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Nesta unidade, você terá a oportunidade de conhecer os fatores que estão envoltos na avaliação do estado nutricional de indiví- duos e coletividades. Também entenderá o desequilíbrio do estado nutricional e o cuidado nutricional. A semiologia nutricional será abrangida, a partir da intepretação dos conceitos e da identificação dos fatores que interferem na temática. Por fim, você terá a possi- bilidade de conhecer os principais aspectos relacionados à bioética profissional do nutricionista. Introdução ao Estudo da Avaliação do Estado Nutricional e Bioética do Nutricionista Dra. Lorena dos Santos Castro UNICESUMAR 14 Olá, caro(a) aluno(a)! Digamos que você atenda uma paciente adulta do sexo feminino que agendou uma consulta buscando mudanças nos hábitos alimentares. O intuito é melhorar os sinto- mas de dores estomacais. A paciente relata praticar atividade física (caminhada) três vezes na semana, não é tabagista e não ingere bebidas alcoólicas. A partir dessas informações iniciais, como você conduziria a sua consulta, tendo em vista a utilização dos métodos de avaliação do estado nutricional para descobrir os hábitos que a paciente deveria modificar para melhorar os sintomas? Você, como nutricionista, terá uma ferramenta de suma impor- tância para auxiliar em sua prática clínica, a chamada avaliação nutricional, mais especificamente, avaliação do estado nutricional. Essa área da nutrição tem, como função, identificar os pacientes com grande risco de apresentar complicações no estado nutri- cional, para que seja possível oferecer uma terapia nutricional adequada e monitorar a eficácia da intervenção dietoterápica. No caso da paciente hipotética, inicialmente, é necessário realizar uma anamnese nutricional dela, a fim de avaliar alguns aspectos, como: • História clínica. • Variação de peso em consequência das queixas gastrin- testinais. • Alteração do padrão alimentar. • Se a paciente possui outros sintomas gástricos associados. • Antecedentes médicos (verificar outra complicação de saúde e o diagnóstico médico). • Medicamentos que faz uso (diversos medicamentos podem ser irritativos à mucosa estomacal). • História social (compreender os fatores que estão relacio- nados à doença). • História dietética (quais são os padrões de ingestão ali- mentar). Depois do levantamento, poderá ser feita uma análise minucio- sa dos hábitos alimentares da paciente que estão relacionados à queixa inicial. Além disso, aliado às questões realizadas, você po- derá realizar um exame físico para detectar possíveis deficiências nutricionais por meio da avaliação subjetiva global, da análise dos exames laboratoriais e da antropometria, com o objetivo de avaliar UNIDADE 1 15 o tamanho, a proporção e a composição do corpo da paciente. Você percebeu que a avaliação do estado nutricional abrange diversos fatores? Dominar esse tema é de suma importância e é ele que estudaremos. Proponho a você a realização de uma pesquisa sobre os hábitos alimentares das pessoas as quais você convive e/ ou estão em seu meio social. Para tanto, utilize as seguintes perguntas: 1. Como é seu estilo de vida? 2. O que você não deixa de comer diariamente? 3. Como é o seu café da manhã? 4. Quais foram os tamanhos das porções consumidas em sua última refeição? 5. Quanto de água você bebe por dia? Nesse experimento você não avaliará qualitativamente ou quan- titativamente os inquéritos realizados, mas realizará uma ati- vidade em que poderá observar, na prática, como poderão ser alguns questionamentos realizados durante o seu atendimento nutricional. Você também analisará a sua postura ao fazer os questionamentos, como reagirá a cada resposta e como você se sentirá ao ter um vínculo entre profissional e paciente. Sugiro a você anotar as perguntas e registrar as respostas em papel ou em algum meio eletrônico. No experimento, foi demarcada uma possível maneira de ana- lisar alguns hábitos alimentares das pessoas por meio do uso de um pequeno inquérito alimentar. Também associamos o uso desse inquérito àqueles que você poderá realizar em sua paciente, visto que, aplicando os seus conhecimentos relativos à avaliação do es- tado nutricional, você indicará as possíveis causas e modificações que a paciente poderá realizar para aliviar a queixa dela. Ao avaliar o estado nutricional de um paciente, é preciso correlacionar diversos fatores. Não é recomendado realizar um diagnóstico utilizando uma técnica de forma isolada, pois não é um método padrão-ouro para diagnosticar uma desordem nu- tricional. Sendo assim, a escolha do melhor método dependerá dos objetivos do tratamento dietético, podendo englobar a antro- pometria, a avaliação clínica e os exames laboratoriais. Anote, em seu diário de bordo, a sua experiência com essa atividade: como foi questionar indivíduos sobre os hábitos alimentares? UNICESUMAR 16 Para iniciar o estudo da avaliação nutricional, é necessário conhecer o histórico e alguns conceitos básicos do estado nutricional, começando pelo significado de avaliação, de estado nutricional e, por fim, de avaliação do estado nutricional. De acordo com o dicionário de Aurélio, “avaliar” significa “julgar”; “fazer apreciação”. O significado de “avaliação nutricional” é comparar resultados com referên- cias, parâmetros e valores cientificamente, tecnicamente ou politicamente aceitos no meio acadêmico. Para um melhor entendimento, como base de uma avaliação nutricional, tem-se o estado nutri- cional, que reflete o grau em que as necessidades fisiológicas de um indivíduo estão satisfeitas. O que seria essa satisfação? Ela é dada pelo equilíbrio entre o consumo de nutrientes e os requerimentos nutricionais que resultam nesse estado nutricional. O estado nutricional incorpora duas dimensões: • A dimensão biológica: resultante da manifestação biológica sobre o corpo e dada pela relação entre o consumo e as necessidades nutricionais. • A dimensão social: está relacionada à manifestação biológica das relações que operam sobre o corpo no interior de uma sociedade. UNIDADE 1 17 De forma mais ampla, o estado nutricional está envolto no conceito da síntese orgânica das rela- ções entre o homem, a natureza e o alimento, as quais se estabelecem no interior de uma socieda- de. Considere que a avaliação do estado nutricional de um paciente ou de grupo populacional é essencial para que pesquisadores e profissionais da saúde pública promovam o avanço na saúde pública, especialmente aos grupos populacionais que apresentam altas taxas de prevalência de doenças. A partir da utilização de métodos de coleta e de procedimentos diagnósticos, é possível determinar as causas prováveis que deram origem aos problemas nutricionais, para que medidas de intervenção sejam planejadas, executadas e monitoradas nos âmbitos individual e coletivo. Ao fazer uso das técnicas de avaliação adequadas, você, como profissional, pode detectar uma deficiência nutricional nos primeiros estágios de desenvolvimento, permitindo que a ingestão dietética seja melhorada por meio do apoio e de aconselhamentos nutricionais, antes que se desenvolva uma situação mais grave em seu paciente. Logo, a avaliação nutricional tem como objetivo identificar distúrbios, riscos nutricionais, e a gravidade deles, para, então, traçar condutas que possibilitem a recuperação ou a manutenção adequada do estado de saúde. É necessário que, em sua conduta profissional, seja realizado um adequado monitoramento do paciente por meio da avaliação nutricional. Também é importante o acompanhamento das respostas do seu paciente às suas intervenções nutricionais. São diversos os usos da avaliação nutricional, tendo grande relevância na vigilância alimentar e nutricional nos diferentes ciclos da vida; no diagnóstico da magnitude e da distribuição geográfica dos problemas nutricionais; na tomada de decisões para a intervenção nutricional no âmbito das políticas e dos programas públicos de combate aos problemas nutricionaismais relevantes e considerados de saúde pública; e no monitoramento dos efeitos da intervenção nutricional nos âmbitos individual e coletivo. Para exemplificar o uso da avaliação nutricional no âmbito das coletividades, há o levanta- mento de dados para elaboração de políticas públicas. Diversos são os estudos e os meios de acompanhar e avaliar as ações de alimentação e nutrição no Brasil e no mundo. Um exemplo dessa aplicação é a elaboração da cartilha Situação Alimentar e Nutricional no Brasil: excesso de peso e obesidade da população adulta na Atenção Primária à Saúde, redigida pelo Minis- tério da Saúde. Nela, há a inferência da má alimentação liderando o ranking dos fatores de risco relacionados à carga global de doenças no mundo. No estudo, pode-se verificar que o excesso de peso e as doenças relacionadas serão respon- sáveis pela redução da expectativa de vida em três anos dos brasileiros e impactam a redução de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) do país (BRASIL, 2020). Além disso, o custo financeiro da obesidade com hospitalizações e gastos ambulatoriais em 2011 foi estimado em R$ 488 milhões. Em 2018, esse mesmo custo aumentou 37%, totalizando R$ 669 milhões (BRASIL, 2020). Percebeu a importância das técnicas da avaliação nutricional? Essa é apenas uma das várias aplicações possíveis. Na Figura 1, temos uma ilustração dos fatores que estão envoltos no contexto da situação alimentar e nutricional no Brasil. UNICESUMAR 18 CONTEXTO BRASILEIRO Transição alimenta, nutricional e epidemiológica Múltipla carga de má nutrição Carências nutricionais Desnutrição Excesso de peso A elevada prevalência de obesidade é fator de risco para o desenvolvimento de DCNT e também associada à perda de qualidade de vida e maiores custos ao sistema de saúde. Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são consideradas um dos maiores problemas de saúde pública. No Brasil, o percentual de mortes prematuras por DCNT corresponde a 74% Figura 1 - Contexto brasileiro sobre a situação alimentar / Fonte: Brasil (2020, p. 1). A partir de boas técnicas de análise da saúde e da alimentação da população, é possível obter avanços em diversos indicadores e criação de políticas públicas. Essas técnicas podem ser estendidas àquelas que têm impactos nas taxas de mortalidade infantil, a fim de promover a expansão e a cobertura dos serviços de saúde, em especial, da atenção básica e do saneamento. Também é possível implementar programas de assistência alimentar e de transferência de renda, repercutindo de forma positiva nos indicadores de saúde nacionais. Descrição da Imagem: trata-se de um fluxograma que tem início por um retângulo, representado por uma caixa de texto referente às transições alimentar, nutricional e epidemiológica. Essa caixa de texto faz conexão com uma seta à direita de outra caixa de texto retangular e que se refere às múltiplas cargas de má nutrição. Dessa caixa de texto, saem três setas, as quais indicam as carências nutricionais, a desnutrição e o excesso de peso. Além disso, a caixa de texto faz referência especial a outra caixa de texto em formato redondo, à esquerda, que relata que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são consideradas um dos maiores problemas de saúde pública. No Brasil, o percentual de mortes prematuras por DCNT corresponde a 74%. Por fim, ao lado da caixa de texto em formato redondo e embaixo das caixas de texto que estão unidas pelas setas, há uma última caixa de texto redonda a qual relata que a elevada prevalência de obesidade é o fator de risco para o desenvolvimento de DCNT e é associada à perda de qualidade de vida e maiores custos ao sistema de saúde. O Ministério da Saúde realizou um estudo que infere que a valorização dos fatores de risco relacio- nados à alimentação reduz mais os anos de vida com qualidade do que o fumo, o álcool, a poluição e as drogas. Assim, uma melhoria nas condições de alimentação da população poderia prevenir uma em cada cinco mortes no mundo. Fonte: adaptado de Brasil (2020). UNIDADE 1 19 A avaliação nutricional também pode ser usada em inquéritos, estudos e evidências científicas que associam a dieta ao estado de saúde dos indivíduos. A aplicabilidade dela foi de extrema importância e levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a estabelecer limites para o consumo de nutrientes (gorduras (10% a 30% do Valor Energético Total – VET), ácidos graxos saturados (10% do VET), açú- car livre (10% do VET), colesterol (300 mg/dia) e sal (5g/dia)) e a estimar o consumo de carboidratos complexos (45% a 65% do VET) e de frutas, legumes e verduras (400 g/dia) (WHO, 2003). É possível usar referências de diversos autores para o estudo e a avaliação do estado nutricional. Para Martins (2009), o estado nutricional reflete o equilíbrio entre a ingestão e a demanda (necessidade) de nutrientes de um indivíduo, assim como podemos observar na Figura 2. Para entendermos melhor, a manutenção do equilíbrio depende de vários fatores. A ingestão de nutrientes depende tanto de fatores associados aos alimentos quanto daqueles relacionados à digestão e à absorção. Nesse contexto, a demanda de nutrientes deve suprir as necessidades básicas do corpo, mesmo em períodos de crescimento e de desenvolvimento, como infância, adolescência e gestação. As situações especiais, como estresse fisiológico, febre, infecção e doenças, podem alterar significativamente a neces- sidade de nutrientes de um indivíduo. Você concorda que não existem dúvidas de que a piora do estado nutricional de um indivíduo pode trazer consequências desastrosas? O maior número e tempo de hos- pitalização está relacionado a essa piora. No âmbito da economia, o estado nutricional alterado, direta ou indiretamente, conduz à pouca produtividade e gera gastos elevados para o indivíduo e para sociedade. Fatores emocionais Fatores econômicos Fatores sociais e culturaisFatores físicos (ex. doenças, má-absorção) Ingestão de nutrientes Manutenção das necessidades corporais Necessidade de nutrientes Desenvolvimento e crescimento Condições especiais (ex. doença, febre, estresse) Figura 2 - Estado nutricional adequado: equilíbrio entre a ingestão e a necessidade de nutrientes / Fonte: adaptada de Martins (2009). Descrição da Imagem: a figura possui uma base representada por um triângulo. Em cima da base, há uma base reta que remete a uma gangorra. Cada extremidade tem um círculo. O círculo da esquerda tem uma caixa de texto que menciona a ingestão de nutrien- tes. Ao lado, estão dispostas quatro setas: a primeira tem uma caixa de texto que se refere aos fatores físicos (exemplos: doenças e má-absorção); a segunda trata dos fatores emocionais; a terceiro, dos fatores econômicos; e a última, dos fatores sociais e culturais. Ao lado direito, há um círculo que se refere às necessidades de nutrientes. Há três setas ao redor dele: a primeira se refere à manutenção das necessidades corporais; a segunda trata do desenvolvimento e do crescimento; a terceira e última abarca as condições especiais (doença, febre e estresse). UNICESUMAR 20 Outros autores que nos auxiliam a compreender o conceito de avaliação nutricional são Sam- paio et al. (2012). Eles explicam que o estado nutricional está envolto na concepção de um modelo multicausal de determinação dos pro- blemas nutricionais. Esses problemas aumentam a complexidade à medida que incorporam uma hierarquização no processo de causalidade. Em outras palavras, esse modelo parte de causas básicas/estruturais que expressam os processos econômicos, políticos e ideológicos da orga- nização social, do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Sampaio et al. (2012) utilizam uma metodologia que segue um nível de determinação mediato e ime- diato. Logo, o modelo mediato se relaciona com as relações de organização de produção e de consumo de cada classe social. Posteriormente, foca em um nível mais individual. Em contrapartida, a deter- minação imediata se relaciona com ainfluência de fatores biológicos, ambientais, econômicos, sociais, culturais e ideológicos e com a forma como se orga- nizam a produção e o consumo familiar individual. Entendamos melhor o modelo imediato. Em última instância, é no desequilíbrio entre o consumo alimentar e o gasto energético que se observam as alterações no estado nutricional ao nível do corpo biológico. Em consequência disso, a nutrição é um fator importante na causa e no manejo de vários motivos relevantes de morte e incapacidade na sociedade contemporânea. As doenças cardíacas, os acidentes vasculares ence- fálicos, a diabetes e diversos cânceres são influen- ciados pelo tipo e pela quantidade de alimento consumido. A nutrição é de extrema importância em diversas doenças, como a obesidade, a anemia e a osteoporose. As modificações na dieta podem auxiliar na prevenção de doenças, especialmen- te em indivíduos com sobrepeso e obesos. Com foco no desequilíbrio nutricional, os estados de deficiência ou excesso ocorrem quando a ingestão de nutrientes não corresponde aos requerimentos para a saúde ideal do indivíduo. Avaliamos, até o momento, o modo como a ingestão de nutrientes afeta o estado de saúde de um indivíduo. Agora, entenderemos o desequilí- brio do estado nutricional. Nos casos em que há consumo insuficiente, pode ocorrer, como conse- quência, doenças carenciais, como uma desnutri- ção proteica, anemia ferropriva, hipovitaminose A, bócio, cárie dental e outras. Por outro lado, caso haja o excesso de consumo, tem-se a obesidade, o excesso de algumas vitaminas e minerais, as dislipidemias e algumas doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão, a diabetes e alguns tipos de câncer. Dentro da faixa segura de ingestão alimentar, os mecanismos homeostáticos permitem que o corpo utilize os nutrientes de modo igualmente eficiente, sem qualquer vantagem detectável adqui- rida por um consumo específico. Por outro lado, quando são desenvolvidas deficiências ou excessos, promovem-se adaptações para alcançar um novo estado estável, sem nenhuma perda importante na função fisiológica. Logo, à medida que a ingestão se torna deficiente, o organismo se acomoda perante às alterações na oferta de nutrientes, reduzindo a função, o tamanho ou o estado dos compartimen- tos afetados pelo corpo. Podemos inferir que o estado nutricional de um indivíduo pode ser identificado a partir do sucesso ou do fracasso das adaptações citadas. Por exemplo, antes que a anemia ferropriva seja diagnosticada pelas medidas de hematócrito, he- moglobina e sinais clínicos, é possível diagnos- ticar uma diminuição gradual nos depósitos de ferro em detrimento do aumento na absorção de ferro e da redução das concentrações de ferritina UNIDADE 1 21 sérica. Quando as reservas nutricionais estão depletadas ou a ingestão é inadequada para satisfazer às necessidades metabólicas diárias, desenvolve- se um estado de desnutrição. Considere a desnutrição como um desequilíbrio nutricional. Esse quadro pode resultar da inges- tão inadequada, da digestão ou da absorção deficiente, das alterações metabólicas ou do aumento da excreção de nutrientes essenciais. Logo, os lactentes, as crianças, as gestantes, os indivíduos de baixa renda, os indivíduos hospitalizados e os idosos têm maior risco de serem desnutridos. Isso compro- mete o crescimento e o desenvolvimento, diminui a resistência às infecções, prejudica a cicatrização, promove o desfecho clínico ruim da doença ou do trauma, desenvolve doenças crônicas e aumenta a morbidade e a mortalidade (SAMPAIO et al., 2012). Partindo de uma visão paralela, Martins (2009) contextualiza a desnutrição de forma não uniforme, ou seja, a má nutrição é algo global e resultante do desequilíbrio entre as necessidades do corpo e a ingestão de nutrientes, assim como é visível na Figura 3. Com isso, a consequência é a deficiência, a toxicidade ou a obesidade. Já a desnutrição ou a subnutrição representa um distúrbio do estado nutri- cional decorrente da deficiência nas reservas corporais de calorias, proteínas, vitaminas e/ ou minerais. Os motivos que podem levar à desnutrição podem ser a deficiência na ingestão e a modificação no metabolismo (exemplos: alteração na utilização ou na síntese; desequilíbrio na excreção). UNICESUMAR 22 Morte Morbidade (enfermidade) Funções metabólicas alteradas Acúmulo de gordura no corpo Ingestão excessiva de calorias e lipídios Ingestão igual a necessidade de nutrientes Ingestão insu ciente e/ou absorção diminuída e/ou perdas aumentadas de nutrientes Depleção de reservas corporais Funções celulares alteradas Sinais e sintomas clínico Morbidade (enfermidade) Individuo obeso Individuo bem nutrido ndividuo em risco nutricional Individuo desnutrido Morte Figura 3 - Evolução da má-nutrição / Fonte: adaptada de Martins (2009). Descrição da Imagem: trata-se de um fluxograma com caixas de texto no formato oval e retangular. As caixas ovais se encontram no canto esquerdo da figura e as retangulares do direito. Todas estão no sentido vertical. Em relação às caixas ovais, temos uma caixa central, representada pela ingestão insuficiente e/ou absorção diminuída e/ou perdas aumentadas de nutrientes. Saem, dessa caixa, seis caixas acima e cinco abaixo. Todas são orientadas por setas para cima e para baixo. No que diz respeito às seis caixas ovais que estão acima da central, todas estão conectadas por setas de baixo para cima: a primeira é referente à ingestão equivalente à neces- sidade de nutrientes; a segunda trata da ingestão excessiva de calorias e lipídios; a terceira abarca o acúmulo de gordura no corpo; a quarta trata das funções metabólicas alteradas; a quinta diz respeito à morbidade (enfermidade); e a sexta trata da morte. Ao lado das caixas quatro e cinco, encontra-se uma linha reta que as conectam à caixa de texto retangular da direita, referente ao indivíduo obeso. Em relação às caixas de texto ovais que estão embaixo da caixa central, a primeira diz respeito à depleção das reservas corporais. A segunda trata das funções celulares alteradas; a terceira abarca os sinais e os sintomas clínicos; a quarta diz respeito à morbidade; e a quinta trata damorte. As caixas um e dois dessa sequência têm conexão com a caixa retangular da direita por meio de uma linha reta referente ao indivíduo em risco nutricional. Saindo dessa caixa, há outra linha reta que faz conexão com a caixa que trata do indivíduo nutrido, que também se conecta pela mesma linha com a caixa de texto que diz respeito ao indivíduo obeso. As caixas de texto ovais três e quatro se unem à caixa da direita por uma linha reta, que faz menção ao indivíduo desnutrido. UNIDADE 1 23 De acordo com Btaiche et al. (2010), há uma relação entre a desnutrição e a doença. Os estudiosos explicam que os pacientes criticamente enfermos e que apresentam ferimentos graves e estresse podem depletar rapidamente os próprios estoques corporais de proteína e energia. Nesses casos, a desnutrição e o consumo proteico podem afetar negativamente a evolução do paciente. Em conjunto, a desnutrição hospitalar é um grande problema há anos, de acordo Waitzberg, Caiaffa e Correia ([2022]). Durante os últimos vinte anos, diversos estudos têm demonstrado, em todo o mundo, as conse- quências da desnutrição em pacientes hospitalizados. Waitzberg, Caiaffa e Correia ([2022]) realizaram um estudo em parceria com a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) em 12 estados brasileiros e no Distrito Federal. Foram envolvidos 4.000 pacientes internados. A pesquisa re- velou que quase metade (48,1%) dos pacientes internados na rede pública do Brasil apresentam algum grau de desnutrição. Entre esses pacientes, 12,6% eram desnutridos graves e 35,5% eram desnutridos moderados (WAITZBERG; CAIAFFA; CORREIA, [2022]). Elevada porcentagem, não é mesmo? Por outro lado, Martins (2012) entende a desnutrição como um desequilíbrio devido ao consumo alimentar excessivo, mas insuficientepara atender às necessidades nutricionais. Logo, diversos proble- mas se manifestam a partir desse quadro, como obesidade, diabetes, doenças cardíacas ateroscleróticas, hipertensão arterial e síndrome metabólica. Essas condições podem resultar em desfechos clínicos ruins. O excesso de peso e a obesidade podem estar associados a uma inflamação de baixo grau, às altas con- centrações de marcadores inflamatórios (como a proteína C-reativa) e às citocinas pró-inflamatórias. A obesidade atingiu proporções epidêmicas no Brasil. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, que foi feita pelo Ministério da Saúde em 2018, a obesidade apresenta maior taxa de crescimento entre adultos de 25 a 34 anos (84, 2%) e de 35 a 44 anos (81,1%) (BRASIL, 2020). Entre 2015 e 2017, 55,7% da população brasileira estava com excesso de peso. Estima-se que, em 2025, 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo estejam acima do peso, sendo 700 milhões com obesidade (BRASIL, 2020). Em relação à avaliação nutricional de um paciente obeso doente, você, como profissional, terá um grande desafio, porque as ferramentas de rastreio afirmam que um indivíduo está em risco somente quando está subnutrido. Portanto, elas podem classificar o paciente obeso doente como de baixo ris- co. Há pouca probabilidade de ele ser identificado como alguém com maior potencial de morbidade. Sendo assim, são necessárias ferramentas mais apropriadas para avaliar precisamente essa população. Unindo todos esses fatores, é essencial entender os conceitos de bem-estar nutricional e de saúde nu- tricional, considerando a melhor estratégia baseada na alimentação, a fim de promover a saúde ideal e reduzir o risco de doenças crônicas. O objetivo é escolher uma grande variedade de alimentos ricos em nutrientes e utilizar os suplementos necessários. É preciso ter muita atenção com o cuidado nutricional. Durante a avaliação nutricional do pa- ciente, o cuidado nutricional é de extrema importância, sendo um método sistemático de resolução de problemas usado para analisar o paciente de forma crítica e para a tomada de decisões. O intuito do cuidado nutricional é fornecer um cuidado seguro e efetivo a partir de alguns processos que estão inter-relacionados e conectados, como: UNICESUMAR 24 • Triagem do risco nutricional. • Avaliação das necessidades nutricionais. • Diagnóstico nutricional. • Intervenção nutricional. • Monitoramento e avaliação dos resultados. Como nutricionista, você deve trabalhar detalhadamente com os passos da triagem do diagnóstico nutricional, os quais determinam o monitoramento e a avaliação de resultados do paciente. Também precisa fazer uma adequada intervenção nutricional, o que exige um contexto amplo de discussões sobre o caso, e identificar os riscos nutricionais apresentados pelo paciente, a fim de fornecer uma in- tervenção custo-efetiva e que auxilie a conter custos no sistema de saúde no cuidado nutricional. São diversas as situações que, mesmo com o diagnóstico nutricional não definido claramente, é possível utilizar métodos de avaliação que predizem a intervenção que será necessária. Com base na predição, você deverá observar os fatores que classificam, ou não, o seu paciente em risco nutricional, de acordo com Martins (2009): • Perda ou ganho de peso não-intencional ≥ 10% do usual dentro de seis meses. • Perda de peso não intencional ≥ 5% do usual em um mês. • Peso atual 20% acima ou abaixo do ideal. • Presença de doença crônica. • Requerimentos metabólicos aumentados. • Ingestão alimentar insuficiente por mais de sete dias, incluindo alteração da capacidade de ingerir ou de absorver os alimentos de maneira adequada. Assim, existem métodos a serem utilizados na avaliação do estado nutricional. Eles têm relação com a identificação das manifestações orgânicas dos problemas nutricionais ao nível do corpo. Além dis- so, podem ser diretos ou indiretos e são classificados de acordo com o tipo de abordagem. Ao fazer uso dos métodos diretos, você trabalhará com uma abordagem objetiva (abordagem quantitativa) e subjetiva (abordagem qualitativa). A abordagem objetiva compreende os exames antropométri- cos (peso, altura, dobra cutânea etc.), os exames laboratoriais (glicemia, hemograma etc.), o exame clínico nutricional (sinais e sintomas clínicos nutricionais), a densitometria e a bioimpedância, por exemplo. Por outro lado, a abordagem subjetiva é pautada na semiologia nutricional, na avaliação subjetiva global e na avaliação muscular subjetiva. Ao fazer uso dos métodos indiretos, por sua vez, você buscará identificar os fatores associados ao processo de determinação do estado nutricional, ou seja, aqueles que explicam a ocorrência do pro- blema nutricional, além de identificar indivíduos ou grupos em risco nutricional. Integrando esses fatores, encontram-se os fatores demográficos (sexo, idade, faixa etária, morbidade, mortalidade etc.), socioeconômicos (salário, ocupação, escolaridade, acesso ao serviço de saúde etc.), culturais (tabus alimentares, características locais específicas), estilo de vida (atividade física, hábito de fumar e con- UNIDADE 1 25 sumir bebidas alcoólicas etc.) e de inquéritos do consumo alimentar (recordatório alimentar de 24 horas, frequência alimentar, pesada direta etc.). Com o objetivo de melhorar a acurácia e a precisão do seu diagnóstico, a associação de todos os métodos é imprescindível. Mesmo que com apoio de ambos, podem ser construídos os indicadores do estado nutricional. Também é possível direcionar e ampliar as informações a serem obtidas, rela- cionando a queixa do paciente e os fatores ambientais à influência no acesso ao alimento, à genética (hereditariedade, predisposição ao desenvolvimento de doenças etc.) e aos fatores psicológicos (ano- rexia, bulimia, ansiedade etc.). É de extrema importância que, durante seu atendimento nutricional, você esteja atento a todas as condições citadas, visando potencializar a eficácia da sua intervenção nutricional. Aliás, consideran- do a variabilidade dos métodos para avaliação do estado nutricional, é necessário saber escolhê-los. Contudo, como fazer a escolha correta? Para a escolha adequada perante a determinada situação, é importante se apropriar de alguns conhecimentos, como distinguir a avaliação que você utilizará para coletividade e para avaliação nutricional individual, visto que, apesar de terem o mesmo objetivo (correção ou manutenção do estado nutricional), há métodos que podem ser desenvolvidos em uma avaliação individual, mas que não se aplicam em populações e coletividades. Além disso, a epidemiologia do problema que você investigará, as manifestações dos problemas nutricionais e a validade dos métodos em termos de sensibilidade e especificidade para o diagnóstico do problema nutricional se dão de maneiras distintas. Portanto, a escolha do método a ser utilizado por você dependerá, inicialmente, do objetivo da avaliação e dos problemas a serem investigados. Em outra situação, você, como nutricionista, visando à avaliação nutricional de populações e cole- tividades, precisará ter um olhar mais abrangente, trabalhando com maior ênfase na dimensão social. Isso possibilita o diagnóstico e a explicação dos fatores de determinação para um dado grupo ou po- pulação. A condução das ações de promoção e prevenção são para coletividade, e não para o indivíduo. Diante de tudo o que foi discutido até o momento, ao correlacionar a desnutrição calórico-proteica ao uso da avaliação nutricional para o desenvolvimento de pesquisas no âmbito nutricional, apresento Para compreender a diversidade dos métodos envoltos no cuidado nutri- cional, sugiro a leitura do Manual de Sistematização do Cuidado de Nutri- ção, que foi elaborado pela Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN). A partir dessa leitura, você entenderá como é realizada a sistematização do trabalho do nutricionista visando ao paciente que mais necessita deatenção dietética. Boa leitura! UNICESUMAR 26 outro exemplo de aplicabilidade do uso das ferramentas e a importância delas. Em um estudo realizado pela Rede Brasileira de Pesqui- sa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN) em 2020, foi feito um inquérito populacional com o intuito de analisar a insegurança alimentar no Brasil defronte à pan- demia deflagrada pela covid-19. Para a realização do estudo, houve a aplicação de inquéritos rápidos com abrangência nacional por intermédio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). Desde 2004, ela foi adotada pelo governo brasileiro nos inquéritos nacionais para medir a ingestão alimentar na população. O uso da EBIA possibilita a comparação da insegurança alimentar aferida pela pesquisa de 2020 com os dados dos inquéritos nacionais conduzidos pelo IBGE entre 2004 e 2018. Os resultados do inquérito mostram que, do total de 211,7 milhões de brasileiros(as), 116,8 milhões conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Desses, 43,4 milhões não tinham alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões enfrentam a fome. Percebeu como é de suma importância o tema que estamos estudando? Hoje, o profissional nutricionista precisa estar bem prepa- rado, atualizado e ter segurança tanto na utilização quanto na interpretação dos inúmeros métodos de avaliação nutricional, já que estará diante de uma sociedade detentora de um amplo conhecimento referente à alimentação e ciente dos inúme- ros malefícios e benefícios acarretados por certos alimentos. Somam-se, ainda, a realidade de transição nutricional e as mudanças nos padrões alimentares. Para simplificar todo o processo de cuidado nutricional, observe a Figura 4, que ilustra toda a inter-relação dos ele- mentos. Há a triagem nutricional, que é definida como um método de identificação das características conhecidas por desenvolverem os problemas nutricionais. O foco é identificar os indivíduos que estão em risco ou desnutridos. A partir da identificação de uma pessoa ou população em risco nutri- cional, você deverá realizar uma avaliação mais profunda e completa, visto que, inicialmente, esse processo pode ser exe- cutado por qualquer membro de uma equipe de saúde, como técnicos em nutrição, nutricionistas, enfermeiros ou médicos. UNIDADE 1 27 História alimentar Exame físico Medidas corporais Exames laboratoriais Por fim, será necessário realizar o diagnóstico nutricional. Ele é o responsável por dar uma resposta à avaliação realizada. No final do processo de avaliação, os dados que você reuniu serão analisados e sintetizados, configurando uma identidade (rotulagem) que pode descrever um problema relacionado à nutrição. O diagnóstico nutricional visa descrever alterações nutricionais do indivíduo ou de um dado grupo. Assim, é classificado um problema e/ou situação na qual o paciente se encontra. É possível relacionar a problemática a outras condições, pois é importante não somente dar o diagnóstico, mas também identificar a causa do problema. Além disso, importante atenção deve ser dada aos diferentes tipos de diagnóstico, assim como podemos observar na Figura 5. Triagem nutricional Sem risco? Manutenção do acompanhamento do paciente Com risco? Avaliação do estado nutricional e diagnóstico nutricional Avaliação das necessidades nutricionais Desenvolvimento do plano de cuidado nutricional Figura 5 - Processo do cuidado nutricional / Fonte: adaptada de Martins (2009). Descrição da Imagem: trata-se de uma figura composta por cinco caixas de texto no formato retangular. A caixa central se refere à triagem nutricional, que se liga a outra caixa de texto, à direita, por meio de uma linha reta. Sobre essa linha, há uma seta com sinal à direita e com a pergunta: “Sem risco?”. Logo, a caixa de texto se refere à manutenção do acompanhamento do paciente. Saindo da caixa central, há outra linha reta que segue para a região inferior. Ao lado, há uma seta que também segue para a região inferior com a pergunta: “Com risco?”. Essa linha faz conexão com a caixa de texto que trata da avaliação do estado nutricional e diagnóstico nutricional, que também se conecta a outra caixa de texto à direita por meio de uma linha reta, fazendo menção à avaliação das necessidades nu- tricionais. Por fim, essa caixa se conecta à outra caixa de texto à direita, que abarca o desenvolvimento do planode cuidado nutricional. Descrição da Imagem: trata-se de uma figura repre- sentada por um círculo dividido em quatro partes. A primeira, presente no canto esquerdo, refere-se à his- tória alimentar; a segunda, presente no canto direito, diz respeito ao exame físico; a terceira, presente no canto esquerdo, mas na parte inferior, refere-se às medidas corporais; a quarta, presente do lado direito e na parte inferior, abarca os exames laboratoriais. Figura 4 - Componentes da avaliação do estado nutri- cional / Fonte: adaptada de Martins (2009). UNICESUMAR 28 É imensamente importante diferenciar o seu diagnóstico de diagnóstico dos demais profissionais, ou seja, o diagnóstico nutricional é diferente do diagnóstico médico. O médico objetiva identificar uma enfermidade de órgãos específicos ou de sistemas corporais, podendo ser uma condição tratada ou prevenida. Em contrapartida, o diagnóstico nutricional se modifica de acordo com a resposta do paciente ou do grupo populacional. Por exemplo: um paciente pode ter um diagnóstico médico de diabetes mellitus tipo 2 e o diagnóstico nutricional ser de obesidade e/ou ingestão excessiva de car- boidratos. Compreendeu a diferença? Mencionamos que, nos métodos de avaliação nutricional, é de extrema importância a semiologia nutricional. A semiologia é uma ciência que estuda a organização dos sistemas significantes. Logo, o campo da nutrição compreende o estudo dos sinais e dos sintomas do indivíduo a partir da inspeção, da palpação e da ausculta. Os sintomas do paciente são sensações subjetivas, isto é, sentidas por ele, e não visualizadas por você. Para uma adequada avaliação dessas alterações e das manifestações semio- lógicas dos problemas nutricionais, você dispõe da anamnese nutricional, que permite identificar os sintomas clínicos nutricionais. Você também contará com o exame físico, o qual avalia as alterações orgânicas expressas nos tecidos externos do paciente ou a evolução das patologias já existentes no organismo (SAMPAIO et al., 2012). A ciência da semiologia nutricional busca determinar as condições nutricionais do paciente e iden- tificar os sinais e os sintomas da carência ou do excesso de nutrientes para relacioná-los aos hábitos alimentares. A semiologia é um indicador subjetivo a ser utilizado, pois a avaliação não resulta em um valor específico, e sim nas impressões individuais do avaliador e do avaliado. Você deve realizar essa avaliação minuciosamente, priorizando, no momento do exame, os sinais referentes aos problemas de maior prevalência nas diferentes faixas etárias e considerando as informações obtidas a partir da avaliação da anamnese e do consumo alimentar. Entretanto, o uso da semiologia apresenta limitações, como o fato de que as manifestações clínicas são determinadas apenas nos estados mais avançados de excesso e/ou de carência nutricional, visto que, para uma adequada identificação, é necessário treina- mento ou um longo tempo de técnica profissional para melhorar a habilidade de reconhecer os sinais clínicos nutricionais (SAMPAIO et al., 2012). A anamnese nutricional é muito utilizada na prática clínica e envolve a recordação dos eventos relacionados à saúde. Também visa identificar determinados sintomas e sinais que o paciente apre- senta, com o intuito de entender precisamente a história dos motivos que levam o paciente à consulta. Cada profissional pode fazer o uso de uma em específico ou da vasta gama de modelos existentes. A anamnese tem grande relevância para reconhecer e entender todas as dimensões que estão envoltas no diagnóstico nutricional, sendo eles: o paciente,a doença e as circunstâncias associadas. Uma boa anamnese é indispensável para o alcance de uma boa relação entre o paciente e o profis- sional. Lembre-se de que ela não se trata de um roteiro de pesquisa, mas de questionamentos devida- mente selecionados, a fim de que verificar a importância do relato do paciente. Isso proporciona um importante relacionamento, já que, por meio da anamnese, é possível determinar o grau de confiança que o paciente depositará, a qualidade das informações que serão transmitidas e a colaboração que o paciente oferecerá em relação à adesão da conduta terapêutica. UNIDADE 1 29 Outro aspecto de extrema importância durante a avaliação nutricional é a investigação clínica do paciente, que deve identificar a situação nutricional dele e os fatores de determinação associados. Em outras palavras, o paciente precisa ser interrogado sobre os fatores que podem interferir no estado nutricional direta ou indiretamente, incluindo a perda ou o ganho de peso recente, os sinais de doenças gastrointestinais (náuseas, vômitos e diarreia), o uso de medicamentos que interferem na absorção e na utilização dos nutrientes, principalmente se o paciente tem alguma carência específica, a presença de fatores limitantes na ingestão alimentar adequada, como anorexia, lesões bucais e dificuldades de mastigação, a presença de doenças crônicas ou intervenções cirúrgicas, o etilismo e o tabagismo. Tam- bém são incluídos os fatores psíquicos que podem interferir na ingestão alimentar. Essa investigação é a base para conhecer a história alimentar do paciente. Embora a história alimentar seja de extrema importância, ela não deve ser usada isoladamente, visto que a capacidade desse método depende de diversas variáveis, como condição clínica e tipo de informante (em geral, o paciente ou o acompanhante) e de entrevistador (no caso, você, nutricionis- ta), pois todas as informações devem ser apresentadas de maneira positiva para não comprometer a eficácia da anamnese. Em sua grande maioria, as dificuldades existentes estão na deficiência de comunicação entre você e o paciente. A seguir, são listadas diversas situações que poderão influenciar a comunicação decorrentes do paciente: • Deficiência na fala ou na audição. • Diferenças de linguagem, sotaque ou idioma. • Depressão do estado de consciência. • Distúrbios mentais. • Crianças com falta de objetividade-incoerência. • Deficiência de memória e de observação. • Concepções errôneas sobre a doença. • Falta de confiança na nutrição e/ou no profissional. • Inibição e/ou distração causadas pela presença de outras pessoas. Para completar as histórias clínica, alimentar e nutricional, a realização do exame físico, tanto geral quanto específico, proporciona elementos capazes de apoiar hipóteses relativas ao diagnóstico nutri- Convido você a ouvir o podcast desta unidade. Nele, você conhece- rá os principais modelos de anamnese nutricional e a importância de cada questionamento. Durante a sua avaliação nutricional, o sucesso da conduta será, em maior parte, dependente das diversas mudanças nos hábitos alimentares. Isso representa um desafio e é imprescindível estabelecer uma relação harmônica entre o paciente e o nutricionista. UNICESUMAR 30 cional. O exame geral pode avaliar determinados dados do paciente, incluindo os antropométricos e os sinais clínicos. O exame físico engloba diversas observações de tecidos, os quais podem refletir problemas nutricionais e sinais corporais (cardiovascular, respiratório, neurológico e gastrointestinal) dos tecidos adiposo e muscular e da condição hídrica do paciente, buscando sempre investigar a pre- sença de alterações específicas. Você conhece alguém que relatou queda de cabelo ou unhas fracas e teve uma associação com o déficit de consumo de proteínas, por exemplo? Esse é um dos diversos exames físicos que você, como profissional nutricionista, pode avaliar no exame físico. Para tanto, é necessário registrar a impressão sobre o estado geral do paciente por meio de uma observação e levando em consideração o que lhe é relatado. Devem ser investigados o ânimo, a depressão, a fraqueza, o tipo físico, o estado de consciência, o discurso e os movimentos corporais. O exame físico deve ser realizado de forma sistemática e progressiva, ou seja, a partir da cabeça até a região dos pés. Dessa forma, inicia-se pelo cabelo, seguido dos olhos, nariz, face, boca (lábios, dentes e língua), pescoço (tireoide), tórax (abdome), membros superiores (unhas, região palmar) e inferiores (quadríceps, joelho, tornozelo, região plantar), pele e sistemas (cardiovascular, neurológico, respiratório e gastrointestinal), assim como podemos observar no Quadro 1. Região/ situação examinada Característica(s) a ser(em) avaliada(s) Características em condições normais Cabelo Coloração, brilho, quantida- de, espessura, hidratação, ocorrência de alopecia. Brilhantes, firmes e difíceis de arrancar, aparência normal e espessa, crescimento normal, macios ao tato e coloração ade- quada. Face Estado geral, condição física. Presença de edema ou de- pleção (sinal de chave – ex- posição do arco zigomático). Apresentação de: palidez, atrofia unilateral ou bitem- poral. Fácies agudo: exausto, cansado, não consegue man- ter os olhos abertos por mui- to tempo; Fácies crônicas: aparência deprimida, triste, pouco diálogo. Bom estado geral, sem sinais de depleção ou edema. UNIDADE 1 31 Região/ situação examinada Característica(s) a ser(em) avaliada(s) Características em condições normais Olhos Aspecto, cor das mucosas e membranas, sinais de ex- cesso de nutrientes – xante- lasma, arco córneo lipídico, sinais de deficiência de nu- trientes: desnutrição – olhos escavados, escuros e flacidez ao redor, hipovitaminoses – xeroftalmia, nictalopia, etc. Brilhantes, membranas róseas e úmidas, sem manchas e boa adaptação visual no escuro. Lábios Coloração da mucosa, pre- sença de lesões decorrentes de hipovitaminoses. Lábios macios e sem inflamações. Língua Coloração, integridade papi-lar, edema, espessamento. Língua vermelha, sem edema, com superfície normal e paladar preservado. Gengivas Edema, porosidade esangramento. Ausência de sangramentos e edema. Peças dentárias Presença de cáries, ausência de peças dentárias, uso de prótese (bem adaptada ou não), alterações em função de excesso ou escassez de nutrientes. Arcada dentária íntegra, sem ausência de peças dentárias ou uso de prótese bem adaptada – não ocasiona comprometimento da mastigação. Pele Cor, pigmentação, integrida- de, turgor, presença de ede- ma, brilho e temperatura, manifestações decorrentes de deficiência ou excesso de nutrientes. Cor uniforme, lisa, aparência saudável, turgor preservados ou compatíveis com a idade (no caso de idosos). Unhas Forma, ângulo, coloração, contorno, rigidez e presença de micoses. Uniformes, arredondadas, lisas e firmes. UNICESUMAR 32 Região/ situação examinada Característica(s) a ser(em) avaliada(s) Características em condições normais Abdome Quanto à rigidez: flácido ou tenso; quanto ao volume: distendido, plano, globoso ou escavado; quanto à pre- sença de gases: poucos ga- zes (normal), maciez (quando há tumor) ou timpânico. Ausência das alterações referidas. Tecido subcutâneo Excesso de tecido adiposo, ou déficit de tecido subcutâ- neo – flacidez; presença de edema (O edema de causa nutricional deve ser: frio, mole, indolor, geralmente não forma cacifo e é bilateral). Ausência das alterações referidas. Tecido muscular esquelético Retração ou atrofia. Ausência das alterações referidas. Sistema nervoso Perdas do controle na con-tração ou parestesias, Ausência das alterações referidas. Condição hídrica Desidratação e edema. Ausência das alterações referidas. Quadro 1 - Regiões do corpo a serem examinadas e características específicas a serem avaliadas Fonte: adaptado de Sampaio et al. (2012). A seguir, você pode conferir as técnicasque podem ser utilizadas para a realização do exame físico em sua prática clínica, segundo Sampaio et al. (2012): • Palpação: é composta por uma avaliação tátil, visando sentir pulsações e vibrações. Com o uso dessa técnica, você, nutricionista, pode avaliar as estruturas corporais, incluindo textura, tamanho, temperatura, consistência e mobilidade. Também pode analisar o turgor, a elasticidade da pele, a integridade da derme, o tamanho de órgãos, edema periférico, massas abdominais, ascite, perda de peso etc. • Inspeção: você usa a visão, o olfato e a audição na avaliação do paciente. Pode verificar a presença de obesidade, caquexia, condição hídrica, integridade da pele, cicatrização de ferida, icterícia, ascite, capacidade funcional, estado mental etc. UNIDADE 1 33 • Percussão: consiste na avaliação de determinados “sons” para determinar o contorno, o formato e a posição deles. Permite avaliar se o órgão está sólido ou se há a presença de líquido ou gases. Essa técnica não é sempre necessária no exame clínico nutricional. • Ausculta: são avaliados os sons corpóreos que podem ser ouvidos com ou sem estetoscópio, como sons do coração, dos pulmões (presença de líquidos), intestinais (ruídos hidroaéreos) e dos vasos sanguíneos. Muitas vezes, o exame físico não tem ampla aplicabilidade, embora seja específico em determinadas situações, como raquitismo (vitamina D), bócio endêmico (iodo), mancha de Bitot (vitamina A) e exces- so de tecido adiposo (obesidade). No Quadro 2, é possível observar outras alterações mais específicas. Região anatômica Achado clínico Doença/ Nutriente Cabelo Perda de brilho natural/ seco Kwashiorkor/ baixa proteína Fino, esparso/despigmentado, quebradiço Menos comum no marasmo Fácil de arrancar sem dor Kwashiorkor Olhos Palidez conjuntival Anemia/ baixo ferro Arco córneo Riboflavina Mancha de Bitot/ (xeroftalmia) Vitamina A Xerose conjuntival Vitamina A Xerose da córnea Vitamina A Dificuldade a adaptação ao escuro Vitamina A e Zinco Queratomalacia Vitamina A e Zinco Vermelhidão e fissura nos epicantos Baixa riboflavina/baixa piridoxina Face Dermatite seborreica nasolabial Riboflavina Face edemaciada Kwashiorkor/baixa proteína Face senil Marasmo Lábios Estomatite angular Baixa riboflavina Escaras de ângulo Baixa riboflavina Queilose Baixa riboflavina UNICESUMAR 34 Região anatômica Achado clínico Doença/ Nutriente Língua Língua magenta Baixa riboflavina Língua escarlate/inflamada Baixo ácido nicotínico Edematosa Baixa niacina Papila filiforme, hipertrofia Baixo ácido fólico/baixa vitamina C Dentes Esmalte manchado Baixo ferro, baixa vitamina B12 Cáries Alto açúcar Falta de dentes Alto açúcar Gengivas Esponjosas/sangramento Baixa vitamina C Gengivas vazantes/edema Baixa vitamina C Pescoço Aumento da tireoide/bócio Baixo iodo Aumento da paratireoide Inanição Pele Xerose Baixa vitamina A e zinco Hiperqueratose folicular Baixa vitamina A Dificuldades de cicatrização Baixo zinco Petéquias Baixo ácido ascórbico e vitamina K Dermatose pelagrosa Baixo ácido nicotínico Equimoses/sangramento Baixa vitamina K Dermatite generalizada Baixo zinco, ácidos graxos essenciais, ácido pantotênico Xantomas Hiperlipidemias Palidez acentuada Anemia ferropriva Descamação fina da pele Biotina Abdome Ascite, visceromegalia Baixa proteína Alto tecido adiposo Alta quantidade de gorduras/hiperglicemia Unhas Quebradiças, rugosas Baixo ferro Tecido subcutâneo Diminuído Baixo tecido adiposo/ muscular Aumentado Alto tecido adiposo/muscular Edema Baixa proteína/Kwashiorkor/ beribéri UNIDADE 1 35 Região anatômica Achado clínico Doença/ Nutriente Sistema músculo esquelético Rosário torácico Baixa vitamina D e cálcio Hipercalcemia Alta quantidade de cálcio Osteoporose Baixa quantidade de cálcio Osteomalácia, tetania Baixa vitamina D Fraturas constantes (adulto) Osteomalácia Retardo no crescimento Baixa proteína e zinco Fratura em idosos Baixa vitamina D Arqueamento das pernas Baixa vitamina D Sistema nervoso Alterações psicomotoras (apatia) Kwashiorkor Confusão mental/ depressão Baixa niacina, tiamina, piridoxina e vitamina B12 Fraqueza motora, perda de sensibilidade Baixa vitamina B12 e tiamina Formigamento de pés e mãos Baixa vitamina B1 Sistema gastrointestinal Hepatomegalia Baixa proteína Constipação intestinal Baixa vitamina B1 Cálculo de oxalato de cálcio Baixa vitamina C (interfere na absorção de vitamina B12) Diarreia Baixo zinco Sistema cardiovascular Aumento do coração (cardiomegalia, insuficiência cardíaca Baixa vitamina B1, beribéri cardíaco Taquicardia, hipertensão arterial) Alto consumo de sódio Sopro Baixo ferro Quadro 2 - Sinais físicos indicativos ou sugestivos de problemas nutricionais / Fonte: adaptado de Sampaio et al. (2012). A seguir, conheça as principais considerações acerca do exame físico: • A postura e a forma de vestir não devem ser agressivas. Em relação à vestimenta, você deve se apresentar com roupa composta. É preciso evitar decotes, roupa colantes, transparentes e com o comprimento inadequado. Dar preferência ao uso de jalecos. Os sapatos devem ser, sempre que possível, fechados. A vestimenta adequada evita a exposição ao risco de contaminação do doente e de você. As unhas devem estar sempre cortadas e limpas (lavar sempre as mãos antes e depois do exame). Evite que os cabelos, se longos, caiam sobre o rosto. UNICESUMAR 36 • Expresse sempre interesse e respeito pelo problema do paciente, por uma questão humanista e pela contribuição que pode dar ao estabelecimento do diagnóstico. • Nunca manifeste tristeza ou formule julgamentos a respeito do relato da história do seu paciente. Lembre-se: você não é juiz. Além disso, esse comportamento induz a omissão ou a exacerbação das respostas. • Tente se assemelhar ao seu paciente. Essa atitude contribui para um maior entendimento do processo vivenciado pelo paciente e aguça o sentimento de humanização. • O diálogo deve ser claro, inteligível e audível para o paciente. Evite o diálogo em voz alta, prin- cipalmente na presença de acompanhantes. • Focalize o interesse na queixa do seu paciente, ou seja, no motivo que o fez procurar a sua consulta nutricional. • Você deve sempre olhar para o paciente de forma franca e cordial durante o relato. Esse mo- mento também pode ser aproveitado para a realização de uma inspeção clínica sobre o estado geral do paciente, principalmente sobre o estado psíquico, a higiene e a locomoção-primeira, talvez, sendo considerada a etapa do exame físico. • Atenda ao paciente como gostaria que você ou qualquer pessoa que você ame fosse atendida. Evite o excesso de gentilezas, que pode ser entendido como insegurança. • Cuidado com o exame físico do seu paciente, pois é preciso evitar o constrangimento. Possibilite, sempre que possível, a vestimenta apropriada, expondo apenas as partes do corpo que devem ser examinadas. Caso necessário, você deve se retirar do ambiente para que o paciente possa se preparar. O toque deve ser realizado apenas nos locais necessários ao exame, não devendo iniciá-los em locais ou com perguntas que possam constrangê-lo. • No caso do indivíduo hospitalizado, deve-se respeitar o horário das necessidades vitais e das ações da enfermagem, como higiene e medicação. • O ambiente deve ser o mais silencioso possível. Alguns autores sugerem posicionar a cadeira ao lado, e não na frente do paciente. Agora, conheceremos os métodos que você poderá utilizar para realizar a avaliação nutricional no seu atendimento. São diversos e criteriosos os métodos usados na avaliação nutricional. Essa área evoluiu de avaliações de modificações de peso e da ingesta alimentar para investigações mais profundas e in- terligadas a outras, como testes laboratoriais sofisticados e análises complexas da composição corporal UNIDADE 1 37 do paciente. De modo geral, um único método de avaliação não reflete de maneira precisa o estado nutricional de um paciente. Assim,são necessários vários métodos subjetivos e objetivos, incluindo história alimentar do paciente, exame físico e medidas corporais e laboratoriais. Um dos métodos de avaliação do estado nutricional é baseado na entrevista, também conhecida como anamnese. Nela, é possível obter informações sobre as condições atuais e passadas. Ela é usada para detectar sintomas de alteração no estado nutricional e no aspecto global envolto no problema. Com o uso da história alimentar, é possível ter um levantamento de dados sobre a quantidade e a quali- dade dos nutrientes ingeridos pelo paciente ou pelo grupo populacional. Além disso, as coletas podem abranger um período de tempo, tais como dias, semanas, meses e horários específicos. Assim, os dados coletados da ingestão de alimentos e de nutrientes devem ser comparados ao que seria recomendado ao indivíduo ou à população, considerando alguns fatores, como idade, o sexo e condição fisiológica. Um método muito famoso, o uso das medidas corporais, é indispensável em sua prática profissional, visto que, com ele, é possível observar as medidas da composição corporal do paciente, incluindo a antropometria e a avaliação da composição corporal. Exemplos de antropometria são: peso, estatura e as relações dela, dobras cutâneas e circunferência cefálica. As medidas da composição corporal abrangem dados da antropometria, da bioimpedância e da densitometria. Os resultados encontrados são comparados aos valores de referência, dado que as referências são diversas e cabe ao profissional optar pela que melhor se encaixa ao perfil do paciente. Os exames laboratoriais são aliados à avaliação do estado nutricional e, nos últimos tempos, têm ganhado muita visibilidade no ramo nutricional. Com eles, é possível identificar a medida de um nu- triente ou do metabólito dele no sangue, nas fezes ou na urina. Estão incluídas as medidas de outros componentes envoltos ao estado nutricional no sangue e demais tecidos. Desse modo, auxiliam no tratamento que o paciente já está fazendo e permitem observar os detalhes que apenas o exame físico, por exemplo, não consegue mensurar. Por exemplo, os níveis de albumina ou de proteína no sangue são considerados indicadores do estado proteico corporal; os níveis de hemoglobina no sangue po- dem refletir uma condição de anemia; os níveis de colesterol podem refletir o risco para uma doença cardiovascular (quando são influenciados pela alimentação); entre outros. Ainda em relação aos métodos de avaliação do estado nutricional, encontram-se os métodos clínico e epidemiológico. O método clínico é um procedimento de diagnóstico nutricional. Com ele, você pode identificar os processos biológicos referentes ao paciente no ambiente ambulatorial e hospitalar. Lembre-se de que, em sua prática profissional, você poderá trabalhar em diversos ambientes. Em suma, esse método identifica as manifestações ocasionadas pelo problema nutricional. Entretanto, algumas vezes, a causa não pode ser identificada. Por outro lado, o método epidemiológico se assemelha ao método clínico, porém é direcionado à investigação nutricional de populações ou de coletividades. Esse método tem foco na avaliação dos processos sociais e biológicos coletivos, como as condições econômica e sanitária, a moradia, a família, os vizinhos e a área geográfica, sendo de suma importância reconhecê-los e mensurar a correlação deles com a alimentação. A partir da utilização desse método, há a possibilidade de identificar as causas dos problemas nutricionais, facilitando a intervenção. UNICESUMAR 38 A partir das considerações acerca da avaliação nu- tricional, faremos um link com a importância da atua- ção do nutricionista no campo da saúde. Espera-se que você, futuro(a) profissional, tenha profissionalis- mo e uma conduta pautada na bioética profissional. A profissão nutricionista assumiu uma posição de imenso destaque na área da saúde nos últimos anos e estabeleceu uma conexão entre o campo da alimen- tação e da nutrição e as demais ciências. Você poderá realizar o diagnóstico nutricional por meio da avaliação nutricional e do tratamento de doenças em todas as faixas etárias, civilizações e culturas em âmbito hospitalar e/ou clínico. Além de refletir o padrão que orienta a prática social das di- ferentes culturas, o ato de se alimentar ou a impossi- bilidade de consumar o ato da alimentação delimita a dinâmica de distribuição dos recursos destinados à alimentação e revela as desigualdades entre quem se apropria desses recursos e quem deles é retirado, como é o caso da porcentagem imensa de pessoas que estão em insegurança alimentar. As necessidades alimentares, mais que o respirar ou o beber, determinam os limites que separam o que é considerado algo de sobrevivência daquilo que é percebido como vida. A quantidade e a qualidade dos alimentos ingeridos constituem os limites que sus- tentam essa separação de percepção, fato que merece muita atenção tanto por parte das políticas públicas voltadas a esse tema quanto por você, nutricionista. Isso nos leva a refletir sobre os desafios que você enfrentará no cotidiano de sua prática. Por isso, a formação requer o desenvolvimento de competên- cias técnicas, éticas e humanísticas a serem expressas na capacidade de agir com reflexão crítica e de res- peitar os valores, as culturas e a individualidade de cada paciente, e não apenas saber realizar cálculos e inferir diagnósticos. Hoje, a ética profissional me- rece muita atenção e trilha os caminhos da bioética, já que, como disciplina, envolve os conhecimentos UNIDADE 1 39 biológico e técnico associados aos conhecimentos dos sistemas de valores humanos. Assim, é necessário que a prática do exercício pro- fissional seja conduzida em conexão com os valores humanos vigentes. É necessário conhecer o Código de Ética do Nutricionista, que não se trata de apenas um livro que ficará em sua gaveta, nem de um padrão de referência que obrigatoriamente deva ser seguido, mas um documento que fornecerá um caminho para a sua reflexão profissional. Cada situação que você vivenciará durante os seus atendimentos terá características pró- prias e envolvidas em um contexto social. Pautando-se na individualidade, as relações pessoais se estabelecem. Isso gera a necessidade de admitir o pa- ciente como um sujeito único, respeitando a autonomia e aceitando, sem discriminação, a diversidade dele. Con- viver com a diversidade consiste em reconhecer que o contrário de igualdade é desigualdade, e não a diferença, o que deve ser o norte para respeitar cada paciente. Os valores citados constituem os pilares da bioética e proporcionam o prevalecimento do bem (princí- pio da beneficência), e não o mal (princípio da não maleficência). Você, como profissional, deve admitir a liberdade na diversidade e na diferença (princípio da autonomia), e respeitar parâmetros de igualdade e equidade (princípio da justiça social) durante os seus atendimentos. Esses princípios são de extrema impor- tância na atualidade, pois a relação do profissional da saúde é uma relação privada, mas que está intimamen- te vinculada ao público, porque exige o exercício da li- berdade e da tolerância às diversidades dos indivíduos e, principalmente, a recusa da desigualdade. Você, como profissional nutricionista, terá uma responsabilidade e uma oportunidade para avaliar os tópicos éticos do diagnóstico e do tratamento de doenças, como a obesidade. O Código de Ética do Nu- tricionista pode proporcionar diretrizes e reflexões para te auxiliar em seu trabalho e nas condutas a serem adotadas, sendo útil à avaliação crítica dos tratamentos atuais de várias comorbidades. UNICESUMAR 40 É crescente a preocupação com a bioética na obesidade em nível mundial. De acordo com Bricarello e Castro (2011), 250 milhões de pessoas no mundo são consideradas obesas, o que caracteriza a obesidade como epidemia. Portanto, a obesidade deve ser pauta de muitos debates tanto no meio estéticoquando da saúde. Em sua relação entre paciente e nutricionista, é fundamental refletir sobre os aspectos ligados aos campos das comunicações verbal e não verbal e ao da bioética, com destaque para a humanização tanto no processo diagnóstico quanto no tratamento, como um meio de garantir a adesão do paciente ao tratamento. Logo, a humanização se torna um tema de extrema importância, pois engloba um conjunto de valores, técnicas, comportamentos e ações, com foco em construir um princípio para que seja possível promover a qualidade das relações entre os profissionais da saúde e os pacientes. Esse tema está muito envolvido na avaliação nutricional, pois exige a observância de alguns crité- rios que permitam o envolvimento do paciente ao programa de educação alimentar que será guiado por você. Dentre eles, salienta-se o estabelecimento de um vínculo com o paciente, com o objetivo de ajudá-lo no processo de conscientização das “forças internas”, da independência e da capacidade dele em superar até mesmo crenças, mitos sobre a alimentação e a adotar um novo estilo de vida. Os pilares da bioética pressupõem a prevalência do bem (beneficência), e não do mal (não malefi- cência). Admite a liberdade na diversidade e na diferença (autonomia). Estimula o debate de questões bioéticas. Respeita os parâmetros de igualdade, equidade e justiça. Desse modo, representam uma importante ferramenta para o aprimoramento da qualidade da sua relação com o paciente. O seu paciente precisa ter autonomia, ou seja, deve assumir uma condição ativa, tendo cons- ciência dos próprios direitos e deveres, e participando de questões decisórias íntimas e coletivas. A autonomia é um princípio que se opõe ao abuso do poder, o que impõe um desafio para a ética, pois o livre-arbítrio só é estabelecido quando o poder não é usado como instrumento de controle e subor- dinação, mas de cuidado e proteção. Contudo, caro(a) aluno(a), não pense que, dessa maneira, você abdicará os seus deveres como pro- fissional, mas estará informando ao seu paciente os procedimentos e as intervenções a serem realizados. Também conversará sobre os temores, respeitando a cultura dele. Isso possibilita recusas, que devem ser respeitadas. Assim, você precisa elaborar estratégias que possibilitem uma intervenção adequada, associada aos anseios do seu paciente. Devemos admitir que, em nosso meio profissional, temos uma vasta gama de estratégias, não é mesmo? Em resumo, você deve garantir autonomia ao seu paciente. Não o deixe sozinho na tomada das próprias decisões, pois isso é isenção de responsabilidade, configurando uma relação de abandono, e não de liberdade, e não é o que queremos. Esse assunto ainda enfrenta muitos paradigmas da relação profissional com a saúde do seu paciente, mas é sempre importante considerar o respeito à autonomia e à privacidade. Além disso, os seus questionamentos durante a consulta nutricional devem ser feitos da forma mais aberta e interativa possível (olhando para o indivíduo), para que o seu paciente se sinta à vontade para falar da vida e das particularidades dele. É difícil se sentir confortável para falar sobre algo que você busca mudar e muito te afeta, concorda? Portanto, você pode fazer uso das técnicas de sua preferência para a realização de questionamentos e inquéritos. Geralmente, as perguntas podem ser formuladas durante a conversa, a partir dos relatos das condições de vida, das atividades de trabalho e/ou cotidianas e da alimentação habitual do paciente. UNIDADE 1 41 A aplicabilidade do atendimento humanizado também deve respeitar os hábitos regionais, culturais e religiosos dos pacientes. Pensani (2016) defende que são diversas as filosofias de vida que nos deparamos em nossos atendi- mentos. Cada paciente possui um estilo de alimentação peculiar, muitas vezes, pautado em recomen- dações religiosas e que não influenciam apenas os tipos de alimentos que serão consumidos, como também no modo de preparo. Pensando nisso, você, como profissional, deve estar atento(a) a todos esses aspectos durante a sua prescrição dietética. Ao usar a abordagem expressa em sua consulta, você poderá obter informações e nortear a sua avaliação nutricional. A história psicossocial, os hábitos alimentares, a história clínica individual e familiar e os dados clínicos, laborais e antropométricos devem ser identificados por meio de uma con- sulta acolhedora e humanizada. Apesar de existir uma gama de recursos e informações acerca do tema, como inquéritos presentes em softwares e em livros, estudos científicos e programas de saúde, você poderá fazer uso do seu próprio inquérito, o gera uma consulta ainda mais individual e personalizada. Nunca esqueça que o seu paciente está inserido em um contexto pessoal, familiar e social complexo. A assistência nutricional deve realizar uma leitura das necessidades pessoais e sociais. Logo, você deve sempre conduzir a consulta ao campo ético, preocupando-se com as consequências que a sua conduta tem sobre o outro. Além disso, para a assistência humanizada, é preciso perceber o outro e, se possível, seguir as seguintes ações: • Você deve ter competência e conhecimento técnico em constante atualização, para que o seu trabalho tenha alta dose de resolutividade. • Você deve ter maturidade emocional e pessoal para lidar com serenidade e firmeza em casos de vida ou morte, visto que esses temas acarretam fortes emoções e estão intimamente relacionados aos hábitos alimentares. • Você deve dispor de um forte código de ética pessoal, que oriente a sua maneira de agir, tendo em mente sempre o respeito ao seu paciente. • Você deve entender o todo que envolve a doença, os tratamentos e que ela possui e as implica- ções socioeconômicas e efetivas. A bioética profissional, no campo da nutrição, deve ser entendida como uma visão abrangente do atendimento ao paciente. O intuito é colocar você, profissional, no lugar dos pacientes. A sua con- sulta não toma o lugar de uma consulta psicológica, mas é preciso estabelecer uma interação muito cuidadosa. Com base na anamnese que você fará, é possível construir, em conjunto ao paciente, um plano de ação (independentemente se o plano alimentar será entregue, ou não, durante a consulta). Nele, serão apontados os aspectos que podem ser valorizados e estimulados, por já fazerem parte do cotidiano alimentar e de vida do paciente. Também podem ser abrangidos os aspectos que precisarão ser transformados, escolhendo estratégias viáveis a serem incorporadas pelo paciente e a família dele no dia a dia, de acordo com o diagnóstico clínico-nutricional. Vale ressaltar que, durante o acompanhamento do seu paciente, também é necessário avaliar cons- tantemente o processo e o progresso dele, identificando dificuldades e pensando em novas estratégias. UNICESUMAR 42 O atendimento nutricional precisa ser fundamentado na promoção de uma alimentação saudável na busca do prazer, do autoconhecimento, da autoestima e do lazer. Tendo em vista o reconhecimento dos diferentes saberes e lugares ocupados por você, nutricionista, e pelo seu paciente, é importante propor um plano alimentar flexível e compatível com as necessidades individuais de cada um. Durante uma discussão voltada às metas, devem ser valorizados os pequenos progressos nas modifi- cações alimentares, pensando em curto e médio prazo, no objetivo da consulta e nos riscos associados à saúde, caso o seu paciente apresente comorbidades. As metas de emagrecimento que você estabelecerá deverão ser acordadas, não cedendo à pressão por uma dieta rigorosa para a busca do emagrecimento rápido, caso não seja o recomendado no momento. O ideal é trabalhar com a reeducação alimentar, para que novos hábitos sejam incorporados ao cotidiano do paciente e da família dele. É comum que o paciente traga dietas com efeitos mágicos, orientadas por amigos ou expostas pela mídia. Logo, esteja aberto a ouvir e a apontar as desvantagens dessas dietas e esteja atualizado em relaçãoaos novos estudos realizados nessa área, a fim de ter res- paldo científico e prático para diversificar os seus protocolos e orientações dentro de uma vasta gama de condições clínicas. Acredito que o seu paciente te agradecerá pelo seu profissionalismo. Chegamos ao fim desta unidade. Durante o seu trabalho junto ao paciente, sempre tente prevalecer o bem-estar e a saúde dele. Respeite a autonomia dele, seja justo(a) e não discrimine ou estigmatize o debate das questões bioéticas, buscando a obtenção de diferentes visões sociais de outras áreas do co- nhecimento, a fim de fortalecer a sua atividade como nutricionista, a prática da interdisciplinaridade e da humanização no atendimento e a consciência de que a ética e a cidadania são valores indissociáveis em todas as relações profissionais. UNIDADE 1 43 Nesta unidade, correlacionamos o estado nutricional à saúde de um indivíduo. Explicamos como se deu o histórico da avaliação do estado nutricional de um indivíduo. Lembre-se de que as doenças infecciosas causavam as maiores mortes no mundo, muitas vezes, relacionadas à deficiência de nutrien- tes. Com o passar dos anos e o avanço da ciência, houve a melhoria das condições sanitárias (apesar de ainda existirem populações sem água tratada e rede de esgoto) e o desenvolvimento de vacinas, o que proporcionou imunização em massa. Também observamos um maior cuidado com a saúde e a distribuição de alimentos (apesar de muitas pessoas ainda passarem fome). Assim, as doenças infecciosas deixaram de ser as maiores causas de morte. A partir desse conjunto de melhorias, as deficiências de nutrientes são menos comuns na atualidade, apesar de serem muito presentes. Embora o desenvolvimento de doenças dependa de vários fatores, a alimentação contribui de maneira substancial. Com a aplicação dos métodos de avaliação nutricional, podemos identificar se o paciente está em risco nutricional, como desnutrição ou obesidade. Considerando a presença contínua de doenças relacionadas à nutrição, é importante que nós, profissionais, estejamos capacitados para avaliar as condições nutricionais dos nossos pacientes e usar técnicas de avaliação do estado nutricional, que identificam os indivíduos que necessitam de intervenção e evidenciam aquela que será a mais apropriada. Espero que você tenha se apaixonado pela avaliação nutricional, assim como eu. Conte comigo! 44 Caro(a) aluno(a), encerramos a nossa unidade. Todavia, antes, gostaria de convidá-lo(a) a realizar avaliação, uma espécie de checklist sobre as questões que estão no mapa da empatia a seguir. Quais são as NECESSIDADES? Descrição da Imagem: a figura é composta por um retângulo dividido por algumas formas. Logo, tem-se um retângulo com quatro pirâmides. As pontas delas de unem por uma figura que pisca e sorri. Em cada uma das pirâmides, encontram-se perguntas, tais como: o que ouve? O que pensa e sente? O que vê e o que faz e fala? Na base do retângulo, existem outras duas formas em formato de retângulo. Elas estão nas cores rosa-claro e roxo-claro, e têm as seguintes perguntas: quais são as dores? Quais são as necessidades? 45 1. Leia o excerto a seguir: “O estado nutricional reflete o grau em que as necessidades nutricionais fisiológicas de um indivíduo estão satisfeitas. O equilíbrio entre o consumo de nutrientes e os requerimentos nutricionais resulta neste estado nutricional. Quando se consomemos nutrientes adequados para satisfazer às necessidades diárias do corpo, incluindo qualquer demanda metabólica aumentada, o indivíduo se aproxima de um estado nutricional ideal”. MAHAN, L. K.; ESCOTT-STUMP, S.; RAYMOND, J. L. Krause: alimentos, nutrição e dietoterapia. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. Considerando a avaliação do estado nutricional, assinale a alternativa correta: a) O estado nutricional utiliza, em casos muito específicos, adaptações fisiológicas, para que o organismo não perca nenhuma das funções. b) O estado nutricional de um paciente com deficiência de nutrientes pode ser detectado nos estágios iniciais com o uso da avaliação nutricional. c) O estado nutricional de um paciente desnutrido se relaciona à homeostase nas adaptações fisiológicas e depleção severa das reservas energéticas. d) O estado nutricional debilitado de pacientes hospitalizados pode ocasionar uma desnutrição e grande risco para infecções e até a morte, independentemente da homeostase e das adap- tações fisiológicas do organismo. e) O estado nutricional adequado se dá quando o paciente consome os nutrientes adequados para satisfazer às necessidades diárias. O desequilíbrio nesse sistema pouco independe das adaptações fisiológicas. 2. Leia o trecho a seguir: “Diante da diversidade dos métodos para avaliação do estado nutricional, é necessário saber escolhê-los. A escolha dependerá do objetivo, isto é, omotivo pelo qual se está avaliando nutri- cionalmente determinado indivíduo (ou grupo), da fase da vida emque se encontra (gestação, envelhecimento, infância, etc.), da disponibilidade de recursos físicos e humanos, do tempo e dos instrumentos e locais disponíveis. Não existe ummodo único de avaliar nutricionalmente um indivíduo ou uma coletividade. Mas, em geral, se utilizam métodos classificados como diretos e indiretos a fim de facilitar a compreensão dos diferentes parâmetros utilizados para se obter um diagnóstico nutricional”. FERREIRA, A. A.; BARROS, D. C.; BAGNI, U. V. Avaliação nutricional na atenção básica: reflexões sobre práti- cas e saberes. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2018. Sobre osmétodos indiretos e diretos na avaliação do estado nutricional, assinale a alternativa correta: 46 a) Os métodos diretos expressam o estado nutricional de um paciente com base nas abordagens qualitativas e quantitativas. b) Os métodos indiretos identificam as diversas causas dos problemas nutricionais em conso- nância com a avaliação do consumo alimentar de forma qualitativa e quantitativa. c) Os métodos indiretos priorizam a interpretação dos exames físicos e bioquímicos para ex- pressar o estado nutricional do paciente. São pautados na semiologia nutricional. d) Os métodos diretos determinam os problemas nutricionais e alimentares de indivíduos e coletividades, identificando os sinais e os sintomas de uma carência, sem correlação com os hábitos alimentares. e) Os métodos diretos são imprescindíveis para os métodos indiretos, e vice-versa. A combina- ção entre os dois possibilita um diagnóstico preciso. Ambos estão envolvidos diretamente na semiologia nutricional. 3. Leia o fragmento a seguir: “Muitos fatores ajudam a medir se um indivíduo está em risco nutricional. Os fatores a serem considerados incluem os padrões de ingestão de alimentos e nutrientes, fatores psicossociais, história médica e de saúde, condições físicas associadas a estados de doença e distúrbios específicos, peso e gordura corporais, exame físico, alterações bioquímicas, uso de fármacos e uso de produtos botânicos e fitoterápicos”. MAHAN, L. K.; ESCOTT-STUMP, S.; RAYMOND, J. L. Krause: alimentos, nutrição e dietoterapia. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. Em relação ao exame físico, algumas técnicas podem ser utilizadas para guiar o atendimento, incluindo a palpação, a inspeção, a percussão e a ausculta. Considerando as técnicas, explique cada uma delas e evidencia a importância delas perante a identificação de um risco nutricional. Nesta unidade, você conhecerá os aspectos relacionados à avaliação do consumo alimentar de um indivíduo. Para tanto, serão englo- bados os principais métodos para avaliar os padrões alimentares combase nas abordagens holística e reducionista. Além disso, você conhecerá os fatores envolvidos na forma de estimar a ingestão ali- mentar, compreendendo osmodosde realização de uma adequada análise da história alimentar do paciente e os mais diversos tipos de inquéritos e registros alimentares. Introdução aos Estudos dos Protocolos de Avaliação Nutricional e de Consumo Alimentar dos IndivíduosDra. Lorena dos Santos Castro UNICESUMAR 48 Olá, estudante, gostaria de convidá-lo a imaginar a seguinte hipótese: você atenderá um paciente do sexo masculino com 71 anos. Ao observar a história médica do paciente a partir do prontuário do encaminha- mento, percebeu que ele tem uma Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), osteoporose e faz uso de prótese dentária e aparelhos auditivos. Tendo em mente essas informações iniciais, como você realizará uma avaliação adequada da história alimentar do paciente? Como avaliará o consumo alimentar dele? Aluno(a), durante a sua prática profissional enquanto nutricionista, você atenderá pacientes de diversas faixas etárias (a depender do nicho que escolherá), culturas e religiões, fatores que refletem de modo direto no padrão alimentar de cada um. Sendo assim, uma prescrição dietética pautada na individualidade demanda um conhecimento sobre todos esses fatores. Acredito que você deva estar se perguntando: como conhecer a prescrição dietética para cada situação? Ao longo de sua jornada como estudante, você terá todo o respaldo para essa demanda. Posso te ajudar, neste momento, a responder à pergunta que realizei. Temos um paciente idoso, certo? Acredito que, em seu convívio pessoal, você já deva ter passado por experiências em que presenciou como um idoso se alimenta. Em sua maioria, ficam mais seletivo à alimentos específicos e têm uma identidade alimentar bem enraizada. Muitos não têm abertura para o início de novos hábitos alimentares. Estou certa? Vamos mais além: o nosso paciente tem algumas limitações fisiológicas, como o uso de prótese dentária, o que demanda cuidados para a mastigação. Sendo assim, você deverá se atentar para que a sua prescrição dietética tenha alimentos que favo- recem o caso do paciente. Além disso, o paciente faz uso de aparelho auditivo, fato que exige atenção durante a conversa e os questionamentos. Em relação aos questionamentos ao paciente idoso, há di- versas limitações, visto que questionários retrospectivos, ou seja, que demandam o uso da memória, muitas vezes, devem ser evitados, assim como aqueles que têm muitos critérios, a exemplo do registro alimentar fotográfico e da conversa intuitiva. O questionário de frequência alimentar também pode ser restrito, caso o paciente idoso seja analfabeto. Nesse caso, devemos contar com o auxílio de uma terceira pessoa, que poderá auxiliar as ferramentas de avaliação. Dessa forma, recomenda-se o uso do registro alimentar, assim como o questionário de frequência alimentar, visto que, neles, podem ser anotadas todas as refeições realizadas pelo paciente. Em dias alternados, é possível realizar a coleta de informações sobre o preparo dos alimentos e, de modo especial, descobrir, de forma clara, os grupos de alimentos consumidos e correlacioná-los com algumas comorbidades, como a osteoporose e a Doença Obstrutiva Pulmonar Crônica (DPOC). Deixamos de fora o recordatório 24 horas, pois o método, além de demandar o uso da memória pregressa do paciente, não coleta de maneira exemplar a história dietética do paciente idoso. Muitas vezes, os alimentos alimentares do idoso variam muito, a depender do paladar, do uso de medicações, do humor do dia, entre outros. Está curioso(a) para compreender mais o uso dessas ferramentas em outros grupos populacionais? Quais são os métodos envolvidos na avaliação do consumo alimentar de um paciente? Convido você a descobrir tudo isso e muito mais nesta unidade. Vamos lá! Proponho que você coloque em prática a realização de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA) com indivíduos idosos com os quais você convive e/ou conhece. Para te auxiliar na realização dessa atividade, a seguir, é exibido um modelo de QFA que você poderá fazer uso. UNIDADE 2 49 Alimentos Nunca Menos de 1 vez por mês 1 vez por semana 2 a 4 vezes na semana 1 vez ao dia 2 vezes ou mais ao dia Arroz branco Arroz integral Macarrão Biscoitos/ Bolachas Pão francês Pão integral Mandioca/ macaxeira/ Aipim Bolo Pipoca Batata doce Batata inglesa Cuscuz Inhame Alface Repolho Cenoura Couve Pepino Chuchu UNICESUMAR 50 Alimentos Nunca Menos de 1 vez por mês 1 vez por semana 2 a 4 vezes na semana 1 vez ao dia 2 vezes ou mais ao dia Ovos Carne bovina Carne suína Frango Queijos Leite e derivados Presunto Bebidas alcoólicas Sucos naturais Fonte: a autora. Neste experimento, você aplicará, nos indivíduos idosos, um singelo modelo de questionário de fre- quência alimentar de um pequeno grupo de alimentos por determinado período de tempo. A partir da aplicação, você conseguirá analisar, na prática, como esse público reagirá com as suas respostas, incluindo as principais limitações encontradas. É visível a aplicabilidade do QFA em uma população de idosos. É de conhecimento que essa ferra- menta proporciona uma melhor aproximação entre a ingestão alimentar usual a longo prazo e o públi- co-alvo. Trata-se de uma ferramenta que permite mensurar o consumo alimentar de vários alimentos. No QFA em questão, foram adicionados alimentos de suma importância, tendo em vista as prin- cipais deficiências nutricionais de idosos. É claro que, para um completo diagnóstico, são necessários diversos métodos de triagem. Contudo, conhecer e comparar esse consumo aos padrões alimentares relacionados à doença são atitudes muito interessantes. Por exemplo, em idosos, há uma forte correlação entre a deficiência de vitamina B12 e determinadas comorbidades, como a baixa absorção de vitamina D e baixo consumo de aminoácidos essenciais. Logo, ao longo de sua jornada acadêmica na nutrição, você conhecerá todas essas correlações e saberá como fazer a sua intervenção. Anote, em seu diário de bordo, a sua experiência com a atividade proposta. Você teve alguma dificuldade em avaliar o consumo alimentar dos idosos? Como foram as suas respostas? UNIDADE 2 51 Iniciaremos esta unidade com um tema muito importante no âmbito da avaliação nutricional de um paciente: a avaliação dos aspectos que estão relacionados ao consumo alimentar. Ao analisar esse item durante o seu atendimento, você terá um maior conhecimento sobre a alimentação do seu paciente e saberá qual abordagem utilizar. É importante considerar que o consumo alimentar é um dos principais determinantes da saúde de um indivíduo. Diversos estudos demonstram que melhorar essa ingestão acarreta em diminuição da morbidade e da mortalidade. Os estudos consideram que a ingestão alimentar é um comportamento muito complexo e que não pode ser limitado ao consumo de um único tipo de alimento e/ou nutriente. Sendo assim, durante o seu atendimento, deverá ter em vista que a variedade de alimentos, nutrientes e as interações entre eles complicam consideravelmente a análise das associações entre os alimentos e a saúde dos indivíduos. Realizando uma análise histórica, há, frequentemente, relatos relacionados ao papel do nutriente, que influencia, de forma individual, a saúde dos indivíduos. Todavia, nem todos os compostos nutricionais dos alimentos foram totalmente estudados, fato que limita em partes algumas correlações. Qual é a melhor forma de fazer a análise? A composição nutricional dos alimentos varia consideravelmente, havendo, provavelmente, interações sinérgicas entre os componentes nutricionais de qualquer alimento consumido, tema que tem sido cada vez mais comentado. UNICESUMAR 52 A biodisponibilidade alimentar está muito em evi- dência e pode nos auxiliar em diversos tratamentos de saúde. Um exemplo é o consumo de frutas cítricas e a incidência de escorbuto em marinheiros do século 18. Walter Haworth e Albert von Szent-Gyorgyi receberam o Prêmio Nobel de 1937, ao publicarem um estudo em que identificaram a vitamina C em determinados alimentose correlacionaram com a prevenção do escorbuto. Você já deve conhecer a importância do consumo de vitamina C, não é mesmo? Agora, sabemos que essa descoberta foi realizada há muitos anos e que, a partir das orientações alimentares que atendem às doses diá- rias recomendadas de nutrientes, os alimentos que são fontes de vitamina C foram considerados os principais agentes na prevenção do escorbuto. Desse modo, a vitamina C passou a ser usada como suplemento de forma popular (JACOBS; TAPSELL, 2007). A partir de estudos como esses, foram realizados muitos relatos sobre a dificuldade em descobrir as interações entre saúde e alimentação, fato que reflete em nosso conhecimento atual sobre os padrões ali- mentares que os indivíduos comumente possuem. No entanto, os padrões alimentares da população devem ser incluídos no desenvolvimento e na im- plementação de diretrizes nutricionais, o que pode nos auxiliar na melhoria da prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Atualmente, trabalhamos com diretrizes dietéticas que fornecem declarações baseadas em evidências so- bre as escolhas alimentares, com o intuito de atender às necessidades nutricionais e entender como é possível reduzir o risco de doenças crônicas prevalentes. Elas são muito importantes e envolvem uma quantidade considerável de pesquisas. A implementação delas tem consequências importantes para a saúde dos pacientes. É importante ressaltar que a dieta alimentar, en- quanto componente do estilo de vida do paciente, exerce efeitos sobre a saúde dele de forma sinérgica ou em conjunto com outros fatores do estilo de vida. Entretanto, ela não refletirá no exame individual de UNIDADE 2 53 cada fator, ou seja, a saúde relacionada ao estilo de vida demanda a observação de diversos fatores. Nós, como nutricionistas, necessitamos desses conhecimentos para realizarmos um diagnóstico nutricional específico. Para fazer a interação dos fatores exibidos, o pes- quisador e/ou profissional precisa investigar os fa- tores da vida de maneira individual. Também deve selecionar o método estatístico ideal, como modelos de regressão linear e logística. Quanto melhor for a metodologia usada para verificar a interação, melhor será a credibilidade dela. Como exemplo, há o estudo realizado por Hankin- son et al. (2013), em que foi comparada a composição da dieta aos diversos tipos de obesidade. Foi constata- do que a composição da dieta (relatada pela ingestão de grupos de alimentos e de macro e micronutrientes) e o comportamento perante às atividades de rotina, como o tempo assistindo à televisão, as atividades sedentárias e os níveis de atividade física, foram se- melhantes aos diferentes tipos de obesidade, ao Índice de Massa Corpórea (IMC), à ingestão energética e às características sociodemográficas dos pacientes. Em outras palavras, diversos fatores foram de- limitados e associados à obesidade. Hankinson et al. (2013) ressaltaram que a prevalência de doenças crônicas pode aumentar à medida que os países se desenvolvem e se tornam mais industrializados, in- ferindo que essa associação seja importante do ponto de vista nutricional. Você percebeu como a avaliação nutricional demanda uma análise crítica de muitos fatores? Entendamos ainda mais. Por vezes, em nossos atendimentos, vamos nos deparar com o consumo alimentar de um paciente que é pautado em padrões alimentares, os quais de- sempenham um papel importante na saúde e, por- tanto, na prevenção de doenças crônicas. Portanto, conhecê-los é fundamental. Os padrões dietéticos podem nos guiar de forma mais clara e precisa sobre os diversos comportamentos alimentares. Contudo, como identificar esses padrões? UNICESUMAR 54 Hoje, há modelos de padrões alimentares específicos e que carregam a interação de todas as esco- lhas alimentares que formam um padrão alimentar completo, influenciado pelo clima, demografia, religião, cultura e outros elementos. Além disso, com a análise do padrão alimentar, podemos sanar as preocupações sobre as interações de alimentos e nutrientes e obter uma imagem mais nítida do comportamento alimentar de um indivíduo, auxiliando na identificação de combinações específicas que são protetoras ou deletérias e promovendo mais pesquisas sobre alimentos individuais e diretrizes dietéticas. Fascinante, não concorda? A World Health Organization (WHO, 2017) considera que a alimentação tem um papel muito importante na prevenção de doenças crônicas e é um dos mais importantes fatores do estilo de vida. Essa consideração é de grande mérito para o reconhecimento de nossa profissão, além de ressaltar a importância de se compreender a complexidade da relação entre as doenças crônicas e a alimentação. Além da alimentação pouco saudável, a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou outros fatores comportamentais importantes, tais como sedentarismo, tabagismo e aumento do consumo de álcool, tidos como fatores de risco comuns para o surgimento e/ou aumento das doenças crônicas. Em suma, a alimentação, assim como comportamento do indivíduo, o qual pode ser modificável, pode ajudar a reduzir o risco cardiovascular e prevenir doenças crônicas. Portanto, você, como pro- fissional nutricionista, pode realizar uma avaliação do consumo alimentar geral da população e estar envolto nesse fascinante processo. Estamos no caminho certo. Vamos lá! Durante o atendimento, é de extrema importância investigar o padrão de estilo de vida do paciente como um todo, a fim compreender de maneira mais clara as implicações dele na saúde e na doença. A etiologia das doenças crônicas é complexa e está relacionada à exposição a muitos fatores ambientais, tornando delicada a investigação durante o atendimento. Diversos estudos epidemiológicos prospectivos e randomizados mostraram que os fatores ambientais estão envolvidos na prevenção e/ou manejo de doenças crônicas. Porém, os fatores do estilo de vida, na maioria das vezes, exercem efeitos de forma sinérgica, fato que não seria evidenciado ao estudar cada fator individualmente. Assim, a adequada análise dos padrões alimentares se dá de forma sinérgica. Estudos recentes relatam que, se comparada aos métodos clássicos utilizados na epidemiologia nu- tricional tradicional, a abordagem do padrão do estilo de vida confere uma representação holística na investigação dos fatores que predispõem o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis. Hoffmann (2003) menciona que a abordagem reducionista foi e é, até hoje, a abordagem dominante na pesquisa no campo da nutrição. Isso significa que são estudadas as partes da dieta, ao contrário da totalidade, ou são estudados os componentes individuais dos alimentos, ao contrário dos hábitos alimentares como um todo. Hoffmann (2003, on-line, tradução nossa) também levanta a seguinte questão: “resumir o conhe- cimento detalhado sobre os constituintes individuais da dieta reflete o efeito geral da dieta?”. Para responder à pergunta, Harman e Parnell (1998) realizaram uma investigação em dietas vegetarianas e descobriram que investigar o efeito dos nutrientes únicos, especialmente daqueles propensos à defi- ciência (como a vitamina B12), levou a uma perspectiva diferente das dietas vegetarianas, ao contrário de investigar o efeito da dieta como um todo. Em outras palavras, de fato, investigar individualmente os componentes da dieta pode ser extremamente eficaz. Imagine como seria difícil tratar a deficiência de nutrientes de um paciente sem saber o alimento que está relacionado a esse déficit? UNIDADE 2 55 Agora, conheceremos as abordagens que podem ser utilizadas nas pesquisas nutricionais, visando auxiliar no entendimento dos padrões expostos. Dentre elas, temos a abordagem tradicional, que é pautada no reducionismo, ou seja, aborda as questões sobre como é o conhecimento do tema, como ele é obtido e o que o torna conhecimento. Correlacionando o uso dela à dieta e à saúde, do ponto de vista reducionista, o objetivo da ciênciaé reconstruir a realidade por partes. Em outras palavras, ao investigar a alimentação do paciente, você, nutricionista, reconstruirá a realidade alimentar a partir de pequenos relatos. Nesse contexto, a dieta, como um todo, é entendida como a seleção alimentar ou o padrão alimentar de uma pessoa ou população. Geralmente, é reduzida a grupos de alimentos, itens alimentares e/ou constituintes alimentares, Como forma ilustrativa desse pensamento, há a Figura 1. A saúde mencionada até então se refere à saúde como um todo, sendo entendida como saúde física. Isso pode ser reduzido a vários sistemas, componentes e marcadores biológicos. Dieta Saúde Grupos alimentares (ex: frutas) Itens alimentares (ex: maçãs) Constituintes (ex: Fibras dietéticas) Sistemas (ex: cardiovascular) Componentes (ex: artérias coronárias) Marcadores biológicos (ex: per l lipídico) Figura 1 - Contextos de relação entre a dieta e a saúde / Fonte: adaptada de Hoffman (2003). Descrição da Imagem: a figura é composta por duas caixas de texto com formato oval, uma à direita, outra à esquerda. No meio, há uma linha com setas indicando para os dois lados. A caixa oval da esquerda faz menção à dieta e a da dieta à saúde. Embaixo da caixa oval da esquerda, há uma seta indicando para baixo e se conectando a outra caixa de texto retangular que faz menção aos grupos ali- mentares, comoexemplo, as frutas. Logo abaixo, há outra seta parabaixo. Ela se conecta a outra caixa de texto retangular e faz menção aos itens alimentares, por exemplo, maçãs. Por fim, há outra seta para baixo e se conectando a uma caixa de texto retangular que se destina aos constituintes alimentares, por exemplo, as fibras dietéticas. A caixa de texto oval à direita, referente à saúde, possui uma seta indicando a parte inferior e se conectando a uma caixa de texto commenção aos sistemas, por exemplo, o cardiovascular. Na sequência, outra seta para baixo se conecta à outra caixa retangular, fazendo menção aos componentes, por exemplo, as artérias coronárias. Por fim, outra seta para baixo une a última caixa retangular com menção aos marcadores biológicos, por exemplo, o perfil lipídico. Uma linha reta com uma seta nas duas extremidades conecta a caixa de texto dos itens alimentares à dos marcadores biológicos. Outra liga as caixas componentes aos constituintes alimentares. Por fim, outra liga os constituintes alimentares aos marcadores biológicos. UNICESUMAR 56 A abordagem reducionista é muito usada e são diversas as razões pelas quais as questões alimentares e de saúde vão além do alcance com essa abordagem. Um dos motivos é que a dieta e a saúde apresentam características complexas. Isso se justifica pela dieta ser composta por um grande número de componentes, não ser completamente redutível às partes e exibir interações não lineares entre os componentes. Desse modo, a dieta é um emaranhado de nutrientes, os quais fazem diversas interações com o organismo. A complexidade da dieta pode ser exemplificada pela composição dela. Trata-se de uma mistura de alimentos que são feitos por uma infinidade de compostos químicos. A partir disso, surgem efeitos que se assemelham, como interações, antagonismos e sinergismos, que explicam uma proporção do todo não sendo englobada pelo exame de partes isoladas. Logo, o estudo das partes com a abordagem reducionista permite a descrição da interação de um único nutriente com um único resultado e é essencial para explorar, posteriormente, o efeito do todo. No entanto, apenas investigar o efeito das partes pode levar a avaliações científicas formalmente precisas, sendo necessária uma visão geral das partes. Entretanto, ainda assim, é fornecida uma visão muito restrita e enviesada da realidade. Portanto, a abordagem reducionista falha em descrever adequa- damente a multiplicidade dos efeitos metabólicos em todo o organismo, pois foca apenas na descrição de um único nutriente. Diante disso, entendamos como pode ser feita outra análise do padrão alimentar. Há a compreensão de que o todo é mais do que a soma das partes. Reconhecendo que a aplicabi- lidade da abordagem reducionista é limitada, conheceremos outra abordagem usada nas pesquisas nutricionais: o holismo. O holismo é uma abordagem epistemológica, retrata a complexidade e objetiva superar as limitações do conceito mecanicista da natureza. Em outras palavras, ao contrário de se con- centrar nas partes e nas relações de causa e efeito, o holismo se concentra no todo e nas causalidades que podem envolver essas relações. Além do mais, o todo não é visto como a soma das partes ou algo adicional às partes. Primeiramente, ele é considerado a interação dinâmica das partes. Isso significa que um sistema como um todo tem características não encontradas em nenhuma das partes. Explicando de forma mais clara, para englobar a dieta como um todo, vários pré-requisitos preci- sam ser atendidos, ou seja, aqueles que você deverá preencher durante o seu atendimento. A seguir, conheceremos detalhadamente cada um: • É necessário conhecer as partes para compreender o todo. É preciso investigar a relação entre a dieta e a saúde a partir dos constituintes da dieta do seu paciente. • Devem ser incluídas em seus atendimentos pesquisas sobre alimentos e grupos de alimentos e abrangido um exame relativo aos padrões dietéticos ou diferentes dietas alimentares. Isso resultará em uma compreensão mais abrangente da relação entre a dieta e saúde. • É preciso reunir informações detalhadas e realizar uma avaliação dos fatores que estão in- fluenciando a relação entre a dieta e a saúde, especialmente as avaliações dietéticas e os vastos métodos estatísticos. UNIDADE 2 57 • É preciso desenvolver modelos mais com- plexos e que permitam a combinação de informações e a compreensão da comple- xidade das interações. Por vezes, os estudos não conseguem coletar de maneira com- pleta as informações, sendo necessários ajustes para melhor compreensão. • É necessário integrar as ciências da nutri- ção para que haja um conceito multidisci- plinar, aumentando as pesquisas básicas e aplicadas em várias áreas da saúde. Aprendemos que examinar um único fator (die- ta, atividade física, fumo, consumo de álcool ou sono) e a associação dele com a saúde ou a doen- ça gera maiores níveis de compreensão sobre a relação entre a dieta e a saúde. A abordagem ho- lística estuda todo o padrão de estilo de vida e as inter-relações que podem existir, muito diferente da abordagem tradicional. Em suma, o padrão de estilo de vida é enten- dido como uma interação dinâmica entre inúme- ros fatores, ao contrário de enfatizar cada fator individualmente. Assim, ao avaliar os efeitos de um padrão de estilo de vida na saúde, há uma melhor compreensão, se comparada à interpreta- ção dos componentes de forma individual (dieta, atividade física, álcool, fumo ou sono), e possi- bilita detectar mais associações e implicações na vida real de um paciente. A partir de agora, compreenderemos os padrões alimentares e de estilo de vida, os quais são de suma importância para o melhor planejamento de estratégias de intervenção e educação no âmbito nutricional. Pense em sua alimentação e me responda: fa- tores emocionais, sociais e até o estresse que pode ocorrer no campo afetivo influenciam a sua inges- tão alimentar? Acredito que, em algum momento UNICESUMAR 58 de sua vida, isso pode ter acontecido, não é mesmo? São inúmeros os fatores relacionados ao consumo alimentar, logo, é de extrema importância realizar uma adequada avaliação da ingestão alimentar durante o seu atendimento nutricional. A avaliação do consumo alimentar é um método subjetivo que avaliará a ingestão nutricional de seu paciente. Para a sua prática profissional, existem diversos recursos disponíveis, como: recordatório 24 horas (R24h), registro alimentar, histórico alimentar e questionário de frequência alimentar (QFA). Vamos aprender os principais métodos que você poderá utilizar em sua prática clínica ao longodesta unidade, assim como os que os estudos sugerem para melhor compreensão do consumo alimentar do paciente. Caro(a) aluno(a), é importante tem em mente que, durante a sua prática como nutricionista, você escolherá a melhor ferramenta de trabalho, a qual conseguirá realizar de maneira eficaz a avaliação. Os estudos demonstram que o QFA tem sido o mais utilizado em pesquisas epidemiológicas e nas anamneses nutricionais, dado que têm ótima aplicabilidade e é de fácil utilização para o pesquisador e para o profissional. Ele é composto por dois componentes: um qualitativo, que investiga a frequência do consumo de um determinado alimento, e um quantitativo, que estima a quantidade de alimento. Além disso, você poderá utilizar outros recursos, como um atlas fotográfico, ou itens que ilustram medidas caseiras e até molduras. Grandner et al. (2013) relatam que os pacientes que fazem uso do QFA respondem melhor a respeito da frequência e da quantidade de alimentos que consumiram em um determinado período de tempo. É possível focar na ingestão de nutrientes específicos, na exposi- ção a um determinado grupo de alimentos (que pode ter correlação a uma doença específica) ou na UNIDADE 2 59 avaliação das inter-relações entre os nutrientes e os alimentos (como o padrão alimentar) e nos efeitos delas no estado de saúde e no risco de doenças. Muito útil, concorda? Além do QFA, outros fatores que estão adquirindo muita importância além da investigação nu- tricional são os marcadores bioquímicos específicos. Eles estão sendo usados para medir a ingestão dietética de nutrientes ou de alimentos específicos na prática profissional. Com o uso deles, é possível ter estimativas objetivas sobre o consumo alimentar nas avaliações antropométrica e clínica de um paciente, enquanto o recordatório 24 horas, o registro alimentar e o QFA são estimativas subjetivas. Entretanto, tendo em vista uma melhor estratégia para avaliar o estado nutricional do paciente, a as- sociação de vários fatores ajuda a ter um melhor diagnóstico nutricional. Por outro lado, essa estratégia pode não ser tão interessante, visto que alguns biomarcadores podem ser afetados por doenças e regulação homeostática. Além disso, informações sobre a ingestão alimentar absoluta do paciente não são fornecidas. De certa forma, coletam-se dados de maneira incompleta. Ademais, as recomendações dietéticas destinadas a mudar os hábitos alimentares de um sujeito não podem ser feitas apenas pelo uso de biomarcadores. Assim, a avaliação direta da ingestão alimentar por meio dos inquéritos alimentares pode, às vezes, ser mais informativa, se comparada aos biomarcadores. O QFA é um método que coleta os dados do paciente de forma confiável e apresenta baixo custo, permitindo a identificação e a avaliação dos padrões alimentares em estudos epidemiológicos. Apesar de os padrões alimentares envolvidos no recordatório 24 horas não avaliarem com precisão os padrões alimentares habituais de um paciente, ele é um método muito aceito para avaliar o paciente em nível individual ou um grupo populacional. UNICESUMAR 60 Em sua prática profissional, você precisará realizar diversas observações sobre o comportamento alimentar do paciente, visto que a análise do padrão alimentar é de suma importância por levar em consideração as correlações que podem existir entre determinados alimentos e muitos nutrientes, repre- sentando um quadro mais amplo de ingestão alimentar e analisando os efeitos da dieta como um todo. A análise do padrão alimentar é uma importante abordagem alternativa e de suporte para analisar a relação entre a nutrição e o risco de doenças crônicas, sendo mais preditiva para o risco de doenças, em comparação à análise de alimentos ou de nutrientes individuais, assim como já mencionamos nesta unidade. Isso já ficou claro, certo? Partindo do princípio da realização da análise, existem diferentes abordagens estatísticas que têm sido utilizadas para observar os padrões alimentares tanto no âmbito das pesquisas científicas quanto na prática clínica. A seguir, analisaremos alguns detalhes de cada uma. Temos duas abordagens: a teórica e a priori. A priori tem, como foco, a definição de determinados escores ou índices de qualidade da dieta com base em recomendações nutricionais. Ela é aplicada tanto em diferentes populações ou indivíduos, ou seja, é realizada uma análise a partir de comparações de dados que já foram estabelecidos. Os métodos a priori usam variáveis nutricionais que são quantificadas de forma que possam fornecer uma avaliação global da parte qualitativa da dieta, sendo importante para a definição do estado de saúde do paciente. As abordagens a priori baseadas em escores são construídas de acordo com determinadas diretrizes dietéticas e incluem nutrientes e/ou alimentos e/ou grupos de alimentos selecionados segundo as re- comendações nutricionais, estabelecendo, dessa forma, um determinado escore, o qual atua como uma pontuação. Para analisar o escore, os dados são agrupados, medindo a qualidade da dieta. Eles foram os primeiros métodos utilizados na epidemiologia no âmbito nutricional, visando avaliar o efeito que uma combinação de nutrientes ou alimentos (não apenas um único nutriente) pode exercer sobre a saúde de um paciente. Evidentemente, para fazer a avaliação, foi necessária uma base de dados, a fim de que os dados fossem analisados de maneira fidedigna. Além do escore, outra pontuação simples está relacionada ao método a priori, que se baseia em uma pontuação a partir da diversidade alimentar, considerando o número de porções consumidas pelos grupos de alimentares (laticínios, carnes, cereais, frutas e vegetais) ou os alimentos consumidos frequentemente pelo paciente. Essa pontuação também possui uma referência como base. De maneira geral, ambas as formas (por escore e por pontuação da diversidade alimentar) exigem uma base de dados para avaliação. Atualmente, há um grande número de índices de qualidade da dieta. A maioria deles é elaborado, definido ou adaptado, visando expressar as necessidades nutricionais de diferentes grupos populacionais, com o intuito de evidenciar o cumprimento de padrões alimentares específicos, fato que nos auxilia na prática profissional. Sendo assim, existem três categorias principais de indicadores: • Indicadores baseados em nutrientes: precisam ser transformados de quantidade (peso do ali- mento) em qualidade (teor de nutrientes) e, posteriormente, comparados aos requisitos-padrão, ou seja, a uma base de dados, muitas vezes, usando, como base, medidas caseiras, imagens e ilustrações como ponto de referência para mencionar o consumo. UNIDADE 2 61 • Em adição, encontram-se os alimentos/indicadores baseados em grupos de alimentos que usam guias alimentares para avaliar porções, frequência ou grupos de alimentos. É um dos principais indicadores utilizados pelos nutricionistas. • Por fim, um excelente indicador está baseado na combinação de indicadores, ou seja, abrange a variedade da dieta dentro e entre grupos de alimentos, a ingestão adequada de nutrientes ou de grupos de alimentos (quantidade ou porções), a frequência de consumo do alimento e o equilíbrio geral de macronutrientes consumidos. Essa combinação de indicadores, talvez, seja o protocolo mais utilizado, visto que é a mais completa e engloba uma gama de informações. Você compreendeu que o profissional nutricionista precisa escolher a forma de abordagem e o próprio critério avaliativo? São muitas as opções, fato muito positivo, tendo em vista a diversidade populacio- nal que temos para atender. Basta apenas conhecer muito bem cada uma delas e delimitar aquela que melhor se encaixa em seu atendimento. Finalizamos os conceitos envolvidos na abordagem a priori. Agora, conheceremos a posteriori e entenderemos as diferenças dela. Ela pode ser definida pelo uso de métodos baseados em dados explo- ratórios, ou seja, são analisados os padrões dietéticos baseados em variações na ingestãode alimentos de um paciente. Para tanto, são utilizadas análises comportamentais ou de grupos, o que é realizado com o uso de inquéritos alimentares. Esse método também permite determinar padrões alimentares baseados em uma combinação de dados exploratórios. Assim, você conhece a etiologia e os mecanismos patológicos da doença e, a partir disso, analisa se o paciente possui um padrão alimentar propenso a desenvolver ou tem determinada doença. O conhecimento das duas abordagens poderá te auxiliar a interpretar os estudos científicos sobre o tema, além de facilitar a escolha do método que você utilizará em sua prática profissional. Embora ambas abordagens sejam baseadas em métodos diferentes, elas podem ajudar a identificar padrões alimentares saudáveis, ou não, e podem ser a base ao desenvolvimento e à implementação de dire- trizes nutricionais, ou seja, podem auxiliar a desenvolver políticas públicas sobre temas e populações específicas. Isso é fascinante! As análises da relação entre os hábitos alimentares e a saúde começaram pelo estudo dos papeis que os nutrientes específicos podem desempenhar no desenvolvimento de determinadas doenças. Por exemplo, a deficiência de folato (vitamina B12) foi associada a um maior risco de defeitos no tubo neural. Você conhecia essa associação? Entretanto, nem todas deficiências nutricionais são facilmente relacionadas às doenças. Em certas patologias, a complexidade das relações entre a ingestão alimentar e a doença não pode ser atribuída a um único nutriente, mas a vários nutrientes e alimentos. Em sua prática profissional, você deve analisar a exposição correta para compreender a relação, e não apenas os nutrientes. Trata-se de um processo complexo, mas que garante o sucesso em sua prescrição nutricional. UNICESUMAR 62 Caro(a) estudante(a), levando em consideração o ponto de vista epidemiológico e tudo o que estuda- mos até então, a dieta se dá por meio de uma complexa combinação de exposições. Todavia, os estudos epidemiológicos experimentais, muitas vezes, falham em certificar os efeitos observados para todos os componentes da dieta, visto a complexidade em analisar os diversos tipos de padrões alimentares e os métodos que são usados para essa finalidade. Você, como nutricionista, deve inovar os seus conhecimentos e técnicas para melhorar a sua abor- dagem nutricional. Isso pode ser feito por meio de boas leituras, escolhas de estudos com metodologias científicas apropriadas e senso crítico aguçado. Em relação às abordagens, a abordagem convencional adotada nas investigações de consumo alimentar está focada na avaliação da ingestão de energia, nu- trientes ou alimentos de forma independente, o que não leva em consideração o efeito da dieta como um todo, ou seja, os fatores de risco associados à doença e as interações que podem ocorrer entre diferentes componentes dietéticos. A dieta é o principal determinante modificável da maioria das doenças crônicas. Portanto, ter em mente que as escolhas alimentares são fortemente influenciadas por diversos fatores é fundamental. Além disso, identificar os determinantes de consumo alimentar é essencial para examinar a contri- buição da prevalência da doença em um dado paciente. Estudamos os fatores que podem estar relacionados ao consumo alimentar e a forma como po- demos analisá-los e pesquisá-los. Contudo, existem outros fatores que estão associados aos padrões alimentares e entendê-los é de suma importância para o seu diagnóstico enquanto nutricionista. São diversos os fatores individuais que estão associados aos padrões alimentares, tanto os saudáveis quanto os não saudáveis, os quais podem variar de acordo com o status socioeconômico, o sexo, a etnia e cultura, por exemplo. A seguir, são exibidos alguns estudos e associações de padrões alimentares e fatores relacionados. Um exemplo é o trabalho de Arruda et al. (2014), que defendem que é comum as mulheres apresentaram escores mais altos para o padrão considerado saudável e escores mais baixos para o padrão considerado não saudável, enquanto os homens estão associados aos padrões não saudáveis e são caracterizados pelo alto consumo de gordura, carne ou fast food. Você imaginava que isso era possível? Além disso, Kiefte-de Jong et al. (2013) explicam que as características sociodemográficas e o es- tilo de vida familiar estão relacionados aos padrões alimentares da criança ao estado nutricional dela. Durante a infância e a adolescência, a avaliação e o monitoramento da ingestão alimentar e de outros Antes de modificar a rotina alimentar de um paciente, é importante conhecer a história daquele padrão alimentar e entender as ligações culturais, políticas e econômicas existentes. Os hábitos alimentares dos indivíduos de todas as partes do mundo sofrem diversas influências e variam de país para país e de região para região. Portanto, atenção e cuidado ao realizar o planejamento e as modificações alimentares de um paciente. UNIDADE 2 63 comportamentos são muito importantes, já que a infância é uma etapa decisiva para a formação de hábitos alimentares e a manutenção da vida adulta. Temos outras associações interessantes e preocupantes, de certa forma, como diversas variáveis (educação, renda, tipo de emprego e algumas características das áreas específicas em que as populações habitam) que caracterizam o status socioeconômico de diferentes populações e que estão intimamente vinculadas à qualidade da dieta. Kant (2004) identificou interações complexas entre a educação, o nível de renda, o baixo nível de escolaridade ou a baixa posição profissional e o padrão alimentar não saudável e a dieta de baixa qualidade. Como seria a dieta de baixa qualidade? Ela é caracterizada por uma menor ingestão de fibras, minerais e vitaminas. Além disso, a maior escolaridade e a melhor posição profissional foram associadas a um padrão alimentar saudável. Souza et al. (2021) enfatizam a crise mundial da saúde relacionada à Covid-19, somada à crise econômica, acarretando aumento de desemprego, desigualdade social e risco de crise alimentar. Um relatório do Comitê Mundial de Segurança Alimentar inferiu que a disponibilidade de alimentos está sendo prejudicada pelos mais pobres, o que é ocasionado pela recessão. Nesse estudo, também há uma demonstração de que houve aumento no consumo de hortaliças, frutas e feijão no período da pandemia. Não só, mas também houve um aumento no consumo de alimentos ultrapro- cessados nas regiões Norte e Nordeste e entre pessoas de menor escolaridade. Em conjunto, embora as hortaliças continuem acessíveis para compra durante a quarentena, um consumo maior é observado entre indivíduos com maior poder aquisitivo e situados nas regiões Sul e Sudeste. Com esses estudos, podemos ter uma pequena ideia de como existem muitos fatores que influenciam o consumo alimentar. Assim, o diagnóstico nutricional e o planejamento dietético neces- sitam de boas avaliações. Você já deve ter assistido a reportagens que inferem as relações entre a qualidade da dieta e o status socioeconômico, não é? Muitas pesquisas abrangem essa temática e são importantes critérios para a avaliação da qualidade da dieta. Com estudos, sabemos que a dieta pode ser influenciada por outros fatores, como população-alvo, desemprego, ocupação de diferentes membros da família, acesso a alimentos e urbanização. Também acredito que você deva ter escutado ou lido textos que tratam da relação entre o tabagismo e os malefícios à saúde. Existem diversas relações entre a ingestão de nutrientes e o tabagismo, o que está associado a com- portamentos alimentares menos saudáveis, independentemente da cultura, etnia e região. O ato de fumar também está vinculado à redução da ingestão de compostos antioxidantes e à absorção de micronutrientes a nível intestinal, além de afetar seletivamente o consumo de alimentos específicos, dado que determina- dos pacientes podem não ter adesão às recomendações dietéticas e sofrer comprometimento dopaladar devido às mudanças sensoriais causadas pelo tabaco, que altera as papilas gustativas. Assim, de fato, o hábito de fumar é um fator a ser avaliado durante a avaliação nutricional. Além de uma diminuição na capacidade olfativa, os fumantes podem selecionar os alimentos com sabores mais fortes/salgados e os não saudáveis. Se comparados aos não fumantes, eles têm grande probabilidade de adotar um padrão alimentar não saudável, o que, de fato, merece atenção. A partir do exposto, ao realizar a anamnese, atente-se em questionar o hábito de fumar ao seu paciente. UNICESUMAR 64 Em relação ao consumo de álcool, o consumo ele- vado foi associado ao risco de hipertensão, acidente vascular encefálico e outras doenças cardiovasculares. Ao realizar consumo de bebidas alcoólicas, por vezes, o indivíduo tende a ter comportamentos não saudá- veis, alimentação de baixa qualidade e pouca atividade física, além de não saber como manter uma rotina saudável no meio social. Por outro lado, indivíduos que consomem vinho com moderação, geralmente, têm um estilo de vida mais saudáveis que outros tipos de consumidores, pois fumam menos e praticam mais atividade física, além de fazerem um maior consumo de frutas e vegetais e em oposição à ingestão de carne vermelha e frituras. É interessante compreender que os hábitos alimentares não são estáticos, mas sofrem influências de uma vasta gama de fatores. Conhecê- -los é fundamental para a sua prescrição dietética, que deve ser uma prescrição individualizada, e para a promoção e a prevenção da saúde de coletividades. Temos outros fatores a serem analisados. Dentre eles, encontra-se o sedentarismo, que está associado a uma baixa adesão ao padrão de consumo de frutas e verduras. Além disso, tende a estar associado a um padrão alimentar não saudável, rico em produtos in- dustrializados, excesso de gorduras e doces. Os padrões alimentares têm extrema relação com comportamentos sedentários, muitas vezes, influenciados por motivações e emoções, incluindo o uso de telas e pouca atividade física. Esses comportamentos, por sua vez, estão relacio- nados ao alto consumo de bebidas açucaradas, produ- tos prontos, fast foods e excesso de álcool. Associado ao sedentarismo, muitos pacientes com obesidade podem subestimar a ingestão de alimentos que consideram causar a obesidade de modo geral. Além do sedentarismo, temos o famoso Índice de Massa Corporal, o IMC, e várias são as influências dele sobre os hábitos alimentares. Marques-Vidal (2018) et al. publicaram a correlação do aumento do IMC aos padrões alimentares não saudáveis, visto que um melhor IMC está associado ao consumo adequado UNIDADE 2 65 de frutas e vegetais, respeitando as restrições quanto à quantidade de alimentos consumidos e, pelo menos, a prática de atividade física moderada. A última correlação é referente aos distúrbios do sono, que são reconhecidos como fatores de risco aos resultados negativos de um estilo de vida pouco sau- dável. De fato, o sono é um modulador extremamente importante para um bom funcionamento metabólico, incluindo o metabolismo energético, a regulação dos níveis de glicose sanguínea e o apetite de um pacien- te. A curta duração do sono em um indivíduo está associada ao consumo de uma menor variedade de alimentos e, portanto, uma menor ingestão de proteí- nas, carboidratos, fibras e gorduras, em comparação aos indivíduos que têm uma duração normal do sono (GRANDNER et al., 2013). O sono exerce importante influência no consumo alimentar. Você tem cuidado da qualidade do sono? Uma curiosidade sobre o tema: as concentrações sé- ricas totais de carotenoides foram associadas a uma maior probabilidade de curta duração do sono (5 a 6 horas por noite), se comparadas à duração normal do sono (7 a 8 horas por noite). Você conhece os ali- mentos que são ricos em carotenoides? O sono tem impacto na dieta, logo, a curta duração do sono está vinculada ao ganho de peso por meio de efeitos no apetite, atividade física e/ou termorregulação. Desse modo, não esqueça de avaliar a qualidade de sono dos seus pacientes durante a avaliação nutricional! Caro(a) estudante, analisamos as complexas co- nexões entre os nutrientes, os alimentos e os padrões dietéticos. Também entendemos o modo como elas interferem no padrão de consumo alimentar. Consta- tamos que nenhum componente individual da dieta pode fornecer diretamente os efeitos favoráveis e des- favoráveis da dieta na saúde de um paciente. A seguir, é indicado um estudo que demonstra como é feita uma revisão sistemática de determinado tema. É notório que o estilo de vida é um componente importante da dieta alimentar. Além disso, é perceptível que o padrão UNICESUMAR 66 alimentar exerce efeitos sobre a saúde de forma sinérgica ou em conjunto com outros fatores ambientais do estilo de vida. Assim, podemos reconhecer o papel de um padrão de estilo de vida saudável e ter em mente as formas de avaliar esse padrão durante um atendimento nutricional. Agora, conheceremos os aspectos vinculados à análise do consumo alimentar de pacientes e a forma de analisar o estado nutricional. Para tanto, daremos início ao entendimento dos aspectos introdutórios do estudo da avaliação nutricional. Com o uso da avaliação nutricional, você poderá interpretar os dados da triagem nutricional e in- corporá-los às diversas informações adicionais. Desse modo, conhecemos os métodos de triagem na Unidade 1 e entendemos que eles são muito usados em diagnósticos e tratamento de pacientes que estão em risco nutricional. Para complementar o tema, temos a Figura 2, que exibe a categoria de risco de desnutrição, a presença de obesidade e/ou necessidade de dietas especiais, segundo Mahan e Raymond (2018). A aplicabilidade do uso dessas categorias pode ser tanto a nível ambulatorial quanto hospitalar. Para complementar os seus conhecimentos sobre a associação entre os padrões alimentares e a saúde de um indivíduo, sugiro a leitura do artigo de revisão intitulado Padrão alimentar de risco para as doenças crônicas não transmissíveis e sua associação com a gordura corporal. A partir dessa leitura, você conseguirá compreender a importância de diversas medidas de intervenção aplicadas às mudanças em determinado padrão alimentar. Você, como nutricionista, conduzirá a sua avaliação de forma ampla e pautada na avaliação nutricional, com o objetivo de conhecer as histó- rias médicas, de saúde, dietética, social e medicamentosa do paciente. Também fará um exame físico adequado e terá um bom treinamento para realizar as medidas antropométricas e interpretar os exames la- boratoriais. Aliás, envolto a esse tema, é de suma importância conhecer o protocolo mínimo de avaliação nutricional com base no Conselho Re- gional de Nutrição (CRN). Escute o nosso segundo podcast. Te espero lá! UNIDADE 2 67 Pontuação IMC IMC > 20,0 Kg/m2 (>30 Kg/m2 obesos) = 0 IMC 18,5 -20,0 Kg/m2 = 2 Pontuação da perda de peso (perda de peso não nos últimos 3 a 6 meses) Perda de peso > 5% = 0 Perda planejada de peso 5%-10% = 1 Perda de peso >10% = 2 Pontuação do efeito da doença aguda Adicionar 2 pontos se houver ou há possibilidade de ausência de ingestão nutricional por > 5 dias Some todos os pontos Risco geral de desnutrição e diretrizes de manejo 0 - Baixo risco Atendimento médico de rotina - Repetir triagem; Hospital semanalmente e atendimento domiciliar: mensalmente. 1 - Risco médio Observar Registre a ingestão dietética de 3 dias para pacientes internados ou sob cuidados familiares; - Repetir triagem; hospital semanalmente e atendimento domiciliar: mensalmente. 2 - Alto risco Tratar - Consulte um nutricionista, equipe de terapia nutricional - Melhorar e aumentar a ingestão dietética total - Monitorar e rever o plano de cuidados. Figura 2 - Instrumento universal de triagem de desnutrição para adultos / Fonte: adaptada de Mahan e Raymond (2018). De modo geral, para um melhor entendimento, o objetivo daavaliação nutricional é auxiliar você, nutricionista, a reunir as informações suficientes para realizar um bom diagnóstico nutricional. Lem- bre-se de que os passos iniciais de uma adequada avaliação estão pautados no processo dos cuidados nutricionais. Ao fazê-los, você coletará informações que dependerão de alguns fatores, como grau de instrução, estado de saúde do paciente ou do grupo populacional, o modo como os dados coletados estão relacionados a um resultado em particular, se a avaliação realizada é inicial ou de acompanhamento e as práticas que serão recomendadas a partir de então. Quanto maior for o número de informações coletadas, mais fácil será compreender o estado clínico do paciente e realizar o futuro diagnóstico. Descrição da Imagem: a figura é composta por um fluxograma. Na parte superior, há três caixas de texto retangulares. A primeira (da direita para esquerda) é referente à pontuação do IMC, partindo do princípio que o IMC > 20,0 kg/m² (>30 kg/m² obesos) = 0, IMC 18,5- 20,0 kg/m² = 1 e IMC < 18,5 kg/m²= 2. A caixa 2, ao lado, cita a pontuação da perda de peso (perda de peso nos últimos 3 a 6 meses), em que a perda de peso > 5% = 0, a perda planejada de peso 5%-10%= 1 e a perda de peso > 10%= 2. Por fim, a terceira caixa de texto menciona a pontuação do efeito da doença aguda, sugerindo “Adicionar 2 pontos se houver” ou há a possibilidade de ausência de ingestão nutricional por > 5 dias. Todas as caixas de texto possuem uma linha reta comuma seta na direção para baixo, ligando a uma outra caixa de texto retangular. Dentro dessa caixa, há outras três caixas de texto e uma caixa acima commenção ao título: “Risco geral de desnutrição e diretrizes demanejo”. Ao lado das setas, há uma caixa de texto com a seguinte frase: “Some todos os pontos”. Voltando às três caixas de texto inseridas namaior, a primeira se refere à pontuação zero de baixo risco, sugerindo, nesses casos, o atendimento médico de rotina e, se necessário, repetir triagem; hospital: semanalmente e atendimento domiciliar: mensalmente. A segunda caixa se refere à pontuação um de riscomédio, com os dizeres: “Observar. Registre a ingestão dietética de 3 dias para pacientes internados ou sob cuidados familiares. Repetir triagem; hospital semanalmente e atendimento domiciliar mensalmente”. Por fim, a última se refere à pontuação dois de alto risco, com os dizeres: “Tratar. Consulte um nutricionista, equipe de terapia nutricional. Melhorar e aumentar a ingestão dietética total. Monitorar e rever o plano de cuidados”. UNICESUMAR 68 Ao fazer o processo de avaliação, você deverá estabelecer um diagnóstico nutricional e desen- volver um plano de cuidados ao seu paciente. Dentro do plano que você elaborará, será necessário selecionar intervenções, as quais precisam ser adaptadas à realidade do atendimento no hospital, na clínica, nas instituições de cuidados especiais, nos asilos, no domicílio ou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Inúmeras possibilidades, não é? Para um adequado estudo da avaliação nutricional, você deve conhecer os principais objetivos de uso e aplicá-los de maneira correta tanto no âmbito da individualidade quanto da coletividade. Dentre os principais objetivos, estão: verificar os pacientes que precisam de terapia nutricional agres- siva, analisar as maneiras de recuperar ou de manter o estado nutricional do paciente e delimitar o tratamento nutricional adequado, identificando pacientes com doenças agudas ou crônicas em risco para o desenvolvimento de um quadro de desnutrição. Lembre-se de que a desnutrição é comum em indivíduos obesos, idosos, caquéticos ou que passaram por um trauma. Ela também é frequente em casos em que a intervenção nutricional foi negligenciada, o que demanda muita atenção e cuidado. Por falar em cuidado, conheceremos as principais etapas do cuidado nutricional, um excelente guia ao processo de avaliação dos pacientes. Você, inicialmente, precisa definir um propósito básico, ou seja, obter informações adequadas para identificar os problemas relacionados à nutrição do paciente, a partir de um encaminhamento ou de uma triagem para avaliar os fatores de risco nutricional. Isso, porque a avaliação nutricional é um processo muito sistemático que visa à verificação e à interpretação de vários dados para auxiliar em uma tomada de decisão relacionada ao problema do paciente. Os dados coletados variam, dependendo dos locais nos quais você trabalhará. Além disso, dependem do estado de saúde atual do paciente ou do grupo que estará atendendo, do referencial que você utilizará como parâmetro para diagnóstico e se a avaliação é inicial ou uma reavaliação. Uma dica é estabelecer comparações entre as informações coletadas e padrões de referência de con- fiança. Na definição do seu propósito na avaliação do paciente, também é importante ter em mente que o processo é contínuo e dinâmico, visto que, além de envolver a coleta de dados iniciais, compreende uma reavaliação, a qual é composta por uma base sólida para realizar um adequado diagnóstico nu- tricional e para as próximas etapas de cuidado nutricional. Vamos para o segundo critério? Na sequência, você precisa estabelecer a fonte de dados que utilizará e o método de avaliação, itens muito importantes para identificar os fatores que levaram o paciente até o atendimento ou o motivo de um possível encaminhamento e interpretar os registros interdisciplinares, visto que, muitas vezes, o paciente está passando por um atendimento com uma ampla equipe de saúde, com- posta por diferentes profissionais. Você necessita estabelecer como será a sua entrevista, como fará o levantamento de dados, como realizará um adequado relatório e como mensurará e comparará os dados aos estudos epidemiológicos. Nessa etapa, será necessária a tomada de decisões, mas é claro que você terá o auxílio de diversas ferramentas. Além da fonte de dados, definir os dados que serão coletados é essencial, ou seja, como você coletará a história dietética do seu paciente, como fará a análise da ingestão detalhada dos nutrientes, como mensurará o estado de saúde, quais medidas antropométricas e bioquímicas utilizará, como conhe- cerá as condições físicas e clínicas e como estará o estado fisiológico do paciente. É necessário definir UNIDADE 2 69 o método que você utilizará para descobrir e acompanhar o estado funcional e comportamental do paciente, que busca analisar as funções social e cognitiva, os fatores psicológicos e emocionais, a qua- lidade de vida e a abertura para possíveis mudanças no comportamento alimentar. Coletar dados vai muito além de apenas preencher um inquérito: é o momento em que você conseguirá as informações necessárias para elaborar a história nutricional e clínica do indivíduo! Ainda nessa primeira etapa de avaliação nutricional, você deverá verificar os componentes nutricio- nais, ou seja, é preciso realizar uma adequada revisão da ingestão dietética do paciente, analisando os fatores que podem afetar as condições de saúde e o risco nutricional que o paciente tem, avaliando as consequências atreladas à condição de saúde e à doença. Quando o assunto abrange os componentes nutricionais, não pode faltar a avaliação de alguns fatores, como os psicológicos, os funcionais e até os comportamentais, que estão atrelados ao preparo dos alimentos, incluindo o acesso e a seleção. Ava- liar esses fatores dá margem para a avaliação da condição de saúde que o paciente tem para aprender, conhecer e verificar o quão disposto está para as mudanças de comportamento alimentar. Cabe a você identificar as possíveis áreas de problemas para a realização do diagnóstico nutricional. Também é necessário, em sua prática como nutricionista, ter bom senso crítico. Sendo assim, esteja sempre atento(a) aos sinais verbais e não verbais para melhor orientar e melhorar a eficácia dos méto- dos de entrevista, para determinar os dados apropriados a serem coletados e para selecionar o melhor procedimento de avaliação, adequando osmétodos de avaliação para cada situação, distinguindo os dados relevantes e irrelevantes e estando apto(a) a validar os dados coletados, a fim de determinar o quanto um problema exige uma consulta ou encaminhamento a outro profissional. Além disso, é necessário realizar uma definição da documentação da avaliação, visto que a qualidade da documentação da avaliação nutricional tem muita relevância oportuna e precisa, incluindo informações que delinearão a qualidade da avaliação. A documentação também deve estar pautada na observação das percepções e dos valores do paciente perante aos problemas apresentados. Caso seja necessário, realize uma mudança no nível de entendimento e comportamento perante os seus hábitos alimentares. Por fim, o último fator envolto na primeira etapa se refere à conduta para a continuidade dos cuidados, ou seja, se depois da conclusão da avaliação inicial ou da reavaliação for constatado que o problema não pode ser alterado pelos cuidados nutricionais, esteja ciente em dar alta ou interromper os cuidados nutricionais. Finalizamos a análise de alguns fatores que estão envolvidos no processo de cuidado nutricional. Conhecemos os princípios de cada etapa, que poderão te auxiliar no caminho da avaliação nutricional. Evidentemente, você poderá realizar essa etapa a partir de sua identidade como profissional. Entretanto, esse guia será um excelente direcionamento para a prática. Dando sequência aos princípios da avaliação nutricional, apresento a você uma importante fer- ramenta, que é pautada em como investigar a história dos pacientes. Vamos conhecê-la? Por diversas vezes, as informações coletadas sobre os pacientes ou as populações estão na forma de histórias de saúde, medicamentosa, social e dietética. Sem dúvidas, conhecer a história alimentar pode ser a atitude mais importante dentro da área da nutrição. Quanto maior for o número de dados coletados, mais completa será a avaliação nutricional. Conhecer a história de saúde do paciente envolve conhecer as queixas de saúde, a história atual ou pregressa, o histórico familiar de doenças e os dados psicossociais. Ao conhecer a história, é possível UNICESUMAR 70 ter uma visão ampla dos problemas relacionados à nutrição do indivíduo. Também é interessante conhecer alguns fatores podem estar relaciona- dos a um quadro de desnutrição, como o uso de drogas, o consumo de álcool ou algum fator que acarrete aumento das necessidades metabólicas ou perdas nutricionais. Também é válido verificar a presença de algumas doenças crônicas, verificar se o paciente descobriu alguma doença recente- mente ou se passou por alguma cirurgia de gran- de porte, principalmente no trato gastrointestinal, e que causou perda de peso ou dificuldade de absorção de nutrientes. Para todas as faixas etárias, os questionamen- tos exibidos são de suma importância. Entretanto, em pacientes idosos, a atenção deve ser redobrada. Ao avaliar a história médica do paciente idoso, atente-se à análise da deterioração mental, dos quadros de constipação ou de incontinência uri- nária, se ele tem alguma deficiência visual ou au- ditiva, se o sistema locomotor apresenta reações lentas, se existem doenças em órgãos vitais e/ou outras doenças físicas. Por vezes, necessitamos adaptar os nossos questionamentos para desco- brir a história médica do paciente, visto que, mui- tas vezes, não temos em mãos os prontuários dele. Alguma vez você já ouviu algum questiona- mento sobre qual melhor horário para tomar determinada medicação? Ou se poderia con- sumir determinado remédio em conjunto com algum alimento? Eu imagino que sim! De fato, é de extrema importância conhecer a história medicamentosa do paciente, justamente por- que a alimentação e os medicamentos podem interagir de várias maneiras e influenciar o esta- do nutricional, além de interferir na eficácia do tratamento. Portanto, conhecer a história medi- camentosa é uma parte importante da avaliação nutricional. Determinados grupos de pacientes requerem maior atenção, como os idosos, os por- UNIDADE 2 71 tadores de doenças crônicas e aqueles que estão passando por um tratamento medicamentoso por um período prolongado e estão suscetíveis a deficiências nutricionais induzidas por deter- minadas medicações. A história social de um paciente é um fator que influencia muito a alimentação. Logo, a con- dição financeira, a capacidade de aquisição de alimentos, as pessoas com as quais convive, se é portador de alguma deficiência física ou mental, as condições do local em que mora e a extrema pobreza são fatores que devem ser observados, pois podem influenciar a ingestão nutricional. Relacionadas à história social, encontram-se al- gumas identidades culturais, já que você poderá conhecer pacientes de várias culturas e deverá atender às necessidades dessa diversidade. Tam- bém conhecerá os fatores que estão envolvidos em crenças religiosas, rituais e simbologias, as lin- guagens, os diversos estilos de comunicação e as opiniões sobre saúde. Sendo assim, é interessante estabelecer conexões com pacientes de diferentes culturas para obter resultados positivos. De forma primordial, também é necessário conhecer a história nutricional ou dietética do paciente. Uma alimentação inadequada, pautada em uma ingestão baixa de nutrientes, pode se originar devido uma anorexia, disfunções com ageusia, disgeusia, perda de olfato, alto consumo de álcool, disfunções em próteses dentárias, uso de dietas sem respaldo científico, disfunções de mastigação ou deglutição, realização de muitas refeições fora de casa, se possui intolerâncias alimentares, se faz uso de medicamentos que afetam a absorção de nutrientes, se tem alguma restrição alimentar, se faz uso de medicações que afetam a absorção de nutrientes, se existe alguma restrição oriunda de especificações culturais ou religiosas ou por uma incapacidade de comer que perdure por vários dias. UNICESUMAR 72 Nessa história, também é importante conhecer os hábitos alimentares de idosos, a fim de verificar as dificuldades que os impedem de realizar uma ingestão alimentar adequada, como problemas dentários, alterações de olfato e paladar, longos períodos de má nutrição e baixo conhecimento sobre hábitos ali- mentares saudáveis. Nos casos em que diversos fatores podem causar a má nutrição, é preciso suplementar aminoácidos e fazer o uso de terapias nutricionais alternativas que estimulem o consumo de altas doses de vitaminas e minerais, além do consumo de fitoterápicos e pré e probióticos, visto que essas medidas têm um efeito sobre os cuidados de saúde e nutricionais globais do paciente. Finalizamos a etapa em que identificamos as principais histórias que podemos nos deparar em nossa prática profissional. Para obter informações acerca da ingestão alimentar de um paciente, uma adequada análise da história dietética dele é fundamental, visto que ela fornece informações sobre os padrões alimentares e as variáveis que influenciam a escolha de alimentos que, de certa forma, ditam a ingestão alimentar. Chemin e Mura (2011) afirmam que, para a escolha do melhor método que avalie a ingestão alimentar, é preciso observar a situação em que você o aplicará: será de forma individual ou em grupo? Qual é o tipo de população? Qual tipo de informação você pretende obter (grupos de alimentos, padrão dietético, avaliar nutrientes ou energia)? Não obstante, é preciso considerar os recursos disponíveis, incluindo tempo e custo. Observe o Quadro 1: nele, constam os tipos de informações que podem ser coletadas em uma história nutricional. Categoria Informações da história dietética Alergias, intolerâncias ou alimentos evitados • Alimentos evitados e motivos. • Há quanto tempo os evita. • Descrição dos problemas causados por alimentos. Apetite • Bom, ruim, qualquer alteração. • Fatores que afetam o apetite. • Alterações no paladar ou na percepção de cheiros. Atitude em relação aos alimentos e à alimentação • Desinteresseem alimentos. • Ideias irracionais sobre alimentos, alimentação ou peso corporal. • Interesse dos pais na alimentação da criança. Doença crônica • Tratamento. • Duração do tempo de tratamento. • Modificação na dieta: autoimposta ou prescrita por médico, data da modificação. • Nutrição prévia e educação nutricional, adesão à dieta. UNIDADE 2 73 Categoria Informações da história dietética Cultura e antecedentes étnicos • Influência da cultura nos hábitos alimentares. • Práticas religiosas, rituais em feriados. • Experiência educacional. • Crenças de saúde. Saúde dental e oral • Problemas com a mastigação. • Alimentos que não podem ser ingeridos. • Problemas de deglutição, salivação, asfixia, engasga- mento. Fatores econômicos • Renda: frequência e estabilidade de emprego. • Quanto dinheiro gasta com a alimentação a cada se- mana ou mês. • Percepção individual da adequação financeira às ne- cessidades alimentares. • Elegibilidade para o vale-refeição e custo dos vales. • Estado de assistência de auxílio público. Fatores gastrointestinais • Problemas com azia, flatulência, gases. • Problemas com diarreia, vômitos, constipação, dis- tensão. • Frequência dos problemas. • Remédios caseiros. • Antiácidos, laxantes ou outros fármacos. Vida domiciliar e padrões alimentares • Número de pessoas na casa (comem juntos). • Pessoa que faz as compras. • Instalações para armazenar alimentos e cozinhar (exemplos: geladeira, fogão). • Tipo de habitação (exemplos: casa, apartamento, quarto). • Capacidade de fazer compras e preparar alimentos, deficiências. Fármacos, suplementos, remédios e fitoterápicos • -Suplementos de vitaminas e minerais: frequência de administração, tipo, quantidade. • Medicamentos: tipo, quantidade, frequência de admi- nistração, tempo de uso da medicação. • Remédios fitoterápicos: tipo, quantidade e propósito. UNICESUMAR 74 Categoria Informações da história dietética Problemas nutricionais • Problemas percebidos pelo paciente e pela família. • Encaminhamento de médico, enfermeiro ou outros profissionais da saúde. Atividade física • Ocupação: tipo, horas por semana, alteração, gasto energético. • Exercício: tipo, quantidade, frequência. • Sono: horas/ dia. • Deficiências. Padrão e histórico de peso • Perda ou ganho: quantos quilos e em qual período de tempo. • Intencional ou não intencional. • Porcentagem do peso usual; peso saudável; peso de- sejável. Quadro 1 - Informações coletadas de uma história dietética / Fonte: adaptado de Mahan e Raymond (2018). Como avaliar a história alimentar do paciente? Como realizar um questionamento adequado? Visando facilitar a avaliação do consumo alimentar, existe o questionário de frequência alimentar (QFA), que é composto por uma revisão retrospectiva do consumo. Contudo, ele organiza a avaliação dos alimentos em grupos com nutrientes específicos e as informações são coletadas de modo geral, ou seja, não especificadas para determinados nutrientes. Trata-se de listas de alimentos ou grupos de alimentos. Nelas, há a anotação da frequência em que os alimentos são consumidos em um dado período de tempo. As perguntas que você fará podem ser abertas (por exemplo: com qual frequência você consome maçã?) ou fechadas (por exemplo: assinale a frequência com que você consome maçã). Para aplicação, é importante verificar em qual situação o paciente está. Durante uma doença, os padrões de alimentação podem ser afetados, dependendo do estágio da enfermidade. Portanto, é recomendado preencher os questionários de frequência alimentar antes de uma possível internação e de uma doença, para que, assim, seja obtido um histórico preciso e completo. Entretanto, quantificar o histórico alimentar de um paciente é muito complexo. Por isso, é necessário utilizar questionários, que são muito úteis para a investigação da relação entre a saúde e a dieta, podendo avaliar grupos populacionais que estão em risco nutricional, selecionar os programas adequados para uma possível intervenção e monitorar os casos. Chemin e Mura (2011) afirmam que a validade, isto é, a precisão do método em relação ao que se quer medir, de um determinado inquérito alimentar é dada por meio da comparação dela com algum outro mecanismo de coleta de dados aceito como confiável. Então, uma adequada análise só pode ser tida como confiável se for pautada em uma comparação fidedigna. Qual é o melhor método para UNIDADE 2 75 essa avaliação? O recurso mais utilizado para estabelecer a medida de validade é a comparação do método com outro método, de certa forma, com validade concorrente. São várias as metodologias. A grande maioria está na forma de inquéritos alimentares, que são usados para obter dados da ingestão alimentar de um paciente. Entretanto, ainda não se tem um método considerado “padrão-ouro” que reflita, de maneira fidedigna, a alimentação real de um indivíduo. No Quadro 2, há a representação de um estilo de questionário de frequência alimentar. É impor- tante ter em mente que, para determinar a frequência de consumo de alimentos, o estilo da pergunta que será mostrado pode ser útil. Contudo, pode ser necessário modificar as perguntas com base em informações do recordatório 24 horas que veremos adiante. Por exemplo, se um homem afirma que bebeu um copo de leite no dia anterior, não pergunte: “Você bebe leite?”, mas: “Qual é a quantidade de leite você bebe?”. Registre as respostas com base em um intervalo de tempo adequado (exemplos: 1 vez ao dia, 1 vez por semana, 3 vezes ao mês) ou com a maior precisão possível. A frequência pode ser registrada como “ocasionalmente” ou “raramente”, se o paciente não conseguir ser mais específico. Frequência Geral da Alimentação 1. Você bebe leite? Em caso afirmativo, em que quantidade? Que tipo? Integral? Desnatado? Com baixo teor de gordura? 2. Você usa gordura? Em caso afirmativo, de que tipo? Em que quantidade? 3. Com que frequência você come carne? Ovos? Queijo? Leguminosas? 4. Você ingere lanches rápidos? Faz uso de aplicativos de refeições? Em caso afirmativo, de que tipo? Com que frequência? Em que quantidade? 5. Quais hortaliças (de cada grupo) você ingere? Com que frequência? a. Brócolis, pimentão verde, verduras cozidas, cenoura, batata doce. b. Tomate, Repolho cru, pepino. c. Beterraba, couve-flor, milho, repolho cozido, aipo, ervilha, alface. 6. Quais frutas você consome? Com que frequência? a. Maçãs ou suco de maçã, damascos, bananas, frutas vermelhas, uva ou suco de uva, pês- sego, peras, abacaxi, ameixas, ameixas seca, uvas passas. b. Laranja, suco de laranja, acerola, maracujá, limonada, manga, abacate. UNICESUMAR 76 Frequência Geral da Alimentação 7. Pão e produtos de cereais: a. Qual é a quantidade de pão que você costuma comer em cada refeição? Qual é a quan- tidade entre as refeições? b. Você come cereais? Diariamente? Semanalmente? Que tipo? Cozidos ou secos? c. Com que frequência você ingere alimentos, como macarrão, espaguete, macarrão instan- tâneo e similares? d. Você come pães e cereais de grãos integrais? Com que frequência? 8. Você usa sal? Você salga a comida antes de saboreá-la? Você cozinha com sal? Você sente necessidade de ingerir sal ou alimentos salgados? 9. Quantas colheres de chá de açúcar você utiliza diariamente? Faz uso de bebidas como café e chá adoçados? 10. Você costuma comer sobremesa? Com que frequência? 11. Você bebe bebidas contendo açúcar, como refrigerantes ou sucos adoçados? Com que fre- quência? Em que quantidade? 12. Com que frequência você utiliza doces ou biscoitos? 13. Você bebe água? Com que frequência durante o dia? Em que quantidade por vez? Qual é a quantidade de água você bebe por dia? 14. Você usa substitutos do açúcar em forma granulada ou líquida? Que tipo você usa? Com que frequência? 15. Você ingere álcool? Que tipo: cerveja, vinho, vodka, gin, licor? Com que frequência? Em que quantidade? 16. Você ingere bebidas com cafeína? Com que frequência? Em que quantidade por dia? Quadro2 - Exemplo de questionário de frequência alimentar / Fonte: adaptado de Mahan e Raymond (2018). Outro método para avaliar a história alimentar do paciente pode ser o recordatório de 24 horas (R24h). Ele é conhecido por ser um método rápido, fácil de ser administrado e de baixo custo. Além disso, exige que os indivíduos recordem de maneira específica dos alimentos e das quantidades con- sumidas nas últimas 24 horas. A partir disso, você poderá realizar uma análise e calcular as calorias UNIDADE 2 77 ou interpretar os dados relatados perante sua metodologia de trabalho. No entanto, como toda ferra- menta, existem problemas na aplicação. Os mais associados são a capacidade de o paciente recordar com exatidão das quantidades dos alimentos ingeridos e a dificuldade em definir o dia do relato do consumo ou o hábito típico. Também há a tendência de o paciente superestimar ou subestimar o consumo alimentar. Outros fatores podem influenciar as informações obtidas, como a idade, o nível educacional e o sexo. Considere um paciente idoso ou que tenha déficit cognitivo: o uso do R24h pode ser uma ferramenta limitante. Além dos fatores citados, o R24h não reflete a alimentação usual ou as diferenças entre a ingestão nos dias da semana e nos finais de semana de um paciente. Isso apenas é possível, caso seja realizada uma série de anotações. Em consequência disso, é interessante associar o uso de ferramentas para melhorar a precisão das estimativas de ingestão, como a utilização concomitante de questionários de frequência alimentar e R24h. Em relação ao QFA, ele pode ser utilizado para estimular a ingestão de nutrientes de diversos grupos, mas não de indivíduos. Ele é sensível para a identificação de culturas diferentes, pois permite a descrição de infinitos alimentos. Sugere-se evitar perguntas relativas aos alimentos específicos e não demonstrar surpresa perante alguma resposta ou aprovação e/ou desagrado diante dos relatos. Atente-se para iden- tificar a maneira de preparo dos alimentos da forma mais detalhada possível, sem induzir, e a questionar a ingestão de bebidas alcóolicas e os alimentos consumidos de forma “extra” ao longo do dia. Não se esqueça dos suplementos nutricionais. Seguindo esses passos, você terá realizado um excelente inquérito! Você pode se deparar com pacientes que podem alterar consciente ou inconscientemente a própria ingestão alimentar. Também há aqueles que podem simplificar a ingestão para te impressionar, dimi- nuindo, dessa forma, a validade das informações. Portanto, devemos observar e fazer diversas análises para saber se, de fato, os dados são confiáveis. Diversos são os fatores que influenciam a qualidade dos dados obtidos nos inquéritos. Assim, é possível ter um registro incorreto das respostas, omissão de respostas e o paciente pode descrever a própria história de maneira incompleta Também é possível existir erros em conversão de medidas. Por exemplo: o paciente relata o con- sumo em medidas caseiras e há a necessidade de transformá-las em gramas ou a medida caseira é muito diferente daquela que você possa imaginar como a real. O ambiente da entrevista também pode causar distrações. O entrevistado pode não entender as perguntas, quando sub ou superestimar a in- gestão, ou ao omitir alguma informação por falha de memória. Logo, a confiabilidade e a validade dos métodos são questões importantes. Por exemplo, a validade das informações da frequência alimentar de pacientes obesos, muitas vezes, é questionável, pois eles tendem a relatar uma ingestão alimentar subestimada. Essa subestimativa do consumo alimentar também pode ocorrer com crianças, pacientes com transtornos alimentares, hospitalizados, gravemente enfermos, que fazem uso indiscriminado de álcool e drogas, que estão confusos ou que não compreendem a fala. Em suma, você pode usar o Quadro 3, que te auxiliará a entender as vantagens e as desvantagens dos diversos métodos utilizados como ferramentas para obter a ingestão dietética de maneira precisa. Verifique cada uma delas. UNICESUMAR 78 Método Vantagens Desvantagens Análise de ingestão de nutrientes • Permite a observação real dos alimentos em regimes de internação. • Não leva em conta uma pos- sível variação no tamanho da porção. • Não reflete a ingestão do in- divíduo de vida livre. Registro alimentar diário ou diário alimentar • Fornece o registro diário dos alimentos consumidos. • Pode fornecer informações sobre a quantidade de ali- mentos, como o alimento é preparado e horários das refeições e lanches. • Depende do grau de instru- ção do participante. • Requer capacidade de medir ou determinar o tamanho da porção. • Ingestão real de alimentos é possivelmente influenciada pelo processo de registro. • A confiabilidade dos regis- tros é questionável. Questionário de frequência alimentar • Facilmente padronizado. • Pode ser benéfico quando considerado em associação com os métodos de análise da ingestão usual. • Requer capacidade de ler e escrever. • Não fornece dados sobre o padrão das refeições. • Requer o conhecimento do tamanho das porções. Recordatório de 24 horas • Fornece um panorama geral do que é ingerido. • Rápido e fácil de ser aplicado. • Depende da memória. • Requer o conhecimento do tamanho das porções. • Pode não representar o con- sumo usual. • Requer habilidades de en- trevista. Quadro 3 - Métodos de obtenção de dados de ingestão dietética / Fonte: adaptado de Mahan e Raymond (2018). Outra ferramenta presente no campo da avaliação nutricional é a análise da ingestão de nutrientes ou de contagem de calorias. Ela pode ser usada em casos de pacientes internados, com o intuito de identificar carências nutricionais antes que se desenvolvam as deficiências. Como isso é feito na prá- tica? É necessário coletar informações sobre os hábitos alimentares atuais. Essa coleta pode ser feita por meio da observação direta (observando o paciente se alimentar ou pelo relato feito pelo paciente) ou por intermédio de um guia alimentar, observando imagens ou o prato consumido pelo paciente. Além disso, é possível registrar a alimentação de quem faz o uso de sondas de alimentação ou outros produtos intravenosos, como a nutrição enteral e parenteral. UNIDADE 2 79 De modo criterioso, a análise da ingestão de nutrientes necessita da coleta de dados de, ao menos, 72 horas, porque é possível capturar as variações na ingestão que podem ocorrer ao longo dos dias. Caso os registros sejam coletados de forma adequada, geralmente, refletirão exatamente a ingestão média de um indivíduo. Em casos em que o registro é incompleto, é possível aumentar a duração da coleta dos dados para mais de 72 horas, tendo em vista que os relatos do consumo alimentar aos finais de semana podem ser diferentes. Nem toda técnica é perfeita! Após a coleta, os dados podem ser analisados pelo conteúdo de macro e micronutrientes. Em relação aos macronutrientes, avaliam-se a ingestão de calorias totais, a % de carboidratos, as fibras, as proteínas e as gorduras totais. No que diz respeito aos micronutrientes, são analisadas as vitaminas e os minerais para garantir o bom funcionamento do organismo. Também é interessante avaliar o consumo de outros conteúdos, como a quantidade de água, fitoterápicos e prebióticos, e associar o consumo geral deles a alguma intervenção dietoterápica. Por exemplo, é possível associar o consumo de determinados compostos presentes em frutas (como o resveratrol) e verduras (como a quercetina) à diminuição de espécies reativas de oxigênio. Lembre-se de que uma dieta adequada pode fornecer compostos que exercem efeitos na diminuição do estresse oxidativo e, consequentemente, de diversas doenças crônicas e degenerativas. Além dos métodos citados, você pode fazer uso de outros, como o registro alimentar. Com ele, o paciente registrará os alimentos consumidos no devido momento em dias. O mais comum é o uso do registro por três dias, sendo dois dias da semanade forma alternada, devendo registrar, ao menos, um dia do fim de semana. Dentre as vantagens do uso do registro alimentar, é possível citar o fato de o paciente não depender do uso da memória, proporcionando melhor precisão ao transmitir as informações relativas à ingestão alimentar, englobando o tipo de alimento, a quantidade e o horário das refeições. Basta o inquérito ser bem completo. Todavia, como desvantagem, o método pode influenciar o padrão alimentar usual, levando a um sub-relato do registro. Portanto, pode ser tendencioso nos dias da coleta de dados. É interessante orientar o seu paciente a anotar a ingestão após as refeições. O uso desse método necessita de uma participação efetiva do paciente, que precisa saber ler e escrever, ou contar com a ajuda de um terceiro (principal- mente em casos de pacientes idosos ou com comorbidades). Além disso, o método demanda tempo e é de extrema importância realizar uma adequada anotação sobretudo das medidas caseiras (quando usadas) e da forma de preparo das refeições. Quanto maiores forem os dias de registro, há declínio. De forma mais específica, durante o registro alimentar, é possível realizar o registro do alimento pesado, o que exige que os alimentos sejam pesados antes do consumo. Isso auxilia você na obtenção de informações mais precisas dos alimentos consumidos, e não das estimativas da ingestão. Salles, Speridião e Fagundes Neto (2004) explicam que o método da pesagem direta é um método de maior exatidão e preconizado pela Organização da Saúde. Contudo, exige tempo e recursos suficientes, além do bom entendimento daquilo que deve ser realizado. Outro método inserido no registro alimentar é o registro por imagem, que é realizado com o uso de uma câmera de celular ou fotográfica. Por meio desse método, o indivíduo gasta menos tempo registrando a alimentação, sendo mais prático e há a possibilidade de envio da foto em tempo real. UNICESUMAR 80 Entretanto, é necessário um equipamento eletrônico e habilidades para fotografar, o que, muitas vezes, pode ser limitante para grupos populacionais e pacientes com idade avançada. Além disso, podem surgir dúvidas, como: como o alimento foi preparado? Quais temperos foram utilizados? A preparação empanada é de frango ou de carne bovina? Houve adição de açúcar? Diante disso, algumas outras informações, talvez, sejam pertinentes, além do registro fotográfico. Dessa forma, informe bem o paciente e deixe um campo extra para as anotações. Conhecemos os métodos prospectivos. Além deles, temos os métodos retrospectivos, que dependem em partes da memória do paciente, o que pode afetar a qualidade das informações. Nesse método, há a entrevista cognitiva. Nela, você aplicará uma técnica de memória guiada, ou seja, o paciente é estimu- lado a lembrar da própria ingestão alimentar e até da prática de atividade física. Por meio dessa técnica, é possível verbalizar pensamentos, sentimentos e interpretar algum tipo de ideia que o paciente relate, podendo reduzir o risco de erros na resposta. Algumas dicas pertinentes no momento da realização é pedir para que o paciente verbalize os pensamentos enquanto você o questiona sobre os hábitos alimentares. Além disso, realize quantas perguntas forem necessárias para esclarecer dúvidas durante a entrevista. Verificaremos a eficácia dessa técnica, já que não é muito difundida e, de certa forma, demanda mais cuidado e atenção durante o atendimento. Johnson-Kozlow, Matt e Rock (2006) usaram a técnica de entrevista cognitiva durante os atendimentos. Neles, os pacientes deveriam relatar o que pensavam enquanto respondiam ao QFA. Todas as declarações foram registradas e o Quadro 4 as resume. Categoria (% de declarações) Estratégia de lembrança Regras e rotinas (22%) Associação de consumo a regras (“eu sempre”) ou rotina (“eu usualmente”) consumo o alimento. Avaliativa (18%) Categorização dos alimentos em “saudáveis” ou “não saudá- veis”, gasto com o alimento, mudança para dieta mais saudável, sentimento de culpa, preferência ou aversão pelo alimento, sensação física ou mal-estar e esforço para o preparo. Que alimento (16%) Detalhes específicos (por exemplo, cremoso ou com pedaços), associação com outros alimentos, itens “beliscados”, alimentos tradicionais ou culturais, novo alimento, dieta especial (vegeta- rianismo), visualização do alimento. Cocção e preparo (11%) Cocção ou preparo do alimento, alimento consumido como parte de uma refeição, alimento que dá sabor, identificado como principal ou guarnição, combinação de alimentos (por exemplo, carne com batata). Onde (9%) Local onde foi consumido ou comprado, consumo no trabalho ou em casa. UNIDADE 2 81 Categoria (% de declarações) Estratégia de lembrança Avaliação global (6%) Estimativa global de frequência de consumo (“eu consumo com pouca frequência’’). Quando (6%) Fim de semana versus dia de semana, última vez que o alimento foi consumido, alimento sazonal (por exemplo, oleaginosas no natal), padrão intermitente de consumo, cálculo de frequência média de consumo. Influências externas (5%) Associação do alimento a outros (amigos, família), atividades comuns (por exemplo, ida ao cinema) ou raras (por exemplo, feriados). Quadro 4 - Estratégias utilizadas para relembrar o consumo alimentar / Fonte: adaptado de Chemin e Mura (2011). Além da entrevista cognitiva, você poderá usar outra ferramenta para analisar o consumo alimentar, o que é dado pela estimativa do tamanho das porções. Esse, talvez, seja o maior dos desafios na coleta de dados dietéticos: descobrir, interpretar e desvendar a ingestão alimentar de maneira adequada. Sendo assim, podem ser utilizados modelos de medidas ou de alimentos, alguns modelos tridimensionais e até registros fotográficos. Com os avanços tecnológicos que existem na área, está cada vez mais fácil obter os recursos ilustrativos. Para tanto, podem ser usados catálogos com figuras, preparações e modelos de utensílios, a fim de facilitar a coleta de dados em medidas caseiras. Há, também, aplicativos. Com eles, é possível acompanhar a alimentação em tempo real com o paciente por meio dos registros foto- gráficos. A tecnologia está a nosso favor: temos uma imensidão de recursos que podem ser utilizados. Basta escolher aquele que melhor se ajusta aos seus critérios. Nesta unidade, percebemos que temos possibilidades para a realização de uma adequada avaliação nutricional de um paciente. Você tem a missão de ajudar as pessoas a adotarem melhores hábitos ali- mentares, de acordo com as necessidades e a realidade delas. Trata-se de um relacionamento baseado na confiança e que impõe muitos desafios. O fato é que equilibrar a relação entre nutricionista e cliente pode não ser nada fácil. Afinal, no acompanhamento em nutrição, estão envolvidos diferentes fatores físicos, psicológicos, emocionais e financeiros que podem ser determinantes para o sucesso do atendimento. Sempre ofereça um clima receptivo. Deixe o paciente à vontade. Procure entender o perfil do paciente, tendo em vista a ampla variedade de perfis existentes. Não julgue a situação do paciente, pois muitos se encontram em uma situação delicada, como anorexia, diabetes, hipertensão e, talvez, não teriam chegado a esse ponto, se tivessem adotado outros hábitos. Trate o paciente com respeito e empatia. É importante salientar que todos os métodos tradicionais para a obtenção de informações relativas à história dietética do paciente se baseiam em uma informação relatada por ele mesmo, que pode ser pros- pectivo ou retrospectivo e gerar informações qualitativas e quantitativas. Cabe a você a escolha do melhor método perante à população/paciente a ser estudado, tendo em vista as características, o tamanho, a faixa etária e o objetivo final. Gostou dos conhecimentos vistos até aqui? Garanto que teremos muito conteúdo de qualidade para ser visto ao longo de nossas próximas unidades. Vamos caminhar juntos! Conto com você! 82 Caro(a) aluno(a), encerramosa nossa unidade. Contudo, antes, gostaria de convidá-lo a realizar uma espécie de checklist sobre as questões que estão inseridas no mapa mental a seguir. Revisão retrospectiva QFANutrientes especí cos Inquéritos alimentares Visão geral dos alimentos R24 hrs Recordar quantidades consumidas Registro Quantidade dos alimentos Informações sobre preparo dos alimentos Análise da história alimentar Abordagens CONSUMO ALIMENTAR Padrão de estilo de vida Reducionista Realidade por partes Abordagem a priori Escores Nutrientes especí cos Análise de padrões dietéticos Análise comportamental Realidade como um todo Descrição da Imagem: trata-se de ummapa mental em formato de fluxograma. Ao centro, está o consumo alimentar. Dele, saem três ações: abordagem, análise da história alimentar e padrão do estilo de vida. Cada um desses tópicos se divide em subtópicos. Do padrão de estilo de vida, saem a abordagem a priori e uma caixa de texto em branco. Da a priori, saem os escores e, dos escores, os nutrientes específicos; da caixa de texto em branco, sai a análise de padrões dietéticos e, dela, a análise comportamental. Da abordagem, saem os tópicos: holística e a reducionista. Uma caixa de texto em branco sai do subtópico da realidade como um todo e, da reducionista, a realidade por partes. Por fim, a análise da história alimentar possui um subtópico dos inquéritos alimentares que se subdivide em questionário de frequência alimentar, recordatório 24 horas e registro. O registro se subdivide em informações sobre o preparo dos alimentos e quantidade dos alimentos. A “Visão geral dos alimentos” e “Recordar quantidades consumidas” se conectam ao “R24h” e oQFA se conecta a uma caixa de texto embranco. 83 1. Leia o trecho a seguir: “A ciência moderna da nutrição se desenvolveu sobre os pilares reducionistas, o que foi de- nominado nutricionismo. Por outro lado, este paradigma favoreceu a lógica da fortificação de alimentos e da produção de ultraprocessados. Entretanto, tem se mostrado insuficiente para lidar com os desafios do século XXI, muitos dos quais se inter-relacionam e apresentam determinantes sociais comuns, como ocorre com as diferentes formas de má-nutrição. Um novo paradigma se faz cada vez mais necessário, e o caminho do holismo, tem se mostrado o mais promissor”. NUNES-GALBES, N. M. O paradigma holístico da ciência da nutrição. Diálogos Socioambientais na Macro- metrópole Paulista, v. 4, n. 10, p. 23-26, 2021. Considerando as abordagens holística e reducionista, explique as principais diferenças entre elas perante à avaliação do consumo alimentar de um paciente. 2. Leia o fragmento a seguir: “O questionário de frequência alimentar (QFA) é composto por uma lista de alimentos e be- bidas cuja frequência de consumo é perguntada ao indivíduo. Esse QFA pode se tornar mais sofisticado, fornecendo também uma estimativa quantitativa do consumo alimentar, incluin- do informações sobre a porção diária consumida ou, por aproximação, comparando-a com uma porção alimentar de referência. A obtenção dessas informações pode ser facilitada pela utilização isolada ou combinada de fotos ou modelos alimentares”. HOLANDA, L. B.; BARROS FILHO, A. de A. Métodos aplicados em inquéritos alimentares. Revista Paulista de Pediatria, v. 24, n. 1, 2006. Considerando os seus conhecimentos sobre o QFA, como você o utilizaria? Como o descreve- ria, já que é uma útil ferramenta de avaliação do consumo alimentar de um paciente? Quais seriam as diferentes maneiras de questionar o paciente? 84 3. Leia o trecho a seguir: “O recordatório 24 horas (R24h) é um dos métodos mais utilizados para estimar o consumo alimentar de indivíduos e grupos populacionais. A qualidade da informação coletada por este método depende damemória, cooperação emotivação do entrevistado, mas especialmente do preparo e da atuação do entrevistador. Pode ser aplicado nosdiversos segmentos socioculturais da população e o nível de escolaridade do respondente pouco influi na qualidade do dado”. FISBERG, R. M. et al. Inquéritos alimentares: métodos e bases científicas. São Paulo: Manole, 2005. Considerando a avaliação do consumo alimentar pelo método do R24h, assinale a alternativa correta. a) O R24h tem um perfil de inquérito que causa sub-relato por parte dos pacientes, que indicam menos alimentos consumidos em menores porções. b) O R24h, devido à ampla aplicabilidade, permite um uso irrestrito em pacientes adultos e ado- lescentes, salvo o grupo de idosos que podem apresentar lembrança limitada. c) O R24h, diferentemente dos outros métodos, não reflete a ingestão usual ou as diferenças entre a ingestão de dias de semana e finais de semana de indivíduos e grupos populacionais. d) O R24h, em associação ao QFA, é capaz de estimar a ingestão média de nutrientes de grupos populacionais. Ambos são úteis para a identificação de diferenças culturais perante à descri- ção infinita de alimentos. e) O R24h permite que o paciente forneça informações detalhadas sobre quando comeu/be- beu; o que comeu/bebeu; como foi preparado o alimento/bebida; quanto comeu/bebeu. São acrescidos os dados da frequência do relato. Nesta unidade, você conhecerá as leis vigentes no Brasil que estão envolvidas com a regulamentação da prática clínica do nutricionista na prescrição de exames bioquímicos. Além disso, saberá como e quais exames poderá solicitar. Por fim, entenderá ametodologia de alguns exames e descobrirá os índices de referência deles. Avaliação de Exames Laboratoriais na Nutrição Dra. Lorena dos Santos Castro UNICESUMAR 86 Olá, caro(a) estudante! Digamos que você atenda a uma paciente do sexo feminino, 40 anos, solteira, trabalha como contadora e mora no estado de São Paulo. Durante o atendimento, a paciente se queixou de fraqueza, palpitações, bradicardia, hipotermia, irregularidade menstrual e perda de peso ponderal de 9 kg nos últimos 5 meses (IMC= 11,8 kg/m²). A paciente relata uso abusivo de laxativos e diuréticos, e realiza exercícios físicos em excesso. A partir dessas informações iniciais, como você conduziria a sua consulta, tendo em vista a utilização de exames laboratoriais para te auxiliar no diagnóstico nutricional? Você, como nutricionista, terá uma excelente ferramenta complementar para te auxiliar no diag- nóstico nutricional. Os exames bioquímicos, além de mostrarem o perfil atual de um paciente, podem ser um método para acompanhar a evolução dele. Sendo assim, saber fazer bom uso é fundamental. No caso de nossa paciente, é possível observar que ela se encontra em quadro de desnutrição, já que faz uso de métodos laxativos e diuréticos que acarretam em grande perda de nutrientes. O trabalho da paciente também proporciona um grande nível de estresse, o que pode comprometer o consumo alimentar. As queixas relatadas estão diretamente relacionadas ao quadro de desnutrição. Portanto, ao realizar a avaliação nutricional da paciente, é importante solicitar exames bioquímicos. Dessa forma, podem ser solicitados exames, como o hemograma, visando verificar uma possível anemia a partir dos valores de hemoglobina e conhecer as taxas de transferrina, e o leucograma, com o objetivo de constatar como está a imunidade da paciente. Para complementar, você pode analisar as dosagens UNIDADE 3 87 de vitamina B12, vitamina D e ferritina. Existem outros exames que podem ser solicitados, mas, ini- cialmente, analisaremos o estado nutricional da paciente a partir dos exames mencionados. Dominar esse tema é de suma importância. Por isso, aprenderemos detalhadamente ao longo desta unidade. Proponho a realização de um levantamento em livros e artigos científicos sobre os principais sin- tomas e deficiências nutricionais correlacionadas. Com essa atividade, você poderá observar a relação de diversas deficiências, os sintomas e os respectivos sistemas. A partir desse conhecimento, poderá identificar com mais facilidade algumas queixas relatadas por seus futuros pacientes e saberá direcionar de forma correta a prescriçãode um exame bioquímico. A partir da realização do levantamento, acredito que você tenha tido contato com as principais carências nutricionais e delimitou os sistemas que são afetados. Ao longo de sua graduação, você aprenderá especificamente cada caso. Observemos um exemplo: um determinado paciente apresenta palidez cutânea, conjuntiva, dos lábios, da língua, palmas das mãos, dificuldade de deglutição e perda de apetite. Esses podem ser sinais e sintomas que identificam uma anemia. Para tanto, realizar um pedido de exame para identificar a carência é interessante. Em nossa unidade, você descobrirá os principais exames que podem ser solicitados. Sugiro que anote em seu diário de bordo como foi a experiência com essa atividade e quais dificuldades encontrou. UNICESUMAR 88 Para que um paciente tenha uma alimentação saudável, o organismo dele necessita realizar uma in- teração entre diversos processos gastrointestinais complexos, dentre eles, uma adequada mastigação e salivação, associada à secreção de enzimas e de hormônios. Também é preciso fazer uma digestão intraluminal dos nutrientes, que são absorvidos e liberados nas correntes sanguínea e linfática. Em seguida, esses nutrientes serão encaminhados para o espaço intravenular, a fim de participar de diversas vias metabólicas, tendo em vista a síntese, a degradação e a detoxificação de inúmeros substratos. Processo complexo, não é? Façamos uma reflexão: você acredita que, para que esses processos ocorram de maneira correta, é preciso ter uma adequada regulação dos mecanismos citados? Acredito que a sua resposta foi afirmativa. Você está correto(a)! É necessário garantir uma adequada função dos órgãos e sistemas, visto que, caso ocorram insuficiências nesses órgãos e sistemas, pode haver uma inadequada oferta de nutrientes, o que resultará em diversos comprometimentos, podendo causar até um quadro de desnutrição. Você se recorda de quando discutimos os fatores que estão envolvidos no desenvolvimento da má-nutrição? Como garantir que o organismo de um paciente esteja funcionando adequadamente? Como descobrir o que há de errado, para que haja uma possível intervenção? A resposta para as questões exibidas está em uma ferramenta muito importante no campo da nu- trição. Ela é a solicitação de exames bioquímicos, uma ferramenta objetiva para a avaliação do estado nutricional de indivíduos. Você sabia que podemos solicitar exames enquanto nutricionistas? Eles são de suma importância para que possamos avaliar de forma eficaz o estado nutricional de um paciente e são imprescindíveis ao longo de todo o acompanhamento dietoterápico. Nesse contexto, é necessário garantir uma correta solicitação e interpretação de exames laboratoriais, a fim de detectar insuficiências orgânicas e modificações nas concentrações de nutrientes e dos metabólitos (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). É de conhecimento que a prática da nutrição clínica exige uma detalhada avaliação do estado nutricio- nal de um paciente, incluindo a correta solicitação e interpretação de exames laboratoriais. Dessa forma, é possível garantir um cuidado nutricional eficaz, uma intervenção individual, um adequado diagnóstico e um acompanhamento nutricional. Tendo em vista que os exames precisam ser usados apenas para acompanhamento, e não para diagnóstico, é de suma importância que você saiba interpretá-los. Como solicitar os exames durante a prática clínica? Para que a sua solicitação seja aprovada, você deve preparar um receituário composto pelos seguintes itens: • O seu nome completo. • O número do seu Conselho Regional de Nutrição. • Os seus dados (telefone, endereço e e-mail). • O nome completo do paciente. • A lista de todos os exames. • O carimbo. • A assinatura UNIDADE 3 89 Confira se todos os dados estão corretos. Caso contrário, o pedido não será aceito. Suponhamos que todos os seus dados estão corretos e a sua solicitação foi enviada. No entanto, o plano de saúde não quer aceitá-lo. Como proceder? É importante conhecer os regulamentos do plano de saúde de cada paciente, assim como é conside- rável que o seu paciente conheça os direitos dele em relação à solicitação de exames. Isso, porque, por lei, o nutricionista está apto a solicitar exames laboratoriais e, via de regra, com cobertura de pagamento pelos planos de saúde. Essa decisão assegura que todas as operadoras de planos de saúde devem cobrir os exames necessários para um adequado acompanhamento nutricional. Conheçamos as leis que estão envolvidas nesse tema. A solicitação de exames laboratoriais neces- sários ao acompanhamento dietoterápico e atividade foi estabelecida pela Lei Federal n° 8.234, no Art. 4°, inciso VIII. “Atribuem-se, também, aos nutricionistas as seguintes atividades, desde que relacionadas com alimentação e nutrição humanas: [...] solicitação de exames laboratoriais necessários ao acompa- nhamento dietoterápico” (BRASIL, 1991, on-line). Além disso, há a Resolução do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) n° 306/2003, que dis- põe sobre critérios para a solicitação de exames laboratoriais (mas não lista os exames). Também há a Resolução CFN n° 380/2005, que dispõe sobre a definição das áreas de atuação do nutricionista e as atribuições. A área da nutrição clínica é definida como atividade complementar e há a exposição da solicitação de exames laboratoriais necessários à avaliação nutricional, à prescrição dietética e à evolução nutricional do cliente/paciente. Por fim, há a Resolução CFN n° 417/2008, que dispõe sobre o procedimento nutricional dos nutricionistas. Entretanto, a Lei Federal n° 9.656/1998, que dispõe sobre planos de seguros de assistência à saúde, no Art. 12, facilita a oferta, a contratação e a vigência dos produtos definidos no plano-referência com a exigência de que a cobertura de serviços de apoio diagnóstico, tratamento e demais procedimentos ambulatoriais seja solicitada pelo médico assistente. É pertinente salientar que a exigência estabelecida vale para todos os profissionais de saúde, inclusive, para o médico, que também depende da autorização do médico auditor do plano de saúde, o qual autoriza, ou não, os procedimentos. O Conselho Regional de Nutricionistas da 8° Região utilizou a Lei n° 8234, de 17 de setembro de 1991, para mencionar que, quanto ao profissional nutricionista, a solicitação dos exames laboratoriais neces- sários ao acompanhamento dietoterápico é um requisito essencial, inclusive, para a prescrição dietética. Dessa forma, os exames integram a rotina das consultas nutricionais quando ainda não estão disponíveis no prontuário e não são diagnóstico de tratamento ou procedimento, pois são ferramentas de ajuste die- toterápico essenciais ao atendimento do paciente/cliente. Uma grande conquista para a nossa profissão! A nota do CRN-8 ainda menciona que a solicitação de exames para diagnóstico é de uso privativo do médico. A divergência estabelecida entre as empresas operadoras dos planos e seguros de assistência, os prestadores de serviço (no caso o nutricionista) e o consumidor da assistência suplementar reside no fato de que as empresas não querem pagar os exames laboratoriais necessários ao bom atendimento do consumidor. No caso das empresas de autogestão dos planos de saúde, elas já cobrem o pagamento desses exames à longa data. Portanto, o nutricionista deve se apropriar das características de operacio- nalização de cada empresa. Atente-se às regras pertinentes a cada plano, sempre que possível. UNICESUMAR 90 O conselho ainda recomenda aos nutricionistas que, no início do atendimento nutricional, escla- reçam aos pacientes quanto ao seguimento, considerando as diretrizes de utilização para o número de consultas estabelecidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) como cobertura obri- gatória dos planos de saúde com a patologia ou a situação nutricional do indivíduo. Também cabe ao paciente exercer à cidadania, procurando a garantia dos direitos em conjunto aos órgãos de defesa do consumidor,ao Ministério Público (promotores de justiça), nas representações regionais da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ou delimitando defensores para judicialização. O Conselho Regional de Nutricionistas da 3° Região, utilizando a Lei Federal nº 8.234/1991, no Art. 4º, inciso VIII, a Resolução CFN nº 306/2003, a Resolução CFN nº 600/2018 e a Resolução CFN nº 417/2008, afirma que a Justiça Federal julgou procedente o pedido do Conselho Federal de Nutrição feito na Ação Civil Pública, para que a ANS atualize o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, a fim de que conste que o nutricionista pode solicitar exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico, com a consequente cobertura de pagamento pelos planos de saúde. Essa decisão assegura que todas as operadoras de planos de saúde devem cobrir os exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico prescrito por nutricionistas. Essa deci- são, contudo, ainda está pendente de julgamento final. Além disso, é defendido que cabe ao paciente exercer à cidadania, procurando a garantia dos direitos dele. Em contrapartida, o Conselho Regional de Nutrição da 6° Região relata que a publicação da Lei n° 11.935, de 4 de maio de 2021, estabelece a obrigatoriedade da aceitação, por parte de planos de saúde, da prescrição de exames laboratoriais por nutricionistas. O pedido dos exames laboratoriais é impor- tante para embasar a avaliação nutricional e o acompanhamento do paciente. Todo o embasamento técnico para a homologação da lei foi feito pelo CRN- 6. A lei é de autoria de um deputado estadual da Paraíba e, de acordo com o dispositivo, as operadoras de planos de saúde são obrigadas a cobrir os exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico prescrito por nutricionistas, com justificativa técnica fundamentada. O que podemos observar com todas as regulamentações expostas é que cada CRN está lutando para que os profissionais consigam conquistar direitos e obter o melhor para os atendimentos. Digamos que você prescreveu um exame e chegou o momento de analisá-lo: como você poderá realizar essa atividade? Recomenda-se que você conheça as limitações pertinentes a cada exame prescrito. Observe cada interação que possa ocorrer, tanto alimentar quanto medicamentosa, até as interações entre os próprios exames. Você tem a responsabilidade de interpretar todos os resultados. Assim, será necessário um conhecimento prévio sobre o assunto. Sempre tenha em mente: o diagnóstico deve ser feito pelo médico. O nosso trabalho é apenas avaliar os exames aliado ao diagnóstico nutricional! A partir das legislações sobre o tema, segue uma lista de exames que você poderá solicitar: • Avaliação nutricional: hemograma completo, proteínas totais, proteína ligadora do retinol, Índice de Creatina-Altura (ICA) e anemia: ferro, transferrina, ferritina, capacidade total de ligação do ferro. • Doenças cardiovasculares: triglicérides, colesterol total, HDL, LDL, VLDL, apolipoproteína A e apolipoproteína B. UNIDADE 3 91 • Tireoide: TSH, T4 (total e livre), T3 e Globulina Ligadora de Tiroxina (TGB). • Doença endócrina: glicemia, teste oral de tolerância à glicose, insulina, peptídeo C e hemo- globina glicada. • Doenças renais: gasometria, ureia, creatinina, sódio, cálcio (total e iônico), potássio sérico, fósforo sérico, magnésio sérico, ácido úrico, citrato, proteína e filtração glomerular. • Doenças hepáticas: Alanina Aminotransferase (ALT), Aspartato aminotransferase (AST), Gama GT (GGT) e bilirrubina. • Cirurgia bariátrica e desordens: ácido fólico, cálcio total, cálcio iônico, ferro, zinco, sódio, fósforo, selênio, cloro e vitaminas B12, A, C, E, K, B6, B2 e D3. • Outros exames: Hormônio Adrenocorticotrófico (ACTH), Hormônio Antidiurético (ADH), calcitonina, cortisol, Hormônio Folículo Estimulante (FSH), Hormônio do Crescimento (GH), progesterona, prolactina, testosterona, amilase amônia, beta HCG, ceruloplasmina, frutosamina, gastrina, leptina, oxalato e tempo de protrombina. Para conhecimento, a avaliação laboratorial é um processo muito controlado e envolve um sistema de comparação de amostras-controle com algumas substâncias predeterminadas ou de concentrações de alíquotas com amostra do paciente. Ao final, há um resultado que será comparado aos valores pré- -determinados, haja vista que os dados laboratoriais são os únicos dados objetivos utilizados em uma avaliação nutricional que são controlados. Os testes nutricionais em laboratório são essenciais para a avaliação da deficiência de nutrientes, estimando a disponibilidade deles em líquidos e em tecidos biológicos (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Normalmente, a amostra avaliada reflete o conteúdo corporal total de nutrientes que será avaliado. A seguir, conheceremos as amostras mais comuns para a análise de nutrientes, de acordo com Mahan, Escott- Stump e Raymond (2012): • Sangue total: contém glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. • Soro: corresponde a um líquido com remoção do coágulo e das células sanguíneas. • Plasma: líquido composto por água, proteínas sanguíneas, eletrólitos e fatores de coagulação. • Células sanguíneas: visa medir o conteúdo celular de algum composto. Convido você a ouvir o podcast desta unidade. Nele, complementaremos o nosso conteúdo explicando a importância da avaliação da hemoglobina glicada e a aplicabilidade dela na nutrição clínica. A hemoglobina glicada é considerada o exame laboratorial de rotina aplicado a todos os pacientes diagnosticados com diabetes mellitus, fundamental para documentar o controle glicêmico. Dê o play e faça parte da nossa sala de bate papo . UNICESUMAR 92 • Eritrócitos: visa identificar os glóbulos vermelhos. • Leucócitos: visa identificar os glóbulos brancos e as frações de leucócitos. • Manchas de sangue: composto pelo sangue total seco coletado a partir da perfusão do dedo ou do calcanhar. • Urina: visa observar os metabólitos secretados. • Fezes: importante na análise nutricional quando os nutrientes não são absorvidos e estão pre- sentes no material fecal. Não poderemos conhecer detalhadamente cada um dos exames. Portanto, nos aprofundaremos nos principais exames que temos conhecimento. Um dos exames mais solicitados na prática clínica, prin- cipalmente, na médica, é o hemograma, também conhecido como “exame de sangue”. Para compreen- dê-lo, é preciso conhecer alguns conceitos de hematologia, ou seja, é necessário conhecer um pouco mais as células sanguíneas. Vamos lá! Nosso sangue periférico é formado por diferentes tipos celulares, que são compostos pelos gló- bulos vermelhos, eritrócitos ou hemácias; glóbulos brancos ou leucócitos; plaquetas ou trombócitos. Logo, a partir do hemograma e do coagulograma, é possível analisar todas as linhagens celulares citadas, tanto em número quanto em funcionalidade (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). Inseridos no hemograma, encontram-se: • Contagem de hemácias. • Dosagem de hemoglobina. • Determinação de hematócrito. • Índices hematimétricos. • Leucometria global e específica. • Exame microscópico do esfregaço de sangue corado. UNIDADE 3 93 Vamos conhecer cada um? Já afirmamos que o coagulograma faz parte do hemograma. Você sabe o que esse exame representa? Ele compreende os exames de tempo de sangramento, coagulação, de protrombina, tromboplastina parcial e contagem de plaquetas. O eritrograma, por sua vez, é o respon- sável por avaliar o eritrônio, ou seja, envolve de 25 a 30 trilhões de eritrócitos circulantes e até o tecido eritroblástico da medula óssea. Qual seria a função do eritrônio? Ele é responsável pelo transporte de oxigênio do pulmão para os tecidos, a partir do conteúdo hemoglobínico da massa eritróide. Logo, caso ocorra uma patologia, ela será essencialmente quantitativa. Se, porventura, um eritrônio trabalhar de maneira insuficiente, acarretará em uma anemia, a partir da diminuição da hemoglobina sanguínea, o que por, muitas vezes, pode vir acompanhada por uma baixa contagemde eritrócitos. Portanto, o eritrograma pode ser útil para quantificar e ajudar no diagnóstico de quadros de anemia e poliglobu- linas (alteração na parte circulante do eritrônio) (FAILACE; FERNANDES, 2009). O hemograma é conhecido como a semiologia das células do sangue, ou seja, é o primeiro passo que muitos profissionais da saúde utilizam para examinar um paciente, fazendo parte de praticamente todas as revisões de saúde. O uso dele é muito difundido, pois, além de ser parte integrante da triagem de saúde, auxilia no diagnóstico de doenças infecciosas, emergências médicas, doenças crônicas, pré- -cirúrgicos e no acompanhamento de pacientes que estão em quimioterapia e radioterapia, ou seja, o hemograma se faz presente em diversas patologias (FAILACE; FERNANDES, 2009). Sobre as células envoltas, encontram-se os glóbulos vermelhos, conhecidos como eritrócitos ou hemácias. Eles têm formato bicôncavo e anucleados e um centro mais profundo em relação às bordas. Têm, como função, auxiliar no transporte de gases. O formato bicôncavo gera uma maior proximidade da membrana da célula à hemoglobina. O que seria a hemoglobina? Ela é considerada uma proteína que gera cor vermelha nos eritrócitos e carrega oxigênio por todo organismo. Portanto, a cor vermelha de nosso sangue é proveniente da hemoglobina. UNICESUMAR 94 Os glóbulos brancos, por sua vez, são conhecidos como leucócitos e têm, como função, a proteção do organismo contra diversas patologias. Os leucóci- tos estão subdivididos em algumas classes, como os granulócitos (neutrófilos, basófilos e eosinófilos) e os agranulócitos (linfócitos e monócitos). Todos são fundamentais o para nosso sistema imunológico. Por fim, as plaquetas podem ser consideradas fragmentos do citoplasma, que é o responsável pelo bloqueio de diversas lesões em vasos sanguíneos. Elas atuam no bloqueio da formação de coágulos de sangue. Con- fira, na Figura 1, uma lista dos elementos básicos do hemograma com alguns comentários explicativos. Já conhecemos um pouco mais cada célula. Agora, como vamos avaliá-las? Para avaliar as células sanguí- neas de um paciente, você solicitará o hemograma. Nele, serão estudadas as células vermelhas do sangue por meio do eritrograma, em que estarão inclusos os parâmetros gerais relacionados aos eritrócitos e a do- sagem de hemoglobina. Mais detalhadamente, temos: • Contagem global de eritrócitos. • Hematócrito (HTC): representa a relação em % entre os eritrócitos e o plasma. • Índices hematimétricos. • Volume Corpuscular Médio (VCM): re- presenta o volume médio da população de eritrócitos, • Concentração de Hemoglobina Corpus- cular Média (CHCM): representa a média da concentração interna de hemoglobina em uma dada população de eritrócitos. • Amplitude de Distribuição dos Eritrócitos (RDW): representa a determinação quan- titativa da variação dos eritrócitos. UNIDADE 3 95 Apresentam-se menor em pacientes com hemorragias, hemólise, aberrações genéticas, falência da medula óssea ou doença renal e naquelas que estão fazendo uso de determina- dos medicamentos. Apresenta-se menor em pacientes com hemorragia, hemólise, aberrações genéticas, falência de medula óssea ou doença renal e naqueles que estão fazendo uso de determinados medicamentos. Apresenta-se reduzido na presença de de ciência de ferro, traço talassêmico e insu ciência renal crônica e anemia. Apresenta-se elevado na presença de de ciência vitamina B12 e defeitos na síntese de DNA. Reduzida nos pacientes com de ciência de ferro e traço talassêmico; não é sensível às de ciências marginais de nutrientes. Elevados (leucocitose) nos pacientes com infecção, neoplasia e estresse, reduzido (leucopenia) nos pacientes com doença pulmonar crônica, doenças autoimunes ou infecções graves e naqueles que estão passando por quimioterapia ou radioterapia. Glóbulos vermelhos Hemoglobina VCM CHCM Glóbulos brancos Figura 1 - Alguns componentes do hemograma e o significado deles / Fonte: adaptada de Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012). Dentro do hemograma, há o leucograma, responsável pelo estudo dos glóbulos brancos, englobando a contagem de leucócitos, linfócitos, monócitos, eosinófilos, basófilos e neutrófilos. Para finalizar, o hemograma também abrange o estudo das plaquetas. Nelas, são exploradas a quantidade e o tama- nho, observando: Descrição da Imagem: há algumas caixas de texto em formato oval que representam os componentes do hemograma. Todos são ligados a linhas retas que conectam a caixas de texto retangulares que explicam o significado de cada componente. A primeira caixa de texto oval, com cor verde, se refere aos glóbulos vermelhos e o significado menciona: “Apresentam-se maior em pacientes com hemorragias, hemólise, aberrações genéticas, falência damedula óssea ou doença renal e naqueles que estão fazendo uso de determi- nados medicamentos”. Embaixo, a segunda caixa de texto oval se refere à hemoglobina. Ela tem cor laranja e se conecta por meio de uma linha reta a uma caixa de texto retangular com a nota: “Apresenta-se maior em pacientes com hemorragia, hemólise, aberrações genéticas, falência da medula óssea ou doença renal e naqueles que estão fazendo uso de determinadosmedicamentos”. Embaixo, há outra caixa de texto sobre o VCM. Ela tem coloração lilás e se conecta a uma caixa de texto retangular por meio de uma linha reta que tem o seguinte conteúdo: “Apresenta-se reduzido na presença de deficiência de ferro, traço talassêmico e insuficiência renal crônica e anemia. Apresenta- se elevado na presença de deficiência vitamina B12 e defeitos na síntese de DNA”. Embaixo, há outra caixa de texto oval na cor rosa. Ela se refere ao CHCM e se conecta por meio de uma linha reta a uma caixa de texto retangular com o seguinte conteúdo: “Reduzida nos pacientes comdeficiência de ferro e traço talassêmico; não é sensível às deficiênciasmarginais de nutrientes”. Por fim, embaixo, há aúltima caixa de texto oval, na cor amarelo. Ela se conecta pormeio de uma linha reta à outra caixa retangular com o seguinte conteúdo: “Elevados (leucocitose) nos pacientes com infecção, neoplasia e estresse reduzido (leucopenia) nos pacientes com doença pulmonar crônica, doenças autoimunes ou infecções graves e naqueles que estão passandopor quimioterapia ou radioterapia”. UNICESUMAR 96 • Volume Plaquetário Médio (VPM). • Plaquetócrito (PCT): representa o volume total de plaquetas em determinado volume de sangue. • Amplitude de Variação do Tamanho das Plaquetas (PDW): representa o tamanho das plaquetas que estão uniformes. • Percentual de Plaquetas Grandes (PLC- R): representa a porcentagem de plaquetas com volume acima de 12 fL. Temos uma infinidade de exames presentes no hemograma. Todavia, como eles são apresentados em um exame? Observe o Quadro 1. Hemograma: Eritrograma: Eritrócitos* Milhões/uL Hemoglobina g/dL Hematócrito % VCM fL HCM pg CHCM % (ou g/dL) RDW % Leucograma: Leucócitos /uL Neutrófilos % /uL Linfócitos % /uL Monócitos % /uL Eosinófilos % /uL Basófilos % /uL Plaquetas /uL VPMfL Quadro 1 - Um dos layouts mais recomendados de hemograma / Fonte: adaptado de Failace e Fernandes (2009). UNIDADE 3 97 Depois de entendermos o layout, vamos conhecer os valores de referência dele? Um estudo realizado pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) descreveu os valores de referência para exames laboratoriais de hemograma da população brasileira, diferenciando-os por sexo, idade e cor da pele. Esse estudo é de suma importância, pois os valores de referência são adaptados para cada perfil, tornando-se mais individual, o que auxilia os profissionais da saúde na interpretação dos resultados de maneira eficiente e proporciona um melhor atendimento, cuidado, diagnóstico e tratamento de doenças. Entretanto, por vezes, as origens desses valores não são exibidas pelos laboratórios e são utilizados sem identificar a população a qual se destina. Então, os resultados sempre foram analisados de forma errada? Não. Contudo, identificar os resultados perante a individualidade de cada paciente pode ser um diferencial. Associado a isso, o estudo infere que os valores de referência, por vezes, podem ser influenciados por diversos fatores. Esse fato deve ser levado em consideração, incluindo os fatores individuais, populacionais e ecológicos, além da idade, sexo, raça, nível socioeconômico, fatores de risco, estado fisiológico e exposição à agentes externos. Outro aspecto importante se deve ao fato de os valores de referência utilizados no Brasil serem de outros países. Sendo assim, seguem os valores de referência dos marcadores hematológicos da série vermelha segundo sexo, de acordo com a PNS inseridos na Tabela 1 (ROSENFELD et al., 2019). Masculino Feminino Exames Média Limite Inferior Limite Superior Média Limite Inferior Limite Superior Glóbulos vermelhos (milhões/mm3) 5,0 4,3 5,8 4,5 3,9 5,1 Hemoglobina (g/dL) 14,9 13,0 16,9 13,2 11,5 14,9 Hematócrito (%) 45,8 39,7 52,0 40,7 35,3 46,1 Volume corpuscular médio (fL) 91,2 81,8 100,6 90,6 81,0 100,2 Hemoglobina corpuscular média (pg) 29,8 26,9 32,6 29,4 26,3 32,4 Concentração de hemoglobina corpuscular média (g/dL) 32,6 30,6 34,6 32,4 30,5 34,3 Amplitude de distribuição dos eritrócitos (RDW) (%) 13,6 12,0 15,3 13,7 11,9 15,5 Tabela 1 - Valores de referência de marcadores hematológicos da série vermelha segundo sexo Fonte: adaptada de Rosenfeld et al. (2019). UNICESUMAR 98 Como método comparativo, temos os valores hematológicos de referência para adultos considerando o sexo, de acordo com Bain, Battes e Laffan (2017). Veja a Tabela 2. Homens Mulheres Hemácias x1012/L 5,00 ± 0,5 4,3 ± 0,5 Hemoglobina g/dL 15,0 ± 2,0 13,5 ± 1,5 Hematócrito (%) 45 ± 5 41 ± 5 Leucócitos x109 /L 7,0 ± 3,0 VGM fL 92 ± 9 HGM pg 29,5 ± 2,5 CHGM g/dL 33 ± 1,5 RDW (%) 12,8 ± 1,2 Plaquetas x 109/L 150 - 400 Tabela 2 - Valores hematológicos de referência em adultos / Fonte: adaptada de Bain, Battes e Laffan (2017). Assim como pudemos observar, existem diferenças entre ambas as referências, porém não há tantas divergências. De modo mais específico, os parâmetros hematológicos que são mais recomendados na avaliação do estado nutricional de um paciente são o hematócrito e a hemoglobina. Referente ao aspecto metabólico, a hemoglobina é uma proteína que tem lento metabolismo, portanto, a dimi- nuição dela ocorre mais lentamente durante uma depleção proteica. O uso da hemoglobina, mesmo sendo sensível, tem pouca especificidade para desnutrição. O hematócrito, por sua vez, está voltado à verificação de anemias, visto que o valor dele pode estar reduzido nessas condições. Pensando em um quadro de classificação da desnutrição, encontram-se os valores apresentados nas tabelas 3 e 4 (SAMPAIO et al., 2012). Desnutrição Leve Desnutrição Moderada Desnutrição Grave Hemoglobina (g/100 mL) Homens > 12,0 mg/dl 12,0-10 mg/dl <10,0 mg/dl Mulheres > 10,0 mg/dl 10,0- 8 mg/dl <8,0 mg/dl Tabela 3 - Classificação da desnutrição de acordo com os valores de hemoglobina Fonte: adaptada de Sauberlich, Skala e Dowdy (1974). UNIDADE 3 99 Desnutrição Leve Desnutrição Moderada Desnutrição Grave Hematócrito (%) Homens >36 36-31 <310 Mulheres >31 31-24 <24 Tabela 4 - Classificação da desnutrição de acordo com valores de hematócrito Fonte: adaptada de Sauberlich, Skala e Dowdy (1974). Complementando a lista de exames, podemos utilizar os indicadores proteicos viscerais (plasmáti- cos). É importante observar esse parâmetro, uma vez que, em situações em que o paciente se encontra em uma restrição alimentar prolongada e/ou em situações de injúria, pode ocorrer um comprometi- mento na integridade de alguns sistemas viscerais. Sendo assim, determinados tecidos podem sofrer alterações devido ao acometimento de patologias, como a desnutrição. Desse modo, a dosagem de proteínas sintetizadas por tecidos, como o fígado, é de suma importância, assim como a associação dela a outros parâmetros, visando avaliar o comprometimento dos órgãos e garantir um adequado diagnóstico nutricional (SAMPAIO et al., 2012). Quais exames estão envolvidos nesses indicadores? Um dos exames envoltos na análise das proteínas viscerais é o das proteínas totais. Nele, há a soma de todas as proteínas presentes no plasma. Dentre as mais importantes, estão: albumina, transferrina, pré-albumina e proteína transportadora do retinol, sendo de suma importância como marcadores do estado nutricional proteico. Aliás, o exame é considerado confiável, visto que a síntese das proteínas hepáticas depende de aminoácidos disponíveis. Logo, um paciente com desnutrição se encontrará com a deficiência. Esse método carrega outra vantagem, considerando a comparação dele com outros métodos de avaliação da alteração do estado proteico-calórico: a mensuração é mais precisa, rápida e barata (SAMPAIO et al., 2012). Agora, conheceremos uma das proteínas presentes no plasma, a albumina. Ela é considerada uma das proteínas circulantes no plasma e nos líquidos extracelulares com maior abundância. A função dela reside no transporte e na ligação de inúmeras substâncias. Ela também é a responsável pela manutenção da pressão coloidosmótica do plasma, visando adequada distribuição da água nos compartimentos corporais. Na Figura 2, há a representação de alguns princípios relacionados à avaliação da albumina sérica. Ao avaliar as taxas de albumina, é necessário cuidado, pois ela tem baixa sensibilidade para avaliar a desnutrição aguda, porque possui meia vida longa (18 a 20 dias). Logo, a concentração de albumina plasmática se eleva nos pacientes que estão em recuperação de um estresse metabólico e/ou desnutrição energético- proteica (KAMIMURA et al., 2002). O uso dela como indicador nutricional pode apresentar algumas limitações, incluindo: UNICESUMAR 100 • Situações de estresse metabólico (trauma, sepse, queimaduras, infecções/inflamações). • Edema. • Má absorção intestinal. • Doenças hepáticas. • Síndrome nefrótica. • Insuficiência renal crônica. • Insuficiência cardíaca congestiva. • Hiper-hidratação. • Câncer. • Eclampsia. • Idosos. • Carência de zinco. ALBUMINA Representa 60% das proteínas séricas totais Mantem a pressão coloidosmótica do plasma Baixas concentrações de albumina podem formar um edema Valores de albumina não re etem a ingestão atual de proteínas Hormônios, enzimas, medicamentos, minerais, íons, ácidos graxos, aminoácidos e metabólitos Transporta os principais componentes do sangue Casos de hipoalbuminemia pode ocorrer por problemas renais, alterações intestinais, desnutrição e in amações Figura 2 - Representação dos princípios relacionados à albumina sérica / Fonte: adaptada de Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012). Quais são os valores de referência? Observe a Tabela 5. Descrição da Imagem: trata-se de um mapa mental. No centro, há uma caixa de texto retangular na cor verde-água que se refere à albumina. Dessa caixa de texto, saem diversas caixas na cor verde-claro. A primeira menciona que a albumina representa 60%das proteínas séricas totais. A segunda sustenta que ela mantém a pressão coloidosmótica do plasma. A terceira defende que, em baixas concentrações de albumina, é possível formar umedema. A quarta afirma que casos de hipoalbuminemia podemocorrer por problemas renais, alterações intestinais, desnutrição e inflamação. Já a quintamenciona que os valores de albumina não refletem a ingestão atual de proteínas. Por fim, a sexta expressa que a albumina transporta os principais componentes do sangue, subdividindo-se emoutra caixa de texto verde-claro, a qual se refere aos hormônios, enzimas,medicamentos, minerais, íons, ácidos graxos, aminoácidos emetabólitos. UNIDADE 3 101 Normal >3,5 g/dl Depleção leve 3,0 a 3,5 g/dl Depleção moderada 2,4 a 2,9 g/dl Depleção grave <2,4 g/dl Tabela 5 - Valores de referência para a albumina sérica Fonte: adaptada de Blackburn e Thornton (1979). Outro indicador proteico visceral plasmático é a transferrina, que corresponde a uma globulina transportadora de ferro sérico no plasma. Ela tem meia-vida mais curta que a albumina, porém ainda não corresponde de forma rápida em situações de desnutrição. Além disso, é um pouco mais útil que tal como marcador do estado proteico-calórico, mas não é um índice de avaliação ideal quando a anemia por deficiência de ferro e a desnutrição energética-proteica estão presentes. Avalie os valores de referência na Tabela 6. Normal 200 a 400 mg/dl Depleção leve 150 a 200 mg/ dl Depleção moderada 100 a 150 mg/dl Depleção grave < 100 mg/dl Tabela 6 - Valores de referência para transferrina / Fonte: adaptada de Lima et al. (2001). Também podemos contar com a proteína transportadora do retinol, que tem, como função, trans- portar a vitamina A (retinol) no plasma. Logo, a meia-vida dela é curta e pode ser a mais sensível perante às mudanças nutricionais, se comparada à pré-albumina, à transferrina e à albumina. Observe os valores de referência na Tabela 7. Normal 3 a 5 mEq/dl Depleção <3 mEq/dl Tabela 7 - Valores de referência para a proteína transportadora do retinol / Fonte: adaptada de Rosa et al. (2008). Para um melhor entendimento, é preciso saber que as proteínas plasmáticas têm forte correlação com o estado nutricional e os quadros de inflamação que um paciente pode apresentar. Diante disso, em situações de estresse metabólico, como trauma, sepse, determinadas cirurgias, quadros de queimadura, infecções e inflamações, pode haver a liberação de citocinas, interleucinas e fator de necrose tumoral. O que isso significa? Eles reorientam a síntese hepática de proteínas plasmáticas, o que, consequentemente, pode acarretar em um aumento da degradação de proteínas musculares, visto a elevada demanda de energia durante uma resposta inflamatória. UNICESUMAR 102 Por outro lado, a síntese hepática de algumas proteínas plasmáticas tende a diminuir durante uma resposta inflamatória, como a albumina, a transferrina, a pré-albumina e a proteína transportadora do retinol. Desse modo, as proteínas são chamadas de proteínas negativas de fase aguda. Contudo, há um aumento de outras proteínas da fase aguda no fígado, como a famosa proteína C reativa. Já conhece? Os valores normais da proteína C reativa devem estar em < 0,9 mg/dl e estão relacionados ao grau e à intensidade da resposta metabólica. Portanto, quanto maior for a injúria que um paciente apresentar, maiores serão os valores apresentados perante à resposta metabólica. Caso o paciente apresente valores elevados de proteína C reativa ainda mais persistente, é um indicativo de que determinada resposta metabólica está descontrolada, podendo estar relacionada à morbimortalidade de pacientes. Ao final da fase aguda de uma inflamação, os valores retornam ao normal de forma espontânea. Portanto, é con- siderada útil para monitorar reações de estresse e realizar intervenções nutricionais de forma pontual. Agora, entenderemos o estado nutricional e a avaliação da competência imunológica. Ao avaliar o estado nutricional de um paciente, é importante considerar que ele está relacionado à resposta imu- nológica do indivíduo. Entretanto, essa correlação pode ser bem complexa, pois a carência de alguns nutrientes específicos (aminoácidos, vitaminas, zinco, ferro, entre outros) pode vir acompanhada de alterações no sistema imunológico. O principal teste imunológico usado é a Contagem Total de Linfócitos (CTL), que mede as reservas imunológicas momentâneas. Trata-se de um bom indicativo para as condições dos mecanismos de defesa celular do organismo e é uma maneira indireta de avaliar a capacidade dos sistemas imune humoral e celular. Como calcular? A CTL pode ser calculada a partir do leucograma, utilizando o percentual de linfócitos e contagem de leucócitos. Verifique, na Tabela 8, a interpretação dos valores. CTL= % linfócitos x leucócitos/ 100 Depleção leve 1.200 a 2.000/ mm3 Depleção moderada 800 a 1.199/ mm3 Depleção grave <800/ mm3 Tabela 8 - Interpretação dos valores de Contagem Total de Linfócitos / Fonte: adaptada de Blackburn e Thornton (1979). Você percebeu que temos um grande número de exames para realizar um adequado acompanhamento nutricional? Continuemos os nossos estudos! Também podemos avaliar um paciente por meio do Balanço Nitrogenado (BN), que permite avaliar o grau de equilíbrio nitrogenado a partir de uma boa verificação da eficácia nutricional. No entanto, ele não é um indicador do estado nutricional. O uso dele tem boa aplicabilidade para monitorar a ingestão dos pacientes com nutrição parenteral ou sonda enteral, além dos pacientes que recebem suporte nutricional de curta duração. Como realizar o cálculo desse balanço? Aproximadamente 16% da massa proteica é nitrogênio e pode ocorrer uma perda pelo suor, fezes, somado o nitrogênio não proteico de aproximadamente 4g/dia. São dispostas as tabelas 9 e 10, que nos auxiliam na interpretação e na classificação dos valores do BN. UNIDADE 3 103 BN= Nitrogênio ingerido – Nitrogênio excretado Quadro 2 - Cálculo do balanço nitrogenado / Fonte: adaptado de Oliveira (2007) Sendo que: Nitrogênio ingerido= Proteína dieta (g)/ 6,25 Nitrogênio excretado= Concentração de nitrogênio uréico urinário (g/dia) + 4 g (fecal + suor + N2 não proteico) Classificação Valores de Balanço Nitrogenado Normal 0 ou + Depleção leve -5 a -10 Depleção Moderada -10 a -15 Depleção Grave >-15 (ex: sepse) Tabela 9 - Interpretação dos valores do balanço nitrogenado / Fonte: adaptada de Sampaio et al. (2012). BN negativo Ingestão < Excreção Catabolismo BN positivo Ingestão > Excreção Anabolismo BN equilíbrio Ingestão = Excreção -------- Tabela 10 - Classificação do balanço nitrogenado / Fonte: adaptada de Sampaio et al. (2012). Entretanto, o balanço nitrogenado tem limitações de uso, assim como podemos visualizar no Quadro 3. Dieta Análises: estado de hidratação; doenças renais; perdas anormais de nitrogênio em decorrência de diarréia, queimaduras extensas, fístulas gastrointestinais etc. Imprecisão da coleta das amostras, como perda de urina, erros nos tempos de coleta e coleta de fezes incompleta. Dificuldade em estimar a ingestão de proteínas, principalmente daqueles indivíduos que consomem dieta via oral. Estimativa inadequada da ingestão e perdas de nitrogênio. Quadro 3 - Limitações do uso do balanço nutricional como marcador nutricional / Fonte: adaptado de Sampaio et al. (2012). UNICESUMAR 104 Agora, avaliaremos um dos exames mais conhecidos e pedidos pelos profissionais de saúde, o qual visa descobrir o estado nutricional e os lipídeos corporais. Analisar o perfil lipídico de um paciente é explorar uma combinação de testes laboratoriais sanguíneos, o que inclui o colesterol total, as lipopro- teínas de alta densidade (HDL), as lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e os triglicerídeos. Apesar de o exame ser usado para estimar o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, analisar o perfil lipídico pode dar abertura para o estudo de uma associação à desnutrição.Exploremos o colesterol total e as frações dele. Ao realizar o exame dos níveis plasmáticos, é possível ter o reflexo da ingestão, da absorção da alimentação, de uma possível síntese endógena e até da capaci- dade de excreção. Um ponto especial se deve aos idosos, visto que o exame vem sendo usado como um método de prognóstico, ou seja, reflete uma relação com o aumento da mortalidade e da permanência hospitalar. Os teores de colesterol estão relacionados à desnutrição, mas a redução do colesterol sérico pode se manifestar tardiamente, sendo uma limitação do uso para uma avaliação nutricional. Na Tabela 11, há a interpretação dos valores de colesterol total, segundo a faixa etária (SAMPAIO et al., 2012). Pontos de Corte Menos de 20 anos (mg/dl) Acima de 20 anos (mg/dl) Elevado Acima de 200 Acima de 240 Limítrofe 170 a 199 200 a 239 Desejável Inferior a 170 Inferior a 200 Baixos (indicadores de desnutrição) - Abaixo de 150 Tabela 11 - Interpretação dos valores de colesterol total, segundo a faixa etária / Fonte: adaptada de Kamimura et al. (2002). Entretanto, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) alterou, em 2017, os índices de colesterol total, visando diminuir alguns parâmetros para aqueles pacientes que estão em risco cardíaco. Agora, os valores desejáveis são abaixo de 190 mg/dl. O risco de desenvolver uma doença cardiovascular pode estar mais relacionado ao número de par- tículas de lipoproteínas aterogênicas no soro do que ao volume total de colesterol. As lipoproteínas séricas e as concentrações de colesterol implicam diretamente no desenvolvimento da aterosclerose e são afetadas por fatores modificáveis, como a dieta. UNIDADE 3 105 Por fim, também é possível realizar uma avaliação laboratorial dos micronutrientes de um pa- ciente, informando a quantidade e a qualidade de alguns nutrientes e as respectivas funções que podem estar comprometidas por deficiências ou excessos. Portanto, avaliar as vitaminas e os minerais pode colaborar com um adequado diagnóstico do estado nutricional. Além disso, a prescrição do exame é muito importante para avaliar a correção de algumas patologias que carregam a deficiência de algum micronutriente em específico ou o excesso de tal. Um tema muito discutido se refere à associação do consumo de alguns micronutrientes à prevenção de doenças. Diversas doenças, como as cardiovasculares, o Alzheimer, o Parkinson, a doença intestinal inflamatória, o câncer e até o envelhecimento, podem ser iniciadas devido a um elevado estresse oxi- dativo perante à oxidação de lipídios, ácidos nucléicos ou proteínas pelos radicais livres. Esse estresse pode ser provocado em virtude de um aumento na geração de oxidantes, na redução da proteção por parte dos antioxidantes e por uma falha em recuperar o dano oxidativo. Observe a Figura 3, que exibe os passos para manter o equilíbrio entre pró-oxidantes e os antioxidantes. Uma forma de avaliar o nível de estresse oxidativo se dá pela quantificação das concentrações dos compostos antioxidantes nos líquidos corporais. Segundo Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012), há relação com a concentração dos seguintes compostos: • Vitaminas antioxidantes. • Fitoquímicos dietéticos com propriedades antioxidantes. • Minerais com papéis antioxidantes. • Compostos e enzimas antioxidantes endógenas, como a superóxido a dismutase e a glutationa peroxidase. UNICESUMAR 106 + - Equilíbrio do estresse oxidativo Pró-oxidantes Antioxidantes Marcadores do equilíbrio do estresse oxidativo - Lipídios; - Proteínas; - Ácidos nucleicos; - Carboidratos. Figura 3 - Passos para manter o equilíbrio entre pró-oxidantes e antioxidantes Fonte: adaptada de Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012). Nas tabelas 12 e 13, são expostos os valores, os indicativos de deficiência de vitaminas e os valores séricos aceitáveis. Aceitável Deficiência Ácido ascórbico (mg /dl) < 0,1 >20 < 10 < 20 Vitamina E plasmática (mg / dl) < 0,2 Folacina plasmática (ng / dl) < 2 Vitamina B12 (mg / dl) < 100 Tabela 12 - Valores de referência para vitaminas / Fonte: adaptada de Sampaio et al. (2012). Descrição da Imagem: trata-se de um fluxograma que contém uma caixa de texto oval no centro superior, referindo-se ao equilíbrio do estresse oxidativo. Dessa caixa, saem duas setas, uma para a direita e outra para a esquerda. A da esquerda se conecta à outra caixa de texto, que se refere aos pró-oxidantes. A da direita, refere-se aos antioxidantes. De ambas, saem uma seta que se destina ao centro da figura, a qual se caracteriza por uma caixa de texto oval. No topo, ela está acoplada a outra caixa de texto no formato retangular, que se refere aos marcadores do equilíbrio do estresse oxidativo. A caixa oval ndiz respeito aos lipídios, às proteínas, aos ácidos nucléicos e aos carboidratos. UNIDADE 3 107 Cobre (mg /dl) Selênio (ng /dl) 0 a 6 meses 40-100 70-150 20-70 95-165 6 anos 50-120 - 90-190 12 anos 50-120 - 80-160 Adulto 50-170 - 70-155 Tabela 13 - Valores séricos aceitáveis para ferro, zinco, cobre e selênio / Fonte: adaptada de Sampaio et al. (2012). Em sua prática profissional, você se deparará com muitos relatos de pacientes que buscam melho- rar os seus teores de ferro, com o intuito de reverter algum quadro de anemia. A partir de alguns exames laboratoriais, podemos realizar o diagnóstico da deficiência de ferro com base no teor de hemoglobina, ferro sérico e ferritina. Todavia, um fato deve ser levado em consideração: ao utilizar a hemoglobina para definir um quadro de anemia isoladamente, pode-se ter uma análise inade- quada. Isso, porque ela é afetada tardiamente pela doença e, dessa forma, não será possível distinguir a deficiência de ferro de outras anemias. Entretanto, mesmo considerando a baixa sensibilidade, podemos caracterizar como um quadro de anemia os valores de hemoglobina sanguínea menores que o limite de normalidade para a idade e o sexo (SAMPAIO et al., 2012). Observe a Tabela 14 e verifique os intervalos de referência para a hemoglobina. Idade Hemoglobina (g /dl) Até 1 dia 13,5 a 19,5 2 a 3 dias 14,5 a 22,5 4 a 7 dias 13,5 a 21,5 Uma em cada três pessoas no mundo é afetada pela deficiência de vita- mina A, ferro e iodo. As manifestações clínicas dessas carências afetam a população mundial em larga escala. Sendo assim, conhecer esse tema é fundamental antes de prescrever um exame laboratorial. Sugiro a leitura do manual indicado a seguir, com o intuito de entender as deficiências para realizar o diagnóstico e a forma de prevenção. UNICESUMAR 108 Idade Hemoglobina (g /dl) 8 a 14 dias 12,5 a 20,5 15 a 30 dias 10 a 18 31 a 90 dias 9 a 14 3 a 6 meses 9,5 a 13,5 7 meses a 2 anos 10,5 a 13,5 3 a 6 anos 11,5 a 13,5 7 a 13 anos 11,5 a 15,5 Acima de 13 anos Sexo feminino 11 a 18 Sexo masculino 13 a 20 Tabela 14 - Intervalos de referência para hemoglobina / Fonte: adaptada de Andriolo (2005). A dosagem de ferro sérico também pode ser utilizada na avaliação de anemias, porém não pode ser usada como um parâmetro isolado. Visualize a Tabela 15, que apresenta os valores de referência para o ferro sérico. É possível encontrar níveis baixos de ferro sérico em: • Perdas sanguíneas. • Dieta inadequada. • Doenças inflamatórias crônicas. • Neoplasias. • Síndrome nefrótica. • Desnutrição. 0 a 6 meses 6 anos 12 anos Adulto 40-100 50-120 50-120 50-170 Tabela 15 - Valores de referência para ferro sérico / Fonte: Sampaio et al. (2012, p. 70). Por fim, temos a ferritina, que é a principal proteína intracelular. Ela tem, como função, a reserva de ferro no organismo. O nível circulante de ferritina tem relação direta com a quantidade de ferro armazenado. No que diz respeito à análise, a ferritina é diminuída em quadros de anemia ferropriva e pode ser reduzida antes mesmo de um quadro anêmico se instalar. Um fato merece atenção, pois analisar a ferritina sérica de um paciente pode ser considerado o parâmetro mais sensível para verificar UNIDADE 3 109 uma possível depleção deferro, porém não é uma proteína específica para diagnosticar um quadro de anemia ferropriva, porque a ferritina pode estar elevada em alguns quadros de doenças, causando um certo aumento da síntese hepática (SAMPAIO et al., 2012). Lee e Eunmi (2019) publicaram um estudo em que analisaram a associação entre o nível de ferritina sérica e vários tipos de adiposidade. Os estudiosos afirmam que o Índice de Massa Corporal (IMC) e a relação cintura-quadril se mostraram fortes preditores do nível de ferritina sérica. Além disso, a circunferência da cintura-quadril esteve relacionada aos níveis de ferritina sérica em pacientes obesos com síndrome metabólica e em pacientes americanos e chineses, sugerindo uma estreita relação entre a obesidade como síndrome metabólica e a concentração de armazenamento de ferro. Na Tabela 16, podemos observar os valores de referência de ferritina para diagnóstico de defi- ciência de ferro. Idade Ferritina (ng /dl) Recém-nascidos 25-200 1 mês 200-600 6 meses 50-200 Crianças 7-140 Adultos (masculinos) 15-200 Adultos (femininos) 12-150 Tabela 16 - Valores de referência de ferritina para diagnóstico de deficiência de ferro / Fonte: Sampaio et al. (2012, p. 71). Ao longo desta unidade, constatamos que os exames bioquímicos, na nutrição, possibilitam a aná- lise da individualidade bioquímica de cada paciente, levando em consideração os sinais clínicos e a avaliação dietética. A utilização deles durante a prática clínica permite detectar diversas carências e excessos, assim como o risco de doenças, como um risco cardiovascular, controle glicêmico, alteração no balanço proteico e outras situações que você, como nutricionista, poderá intervir durante o seu acompanhamento nutricional. Os indicadores bioquímicos, na nutrição, visam fornecer meios de avaliar as alterações orgânicas e do estado nutricional do paciente, com o intuito de identificar os possíveis problemas nutricionais antes mesmo de um sinal e/ou sintoma clínico de deficiência e/ou excesso. O objetivo também é monitorar o acompanhamento dietoterápico do paciente. Espero que esta unidade tenha possibilita- do a compreensão da importância da avaliação bioquímica de um paciente, visando uma adequada avaliação nutricional. 110 Caro(a) aluno(a), encerramos esta unidade. Contudo, antes, gostaria de convidá-lo a realizar uma Quais são as NECESSIDADES? Descrição da Imagem: a figura é composta por um retângulo dividido por algumas formas. Logo, tem-se um retângulo com quatro pirâmides. As pontas delas se unem por uma figura que pisca e sorri. Em cada uma das pirâmides, encontram-se perguntas, como: o que ouve? O que pensa e sente? O que vê e o que faz e fala? Na base do retângulo, existem outras duas formas em formato de retângulo. Elas têm as seguintes perguntas: quais são as dores? Quais são as necessidades? 111 1. Leia o fragmento a seguir: “A ferritina existe principalmente em órgãos como fígado, baço, medula óssea e rim como fonte de reserva principal de ferro, apresentando função protetora contra o efeito tóxico de seu excesso, além de ser capaz de manter uma reserva disponível principalmente a eritro- poiese, tendo em vista que a produção de eritrócitos depende da disponibilidade damolécula de hemoglobina”. SALDANHA, V. Ferritina: intervalos de referência para adultos no Estado do Rio Grande do Norte. 2009. Dis- sertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009. Considerando os seus conhecimentos sobre a ferritina e as funções dela, assinale a alternativa correta: a) A ferritina sintetizada a nível hepático se encontra diminuída em situações de injúria. b) A ferritina circulante reflete especificamente um quadro anêmico associado ao aumento da síntese hepática. c) A ferritina é uma proteína circulante específica para diagnosticar um quadro de anemia devido à alta sensibilidade. d) A ferritina é diminuída em casos de anemia, visto que é uma proteína específica que detecta a reserva de ferro no organismo. e) A ferritina circulante reflete a reserva de ferro no organismo, não sendo específica para diagnóstico de anemia ferropriva. 2. Leia o fragmento a seguir: “O balanço nitrogenado é definido como a diferença entre a quantidade ingerida e perdida pelo organismo, com o objetivo de avaliar o catabolismo proteico. No balanço positivo de leve a moderado a ingestão de nitrogênio ultrapassa a excreção, onde parte da proteína está sendo utilizada para sintetizar novos tecidos. Na condição de balanço nitrogenado negativo, mais nitrogênio é excretado do que ingerido”. COSTA, C. E. S. Análise do consumo alimentar e do balanço nitrogenado de atletas corredores de rua em Cuité- PB. 2019. Monografia (Graduação em Nutrição) – Universidade Federal de Campina Grande, Cuité, 2019. Considerando os seus conhecimentos sobre o balanço nitrogenado, assinale a alternativa correta: a) O balanço nitrogenado reflete o estado nutricional de um paciente e a eficácia da terapia nutricional. b) O balanço nitrogenado reflete a estimativa da ingestão de proteínas e as perdas de nitrogênio, como a perda de urina e fezes. c) O balanço nitrogenado se baseia em uma porcentagem de massa proteica e na perda oca- sionada por suor, fezes e nitrogênio não proteico. 112 d) O balanço nitrogenado, por ser considerado um bom indicador do estado nutricional, monitora pacientes que recebem nutrição parenteral e sonda enteral. e) O balanço nitrogenado é considerado um marcador nutricional de prescrições dietéticas, estimativas de ingestão proteica e um adequado estado de hidratação. 3. Leia o trecho a seguir: “A proteína C reativa (PCR) é uma das proteínas de fase aguda; tais proteínas são aquelas cuja concentração sérica aumenta ou diminui pelo menos 25% durante estados inflamatórios. A indicação da dosagem dePCR pode ter efeito determinante na saúde e na evolução de diversos casos clínicos, auxiliando a evitar erros interpretativos e intervenções intempestivas”. AGUIAR, F. J. B. et al. Proteína C reativa: aplicações clínicas e propostas para utilização racional. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 59, n. 1, p. 85-92, 2013. Considerando as funções da proteína C reativa, assinale a alternativa correta: a) A proteína C reativa reflete qualquer tipo de inflamação devido à alta especificidade. b) A proteína C reativa é considerada um biomarcador inflamatório específico para medir quadros de aterosclerose e doenças crônicas. c) A proteína C reativa monitora reações de estresse a partir de situações de período anabólico da resposta inflamatória e do hipometabolismo. d) A proteína C reativa reflete qualquer tipo de inflamação, predizendo um quadro específico de hipometabolismo e catabolismo da reação inflamatória. e) A proteína C reativa é útil para predizer quando um período hipermetabólico diminui, sendo diretamente relacionada a um período anabólico da resposta inflamatória. Nesta unidade, você terá a oportunidade de se aventurar nomundo da antropometria. Para tanto, aprenderá a realizar os procedimen- tos para a obtenção das medidas dimensionais anatômicas de um paciente, incluindo comprimento, diâmetros, perímetros e dobras cutâneas, alémdo uso de equipamentos específicos e dosmétodos de campo e laboratoriais. Introdução à Avaliação Antropométrica Dra. Lorena dos Santos Castro 114 UNICESUMAR Olá, estudante! Considere uma paciente de 27 anos e do sexo feminino a qual procurou atendimento nu- tricional em busca de uma avaliação antropométrica e melhoria nos hábitos alimentares. Ela relatou que, ao iniciar a prática de atividades físicas, o professor da academia sugeriu a avaliação, com o intuito de descobrir o índice de massa corporal e aferir algumas circunferências corporais, visto que, posteriormente gostaria de comparar os resultados. Além disso, rea- lizou um exame de antropometria para descobrir a composição corporal. A paciente gostaria de desco- brir todas as classificaçõesque estariam relacionadas às aferições realizadas. Considerando a paciente em questão e os recursos disponíveis para o atendimento em seu consultório, como você realizaria a avaliação? O profissional nutricionista tem uma excelente ferramenta na avaliação nutricional dos pacientes: a avaliação antropométrica. São diversas as formas pos- síveis de descobrir o estado nutricional do paciente, a partir do uso de medidas, de índices e de indicadores antropométricos. Vamos entender como você poderia conduzir a avaliação da paciente em questão? Inicialmente, você deve analisar a solicitação dela, que é conhecer o Índice de Massa Corporal (IMC) e a classificação na qual se encontra, mesmo pro- cedimento que será realizado a partir da aferição de algumas circunferências, como a da cintura e do quadril. Antes da consulta, alerte a paciente, para que alguns procedimentos sejam realizados com o intuito de obter uma correta avaliação. Logo, caso ela esteja em período menstrual, adie o procedimento. Certifique-se de que não houve consumo de álcool e de alimentos ricos em cafeína nas últimas 24 ho- ras, que não há quadro de febre e que o estado de hidratação está adequado. Não se esqueça de que não podem ser realizadas atividades físicas quatro horas antes da avaliação. Considerando todos os itens anteriores, oriente a paciente para que, no momento da avaliação, esteja 115 UNIDADE 4 fazendo uso de roupas de banho. Em relação à sua conduta, garanta um ambiente agradável, seguro e hi- gienizado para avaliação. Conte com uma balança, um estadiômetro e uma fita métrica inelástica. Suponha que você seguiu todos os protocolos para a aferição da estatura da paciente. Ela tem 1,70 m, pesa 62 kg, tem uma circunferência de cintura (CC) de 74,6 cm e circunferência de quadril (CQ) de 103,6 cm. O próximo passo é encontrar a classificação na qual a paciente se encontra, já que o IMC dela foi de 21,4 kg/ m². Em outras palavras, a paciente está em eutrofia, de acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2008). Além disso, segundo os índices recomendados para mulheres, o CC de 76,6 e a relação cintura-quadril (RCQ) de 0,72 são considerados normais e não clas- sificam a paciente em risco para DCNT’s. Durante a avaliação de bioimpedância, foi possível verificar que a paciente apresenta %GC de 23,1%, sendo caracteri- zada como média. É de suma importância associar os métodos para uma boa avaliação. Para esta unidade, proponho que você estude o modo adequado de aferir a circunferência da cintura e do quadril. Em seguida, procure voluntários para trei- nar essas aferições, anotando-as e calculando a RCQ. Ao final de cada cálculo, analise os resultados perante os valores de referência. Com a realização da experimentação proposta, você entendeu, na prática, como são aferidos os principais perímetros inseridos na avaliação antropométrica. É fundamental que você (avaliador) esteja treinado(a) para essa função e saiba exatamente em qual ponto colocar a trena, como segurá-la e como observar o resultado. Por isso, treine as aferições sempre que pos- sível. Além disso, calcule os índices de cada técnica. Com essas práticas, você poderá sanar dúvidas como aluno(a) e aprimorará a sua técnica, a fim de ser um(a) excelente profissional. Sugiro que anote em seu diário de bordo as dificuldades encontradas durante a reali- zação dessa atividade e os maiores aprendizados. 116 UNICESUMAR Nesta unidade, estudaremos a antropometria como método objetivo de avaliação nutricional. O objetivo desta unidade é facilitar a compreensão da avaliação antropométrica de um paciente, ao en- globarmos equações, tabelas e classificações utilizadas em medidas convencionais e não convencionais. Para iniciar o nosso trabalho, conheceremos o termo “antropometria”. Ele tem origem grega e se refere às medidas das variações das dimensões físicas e corporais. Segundo Stewart (2011), a antropometria trata do conjunto de procedimentos e processos científicos para a obtenção de medidas dimensionais anatômicas de superfície, incluindo comprimentos, diâmetros, perímetros e dobras cutâneas do corpo humano por meio de equipamentos especializados. A partir do estudo dos indicadores antropométricos, você poderá estudar e acompanhar várias fases do paciente, como o processo de crescimento e desenvolvimento a partir da faixa etária, sexo e etnia. Também será possível avaliar a massa corporal total, verificar como está distribuída a gordura corporal, e entender como está a composição corporal do paciente. Fascinante! Portanto, uma adequada avaliação antropométrica permite identificar diversos problemas de saúde e risco de doenças (SAMPAIO et al., 2012). Além dos fatores citados, o estudo da antropometria permite o desenvolvimento de diversos estudos e pesquisas epidemiológicas no campo da nutrição, sendo fundamental para o aprimoramento e desenvolvimento desta área. Vamos conhecer essa área da nutrição juntos? A utilização da antropometria como ferramenta de avaliação nutricional, segundo Sampaio et al. (2012), tem uma série de vantagens e desvantagens. Como vantagens, encontram-se: 117 UNIDADE 4 • Utilização de equipamentos de baixo custo. • Uso de técnicas não invasivas. • Obtenção rápida dos resultados. • Várias metodologias usadas são de grande acurácia e fidedignidade. • É possível monitorar os efeitos das intervenções dietéticas. • Você pode analisar a influência dos fatores ambientais no estado nutricional de indivíduos e coletividades. Por outro lado, enquanto desvantagens, encontram-se: • Não é possível detectar possíveis alterações recentes na composição e na distribuição corporal a partir de algumas técnicas. • O estado de hidratação pode influenciar o resultado, como em casos em que há retenção de fluidos (edema, ascite e anasarca) ou em casos de desidratação. • O aumento anormal de órgãos (organomegalias) pode ser capaz de mascarar o peso e a perda de tecido gorduroso e/ou muscular. • Há a necessidade de profissionais treinados. • Pode haver uma capacidade limitada dos instrumentos para mensuração. Conhecendo as vantagens e as desvantagens, o que é necessário para realizar a avaliação antropomé- trica? É preciso que as medidas que você realizará sejam associadas a um referencial, a partir de parâ- metros, como sexo e idade, para que, dessa forma, os dados sejam analisados de acordo com padrões de referência e pontos de corte adequados, sem generalizações. Ao longo desta unidade, constataremos que um dos maiores problemas encontrados na avaliação nutricional se refere à escassez de padrões de referência adequados. Como avaliar se um padrão é adequado ou não? Um padrão de referência fidedigno precisa ser específico para a população a qual ele se destina, um fato que não é levado em consideração, mas que exige muita atenção. Uma das con- sequências das várias metodologias antropométricas tem sido a falta de padronização na identificação correta das medições e nas técnicas usadas, dificultando muito a comparação de aferições. Em suma, a antropometria envolve a obtenção de medidas físicas de um paciente, para que, a partir disso, elas sejam relacionadas aos padrões que refletirão no crescimento e no desenvolvimento do paciente. Aliás, as medidas físicas podem ser úteis para avaliar quadros de sub e de supernutrição e monitorar os efeitos das intervenções nutricionais. Realizar a medição de um paciente requer adequado treinamento e conhecimento de cada técnica com base na individualidade do paciente, com o objetivo de garantir medidas precisas e comparações adequadas ao longo do acompanhamento nutricional. Para a avaliação antropométrica, usamos medidas, índices e indicadores. Você sabe quais são as diferenças entre índices e indicadores? Os índices são uma combinação de uma ou mais medidas associadas ao sexo e/ou à idade. Os indicadores, por sua vez, são o resultado da avaliação do índice e de medidas por meio do uso de referências e/ou padrões de normalidade.Compreendeu a diferença? Observe o Quadro 1 e conheça os indicadores mais utilizados na área da nutrição. Eles estão divididos 118 UNICESUMAR em grupos que avaliam vários fatores, como o crescimento, o desenvolvimento, a massa corporal total, a composição corporal e a distribuição de gordura corporal (SAMPAIO et al., 2012). O que avaliam Índices 1. Crescimento e desenvolvimento Peso/idade, altura/idade, peso/altura, circunferência de braço/idade, perímetro cefálico/perímetro torácico. 2. Composição corporal 2.1 Tecido muscular Circunferência muscular do braço, área muscular do braço, área muscular do braço corrigida, circunferência de panturrilha. 2.2 Tecido adiposo Área de gordura do braço, soma das 4 dobras (dobra cutânea do tríceps, dobra cutânea do bíceps, dobra cutânea subescapular, dobra cutânea supra-ilíaca). 3. Massa corporal IMC/idade, IMC 4. Distribuição de gordura corporal Razão cintura estatura, cintura coxa, circunferência de cintura, relação cintura quadril, índice de conicidade, diâmetro abdominal sagital. Quadro 1 - Indicadores antropométricos e as funções deles / Fonte: adaptado de Sampaio et al. (2012). Os padrões antropométricos são formulados a partir de uma população específica e são utilizados universalmente. Por que isso acontece? Em grande parte, pode acontecer em decorrência de um há- bito em utilizar referências preconizadas universalmente, pela escassez de estudos ou, muitas vezes, pela falta de conhecimento adequado. Entretanto, ao se aplicar uma referência e/ou equação a uma mesma população, podem ser observadas divergências nos resultados, já que são especificas a uma dada população. Portanto, em alguns casos, não representam uma população em especifico, o que gera consideráveis erros em comparações. Por isso, sugiro sempre estar atento(a) à referência da metodologia utilizada e à população a qual ela se destina antes de aplicá-la em um paciente. Em relação à parte prática, entenderemos os componentes necessários para a prática antropomé- trica. Segundo Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012), o peso é uma medida essencial na avaliação antropométrica. Corresponde a soma de todos componentes corpóreos, podendo ser aferido em ba- lanças ou estimado a partir de equações. Ele reflete uma estimativa grosseira de estoques de músculo e gordura, não sendo considerado um método útil para muitos casos de obesidade e edema, dado que o peso sozinho dificulta a avaliação do estado nutricional geral. O significado da avaliação do peso pode sofrer variação de acordo com o contexto em que será utilizado. Analisemos esses significados de acordo com Sampaio et al. (2012): 119 UNIDADE 4 • O peso atual é aferido no momento que é realizada a avaliação. • O peso usual é mencionado pelo paciente e corresponde ao peso que normalmente é encontrado. • O peso ideal ou desejável é considerado a partir das características do indivíduo, visando a um adequado estado de saúde, ajustado às particularidades do indivíduo. • A adequação do peso remete à porcentagem do peso acima ou abaixo do ideal. • O peso ajustado corresponde à correção do peso ideal para determinar as necessidades ener- géticas e de nutrientes de um indivíduo, quando a adequação do peso for inferior a 95% ou superior a 115%. • O peso ideal de pacientes amputados é calculado a partir do peso ideal corrigido, subtraindo a porcentagem de peso relativa ao membro que foi amputado. • A mudança de peso pode ser utilizada para avaliar o percentual de perda de peso. Entendeu todas as diferenças? Você deve ficar atento(a) ao uso do peso isolado para inferir a com- posição corporal do paciente. O peso pode sofrer mudanças relevantes e ser extremamente influen- ciado pelo estado de hidratação do paciente, assim como acontece em casos de injúrias, por exemplo, visceromegalias, edema, carcinoma e ascite. Sendo assim, as mudanças poderão influenciar o peso e comprometer o diagnóstico nutricional. Não obstante, uma possível perda de peso pode refletir um quadro de desidratação, a incapacidade de atingir as necessidades nutricionais requeridas e propor- cionar a identificação de pacientes que estão em risco nutricional. Em paralelo ao peso, a avaliação do estado nutricional de um paciente requer uma adequada análise da estatura, compondo o Índice de Massa Corporal (IMC). Para aferir o indicador antro- pométrico, é necessário utilizar o estadiômetro ou estimativas feitas por intermédio de fórmulas, com o uso de métodos indiretos, tais como as medidas de altura do joelho, da envergadura dos braços ou da altura recumbente. Também é necessário o uso de uma fita inelástica ou uma régua antropométrica (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012; SAMPAIO et al., 2012). Observe um exemplo de estadiômetro na Figura 1. 120 UNICESUMAR Figura 1 - Modelo de estadiômetro Outro método que você pode utilizar para determinar o estado nutricional é conhecido como Índice de Massa Corporal (IMC), o qual analisa se o peso de um paciente é apropriado para a altura por meio do Índice de Quetelet (P/A²). Ele é considerado um indicador simples, rápido e fácil de ser aplicado. Entre- tanto, os resultados podem indicar supernutrição ou subnutrição. Vamos entender o motivo dessa análise? O cálculo do IMC permite, em sua prática profissional, a verificação das diferenças na composição corporal por meio da definição do nível de adiposidade e pela correlação à altura, fato que elimina a dependência do tamanho da estrutura corporal do paciente. Portanto, o IMC tem menor correlação com a altura corporal e maior correlação com as medidas independentes da gordura corporal em adultos. Contudo, não mede a gordura corporal diretamente, mesmo se relacionando a elas. Em suma, esse índice não avalia separadamente os compartimentos corporais. O uso dele pode ser limitado na avaliação de indivíduos atletas, os quais podem apresentar excesso de peso em consequência da massa muscular hipertrofiada (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012; SAMPAIO et al., 2012). Acredito que você já observou diversos dados que correlacionam o IMC à morbimortalidade, não é mesmo? Estudos inferem que os valores de IMC abaixo da normalidade estão relacionados ao surgimento de patologias, como a desnutrição, ao passo que valores elevados podem estar associados Descrição da Imagem: a figura apresenta uma pessoa em pé e, ao lado esquerdo, há um estadiômetro na cor verde. 121 UNIDADE 4 à obesidade e diversas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT’s). Observe, a seguir, a fórmula utilizada para o cálculo e classificação segundo Ministério da Saúde (BRASIL, 2008): IMC Peso kg Altura m: / ² Como exemplo, temos uma paciente do sexo feminino que pesa 63 kg e tem uma estatura de 1,62 m. Calculemos o IMC dela: IMC peso estatura IMC IMC kg m = = = / / , / 2 2 2 63 1 62 24 A classificação desse indicador é determinada a partir do valor bruto encontrado no cálculo de IMC, sendo a unidade de medida o kg/m². O IMC pode ser utilizado em diversas idades, porém muda de acordo com ela, isto é, há uma classificação de IMC para crianças a partir de 5 anos e adolescentes até 19 anos. Por outro lado, há outra classificação para adultos com 20 anos ou mais e menores de 60 anos, e outra para idosos a partir de 61 anos. Você pode encontrar essas classificações facilmente. Neste momento, trabalharemos a classificação do Ministério da Saúde (BRASIL, 2008) para adultos. Valores de IMC Classificação <18,5 kg/m² Adulto com baixo peso Eutrófico Sobrepeso Obesidade Quadro 2 - Classificação do Índice de Massa Corporal para adultos / Fonte: adaptado de Brasil (2008). Considerando que o IMC não é um padrão-ouro para avaliar os compartimentos corporais de todos os perfis antropométricos, como avaliaremos a diversidade de perfis que encontraremos na prática clínica? Outro método muito importante e utilizado na antropometria para a análise do estado nutri- cional de um paciente é o estudo da composição corporal. O uso dele associadoa outros fatores de avaliação é útil para fornecer uma descrição precisa da saúde do paciente. Segundo Petroski (1995), a análise da composição corporal se refere à quantificação dos componen- tes estruturais do corpo. É necessário considerar as diferenças de tamanho do esqueleto, assim como a proporção de massa magra (MM), pois elas podem influenciar as variações de peso corporal entre os indivíduos que têm a mesma altura, por exemplo. O tamanho e a forma corporal são determinados pela carga genética e formam a base na qual o paciente está disposto. A seguir, são apresentados alguns exemplos. 122 UNICESUMAR Atletas que têm hipertrofia acentuada podem ser classificados como sobrepeso devido ao excesso de massa muscular, e não de massa gorda. Por outro lado, idosos podem portar uma densidade óssea menor e uma massa magra diminuída. Desse modo, podem pesar menos que adultos jovens que têm a mesma altura. Portanto, a variação corporal é um evento comum e pode ocorrer tanto em diferen- tes grupos populacionais quanto em um mesmo grupo populacional (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Peso: 105 Kg Estatura: 1,72m IMC: 35,49 Kg/m2 Peso: 105 Kg Estatura: 1,72m IMC: 35,49 Kg/m2 Figura 2 - Representação da diferença da composição corporal Já sabemos que o corpo humano apresenta proporções variadas. Os três maiores componentes que o formam são os ossos, os músculos e a gordura. Eles são os maiores causadores da variação da massa corporal de um indivíduo. Concorda? Apesar de o corpo humano ser composto por outros elementos, para fins didáticos, foi proposto um modelo para o fracionamento do corpo, o que se dá em massa gorda (MG) e massa magra (MM) (PETROSKI, 1995). Muito se fala sobre a massa gorda, que é temida por muitos e requisitada em diversos estudos. Ela também é trabalhada por alguns com receio e desagrado. A massa gorda é composta pelo tecido adiposo e pelos lipídios essenciais para o funcionamento do organismo, presentes nas membranas, nos tecidos nervosos e nos tecidos que envolvem os órgãos. Já a massa magra abrange todos os componentes do corpo, excluindo a massa gorda. Descrição da Imagem: há dois homens. Há um do lado esquerdo, que representa uma pessoa obesa, e outro do lado direito, que simboliza uma pessoa musculosa. Ao lado de cada imagem, há uma caixa de texto com as informações: “Peso: 105 kg; Estatura: 1,72 m; IMC: 30,52 kg/m²”. 123 UNIDADE 4 Depois de conhecermos os dois elementos, podemos mensurá-los de forma direta e indi- reta. A forma direta foi muito utilizada pelos pesquisadores durante a Idade Média, deriva- da da análise química de cadáveres humanos. Entretanto, foi necessário desenvolver técnicas para determinar a composição corporal em pes- soas vivas, utilizando, dessa forma, os métodos indiretos (PETROSKI, 1995). Os métodos indi- retos podem ser realizados tanto em laboratório quanto em campo, incluindo: • Densitometria. • Contagem de potássio corporal total. • Análise de bioimpedância elétrica. • Análise radiográfica. • Tomografia computadorizada. • Excreção de creatinina. • Absorciometria de energia dupla de raios x. • Imagens de ressonância magnética. • Análise de ativação de nêutrons. • Condutibilidade elétrica total do corpo. • Pletismograma de deslocamento de ar. • Pesagem debaixo da água. 124 UNICESUMAR São várias as opções existentes. A utilização de vários métodos laboratoriais apresenta algumas limita- ções, dado que é gasto muito tempo em uma única determinação. Alguns equipamentos apresentam alto custo e precisam de técnicos especializados para utilização. Em consequência disso, a utilização dos métodos de campo para estimar a densidade corporal (D), o percentual de gordura (%G) e a massa magra (MM) foram desenvolvidos e são muito utilizados (PETROSKI, 1995). A técnica antropométrica utilizada nos métodos de campo engloba a mensuração de dobras cutâ- neas (DC), circunferências e diâmetros ósseos (DO) por vários segmentos corporais. O uso dela possui diversas vantagens, pois há uma boa relação com as medidas antropométricas e a densidade corporal. Além do mais, os equipamentos utilizados são de baixo custo, é possível coletar dados de forma fácil e rápida e não são métodos invasivos (PETROSKI, 1995). Nesta unidade, daremos um direcionamento mais especifico ao aprendizado das técnicas de campo. Todavia, não deixaremos os métodos laboratoriais de lado. Para ambas as análises, podemos considerar que avaliar a composição de um sistema tão complexo como o nosso corpo não é tarefa fácil, não é? A antropometria envolve o uso de diversas medidas, em conjunto ou isoladas, a partir de equações que estudam a composição corporal, visando estimar a densidade corporal. Entretanto, todas as equações utilizadas podem ser aplicadas em toda a população? Se aplicadas todas as equações em uma mesma população, encontraremos inúmeras divergências nos resultados, porque cada equação é específica a uma dada população. Dessa maneira, quando aplicada em amostras não representativas da população, é possível causar consideráveis erros na estimativa da densi- dade corporal e na porcentagem de gordura (PETROSKI, 1995). Você já havia refletido sobre esse tema? Aliás, a densidade corporal de um paciente pode exibir um resultado específico perante às diferentes fórmulas utilizadas. Isso gera os seguintes questionamentos: qual equação utilizar em meu paciente? Qual é a melhor técnica? O que posso fazer para amenizar esse problema durante a minha avaliação? Em 1985, Guedes procurou superar algumas dessas limitações e desenvolveu uma equação específica para homens e mulheres. Com o estudo de Guedes (1985), houve um grande avanço no trabalho vol- tado à composição corporal no Brasil. Entretanto, as equações ainda apresentaram limitações para o uso da população brasileira, visto que o público-alvo é uma população jovem. Desse modo, a amostra usada foi pequena e a equação não foi validada para outras populações. Jackson, Pollock e Ward (1980) O profissional nutricionista, ao realizar uma medição antropométrica, deve saber que as medidas são extremamente úteis na avaliação de um paciente. Entretanto, a avaliação deve ser feita com um cuidado crítico, pois as alterações na composição e nos fluidos corporais podem apresentar resultados variados. Diante disso, é necessária uma aderência rígida aos protocolos estabelecidos, com o intuito de gerar resultados precisos. 125 UNIDADE 4 também formularam equações com essas bases. Na próxima unidade, veremos com detalhes as histórias de várias fórmulas e aprenderemos a fazer uso delas em diversas situações. Segue, a seguir, um exemplo da aplicação da fórmula de Jackson, Pollock e Ward (1980) para uma paciente do sexo feminino, de 45 anos e com peso de 59,2 kg. DC x DCTríceps DCSubescapular DCBíceps DCC1 1765 0 0744, , log( rristaíliaca DC x DC ) , , log( ) , , 1 1765 0 0744 9 6 11 10 1 1765 0 07744 36 1 1765 0 0744 1 55630 1 1021 1 55630 1 17 x DC x DC x DC log , , , , , , 55 1g ml. Diversos autores preferem utilizar a média da soma dos escores de dobras cutâneas para caracterizar a adiposidade. A validade depende grandemente da precisão da técnica no momento da medida e da repetição da medida ao longo da avaliação. Logo, o uso das dobras cutâneas carrega boa correlação com o tecido adiposo subcutâneo, sendo um bom método a ser utilizado para estimar as reservas corporais (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012; SAMPAIO et al., 2012). São várias as dobras que podem ser aferidas. As mais utilizadas são: • Tricipital (DCT). • Bicipital (DCB). • Subescapular (DCSE). • Supra-Ilíaca (DCSI). • Panturrilha (DCP). • Coxa média (DCCX). • Abdominal (DCA). Como foram escolhidas essas dobras? Esses pontos anatômicos foram escolhidos devido a vários estudos que inferem a aplicabilidade deles. Não só, mas por serem de fácil localização e apresentarem menor quantidade de tecido fibroso, o que facilita o desprendimento deles. Eles também têm uma elevada relaçãocom o tecido adiposo total (SAMPAIO et al., 2012). Portanto, a avaliação por intermédio do uso das dobras pode ser realizada a partir do uso indivi- dual de cada dobra ou a soma de várias. No entanto, para estimar a gordura corporal de maneira mais fidedigna, recomenda-se a utilização de equações com mais de uma dobra subcutânea (SAMPAIO et al., 2012). A seguir, segue a fórmula da soma das dobras segundo Holway (2011): 126 UNICESUMAR ( , , ,DCTriceps DCSubescapular DCAbdômem DCCoxa DDCPanturrila )DCSupraespinhal / DCSS: 17 Como exemplo, temos uma paciente de 27 anos que pesa 62 kg, tem estatura de 1,60 m e apresenta DCT de 17, DCSE de 16, DCAB de 22, DCCX de 25 e DCP de 24. Segue o cálculo de sua %G por meio do somatório de dobras. ( )17 16 17 22 25 24 121 De acordo com a classificação proposta por Holway (2011), a paciente apresenta um somatório elevado. A avaliação da gordura corporal se apresenta como um bom método para estimar a %G. Contudo, cabe ressaltar algumas limitações, segundo Sampaio et al. (2012): • Em determinados casos de pacientes obesos, não é possível realizar uma adequada aferição das dobras cutâneas devido à dificuldade em desprender o tecido e à insuficiência na amplitude do plicômetro. • Em casos de pacientes com edema ou com quadro de hidratação apresentado, as técnicas podem ser imprecisas. Portanto, conhecer o paciente e a técnica escolhida para avaliação é fundamental. Ademais, nas uni- dades posteriores, descobriremos quais serão as classificações de %GCT pertinentes à cada grupo populacional e as fórmulas que são as indicadas. Em relação à análise da massa muscular de um paciente, você poderá estimá-la utilizando a cir- cunferência muscular do braço (CMB), a área muscular do braço (AMB) e a área muscular do braço corrigida (AMBc). Vamos conhecer o que cada uma dessas circunferências representa? A CMB considera que todos os tecidos do braço são circulares e concêntricos. Por outro lado, a AMB considera o formato irregular dos tecidos do braço e, por fim, a AMBc se difere das outras por descontar a área óssea, sendo a mais precisa (SAMPAIO et al., 2012). O uso dela é de suma importância, considerando a análise da depleção de proteínas somáticas, ao realizar o estudo da força de um indivíduo (capaci- dade de trabalho), ao acompanhar a progressão das doenças que causam catabolismo e ao verificar a eficácia da intervenção nutricional: AMB CB xDCT x AMBc CB xDCT x cm cm ( )² ( )² [ ( / )]² [ ( / )]² 10 4 10 4 110 10 4 6 5 ( ) [ ( / )]² , ( ( )² sexomasculino AMBc CB xDCT x sexofecm mmin )ino 127 UNIDADE 4 Acredito que você já teve contato com alguma informação que relacionou a distribuição da gordura corporal à alguma doença crônica não transmissível (DCNT), não é mesmo? Será que essa correlação é verdadeira? Sampaio et al. (2012) confirmam esses relatos, ao sustentarem que a concentração de gordura abdominal, independentemente do %G, está propensa a ser um fator de risco para doenças metabólicas e cardiovasculares. Qual seria o motivo dessa correlação? Existem vários motivos, mas o principal tem sido o fato de o adipócito presente na região abdominal ser o maior e ter menos receptores de insulina. Dessa forma, ele se torna mais sensível à estimulação da lipólise por meio das catecolaminas. Na Figura 3, podemos visualizar como a gordura corporal pode ser classificada. Intermediária Não há concentração de gordura de forma desigual Gordura está bem distribuída GORDURA CORPORAL Andróide, abdominal, superior ou central Ginecóide, inferior, periférica ou glúteo-femural Composta pela gordura subcutânea e visceral Relacionada com as DCNT’s Acumulada na região dos glúteos e quadris Associada ao risco de doenças vasculares e periféricas Acumulada na região abdominal Figura 3 - Classificação da distribuição da gordura corporal / Fonte: adaptada de Sampaio et al. (2012). Depois de entendermos como a gordura corporal é classificada, conheceremos os indicadores de distribuição da gordura corporal. São eles: Descrição da Imagem: trata-se de um fluxograma composto por várias caixas de texto conectadas umas às outras, no formato re- tangular, distribuídas em diversas cores. Ao centro, há uma caixa de texto maior, com menção à “gordura corporal”, apresentando cor roxa. Dela, partem três caixas de texto principais na cor verde-água, sendo elas referentes à gordura ginecoide, inferior, periférica ou glúteo-femural; intermediária; e por fim, a androide, abdominal, superior ou central. A caixa de texto referente à gordura ginecoide está conectada à outra caixa de texto na cor laranja, com o texto: “Acumulado na região dos glúteos e quadris”. Ela novamente se conecta à outra caixa de texto na cor lilás, com o texto: “Associada ao risco de doenças vasculares e periféricas”. A caixa de texto commenção à gordura intermediária se conecta a uma caixa de texto laranja, com o seguinte conteúdo: “Não há concentração de gordura de forma desigual”, que está conectada a outra caixa de texto lilás com o conteúdo: “Gordura está bem distribuída”. A caixa de texto sobre a gordura androide se conecta à outra na cor laranja, com o conteúdo: “Acumulada na região abdominal”, que se conecta à outra caixa de texto lilás, com o texto: “Composta por gordura subcutânea e visceral”. Ela, por fim, conecta-se com outra caixa de texto na cor vermelha, com o conteúdo: “Relacionada às DCNT’s”. 128 UNICESUMAR • Razão cintura-quadril (RCQ). • Razão abdome-glúteo (RAG). • Circunferência da cintura (CC). • Índice de conicidade (IC). • Razão cintura-estatura (RCEst). • Diâmetro abdominal sagital. Lima et al. (2011) explicam que a relação entre os padrões de distribuição da gordura corporal ginecoide e androide e a prevalência de doenças crônicas foi descrita pela primeira vez em um estudo de 1956. Em 1984, novos estudos surgiram e atestaram que a distribuição central da gordura corporal prediz melhor o risco cardiovascular que o excesso de peso em si. Além disso, os estudiosos utilizaram a RCQ para predizer o risco cardiovascular. Após 10 anos, outros estudos foram publicados e confirmaram o que outros estudos já demonstravam: a CC representa um risco para doença crônica. Além das medidas citadas, há as medidas da compleição, usadas na avaliação do peso ideal dos in- divíduos. Ela pode ser considerada uma estimativa acurada da estrutura física (tamanho ósseo) ou compleição. As medidas são utilizadas com base na ideia de que o peso das pessoas varia não somente de acordo com o sexo e a idade, mas também em relação ao tamanho da estrutura óssea. Medir as estruturas esqueléticas fornece dados sobre a estrutura óssea e, por meio dessa identificação, é possível distinguir um indivíduo que está na variação máxima do peso ideal devido à massa óssea grande, e não em virtude do excesso de gordura. O método ideal para estimar a compleição precisa ser simples de usar e não pode ser influenciado pela gordura corporal. A avaliação clínica para classificar a estrutura por meio da visualização não é apropriada, logo, são recomendadas as seguintes medidas: • Ombro (largura biacromial), que é a distância entre as extremidades dos processos biacromiais e o topo dos ombros. • O quadril, que é a distância entre as projeções mais laterais do maior trocanter dos fêmures. • Largura do tórax, baseada em raios x. • Razão da estatura para a circunferência do pulso. Você já ouviu alguém falar em somatótipo? Ele é um método de classi- ficação corporal criado em 1940 por Willian Sheldon. Para tanto, divide os indivíduos em três categorias: ectomorfo, mesomorfo e endomorfo. Convido você a ouvir o nosso podcast para conhecer detalhadamente cada um dos somatótipos e a aplicabilidade deles na prática clínica. 129 UNIDADE 4 • Largura do joelho e do pulso. Analisemos com detalhes a razão entre a altura e a circunferência do pulso (valor de “R”), considerado um indicador confiável do tamanho da estatura. O cálculo tem correlação com a gorduracorporal. A fórmula é apresentada a seguir, segundo Martins (2009): R Altura cm Circunferênciadopulso cm = ( ) ( ) Seguem os procedimentos necessários para a avaliação. Observe os valores de compleição no Quadro 3. • Escolher o pulso direito. • Flexionar o braço do avaliando ao cotovelo. • Posicionar a palma da mão voltada para cima, com os músculos das mãos relaxados. • Colocar a fita métrica ao redor do pulso, entre os vincos, dentre os processos estiloide do rádio e da ulna. A fita métrica não pode ter largura maior que 0,7 cm, para que possa se encaixar nas depressões entre os processos estiloides e das mãos. • Manter a fita perpendicular ao eixo longo do antebraço. A fita deve tocar a pele, mas comprimir as partes moles. • Realizar o registro, que deve estar próximo de 0,1 cm. • Dividir a altura (cm) pela circunferência do pulso (cm) e encontrar o “R”. De acordo com o valor, encontrar a compleição. Compleição corporal Pequena Média Grande Homens R<10,4 R=10,4- 9,6 R<9,6 Mulheres R>11,0 R=11,0- 10,1 R<10,1 Quadro 3 - Compleição corporal a partir da razão entre a altura e a circunferência do pulso / Fonte: adaptado de Martins (2009). Um indicador que vem sendo muito utilizado na avaliação do risco associado às DCNT’s é a CC. Ela pode ser considerada um indicador de fácil metodologia e importante para inferir uma obesidade central e risco para doenças crônicas. Por isso, demonstra ser útil ao diagnóstico de síndrome meta- bólica. Dentre as vantagens de uso, é de fácil aplicação e tem um custo acessível (LIMA et al., 2011; SAMPAIO et al., 2012). Em relação aos valores desse indicador, analisaremos algumas referências de renome. De acordo com o Centers for Disease Control (2009), uma medida maior que 102 cm para homens e maior que 88 cm para mulheres pode ser considerada fator de risco para doença. O National Institutes of Health (2002) estabeleceu que a CC maior que 88 cm para mulheres e 102 cm para homens está relacionada a quadros de síndrome metabólica. 130 UNICESUMAR Entretanto, de acordo com Lima et al. (2011), os padrões de referência mais utilizados para avalia- ção da CC classificaram a adiposidade abdominal de acordo com o risco de desenvolver as doenças relacionadas à obesidade a partir da CC, de acordo com os pontos de corte adotados por Lean, Han e Morrison (1995). Risco aumentado Risco muito aumentado Homens > 94 cm > 102 cm Mulheres > 80 cm > 88 cm Quadro 4 - Pontos de corte para circunferência de cintura em adultos / Fonte: adaptado de Lima et al. (2011). Segundo Sampaio et al. (2012), o uso da CC é vantajoso, porque é uma técnica simples e se relaciona ao IMC e à gordura intra-abdominal. Contudo, o uso demanda cautela, já que pode ser decorrente de diferentes técnicas de aferição, necessitando que o avaliador (você) realize a medida com precisão. Além disso, em pacientes muito obesos, pode haver dificuldades em reconhecer os pontos anatômicos necessários para a realização da medida, o que é ocasionado pelo acúmulo de gordura na região, não sendo possível realizar a avaliação por meio das dobras cutâneas. Caso os itens citados sejam levados em consideração, a CC é um ótimo indicador a ser utilizado em sua prática clínica. Aliás, o uso dela pode ser recomendado em associação à RCQ, porque, em virtude das limitações do indicador, não é possível detectar mudanças, uma vez que a medida da cintura varia em relação à medida do quadril, mantendo a RCQ constante, caso ocorra a redução de peso de um paciente. Além do mais, a RCQ não considera variações na estrutura óssea. Pereira, Sichieri e Marins (1999) realizaram um estudo que infere que, em relação à localização da gordura corpórea, os homens tendem a ter maior proporção de gordura abdominal, conferindo-lhes um padrão de distribuição de gordura corporal androide. As mulheres, por sua vez, tendem a ter maior quantidade de gordura na região glútea e, por isso, têm maiores perímetros nos quadris, apresentando um padrão feminino ou ginecoide de gordura corporal. É possível realizar uma avaliação por meio da RCQ, obtida pela divisão das medidas dos períme- tros da cintura e do quadril. Não existe um consenso sobre a definição do que seja uma RCQ elevada. Os pontos de corte mais utilizados para os homens são de (> 1,0 m) e (>0,80 m) para as mulheres, sugeridos como base em estudos epidemiológicos na Suécia. Nos Estados Unidos, são usados pontos de corte de (0,95 m) para homens e (0,80 m) para mulheres. Observe os pontos de corte da RCQ, de acordo com a World Health Organization (WHO, 1998), presentes no Quadro 5, e a fórmula para cálculo: RCQ circunferênciac ura circunferênciaquadril= int / 131 UNIDADE 4 Sexo Favorável Desfavorável Homem < 1,0 Mulher <0,85 Quadro 5 - Pontos de corte para RCQ em homens e mulheres adultos segundo a WHO / Fonte: adaptado de WHO (1998). Além dos indicadores que citamos, temos também o Índice de Conicidade (IC), que é determinado por meio das medidas de peso, estatura e CC. Segundo Sampaio et al. (2012), esse índice tem como base a ideia de que indivíduos que acumulam massa gorda na região central do corpo tendem a apre- sentá-la na forma de dois cones, um disposto sobre o outro, por meio da mesma base. Não obstante, os pacientes que têm menor quantidade de tecido adiposo na região abdominal são dotados de uma aparência semelhante a um cilindro. Por isso, o valor representa quantas vezes a CC é superior à que ele teria se tivesse uma concentração de tecido adiposo abdominal, ou seja, se a forma do corpo fosse semelhante a um cilindro. Em conjunto, temos a relação cintura-estatura (RCEst), outro indicador que possui associação com a obesidade abdominal e o risco de doenças cardiovasculares. Logo, a CC do paciente não deve ser superior à metade da estatura dele. Apesar de estudos inferirem o uso na prática clínica e laboratorial, ainda não há pontos de corte específicos para cada grupo etário e sexo. Portanto, são necessárias mais pesquisas sobre esse indicador, visando estabelecer pontos de corte específicos (SAMPAIO et al., 2012). Caro(a) estudante, estudamos, até o momento, alguns indicadores antropométricos e a relação deles com DCNT’s feitas a partir do uso de métodos de campo. Daremos sequência conhecendo os méto- dos para avaliar a composição corporal, como o pletismograma de deslocamento de ar, a análise da bioimpedância elétrica, a absorciometria de energia dupla de raios x, a análise da ativação de nêutrons e de potássio corporal total e a pesagem debaixo d’água. O pletismograma de deslocamento de ar é uma medida da densidade corporal para estimar a gordura corporal e as massas sem gordura. É considerada uma técnica de densitometria que é precisa para medir a composição corporal (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Já a bioimpe- dância elétrica (BIA) é uma técnica que analisa a composição corporal com base no princípio que, em relação à água, o tecido magro possui uma condutividade elétrica maior e uma impedância menor que o tecido gorduroso, devido ao teor de eletrólitos. É importante considerar que o tecido adiposo é pobre em água e não a conduz bem, diferentemente do músculo. Entretanto, não é a corrente elétrica que gera o resultado, e sim uma equação de predição, sendo considerado um ponto negativo. A BIA é uma medida confiável para analisar a composição corporal, se comparada ao IMC ou até mesmo às medidas de altura e peso. Essa técnica envolve a colocação de eletrodos ser nas mãos, no punho, no tornozelo ou no pé direito de um paciente. Atualmente, diversos aparelhos de BIA são encontrados no mercado, facilitando o uso dela na prática clínica. Alguns requisitos são necessários para o resultado ter precisão: o paciente não deve ter se exer- 132 UNICESUMAR citado nas últimas quatro ou seis horas antes da avaliação e não deve ter consumido álcool e cafeína nas últimas 24 horas. Caso o paciente esteja muito desidratado, será medida uma porcentagem menor de gordura corporal do quea que realmente existe. O paciente não deve estar em período menstrual e em quadro de febre. O desiquilíbrio de eletrólitos e a obesidade extrema podem afetar a confiabili- dade das medidas (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). A absorciometria de energia dupla de raio x, também considerada como DEXA, é capaz de avaliar a densidade mineral óssea do paciente, ao medir a gordura e a massa magra sem osso. A avaliação é composta por um tubo de raio x que contém um feixe da energia. Logo, a quantidade de perda de energia depende do tipo de tecido pelo qual o feixe passa. Por conseguinte, é possível me- dir compartimentos de minerais, gordura e tecido magro. Essa técnica emite baixos níveis de radiação, não causando danos iminentes ao paciente (MAH- AN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Também há a pesagem debaixo d’água, uma medida direta para determinar a densidade do cor- po como um todo. A avaliação parte do princípio de Arquimedes, o qual sustenta que o volume de um objeto submerso em água equivale ao volu- me de água que o objeto desloca. Tendo em vista que o volume e a massa são conhecidos, é possível calcular a densidade deles. Entretanto, não é um método prático, já que envolve bom treinamento do avaliador e cooperação do paciente (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Por fim, a ultrassom e a ressonância mag- nética podem ser utilizadas para medir o tama- nho dos órgãos viscerais, esqueleto e distribuição de gordura intra-abdominal, não sendo conside- rados métodos invasivos. Ambos não envolvem radiação ionizante, mas têm alto custo (MAHAN, ESCOTT-STUMP E RAYMOND, 2012). 133 UNIDADE 4 Agora, entenderemos como realizar as avalia- ções. Como padrão de medidas, será utilizada a edição de 2011 dos Padrões Internacionais para Avaliação Antropométrica da ISAK, que é um grupo de profissionais que estudam a Cineantro- pometria, uma disciplina acadêmica que envolve o uso de medidas antropométricas relacionadas a outros parâmetros científicos e/ou áreas temáti- cas, como o movimento humano, a fisiologia ou as ciências aplicadas à saúde. Logo, desenvolvem uma abordagem de “melhores práticas” para a medição antropométrica e mantêm um padrão reconhecido mundialmente (STEWART et al., 2011). Inicialmente, é importante saber como pode ser realizada a medição do paciente, reconhecen- do que existem diferentes hábitos e procedimen- tos que podem ser aplicados em diferentes par- tes do mundo e em diferentes momentos. Diante disso, não devem ser realizadas medições sem o consentimento informado do paciente. Como seria esse consentimento? Você pode fazer um consentimento informa- do verbal e escrito, utilizando uma linguagem simples, obtido tanto pelo sujeito, quanto pelo familiar ou responsável legal, em casos em que o paciente é menor de idade ou é incapaz de to- mar ou comunicar uma decisão. É recomendado utilizar um documento com as informações que explicam os procedimentos da avaliação antropo- métrica, incluindo o que o paciente deverá vestir, quais medições serão realizadas, quem realizará e o tempo de duração que terão as medições. Assim, o termo de consentimento poderá conter: • Explicação clara que o paciente é livre para desistir dos procedimentos de medição em qualquer momento. • Esclarecer que os dados coletados nas me- dições não revelarão identidade sem con- sentimento. 134 UNICESUMAR • Fornecer detalhes da pessoa e da instituição responsável pela análise antropométrica. • Espaço para o nome e a assinatura do paciente e da pessoa que realiza as medições. • É necessário guardar uma cópia desse termo e a outra deverá ser entregue ao paciente. Em relação à medição, todos os procedimentos de medição utilizados para uma determinada pesqui- sa deverão ser aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição responsável. Seguem algumas recomendações mais utilizadas para a técnica: • O equipamento e as mãos do avaliador devem estar limpos antes da medição do paciente. • A medição deve ser realizada em uma sala pri- vada ou em um espaço reservado. • A sala utilizada deve fornecer tanto privacida- de quanto um clima agradável para o paciente. • É importante deixar claro que todos os pacien- tes podem levar um amigo ou familiar para acompanhar a medição, principalmente ao medir crianças. • Você, como avaliador(a), deve considerar que todos pacientes têm alguma área do corpo tida como “espaço pessoal”. Logo, se invadida a área, pode ser gerado desconforto. Qual seria essa área? Ela pode ser a parte frontal de uma pes- soa, embora alguns pacientes possam sentir desconforto quando o avaliador está atrás ou fora do campo de visão. • É recomendado realizar a medição ao lado do paciente, embora algumas medições devam ser realizadas diretamente na frente ou atrás dele. É importante ter noção de espaço pessoal e sensi- bilidades culturais durante a técnica de medição. • Por vezes, os pacientes podem se sentir descon- fortáveis durante as medições, sobretudo se o avaliador for do sexo aposto. Dessa forma, ofere- 135 UNIDADE 4 ça a oportunidade, caso seja necessário, de serem medidos por um avaliador do mesmo sexo. • Esteja sempre atento(a) às crenças e às tradi- ções culturais do paciente. Isso poderá influen- ciar a vestimenta no momento da aferição. • Os protocolos de medição inferem que as me- dições sejam realizadas de forma rápida e efi- ciente. Logo, os pacientes devem ser orientados a se apresentar com roupas mínimas. • Pacientes devem estar fazendo uso de trajes de “banho”, sendo recomendadas duas peças para mulheres e shorts de banho para homens, a fim de facilitar o acesso às áreas de medição. • Não são recomendadas roupas íntimas durante as medições. • A roupa deverá ter espessura mínima e seguir os contornos naturais do corpo. Também pre- cisam permitir fácil acesso às áreas em que se- rão medidas as dobras cutâneas, por exemplo. • Algumas situações podem causar descon- forto ao bem-estar físico ou emocional do paciente, assim como é em casos em que as medições são muito grandes, quando há pele extremamente firme ou em casos de adipo- sidade extrema. Nesses casos, não realize as medições ou solicite a realização de outra técnica pertinente ao caso. • É recomendado que o avaliador se movimente com facilidade em torno do paciente, manu- seando os equipamentos sem impedimentos. É necessário um espaço adequado para os pro- cedimentos de medição. • Garanta que a sala de medição esteja livre de objetivos que possam comprometer a seguran- ça e oferecer riscos, como tropeço ou quedas. • Realize as medições e as anotações dos resulta- dos com atenção. Sempre existe a possibilidade de ocorrerem erros no registro dos dados. 136 UNICESUMAR • Sempre que possível, realize as medições uma, duas ou até três vezes. Quando feitas duas me- dições, a média é usada. Quando são feitas três medições, usa-se a mediana. Vamos conhecer os equipamentos que podem ser utilizados durante as avaliações antropométricas, visto que, dependendo da especificidade das medidas, equipamentos específicos são necessários. Inicia- remos pelo estadiômetro, que é utilizado para medir a estatura e a estatura na posição sentada. Você já deve ter visto estadiômetros fixados em paredes, em que o sujeito fica alinhado verticalmente, correto? O estadiômetro deve ter uma faixa de medição de, no mínimo, 60 cm a 220 cm, com precisão exigida de 0,1 cm. Dentre as recomendações de uso, usa-se uma barra móvel com, pelo menos, 6 cm de largura, sendo deslizada até o vértice do crânio. Recomenda-se que essa barra móvel inclua um dispositivo de travamento para melhor visualização. Além disso, o piso deve ser nivelado e sem rodapé, evitando erros nas aferições. Os estadiômetros variam de simples e relativamente baratos até complexos e muito caros. Em casos em que não há um estâdiometro disponível, uma trena métrica fixada em uma parede, com a possibilidade de controlar a verticalidade e a altura, poderá ser utilizada. Observea Figura 4, que exibe um exemplo da aferição da estatura seguindo as orientações expressas. Parte superior da cabeça Ombros Nádegas Panturrilhas Calcanhares Figura 4 - Técnica de aferição da altura segundo Plano de Frankfurt / Fonte: Brasil (2011, p. 37). Descrição da Imagem: trata-se de uma ilustração, em preto em braço, com algumas setas em vermelho, as quais indicam os pontos em que o corpo deve encostar na parede. Há umaparede e uma figura de um homemem pé, encostado naparede. Ela olha para frente e tem os braços estendidos ao longo do corpo. Na região da cabeça, uma seta indica, mediante a uma caixa de texto, a parte posterior da cabeça. Isso se repete nos ombros, nas nádegas, nas panturrilhas e nos calcanhares. 137 UNIDADE 4 As balanças, que podem ser mecânicas ou eletrônicas, precisam sempre estar calibradas. Também devem ser certificadas por um departamento governamental de pesos e medidas, totalizando, no mí- nimo, 150 kg. A trena antropométrica, usada para a aferição das circunferências e das medidas de perímetros, é necessária para localizar com precisão os locais em que existem sobras cutâneas e marcar distâncias a partir de pontos ósseos. Ela não deve ser extensível e precisa ter, no máximo, 7 mm de largura e uma extremidade sem graduação (área em branco) de, pelo menos, 4 cm antes da linha zero. É recomendado o uso de uma trena métrica de aço flexível de, pelo menos, 1,5 m de comprimento e estar contida em um invólucro com retração automática. Grandes aliados para a aferição das dobras cutâneas, os plicômetros são uma peça fundamental na antropometria. O uso deles requer acurácia e precisão. Eles exigem uma pressão de fechamento adequada e precisam ser calibrados regularmente. No mercado, existem modelos metálicos e de plás- tico, visto que todos carecem de um mecanismo, a fim de manter a mesma pressão em toda faixa de movimentos. Além disso, são uma boa opção para obter medidas comparativas ao longo do tempo. O antropômetro é outro instrumento utilizado para medir altura e comprimento, direta ou indi- retamente, assim como é útil para medir comprimentos de segmentos corporais diretamente, grandes diâmetros ósseos e não ósseos, e estatura em pé e sentado. O uso dele permite estimativas de com- primentos de segmentos. Entretanto, são recomendadas as medidas diretas dos comprimentos dos segmentos usando um antropômetro como um paquímetro grande. O paquímetro pode ser o segmento superior do antropômetro ou um item especialmente produzido. Ele é composto por duas hastes retas que permitem medições de diâmetros ósseos grandes. As hastes são fixadas a uma escala rígida devido ao fato de que uma pressão considerável é exercida quando as dimensões ósseas são medidas. Antes de realizar uma medição, verifique a distância entre as hastes, visando assegurar que o paquímetro foi montado corretamente. Também existe o paquímetro de pequenos diâmetros. As hastes mais longas permitem englobar maiores distâncias (STEWART et al., 2011). Conheceremos os pontos de referência usados com marcações para realizar as medidas antropo- métricas. O que seriam esses pontos? Os pontos de referência são identificáveis no esqueleto e estão próximos da superfície corporal. Eles se tornam os “marcadores” que identificam a localização exata de um local de medição ou a partir de um local de tecido especifico, como a dobra cutânea subescapular e o perímetro do braço (STEWART et al., 2011). Esses pontos de referência devem ser encontrados por meio de um exame de palpação ou medição. Diante disso, você deve realizar uma palpação em pontos corporais de referência, ação que requer uma habilidade considerável, o que demanda treino e esforço para o aprendizado. É necessário cuidado para manter um ângulo de 90° C entre o seu dedo e a superfície da pele do paciente, a fim de detectar apenas as superfícies ósseas, sem que a pele seja afastada da posição normal. Recomenda-se, para a precisão e o conforto do paciente, que as suas unhas estejam sempre aparadas (STEWART et al., 2011). Os pontos ósseos são identificados com o dedo polegar ou o indicador. Ao encontrar o ponto, su- gere-se marcar com uma caneta de ponta fina ou um lápis dermográfico. Como realizar a marcação? O local deve ser marcado diretamente sobre o ponto antropométrico encontrado com um ponto ou uma linha curta (0,5 cm). Caso você utilize uma trena para fazer as marcas, elas devem ser feitas na margem superior da trena, enquanto você a segura em um ângulo reto em relação ao eixo do membro. 138 UNICESUMAR É recomendado que os pontos de dobras cutâneas sejam marcados com uma cruz, sendo o eixo longitudinal o res- ponsável por definir a direção da dobra cutânea, enquanto o eixo curto define o alinhamento entre o seu dedo indica- dor e o polegar (STEWART et al., 2011). Vamos aprender a identificar os pontos mais utilizados nas medições? Temos o ponto acrômial, situado na margem superior da parte mais lateral do acrômio. Para aferição, o paciente precisa estar em uma posição relaxada, com os braços pendentes ao longo do tronco. Você deve se posicionar atrás e do lado direito do paciente, e apalpar ao longo da espinha da escápula até a convexidade do acrômio. Esse ponto está no início da margem lateral que, normalmente, estende-se anteriormente, ligeiramente superior e medial. Recomenda-se aplicar a ponta do lápis para confirmar a localização da parte mais lateral e superior. Você verificará que o acrômio, nessa parte, tem uma espessura óssea bas- tante proeminente. Diante disso, apalpe a parte superior do acrômio, de forma que se localize o ponto mais lateral (STEWART et al., 2011). O ponto radial, por sua vez, é o ponto situado na mar- gem proximal e lateral da cabeça do rádio. Para localização, o paciente precisa estar em posição relaxada, com os braços pendentes ao longo do tronco e com as mãos em semi-pro- nação. É necessário que você apalpe, de cima para baixo, a região lateral do cotovelo direito, sentindo o espaço entre o capítulo do úmero e a cabeça do rádio. Em seguida, mova o polegar no sentido distal na parte mais lateral e proximal da cabeça do rádio, marcando uma linha perpendicular ao eixo longitudinal do antebraço. Para garantir a localização correta, peça para que o paciente realize uma leve rotação do antebraço, com o intuito de provocar a rotação da cabeça do rádio (STEWART et al., 2011). Na adição, há o ponto acrômio-radial médio, que corresponde ao ponto médio da linha reta que une os pontos acromial e radial. Para medição, o paciente precisa ficar em posição relaxada com os braços pendentes ao longo do tronco, com o cotovelo estendido ao longo do tronco. Para medir o segmento utilizando uma trena, você deve segurá-la de forma a medir a distância perpendicular 139 UNIDADE 4 140 UNICESUMAR entre os dois pontos, ao contrário de seguir a curvatura da pele. Sugiro que faça uma pequena marca no nível do ponto médio entre esses dois pontos, projetando a marca como uma linha horizontal ao redor das faces braquiais posterior e anterior, tendo em vista que será útil para localizar as dobras cutâneas do tríceps e do bíceps (STEWART et al., 2011). O ponto da dobra do tríceps corresponde ao ponto na face posterior do braço, na linha média e no nível do ponto acrômio-radial médio já marcado. Para realização, o paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco e o antebraço em semipronação, ou seja, com os polegares apontados à frente. Dessa maneira, esse ponto é localizado a partir da projeção do local acrômio-radial médio perpendicular ao eixo longitudinal do braço ao redor da face posterior do braço e cruzando a linha projetada com a linha vertical da face posterior do braço (STEWART et al., 2011). Próximo ao local da dobra do tríceps, há o local da dobra do bíceps, que corresponde ao ponto na face anterior do braço, no nível do ponto de referência acrômio-radial médio, no meio do ventre muscular dobíceps braquial. Para adequada marcação, o paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco e o antebraço em semipronação, ou seja, com os polegares apontando à frente. Esse ponto pode ser localizado projetando o local acrômio-radial médio perpendicularmente ao eixo longitudinal do braço em torno da face anterior do braço e cruzando a linha projetada com uma linha vertical no meio do ventre do músculo bíceps braquial (STEWART et al., 2011). Ademais, temos o ponto situado imediatamente abaixo do ângulo inferior da escápula, denominado ponto subescapular. Para realização, o paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. Você precisa palpar o ângulo inferior da escápula com o polegar esquer- do. Se houver dificuldade para localizar o ângulo inferior, faça o sujeito lentamente alcançar a região lombar com o braço direito. O ângulo inferior da escápula deverá, então, ser sentido continuamente, enquanto a mão é novamente posicionada ao lado do corpo, visto que a marcação deve ser feita com os braços do paciente relaxados na posição inicial. O local da dobra subescapular deve ser marcado 2 cm abaixo do ponto subescapular, ao longo de uma linha que se estende lateral e obliquamente em um ângulo de 45°, com o sujeito em posição relaxada, em pé e com os braços pendentes ao longo do tronco. Para marcação, desenhe uma linha a partir do ponto subescapular lateralmente e para baixo, formando um ângulo de 45°. Ao longo de 2 cm do ponto subescapular, desenhe uma segunda linha perpendicular à primeira, visando indicar o alinhamento dos dedos indicador e polegar ao segurar a dobra (STEWART et al., 2011). O ponto Ilíocristal corresponde ao ponto mais superior da crista ilíaca, em que uma linha é tra- çada a partir da linha axilar média (médio da axila), no eixo longitudinal do corpo, onde se encontra o ílio. Para medição, o sujeito precisa estar em posição relaxada, com o braço direito cruzado (cotovelo flexionado) sobre o tórax. Use a sua mão esquerda para estabilizar o corpo, oferecendo resistência no lado esquerdo da pelve, localizando a crista ilíaca com a palma e os dedos da mão direita. Assim que essa região for localizada, encontre o ponto mais superior da crista por meio da palpação horizontal com as pontas dos dedos. Identificado, desenhe um ponto ou uma linha horizontal curta ao nível da crista que coincide com a linha axilar média. O local da dobra da crista ilíaca corresponde ao centro da dobra cutânea que se forma imedia- tamente acima da marcação do ponto ilíocristal. É necessário que o paciente continue com o braço 141 UNIDADE 4 direito cruzado (cotovelo flexionado) sobre o peito. A dobra se forma imediatamente acima do ponto ilíocristal. É preciso posicionar a ponta do polegar esquerdo no local de marcação e destacar a dobra acima da marca, entre o polegar e o indicador esquerdos. A dobra se orienta ligeiramente para baixo e para frente, seguindo a orientação da dobra natural da pele (STEWART et al., 2011). O ponto ilíoespinal se situa no local mais inferior da espinha ilíaca anterossuperior. É necessário realizar a marcação com o paciente em posição relaxada, com o braço direito cruzado (cotovelo fle- xionado) sobre o peito. Você deve apalpar o aspecto superior do ílio, seguindo o contorno da crista ilíaca até a espinha ilíaca anterossuperior. O ponto ilíoespinal deve ser marcado com uma ponta na borda mais inferior dessa espinha ilíaca, a partir de uma rotação externa da articulação do quadril, a fim de facilitar o processo da localização do ponto. Em conexão, o local da dobra supraespinal se dá em um ponto resultante da intersecção de duas linhas: 1. A linha desde o local de marcação do ilíoespinal até a margem axilar anterior. 2. A linha horizontal no nível do local de marcação do ilíocristal. Recomenda-se que o paciente esteja em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. O braço direito pode estar em abdução após a identificação da margem axilar anterior. Você deve estender uma trena desde a margem axilar anterior até o local de marcação do ilíoespinal. Trace uma linha curta ao longo da trena, aproximadamente, ao nível do ilíocristal. Posteriormente, estenda a trena horizontalmente em torno do local de marcação do ilíocristal para que cruze com a primeira linha. Loca- lizado o ponto de intersecção, desenhe outra cruz na intersecção, a fim de identificar a orientação correta da dobra cutânea, ou seja, alinhada com o sentido da dobra natural da pele (STEWART et al., 2011). Também podemos realizar a dobra abdominal. O ponto está localizado 5 cm horizontal à direita do ponto médio do umbigo. Para realização, recomenda-se que o paciente fique em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco, visto que a identificação do local se dá por meio de uma medida horizontal de 5 cm à direita do paciente, a partir do ponto médio do umbigo. A dobra cutânea obtida nesse local é uma dobra vertical. O uso da distância de 5 cm pressupõe a altura de um adulto. Entretanto, quando a estatura for muito diferente, como em crianças pequenas, a distância deve ser corrigida em função da altura. Portanto, se a estatura for 120 cm, a distância será 5 x 120/170= 3,5 cm (STEWART et al., 2011). A dobra da panturrilha está localizada na face mais medial da panturrilha no nível do perímetro máximo, sendo determinado por tentativa e erro. Ela é identificada a partir do uso dos dedos médios para manipular a posição da trena em uma série de medições para cima e para baixo. Recomenda-se que o paciente esteja em posição relaxada, em pé, sobre um banco, com os braços pendentes ao longo do tronco. Logo, os pés do paciente devem ficar separados e o peso deve ser igualmente distribuído. Durante a medição, quando você localizar o nível máximo, é necessário realizar uma marcação por meio de uma linha horizontal curta sobre a parte medial da panturrilha. A partir de então, uma linha vertical é marcada na parte medial da panturrilha para indicar o local da dobra cutânea (STEWART et al., 2011). O ponto de marcação da patela se situa no ponto médio da margem superior posterior da patela. Recomenda-se que o paciente se sente na borda do banco com o joelho direito estendido e os calca- 142 UNICESUMAR nhares no chão. Você apalpará a patela desde as porções lateral e medial até chegar à margem superior. A face posterior é apalpada por meio do tendão patelar. Para a localização do ponto, você colocará a unha do polegar na margem superior posterior e realizará a marcação do ponto quando o pa- ciente flexionar o joelho até 90°. Em seguida, poderá ser encontrado o local da dobra da coxa anterior, situado no ponto médio de uma linha entre os pontos patelar e inguinal. O paciente deve estar em posição sentada sobre a borda do banco com o tronco ereto e os braços pendentes lateralmente. O joelho direito deve estar em um ângulo reto. Você precisa estar posicionado lateralmente à coxa direita do paciente. Posicione uma extremidade do equipamento de medição sobre o ponto patelar e a outro sobre o ponto inguinal. Meça a distância entre eles e faça uma pequena marca horizontal no nível do ponto médio. Em seguida, marque uma linha perpendicular que cruze a linha horizontal. Essa linha é localizada na linha média da coxa. Com o uso da trena métrica, evite que ela siga a curvatura da superfície da pele (STEWART et al., 2011). De modo geral, avaliar as medidas antropométricas com precisão pode ser difícil, sendo necessário extremo cuidado. Sempre que houver atenção insu- ficiente em uma técnica precisa de medição, a reprodutibilidade apropriada não será obtida. Como vimos, nas descrições dos procedimentos de medi- ções, é essencial ter um alto grau de habilidade técnica para obter resultados consistentes. Ao longo de sua prática profissional, você desenvolverá uma técnica apropriada, reduzindo o nível de erro em medidas repetidas.Além disso, sugere-se usar o lado direito do corpo do paciente para as medições ou o lado dominante. No entanto, quando for impraticável usar o lado direito, o lado esquerdo pode ser utilizado. Um ponto importante: as medições não devem ser realizadas após treino ou competições, sauna, natação ou banho, uma vez que os exercícios, a água quente e o calor podem causar desidratação e/ou hiperemia, o que afeta a massa corporal, as dobras cutâneas e as medidas de perímetros (STEWART et al., 2011). Explicaremos como se dão algumas medidas básicas, como a identifica- ção da massa corporal (peso). Ela é uma medida registrada, estimada ou calculada. Inicialmente, pesa-se previamente o paciente com o uso de roupas mínimas, a fim de garantir a melhor precisão. O paciente deve estar de pé, no centro da balança, sem apoio e com o peso igualmente distribuído em ambos os pés. Os valores mais estáveis são aqueles obtidos rotineiramente pela manhã, em jejum de 12 horas, e após a evacuação. Entretanto, como nem sempre é possível padronizar o tempo de medição, é importante registrar o horário do dia em que as medições são realizadas (STEWART et al., 2011). Na Figura 5, você pode conferir o uso de uma balança digital de modo correto. 143 UNIDADE 4 Figura 5 - Medida de peso em balança digital de plataforma / Fonte: Sanches, Bresan e Del Ré (2020, p. 19). Descrição da Imagem: trata-se de uma ilustração, em preto em braço, com algumas setas em vermelho, as quais indicam os pontos em que o corpo deve encostar na parede. Há uma parede e uma figura de um homemempé, encostado na parede. Ela olha para frente e tem os braços estendidos ao longo do corpo. Na região da cabeça, uma seta indica, mediante a uma caixa de texto, a parte posterior da cabeça. Isso se repete nos ombros, nas nádegas, nas panturrilhas e nos calcanhares. 144 UNICESUMAR A estatura, por sua vez, é aferida a partir do uso de um antropômetro. A avaliação com extensão exige que o paciente fique em pé, com os calcanhares unidos. Os calcanhares, os glúteos e a parte su- perior das costas devem estar em contato com a escala. A cabeça precisa estar posicionada no plano de Frankfort. Existem quatro técnicas gerais para medir a estatura: posição em pé, estatura contra a parede, estatura com extensão e comprimento medido na posição deitada. O método de comprimento medido na posição deitada pode ser aplicado em crianças ou em adultos incapazes de se manter em pé. É importante lembrar que há variações de estatura ao longo do dia. Geralmente, os pacientes são mais altos de manhã e mais baixos à noite. Logo, é comum uma perda de cerca de 1% da estatura total ao longo do dia (STEWART et al., 2011). Antes de entendermos como são realizadas as medições das dobras cutâneas, precisamos tecer alguns apontamentos sobre a técnica em si, visto que, dentre todas as medidas antropométricas, as dobras cutâneas são aquelas que oferecem a menor exatidão e precisão. Portanto, é necessário cuidado ao realizar as medições. Envolta nesse cuidado temos a identificação, utilizando, como base, os pontos de referência, já que a localização incorreta dos locais das dobras foi apontada como uma das maiores fontes de erro analítico. Além disso, a dobra cutânea deve ser destacada no local da marcação. As pontas do polegar e do indicador devem estar alinhadas com a linha mais curta do ponto de referência, perpendicularmente à orientação da dobra. O dorso da mão deve estar voltado a você e a dobra deve ser segurada e destacada (elevada) de forma que uma dupla camada de pele e de tecido adiposo subcutâneo seja mantida entre o polegar e o indicador esquerdos. Lembre-se de que o tamanho da dobra que se forma deve ser o mínimo necessário para assegurar que as duas superfícies de pele da dobra fiquem paralelas. Cuidado para não adicionar tecido muscular ao segurar a dobra (STEWART et al., 2011). Ademais, as extremidades das áreas de contato do plicômetro devem ser colocadas a 1 cm de distância do polegar e do indicador. Se ele for colocado em uma posição muito profunda ou muito superficial, podem ser obtidos valores errados. É necessário ter prática para garantir que se destaque sempre a mesma espessura de dobra, na mesma localização, em medidas repetidas. Você deve segurar a dobra durante todo o tempo em que o plicômetro estiver em contato com a pele, soltando apenas após a leitura da medida. Libere totalmente o gatilho do plicômetro durante a leitura da medida, permitindo que a pressão máxima do plicômetro seja aplicada sobre a dobra cutânea (STEWART et al., 2011). Conheceremos as principais dobras utilizadas na prática clínica para avaliação nutricional. Temos a dobra cutânea do tríceps, que é uma medida obtida paralelamente ao eixo longitudinal do braço no local da dobra do tríceps. O paciente precisa estar em posição relaxada, em pé, com o braço direito pendente ao longo do tronco e a mão em posição de semipronação. Você realizará apalpação do local onde a linha média da face posterior do braço encontra a linha do acrômio- radial médio projetada perpendicularmente ao eixo longitudinal do braço (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea subescapular é uma medida da dobra obtida obliquamente de cima pra baixo no local da dobra subescapular, necessitando que o paciente fique em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. A linha da dobra é determinada pelas linhas das dobras naturais na pele (STEWART et al., 2011). 145 UNIDADE 4 A dobra cutânea do bíceps é uma medida obtida paralelamente ao eixo longitudinal do braço, no local da dobra do bíceps. O paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com o braço direito pendente ao longo do tronco e com a mão em posição de semipronação. Você precisa realizar a pal- pação desse local em uma linha vertical na metade do ventre do músculo, quando se vê pela frente, encontrada a linha do acrômio-rádio medial projetada (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea da crista ilíaca é a medida da dobra obtida quase horizontalmente no local da dobra da crista ilíaca. Ela é realizada com o paciente em posição relaxada, em pé, com o braço direito em abdução ou cruzado sobre o tronco. A linha da dobra, geralmente, estende-se ligeiramente de cima para baixo, em orientação posterior-anterior, seguindo a orientação das linhas das dobras naturais da pele (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea supraespinal corresponde à medida da dobra obtida oblíqua e medialmente, de cima para baixo, no local da dobra supraespinal. O paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco, sendo que a dobra se estende medialmente, de cima para baixo e anteriormente a um ângulo de cerca de 45°, definido pela dobra natural da pele (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea abdominal é uma medida obtida verticalmente, no local da dobra abdominal. Para realização, o paciente deve ficar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. É importante que você verifique se a dobra segurada inicialmente é firme e ampla, pois, frequentemente, a musculatura subjacente não é bem desenvolvida, podendo resultar em uma medida subestimada da espessura da camada subcutânea de tecido (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea da coxa anterior é medida a partir da dobra obtida paralelamente ao eixo longitudinal do local da dobra da coxa anterior. O paciente deve ficar sentado na borda de um banco, com o tronco ereto. Os braços precisam apoiar os insquiostibiais, o joelho precisa ficar estendido e o calcanhar no chão. Devido às dificuldades com essa dobra, dois métodos são recomendados: 1. Com o joelho estendido, o paciente apoia os isquiostibiais, elevando a região femoral posterior. 2. Você fica em pé, de frente e do lado direito do paciente, lateralmente em relação à coxa. A dobra é elevada no local marcado e a medição é realizada (STEWART et al., 2011). A dobra cutânea da panturrilha é obtida verticalmente no local da dobra da panturrilha.Lembre-se de que o ponto é localizado e marcado com o peso corporal igualmente distribuído nas duas pernas e a medida da dobra é realizada com o joelho flexionado em 90° para reduzir a tensão muscular, fa- cilitando a medição da dobra. Portanto, o paciente fica em posição relaxada, em pé, com o pé direito posicionado sobre um banco. O joelho direito é flexionado em um ângulo de cerca de 90° e a dobra aferida é paralela ao eixo longitudinal da perna (STEWART et al., 2011). Associada à avaliação antropométrica, a medição de perímetros é fundamental. A técnica de cruzamento das pontas da trena é usada para medir todos os perímetros e a leitura é realizada a partir da trena. Para uma visualização facilitada, o zero é colocado sobre o sujeito mais lateral do que medial- mente. A trena deve ser mantida em ângulos retos em relação ao membro ou ao segmento corporal 146 UNICESUMAR a ser medido. A tensão da trena deve ser constante. Para tanto, a trena não deve comprimir a pele, sendo recomendado o uso de trenas que te permitam con- trolar a tensão, com o objetivo de minimizar o espaço entre a trena e a pele, diminuindo as depressões da pele sempre que possível (STEWART et al., 2011). Para posicionar a trena, segure o invólucro com a mão direita e a extremidade da trena com a mão esquerda, de frente para a parte do corpo a ser medida. Passe a ponta da trena por trás do membro ou do tronco e leve-a até a mão direita, que deve segurar o invólucro e a ponta da trena ao mesmo tempo, com suficiente tensão para mantê-la em posição. A mão esquerda é, então, liberada para manipular a trena até o nível correto. Quando atingido, a mão Por vezes, há menção ao uso do plano de Frankfurt durante as medições antropomé- tricas. Ele está inserido, com o intuito de promover uma correta avaliação da posição natural da cabeça, fato que influenciará di- retamente no diagnóstico e na avaliação da morfologia facial. Sugiro a leitura do artigo a seguir, com o objetivo de entender a apli- cabilidade e a importância clínica em vários segmentos da área da saúde. 147 UNIDADE 4 esquerda agarra por baixo o invólucro da trena. Dessa forma, a trena é corretamente posicionada em torno da parte a ser medida, com os dedos médios livres para finalizar a inserção da trena na posição exata, com atenção para leitura da trena. Os seus olhos de- vem estar no mesmo nível da trena e diretamente em frente ao zero, para evitar qualquer erro de paralaxe (STEWART et al., 2011). Também há o perímetro da cabeça, correspon- dendo à circunferência da cabeça imediatamente acima do ponto médio entre as sobrancelhas e perpendicular ao eixo longitudinal da cabeça. O paciente deve estar em posição relaxada, sentado ou em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco e a cabeça no plano de Frankfurt. Você precisa puxar a trena firmemente para comprimir o cabelo, usando os dedos médios nos lados da cabeça, com o intuito de evitar que a trena deslize à frente. Não inclua as orelhas e assegure que não haja grampos, presilhas ou itens semelhantes sob a trena durante a medição (STEWART et al., 2011). O perímetro do braço relaxado corresponde à circunferência do braço no nível do local do acrômio- -radial médio, perpendicular ao eixo longitudinal do braço. É recomendado que o paciente esteja em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. O braço direito deve estar em leve abdução para permitir a colocação da trena em torno do braço. Logo, assim que a posição da trena cruzada é atingida, a tre- na deve ser alinhada para que o ponto acrômio-radial médio fique situado de maneira central entre as duas partes da trena (STEWART et al., 2011). Em somatória, há o perímetro do braço flexionado e tensionado, correspondendo à circunferência do bra- ço perpendicular ao eixo longitudinal do braço no nível do maior volume do bíceps braquial contraído, quando o braço está elevado anteriormente e na horizontal. O pa- ciente deve estar em pé, com o braço esquerdo pendente ao longo do tronco, e o direito elevado anteriormente para a horizontal, com o antebraço em supinação e o cotovelo flexionado em 90° em relação ao braço. 148 UNICESUMAR Você deve segurar o invólucro da trena com a mão direita e passar a ponta da trena por cima do braço até embaixo. A mão esquerda alcança a trena distalmente para retomar o controle da extremidade da trena e a move na posição da trena cruzada. Assim, o paciente é solicitado a contrair parcialmente o bíceps, para que você possa identificar o volume máximo do músculo totalmente contraído. Quan- do estiver pronto para fazer a leitura, você pede para que o paciente contraia o bíceps ao máximo e mantenha a contração enquanto a medição é realizada no nível do ponto mais alto do bíceps. Caso não haja uma zona de maior volume evidente, esse perímetro poderá ser medido no nível do ponto acrômio-radial médio (STEWART et al., 2011). O perímetro da cintura corresponde à circunferência do abdome em seu ponto mais estreito entre a margem costal inferior (10a costela) e a parte superior da crista ilíaca, perpendicular ao eixo longitudinal do tronco. É necessário que o paciente esteja em posição relaxada, em pé, com os braços cruzados sobre o tórax. Você deve estar à frente ou ao lado do sujeito, que deve abduzir levemente os braços, permitindo a colocação da trena em torno do abdome. É necessário que você segure com a mão direita a ponta da trena métrica e o invólucro dela. Use a mão esquerda para ajustar a posição da trena nas costas do sujeito, no nível de mais estreito determinado. Em seguida, retome o controle da trena com a mão esquerda e, utilizando a técnica de trena cruzada, posicione a trena no nível desejado. Peça para que o paciente respire normalmente e a medição é realizada ao final de uma expiração normal. Caso não seja possível visualizar uma zona mais estreita, a medição pode ser obtida no ponto médio entre a margem costal inferior (10a costela) e a crista ilíaca (STEWART et al., 2011). O perímetro do quadril, por sua vez, corresponde à circunferência dos glúteos no nível da maior protuberância posterior, perpendicular ao eixo longitudinal do tronco. Para aferição, o paciente deve estar em posição relaxada, em pé, com os braços cruzados sobre o tórax. Os pés precisam estar unidos e os músculos glúteos relaxados. Você deve estar ao lado do paciente, passando a trena em torno dos quadris. Para tanto, segure, com a mão direita, a ponta da trena métrica e o invólucro dela. Com a mão esquerda, ajuste a posição da trena ao nível de maior protuberância dos glúteos do paciente. Em segui- da, retome o controle da trena com a mão esquerda e, usando a técnica de trena cruzada, posicione a trena lateralmente, verificando se ela está no plano horizontal e no nível desejado, antes de realizar a leitura da medida (STEWART et al., 2011). O perímetro da coxa média é medida no nível entre o ponto mais superior do trocânter maior do fêmur e o ponto mais superior do côndilo lateral da tíbia, perpendicular ao eixo longitudinal. O paciente deve estar em posição relaxada, em pé, com os braços cruzados sobre o tórax. Os pés devem estar separados, com o peso do corpo igualmente distribuído. Para facilitar a medição, o paciente poderá ficar em pé sobre um banco. Você passará a ponta da trena em torno da parte inferior da coxa e, então, deslizará a trena para cima, até o plano correto. Você deve segurar com a mão direita a extremidade da trena e o invólucro dela, enquanto usa a mão esquerda para ajustar o nível da trena no ponto desejado. Em seguida, retome o controle da trena com a mão esquerda e, usando a técnica de trena cruzada, 149 UNIDADE 4 posicione a trena, para que seja mantida em um plano perpendicular. Logo, a trena é reajustada de acordo com o necessário para evitar que deslize e pressione a pele (STEWART et al., 2011). Por fim, o perímetro da panturrilha é definido pela circunferência da perna no nível do localda dobra da panturrilha, perpendicular ao eixo longitudinal da coxa. O paciente deve estar em posição relaxada, em pé, com os braços pendentes ao longo do tronco. Além disso, os pés do paciente devem estar separados, com o peso do corpo igualmente distribuído. Pelo lado, você passará a trena em torno da panturrilha e, então, a deslizará até o plano correto. Você deverá segurar, com a mão direita, a extremidade da trena no ponto desejado. Depois, retome o controle da trena com a mão esquerda e, usando a técnica de trena cruzada, posicione a trena para que ela seja mantida em um plano perpendicular ao eixo da perna. Por fim, a trena é reajustada de acordo com necessário para evitar que deslize e pressione a pele. É interessante que o paciente fique em pé, em uma superfície elevada, para facilitar o alinhamento dos seus olhos com a trena (STEWART et al., 2011). Analise a Figura 6, que é uma espécie de guia de todos os perímetros mencionados. Perímetro do quadril Perímetro Braço relaxado Perímetro da cintura Perímetro da coxa média Perímetro do braço exionado e tensionado Perímetro da panturrilha Perímetro cefálico Figura 6 - Diagrama esquemático dos pontos anatômicos para aferição das circunferências e dos perímetros corpóreos Descrição da Imagem: a figura é composta por dois homens, um representando um homem obeso e ooutro simbolizando umhomem musculoso. No homemobeso, há algumas caixas de texto, que são correspondentes ao perímetro do braço relaxado, ao perímetro do quadril e ao perímetro da coxa média. No homemmusculoso, há caixas de texto correspondentes ao perímetro cefálico, ao perímetro da cintura, ao perímetro do braço flexionado ou tensionado e ao perímetro da panturrilha. 150 UNICESUMAR Nesta unidade, compreendemos que afe- rir medidas, interpretar cálculos e equa- ções, analisar a composição corporal do paciente e utilizar aparelhos na antropo- metria são tarefas que requerem um bom treinamento por parte do avaliador. Essas ações apresentam muitas vantagens, já que são métodos de boa operacionali- zação e acurácia. Entretanto, carregam algumas limitações. De modo geral, a antropometria é um campo rico em opções, podendo ser considerada uma grande aliada do nutricionista. Todavia, ela não deve ser usada de forma isolada no diagnóstico nutricional. É necessária a contribuição de outros indicadores, como os exames bioquímico e físico. Es- teja sempre estudando o tema: leia artigos relacionados, busque conhecer os avan- ços tecnológicos na área e certifique-se de utilizar a metodologia que se encaixa especificamente ao perfil de seu paciente. 151 Caro(a) aluno(a), encerramos esta unidade. Contudo, antes, gostaria de convidá-lo a realizar uma mental a seguir. Suprailíaca Coxa anterior Dobras cutâneas Subescapular Tríceps Métodos de campo ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO CORPORAL Absorciometria de energia dupla de raio X Pletismograma de deslocamento de ar Métodos laboratoriais Ultrassom e ressonância magnética Descrição da Imagem: trata-se de ummapa mental. Ele é composto por várias caixas de texto no formato retangular e dis- postas em várias cores. A caixa de texto central é maior que as demais. Ela carrega o seguinte texto: “Análise da composição corporal”. Dela, saem duas caixas de texto. Uma se refere aos métodos de campo e a outra sobre os métodos laboratoriais. Da última, saem cinco caixas de texto às quais se referem à absorciometria de energia dupla de raio x, à pletismograma de deslocamento de ar, ao ultrassom e à ressonância magnética. As outras duas estão sem texto. Acima, a caixa de texto referente aos métodos de campo se conecta a uma caixa de texto, referente às dobras cutâneas, a qual está conectada a outras sete caixas de texto. São elas: suprailíaca, coxa anterior, subescapular e tríceps. As restantes estão sem texto. 152 1. Leia o fragmento a seguir: “Uma das características desenvolvidas ao longo da evolução humana foi a capacidade de estocar energia na forma de gordura, uma característica que permite condições extremas de sobrevivência. Com a evolução das espécies esta característica se tornou um ponto negativo, porque nas últimas décadas o homem vem desenvolvendo tecnologias para ajudá-lo a preser- var energia, transformando-os em indivíduo obeso e hipocinético. A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade comouma epidemia do século XXI, diagnosticando este problema a partir de avaliações da composição corporal, ferramentas que buscam quantificar os compo- nentes do organismo humano, permitindo assim, o acompanhamento de diversas variáveis”. NEVES, E. B. et al. Comparação do percentual de gordura obtido por bioimpedância, ultrassom e dobras cutâneas em adultos jovens. Curitiba: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2013. Devido à relevância da composição corporal, avalie asmedidas aferidas no paciente emquestão e calcule a densidade corporal e %GC pormeio da equação de Guedes. Paciente V. G. P., sexo masculino, 28 anos, 78,8 kg, DCT= 15,9 mm, DCSI= 21,7 mm e DCA= 24,6 mm. 2. Após a realização das medidas antropométricas, os valores devem ser analisados a partir de índices para obtenção dos indicadores antropométricos, ou seja, interpretação dos resultados e posterior definição do diagnóstico. A escolha da técnica, do índice e dos critérios de classifi- cação deve ser feita com cautela, além de atender às características da população investigada. SANCHES, P. M. A.; BRESAN, D.; DEL RÉ, P. V. Guia prático de antropometria para adultos: técnicas, índices e indicadores. Campo Grande: UFMS, 2020. Em relação aos índices antropométricos e àquilo que avaliam, assinale a alternativa correta: a) Por meio do IMC/idade, do diâmetro abdominal sagital e da dobra cutânea suprailíaca, é possível avaliar o tecido muscular de adultos. b) Por meio do índice de conicidade, da área muscular do braço e do braço/idade, é possível avaliar o crescimento e o desenvolvimento de adolescentes. c) Por meio da área muscular do braço, da circunferência de panturrilha e do perímetro torácico, é possível avaliar o crescimento e o desenvolvimento de uma criança. d) Por meio da circunferência muscular do braço, da dobra cutânea do tríceps e do diâmetro abdominal sagital, é possível conhecer a distribuição da gordura corporal de adultos. e) Por meio da circunferência da panturrilha, da dobra cutânea subescapular e da área muscular do braço, é possível conhecer alguns índices sobre o tecido muscular e adiposo em adultos. 153 3. Os indicadores antropométricos empregados nas rotinas de avaliação da composição corporal têm sido usados na predição do risco de doenças vasculares devido à praticidade, baixo custo e boa confiabilidade, sendo amplamente empregados tanto na clínica quanto em estudos epidemiológicos. LOUREIRO, N. S. L. et al. Relação dos indicadores antropométricos com fatores de risco para doença cardio- vascular em adultos e idosos de Rio Branco, Acre. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 54, 2020. Considerando asmedições antropométricas e as respectivas funções e aplicabilidades, assinale a alternativa correta: a) A antropometria tem como objetivo refletir as alterações do estado nutricional de um paciente em curtos intervalos de tempo. b) A antropometria utiliza o IMC para indicar uma variação de massa magra e gordura corporal, refletindo diretamente o estado nutricional do paciente. c) A antropometria não pode ser considerada um método rápido e indolor. No entanto, não é invasivo, apresenta baixo custo e garante medições fidedignas. d) A antropometria utiliza a perda de peso imediata e o IMC como importantes índices para avaliar a composição corporal e o estado nutricional do paciente. e) A antropometria visa à captura de medidas sensíveis, as correlaciona aos indicadores de saúde, sendo um bom parâmetro para análise da condição física e de desenvolvimento e crescimento. 154 Olá, estudante! Nesta unidade, você terá a oportunidade de apren- der a antropometria e acineantropometria na composição corporal. Também ampliará o seu conhecimento sobre asmetodologias que regem os métodos diretos, indiretos e duplamente indiretos. Além disso, conhecerá as diversas maneiras de descobrir a porcentagem de gordura corporal de um paciente, saberá encontrar os valores em kg das massas gorda e magra, e entenderá as classificações perante aos órgãos regulamentares. Análise da Composição Corporal na Avaliação Nutricional Dra. Lorena dos Santos Castro UNICESUMAR 156 Olá, caro(a) aluno(a), gostaria de apresentar a evolução de uma paciente. Trata-se de uma mulher de 23 anos que pesa 50 kg. Ela iniciou tratamento nutricional visando ganho de massa magra e redução do percentual de gordura. Durante a avaliação nutricional da paciente, foi escolhida a análise da com- posição corporal pelo método de bioimpedância elétrica, apresentando 10 kg de gordura, 40 kg de massa magra e 20% de gordura corporal. Após seis meses de acompanhamento nutricional com dieta hipercalórica e treino com sobrecarga, a paciente retornou. Agora, apresenta peso de 55 kg, com 45 kg de massa magra, 10 kg de gordura e % de gordura corporal de 18%. Considerando a análise da composição corporal da paciente a partir de dois componentes, é possível fazer qual análise da evolução da paciente? Essa análise pode ser a mais indicada? Interpretar adequadamente a % de gordura corporal de um paciente é uma tarefa fundamental do nutricionista. Entretanto, essa análise pode estar sujeita a erros e carrega muitas limitações. Esse fato pode ocorrer, pois cada modelo de análise da composição corporal inclui mais de uma medida, assim como há certa tendência de se referir aos resultados por meio de análises de modelos fisiológicos ou celulares, expondo a composição corporal de diferentes formas, devido aos distintos tipos de análise de determinação dos tecidos. UNIDADE 5 157 No caso da paciente do caso clínico, foi possível observar que houve uma redução de 2% de gordura corporal e um aumento de 5 kg de massa muscular. Logo, a análise foi realizada a partir de dois com- ponentes: massa de gordura e massa magra, o que classificou a paciente com %GC (gordura corporal total) abaixo da média. Ao realizar a análise, optou-se pelo uso de dois componentes, o que é útil para classificar os pacientes visando à manutenção da saúde ou de práticas esportivas, já que é possível monitorar as mudanças a partir de treinamentos e intervenções nutricionais. É uma forma prática e eficaz de aplicar em seus futuros atendimentos nutricionais, por exemplo. Para a experimentação desta unidade, sugiro que realize uma atividade prática muito ilustrativa sobre um dos principais temas abordados. Considerando que você ainda não tem um aparelho de análise da composição corporal, como uma bioimpedância ou plicômetro, proponho uma análise diferente. Para tanto, pratique a aferição do peso e da estatura em indivíduos adultos com faixa etária semelhante (sugiro adultos e idosos). Depois, calcule o IMC de todos. Caso não tenha equipamentos para aferição, questione ao indivíduo quais foram o último peso e a estatura encontrados. Depois do cálculo do IMC, levante o seguinte questionamento: você encontrou indivíduos com IMC próximos ou semelhantes? Se sim, os respectivos apresentavam a mesma forma física? Após a realização da experimentação, acredito que foram encontrados vários índices de massa cor- poral, não é mesmo? Quanto maior for o número de pessoas recrutadas, maiores serão as diferenças encontradas. Assim, ficou claro que não é possível inferir a composição corporal de nenhum indivíduo apenas pelo IMC, mas é possível notar que ela pode exercer influência direta sobre o peso do paciente. Analisemos alguns casos: Caso 1 = Modelo do sexo feminino. Peso de 31 kg, estatura de 165 cm e IMC de 11,39 kg.m2. Caso 2 = Modelo do sexo feminino. Peso de 54,4 kg, estatura de 177 cm e IMC de 17,36 kg.m2. Caso 3 = Atleta Arthur Zannetty. Peso de 63 kg, estatura de 155 cm e IMC de 26,22 kg.m2. Caso 4 = Jogador de rugby Sébastien Chabal. Peso de 110 kg, estatura de 190 cm e IMC de 30,47 kg.m2. Caso 5 = Fisiculturista Phil Heath. Peso de 120 kg, estatura de 175 cm e IMC de 39, 18 kg.m2. Caso 6 = Lutador de sumô Wakanohana Masaru. Peso de 134 kg, estatura de 180 cm e IMC de 41,36 kg.m2. A partir da apresentação dos seis casos, foi possível observar que o IMC é uma medida grosseira que ignora mais da metade das pessoas com excesso de peso corporal. Além disso, generaliza quadros por não ter uma boa relação com a gordura corporal, não diferenciando o tecido adiposo de muscular. Você percebeu isso em suas aferições? Anote aquilo que observou em seu diário de bordo. UNICESUMAR 158 Olá, caro(a) estudante! Iniciaremos a nossa unidade entendendo como foram originados os métodos de análise da composição corporal. Você tem alguma curiosidade sobre esse tema? Já sabemos que a antropometria e a cineantro- pometria norteiam o estudo da composição corporal dos indivíduos. Para tanto, a antropometria mensura o conjunto dos processos do corpo humano e das partes dele, sendo uma peça importante ao estudo da cineantropometria, porque é capaz de proporcionar informações específicas sobre a análise do biótipo físico, como a forma, a composição corporal e a proporcionalidade. Essa pauta se iniciou durante o processo evolutivo das espécies, principal- mente da espécie humana, o que, aliás, foi muito significativo para analisar a modificação de muitas estruturas corporais, resultando em modificações na história filogênica, motivadas tanto pela genética quanto pelo fenótipo. Em outras palavras, a partir da evolução humana, surgiram as semelhanças e as diferenças provenientes da herança genética, que pode ser influenciada pelo meio ambiente. Como consequência, foram originadas uma variedade de formas, proporções e funções (MICHELS, 2000). UNIDADE 5 159 Nosso tema esteve envolto aos aspectos históricos. Diversos critérios estéticos sofreram influência sobre o desenvolvimento das identidades pessoal e social durante décadas. O corpo humano sempre esteve relacionado a vários mitos, os quais, por sua vez, caracterizam um determinado estado físico padrão, com imagens, muitas vezes, subjetivas, que podem, ou não, ter relação com a estética. Um grande exemplo sobre o tema foram as mudanças nos padrões da moda: a definição do belo e saudável já foi considerado o que, hoje, é obesidade. Hoje, o “belo” representa a magreza e os corpos musculosos, não é mesmo? Isso nos re- mete à noção de que, desde muito cedo, o homem teve a necessidade de estudar e classificar o corpo humano e os aspectos morfológicos dele. Portanto, a antropometria e a cineantropometria possuem antecedentes histó- ricos, os quais objetivaram o avanço da medicina e se preocuparam com a forma, a proporção e a composição do corpo humano. Aliás, essa proporção foi muito visionada e associada à conquista do homem em realizar qualquer trabalho ou exercício físico, o que se vincula à quantidade e à proporção que existiam entre os tecidos do organismo. A partir dessa percepção, foi iniciada a transformação dos fenômenos biológicos em uma fórmula matemática (MICHELS, 2000). Além da importância histórica, explorar a composição corporal de um paciente ajuda a melhorar o desempenho motor, a capacidade de trabalho e a saúde dele, afetando diretamente a qualidade de vida dele. Aliás, para que um desempenho motor seja executado corretamente, é necessário que o paciente apresente certa desenvoltura perante a algumas capacidades motoras coordenativas. É, portanto, necessário estudar o paciente de forma estática e dinâmica, com base no estudo da cineantropometria (CEZAR, 2000). Logo, a cineantropometria pode ser considerada o estudo de pensamento em direção ao ser humano e os movimentos que ele realiza. Ela está relacionada às medidas e às avaliações de diferentes aspectos do paciente em movimento, assim como as características físicas dele,visando ao estudo das variações inter-humanas. O que seriam essas relações inter-humanas? A cineantropometria não se interessa exclusivamente nas características e nas qualidades de um indivíduo, mas também de grupos, nas variações que são encon- tradas dentro de uma população e nas diferenças que ocorrem entre populações no decorrer do tempo (BEUNEN; BORMS, 1990; CEZAR, 2000). Portanto, de forma sintetizada e subjetiva, a palavra cineantropometria significa medida do homem em movimento. Devido às correlações da análise da composição corporal à qualidade de vida dos indivíduos, esse campo se tornou de grande interesse para pesquisa em áreas esporti- vas e no campo da nutrição. Assim, são diversas as maneiras de análise da composição corporal. Há uma série de metodologias, com limitações e vantagens (CEZAR, 2000). Observe a Figura 1, que exibe a classificação de algumas metodologias. UNICESUMAR 160 Figura 1 - Classificação das metodologias de análise da composição corporal / Fonte: adaptada de Cezar (2000). Em relação à classificação das metodologias de análise de composição corporal, temos os métodos diretos, indiretos e duplamente indiretos. Os métodos diretos avaliam os componentes teciduais diretamente, em separado, por autópsia ou dissecação de cadáveres. Os indiretos, por sua vez, por não oferecerem essa oportunidade de manipulação, são considerados métodos in vivo, validados a Descrição da Imagem: trata-se de um fluxograma. Inicialmente, há, na parte superior uma caixa de texto na cor rosa, com a seguinte descrição: “Direto”. Embaixo, há uma seta indicando a região inferior e se conectando a outra caixa de texto azul com o conteúdo: “Dis- secção de cadáveres”. Embaixo, há outra caixa de texto na cor rosa com o conteúdo: “Indireto”. Dela, saem três setas, uma para direita, outra esquerda e outra para baixo. A da esquerda remete a uma caixa de texto azul como conteúdo: “Físico-químicos”. Embaixo, há outra caixa de texto verde com o texto: “Ativação de nêutrons, excreção de creatinina, potássio 40, deutério marcado, nitrogênio, carbono”. Da seta do centro, há conexão com outra caixa de texto na cor azul com o conteúdo: “Imagem”. Logo embaixo há uma caixa de texto na cor verde com o texto: “Radiologia clássica, DEXA ou densitometria óssea, ultra-sonografia, ressonância nuclear magnética e tomografia”. A seta àdireita se conecta a uma caixa de texto com amenção: “Densimetria”. Embaixo, há uma caixa de textona cor verde como conteúdo: “Pesagemhidrostática, água corporal total, hidrometria, pletismografia”. Ao centro e embaixo das caixas de texto citadas, há outra caixa de texto no centro na cor rosa, com o conteúdo: “Duplamente indireto”. Dela, saem outras três setas, uma para esquerda, uma para o centro e outra para a direita. A seta da esquerda se conecta a uma caixa de texto azul com o conteúdo: “Impedância bioelétrica”. A seta do centro se conecta a outra caixa de texto na cor azul com amenção: “Interactância de raios infravermelhos”. Por fim, a seta da direita se conecta a outra caixa de texto azul com a menção: “Dobras cutâneas, perímetros, diâmetros ósseos, peso e estatura”. UNIDADE 5 161 partir do método direto, porém elaborados com base em métodos químicos e físicos, por imagem ou densitometria. Portanto, por meio de equações matemáticas, é possível inferir a densidade corporal de um indivíduo. Como avaliar essa densidade? O cálculo da densidade é obtido por intermédio de uma equação que estima a quantidade de gordura corporal. Consequentemente, conhecendo a gordura corporal, é possível estimar a massa magra, tanto a absoluta quanto a percentual. Por fim, temos os métodos duplamente indiretos, que também são técnicas para análise in vivo e foram validados e correlacionados a partir de resultados dos métodos indiretos (CEZAR, 2000). Devido às diferentes técnicas e métodos de análise da composição corporal, os resultados encon- trados oferecem valores de gordura diferentes e, muitas vezes, são verificados em uma metodologia e referenciados em outras. Um grande problema! Isso pode acontecer devido ao fato de que cada modelo de análise da composição corporal inclui mais de uma medida, assim como há certa tendência de os profissionais se referirem ao resultado como se ele fosse analisado por meio de modelos fisiológicos ou celulares. Portanto, a composição corporal pode ser exposta de diferentes formas, devido aos dis- tintos tipos de análise ou determinação dos variados tecidos (CEZAR, 2000). Contudo, como avaliar os distintos métodos de análise? Vamos observar o que alguns estudos nos relatam. Wang, Pierson e Heymsfield (1992) realizaram um estudo que sugere uma abordagem interessante para organizar a pesquisa da composição corporal. Vamos conhecê-la? Ela divide a análise da compo- sição corporal em três áreas, todas interligadas: 1. Os níveis de composição corporal e as regras organizacionais. 2. As técnicas de medição. 3. Os fatores biológicos. UNICESUMAR 162 No que diz respeito a essas áreas, Wang, Pierson e Heymsfield (1992) propõem cinco níveis de comple- xidade crescente: o atômico, o molecular, o celular, o sistema de tecidos e o corpo inteiro. Isso, dado que, embora cada nível e os múltiplos compartimentos sejam distintos, há conexões bioquímicas e fisiológicas, de modo que o modelo funcione como um todo. Observe a Figura 2, que ilustra o tema (CEZAR, 2000). Figura 2 - Modelo clássico de dois componentes e de multicomponentes proposto por Wang, Pierson e Heymsfield Fonte: adaptada de Cezar (2000). Wang, Pierson e Heymsfield (1992) mencionam que a análise da massa corporal também pode ser dividida em compartimentos, com o intuito de definir a operacionalização dos diferentes pressupos- tos teóricos e conceituais de metodologias da análise da composição corporal. Vamos compreender esses diferentes modelos? Descrição da Imagem: a figura é composta por seis colunas, uma ao lado da outra. Cada uma está subdividida e, embaixo de cada uma, existe outra caixa de texto. A primeira coluna tem tom roxoe está dividida emduas partes: a gordura está no topo da coluna e representa uma pequena porção da coluna e partemaior pelamassa corporalmagra. Embaixo da primeira coluna, há uma caixa de textona cor cinza com a menção: “Modelo básico 2C”. A segunda coluna está representada em tons de azul e dividida em quatro partes: na primeira, no topo da coluna, há menção: “N, K, Ca, Na”. A segunda porção tem a menção: “Carbono”. Por sua vez, a terceira tem o seguinte conteúdo: “Hidrogênio”. Por fim, com amaior porção da coluna, há: “Oxigênio”. Embaixo da coluna, há umacaixade textona cor cinza comamenção: “Nível atômico”. A coluna três tem tons de verde e é dividida em quatro partes: a do topo se destina aosminerais. A de baixo, às proteínas e, embaixo, aos lipídeos. Correspondendo à maior parte da coluna, encontra-se a água. Embaixo da coluna, há uma caixa de texto com o conteúdo: “Nível molecular”. A quarta caixa de texto tem tons alaranjados e é dividida em quatro partes. A do topo corresponde aos lipídeos; a de baixo ao sólido extracelular; a de baixo, ao fluído extracelular; a de baixo, correspondendo à maior porção da coluna, à massa celular. Por fim, embaixo dessa coluna, há uma caixa de texto com a menção: “Nível celular”. A quinta coluna tem tons de cinza e é dividida em cinco porções: a primeira faz menção aos outros; a outra ao sangue; a outra aos ossos; a outra ao tecido adiposo; e, por fim, correspondendo à porção maior da coluna, há a menção ao músculo esquelético. Embaixo dessa coluna, há uma caixa de texto com a menção: nível tecidual. Por fim, a última coluna tem cor vermelha, sem divisões, com apenas umamenção: “Corpo em sua totalidade”. Embaixo, há uma caixa de texto com a menção: “Nível corporal”. UNIDADE 5 163 Inicialmente, temos o modelo clássico, que é composto por dois componentes que dividem o cor- po em duas partes: uma consiste em gordura corporal e a outra em todos os tecidos remanescentes, conhecidos como massalivre de gordura (MLG). Quais métodos podem ser utilizados para analisar esses dois componentes? Podem ser utilizados aqueles que identificam a densidade corporal total, como a pesagem hidrostática. Em contrapartida, há o modelo de três componentes, incluindo a água corporal total aos resultados pela pesagem hidrostática. Desse modo, a MLG é dividida em duas partes: o conteúdo de água (líquido) e de proteínas e minerais (sólidos remanescentes). Por fim, o modelo dos quatro componentes define a massa livre de gordura a partir de três compartimentos básicos ou fisiológicos: a massa corporal total (MC), a água ou fluído extracelular (FE) e os sólidos extracelulares (SE) (CEZAR, 2000). Ellis (2000) relata que, para o método citado, os valores de densidade da água, gordura e sólidos corporais podem ser aplicados em adultos saudáveis, idosos e crianças. No entanto, não podem ser aplicados em pacientes com massa proteica, óssea ou corporal depletadas, visto que os valores da den- sidade dos compartimentos sólidos resultariam em uma incorreta estimativa de massa gorda. Pensando na definição de cada compartimento e na aplicabilidade deles, é possível definir a massa livre de gordura pela fórmula a seguir: MLG MC FE SE Já a massa de gordura total pode se dar pela fórmula: MGT MLG peso Além disso, Wang, Pierson e Heymsfield (1992) ressaltam que, quando apenas um método é utilizado, as limitações técnicas geram maior imprecisão, associada ao método em questão. Os estudiosos também sustentam que é importante conhecer os termos relacionados, utilizando-os corretamente em cada situação. Portanto, conheceremos esses termos e os conteúdos que os compõem. Inicialmente, temos o peso corporal, que é caracterizado pela soma do peso dos ossos, músculos, órgãos, fluidos corporais e tecido adiposo. Eles podem sofrer alterações normais ao longo do tempo como um reflexo do crescimento, do estado reprodutivo, da variação na atividade física e dos efeitos de envelhecimento. Por vezes, o peso corporal foi descrito a partir da composição, tradicionalmente, pela composição corporal, que é dada pela divisão do corpo em massa adiposa, correspondendo à gordura corporal de todas as fontes, em massa livre de gordura (MLG), a qual inclui proteínas, água e componentes minerais, e em massa corporal magra (MCM), composta por músculos (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). A gordura corporal mencionada é a combinação das gorduras “essenciais” e de “armazenamento”, normalmente, expressa como uma porcentagem do peso corporal total de um indivíduo, visto que os músculos e a massa esquelética se ajustam para suportar o peso do tecido adiposo. Contudo, não UNICESUMAR 164 pense que a gordura corporal é totalmente nociva ao corpo humano. Ela pode se apresentar de dife- rentes formas, como a gordura essencial, necessária para o funcionamento fisiológico normal, a qual é armazenada em pequenas quantidades na medula óssea, no coração, no pulmão, no fígado, no baço, nos rins, nos músculos e no sistema nervoso. Por outro lado, há a gordura de armazenamento, caracterizada por ser uma reserva de energia, princi- palmente na forma de triglicerídeos no tecido adiposo, acumulando-se sob a pele e ao redor dos órgãos internos para protegê-los de traumas. Os estoques podem variar extensamente, permitindo a evolução das necessidades de crescimento, reprodução, envelhecimento, condições ambientais e fisiológicas, disponibilidade de alimentos e da atividade física (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Vamos compreender como avaliar a proporção de gordura corporal para garantir uma boa condição de saúde? Em sua análise, podem ser utilizadas várias técnicas. O uso da técnica de dobras cutâneas é conhecido há muitos anos, mas somente a partir dos anos 60 esteve mais difundido e houve um número crescente de equações desenvolvidas para determinar duas variáveis principais: a densi- dade corporal (D) e a porcentagem de gordura corporal (%GC). A maioria dos modelos determina, primeiramente, o valor da densidade a partir da predição da %GC, mas existem outras maneiras, principalmente com o objetivo de superar as limitações dessa técnica. Nesse contexto, pode ser utilizado diretamente o somatório da espessura das dobras cutâneas em valores absolutos (milímetros), considerada uma boa alternativa para avaliar com precisão a adiposi- dade corporal, sem a transformação em %GC, descartando as equações de predição e os respectivos questionamentos. Segue, a seguir, a fórmula em questão. Também é exibido o Quadro 1, com a classi- ficação do somatório de dobras de acordo com Holway (2011). ( , , , , ,DCTríceps DCSubescapular DCSupraespinal DCAbdômen DCCoxa DDCPanturrilha)∑ Classificação Homens Mulheres Muito baixo < 33,6 < 61,9 Baixo 33,7 -47,1 62 -69,5 Normal 47,2 -84,2 69,6 -112,6 Elevado 84,3 -94,3 112,7 -121,6 Muito elevado > 94,3 > 121,6 Quadro 1 - Classificação da composição corporal de acordo com o somatório de dobras cutâneas / Fonte: adaptado de Holway (2011). Para exemplificar a classificação, considere a paciente I. R. C, de 45 anos e com peso de 57,5 kg. Ela apre- sentou as seguintes aferições de dobras: DCTríceps: 25, DCsupraespinal: 20, DCAbdômen:40, DCCoxa: UNIDADE 5 165 38, DCPanturrilha: 23. Logo, ao realizar a somatória das dobras pelo método de Holway, chegou-se ao valor de 146, classificando a paciente com um somatório de dobras muito elevado. Segue o cálculo: ( , , , , , ) (25 20 40 38 23) 146 DCTríceps DCSubescapular DCSupraespinal DCAbdômen DCCoxa DCPanturrilha∑ ∑ + + + + ∑ = Como sabemos que há grande uso da análise da composição corporal por equações de predição, conhece- remos a classificação. Ressaltamos que a proporção de gordura corporal (%GC) pode ser classificada como adequada (saudável), excessiva (quadro de obesidade) ou reduzida (abaixo do necessário/desnutrição), por meio da porcentagem avaliada no organismo (CEZAR, 2000). A recomendação do percentual de gordura corporal em relação ao peso absoluto (massa em kg) é apresentada na literatura com diferentes valores, próximos aos exibidos por Lohman, Roche e Martorell (1988), apresentados no Quadro 2. Níveis de Gordura Corporal Homens Mulheres Alto risco Acima da média 17-24% 27-29% Média 14,5 a 16% 22 a 27% Abaixo da média 6-14% 12-22% Alto risco Quadro 2 - Porcentagem de gordura corporal para homens e mulheres / Fonte: adaptado de Lohman, Roche e Martorell (1988). Imaginemos uma situação-problema. Suponha que você atenda a um paciente do sexo masculino com 28 anos e 80 kg. Você realizou a aferição das dobras cutâneas e encontrou DCTríceps de 24 mm, DCBíceps de 13 mm, DCSubescapular de 16 mm, DCSupraíliaca de 18 mm. Sabendo da importância da avaliação da gordura corporal de forma individual e assertiva, calcule a densidade corporal e a %GC do paciente e, em seguida, classifique a %GC de acordo com Lohman, Roche e Martorell (1988). Durnin e Worsley (1974): 1 1,1765 0,0744 log( 24 13 16 18) 1,1765 0,0744 log 71 1,1765 0,0744 1,8512 1,1021 1,8512 2,040 . DC x DC x DC x DC x DC g ml− = − ∑ + + + = − = − = = UNICESUMAR 166 Siri (1961): % 495 450 / % 495 450 / 2,040 % 18,75% GC DC GC GC = − = − = Considerando a %GC encontrada de 18,75%, a % de gordura corporal do paciente está acima da média. Avaliando os problemas relacionados aos quadros de elevada porcentagem de gordura corporal, a obesidade proporciona sérios riscos à saúde, podendo potencializar o aumento na concentração plasmática de lipoproteínas de baixa densidade, com redução na concentração sanguínea das lipoproteínas de alta densidade, quadro que pode ocasionar a formação de uma placa de ateroma nos vasos sanguíneos. Por outro lado, baixos níveis de gordura corporal também potencializam alguns danos consideráveis, visto que o organismo necessita de lipídios em quantidades mínimas (20 a 25% do valor calórico total da dieta) para desenvolver funções fisiológicas essenciais. Como exemplo, é possível considerar a formação demembranas celulares, o fornecimento energé- tico, o estoque de vitaminas lipossolúveis, o funcionamento adequado do sistema nervoso, o sistema reprodutor, o ciclo menstrual e o crescimento e a maturação sexual (CEZAR, 2000). Você já se perguntou como estará o quadro de doenças no futuro? Será que, apesar de tantas informações e estudos sobre a obesidade e as doenças relacionadas, haverá um aumento exponencial dos casos ao longo dos anos? Mathers e Loncar (2006) relatam que, durante a maior parte da evolução da humanidade, pouco se soube sobre as principais causas de doenças em diferentes países e as doenças que matavam a maioria das pessoas. Entretanto, os estudiosos ressaltam a importância de os órgãos de saúde pública co- nhecerem o tema, com o intuito de entender o perfil de saúde da população e saberem como os padrões de doença (morbidade) e morte (mortalidade) podem mudar, para que possam planejar políticas públicas para o futuro. Mathers e Loncar (2006) ainda realizaram uma projeção que forneceu uma tendência de saúde da população, ao criarem modelos de mortalidade e doenças. Em uma projeção para 2030, doenças do coração relacionadas à obesidade estão entre as três principais causas de doenças. Portanto, cuidados especiais nesses quadros e no controle da gordura corporal dos indivíduos são fundamentais. Observe o Quadro 3, que exibe o ranking proposto por Mathers e Loncar (2006), com as principais doenças em 2002 e as propensões para o ano de 2030. UNIDADE 5 167 2002- Doença ou lesão % Ranking % 2030- Doença ou lesão Doença cardíaca isquêmica 12,6% 1 13,1% Doença cardíaca isquêmica Doença cerebrovascular 9,7% 2 10,3% Doença cerebrovascular Infecções respiratórias 6,9% 3 8,7% HIV/AIDS HIV/AIDS 4,8% 4 7,9% DPOC DPOC 4,8% 5 3,5% Doenças respiratórias Afecções perinatais 4,3% 6 3,1% Diabetes Melittus Doenças diarreicas 3,3% 7 3,0% Câncer Quadro 3 - Ranking das principais doenças em 2002 e as prospecções para 2030 / Fonte: adaptado de Mathers e Loncar (2006). Alguns pacientes podem apresentar baixo percentual de gordura corporal, o que proporciona muitas desordens alimentares, como a desnutrição. Fazendo parte desse grupo, encontram-se algumas con- dições específicas, como bailarinos(as), modelos fotográficos(as) ou de passarelas e atletas de algumas modalidades esportivas, como os esportistas olímpicos. Estudos citam que bailarinas profissionais podem ter um menor percentual de gordura devido aos maiores regimes de treinamento e a uma maior satisfação com o próprio corpo. Não obstante, o uso de anticoncepcionais também pode ser um determinante na composição corporal desse grupo, mediante o aumento da massa gorda, tendo em vista que alguns contraceptivos geram aumento na ingestão alimentar devido ao impacto hormonal. Por outro lado, alguns anticoncepcionais têm efeitos colaterais para o ganho de peso (HOCH et al., 2011; HIRSCHBERG, 2012). Por vezes, o baixo percentual de gordura está associado aos distúrbios alimentares, que ocorrem mais frequentemente no sexo feminino, representando mais de 90% dos casos. Eles costumam ter, como fator desencadeante, algum evento significativo, tais como perdas, separações, mudanças, doenças orgânicas, distúrbios de imagem corporal, depressão, ansiedade e traumas da infância, como abuso sexual. Um dos principais distúrbios alimentares é a anorexia, caracterizada por uma restrição alimentar imposta pelo próprio indivíduo com sequelas graves. A instalação da doença de forma crônica provoca quadros de desnutrição e desidratação. Pacientes com anorexia, apresar de negarem a fome, podem se queixar de fadiga, fraqueza, tonturas e visão turva. Eles podem ter complicações graves para conquistar cada vez mais a perda de peso. O tratamento da anorexia sofreu avanços nas últimas décadas. Os melhores resultados são alcançados por meio de equipes multiprofissionais, trabalhando tanto a prevenção quanto a identificação de pacientes em risco (FIATES; SALLES, 2001). Você, enquanto profissional, pode identificar os pacientes com risco de desnutrição a partir dos seguintes sintomas: UNICESUMAR 168 • Pacientes que apresentam perda de massa 15% abaixo do esperado. • Pacientes que apresentam medo mórbido de engordar mesmo estando abaixo do peso. • Perturbação. • Negação do baixo peso. • IMC ≤ 17,5 Kg.m². • Perda de peso auto induzida. • Distúrbios endócrinos. • Vômitos induzidos. • Métodos purgativos. • Uso de inibidores de apetite. • Amenorreia por três ciclos consecutivos. Um quadro muito comum na atualidade é a perda da função menstrual (amenorreia) em decorrência da perda de peso, visto que os ciclos menstruais são diretamente relacionados ao quadro nutricional da paciente, perante à gordura corporal. As meninas precisam de um peso mínimo para iniciar ou restaurar os ciclos menstruais devido à desnutrição. É preciso fazer uma boa observação da %GC, porque um mínimo de energia é necessário para a ovulação e os ciclos menstruais. Visualize o Quadro 4 para conhecer a massa corporal mínima para a desnutrição. Menarca Menstruação Estatura (cm) Kg.min P10 Kg.max P50 Kg.min P10 Kg.min P50 155 39,0 45,0 43,7 50,2 161 41,7 48,1 46,7 53,6 165 43,4 50,1 48,7 55,8 171 46,1 53,2 51,6 59,3 Quadro 4 - Massa corporal mínima para menstruação Fonte: adaptado de Frisch e McArthur (1974). Aos atletas, uma adequada avaliação da composição corporal pode ajudar a otimizar o desempenho competitivo e monitorar o regime de treinamento. Em decorrência do déficit energético, podem ocorrer alterações metabólicas e reprodutivas, como amenorreia em mulheres atletas, fato que está associado às marcantes reduções no consumo de energia e de lipídios. Portanto, as exigências relativas à imagem corporal e ao controle de peso parecem desempenhar um papel relevante no comportamento alimentar e no padrão alimentar de vários grupos atléticos (CEZAR, 2000; PANZA et al., 2007; RODRIGUEZ; DI MARCO; LANGLEY, 2009). UNIDADE 5 169 Nesse sentido, os indivíduos que necessitam manter os valores de gordura corporal extremamente baixos, relacionados à prática profissional, devem ser orientados a não permanecer nessa condição por períodos prolongados, para que, assim, seja evitado o desenvolvimento de anemias, desnutrição, anorexia ou outros danos bioquímicos e fisiológicos ao organismo (CEZAR, 2000). Quais índices corporais podem ser usados para estimar uma condição de saúde? Dentre os diversos índices corporais, o Índice de Massa Corporal (IMC), de Quetelet, é o mais utilizado. Todavia, esse índice não leva em consideração a exata composição corporal, sendo inadequado para inferir com precisão o percentual de gordura do paciente. Entretanto, o IMC pode ser usado como um indicador de estado de saúde, avaliando a desnutrição e a obesidade. Além disso, a aplicabilidade dele é viável quando faltam melhores recursos, técnicos e financeiros (CEZAR, 2000; MUST; DALLAL; DIETZ, 1991). Além do IMC, existe o peso ideal, que, segundo Sampaio (2012), pode ser calculado da seguinte forma: 2: ( )Pesoideal IMCmédiox altura Peso ideal = (altura)² x IMC médio IMC médio para homens = 22,5 kg/m² IMC médio para mulheres = 21,5 kg/m² IMC médio para ambos os sexos = 22,0 kg/m² Como exemplo de aplicabilidade da fórmula, considere uma paciente do sexo feminino de 28 anos que apresenta peso de 63,4 kg e tem estatura de 1,63 m. Qual seria o peso ideal? ( )² 21,5 (1,63)² 57,12 Pesoideal IMCmédiox altura Pesoideal x Pesoideal kg = = = Contudo, um aspecto negativo do uso do peso ideal se deve à observação equivocada de um valor constante, principalmente em alguns quadros específicos, como em mulheres, haja vista a enorme influência da retenção hídrica pertinente ao ciclo menstrual. Como exemplo, há a sugestão de peso ideal em casos de envelhecimento, o que pode ser negativo, pois esse quadro proporciona acúmulo fisiológico de gordura corporal. Caso o indivíduo consiga se manter no mesmo peso (massa) de décadas atrás, isso não significa que aproporção dos componentes corporais seja a mesma. Logo, o processo de envelhecimento, quando não há realização de exercícios físicos regulares, proporciona redução fisiológica de massa muscular óssea, comprometendo a fidedignidade do uso do peso ideal (CEZAR, 2000). Em suma, há a Figura 3, que representa os índices mais utilizados na avaliação da composição corporal. UNICESUMAR 170 Figura 3 - Índices mais utilizados na avaliação da composição corporal / Fonte: a autora. Descrição da Imagem: No centro, há uma caixa de texto com a menção: “Composição corporal”. Dela, saem cinco caixas de texto, sendo elas: a porcentagem de gordura corporal (%GC), o peso ideal, o somatório de dobras cutâneas, o Índice de Massa Corporal (IMC) e a densidade corporal. A partir dos dados expostos, independentemente da metodologia utilizada, para que o re- sultado da análise da composição corporal do paciente seja adequado, válido e confiável, é necessário observar alguns aspectos básicos. De acordo com Cezar (2000), dentre eles, estão: • Levar em consideração a idade, a etnia, o sexo, a estimativa da gordura corporal e o nível de condicionamento de análise da composição corporal do paciente. • Definir o método adequado de avaliação da composição corporal, conhecendo os custos, as limitações e as dificuldades de cada metodologia. • Decidir o método que você será utilizado. Treine-o e esteja proficiente do ponto de vista conceitual, teórico e prático, visando diminuir erros metodológicos. • Definir as equações que serão utilizadas, tendo conhecimento específico sobre cada uma, a fim de proporcionar maior precisão na avaliação da composição corporal do paciente. • Analisar atentamente a anamnese e o histórico do paciente, para que o resultado da avaliação não o frustre. Por exemplo, embora um paciente apresente alto per- centual de gordura corporal, o resultado atual está significativamente menor em relação à avaliação anterior. Nesse caso não desmotive o paciente, pelo contrário, o parabenize pelas conquistas. • Oferecer informações precisas sobre a composição corporal do paciente. Para tanto, é necessário ter uma perspectiva de referência, que precisa ser baseada em normas, como subgrupos claramente definidos (homens, mulheres, faixa etária, condição de treinamento, modalidade esportiva etc.). Os resultados baseados em normas podem também ser valores de um grupo especifico ou predeterminados. UNIDADE 5 171 A análise da composição em adultos obesos é um tema amplamente discutido, uma vez que, nesses indivíduos, a avaliação se torna dificultada, devido às limitações dos equipamentos e às características dos métodos utilizados. Do ponto de vista da composição corporal, o quadro de obesidade pode ser caracterizado por uma elevada quantidade de massa gorda e de água total extracelular. A classificação de gordura de acordo com o IMC superestima a gordura corporal em pacientes ativos e subestima a gordura corporal em pacientes obesos e sedentários. Além disso, a avaliação da composi- ção corporal nos pacientes obesos necessita de atenção. A técnica de avaliação do percentual de gordura por dobras cutâneas não é aconselhável às pessoas obesas, já que a gordura subcutânea não é facilmente separada do músculo e há a limitação máxima de abertura do adipômetro. Esses fatos comprometem a exatidão da medida e subestimam o total de gordura corporal (CEZAR, 2000; SOUZA et al., 2014). Estamos conhecendo o mundo da análise da composição corporal, a fim de capacitar você, futuro(a) profissional da nutrição, a utilizar as mais diferentes formas de cálculos, equações, predições e diagnósticos clínicos. Você saberia explicar a um paciente o motivo da perda de %GC ou de ganho de massa magra? Qual seria o reflexo disso na balança? Aliás, você sabe o motivo pelo qual, muitas vezes, uma mudança na composição corporal não é expressa na balança? Tudo se relaciona ao fato de que um quilo de gordura ocupa mais espaço que um quilo de músculo. Isso faz toda a diferença. Convido a você a escutar este podcast e entender mais o tema! Você já pensou que o excesso de peso pode não ser sempre maléfico para a saúde? É de se admitir que o maior acúmulo de gordura corporal, normalmente, induz a um aumento nas medidas do peso corporal e nos valores de IMC. Entretanto, talvez, o peso corporal excessivo não reflita a condição de maior acúmulo de gordura, partindo do pressuposto de que ela pode ser ocasionada em con- sequência da elevada massa isenta de gordura, e não pela gordura corporal. Dessa forma, possivel- mente, o excesso de gordura corporal induz o sobrepeso, mas o inverso pode não ser verdadeiro. Foi realizado um estudo que avaliou o efeito da metodologia de análise da composição corporal de obesos a partir de seis métodos: o Índice de Massa Corporal (IMC), a absorciometria de raio x de dupla energia (DEXA), a pesagem hidrostática, a água corporal total, a impedância bioelétrica (BIA) e a espessura de dobras cutâneas. Qual seria a melhor metodologia encontrada para o quadro de obesidade? Os autores observaram que as estimativas de gordura corporal medidas pela DEXA UNICESUMAR 172 e pela água corporal total não foram diferentes entre si, porém foram maiores que as estimativas de gordura corporal medidas pela BIA, dobras cutâneas e IMC, e maiores que a estimativa de gordura pela pesagem hidrostática. Foi evidenciada uma precisão inferior em relação à pesagem hidrostática e atribuída uma variação do teor de água e da densidade mineral óssea. Além disso, foi exibida uma subestimação do percentual de gordura pelas dobras cutâneas devido à habilidade do avaliador e ao tamanho das dobras cutâneas. O estudo ainda infere que, apesar da medida da espessura das dobras cutâneas e da BIA serem técnicas muito utilizadas, elas subestimaram, nesse estudo, em 12% a massa adiposa total, quando comparadas à DEXA (CEZAR, 2000; ELDER et al., 2012). Não distante, a utilização da equação para predizer a %GC de indivíduos também possui limitações em alguns casos e em determinadas populações, como em obesos. Durante o uso, é possível encontrar inconsistência entre os resultados que comparam o percentual de gordura corporal avaliado por meio de dobras cutâneas e DEXA. Um estudo realizado com pacientes com sobrepeso e obesidade observou que a BIA, associada à circunferência de cintura, tem melhor associação com a gordura corporal avaliada pela técnica de DEXA do que pelo IMC. O mesmo estudo também avaliou as metodologias relativas à avaliação das modificações da composição corporal e destacou que a BIA apresentou resultados mais fidedignos, se comparada à DEXA (DI RENZO et al., 2013; SOUZA et al., 2014). A bioimpedância elétrica tem sido uma alternativa atraente na avaliação da composição corporal, já que há a possibilidade de trabalhar com um equipamento não invasivo, portátil, de fácil manuseio, com boa reprodu- tibilidade e viável à prática clínica e aos estudos epidemiológicos. Sugiro a leitura do artigo em questão para conhecer o panorama geral do uso dessa técnica e a comparação entre o uso dela e outros métodos de avaliação da composição corporal. Muito se fala sobre as diferentes precisões observadas em resultados utilizando a BIA, tanto em indi- víduos obesos quanto na população em geral. Algumas das justificativas estão relacionadas à prática das comparações com diversas referências, às diferentes características das populações avaliadas e até às diferentes taxas de hidratação observadas em obesos. Como a hidratação pode apresentar tantas variações? Elas podem ser justificadas pela influência dietética, consumo de álcool, nível de atividade física e até fatores ambientais, como umidade e temperatura. Ademais, a ingestão de cafeína e álcool podem causar desidratação e subestimar os valores de massa muscular. Confira o Quadro 5 e analise as características, vantagens e limitações de diversos métodos de avaliação da composição corporal. UNIDADE 5 173 Técnicas Princípioe compartimentos mensurados Vantagens Desvantagens Dobras cutâneas Medida da espes- sura de gordura representativa da camada de gordura subcutânea. Rápida, não invasiva, baixo custo e facilida- de de transporte de equipamentos. Baixa precisão pela variação da medida inter e intra-ava- liadores; limitação máxima de abertura do adipômetro; subestimação da gordura corporal total. Os resultados precisam ser inseridos em fórmulas preditoras, não adequadas para todas as faixas etárias e condições clínicas. Pesagem hidrostática Densidade corporal a partir da razão peso no ar/peso na água. Elevada precisão Demorada, requer adap- tação no meio líquido, desconfortável para obe- sos, precisão afetada por estágio do ciclo menstrual, horário do dia, atividade físi- ca e uso de medicamentos. Pletismografia Volume corporal a partir do desloca- mento do ar. Relativamente rápida, capacidade de 250 kg. Superestima o volume de gás torácico em casos de sobrepeso/obesidade; erro ao determinar densidade da MLG em obesos; elevado custo. Não fornece dados de segmentos corporais. UNICESUMAR 174 Técnicas Princípio e compartimentos mensurados Vantagens Desvantagens Impedância bioelétrica Passagem de uma corrente elétrica pelo corpo. A im- pedância pode ser calculada medindo- -se a corrente e a voltagem. Rápida, não invasiva. Precisão afetada pelo equipa- mento utilizado, alimentação, hidratação, água extracelular, atividade física, temperatura, ciclo menstrual e consumo de álcool. Dados pouco pre- cisos para obesos graves, os resultados precisam ser inse- ridos em fórmulas preditoras, não adequadas para todas as faixas etárias e condições clínicas. Absorciometria radiológica de feixe duplo Divisão do corpo em três níveis: mineral-ósseo, MLG e MG por meio de raios-X. Segura, relativamente rápida, requer míni- ma cooperação, sofre menor influência da quantidade de água corporal do que a pe- sagem hidrostática, padrão de referência para avaliação da composição corporal de obesos, rápida, baixa emissão de radiação. Limite de 204 kg, tamanho do scanner, não é indicada para gestantes, lactantes, portadores de implantes metálicos, marcapasso, nem para indivíduos submetidos a procedimentos com iodo, bário ou isótopos em um período de sete dias ante- riores. Imagens em 2D. Tomografia computadorizada A partir atenuação dos raios-X nos diferentes tecidos, fornece imagem bidimensional em corte transversal do corpo Boa correlação entre a circunferência da cintura e o tecido adiposo abdominal profundo, imagens 3D. Exposição à radiação, alto custo do equipamento e necessidade de técnicos especializados. UNIDADE 5 175 Técnicas Princípio e compartimentos mensurados Vantagens Desvantagens Ressonância magnética A partir da frequên- cia de rádio, é reali- zada a medição do número de núcleos de hidrogênio do tecido. Quantifica a MG total e subcutâ- nea. Apresenta boa corre- lação com a pesagem hidrostática, não utiliza radiação iônica, imagens 3D Custo elevado, dificuldade técnica. Ultrassonografia Conversão de energia elétrica em ondas sonoras, que passam através dos tecidos, quantifican- do a espessura dos tecidos muscular e adiposo. Boa correlação com o método de pesagem hidrostática e absor- ciometria radiológica de feixe duplo. Elevado custo e dificuldades técnicas. Interactância de raios infravermelhos Supõe que as medi- das de interactância podem estimar a composição cor- poral a partir da densidade óptica, que é inversamen- te proporcional ao percentual de gordura corporal. Modelo de múltiplos compartimentos Rápida e não invasiva. Acurácia modificada pelos instrumentos utilizados, prática do avaliador e distri- buição da gordura corporal do avaliado. Não deve ser utilizada de forma isolada para avaliar a composição corporal em pacientes obesos. Quadro 5 - Características, vantagens e limitações de diversos métodos de avaliação da composição corporal em obesos Fonte: adaptado de Souza et al. (2014). UNICESUMAR 176 A partir de todas as informações expostas, entenderemos as principais formas de estimar a % de GC para cada população, faixa etária e sexo. Observe o Quadro 6. Fórmula População Faixa etária Siri (1961) % [(4,95 / ) 4,50] 100 % 495 450 / G DC x ou G DC = − = − Homens e mulheres 16 a 72 anos Brozek (1963) % [(4,57 / ) 4,142] 100 % 457 414,2 / G DC x ou G DC = − = − - - Durnim & Womersley (1974) 10 , , 1,1765 0,0744 log ( , ) DCTriceps DCBiceps DC x DCsubescapular DCCristailíaca = − ∑ Homens 17-72 anos 10 , , 1,1567 0,0717 log ( , DCTriceps DCBiceps DC x DCSubescapular DCCristailíaca = − ∑ Mulheres 18-68 anos UNIDADE 5 177 Fórmula População Faixa etária Jackson, Pollock e Ward (1980) 10 10 , , 1, 24374 0,03162(log , ) 0,00066 ( ) , 1, 24374 0,03162(log 0,00066 ( ), ) DCTriceps DCAbdomêm DC x DCCoxa DCCristailíaca x perímetroquadril ou DCTriceps DC x x idadeDCCoxa DCCristilíaca = − − = − − ∑ ∑ Sem grupo específico 18-55 anos Edio Luiz Petroski (1995) 2 1,10726863 0,00081201 ( ) 0,00000212 ( ) 0,00041761 ( ) DC x DCTriceps DCSubescapular DCCristailíaca DCPanturrilha x DCtriceps DCSubescapular DCCristailíaca DCPanturrilha x idade = − + + + + + + + − Homens 18-66 anos 2 1,02902361 0,000067159 ( ) 0,00026073 ( ) 0,00056009 ( ) 0,00054649( ) DC x DCSubescapular DCTriceps DCCristailíaca DCPanturrilha x idade x pesocorporal estatura = − + + + − − + Mulheres 18-51 anos UNICESUMAR 178 Fórmula População Faixa etária Thorland et al. (1984) 2 1,1091 0,0051 ( ) 0,00000032 ( ) DC x DCTriceps DCSubescapular DCAxilar DCCristailíaca DCAbdômem DCPanturrilha x DCTriceps DCSubescapular DCAbdomêm DCCoxa DCPanturrilha = − + + + + + + + + + + Homem 17-43 anos 1,0987 0,00122 ( ) 0,00000263 ( ) DC x DCTriceps DCSubescapular DCCristailíaca x DCTriceps DCSubescapular DCCristaíliaca = − + + + + + Mulher 16-51 anos Wettman et al. (1987,1988) % 0,31457[( int ) / 2] 0,10969 10,8336 G circunferênciac ura circunferênciaabdômem = + − + Homens obesos 24-68 anos % 0,11077[( int ) / 2] 0,17666( ) 0,143554 51,03301 G circuferênciadec ura circunferênciadeabdômem estatura = + − + + Mulheres obesas 20-60 anos Faulkner (1968) % 5,783 0,153 ( ) DCTriceps DCSubescapular G x DCCristailíaca DCAbdômem + = + + +∑ Atletas mas- culinos 18- 25 anos UNIDADE 5 179 Fórmula População Faixa etária Yuhasz (1974) , , % 0,1051 ( , , ) 2,585 DCTriceps DCSubescapular G x DCSupraespinal DCabdômem DCCoxa DCPanturrilha = + + ∑ Estudantes Masculinos - % 0,1548 ( , , , , , ) 3,50 G x DCTriceps DCSubescapular DCSuprailíaca DCAbdomêm DCCoxa DCPanturrilha = + ∑ Estudantes Femininos - Slaughter et al. (1988) % 0,735( , ) 1G DCTriceps DCPanturrilha= +∑ Meninos negros 8 a 17 anos % 0,610( , ) 5,1G DCTriceps DCPanturrilha= +∑ Meninas ne- gras 8 a 17 anos Heath- Carter (1967)- Perímetro corrigido: ( ) ( ) ( ) PB Braçorelaxado cm DCTriceps PC Circunferênciadacoxa cm DCCoxa PP Circunferênciadapanturrilha cm DCPanturrilha = − = − = − UNICESUMAR 180 Fórmula População Faixa etária Lee et al. (2000)- Massa muscular em kg: 2 2 2 ( ) (0,00744 ) (0,00088 ) (0,00441 ) 2,4 0, 048 7,8 MM estatura m x xpbraçorelaxadocorrigido xpcoxamédiacorrigida xppanturrilhacorrigida xsexo xidade raça = + + + − + + Homens e mulheres 20-81 anos Guedes (1985): 101,17136 0,06706 log ( , , )D x x DCTriceps DCSuprailíaca DCAbdômem= − ∑ Universitários 17- 27 anos Quadro 6 - Algumas formas de estimar a porcentagem de gordura corporal e densidade calórica em determinadas populações e faixas etárias / Fonte: adaptado de Petroski (1995). Diante de tudo o que estudamos nesta unidade, qual poderia ser uma logística de trabalho em uma clínica de nutrição? É possível usar aseguinte sugestão: 1. Estimar a densidade corporal do paciente. 2. Estimar a %GC do paciente; 3. Calcular a gordura corporal em kg, podendo utilizar a seguinte fórmula: % ( ) /100G GCxMassacorporal kg= 4. Calcular a porcentagem de massa magra: % 100 %MM G= − 5. Calcular massa em kg: ( )MM kg massatotal massagorda= − Vamos treinar esse cálculo? Considere que você atendeu o paciente L. N. V. Ele tem 28 anos, apresenta densidade corporal de 2,040 g.ml-1 e %GC de 18,75%. Qual seria a gordura corporal dele em kg? Em seguida, calcule a % de massa magra e o valor em kg. UNIDADE 5 181 % /100 18,75 80 /100 15 % 100 18,75% % 81,25% ( ) 80 15 65 G GCxmassacorporal G x G kg MM MM MM kg kg = = = = − = = − = A partir disso, confira todas as classificações pertinentes, alie aos dados de sua avaliação nutricional e realize a prescrição nutricional indicada. Em suma, a avaliação antropométrica pode ser considerada um método de fácil execução e de boa aplicabilidade, apesar dos mais variados modelos. Além disso, pode ser considerada um bom indicador de doenças relacionadas ao excesso de peso e adiposidade. Pode ser utilizada em grupos de pessoas saudáveis ou doentes. Logo, as medidas antropométricas podem ser consideradas indica- dores sensíveis de saúde, visando à detecção prévia de doenças relacionadas à obesidade e às doenças cardiovasculares. Compreendemos que a avaliação da composição corporal é de extrema importância para o diagnóstico do estado nutricional, tanto a nível indivi- dual quanto populacional, assim como para o estabelecimento de adequadas condutas clínicas. Durante a sua prática profissional, você poderá atender pacientes que apresentem excesso de gordura corporal ou aqueles que este- jam com gordura corporal abaixo do normal, quadros que poderão causar diversos comprometimentos no estado de saúde. Desse modo, é sua função avaliar cada quadro em específico visando a um excelente diagnóstico e prescrição alimentar. Aliado à avaliação, você pode contar com uma grande disponibilidade de métodos que permitem estimar a composição corporal. Conheça cada um de maneira adequada e o aplique de maneira específica, conhecendo as limitações e validade, objetivando sempre boas estimativas, o que proporciona confiáveis analises e interpretações. Lembre-se: só é experiente quem treina, estuda e aplica a antropometria. A precisão, a exatidão e a técnica só são con- quistadas com investimento e domínio do tema. Estude e terá uma incrível ferramenta de trabalho. Aliás, se você analisar a avaliação da composição corporal além da estimativa da porcentagem de gordura corporal terá uma outra ferramenta incrível para explorar, aplicar e se diferenciar a cada dia. 182 Caro(a) aluno(a), encerramos a nossa unidade! Todavia, antes, gostaria de convidá-lo a realizar uma Descrição da Imagem: a figura é composta por um retângulo colorido, dividido por algumas formas. Logo, há um retângulo com quatro pirâmides, cujas pontas de unem por meio de uma figura de um rosto que pisca e sorri no centro. As pirâmides têm as seguintes cores: verde-claro, rosa-claro, azul-claro e salmão. Em cada uma das pirâmides, encontram-se perguntas: o que ouve? O que pensa e sente? O que vê e o que fala e faz? Na base do retângulo, há outras duas formas em formato de retângulo nas cores rosa-claro e roxo-claro. Elas têm as seguintes perguntas: quais são as dores? Quais são as necessidades? 183 1. Leia o fragmento a seguir: “Uma das características desenvolvidas ao longo da evolução humana foi a capacidade de estocar energia na forma de gordura, uma característica que ocorre desde os nossos an- cestrais que encaravam condições extremas de sobrevivência. Com a evolução das espécies esta característica se tornou um ponto negativo, porque nas últimas décadas o homem vem desenvolvendo tecnologias para ajudá-lo a preservar energia e fazer menos esforços, trans- formando-o em um indivíduo obeso e hipocinético. Comumente é mostrada pela literatura a existência de inúmeros problemas relacionados ao excesso de peso, acúmulo ou perda ex- cessiva de gordura. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma epidemia do século XXI, destacando que existem 300milhões de pessoas nesta situação. Estes problemas podem ser diagnosticados, por exemplo, pela avaliação da composição corporal (CC), que ao longo dos tempos tem-se mostrado como potencial fonte de estudos por tratar- -se de ferramenta que busca quantificar os componentes do organismo humano, permitindo assim o acompanhamento em diversas variáveis da aptidão física relacionada com a saúde, doença e qualidade de vida das pessoas”. NEVES, E. B. et al. Comparação do percentual de gordura obtido por bioimpedância, ultrassom e dobras cutâ- neas em adultos jovens. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 19, n. 5, 2013. Considerando os seus conhecimentos sobre os malefícios do percentual de gordura abaixo do normal, indique esses malefícios e as suas justificativas. 2. Leia o trecho a seguir: “A avaliação da composição corporal é de extrema importância para o diagnóstico do estado nutricional individual e populacional e para o estabelecimento de condutas clínicas nutricionais adequadas. O excesso de gordura corporal está, frequentemente, associado a alteraçõesmeta- bólicas importantes e às doenças crônicas, como diabetes, hipertensão arterial e dislipidemias. É fundamental a disponibilidade de métodos que permitam estimar a composição corporal, sendo importante conhecer a limitação de cada um e a sua validade para que as estimativas obtidas sejam confiáveis e interpretadas corretamente”. REZENDE, F. A. C. et al. Critical revision of the available methods for evaluate the body composition in popula- tion- bases and clinical studies. Archivos Latinoamericanos de Nutrición, v. 57, n. 4, 2007. Sabendo da importância da avaliação da gordura corporal de forma individual e assertiva, calcule a DC e %GC da paciente a seguir pela fórmula de Siri (1961) e Durnin (1974) e, em seguida, classifique a %GC por Lohman (1988). Paciente do sexo feminino, 26 anos. Apresentou DCTríceps= 25,5mm, DCBíceps= 12,2mm, DCSubescapular=17,6mm, DCSuprailíaca= 18,7mm. 184 3. Suponha que você atenda a uma paciente do sexo feminino. Ela tem 30 anos, peso corporal de 49 kg, estatura de 160 cm, DCtríceps= 18mm; DCSubescapular= 13mm, DCBíceps= 11 mm; DCCrista ilíaca= 17 mm, DCSupraespinal= 13, DCAbdominal= 17mm, DCCoxa= 27mm, DCPan- turrilha= 16mm. Proponho a realização dos seguintes cálculos: 1. Calcule a densidade corporal por Durnin (1974). 2. Calcule a porcentagem de gordura corporal por Siri (1961). 3. Calcule a gordura corporal em kg. 4. Calcule a % de massa magra. 5. Calcule a massa magra em kg.