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As leucemias são classificadas em quatro tipos – leucemias agudas e crônicas, que, por sua vez, se subdividem em linfoides ou mieloides. Leucemias agudas em geral são doenças agressivas nas quais a transformação maligna ocorre em células-tronco da hematopoese ou em progenitores primitivos. Acredita-se que o dano genético envolva vários passos bioquímicos básicos, resultando em (i) aumento da velocidade de produção, (ii) diminuição da apoptose e (iii) bloqueio na diferenciação celular. Juntos, esses eventos causam um acúmulo de células hematopoéticas primitivas, os blastos. O aspecto clínico dominante da leucemia aguda é a insuficiência da medula óssea, causada pelo acúmulo de blastos, embora também costume ocorrer infiltração tecidual. Se não forem tratadas, as leucemias agudas são, via de regra, rapidamente fatais, mas, em contrapartida, também são mais fáceis de curar do que as leucemias crônicas. Leucemia aguda é definida pela presença de mais de 20% de blastos no sangue ou na medula óssea na apresentação clínica. Pode, entretanto, ser diagnosticada com menos de 20% de blastos no caso de haver anormalidades genético-moleculares especificamente associadas à leucemia. A linhagem dos blastos é definida pela morfologia ao microscópio, imunofenotipagem (citometria em fluxo), análise citogenética e molecular. Isso definirá a origem mieloide ou linfoide e localizará o estágio de diferenciação celular. As leucemias mieloides são um grupo de doenças heterogêneas que se caracterizam pela infiltração do sangue, medula óssea e outros tecidos por células neoplásicas do sistema hematopoiético. Essas leucemias compreendem um espectro de neoplasias malignas que, quando não tratadas, variam desde as rapidamente fatais às de crescimento lento. De acordo com sua evolução sem tratamento, as leucemias mieloides são tradicionalmente denominadas agudas ou crônicas. A incidência da leucemia mieloide aguda (LMA) é de 3,5 por 100.000 pessoas por ano, e a incidência ajustada para a idade é mais alta nos homens do que nas mulheres (4,3 vs. 2,9). A incidência da LMA aumenta com a idade; é de 1,7 nos indivíduos com < 65 anos de idade e de 15,9 naqueles com > 65 anos. A idade mediana por ocasião do diagnóstico é de 67 anos. A seguir estão as condições que foram implicadas no desenvolvimento da LMA. Nenhuma evidência direta sugere etiologia viral. Hereditariedade Certas síndromes com aneuploidia cromossômica de células somáticas, como, por exemplo, a trissomia do 21 (síndrome de Down), estão associadas a maior incidência de LMA. As doenças hereditárias com reparo de DNA defeituoso, como, por exemplo, anemia de Fanconi, síndrome de Bloom e ataxia-telangiectasia, também estão associadas à LMA. A neutropenia congênita (síndrome de Kostmann) é uma doença com mutações no receptor do fator estimulador das colônias dos granulócitos (G- CSF) e, frequentemente, neutrófilo elastase, que pode evoluir para a LMA. As síndromes mieloproliferativas também podem evoluir para a LMA. As mutações da linha germinativa da CCAAT/proteína a ligante ao amplificador (CEBPA), fator de transcrição relacionado com o runt (RUNXl) e proteína tumoral p53 (TP53) também foram associadas a maior predisposição à LMA em algumas séries. Radiação A radiação em alta dose, como aquela sofrida pelos sobreviventes das bombas atômicas no Japão, ou os acidentes com reatores nucleares, aumentam o risco de leucemias mieloides, que alcançam um pico dentro de 5 a 7 anos após a exposição. A radioterapia isoladamente parece aumentar pouco o risco de LMA, mas pode elevar o risco em indivíduos também expostos a agentes alquilantes. Substâncias químicas e outras A exposição ao benzeno, um solvente usado nas indústrias químicas, de plástico, borracha e farmacêutica, está associada a aumento na incidência da LMA. O tabagismo e a exposição a derivados do petróleo, tintas, líquidos conservantes, óxido de etileno, herbicidas e pesticidas também acarretam um aumento do risco de LMA. Fármacos Os fármacos anticâncer são as principais causas da LMA associada à terapia. As leucemias associadas a agentes alquilantes ocorrem, em média, 4 a 6 anos após a exposição, e os indivíduos acometidos apresentam aberrações nos cromossomos 5 e 7. As leucemias associadas aos inibidores da topoisomerase II ocorrem 1 a 3 anos após a exposição, e os indivíduos acometidos frequentemente apresentam aberrações do cromossomo l lq23. O cloranfenicol, a hematologia: leucemia Igor Mecenas fenilbutazona bem como, com menor frequência, a cloroquina e o metoxipsoraleno podem resultar em insuficiência da medula óssea, que pode evoluir para a LMA. A atual categorização das LMA utiliza a classificação da OMS, que inclui diferentes grupos biologicamente distintos com base nas manifestações clínicas e nas anormalidades citogenéticas e moleculares, além da morfologia. Ao contrário do esquema franco- americano-britânico (FAB) anteriormente usado, a classificação da OMS recorre à citoquímica de modo limitado. Uma importante diferença entre os sistemas da OMS e da FAB é o ponto de corte dos blastos para um diagnóstico de LMA, em oposição à síndrome mielodisplásica (SMD); é de 20% na classificação da OMS e de 30% na FAB. ALMA com 20 a 30% de blastos, como é definida pela classificação da OMS, pode beneficiar-se dos tratamentos para a SMD, que foram aprovados pela FDA com base em estudos clínicos que usaram os critérios da FAB. Os componentes selecionados da classificação da OMS são delineados a seguir. 1. LMA com anormalidades genéticas recorrentes: Reúne subtipos com translocações cromossômicas ou mutações genéticas específicas. A detecção dessas anormalidades define o tumor como LMA e, assim, o critério diagnóstico dispensa a necessidade de haver mais do que 20% de blastos na medula. Em geral, esses distúrbios têm um prognóstico melhor. 2. LMA com alterações relacionadas a mielodisplasia: Nesse grupo há sinais de mielodisplasia à microscopia em mais de 50% das células em, ao menos, duas linhagens. O prognóstico desses pacientes é pior que os do primeiro subgrupo. 3. Neoplasias mieloides relacionadas a tratamento (t-LMA): Surgem em pacientes que foram anteriormente tratados com fármacos como o etoposide ou agentes alquilantes. Costumam exibir mutações no gene MLL, e a resposta ao tratamento é, em geral, pobre. 4. LMA não especificada separadamente: Ausência de anormalidades citogenéticas. Constitui cerca de 30% de todos os casos. Mutações nos genes NPM e FLT3 são vistas respectivamente em 50 e 30% dos casos de LMA, e são mais frequentes naqueles que têm citogenética normal. 5. Sarcoma mieloide: É um raro tumor sólido composto por blastos mieloides. 6. Proliferações mieloides relacionadas à síndrome de Down: Crianças com SD têm um risco de leucemia consideravelmente aumentado. São reconhecidas duas variantes: (i) mielopoese anormal transitória, na qual há uma leucocitose leucemoide autolimitada; e (ii) LMA. Sintomas Os pacientes com LMA mais frequentemente exibem sintomas inespecíficos que começam de modo gradual ou abrupto e são consequência de anemia, leucocitose, leucopenia ou disfunção leucocitária, ou trombocitopenia. Quase metade dos pacientes apresenta sintomas por 3 meses ou menos antes do diagnóstico da leucemia. Metade dos pacientes menciona a fadiga como primeiro sintoma, porém a maioria se queixa de fadiga ou fraqueza no momento do diagnóstico. Anorexia e perda de peso são comuns. Febre, com ou sem uma infecção identificável, é o sintoma inicial em cerca de 10% dos pacientes. Em 5% dos pacientes, sinais de hemostasia anormal (hemorragia, fácil aparecimento de equimoses) são observados primeiro. Às vezes, dor óssea, linfadenopatia, tosse inespecífica, cefaleia ou sudorese constituem os sintomas à apresentação. Raramente, os pacientes apresentam sintomas de sarcoma mieloide, que é uma massa tumoral queconsiste em blastos mieloides, ocorrendo em locais anatômicos distintos da medula óssea. Os locais acometidos são mais comumente a pele, os linfonodos, o trato gastrintestinal, os tecidos moles e os testículos. Essa apresentação rara caracteriza-se, mais frequentemente, por aberrações cromossômicas (p. ex., monossomia do 7, trissomia do 8, rearranjo do MLL, inv[16], trissomia do 4, t[8;21]), que podem preceder ou coincidir com a LMA. Achados físicos Com frequência, ao diagnóstico há febre, esplenomegalia, hepatomegalia, linfadenopatia, hipersensibilidade esternal bem como evidências de infecção e hemorragia. Sangramento gastrintestinal significativo, hemorragias intrapulmonar ou intracraniana ocorrem com maior frequência na LPA. A hemorragia associada a coagulopatia também pode ocorrer na LMA monocítica e com graus extremos de leucocitose ou trombocitopenia em outros subtipos morfológicos. Hemorragias retinianas são detectadas em 15% dos pacientes. Infiltração das gengivas, pele, tecidos moles ou meninges com blastos leucêmicos ao diagnóstico é típica dos subtipos monocíticos e daqueles com anormalidades cromossômicas em llq23. Achados hematológicos Em geral, anemia está presente no momento do diagnóstico e pode ser intensa. O grau varia independentemente de outros achados hematológicos, da esplenomegalia ou da duração dos sintomas. Frequentemente, a anemia é do tipo normocítica normocrômica. A menor eritropoiese muitas vezes reduz a quantidade de reticulócitos, e a sobrevida eritrocitária diminui devido à destruição acelerada. A perda ativa de sangue também contribui. A contagem mediana dos leucócitos à apresentação é de aproximadamente 15.000/µL. Entre 25 e 40% dos pacientes apresentam contagens <5.000/µL e 20% contagens> 100.000/µL. Menos de 5% não apresentam células leucêmicas detectáveis no sangue. A morfologia da célula maligna varia em diferentes subgrupos. Na LMA, o citoplasma frequentemente contém grânulos primários (não específicos), e o núcleo apresenta cromatina fina, rendada com um ou mais nucléolos típicos de células imaturas. Os grânulos anormais em forma de bastões de Auer, não estão presentes de maneira uniforme, mas quando estão, a linhagem mieloide é virtualmente certa. A função neutrofílica inadequada pode ser observada por meio do comprometimento da fagocitose e da migração, e morfologicamente por meio de lobulação anormal e granulação deficiente. Contagens plaquetárias <100.000/µL são encontradas, ao diagnóstico, em cerca de 75% dos pacientes, e cerca de 25% apresentam contagens< 25.000/µ,L. Podem ser observadas anormalidades plaquetárias morfológicas e funcionais, como formas grandes e bizarras com granulação anormal e incapacidade de as plaquetas se agregarem ou aderirem normalmente entre si. Avaliação pré-tratamento Quando houver a suspeita do diagnóstico de LMA, deve-se empreender uma rápida avaliação e instituir a terapia adequada. Além de esclarecer o subtipo de leucemia, os exames iniciais devem avaliar a integridade funcional geral dos principais sistemas orgânicos, como o cardiovascular, pulmonar, hepático e renal. Os fatores de importância para o prognóstico, seja para obter uma remissão completa (RC), ou para prever a duração da RC, também devem ser avaliados antes de iniciar o tratamento, incluindo citogenética e marcadores moleculares (pelo menos mutações NMPl e CEBPA e FLT3-ITD na LMA-CN). Devem-se obter células leucêmicas de todos os pacientes, que são criopreservadas para uso futuro, à medida que surgem novos testes e tratamentos disponíveis. Todos os pacientes devem ser avaliados quanto à possibilidade de infecção. A reposição com hemocomponentes adequados, se necessário, deve começar imediatamente. Como a disfunção plaquetária qualitativa ou presença de infecção podem aumentar a probabilidade de sangramento, evidências de hemorragias justificam o uso imediato de transfusão de plaquetas, ainda que a contagem das plaquetas se encontre apenas moderadamente diminuída. Cerca de 50% dos pacientes exibem elevação leve a moderada do ácido úrico sérico à apresentação. Apenas 10% têm elevações acentuadas, porém a precipitação renal de ácido úrico e a nefropatia resultante são complicações graves, porém raras. O início da quimioterapia pode agravar a hiperuricemia, e os pacientes em geral recebem a administração imediata de alopurinol bem como hidratação no momento do diagnóstico. Rasburicase (ácido úrico oxidase recombinante) também é útil para o tratamento da nefropatia por ácido úrico e com frequência pode normalizar o nível sérico de ácido úrico em um período de horas com uma única dose de tratamento. A presença de altas concentrações de lisozima, marcador da diferenciação monocítica, pode ser etiológica na disfunção tubular renal, a qual pode agravar outros problemas renais que surgem durante as fases iniciais do tratamento. A finalidade do tratamento é a indução de remissão completa e então, consolidá-la com quimioterapia intensiva na esperança de eliminar a doença. Transplante de células-tronco é considerado em casos de mau prognóstico ou recidivas. Muitos fatores influenciam a probabilidade de alcançar a remissão completa (RC), sua duração e a curabilidade da LMA. A RC é definida após o exame do sangue e da medula óssea. A contagem dos neutrófilos deve ser >1.000/µL e a das plaquetas >100.000/µL. A concentração de hemoglobina não é considerada na determinação da RC. Não deve haver blastos circulantes. Embora possam ser detectados raros blastos no sangue durante a regeneração da medula óssea, eles deverão desaparecer nos exames sucessivos. A medula óssea deve conter menos de 5% de blastos e não deve haver bastões de Auer. Não deve existir leucemia extramedular. Suporte Inserção de cateter venoso central, suporte hemoterápico e prevenção da síndrome de lise tumoral. A contagem de plaquetas deve ser mantida acima de 10 bilhões/L e a hemoglobina acima de 8 g/dL. Qualquer episódio de febre deve ser imediatamente tratado. A leucemia promielocítica exige suporte especial. Tratamento Específico É determinado pela idade e o estado físico do paciente, mas também pelas alterações genéticas das células leucêmicas. Em pacientes mais jovens, o tratamento consiste em quimioterapia intensiva. Costuma ser feito em quatro blocos de aproximadamente uma semana cada. Os fármacos usuais são citarabina e daunorrubicina (ambos em doses convencionais ou em altas doses); idarrubicina, mitoxantrona e etoposide também são usados em vários protocolos. Os fármacos são mielotóxicos com seletividade limitada entre as células leucêmicas e as células medulares normais, de modo que a insuficiência medular decorrente do tratamento é severa, exigindo suporte intensivo e prolongado. Tratamento de manutenção não tem valor, exceto na LMA promielocítica, e profilaxia ao SNC geralmente não é feita. Fármacos novos estão sendo introduzidos, como inibidores de FLT3 para tumores com essa mutação. Imunoconjugados monoclonais com alvo em CD33 (Mylotarg) ou em CD45 proporcionam mais uma escolha terapêutica. A síndrome de ATRA (de diferenciação) é uma complicação específica que pode surgir devido ao tratamento com ácido all-trans retinóico (ATRA). Problemas clínicos, que parecem ser devidos à neutrofilia que surge pela diferenciação dos promielócitos da medula óssea, incluem febre, hipóxia com infiltrados pulmonares e retenção com sobrecarga de líquidos. O tratamento é feito com 10 mg de dexametasona, duas vezes ao dia, e só se suspende o ATRA em casos excepcionalmente graves. Para os pacientes que se encontram em RC morfológica, a imunofenotipagem para detectar populações muito pequenas de blastos, a reação em cadeia da polimerase com transcriptase reversa (PCR-TR), para detectar anormalidades moleculares associadas à LMA e a citogenética da metáfase ou citogenética da interfase por hibridização in situ por fluorescência(FISH), para detectar aberrações citogenéticas associadas à LMA, estão sendo atualmente investigadas para avaliar a presença de doença residual de importância clínica após o tratamento. A detecção de doença residual mínima pode passar a constituir um discriminador confiável entre pacientes em RC, que necessitam ou não de terapias adicionais e/ou alternativas. Na LPA, a detecção da transcrição do gene de fusão PML-RARA pela PCR-TR na medula óssea e/ou no sangue durante uma RC antecipa a ocorrência de recidiva, e esse ensaio está sendo usado de modo rotineiro na clínica para antecipar a recidiva clínica e iniciar o tratamento de resgate no momento oportuno. Em outros tipos de LMA, a importância clínica da doença residual mínima requer mais investigação. A idade ao diagnóstico encontra-se entre os fatores de risco pré-tratamento mais importantes. O aumento da idade está associado a prognóstico pior, em parte devido à sua influência sobre a chance do paciente de sobreviver à terapia de indução. A idade também influencia o resultado porque a LMA em pacientes idosos difere biologicamente. As células leucêmicas nos pacientes idosos expressam mais frequentemente CD34 e a bomba de efluxo de resistência a múltiplos fármacos 1 (MDRl), que confere resistência aos agentes derivados de produtos naturais, como as antraciclinas (ver adiante). A cada década sucessiva de idade, uma proporção maior de pacientes apresenta doença mais resistente. As doenças crônicas e intercorrentes comprometem a tolerância à terapia rigorosa; problemas clínicos agudos ao diagnóstico reduzem a probabilidade de sobrevida. O estado de desempenho também influencia, independentemente da idade, a chance de sobreviver à terapia de indução e, desse modo, responder ao tratamento. Um intervalo sintomático prolongado com citopenias precedendo o diagnóstico, ou história de distúrbio hematológico antecedente, é outra manifestação clínica pré-tratamento associada a taxa de RC mais baixa e menor tempo de sobrevida. A taxa de RC é mais baixa nos pacientes que apresentam anemia, leucopenia e/ou trombocitopenia durante 3 meses antes do diagnóstico de LMA quando comparada com a dos pacientes sem essa história. A capacidade de resposta à quimioterapia diminui conforme a duração do distúrbio (ou distúrbios) antecedente aumenta. ALMA secundária que se desenvolve após tratamento com agentes citotóxicos para outros cânceres em geral é difícil de tratar com sucesso. Uma contagem de leucócitos elevada no início, em algumas séries, constitui um fator prognóstico independente para obter uma RC. Entre os pacientes com hiperleucocitose (> 100.000/µL), o sangramento precoce no sistema nervoso central e a leucostase pulmonar contribuem para um desfecho sombrio com o tratamento inicial. Os achados cromossômicos por ocasião do diagnóstico constituem, atualmente, o fator prognóstico independente mais importante. Os pacientes com t(15;17) apresentam um prognóstico muito favorável (aproximadamente 85% são curados), e aqueles com t(8;21) e inv(16) têm um prognóstico satisfatório (aproximadamente 55% são curados), enquanto os pacientes sem nenhuma anormalidade citogenética têm um desfecho moderadamente favorável (aproximadamente 40% são curados). Os pacientes com cariótipo complexo, t(6;9), inv(3) ou -7, apresentam um prognóstico muito reservado. Para os pacientes que carecem de anormalidades citogenéticas de valor prognóstico, como aqueles com LMA-CN, a previsão do desfecho utiliza anormalidades genéticas moleculares. Foi constatado que as mutações NPMl sem a presença concomitante de FLT3-ITD e as mutações CEBPA, particularmente quando presentes concomitantemente em dois alelos diferentes, fornecem uma previsão de prognóstico favorável, enquanto FLT3-ITD indica um prognóstico reservado. Tendo em vista a importância prognóstica das mutações NPMl e CEBPA e do FLT3-ITD, a identificação molecular desses genes por ocasião do diagnóstico foi incorporada nas diretrizes de manejo da LMA pelo National Comprehensive Cancer Network (NCCN) e pelo European Leukemia Net (ELN). No futuro, out ras aberrações moleculares poderão ser utilizadas para definir o prognóstico. Além das variáveis pré-tratamento, como idade, contagem de leucócitos e citogenética e/ou aberrações genéticas moleculares, diversos fatores do tratamento correlacionam-se com o prognóstico na LMA, incluindo, o que é mais importante, a obtenção de uma RC. Além disso, os pacientes que alcançam uma RC após um ciclo de indução apresentam uma duração mais longa de RC do que aqueles que necessitam de múltiplos ciclos. A Leucemia Linfoide Aguda (LLA) é causada pelo acúmulo de linfoblastos na medula óssea e é a doença maligna mais comum na infância. Em adultos é bem mais rara, representando apenas 15% de todas as leucemias: compreende aproximadamente 15% das leucemias agudas, tendo maior incidência entre 25 e 37 anos. Assim, essa doença tem dois picos de incidência, um entre os dois e cinco anos e outro por volta dos 30 a 40 anos. Diferindo das crianças, nas quais a sobrevida de subtipos específicos pode chegar a ser de 80 a 90% em cinco anos, a sobrevida para os adultos é de apenas 20 a 30% nesse mesmo tempo. Há importante variação geográfica na incidência da doença, a qual é mais frequente entre as populações do Norte e do Oeste da Europa, América do Norte e Oceania. No Brasil, a incidência de LLA nos adultos na região de Ribeirão Preto é de aproximadamente 6,5 casos/milhão de pessoas/ano. A etiologia é desconhecida, e existe a sugestão da participação de fatores genéticos. É variada. Certos polimorfismos da linha germinal em um grupo de genes envolvidos no desenvolvimento de células B (IKZF1) são mais comuns em pacientes com LLA-B do que em controles. Curiosamente, IKZF1 também é deletado nas células leucêmicas em 30% dos casos de LLA-B de alto risco e em 95% dos casos de LLA-B BCR-ABL1 positivos. Em certo número de casos, o evento inicial ocorre no feto, in útero, com um evento secundário possivelmente desencadeado por uma infecção na infância. O primeiro evento é uma translocação (p. ex., t[12;21]) ou uma mutação pontual. O segundo evento envolve alterações no número de cópias em todo o genoma, sendo que algumas codificam funções relevantes à leucemogênese. É subclassificada pela OMS (2008) de acordo com os defeitos genéticos subjacentes. Na classificação da LLA-B há vários subtipos geneticamente caracterizados. Na LLA-T, um cariótipo anormal é encontrado em 50-70% dos casos e a via sinalizadora NOTCH está ativada na maioria dos casos. As queixas mais comuns derivam da supressão da hematopoese normal causada pela infiltração da medula óssea por células leucêmicas. Assim, estão presentes sintomas progressivos de palidez, fraqueza, cansaço e indisposição. Febre e sudorese noturna, associadas ou não a infecções, aparecem em um terço dos casos, o mesmo ocorrendo com manifestações hemorrágicas em pele e mucosas. Artralgia e dor óssea são menos frequentes em adultos do que em crianças e resultam da infiltração leucêmica com distensão do periósteo ou estruturas periarticulares. Manifestações neurológicas, como confusão mental, cefaleia e comprometimento de nervos cranianos (VI e VII pares geralmente) resultam de infiltração leucêmica, de hemorragia no SNC ou de leucostase. Além dos achados no exame físico de anemia, infecção e manifestações hemorrágicas, aproximadamente 50% dos pacientes se apresentam com hepato-esplenomegalia e ou enfartamento ganglionar. Massa mediastinal é demonstrada em aproximadamente 15% dos casos e está associada, na maioria desses pacientes, à proliferação de linfoblastos T. Sinais clínicos decorrentes da infiltração do SNC ocorrem em 5 a 10 % das LLA do adulto e incluem cefaleia, edema de papila e comprometimento de nervos cranianos. Lesões ósseas, infiltração de testículos, pele, rins ou pulmões são diagnosticadosem 0,5 a 1% dos pacientes. O diagnóstico é feito pelo exame de sangue periférico e esfregaços de medula óssea. Em 15% dos pacientes a aspiração de medula óssea é insatisfatória para o diagnóstico, sendo necessária a biópsia. Os linfoblastos não se coram (<3% de blastos apresentam grânulos amarronzados ou negros no citoplasma) nas colorações citoquímicas de Sudan Black e para mieloperoxidase, as quais são frequentemente positivas em células da linhagem meloide. As colorações para as esterases também são negativas na LLA. A reação do PAS (ácido periódico de Schiff), que não é específica para a LLA, é positiva em 70% dos casos com grânulos grosseiros ou em blocos. A reação da fosfatase ácida é positiva em apenas 20 a 30% das LLA do adulto, e sua positividade é sugestiva de envolvimento da linhagem T. Tratamento de Suporte O tratamento geral de suporte na insuficiência da medula óssea inclui a inserção de uma cânula intravenosa central, suporte hemoterápico e prevenção da síndrome de lise tumoral. Qualquer episódio febril deve ser imediatamente tratado. Tratamento Específico Quimioterapia e às vezes radioterapia. Os protocolos são bastante complexos. Há várias fases em um ciclo de tratamento que, em geral, tem quatro componentes. Os protocolos são risco-ajustados para reduzir a intensidade do tratamento dado a pacientes de melhor prognóstico. Os fatores que guiam o tratamento incluem idade, sexo e contagem de leucócitos (blastos) à apresentação. A resposta inicial ao tratamento também é importante, pois a eliminação lenta dos blastos do sangue e da medula após uma ou duas semanas de tratamento de indução, ou persistência de doença residual mínima associam-se a risco relativamente alto de recidiva. LLA em lactentes tem prognóstico pior, com curabilidade de apenas 20-50%. • Na indução da remissão, o objetivo é destruir rapidamente a maioria das células tumorais e levar o paciente ao estado de remissão, em que há menos de 5% de blastos na medula óssea. São usados habitualmente dexametasona, vincristina e asparaginase, e são muito eficazes, induzindo remissão em mais de 90% das crianças e em 80 a 90% dos adultos (nos quais geralmente acrescenta-se daunorrubicina). • Os ciclos de intensificação usam altas doses de quimioterapia com múltiplos fármacos para diminuir a carga tumoral a níveis muito baixos ou eliminá-la. As doses são próximas ao limite de tolerância, daí a necessidade de suporte intensivo durante os blocos de intensificação. Protocolos típicos incluem vincristina, ciclofosfamida, citarabina, daunorrubicina, etiposide ou mercaptopurina, administradas como blocos em diferentes combinações. • O tratamento dirigido ao SNC necessita de fármacos específicos pela dificuldade de atingir o líquor. As opções são altas doses de metotrexato IV, metotrexato ou citarabina por via intratecal, ou irradiação do crânio, que vem sendo evitada. • A manutenção dura 2 anos em meninas e adultos e 3 anos em meninos, com doses diárias de mercaptopurina e metotrexato uma vez por semana, ambos VO. Acrescenta- se uma dose de vincristina IV e 5 dias de dexametasona oral, uma vez por mês ou a cada 3 meses em adultos. O tratamento em adultos continua problemático em comparação com o significativo sucesso em crianças. A frequência de recidiva é muito mais alta e não mais de 40% dos adultos permanecem libres de leucemia após 5 anos. O diagnóstico de LMC é estabelecido pela identificação de uma expansão clonal de célula- tronco hematopoiética com translocação recíproca entre os cromossomos 9 e 22, a qual resulta na fusão sequencial do gene da região do grupo de quebra (BCR) no cromossomo 22q11 com o gene ABLl (denominado segundo o vírus da leucemia murina de Abelson) localizado no cromossomo 9q34. Quando não é tratada, a doença caracteriza-se pela transição inevitável de uma fase crônica para uma acelerada e uma crise blástica em um tempo médio de 4 anos. A incidência da leucemia mieloide crônica (LMC) é de 1,5 por 100.000 pessoas por ano, e a incidência ajustada para a idade é mais alta nos homens do que nas mulheres (1,9 vs. 1,1). A incidência da LMC aumenta lentamente com a idade, até cerca de 45 anos, quando começa a elevar-se rapidamente. A incidência da LMC em mulheres diminuiu ligeiramente (1,8%) entre 1994 e 2006, em comparação com o período de 1975-1994. Não foi encontrada qualquer correlação clara com a exposição a fármacos citotóxicos, e não existe evidência direta que sugira uma etiologia viral. Na época anterior ao imatinibe, o tabagismo acelerava a progressão para crise blástica e, por isso, afetava a sobrevida da LMC de maneira adversa. Os sobreviventes da bomba atômica apresentaram um aumento da incidência; o desenvolvimento de massa celular de LMC de 10.000/µL demorou 6,3 anos. Não foi encontrado aumento na incidência da LMC nos sobreviventes do acidente de Chernobyl, sugerindo que apenas doses altas de radiação induzem à LMC. O diagnóstico raramente é difícil; é confirmado pela presença característica do cromossomo Filadélfia (Ph). Ele resulta da translocação t(9;22) (q34;q11) entre os cromossomos 9 e 22, em que parte do oncogene ABL1 é transferida para o gene BCR no cromossomo 22 e parte do cromossomo 22 é transferida para o cromossomo 9. O cromossomo 22 anormal é o cromossomo Ph. Na translocação Ph, éxons 5’do BCR são fundidos nos éxons 3’ do ABL1. O gene quimérico BCR-ABL1 resultante codifica uma proteína de fusão (p210) com atividade de tirosinoquinase excessiva em relação ao produto normal do ABL1. A translocação Ph também é observada em uma minoria de casos de leucemia linfoblástica aguda. Na maioria dos pacientes, o cromossomo Ph é visto pela análise do cariótipo. Em raros pacientes, a anormalidade Ph não pode ser vista à microscopia, mas o mesmo rearranjo molecular é detectado por técnicas mais sensíveis. Progressão da doença Os eventos associados à transição para a fase aguda, ocorrência comum na época anterior ao imatinibe, foram extensamente estudados. A instabilidade cromossômica do clone maligno, resultando, por exemplo, na aquisição de uma t(9;22) adicional, na trissomia do 8 ou em l 7p-(perda de TP53) constitui uma característica básica da LMC. A aquisição dessas anormalidades genéticas e/ou moleculares adicionais é fundamental para a transformação fenotípica. Alterações estruturais heterogêneas do gene TP53, bem como alterações estruturais e falta de produção de proteína do gene do retinoblastoma 1 (RBl) e componente catalítico da telomerase, foram associadas à progressão da doença em um subgrupo de pacientes. Em raros casos, pacientes apresentaram alterações no homólogo do oncogene virai do sarcoma murino (RAS). Relatos esporádicos também documentam a presença de um gene homólogo do oncogene virai da mielocitomatose v- myc (aviário) (MYC). A metilação do DNA de novo progressiva no locus BCRJABLl e a hipometilação do promotor do retrotransposon-LINE-1 anunciam a transformação blástica. Além disso, a interleucina 1 pode estar envolvida na progressão de LMC para a fase blástica. Ademais, a inativação funcional da proteína supressora tumoral fosfatase A2 pode ser necessária para a transformação blástica. Por fim, a LMC que desenvolve resistência ao imatinibe apresenta um risco aumentado de progressão para uma fase acelerada/blástica. Existem múltiplas vias para a transformação da doença, porém o momento exato e a relevância de cada uma delas permanecem incertos. O início clínico da fase crônica geralmente é insidioso. Assim, alguns pacientes são diagnosticados, enquanto ainda se encontram assintomáticos, durante exames de rotina; outros pacientes apresentam fadiga, mal-estar e perda de peso, ou têm sintomas resultantes de esplenomegalia, como saciedade precoce e dor ou massa no quadrante superior esquerdo. Manifestações menos comuns são as relacionadas com disfunção granulocítica ou plaquetária,como infecções, trombose ou hemorragia. Alguns pacientes apresentam manifestações leucostáticas devido à leucocitose intensa ou trombose, como doença vasoclusiva, acidente vascular encefálico, infarto do miocárdio, trombose venosa, priapismo, perturbações visuais e insuficiência pulmonar. Os pacientes com LMC p2308CRIABLI-positiva apresentam evolução mais lenta. A progressão da LMC está associada ao agravamento dos sintomas. Febre inexplicada, perda ponderal significativa, crescente necessidade de fármacos para controlar a doença, dores óssea e articular, sangramento, trombose e infecções sugerem transformação para as fases acelerada ou blástica. Menos de 10 a 15% dos pacientes recém- diagnosticados se apresentam com doença na fase acelerada ou blástica. Achados físicos O achado físico mais comum é a esplenomegalia mínima a moderada; a hepatomegalia leve é eventual. Esplenomegalia persistente apesar de terapia contínua é um sinal de aceleração da doença. Linfadenopatia e sarcomas mieloides são raros, exceto nos estágios avançados da doença; quando presentes, o prognóstico é sombrio. Achados hematológicos Contagens elevadas dos leucócitos, com aumentos tanto dos granulócitos imaturos quanto dos maduros, estão presentes ao diagnostico. Geralmente, observam-se menos de 5% de blastos circulantes bem como menos de 10% de blastos e promielócitos, sendo a maioria das células constituída de mielócitos, metamielócitos e bastões. A alternância das contagens pode ser observada em pacientes acompanhados sem tratamento. As contagens plaquetárias encontram-se quase sempre elevadas no momento do diagnóstico, e existe um grau leve de anemia normocítica normocrômica. A fosfatase alcalina leucocitária é baixa nas células da LMC. Em geral, as funções fagocitárias são normais ao diagnóstico e permanecem assim durante a fase crônica. A produção de histamina secundária à basofilia mostra- se aumentada nos estágios posteriores, provocando prurido, diarreia e rubor. Ao diagnóstico, a celularidade da medula óssea está aumentada com um incremento da razão mieloide eritroide. Em geral, a porcentagem de blastos na medula óssea é normal ou um pouco elevada. Pode haver basofilia, eosinofilia e monocitose medular ou sanguínea. Embora fibrose colagênica na medula óssea seja rara ao diagnóstico, graus significativos de fibrose, medidos pela coloração de reticulina, são observados em 50% dos pacientes. A aceleração da doença é definida pelo desenvolvimento de graus crescentes de anemia inexplicada por sangramento ou terapia; evolução clonal citogenética; ou blastos sanguíneos ou medulares entre 10 e 20%, 20% ou mais de basófilos sanguíneos ou medulares, ou contagem plaquetária <100.000/µL. A crise blástica é definida como leucemia aguda, com 20% ou mais de blastos sanguíneos ou medulares. Podem surgir neutrófilos hipossegmentados (anomalia de Pelger-Huet). As células blásticas podem ser classificadas como mieloides, linfoides, eritroides ou indiferenciadas, com base nas características morfológicas, citoquímicas e imunológicas. A ocorrência de crise blástica "de novo'' ou após terapia com imatinibe é rara. Achados cromossômicos A marca citogenética da LMC, encontrada em 90 a 95% dos pacientes, é a t(9;22)(q34;qll,2). Originalmente, essa alteração era reconhecida pela presença de um cromossomo 22 encurtado (22q-), denominado cromossomo Philadelphia, que surge da translocação recíproca t(9;22). Alguns pacientes apresentam translocações complexas (denominadas translocações variantes) que envolvem 3, 4 ou 5 cromossomos (em geral, incluindo os cromossomos 9 e 22). Contudo, as consequências moleculares dessas alterações são semelhantes às resultantes da t(9;22) típica. Todos os pacientes devem apresentar evidências da translocação, seja molecularmente, por meio de citogenética ou FISH para estabelecer o diagnóstico de LMC. Tratamento da fase crônica Inibidores da tirosinoquinase (TKI): Imatinibe foi desenvolvido como inibidor específico da proteína de fusão BCR-ABL1 e bloqueia a atividade da tirosinoquinase por competir com a ligação de ATP. É o fármaco de primeira linha no tratamento da fase crônica da doença. Na dose de 400 mg/dia, produz uma resposta hematológica completa em quase todos os pacientes. Efeitos colaterais incluem exantema, retenção de líquido, cãibras musculares e náusea. Podem ocorrer neutropenia e trombocitopenia e pode haver necessidade de redução da dose ou suspensão. A avaliação da resposta começa com exames regulares da medula óssea ou sangue (a cada 3-6 meses). A resposta citogenética completa (CCyR) é definida como ausência de metáfases Ph-positivas na medula. Quando a CCyR é atingida, a monitoração continua com quantificação dos transcritos BCR-ABL1 no sangue por PCR em intervalos regulares. Inibidores de segunda geração da tirosinoquinase: Desatinibe é um inibidor amplo, de muitas quinases, eficaz em muitos casos em que o gene BCR-ABL1 sofreu mutações que o tornaram resistente ao imatinibe. Tem como efeito colateral uma severa retenção de fluidos. Nilotinibe tem ação similar ao imatinibe, mas com maior afinidade pela quinase BCR-ABL1. Pode ser eficaz em caso de mutações resistentes. Quimioterapia Hidroxicarbamida (antes designada hidroxiureia) pode manter a contagem de leucócitos na fase crônica, mas não reduz a porcentagem de células BCR-ABL1 positivas. O agente alquilante bussulfano também é eficaz no controle da doença, mas seus efeitos colaterais a longo prazo são consideráveis e atualmente é pouco usado. O imatinibe substituiu de forma ampla ambos. Transplante de células-tronco Discutido posteriormente. O desfecho clínico dos pacientes com LMC é variável. Antes do mesilato de imatinibe, a morte era esperada em 10% dos pacientes em 2 anos e em cerca de 20% ao ano nos anos subsequentes, e o tempo de sobrevida mediano era de cerca de 4 anos. Assim, foram desenvolvidos diversos modelos prognósticos que identificam diferentes grupos de risco na LMC. Os sistemas de estadiamento usados com maior frequência derivam de análises multivariadas dos fatores prognósticos. O índice Sokal identificou a porcentagem de blastos circulantes, o tamanho do baço, a contagem das plaquetas, a idade e a evolução clonal citogenética como os indicadores prognósticos mais importantes. Esse sistema foi desenvolvido com base nos pacientes submetidos à quimioterapia. O sistema de Hasford foi desenvolvido com base em pacientes tratados com interferon (IFN) et. Ele identificou, como os indicadores prognósticos mais importantes, a porcentagem de blastos circulantes, tamanho do baço, contagem das plaquetas e idade, bem como porcentagem de eosinófilos e basófilos. Esse sistema difere do índice de Sokal por ignorar a evolução clonal e incorporar a porcentagem de eosinófilos e basófilos. Quando aplicado a um conjunto de 272 pacientes tratados com IFN-et, o sistema de Hasford foi melhor que o escore de Sokal para predizer o tempo de sobrevida; identificou maior número de pacientes de baixo risco, mas situou apenas um pequeno número de casos no grupo de alto risco. Resultados preliminares sugerem que tanto o sistema de Sokal quanto o de Hasford são aplicáveis aos pacientes tratados com imatinibe. Várias doenças são incluídas neste grupo, caracterizado por acúmulo de linfócitos maduros no sangue, de tipo celular B ou T. Há alguma sobreposição com os linfomas. Em muitos casos de linfoma, células linfomatosas são encontradas no sangue, e a distinção entre leucemia crônica e linfoma é arbitrária, dependendo da proporção relativa da doença nos demais tecidos, em comparação com o sangue e a medula óssea. Em geral, as doenças são incuráveis, mas costumam ter uma evolução crônica e flutuante. A Leucemia Linfocítica Crônica-B (LLC-B) é a mais comum das doenças linfoproliferativas crônicas. A idade mediana dos pacientes ao diagnóstico é 65 anos, sendo rara (apenas10% dos casos) em pessoas com menos de 50 anos. A incidência anual é de 2 a 6 casos por 100 mil habitantes, aumentando com a idade, chegando a 12,8 casos/100 mil habitantes aos 65 anos, e a 30 casos/100 mil acima dos 80 anos. Nos países ocidentais, a LLC-B representa 30% de todas as leucemias, em contraste com os países asiáticos, onde corresponde a apenas 5% do total. Na maioria das séries ela é mais frequente em homens do que em mulheres, na proporção de 2:1. Em geral o diagnóstico é feito pelas características morfológicas das células neoplásicas no sangue periférico e nos esfregaços de medula óssea. Entretanto, muitas vezes a análise da histologia da medula óssea, gânglios linfáticos e baço são indispensáveis para o diagnóstico. Finalmente, estudos citogenéticos e de biologia molecular podem ser necessários para o estabelecimento do diagnóstico correto. A etiologia da LLC é desconhecida. A existência de casos familiares sugere uma predisposição genética, pelo menos em alguns pacientes. Fatores ambientais representados pela exposição a agentes químicos e derivados do petróleo estão associados ao aumento do risco para a doença. A origem celular da LLC-B não está completamente elucidada, mas um linfócito B, que já tenha tido contato prévio com antígenos, parece ser um dos candidatos. Contudo, não está definido se um único ou múltiplos precursores dão origem à LLC. Como a maioria das células encontra-se na fase G0 do ciclo celular, o aumento da massa de linfócitos no organismo resulta do acúmulo dessas células, e não da sua rápida proliferação. Os linfócitos da LLC apresentam sobrevida longa, que seria determinada pela inibição do apoptose. A LLC tem um fenótipo de membrana diferente das demais doenças linfoproliferativas B. Os linfócitos da LLC são da linhagem B (CD19, CD20, CD21, CD23, CD24, CD37, CD79b- e FMC7). Caracteristicamente, expressam o antígeno CD5, que é um marcador de linhagem T, e imunoglobulina de superfície de membrana (IgSm) de baixa densidade, usualmente IgM ou IgM e IgD, monoclonal kappa ou lambda. CD22 está ausente ou possui expressão fraca. A positividade com o CD200 é importante na diferenciação com outras doenças linfoproliferativas B CD5+, principalmente o linfoma do manto, onde esse marcador é negativo. Esses achados imunofenotípicos únicos são compostos em um sistema de pontuação que é útil para distinguir a LLC de outras doenças linfoproliferativas crônicas B. Na LLC 87% dos casos tem score 4 ou 5; 10%, score 3; 3%, score 2, e <1%, score 0 ou 1. Por outro lado, entre os linfomas não Hodgkin em fase leucêmica, 72% têm score 0 a 1; 23%, score 2; 4%, score 3; e <1%, score 4 ou 5. Aproximadamente 80% dos pacientes com LLC têm anormalidades citogenéticas detectadas pelo FISH: deleção 13q- em 50% dos casos, deleção 11q- em 23%, trissomia 12 em 20%, rearranjos 14q32 em 28% e deleção 17 p- em 14%. Essas alterações têm valor prognóstico, sendo as deleções 11q- e 17p- associadas a mau prognóstico. Algumas alterações citogenéticas parecem estar associadas a achados hematológicos específicos: por exemplo, a trissomia 12 é mais comum na LLC atípica, com aumento de prolinfócitos. A progressão da doença está associada, em até 40% dos casos, à evolução cariotípica. A grande maioria dos pacientes é assintomática por ocasião do diagnóstico, e a doença é identificada em um exame de rotina. Nos pacientes sintomáticos, os achados mais comuns são a linfoadenopatia generalizada, perda de peso e cansaço. Os gânglios são geralmente pequenos, mas podem ser muito volumosos. Nas duas situações eles têm consistência normal, sendo móveis e indolores. Hepatomegalia é detectada em metade dos pacientes. A esplenomegalia em geral não é volumosa, e o enfarto esplênico é muito mais raro do que na leucemia mieloide crônica ou leucemias agudas. Além disso, a infiltração leucêmica pode ocorrer praticamente em todas as partes do corpo incluindo as tonsilas, meninges e pele. Sintomas e sinais de anemia podem estar presentes, mas raramente são intensos. Petéquias e equimoses são raras. Infecções bacterianas, em geral pneumonias, são frequentes. Em 3 a 15% dos casos durante a evolução da doença ocorre a síndrome de Richter, caracterizada, na maioria das vezes, pelo aparecimento de um linfoma difuso de grandes células, podendo se manifestar por febre, emagrecimento, sudorese, aumento da linfoadenopatia, anemia, trombocitopenia e gamopatia monoclonal. O prognóstico da síndrome de Richter é muito ruim, com sobrevida mediana de 6 meses. Em menos de 1% dos casos ocorre a evolução para linfoma de Hodgkin. Além disso, a LLC pode evoluir lentamente, durante anos, com o aumento progressivo de prolinfócitos e a piora da anemia, trombocitopenia, esplenomegalia, enfartamento ganglionar e resistência ao tratamento. Em geral, os prolinfócitos apresentam as mesmas características imunofenotípicas dos linfócitos da LLC. Quando a percentagem de prolinfócitos no sangue periférico ultrapassa 55%, o diagnóstico é de leucemia prolinfocítica B, mas essa progressão é muito rara. Adicionalmente, em menos de 1% das LLC ocorre o aparecimento de leucemias agudas, mieloides ou linfoides, que parecem estar associadas ao tratamento, embora também existam descrições do desenvolvimento de leucemia mieloide aguda em pacientes com LLC não tratados. Além disso, existem ainda relatos de aparecimento de mieloma múltiplo e de carcinomas nesses doentes. O achado hematológico característico da LLC é a linfocitose persistente. São linfócitos pequenos, com núcleo redondo, cromatina densa e citoplasma escasso. O limite para o diagnóstico, segundo o National Cancer Institute Working Group, é de >5.000/L linfócitos B presentes por mais de três meses. Em geral o número de linfócitos aumenta com a progressão da doença. Aproximadamente 20% dos pacientes apresentam anemia ou trombocitopenia. A medula óssea está infiltrada por mais de 30% de linfócitos. Fenômenos de autoimunidade são bastante frequentes. Assim, anemia imuno-hemolítica ocorre em 10 a 25% dos casos e pode ser desencadeada pelo tratamento, principalmente com a Fludarabina, sendo o teste de Coombs direto positivo em até 35% dos casos. Trombocitopenia imune é observada em menos de 2% dos casos, enquanto a neutropenia imune e a aplasia pura de série vermelha são ainda mais raras. A hipogamaglobulinemia é comum e agrava-se com a evolução da doença, podendo ser detectada em 60% dos pacientes. Por outro lado, hipergamaglobulinemia monoclonal pode ser encontrada em até 5% dos pacientes. A LLC é dividida em três diferentes subgrupos conforme a percentagem de células linfoides atípicas no sangue: a) Típica ou clássica: em que a maioria das células linfoides são pequenas e maduras, de linfócitos atípicos ou prolinfócitos. b) LLC com transformação prolinfocítica apresenta entre 11 e 54% de prolinfócitos no sangue. c) Mista: apresenta proporção variável de células linfoides atípicas, mas os prolinfócitos constituem menos de 10% do total. Os sistemas de estadiamento baseiam-se nas características clínicas e hematológicas e levam em conta a história natural da doença, que é resultante do acúmulo progressivo de células leucêmicas nos gânglios, medula óssea, baço e fígado. Esses sistemas definem subgrupos de doentes que apresentam sobrevidas diferentes e são fundamentais para as decisões terapêuticas.Os dois sistemas mais empregados são o de Rai (1975), que inclui cinco estágios, e o de Binet (1981), com três estágios. Em 1987, Rai et al. introduziram uma modificação, pela qual os pacientes passaram a ser divididos em três grupos, considerados de baixo risco (estádio 0), risco intermediário (estádios I e II) e alto risco (estádios III e IV) O estágio clínico é o principal fator prognóstico, sendo fundamental na decisão terapêutica. Outros fatores prognósticos clínicos são a contagem de linfócitos, o padrão infiltraçãoda medula óssea e o tempo de duplicação do número de linfócitos no sangue periférico. Marcadores séricos, como a b2- microglobulina, CD23, desidrogenase láctica e timidina cinase, o estado mutacional do IgVH, a expressão do ZAP-70 e CD38, têm valor prognóstico. A citogenética é um fator prognóstico importante, sendo que o cariótipo normal e a del13q são considerados de baixo risco, enquanto a del17p, del11q e a trissomia do 12 estão associadas a alto risco. Entretanto, no estado atual dos conhecimentos, esses outros fatores não têm poder de mudar a decisão da conduta terapêutica inicial baseada no estadiamento clínico. Assim, as indicações para terapia em um paciente com a del17p são as mesmas recomendadas a pacientes sem esta deleção. A LLC é uma doença incurável quando tratada por imunoquimioterapia, e o transplante alogênico é a única alternativa de cura, mas está associado a alta mortalidade. Recomenda-se nunca começar a tratar na primeira consulta. Além disso, o médico deve explicar ao paciente o que é a doença. As indicações para o tratamento dependem do estágio. Para pacientes com estágios iniciais (Binet A ou baixo risco no sistema modificado de Rai) é necessário um período de observação, em intervalos de três a seis meses, para definir se a doença é estável ou progressiva. Se a doença for estável, nenhum tratamento deve ser instituído, pois existem evidências que a introdução de terapêutica nessa fase é prejudicial. O seguimento por um período superior a de seis anos de mais de 1.500 pacientes com LLC pelo Grupo Cooperativo francês em estudos randomizados, comparando tratamento com Clorambucil ou Clorambucil + Prednisona com grupo sem tratamento demonstrou que a intervenção precoce não prolonga a sobrevida desses pacientes. Para os pacientes com estágios intermediários (Rai I e II, Binet B ou risco intermediário no sistema modificado de Rai) existem dois tipos de evolução. Na primeira, que inclui aproximadamente um terço dos pacientes, a doença é estável e os pacientes devem ser acompanhados sem tratamento. Nos demais, a doença mostra progressão nos primeiros dois anos após o diagnóstico (rápido aumento do volume do baço ou dos gânglios, rápido aumento do número de linfócitos no sangue) ou sintomas associados à doença. Para esses pacientes, deve ser indicado o tratamento, tendo como objetivo prolongar a sobrevida com boa qualidade de vida. Os pacientes com estádio C de Binet, III e IV de Rai ou alto risco no sistema modificado de Rai devem ser tratados. A terapia de primeira linha para os pacientes que necessitam tratamento e têm condições clínicas de serem tratados, é a quimioimunoterapia com três drogas FCR: Fludarabina, Ciclofosfamida e Rituximabe. Esse protocolo consiste de seis ciclos e está associado a resposta global de 95% e remissão completa de 52%. Essa combinação mostrou-se superior ao uso isolado de Clorambucil ou Fludarabina, bem como das associações de Fludarabina + Ciclofosfamida, Fludarabina + Rituximabe e Clorambucil + Rituximabe. Entretanto, nem todos os pacientes têm condições clínicas de receber esse tratamento, e essas condições são estabelecidas por meio de uma avaliação geriátrica, e não pela idade do paciente. Assim, para pacientes completamente independentes, sem comorbidades e com expectativa de vida igual à de controles normais pareados pela idade (grupo “Go-Go”), recomenda-se o FCR com o objetivo de obter remissões prolongadas e eventualmente a cura. Por outro lado, para os pacientes com estado geral muito comprometido, com várias comorbidades e com expectativa de vida reduzida (“No Go”) devem ser adotados cuidados paliativos. Finalmente, para o grupo intermediário entre esses dois polos (“Slow Go”), o objetivo é controlar os sintomas por meio de uma terapia menos agressiva, como o Clorambucil isolado ou em associação com o Rituximabe. O Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) visa enxertar a Célula-Tronco Hematopoética (CTH) com o objetivo de corrigir um defeito quantitativo ou qualitativo da medula óssea. Nos últimos 30 anos, o TCTH é utilizado no tratamento de doenças hematológicas malignas e não malignas, imunodeficiências, erros inatos de metabolismo, tumores sólidos, além de doenças autoimunes. De acordo com o doador, os transplantes são denominados singênicos quando o doador é um gêmeo univitelino, e alogênicos nos casos em que a medula provém de outro doador, aparentado ou não. O TCTH é chamado de autogênico quando a CTH enxertada é do próprio paciente. As CTH são encontradas em diferentes concentrações na medula óssea, sangue periférico e Sangue do Cordão Umbilical (SCU). Na medula óssea essas células são obtidas através de múltiplas punções, de ambas as cristas ilíacas, com o paciente anestesiado. Um número de células nucleadas superior a 2,0×108/kg é recomendado para os transplantes alogênicos para garantir a pega, e, quando o peso do doador for semelhante ao do receptor, representa, em volume de medula óssea aspirada, aproximadamente 10 mL/kg do doador. O número de CTH no sangue periférico é menor, e para alcançar uma concentração suficiente é necessário proceder à mobilização das CTH de medula óssea para o sangue periférico. Nos transplantes autogênicos, essa migração é obtida utilizando-se duas estratégias diferentes, de acordo com a situação da doença de base. A primeira consiste em submeter o paciente a um curso de quimioterapia prévia com o intuito de intensificar a redução da doença residual mínima e, eventualmente, aumentar o número de CTH colhidas, combinando-se com a administração de fatores de crescimento, particularmente G-CSF, no momento dos primeiros sinais de recuperação hematopoética. A outra estratégia é utilizar apenas o fator de crescimento, uma vez que este é suficiente para mobilizar um número adequado de células, sendo particularmente empregada nas situações de doença residual negativa. O momento ideal da coleta é definido pelo número de células CD34+ no sangue periférico, pois, ao se atingir 20×103/L, colhe-se através de equipamentos de aférese o número de células desejado para o peso do receptor (CD34: >2,0×106/kg). Nos transplantes alogênicos a mobilização das CTH é feita apenas com fator de crescimento (G-CSF), porém a escolha entre o sangue periférico e a medula óssea ainda não está definida, pois a vantagem de pega mais rápida com o sangue periférico e a menor incidência de recaída contrapõem-se com a maior frequência de DECH crônica e a maior mortalidade tardia. A tendência é utilizar as CTH do sangue periférico nos casos de doenças malignas mais avançadas. O Sangue de Cordão Umbilical (SCU) contém alta concentração de células precursoras hematopoéticas, porém o volume obtido em cada coleta varia de 50 a 200 mL; por esse motivo, o número de células nucleadas é habitualmente suficiente apenas para os pacientes com peso inferior a 30 kg, uma vez que se recomenda que sejam infundidas 4 × 107/kg para evitar a falha de pega. O uso de duplo cordão é uma estratégia que vem sendo utilizada em vários centros de transplante e com resultados já consolidados, principalmente no cenário das doenças malignas. A ampliação ex vivo do número de CTH é viável e provavelmente expandirá o uso do SCU em pacientes de maior peso. O TCTH alogênico consiste na infusão de CTH de um doador aparentado ou não, originada da medula óssea, sangue periférico ou sangue de cordão umbilical. Para que esse enxerto tenha sucesso é fundamental que as células infundidas proliferem no receptor permanentemente, evitando-se a rejeição, e o novo sistema imunológico, originado do doador, tolere os tecidos do receptor, a fim de evitar a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH) grave e fatal. O TCTH se processa em várias etapas e inicia-se pela decisão da necessidade e da viabilidade do TCTH. A necessidade de sua realização fundamenta- se na indicação desse procedimento, nasuperioridade dessa terapêutica ante as outras disponíveis, levando- se em conta a idade do paciente e do doador, doença básica, estádio clínico, complicações prévias e presentes na fase pré-transplante e índice de desempenho. Definida a necessidade, buscamos o doador preferencialmente familiar, e, quando não existente, os registros de doadores voluntários de medula óssea devem ser acionados. Essas duas modalidades de doadores levam aos diferentes cenários no que se refere à logística da busca de doadores, indicações do TCTH, morbidade e mortalidade. Atualmente, a utilização de métodos moleculares de tipificação do HLA permite um maior refinamento na seleção de doadores não aparentados e estudos mais recentes já demonstram que, empregando doadores totalmente compatíveis, os resultados do TCTH se aproximam daqueles obtidos com doador aparentado. A etapa seguinte constitui-se no regime preparativo ou de condicionamento. Este tem o objetivo de reduzir e mesmo erradicar uma doença maligna existente e induzir a imunossupressão do receptor no sentido de aceitar o enxerto. Existem inúmeros regimes de condicionamento visando à melhor adequação para as numerosas situações clínicas pré- transplante. Estes podem ser classificados em mieloablativos, quando se combinam agentes quimioterápicos (ciclofosfamida, bussulfano, etoposide, irradiação parcial ou corporal total, outros agentes imunossupressores) em doses maciças que seriam habitualmente letais sem a infusão posterior das CTH. Tais agentes utilizados em doses maciças determinam efeitos tóxicos de gravidade variada. Há também os regimes de condicionamento Não Mieloablativos (NMA) e os de intensidade reduzida. Nesses casos, são utilizados agentes primordialmente imunossupressores ou em doses reduzidas, visando principalmente permitir a enxertia das CTH e reduzir os efeitos tóxicos, com aplicação para as circunstâncias em que a perspectiva da mortalidade e o grau de morbidade sejam inaceitáveis. A medula óssea torna-se aplásica e o sistema imunológico atrofia-se, levando a um estado de fragilidade imune, cuja recuperação se faz com a pega do enxerto. A recuperação imunológica ocorre de uma forma setorial e em diferentes fases. Os granulócitos alcançam números normais dentro dos três primeiros meses após o transplante e a recuperação da imunidade humoral e celular é lenta, podendo não ser completa mesmo em dois anos, particularmente nos pacientes com DECH crônica. As plaquetas habitualmente atingem números normais nos três primeiros meses e da mesma forma os eritrócitos. A pega do enxerto ocorre em mais de 95% dos pacientes e a sua rejeição é raramente observada, sendo mais comum nas anemias aplásticas quando empregados regimes condicionantes menos agressivos e nas situações em que algum grau de incompatibilidade no HLA esteja presente. A toxicidade também ocorre em outros órgãos como o tubo digestivo, fígado, pulmão, coração e outros menos frequentes. No tubo digestivo, a mucosite é bastante comum e, pelo desnudamento das mucosas, a barreira epitelial aos microrganismos é rompida. Alterações hepáticas menores são comuns, porém situações de maior gravidade, como a Síndrome de Obstrução Sinusoidal (SOS), podem ocorrer, sendo a última, juntamente com as infecções, a causa mais comum de óbito precoce no TCTH. Um outro aspecto a ser ressaltado é a presença de comorbidades que aumentam o risco de morbimortalidade relacionado ao procedimento. Esse fato é de especial importância no cenário dos pacientes com idade mais avançada, sendo decisivo na escolha do tipo de condicionamento e, em última instância, na própria indicação do TCTH. A grande maioria dos doadores registrados tem apenas a tipificação sorológica dos loci A, B e DR e uma pequena minoria (aqueles que já foram recrutados em algum momento para doação) possui a tipificação completa. Por isso, após a identificação de potenciais doadores, solicita-se a complementação da tipagem para oito a dez dos antígenos da classe I e II, empregando métodos moleculares também chamados de métodos de alta resolução, para caracterização dos alelos dos vários loci. Diante dessas exigências, o processo de busca e os arranjos para a coleta e o transporte da medula óssea tornam-se lentos, variando de dois a seis meses o intervalo mediano entre o início da busca e a realização do TCTH. O uso de sangue de cordão umbilical para restaurar a hematopoese tem suas características próprias, pois há maior tolerância à incompatibilidade entre doador e receptor, porém a desproporção entre o número de CTH contida na unidade de sangue de cordão e o necessário para reconstituir a hematopoese pode ser um impedimento para sua utilização. Os bancos de sangue de cordão umbilical constituem-se em uma alternativa mais rápida de obtenção de CTH não aparentado quando a situação clínica não permita a espera inerente ao processo de busca de doadores não aparentados. A existência de mais de 350.000 unidades de sangue de cordão disponíveis ampliou expressivamente a utilização dessa fonte de CTH, reforçada pela progressiva expansão dos bancos brasileiros. O número de CTH de uma unidade raramente é suficiente para transplante em adultos. Essa situação está sendo superada pelo crescente uso de duas unidades de cordão cujos resultados preliminares são bastante promissores e semelhantes àqueles alcançados com outras origens de CTH. A expansão ex vivo das CTH é outra ação promissora para o maior uso desse material. Recentemente foi introduzida a estratégia de utilizar um regime de condicionamento de intensidade reduzida, não ou pouco mieloablativo, porém fortemente imunossupressor, como preparação para os transplantes alogênicos. Combina-se habitualmente fludarabina com outros agentes imunossupressores (globulina antilinfocítica ou antitimocítica, doses baixas de irradiação corporal total) e outros agentes alquilantes em doses não mieloablativas. A sua viabilidade está perfeitamente comprovada, porém a aplicação e indicações precisas exigem um número de pacientes adequado e um tempo maior de observação. No entanto, pode-se afirmar que essa estratégia permite que pacientes com idade mais avançada (70 anos) e aqueles com condições clínicas adversas possam submeter-se ao transplante, pois a toxicidade inicial costuma ser baixa. Apesar dessa modalidade de condicionamento reduzir drasticamente os efeitos tóxicos precoces dos regimes convencionais, as complicações tardias são semelhantes e o efeito do enxerto contra a neoplasia é mantido. O uso da própria medula óssea ou sangue periférico limita-se às situações clínicas com indicação de transplantes nas quais se possam infundir CTH em número e qualidade normais e sem contaminação com células malignas. O princípio básico do transplante autogênico é permitir a utilização de altas doses de drogas quimioterápicas, na tentativa de eliminar a doença básica, permitindo o posterior resgate da função medular. Obviamente, nessa modalidade de tratamento, as complicações relacionam-se essencialmente com a toxicidade do condicionamento, pois todos os inconvenientes relacionados às células alogênicas não se aplicam a esse contexto. Como regra geral, o potencial de recaída é maior por não estar presente o efeito do enxerto contra neoplasia. O sucesso dessa modalidade de TCTH é influenciado pelo estádio da doença, índice de desempenho, complicações e comorbidades no momento do transplante. A compatibilidade é avaliada com base na tipificação dos antígenos do complexo maior de histocompatibilidade pertencentes às classes I e II, avaliando-se os loci A, B, C, DR e DQ. A identificação atualmente exigida para avaliação de compatibilidade quando se utiliza medula óssea ou sangue periférico é em nível molecular e, dessa forma, consegue-se caracterizar os alelos de cada locus. Estudos recentes demonstram que, à exceção do locus C, a existência de incompatibilidadeem nível antigênico ou alélico se compara em termos de resultados, sendo que cada incompatibilidade reduz a sobrevida em cerca de 10%. Nos transplantes com SCU, ainda é utilizada a identificação antigênica, sendo considerados apenas os loci A, B e DR. Os resultados são semelhantes mesmo com dois antígenos incompatíveis, e, nessa situação, procura- se infundir um número proporcionalmente maior de CTH para garantir a pega. Estratégias específicas para contornar o problema da incompatibilidade com maior número de antígenos e mesmo o uso de doadores haploidênticos encontram-se em fase experimental e os resultados são promissores, porém ainda com importantes complicações infecciosas relacionadas à lenta recuperação imunológica e a recaída inaceitável nas doenças malignas em estádio avançado. O uso de megadoses de CTH, associado a um regime de condicionamento imunossupressor e à depleção de células T do material infundido, tornou o TCTH com doadores haploidênticos viável, e, mais recentemente, o regime de intensidade reduzida associado ao uso da ciclofosfamida no terceiro e quarto dias pós- transplante abriu novo horizonte para essa modalidade de procedimento − entretanto, ainda necessita um tempo maior de utilização para consolidar a sua indicação. Infecções Nas fases pré-transplante e peritransplante, as complicações estão relacionadas à doença básica, aos agentes citotóxicos utilizados em doses maciças e às eventuais comorbidades. Os pacientes portadores de doenças malignas frequentemente recebem quimioterapia e radioterapia em intensidade variada, podendo, por essa exposição, se tornar mais susceptíveis à toxicidade dos regimes de condicionamento. O tratamento imunossupressor e as transfusões sanguíneas prévias ao transplante nos pacientes com anemia aplástica concorrem para o aumento da toxicidade. Além disso, pancitopenia, associada ou não a infecções em atividade, fibrose hepática nos pacientes hipertransfundidos e comprometimento de outros órgãos tornam esses pacientes vulneráveis a inúmeras complicações. Nos pacientes com antecedentes de prolongada neutropenia, o risco de infecção fúngica aumenta, especialmente para aqueles microrganismos do gênero Aspergillus, Mucor e Fusarium. No pós- transplante imediato, particularmente nas primeiras quatro semanas, são comuns as infecções bacterianas, as quais estão relacionadas a pancitopenia, a quebra de barreira mucosa induzida pelo regime de condicionamento e da pele em consequência de cateter intra-atrial. As infecções por bactérias gram-positivas e gram-negativas predominam e por isso o uso profilático de antibióticos é recomendado em muitos centros de TCTH. Nessa fase, a infecção viral pelo Herpes simplex é comum, recomendando-se o uso profilático de aciclovir nas quatro semanas iniciais após o TCTH. A ocorrência de infecção por vírus comunitários é uma importante complicação nessa fase, especialmente a relacionada ao vírus sincicial respiratório, devendo ser implementadas medidas preventivas sistemáticas e eficientes. A mucosite, de gravidade variável, relaciona-se com a intensidade do condicionamento. Além da dor na boca e esôfago, são comuns os vômitos e a diarreia. Os pacientes alimentam-se precariamente, sendo necessário em alguns deles a administração de alimentação parenteral total. A doença veno- oclusiva hepática ou Síndrome de Obstrução Sinusoidal (SOS) é uma complicação precoce, afetando uma minoria de pacientes (<5%). Ela caracteriza-se por hepatomegalia dolorosa, aumento de peso por retenção de líquidos, ascite e algumas vezes icterícia. Múltiplos regimes quimioterápicos prévios, incluindo uso de agentes alquilantes e a presença de doença hepática prévia são alguns dos fatores de risco para o aparecimento dessa complicação hepática. Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH) DECH é a complicação mais importante dos transplantes alogênicos e pode ocorrer desde alguns dias precedendo os primeiros sinais de pega do enxerto até após muitos meses. Ela é classificada em formas: aguda clássica, aguda tardia, crônica e overlap syndrome. A linha divisória entre as formas aguda e crônica nem sempre é bem definida e o fator tempo em relação ao TCTH deixou de ser considerado como único fator determinante para sua classificação pelo último consenso do NIH, sendo levadas em consideração preponderantemente as características clínicas na apresentação. A patogenia é distinta, pois as células T infundidas juntamente com as CTH reagem diretamente contra alguns tecidos do receptor, determinando a forma aguda com características clínicas próprias. A forma aguda está relacionada à lesão tissular epitelial, induzida pelo regime de condicionamento, liberando várias citocinas inflamatórias (TNF e IL-1), as quais exacerbam a exposição dos antígenos HLA, moléculas de adesão e antígenos menores de histocompatibilidade, determinando um processo inflamatório de intensidade variável. A pele, o trato digestivo e o fígado são os principais alvos dessa reação e, dependendo de sua intensidade, gradua-se em estádios de I a IV, sendo os estádios III e IV os de maior gravidade e com alto índice de mortalidade. As manifestações cutâneas se exteriorizam por eritema maculopapular, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés, sendo essa localização uma de suas características. A extensão da superfície cutânea comprometida e o tipo de lesão estabelecem a gravidade. O comprometimento hepático é avaliado pelos níveis séricos de bilirrubina e das enzimas hepáticas, enquanto a gravidade da lesão gastrintestinal é avaliada pelos vômitos, volume de diarreia, dor abdominal e enterorragia. Os fatores de risco relacionados à incidência e gravidade da DECH são: idade mais avançada do receptor, incompatibilidade HLA, doador não aparentado, intensidade dos regimes de condicionamento, doador do sexo feminino e a origem das células-tronco. A imunoprofilaxia da DECH é obrigatória e a combinação de ciclosporina A e metotrexato é a mais utilizada. Outros agentes também são empregados como tacrolimus, corticosteroides, micofenolato mofetil, anticorpos monoclonais e a depleção de células T. Esses métodos reduzem a incidência e gravidade da DECH e, no caso de a imunoprofilaxia impedir por completo o aparecimento da DECH, os riscos de recaída da doença neoplásica original e da rejeição aumentam. Apesar da profilaxia, em alguns cenários específicos onde se somam vários fatores de risco, a chance de desenvolvimento dessa complicação pode chegar a 80% e o tratamento inicial com corticosteroides controla facilmente as manifestações nas formas leve e moderada. Nos estádios mais graves, torna-se necessária a utilização de vários recursos terapêuticos com resultados pouco animadores, pois é alto o índice de mortalidade. A forma aguda tardia se caracteriza por aparecimento de lesões típicas além dos 100 dias do TCTH. Na forma crônica de DECH, a fisiopatologia não está bem definida, mas sabe-se que as células T do doador são autorreativas especificamente contra moléculas dos antígenos de classe II e comuns ao receptor e doador, em uma complexa interação, onde estão envolvidas células T citotóxicas e regulatórias (Tregs), células apresentadoras de antígenos e padrão de resposta predominantemente TH2. Postula-se que a atrofia do timo, pela idade ou devido aos regimes quimioterápicos, seja a responsável pelo aparecimento da autoimunidade. De acordo com a exteriorização clínica, a DECH crônica é classificada em limitada e extensa. A primeira compreende manifestações leves, geralmente localizadas em apenas um tecido ou órgão, enquanto a forma extensa caracteriza-se por acometimento mais intenso e de múltiplos sítios. A presença de trombocitopenia estabelece um mau prognóstico, especialmente quando associada à hepatopatia colestática crônica, à desnutrição secundária ao envolvimento das mucosas e à resistência às medidas terapêuticas, assimcomo a presença de eosinofilia e a existência de DECH aguda prévia. Nessas condições, a mortalidade alcança índices de 80%. O tratamento da DECH crônica consiste inicialmente no uso de corticosteroide, e, no caso de resistência, azatioprina, talidomida, fototerapia com ultravioleta (fotoférese), inibidores do receptor da interleucina-2 e 2CDA são utilizados com resultados variáveis que dependem do tipo e da extensão das manifestações clínicas. Na overlap syndrome, existe uma sobreposição de manifestações agudas e crônicas ao mesmo tempo. Ambas as formas (aguda e crônica) estão associadas à imunodeficiência, tanto humoral como celular, agravadas pelo uso de imunossupressores e predispondo a complicações infecciosas oportunísticas, as quais são as maiores responsáveis pela mortalidade. Outras complicações A incidência de rejeição do enxerto varia de acordo com o cenário do transplante. Na anemia aplástica, o número de transfusões prévias ao TCTH, incompatibilidade HLA, depleção de células T do material a ser enxertado e número insuficiente de células infundidas são os fatores que favorecem a rejeição. Nos pacientes com doenças malignas, doador HLA inteiramente compatível, número ideal de CTH e repleta de células T, o índice de rejeição é inferior a 5%. A recaída nas entidades malignas está relacionada às doenças em estádio mais avançado, ao uso de depleção de células T e à resistência prévia aos agentes citotóxicos. A utilização de infusão de linfócitos do doador, quando da detecção da recaída, pode induzir à remissão e mesmo à cura definitiva. A eficácia da infusão de linfócitos depende da sensibilidade da célula maligna à ação citotóxica da célula T e do volume da doença no momento da detecção da recaída. Na leucemia mieloide crônica, apresentando recaída em nível molecular, a eficácia da infusão de linfócitos em eliminar o clone leucêmico atinge mais de 80%. O inverso é observado na leucemia linfoide aguda em recaída hematológica, em que a infusão de linfócitos do doador oferece pouco benefício. A Infecção por Citomegalovírus (CMV) representa um importante risco para os transplantes alogênicos. Na população brasileira, mais de 90% das pessoas sadias são sorologicamente positivas para o CMV. Esse vírus permanece em estado de latência no organismo e em algumas situações de imunodeficiência intensa a infecção reaparece em formas mais graves como a pneumonite intersticial, gastroenterite, hepatite e encefalite. O controle dessa complicação tornou-se mais eficiente através da implementação de medidas preventivas, as quais consistem em usar, para os pacientes e doadores sorologicamente negativos, hemoderivados também CMV-negativos e, na impossibilidade destes, utilizar filtros para leucodepleção. Nos casos de pacientes CMV-negativos e doador positivo e nos pacientes CMV-positivos, recomenda-se o uso preventivo de ganciclovir nos primeiros 100 dias pós-transplante ou a aplicação preemptiva desse agente. A última consiste na administração agente antiviral diante dos primeiros sinais da presença do CMV na circulação, detectada através da antigenemia ou pelo PCR. O tratamento da doença estabelecida, como a pneumonite intersticial, além do uso de ganciclovir, deve-se associar a imunoglobulina intravenosa, pois essa combinação reduz significativamente a mortalidade. O período de maior incidência dessa infecção está entre 3 e 15 semanas pós-TCTH, no entanto, com uso profilático ou preemptivo, infecções tardias passaram a ocorrer, especialmente na presença da DECH, por isso recomendando-se que a monitoração seja prolongada por até 6 meses. Nos transplantes alogênicos com doadores não aparentados, a infecção por CMV é mais frequente e nos transplantes autogênicos essa complicação constitui um problema menor.