia. A sociedade feudal não possibilitava mudanças de classe social, quem nascia em uma determinada classe era difícil de obter ascensão. A economia baseava-se na produção de subsistência. A forma de organização do trabalho era compulsória. O servo estava obrigado a produzir para o seu sustento, de sua família e ainda para o senhor feudal que era o dono da terra (MENDONÇA; PIRES, 2002). Todavia, é no final da Idade Média que começaram a surgir as feiras que impulsionaram o comércio. Portanto, percebe-se que essa organização social, econômica e política não era adequada para o modelo de expansão comercial que estava surgindo com o apoio da burguesia e que tinha grande interesse em aumentar os seus negócios. Na transição da Idade Média de 1453 para a Idade Moderna, em 1789, muitos acontecimentos importantes ocorreram na Europa como: a queda de Constantinopla, a Revolução Francesa, descobrimentos marítimos, Renascimento e a Reforma Protestante. A ascendência ao capitalismo com a queda do feudalismo, o poder é centralizado nas mãos dos reis e o absolutismo substituiu os senhores feudais. As descobertas de novas terras em busca de metais preciosos e o domínio de novos continentes como Ásia, África e as Américas também serão fundamentais para as transformações que estavam ocorrendo para sistema de Economia Mundo. No entanto, os países como Inglaterra, França, Holanda também se aventuraram nos mares no século XV, mas os que mais se destacaram nesta fase das Grandes Navegações foram Portugal, que já havia se consolidadocomo nação monárquica, e, em seguida, a Espanha após resolver conflitos existentes com a reconquista de seus territórios que eram dominados pelos mouros (SANTOS,1984). TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 5 FIGURA 1 – AS GRANDES NAVEGAÇÕES NO SÉCULO XV FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/asgrandesnavegaes-150330144711-conversion- gate01/95/as-grandes-navegaes-1-638.jpg?cb=1427744902>. Acesso em: 14 jul. 2018. NOTA VOCÊ SABIA? “Portugal se afirmava no conjunto da Europa como um país autônomo, com tendência a voltar-se para fora. Os portugueses já tinham experiência, acumulada ao longo dos séculos XIII e XIV, no comércio de longa distância, embora não se comparassem ainda a venezianos e genoveses, a quem iriam ultrapassar. Aliás, antes de os portugueses assumirem o controle de seu comércio internacional, os genoveses investiram na sua expansão, transformando Lisboa em um grande centro mercantil sob sua hegemonia. A experiência comercial foi facilitada também pelo envolvimento econômico de Portugal com o mundo islâmico do Mediterrâneo, onde o avanço das trocas pode ser medido pela crescente utilização da moeda como meio de pagamento. Sem dúvida, a atração para o mar foi incentivada pela posição geográfica do país, próximo às ilhas do Atlântico e à costa da África. Dada a tecnologia da época, era importante contar com correntes marítimas favoráveis, e elas começavam exatamente nos portos portugueses ou nos situados no sudoeste da Espanha. Por último, lembremos que, no início do século XV, a expansão correspondia aos interesses diversos das classes, grupos sociais e instituições que compunham a sociedade portuguesa. Para os comerciantes era a perspectiva de um bom negócio; para o rei era a oportunidade de criar novas fontes de receita em uma época em que os rendimentos da Coroa tinham diminuído muito, além de ser uma boa forma de ocupar os nobres e motivo de prestígio; para os nobres e os membros da Igreja, servir ao rei ou servir a Deus cristianizando "povos bárbaros" resultava em recompensas e em cargos cada vez mais difíceis de conseguir, nos estreitos quadros da Metrópole; para o povo, lançar-se ao mar significava sobretudo emigrar, tentar uma vida melhor, fugir de um sistema de opressões. Dessa convergência de interesses só ficavam de fora os empresários agrícolas, para quem a saída de braços do país provocava o encarecimento da mão de obra. Daí a expansão ter- se convertido em uma espécie de grande projeto nacional, ao qual todos, ou quase todos, aderiram e que atravessou os séculos”. FONTE: FAUSTO, Boris. História do Brasil: história do Brasil cobre um período de mais de quinhentos anos, desde as raízes da colonização portuguesa até nossos dias. São Paulo: Edusp, 1996. Disponível em: <http://www.intaead.com.br/ebooks1/livros/hist%F3ria/12.Hist%F3ria%20 do%20Brasil%20-%20Boris%20Fausto%20(Col%F4nia).pdf>. Acesso em: 21 jul. 2018. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 6 Percebe-se que a economia europeia no século XV encontrava-se em expansão pressionado pela nova classe burguesa das cidades e por outro lado um aumento demográfico, mas havia entraves para o desenvolvimento das atividades ligadas ao comércio. Portugal e Espanha buscavam novas rotas para atingirem o comércio com Oriente e a África em busca das especiarias, tais como cravo, noz- moscada, pimenta, gengibre, canela, açafrão, artigos de luxo como porcelanas, tecidos de seda marfim, ouro e outros para vender na Europa que eram fonte de muita riqueza na época (SOUTO MAIOR, 1976). 3 POR QUE AS ESPECIÁRIAS ERAM IMPORTANTES NO SÉCULO XV? O comércio de especiarias existia deste a Antiguidade, mas foi ampliada no período das Cruzadas na Idade Média. Eram importantes para conservar e melhorar o sabor dos alimentos, inclusive utilizadas como perfume, afrodisíaco, incenso etc. Elas tinham longa durabilidade, suportavam meses de viagem sem perder sua qualidade aromática e medicinal. Ocorreu uma corrida de países europeus em busca nas regiões tropicais do sul e sudeste da Ásia pelas especiarias (figura a seguir): FIGURA 2 – AS PRINCIPAIS ESPECIARIAS COMERCIALIZADAS NO SÉCULO XV Canela Gengibre Noz Moscada Pimenta FONTE: <http://4.bp.blogspot.com/-6MHcINfEpTY/TrLwu-20GgI/AAAAAAAAA6M/lY0vMUK50Vw/ s400/Especiarias.png>. Acesso em: 20 jul. 2018. “A emulação que as riquezas italianas produziam e o espírito aventureiro que se apossou de Portugal com a chegada dos carregamentos de malagueta, ouro, marfim e escravos, foram consolidando a política marítima traçada pelo Infante D. Henrique” (REZENDE, 2007, p. 39). TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 7 Segundo Fausto (1996, p. 14), “ouro e especiarias foram bens sempre muito procurados nos séculos XV e XVI, mas havia outros, como o peixe, a madeira, os corantes, as drogas medicinais e, pouco a pouco, um instrumento dotado de voz – os escravos africanos”. Portugal assumiu o comércio da pimenta que era monopólio de Veneza, considerada, na época, a especiaria mais cara da Índia, produto que passou a dar muito lucro para os portugueses (SIMONSEN,1967). Podemos observar, na figura a seguir, a rotas das especiarias no século XV. FIGURA 3 – ROTAS DAS ESPECIARIAS NO SÉCULO XV Rota das Especiarias no Século XV FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/aula01antecedentesdaproduodoespaobrasileiro- 150219171925-conversion-gate01/95/antecedentes-da-produo-do-espao-brasileiro-18-638. jpg?cb=1424388101>. Acesso: 14 jul. 2018. Para Rezende (2007) os metais preciosos, os alimentos e as especiarias foram a mola propulsora para o desenvolvimento da expansão marítima de Portugal, porque os turcos haviam bloqueados o Mediterrâneo Oriental, então passaram a buscar outras rotas para trazer direto da fonte. Essa pode ser considerada uma hipótese para a exploração de Portugal no Golfo da Guiné em 1473, denominada Costa do Ouro. 4 POR QUE PORTUGAL FOI O PRIMEIRO PAÍS A DAR INÍCIO ÀS GRANDES NAVEGAÇÕES DO SÉCULO XV? As melhorias nas técnicas de navegação proporcionaram o abandono da navegação por cabotagem para percursos mais longos. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 8 Na Idade Média no período do feudalismo, a estrutura política, econômica e jurídica não era adequada a expansão comercial. No entanto, com o desenvolvimento do comércio, surgiu uma classe social que era a burguesia que compactuava com as novas ideias que passaria a romper com as antigas estruturas feudais aliando-se ao poder monárquico. Consequentemente, a centralização política ocorreu sucessivamente por meio de financiamento de exércitos mercenários. Em compensação, os reis passaram a garantir os meios para a expansão do comércio, planejando as grandes navegações com objetivo de obtenção de novos mercados e as novas fontes fornecedoras de metais preciosos (MENDONÇA; PIRES, 2002). O objetivo principal da expansão ultramarina, do século XV, estava relacionado ao desejo de conquistar os metais preciosos que a Europa almejava desde o século XIII. Percebe-se que em 1415 as rotas de exploração de ouro foi Ceuta no norte da África e também produtor de trigo. Como Portugal sobreviveu a várias crises a expansão ultramarina, seria um estímulo para reerguer a sua economia (REZENDE, 2007). No início do século XV Portugal tornou-se o pioneiro nas Grandes Navegações, por vários motivos. Entre eles, a luta ente cristãos contra os mouros pela reconquista dos territórios dominados pelos árabes e também pela posição geográfica que favorecia o desenvolvimento do comércio no litoral lusitano desde o século XII, surgindo uma classe de pessoas ligadas ao comércio. Porém, esse grupo de burgueses não tinham controle sobre o poder político e o conflito perdurou de 1140 até 1383 quando Portugal tornou-se uma monarquia centralizada com o auxílio de uma classe mercantil que obteve benefícios como terras e títulos de nobreza ao ajudar no financiamento do exército (MENDONÇA; PIRES, 2002). Neste momento, a sociedadeeuropeia portuguesa passa a ter uma mobilidade de servos que passam a ser colonos ou artesãos e até pequenos proprietários, e os antigos senhores feudais começaram a fazer a transferência de renda para essa classe mercantil. Isso deveu-se à guerra da Reconquista, que permitiu a Portugal, a partir do início do século XV, o denominado périplo africano, que se estendeu por toda a costa da África, construindo feitorias e comercializando produtos que tinham demanda para os consumidores europeus (MENDONÇA; PIRES, 2002). Então os portugueses descobriram as ilhas de Açores, Madeira, Cabo Verde e desenvolveram técnicas de cultivo e refino com as quais passaram a produzir açúcar em grande escala, especiaria com muito demanda e com mão de obra escrava. Portanto, no século XV, percebe-se que Portugal vivia um processo de desenvolvimento comercial que resultaria na organização das grandes navegações, o qual tinha o objetivo de acordo com Mendonça e Pires (2002): • a expansão do comércio; • obter metais preciosos pela escassez para a cunhagem de moedas; • terras para produção de alimentos; • busca das especiarias na Ásia e África; • igreja católica tinha grande influência religiosas. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 9 FIGURA 4 – INSTRUMENTOS NÁUTICOS Esfera armilar Ballestilla Cuadrante Brujula Astrolabio Nocturlabio Reloj de arena FONTE: Adaptado de: <file:///C:/Users/07608717955/Desktop/download%20(1).jpg>. Acesso em: 18 jul. 2018. Portugal possuía a Escola de Sagres, que formava navegadores e que proporcionou um avanço tecnológico naval na época como a construção das caravelas. Entre outras embarcações de maior ou menor porte, ocorreu entre os séculos XV e XVI (SANTOS, 1984). Para levar mercadorias do mar Mediterrâneo para o norte da Europa eram utilizados os portos de Portugal. Com o poder centralizado, após a crise feudal, a burguesia começou a investir em instrumentos náuticos como a bússola, o astrolábio, o quadrante (figura a seguir) para fazer longas viagens navegando pelos oceanos, o que favoreceu para serem o primeiro país europeu a fazer viagens por oceanos desconhecidos (SANTOS, 1984). UNI ESCOLA DE SAGRES Para navegar, os portugueses foram os pioneiros no uso duplo da vela quadrada e da vela latina, que puderam usar os ventos alísios, instrumentos náuticos que contribuíram para o comércio ao longo da costa com os indígenas e assim é que foram buscar ao sul do Saara a pimenta malagueta, o marfim, o ouro e escravos, ameaçando o monopólio de Veneza (SIMONSEN, 1967). UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 10 No entanto, havia muitos mitos sobre águas do oceano Atlântico para fazer comércio com o oriente, pois se tornara um desafi o para os portugueses que lideraram a expansão marítima no decorrer do século XV. João de Santarém e Pedro de Escobar seriam os incumbidos por Afonso V, de descobrirem novas terras, e, de fato, alcançaram boa parte da costa da África Ocidental, a partir da cronologia de descobrimentos a partir de 1400. Bartolomeu Dias chegou até o Cabo das Tormentas; isto é, foi o primeiro europeu a cruzar o Cabo da Boa Esperança, ao sul da África, contornando parte do continente africano, conforme observamos na fi gura a seguir (SOUTO MAIOR, 1976). FIGURA 5 – PÉRIPLO AFRICANO FONTE: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Caminho_maritimo_para_a_ India.png>. Acesso: 18 jul. 2018. O quadro a seguir apresenta as principais fases da expansão marítima portuguesa. QUADRO 1 – FASES DA EXPANSÃO MARÍTIMA PORTUGUESA – SÉCULO XV Período Fase 1415 Conquista de Ceuta – localizado no Estreito de Gibraltar – dominado pelos muçulmanos – ponto de partida para chegar ao litoral da África. 1434 Gil Eanes ultrapassou o Cabo do Bojador. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 11 FONTE: Adaptado de Santos (1984) Quando Vasco da Gama aportou nas Índias em 1498, ao voltar para Portugal, trouxe muitas especiarias, possibilitando lucros extraordinários para os investidores. Ele abriu caminho para os portugueses erguerem as feitorias que tinham a função de entrepostos comerciais. Portugal utiliza-se de feitorias para defender o litoral das terras colonizadas dos seus concorrentes. Ele temia invasões de outros povos como os franceses, ingleses e holandês (SANTOS, 1984). NOTA Antes de partir, Cabral manteve vários encontros com Vasco da Gama. O descobridor da Índia redigiu instruções náuticas detalhadas para o futuro descobridor do Brasil. Esse documento – que Cabral levou consigo a bordo – sobreviveu aos séculos e o rascunho dele está preservado na torre do Tombo, em Lisboa. Depois de 44 dias de viagem, no entardecer de 22 de abril de 1500, quando a frota, por motivo nunca plenamente compreendido, encontrava-se muito mais a oeste do que o necessário para contornar o cabo da Boa Esperança (a última ponta da África), Cabral e seus homens vislumbraram um morro alto e redondo, que batizaram de monte Pascoal. Esse morro fica no sul da Bahia. Foi a descoberta oficial do Brasil pelos portugueses. Os fatos e desdobramentos da jornada de Cabral estão narrados em detalhes no livro A viagem do descobrimento, primeiro volume da Coleção Brasilis. FONTE: BUENO, Eduardo. As primeiras expedições brasileiras: náufragos, traficantes e degredados. Disponível em: <http://www.esextante.com.br/media/upload/livros/Naufragostraficantesdegredados_ Trecho.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2018. Período Fase 1488 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. 1498 Vasco da Gama chegou a Calicute, na Índia, realizando um novo caminho para o Oriente. 1500 Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. De acordo com Souto Maior (1976) Portugal atingiu o auge quando passou a colonizar o Brasil. Nesse período, Portugal possuía outras colônias, como podemos observar na figura a seguir. Dessa forma, as novas colônias fomentavam a economia portuguesa com os produtos extraídos e comercializados no mercado europeu por Portugal. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 12 FIGURA 6 – PRINCIPAIS FEITORIAS E POSSESSÕES PORTUGUESAS NA ÁFRICA FONTE: <file:///C:/Users/07608717955/Desktop/download%20(2).jpg>. Acesso em: 22 jul. 2018. NOTA O que era a feitoria? Uma Feitoria é um lugar ou estabelecimento, que pode ou não ser fortificado, geralmente situado junto a um porto, e que funcionava como um entreposto comercial para as trocas comerciais com os naturais da região ou com os mercadores que aí se deslocavam. Muito do comércio português nos territórios descobertos na época dos Descobrimentos era efetuado através das feitorias aí fundadas. A primeira dessas feitorias foi a Feitoria de Arguim na costa africana. No Golfo da Guiné foi fundada uma outra feitoria, a Feitoria da Mina, na qual se desenvolvia o comércio de escravos, marfim, malagueta e ouro. No Oriente foi fundada uma extensa rede de feitorias que permitiram a Portugal tornar-se o mais poderoso Estado mercantil do mundo. Disponível em: <https://www.sohistoria.com.br/dicionario/palavra.php?id=57>. Acesso em: 22 jul. 2018. Em uma das viagens para a América, portugueses e espanhóis estavam navegando juntos, e Américo Vespúcio descreveu, em uma de suas cartas, o novo mundo: “Pode-se dizer que não encontramos nada de proveito”. Porém, observaram na costa brasileira uma espécie vegetal que era o pau-brasil do qual era extraído um corante que poderia tingir tecidos. Denominaram esse vegetal de Caesalpinia Echinata (PRADO JR, 1994). Apesar das primeiras impressões sobre as novas terras não serem muito boas, pois buscavam especialmente ouro e prata, logo começaram a extração de outros produtos e a implantar a agricultura (produção de açúcar), o que fortaleceu a economia de Portugal e Espanha. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 13 5 ESPANHA NAS DESCOBERTAS MARÍTIMAS DO SÉCULO XV Assim como os portugueses, os espanhóis passaram a concorrer em busca de novas terras e riquezas que encontrassemo além-mar. Com a unificação dos reinos no século XV e a união matrimonial de Fernando, do Reino de Aragão, e Isabel, do Reino de Castela, a economia passa por um processo de transformação que culminará no esplendor de riquezas espanholas. Porém, continuaram utilizando o sistema de irrigação implementado pelos mouros na agricultura nas produções de trigo, frutas, laranjas, cana-de-açúcar, azeite das oliveiras. Eram famosas as manufaturas de couro de Córdoba, as armas, lãs e sedas de Toledo, as luvas de Ocana, os panos de Saragoça, Barcelona e Valença (SIMONSEN, 1967). Observe na figura a seguir as principais rotas estabelecidas pelos espanhóis e portugueses. FIGURA 7 – MAPA DAS ROTAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS (SÉC. XV E XVI) FONTE: <https://images.slideplayer.com.br/6/5652141/slides/slide_2.jpg>. Acesso em: 18 jul. 2018. ROTAS DAS VIAGENS MARÍTIMAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS DOS SÉCULOS XV E XVI Cristóvão Colombo foi para Castela, em 1486, e apresentou o seu projeto para os reis católicos Fernando e Isabel que colaboraram com a realização de Colombo. Cristóvão Colombo era um homem do mar e desde sua adolescência se tornou conhecedor de geografia, náutica, física e cartografia por meio das viagens que realizou como navegador. Ele casou-se com Felipa Moniz Perestrello, filha de um navegador e governador português Bartolomeu Perestrello, um exímio cosmógrafo. Estudiosos dizem que por meio de relatos, a esposa de Bartolomeu Perestrello, foi que entregou ao genro cartas náuticas que pertenciam ao seu UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 14 FIGURA 8 – DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA FEZ UM ÓTIMO NEGÓCIO! CARAVELAS USADAS epois de recusados por Portugal, Cristóvão Colombo apresentou seus planos aos reis da Espanha. D MAJESTADE, ANTES DE TUDO, QUERO EXPLICAR UMA COISA: A TERRA É REDONDA! GRANDE NOVIDADE: DESCOBRIU A AMÉRICA! NÃO! ISSO AINDA NÃO FIZ! PARA PROVAR O QUE EU DISSE, PLANEJO VIAJAR PELO OCIDENTE ATÉ CHEGAR ÀS ÍNDIAS, NO ORIENTE! SABE COMO É? ESTOU MEIO DURO E PRECISO DE UM FINANCIAMENTO! CERTO, CRISE! VOU ASSINAR ESTE CHEQUE PARA A COMPRA DAS CARAVELAS! VOU LEVAR ESSAS TRÊS! SANTA MARIA PI NTA NIÑA E EU COM ISSO? FONTE: <http://www.cartunista.com.br/descobrimento1.html>. Acesso em: 19 jul. 2018. esposo falecido o que levou a curiosidade de Colombo a desvendar outras terras desconhecidas. Para fi nanciar sua viagem, Colombo pediu ajuda ao rei de Portugal, apresentando um projeto de que poderia chegar às Índia pelo Ocidente, porém, não foi aceita, conforme observamos na fi gura a seguir (SOUTO MAIOR, 1976). TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 15 O objetivo dos reis espanhóis Fernando e Isabel era de investir em Colombo sempre pensando na procura de uma rota acessível ao comércio das especiarias que, até aquele momento, pertenciam e enriqueciam os venezianos. As especiarias (pimenta, gengibre, o cravo, noz-moscada, a canela e o sal que era um produto mais barato), eram importantes porque utilizadas como conservantes para não apodrecer os alimentos e tinham um valor econômico importante (SIMONSEN, 1967). Os projetos de Colombo visavam encontrar novas rotas para chegar ao Oriente, ele acreditava que navegando sempre em direção ao Ocidente baseando- se no princípio da esfericidade da Terra chegaria às Índias. Assim, com apoio de Pinzón, partiram no dia 3 de agosto de 1492 do Porto de Palos, com três caravelas: Santa Maria, Pinta e Nina, e em 12 de outubro de 1492, somente mais tarde, descobriram que era um novo continente que posteriormente se chamaria América, terras essas que ele denominou de San Salvador e eram chamadas pelos indígenas de Guanaani. Ao explorar outras ilhas do arquipélago como Cuba, acabou homenageando D. João com o nome da ilha de Juana e no Haiti com o nome de Hispaniola (SOUTO MAIOR, 1976). UNI As Viagens de Colombo Conforme relato da primeira viagem, Colombo alcançou e tomou posse de ilhas nos arquipélagos das Bahamas e das Antilhas, como Colba (Cuba) e Espanhola (Haiti e República Dominicana), a partir das quais explorou as costas do norte, banhadas pelo mar das Bahamas. Acreditava ter chegado às ilhas orientais que fariam parte da Ásia. Construiu o forte La Navidad e encontrou algum ouro em Espanhola. A rebeldia de Martin Alonso e a perda da Santa Maria não obscureceram o sucesso dessa viagem. A segunda expedição, segundo Colombo, havia sido organizada para responder às grandes expectativas de expansão territorial e de busca de riquezas; reuniu 17 navios abastecidos para seis meses de viagem e uma tripulação de 1.200 membros, entre marinheiros, militares e colonos. Colombo tomou posse de novas ilhas do arquipélago das Antilhas e deu sequência à exploração de Cuba e de Espanhola, pelas costas do sul, no mar do Caribe; iniciou a construção do assentamento de La Isabela, em Espanhola, e encontrou minas de ouro (aluvião). Contudo, os problemas desse amplo empreendimento se ampliariam, exacerbando confrontos entre os próprios viajantes e a exploração dos nativos. A frota da terceira viagem era formada por seis navios, divididos em dois grupos. Colombo modificou a rota para uma latitude mais próxima da linha equinocial, descobriu a ilha de Trinidad e o delta do Orinoco, na atual Venezuela, tendo sido o primeiro europeu a avistar terras continentais do novo mundo na sua porção sul. Dirigiu-se para o estabelecimento de Santo Domingo, Espanhola, para defrontar-se com uma situação de guerra entre os próprios castelhanos e de extermínio e sujeição dos nativos a trabalhos forçados para produção de alimentos e mineração do ouro. As desavenças entre os colonizadores resultaram na destituição de Colombo, que retornou como prisioneiro à Espanha. FONTE: VELOSO FILHO, Francisco de Assis. A expansão europeia dos séculos XV e XVI: contribuições para uma nova descrição geral da terra. Revista Equador (UFPI), v. 1, n. 1, p. 4-25, jun./dez., 2012, p. 7-8. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 16 Colombo, depois que retornou à Espanha, efetuou ainda outras três viagens nas terras que havia encontrado com apoio de Isabel, porém quando ela faleceu, Fernando não quis mais ajudá-lo. No entanto, só descobriram que não eram as Índias quando outro navegador fez o mesmo trajeto de Colombo e concluiu que era uma nova terra e, como reconhecimento, recebeu o nome América (SOUTO MAIOR, 1976). Alguns estudiosos dizem que Colombo morreu sem saber que havia chegado em um novo continente pela rota que havia traçado. A divulgação de um novo caminho fez com que os portugueses ficassem preocupados, levando a estabelecer direito de posse das terras encontradas (SOUTO MAIOR, 1976). Primeiramente em 4 de maio de 1493 foi elaborado um documento com o nome de Bula Inter Coetera assinado pelo papa Alexandre VI, no qual ficava estabelecida a divisão de 100 léguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde para a Espanha e a leste para Portugal, porém esse acordo não foi firmado, porque a Espanha teria muitas vantagens em relação a Portugal. Então em 1494 Portugal e Espanha passaram a disputar a posse das terras e acordaram um novo acordo conhecido como Tratado de Tordesilhas o qual ficou estabelecido Tratado de Tordesilhas que determinava a divisão das terras sendo pertencentes à Espanha 370 léguas oeste, e à Portugal 370 léguas a leste da ilha de Cabo Verde em que outros países ficariam exclusos da partilha (RAINER, 2018, s.p.). Com o Tratado de Tordesilhas (1494) firmado por Espanha e Portugal, o Brasil seria de domínio português. O rei Francisco I, da França ironizou o Tratado, questionando sobre onde estaria a cláusula do testamento de Adão, que delegasse somente a Portugal e Espanha a posse das novas terras descobertas (PRADO JÚNIOR, 1984). NOTA Bulas Durante os séculos XV e XVI, o poder não se restringia aos reis, figurando como sujeito no âmbito internacional, o Papa. Época em que o SumoPontífice exercia através do seu poder temporal e espiritual significativa influência e interferência nos conflitos ocorridos entre os Estados, quadro que começaria a ser modificado somente no século XVII, pelo Tratado de Paz de Westfália (1648), quando os Estados passariam a ter menos influência do Catolicismo Interesses não só divididos entre os países ibéricos católicos, como compartilhado com a Santa Sé, que ao mesmo tempo em que Portugal e Espanha avançavam em suas conquistas, expandia junto dela sua jurisdição fora da Europa, com a conversão dos povos não cristãos através de sua aculturação. Desta forma, representou à intervenção papal a primeira base ou fundamento da exploração, ocupação e colonização de terras ultramarinas por países da Europa, de maneira a legitimá-la sob o ponto de vista religioso. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 17 Ainda nesse período é marcante a influência do papa como autoridade eclesiástica, usando de seu poder, que se manifestava ou se exteriorizava, através dessas bulas que faziam expedir. Bula, palavra cujo conceito se faz necessário elucidar. A palavra bula significa, etimologicamente, medalha ou selo. Como, porém, desde a antiguidade, fora empregada para designar o selo de chumbo ou de ouro, que normalmente pendia das escrituras solenes imperiais ou pontificiais, o seu âmbito de significado passou a compreender também os próprios documentos selados [...]. FONTE: PONTIN, Rafael de Almeida Leme. As bulas e tratados dos séculos XV, XVI e XVIII na história do direito brasileiro: seus reflexos na América portuguesa. Disponível em: <http:// www.salesianocampinas.com.br/unisal/downloads/art07cad04.pdf>. Acesso em: 22 jul. 2018. O Tratado de Tordesilhas estabelecia que 370 léguas ao Oeste das Ilhas de Cabo Verde pertenceriam à Espanha e a 370 léguas ao Leste seriam de Portugal. Na figura a seguir, observa-se o novo acordo, firmado em Tordesilhas sobre a distribuição dos territórios encontrados. FIGURA 9 – TRATADO DE TORDESILHAS – 1494 FONTE: <https://i0.wp.com/files.professor-leandro.webnode.com.br/200000227-82a2284978/ cabral2.png>. Acesso em: 19 jul. 2018. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 18 Depois de Colombo, outras viagens marítimas ocorreram. O navegador Vicente Pinzón descobriu a foz do rio Amazonas em 1500; Vasco Nunes de Balboa atingiu o Oceano Pacífico em 1513; Fernão Magalhães iniciou a primeira viagem de circunavegação da Terra em 1519 e só foi completada em 1521 por Sebastião d’el Cano (SOUTO MAIOR, 1976). Para Mendonça (2002), assim como Portugal, a Espanha teve interesse em conquistar novas terras. Com o poder centralizado, pode-se lançar ao mar em busca de novas terras e metais preciosos, explorando o México (1519) e o Peru (1532) e mais tarde as minas de Potosí (Bolívia). No século XVI, tornou-se a maior potência europeia, obteve benefícios com os conhecimentos marítimos proporcionados pelo pioneirismo de Portugal, a expansão marítima. Após o anúncio das terras da América, os espanhóis só se ocuparam com a política colonial quando as riquezas dos incas e astecas começaram a ser saqueadas. Portugal lutava a mão armada contra os asiáticos, enquanto que os espanhóis viam os povos na América como povos atrasados e que poderiam explorar sem usar armas. Retiravam de suas colônias como México e Peru, a partir de 1541, cerca de 300 toneladas de prata com facilidade (SIMONSEN, 1967). Em Potosi, na Bolívia (1545 e 1558), foram descobertas minas de prata e as Zacatecas e Guanajuato no México. Em meados do século XVII, a prata englobava mais de 99% das exportações da América hispânica (GALEANO, 1989). UNI Relato sobre o tesouro extraído da América pelos espanhóis “[...] nossos espanhóis descobriram, percorreram, converteram enormemente terras em sessenta anos de conquista. Nunca nenhum rei e nenhuma nação percorreram e subjugaram tantas coisas em tão pouco tempo, como nós fizemos, nem fizeram nem mereceram o que nossas gentes fizeram e mereceram pelas armas, pela navegação, pela pregação do Santo Evangelho e pela conversão dos idólatras. É por essa razão que os espanhóis são perfeitamente dignos de louvor. Abençoado seja Deus que lhes deu essa graça e esse poder” (MENDONÇA; PIRES, 2002, p. 22). Segundo Mendonça (2002), os metais extraídos da América espanhola não ficaram somente na metrópole, pois mesmo antes de 1530 tiveram que enviar como forma de pagamento para outros países, inclusive para os Países Baixos. O modelo de colonização que permeou as colônias espanholas na América foi de exploração com mão de obra escrava, que se viu vitoriosa pelos milhares de toneladas de metais preciosos e frágil diante de outras nações concorrentes como Holanda, Inglaterra e a França. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 19 Caro acadêmico, na fi gura a seguir, você pode observar a divisão dos territórios na América entre as nações europeias. FIGURA 10 – DIVISÃO DOS TERRITÓRIOS ENTRE OS IMPÉRIOS COLONIAIS FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:European_Empires.svg>. Acesso em: 19 jul. 2018. Frente às riquezas encontradas pelos espanhóis de ouro e prata nas Américas, quais as causas que levaram a Espanha entrar em decadência? Uma das causas que pode ser elencada para essa decadência são os metais preciosos que chegavam continuadamente até a Espanha e que abasteciam as colônias de dominação espanhola que eram repassados para as indústrias de outros países. Outra causa é que mesmo que a Espanha, assim como Portugal, tenha sido uma das primeiras nações a explorar as Américas, também apareceram nesse cenário outras nações que passariam a ser concorrentes da Espanha (SIMONSEN, 1967). Simonsen (1967, p. 42) elencou alguns fatores que contribuíram para a decadência da Espanha: • Concorrência comercial: Holanda, Inglaterra e França. • A Igreja tinha forte infl uência religiosa. • Expulsão dos mouros e judeus que acabou atingindo o trabalho de produção industrial e agrícola. • Aumento de uma classe de nobres que não trabalhavam. • Empréstimos adquiridos com banqueiros italianos e alemães para pagar dívidas de guerras. Nota-se que dois países ibéricos não conseguiram manter o monopólio das Américas sem a interferência de outros países concorrentes. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 20 A descoberta de novos caminhos para o Oriente e para as Américas fez com que outras nações europeias passassem a disputar e se apropriar das terras em busca do lucro do comércio mercantilista. Enquanto a tão poderosa Espanha perdia seus domínios, a sua concorrente Portugal continuou com seu império colonial. 6 MUDANÇAS E CONSEQUÊNCIAS DA EXPANSÃO MARÍTIMA DO SÉCULO XV As grandes navegações do século XV foram propulsoras de nações europeias como Portugal e Espanha que passaram por várias mudanças nas estruturas econômicas, sociais, políticas, religiosas e culturais. Primeiramente com a implantação de uma tecnologia náutica que puderam fazer longas viagens dominando mares desconhecidos para chegar em outros continentes conhecidos como: Ásia e África em busca das chamadas especiarias, que eram fonte de riqueza naquela época e que ajudaram a restabelecer a economia dessas nações. Em relação à sociedade, ocorreu uma união entre a classe burguesa e o rei por interesses econômicos, extinguindo o poder dos senhores feudais. Estava nascendo, com essa nova visão econômica, a revolução comercial com um governo centralizado, moeda única e interesses em outros lugares que passaram a ser suas colônias. E, consequentemente, os povos nativos dessas regiões foram explorados, as suas riquezas foram extraídas e a eles foi imposto mão de obra escrava. No século XV, a economia da Europa estava em expansão, impulsionada pela burguesia das cidades. A população estava em crescimento. Todavia, havia muitos obstáculos à expansão das atividades comerciais. Esses obstáculos foram os fatores de natureza econômica dos descobrimentos.No século XV, a economia da Europa estava em expansão, impulsionada pela burguesia das cidades. A população estava em crescimento. No entanto, havia muitos obstáculos à expansão das atividades comerciais. Esses obstáculos foram os fatores de natureza econômica dos descobrimentos. O quadro a seguir apresenta as principais motivações que induziram estes reinos a lançarem-se ao oceano e consequências. TÓPICO 1 | AS GRANDES NAVEGAÇÕES MARÍTIMAS NO SÉCULO XV 21 QUADRO 2 – FATORES MOTIVADORES DAS GRANDES NAVEGAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS Fatores Interesses e consequências Econômicos • descobrir novas rotas de comércio, pois o Mediterrâneo estava dominado pelos muçulmanos; • descobrir novas terras para a agricultura; • abrir novos mercados fornecedores de matérias-primas, sobretudo de produtos alimentícios; • ampliar o mercado consumidor para os produtos fabricados na Europa; • adquirir metais preciosos para fortalecer as moedas nacionais europeias. Políticos O fortalecimento do poder real, que pôde assim ajudar os comerciantes nas viagens marítimas. Sociais O enriquecimento dos comerciantes e artesãos, que formavam a burguesia comercial. Religiosos O interesse da Igreja e dos monarcas cristãos da Europa em difundir o Cristianismo entre os povos das novas terras descobertas. Culturais Os progressos técnicos, com o desenvolvimento dos estudos da Astronomia, e a descoberta de novos instrumentos de navegação (bússola e astrolábio), a construção de embarcações apropriadas para as longas viagens e a fabricação de armas de fogo, que facilitavam a dominação dos povos primitivos. FONTE: Santos (1984, p. 144-145) É importante salientar que as nações como Portugal e Espanha dominaram a expansão ultramarina do século XV, levando o comércio europeu a navegar novas rotas como o oceano Atlântico e o Índico para o acesso às Índias, à África e ao novo mundo, as Américas, conquistando novas terras, metais preciosos e aculturando povos que ali encontraram. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 22 DICAS Assista ao vídeo intitulado Grandes navegações, que relata as tecnologias na Era das Navegações. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lS_UYBPSTds>. Acesso em: 16 jul. 2018. NOTA Para saber mais sobre a Era das Navegações, na Espanha, assista ao filme A Conquista do Paraíso de 1492, que narra toda a viagem do navegador genovês Cristóvão Colombo e a descoberta da América em 1492, e o primeiro contato os índios. Colombo conhece uma pessoa que poderá conseguir uma audiência com a rainha Isabel, da Espanha e viabilizar sua expedição. Por meio do filme, você poderá analisar o papel social dos banqueiros no contexto das Grandes Navegações. Disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=ip9H_2MjWJY>. Acesso em: 14 jul. 2018. 23 Neste tópico, você aprendeu: • Como era a estrutura econômica, social e política na Europa no final do século XIV, conhecida como sistema feudal. • Como Portugal e Espanha conseguiram encontrar novas rotas para o comércio das especiarias além do mar Mediterrâneo, atingindo os continentes África e Ásia, pelos oceanos Atlântico e Índico. • Como Portugal se tornou o primeiro país a conquistar as navegações marítimas por encontrar-se numa localização privilegiada e em um poder político centralizado. • O que foi o Périplo africano em que Bartolomeu Dias chegou até o Cabo das Tormentas; isto é, o caminho para se chegar as Índias foi contornado pelo continente africano. • Que os espanhóis também passaram a concorrer em busca de novas terras e riquezas que encontrassem além-mar por um caminho ao contrário dos portugueses chegando as índias pelo Ocidente. • A importância do Tratado de Tordesilhas para os espanhóis e portugueses no qual ficou estabelecido que o limite de 370 léguas ao oeste da ilha de Cabo Verde na África ficaria para a Espanha e 370 léguas ao leste da ilha de Cabo Verde ficaria para Portugal. • Os fatores que levaram ao declínio da Espanha foram: a concorrência comercial com outras nações vizinhas como a Holanda, Inglaterra e França; o poder da Igreja Católica sobre o trabalho e como a expulsão dos mouros e judeus atingiu a produção industrial e agrícola na Espanha. RESUMO DO TÓPICO 1 24 1 Explique por que Portugal foi o primeiro país a dar início às Grandes Navegações. 2 Qual foi o interesse dos europeus nas Índias? E por quê? 3 Explique por que Portugal não aceitou a Bula Inter Coetera e foi estabelecido um novo acordo conhecido como Tratado de Tordesilhas. 4 Explique por que as especiarias eram tão importantes para o mercado europeu no século XV. 5 O que levou a Espanha, no século XV, a entrar na corrida das Grandes Navegações Marítimas? 6 Descreva como os espanhóis chegaram ao novo mundo. 7 Elabore um texto sobre as principais características das grandes navegações portuguesas no século XV, seguindo o mapa conceitual. 8 Leia o trecho do diário de Colombo e em seguida analise como ele viu os povos ao chegar no novo continente. AUTOATIVIDADE Trechos do diário da descoberta da América por Cristóvão Colombo ao encontrar outros povos. “O que se segue são palavras textuais do Almirante, em seu livro sobre a primeira viagem e descobrimento dessas Índias: Eu – diz ele –, porque nos demonstraram grande amizade, pois percebi que eram pessoas que melhor se entregariam e converteriam à nossa fé pelo amor e não pela força, dei a algumas delas uns gorros coloridos e umas miçangas que puseram no pescoço, além de outras coisas de pouco valor, o que lhes causou grande prazer e ficaram tão nossos amigos que era uma maravilha. Depois vieram nadando até os barcos dos navios onde estávamos, trazendo papagaios e fio de algodão em novelos e lanças e muitas outras coisas, que trocamos por coisas que tínhamos conosco, como miçangas e guizos. Enfim, tudo aceitavam e davam do que tinham com a maior boa vontade. Mas me pareceu que era gente que não possuía praticamente nada. Andavam nus como a mãe lhes deu à luz; inclusive as mulheres, embora só tenha visto uma robusta rapariga. E todos os que vi eram jovens, nenhum com mais de trinta anos de idade: muito bem-feitos, de corpos muito bonitos e cara muito boa; os cabelos grossos, quase como o pelo do rabo de cavalos, e curtos, caem por cima das sobrancelhas, menos uns fios na nuca que 25 mantêm longos, sem nunca cortar. Eles se pintam de preto, e são da cor dos canários, nem negros nem brancos, e se pintam de branco, e de encarnado, e do que bem entendem, e pintam a cara, o corpo todo, e alguns somente os olhos ou o nariz. Não andam com armas, que nem conhecem, pois lhes mostrei espadas, que pegaram pelo fio e se cortaram por ignorância. Não tem nenhum ferro: as suas lanças são varas sem ferro, sendo que algumas têm no cabo um dente de peixe e outras uma variedade de coisas. Todos, sem exceção, são de boa estatura, e fazem gesto bonito, elegantes. Vi alguns com marcas de ferida no corpo e, por gestos, perguntei o que era aquilo e eles, da mesma maneira, demonstraram que ali aparecia gente de outras ilhas das imediações com a intenção de capturá-los e então se defendiam. E eu achei e acho que aqui vêm procedentes da terra firme para levá-los para o cativeiro. Devem ser bons serviçais e habilidosos, pois noto que repetem logo o que a gente diz e creio que depressa se fariam cristãos; me pareceu que não tinham nenhuma religião. Eu, comprazendo a Nosso Senhor, levarei daqui, por ocasião de minha partida, seis deles para Vossas Majestades, para que aprendam a falar. Não vi nesta ilha nenhum animal de espécie alguma, a não ser papagaios”. Todas as palavras que acabo de transcrever são do Almirante e nelas se refletem as impressões que colheu no primeiro contato com os índios”. FONTE: COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Disponível em: <http://www.lpm.com.br/livros/Imagens/diarios_da_descoberta_ da_america.pdf>. Acesso em: 21 jul. 2018. 26 27TÓPICO 2 FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO As condições em que o Brasil foi ocupado são decorrentes das transformações históricas que se consolidaram entre o século XV e XVI e que derivou a denominação de economia-mundo europeia. Para Wallerstein, a economia-mundo era algo diferente, um sistema mundial, não porque englobava todo o mundo, mas incluía impérios, cidades-Estado e as nações-estado. Nesse sentido, a colonização é inerente a este sistema mundial que se configurava (MENDONÇA; PIRES, 2002). Como se viu no tópico anterior, todos estavam interessados no comércio além do continente europeu, o que permitiu o desenvolvimento da expansão ultramarina. Então, você já pensou por que foram os portugueses que colonizaram o Brasil? O pioneirismo português se deu em decorrência do fechamento do Mediterrâneo pelos turcos que dominaram Constantinopla, em 1453. Portugal, devido a sua condição geográfica, da centralização do poder monárquico, foi privilegiado na corrida por novas rotas de comércio com o oriente (MENDONÇA; PIRES, 2002). De acordo com Prado Júnior (1976), o termo colonizar como era visto antes da colonização da América sofreu alterações. Isto se explica pelo fato de porque o novo continente não apresentava uma população que oferesse produtos para fins mercantis, além disso, eram terras hostis e primitivas. Neste sentido, decorreu a necessidade de povoar o novo mundo, fundar povoamentos capazes de administrar as benfeitorias, administração e armada. Neste tópico discutiremos como os portugueses foram pioneiros e iniciaram a ocupação e quais os principais objetivos econômicos que se estabeleceram para o novo mundo que estava sendo desbravado. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 28 DICAS Indicação de filme: A colonização, disponível em: <https://www.youtube. com/watch?v=zpNr6KKH8d8&t=432s>. Acesso em: 15 jul. 2018. Resumo: o documentário apresenta os costumes dos primeiros colonos portugueses e sua interação com os povos nativos, bem como os desdobramentos econômicos de suas atividades. 2 INÍCIO DA OCUPAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL O pioneirismo português em colonizar novas terras já havia se apresentado em ilhas do Atlântico, ainda no século XVI. Os novos desafios se apresentavam em como estabelecer a fonte mais segura de rendimentos dos novos territórios conquistados. A princípio, o extrativismo é a primeira fonte de recursos, como a extração do pau-brasil, metais preciosos, entre outras atividades extrativas (PRADO JÚNIOR, 1976). Esta ocupação só seria viável se os portugueses encontrassem meios de acumular riquezas. Portanto, expedições de franceses e holandeses constituiam-se numa ameaça permanente, o que restava aos portugueses era a ocupação como meio de preservar o domínio da colônia e monopólio dos recursos do seu território (MENDONÇA; PIRES, 2002). Logo, é fácil compreender porque a colonização se alicerçou primeiro no extrativismo e a primeira cultura que foi incentivada foi a de cana-de-açúcar, pela questão dos altos lucros gerados pelo açúcar no mercado europeu. De acordo com Furtado (1980), o fato dos primeiros exploradores não terem encontrado metais preciosos frustrou-os, mas Cabral teve o cuidado de assegurar a posse das Terras de Vera Cruz (denominação dada para o Brasil inicialmente), deixando alguns exploradores para conviver com os nativos, e assim aprender o idioma e os costumes, para facilitar a vinda das próximas esquadras. Várias outras expedições vieram entre os anos de 1501 a 1503, quando Américo Vespúcio atracou na Bahia de Todos os Santos, e construíram um forte. Entretanto, o Brasil não apresentava condições iniciais para a exploração de metais preciosos e estabelecer comércio, como era com o Oriente, posto que os nativos ainda viviam em condições da era pré-neolítica (FURTADO, 1980). Então, como o Brasil entra nos jogos do interesse da Coroa Portuguesa, que havia se transformado em um dos principais atores mais arrojados do capitalismo comercial? TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 29 UNI Roland Mousnier assim descreveu os habitantes do território brasileiro antes da chegada dos portugueses: “Desde a Venezuela até o Rio da Prata encontravam-se dispersas tribos Tupis-Guaranis. As mais conhecidas eram as dos Tupinambás que, no século XVI e no começo do século XVII, ocupavam a costa oriental do continente americano, desde a foz do Amazonas até a do Rio da Prata [...] Os Tupis-Guaranis encontravam-se num estágio do neolítico anterior ao dos Maias. Ignoravam o metal, salvo o ouro, mas este fora introduzido por via comercial. Serviam-se de machados de pedra azul-negra, de gume semicircular, fabricados todos os meses, no primeiro dia de quarto crescente. Durante o trabalho, suas mullheres e filhas dançavam e cantavam à luz da lua. Assim, acreditavam que seriam invencíveis. Fabricavam facas de pedra. Dentes de pecaris ou de roedores serviam como buris ou conzeis. A concha de caracóis desempenhava muito bem o papel de plainas. Espinhos recurvados funcionavam como anzois. O chuço endurecido ao fogo era o único instrumento agrícola. Sua arma preferida era a maçã. Utilizavam também grandes arcos com ponta de osso, de dente de tubarão ou cauda de arraia. Usavam escudos redondos, feitos de couro de tapir, de madeira leve ou de casca de árvores ou construíam, com cascas, canoas para 30 a 60 homens, nas quais remavam em pé. Eram hábeis navegadores [...] O essencial de sua alimentação era-lhes fornecido pela agricultura. Praticavam a cultura da queimada, na floresta. Cultivavam mandioca, milho, batata da Índia, feijão, amendoim, pimenta, abacaxi, fumo, banana e cana-de-açúcar. Possuíam árvores de fruto, tais como caju, manga, mamão, cabaceira. Acrescentavam a isto o produto de caça e da pesca”. FONTE: MOUSNIER, Roland. As civilizações indígenas à chegada dos europeus. Apud MENDONÇA, Marina Gusmão de; PIRES, Marcos Cordeiro. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002, p. 32. A organização tribal desses povos indígenas os permitia viver do extrativismo e de uma agricultura rudimentar. Não trabalhavam com os metais e não atendiam às ambições do descobridor. Além disso, Portugal dispunha de uma população de um milhão de habitantes no início do século XVI, o que dificultava o envio de recursos humanos para povoar os novos territórios conquistados. Entretanto, entre 1493 a 1520, o comércio do ouro foi intenso, bem como a comercialização de produtos como tecidos, lenços e mantas por ouro, marfim, escravos, goma-arábica entre outros, na costa africana como Canárias, Açores e Cabo Verde, pois essas ilhas ofereciam a produção de açúcar, que tinha demanda crescente no mercado europeu. Além do promissor comércio com o Oriente, logo o Brasil estava num plano secundário (FURTADO, 1980). Assim, somente a produção de um artigo tão demandado na Europa como o açúcar justificaria os riscos e o custo do transporte oceânico, poderia gerar a lucratividade necessária para os portugueses (PIRES, 2010). UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 30 DICAS Para saber mais sobre o assunto, leia o artigo intitulado Imagens do Brasil: o século XVI, que aborda as percepções dos primeiros exploradores do Brasil sobre os costumes dos nativos no século XVI. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0103-40141990000300005>. Acesso em: 16 jul. 2018. Para facilitar sua compreensão dese período histórico, observe a síntese no quadro a seguir com os principais acontecimentos que marcaram as fases da colonização portuguesa e a ocupação no Brasil. De acordo com Furtado (1980), a partir de 1808, o Brasil pode ser considerado independente economicamente de Portugal, devido à mudança da monarquia portuguesa para o Brasil. QUADRO 3 – FASES DA ECONOMIA PORTUGUESA Período Fases 1500 - 1580 Período áureo do comércio e dopoderio português que, de fato, se estendeu até 1595. 1580 - 1640 Período filipino em que Portugal esteve submisso à Coroa Espanhola, ocorrendo a fragmentação de sua economia. 1640 - 1668 Período que se caracteriza pelas concessões comerciais feitas pela Coroa portuguesa às grandes potências, principalmente à Inglaterra, para manter seu império. 1668 - 1777 Período em que ocorreu a restauração econômica de Portugal. 1777 – 1808 Período em que o comércio floresceu. FONTE: Furtado (1980, p. 10) Cabral enviou ao Rei D. Manuel I amostras do pau-brasil das novas terras e o apresentou como a única mercadoria de valor que poderia gerar demanda dos mercadores portugueses, devido ao interesse por substâncias tintoriais. A expedição de 1501 retornou a Portugal com um carregamento dessa madeira, e D. Manuel tornou o pau-brasil monopólio da Coroa. Além disso, D. Manuel arrendou a D. Fernão de Loronha (um rico mercador), que parece que teve vários associados (SIMONSEN, 1967). O que parece certo é que de fato esse arrendamento, feito inicialmente por três anos, foi com ele ou com outros renovado por algumas vezes; que, por exigência do arrendatário, o soberano português concordou em suprimir a importação do Brasil asiático e, que, por sua vez, o arrendatário ou, mais tarde, o arrendatário, porque parece que Fernão de Loronha teve posteriormente vários associados, se obrigaram a mandar anualmente três naus à terra de Santa Cruz, a descobrir 300 léguas de costa e pagar 1/5 do valor da madeira ao soberano TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 31 português. Obrigaram-se, ainda, a instalar fortalezas para a defesa dos novos territórios (SIMONSEN, 1967, p. 53). A exploração do pau-Brasil seria conveniente para a Coroa portuguesa, e os comerciantes reconheceram o valor do que encontraram em abundância nas terras de Santa Cruz . UNI Curiosidade sobre o Rei de Portugal e 1º Rei do Brasil: Quem era D. Manuel I? Décimo quarto rei de Portugal, nono filho do infante D. Fernando e de D. Brites. “Filho adotivo do príncipe D. João II, devido à morte do seu irmão D. Diogo, o conduziu a que fosse aclamado rei em Alcácer do Sal (27 de outubro de 1495). Realizou três casamentos, o primeiro em 1497 com D. Isabel (viúva de D. Afonso), o segundo em 1500 com a infanta D. Maria de Castela e o terceiro em 1518, com D. Leonor, irmã de Carlos V. Como político, teve sempre em conta o interesse nacional. Recebeu o governo exatamente no momento em que a Nação se preparava para alcançar a mais elevada projeção. Os vinte e seis anos do seu reinado conheceram grande atividade nos domínios da política interna, da política ultramarina e da política externa. 1) O poder que viera parar às suas mãos era forte, centralizado e o seu governo tendeu abertamente para o absolutismo. Com efeito reuniu cortes logo quando subiu ao trono, em Montemor-o-Novo e só mais três vezes, em 1498, 1499 e 1502, e sempre em Lisboa, o que é significativo. Nas cortes de Montemor-o-Novo, toma medidas no sentido duma centralização mais profunda de toda a administração pública: mandou confirmar todos os privilégios, liberdades e cartas de mercê, pelos principais letrados do reino que elegeu, reforma os tribunais superiores e toma uma política de tolerância em relação aos nobres emigrados por razões políticas e judeus castelhanos que D. João II reduzira à escravatura. Pelo decreto de 1496 obriga todos os judeus que não se quisessem batizar a abandonar o país no prazo de dez meses, sob pena de confisco e morte. Pela lei de 4 de maio de 1497, proibiu que se indagasse das crenças dos novos convertidos e, por alvará de 1499, dificulta a saída do reino aos conversos. O objetivo era agradar aos Reis Católicos e ao mesmo tempo, evitar que os judeus continuassem a ser um todo independente dentro do reino. Pelas Ordenações Afonsinas, deixa de reconhecer individualidade jurídica aos judeus; faz a reforma dos forais, com o fito económico de atualizar os encargos tributários e para eliminar a vida local; em 1502 saiu o regimento dos oficiais das cidades, vilas e lugares (Livro dos Ofícios); em 1509 o das Casas da Índia e Mina e em 1512 saiu o novo regimento de sisas. Por outro lado, com D. Manuel inaugura-se o Estado burocrático e mercantilista, mandando cunhar índios, o português ou escudo de prata. 2) D. Manuel herdou o impulso dos descobrimentos. Partiu para a índia (8 de julho de 1497) a armada de Vasco da Gama, que chegou a Calecut em 20 de maio de 1498. Em 1500 uma armada comandada por Pedro Álvares Cabral, com o objetivo da Índia, rumou intencionalmente (opinião atual) para sudoeste, atingindo a Terra de Santa Cruz. Soube D. Manuel em matéria de política externa, usar de grande habilidade e diplomacia. No aspecto cultural, reconheceu o atraso do ensino universitário, mandando promover a reforma da universidade, estabelecendo entre 1500 e 1504 novos planos de estudo e uma nova administração escolar. FONTE: O PORTAL DA HISTÓRIA. História de Portugal. Disponível em: <http://www.arqnet. pt/portal/portugal/temashistoria/manuel1.html>. Acesso em: 17 jul. 2018. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 32 3 O INÍCIO DAS ATIVIDADES ECONÔMICAS NO BRASIL Entendido alguns aspectos relevantes da base da colonização, como sua formação e expansão neste período, podemos avançar agora, para o contexto de desenvolvimento das atividades econômicas iniciais e que determinaram os rumos e a cultura produtiva por um longo período. Começamos pela exploração do pau-brasil e suas relações com o povoamento da colônia, em seguida, vamos apresentar como se deu a cultura do açúcar e suas vantagens, e por fim, as atividades de mineração no século XVIII. 3.1 A EXPLORAÇÃO DO PAU-BRASIL E O POVOAMENTO DA COLÔNIA A exploração do pau-brasil no início da ocupação foi a mais relevante no início da ocupação portuguesa do Brasil, mas como caracterizou Simonsen (1967), pode-se dizer que foi uma destruição das florestas. O pau-brasil conhecido como arabutã era cortado em grandes quantidades. Mas pode-se apontar, ainda, a exploração de outras espécies vegetais como o ibirapitanga, que também fornecia tintura e fornecia madeira para carpintaria. Também destacava-se o jacarandá. O principal trecho de exploração da madeira tintorial era o Cabo de São Roque (RN) e Cabo Frio (RJ), e entre Cabo de Santo Agostinho e o Rio Real. Prado Jr. (1976) reforçou a destruição das florestas, por meio do tráfico tanto português como dos franceses que se aproximavam da costa brasileira para carregar seus navios de pau-brasil, e também contavam com os indígenas que traziam a mercadoria em troca de objetos e ferramentas. No entanto, a rentabilidade da mercadoria pau-brasil era baixa se comparada com os outros produtos comercializados do Oriente. O interesse em comercializar o produto começou a diminuir, quando o pau-brasil começou a extinguir-se na costa e aumentou seu custo de exploração. Mas, como já mencionado, havia outras riquezas vegetais que poderiam ganhar aceitação no mercado europeu, e Portugal não podia deixar essas terras abandonadas com seus arrendatários e sem defesa. Assim, decorrem as feitorias (FURTADO, 1980). De acordo Com Prado Jr. (1997), o que se fala de colonização nada mais é do que a instalação das feitorias comerciais, estabelecendo um povoamento. As feitorias foram definadas por Furtado (1980) como: As feitorias eram construções rústicas, erguidas por grupos reduzidos de homens – na maioria degredados, desertores e náufragos – sediados no litoral e encarregados da derrubada e transporte de toros para a praia, normalmente em local de fácil atracação das naus. O serviço era executado com a colaboração dos indígenas, na base do escambo, pelo qual recebiam quinquilharias que os deslumbravam. A feitoria tornava- se, assim, um posto de resgate de toros de madeira com os indígenas, que os derrubavam a machado e, muitas vezes, os carregavam de15 a TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 33 20 léguas (90 a 120 quilômetros). Acumulada a madeira nas feitorias, com a chegada das naus, os nativos transportavam os toros para bordo, quando o serviço não era executado pela tripulação. Na falta de feitoria, a tripulação das naus realizava o abatimento, o transporte e o carregamento dos troncos” (FURTADO, 1980, p. 13). As feitorias foram relevantes no processo de povoamento e colonização da colônia. Em algumas feitorias ocorreram as primeiras tentativas de agroindústrias açucareiras. Além disso, observou-se a intensa miscigenação entre portugueses e indígenas (FURTADO, 1980). O espírito aventureiro do português, a sua ânsia por prosperidade material rápida o traria às terras brasileiras. Entretanto, embora as condições do novo mundo se apresentaram muito difíceis para o habitante da Ibéria, os portugueses se demonstraram capazes de aprender com os nativos e se adaptar às condições do clima, geográfica e alimentação para melhor sobreviver (HOLANDA, 1995). Essa índole aventureira e a capacidade de adaptação acrescida da expectativa dos lucros impuslsionaram os colonos para desbravar as terras do Novo Mundo, o Brasil. 3.2 O POVOAMENTO E O FORTALECIMENTO DE ATIVIDADES ECONÔMICAS NA COLÔNIA Em 1530, D. João III (1521-1557) permitiu que uma expedição com o objetivo de colonizar fosse comandada por Martim Afonso de Sousa. Este fez reconhecimento do litoral ao sul, e fundou na ilha de São Vicente, a primeira vila no Brasil, em 1532. Dessa forma, seu trabalho colonizador deixou espécies de plantas, gado e até mesmo escravos da Guiné em vários lugares do litoral, especialmente em São Vicente. Entretanto, a Coroa portuguesa, neste momento, não tinha como fazer grandes investimentos na colonização de tão extensas terras e uma ampla costa marítima, assim surgem as donatarias. As donatarias já haviam sido adotadas pelos portugueses nas ilhas atlânticas (FURTADO, 1980). Os portugueses também tinham medo da invasão dos franceses, a ocupação da colônia por meio de doações de terra seria uma solução para o povoamento (MENDES, 2012). No Brasil os territórios seriam doados e divididos entre a iniciativa privada (FURTADO, 1980): A área do Brasil de então, estimada em cerca de 80.000 léguas quadradas (480.000 km2), foi dividida em 14 lotes de 50 léguas de costa em paralelas perpendiculares à linha de Tordesilhas. E esses lotes foram doados – entre 1534 e 1536 – a doze donatários ou capitães, aos quais eram delegados poderes para governar soberanamente, administrar justiça e mobilizar recursos para lutar contra o eventual invasor. Eram, na maioria fidalgos, e muitos, financiados por capitais estrangeiros. O total das áreas doadas abrangia, de modo geral, um terço do atual território brasileiro. Foram criadas, posteriormente, outras donatarias, pela expansão da fronteira política e pelo valor econômico adquirido por certas regiões (FURTADO, 1980, p. 16). UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 34 Desses doze donatários, indivíduos de pouca expressão econômica e social, apenas dois tiveram êxito, sendo um amplamente auxiliado pelo Rei, os demais fracassaram e alguns perderam tudo e até mesmo a vida na colonização (PRADO JÚNIOR, 1976). Os donatários tinham direito de deixar suas terras aos seus sucessores, fez com que as capitanias também tivessem a possibilidade de serem hereditárias. A receita da Coroa Portuguesa advinha das condições que foram impostas nestas cartas de doação e que também lhes concediam direitos aos donatários (quadro a seguir): QUADRO 4 – DIREITOS DOS DONATÁRIOS Imposições da Coroa Portuguesa Uso efetivo de 20% das terras da donataria, sendo que os 80% restantes deveriam ser divididos em sesmarias entregues aos cristãos que as requeressem para cultivar, mediante o pagamento de tributo. Exploração das marinhas de sal, moendas de água e quaisquer engenhos, não podendo, inclusive, outra pessoa instalá-las sem sua prévia licença e sem lhes pagar o foro devido. Escravização dos indígenas em número limitado e autorização para a venda de uma certa quota – em média, 19 indígenas –, por ano, no mercado de Lisboa. Recebimento de 50% do valor do pau-brasil e do pescado, que eram monopólio da Coroa portuguesa. Cobrança de impostos, principalmente da redízima que correspondia a 10% da dízima recolhida pelo Tesouro Real. FONTE: Furtado (1980, p. 16) UNI VOCÊ ENTENDEU O QUE ERAM AS DONATARIAS? A Coroa Portuguesa dividiu em lotes as terras e doou para 12 donatários ou capitães. Assim, a Coroa assegurava-se do apoio da iniciativa privada para iniciar o processo de colonização, com pouco investimento e além de tudo, conseguiria estabelecer novas receitas. Os direitos e deveres dos donatários eram, de acordo com Simonsen (1967, p. 83): 1º) obrigaram-se, com sua gente, filhos, agregados ou escravos a servir com o capitão em caso de guerra; 2ª) pagarem ao alcaide-mor das vilas e povoados os foros, direitos e tributos que se pagavam no reino, de acordo com as ordenações (para fazer mercê aos colonos e donatários, comprometia-se El-Rei a não consentir em que houvesse, em tempo algum, na capitania, direitos de sisa, nem de saboaria, nem tributo de sal, nem outro algum, além dos que se consignavam no foral); TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 35 3ª) direito de pedir e receber sesmarias sem maiores ônus que o dízimo devido ao Mestrado de Cristo; 4ª) o serviço de culto, pago por El- Rei. A vantagem para os donatários é que podiam enviar qualquer produto aos mercados estrangeiros sem pagar impostos (com exceção de artigos estabelecidos pela Coroa). Os navios dos senhores que viessem do reino ao Brasil também estavam isentos de impostos, contanto que tivessem pago nas alfândegas do reino. O comércio entre os capitães e os moradores de outras capitanias também estava isento de impostos. E os navios não podiam ser carregados sem a licença dos capitães (SIMONSEN, 1967). O colono era um colono branco que buscava recursos para a produção de bens e produtos de valor comercial e o trabalho era recrutado por meio da escravidão, seja do negro africano ou dos nativos indígenas (PRADO JÚNIOR, 1997). De acordo com Mendonça e Pires (2002), o perfil dos colonizadores que desbravaram as terras brasileiras não valorizava o trabalho manual. Os poucos artesãos que vieram para a colônia não se mantinham por muito tempo em seu ofício. Esse desprezo pelas atividades manuais somado com as crenças da Igreja Católica para manter a ordem feudal em Portugal resultaram na fraca instalação da indústria de manufaturas em Portugal e se estendeu essa condição para a colônia. A falta de sucessão nos negócios impedia o aumento da produtividade e desenvolvimento produtivo. A falta de interesse pelos trabalhos manuais e a percepção católica são fatores apontados como impeditivos ao progresso econômico e desenvolvimento da indústria manufatureira no Brasil. Como veremos na sequência, o Brasil colônia fortaleceu sua economia pautado em ciclos econômicos. A agricultura de monocultura de grande propriedade rural apresentava um problema que desde os primeiros colonos que vieram para o Brasil já identificaram, a necessidade de abastecimento. No entanto, vejamos primeiro como se estabeleceu a plantation de cana-de-açúcar para depois discutirmos os problemas de abastecimento. 3.3 A CULTURA DO AÇÚCAR NA COLÔNIA A orientação da Coroa portuguesa em povoar a Colônia e utilizar-se dos donatários com seus investimentos próprios para tal fim marca a virada de uma economia coletora para uma economia voltada para a produção de gêneros que tivessem interesse mercantil na Europa, neste caso surgem as plantações de cana- de-açúcar. Dessa forma, há a intensificação do tráfico negreiro como mão de obra escrava para a produção de açúcar no Brasil. O Brasil nasce como elo colonial inserido no modode produção capitalista. Desde o início da nossa formação econômica, política, social e cultural nos realizamos como sistema produtor de mercadorias para a exportação. Superada a fase coletora e extrativa, passamos a produzir uma especiaria, o acúcar, para remunerar o capital comercial investido UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 36 nas plantations – grandes propriedades rurais monocultoras, baseadas no trabalho escravo, cujo destino do produto era o mercado externo (BORGES apud REGO; MARQUES, 2003). A produção do açúcar foi marcante na formação econômica do Brasil. Assim, o Brasil torna-se uma economia agroexportadora no mercado internacional, fato que até hoje prevalece. Segundo Mendonça e Pires (2002), foi o cultivo da cana-de-açúcar que fez com que Portugal mantivesse seu domínio sobre essas terras por tanto tempo. A reorganização da produção em larga escala (Plantation) da cana-de açúcar pelos portugueses até a implantação da indústria açucareira no Brasil, garantiu altos lucros para a Coroa. O açúcar era usado pelos europeus com fins medicinais e até o sec. XIV era produzido em pequenas quantidades e a Europa importava como artigo de luxo. O barateamento da produção por meio de novas técnicas de plantio de cana- de-açúcar e produção possibilitou que atingisse mercados mais abrangentes. Os portugueses contribuíram com o seu barateamento aumentando no século XV a oferta do produto. Em 1496, o rei D. Manuel I teve que baixar decretos para diminuir a produção, para tentar impedir que o preço da mercadoria caísse (MENDONÇA; PIRES, 2002). Devido ao clima brasileiro, já se esperava que essa cultura de cana- de-açúcar prosperasse, além disso, o solo também apresentou-se propício. Inicialmente, a costa brasileira se demonstrou com solos e clima favoráveis ao seu cultivo. Destacou-se o extremo-nordeste, na planície litorânea (atualmente é o Estado de Pernambuco), e a costa da baía de Todos os Santos. O sistema de donatarias se estabeleceu mediante a doação de grandes extensões de terra, o que determinou o tipo de propriedade no Brasil, de grandes senhores e latifundiários. Assim, a cultura de cana-de-açúcar se estabeleceu em grandes propriedades o que tornava a produção inviável para pequenos produtores. O latifúndio e a monocultura serão os pilares da organização produtiva no Brasil. Assim, o trabalho escravo tornou-se uma necessidade. Primeiro, pela diminuta população portuguesa, segundo porque os portugueses não eram afeitos aos trabalhos manuais e os colonos portugueses não emigrariam para o Novo Mundo com o interesse de realizar trabalhos assalariados do campo (PRADO JÚNIOR, 1976). Data de 1534 o primeiro engenho que produziu grandes quantidades de açúcar no Brasil. Este engenho fundado por Martim Afonso de Souza, em São Vicente. O primeiro engenho de Pernambuco tem registro de 1539 e o da Bahia, de 1546. Por volta de 1560, aproximadamente 57 engenhos estavam produzindo no Brasil, enquanto outros cinco estavam sendo construídos (MENDONÇA; PIRES, 2002). No Brasil, devido aos altos custos das instalações coloniais, devido à questão da proteção e segurança, transporte e embarque, que os engenhos deveriam desde o início de porte médio, produzindo acima de três mil arrobas anuais, que pudessem chegar à produção acima de 10 mil arrobas (SIMONSEN, 1967). Em 1548, estavam constituídas no litoral do Brasil 16 vilas e povoados que exportavam para Portugal algodão, açúcar, fumo, pau-Brasil e outros produtos TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 37 da agricultura. Com a finalidade de garantir maior segurança ao trabalho dos donatários devido à agressividade dos ataques indígenas e propiciar maior cooperação entre as donatarias, o governo português criou, em 1549, o Governo Geral do Brasil e Tomé de Sousa foi nomeado o primeiro Governador Geral do Brasil (SIMONSEN, 1967). A princípio, os colonos investiram na escravidão dos indígenas, mas não foi sem luta. Por vezes, os indígenas tomavam de assalto os estabecimentos dos colonos e destruíam tudo. A carta régia, datada de 1570, estabelecia que os nativos poderiam ser aprisionados e escravizados se oferecessem resistência aos colonos ou fossem agressivos. A escravidão indígena foi inteiramente sumplantada no século XVIII. O processo da substituição da mão de obra indígena pela negra foi feito até o fim do tempo colonial (PRADO JÚNIOR, 1976). Assim, constituiu- se a estrutura da produção na colônia: monocultura, propriedade latifundiária e trabalho escravo. Os dados da demografia na época colonial são muito imprecisos “não apenas o seu tamanho durante os mais de três séculos iniciais da formação econômica brasileira, mas também os seus componentes regionais e sua dinâmica e padrão de crescimento” (REGO; MARQUES, 2003, p. 14). Não se sabe com toda segurança quando os africanos escravizados chegaram ao Brasil. Ao que tudo indica podem ter aportado pela primeira vez nessas terras, na primeira expedição oficial de povoadores de 1532 (PRADO JÚNIOR, 1976). A tabela a seguir apresenta uma estimativa no século XVII de escravos africanos no Brasil, apresentadas por autores diferentes de história econômica. TABELA 1 – TRÁFICO DE ESCRAVOS AFRICANOS/SÉCULO XVII Autores Estimativa Roberto Simonen 350.000 Maurício Goulart 550.000 Philip Curtin 560.000 FONTE: Rego e Marques (2003, p. 15) COMO ERA O NAVIO NEGREIRO? O navio negreiro – ou “tumbeiro” – foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11 milhões de africanos para serem escravizados na América. “Em caravelas ou barcos a vapor, europeus, americanos e até mesmo negros se metiam no “infame comércio”. Os traficados eram, na maioria, meninos e jovens de 8 a 25 anos. Isso mudou nos últimos anos do tráfico. “Tudo quanto se podia trazer foi trazido: o manco, o cego, o surdo, tudo; príncipes, chefes religiosos, mulheres com bebês e mulheres grávidas”, disse o ex-traficante Joseph Cliffer, em depoimento ao Parlamento Britânico, em 1840. UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 38 Como não havia fabricação de navios apenas para o comércio de escravos, até hoje já foram identificados pelo menos 60 tipos de embarcações adaptadas como tumbeiros. Se houve uma regra, é que eles ficaram menores e mais velozes no século XIX, à medida que o tráfico se tornou ilegal e passou a ser perseguido pela política antiescravista dos ingleses a partir da aprovação da lei Bill Aberdeen, em 1845”. FONTE: PARRON, Tâmis. Como era um navio negreiro na época da escravidão? 22 jun. 2010. Revista Superinteressante. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como- era-um-navio-negreiro-da-epoca-da-escravidao/>. Acesso em: 19 jul. 2018. A utilização do trabalho escravo de povos africanos resolvia o problema de produção para o mercado doméstico e solucionava as necessidades de atender ao principal mercado que era o externo. Além disso, o baixo custo para mantê- los, em troca de subsistência, submetidos aos colonos por meios atrozes. Outro aspecto era a rentabilidade que o tráfico negreiro gerava, pois consistiam numa mercadoria que enriqueceu os comerciantes das principais cidades das capitanias e províncias (PIRES, 2010). De acordo com com Prado Jr. (1976), o problema do tráfico negreiro era a mortalidade devido às condições precárias de higiene que estes vinham nos navios negreiros (figura a seguir). Em média, apenas 50% dos escravos africanos chegavam vivos ao Brasil, e assim mesmo, em condições de saúde complicadas. Desta forma, o seu valor era elevado, e somente as regiões mais ricas poderiam aceder a sua compra. FIGURA 11 – NAVIO NEGREIRO – QUADRO DE JOHAN MORITZ RUGENDAS FONTE: <https://historiadesaopaulo.files.wordpress.com/2010/12/navionegreiro_poro_thumb. jpg?w=452&h=278>. Acesso em: 5 dez. 2018. Na tabela a seguir, podemos observar que o tráfico de escravos da África não cessou, o que reforça a ideia de que o tráfico apresentava rentabilidade.No período entre 1531 a 1820, a estimativa foi de 2.859.200 pessoas que desembarcaram no Brasil escravizadas. TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 39 TABELA 2 – ESTIMATIVAS DE DESEMBARQUE DE AFRICANOS NO BRASIL (1531 – 1820) PERÍODO TOTAL MÉDIA ANUAL 1531 - 1575 10.000 222 1576 - 1600 40.000 1.600 1601 - 1625 100.000 4.000 1626 - 1650 100.000 4.000 1651 -1670 185.000 7.400 1671 - 1700 175.000 7.000 1701 - 1710 153.700 15.370 1711 -1720 139.000 13.900 1721 - 1730 146.300 14.630 1731 - 1740 166.100 16.610 1741 - 1750 185.100 18.510 1751 - 1760 169.400 16.940 1761 - 1770 164.600 16.460 1771 - 1780 161.300 16.130 1781 - 1790 63.100 16.090 1786 - 1790 97.800 19.560 1791 -1795 125.000 23.370 1796 - 1800 108.700 21.740 1801 - 1805 117.900 24.140 1806 - 1810 123.500 23.580 1811 - 1815 139.400 32.770 1816 - 1820 188.300 37.660 FONTE: IBGE (1990 apud PIRES, 2010, p. 19) DICAS Para fixar melhor os conteúdos, assista aos seguintes documentários: • A escravidão no Brasil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=KC2Hiw 3wG4c>.Acesso em: 19 jul. 2018. Documentário feito pela BBC aborda desde o início da colônia, os ciclos econômicos e enfatiza o sistema produtivo e de trabalho escravo imposto pelos portugueses no Brasil. Com a alta geral dos preços das mercadorias, devido ao fluxo de ouro e prata encontrado pelos espanhóis, o preço do açúcar também acompanhou o mercado internacional. Portugal, desde meados do século XV, já apresentava supremacia UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 40 na produção do açúcar no mercado internacional. Com o estabelecimento do governo geral, Portugal estimulou a ascenção da indústria açucareira no Brasil. Portugal tomou medidas de estímulo como na Capitania Real de São Salvador, em que isentou de impostos por 10 anos os novos engenhos e também concedia privilégios de nobreza aos senhores de engenho (SIMONSEN, 1967). O engenho era a fábrica, compreendendo as instalações para o manuseio e fabricação do açúcar. O nome de engenho foi utilizado posteriormente também para designar a propriedade, suas terras e plantações, assim, engenho e propriedade canavieira tornaram-se sinônimos. Entretanto, nem todas as propriedades possuíam engenhos, devido ao custo das instalações necessárias. Geralmente, nos engenhos, se produzia o açúcar e as destilarias produziam a aguardente (PRADO JÚNIOR, 1976). UNI Como era o engenho? “[...) O engenho é um estabelecimento complexo, compreendendo numerosas construções e aparelhos mecânicos: moenda (onde a cana é espremida), caldeira, que fornece o calor necessário ao processo de purificação do caldo; casa de purgar, onde se completa essa purificação. Além de outras, o que todas as propriedades possuem é, em regra, a casa-grande, a habitação do senhor; a senzala dos escravos; e instalações acessórias ou suntuárias: oficinas, estrebarias, etc. Suas terras, além dos canaviais, são reservadas para outros fins: pastagens para animais de trabalho; culturas alimentares para o pessoal numeroso; matas para fornecimento de lenha e madeira de construção. A grande propriedade açucareira é um verdadeiro mundo em miniatura em que se concentra e resume a vida toda de uma pequena parcela da humanidade” (PRADO JÚNIOR, 1976, p. 38). Nos engenhos poucos trabalhadores eram livres, a maioria era composta pelo trabalho escravo, e para ser considerado um bom engenho geralmente tinha entre 80 a 100 escravos. O emprego do trabalho escravo cresceu e se tem notícias no século XVIII de engenhos com mais de 1000 escravos (PRADO JÚNIOR, 1976). Durante o século XVII, a Companhia das Índias Ocidentais contribuiu, financiando o plantio e comercialização do açúcar, o que decorreu na ocupação efetiva das terras brasileiras. A produção do açúcar não chegou a desaparecer, mesmo com outros ciclos se iniciando, como apresenta a tabela a seguir. TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 41 TABELA 3 – BRASIL: PRODUÇÃO DE AÇÚCAR – DADOS SELECIONADOS (1570 – 1760) Ano Número de engenhos Arrobas Valor em libras 1570 60 180.000 270.406 1580 118 350.000 528.181 1600 200 2.800.000 n/d 1600 400 4.000.000 n/d 1630 n/d 1.500.000 2.454.140 1640 n/d 1.800.000 3.598.860 1650 n/d 2.100.000 3.765.620 1670 n/d 2.000.000 2.247.920 1710 650 600.000 1.726.230 1760 n/d 2.500.000 2.379.710 FONTE: Linhares (1996 apud PIRES, 2010, p. 15) UNI Você sabia... “Na Idade Média, em Portugal, a palavra ´negro´ tornara-se quase sinônimo de escravo, e com certeza no século XVI ainda tinha implicações de servilismo. Seu uso para qualificar os índios patenteia o modo como os portugueses encaravam os africanos e os indígenas, não tanto com respeito à cor da pele, mas à sua posição social e cultural em relação aos portugueses. No decorrer do século XVI, o emprego comum de termo ´negro da terra` desapareceu gradualmente à medida que aumentou o número de africanos introduzidos na colônia. Esse desaparecimento foi, na verdade, concomitante à extinção da escravidão indígena". FONTE: MENDONÇA, Marina Gusmão de; PIRES, Marcos Cordeiro. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002, p. 66. Além do açúcar, iniciou-se a cultura do tabaco no começo do século XVII. O tabaco era uma planta indígena e teve bastante aceitação na Europa. O tabaco também servia de escambo na costa da África para o tráfico de escravos. Basicamente, a economia da colônia estava centralizada na produção de larga escala do açúcar e um pouco menos relevante de tabaco, e a cultura de subsistência. Na economia de subsistência entrava a pecuária, que apresentava, na época, baixa produtividade. Mas com rapidez as fazendas foram multiplicando- se pelo crescente consumo no litoral (PRADO JÚNIOR, 1976). O gado brasileiro colonial tem origem das raças ibéricas, e foram trazidos pelo portugueses, “acréscido dos contingentes do Vice-reinado do Peru, via Paraguai, dos da região UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 42 platina, via Missões, Colônia do Sacramento e, finalmente, da contribuição holandesa e francesa, durante a permanência destes europeus no Brasil” (SIMONSEN, 1967, p. 165). O problema da monocultura era a falta de alimentos para abastecer os povoamentos na costa, desde o início da colônia um grave problema de abastecimento teve que ser enfrentado pelos portugueses, inclusive pela legislação, pois a maioria dos colonos apresentavam subnutrição. Os colonos que chegaram estavam preocupados em construir instalações e gerar lucros, então, não tinham tempo de se ocuparem com a agricultura de subsistência. Como os nativos já praticavam a agricultura, houve um aprendizado e assimilição dos costumes alimentares dos nativos. A agricultura de subsistência foi pautada nos produtos que os próprios indígenas já cultivavam, como a mandioca, depois o milho que também servia de forragem para a criação dos animais. Além disso, o arroz e feijão começaram a ser cultivados pelos colonos europeus e as verduras não tinham grande apreciação, mas a quantidade e variedade de frutas nativas começaram a ser introduzidas na alimentação diária como a banana e a laranja (PRADO, 1976). No século XVIII, com o aumento da população nos povoamentos, o problema do abastecimento alimentar começou a ficar mais grave o que levou a serem estabelecidas medidas legislativas para obrigar os senhores de engenho a produzir mandioca e gêneros alimentícios. As melhores terras, certamente, estavam distribuídas para os grandes senhores de engenho que não se interessariam em produzir gêneros para a subsistência e sim, dedicavam a empresa à produção de açúcar que lhes conferia grande rentabilidade. Logo, o problema de alimentação não seria resolvido facilmente, mesmo com leis (PRADO, 1976). 3.4 O CICLO DA MINERAÇÃO (SÉCULO XVIII) A mineração contribuiu para povoar o interior do país. O número de trabalhadores que se exigiapara tal atividade, criava aglomerações e assim foram fundadas várias cidades e vilas. A mineração requisitava artigos para o consumo e sobrevivência dos mineiros e construção de instalações, deste modo, o transporte com muares também foi utilizado como facilitador inclusive para os carregamentos de ouro. Dessa forma, a figura do tropeiro com a utilização de mulas seria um elemento de ligação e comunicação entre o interior e a costa. No entanto, as minas de ouro somente começaram a ser encontradas no Brasil e tomar importância econômica para Portugal no início do século XVII. Portugal, após várias guerras estava se refazendo e recém tinha conseguido sua independência do domínio do Reino de Castela e incentivava a encontrar o metal precioso nas terras da África e Brasil. Os primeiros achados massivos de produção de ouro foram em São Paulo e Minas Gerais, a produção foi aumentando com a participação de Mato Grosso e Goiás, a partir de 1720 a 1726 (SIMONSEN, 1967). Ademais do ouro, também, na TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 43 mesma época, foram encontrados diamantes, sendo o Brasil o primeiro grande produtor moderno, tornando monopólio brasileiro no século XVIII. A atividade mineradora sofreu, desde as primeiras descobertas, forte fiscalização e controle da Coroa Portuguesa, o que gerou as primeiras tentativas de independência da colônia (PRADO JÚNIOR, 1976). A Coroa portuguesa cobrava como tributo a quinta parte de todo o ouro extraído. Em 1702, foi criado o “Regimento dos superintendentes, guarda-mores e oficiais deputados para as minas de ouro”. Ou seja, esta lei criava a Intendência de Minas, com a administração de um superintendente em cada capitania que se encontrasse ouro, seria criada uma dessas intendências, e se subordinava diretamente ao governo metropolitano de Lisboa. Os achados de jazidas deveriam ser comunicados à intendência da capitania respectiva (PRADO JÚNIOR, 1976). Os rendimentos da Coroa portuguesa foram garantidos no século XVIII pelo quintos do ouro e também pelas jazidas de diamantes, que se tornaram monopólio do Estado. Houve aumento dos preços dos produtos de exportação do Norte e Nordeste, e assim aumentou-se o dízimo ao Rei. Além disso, com o aumento da população aumentou o tráfico de africanos escravizados, refletindo nas taxas alfandegárias, o monopólio do tabaco, do sal e do sabão e outras rendas auferidas devido ao imposto de circulação das mercadorias no interior da colônia, aumentava o rendimento da Coroa portuguesa. O século XVIII foi de fartura para a Coroa e a reconstrução de Lisboa foi paga com rendas advindas do Brasil colônia (SIMONSEN, 1976). A tabela a seguir apresenta o apogeu e o declínio do ciclo da mineração do ouro. Observe que no final do século XVIII a produção de ouro já começa a diminuir. TABELA 4 – BRASIL – PRODUÇÃO DE OURO (1691-1820) Período Nº anos Total kg Média anual kg 1691-1700 10 15.000 1.500 1701-1720 20 55.000 2.750 1721-1740 20 177.000 8.850 1741-1760 20 292.000 14.600 1761-1780 20 207.000 10.350 1781-1800 20 109.000 5.450 1801-1810 10 37.500 3.750 1811-1820 10 17.600 1.760 1821-1830 10 22.000 2.200 1831-1840 10 30.000 3.000 1841-1850 10 24.000 2.400 FONTE: Simonsen (1967, p. 298) UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO 44 A decadência do ciclo observa-se já em meados do século XVIII, dá-se, fundamentalmente, porque o ouro encontrado nas jazidas começou a se extinguir, devido às próprias características geológicas do ouro brasileiro que é de aluvião e se encontrava nos leitos dos rios ou próximo as suas margens. A outra questão era a técnica problemática de exploração e retirada do ouro das rochas matrizes, faltava conhecimento técnico (PRADO JÚNIOR, 1976). Desde o início da colonização faltaram moedas metálicas para as transações comerciais. Com a diminuição dos preços do açúcar e do tabaco, os colonos foram obrigados a pagar em moeda, pois os comerciantes da metrópole passaram a rejeitar pagamentos em mercadorias. Dessa forma, o governo português resolveu criar uma moeda para a colônia. Com a mineração e extração do ouro, o governo português criou a Casa da Moeda do Brasil para poder fundir e criar moedas de ouro e prata para resolver o problema dos meios de pagamento na colônia. O papel-moeda só foi criado na colônia em 1771. Entretanto, o problema de escassez de moedas ainda foi totalmente resolvido na colônia (FURTADO, 1980). Para você fixar melhor os principais acontecimentos relacionados aos ciclos econômicos, o quadro a seguir apresenta sintetizado cada período e suas principais influências. QUADRO 5 – RESUMO DOS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA (1500-1808) Período Ciclo Fatos 1500-1532 Pau-brasil A extração dessa madeira avermelhada utilizada no tingimento de tecidos, consistiu na primeira atividade exploratória dos portugueses na colônia, que instalaram um sistema de feitorias e utilizaram a exploração do trabalho indígena ou o escambo para a obtenção da mercadoria. 1532-meados do século XVII Açúcar O açúcar de cana, em meados do século XVI, obteve preços no mercado europeu o que possibilitou a sua produção e comercialização pelos portugueses no litoral brasileiro. A unidade produtiva era o engenho. O sistema administrativo da colônia era composto por um conjunto de capitanias hereditárias, sob as formas produtivas do latifúndio e da monocultura. O eixo da colônia estabeleceu-se no Nordeste. Século XVIII Mineração Contribuiu para o povoamento no interior do Brasil. Entre 1709 a 1721, finalmente, foram encontradas riquezas minerais, como ouro, prata e pedras preciosas na capitania de São Paulo e Minas Gerais. O esgotamento das jazidas daria o fim desse ciclo no final do século XVIII. FONTE: Pires (2010, p. 14-16) Paralelo ao ciclo do ouro, outras atividades regionais tiveram importância, como por exemplo a produção e a exportação do algodão no Maranhão no final do séc. XVII e início do séc. XIX, a produção do charque na região Sul, no século XVIII e XIX (PIRES, 2010). TÓPICO 2 | FUNDAMENTOS DA COLONIZAÇÃO: FORMAÇÃO E EXPANSÃO ECONÔMICA NO PERÍODO COLONIAL 45 UNI Você sabe quando foi fundada a Casa da Moeda do Brasil? “A Casa da Moeda do Brasil (CMB) é uma empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda. Fundada em 8 de março de 1694, acumula 322 anos de existência. Foi criada no Brasil Colônia pelos governantes portugueses para fabricar moedas com o ouro proveniente das minerações. Na época, a extração de ouro era muito expressiva no Brasil e o crescimento do comércio começava a causar um caos monetário devido à falta de um suprimento local de moedas. Um ano após a fundação, a cunhagem das primeiras moedas genuinamente brasileiras foi iniciada na cidade de Salvador, primeira sede da CMB, permitindo, assim, que fossem progressivamente substituídas as diversas moedas estrangeiras que aqui circulavam. Em 1695, foram cunhadas as primeiras moedas oficiais do Brasil, de 1.000, 2.000 e 4.000 réis, em ouro, e de 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis, em prata, que ficaram conhecidas como a “série das patacas”. Desde então, por meio da produção de moedas e, posteriormente, também de cédulas e outros produtos de segurança, a história da CMB se confunde com a própria história do Brasil. Em 1843, utilizando técnicas “intaglio”, a Casa da Moeda imprimiu o selo “Olho de Boi”, o primeiro das Américas e o terceiro do mundo. Após alguns anos de atividade no nordeste do Brasil e em Minas Gerais, a CMB foi transferida para o Rio de Janeiro. Operou em instalações provisórias e, mais tarde, em amplo prédio construído no Campo de Santana, atual Praça da República, inaugurado em 1868 e hoje pertencente ao Arquivo Nacional. Essa planta foi modernizada no período de 1964 a 1969, com o propósito de assegurar ao país a autossuficiência na produção de seu meio circulante”. FONTE: CASA DA MOEDA DO BRASIL. História da casa da moeda. Disponível em: <http://www.casadamoeda.gov.br/portal/socioambiental/cultural/historia-da-cmb.html>. Acesso em: 21 jul. 2018. 46 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Os portugueses quando chegaram no Brasil (Terra de Santa Cruz) encontraram nativos que viviam em tribos nômades, praticavam a agricultura, mas em meio a tanta abundância de fontes naturais de alimentação, a agricultura não era essencial para a sobrevivência. • A expansão marítima dos portugueses se deu com a finalidade de encontrar produtos com valor e demanda no mercado europeu que justificassem tamanha empresa e custos para cruzar o oceano. • As buscas por ouro e prata pelos portugueses no início da colonização foram frustradas e a primeira atividade econômica que gerou rentabilidade para os portugueses foi a extração do pau-brasil, que era usado no tingimento de tecidos. • A organização da colônia a princípio se deu por meio das feitorias, que também foram responsáveis por organizar o comércio e estabelecer o povoamento. • O estabelecimento da produção do açúcar se deu por razões do aumento do preço no mercado europeu e aumento pela demanda desta mercadoria. O clima e solo no litoral brasileiro favoreciam o cultivo da cana-de-açúcar. Para estimular o desenvolvimento da atividade, o Governo português estabeleceu um modelo de donatarias que mais tarde seriam hereditárias também. Este modelo estimulou o investimento privado e o povoamento na colônia. O desenvolvimento do ciclo do açúcar pautou-se em monocultura, produção em escala, grande propriedade e trabalho escravo. • O declínio do ciclo do açúcar e os achados de metais preciosos em Minas Gerais e São Paulo direciona as atividades econômicas para a mineração. A mineração contribuiu para a interiorização do povoamento no Brasil. O trabalho escravo ainda permanecia. A Coroa portuguesa buscava enrigecer o controle das atividades de mineração desde o início, cobrando tributos, criando medidas de controle. 47 1 Descreva as principais motivações que trouxeram os primeiros colonos para o Brasil. 2 Explique como foi a estratégia de ocupação das terras brasileiras e quais os principais produtos que tornaram-se alvo para o comércio externo. 3 Por que a Coroa portuguesa estabeleceu as donatarias na colônia? Como foram organizadas? 4 Por que o cultivo da cana-de-açúcar cresceu na colônia e o engenho transformou a economia colonial? 5 Discorra sobre a importância da mineração no Brasil colônia para as rendas da Coroa Portuguesa e como as descobertas de ouro evoluíram no período colonial? 6 Quais foram os motivos que levaram ao declínio da exploração da mineração no Brasil? AUTOATIVIDADE 48 49 TÓPICO 3 O MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR NO BRASIL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, você entenderá como se deu o modelo primário exportador no Brasil no período do século XVIII ao XIX. Primeiramente é importante saber como estava a política e a economia da França, Inglaterra e de Portugal neste período e que influência tiveram para a economia do Brasil. Portanto, a Europa passava por uma crise política, na qual Napoleão queria ter o domínio, como alguns países não aceitaram essa imposição, inclusive Portugal que era aliado da Inglaterra acabou quebrando a assinatura do Bloqueio Continental firmado por Napoleão Bonaparte. Este é um dos motivos que fez com que os portugueses viessem para o Brasil escoltados pelos ingleses. Portugal determinou o fechamento de oficinas manufatureiras, porém, quando Dom João chega ao Brasil, uma das medidas foi a abertura dos portos, o que facilitou o comércio para os ingleses que obtiveram benefícios. Muitas transformações ocorreram com a chegada de Dom João ao Brasil como: sociais, econômicas, políticas e culturais. Outro embate é como foi a política econômica no governo monárquico no Brasil, que passou por várias crises políticas, sociais e econômicas. Retornando a Portugal, Dom João deixou seu filho D. Pedro I para governar o Brasil e posteriormente D. Pedro II. A política econômica do Brasil se deu por luta pela independência contra a Metrópole. O Brasil obteve as suas fontes de riqueza desde a colonização com a produção da cana-de-açúcar, depois a mineração e, com o esgotamento, passaram a investir em outros cultivos como o café, que foi um dos maiores produdores. Outro aspecto que contribuiu para o desenvolvimento do Brasil foi a utilização da mão de obra barata que foi a escravidão. 2 A INSTALAÇÃO DA FAMÍLIA PORTUGUESA NO BRASIL E AS TRANSFORMAÇÕES NO BRASIL Portugal, sob a administração de Pombal, assinou a Carta Régia de 1766, que determinava o fechamento das oficinas dos ourives no Rio de Janeiro, que acabou por prejudicar o desenvolvimento de outras atividades manufatureiras no Brasil (FURTADO, 1980). A vinda do Regente D. João e a corte portuguesa para o Brasil marcou profundamente a história e encerramento da colônia e propiciou a independência deste da metrópole. Tão logo de desembarcar no Brasil, o regente assinou o decreto que abriu os portos da calônia para todas as nações. 50 UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO Além disso, revogou o alvará de 1785, que proibiu as atividades industriais na colônia. Como a metrópole estava sob domínio napoleônico, a abertura dos portos brasileiros era uma providência momentânea para não isolar-se do comércio internacional. A Inglaterra acabou tornando-se a grande beneficiária dessa mudança do Regente português ao Brasil. Pois um comandante inglês liderarou a retomada de Portugal libertado das tropas francesas em 1809 (PRADO JÚNIOR, 1976). Basicamente, a Inglaterra exportava para o Brasil artigos de algodão e lã, porcelanas, metais brutos e trabalhados, produtos alimentícios e instrumentos náuticos. A Inglaterra comercializava também diretamente os produtos primários brasileiros, como o algodão em rama, tabaco, charque, couros, peles, baunilha, cachaça, anil, cacau, madeiras, café, arroz, azeite de baleia, entre outros (FURTADO, 1980). Enquanto a Inglaterra vivia a expansão do capitalismo industrial, seguida por França, Bélgica, Holanda e Estados Unidos, os países ibéricos ainda estavam atrelados aos princípios mercantilistas-colonialistas. O desenvolvimento industrial daqueles países fez com que eles importassem mais produtos primários em grande escala de países como o Brasil (FURTADO, 1980). Portugal passou a ser insignificante no comércio brasileiro, após assinar o decreto para a sua aliada Inglaterra, em 1810. O Brasil passaria por uma série de mudanças econômicas e administrativas com a corte portuguesa instalada aqui. O Rio de Janeiro tornou-se sede política, administrativa, econômica e financeira da monarquia (PRADO JÚNIOR, 1976). A continuidade do modelo econômico primário exportador se mantém após 1808, mas agora com o cultivo do café. Neste caso, inicia-se o ciclo do café pelos mesmos motivos da produção do açúcar, os ganhos devidos à alta do preço nos mercados europeus e americano. O Brasil também chegou a ocupar a hegemonia no comércio internacional do café. O café passou a liderar o crescimento das exportações brasileiras. Na segunda metade do século XIX, verificou-se uma forte expansão do produto. Como consequência, estradas de ferro começaram a ser construídas, iniciou- se a imigração estrangeira (a abolição dos escravos gerou necessidade de nova mão de obra), o telégrafo, a fundação de casas bancárias, aumentou o mercado doméstico e o número de aglomerações urbanas na parte Sul do país, tudo isso motivado para atender à prosperidade da cultura do café que foi desencadeada (PIRES, 2010). No começo da década de 1820, o engenho, apesar de decadente, continuava sendo a principal atividade econômica. O café começava a despontar como uma atividade importante, fundamentalmente no estado do Rio de Janeiro, em alguns lugares de São Paulo e no Vale do Paraíba (REGO; MARQUES, 2003). 3 O CULTIVO DO CAFÉ E A CONSOLIDAÇÃO DO MODELO PRIMÁRIO-EXPORTADOR Em 1822, a Independência dametrópole foi proclamada. Entretanto, os laços com a metropóle não permitiria uma mudança transformadora do cenário brasileiro. Os latifundiários escravistas, que contribuíram para o rompimento TÓPICO 3 | O MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR NO BRASIL 51 UNI Você lembra dessa fase da história do Brasil? “As revoltas ocorridas no Período Regencial preocupavam os proprietários de escravos e terras. Temia-se que a anarquia levasse o Império à desintegração. Liberais e conservadores, com medo de perder o controle político da nação e em nome da preservação da unidade nacional, concordavam que somente D. Pedro de Alcântara poderia pacificar e unir o Império brasileiro”... Tivesse o país um Imperador e a ordem se implantaria providencialmente..." A solução, portanto, era antecipar da maioridade do Príncipe herdeiro, conseguida por uma mudança na Constituição, permitindo que um adolescente de catorze anos de idade assumisse o trono do Brasil. O Governo pessoal de D. Pedro II foi o mais longo da nossa história – 1840-1889. FONTE: PREFEITURA DA CIDADE RIO. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO. Disponível em: <http:// www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo02/gov_dpedro.html>. Acesso em: 22 jul. 2018. O modelo escravocrata tinha sido abolido pelo Império Britânico e o tráfico havia sido proibido desde 1807. Os ingleses passaram a tentar impedir o tráfico e a vigiar e impor limites para outros países, inclusive ao Brasil. Em 1817, a Inglaterra conseguiu o direito de inspecionar os navios portugueses e os brasileiros que pudessem estar com carregamentos de escravos. Após a declaração da independência, o reconhecimento inglês impôs a condição do Brasil abolir o tráfico. Em 1831, foi proibido o tráfico no Brasil de escravos, o que na prática não se concretizou. O tráfico de africanos escravizados seguiu devido ao crescimento da lavoura cafeeira até 1850. As restrições inglesas ao tráfico fizeram com que os escravos fossem mais valorizados (REGO; MARQUES, 2003). com a metrópole, tinham interesses divergentes entre D. Pedro I e esta classe vitoriosa, fato que levou à instabilidade política do regente que abdicou do Império. Estes fatos também contribuíram para a substituição do controle político de Portugal do Brasil pela subordinação dos interesses da Inglaterra. Desta forma, a perpetuação da exportação primária brasileira atendeu aos interesses britânicos, como o mercado potencial brasileiro constituído por grande parte de escravos. No entanto, D. Pedro II reinou mantendo por mais meio século a escravidão e conservando o modelo agrário exportador (PIRES, 2010). 52 UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO Os fazendeiros escravocratas brasileiros reclamavam que as imposições da Inglaterra abalavam a soberania do país, e consideravam a utilização da mão de obra escrava um assunto da política interna do Brasil. Em 1845, o parlamento inglês enrigesseu mais as leis, autorizando a inspeção e confisco dos navios detectados sendo utilizados pelos traficantes de escravos. No Brasil, em 1850, a Lei Eusébio de Queirós, ministro da Justiça na época, propôs a eliminação do tráfico de escravos. A população escrava começou a declinar após a proibição do tráfico. Sob a perspectiva dos fazendeiros do café, que possuíam uma cultura escravocrata, os negros escravizados nada mais eram que um investimento em capital fixo, que lhe confereria lucros por meio de seu trabalho (REGO; MARQUES, 2003). Portanto, embora tenha reduzido o número de escravos, a escravidão não havia sido extinta ainda após a metade do século XIX. A tabela a seguir mostra estimativas da população realizada pelos bispados do Brasil. Observe que no início do século XIX, embora o número de pessoas livres fosse maior, o contingênte de escravos e índios era muito grande. Nesse sentido, a produção voltava-se para o mercado exteno e não para atender o mercado doméstico. TABELA 5 – ESTIMATIVA DOS BISPADOS DA POPULAÇÃO DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XIX População Soma Livre Escrava Pará 121.246 51.840 173.086 Maranhão 261.220 201.176 462.396 Pernambuco 455.248 192.559 647.807 Bahia 419.432 173.476 592.908 Rio de Janeiro 505.543 200.506 706.049 São Paulo 269.379 122.622 392.001 Mato Grosso 33.806 13.280 47.086 FIGURA 12 – GRUPO DE ESCRAVOS TRABALHANDO NO CULTIVO DO CAFÉ FONTE: <http://www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo02/exp_cafeeira.html>. Acesso em: 22 jul. 2018. TÓPICO 3 | O MODELO PRIMÁRIO EXPORTADOR NO BRASIL 53 FONTE: Simonsen (1967, p. 450) Em 13 de maio de 1888 foi decretada a Lei Áurea, que abolia a escravidão no Brasil, quase sem oposição. Entretanto, com o crescimento da cultura do café, a força de trabalho deveria ser substituída imediatamente para não tornar-se um impeditivo à produção cafeeira. Desde a Independência, o Brasil já experimentara algumas práticas de imigração, como em 1824, que teve início a imigração alemã especialmente para o sul do país. A política do Império era atrair homens brancos e livres com o propósito de serem proprietários de terras no Brasil. Outras experiências para atrair imigrantes europeus também foram tentadas no decorrer do século (REGO; MARQUES, 2003). A tabela a seguir apresenta a crescente importância da exportação de café como atividade econômica para o Brasil. O aumento do preço do café e a crescente oferta do produto contribuiu para a expansão econômica e desenvolvimento do Brasil. Goiás 21.250 16.000 37.250 Minas Gerais 456.675 165.210 621.885 Total da população conhecida 2.543.799 1.136.669 3.680.468 Índios ou selvagens 800.000 Total da população do Brasil 4.480.468 TABELA 6 – EXPORTAÇÃO DO CAFÉ DO BRASIL (1873-1878) Ano Sacos de 60 kg 1873=100 1873 2.774.000 100 1874 3.853.000 139 1875 3.407.000 123 1876 3.553.000 128 1877 3.843.000 139 1878 4.904.000 177 FONTE: Pires (2010, p. 40) As estruturas fundamentais da economia do Brasil colônia não se modificaram com a independência. O Brasil constituiu-se de oligarquias de grandes proprietários que praticavam a monocultura para obter lucros por meio dos preços das mercadorias no mercado internacional (ciclos produtivos de acordo com a demanda do mercado externo), e sustentavam sua lucratividade com a produção em escala. O modelo agroexportador consolidou-se como a estrutura de manutenção de uma elite e, assim, definiu-se a forma de inserção do Brasil no comércio internacional, ora dependente da metrópole, ora dependente do Império Britânico. 54 UNIDADE 1 | EXPANSÃO EUROPEIA E COLONIZAÇÃO A tabela a seguir evidencia a estreita relação comercial que o Brasil desenvolveu com a Grã-Bretanha e, consecutivamente, o mercado norte- americano também foi se expandindo e tornando-se em um dos principais parceiros comerciais do Brasil já no século XIX. Observa-se que a participação de Portugal era muito insipiente. TABELA 7 – BRASIL: DISTRIBUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES E EXPORTAÇÕES POR PAÍS (EM MILHÕES) País Exportações Importações 1853-1854 1870-1871 1853-1854 1870-1871 1857-1858 1872-1873 1857-1858 1872-1873 Grã-Bretanha 32,90 39,40 54,80 53,40 Estados Unidos 28,10 28,80 12,70 12,20 França 7,80 7,50 6,30 7,00 Alemanha 6,00 5,90 5,90 6,50 Portugal 5,90 5,80 7,00 5,40 Bélgica 1,80 1,00 2,00 2,50 Espanha 0,90 0,80 1,10 1,60 Países Escandinavos 3,70 0,70 0,40 0,80 Estados Austríacos 1,60 0,00 0,70 0,20 Itália 1,40 0,50 0,70 0,50 Diversos 9,90 9,60 8,80 9,90 Total 100,00 100,00 100,00 100,00 FONTE: Relatório do Ministério da Fazenda – 1854 e 1880 (apud PIRES, 2010, p. 31) O cultivo do café se assentou no século XIX sobre o trabalho escravo, após a abolição já no final do século, a participação do trabalho dos imigrantes europeus foi importante para a continuidade do ciclo. O declínio do café veio somente com a crise de superprodução por volta de 1930. 55 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A vinda da monarquia portuguesa para o Brasil marca o fim do Brasil colônia, mas a estrutura da economia brasileira mantém-se em atividadesprimárias, voltadas para a exportação, com trabalho escravo e latifúndios e marcadamente dependente da metrópole ou das relações com a Grã-Bretanha. O café torna-se um produto importante para a exportação do Brasil, que em 1840 se torna o principal exportador do produto no mundo. • Que o governo de Pombal assinou a Carta Régia de 1766 que determinava o fechamento das oficinas dos ourives no Rio de Janeiro, que prejudicou as atividades manufatureiras. • D. João se instala no Brasil e abre o comércio para outras nações por meio da abertura dos portos e a Inglaterra acaba se tornando a grande beneficiária dessa mudança do Regente português ao Brasil. • A Inglaterra exportava para o Brasil artigos de algodão e lã, porcelanas, metais brutos e trabalhados, produtos alimentícios e instrumentos náuticos. Ela vivia a expansão do capitalismo industrial, seguida por França, Bélgica, Holanda e Estados Unidos, os países ibéricos ainda estavam atrelados aos princípios mercantilistas-colonialistas. • Portugal passa a ser insignificante no comércio brasileiro, após assinar o decreto para a sua aliada Inglaterra, em 1810. • O Brasil também chegou a ocupar a hegemonia no comércio internacional do café. O café passou a liderar o crescimento das exportações brasileiras. Como consequência, estradas de ferro começaram a ser construídas, iniciou-se a imigração estrangeira (a abolição dos escravos gerou necessidade de nova mão de obra). • Em 1822, a Independência da metrópole foi proclamada, entretanto, os laços com a metropóle não permitiria uma mudança transformadora do cenário brasileiro. • Em 1850, a Lei Eusébio de Queirós propôs a eliminação do tráfico de escravos, mas em 13 de maio de 1888, foi decretada a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. • O crescimento da cultura do café, a força de trabalho deveria ser substituída para não tornar-se um impeditivo à produção cafeeira. • As estruturas fundamentais da economia do Brasil colônia não se modificaram com a independência. O modelo agroexportador consolidou-se como a estrutura de manutenção de uma elite. 56 1 Quais foram os impactos da mudança da família real para o Brasil? 2 Por que mesmo com a independência da metrópole, o Brasil não teve uma ruptura das estruturas estabelecidas na fase colonial? 3 Como explicaria a permanência do trabalho escravo no Brasil mesmo com a pressão da Grã-Bretanha? 4 Construa argumentos favoráveis ou contrários sobre a utilização da mão de obra escrava no sistema capitalista. 5 Por que a Inglaterra se beneficiou do comércio com o Brasil após a vinda da família real para o Brasil? 6 Como se explica o crescimento do cultivo do café do Brasil? 7 Quais são os fatores que levaram o Brasil a manter uma economia agroexportadora? AUTOATIVIDADE 57 UNIDADE 2 A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você será capaz de: • apresentar as origens do Capitalismo Brasileiro no Século XIX, através da apresentação do sistema político-econômico republicano e seu ambiente de conflitos de interesses e o café como a base econômica predominante; • entender como avançou o processo de desenvolvimento industrial no início do século XX, a questão do trabalho na cafeicultura e as práticas políticas baseadas no pensamento desenvolvimentista, através do modelo de gestão populista nacionalista; • relacionar os objetivos alcançados, sob a perspectiva do Processo de Substituição de Importações (SI) a partir de 1930, as transformações econômicas em andamento e os desafios do processo de industrialização, que permanecem e continuarão a serem abordados no estudo dessa disciplina. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado TÓPICO 1 – AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX TÓPICO 2 – O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX TÓPICO 3 – O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI) A PARTIR DE 1930 58 59 TÓPICO 1 AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Olá, estimado acadêmico! Na continuidade desta jornada de conhecer o processo de formação econômica do Brasil, vamos agora ingressar nas origens do Processo de Industrialização Brasileiro, partindo dos contextos ou cenários históricos a partir da instauração da República em 1889. Para relembrarmos o conhecimento recente, na Unidade 1, conhecemos como se deu a expansão europeia e a colonização, como parte de um processo maior de ampliação do poder econômico de certos países. As consequências desse período, permaneceram até os dias de hoje, e ainda influenciam as conduções e desfechos do processo de desenvolvimento econômico de nosso País. Você já refletiu sobre a origem de muitos de nossos problemas econômicos, políticos e sociais? Ou porque possuímos determinadas vantagens ou “vocações” de certas culturas, produtividades, atores sociais ou setores? Ou ainda, por que as políticas públicas sempre promoveram beneficiar determinados interesses? Enfim, se você ainda não fez esses questionamentos, talvez seja o momento oportuno de fazê-los! Convido você a isso! Para auxiliá-lo nesse desafio, o Tópico 1 apresentará as origens do capitalismo brasileiro no século XIX, através do resgate de características do sistema político-econômico Republicano e sua dinâmica de interesses, a qual, diante da base econômica cafeeira, revelou os elementos, entraves, desafios e as possibilidades possíveis para a formação e desenvolvimento econômico brasileiro até o período atual. Desejamos uma experiência excelente de leitura e aprendizado! E fique atento às dicas e notas destacadas ao longo do tópico, bem como, a realização da autoatividade ao final, imprescindível para o alcance dos seus resultados nesta disciplina! Vamos lá! UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 60 2 REPÚBLICA VELHA: AMBIENTE POLÍTICO E ECONÔMICO Neste subtópico, apresentaremos o ambiente da República Velha, isto é, quais condições e cenários políticos e econômicos atuaram como desafios para a implantação da República, desde os interesses em jogo até as dificuldades das políticas monetárias internas. Vamos lá! 2.1 A DINÂMICA DE INTERESSES O processo de transição do Brasil colônia para sua independência (1808- 1822) se deu diante da crise do sistema colonial mercantilista, pode-se dizer, diante da superação da etapa de acumulação de capital primitiva, precedente ao sistema capitalista, logo, compreensível enquanto sua inevitabilidade. De acordo com Gremaud, de Saes e Junior (1997), a acumulação primitiva de capital é a situação na qual o capital começa a se dirigir às mãos de uma classe social, no caso a burguesa, que passa, a partir de seus interesses, a generalizar as relações mercantis, inclusive aquelas com a força de trabalho, embora gradual. Aí estão a base capitalista no tocante as condições econômicas principais. No caso brasileiro, ficou evidente a existência de inúmeros interesses internos e externos, quanto ao processo de independência. A Inglaterra, grande protagonista, atuou no sentido de influenciar e financiar esse processo que, na prática, ainda submeteu o Brasil a certa colonização por parte dos interesses ingleses. Apesar da Independência do Brasil não ter modificado de imediato a prática escravista da produção colonial, “ela permitiu mudanças [...]. Embora o novo Estado estivesse sujeito a limitações políticas e financeiras, ele passou a ter um novo referencial para sua atuação (que não é mais o interesse da metrópole)” (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 25). Era a perda do exclusivo-comercial. Sob esse novo referencial, as classes sociais agora despertavam novos interesses, mais diversificados, diante de dificuldades quanto à formação inicial de um sistema administrativo autônomo e endividado externamente, incentivando a mobilização e expansão mercantilinterna da economia cafeeira, como solução para construção de uma base econômica exportadora. Assim, sob as condições adversas, que impediam durante o período imperial, qualquer projeto de desenvolvimento industrial, foi então o café, acompanhando os benefícios da Revolução Industrial, que promoveu as condições para a formação de um mercado integrado e abrangente, quanto aos seus objetivos econômicos classistas. Sobre o período do Império precedente à República (1822-1889), Costa (2007), chama a atenção à estagnação e mínima exploração do potencial brasileiro TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 61 em muitos quesitos. A monocultura do açúcar bem-sucedida por longo tempo não apresentava mais os mesmos sinais de vitalidade, essa circunstância seria amenizada pela economia do ouro e o novo fôlego dado por ele à colônia. Apesar desse potencial, o Brasil perdeu durante o Império a maior oportunidade da nossa história de alcançar os países abastados na geração de riqueza. A principal razão foi a resposta inadequada e insuficiente do Império à explosão do capitalismo industrial. Este gerou, ao longo do século XIX, crescimento econômico sem precedentes na história da humanidade, ao mesmo tempo em que aumentou como nunca a diferença entre países ricos e países pobres. As respostas do império foram insuficientes, tanto na gestão do crescimento populacional quanto na escolha do modelo econômico (COSTA, 2007, p. 95). O autor ressalta que, em 1820, por exemplo, a população brasileira era metade da população americana, num momento em que o trabalho era um dos fatores mais relevantes, deixou-se de promover uma mão de obra urbana e rural qualificada e as atividades voltadas exclusivamente ao setor primário exportador, afastando-nos de um projeto industrial. “Em termos absolutos, o PIB brasileiro despencou de 23% do norte americano, em 1820, para apenas 7% em 1870. A consequência mais grave [...] foi que se tornou progressivamente mais difícil eliminar o atraso da economia brasileira” (COSTA, 2007, p. 97). Os primeiros anos após a República (1889) foram desafiadores para a estrutura da economia brasileira, entre tantas propostas em pauta, as principais estavam associadas ao processo de transição do escravismo e do Império, para um sistema que pudesse oferecer liberdade política e econômica para as classes da cafeicultura administrarem seus negócios aos fins do século XIX. A figura a seguir apresenta os presidentes republicanos nesse período, comprovando a alteridade de atores e interesses político pelo poder. FIGURA 1 – OS PRESIDENTES DA PRIMEIRA REPÚBLICA BRASILEIRA (1889-1930) 1889 Mal. Deodoro da Fonseca 1891 Mal. Floriano Peixoto 1894 Prudente de Morais 1898 Campos Sales 1902 Rodrigues Alves UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 62 1918 Moreira da Costa 1919 Epitácio Pessoa 1922 Artur Bernardes 1926 Washington Luís 1906 Afonso Pena 1909 Nilo Peçanha 1910 Mal. Hermes da Fonseca 1914 Venceslau Brás 1918 Rodrigues Alves FONTE: <https://pt.slideshare.net/RicardoJatahy/presidentes-do-brasil-repblica-velha>. Acesso em: 7 jun. 2018. NOTA “Em 15 de novembro de 1889 foi instaurado o regime republicano e, juntamente, o fim da soberania de D. Pedro de Alcântara, Pedro II. Tudo aconteceu no Rio de Janeiro, por meio de um golpe militar liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Uma vez que ele era o líder, tornou-se o primeiro chefe de estado do Brasil acompanhado de seu vice, Floriano Peixoto. O ocorrido se deu onde hoje é a Praça da República, no Rio de Janeiro. Na mesma época, houve a publicação de uma ata da proclamação, chamada de Decreto nº 1, em que se estabeleciam as regras governamentais que entrariam em vigor. Inaugurou-se em 1891, último ano de governo de Marechal Deodoro”. FONTE: <http://presidentes-do-brasil.info/>. Acesso em: 23 jul. 2018. Também, neste link, você encontra as principais ações políticas e econômicas de cada Presidente Brasileiro desde a Velha República. Diante de um contexto político efervescente, a abolição da escravatura, em 1888, representaria mais uma inevitável ação cedendo à pressão inglesa por ampliação do mercado e substituição, mesmo que gradual, por mão de obra livre, TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 63 do que uma iniciativa social ou de consciência humanitária, embora houvesse também interesses internos nesse sentido. Admite-se que, a “escravidão tinha mais importância como base de um sistema regional de poder do que como forma de organização da produção. Abolido o trabalho escravo, em nenhuma parte houve modificações de real significação na forma de organização da produção e mesmo da distribuição de renda [...]” (FURTADO apud GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 32). Assim, sob esse viés, representava um entrave ao desenvolvimento econômico do país. Os processos de fim da escravatura e proclamação da república, enquanto episódios sequenciais, representaram um movimento de classes. Enquanto o primeiro, inicialmente equivaleu a uma perda ao setor cafeeiro, também serviu de pretexto para esta mesma classe se organizar e buscar intervir no aparelho do Estado, a favor de seus interesses, enquanto o segundo processo, com a conformação da classe burguesa, contribuiu para a realização de um Estado que lhe servisse via uma democracia presidencial federalista. Sob o advento da República pelas classes médias emergentes, os autores identificam como o “abolicionismo republicano” da classe média, assim, O fim do escravismo transformaria todos os trabalhadores em trabalhadores livres e iguais (juridicamente), [...]. A República, ao destruir o direito escravista do Estado Imperial, abriria as portas do Estado aos membros da classe média, por exemplo, pelo fim do voto censitário (comprovação de renda para poder ser eleito) ou pela instituição de critérios burocráticos (pelo mérito) para ingresso no serviço público (em lugar de apadrinhamento). Nesta perspectiva, torna-se mais fácil entender a participação ativa da classe média urbana no Movimento Abolicionista e também seu papel proeminente (principalmente pelos militares) na derrubada do Império e nos anos iniciais da República (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 36). Entretanto, apesar das transformações que seguiram de cunho político e social, em relação a herança colonial no período Republicano, a economia brasileira continuaria mantendo a base exportadora primária. Isso dificultou o desenvolvimento do trabalho assalariado e a atualização da cultura de trabalho. NOTA A abolição da escravatura segue uma cronologia de eventos, desde 1815, que vão culminar de fato no episódio em 1888, com a Lei Áurea. Com base em interesses nacionais e internacionais, promoveu a libertação, mas sem indenização, pouca ou nenhuma preocupação com direitos ou inserção social. Para saber mais, leia o texto “A abolição da escravatura brasileira”, acessando o link : <http://www.politize.com.br/abolicao-da-escravatura-brasileira/>. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 64 2.2 A ECONOMIA MONETÁRIA INCIPIENTE Mesmo com o advento da Primeira República, a economia seguiria dependente de mercado externo, e, consequentemente, vítima das variações cíclicas externas, que afetavam fortemente sua política monetária e cambial, inviabilizando ainda mais uma inversão desse padrão na economia internacional. A fim de iniciar um planejamento em torno da política macroeconômica do país, a primeira República tratou de estabelecer prioridades quanto à busca de equilibrar as contas externas e priorizar os interesses oligárquicos. Em relação à abertura comercial, observou-se quase nenhuma melhoria, porém, em relação ao investimento internacional, sua participação era substancial, cerca de 30% do total da América Latina. No período de 1913, por exemplo, esse indicador contribuiria para o crescimento também da dívida externa, já promovida desde a independênciado país. Esse cenário comprovou a importância dos mercados financeiros internacionais, inclusive para a primeira década do século XX. As dificuldades inerentes à área econômica, referiram-se, predominantemente, a desvalorizações do câmbio, cujas depreciações provocaram déficits de conta corrente seguidos e promovedores de crises (FRANCO, 1990). As pioras dos termos de troca entravavam as importações e agravavam os choques comerciais decorrentes das flutuações do preço do café, associada a políticas fiscais ou monetárias expansionistas. Importante também ressaltar os efeitos da monetização da economia por conta do avanço do trabalho assalariado, mesmo que não muito significativo nesse primeiro momento, Franco (1990, p. 16-17) destaca o impacto monetário dessa ocorrência, [...] o pagamento de salários multiplicaria em muitas vezes, por exemplo, a necessidade de capital de giro na atividade agrícola, com isso, elevando o grau de monetização e a demanda por moeda na economia [...]. Argumentava-se nesse sentido que as demandas sazonais de crédito associadas às safras (de café, açúcar etc.) poderiam agora [...] ter sérias consequências no tocante à liquidez, caso não fossem implementados esquemas destinados a prover acomodação para essa elevação once and for all (uma vez por todas) da procura da moeda [...]. Esquemas nesse sentido encontraram diversos tipos de obstáculos. De um lado, o incipiente desenvolvimento do sistema bancário [...] a baixa propensão do público para reter moeda sob forma de depósitos bancários impunha uma limitação estrutural a capacidade dos bancos em expandir seus empréstimos. Essa questão remeteu ao compromisso dos Estados em ampliar essas ofertas monetárias, e a discussão do padrão ouro tomou força, juntamente com linhas de créditos para os compensar as perdas agrícolas. A figura a seguir demonstra a política monetária de emissão de moeda decorrente da necessidade na economia, nos primeiros governos. TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 65 FIGURA 2 – EMISSÃO DE MOEDA E AGREGADOS (1888-1900) OBS.: MO (Base Monetária = Papel Moeda emitido) = 1ª Linha (próximo ao eixo). M1 (Papel Moeda em Poder do Público, mais Depósitos a vista) = 2ª Linha (do meio). M2 (M1 + Depósitos Remunerados, Títulos e afins) = 3ª Linha (de cima). FONTE: <https://financasfaceis.wordpress.com/2010/05/16/brasil-republica-ii/>. Acesso em: 5 jun. 2018. O que se observa acima foi a expansão da moeda, isto é, política monetária expansionista, em que se amplia a base monetária (MO). Assim, o M1 (papel moeda em poder do público mais depósitos à vista) e M2 (M1 mais depósitos remunerados, títulos e afins) repercutem esse aumento e também o avanço nas atribuições dos bancos e diversificação dos serviços. Definitivamente, o trabalho assalariado em fase de crescimento, exigiu o aumento de necessidade e oferta de moeda, inclusive de serviços relacionados a essa ocorrência na economia. Franco (1990) destaca resumidamente em dois pontos, as políticas econômicas nessa primeira década da República: 1) A Lei Bancária em 1890, visando garantir um lastro de emissões bancárias baseado em um lastro de dívidas públicas. Controle da especulação e mercado de câmbio. 2) O Plano de Refinanciamento de dívida externa, em meados de 1892, o Funding Loan, baseado em controle ou saneamento fiscal em monetário interno, em troca de negociação das dívidas. De forma geral, a década de 1890 registrou um cronograma de políticas conservadoras, que influenciariam a condução nos próximos anos. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 66 NOTA O Funding Loan representou uma medida econômica na atuação de Campos Sales (1889), originada em uma viagem à Europa, a fim de buscar soluções para o problema de disponibilidade de moedas tanto interna como externamente. Via folgas, prazos e garantias, na modalidade de empréstimo, concedidos pelos Ingleses, a fim de cobrir juros e montante de empréstimos anteriores. Para saber mais detalhes desse Fundo, consulte o Texto “FUNDING LOANS (1898, 1914 e 1931)”, no Link <https://cpdoc.fgv.br/sites/default/ files/verbetes/primeirarepublica/FUNDING%20LOANS.pdf>, que apresenta as condições de uso desse fundo nos principais cenários econômicos do período. Fritsch (1990) considera esses problemas como estruturais, graças aos desequilíbrios externos, associado ao quadro institucional da época, pós-guerra e quedas generalizadas de investimento. Uma das consequências de se ter uma economia primária-exportadora era a forte vulnerabilidade externa. Essa vulnerabilidade, por um lado, representou efeitos das variações repentinas da oferta do café e sua baixa elasticidade, que afetavam os ganhos decorrentes do comércio internacional, por outro lado, representaram efeitos nos fluxos de capital e de demanda internacional, que tenderiam novamente a reduzir-se como resposta a esse contexto. As principais ações do governo mantiveram-se nos ajustes cambiais internos, no padrão ouro, no endividamento externo e no controle direto do preço do café. NOTA O que temos até agora, é uma conjunção de fatores, que tornaram mais relacionados entre si os problemas econômicos que viriam a revelar-se nas próximas décadas, confirmando o caráter estrutural. Isto é, a migração para uma mão de obra livre, o aumento da mobilização ou demanda por moeda e a forte dependência ao mercado externo do café, que ocorreram sem uma política adequada ou antecipada, que amenizasse efeitos sociais e econômicos consequentes. Entretanto, o período descrito como a era de Ouro (1900-1913), representou um alívio em todos os sentidos, tanto de crescimento, como de ênfase ao padrão ouro. Esse período, anterior à primeira guerra, possibilitou que o país experimentasse um crescimento sem igual, com o início de uma formação de capital na indústria, grandes investimentos em infraestrutura, obras públicas e certa estabilidade de preços. TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 67 Esse crescimento foi atribuído ao dinamismo das exportações de Borracha e dos investimentos europeus internamente, ocorridos no Governo de Rodrigo Alves. Por outro lado, a situação do câmbio ainda permanecia preocupante e sua desvalorização, prejudicava ainda mais os cafeicultores, que sofriam com a ocorrência de safras abundantes. A tabela a seguir apresenta a forte relação entre as taxas de câmbio e os preços do café, comprovando que as desvalorizações cambiais promoviam prejuízos ao preço externo do produto e, consequentemente, ao mercado exportador desse item. TABELA 1 – TAXA DE CÂMBIO (PENCE/MIL RÉIS) E PREÇOS DO CAFÉ, 1889-1898 Ano Taxa Cambial Preço Interno Preço Externo 1889 26 7/16 100 100 1890 22 9/16 120 113 1891 14 29/32 171 90 1892 12 1/32 201 87 1893 11 19/32 276 103 1894 10 3/32 290 92 1895 9 15/16 262 91 1896 9 1/16 252 69 1897 7 23/32 180 47 1898 7 3/16 163 41 FONTE: IBGE (apud TORELLI, 2007, p. 2) O debate sobre a reforma monetária tomaria ainda força, junto com a criação da Caixa de Conversão em 1906 e do Convênio de Taubaté. Entretanto, uma série de crises internacionais afetaram a eficácia dessas políticas, inclusive a descrença no padrão ouro, insistentemente mantida, frente à crise de liquidez e inevitável recessão iminente (FRITSCH, 1990, p. 40). A Guerra se aproximava, mas seus efeitos já eram sentidos. Os fluxos de recursos de todo tipo se restringiram e, consequentemente, toda indústria e a receita com tributação. A prática de medidas, consideradas de emergência, como o fechamento da Caixa de Conversão e emissão de notas de Tesouro e títulos federais a longo prazo, viriam a mitigar, porém, temporariamente os danos, inclusive nas importações. Essas foram as medidas adotadas, tanto nos anos da Primeira Guerra e entrada na década de 1920, sob um contexto de crises de fluxos internacionais, restrição do crescimento industrial interno e do comércio internacional. O sistema bancário ineficientecontinuava não dando conta da demanda de moeda, diante agora, do grande entesouramento praticado pela população envolvida nas UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 68 atividades comerciais remuneradas. Não havia crédito suficiente, e essa situação se estendeu em todas as atividades econômicas, urbanas ou não. Nesse período, o Banco do Brasil cresceu em atribuições e expectativas, contribuindo para amenizar a crise de liquidez, ajudando o Brasil a adaptar-se às mudanças e consequências originadas diante de um cenário externo fortemente afetado e ameaçador, sem previsões de normalidade. Entre 1927-1930, a ênfase ao padrão ouro pelo Presidente Washington Luís relevaria a política econômica cedendo a pressões das oligarquias na busca pela estabilização da moeda. Criou-se a Caixa de Estabilização, com a mesma função da anterior Caixa de Conversão, que buscaria ampliar a reserva de ouro no país até ser possível a conversibilidade plena das notas, criando o Cruzeiro (em 1942) com mesma paridade do mil-réis, cedida ao controle do Banco do Brasil. A figura a seguir traz a imagem da moeda emitida no período de vigência da Caixa de Estabilização. FIGURA 3 – PAPEL MOEDA BRASILEIRO NO VALOR DE 5 MIL RÉIS FONTE: <http://www.dplnumismatica.com.br/cd%20reis/r100c%20f1.jpg>. Acesso em: 31 jul. 2018. IMPORTANT E Você sabia que a Caixa de Conversão e a Caixa de Estabilização (1906-1913 e 1926-1930) foram instrumentos que buscavam permitir a emissão de títulos com lastros em ouro ou moeda nacional ou estrangeira? E também recolher ouro em barra e trocar por moeda papel! Isto representava a busca por alternativas em ampliar a oferta de moeda na economia, o que era vital para o funcionamento das atividades, inclusive de comércio exterior. Na esfera política foi o Convênio de Taubaté, com o acordo entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro em ampliar o preço do café, que buscou contribuir para essa missão. TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 69 Os efeitos expansionistas beneficiaram os preços das comoditties e atraíram novamente investimentos externos, junto à ociosidade da base industrial, segundo Fritsch (1990, p. 58). O autor, entretanto, admite, A exuberante recuperação de 1927-28 sustentava-se em bases frágeis, já que dependia crucialmente da manutenção de condições econômicas internacionais extremamente favoráveis verificadas desde 1926. Como a experiência antes da Guerra havia demonstrado, dada a instabilidade de fluxos financeiros para a periferia, normalmente variando em sincronia com os preços internacionais de produtos primários, a adoção de padrão ouro em ciclos de endividamento externo aumentava a vulnerabilidade do equilíbrio macroeconômico doméstico. Isto porque, como as condições favoráveis de balanço de pagamentos que induziriam a adoção do padrão ouro podiam reverter- se abruptamente, a perda de reservas automaticamente submeteria economia a violentas pressões deflacionarias (FRITSCH, 1990, p. 58). Nenhuma das políticas teria alcançado algum êxito, mesmo que temporário, diante da forte instabilidade internacional e nossa vulnerabilidade, se não houvesse o que ficou reconhecido como “pacto oligárquico”. Isto é, todas as discussões ocorriam sob um cenário político determinante, composto pelo governo central e os demais interesses estaduais, permitindo a estabilidade de um parlamento, submisso ao Presidente da República, que criara elevadas condições de governabilidade. Sob esse pacto, admite-se que se caracterizou por uma forma de governar centralizado na figura do Presidente, o qual conseguiu aglutinar interesses de classes políticas produtivas, donos de capital, especialmente destinadas à produção do café. Entretanto, a partir da segunda década, começaram a ocorrer divergências entre as elites de São Paulo, Minas Gerais e os Estados com menores poderes políticos. Aliado a isso, acrescenta-se o descontentamento de outras classes sociais que ampliavam suas demandas e interesses. Finalmente havia o protesto insistentemente veiculado por uma minoria de políticos dissidentes, intelectuais e setores de imprensa independente, contra a natureza antidemocrática e centralizadora do regime, que encontrou crescente ressonância nas classes médias urbanas emergentes e nas camadas mais jovens da oficialidade das forças armadas, especialmente nos anos 20. Este descontentamento foi, de fato, a fonte de recorrentes crises políticas e, juntamente com as profundas divergências entre os estados dominantes durante a sucessão presidencial de 1930 e o impacto devastador do início da Grande Depressão, contribuiu de forma decisiva para o colapso da Primeira República (FRITSCH, 1990, p. 36). É evidente que a partir desse momento, as crises se tornariam também políticas e contaminariam pensamentos, formas de conduzir e representar UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 70 o país através dos múltiplos interesses. Passada a sucessão de crises desse período e marcados pelos desequilíbrios externos e mudanças sociais internas, desencadeados na Revolução de 30, persistentes e novos e desafios políticos e econômicos estariam por vir. Estes desafios, cenários e seus desfechos serão abordados na continuação desta unidade e no decorrer da nossa disciplina. Agora vamos continuar e finalizar o Tópico 1 com o próximo assunto! 3 A BASE ECONÔMICA CAFEEIRA Neste momento, seguiremos com a apresentação das bases produtivas internas, no momento da República, que, predominantemente agrícolas e atreladas aos desafios de mão de obra e mercado, contribuirão para uma economia com fortes vulnerabilidades externas. Vamos lá! 3.1 AS CONDIÇÕES DE OCORRÊNCIA E MERCADO Até agora já vimos os principais efeitos econômicos de acontecimentos políticos e sociais, que na tentativa de encaminhar o rumo da República, sejam nos objetivos econômicos ou de desenvolvimento, começaram a despertar as áreas de interesses produtivos no país, que ora se tornarão entraves, ora impulsionarão objetivos. É importante relembrar que num sistema econômico vão se destacar objetivos, coincidentes com as especialidades produtivas que se sobressaem, isto é, de acordo com a disponibilidade de fatores ou habilidades de uma nação. Essas são as bases produtivas de uma sociedade, que lhe proporcionarão ganhos de escala comparados a outras sociedades com habilidades diferentes. É assim que nossa base produtiva também se desenvolveu, desde o século XVI. Como já foi apresentado na Unidade 1 desta disciplina, nossa vocação agrícola desde esse século, conformou uma estrutura espacial com diferentes culturas em diferentes espaços, mas todas elas, moldando fortemente grande parte de nossas estruturas sociais e econômicas até os dias de hoje. Cano (2009) destaca a gênese da “agricultura itinerante”, decorrente da grande disponibilidade do fator terra, diferente da população livre, combinação ideal para a promoção de alta concentração fundiária e agricultura mercantil- exportadora, entretanto, sem abandonar a de subsistência, abastecida pelas crises de atividades ou culturas (por exemplo, a mineração e açucareira), e exclusão de mão de obra provocada, sobretudo, pelo fim da escravidão. Esse contexto foi responsável pelo baixo nível técnico na zona rural e reforçou ainda mais a economia de subsistência e a miséria nesse período anterior ao café. TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 71 Entretanto, a agricultura cafeeira, a partir de 1880, especificamente na região de São Paulo, mais dinâmica e abastecida, destacar-se-ia de outros processos, por apresentar, [...] além da fronteira móvel – por indução da ferrovia –, uma “oferta elástica” de mão de obra imigrada do exterior e facilmente submissível ao trabalho, graças ao não acesso à propriedade da terra. Expandiu-se, incorporando novas terras, mão de obra, infraestrutura, gerando nível mais alto de produtividade e diversificandoa estrutura produtiva (a partir da primeira metade do século XX) ao estimular o surgimento de uma dinâmica mercantil (alimentos e matérias primas) na mesma região. Finalmente, ao avançar sua urbanização (CANO, 2009, p. 28). A cultura cafeeira, neste momento, viria a amenizar o declínio das culturas de algodão e açúcar no século XIX. O desenvolvimento de economias e mercados promissores, como os Estados Unidos, acelerou o desenvolvimento do sudeste do Brasil através dessa produção e possuía todos os requisitos de ascensão: um mercado externo promissor e uma classe com capital disposta a investir, amparado politicamente em um Estado, também disposto a coordenar todo tipo de política monetária e fiscal, a fim de valorização do negócio. O único empecilho inicial foi na disponibilidade de mão de obra escrava. Com a limitação do mercado de escravos, primeiro externo, depois interno, embora o fim da escravidão de fato, só ocorreria após algumas décadas, o problema viria a ser superado com a mão de obra imigrante que ganhava gradualmente espaço, confiança e qualidade em suas atribuições. Uma situação favorável à economia cafeeira teria sido a sua capacidade de rapidamente se monopolizar e aglutinar condições que favoreciam sua cultura. Associado a condições de mão de obra e terras de boa qualidade, a oferta se converteria em elástica, sem grandes dificuldades. E “devida a relativa estabilidade de salários [...], a taxa de lucro da cafeicultura era bastante elevada, alimentando a constante acumulação e decorrente expansão da lavoura” (FURTADO, 2009, p. 84). Assim, diante de um contexto que favoreceu o setor produtivo cafeeiro, e aliado à influência política da República do “café-com-leite”, dado o predomínio de São Paulo e Minas Gerais nos círculos de poder, essa cultura se fortaleceu e desenvolveu status de produto e commodity de grande atratividade de capital e influência política em todos os cenários de crises e recuperações. É reconhecido que essa produção foi determinante por aproximadamente quatro décadas para economia brasileira, dado, principalmente, sua enorme participação no cenário de comércio internacional (40% a 80% chegaram a representar as exportações na velha república). Ademais, produtos como borracha, açúcar, algodão, fumo, entre outros, também gradativamente avançaram sua produção, entretanto, voltadas agora mais para a demanda interna, em plena ascensão. Aliás, demanda essa, também resultante de um efeito multiplicador da dinâmica cafeeira, cuja indústria pioneira, inevitavelmente viria a contribuir para o processo de urbanização. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 72 A tabela a seguir apresenta os principais produtos que compunham a pauta de exportações brasileiras nas primeiras décadas republicanas, destacando que, apesar das dificuldades externas, o café apresentava forte e crescente dinamismo no mercado internacional. TABELA 2 – PRINCIPAIS PRODUTOS AGRÍCOLAS DE EXPORTAÇÃO DO BRASIL (1889-1933) Participação (em %) na Receita das Exportações Período Café Açúcar Cacau Mate Fumo Algodão Borracha Couro e Pele Outros 1889-1897 67,6 6,6 1,5 1,1 1,2 2,9 11,8 2,4 4,9 1989-1910 52,7 1,9 2,7 2,7 2,8 2,1 25,7 4,2 5,2 1911-1913 61,7 0,3 2,3 3,1 1,9 2,1 20,0 4,2 4,4 1914-1918 47,4 3,9 4,2 3,4 2,8 1,4 12,0 7,5 17,4 1919-1923 58,8 4,7 3,3 2,4 2,6 3,4 3,0 5,3 16,5 1924-1929 72,5 0,4 3,3 2,9 2,0 1,9 2,8 4,5 9,7 1930-1933 69,1 0,6 3,5 3,0 1,8 1,4 0,8 4,3 15,5 FONTE: <https://www.slideshare.net/marpim/histria-do-brasil-da-repblica-a-era-vargas>. Acesso em: 9 jun. 2018. A atividade cafeeira teria iniciado no Rio de Janeiro e percorrido solos brasileiros, seguindo para o sul de Minas Gerais e para o Vale do Paraíba, em São Paulo, e o seu interior. A fertilidade do solo era o fator determinante, por isso sua qualificação itinerante, a fim de suprir suas exigências de condições. Em relação à contribuição dessas regiões na produtividade, estima-se que, em meados de 1880, a região do Rio de Janeiro produziu em torno de 60% do total da produção brasileira, enquanto São Paulo destinou-se a suprir o restante, porém, ao longo da primeira década republicana, essa situação se inverteria. Conforme quadro a seguir, é verificado a mudança do impulso produtivo, decorrente das condições não apenas do produto, mas também sociais e econômicas, que apresentaremos mais adiante. QUADRO 1 – BRASIL: PRODUÇÃO TOTAL DE CAFÉ E PARTICIPAÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO E DE SÃO PAULO, 1884 – 1899 (QUANTIDADE EM 1000 SACAS DE 60 KG) ANO BRASIL RIO DE JANEIRO (%) SÃO PAULO (%) 1884/85 6.206 70,2 29,8 1885/86 5,565 68,6 31,4 1886/87 6.078 65,7 34,3 1887/88 3.033 64,0 36,0 1888/89 6.827 63,6 36,4 TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 73 FONTE: Gremaud, Saes e Júnior (1996, p. 45) Assim, essa inversão se daria não só pelo caráter dinâmico dessa cultura, decorrente da exaustão do solo, mas também, por outras razões de ordem histórica. Ainda, no que tange a outras condições, no Oeste Paulista, [...] cujas terras eram muito mais planas e extensas, permitindo a cultura em maior escala [...] devido sua topografia mais favorável, também se prestava melhor para infraestrutura ferroviária [...] (FURTADO, 2009, p. 83). A abolição da escravidão acarretou efeitos bem menores na região paulista, onde a imigração já se sentia presente, anterior ao processo, fortalecendo a oferta de mão de obra para esse setor. De certa forma, o fim da escravidão propôs uma nova redistribuição produtiva do café, impactando negativamente áreas que dependiam em maioria da mão de obra escrava para a realização. Como ressalta Furtado (2009, p. 83), O grande problema para a expansão desse sistema produtivo residia na disponibilidade de mão de obra escrava. Desde o início do século XIX, como foi visto, o Brasil enfrentava o boicote britânico ao tráfico de escravos. A partir da metade daquele século, o governo do País finalmente proibiu [...]. As fazendas de café começam a enfrentar crescentes problemas de mão de obra, e, durante algum tempo, chegou-se a acreditar que o sistema de produção da plantation tropical não conseguiria sobreviver ao final da escravidão. De fato, esse risco era real, mas a possibilidade da substituição pela mão de obra imigrante europeia preencheu essa lacuna de forma eficaz, conforme veremos mais profundamente no tópico seguinte. Existia uma grande reorganização, inclusive do Estado, a fim de promover e financiar a vinda, e de certa forma, as condições mínimas de permanência dos imigrantes no país, custeando suas necessidades, inclusive de transportes, até que fosse alocado no mercado de trabalho, no caso, os cafezais em fazendas (tema que voltaremos mais adiante). Essa era a função por exemplo, das hospedarias 1889/90 4.260 61,6 38,4 1890/91 5.358 56,45 43,6 1891/92 7.397 64,4 45,6 1892/93 6.202 52,3 47,7 1893/94 4.309 51,2 48,8 1894/95 6.695 48,1 51,9 1895/96 5.476 47,9 52,1 1896/97 8.860 45,5 54,5 1897/98 10.462 43,7 56,3 1898/99 8.771 40,3 59,7 1899/00 8.959 39,5 60,5 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 74 dos imigrantes em São Paulo e Rio de Janeiro. A figura a seguir nos dá uma ideia de como era a estrutura física de suporte a chegada do Imigrante em São Paulo nesse período. FIGURA 4 – HOSPEDARIA DO IMIGRANTE – SP FONTE: <http://museudaimigracao.org.br/hospedaria-de-imigrantes-de-sao-paulo-tudo- comecou-ha-130-anos/>. Acesso em: 23 jul. 2018. Quanto ao financiamento e disponibilidade do fator capital para a produção do café, chama-se a atenção para a eficácia do processo comercial do negócio do café, dado que a formação das plantações e o processamento exigiam recursos, os quais as volatilidades externas do capital e dificuldades do desenvolvimento das relações bancárias com os fazendeiros acarretou ao comerciante a prática dessa função. Assim, atribuiu-se à comercialização do produto o mecanismo principal de realização doslucros, e a forma de captar recursos diretos para sua reprodução. Na cafeicultura, não ocorreu o autofinanciamento, prática comum ao sistema capitalista por exemplo. A dinâmica era a seguinte: nessa cultura, o comerciante (ou comissários) tinha uma função ou status superior. Primeiramente, o caráter de longo prazo desde seu plantio até a colheita exigiria o investimento com retornos também a longo prazo. Outro fator importante para a ocorrência da necessidade de capital durante a produção de café, era a manutenção da qualidade do produto, que deveria sujeitar-se às especificidades da demanda internacional para a garantia de sua produtividade final. Contribuindo então para a necessidade de capital, estavam a mão de obra remunerada e, consequentemente, o elevado capital de giro para o negócio (LACERDA et al., 2000). Ainda conforme os autores, [...] deve ser destacada a ênfase no relacionamento entre o comerciante e o fazendeiro: não se tratava simplesmente de uma intermediação comercial, e sim de uma relação complexa na qual a função financiadora do primeiro adquiria relevo essencial. Cabia ao comerciante a função de prover ao fazendeiro os recursos necessários para a formação da lavoura e para o trato do cafezal e a colheita do café. Em outras palavras, cabia ao comerciante fornecer os recursos para a formação do TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 75 capital fixo e dos giros da produção. Era o comerciante, o “banqueiro” da lavoura. Na ausência de um sistema bancário, público ou privado, ligado diretamente à produção, o comerciante de café chamava para si o papel fundamental de suprir o crédito necessário. Em contrapartida, exigia reciprocidade do fazendeiro, pois a produção era entregue aos seus cuidados, que consistia no preparo e na venda do café, ganhando uma comissão que na época era fixada em 3% do valor da venda. O comerciante fornecia o crédito ao fazendeiro; em troca, adquiria um cliente cativo. Não era, contudo, um “cativeiro” tão difícil de suportar (p. LACERDA et al., 2000, p. 34). NOTA “As relações transcendiam os limites comerciais. Ao dar-se crédito aos escritos da época, as relações entre o fazendeiro e o comissário, durante longo tempo, não apenas eram amistosas, mas transcendiam os limites dos negócios. Ao objetivo do lucro, fazendeiros e comissários mesclaram uma forte dose de sentimentalismo das relações de família, do viver patriarcal que levavam. O comissário não se limitava a ser o comerciante incumbido da venda do café do fazendeiro e o seu fornecedor de capitais; era também o mentor, o parente ou amigo mais avisado que lhe impunha moderação nas despesas e o assistia nas principais emergências da vida com seus conselhos e seus recursos. Achou- se assim, assumir funções que por muito tempo manteve, de regulador da atividade dos lavradores, disciplinando-os na exploração das lavouras já existentes e estabelecendo-lhes a justa medida na expansão de novas culturas. [...] A ação assim do comissário com relação ao fazendeiro ultrapassava, pois, os limites comerciais. Além do fornecimento de crédito e da venda do café por ele produzido, o comissário encarregava-se da prestação de inúmeros serviços pessoais aos fazendeiros [...] evidentemente, as relações de amizade encontravam viabilidade e fundamento nas bases de interesses comerciais comuns”. FONTE: Lacerda et al. (2000, p. 34). Com a expansão dos serviços bancários entre 1910 e 1920, os comissários ou comerciantes tiveram mais acessos ao crédito bancário, em lugar dos fazendeiros, mais distantes dos grandes centros. Assim, passaram a ter maior representatividade no meio financeiro, como meio de assegurar os ganhos e lucros, para todos os envolvidos, principalmente para estes comissários. Na “[...] comercialização que se realizavam os grandes negócios, acumulavam-se fortunas e prosperavam as empresas. [...] evidentemente proporcionava lucros ao fazendeiro, mas, seguramente, menores que aqueles que se auferiram na sua comercialização” (LACERDA, et al. 2000, p. 37). Entretanto, essa prática foi comum até a introdução do trabalho livre na fazenda, que eliminou gradativamente a necessidade de recursos anteriores para inclusive aquisição de mão de obra escrava. Ademais, o esgotamento da relação, que nos períodos de crise desencadeou desconfiança na relação entre os comissionados comerciantes e fazendeiros, quanto às negociações com os exportadores, que carecia de maiores registros e detalhes da transação, quanto a custos, volumes e valores. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 76 NOTA Foi então a expansão do negócio do café que gerou o aparecimento das Casas Comissionadas, que atuavam como instituições bancárias. Estas tinham acesso ao crédito e podiam estocar o produto até regularizar o preço da oferta, isto é, atuavam como um regulador de preços e ofertante no mercado. Entretanto, sua função foi relevante até a atuação das Casas Exportadoras, que então passaram a representar intermediários no mercado, representantes de empresas internacionais. Para saber mais sobre essas atividades, também comerciais, leia o texto O fazendeiro de café como representante de uma casa comissionada. Disponível em: <https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/viewFile/1492/1196>. Acesso em: 23 jul. 2018. Assim, alguns efeitos também indiretos da expansão do crédito para o setor começam a despontar “[...] a partir da Reforma Bancária [...] no começo da República, que forneceu recursos relativamente fáceis [...]. O mesmo efeito teve a expansão ferroviária: a extensão das linhas férreas em São Paulo cresceu de cerca de 1.600 km em 1885 para 3.300 km em 1900 [...]” (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 47). Sem dúvida, o fator custo de transportes era decisivo para esse negócio. Em relação ao preço desse produto no mercado externo, no período de 1885 a 1890, este cresceu rapidamente acompanhando a demanda, mesmo diante do elevado montante de entrada de recursos externos decorrentes de empréstimos e só não ocasionou inflação interna neste momento, dado a valorização da moeda, consequência favorável das tentativas de estabilização buscada pelo Governo vista anteriormente. O quadro apresentado a seguir demonstra determinados indicadores econômicos produtivos de 1910 a 1929, em que as variações constatadas nesse período, em todos os setores da economia, confirmam que os efeitos se propagaram de forma aproximada, em todos os setores, às variações do comércio internacional. A ênfase maior se deu para as exportações, com destaque para o produto agrícola, que apresentou, em muitos momentos, variações opostas ao industrial, contribuindo para resultados predominantemente positivos na Balança Comercial. QUADRO 2 – TAXAS DE VARIAÇÕES DE INDICADORES ECONÔMICOS PRODUTIVOS (1910-1929) ANO PRODUTO INTERNO BRUTO PRODUTO INDUSTRIAL PRODUTO AGRÍCOLA PRODUTO DE SERVIÇOS EXPORTAÇÕES IMPORTAÇÕES BALANÇA COMERCIAL 1910 7,3 4,4 4,7 7,5 307,3 201,1 106,2 1911 0,4 9,0 -7,4 4,2 325,0 220,9 104,1 1912 10,6 10,7 11,0 11,9 363,3 261,0 102,3 1913 1,6 0,9 -2,2 -0,3 318,9 273,6 45,3 TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 77 1914 1,3 -8,7 6,7 -9,3 228.6 146,0 82,5 1915 -1,2 12,9 -0,9 3,7 256,8 115,1 141,7 1916 4,4 11,4 4,2 8,8 269,4 148,3 121,1 1917 5,4 8,7 3,6 3,2 300,1 158,6 141,5 1918 2,0 -1,1 3,0 0,3 291,6 193,9 97,7 1919 5,9 14,8 -1,3 14,4 580,6 280,4 300,3 1920 10,1 5,2 13,4 11,2 408,2 381,8 26,4 1921 1,9 -1,8 4,1 -4,2 224,2 201,1 23,1 1922 7,8 18,8 0,5 9,8 366,1 231,5 134,6 1923 8,6 13,3 3,9 19,4 336,6 207,7 129,0 1924 1,4 -1,1 1,0 4,5 422,7 282,7 140,0 1925 0,0 1,1 -3,2 2,3 496.9 359,3 137,6 1926 5,2 2,4 3,2 1,8 458,1 339,6 118,5 1927 10,8 10,8 10,8 9,2 431,2 335,4 95,8 1928 11,5 7,0 18,4 12,0 473,9 388,8 85,2 1929 1,1 -2,2 0,3 -0,9 460,4 367,7 92,8 FONTE: Adaptado de Abreu (1990, p. 393) Toda conjuntura comercial foi atrelada a condições favoráveis ou não do câmbio em períodosanteriores recentes, gerando efeitos nesses indicadores. Em meados de 1890, a início de 1900, por exemplo, a situação favorável se inverteria, quando os preços externos passam a entrar em queda, enquanto os preços internos, a subirem, frente à desvalorização crescente da moeda interna ao longo da década. A desvalorização do mil réis seria consequência dos seguintes eventos, a saber: “aumento do meio circulante em função da política monetária implementada na República, saldos comerciais reduzidos em vários anos e limitado volume de empréstimos externos, provocando acentuado declínio do valor da moeda nacional diante da libra esterlina” (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 48). Era uma conjunção de eventos de forma que, quando o preço externo do café rebaixava, mesmo que se fosse constatado um aumento do seu preço no mercado interno, esta condição por si só não era suficiente para sustentar o setor. Acumulou-se a isso o evento de supersafra, ou seja, quando as colheitas provenientes de anos atrás, dado o tempo de plantação e colheita, apresentaram resultados bem-sucedidos, mas que infelizmente, encontraram o mercado externo em condições bem diferentes. As medidas nesse cenário exigiram políticas monetárias e fiscais restritivas, diante da incapacidade de cumprir amortizações externas, gerando ainda mais endividamento. Alguns efeitos destas medidas promoveram certa recuperação do câmbio, mas o mercado do café não seria mais o mesmo. Diante de um cenário com produção e preços crescentes, aliado à valorização da moeda consequente, a crise de superprodução se consolidaria. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 78 É nesse momento que se estabeleceu o Convênio de Taubaté, uma intervenção dos governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a fim de evitar o agravamento dessa questão, como já mencionado anteriormente na apresentação do ambiente político, mas que aqui, agora, se contextualiza sua atuação. Como apresenta Gremaud, de Saes e Júnior (1997, p. 49), as medidas baseavam-se Na compra do excedente da safra de café pelo (s) governo (s), 2. Obtenção de empréstimos externos para gerar os recursos para compra do excedente, 3. Cobrança de um imposto, em ouro, sobre cada saca de café exportado a fim de captar recursos para o serviço da dívida externa incorrida para a compra do excedente; 4. Proibição de novas plantações de café naqueles Estados; e 5. Para evitar a valorização da moeda (em decorrência da entrada de volumosos empréstimos externo), seria estabelecida a Caixa de Conversão. Este seria um órgão emissor de moeda, com base no lastro de divisas representado pelos capitais externos que entravam no país (sob a forma de investimentos diretos). Esta emissão (e conversão do papel moeda em divisas) se faria a uma taxa fixa de cambio, impedindo assim a valorização da moeda nacional (e, consequentemente, a perda de receita em mil-réis do produtor de café). Entretanto, todas as tentativas pareceram só reafirmar a tese de que economias primárias exportadoras tendiam a investir cada vez mais nas suas atividades, dado o caráter de abundância de recursos para esse fim. IMPORTANT E Justamente nesse ponto estaria seu estrangulamento: um produto com baixa elasticidade renda, e que, de certa forma, seus aumentos produtivos sempre seriam proporcionalmente maiores, por mais que as demandas crescessem, só poderia reafirmar seu limite de crescimento! Assim, o controle de safras foi a única alternativa de impedir sua desvalorização ininterrupta e amenizar os danos ao lucro do setor, que além dos seus problemas, também teve que lidar a partir da década de 1930, com o crescimento da concorrência internacional do produto e os efeitos da crise americana de 1929, que dificultou principalmente a possibilidade de obtenção de empréstimos para compra dos excedentes de café. O quadro a seguir apresenta a evolução da produção de café, sua exportação e os preços no mercado internacional no período de 1900-1929. Constata-se que até esse período, o aumento da produção teria sido acompanhado com o aumento das exportações do produto, mesmo que com menos dinamismo, mas o suficiente para manter a elevação crescente dos preços, aliado às políticas TÓPICO 1 | AS ORIGENS DO CAPITALISMO NO SÉCULO XIX 79 de câmbio. Só a partir de 1930, o excedente passou a ser comprado, como política de valorização do preço do produto, exigindo cada vez mais recursos, captados inclusive externamente, ademais as crises externas. QUADRO 3 – BRASIL: PRODUÇÃO, EXPORTAÇÃO E PREÇO INTERNACIONAL DO CAFÉ, 1900 – 1929 ANO PRODUÇÃO (I) EXPORTAÇÃO (II) PRECO INTERNACIONAL (III) 1900/01 13.845 9.155 7,05 1901/02 15.076 14.760 6,94 1902/03 13.640 13.157 6,54 1903/04 11.217 12.927 6,8 1904/05 11.159 10.025 7,55 1905/06 11.652 10.821 8,35 1906/07 20.607 13.966 8,25 1907/08 11.604 15.680 7,75 1908/09 13.945 12.658 7,55 1909/10 15.567 16.881 7,7 1910/11 11.543 9.724 9,1 1911/12 14.031 11.258 11,8 1912/13 13.515 12.080 13,55 1913/14 13.754 13.268 12,45 1914/15 15.151 11.270 10,35 1915/16 15.773 17.061 9,6 1916/17 13.891 13.069 9,85 1917/18 15.606 10.606 9,55 1918/19 11.781 7.433 11,55 1919/20 8.870 12.963 19,5 1920/21 17.116 11.525 19,5 1921/22 14.276 12.369 10,7 1922/23 14.289 12.673 12,9 1923/24 15.862 14.466 13,5 1924/25 14.801 14.226 17,5 1925/26 15.997 13.482 22,3 1926/27 18.348 13.751 21,6 1927/28 27.848 15.115 18,5 1928/29 16.275 13.881 21,3 1929/30 29.179 14.281 20,4 OBS.: I e II: quantidades em mil sacas de 60 kg. III: Preço em centavos de Dólar por libra-peso. FONTE: Gremaud, Saes e Júnior (1997, p. 51) UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 80 De fato, o desfecho da economia cafeeira esteve subordinado a causas externas e não internas, dado que as condições desde fatores de produção apresentavam considerável disponibilidade (terra, mão de obra e custos dos processos ou técnicas produtivas). É possível que essas vantagens, com o tempo, possam também terem contribuído para as dificuldades sim, já que tendia a mobilizar cada vez mais recursos para a expansão da produção e não melhoria de técnicas ou gestão comercial. As dificuldades foram, predominantemente, decorrentes das flutuações de demanda externa do produto no mercado internacional. A elasticidade-renda dos produtos agrícolas eram muito baixas e se agravavam em situações de crises internacionais, como nos Estados Unidos, grande consumidor do café brasileiro. Essa condição de baixa elasticidade-renda interferiu “de forma que a demanda dele tendia a aumentar menos do que a oferta local, que era muito elástica a preços. Como resultado [...] havia uma tendência muito forte para que os preços do café caíssem [...] (FURTADO, 2009, p. 85). IMPORTANT E Sob esse ponto de vista, admite-se que a expansão da economia cafeeira era bem menos um problema de condições estruturais internas, mas sim, majoritariamente, decorrente de um desajuste ou descompasso, com o mercado internacional, principal cenário do produto e do capital financeiro. Toda decisão interna dependia do setor externo sobre esse produto, o que era um fator positivo para nosso mercado (um produto líder), ao mesmo tempo atuava como ameaça e estrangulamento para a nossa economia. Por fim, com a introdução da mão de obra assalariada, esta viria a representar uma oportunidade real de certa recuperação do negócio, na medida em que vai contribuir para a consolidação de um mercado interno, bastante promissor, não só para o café, mas para todos os produtos agrícolas do setor exportador ou não, além do projeto de desenvolvimento industrial que viria na sequência. 81 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • O início da República foi marcado por uma série de acontecimentos sociais e ampliação dos interesses políticos relacionados a esses acontecimentos. Como por exemplo a Abolição da Escravatura. • A transição para mão de obra livre e uma economiaincipiente voltada para o setor agrícola de exportação submeteram as decisões econômicas a interesses também externos, consequentemente, a uma vulnerabilidade a cenários internacionais. • Políticas monetárias e cambiais, via desvalorizações da moeda, monetização da economia e padrão-ouro, foram os instrumentos mais utilizados para amenizar os prejuízos gerados pela forte dependência das condições políticas e econômicas externas. • O café destacou-se como a principal base produtiva, devido a vantagens de origens estruturais, políticas, comerciais e específicas do produto. São Paulo foi a região com maior destaque, dado requisitos de várias ordens. • A ameaça persistente do câmbio, as dificuldades de financiamento e crédito, o evento da supersafra, aliada às crises e guerra internacionais, foram dificuldades que colocaram em risco o lucro do setor cafeeiro. • A economia do café, com forte dinamismo exportador, mesmo diante das adversidades do mercado, contribuiu para o crescimento urbano, de demais serviços e produtos, favorecendo o desenvolvimento econômico do País. 82 AUTOATIVIDADE 1 Já nos primeiros anos de República no Brasil foi possível constatar uma diversidade e predominância de interesses que influenciaram os rumos dos governos desse período. Comente essa constatação. 2 Em final do século XIX, a coincidência de problemas relacionados à área monetária e cambial com os desafios de ampliar a oferta dos bens e serviços na economia, dado o desenvolvimento do mercado interno, embora ainda em fase inicial, já promoveria a adoção de medidas de política econômicas mais diretivas. Diante dessa afirmação e as medidas adotadas, classifique V para as sentenças verdadeiras, e F para as sentenças falsas: ( ) A necessidade de monetização da economia, decorrente, inclusive do crescimento da mão de obra assalariada, contribuiu para a adoção de políticas expansionistas, com o aumento da emissão de moeda, a partir da base monetária (MO). ( ) Por outro lado, essa monetização da economia se deu sob um processo de saneamento interno e externo, no tocante às dívidas públicas. Para isso, a medida do Funding Loan atuou favoravelmente, via negociações e a promoção de maior liquidez. ( ) O Padrão Ouro chegou a ser cogitado como medida de segurança, em meados de 1900, afins de propiciar ajustes cambiais internos. Porém, diante de um inesperado crescimento econômico anterior à primeira Guerra, a medida não chegou a ser aplicada. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V. b) ( ) V – V – F. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 3 Explique em que consistiam as funções da Caixa de Conversão (1906) e da Caixa de Estabilização (1926), enquanto medidas econômicas na primeira República. 4 A partir de meados de 1890, a expansão da produção cafeeira na região de São Paulo passa a frente da produção do Rio de Janeiro, “essa inversão se daria não só pelo caráter dinâmico dessa cultura [...] mas também, por outras razões de ordem histórica” (Unidade 2, Tópico 1 em: A base econômica cafeeira). Justifique essa afirmação: 5 Apresente, de forma sintetizada, em que consistia a política de valorização do café a partir de 1929. 83 TÓPICO 2 O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Olá! Tudo bem até aqui? Vamos dar continuidade a nossa exploração sobre a Formação Econômica do Brasil! No Tópico 1, apresentamos as origens do capitalismo no século XIX, sob os contextos de formação e consolidação de elementos da República Velha. Para isto, consideramos a dinâmica e efeitos de múltiplos interesses de classes, aliados à economia do Café e a suas condições de mercado, nem sempre favoráveis aos objetivos dos agentes econômicos envolvidos, porém, na medida em que esclarecemos muitos questionamentos, abrem-se espaços para outros! E para isso, nessa etapa de nossos estudos, vamos avançar para o período onde já constatamos o início do processo de desenvolvimento da indústria, já no século XX. No Tópico 2 aprofundaremos um pouco mais as condições que possibilitaram, não só para a economia do café, mas também para o avanço da própria industrialização, como a resolução para a questão de mão de obra e suas consequências na reestruturação dos mercados. Em seguida, avançaremos em acontecimentos e governos econômicos que se destacaram diante do desafio de aplicar e implementar um modelo desenvolvimentista e nacionalista, na perseguição de metas de crescimento e industrialização brasileira. Vamos juntos adiante novamente! Boa jornada! 2 A QUESTÃO DO TRABALHO NA CAFEICULTURA Neste subtópico, será abordada um pouco mais a questão da mão de obra, referente à ocorrência da imigração e como essa mudança no fator trabalho atingiu os planos de desenvolvimento econômico e seu curso, no decorrer da República, promovendo um dinamismo com múltiplos efeitos. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 84 2.1 IMIGRAÇÃO E DINAMISMO ECONÔMICO A mão de obra escravista no Brasil foi determinante no período colonial, especialmente no século XVIII. Todo o desenrolar do processo de fim do Império a instauração da República, bem como, as decisões de pautas de reivindicações e interesses, estão relacionados, de alguma forma, a questões do tipo de mão de obra empregada. Razões como a amplitude do território brasileiro, as necessidades de colonização, os benefícios do negócio de tráfico de escravos, o interesse em manter a grande propriedade nas mãos de grandes latifundiários e a própria economia brasileira agrícola exportadora, eram algumas das principais razões de manutenção do esquema escravocrata. A figura a seguir apresenta o elevado crescimento de escravos no Brasil, entre 1831-1953, comprovando a relevância desse tipo de mão de obra, facilmente absorvido em nossa economia. FIGURA 5 – DESEMBARQUE DE ESCRAVOS AFRICANOS NO BRASIL (1831-1853) Ano Escravos Ano Escravos 1831 138 1844 22.849 1835 745 1845 19.453 1836 4.966 1846 50.234 1837 35.209 1847 56.172 1838 40.256 1848 60.000 1839 42.182 1849 54.061 1840 20.796 1850 22.856 1841 13.804 1851 3.287 1842 17.435 1852 800 1843 19.095 1853 --- FONTE: <http://olhonahistoria.blogspot.com/2011/07/atividades-de-historia-do-brasil_20.html>. Acesso em: 15 jun. 2018. Entretanto, o republicanismo trouxe em suas proposições de mudanças, também a intenção de mudanças sociais, garantias e distribuição de direitos, nos quais a mudança econômica foi inadiável, a fim de acomodar todos os interesses econômicos de todas as classes, inclusive dos proprietários de terras e escravos. Os entraves ou inviabilidade da escravidão começariam a dar sinais na primeira metade do século XIX e levariam a sua extinção, na metade seguinte. “O esgotamento do ciclo do ouro, a decadência da exportação dos produtos agrícolas devido à concorrência movida por outras áreas coloniais, além da sistemática oposição da maior potência capitalista da época – a Grã-Bretanha – ao tráfico de escravos [...]” (OLIVEIRA, 2012, p. 48). TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 85 O processo de acomodação das classes defendido pelo republicanismo, justamente necessitava de uma economia com mão de obra livre. Essa condição já era presente na Europa e, além das questões de ordem moral ou religiosas, que condenavam essa prática, existia um ambiente que favoreceria essa defesa. Esse ambiente seria promovido pela Revolução Industrial, que, sob um sistema capitalista e industrial crescente, exigiu a ampliação dos mercados, especialmente, os internacionais. Cabe notar que o crescimento demográfico e a generalização das relações capitalistas de trabalho nos países mais avançados e suas colônias disseminavam-se cada vez mais em face da crescente disponibilidade de mão de obra livre, que acentuava as vantagens desta frente aos escravos. Afinal, a aquisição de escravos sempre foi custosa e seu tempo de vida produtivaimprevisível [...]. Já o trabalhador assalariado, numa conjuntura histórica em que inexistiam quaisquer direitos trabalhistas, além de receber um rendimento ínfimo que mal cobria suas necessidades básicas de subsistência, podia ser dispensado sempre que houvesse uma queda na demanda dos artigos que produzia (OLIVEIRA, 2012, p. 49). Não foi uma tarefa fácil, embora sob inúmeras justificativas, o processo abolicionista no Brasil seria árduo e longo. A pressão da Inglaterra foi intermitente, várias medias e dificuldades comerciais e políticas foram acirradas com o Brasil. Havia um grande desinteresse por parte dos latifundiários que mais se beneficiavam com a escravidão, em adotar a tendência mundial. Entretanto, após o esvaziamento do debate em torno do futuro da oferta dessa mão de obra, em 1888, a Lei Áurea daria um fim irreversível à escravidão com já foi apresentado em tópico anterior. Certamente, o fim da escravidão representa uma necessidade de se adaptar à nova necessidade do país, de desenvolvimento econômico, a fim de desenvolver a indústria. Até procura-se justificar que essa mão de obra não seria útil, dado as habilidades exigidas pela industrialização ou processos mais elaborados. Furtado apud Furtado (2009, p. 82) sobre a introdução da mão de obra europeia, destaca que, [...] seu sucesso estava na sua efetiva integração aos circuitos comerciais da economia mundial em gestação a partir da Revolução Industrial. O êxito da imigração não estava na economia de subsistência, mas na sua efetiva inserção dentro dos fluxos monetários e comerciais da economia global [...]. No Brasil, a inserção da imigração europeia ocorreu de uma forma singular, por meio do trabalho assalariado nas grandes plantações de café, durante a metade do século XIX. Constitui-se um caso inédito em que a imigração europeia foi direcionada para a produção agrícolas tropicais [...]. Nesse contexto, de mudança de relações de trabalho, [...] a Abolição da escravatura não trouxe melhoras significativas para a população trabalhadora, mais pobre na maior parte do país. É importante estar atento para uma questão já apresentada, que é um fator decisivo para a alternativa da imigração europeia sob o contexto de expansão da produção cafeeira na metade do século XIX. Esse contexto custou o pagamento UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 86 de salários, para a manutenção da lógica cafeeira e promoveu a integração dos setores exportadores com o mercado interno em crescimento. A tabela a seguir apresenta o dinamismo da imigração, já anterior a República, com destaque para a década de 1920, decorrente, principalmente, da economia do café e indústria (mesmo que incipiente), com destaque aos italianos. TABELA 3 – IMIGRAÇÃO LÍQUIDA: BRASIL, 1881 – 1930 ( EM MILHARES) Chegadas Portugueses Italianos Espanhóis Alemães Japoneses 1881-1885 133,4 32 47 8 8 – 1886-1890 391,6 19 59 8 3 – 1891-1895 659,7 20 57 14 1 – 1896-1900 470,3 15 64 13 1 – 1901-1905 279,7 26 48 16 1 – 1906-1910 391,6 37 21 22 4 1 1911-1915 611,4 40 17 21 3 2 1916-1920 186,4 42 15 22 3 7 1921-1925 386,6 32 16 12 13 5 1926-1930 453,6 36 9 7 6 13 3.964,3 29 36 14 5 3 FONTE: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/CafeEIndustria/Imigracao>. Acesso em: 15 jun. 2018. Não bastasse essas necessidades, as crises de desequilíbrio externo na década de 30 promoveram o recondicionamento do foco ao mercado externo, ao foco ao mercado interno, como alternativa de desenvolvimento. Sem dúvidas, esse momento foi a gênese da tomada de consciência de que a industrialização seria a meta de crescimento a partir desse momento. O que veremos mais adiante. A região de maior assimilação da mão de obra livre, inicialmente imigrante, foi a região Sudeste. “Em fins do século XIX, os imigrantes representavam cerca de metade da população adulta de São Paulo e mais de 10% do país” (LACERDA et al., 2000, p. 42). NOTA Uma investigação parcial dos recursos de mão de obra efetuada em 1882 demonstrou que de cerca de 5 milhões de pessoas na idade de 13 a 45 anos que viviam nas 6 maiores províncias do país – Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará –, 651 mil, ou 13% eram escravos. O número de pessoas livres que se dedicavam a qualquer trabalho era igual a 1,4 milhão, ou 29%. As demais 2,9 milhões, ou 58% de toda população apta ao trabalho, foram qualificadas como “indivíduos sem ocupação certa” (LACERDA et al., 2000). TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 87 Aqui constatamos, no gráfi co a seguir, a procedência dos imigrantes majoritariamente italiana, com maior destino a São Paulo, diante do impulso à economia e urbanização atuante, que promoveu e acomodou, cada vez mais, o processo imigratório em seu desenvolvimento. GRÁFICO 1 – PROCEDÊNCIA DOS IMIGRANTES NA VELHA REPÚBLICA 23% 33% 15% 29% São Paulo recebeu o maior número de imigrantes (57%), devido à expansão cafeeira e incentivo do governo à imigração. Alemães, japoneses, sírios-libaneses, russo, lituanos e austríacos, entre outros. Italianos Portugueses Outros Espanhóis OBS.: 33% Italianos, 29% Portugueses, 23% Outros e 15% Espanhóis. FONTE: <https://www.slideshare.net/marpim/histria-do-brasil-da-repblica-a-era-vargas>. Acesso em: 15 jun. 2018. Havia certa preferência por imigrantes com algum tipo de qualifi cação e os brasileiros eram mais estabelecidos em atividades mais tradicionais, sempre em condições ainda piores de contratação. Admite-se que seu custo, apesar de todo aparato, podia ainda ser inferior à manutenção de um escravo. Associação de total descaso econômico com desinteresse social, tanto com a situação dos ex- escravos, quanto aos brasileiros natos não escravos, que subsistiam num sistema ainda mais miserável de exploração. DICAS Assista ao vídeo-documentário, “A imigração italiana em São Paulo”. Disponível em:<http://www.kinemafilmes.com.br/video-documentario/video-documentario- imigracao-italiana-em-sao-paulo>, que apresenta um pouco mais sobre essa história, parte da formação econômica do Brasil, a partir do acervo de vídeos e fotos do Museu do Imigrantes. Ademais, à ausência de condições de desenvolvimento da força de trabalho assalariada acrescenta-se o agravamento da monopolização das terras e baixa distribuição ou ausência de direitos a propriedades, a ponto de não restar outra alternativa, a não ser a submissão a um sistema prejudicial e explorador da mão de obra livre nascente. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 88 Sob o cenário de formação de mercado interno, uma necessidade diante dos desafios impostos no cenário externo para nossa base primária exportadora, o surgimento do trabalho assalariado e livre do imigrante europeu na lavoura cafeeira, foi um marco na criação de consumidores e desenvolvimento das forças produtivas. A figura a seguir demonstra um cenário de colheita do café, já realizada por Imigrantes ou colonos. Parte deles foi absorvida na produção agrícola, especialmente nos cafezais, embora a justificativa inicial fosse para abastecer as fábricas nas regiões mais urbanizadas, em pleno processo de extensão internamente. FIGURA 6 – COLHEITA DO CAFÉ – SÃO PAULO FONTE: <http://www.familiavaccaro.com.br/historia-da-familia-vaccaro.php>. Acesso em: 23 jul. 2018. Detalhado em um contrato, fazendeiros e colonos definiam valores monetários e de produção. Isto é, uma quantidade da plantação ou lote de terra aos cuidados do colono, e valores correspondentes por produtividade colhida posteriormente. De certa forma, havia uma pequena margem para uma atividade extra de subsistência, na própria terra destinada ao café, cujas maiores necessidades eram adquiridas via o consumo no mercado urbano local. Por mais limitado e precário que fosse esse trabalho remunerado em parte, porém livre, ele ainda assim permitiu a ocorrência de efeitos multiplicadoresde movimentação de mão de obra rural para urbana, certa dinâmica de comércio e produção de manufaturados, mobilização de recursos para esfera das cidades e atividades relacionadas, mobilizadas por necessidades das famílias de bens de consumo, só alcançadas graças a disponibilidade do dinheiro ou renda. Ademais a grande atratividade que tinha o colono em desenvolver vínculos com a terra, e dela, juntamente com seu trabalho, tirar o máximo que pudesse para sua subsistência, deixando o comércio como alternativa última de suprir suas necessidades. Questiona-se, inclusive, se o trabalho assalariado, de fato, chegou a se implantar na economia brasileira agrícola no Brasil neste período, dado as suas singularidades. “Além do colonato, na área cafeeira, predominaram formas de parceria (como a meação, onde se adquire direitos por uso compartilhado) ou de clara dependência entre proprietário e trabalhador (como chamado “morador”) (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 56). TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 89 IMPORTANT E “Colonato é o nome que se dá a um sistema de exploração de grandes propriedades entre diversos colonos ou meeiros, que ficam incumbidos de cultivar uma determinada área e entregar parte da produção ao proprietário, conservando outra parte para seu próprio consumo. Ao longo da história, temos vários exemplos do emprego do regime de colonato, quase sempre ligados a uma crise ou escassez de mão de obra escrava”. FONTE: <https://www.infoescola.com/agricultura/colonato/>. Acesso em: 23 jul. 2018. Sobre os fluxos migratórios, chama-se a atenção ao fato de que, [...] se modificaram nas primeiras décadas do século XX. Redução da imigração subvencionada e aumento da imigração espontânea que, com frequência, busca os centros urbanos e não o trabalho agrícola; redução da parcela de imigrantes representada por italianos com crescimento da imigração portuguesa, espanhola e japonesa, intenso fluxo de saída de imigrantes em certos períodos (por exemplo, de 1902 a 1910, apesar da entrada de 330 mil imigrantes, o fluxo líquido, ou seja, descontadas as saídas, foi de apenas 17 mil); aumento das migrações internas para São Paulo a partir de 1920, fazendo com que nos anos 30 essa fonte de mão de obra já fosse maior do que a imigração [...] (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 56). Diante disso, fica evidente a complexidade desse trabalhador, que atraído por inúmeras razões, mesclou-se ao contingente local brasileiro, na busca por oportunidades de subsistência. Fica claro que existiu uma certa dependência maior por parte dos contratantes, ou fazendeiros, nesse momento, na medida em que estes eram proprietários e, consequentemente, controlavam a maior parte do processo de produção. NOTA Certamente muitos de nós somos descendentes, decorrente de algum laço familiar, de um ou mais imigrantes! Com nosso histórico de colônia, é inevitável nossa identificação como imigrantes. Nossa cultura, hábitos, preferências, habilidades, dificuldades, desafios, e objetivos, inclusive pessoais, podem estar associados a essa condição! Pense nisso! Entretanto, as condições internas da economia voltadas para a exportação se alteraram nas primeiras décadas do século XX, com a queda dos produtos primários na pauta das exportações, conforme demonstra o quadro a seguir. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 90 QUADRO 4 – BRASIL: PARTICIPAÇÃO DOS PRINCIPAIS PRODUTOS NO VALOR DAS EXPORTAÇÕES 1889-1929 (%) PERÍODO CAFÉ AÇÚCAR CACAU MATE FUMO ALGODÃO BORRACHA COUROS E PELES OUTROS 1889-1897 67,6 6,5 1,1 1,2 1,7 2,9 11,8 2,4 4,8 1898-1910 52,7 1,9 2,7 2,7 2,8 2,1 25,7 4,2 5,2 1911-1913 61,7 0,3 2,3 2,3 1,9 2,1 20,0 4,2 4,4 1914-1918 47,4 3,9 4,2 4,2 2,8 1,4 12,0 7,5 17,4 1919-1923 58,8 4,7 3,3 3,3 2,6 3,4 3,0 5,3 16,5 1224-1929 72,5 0,4 3,3 3,3 2,0 1,9 2,8 4,5 9,7 FONTE: Adaptado de Gremaud, Saes e Júnior (1997, p. 57) Embora o café ainda se manteve como produto de maior exportação, foi notória a perda de dinamismo como já vimos anteriormente, inclusive dos demais produtos, seguido da borracha (Amazônia e Pará), cuja competitividade com a produção do Oriente após a Guerra, aplacariam sua produtividade. Esses efeitos, além de representarem reduções nos níveis produtivos, afetaram fortemente o fluxo de migração interna e condições de vida dessas comunidades. Em relação ao açúcar, por exemplo, ademais as crises que afetariam em vários momentos do final do século XIX, seja por questões de redução de demanda pela guerra, competitividade com outros fornecedores, problemas com financiamento externo e afins, essa produção, manteve-se em destaque, graças ao contexto de expansão do mercado interno, incentivado ainda mais pela imigração e urbanização crescente. O resgate de certo dinamismo decorrente dos mercados regionais também foi constatado no cacau e no fumo (na Bahia), no mate (Paraná e Mato Grosso), no algodão (interior do Nordeste), e no couro e peles (dissipados no país, com destaque ao Rio Grande do Sul). A mesma tendência a produção para o mercado interno também se verificou na agricultura paulista. Wilson Cano identificou, já na segunda década do século XX, uma clara diversificação da produção agrícola paulista que, ao lado da exportação de café, passava a dirigir para o mercado interno do próprio Estado de São Paulo ou de outras regiões uma série de produtos alimentares. Esta caracterização da produção primária na Primeira República – que buscou ressaltar a diversidade da produção exportável e a expansão da produção para o mercado interno – não deve, no entanto, fazer-nos esquecer o papel preponderante do café na dinâmica da economia brasileira desse período (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 61). Gradualmente, a mão de obra, que por um lado causou, também por outro lado, sofreu com os efeitos decorrentes dessas mudanças do dinamismo produtivo interno. TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 91 As relações de trabalho, consequentemente, foram se adaptando e tornando-se mais elaboradas, com maiores atribuições diante de novas exigências de um mercado e sistema industrial crescente, que exigiu uma reorganização do Estado, a qual veremos mais adiante, deliberada sobre novos atores e cenários econômicos atuantes. 3 O DESENVOLVIMENTISMO E NACIONALISMO ECONÔMICO Na sequência, este subtópico vai apresentar a efervescência política, social e econômica, na qual o país é influenciado quanto à condução de seu projeto de desenvolvimento. O conflito e a diversificação de interesses e atividades serão os cenários mobilizadores da política populista, seus alcances e desfechos. Vamos adiante! 3.1 OS PRECEDENTES DE UM PROJETO MAIOR Entender o processo de industrialização brasileiro incorre em buscar conhecer os acontecimentos que contribuíram para o declínio de uma forma de governar que caracterizava a velha República, através de políticas oligárquicas que favoreciam os interesses da política do café com leite, como já verificamos. São inúmeros acontecimentos políticos nesse período que revelam insatisfações, que foram além da abolição da escravatura. Revoltas regionais, militares ou federalistas, saudosistas do modo imperial, defensores de ideários sociais, oposições a política cafeeira, insatisfações com as políticas centralistas e autoritárias de muitos presidentes, além das demandas que cresciam, na medida em que se diversificava a lógica econômica e avançava a demanda das populações urbanas nas grandes cidades. NOTA As revoltas nesse período foram inúmeras. Algumas delas como a Guerra de Canudos (1896-1897) e a Guerra do Contestado (1912-1916), eram movimentos de cunhos sociais, populares e regionalistas, que buscavam promover uma organização política e social, ignorando a autoridade e atribuições da República, assim como o tenentismo. Esse, entretanto, era um movimento liderado pelos oficiais das forças armadas e possuía uma representatividademais associada às classes médias que desejavam o poder. Já a Revolução de 30 foi um movimento organizado pelos Estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, contra o Presidente, na época de Washington Luís, também com aspirações de poder, via um golpe e o fim da Velha República. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 92 DICAS Que tal saber mais sobre cada um desses movimentos históricos com detalhes? O livro, “Histórias não (ou mal) contadas. Revoltas, golpes e revoluções no Brasil”, de Rodrigo Trespach, Editora Harper Collins, 2017, é uma excelente dica! FONTE: <https://bit.ly/2SU0vw1>. Acesso em: 25 out. 2018. Entretanto, é nesse contexto, no Governo Rodrigo Alves (1902-1906), que se inicia o projeto de modernização das cidades, o que coincide com o declínio da política café com leite, graças ao excesso de oferta do produto café no mercado, ocasionando as pressões pela compra e armazenamento seguinte. De qualquer forma, a política de imigração com alternativa no governo de Afonso Pena (1906-1909) e Nilo Peçanha (1909-1910) encontraria melhor desempenho no breve desenvolvimento no governo de Wenceslau Brás (1914- 1918), com o início do processo de substituições de importações, o qual veremos mais adiante (COSTA, 2007). IMPORTANT E As Indústrias MATARAZZO, assim como o Grupo Votorantin, são exemplos de grandes investimentos de empresários – imigrantes que contribuíram para consolidação da indústria em nosso País. O que eles têm em comum?? Espírito empreendedor! O que contribuiu para o entendimento de que investir em todo o processo de produção e a diversificação dos produtos seria a base para a acumulação de capital e ampliação de sua competitividade a longo prazo! FIGURA 7 – CAPA DO LIVRO TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 93 NOTA “Francisco Matarazzo chegou ao Brasil em 1881. Tinha instrução superior, alguma experiência comercial e o desejo de enriquecer. Estabeleceu-se inicialmente em Sorocaba-SP, onde se empenhou no comércio de porcos e de toucinho. Cerca de nove anos depois já havia conseguido acumular um capital de cerca de 4,5 mil libras esterlinas e mudou-se à capital do estado, onde fundou uma firma comercial especializada na importação de farinha de trigo e de toucinho. Nos dez anos seguintes, isto é, até 1900, aumentou ainda mais as suas propriedades e estabeleceu relações de amizade que o ajudaram, em particular, a obter crédito do British Bank of South America [...]. Em 1904, Matarazzo fundou uma fábrica têxtil, com o objetivo de produzir suas próprias necessidades de tecidos para confeccionar os seus sacos. Mais tarde, construiu uma fábrica de tecidos finos. A fim de adquirir matérias-primas sem intermediários, Matarazzo criou nas regiões algodoeiras uma rede de empresas de beneficiamento de algodão [...]. A seguir, fundou fábricas de fósforos, de massas, de círios, de conservas, serrarias, uma empresa de caixas de madeira, uma tipografia, assim como fábricas de seda artificial, de ácido sulfúrico, de cerâmica, de porcelana etc. Adquiriu vários navios e construiu uma doca própria, assim como uma fábrica de fundição e uma oficina mecânica para consertar os equipamentos de suas numerosas empresas [...]” (LACERDA et al. 1997, p., 87). Em 1929, a crise internacional, que fez o preço e as exportações do café baixarem, demarcou o ápice da desestabilização econômica e política, no Governo de Washington Luís (1926-1930), o qual seria substituído por Getúlio Vargas, sob um processo de golpe de Estado. Nesse momento, encerra-se de vez o ciclo da República Velha e o país é lançado em um novo ciclo de transformações e desenvolvimento. Toda lógica dos acontecimentos econômicos a partir desse momento ocorreu sob o Pensamento Desenvolvimentista, uma forma de compreender as causas de uma mudança de rumo do desenvolvimento que terminou por justificar determinadas ações e resultados, com influências até os dias de hoje. UNI Sobre o Desenvolvimentismo, “[...] foi uma resposta aos desafios e oportunidades criados pela Grande Depressão dos anos 1930. Os projetos nacionais de desenvolvimento e industrialização na periferia nasceram no mesmo berço que produziu o keynesianismo nos países centrais. A onda desenvolvimentista e a experiência keynesiana tiveram o seu apogeu nas três décadas que sucederam o fim da Segunda Guerra. O clima político e social estava saturado da ideia de que era possível adotar estratégias nacionais e intencionais de crescimento, industrialização e avanço social. Os resultados, ainda que desiguais, não foram ruins. Comparada a qualquer outro período do capitalismo, anterior ou posterior, a era desenvolvimentista e keynesiana apresentou desempenho muito superior em termos de taxas de crescimento do PIB, de criação de empregos, de aumentos dos salários reais e, no caso de países como o Brasil, ficou devendo a universalização dos direitos sociais e econômicos”. FONTE: O Desenvolvimentismo. <http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_S=72>. Acesso em: 23 jul. 2018. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 94 Logo, teríamos um conjunto de elementos que ajudariam a compor os requisitos para o desenvolvimento do Brasil via modernização e industrialização. A defesa dos interesses do setor exportador de café implicou a revalorização frequente desse produto, mesmo que sob desvalorizações de nossa moeda. Enquanto isso, a valorização das importações junto com o processo de urbanização crescente estimulou o mercado interno e industrial de bens de consumo populares como têxteis e alimentos. Aliado a esses eventos, a Primeira Guerra Mundial mais a crise de 1929 completariam o quadro que pressionou a renovação do parque industrial brasileiro (GENNARI; OLIVEIRA, 2009). Assim, A crise de 1929, as respostas adotadas pelas nações à crise no decorrer da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial provocaram transformações profundas na evolução da indústria no Brasil. No decorrer de 15 anos, as relações de troca internacionais sofreram um abalo gigantesco [...]. A grande instabilidade do mercado mundial fortaleceu a convicção, entre todas as nações, de que a continuidade de desenvolvimento passava, necessariamente, por um esforço de mobilização nacional. [...] No Brasil, [...] catalisou os conflitos intraoligárquicos e produziu uma convergência entre várias classes e grupos sociais que se opunham tanto às práticas políticas das frações oligárquicas lideradas por São Paulo e Minas Gerais quanto ao modelo agroexportador que submetia o conjunto da nação às necessidades de reprodução do capital vinculado ao negócio cafeeiro. [...] encararam esse momento político como uma oportunidade de tirar o setor industrial do papel de coadjuvante no cenário econômico nacional. Coube à Getúlio Vargas a habilidade política para articular esse conjunto de interesses [...] (GENNARI; OLIVEIRA, 2009, p. 334). Coube então ao Estado Novo, em 1927, a nova atribuição de associar ao nacionalismo vigente uma nova rota de desenvolvimento, focada no pensamento desenvolvimentista. Segundo Simonsen (apud GENNARI; OLIVEIRA, 2009), isto é, Roberto Cochrane Simonsen (1889-1948), grande industrial brasileiro e um dos primeiros defensores do desenvolvimentismo brasileiro, a consciência nacional deveria ser mobilizada com o objetivo de promover a industrialização plena no Brasil. Isso só seria possível, a partir da formação de uma forte indústria de bens de consumo, de capital e de base. Dessa forma, o intervencionismo, o protecionismo e o planejamento seriam eficazes, coincidentemente e sem representar ameaça alguma à democracia. Nessa mesma linha, dever-se-ia incrementar a industrialização inclusive no setor agrícola, comprovando que até nesse meio, a modernização traria ainda mais benefícios, porém, refutando a posição mundial brasileira de acomodação apenas como fornecedor de matérias-primas. Uma abordagem interessanteainda do autor, refere-se à defesa de que, [...] a industrialização contribuía para atenuar os efeitos das crises externas, pois a expansão das atividades assalariadas urbanas criava um mercado alternativo para a produção agrícola nacional [...] TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 95 identificou uma tendência de queda na produção per capita exportada comparativamente às necessidades de consumo via importação, que cresciam ininterruptamente, abrindo a possibilidade de crises cambiais [...] também defendeu o controle do comércio exterior, pela restrição de aquisições de bens de consumo em troca de facilidades para a importação de bens de capital necessários ao desenvolvimento nacional (GENNARI; OLIVEIRA, 2009, p. 337). Outro grande defensor, Roberto de Oliveira Campos (apud GENNARI; OLIVEIRA, 2009) argumentou a impossibilidade da coincidência entre desenvolvimento econômico e redistribuição de renda. Assim, a prioridade seria o desenvolvimento econômico, que com o tempo, levaria a melhoria em termos de bem-estar social. Se a escolha fosse diferente, ou seja, a prioridade fosse a redistribuição de renda, teríamos na verdade, uma redistribuição da pobreza. Para Campos (apud GENNARI; OLIVEIRA, 2009, p. 349) em relação ao nível de industrialização no Brasil em meados de 1950, o autor admitiu ser um momento decisivo de mobilização, [...] os requisitos econômicos da arrancada seriam, primeiramente, a criação de infraestrutura, principalmente no setor de transportes, em seguida, um surto na produção agrícola capaz de financiar a industrialização, em terceiro lugar, um nível de poupança de no mínimo 10% a 12% ao ano, em quarto lugar, a existência da capacidade de importar, seja mediante exportações, seja mediante o influxo de capital, para aquisição de equipamentos e matérias-primas, em quinto lugar, a emergência de setores de vanguarda “que deflagrem o processo de modernização”. Pressupõem-se, ainda, a existência de um núcleo empresarial capaz de absorver tecnologia. DICAS Para saber mais sobre as biografias desses autores defensores do desenvolvimentismo, acessar: <http://biografias.netsaber.com.br/biografia-3011/biografia-de- roberto-de-oliveira-campos> e <http://biografias.netsaber.com.br/biografia-3009/biografia- de-roberto-cochrane-simonsen>. Boa leitura! Diante dessas posições, ficaria claro que um projeto desenvolvimentista estaria de acordo com os objetivos brasileiros de crescimento econômico e desenvolvimento, através da superação de dificuldades estruturais, subjacentes aos modelos até agora enfatizados. Esse projeto será viabilizado, como veremos a seguir. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 96 3.2 O POPULISMO COMO VIA ECONÔMICA Sobre o ambiente político, inflamado pelo pensamento desenvolvimentista, foi Getúlio Vargas (1930-1954) o responsável por deliberadamente instituir na prática o discurso e a era do populismo no Brasil. A figura a seguir é da imagem de um presidente que marcaria para sempre a governabilidade das políticas públicas dos Estados. FIGURA 8 – PRESIDENTE GETÚLIO DORNELLES VARGAS (1882-1954) FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Get%C3%BAlio_Vargas#/media/File:Getulio_Vargas_ (1930).jpg>. Acesso em: 23 jun. 2018. Sua base política era composta por militares, aliado a oligarquias estaduais, que por usa vez, possuíam como apoiadores, intelectuais e técnicos preocupados em modernizar a economia e todos os objetivos de crescimento do país, ou seja, colocar em ação os planos nacionalistas. Admite-se que além do centralismo e autoritarismo clássico dos governos da era Republicana, Vargas possuía o apoio das populações urbanas, nas cidades que cresciam e que se qualificavam tanto pelas indústrias nascentes, como nos atores políticos e demandas sociais cada vez mais diversas. DICAS Mas o que caracteriza um governante populista? “Trata-se daquele líder que dá a entender, por seus discursos e propagandas, que sua gestão é para o bem de todos, tanto para os que lhe são próximos como para as diferentes partições que formam o povo que governa. Além disso, esse tipo de governante centra seus discursos em uma lógica em que todas as mazelas de seu governo são frutos daqueles que são contra ele e, por consequência, são contra o povo. Todavia, geralmente, o que esse líder realmente busca é a manipulação do ambiente sociopolítico para se fortalecer no poder” (BRAGA; SILVA, 2016, p. 179). TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 97 O presidente, chegando ao poder, atuou de maneira autoritária, encerrando o congresso, assembleias e câmaras, removendo governadores e, arbitrariamente, escolhendo e nominando outros indivíduos de confiança para essas funções. Admite-se que esse presidente teria sido o primeiro a trabalhar com a mídia da comunicação, de forma a contribuir e divulgar suas ações e objetivos políticos (COSTA, 2007). Foi um governo que concentrou nos trabalhadores urbanos o suporte de seu regime político, na medida em que, em caráter de populista, atendia a reinvindicações dos sindicatos, ao mesmo tempo em que os subordinavam ao Ministério do Trabalho, controlando seu alcance e ações. NOTA “A CLT surgiu pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1 de maio de 1943, sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas, unificou toda legislação trabalhista existente no Brasil (...). A Consolidação das Leis do Trabalho, cuja sigla é CLT, regulamenta as relações trabalhistas, tanto do trabalho urbano quanto do rural”. FONTE: A Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT Guia Trabalhista”. <www.guiatrabalhista. com.br/tematicas/clt.htm>. Acesso em: 1 ago. 2018. As bases oligárquicas também ficariam subordinadas a esse Governo. Políticas agrícolas e cafeicultores, agora teriam no governo seu principal regente. A crise gerada pela brusca queda das exportações em 1929 propiciou ao governo controlar as importações e centralizar o câmbio no Banco do Brasil, aumentando o controle do governo sobre empresários de diversos setores de atividade. Em 1933, pela primeira vez, o produto industrial superou o produto agrícola, em decorrência da brutal queda nos preços agrícolas em 1929 e do controle das importações, que funcionava como um incentivo a expansão industrial. A partir desse momento a indústria passou a ser o setor predominante na economia (COSTA, 2007, p. 15). A crise no café, devido à grande depressão, desaqueceu a economia com base agrícola de exportação e atraiu capitais à indústria, em sintonia com o crescimento do mercado interno, inclusive para os próprios produtos agrícolas, o que também contribuiu para o câmbio, valorizando nossa moeda. Entretanto, isso ocorreu, até as importações aumentarem consideravelmente, como em 1937, quando a escassez de divisas levou o governo a adotar o monopólio cambial como forma de controle. As oportunidades de aumento de produção industrial interna nesse período foram pemitidas, primeiramente, dado à ociosidade interna de capacidade, e em UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 98 seguida, pela oferta acessível desses bens de capitais no mercado externo. Uma terceira razão seria a necessidade de produtos industriais no comércio externo, dado a desorganização do setor nesse ambiente, ocasionado pelo contexto das guerras. Em 1941 então, alcancaríamos situacões mais frequentes de balanças comerciais favoráveis. Dessa forma, diante da gradual reducão do papel da produção cafeeira no cenário econômico, sua participação política enquanto interesses passou a submeter-se à descentralização republicana e à organização de um projeto de desenvolvimento econômico maior. Historiadores econômicos defendem que, [...] nos processos de industrialização no século XX, período do capitalismo monopolista, com predomínio das grandes coorporações, as escalas técnicas e financeiras requeridas para o avanço da industrialização estavam muito acima das forçascapitalistas locais. Por outro lado, somente após a segunda Guerra, o movimento de expansão mundial das multinacionais se intensificaria. Assim, na década de 30, os capitais privados nacionais eram frágeis [...]. Portanto, a única possibilidade de implantar grandes projetos de indústria de bens de produção residia na ação estatal, o que era exatamente a proposta de Vargas (LACERDA et al., 2000, p. 75). A tabela a seguir apresenta as taxas de crescimento da economia na década de 1920 e 1930, comprovando a inversão da lógica produtiva, isto é, crescimento da indústria e redução da atividade agrícola. TABELA 4 – BRASIL – TAXAS MÉDIAS ANUAIS DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA 1920-1939 1920-29 (%) 1929-33 (%) 1933-39 (%) Produção agrícola 4,0 2,5 1,6 Produção agrícola de exportação 7,5 3,7 1,1 Produção Industrial 2,8 4,4 11,2 Produto Físico 3,9 2,9 4,9 FONTE: <http://periodicos.ses.sp.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809- 76342006000100003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 23 jun. 2018. Entretanto, o autoritarismo não agradava aos liberais, e as tentativas de retirar Getúlio Vargas do poder, apenas aguçava ainda mais o seu interesse em permanecer, contribuindo inclusive, para a promulgação da Constituição de 1937 e da ditadura do Estado Novo. Foram inúmeros os momentos de impasse e grande agitação política, até a destituição de Vargas em 1934, conhecido como o Golpe Comunista. TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 99 NOTA Em que consistiu o ESTADO NOVO? “Com a promulgação da Constituição de 1934, chegou ao fim o chamado governo provisório, instaurando uma Assembleia Nacional Constituinte, introduziu no país uma nova ordem jurídico-política que consagrava a democracia, com a garantia do voto com a vitória da Revolução de 1930. A nova Constituição elaborada por voto direto e secreto, da pluralidade sindical, da alternância no poder, dos direitos civis e da liberdade de expressão dos cidadãos. Particularmente para as mulheres, a Constituição de 1934 representou uma enorme conquista: pela primeira vez, tornavam-se eleitoras e elegíveis. No entanto, a Constituição durou pouco. Três anos depois, antes mesmo que a primeira eleição que elegeria o novo presidente se realizasse, Getúlio Vargas deu um golpe para manter-se no poder e instaurou uma ditadura, conhecida como Estado Novo”. FONTE: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/EstadoNovo>. Acesso em: 26 jul. 2018. FIGURA 9 – CONSTITUIÇÃO DE 1934 FONTE: <https://www.sohistoria.com.br/ef2/eravargas/p1.php>. Acesso em: 25 out. 2018. Vargas manteve sua política de aproximação com a classe trabalhadora e buscou ampliar relações com as indústrias e com as tradicionais classes agrárias, via instrumentos ou órgãos políticos que firmavam políticas nacionais e regionais que alcançavam a todos. “[...] essa teia de relações [...] com o apoio das forças armadas, garantiu ampla dominação [...] a ausência de mecanismos formais de representação [...] o caráter ditatorial [...] – era foco de permanente insatisfação de vários grupos sociais [...]” (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1996, p. 102). Insatisfação essa, sempre relacionada com a insuficiente participação política sob esse regime. É sob essa insatisfação que seu apoio popular sofreu instabilidade, quando em 1945 é deflagrada sua saída antes mesmo de eleições previstas, encerrando seu UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 100 primeiro ciclo de poder. De 1930 a 1934, como chefe de governo provisório dada a Revolução de 30, como presidente constitucionalmente eleito de 1934 a 1937 e até 1945 como ditador do Estado Novo, assumindo a partir desse momento, o General Eurico Gaspar Dutra, com o apoio do próprio Presidente Vargas. Ainda assim, o esforço ideológico de perseguir o desenvolvimento via indústria, mais a sobrevalorização do poder do governo, seriam prerrogativas mantidas. Ademais, apresenta-se a Constituição de 1946, com prerrogativas ainda mais includentes, abordando temas como igualdade, liberdade e direitos individuais. DICAS Para saber mais sobre esta e todas as demais constituições brasileiras promulgadas, consulte o link <http://www.politize.com.br/>. Após a guerra, a política adotada estabelecia os princípios liberais, na crença de que uma política liberal de câmbio se ajustaria às necessidades dos mercados, beneficiando o país, atraindo capitais e equilibrando nossa balança. As intervenções e restrições aos fluxos e mercado seriam gradualmente retirados, com breves retomadas enquanto política fiscal e monetária de ajustes em momentos de escassez de divisas (dólares), coincidente com aumento de importações de máquinas e matérias-primas (LACERDA et al., 2000). A conjugação de uma taxa de câmbio sobrevalorizada com controle cambial, a partir de 1947, produziu um triplo efeito em benefício da industraialização substitutiva de importações: um subsídio às importações de bens de capital e bens intermediários, protecionismo contra a importação de bens competitivos; e aumento da rentabilidade da produção do mercado interno (LACERDA et al., 2000, p. 77). O processo de substituição das importações seria apresentado como a continuação de um objetivo a perseguir do crescimento da indústria brasileira. Durante o governo Dutra houve algum esforço em coordenar gastos públicos em políticas sociais, mas nada muito significativo em termos de ações. Entretanto, criou-se a Comissão do Vale de São Francisco e a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, concluída em 1953. Getúlio Vargas voltaria ao governo em 1950, logo após o Governo de Dutra, sob um ambiente conflitivo quanto a uma desconfiança de que sua forma de governar ainda conseguiria manter controle sob os trabalhadores e amenizar os conflitos pelo poder, agora sob mais partidos políticos. Seu retorno no cenário econômico, sob eleições diretas, foi marcado pela defesa da indústria pesada, base do processo de substituição de importações, que veremos no próximo tópico, só dificultado pelos episódios de estrangulamentos cambiais. TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 101 Em 1950, o cenário externo era marcado pela Guerra Fria, os demais países da América Latina, inclusive o Brasil, estavam livres ou abandonados para desenvolver seus projetos desenvolvimentistas. No caso brasileiro, a defesa do nacionalismo político, o projeto da Petrobras, que garantiu o monopólio do petróleo a esta empresa estatal, contrariando as grandes companhias de petróleo internacionais. Entre outros projetos iniciados neste período, segue: a Companhia Siderúrgica Nacional, a Eletrobrás e a criação da BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico). Quanto à Petrobras, Esse projeto era, do ponto de vista do nacionalismo, mais radical [...], indicando o apelo popular que havia alcançado a campanha “o petróleo é nosso”. Paralelamente, Vargas foi levado a acirrar sua postura nacionalista, pois a negociação de financiamentos junto ao governo norte-americano viu-se crescentemente prejudicada, limitando investimentos em infraestrutura planejados para a época (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1996, p. 103). A proposta foi de expandir o nacionalismo ao financiamento do desenvolvimento, isto é, foram as próprias altas taxas de lucros das atividades industriais, favorecidas pelas políticas de valorização do câmbio (Instrução 70 da SUMOC – Superintendência da Moeda e do Crédito, em 1953) e a transferência de recursos para o setor, que financiaram o desenvolvimento. Entretanto, essa tentativa enfrentou crescentes conflitos entre as classes sustentadoras de seu governo, trabalhadores industriais e a burguesia nacional. Os trabalhadores, sua mais firme base de sustentação, aumentaram suas reivindicações, buscando participar dos ganhos de produtividade decorrentes do avanço da industrialização. Os empresários, mesmo os beneficiados direta e indiretamente por Vargas, mostrariamo seu descontentamento com a instrução 70, em função do aumento dos custos das importações que a valorização cambial provocava. A nova crise que enfrentaria a agricultura cafeeira também seria creditada ao governo, e seria capitalizada politicamente pela oposição (LACERDA et al., 2000, p. 83). NOTA A Instrução 70 instituía um sistema de taxas múltiplas de câmbio, isto é, livre, sem auxílios governamentais, e esperava-se com isso, estimular as exportações brasileiras tornando-as mais acessíveis ao mercado externo, reduzir as importações, e controlar a balança comercial protegendo a indústria interna. Para detalhes na íntegra, sobre essa ou outras instruções ao longo da formação econômica no Brasil, o Banco Central do Brasil apresenta toda a instrução. Disponível em: <https://www. bcb.gov.br/?id=SUMOCINST&ano=1953>. UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO 102 Esse contexto acirrou oposições dentro do próprio governo, na medida em que existiam aliados a favor e contra o financiamento externo, limitando a ação do nacionalismo nessa área. Um grande levante da imprensa e de acontecimentos, inclusive fatídicos de atentados envolvendo o governo, culminaram na retirada de muitos aliados nesse período, inclusive das forças armadas. O quadro a seguir apresenta as variações das taxas de câmbio, durante a vigência da Instrução 70 (1953-1954), comprovando certa eficácia, que diante da ocorrência ou aumento das taxas, elevou o custo das importações, “forçando” sua substituição por produtos produzidos internamente. QUADRO 5 – BRASIL: TAXAS MÉDIAS DE CÂMBIO SOB O REGIME DA INSTRUÇÃO 70 (CR$7US$) VALORES TAXAS 1953 1954 Taxa Oficial 18,82 18,82 Taxa de Mercado Livre 43,32 62,18 Leilões de Importação Categoria I 32,77 39,55 Categoria II 32,18 44,63 Categoria III 44,21 57,72 Categoria IV 52,13 56,70 Categoria V 78,90 108,74 Taxa de Exportação Café –––– 23,36 Demais Produtos –––– 28,36 OBS: As categorias referem-se a modalidades de produtos. Quanto maior a taxa, maior o objetivo de restringir a importação desse bem. FONTE: Adaptado de Lacerda et al. (2000, p. 84) IMPORTANT E Ainda sobre a Instrução 70 da SUMOC: “[...] Foi extinto o controle seletivo de importações e instituído o regime de leilões de divisas para importação, criando-se cinco categorias de bens importados definidas de acordo com critérios de essencialidade. A cada uma destas categorias correspondia uma taxa cambial estabelecida em leilão em função da demanda de bens de cada categoria e da decisão do governo relativa à oferta de cambiais para o leilão de cada categoria. Quanto menos “essencial” determinada importação, maior a restrição de oferta de divisas por parte do governo e mais desvalorizada a taxa cambial [...]”. FONTE: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/instrucao-70>. Acesso em: 10 ago. 2018. TÓPICO 2 | O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO INÍCIO DO SÉCULO XX 103 Entretanto, apesar da condução, em maioria bem-sucedida economicamente das medidas e resultados de crescimento do país, uma crise política conturbada, culminaria no suicídio de Vargas em 1954, concluindo a era Vargas e inserindo seus governos em uma prerrogativa política maior, diante do lamentável desfecho. DICAS Um vídeo com base documental política intitulado O suicídio de Getúlio Vargas, disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yIYKiT_Tl-s>, acesso em: 25 jul. 2018, apresenta em cinco episódios o enredo desse momento tão marcante para a política do país, em 24 de agosto de 1954. FIGURA 10 – MANCHETE DA MORTE DE GETÚLIO VARGAS, NA CAPA DO JORNAL “ÚLTIMA HORA" FONTE: <http://memorialdademocracia.com.br/card/getulio-se-mata-com-um-tiro-no-peito>. Acesso em: 25 jul. 2018. As sucessões seguintes foram marcadas por tentativas de gerenciar conflitos no plano político, renúncias, pressões, apoios e segmentos populares crescentes, até 1964, quando João Goulart aceita sua deposição por militares. Entretanto, o processo de SI continua a ser implementado, como veremos no Tópico 3 a seguir. 104 RESUMO DO TÓPICO 2 Nesta unidade, você aprendeu que: • A ênfase na economia do café e também na industrialização iminente exigiu soluções para suprir a carência de mão de obra, diante do fim da escravidão, porém, esse evento teria sido dado sob um processo com objetivos mais econômicos do que sociais. • A imigração europeia conciliou seus objetivos com os objetivos da economia brasileira na época, diante da necessidade de trabalhadores a baixo custo e a formação de mercado interno, junto com outras mudanças sociais consequentes, como a urbanização. São Paulo e Rio de Janeiro destacaram-se inicialmente. • O contexto de crises internacionais persistiu, a vulnerabilidade e as ações ou medidas econômicas também. As crises internas políticas exerciam pressão crescente aos governos na busca pela defesa de seus interesses, marcado por revoluções e revoltas. Foi preciso repensar um novo rumo para a economia, sob novos paradigmas. • Surge no ambiente de governabilidade e ações práticas, o Nacional Desenvolvimentismo, na defesa de um projeto que assegurasse ao país, maior independência e segurança, financeira e política, para que possibilitasse o crescimento com desenvolvimento econômico a longo prazo. • O populismo de Getúlio Vargas destacou-se pelo seu autoritarismo carismático e nacionalista, que idealizou e colocou em curso o projeto Desenvolvimentista, via investimentos em infraestrutura, indústrias de base e medidas que deram início ao processo de Substituição de Importações, o qual se fortaleceria a partir desse momento. 105 AUTOATIVIDADE 1 Ademais as necessidades internas de mão de obra, diante dos desafios de suprir a economia e mercado internamente, atribui-se que a adoção da política imigratória representava também, a inserção de nossa economia em fluxos monetários e comerciais da economia global. Explique essa afirmação: 2 É possível identificar, no processo de imigração brasileiro, características que se assemelham, às vezes, a um modo de produção medieval, e outras características, as quais o identificam com o capitalismo, diante de seus elementos de reprodução e sistema. Diante dessa constatação, marque a alternativa que melhor qualifica essa modalidade de mão de obra no contexto brasileiro: ( ) Não encontraram suporte ou apoio por parte dos governantes ou empresários em sua chegada no início do século XX. Geralmente, não possuíam habilidades na atividade agrícola. ( ) Era uma mão de obra livre, com custos baratos. Acomodavam-se em Regimes de Colonatos, e muitos deles destacaram-se, trazendo a essência do empreendedorismo em suas culturas. ( ) O maior fluxo de imigrantes foram os espanhóis, destinando-se a região sul do país. Não possuíam habilidade alguma, além daquelas voltadas para as atividades agrícolas. ( ) A imigração não contribuiu para a ampliação do mercado interno, na medida em que seus salários eram apenas de subsistência, e substituíram os gastos ocasionados com a escravidão. 3 No início do século XX, impactados e entusiasmados com os resultados da grande Revolução Industrial, era necessário elevar o papel da indústria internamente, porém, sempre com o desafio de conciliação dos interesses de grupos e classes. Diante disso, “coube ao Estado Novo em 1927, a nova atribuição de associar ao nacionalismo vigente uma nova rota de desenvolvimento, focada no pensamento desenvolvimentista aplicada na industrialização” (Unidade 2 – Tópico 2 em: Desenvolvimentismo e nacionalismo econômico). Considerando essa afirmação, apresente exemplos dessa nova atribuição do Estado a partir desse período. 4 Umas das grandes estratégias de poder, utilizada na promoção do projeto Desenvolvimentista no Brasil e pelo Governo Getulista, foi o populismo. Explique o que significa governar, com base no populismo. 106 107 TÓPICO 3 O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Olá, novamente! Vamos dar mais um passo em direção ao nosso último tópico, em busca do entendimento sobre a formação econômica do Brasil! No Tópico 2, apresentamos as origens do capitalismo no século XIX, sob os contextos da imigração e sua relação econômica com a cafeicultura, em um cenário da República Velha em transição para um Estado Moderno. Para isto consideramos a inserção da proposta Desenvolvimentista, na adoção de políticas e medidas que se converteram em impulso à industrialização brasileira, através do Governo, identificado como populista, de Getúlio Vargas. Apesar dos inúmeros desafios, persistiu esse ideal. Porém, na medida em que avançamos em direção à efetivação desse projeto de desenvolvimento econômico, identificamos sua materialização, em práticas e resultados que confirmam êxito, mas por outro lado, revelam novos desafios diante dos persistentes problemas estruturais. Para melhor compreendermos esse momento, nessa etapa de nossos estudos, vamos avançar por mais algumas décadas adentro. No Tópico 3, apresentaremos o momento em que, experimentando um ambiente de crises e episódios de crescimento, mesmo assim, a economia brasileira avança no projeto de substituições de importações, que se desenvolve diante de um impasse político marcante para sua continuidade. Por agora, essa unidade será concluída neste último tópico. Todavia, em continuação, na próxima Unidade 3, promoveremos a complementação da SI, na qual novas necessidades e propostas surgirão, tornando essa jornada ainda mais emocionante! Além do mais, ajudando-nos a compreender, principalmente a nossa realidade nos dias de hoje, em relação às condições de crescimento e desenvolvimento econômico brasileiro. Então, vamos adiante! 2 A CRISE E O CRESCIMENTO ECONÔMICO É possível verificar, a partir de 1930 até aproximadamente três décadas depois, coincidente com o término do Governo Vargas, a clara centralização do Estado, porém, com crescente participação política popular; enquanto no cenário econômico, o crescimento industrial, associado à resposta favorável de contextos internacionais e internos, decorrente da urbanização. 108 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO No período que compreendeu o Governo Provisório (de 1930-1934) tivemos a predominância do cenário clássico externo, de queda do preço das exportações, redução das reservas internacionais e deterioração dos termos de intercâmbio. As medidas em relação à política cambial foram liberais, mais no discurso do que na prática, pois a aplicação de moratórias seguidas em relação às dívidas em moedas estrangeiras era comum e o monopólio cambial do Banco do Brasil voltaria com o agravamento da situação: desvalorização superior a 50% da moeda nacional (o mil réis). Tivemos assim, um momento de grandes dificuldades, associado a eventos internos e externos, que restringiu o capital das firmas brasileiras gerando falências, e a transferência de investimentos. Furtado (apud Abreu 1990) admite que a origem da crise nesse momento foi clássica, dado a sustentação da demanda agregada por gastos públicos como a aquisição do café para controlar o preço e as políticas de renegociação de dívidas dos cafeicultores, entre outros. Havia o desafio permanente de administrar um conflito entre os interesses cafeeiros e a indústria nascente, que também se beneficiava de políticas expansionistas, como as restrições às importações. As medidas tomadas, ora política fiscal, ora política monetária, ou ambas coincidentemente, confundiram os verdadeiros objetivos do Governo. Entretanto, destaca-se que toda e qualquer ação tinha sempre um propósito determinante, por exemplo, “[...] os déficits planejados tornaram-se usuais e os déficits realizados resultavam de gastos adicionais e não de más estimativas de receita” (ABREU, 1990, p. 80). Esses gastos trariam benefícios à economia, especialmente, os gastos em relação ao café, pois eram financiados por taxações das exportações, afetando mais os consumidores, do que os exportadores de fato. Assim, a recuperação do saldo do balanço comercial seria decorrente da desvalorização e controle cambial, o que coibia a importação de bens não essenciais. Estas medidas, aplicadas devido ao desequilíbrio do balanço de pagamentos, terminaram por beneficiar a produção interna, graças a uma reordenação da demanda vigente. A partir de 1937, o Estado Novo representou o amadurecimento das convicções anteriores, além da normatização da centralização do poder, via as agências governamentais reguladoras da economia, que passaram a desenvolver acesso e a provisão de bens e serviços, isto é, asseguraram um nível ideal da balança, o que permitiu administrar a política cambial e de preços, a favor dos objetivos de crescimento industrial do período. A Segunda Guerra Mundial e as pressões dos rearranjos do comércio internacional, redirecionariam uma nova política cambial, a fim de garantir pagamento mínimo de dividas e remessas de lucros, sem que prejudicasse as exportações e a disponibilidade de reservas para objetivos de capital. TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 109 Assim, A política monetária, que havia sido moderadamente apertada entre o fim de 1938 e o fim de 1939, tornou-se expansionista, [...] ratificando as pressões inflacionárias associadas aos desequilíbrios provocados pela guerra e pelas políticas do governo no terreno fiscal e creditício [...]. As pressões inflacionárias foram estimuladas pela expansão dos saldos na balança comercial, associados às restrições ao acesso a importações e a competição entre consumo doméstico e exportações [...] (ABREU, 1990, p. 95). Admite-se que, na prática, não havia uma definição clara em relação à entrada de capitais estrangeiros no Brasil. Havia, sim, a crise cambial que limitava a saída ou remessas de lucros, dividendos e dívidas públicas, mas um vazio de políticas em relação a firmas estrangeiras internamente. Os Estados Unidos, sob guerra, beneficiaram-se da diminuição europeia no mercado brasileiro, tanto na demanda do café, quanto nos investimentos na indústria de transformação. Entretanto, na medida que a paz se aproximava, ficou mais nítida a perda de influência política nesse contexto. No campo da normatização, como afirma Abreu (1990), a Constituição de 1934 e 1937 até limitaram o campo de atuação de capitais não nacionais quanto a áreas ou setores entendidos como estratégicos, nacionalizando o direito à exploração de recursos hidráulicos, petróleo, minérios e indústrias de transformação e utilidade pública, por exemplo. Em relação à nacionalização dos bancos e instituições financeiras, essas restrições seriam mais flexíveis. O período que compreende 1946-1951 foi a fase de ajuste no pós-guerra, no qual então buscou-se acomodar a visão multilateralista de uma reconstrução econômica, tanto sob o ponto de vista dos americanos, quanto dos europeus. Nesse momento, sobressaiu-se a defesa da formação de Estados Modernos fortes, porém, empreendedores, com visão estratégica e aglutinadores, com interferência mais de influência ou inspiração do que pelo poder imposto no livre mercado. O governo Dutra deveria se ajustar aos preceitos liberais de Bretton Woods e aos controles administrativos no comércio exterior, baseado em convenções que até trouxeram alguma expectativa à fase que a economia brasileira teria que ingressar: de grande conversibilidade da moeda e descentralização de controles como do padrão-ouro e o combate à inflação. Nesse momento, políticas fiscais e monetárias contracionistas buscaram sanar as dificuldades decorrentes, de modo que, as autoridades monetárias e cambiais, tornaram-se vítimas de uma espécie de “ilusão de dívidas que apoiava-se sobre três pontos: (1) o país parecia estar em situação bastante confortável com relação às suas reservas internacionais; (2) julgava-se credor dos Estados Unidos daAmérica pela colaboração oferecida durante a Segunda Guerra Mundial, e (3) acreditava que uma política liberal de câmbio seria capaz de atrair significativo fluxo de investimentos diretos estrangeiros, dando solução duradoura para o potencial desequilíbrio do balanço de pagamentos (VIANNA, 1990, p. 108). 110 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO NOTA Definitivamente, o pós-guerra revelou a fragilidade de políticas tomadas durante a sua vigência. O reajuste das economias exigiu maior competitividade frente ao mercado internacional, diante dos acontecimentos: 1) Aumento de concorrentes, decorrente do aumento de demanda e 2) inevitável aumento dos preços das importações, principalmente de itens de base para indústria interna. Era a conjunção de elementos que alimentariam um processo inflacionário interno crescente, de forma que a perda de competitividade das exportações brasileiras foi verificada. Em 1947, estava explícito o processo de controle das importações, com fins de combater o desequilíbrio externo, procurando realocar da melhor forma, o fundo de moedas estrangeiras, e construindo, para um projeto maior, a industrialização brasileira. Através da manutenção da taxa de câmbio sobrevalorizada associada a crescentes medidas discriminatórias, as importações de bens de consumos duráveis principalmente, não essenciais e com oferta internamente, serviram de estímulo à criação de uma indústria para esses bens e fortalecimento daquelas que já existiam. O quadro a seguir apresenta a evolução dos saldos das finanças públicas no Brasil, entre 1944 a 1954, comprovando os déficits cada vez mais persistentes e maiores, certamente como consequências também, do elevado custo dessas políticas, para a União e Estados. QUADRO 6 – BRASIL: FINANÇAS PÚBLICAS, 1944-54 (Cr$ Milhões) UNIÃO ESTADOS ANOS RECEITA DESPESA DEFICIT (–) SUPERAVIT (+) RECEITA DESPESA DEFICIT (–) SUPERAVIT (+) 1944 8.311 8.399 –88 5.766 5.491 275 1945 9.845 10.939 –994 6.380 7.042 –662 1946 11.570 14.203 –2.633 8.256 8.576 –320 1947 13.853 13.393 460 8.968 10.416 –1.448 1948 15.699 15.696 3 11.193 12.375 –1.182 1949 17.917 20.727 –2.810 13.923 14.850 –927 1950 19.373 23.670 –4.297 16.375 18.540 –2.165 1951 27.428 24.609 2.819 22.905 24.336 –1.431 1952 30.740 28.461 2.790 25.337 30.801 –5.464 1953 37.057 39.926 –2.869 30.477 35.894 –5.417 1954 46.539 49.250 –2.711 39.206 44.783 –5.577 FONTE: Adaptado de Abreu (1990, p. 120) TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 111 O processo então de retomada de crescimento sob processo inflacionário com preocupante desequilíbrio do setor público só foi amenizado com as expectativas de crescimento das exportações, especialmente se beneficiando de melhorias no preço do café e continuidade dos processos de industrialização, com os custos subsidiados. O período entre 1951-1954, com o retorno de Vargas ao poder, seria marcado por dois momentos, o primeiro pela busca pela estabilização econômica com a prática de políticas monetárias restritivas, e o segundo momento, com a efetivação de empreendimentos e projetos via financiamentos alcançados no âmbito da CMBEU (Comissão Mista Brasil-Estados Unidos). IMPORTANT E Você sabe o que era a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos? FIGURA 11 – ASSEMBLÉIA DO BANCO MUNDIAL, MÉXICO, 1952 FONTE: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/ ComissaoMista>. Acesso em: 25 jul. 2018. “Formada no âmbito do Ministério da Fazenda, e integrada por técnicos brasileiros e norte- americanos, a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico foi resultado das negociações entre Brasil e Estados Unidos iniciadas em 1950, durante o governo Dutra, visando ao financiamento de um programa de reaparelhamento dos setores de infraestrutura da economia brasileira. A Comissão foi criada oficialmente em 19 de julho de 1951 e encerrou seus trabalhos em 31 de julho de 1953. Era parte do plano norte-americano de assistência técnica para a América Latina conhecido como Ponto IV, tornado público em 1949, quando se formou no Brasil uma comissão [...] encarregada de estudar as prioridades para um programa de desenvolvimento do país. Essa comissão acabou estabelecendo como prioridades os setores de agricultura, energia e transporte, sem formular, contudo, um projeto específico de financiamento. [...]”. FONTE: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/ComissaoMista>. Acesso em: 25 jul. 2018. 112 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO O primeiro momento guiou-se pela busca de um saneamento econômico, porém, malsucedido, dado o afrouxamento por parte da grande saída de capitais via o balanço comercial (principalmente através de fretes de venda e compra de produtos) e as licenças para importações, decorrentes da melhoria da situação externa. Em 1952, uma crise cambial novamente se instalou, com origem justamente nesse afrouxamento do controle sobre o comércio exterior, devido à defasagem entre a concessão das licenças e a efetivação, mas também a acontecimentos ligados à crise mundial da indústria têxtil, que rebaixou as exportações de algodão e outras (com exceção do café), o influxo do capital estrangeiro e a elevação de importações de itens essenciais por situações extraordinárias (por exemplo, o trigo dos EUA dado a quebra da produção Argentina). Não restaria outro caminho, a não ser reduzir as despesas do setor público e pressionar a elevação da receita dos Estados e municípios. Entretanto, a política creditícia seguiu caminho contrário, no quesito empréstimos do Banco do Brasil ao Tesouro Nacional e ao sistema bancário comercial. Essa situação favoreceu os investimentos privados em detrimento ao público em atividade ligadas ao desenvolvimento e à industrialização. Sobre os gastos públicos, uma fonte de grande pressão foram as obras necessárias à infraestrutura econômica do país ao crescimento industrial, como “os gastos com a ampliação da capacidade de produção de energia elétrica. Pode-se estimar em cerca de 1 milhão de KW o déficit de capacidade de geração existente em princípios de 1953 (VIANNA, 1990, p. 143)”. Assim, a política monetária contracionista afetaria também esses investimentos, mas acreditava- se que a inflação estaria mais associada a questões das desvalorizações cambiais, dado a Instrução 70 da SUMOC, do que aos próprios gastos do governo. Em 1954, outra necessidade de expansão de crédito destacou-se nesse contexto já preocupante de gastos, mas agora, não por conta de uma política expansionista, mas sim, pela expansão do salário mínimo em 100%, decorrente de política populista, que afetou fortemente a indústria do café. Houve grande crítica por parte das classes produtivas e de militares, sinalizando um tempo novamente ruim para o setor (aumento de preço, queda do consumo novamente), disseminando dificuldades também para outras exportações. Assim, o desfecho do plano de estabilização foi colocado em risco, a austeridade foi novamente ameaçada com a pressão por crédito e recursos. A base política populista de Vargas, baseado nos trabalhadores, demonstrou-se frágil, diante de tantos desafios e demandas a suprir interesses. Mais complexa, e muito mais importante, era a posição da indústria. Como já vimos, a Instrução 70 desagradava ao setor, pois as desvalorizações cambiais implicavam elevação de seus custos. Comparada à situação anterior, quando a proteção a indústria doméstica era garantida pelo controle de importações e suas próprias compras no exterior realizadas pela taxa de câmbio oficial, a mudança foi claramente desfavorável. TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 113 Incomodava a indústria, ainda, a redução do crédito do Banco do Brasil às atividades econômicas. O momento decisivo para o ingresso do setor numa posição de franca hostilidade ao governo,entretanto, foi a fixação do salário mínimo (VIANNA, 1990, p. 149). Havia crescente descontentamento e frustração também das camadas médias urbanas, submetidas aos danos da inflação e suscetíveis à campanha oposicionista, baseada nesses temas e denúncias de corrupção no governo. O isolamento de Vargas cresceu até culminar em seu suicídio, nas circunstâncias já apresentadas anteriormente. A tabela a seguir, sobre determinados indicadores econômicos no segundo governo de Vargas, demonstra o avanço da inflação e mais uma vez destaca os déficits orçamentários. TABELA 5 – INDICADORES MACROECONÔMICOS DO SEGUNDO GOVERNO VARGAS Ano PIB (var.%) Inflação/ IGP-DI (var.%) Receita da União (Cr$ bi de 1950)* Despesa da União (Cr$ bi de 1950)* Déf. ou Sup. (Cr$ bi de 1950)* Balança Comercial (US$ milhões) Balanço de Pagamentos (US$ milhões) 1950 6,8 12,4 19,37 23,67 -4,30 425 52 1951 4,9 12,3 23,17 20,78 2,38 68 -291 1952 7,3 12,7 23,75 21,99 1,76 -286 -615 1953 4,7 20,6 25,16 27,11 -1,95 424 16 1954 7,8 25,8 24,86 26,31 -1,45 148 -203 FONTE: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71402005000200004>. Acesso em: 23 jun. 2018. Posteriormente, outros desafios políticos surgiram, com novos atores, na defesa dos objetivos em andamento, da democracia e da ordem constitucional, o que será abordado na próxima unidade. Por agora, em nosso último tópico, vamos aprofundar um pouco mais nesses desafios, sob a perspectiva do processo de Substituições de Importações. Vamos lá! 3 AS CONDIÇÕES E O DECORRER DO PROCESSO (SI) Em relação ao Processo de Substituição de Importações iniciado nesse período, admite-se que teria sido favorecido pela existência de uma capacidade ociosa considerável nas primeiras décadas em questão. As importações de máquinas e complementos de capital vieram a se tornar alternativas somente após o esgotamento dessa ociosidade. Esta era a única exceção para as importações. Num segundo momento, após a instalação de certa base, a produção interna de bens de capitais seria possível. Dessa forma, verificou-se um ciclo, no qual os recursos viabilizados pelas exportações se converteram em novos recursos, sob a modalidade de 114 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO investimentos, para a promoção da importação ou então a produção dos bens de capitais necessários, além do crescimento da economia sob esse processo. E assim esse ciclo se repetiu. Entende-se então que esse processo foi inevitável para o desenvolvimento de um dinamismo, que apenas com o setor exportador de produtos agrícolas não seria possível alcançar, diante das novas exigências de competitividade do mercado internacional. Embora a experiência exportadora brasileira tivesse promovido uma indústria incipiente de produtos relacionados, o crescimento ainda permaneceria vulnerável demais às condições de demanda externas, cada vez mais adversas diante da crescente convergência de conflitos de interesses nesses cenários. Assim, sob esse contexto, a crise generalizada dessas primeiras décadas se transformou em uma oportunidade de o país voltar-se para dentro, e promover o desenvolvimento de mecanismos que aumentassem a renda interna, via medidas de restrição de comércio exterior, controle de taxa cambial e excedentes exportáveis. Manter a demanda interna, com essas restrições, inevitavelmente, alimentou o processo de SI, na medida em que aumentou os preços das importações, e estimulou a produção interna (GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997). Oliveira (2012) destaca que esse impulso se manifestou de forma temporária diante das circunstâncias das guerras mundiais, e que se tornaria definitiva diante do contexto da Crise de 1929. Ambas situações contribuíam para um desabastecimento do mercado mundial, seja para exportação, seja para importação, gerando novas oportunidades e desafios. A passagem da Primeira República ou República Velha para o Governo Vargas abriu caminho para a discussão e prática de soluções aos problemas de abastecimento no âmbito de SI. “Livre de constrangimentos impostos pela prática e pelo pensamento Liberal, o regime de Vargas buscou [...] um novo padrão de intervenção estatal, [...] que gradualmente passou a se dedicar à busca da autossuficiência industrial” (OLIVEIRA, 2012, p. 103). O desenvolvimento de uma ampla ação, que se baseava em desde leis até instituições públicas e empresas voltadas à retomada do crescimento, comprovou a adoção do Estado de bem-estar social, sustentadas no Projeto Nacional de Desenvolvimentismo, já apresentado anteriormente. No período dentre o início e final da segunda Guerra (1939-1945), o Brasil alcançou uma grande expansão industrial, autossuficiência em muitos produtos de bens não duráveis e implantação de indústrias de base, porém, sem ainda o dinamismo na indústria de bens de consumo duráveis, que se importavam amplamente, pressionando déficits nos balanços comerciais e desequilíbrios externos. TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 115 Assim, De nada adiantava o país ser autossuficiente na produção de produtos de plásticos, por exemplo, se o preço dessa autonomia era a contínua e crescente importação de máquinas de fabricação de objetos de plásticos e matéria-prima correspondente. Ou seja, se o processo de industrialização por substituição de importações efetivamente eliminava a necessidade de se importar alguns bens, por outro lado, acabava criando outras necessidades de importação. Para completar o quadro, inexistia uma burguesia industrial capitalizada o suficiente para investir nos setores relacionados à indústria pesada e de bens de capital (OLIVEIRA, 2012, p. 105). Diante dos desafios, destaca-se a importância do investimento Estatal nas indústrias de base, eliminando dessa forma, muitos pontos de estrangulamento do processo de industrialização, como o abastecimento de energia, combustíveis, comunicações, matérias-primas industriais e afins. Todavia, foi no governo de Juscelino Kubitschek (1956 – 1961), abordado na próxima unidade, que a produção de bens de consumo duráveis foi definitivamente impulsionada e consolidada, através da abertura comercial a empresas multinacionais. Mesmo que sob estratégias de protecionismo da modernização da indústria nacional. NOTA O Estado do bem-estar ou Welfare State, no caso do Brasil, nesse período, qualificou-se pela presença de um Estado que buscava garantir e subsidiar políticas sociais e econômicas que se convertessem em ganhos sociais. Entretanto, dificuldades relacionadas a um Estado muito centralizador, com certa ineficiência em coalizar interesses entre os setores produtivos e o excesso de burocracia, contribuiu para um modelo pouco redistributivo em relação aos ganhos. Quanto aos riscos submetidos a SI que poderiam se agravar com seu avanço, Tavares (apud GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997, p. 113) destacam, [...] Como a prévia distribuição de renda era bastante desigual, delineava-se um mercado de dimensões reduzidas e cuja demanda era constituída por classes de renda mais elevada. O resultado dessa conjugação de fatores era uma indústria bastante diversificada que, atendendo a mercado restrito, tendia à concentração e/ou a não usufruir dos ganhos de escala. Na ausência de competição externa, tendia-se à produção com custos elevados, em particular quando a tecnologia utilizada se destinava a atender mercados de massas dos países desenvolvidos, cuja escala ótima era substancialmente mais elevada do que a praticada nos países latino-americanos. [...] a adoção de tecnologias importadas conduzia a outras ordens de 116 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO problemas: intensivas em capital e poupadores de mão de obra, [...] em claro desacordo com a disponibilidade de fatores dos países latino- americanos [...]. A autora ainda destaca que o estrangulamento externo, enquanto motivador do processo de SI, estarialimitado à circunstância em que a demanda interna contida não mais existisse, isto é, a demanda por bens de consumo importados fosse substituída, gerando por sua vez, novo crescimento da demanda por outros produtos, e assim, novo estrangulamento e novas substituições. Isso se daria, até o ponto em que as empresas alcançariam maturidade e reduziriam as possibilidades de produtos a substituir. Essa situação, seria um limite ao modelo, diante de uma discussão sobre a temporalidade de seus benefícios. Entretanto, a autora ainda admitiria que, a partir da década de 50, com a definitiva implantação de segmentos produtivos como de bens de produção, indústria pesada e de bens de consumo duráveis, o padrão de acumulação então passaria a se modificar, partindo de elementos endógenos, determinados internamente sob um processo clássico capitalista de diversificação industrial, com ciclos saudáveis e esperados de expansão e retração pertinentes (TAVARES apud GREMAUD; SAES; JÚNIOR, 1997). Isso representaria que, uma vez estabelecido os três setores de produção (agrícola, industrial e serviços), a dinâmica interna de crescimento passaria a ocorrer e ajustar-se sob a dinâmica desses três setores ou segmentos, não mais articuladas apenas com interesses classistas e vinculados a produtos ou setores específicos dependentes de condições externas. O quadro a seguir apresenta o produto interno bruto no período já assumido pela prática do processo de SI, em que se verifica a inversão do enfoque produtivo (do agrícola para indústria e serviços) e seu crescimento. Logo se percebe o declínio da participação da agricultura no PIB, expressando a transformação que a economia estava passando e ainda continuaria a experimentar. QUADRO 7 – BRASIL: PRODUTO INTERNO BRUTO POR CLASSES DE ATIVIDADE ECONÔMICA, 1947-1963 (PARTICIPAÇÃO % MÉDIA) PERÍODO AGROPECUÁRIA INDÚSTRIA SERVIÇOS TOTAL 1947/49 22,4 24,7 52,9 100,0 1950/54 24,2 24,9 50,9 100,0 1955/59 20,1 29,0 50,9 100,0 1960/63 17,7 32,6 50,4 100,0 FONTE: Gremaud, Saes e Júnior (1997, p. 119) Em seguida, o quadro que segue apresenta e comprova essa transformação da estrutura industrial nesse mesmo período aproximado, detalhando as TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 117 QUADRO 8 – BRASIL: ESTRUTURA INDUSTRIAL, 1919, 1939, 1949, 1959 (EM % DE PRODUÇÃO A PREÇOS CORRENTES) categorias e seus produtos, cujas dinâmicas de crescimento são específicas dentro de cada indústria pertinente ao processo. CATEGORIAS 1919 1939 1949 1959 Bens de consumo não duráveis: 83,62 75,06 67,77 51,10 Têxtil 25,20 20,61 18,69 12,54 Vestuário e calçados 7,70 6,20 4,34 3,41 Alimentos 37,75 36,17 32,02 24,15 Bebidas 4,40 2,24 31,13 2,37 Fumo 3,34 1,53 1,38 1,12 Editorial e gráfica – 3,15 2,83 2,28 Couros e peles 2,35 1,95 1,52 1,08 Farmacêutica 0,76 1,44 1,93 1,95 Perfumaria e sabões 2,52 1,77 1,73 1,52 Plásticos – – 0,20 0,68 Bens de consumo duráveis e/ou bens de capital 2,54 5,62 6,97 15,46 Material de transporte 1,20 2,54 2,31 6,79 Material elétrico 0,07 0,91 1,60 2,85 Mecânico – 0,79 1,40 3,98 Mobiliário 1,27 1,38 1,66 1,84 Bens intermediários 13,10 18,54 24,28 32,15 Metalurgia 3,18 5,41 7,60 10,53 Minerais não metálicos 2,55 3,52 4,51 4,52 Química 2,02 4,59 5,18 8,96 Madeira 4,04 2,41 3,39 2,64 Papel e papelão 1,19 2,11 1,99 2,97 Borracha 0,12 0,50 1,61 2,53 Diversos 0,74 0,80 1,43 1,29 FONTE: Gremaud, Saes e Júnior (1997, p. 138) Além dos dados de crescimento da produção por setores, destacando as áreas vinculadas à produção de bens de produção e bens de consumo não duráveis, embora a importação ainda se fazia presente em produtos que ainda eram precários de certos insumos internos, os dados apontam a expansão significativa diante dos desafios da época. 118 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO São muitas as teses de defesa e crítica ao processo de SI no Brasil, como a possibilidade de pressão na balança de pagamentos, os benefícios aos lucros maiores em detrimento aos salários e às tensões sociais subsequentes. Estas e outras abordagens do SI voltarão a serem apresentadas, tanto nessa disciplina ainda, como em outras e no decorrer do curso de ciências econômicas. Entretanto, prevalecem os resultados, superiores às possibilidades de esgotamento do modelo, com novos impulsos de crescimento no final dos anos 1960. Esperamos que você tenha conseguido compreender um pouco mais sobre essa etapa do processo de formação econômica do Brasil, e esteja mais entusiasmado, mas principalmente, mais apto para continuar essa jornada! LEITURA COMPLEMENTAR Brasil e Estados Unidos: paradigmas de desenvolvimento em confronto [...] Por que algumas economias lograram o desenvolvimento, e outras não, se repete ao longo de diversos textos de Furtado. O autor levanta a questão de por que se industrializaram os Estados Unidos no século XIX, enquanto o Brasil evoluía no sentido de transformar-se, no século XX, numa vasta região subdesenvolvida? A argumentação de Furtado vai muito além de questões relativas a políticas protecionistas, ausentes no Brasil e (supostamente) presentes nos Estados Unidos nas épocas de suas respectivas conquistas de independência política. É preciso recordar, antes de tudo, que o Brasil, em fins do primeiro quartel do século XIX, enfrentava severos desajustes em sua economia. Não havia polo dinâmico na nação que recém adquirira a independência; a grande lavoura açucareira encontrava-se em crise, dada pela queda dos preços internacionais resultante da forte concorrência das colônias antilhanas; o ciclo mineiro já se havia exaurido, e o café só viria a ganhar maior relevância pelo menos um par de décadas mais tarde. Nessa economia – na prática, de matriz ainda colonial – incapaz de gerar as indispensáveis divisas para seu desenvolvimento, sobreveio o problema adicional, para o já combalido Tesouro Público, das crescentes despesas inerentes ao processo de consolidação da independência – inclusive aquelas destinadas ao financiamento das incursões militares organizadas para sufocar revoltas e movimentos secessionistas. Em tais condições, conclui Furtado, a pressão exercida por esses fatores – crise do setor exportador e déficits públicos crescentes – teria de se resolver, como de fato ocorreu, mediante uma forte depreciação cambial. O impacto desta teria sido de tal ordem que “se se houvesse adotado, desde o começo, uma tarifa geral de 50% ad valorem, possivelmente o efeito protecionista não tivesse sido tão grande como resultou ser com a desvalorização da moeda” (FURTADO, 1976, p. 99-100). Analisando a economia norte-americana, argumenta Furtado que, em fins do século XVIII e início do XIX, está ainda se encontrava fortemente vinculada à economia europeia, TÓPICO 3 | O PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES (SI): A PARTIR DE 1930 119 sendo, portanto, equivocado associar seu desenvolvimento a medidas internas protecionistas. Com efeito, “o protecionismo surgiu nos EUA, como sistema geral de política econômica, em etapa já bem avançada do século XIX, quando as bases de sua economia já se haviam consolidado” (FURTADO, 1976, p. 100). Minimizada a relevância de políticas protecionistas, Furtado examina então certas condições estruturais que determinaram a formação da sociedade e da economia dos Estados Unidos, contrapondo-as à experiência brasileira. Em essência, o argumento explora a forma de colonização empreendida na América do Norte, em particular na Nova Inglaterra, e o tipo de atividade econômica dominante até o século XVII, que favoreceram o estabelecimento da pequena propriedade de base familiar em larga escala. As comunidades formadas com tal característica, embora apresentassem produtividade média inferior à das colônias baseadas na grande propriedade exportadora, possuíam, em contrapartida, uma estrutura distributiva mais homogênea, além de estarem desvinculadas do compromisso de remunerarvultosos capitais a elas externos. [...] E, em contraste com as colônias de grandes plantações, onde renda e consumo se concentravam numa reduzida classe de proprietários que se satisfazia com importações, “nas colônias do norte dos EUA os gastos de consumo se distribuíam pelo conjunto da população, sendo relativamente grande o mercado dos objetos de uso comum” (FURTADO, 1976, p. 30). Desta forma, o comportamento dos grupos sociais dominantes dos dois tipos de colônia deveria ser necessariamente diferente, correspondendo às distintas estruturas econômicas. [...] Pode-se, pois, perceber que a alteridade estrutural das economias brasileira e norte-americana, no fim dos seus respectivos ciclos coloniais, está no cerne da argumentação furtadiana. Segundo Furtado (1976, p. 101), a classe dominante no Brasil era formada por grandes agricultores escravistas, enquanto nos Estados Unidos, esta era formada por proprietários rurais de pequeno porte e grandes comerciantes urbanos, o que implicava marcantes diferenças sociais, apesar de serem as duas populações semelhantes, em ordem de grandeza. [...] A economia norte-americana já possuía bases próprias para uma expansão da sua produção interna. Havia uma robusta indústria naval, além da aludida distribuição de renda relativamente pouco desigual, o que lhe adjudicava maiores potencialidades para o mercado interno. [...] Aponta Furtado (1976) que justamente como exportadores de matéria-prima os Estados Unidos assumiram, desde os primórdios, a posição de “vanguarda” da Revolução Industrial. Uma vez que a Revolução Industrial consistiu fundamentalmente, em seu princípio, na transformação da indústria têxtil por meio de: i) mecanizar processos manufatureiros; e ii) substituir a lã pelo algodão, assim Furtado (1976) constata que a Inglaterra introduzia os processos de mecanização, ao passo que os Estados Unidos forneciam as gigantescas quantidades de algodão que permitiam, em pouco tempo, transformar a oferta de tecidos em todo o mundo. As bases do processo de desenvolvimento norte-americano resultariam, portanto, de uma combinação de múltiplos fatores, entre eles: uma estrutura econômica e social mais homogênea (principalmente nas colônias do Norte) e o consequente aparecimento de agentes e instituições políticas aptas a vocalizar os interesses nacionais; [...] Assim, Furtado (1976) interpreta que na primeira metade do século XIX a atuação do Estado foi fundamental no desenvolvimento estadunidense. Apenas a partir da segunda metade do mesmo século, em que a influência dos 120 UNIDADE 2 | A INTRODUÇÃO DO PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRO grandes negócios cresce largamente, é que a ideologia da não intervenção do Estado na economia passaria a prevalecer. Por sua vez, no Brasil, mais do que a ausência do mercado interno de base técnica e de uma classe dinâmica de dirigentes, faltaram aqueles estímulos externos. Os motivos estruturais para a conformação desse quadro se encontram em processos de formação de renda e acumulação de capital do sistema econômico escravista, da economia açucareira e, em seguida, na mineira. FONTE: VIANNA, Salvador Teixeira Werneck; LEITE, Marcos Vinicius Chiliatto. A questão da Lei de Say e o retorno à teoria de subdesenvolvimento de Celso Furtado. In: ARAÚJO, Tarcisio P.; VIANNA, Salvador T.; MACAMBIRA, Junior (Orgs.). 50 anos de Formação Econômica do Brasil: Ensaios sobre a obra clássica de Celso Furtado. RJ: IPEA, 2009. Disponível em: <http://ipea.gov.br/agencia/images/ stories/PDFs/livros/livros/Livro50AnosdeFormacao_Salvador_WEB.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2018. 121 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O período posterior à crise de 29 e pós-Segunda Guerra contribuiu para a instabilidade e crise no Brasil, problemas esses, relacionados principalmente, aos elevados gastos públicos, aos desequilíbrios na Balança Comercial e consequente processo inflacionário. • A adoção de políticas monetárias (ora contracionistas, ora expansionistas) e cambiais (via desvalorizações ou sobrevalorizações) continuavam a serem aplicadas, no intuito de amenizar os efeitos internos das crises, diante de aumento crescente da concorrência e competitividade internacional. • A defesa das exportações, em detrimento das importações, foi majoritária. Porém, foi necessário desenvolver setores, principalmente aqueles produtivos de bens de consumo duráveis, para isso cresceu a presença e investimento estatal em ações voltadas a esse propósito. • Durante o processo de investimento estatal, confirmou-se então, o projeto maior de industrialização e autossuficiência produtiva, diante das necessidades internas e externas de dinamizar os mercados. Por outro lado, as pressões sociais aumentaram frente a interesses múltiplos por ganhos econômicos e políticos no decorrer das manobras governamentais. • Foi colocado em prática o início do Processo de Substituição de Importações, como via de crescimento e desenvolvimento econômico. Uma via sem volta, em que mesmo diante de limites ou inúmeros desafios, promoveu ao país maturidade e ganhos de escala em todas muitas perspectivas. 122 1 Muitas das dificuldades que contribuíram para os episódios de crises na economia brasileira no período de 1930 a 1950 estavam relacionadas em nível de capital internacional e a um certo reordenamento político externo, em relação à condução das questões econômicas pelos Estados. Diante dessa constatação, apresente em que se basearam nossos principais problemas econômicos nesse período. 2 Algumas medidas no âmbito da política monetária e cambial tinham como objetivos interferir diretamente no mercado, e de fato, conseguiram, ademais a temporalidade de seus fins ou alcances. Sob essa afirmação, explique em que consistia a “Instrução 70” da SUMOC (Superintendência de Moeda e Crédito). 3 Em relação ao processo de Substituições de Importações, facilmente compreendido como uma estratégia para o alcance ao desenvolvimento e fortalecimento da indústria interna, inicia-se um debate acerca de sua aplicabilidade e alcance de seus objetivos. Sobre essas questões, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Considera-se que o Processo de SI encontrou vantagens relacionadas à capacidade ociosa existente no setor industrial, inicialmente. Somente após certo período, as importações de máquinas viriam a ocorrer. ( ) Os recursos oriundos das exportações não poderiam ser convertidos em capital para o investimento no processo de SI, dado o grande entesouramento por parte das classes produtivas. ( ) Umas das condições essenciais para o êxito do processo de SI seria que sua dinâmica continuasse vinculada a interesses classistas e não aos setores produtivos na economia. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) V – F –V. ( ) F – V – F. ( ) F – V – V. ( ) V – V – F. 4 Atribui-se que para que a consolidação do processo de SI fosse bem- sucedida, ele deveria iniciar-se pela indústria de bens de consumo duráveis. Essa defesa possui importante justificativa econômica. Apresente-a. AUTOATIVIDADE 123 UNIDADE 3 A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer a importância do planejamento para a economia por meio do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e a participação do capital estran- geiro na economia brasileira; • analisar o período relativo ao “milagre” da economia brasileira e o projeto de desenvolvimento para o país; • examinar a crise dos anos 1980 e as medidas utilizadas para conter o pro- cesso de hiperinflação. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você en- contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO TÓPICO 2 – MILAGRE ECONÔMICO TÓPICO 3 – REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 124 125 TÓPICO 1 INDUSTRIALIZAÇÃOE DESENVOLVIMENTO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico! Chegamos à terceira e última unidade do livro de Formação Econômica do Brasil. Nas páginas seguintes, você descobrirá de que forma se estruturou a economia brasileira durante o século XX, sobretudo entre a década de 1950 e 1990. Estudaremos desde os conceitos mais elementares a respeito do planejamento econômico do Plano de Metas até os planos de estabilização econômica ao final da década de 1980. A economia brasileira ao longo do século XX passou por diferentes abordagens econômicas, ritmos de crescimento e políticas para o desenvolvimento. Tivemos governos eleitos diretamente pelo povo, um regime militar com forte autoritarismo, e uma retomada do processo democrática com um cenário econômico conturbado. Mesmo assim, nosso crescimento econômico chegou a um dos maiores do mundo, com a formação de uma indústria nacional muito bem integrada. Desta forma, cabe-nos perguntar: em que momento o planejamento econômico passa a ser uma peça fundamental para a organização da atividade econômica? Até que ponto há vantagens na participação do capital estrangeiro na economia nacional? Qual é o impacto do golpe militar de 1964 para o desenvolvimento econômico e social do Brasil? Por que a década de 1980 ficou conhecida como a década perdida? Por que as políticas contra o processo inflacionário até 1990 falharam? A fim de responder a estas e a outras perguntas, a Unidade 3 do presente livro conterá uma leitura fácil e dinâmica, com páginas que contam com figuras, tabelas, quadros, informações adicionais e dicas para você poder aprofundar o seu estudo. No Tópico 1 iremos estudar a industrialização e o desenvolvimentismo a partir do estudo dos conceitos de planejamento, do Plano de Metas e da participação do capital internacional. Desejamos ótimos estudos! UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 126 2 A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO ECONÔMICO É muito provável que você já tenha ouvido falar ou lido em algum periódico sobre o planejamento econômico e/ou a respeito do planejamento governamental. Pois bem, mas será que planejar a economia foi um objetivo que sempre existiu nos países? Ou ainda: desde que momento o ato de planejar o crescimento econômico tornou-se uma atribuição dos estados nacionais? Planejamento é um conceito que pode expressar a diferença mais primitiva entre os homens e os demais seres vivos. Os modos pelos quais ações são executadas por diferentes espécies, isto é, as formas pelas quais homens e outros seres vivos utilizam sua força de trabalho para transformar matérias naturais em valores que sirvam para satisfazer necessidades próprias, nem sempre são diferentes. Vejamos a analogia para o planejamento quanto ao caso da aranha e de um tecelão; da abelha e do arquiteto. FIGURA 1 – HABILIDADES DAS ARANHAS E DAS ABELHAS FONTE: <https://bit.ly/2TQ0ZmN; https://bit.ly/2VQCyY2>. Acesso em: 8 nov. 2018. “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção de suas colmeias”. Pois, “o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera” (MARX, 1985a, p. 149). O homem não apenas modifica o meio natural, mas, realiza, ao mesmo tempo, seu objetivo – aquilo que já existia em sua imaginação idealmente e planejado. IMPORTANT E Tanto os homens quanto os animais executam tarefas que requerem muita habilidade. A grande diferença dos humanos está no ato de planejar suas ações. Com o planejamento adequado, podemos atingir objetivos previamente determinados. TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 127 O que podemos começar a entender é que planejar tem a ver com a definição de objetivos que serão alcançados em futuro de curto, médio ou longo prazo. Embora diferentes possíveis definições do termo planificação, ou planejamento, cada qual com sua especificidade, levem a fins semelhantes, tais como alcançar o futuro, as divergências no conceito apontam para variados caminhos, por exemplo: 1) incertezas e complexidades inerentes aos processos de planejar (MELO, 2001), pois “seu cálculo é nebuloso e sustenta-se na compreensão da situação” (MATUS, 1991, p. 28); 2) metodologias de aplicação a projetos, uma vez que o planejamento “estabelece objetivos, define linha de ação e planos detalhados” (LOPES, 1990, p. 24); 3) modelos sistemáticos de compreensão, ao atuar “através de um controle de vastas redes de órgãos e instituições interdependentes” (LOPES, 1990, p. 24); 4) análises de futuro, a partir do entendimento que muitas das formas de planejamento buscam inserir-se no futuro e, ao mesmo tempo, vivenciar este futuro (GUILLEZEAU, 2002). Além dos diferentes significados por meio dos quais o planejamento foi sendo caracterizado, do ponto de vista de sua classificação, um sistema de planejamento pode ser dividido entre as escolas ou modelos, substantivo e procedimental de planejamento, que, respectivamente, dizem respeito: (i) ao fenômeno que se aplica o processo de planejamento, e (ii) aos processos, métodos e às técnicas das etapas de sua execução. IMPORTANT E O planejamento possui muitos entendimentos através de seus variados conceitos. De forma mais simples, podemos separar entre o planejamento substantivo (que se interesse pelo contexto social e econômico, de fato) e o planejamento procedimental (aquele que se preocupa com as técnicas e as metodologias de planejamento). Visto de outra forma, o planejamento pode, também, ser elaborado em diferentes graus, abrangendo partes ou a totalidade de uma economia. “O planejamento global procura dar uma visão ampla do desenvolvimento da economia, fixando objetivos a atingir e procurando assegurar a consistência entre a oferta e a demanda de bens em todos os setores” (LAFER, B., 1975, p. 16). Pode ainda, limitar-se a determinados setores, como é o caso do planejamento setorial voltado para o investimento em infraestrutura, educação, saúde. Aí, os desequilíbrios entre oferta e demanda podem ser superados de maneira planejada mesmo quando os objetivos mais gerais (crescimento de renda ou emprego) ainda não foram fixados. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 128 Mas, afinal, de que forma e quando o planejamento começa a ser utilizado pelos países do mundo? Quanto à difusão do conceito de planejamento, é preciso dizer que se iniciou a planejar de maneira mais abrangente e de forma mais explícita no início do século XIX na Europa. Naquele momento e lugar, as cidades passaram a conviver com o caos urbano provocado, sobretudo, pelo avanço do capitalismo – e agravado pela Revolução Industrial do século XVIII – que alterou a disposição das regiões urbanas. O planejamento e a ciência do urbanismo surgiram como tentativa de solucionar as questões relativas ao grande crescimento populacional nas cidades industriais que, por sua vez, resulta, em grande medida, da chamada acumulação primitiva (MARX, 1985b, p. 261), cuja dinâmica retira dos trabalhadores do campo seus meios de produção, tornando-os trabalhadores assalariados no interior das fábricas localizadas nas cidades. As bases da formação de um planejamento urbano para as recém-criadas grandes cidades europeias estavam nos funcionários públicos municipais e reformadores, cujas preocupações, primeiramente, eram de regular os sistemas de saúde, obras públicas e saneamento. Um segundo movimento em que o planejamento é difundido pelos países é relativo ao problema da pobreza. Já no século XX, na Europa e em países periféricos, a administração da pobreza faz surgir uma ampla área de intervenção a partir do Estado que ficou conhecida por “social”, cuja valorização de questões sociais e urbanas dá origem a uma ênfase à intervenção crescente e direta tanto de profissionais especializados em temas como pobreza, saúde, educação, saneamento, desemprego, como do próprio Estado em nome da promoçãodo bem-estar social. A estreia do planejamento social na Europa, refere-se ao momento em que o estado assume a tarefa de levar “progresso” para a sociedade por meio de “um corpo de leis [...] cujo objetivo era regulamentar as condições de trabalho e tratar questões relacionadas com acidentes, com idosos, com o trabalho feminino, e com a proteção e educação de crianças” (ESCOBAR, 2000, p. 213), nivelando conjuntamente as condições de trabalho nas fábricas, educação nas escolas, regras para os hospitais e conduta nos presídios. Ao passo que a participação do Estado se tornava mais intensa em busca de soluções, a sociedade deveria viver e reproduzir aquilo que lhe havia sido “planejado” (VARGAS, 2013). Com base nestes contextos históricos, podemos compreender a importância do planejamento para o funcionamento das economias mundiais entre os séculos XIX e XX. Tanto a formação e o crescimento acelerado das cidades propriamente urbanas, quanto as condições sociais são elementos que explicam a transformação do papel do Estado na economia. A intervenção do Estado na condução da economia como promoção de desenvolvimento se dissemina no início do século XX nas políticas dos governos e nas ações dos Estados, regulando o direcionamento político das iniciativas econômicas. TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 129 Isto ocorre porque as forças do mercado (o livre mercado), com pouca intervenção do Estado, mostravam-se incapazes de cumprir com objetivos econômicos e sociais esperados. Era o caso tanto dos países considerados mais desenvolvidos quanto dos menos desenvolvidos. Assim, no século XX, a instabilidade do sistema econômico, a nova ênfase no desenvolvimento econômico e a luta contra a miséria “[...] levaram à elaboração de modelos racionais de política econômica, que permitissem dominar as forças econômicas em direção à alocação ótima dos recursos” (LAFER B., 1975, p. 12). O primeiro país a planejar sua Economia foi a partir do caso da União Soviética com a utilização de planos econômicos de longo prazo. A partir da década de 1920 já se iniciava um processo de organização centralizada na União Soviética: o número de funcionários do Estado passou de pouco mais de 100.000 para crescentes 5.880.000. Entre 1928 e 1933, vigora o Primeiro Plano Quinquenal global soviético (aprovado em maio de 1929, pelo V Congresso dos Sovietes da URSS), cujo processo abarca todo o sistema econômico, mas exclui formalmente os mecanismos usuais de mercado e formação de preços, esmiuçando o processo produtivo em função de metas nacionais estabelecidas pelo Estado visando uma rápida industrialização (MIGLIOLI, 1997). Era o momento em que praticamente todas as economias mundiais enfrentavam a crise econômica, ou a grande depressão, resultado da quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929. No entanto, enquanto as economias capitalistas iam de mal a pior no período, a participação da indústria nacional soviética aumentou de 5% em 1929 para 18% em 1938 (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Tais resultados deixaram políticos e técnicos dos governos de diversos países impressionados, fazendo com que os termos ligados ao planejamento fossem rapidamente utilizados nos debates econômicos até mesmo dos países capitalistas – cujas economias não eram centralmente planificadas. Com a divulgação da macroeconomia keynesiana e com o avanço dos modelos de crescimento econômico, o planejamento estatal passou a ser utilizado como uma técnica econômica em todo o mundo (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). NOTA Relembrando: as economias de mercado são aquelas nas quais os problemas econômicos são resolvidos e organizados pelo próprio mercado, tendo o Estado um papel limitado. Nas economias planificadas, a economia é organizada integralmente pelo Estado, com base em mecanismos de planejamento e intervenção econômica. Rapidamente, as técnicas e métodos do planejamento a partir do Estado foram sendo aperfeiçoadas com a programação linear, os modelos econométricos, as matrizes insumo-produto e, após a Segunda Guerra Mundial, o planejamento UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 130 3 JUSCELINO KUBITSCHEK E O PLANO DE METAS (1956-1961) As alterações ocorridas nas economias capitalistas após a década de 1930 também atingem o Brasil, sendo que é neste período que se tem uma forte evolução do sistema político e econômico. Com o governo de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945, o Estado brasileiro passa a desempenhar funções cada vez mais complexas na economia nacional. Há uma crescente participação e atuação do Estado na política econômica tanto para promover o desenvolvimento como para estabilizar crises econômicas. E dando continuidade a este processo de planejamento a partir do Estado, na década de 1940, inicia-se a estruturação de certo aparato científico e corpo técnico propriamente para se pensar o planejamento no Brasil (MIRANDA NETO, 1981). Um exemplo está na Missão Cooke, que foi um dos casos de cooperação técnica formada com o objetivo de captar recursos financeiros, sobretudo, dos Estados Unidos, para a formulação de projetos econômicos no Brasil. Estas comissões de trabalho procuravam fazer um balanço da situação econômica da época e definir prioridades para os investimentos públicos. O Plano SALTE (sigla do Plano voltado para as áreas de saúde, alimentação, transporte e energia) teve origem a partir destas cooperações e foi submetido à apreciação do Congresso em 1948 (FURTADO, 1985, p. 43). IMPORTANT E Entre 1951 e 1953 foi constituída a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (CMBEU) que tinha como objetivo elaborar projetos a serem financiados pelo Banco de Exportação e Importação dos Estados Unidos (EXIMBANK) e pelo Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). foi levado aos países do “Terceiro Mundo” como forma de alcançar o progresso e o desenvolvimento. Assim, foi possível desenvolver-se não apenas o planejamento global, mas também o regional e microrregional, e o planejamento setorial, chegando à elaboração de projetos muito bem especificados. Estas economias ditas menos desenvolvidas almejavam uma industrialização rápida e o aumento da renda per capita, notadamente, nas décadas de 1950 e 1960 – bem como se apresenta o caso do desenvolvimento brasileiro. O incentivo ao crescimento econômico para estabelecer um processo de desenvolvimento serviu de orientação para um novo sistema de planos nacionais de desenvolvimento (ESCOBAR, 2000). TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 131 Já em 1953 formou-se uma comissão mista de técnicos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e do recentemente criado Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), cuja chefia ficará a cargo do importante economista brasileiro Celso Furtado. A principal ideia do Grupo Misto BNDE-CEPAL era a de difundir no Brasil a Técnica de Planificação que se vinha desenvolvendo no interior da CEPAL (FURTADO, 1985). Uma vez que a CEPAL e a comissão interna organizada no Brasil procuravam pensar uma via de desenvolvimento para o país, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek teve amplo apoio desses estudos para formular em tempo recorde as metas do Governo, embora o principal objetivo fosse a construção da nova capital do país em Brasília (ver figura a seguir) (FURTADO, 1985). FIGURA 2 – CONSTRUÇÃO DA NOVA CAPITAL DO BRASIL DURANTE A DÉCADA DE 1950 FONTE: <http://www.jws.com.br/2018/02/documentario-sobre-a-construcao-de-brasilia/>. Acesso em: 8 nov. 2018. O trabalho do grupo misto BNDE-CEPAL foi realizar um levantamento dos principais pontos de estrangulamento da economia brasileira, com ênfase nos setores de transporte, energia e alimentação. Outro objetivo era identificar as áreas industriais cuja demanda era reprimida e que não poderiam ser satisfeitas a partir das importações. Com base em todos estes diagnósticos, caberia às comissões propor projetos e planos específicospara a resolução destes problemas, sendo um destes a consideração da criação de novos ramos industriais, como a indústria automobilística (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Portanto, é em meados da década de 1950 que o planejamento no Brasil toma uma forma mais definida. O período de 1956 a 1961, correspondente ao Plano de Metas, deve ser interpretado com maior especificidade, pela complexidade de suas formulações, quando comparado com as tentativas anteriores de investimento apenas na infraestrutura do país, e pela profundidade de seu impacto, principalmente em virtude do sistema político vigente. Por estas peculiaridades o Plano de Metas pode ser considerada a primeira experiência brasileira de planejamento governamental, embora ainda não se trate de um planejamento global da economia (ALMEIDA, 2004; LAFER, C., 1975). UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 132 Todavia, os grupos de trabalho que foram formados a partir do governo de Kubitschek não conseguiam ter a mínima capacidade necessária de atuação. Paradoxalmente, a construção de Brasília avançava rapidamente. A “questão nordestina”, por exemplo, tornava-se um problema ao grande projeto nacional de Kubitschek, pois o forçava a redirecionar seu foco político. O importante Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), formado a fim de estudar essa situação, não contava com pessoas de fato capazes de articular os problemas do desenvolvimento nacional e regional; seus estudos partiam do zero. Em verdade, todas as iniciativas que surgissem neste âmbito seriam paliativas por falta de investimentos regionais, uma vez que a construção de Brasília era prioridade (FURTADO, 1989). Apenas com a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), em 1959, como novo grupo de trabalho, é que os planos tomam forma definida de crescimento e melhoria da qualidade de vida de uma população. Não é à toa que essa experiência viria a servir de referência a vários programas e planos regionais por todo o Brasil (BARROS, 1975). No entanto, a política voltada à industrialização, do Plano de Metas de Kubitschek, após certa euforia nacional devido a altas taxas de crescimento do PIB, foi a grande responsável pelo início do surto inflacionário e estagnação econômica a partir de 1962, mesmo com os esforços do plano de estabilização monetária (1958-1959) implementado no fim de seu mandato (MACEDO, 1975). Desta forma, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek é um marco para a industrialização e o desenvolvimento econômico do Brasil por conter um conjunto de 31 metas amplas para a economia, incluindo a meta-síntese: a construção de Brasília. Este ambicioso plano de desenvolvimento contava com objetivos setoriais que convergiam à industrialização sólida da economia brasileira e que se referia a uma decisão importante na história econômica do país, convergindo ao processo de substituição de importações em andamento (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). FIGURA 3 – JUSCELINO KUBITSCHEK E O PLANO DE METAS FONTE: <http://pensamentojk.blogspot.com/2011/05/3-o-plano-de-metas.html>. Acesso em: 8 nov. 2018. TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 133 Os setores da economia que receberam maior parte dos investimentos foram os de energia, transporte, siderurgia e refino de petróleo. Além disso, foram oferecidos subsídios e estímulos econômicos à expansão e diversificação de todo o setor secundário, atingindo indústrias produtoras de equipamentos e insumos de alta intensidade de capital. Assim, para que o Plano pudesse ser executado, foram criados novos grupos executivos de trabalho, congregando representantes públicos e privados para que a formulação de políticas industriais pudesse ocorrer de forma conjunta. Os grupos mais conhecidos e atuantes foram o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), da Construção Naval (GEICON), de Máquinas Agrícolas e Rodoviárias (GEIMAR), de Indústria Pesada (GEIMAP), de Exportação de Minério de Ferro (GEMF), de Armazenagem (Comissão Consultiva de Armazéns e Silos), e de Material Ferroviário (GEIMF) (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). O Plano de Metas trouxe uma atuação fortíssima do Estado na economia brasileira, representando uma forte ruptura do modelo de crescimento até então vigente. A política econômica do Plano dava especial atenção ao capital estrangeiro (tema que será visto com mais especificidade no próximo item), contando com fontes externas de captação de recursos. Além desta, uma outra medida característica do Plano foi o financiamento dos gastos públicos e privados por meio da expansão dos meios de pagamento, ou seja, por meio de uma política monetária que aumentava a quantidade de moeda em circulação. Mas, também, este financiamento ocorria via empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e de bancos localizados no exterior. NOTA O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi criado em 1952 pela Lei nº 1.628, de 20 de junho, com o objetivo de ser o órgão formulador e executor da política nacional de desenvolvimento econômico. Na década de 1980, como marca da integração das preocupações sociais com as econômicas, o banco recebeu a letra S em sua sigla, gerando a atual denominação Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. FONTE: <https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/quem-somos/nossa-historia>. Acesso em: 8 nov. 2018. O aumento do acesso ao crédito privado foi estimulado a partir do Banco do Brasil por meio de empréstimos de curto prazo, sobretudo, para garantir o capital de giro das empresas nacionais. Medida econômica que ocasionou uma pressão ainda maior no déficit público oriundo da execução das ações do Plano de Metas. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 134 A tabela a seguir apresenta algumas das atuações do Estado com o Plano de Metas, revelando a previsão de realização de determinada ação, bem como a quantidade, de fato, realizada. Leia os dados da tabela: TABELA 1 – AÇÕES DO PLANO DE METAS: PREVISÃO E RESULTADOS (1957-1961) Meta Previsão Realizado % Energia Elétrica (1.000 kw) 2.000 1.650 82 Carvão (1.000 ton.) 1.000 230 23 Petróleo-Produção (1.000 barris/dia) 96 75 76 Petróelo-Refino (1.000 barris/dia) 200 52 26 Ferrovias (1.000 km) 3 1 32 Rodovias-Construção (1.000 km) 13 17 138 Rodovias-Pavimentação (1.000 km) 5 – – Aço (1.000 ton.) 1.100 650 60 Cimento (1.000 ton.) 1.400 870 62 Carros e caminhões (1.000 un.) 170 133 78 Nacionalização (carros – %) 90 75 – Nacionalização (caminhões – %) 95 74 – FONTE: Lacerda et al. (2000, p. 31) Entre o período dos anos de 1951 e 1961, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu a uma taxa anual de 8,2%, resultando em um aumento da renda per capita (PIB per capta) de 5,1% – variações que superaram até mesmo os objetivos do Plano de Metas. O aumento do PIB e do PIB per capita são atribuídos à implantação do Plano, uma vez que as projeções de crescimento da economia para os próximos cinco anos, a partir de 1951, eram bastante pessimistas quando foram divulgadas pelo Grupo Misto BNDE-CEPAL. Analisando os dados da tabela anterior com maior atenção, pode-se ver que as metas setoriais do Plano também alcançaram excelentes resultados com relação às previsões. Pois, por exemplo, dos 2 milhões de kw de geração de energia elétrica previstos com a execução do Plano de Metas, 1,65 milhão de kw passaram a ser gerados no Brasil, ou seja, 82% do previsto. Outras metas importantes foram a produção de petróleo, que atingiu 76% do esperado, chegando a 75.000 barris por dia, e a produção de carros e caminhões, com 133.000 unidades produzidas, representando 78% do previsto pelo Plano. Por fim, a meta que mais se destaca é aquela referente à construção de rodovias, cuja quantidade executada ultrapassa o previsto: dos 13.000 km planejados, foram construídos 17.000 km – 138% da meta. O que se pode perceber é que muitas áreas da economia passam a receber incentivo diretodo Estado, garantindo que seu desenvolvimento possa ocorrer. Portanto, pode-se ver que grandes áreas produtivas, como é o caso do petróleo, do TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 135 carvão e do aço, são privilegiadas pela ação do Estado. Já uma segunda frente de atuação é a partir de grandes obras de infraestrutura, no que diz respeito às rodovias, ao cimento e à energia, com a construção de novas usinas hidrelétricas. Os últimos três itens da tabela revelam que a indústria também recebe especial atenção, com a produção de carros e caminhões, além do movimento de nacionalização da produção. 4 PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO E OLIGOPÓLIOS O crescimento econômico durante o Plano de Metas foi muito expressivo com relação aos períodos anteriores. Quando analisados os setores econômicos de forma separada, é possível melhor visualizar estes reflexos. Os departamentos da economia produtores de bens de capital e de bens de consumo duráveis, por exemplo, foram os mais relevantes: entre 1955 e 1962, as taxas de crescimento anual médias chegaram a 26,4% e 23,9%, respectivamente (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Na indústria de transformação, o crescimento foi a uma taxa média anual de 22% no período de 1955 e 1959. A economia como um todo pôde fortalecer- se a partir dos investimentos realizados em diversas áreas, como é o caso dos subsetores de material elétrico, com crescimento de 38% ao ano neste mesmo período, de material mecânico, com 43% de crescimento ao ano, e de material de transporte, cujos investimentos aumentaram em 80% ao ano. Estes três subsetores são muito representativos no interior das atividades produtoras de bens duráveis e, portanto, o aumento dos investimentos industriais nestas áreas resultou em um aumento de três vezes de sua participação no investimento conjunto da indústria, passando de 12% para 38% de participação (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Contudo, o crescimento observado desde o início do governo de Juscelino Kubitschek estava estruturado a partir do tripé formado por empresas estatais, capital privado estrangeiro e, em menor medida, capital privado nacional. E o objetivo exposto no Plano de Metas de implantar rapidamente o Departamento II da economia brasileira, bem como de desenvolver plenamente o Departamento I, apenas será possível com uma expressiva participação do capital estrangeiro. NOTA A partir de Karl Marx, dois grandes departamentos econômicos são distinguidos. O Departamento I, refere-se à produção de bens de capital e intermediários, ou seja, bens de produção; o Departamento II, restrito aos bens de consumo. Este último está subdividido entre bens de consumo dos capitalistas (bens de consumo de luxo ou bem duráveis) e bens de consumo dos trabalhadores (bens simples ou não duráveis) (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 136 A dinâmica resultante desta organização econômica financiada pelo capital externo trouxe uma oligopolização da economia brasileira durante a segunda metade da década de 1950. Assim, os principais ramos industriais no Brasil eram controlados por poucas e grandes empresas – reproduzindo aquilo que ocorrera no final do século XIX nos países considerados desenvolvidos (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Um fator que contribui à formação deste cenário econômico foi uma mudança interna nas grandes empresas estrangeiras, cujas estratégias de investimento avançavam sob a indústria manufatureira, revelando um movimento de transnacionalização de suas operações. Logo, a concorrência entre grandes oligopólios mundiais como os americanos, europeus e japoneses estendia-se até mesmo sob o espaço dos países subdesenvolvidos. NOTA Os oligopólios são formados quando apenas algumas empresas são responsáveis pela produção de determinado produto. Estas empresas não compõem um número expressivo, mas, trata-se de grandes corporações. Uma vez que dominam o mercado de certo produto, acabam formando uma barreira natural contra a entrada de novas empresas no setor, possibilitando que regulem os preços de mercado dos produtos que comercializam. O contexto do Brasil, que havia consolidado seu mercado interno a partir da política de substituição de importações, refletia-se num importante espaço de ampliação do capital estrangeiro por meio da instalação de empresas multinacionais (EMN). Mas quais eram os países que investiam no Brasil? Os primeiros capitais internacionais eram oriundos de multinacionais europeias e japonesas. Apenas após a instalação destes grupos é que o capital norte-americano se engajaria na produção industrial brasileira. Isso ocorria mesmo em empresas dos Estados Unidos que já atuavam há muitos anos no Brasil com centros de montagem e distribuição de estoques, tal como é o caso da Ford e da General Motors. Aliás, neste período inicial da entrada do capital estrangeiro, os Estados Unidos tiveram pouca participação. Importantes setores da economia brasileira não contaram com capitais norte-americanos: a indústria da construção naval foi possível a partir de capitais japoneses, holandeses e brasileiros; a indústria siderúrgica brasileira contou basicamente com capitais do BNDE (portanto, estatais nacionais) e japoneses; e a indústria automobilística, que foi montada com o apoio de capitais alemães (tais como os da Volkswagen e Mercedez-Benz), franceses (Simca) e nacionais (DKW). TÓPICO 1 | INDUSTRIALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO 137 Veja o potencial do capital nacional brasileiro a partir da indústria automobilística no período da industrialização a partir das figuras a seguir. FIGURA 4 – FÁBRICA DA DKW-VEMAG EM SÃO PAULO (1945) FONTE: <http://www.saopauloantiga.com.br/vemag-uma-fabrica-que-agoniza-no-tempo/>. Acesso em: 8 nov. 2018. DICAS Assista ao vídeo institucional da fábrica da DKW-Vemag no Brasil, produzido em 1964 pelo cineasta Jean Manzon. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=K- efbGiDYuE>. Acesso em: 8 nov. 2018. FIGURA 5 – LINHA DE MONTAGEM DO FISSORE NA DKW-VEMAG (1945) FONTE: <http://www.saopauloantiga.com.br/vemag-uma-fabrica-que-agoniza-no-tempo/>. Acesso em: 8 nov. 2018. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 138 NOTA A Vemag foi uma empresa brasileira fundada em 1945 que atingiu seu auge nas décadas de 1950 e 1960 a partir da produção de veículos sob licença da fábrica alemã DKW. O parque fabril brasileiro tinha mais de dois milhões de metros quadrados e produziu ao longo de 11 anos de operação junto à DKW pouco mais de 115.000 unidades de veículos, tornando- se um império automotivo da década de 1960 no Brasil. Com relação à política econômica do período, vale destacar que a Vemag foi a primeira empresa a receber incentivos fiscais do governo para a implantação de empresas de automóveis oriundos do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA). Em 1966 a empresa é adquirida pela alemã Volkswagen e, então, tem suas atividades encerradas em 1967. FONTE: <http://www.saopauloantiga.com.br/vemag-uma-fabrica-que-agoniza-no-tempo>. Acesso em: 8 nov. 2018. Ancoradas em investimentos estrangeiros de diversas áreas, as empresas multinacionais dominaram amplamente a produção industrial brasileira. Veja os dados a seguir: • Levando em conta as 1.000 maiores empresas do país por volume de vendas em 1974, 2/3 delas eram empresas industriais. Todavia, as empresas multinacionais, que correspondiam a 12% do total, tinham 50% do valor das vendas e 43% do estoque de capital. • Em 1970 as empresas multinacionais eram responsáveis por 85% das vendas da produção de bens duráveis de consumo; e 57% das vendas de bens de capital. • No subsetor de bens de consumo não duráveis, que era controlado basicamente por empresas privadas nacionais, a participação das empresas multinacionais nas vendas era de 43%. • E mesmo no subsetor produtor de bens intermediários, no qual havia forte participação de empresas estatais, as empresas multinacionais abarcavam 37% dasvendas. Uma vez que o Brasil passou a contar com uma indústria com escala produtiva bastante alta e intensa em capital, foram inevitáveis a entrada e a supremacia do capital externo, que dominava amplamente os setores mais dinâmicos da economia brasileira. Assim, cabia ao capital privado nacional o papel de fornecedor de insumos e componentes, como é o caso da relação entre o setor automobilístico e o setor de autopeças. Caro aluno, estamos nos aproximado do final de mais um tópico de estudos. No próximo, estudaremos o período relativo ao chamado “milagre econômico”. Antes disso, leia os itens do Resumo e realize as questões de Autoatividade do livro da disciplina. 139 Neste tópico, você aprendeu que: • Os diferentes conceitos de planejamento levam ao fim semelhante de alcançar o futuro, por meio de incertezas, metodologias, modelos de compreensão e análises próprias. • As vertentes do planejamento econômico podem ser separadas entre o planejamento substantivo e o planejamento procedimental. • O planejamento é importante para a compreensão do funcionamento da economia mundial entre os séculos XIX e XX, tanto devido ao crescimento das cidades quanto às questões sociais. • Após a década de 1930, o Estado brasileira passa a desempenhar forte atuação na economia para estabilizar crises e promover o desenvolvimento. • O Plano de Metas é considerado a primeira experiência brasileira de planejamento governamental, entre 1956 e 1961. • Além de 31 metas amplas para o desenvolvimento da economia brasileira, o Plano de Metas tinha como meta-síntese a construção da nova capital do país em Brasília. • As ações do Plano de Metas levaram ao desenvolvimento de importantes setores da economia como o da energia elétrica, extração de minérios, produção de aço e cimento, além do investimento em obras de infraestrutura. • O crescimento econômico no início do governo de Kubitschek estava apoiado no tripé formado por empresas estatais, capital privado estrangeiro, capital privado nacional. • Na segunda metade da década de 1950, a economia brasileira encontrava-se amplamente oligopolizada. • No início do processo de industrialização brasileira, os capitais estrangeiros eram oriundos de países europeus e do Japão. Somente após um momento de consolidação é que o capital norte-americano aumenta sua participação. RESUMO DO TÓPICO 1 140 1 Após a Segunda Guerra Mundial, as técnicas de planejamento a partir do Estado que vinham sendo aplicadas nos países desenvolvidos foram trazidos para países do “Terceiro Mundo”. Qual é o objetivo em iniciar a planejar a economia brasileira? 2 Escreva sobre a importância do Plano de Metas para o crescimento e desenvolvimento planejado da economia brasileira. 3 O capital nacional não foi suficiente para estruturar um cenário de crescimento sustentado da economia durante o Plano de Metas. Qual é a relevância do capital estrangeiro para este contexto? AUTOATIVIDADE 141 TÓPICO 2 MILAGRE ECONÔMICO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, o tópico que você estudará a partir de agora é muito importante para todo o estudo da disciplina de Formação Econômica do Brasil. De maneira mais ampla, procuraremos estudar o período do chamado “milagre econômico” brasileiro, que se refere às dinâmicas de intenso crescimento econômico industrial na década de 1960. Este tópico está divido em seis itens ao longo de suas páginas. Além desta introdução, no item 2 estudaremos a crise que a economia brasileira atravessa logo no início da década de 1960. No item 3, os dados econômicos revelam a atividade econômica durante o governo de João Goulart, entre 1961 e 1964, bem como a atuação do Estado por meio do Plano Trienal. O golpe militar de 1964 será analisado sob o ponto de vista econômico ao longo do item 4. E, neste também veremos o modelo dependente e associado ao capital externo formado pela economia brasileira. O item 5 foi reservado ao Programa de Ação Econômica do Governo, o importante PAEG, uma vez que traz mudanças institucionais fortíssimas ao país. Por fim, estudaremos com maior especificidade, os Planos Nacionais de Desenvolvimento, que são outras políticas econômicas muito importantes para o crescimento econômico do Brasil. Tenha uma boa leitura! 2 A CRISE INDUSTRIAL ENDÓGENA NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1960 O período subsequente à execução do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, com intenso crescimento do PIB, é marcado por uma desaceleração da economia que perdurou até 1967. Um dos dados mostra que entre 1962 e 1967 a taxa média do crescimento do PIB caiu para a metade quando comparada com o período anterior. 142 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX A formação bruta de capital fixo, que permite perceber o crescimento interno da indústria, já havia caído em 1962 e tornou-se negativa em 1963, o que também ocorreu com a produção industrial. O índice de inflação também subiu, chegando a 90% em 1964. Pois, mesmo para os padrões elevados de inflação do período era considerado um alto nível de aumento generalizado dos preços (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000), portanto, a economia brasileira vinha apresentado indicadores negativos de crescimento, mas quais eram os motivos? Em parte, a resposta estava no momento complicado que a economia brasileira procurava desenvolver-se, com questões econômicas estruturais e políticas econômicas conjunturais que pouco convergiam, em um contexto de constante acirramento de conflitos políticos e sindicais que antecederam o golpe militar de 1964. Para José Serra e Maria Conceição Tavares, o problema inseria-se em uma típica crise cíclica, ocasionada pelo volume imenso de investimentos realizados pelo Plano de Metas. Pois, após a inserção deste gigantesco pacote de investimentos, a economia levaria algum tempo até absorvê-lo (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). NOTA A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é um indicador que mede quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital, ou seja, aqueles bens que servem para produzir outros bens. São basicamente máquinas, equipamentos e material de construção. Ele é importante porque indica se a capacidade de produção do país está crescendo e também se os empresários estão confiantes no futuro. FONTE: <http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=204 5:catid=28&Itemid=23>. Acesso em: 8 nov. 2018. Na análise de Nathaniel Leff havia uma grande capacidade produtiva inaproveitada no setor de bens de capital no Brasil. Situação percebida na indústria automobilística, em que a capacidade ociosa chegou a 50%. Sobretudo, neste período, houve uma subestimação da capacidade de competição das empresas já instaladas e em operação no Brasil, bem como uma superestimação das dimensões do mercado nacional (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). O Brasil do início da década de 1960 convivia com os avanços industriais trazidos pela política econômica do período anterior, mas, ao mesmo tempo, enfrentava e procurava vencer um cenário de desajustes econômico-industriais. TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 143 FIGURA 6 – PRAÇA RAMOS, SÃO PAULO, 1960 FONTE: <https://noticias.bol.uol.com.br/fotos/bol-listas/2015/08/09/100-fotos-que-vao-fazer-voce- querer-ter-vivido-no-brasil-de-antigamente.htm?fotoNav=54#fotoNav=67>. Acesso em: 8 nov. 2018. Outro motivo defendido para o baixo crescimento econômico brasileiro ao início da década de 1960 diz respeito ao setor de bens de consumo duráveis, cuja demanda não crescia de maneira satisfatória. A demanda reprimida que o Plano de Substituição de Importações buscou a atender esgotou-se rapidamente, resultando em uma renda per capita também decrescente e uma elevada concentração de renda no Brasil. Além disso, a falta de mecanismos para o financiamento de longo prazo da demanda trazia ainda mais dificuldades e limitações para a demanda. Já a partir de Francisco de Oliveira é possível compreender que a queda dos investimentos foi resultado do aumento da atividadesindical e política dos trabalhadores, dinâmica que em todo o período anterior populista havia sido os pilares do processo de acumulação industrial brasileira. Uma posterior interpretação de Francisco de Oliveira para a crise de crescimento brasileiro pós 1962 levava em conta as contradições de um modelo de acumulação baseado na produção de bens de consumo duráveis (departamento II) e as fracas bases internas do setor produtor de bens de produção (departamento I), uma vez que ambos os departamentos eram controlados pelo financiamento e pelo próprio capital estrangeiro (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). IMPORTANT E Uma explicação mais abrangente sobre a crise de 1962 certamente deveria considerar os vários aspectos abordados nas análises anteriores. Tratou-se efetivamente de uma crise cíclica, agravada pelo aumento da instabilidade política e pelas políticas de estabilização recessivas, como o Plano Trienal, num primeiro momento, e o próprio PAEG [Programa de Ação Econômica do Governo], a partir de 1964. Some-se a isso o fato de que era uma economia que se industrializara mantendo enorme dependência com relação ao setor externo, o que provocava frequentes crises cambiais. FONTE: Lacerda; Rego; Marques (2000). 144 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX Desta forma, a participação do capital estrangeiro resultava em um grande paradoxo para a economia nacional brasileira, pois, para que o Plano de Metas pudesse ser colocado em prática, e rápido, a entrada de um grande volume de capitais era fundamental. Contudo, a dependência externa criada a partir do momento em que as decisões econômicas passam a ser predominantemente estrangeiras não cria suporte para que o Estado brasileiro elabore um projeto mais amplo de crescimento e desenvolvimento para a economia. 3 CRESCIMENTO ECONÔMICO NO GOVERNO JOÃO GOULART (1961-1964): CRISE POLÍTICA E O PLANO TRIENAL DE CELSO FURTADO As eleições de 3 de outubro de 1960 elegem Jânio Quadros como presidente e João Goulart como vice-presidente, para o mandato de 1961 a 1965. Cabia a Jânio, portanto, realizar uma política econômica para enfrentar os problemas herdados do governo de Juscelino Kubitschek: aumento das taxas de inflação, déficit fiscal e pressão sobre o balanço de pagamentos. FIGURA 7 – CHAPA JAN-JAN: JÂNIO QUADROS E JOÃO GOULART FONTE: <https://dougnahistoria.blogspot.com/2016/08/o-governo-janio-quadros-1961.html; https://seuhistory.com/hoje-na-historia/joao-goulart-destituido-da-presidencia-do-brasil>. Acesso em: 8 nov. 2018. Uma das medidas ocorreu em março de 1961 por meio de uma reforma cambial que desvalorizava em 100% o chamado câmbio de custo, que era aplicado às importações preferenciais, tal como o petróleo, e o papel de imprensa. O objetivo era diminuir a pressão dos subsídios cambiais sobre o déficit público. Nos meses de maio e junho, o governo consegue obter sucesso na renegociação dos débitos com os credores externos e com organismos financeiros internacionais, com o fim de adiar os prazos de vencimento das dívidas externas do período entre 1961 e 1965 (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 145 Contudo, em agosto de 1961, por motivos políticos e pessoais, Jânio Quadros envia uma carta ao Congresso Nacional explicitando seu pedido de renúncia ao mandato de Presidente da República do Brasil. A abrupta saída do governo interrompe a continuidade de sua política econômica. Jango, como ficou conhecido João Goulart, assume a presidência em setembro de 1961 de forma conturbada. A Constituição do período, assim como a atual, mencionava que o vice-presidente deveria assumir o Governo em casos de renúncia, mas a classe dos militares se opunha a sua posse. Embora a classe política e o Congresso Nacional como um todo defendiam o cumprimento da legalidade em Jango assumir, os militares não retrocediam. Assim, o acordo conciliatório possível foi transformar o sistema político brasileiro em um regime parlamentarista. O vice-presidente tomaria possa, preservando a legalidade constitucional, mas parte de seu poder seria transferido para um primeiro- ministro, chefe de governo. Desta forma, Tancredo Neves, ministro do Governo Vargas, foi nomeado primeiro-ministro do Brasil em 1961. NOTA Existem diversas formas de organizar os sistemas políticos dos países, tendo suas características definidas pelos sistemas presidencialista e parlamentarista. No presidencialismo, o presidente da república é escolhido pelo povo e acumula as funções de chefe do Estado e Chefe do Governo, desempenhando funções mais amplas do Estado e de políticas econômicas. No parlamentarismo, há um presidente (nem sempre escolhido pelo povo), que recebe a função de chefe do Estado (nas monarquias esta figura é representada por um/a rei/rainha), e há o cargo do primeiro-ministro, definido, na maior das vezes, pelo próprio parlamento. O fato é que entre setembro de 1961 e janeiro de 1965 houve três gabinetes parlamentares diferentes no governo de Jango. O quadro de indefinição política impossibilita a implementação de uma política econômica consistente e de longo prazo. A taxa de inflação sobe de 33,2% em 1961 para 45,5% em 1962. O regime parlamentarista manteve-se apenas até janeiro de 1963, após a convocação de um plebiscito. Ao fim do ano de 1962, uma resposta foi dada à crise político fiscal e econômica brasileira por meio da apresentação do Plano Trienal. O economista responsável pelo Plano Trienal foi Celso Furtado, então ministro extraordinário para Assuntos do Desenvolvimento Econômico. O plano procurava conter a aceleração do aumento das taxas de inflação e a deterioração econômica causada pela dívida externa para promover o desenvolvimento econômico do país. 146 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX FIGURA 8 – CELSO FURTADO (À FRENTE), IDEALIZADOR DO PLANO TRIENAL FONTE: <https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/imagens/dossies/nav_jgoulart/fotos/Modulo6/ PNBFOTO007_s.jpg>. Acesso em: 8 nov. 2018. NOTA Celso Monteiro Furtado nasceu em Pombal (PB) no dia 26 de julho de 1920 e foi um dos mais importantes economistas brasileiros. Suas ideias enfatizavam o desempenho do papel do Estado na economia para a promoção do desenvolvimento econômico. Realizou sua tese de doutoramento na Universidade de Paris-Sorbonne em 1948 sobre a economia brasileira no período colonial. Foi integrante da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e junto a Raúl Prebisch fizerem desta instituição o centro de debates sobre o desenvolvimento latino-americano no século XX. Sua principal obra foi publicada em 1959, sob o título “Formação Econômica do Brasil”, mas foi autor de cerca de 30 livros sobre teoria, política e história econômica. Além da carreira acadêmica, ocupou cargos no Governo Federal, tal como no Ministério do Planejamento e na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Celso Furtado faleceu em 2004, no Rio de Janeiro. FONTE: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/celso-monteiro-furtado>. Acesso em: 8 nov. 2018. O Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social (1961-1965) foi elaborado por uma equipe liderada por Celso Furtado (redesignado como Ministro do Planejamento), cuja proposta passou a orientar a política econômica do Governo João Goulart dali em diante. Procurava-se recuperar o ritmo de desenvolvimento do período anterior e conter a progressiva dinâmica do processo inflacionário. Criado em apenas seis meses, o Plano foi um esforço ainda inicial de implantar-se o planejamento econômico no Brasil e, para tanto, buscou-se a “hierarquização de problemas, a fim de criar condições para que, dentro de uns poucos anos, [pudessem] ser introduzidas técnicas mais eficazes de coordenação das decisões” (MACEDO, 1975, p. 54). TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 147 Portanto, embora o plano tenha tido o sucesso econômico esperado, foi responsável por abrir caminhos para outras propostas e modelos econômicospara o enfretamento das dificuldades econômicas. É com o Plano Trienal que se criam e iniciam as chamadas reformas de base, que são medidas econômicas e sociais com caráter nacionalista, em que o Estado passa a ter uma intervenção mais específica na economia. Neste caso, a atuação do Estado incluía os setores da educação, da política fiscal, agrário, urbano e bancário, com o fim de superar a condição de subdesenvolvimento e garantir menores desigualdades sociais para o Brasil. “O Plano Trienal não alcançou realmente seus objetivos de promover o desenvolvimento e vencer a inflação. Mas sua contribuição foi ponderável na parte em que ele se propôs a intensificar o esforço de planejamento no país” (MACEDO, 1975, p. 68). Um dos motivos para o insucesso do Plano Trienal foi que devido ao escasso conhecimento sobre o processo inflacionário não se pôde efetuar um correto diagnóstico. Além de outras causas, a falha no diagnóstico é a principal causadora do fracasso do Plano, bem como a que trouxe maiores consequências à economia nacional. Sem haver capacidade de controlar os níveis de inflação, o nível geral de preços, obviamente, se eleva gradativamente e o Produto Interno Bruto cresce a taxas inferiores das passadas. O incentivo ao desenvolvimento econômico, mesmo com a indústria interna renovada, não tem sucesso nem parcialmente. Deste ponto adiante, os planos políticos e econômicos precisam combinar a situação passada, isto é, as consequências ocasionadas pelo governo anterior, com o momento presente (MACEDO, 1975; MARTONE, 1975). As medidas anti-inflacionárias adotadas, comparadas com outras desenvolvidas ao longo da história, foram consideradas bastante ortodoxas no sentido em que procuravam conter os gastos públicos e diminuir a liquidez. Rapidamente, as reivindicações das classes sindicais e políticas se impuseram contra a política de governo, com a recusa dos assalariados em suportar mais uma vez todo o peso do ajuste anti-inflacionário como havia sido nos períodos anteriores. Os dados econômicos relativos ao PIB per capita revelam um crescimento negativo: enquanto em 1962 a economia cresceu 6,6%, em 1963 o crescimento foi de apenas 0,6%, sendo que a meta de crescimento do Plano era de 7%. Com relação aos níveis de inflação, a meta estabelecida pelo Plano era de 25%, mas os índices mostraram uma inflação anual de 83,25%. (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000; MACEDO, 1975). O déficit de caixa do Tesouro Nacional, que havia sido programado para alcançar no máximo 300 bilhões de cruzeiros antigos, chegou a 500 bilhões. Quanto aos meios de pagamento, sua expansão que era prevista de 34% foi a 65%, impulsionada pela expansão do déficit do Tesouro e do crédito ao setor privado. O crédito ao setor privado também teve uma notável expansão, crescendo 54% os empréstimos do Banco do Brasil ao setor privado não bancário (MACEDO, 1975, p. 61). 148 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX Em julho 1963, Celso Furtado deixa a pasta do ministério e retorna à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). O acirramento dos conflitos sindicais e políticos, em um cenário de desestabilização interna devido ao baixo crescimento e alto nível de inflação, além do contexto de crise externa, prejudicam novamente a implementação de qualquer tipo de política com uma gestão mais articulada com diferentes ministérios e setores governamentais. O resultado é um cenário com taxas de inflação ainda maiores e o fim do governo do presidente democraticamente eleito, João Goulart, por meio do Golpe Militar brasileiro de 1º de abril de 1964. 4 GOLPE MILITAR DE 1964 E O MODELO DEPENDENTE E ASSOCIADO Com a tomada do poder pelos militares em 1964, o Brasil colocou fim ao chamado populismo. Os governos populistas foram aqueles que incorporaram amplas massas urbanas ao processo político do qual haviam sido excluídos há muitos anos. Tal movimento ocorreu em diversas economias latino-americanas, como foi o caso da Argentina, com Perón e do Brasil, com Vargas. Foi a partir deste contexto que a economia brasileira realiza a transição de predomínio do setor agroexportador para o urbano-industrial, pois o Processo de Substituição de Importações avançou com maior facilidade nos governos populistas, devido ao papel que os Estados nacionais assumiram em apoio a este processo. Contudo, os governos populistas eram acusados pelo pensamento econômico mais conservador de produzirem políticas excessivamente redistributivas, buscando distribuir uma renda ainda inexistente. Segundo a crítica conservadora, o populismo econômico geraria pressões inflacionárias e dificultaria o processo de acumulação do capital. Entretanto, todas as evidências empíricas sobre o caso brasileiro desmentem esse raciocínio: o salário mínimo, instituído em 1940, somente garantia condições indispensáveis à sobrevivência do trabalhador e de sua família, longe, portanto, de embutir qualquer política redistributiva ou que incorporasse os ganhos de produtividade (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000, p. 103). Ademais, se formos analisar historicamente, o salário mínimo não apresentou mudanças em seu valor real, quando descontada a inflação. Já o crescimento da atividade industrial e do PIB, entre 1930 e 1990, levou a quintuplicar o PIB per capita do país. O Brasil foi o país do mundo que teve maior crescimento do PIB entre 1870 e 1987. Considerando o aumento populacional, o aumento da renda per capita só foi superado pelo Japão no mesmo período. Já entre 1950 e 1987, momento fundamental do Processo de Substituição de Importações, o Brasil apresentou o terceiro maior crescimento do PIB per capita do mundo, superado apenas pelo Japão e pela China (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 149 Uma síntese do período militar, após 1964, revela que os militares eleitos de forma indireta tiveram uma postura tecnocrática-modernizante e comprometida em superar as políticas consideradas atrasadas e ultrapassadas de João Goulart. Entretanto, o novo regime manteve o discurso desenvolvimentista, comprometido com o crescimento econômico. A prioridade foi a normalização das relações com os organismos financeiros internacionais como forma de captação de recursos financeiros para o desenvolvimento econômico. Todas as ações militares propunham uma integração com países capitalistas mais desenvolvidos, principalmente com os Estados Unidos como forma de orientação econômica. O Brasil assume, então, uma clara subordinação aos interesses internacionais norte-americanos que levava a um aprofundamento do modelo de capitalismo dependente e associados aos capitais estrangeiros – já predominante desde o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek. Como resultado tem-se o aumento da internacionalização da economia brasileira frente aos capitais externos e a consolidação da oligopolização das empresas, com elevada participação das empresas multinacionais (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Desta forma, com o aumento da dependência externa para a execução das políticas econômicas e o consequente aumento do PIB, a dívida externa brasileira teve um enorme aumento (interessante apenas para os países mais desenvolvidos) – fato que se torna determinante para o desenvolvimento da economia brasileira até a atualidade. 5 PROGRAMA DE ACELERAÇÃO ECONÔMICA DO GOVERNO (1964-1967): ESTABILIZAÇÃO E MUDANÇAS INSTITUCIONAIS No sentido de interpretar o desenvolvimento brasileiro do período e, mais precisamente, as inconsistências que conduziram ao processo inflacionário, o governo militar que assume após o golpe de abril de 1964 formula o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG). O governo Castelo Branco (1964-1966) prioriza uma política de combate específico à progressiva elevação de preços, capaz de eliminar os estrangulamentos que bloqueavam a economia (MARTONE, 1975). A elaboração do PAEG ficou a cargo do recém-criado Ministério do Planejamento e da Coordenação Econômica. A equipe era lideradapor Roberto Campos, ministro do Planejamento, e por Octávio Gouvea de Bulhões, ministro da Fazenda (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). 150 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX O PAEG preocupava-se ainda com duas questões mais pontuais: primeiro, atenuar as desigualdades regionais através da concessão prioritária aos investimentos para as regiões Norte e Nordeste, por meio de uma política de isenção fiscal a estas regiões. Segundo, incentivar as exportações para que um nível mínimo de importações não impedisse o crescimento da produção interna (MARTONE, 1975). A hipótese do PAEG era de que, contida ou eliminada a inflação, o crescimento econômico seria uma consequência. Entretanto, os dados estatísticos de crescimento do PIB para o período mostram que o pressuposto se confirma apenas em parte. O PIB cresce, mas os padrões fora do previsto, e os preços se elevam em níveis muito superiores ao esperado. Todavia, se levarmos em conta os índices de inflação desde 1964, há uma melhora significativa (ver tabela a seguir). TABELA 2 – TAXAS DE CRESCIMENTO DO PIB E DOS PREÇOS (1964-66) Taxas de crescimento 1964 1965 1966 Prev. Real Prev. Real Prev. Real PIB 6,0 3,1 6,0 3,9 6,0 4,4 Preços 80,0 93,3 25,0 28,3 10,0 37,4 FONTE: Martone (1975, p. 80). Objetivos primordiais, com o desenvolvimento econômico, perderam total sentido frente à necessidade de pôr fim à inflação. O processo retroalimentar da inflação obriga constante atuação do Estado via políticas governamentais econômicas. O Governo buscava meios de intervenção, e esta “participação” aumenta após a intervenção militar (MARTONE, 1975). “Essas tensões [reajuste de preços de bens de consumo das empresas, aumento da carga tributária, gigantismo do setor público], acumuladas ao lado dos custos, [...] geraram a recessão econômica que caracterizou particularmente o ano de 1965” (MARTONE, 1975, p. 85, grifo nosso), com o decréscimo da produção industrial e o baixo crescimento do PIB. Este quadro também não trouxe posição econômica motivadora a novos investimentos, tampouco nas regiões objetivadas – Norte e Nordeste – nem substancialmente ao restante do território. FIGURA 9 – CASTELO BRANCO DISCURSANDO EM BRASÍLIA DURANTE O PAEG FONTE: <http://www.historialivre.com/imagens/paeg5005.jpg>. Acesso em: 8 nov. 2018. TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 151 O aspecto mais importante do PAEG foram as transformações institucionais impostas ao país, relativas às reformas bancárias e tributárias, e na centralização, por meio do autoritarismo militar, do poder econômico e político. O regime político permitiu ao governo executar uma política econômica voltada ao investimento privado, incentivando ainda mais o processo de oligopolização da economia brasileira (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Para a execução do PAEG, um diagnóstico econômico da situação brasileira também foi realizado, mas como foi embasado pela perspectiva ortodoxa monetarista, concluiu que o excesso de demanda era causado pela monetização dos déficits públicos, pela expansão do crédito às empresas e pelos aumentos salariais superiores ao aumento da produtividade. O único elemento que se enquadrava em uma proposta ortodoxa era que a estabilização seria alcançada de forma gradual com a redução do déficit público e da inflação, este último com previsão de 10% em 1967 – índice que resultou em 30% naquele ano. Veja as principais ações implementadas pelo PAEG que buscavam controlar as contas pública, aumentar as receitas e reduzir as despesas: Foi uma executada uma política monetária restritiva, com controle de emissão monetária e do crédito; e, especialmente, foi implementada uma dura política de contenção salarial. Essa política – uma derrota política dos trabalhadores e assalariados em geral – acabou provocando um efetivo arrocho [aperto] salarial, somente possível em um regime autoritário (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000, p. 105, grifo nosso). NOTA A política monetária apresenta dois movimentos básicos: um de expansão da atividade econômica e outro de contração da atividade econômica. Enquanto o primeiro procura aumentar a quantidade de moeda em circulação na economia para promover crescimento; o segundo, privilegia a diminuição da circulação monetária com o fim de controlar os índices de inflação e conter a aceleração da economia. Entretanto, as políticas monetárias e fiscais foram aplicadas de forma intercalada ao longo do tempo, alternando entre períodos de expansão da moeda e do crédito e período com forte contração monetária, resultando em uma dinâmica econômica baste difícil para o setor privado que provocou falências, concordatas e no aumento do desemprego (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Voltando aos aspectos institucionais do Plano de Ação Econômica do Governo, cabe mencionar que a reforma bancária de 1965 foi responsável por criar a estrutura básica do Sistema Financeiro Nacional (SFN) que temos até a atualidade, instituindo o Banco Central do Brasil (BACEN) e o Conselho Monetário Nacional (CMN). 152 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX Com um Sistema Financeiro Nacional estabelecido, o Brasil pode formar uma divisão entre instituições financeiras (com objetivo de financiar bens de consumo duráveis), bancos comerciais (que atendem o público físico e jurídico), e bancos de investimento (para o investimento privado e a especulação financeira). Além disso, criou-se a chamada correção monetária, que atualizava valores de toda a economia com base na inflação, o que permita convivência com altos níveis de inflação. Toda esta estrutura monetária serviu de estímulo para um forte movimento sem precedentes no Brasil de fusões e aquisições nacionais e estrangeiras. O resultado é de um sistema financeiro cada vez mais forte e competitivo economicamente, dinâmica que, obviamente, acirra ainda mais a formação de capitais oligopolizados. FIGURA 10 – CONSTRUÇÃO E ATUAL EDIFÍCIO-SEDE DO BANCO CENTRAL DO BRASIL FONTE: <https://www.bcb.gov.br/pre/Historia/HistoriaBC/historia_BC.asp>. Acesso em: 8 nov. 2018. NOTA O Edifício-Sede do Banco Central, inaugurado em 1981, em Brasília. O dobrão do Império, de 1725, serviu de inspiração para o projeto arquitetônico do Edifício-Sede. O arquiteto Hélio Ferreira Pinto modificou geometricamente as pontas da haste de Cruz de Cristo gravada na moeda e conferiu-lhe formas mais quadradas: daí surgiu a forma do prédio. Já a ideia das torres, que abrem espaço para os elevadores, nasceu dos quatro cantos da cruz. A área da plataforma para baixo do prédio é maior que a da plataforma para cima. Os seis subsolos ocupam a projeção total do terreno, de cerca de 10 mil m². Os 21 andares superiores têm área construída em torno de 1,8 mil m² cada. FONTE: <https://www.bcb.gov.br/pre/Historia/HistoriaBC/historia_BC.asp>. Acesso em: 8 nov. 2018. TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 153 FIGURA 11 – DOBRÃO DO IMPÉRIO (1725) FONTE: <https://bit.ly/2M8s562>. Acesso em: 8 nov. 2018. Em conjunto com a estruturação do Sistema Financeiro Nacional, criou- se o Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e o Banco Nacional da Habitação (BNH), que possibilitaram o fomento extraordinário da construção habitacional e do saneamento básico nas cidades brasileiras por meio da utilização dos recursos das cadernetas de poupança e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Por sua vez, a Reforma Tributária de 1967 criou o sistema tributário vigente na atualidade, que aumentou a arrecadação e deu centralidade às contas nacionais do governo, pois, além dos impostos mais organizados, deu grande importância a fundos como o FGTS, o Programa de Integração Social (PIS) e o Programa de Assistência ao Servidor Público (PASEP). Por fim, a avaliação do PAEG como um programa de estabilização econômica foi positiva, apesar dos custos gerados para uma parcela significativa da população. Os índices de inflação anuais reduziram para a casa dos 20% e o conjunto detransformações institucionais foram fundamentais para o crescimento econômico que se seguiria. Contudo, as críticas ao Plano apontam para erros no diagnóstico da inflação de demanda, o que resultou em medidas de política monetária com altos custos sociais para a população. Conforme a análise (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000, p. 106): “A política monetária restritiva praticada em 1966 foi equivocada, na medida em que a ameaça da retomada do crescimento inflacionário devia-se a pressões dos preços agrícolas, consequência da quebra de safra por causa da seca”. Além disso, outras críticas são dirigidas ao autoritarismo na implementação das transformações institucionais e na execução da política de estabilização. O regime militar trouxe crescimento econômico por meio do liberalismo econômico, mas em descompasso com o liberalismo político e democrático representativo (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). O projeto militar levado a cabo com o golpe de 1964 levou ao fortalecimento dos grandes oligopólios predominantemente estrangeiros, aumento da dependência externa e forte desnacionalização da economia – dinâmicas que interferiram na implementação de um modelo de desenvolvimento economicamente viável e socialmente justo. 154 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 6 O PROJETO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA DO GOVERNO MILITAR Antes do cessar do mandato de Castelo Branco é instaurada uma nova Constituição, em 1967, que de certa forma, delineia as ações do governo de Marechal Costa e Silva. As novas linhas de atuação foram apresentadas de forma demasiada genéricas quando tratavam dos problemas de política econômica, “versando somente sobre o homem, a humanização do desenvolvimento etc.”. (ALVES; SAYAD, 1975, p. 92). Em verdade, o Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED/1968-1970) estava amparado sob herança do Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social, cujo texto foi elaborado na última fase do governo Castelo Branco, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), e seria um roteiro de desempenho para o Governo seguinte. Tratava-se, especificamente, de um estudo prospectivo global: uma análise macroeconômica para dez anos; e um conjunto de diagnósticos setoriais, para um período de cinco anos (ALMEIDA, 2004). Em julho de 1967 foram definidas as Diretrizes de Política Econômica. Desta, surge ideia mais geral do que viria a ser o Plano Trienal do Governo, para o período de 1968 a 1970, no qual o PED estava inserido (o Plano Trienal resume-se no conjunto de medidas prioritárias apresentadas no PED). O PED foi constituído, essencialmente, em: “Objetivos Básicos, Diretrizes Gerais de Política Econômica, Programa Estratégico de Desenvolvimento, Diretrizes Setoriais e Desenvolvimento Regional” (ALVES; SAYAD, 1975, p. 93). O objetivo geral do plano, que condicionaria toda a política nacional, era o desenvolvimento econômico e social. Pretendia ser um “plano nacional de desenvolvimento” e “demonstrar a viabilidade do caso brasileiro”. Os movimentos de estabilização dos preços e o fortalecimento do mercado interno e da infraestrutura permanecem, mas de forma menos ortodoxa (ALVES; SAYAD, 1975; MIRANDA NETO, 1981). A metodologia do PED é proveitosa. O ponto de partida do plano deu-se pela realização de um diagnóstico da economia brasileira no período de 1964 a 1966, criticando, em grande parte, a política econômica de combate à inflação apresentada pelo PAEG. Percebe-se certa preocupação com a continuidade da política anterior ou, minimamente, uma tentativa de ultrapassar os erros cometidos, com vistas no longo prazo. A orientação metodológica reconhecia “o esgotamento [...] das oportunidades de substituir importações e a crescente participação do setor público na economia” (ALVES; SAYAD, 1975, p. 94-95), através de certa concentração de investimentos em áreas dadas como estratégicas, apesar destas ainda resumirem-se em infraestrutura. Uma tradição de planejamento governamental formava-se: as autoridades governamentais já tinham plena consciência da necessidade de se planejar a vida econômica da nação. As preocupações que surgiam eram com relação à execução e implementação dos planos, aspectos típicos destas operações e recentes às experiências brasileiras. TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 155 Com relação aos resultados obtidos, podemos dizer que esses foram atingidos em parte. O nível geral de preços cresceu a uma taxa inferior ao período passado. Entretanto, a principal causa foi à nova forma de distribuição e financiamento do déficit público. As despesas foram distribuídas ao longo do ano, e o financiamento era realizado com recursos ociosos das autoridades monetárias, reduzindo a participação inflacionária oriunda do déficit do Governo (ALVES; SAYAD, 1975). O governo seguinte, de Emílio Médici (1969-1974), apostava no crescimento rápido do país. A partir do segundo ano deste governo, em outubro de 1970, o Ministério do Planejamento divulga o Programa de Metas e Bases para o Governo para o período de 1970-1973. As diretrizes deste se completavam com o novo orçamento plurianual – 1971-1973; e com um primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND), previsto para ser implementado entre 1972 e 1974. O ingresso do Brasil num mundo desenvolvido até o final do século era o objetivo básico do Programa de Metas e Bases para o Governo. Quatro áreas foram definidas como prioritárias: a) educação, saúde e saneamento; b) agricultura e abastecimento; c) desenvolvimento científico e tecnológico; d) fortalecimento do poder de competição da indústria nacional. Entre as metas econômicas elencava- se: elevar níveis de crescimento, expansão do emprego, inflação decrescente e elevação do investimento público (ALMEIDA, 2004; MIRANDA NETO, 1981). O I PND objetivava elevar a economia nacional à categoria de “nação desenvolvida”. Para tanto, acreditava-se que a região centro-sul do país – Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – fosse polo gerador e propulsor da economia, “capaz de assegurar a expansão das indústrias, com o aporte científico e tecnológico nacional decorrente de um sistema educacional avançado” (MIRANDA NETO, 1981, p. 127). Além de não se confirmar, esta prospecção acarretou processo contrário; um “polo gerador e propulsor” de massiva concentração de capital e capacidade produtiva, aumentando as desigualdades regionais. Nessa época foram implementados grandes projetos de integração nacional, como de transportes e de telecomunicações. A ambição clara do Plano – criar um modelo brasileiro de desenvolvimento; uma nação desenvolvida – dava destaque aos insumos básicos devido, em maior parte, à primeira crise do petróleo (1973): indústria nuclear, pesquisa do petróleo, programa do álcool, construção de hidrelétricas (Itaipu) e o investimento em novas tecnologias (ALMEIDA, 2004; MIRANDA NETO, 1981). 156 UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX FIGURA 12 – CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE ITAIPU – 1975 FONTE: <https://ecivilufes.wordpress.com/2011/06/14/2-usina-hidreletrica-de-itaipu/>. Acesso em: 8 nov. 2018. Em termos metodológicos, corresponde a um período de ascensão do planejamento governamental no Brasil, via forte participação do Estado, pois, não se restringia mais à simples elaboração de planos e à regulação geral da economia. Instituições públicas passaram a controlar amplos setores da economia e diversas políticas regionais, como planos financeiros e creditícios (bancos de desenvolvimento, de habitação e regionais, financiamentos a setores privilegiados); produtivos; de desenvolvimento regional e projetos de grande porte (ponte Rio-Niterói, rodovia Transamazônica, hidrelétrica Três Marias, barragem de Itaipu, Central Nuclear de Angra dos Reis) (ALMEIDA, 2004). O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), já no governo de Ernesto Geisel (1974-1979), dedicou-se ao investimento em indústrias de base, sobretudo, siderúrgica e petroquímica. Alongava-se, portanto, além do Plano Decenalestabelecido com fim em 1976. Tratava a economia brasileira como grande potência mundial: em 1979 a renda per capita seria o dobro da década anterior. Em 1977, o PIB global do país conferiria ao Brasil o patamar de oitavo mercado mundial. Seriam desenvolvidos, paralelamente, dois planos básicos de desenvolvimento científico e tecnológico e o primeiro plano nacional de pós- graduação (ALMEIDA, 2004). Acreditava-se que a crise e os transtornos mundiais eram passageiros e que as condições de financiamento eram favoráveis. Com efeito, tem-se a famosa estratégia da “fuga para frente”. Assumia-se o risco de aumentar os déficits comerciais e a dívida externa, a favor de superar a crise e o subdesenvolvimento, hipoteticamente, pela estrutura industrial avançada que estava sendo construída – via transformações estruturais, ao invés das tradicionais medidas econômicas. Grande parte do financiamento para investimentos produtivos, em grande medida estatais (Eletrobrás, Petrobrás, Siderbras, Embratel), deveria vir de fontes externas, aumentando, consequentemente, o volume da dívida externa. O crescimento do PIB se eleva até 1979, mas com desequilíbrios nas transações correntes e aumento constante da dívida externa (ALMEIDA, 2004). TÓPICO 2 | MILAGRE ECONÔMICO 157 O II PND altera o rumo da industrialização brasileira, até então centrada no consumo de bens duráveis. Contemplava investimentos nas áreas de (ALMEIDA, 2004): a) insumos básicos: metais não ferrosos, exploração de minérios, petroquímica, fertilizantes e defensivos agrícolas, papel e celulose; b) infraestrutura e energia: ampliação da prospecção e produção de petróleo, energia nuclear, ampliação da capacidade hidrelétrica (Itaipu) e substituição dos derivados de petróleo por energia elétrica e pelo álcool (Proálcool), expansão das ferrovias e a utilização de carvão; c) bens de capital: mediante garantias de demanda, incentivos fiscais e creditícios, reservas de mercado (lei de informática) e política de preços. A figura a seguir organiza de forma temporal os principais planos econômicos e de desenvolvimento do Estado brasileiro vistos até este momento. Consulte sempre que precisar! FIGURA 13 – PLANOS ECONÔMICOS E DE DESENVOLVIMENTO SELECIONADOS Plano de Metas (1956 – 1961) / Juscelino Kubitschek (1951 – 1960) I PND (1972 – 1974) / Emilio Mèdici (1969 – 1974 II PND (1974 – 1979) / Ernesto Geisel (1974 – 1979) III PND (1979 – 1985) / João Figueiredo (1979 – 1985) PAEG (1964 – 1966) / Castelo Branco (1964 – 1967) Plano Decenal (1966 – 1976) / Castelo Branco (IPEA) Plano Trienal do Governo (1968 – 1970) / Costa e Silva (1967 – 1969) Programa de Metas e Bases (1970 – 1973) / Emilio Médici (1969 – 1974) Plano Trienal (1963 – 1965) / João Goulart (1961 – 1964) 19 5 0 19 6 0 19 70 FONTE: Adaptado de Vargas (2014, p. 45) Caro acadêmico, chegamos ao fim de mais um tópico de estudos relativo à formação econômica do Brasil. Não deixe de visualizar o resumo e realizar as questões de autoatividade logo a seguir! 158 Neste tópico, você aprendeu que: • Após o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, com intenso crescimento do PIB, a economia nacional foi marcada por uma desaceleração da economia que perdurou até 1967. • No início da década de 1960, o país beneficiava-se com os avanços industriais trazidos pela política econômica aplicada, mas, ao mesmo tempo, enfrentava um cenário de desajustes econômico-industriais. • Outro problema dizia respeito ao setor de bens de consumo duráveis, cuja demanda não crescia de maneira satisfatória. • Com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, João Goulart assume a presidência do país de forma conturbada, uma vez que a classe dos militares não apoiava seu governo. • A crise política fez com a taxa de inflação subisse de 33,2% em 1961 para 45,5% em 1962. • Com o Plano Trienal de Celso Furtado criaram-se as chamadas reformas de base, com medidas econômicas e sociais com caráter nacionalista. • Em 1964 o cenário da economia brasileira revelava-se com um alto nível de inflação e chegou ao fim o governo do presidente democraticamente eleito, João Goulart, por meio do Golpe Militar brasileiro de 1º de abril. • Na segunda metade da década de 1960, a economia brasileira realizou a transição de predomínio do setor agroexportador para o urbano-industrial. • Alguns dos resultados do período do golpe militar foram o aumento da internacionalização brasileira frente aos capitais externos e a oligopolização das empresas com elevada participação das empresas multinacionais. • Em 1964 foi elaborado o Plano de Ação Econômica do Governo, o PAEG, que priorizava uma política de combate específico à progressiva elevação de preços. • A reforma bancária de 1965 foi responsável por criar a estrutura básica do Sistema Financeiro Nacional (SFN). RESUMO DO TÓPICO 2 159 • O I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND, 1972-1974) dava destaque aos insumos básicos da economia: indústria nuclear, pesquisa do petróleo, programa do álcool, construção de hidrelétricas (Itaipu) e o investimento em novas tecnologias. • O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND, 1974-1979) dedicou-se ao investimento em indústrias de base, sobretudo, siderúrgica e petroquímica. 160 AUTOATIVIDADE 1 Cite um motivo pelo baixo dinamismo da economia brasileira ao início da década de 1960. 2 Celso Furtado foi um economista brasileiro com respeitável contribuição para o desenvolvimento da economia nacional. Comente sobre a participação dele nas políticas econômicas da década de 1960. 3 O Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), executado durante o governo de Castelo Branco (1964-1966), além de enfocar em questões econômicas, trouxe importante mudanças institucionais para o Brasil. Qual é a contribuição do PAEG quanto à reforma bancária? 161 TÓPICO 3 REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A década de 1980 imprimiu marcas tanto na economia quanto na população brasileira. Do ponto de vista econômico, passamos por dificuldades nunca vistas com baixíssimo crescimento do Produto Interno Bruto e altíssimo níveis de inflação. Para a população, representou o fim de uma ditadura militar extremamente autoritária que durou 20 anos. É a partir deste contexto histórico que iremos compreender os principais motivos da crise econômica da década de 1980, os quais causaram um forte aumento da dívida externa e uma desestruturação interna no Brasil. O processo inflacionário precisa ser visto com muito cuidado devido as suas especificidades, pois as causas da inflação nem sempre foram as mesmas. Nos anos 1980 houve diversas políticas que procuraram estabilizar a economia atacada pelo monstro da inflação, fato que abstraiu políticas mais amplas para o alcance de um desenvolvimento economicamente viável e socialmente justo. Fique atento às dicas ao longo do tópico e bons estudos! 2 A CRISE ECONÔMICA DOS ANOS 1980: DÍVIDA EXTERNA E DESESTRUTURAÇÃO INTERNA O segundo choque do petróleo, em 1979, acarreta uma forte regressão do alto desempenho econômico até então apresentado, bem como o declínio da própria ideia de planejamento econômico a partir do Estado. Pouco depois, a partir de 1982, a crise da dívida externa faz o país mergulhar numa longa fase de baixo crescimento e inflação elevadíssima, que persiste em certa medida até o Plano Real, em 1994. A fase final do regime militar, na década de 1980, cria uma atmosfera de turbulência econômica e política em virtude das eleições diretas para a Presidência da República. A política econômica adotada no final do ano de 1980 e ao longo de 1981 seguiu a perspectiva ortodoxa: controle das despesas públicas e dos gastos das empresas estatais; aumento da arrecadação com o Imposto de Renda e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas operações de câmbio; e uma violenta contração da liquidez real e do crédito, com exceção do setor agrícola (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX162 Na tabela a seguir dois períodos são apresentados: o primeiro, de 1970 a 1973, considerado o período do “milagre econômico”, em virtude do crescimento do PIB e decréscimo da taxa de inflação; o segundo, de 1981 a 1984, conhecido como a “década perdida”, correspondente à crise da dívida externa: os níveis do PIB se reduzem e as taxas de inflação sofrem aumento. Os montantes da dívida externa elevam-se ano a ano. São nítidos os contrastes entre os dois períodos. TABELA 3 – INDICADORES ECONÔMICOS, BRASIL, PERÍODOS SELECIONADOS Ano Crescimento do PIB nominal (%) Dívida externa (US$ milhões) Taxa de inflação (%) 1970 10,4 5.295 19,5 1971 11,3 6.622 20,3 1972 12,1 9.521 17,3 1973 14,0 12.572 14,9 (...) (...) (...) (...) 1981 –3,1 61.411 109,9 1982 1,1 70.198 95,5 1983 –2,8 81.319 154,5 1984 5,7 91.091 220,6 FONTE: Almeida (2004) Os dados sobre o setor externo também trazem uma leitura da realidade econômica do período (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000, p. 135). A balança comercial brasileira (diferença entre as exportações e as importações) que havia apresentado déficit de US$ 2,8 bilhões em 1980, registrou superávit de US$ 1,2 bilhão em 1980. As exportações alcançaram 8,5% do PIB em 1981, aumentando 0,5% em relação a 1980. Já as importações caíram 1,2%, passando de 9,2% do PIB em 1980 para 8,0% em 1981. Contudo, as taxas de juros internacionais aumentaram em quase 4% em 1981, aumentando em US$ 3 bilhões as despesas brasileiras com juros da dívida externa. Para 1982, os indicadores econômicos são ainda mais dramáticos devido à pressão na balança de pagamentos ocasionada pela moratória mexicana. O superávit reduziu-se para US$780 milhões, em função de uma redução de US$ 3 milhões na quantidade de exportações e de US$ 2,7 nas importações. As despesas com os juros da dívida externa saltaram para US$ 11,4 bilhões e o déficit em conta corrente para US$ 14,8 bilhões. Com a dificuldade de financiamento do déficit, as reservas líquidas brasileiras tornaram-se negativas em mais de US$ 2 milhões. Em 1983 a situação econômica é ainda mais grave devido ao aumento dos índices de inflação. A política econômica implementada continuava TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 163 com a contração da demanda como meio de conter a inflação. Contudo, a maxidesvalorização cambial de 30% efetuada em fevereiro de 1983, em conjunto com um choque agrícola, acelerou a inflação ao nível de 155% ao ano! O aumento da inflação, aliado à desindexação parcial dos salários, provocou uma queda de 15% no poder de compra dos assalariados. Ainda, em 1983 a queda do PIB em 2,8% e do produto industrial em 5,2% provocam uma taxa de desemprego de 7,5% entre aqueles ligados à produção. Este histórico estatístico permite conhecer um pouco melhor os prejuízos econômicos no início da década de 1980. A recessão entre 1981 e 1983 provocou uma perda de 11% na renda per capita do Brasil, situação que somente havia sido enfrentada durante a depressão econômica mundial da década de 1930 (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). TABELA 4 – INDICADORES ECONÔMICOS AGREGADOS PARA OS ANOS 1970 E 1980, BRASIL (EM PERCENTUAL) 1971 – 1980 1981 – 1990 Crescimento do PIB real 8,5 1,5 Crescimento do PIB real por habitante 5,9 – 0,4 Inflação (deflatores do PIB) 40,9 562,9 FONTE: Almeida (2004, p. 25) Por fim, os dados da tabela anterior trazem um outro agrupamento de dados para as décadas de 1970 e 1980. A taxa média de crescimento do PIB real diminui drasticamente durante a década de 1980, bem como o crescimento do PIB per capita, chegando a um crescimento negativo de 0,4%. Já a variação mediana da inflação dá um salto gigantesco. Se na década de 1970 a inflação se manteve na taxa de 41%, nos anos 1980 a média da taxa chega a 563%. FIGURA 14 – REMARCADOR DE PREÇOS: A MÁQUINA DA INFLAÇÃO, 1980 FONTE: <https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,fotos-historicas-a-maquina-da- inflacao,11211,0.htm>. Acesso em: 8 nov. 2018. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 164 NOTA A figura anterior remete a uma cena comum no comércio antes do controle dos altíssimos níveis de inflação brasileiros: ver um gerente ou um funcionário com uma “arma” em punho circulando entre prateleiras e clientes. A “arma” era a máquina de remarcar preços, usada quase que diariamente em uma época de inflação fora de controle. O remarcador tornou-se o símbolo desta época, assim como a falta de mercadorias e o arrocho do crédito. Para fugir da ação da maquininha, as pessoas corriam ao supermercado para comprar de manhã antes que os preços subissem ou as mercadorias se esgotassem. FONTE: <https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,fotos-historicas-a-maquina-da-inflacao, 11211,0.htm>. Acesso em: 8 nov. 2018. Em 1984 há um movimento de retomada do crescimento econômico no país, embora o indicador de inflação continue revelando resultados preocupantes. Neste período, a recuperação econômica dos Estados Unidos fui muito importante para a economia brasileira. Em função de uma forte alta nos preços dos produtos primários, houveram bons níveis de exportações a partir do Brasil, repercutindo em um crescimento da renda agrícola e em compras de insumos e maquinários. Acompanhe o crescimento econômico de diferentes setores em 1984: • Indústria de transformação: 6,1%. • Indústria extrativa mineral: 27,3%. • Produção industrial como um todo: 7%. • Indústria de bens de consumo duráveis: -7,5% • Indústria de bens não-duráveis: 2,5% • Bens de capital: 14,8% O setor de extrativismo mineral cresceu, sobretudo, em função da expansão contínua do petróleo. Em 1981, a participação do petróleo nacional no consumo era de 21%; em 1984, era de 42%. TABELA 5 – VARIÁVEIS MACROECONÔMICAS INTERNAS, 1978-1985, BRASIL (%) Ano PIB Investimento/PIB IGP-DI Déficit público 1978 4,8 22,2 40,5 5,7 1979 7,2 23,0 77,2 8,3 1980 9,1 22,5 110,2 6,7 1981 –3,1 21,0 95,2 6,0 1980 1,1 20,4 99,7 7,3 1983 –2,8 16,1 211,0 4,4 1984 5,7 15,5 223,8 2,7 1985 8,4 16,7 235,1 4,3 FONTE: Lacerda, Rego e Marques (2000, p. 138) TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 165 Conforme podemos visualizar na tabela anterior, o PIB teve um crescimento de 5,7% após um período de instabilidade. A produção agrícola também foi favorável, com aumento de 7,9% e um grande aumento na produção de alimentos para o mercado interno. A inflação, mesmo com todos os demais indicadores, saiu de 211% para 224% de taxa anual de inflação. Por meio da tabela fica bastante evidente certo crescimento do PIB brasileiro em 1984 e 1985 quando comparado com os anos anteriores. Contudo, o grande vilão das políticas econômicas deste período, a inflação, seguia com indicadores bastante problemáticos. DICAS Não deixe de assistir ao documentário “Laboratório Brasil - 15 anos do Real”. A partir deste material produzido pela TV Câmara em 2007, você poderá ter uma ideia de como foi conviver com altíssimos níveis de inflação e a complicada série de tentativas de acabar com ela nas décadas de 1980 e 1990. FONTE: <https://youtu.be/3LHH7nigO6A>. Acesso em: 8 nov. 2018. 3 ESTAGNAÇÃO E INFLAÇÃO BRASILEIRA: OS PLANOS DE ESTABILIZAÇÃO ECONÔMICA Como vimos, durante a década de 1980, considerada “perdida”, a economia passa por um período de estagnação, com aumento gradual dos níveis de inflação. O planejamento governamental que tinha se visto até então, segue descontinuado. O III PND, por exemplo, permanece no papel. Ao longo deste período, as únicas ações a partir do Estado ocorreram a partir de planos de estabilização da inflação. Medidas econômicas que, em verdade, “estabilizavam” os níveis de inflação a um patamar muito alto, gerando muitos prejuízos econômicos e sociais. Durante o governo de José Sarney (1985- 1990) põem-se em prática quatro principais planos (ALMEIDA, 2004): • Plano Cruzado (fevereiro de 1986), congela os níveis de preços, tarifas e câmbio, e implanta a moeda “Cruzado”; estabelece um “gatilho” salarial para os salários serem reajustados em cadamomento que a inflação atingisse o nível de 20% (que se tornou cotidiano). • Plano Cruzado 2 (novembro de 1986), aumento de tributos e impostos, elevação da taxa de juros. • Plano Bresser (junho de 1987), congela preços, salários e alugueis, desativa-se o “gatilho”, aumentam-se os tributos. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 166 • Plano Verão (janeiro de 1989), congela salários e tarifas, efetua-se corte de três zeros do Cruzado, altera-se o nome da moeda para Cruzado Novo. Observando-se a tabela a seguir, percebe-se que todos os planos “Sarney” não são nem paliativos para conter a dinâmica inflacionária, pois os índices de crescimento caem e os de inflação sobem ainda mais. TABELA 6 – INDICADORES ECONÔMICOS, GOVERNO SARNEY Ano Crescimento do PIB Real (%) Taxa de desemprego Taxa de inflação (%) 1985 7,9 5,3 235 1986 8,0 3,6 65 1987 3,6 3,7 416 1988 –0,1 3,8 1.038 1989 3,3 3,3 1.783 FONTE: Almeida (2004) Se olharmos para um contexto mais amplo, percebemos que o cenário de crise, e com prospecções nada boas em que Sarney assumiu o Governo, é revigorado para um contexto ainda mais turbulento quando assume o Governo de Fernando Collor de Mello. Como medida instantânea após a sua entrada na Presidência da República, o chamado Plano Collor promove o choque mais brutal que a economia e a sociedade brasileira puderam conhecer: a nova reforma monetária confisca todas as aplicações financeiras e estipula um limite aos saques à vista. É ainda estabelecida nova moeda, o “Cruzeiro”. A inflação é logo controlada para uma média de 3%. Entretanto, em seis meses, volta ao patamar de 20%. Foi determinado novo congelamento – o Plano Collor 2 – o que gerou novo e potencializado surto inflacionário em pouco tempo. Agora, de volta aos planos de estabilização, cabe-nos entender um pouco melhor cada um deles. Plano Cruzado Em 28 de fevereiro de 1986 é lançado o programa brasileiro de estabilização, mais conhecido como Plano Cruzado, cujas propostas promoveram uma reforma monetária que estabeleceu o Cruzado (Cz$) como novo padrão monetário nacional, com o corte de três zeros em substituição a antiga moeda Cruzeiro. O objetivo principal ali era criar uma moeda nova, com estabilidade, que pudesse eliminar a memória inflacionária. Contudo, não foram esclarecidas e estabelecidas metas para as políticas fiscais ou monetárias de médio prazo, devendo ficar a cargo dos condutores do plano. TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 167 FIGURA 15 – PLANO CRUZADO: REMARCAÇÃO DAS CÉDULAS E PRESIDENTE SARNEY FONTE: <https://veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/da-veja-ao-pt-todos-elogiaram-o- plano-cruzado>; <https://www.youtube.com/watch?v=TOdzFViggrU>. Acesso em: 8 nov. 2018. A conversão dos salários em cruzados tomou como base o poder de compra médio dos seis meses anteriores. A fórmula de conversão levava em conta o poder de compra médio entre setembro de 1985 e fevereiro de 1986 em valores correntes, ou a preços de fevereiro. Admitiu-se que os salários eram pagos no último dia mês e gastos integralmente por ocasião de seu recebimento. Assim foi concedido um abono salarial de 8% a todos os trabalhadores assalariados. Esta decisão de cunho mais político procurava promover uma redistribuição de renda em favor dos assalariados, tornando-se a decisão “pela média” mais aceitável por parte dos trabalhadores (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Para favorecer ainda mais as classes mais baixas, o salário mínimo foi definido em Cz$ 804,00, valor que significava um abono de 16% em relação ao poder de compra médio dos seis meses anteriores. Os salários também não foram congelados com o Plano Cruzado. As datas dos dissídios anuais coletivos foram todas restauradas. Devido aos dissídios, os salários seriam automaticamente corrigidos com base em 60% da variação acumulada do custo de vida. Além dos reajustes anuais, os salários passariam a ser corrigidos de acordo com uma escala móvel – o chamado gatilho salarial – sempre que a taxa de inflação acumulasse 20% (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Entretanto, os preços ao consumidor foram congelados por tempo indeterminado nos níveis que se encontravam em 27 de fevereiro de 1986. Não houve qualquer compensação pela inflação anterior. Assim, os preços públicos, congelados, encontravam-se defasados em relação aos custos de produção. E, também não havia uma determinação da forma em que o descongelamento iria ocorrer no futuro. O Plano Cruzado foi considerado um sucesso, pois no curto prazo, as taxas de inflação caíram muito. Assim, o Plano obteve um sucesso popular tremendo, dando origem aos “fiscais do Sarney” integrados por cidadãos que de forma autônoma procuravam fiscalizar os preços congelados do presidente Sarney. O congelamento se tornou, assim, no elemento mais popular do Plano, o que levaria o governo a sustentá-lo de todas as formas possíveis, sobretudo, tratando-se do ano eleitoral. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 168 O resultado, porém, não foi conforme o planejado. O aumento do poder de compra dos salários e o consumo reprimido pela alta inflação dos anos anteriores levou à despoupança da população e a uma explosão de consumo. Com o impacto da elevada demanda na economia real, a continuidade do congelamento de preços tornava-se uma tarefa muito difícil frente a uma oferta que não poderia acompanhar a demanda. Ademais, alguns preços, sobretudo, de tarifas públicas encontravam-se defasados por não terem sido alinhados antes do congelamento. Com o passar dos meses, o setor privado contestava o congelamento, pois alegava que os preços não cobriam os custos de produção, levando ao descumprimento da regra por meios ilegais. FIGURA 16 – AGENTES DA POLÍCIA FEDERAL FISCALIZAM O SUPERMERCADO CB NO RIO DE JANEIRO, 1987 FONTE: <https://acervo.oglobo.globo.com/incoming/plano-bresser-21461686>. Acesso em: 8 nov. 2018. Após as eleições com vitória esmagadora aos partidos do governo, foi anunciado um pacote mais integrado de combate aos desequilíbrios, o chamado Cruzado II. Houve aumentos nos impostos diretos sobre produtos como cigarros, bebidas e automóveis e reajuste dos preços públicos, resultando em uma perda do poder de compra dos salários e uma retração da demanda agregada. A taxa de juros também foi elevada em um cenário de incertezas econômicas e queda do salário real. Os antigos conflitos de distribuição de renda voltam a aparecer, uma vez que a memória inflacionária não havia sido eliminada. Em decorrência das políticas monetárias e fiscais executadas, o país declara moratório aos credores internacionais em fevereiro de 1987 (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Plano Bresser Com a saída de Dílson Funaro em fevereiro de 1987 do ministério da Fazenda, Bresser Pereira assume o comanda da pasta e lança já no mês de junho o Plano de Estabilização Econômica, conhecido como Plano Bresser. TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 169 Levando em conta os resultados do Plano Cruzado, o novo Plano une elementos ortodoxos e heterodoxos. O Plano não visava atingir inflação zero, mas controlar os índices de preços para que não se estabelecesse uma hiperinflação. Para tanto, o gatilho salarial foi extinto e procurou-se reduzir os gastos do governo. As taxas de juros foram mantidas elevadas com o fim de inibir o consumo de bens duráveis. Os salários e os aluguéis foram novamente congelados ao patamar que se encontravam em 12 de junho. O indexador utilizado para os ajustes salariais a partir de setembro foi a Unidade de Referência de Preço (URP). Embora os preços terem sido novamente congelados, houve um alinhamento prévio antes do congelamento para que não ocorressem pressões inflacionárias futuras. Os contratos financeiros pós e pré-fixados foram respeitos por meio de uma correção, garantindo a continuidade do investimento. E o IPC teve sua base alterada para evitar que o índice do mês de julho sofresse com a inflação anterior ao Plano (LACERDA; REGO; MARQUES,2000). Deste modo, este conjunto de medidas econômicas delineados pelo Plano Bresser procurava aparar muitas das arestas econômicas que haviam ficado soltas com a execução do plano de estabilização anterior. FIGURA 17 – MÁRIO COVAS, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, BRESSER PEREIRA, ULYSSES GUIMARÃES, LUIZ HENRIQUE E CARLOS SANT’ANNA NA APRESENTAÇÃO DO NOVO MINISTRO EM ABRIL DE 1987 FONTE: <https://acervo.oglobo.globo.com/incoming/plano-bresser-21461686>. Acesso em: 8 nov. 2018. Quanto às políticas econômicas fiscal e monetária, houve um comprometimento em praticá-las de forma rigorosa, reduzindo o déficit público e assegurando a independência do Banco Central do Brasil. O Plano era mais consistente e flexível que o Cruzado, conseguindo atingir alguns de seus objetivos tal como a redução parcial da inflação, do déficit público e propiciar a expansão dos saldos comerciais entre exportação e importação e a renegociação da dívida externa com os credos financeiros internacionais, suspendendo a moratória da dívida. Contudo, ao longo do tempo, a política ia perdendo apoio popular uma vez que o histórico do congelamento de preços no longo prazo não trazia boas lembranças ao comércio e aos consumidores. No médio prazo, a inflação UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 170 permanecia elevada, levando que o governo aumentasse os preços de forma emergencial antes do prazo de 3 meses mencionado no Plano. Em dezembro de 1987 a taxa de inflação mensal atingiu 14,14% e antecipou o pedido de demissão de Bresser Pereira. Maílson da Nóbrega: da política do feijão com arroz ao Plano Verão O sucessor de Bresser Pereira no ministério da Fazendo foi Maílson da Nóbrega, cuja política econômica aplicada ao longo de 1988 foi bastante tímida, gradual e pouco intervencionista, por isso, denominada política do feijão com arroz. O objetivo era cortar o déficit operacional de 8% para 4% e reter a inflação aos 15% ao mês. Entre as medidas para estabilizar a inflação e desaquecer a economia estava a suspensão temporária dos reajustes do funcionalismo público e o adiamento dos aumentos dos preços administrados. Contudo, tais medidas não tiveram sucesso e, em julho de 1988, a inflação já ultrapassava os 24%. Os preços públicos foram reajustados e emitiu-se moeda para cobrir os superávits da balança comercial. Com a nova Constituição emitida em 1988, os gastos orçamentários da União ficaram ainda mais amarrados, dificultando a redução dos gastos públicos de forma rápida. Em 15 de janeiro de 1989 foi anunciado o Plano Verão. Tratava-se mais uma vez de um plano misto entre diversas medidas. Seria o terceiro choque econômico e a segunda reforma monetária do governo Sarney – cuja imagem já estava bastante prejudicada. Foi criada uma nova unidade monetária, o Cruzado Novo (NCz$), equivalente a mil cruzados. O dólar foi cotado a NCz$ 1,00, após uma desvalorização da moeda nacional. FIGURA 18 – CRUZADO NOVO, MAÍLSON DA NÓBREGA E ZÉLIA CARDOSO DE MELO FONTE: <http://www.panoramamercantil.com.br/entrevista-com-mailson-de-nobrega/>. Acesso em: 8 nov. 2018. TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 171 Seguindo os objetivos dos planos de estabilização da década de 1980, por meio do Plano Verão procurava-se contrair a demanda agregada e promover a queda nos níveis de inflação. Mantiveram-se altas as taxas reais de juros, o crédito ao setor privado foi restrito, houve desindexação e promessa de ajuste fiscal. Outra vez, os preços eram congelados a partir da data de publicação da política, com o realinhamento de alguns preços que se encontravam defasados. Já os salários, foram corrigidos pelo poder de compra dos últimos 12 meses e reajustados em 26,1%. Com a extinção da Unidade Real de Valor (URV), caberia ao Congresso Nacional a decisão a respeito da política salarial. E novamente não houveram resultados positivos. A inflação de 3% em fevereiro salta para 7% já em abril. O governo teve que elevar ainda mais a taxa de juros, descumprindo a promessa de redução do déficit público naquele ano. Os preços tiveram que ser descongelados e reajustados devido à desvalorização da moeda. Em setembro de 1989, o governo suspende novamente o pagamento da dívida externa. Veja na tabela a seguir alguns indicadores econômicos do período do governo Sarney que revelam um pouco mais sobre a realidade econômica em que o Brasil atravessava na segunda metade da década de 1980. TABELA 7 – INDICADORES ECONÔMICOS, GOVERNO SARNEY, 1985-1989 Ano PIB, valor e crescimento Poupança % do PIB Taxa de inflação Taxa de desempregoUS$ milhões % real 1985 211,1 7,9 20,3 235 5,3 1986 257,8 8,0 18,0 65 3,6 1987 282,4 3,6 22,7 416 3,7 1988 305,7 –0,1 25,7 1.038 3,8 1989 415,9 3,3 27,1 1.783 3,3 FONTE: Almeida (2004, p. 26) Os últimos meses do governo Sarney foram marcados por um verdadeiro caos político e econômico. A credibilidade do governo era baixíssima após tantas tentativas, e todas fracassadas, de estabilização da economia. Mesmo com três planos executados – Cruzado, Bresser e Verão – os níveis de inflação eram ainda mais preocupantes do que no período da hiperinflação. Em 1989, a inflação anual foi de 1.764,86%, e as taxas mensais nos primeiros meses de 1990 foram de 64,17% em janeiro, 73,21% em fevereiro, e 85,12% na primeira quinzena de março! (LACERDA; REGO; MARQUES, 2000). Com este cenário econômico trágico, em 15 de março de 1990, Fernando Collor de Melo assumia a presidência da República com o anúncio de um novo plano de estabilização econômica. UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 172 Após estudarmos tantas transições econômico-políticas ao longo da formação econômica do Brasil, sugerimos que você organize estas informações históricas de forma cronológica para facilitar os estudos. O quadro a seguir pode ser um ponto de partida, no qual apresentamos, de forma sucinta e objetiva, todos planos explícitos de governo desde os anos 1950 até a década de 1990, bem como suas principais medidas, metas e objetivos. QUADRO 1 – SÍNTESE SOBRE OS PLANOS DE GOVERNO, BRASIL, 1956-1994 Plano Governo Período Medidas/Metas/Objetivos Plano de Metas Juscelino Kubitschek (1956-1961) 1956-1961 Planejamento em nível setorial: energia; transportes; alimentação; indústrias de base e educação. Processo de substituição de importações. Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social João Goulart (1961- 1964) 1963-1965 Recuperação do ritmo de desenvolvimento; contenção do processo inflacionário. Implantação do planejamento econômico. Plano de Ação Econômica do Governo Castelo Branco (1964-1967) 1964- 1966 Cresc imento econômico; combate à elevação dos preços. Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social Castelo Branco (IPEA) 1966-1976 Roteiro de desempenho para o período 1967-1976. Plano Trienal do Governo – Plano Estratégico de Desenvolvimento Costa e Silva (1967- 1969) 1968- 1970 Aceleração do desenvolvimento e contenção da inf lação; objetivo de implantação de um plano nacional. Programa de Metas e Bases para o Governo Emilio Médici (1969- 1974) 1970-1973 Diretrizes para o I PND: educação; agricultura; desenvolvimento de C&T; competição industrial. Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento Emilio Médici 1972-1974 Projetos de integração nacional; planos de desenvolvimento regional. Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento Ernesto Geisel (1974- 1979) 1974-1979 Fortalecimento às indústrias de base; planos básicos de desenvolvimento de C&T; plano nacional de pós-graduação. Terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento João Figueiredo (1979-1985) 1979-1985 Descontinuado por motivo de crise econômica após longo período de planejamento para o desenvolvimento. Plano Cruzado José Sarney (1985- 1990) Fev./1986- Nov/1986 Congelamento de preços, salários, tarifas e câmbio, e troca de moeda; “Gatilho” salarial. Plano Cruzado II José Sarney Nov./1986- Jun/1987 Aumento de tributos e impostos; elevaçãoda taxa de juros. TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 173 Plano Bresser José Sarney Jun./1987 Congelamento de preços, salários e aluguéis; desativa-se o “gatilho”. Plano Verão José Sarney Jan/1989 Congelamento dos salários e tarifas; corte de três zeros; Cruzado Novo. Plano Collor Fernando Collor de Mello (1990-1992) Mar/1990- Fev/1991 Nova reforma monetária, confisco de aplicações financeiras e limites aos saques das contas à vista. FONTE: Adaptado de Vargas (2009, p. 48-49) Caro acadêmico! Esperamos que sua jornada ao longo da disciplina de Formação Econômica do Brasil tenha sido muito proveitosa. Os temas aqui discutidos são extremamente importantes para a compreensão da economia brasileira na atualidade. Acompanhe a leitura complementar a seguir e realize as questões de autoatividade para completar ainda mais esta etapa de ensino! Plano Collor II Fernando Collor de Mello Fev./1991 Novo congelamento e “confisco”. Plano Real Itamar Franco (1992- 1994) 1993-1994 Completa reforma monetária, com substituição do meio circulante pelo Real. Conclusão UNIDADE 3 | A ECONOMIA BRASILEIRA DO SÉCULO XX 174 LEITURA COMPLEMENTAR Plano Real: o fim de mais uma grande inflação Roberto Ellery Jr. Diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília (FACE/UnB) Quando a inflação sai de controle é criado um processo de distribuição de renda dos que têm rendas fixas para os que podem reajustar livremente suas rendas. Também ocorre um aumento da volatilidade da economia, fazendo com que empresários demandem maiores taxas de retorno para seus investimentos do que aceitariam em condições normais. Por construção, a maioria dos modelos de macroeconomia não consegue explicar essas questões. A dificuldade em modelar moeda e inflação faz com que existam poucas teorias tratando de como reduzir altas taxas de inflação, fenômeno que assolou o Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Foi a época dos choques heterodoxos, que, normalmente, recorriam a congelamento de preços e controle de salários. Em 1994, apareceu o Plano Real que, de saída, rejeitou o congelamento de preços. Começou com uma tentativa de criar uma unidade de valor que conquistasse a confiança da população, a Unidade Real de Valor (URV). A ideia era que a população passasse a ter a URV como unidade de valor confiável enquanto o valor da URV em termos de cruzeiros reais, a moeda da época, era modificado todos os dias. Esse mecanismo permitiu o ajuste dos preços a uma nova referência sem obrigar o Banco Central a abrir mão da política monetária por meio de uma dolarização ou de uma caixa de conversão. A transição por meio da URV foi inspirada em uma proposta de moeda indexada elaborada pelos economistas Pérsio Arida e André Lara Rezende. Tal engenharia econômica permitiu que o Brasil ficasse livre do câmbio fixo. Em vez disso, adotamos um regime de bandas em que era admitida alguma flutuação, de forma a acomodar a política monetária. Feita a transição para a nova moeda, o resto era seguir o proposto por Thomas Sargent em um dos poucos artigos dedicados ao combate de hiperinflações: The Ends of Four Big Inflations. O início da conclusão desse texto resume bem o que era preciso ser feito para que a inflação não contaminasse o real: “The essential measure in ending hyperinflation in each of Germany, Austria, Hungary and Poland were, first, the creation of an independent central bank that was legally committed to refuse the government’s demand for additional unsecured credit, and, second, a simultaneous alteration in the fiscal police regime”. Na ausência de câmbio fixo, sem uma autonomia formal do Banco Central e com a necessidade de expandir o gasto para atender às demandas sociais da Constituição, seguir as recomendações de Thomas Sargent não seria uma tarefa simples. TÓPICO 3 | REDEMOCRATIZAÇÃO E INFLAÇÃO 175 Para conseguir dar credibilidade ao Banco Central e estruturar uma política fiscal capaz de conciliar as demandas sociais e a necessidade de minimizar os prejuízos à política monetária, que precisava estar acima de qualquer suspeita, o presidente Fernando Henrique Cardoso montou uma equipe econômica de altíssimo nível, da qual destaco Pedro Malan, ministro da Fazenda, e Gustavo Franco, presidente do Banco Central. Garantir a estabilidade do Real forçou uma trajetória crescente da carga tributária, a elevação da dívida pública e a necessidade de conviver com altíssimas taxas de juros. O aumento da carga tributária e da dívida pública foi a forma de atender às demandas sociais sem recorrer ao financiamento inflacionário. Os juros altos eram o preço a pagar pela credibilidade de um Banco Central sem autonomia formal. Mesmo com as dificuldades e os custos citados anteriormente, o Plano Real conseguiu manter a estabilidade seguindo as linhas inicialmente propostas até 1999. Naquele ano, a combinação de gastos altos, dívida pública crescente, juros altos e câmbio já praticamente fixo não resistiu à crise dos países emergentes e o Brasil se viu forçado a realizar mudanças radicais na condução da política econômica. Foi naquela época que, já com Armínio Fraga na presidência do Banco Central, apareceu o tripé macroeconômico. O tripé consistiu na combinação de câmbio flexível, regime de metas de inflação e busca por superávits primários nas contas do governo. Mas essa é outra história. “A dificuldade em modelar moeda e inflação faz com que existam poucas teorias tratando de como reduzir altas taxas de inflação, fenômeno que assolou o Brasil nas décadas de 1980 e 1990”. FONTE: ELLERY JR., Roberto. Plano Real: o fim de mais uma grande inflação. Desafios do Desenvolvimento, ano 10, 80. ed., 2014. Disponível em: <http://desafios.ipea.gov.br/index. php?option=com_content&view=article&id=3055&catid=29&Itemid=34>. Acesso em: 23 nov. 2018. 176 Neste tópico, você aprendeu que: • O segundo choque do petróleo, em 1979, acarretou uma forte regressão do alto desempenho econômico do período. • A política econômica entre 1980 e 1981 seguiu a perspectiva ortodoxa: controle das despesas públicas e dos gastos das empresas estatais; aumento da arrecadação com o Imposto de Renda e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas operações de câmbio; e uma violenta contração da liquidez real e do crédito. • O início da década de 1970 é considerado como “milagre econômico” e a década de 1980 como “década perdida”. • Na década de 1970 a inflação manteve-se na taxa de 41%; nos anos 1980 a média da taxa chega a 563%. • Em 1984 houve uma retomada do crescimento econômico brasileiro com o aumento da produção em setores como o agrícola. • As políticas econômicas da década de 1980 podem ser resumidas em políticas de estabilização econômica em função da inflação. • Os quatro planos (entre 1986 e 1989) do Governo Sarney não trouxeram resultados positivos quanto a sua capacidade de combater a inflação. • O Plano Collor promoveu um choque na economia ao confiscar todas as aplicações financeiras e estipular um limite aos saques à vista. É criada a moeda “Cruzeiro”. RESUMO DO TÓPICO 3 177 AUTOATIVIDADE 1 Embora a economia brasileira tenha atravessado uma recessão no início da década de 1980, provocando um nível de desemprego de 7,5% entre os trabalhadores ligados à produção, em 1984, há um movimento de retomada do crescimento econômico do país. Comente sobre a situação da economia brasileira em 1984. 2 Com o Governo Sarney (1985-1990) ocorre uma forte mobilização em torno dos planos de estabilizaçao econômica em decorrência dos altos níveis de inflação. Quais as principais do primeiro plano, o Plano Cruzado? 3 Após a execução dos Planos Cruzados I e II, Dílson Funaro deixa a pasta do ministério da Fazenda para Luis Carlos Bresser Pereira, e declara a moratória aos credores internacionais. Como podemos compreender o período subsequente, em que é executado o Plano Bresser? 178 179 REFERÊNCIAS ABREU, Marcelo de Paiva.Crise, crescimento e modernização autoritária: 1930- 1945. In: ABREU, Marcelo de Paiva. 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