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Universidade Federal do Amazonas 
Programa De Pós-Graduação em História 
Mestrado em História 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Marcos Lucas Abreu Braga 
 
 
 
 
 
Anos Vermelhos: 
Classe, Gênero e Nacionalidade no Movimento Operário de 
Belém do Pará, 1917-1920 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Manaus 
2023 
 
Universidade Federal do Amazonas 
Programa De Pós-Graduação em História 
Mestrado em História 
 
 
 
 
 
 
Marcos Lucas Abreu Braga 
 
 
 
 
Anos Vermelhos: 
Classe, Gênero e Nacionalidade no Movimento Operário de 
Belém do Pará, 1917-1920 
 
 
 
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca 
Examinadora do Programa de Pós-Graduação 
em História da Universidade Federal do 
Amazonas, como exigência para a obtenção do 
título de Mestre em História. 
 
 
Orientador: 
Prof. Dr. Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Manaus 
2023 
Ficha Catalográfica
B813a Anos vermelhos : classe, gênero e nacionalidade no movimento
operário de Belém do Pará, 1917-1920 / Marcos Lucas Abreu
Braga . 2023
 209 f.: il.; 31 cm.
 Orientador: Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro
 Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do
Amazonas.
 1. História social do trabalho. 2. Movimento operário. 3. História
operária. 4. Mundos do trabalho. 5. História da Amazônia. I.
Pinheiro, Luís Balkar Sá Peixoto. II. Universidade Federal do
Amazonas III. Título
Ficha catalográfica elaborada automaticamente de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
Braga, Marcos Lucas Abreu
Resumo/ Abstract 
 
 
Resumo: 
Os quatro anos finais da década de 1910 foram marcados em Belém do Pará, assim como 
em diversas partes do mundo, por uma forte onda de agitação do operariado urbano, com 
o empreendimento de pelo menos três greves gerais e dezenas de outras localizadas, além 
de outras formas de manifestação classista; foram verdadeiros “anos vermelhos”. Com 
base na análise temática dos jornais da imprensa operária publicados naquela conjuntura 
(periódicos como Jornal do Povo, A Revolta, O Semeador e A Voz do Trabalhador), a 
presente dissertação procura evidenciar a constituição humana da classe e do movimento 
operário na capital amazônica naquele instante, identificando as categorias profissionais 
mais mobilizadas e organizadas, e analisando sua composição de gênero – avaliando as 
possibilidades e limitações das mulheres no interior destas manifestações – e étnico- 
nacional, analisando as relações de tensão e de solidariedade entre os trabalhadores de 
origem nacional e os imigrantes estrangeiros nas ações classistas na “cidade das 
mangueiras”. 
 
Palavras-chave: 
História social do trabalho; Movimento operário; História operária; Mundos do trabalho; 
História da Amazônia. 
 
 
Abstract: 
The final four years of the 1910s were marked in Belém do Pará, as well as in various 
parts of the world, by a strong wave of agitation among the urban workers, with the 
undertaking of at least three general strikes and dozens of localized ones, in addition to 
other forms of class manifestation; they were true “red years”. Based on the thematic 
analysis of the working press newspapers published at that juncture (journals such as 
Jornal do Povo, A Revolta, O Semeador and A Voz do Trabalhador), this dissertation 
seeks to highlight the human constitution of the class and the labor movement in the 
Amazonian capital at that time. instant, identifying the most mobilized and organized 
professional categories, and analyzing their gender composition – assessing the 
possibilities and limitations of women within these manifestations – and ethnic-national, 
analyzing the relations of tension and solidarity between workers of national origin and 
foreign immigrants in class actions in the “city of mangos”. 
 
Keywords: 
Social history of work; Labor movement; Labor history; Worlds of work; History of the 
Amazon. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos trabalhadores e 
trabalhadoras da Amazônia, em 
especial à dona Martinha Braga. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A um espírito indeciso 
¿Como pode isto ser, como se pode viver 
assim nesta contradição, se a tanta dor a 
que ninguém acode, se a tanta boca que 
não tem pão? 
¿Como se pode amar, como se pode abrir 
nossa alma a lírica canção, ante a esta 
cólera que nos sacode, e crispa os braços 
p’ra revolução? 
Expande-te no amor e na verdade. Nos 
nobres ímpetos da mocidade sente-se 
bem a vida palpitar 
Luta com quanta força o ideal te der, e 
sabereis então o que é viver, e sabereis 
então o que é amar. 
 
Manoel Ribeiro 
 
 
 
É das mãos calosas do operário 
Que a estátua do progresso há de surgir 
Este século é o grande itinerário 
De um século de luz que há de vir! 
 
Ignácio Baptista de Moura 
Termo de Aprovação 
 
 
Esta dissertação foi submetida à avaliação da Banca Examinadora do Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas como requisito para a 
obtenção do título de Mestre em História em 9 de maio de 2023, obtendo ali sua 
aprovação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 
Prof. Dr. Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro 
Presidente (PPGH/UFAM) 
 
 
Prof. Dr. Fernando Teixeira da Silva 
Membro (PPGH/UNICAMP) 
 
 
Prof. Dr. Anderson Vieira Moura 
Membro (PPGH/UFAM) 
 
 
 
 
 
Sumário 
 
Listas de Quadros e Tabelas 9 
 
Agradecimentos 10 
 
Considerações Iniciais 13 
 
Capítulo 1: Cidade em Transe: 
Aspectos de Belém na Decadência Econômica da Borracha 
 
26 
Mundos do trabalho na cidade em escombros 
 
33 
Trabalhadores em tempos de crise 41 
 
Capítulo 2: Das Classes à Classe: 
Ofícios e categorias profissionais na mobilização operária. 
 
53 
Artistas e artífices: Os trabalhadores qualificados 59 
Operários da Construção Civil 69 
Operários dos Transportes 76 
Empregados no comércio 96 
 
Capítulo 3: Trabalhadoras em movimento: 
As mulheres no movimento operário belenense 
 
102 
As Mulheres nos Mundos do Trabalho belemenses: breve panorama 104 
Presença feminina nas greves e nos sindicatos 107 
Mulheres e a Imprensa Operária 120 
 
Capítulo 4 – “Nossa Pátria é o Mundo Inteiro”: 
Nacionais e estrangeiros no movimento operário belenense 
 
137 
Os imigrantes na classe e no movimento operário paraenses 139 
Alguns percursos singulares 148 
Os “indesejáveis” nas representações da imprensa paraense 153 
A bandeira verde-oliva: o nacionalismo entre os trabalhadores paraenses 157 
Esforços em busca do internacionalismo 173 
 
Considerações Finais 183 
 
Referências 194 
 
 
9 
 
 
Listas de Tabelas, Quadros e Imagens 
 
 
Tabela 1 Indústria Paraense entre 1918 e 1920 
 
34 
Tabela 2 Operários por unidades produtivas em Belém (1920) 35 
Tabela 3 Estabelecimentos industriais existentes em Belém em 1919 36 
Tabela 4 População de Belém segundo os ramos de profissão (1920) 38 
Tabela 5 Despesas diárias de um operário em 1918. 
 
42 
Imagem 1 Motorneiros e condutores da Pará Electric em greve (fev. 1917) 81 
Imagem 2 Diretoria da União Protetora dos Condutores e Motorneiros 
da Pará Eletric em 1917 
82 
Quadro 1 A mulher na imprensa operária paraense (1918-1920) 
 
121 
Imagem 3 José Marques da Costa 147 
 
 
 
10 
 
Agradecimentos 
 
Todo resultado de trabalho é fruto de um esforço social, seja a produção de 
mercadorias ou de estudos acadêmicos; mesmo que esses últimos, em geral, venham 
assinados por uma única pessoa, eles são impossíveis de serem realizados sem o suporte 
coletivo das redes de sociabilidade dos indivíduos que o produzem e das instituições a 
qual estes se ligam. Neste sentido, agradeço inicialmente à família Rocha Braga por todo 
o apoioe suporte dado ao longo de toda a minha formação, em especial à minha avó, 
Martinha da Rocha Braga, e ao meu tio, Marcos Paulo da Rocha Braga, com o qual 
compartilho o nome, a data de nascimento e o ofício de historiador/professor de História. 
Mas Meire, Ana, Júnior, Luciana, Aline, Maria Fernanda, Rebeca, João Vítor e Pedro 
Augusto, todos são fundamentais na minha vida. Ao meu irmão, David Abreu de 
Vasconcellos Dias, agradeço por me dar um sentido de vida e um motivo para lutar. 
Agradeço à Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e ao Programa de Pós-
Graduação em História (PPGH) por permitirem a oportunidade da realização da pesquisa 
científica em História no Estado do Amazonas. Quanto ao PPGH/UFAM, destaco o 
companheiro Jaílson Soares, sempre solicito quando necessário para responder dúvidas 
ou encaminhar os tramites burocráticos, e os professores doutores Glauber Biazo, Maria 
Luiza Ugarte Pinheiro e Nelson Tomelin, pelos ensinamentos nas disciplinas por eles 
ministradas (História, memória e esquecimento; Migração e movimentos sociais na 
Amazônia; e Seminário de Dissertação, respectivamente) ao longo de 2020 e 2022. Em 
conjunto, trouxeram leituras e contribuições fundamentais para a reflexão sobre o nosso 
tema de pesquisa. 
Ao professor doutor Davi Avelino Leal um agradecimento especial, tanto pelo 
que aprendi na disciplina por ele ministrada (História e movimentos sociais na Amazônia) 
quanto pelo apoio e estímulo ao longo de toda formação e também pelos vários livros 
emprestados (nem todos ainda devolvidos!). Aos colegas de pós-graduação, Raphaela 
Martins, César Aquino, Priscila Diógenes, Larissa Leite e Evellyn Ramos, que as 
circunstâncias históricas da pandemia global da Covid-19 impossibilitaram um contato 
literalmente mais próximo, devido às medidas que foram necessários para freá-la, externo 
meus agradecimentos pelas discussões, reflexões e diálogos muito profícuos, mediados 
pelas telas dos computadores nas tardes quentes amazônicas. 
 
11 
 
Um outro agradecimento especial ao professor doutor Luís Balkar Sá Peixoto 
Pinheiro pelo estímulo e apoio desde o período da graduação; e pela orientação sempre 
paciente e atenciosa. À professora doutora Edilza Joana Fontes e ao professor doutor 
César Augusto Bubolz Queirós, por terem participado da banca de qualificação, com 
críticas e sugestões muito pertinentes e construtivas à versão preliminar deste trabalho. 
Ao professor doutor Fernando Teixiera e ao professor doutor Anderson Vieira Moura, 
por aceitaram compor a banca de defesa e agregarem considerações significativas para a 
versão final. 
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), 
pela concessão da bolsa de estudos essencial para o desenvolvimento da pesquisa. 
Aos companheiros de trajetória acadêmica com os quais compartilhei vivências 
e experiências para além das paredes da sala de aula, mas igualmente importantes para a 
formação humana, política, profissional e intelectual, como as conversas nos corredores 
da Universidade, na cantina, nas filas e mesas do “RU” e nos bares do centro da cidade 
ou no Cabelo, meus agradecimentos por terem feito parte da minha trajetória, mesmo que 
com alguns o contato tenha enfraquecido ao longo dos anos. Com o risco de cometer 
alguns esquecimentos, destaco os nomes de Marcos Vinicius Alvarenga, Avelino Pedro 
Nunes, Matheus Mendonça, Paulo Henrique Sabóia (o “Dois”), Lucas Hyury, Lucas 
Moura, Thalia Souza, Angra Hinessa Girlane Santos, Raescla Ribeiro, Joel Patrício, 
Fredson Silva, Thayana Negreiros, Lucas Teixeira, Mhayra Torres, Kerolen Roberta, 
Gisele Assis de Almeida, Davi Valente, Alisson Souza e Railson Roger. 
Aos colegas de trabalho da Escola Estadual Marcio Nery, meus agradecimentos 
pelo apoio mútuo e solidariedade de classe. Talvez o ofício de professor seja um labor 
um pouco menos estranhado do que a maioria dos outros na sociedade atual, 
principalmente quando encontramos uma equipe unida e solidária e apesar das condições 
de trabalho. Estendo à toda a equipe da escola destacando os professores e as professoras 
Jussara Benarrós, Lindemberg Santos, Leila, Sideny de Paula, Edson Soares, Juliana 
Limeira, Wellison Rafael, Alan Clayton, ao gestor José Sebastião Maciel, ao pedagogo 
Ednilson Beltrão e ao nosso querido “Super Homem”, Vítor. Às centenas de alunos aos 
quais tive a oportunidade de ministrar aulas ao longo desses quatro anos, meus 
agradecimentos pelos aprendizados que me deram, inclusive sobre Classe e Consciência 
de Classe, pois, citando Paulo Freire, “Quem ensina, aprende ao ensinar. E quem aprende, 
ensina ao aprender”. 
 
12 
 
Por fim, mas não menos importante, meus agradecimentos à equipe da 
Associação de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ) por, muito cordialmente, 
ter enviado cópias digitalizadas dos periódicos que foram amplamente utilizados ao longo 
das páginas seguintes. O mesmo agradecimento faço ao Centro de Memória da Amazônia 
(CMA) por disponibilizar online os estatutos das organizações classistas paraenses. 
 
 
13 
 
Considerações Iniciais 
 
O contexto entre 1917, iniciado com a greve geral em São Paulo, e 1920 é 
apontado com unanimidade pela historiografia social do trabalho como os anos de maior 
intensidade do movimento operário brasileiro, pelo menos até a década de 1930. Assim, 
ainda no final da década de 1980, Francisco Foot Hardman e Victor Leonardi já 
afirmaram que “o movimento operário brasileiro, acompanhando a vaga revolucionária 
internacional, esteve em ascenso entre 1917-1920”1. Na década de 1990 foi a vez de Lená 
Medeiros de Menezes, referindo-se especificamente ao Rio de Janeiro, qualificar o 
período como “anos vermelhos”, vendo-o como a “fase mais ativa do movimento” na 
então capital federal; período que se estendia, segundo a autora, de 1917/18 a 1920/21.2 
Seguindo o diapasão, Cláudio Batalha qualificou como o “ápice da mobilização operária 
durante a Primeira República” os anos finais da década de 1910, principalmente entre 
1917 e 1919.3 
Mais recentemente outros estudos seguiram na mesma direção, com Edilene 
Toledo apontando o quadriênio entre 1917 e 1920 como “os anos de maior mobilização 
dos trabalhadores na Primeira República”4, e César Augusto Bubolz Queirós, ao estudar 
a mesma conjuntura em Porto Alegre, a qualificou também como “anos vermelhos”, 
asseverando que esta foi “uma época de particular importância para os estudos relativos 
ao mundo do trabalho e (...) ao universo do movimento sindical e operário, em função do 
ciclo de agitações sociais que percorreu o país pelos eventos já mencionados que se 
desencadeavam no cenário externo”.5 Por muitos motivos me pareceu apropriado tomar 
o termo “anos vermelhos” emprestado a dois desses autores, para também assim 
categorizar a conjuntura que investiguei em Belém. 
Como alguns desses autores também apontaram, o movimento brasileiro 
acompanhou um momento de grande agitação operária global, iniciado com a Revolução 
 
1 HARDMAN, Francisco Foot; LEONARDI, Victor. História da indústria e do trabalho no Brasil: das 
origens aos anos vinte. São Paulo: Global editora, 1982. p.350. 
2 MENEZES, Lená Medeiros de. Os Indesejáveis: protesto, crime e expulsão na capital federal. Rio de 
Janeiro: EDUERJ, 1996, p. 102. 
3 BATALHA, Cláudio Henrique de Moraes. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2000. p.49. 
4 TOLEDO, Edilene. Um ano extraordinário: greves, revoltas e circulação de ideias no Brasil em 1917. 
Revista Estudos Históricos, v. 30, n. 61, p. 497-518, 2017. p.515. 
5 QUEIRÓS, César Augusto Bubolz. “Desvarios anarquistas na Rússia rio-grandense”: as grandes greves 
na Primeira República (1917-1919). Manaus: EDUA, 2016, p. 35. 
 
14 
 
Russa de outubro de 1917, que estabeleceu o primeiro Estado socialista do século XX. 
Segundo Eric Hobsbawm, “uma onda de revolução varreu o globo nos dois anos após 
Outubro”,cujos ecos foram sentidos na Espanha, onde os anos entre 1917 e 1919 são 
conhecidos como “biênio bolchevique”; em Pequim, na China, e Córdoba, na Argentina, 
onde irromperam movimentos estudantis revolucionários; na Europa Central, com uma 
onda de greves políticas contra a Grande Guerra e tentativas de revoluções diretamente 
influenciadas pelos bolcheviques russos, como a República Socialista da Baviera, na 
Alemanha em 1918; e o estabelecimento da breve República Socialista Húngara, de 
março a julho de 1919.6 Na Itália ocorreu uma série de greves e ocupações de fábricas, 
principalmente nas regiões mais industrializadas do Norte, entre os anos de 1919 e 1920, 
que ficaram conhecidos como Biennio Rosso (biênio vermelho). Marcel van der Linden 
afirmou que “entre 1917 e 1921, período que assistiu um surto de ações em escala global 
que não tinham origem em interesse próprio de curto prazo, mas sim na aspiração de criar 
uma ordem social nova e mais justa.”7 
No caso do Estado do Pará, nesses anos de intensa movimentação, a cidade de 
Belém – maior centro urbano, comercial e industrial da Amazônia brasileira e aquele em 
que o movimento da classe trabalhadora se mostrou mais forte – foi algumas vezes 
paralisada por greves gerais: três nesse período, em outubro e novembro de 1918 e em 
maio de 1919, além das diversas greves de categorias específicas (que frequentemente 
contavam com a adesão de outras categorias, com greves de solidariedade), fazendo com 
que as autoridades municipais e estaduais, dos subprefeitos ao chefe de polícia, ficassem 
sobressaltados, mobilizando a cavalaria e “praças embaladas” (i.e. policiais armados com 
autorização para atirar). Chegou-se a empregar, por vezes, soldados do 27º batalhão de 
caçadores do exército e os praças da marinha, sediados na cidade, para reprimirem os 
movimentos e garantirem a propriedade do patronato e o “direito ao trabalho” dos fura-
greves, daqueles que não quisessem aderir às “paredes”. 
Para nossa sorte, esses movimentos eram detalhadamente noticiados pelos 
jornais da grande imprensa local, embora ali aparecessem com um misto de surpresa e 
receio, quase sempre em reportagens estampadas na primeira página, o que também nos 
dá a dimensão de sua relevância. Os meetings das paredes, assim como as comemorações 
 
6 HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das 
Letras, 1995. p.71-77. 
7 LINDEN, Marcel van der. Trabalhadores do mundo: ensaios para uma história global do trabalho. São 
Paulo: Editora da UNICAMP, 2013, p. 294. 
 
15 
 
do 1º de Maio, levaram milhares de trabalhadores aos espaços públicos da capital 
paraense, principalmente à Praça da República e à Praça Floriano Peixoto; enquanto que 
que as assembleias ordinárias e extraordinárias, bem como os festivais, palestras, 
conferências, seções especiais e peças teatrais organizados pelas instituições operárias, 
levavam dezenas, por vezes centenas, de trabalhadores às sedes de seus respectivos 
sindicatos; ao mesmo tempo em que os jornais operários eram impressos as centenas, 
passando de mão em mão, e lidos – ou ouvidos – cotidianamente pelos trabalhadores 
belenenses. 
Contextos como esse facilitam a apreensão de determinados processos 
históricos. Avaliando os benefícios da emergência dos conflitos sociais, dos tumultos às 
revoluções, para o estudo histórico “a partir de baixo”, Eric Hobsbawm argumentou que: 
 
(...) certos problemas importantes não podem ser estudados exceto em presença 
e em função de momentos de erupção, que não apenas trazem à luz muita coisa 
normalmente latente, como também concentram e ampliam os fenômenos para 
o benefício do estudioso, geralmente multiplicando – o que não é a menor de 
suas vantagens – nossa documentação a seu respeito.8 
 
O comentário do historiador inglês pode ser aplicado à conjuntura em tela já que, 
embora talvez não se possa considerá-la um momento revolucionário ou pré-
revolucionário, foi um período de recrudescimento das atividades sindicais e grevistas, 
trazendo à público as organizações subterrâneas que se articularam em momentos 
anteriores, de tranquilidade social, e evidenciando os militantes e as lideranças que 
atuaram previamente e continuariam atuando pelos anos seguintes. Também multiplicou 
as fontes com a cobertura que os grandes jornais diários fizeram das greves, ou com as 
matérias e editorias referentes à “questão social”; com a publicação dos jornais operários 
que foram amplamente consumidos naquele instante e com a documentação oficial 
produzida a partir da repressão policial aos trabalhadores organizados. 
Tendo isso em vista, optou-se por este recorte temporal por considerá-lo 
privilegiado, já que ele amplificou as referências sobre a classe trabalhadora paraense. No 
entanto, há de levar em consideração a advertência do próprio Hobsbawm, para quem “o 
perigo desse tipo de estudo reside na tentação de isolar o fenômeno de crise manifesta do 
contexto mais amplo de uma sociedade em transformação”.9 Neste sentido, embora os 
anos de 1917 a 1920 sejam o os marcos temporais desta pesquisa, não foram barreiras 
intransponíveis, já que ao longo do texto final foram feitos avanços e recuos no tempo, 
 
8 HOBSBAWM, Eric. Sobre História: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 101. 
9 Idem, Ibidem.’ 
 
16 
 
conforme a pertinência para análise de certas questões, como, por exemplo, a do papel 
destacado que os trabalhadores da construção civil tiveram na organização da classe ao 
longo de duas décadas ou da manifestação do anticlericalismo entre as mulheres que 
fizeram parte do movimento. 
É neste amplo contexto que nosso trabalho buscou se situar, ao procurar 
identificar nas movimentações de Belém dos “anos vermelhos” essas relações – de tensão, 
conflito, interação, colaboração – no interior da classe operária, ou mais precisamente de 
seus setores organizados. É importante reconhecer que nossa escolha recaiu, consciente 
e deliberadamente, sobre o movimento operário em suas organizações formais e correntes 
ideológicas, pois houve, segundo Eric Hobsbawm, na chamada história vista de baixo, 
uma tendência entre historiadores a substituírem a história da classe operária 
propriamente dita pela história dos movimentos e organizações que lideravam e 
representavam a luta dos trabalhadores.10 
Assim, optamos aqui por uma abordagem sobre o movimento, embora 
reconheçamos que a história da classe operária não pode ser reduzida a história de suas 
manifestações organizadas, apesar de ambas estarem intimamente ligadas. Além do mais, 
já existe uma historiografia relativamente extensa sobre o tema do movimento operário, 
a nível nacional, com a qual foi possível dialogar. Outro fator que também pesou em nossa 
deliberação foi o da necessidade de realizar delimitações necessárias em uma pesquisa 
com prazo fixo e corrido, como são atualmente as realizadas no âmbito de um mestrado. 
 
* * * 
 
Do reconte espacial e temporal, vamos ao estabelecimento da problemática ou 
das perguntas que orientaram essa pesquisa. O historiador francês Marc Bloch, em um 
dos livros mais influentes na historiografia no século XX, definiu o objeto da História 
como “os homens, no tempo”11. Segundo este autor, “são os homens que a história quer 
capturar”; eles (e elas) que diferenciariam a História dos historiadores da história do 
sistema solar, da alçada dos físicos; da história das transformações geomórficas da terra, 
da alçada dos geólogos; ou das transformações dos demais seres vivos, à cargo da biologia 
ou de outras “histórias”. Décadas depois, Hobsbawm trilhou o mesmo sentido de Bloch, 
ao referir-se especificamente à história da classe operária e afirmar que os historiadores 
desse campo, do qual ele foi um dos maiores expoentes, não deveriam correr o risco de 
 
10 HOBSBAWM, E. Sobre história, op. cit., p. 218-219. 
11 BLOCH, Marc. Apologia da História, ou o Ofíciodo Historiador. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2001, p. 55. 
 
17 
 
esquecer que o sujeito e o objeto de suas pesquisas são os seres humanos, “pois são 
pessoas – não o ‘trabalho’, mas homens e mulheres trabalhadores reais, mesmo que 
frequentemente ignorantes, míopes e preconceituosos – o que o nosso estudo focaliza”.12 
Adotando as considerações desses dois historiadores, a presente dissertação visa 
identificar as pessoas diretamente envolvidas no objeto histórico do qual nos 
concentramos neste momento. Por trás do movimento, pode-se enxergar os homens e 
mulheres reais, trabalhadores e militantes, pois concordamos com Ícaro Bittencourt 
quando, em balanço da produção historiográfica sobre o movimento operário na Primeira 
República, afirmou que: 
 
A pergunta que todos os historiadores da classe operária devem fazer sobre o 
seu tema é justamente quem é o trabalhador que se está pesquisando, sua 
origem, sua profissão, sua descendência, seu gênero. Mesmo que muitas vezes 
os indícios disponíveis nos dificultem uma afirmação categórica e até mesmo 
uma noção geral sobre esse assunto, é imprescindível pensarmos sobre ele.13 
 
Tal perspectiva parece ser bastante recorrente no presente momento. Em artigo 
recente de balanço sobre como a História Social se desenvolveu nos últimos anos e qual 
futuro se pode esperar para ela, Cláudio Batalha argumentou que 
 
Nas últimas décadas, sem deixar inteiramente de lado o estudo das classes 
subalternas e seus movimentos, a história social ganhou considerável 
variedade temática. (...) Como traço comum há a ênfase nas dimensões 
relacionais. E dentro das relações sociais, as classes – que durante muito tempo 
tiveram predomínio inconteste – foram acrescidas de novos recortes como 
gênero e raça. Com isso a classe, antes vista como homogeneizadora, ganhou 
abordagens mais matizadas que introduziram diversidade na sua manifestação 
como fenômeno histórico.14 
 
A visão de Batalha parece ser compartilhada por amplos setores do campo, já 
que no mesmo número do periódico em que escreveu, o artigo de Clara E. Lida, 
historiadora argentina que estuda o movimento operário espanhol, vai na mesma direção, 
expondo que uma das tendências da História Social 
 
(...) ha sido recurrir a categorías generales, olvidando que a menudo estas 
podrían ocultar diversidades y desigualdades. Por ejemplo, al hablar del mundo 
del trabajo, se ha recurrido a términos como clases subalternas, asalariados, 
obreros, campesinos, sin precisar sobre quiénes hablamos ni cuáles son sus 
perfiles específicos. Las categorías generales pueden ser atajos útiles, pero las 
 
12 HOBSBAWM, Eric. Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. 6ª ed. São Paulo: Paz e 
Terra, 2015, p. 33. 
13 BITTENCOURT, Ícaro. O operariado no Brasil da primeira república: alguns apontamentos teórico-
metodológicos e historiográficos. Revista Sociais e Humanas, Santa Maria, RS, v. 20, n. 1, p. 141-151, 
2007. 
14 BATALHA, Cláudio Henrique de Moraes. Qual futuro para a história social? Trashumante. Revista 
Americana de História Social, nº 20, 2022, p. 287. 
 
18 
 
particularidades importan para comprender la pluralidad de los actores, su 
heterogeneidad estructural, sus realidades socio-ocupacionales, tan poco 
homogéneas y tan complejas como la sociedad misma. Al hablar de los 
trabajadores, solemos referirnos a los obreros y artesanos urbanos, a 
campesinos y a mineros sin precisar quiénes componen cada categoría ni sus 
particularidades. Si nos centráramos específicamente en lo ocupacional, la 
pluralidad de cualificaciones, condiciones de trabajo, ingresos y demás 
factores laborales, incluyendo el género y la edad, resultarían enormes.15 
 
Tal preocupação da articulação da identidade de classe com outras identidades, 
notoriamente como as de gênero e as étnico-raciais ou de nacionalidade, não é assim tão 
recente: em artigo sobre a greve geral de 1906 em Porto Alegre – em que discute as 
relações entre trabalho fabril e artesanal, masculino e feminino e entre os trabalhadores 
imigrantes e os de origem nacional na parede porto-alegrense – a brasilianista Joan Bak 
concluiu que “a compreensão da evolução das identidades de etnicidade e gênero e as 
múltiplas formas em que elas podem interagir com a identidade da classe emergente são 
essenciais para a compreensão do complexo processo de formação de classes no Brasil”.16 
Como não podia deixar de ser, o panorama historiográfico atual é diferente 
daquele que Cláudio Batalha apontou há alguns anos, quando a imagem que era associada 
à classe operária brasileira no período da Primeira República – por parte da historiografia 
e do senso comum – era a de que teria sido “branca, fabril e masculina”, embora, ainda 
segundo o autor, “cada um desses atributos falseia a realidade a seu modo”. Conforme 
exposto por Batalha, se por um lado a visão de um operariado branco, formado por 
imigrantes europeus, pode ser em alguma medida assertiva para São Paulo e estados do 
Sul, por outro desconsidera o peso dos nacionais no restante do país, com significativa 
participação de pretos, pardos e caboclos nas outras regiões e em especial na região Norte; 
no que tange a dimensão fabril, aquela visão escamoteava os trabalhadores em pequenas 
manufaturas e oficinas artesanais, que eram predominantes no período, para não falar dos 
trabalhadores urbanos do comércio, transportes e serviços; já no que concerne a dimensão 
masculina, a visão criticada ignora a forte presença, por vezes a predominância, do 
trabalho feminino em alguns ramos da economia do período, como o têxtil.17 
 
15 LIDA, Clara E. Desigualdades y jerarquías en el mundo del trabajo. Ingresos y género en los albores del 
anarquismo español. Trashumante. Revista Americana de História Social, n. 20, p. 300-304, 2022, p. 300. 
16 BAK, Joan. Classe, etnicidade e gênero no Brasil: a negociação de identidade dos trabalhadores na greve 
de 1906. Porto Alegre. Métis: história & cultura, v. 2, n. 4, p. 181-224, 2003. 
17 BATALHA, Cláudio Henrique de Moraes. Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva. 
In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org.). O tempo do liberalismo excludente: 
da Proclamação da República à Revolução de 1930. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010 (col. 
O Brasil Republicano, vol. 1), p. 165. 
 
19 
 
Com base nessas considerações, a presente dissertação, intitulada “Anos 
Vermelhos: Classe, Gênero e Nacionalidade no Movimento Operário de Belém do Pará, 
1917-1920”, tem como objetivo analisar criticamente a classe operária e, principalmente, 
o movimento operário – levando em conta as suas manifestações políticas, sociais e 
culturais – na cidade de Belém do Pará entre os anos de 1917 e 1920, período marcado 
por várias greves e outras atividades classistas, que acompanharam o momento de 
recrudescimento de agitação operária que ocorreu em várias partes do país, até mesmo do 
mundo. 
Partindo do pressuposto que a classe e os movimentos operários são 
extremamente heterogêneos em sua composição, e procurando justamente evidenciar esta 
diversidade humana que os marcam, a pergunta geradora e problematizadora que orientou 
a pesquisa pode ser enunciada nas seguintes questão: “quem eram os trabalhadores que 
se movimentaram naquele momento?”, ou seja, quais eram os elementos humanos, em 
termos de categorias profissionais, gênero e nacionalidade/etnia que compunham o 
movimento operário naquele instante? e como, apesar dessa heterogeneidade 
significativa em sua composição, tantos elementos humanos se viram como pertencentes 
a uma classe social específica? O intuito é evidenciar seus nomes, vozes, cores e, quando 
possível, os rostos dos trabalhadores que se movimentavam naquele momento. Identificar 
os sujeitos sociais por trás do processo histórico, os segmentos de trabalhadores e 
trabalhadoras mais atuantes no movimento na conjunturaestabelecida. 
É claro que os critérios escolhidos e trabalhados na pesquisa não esgotam a 
questão da diversidade e heterogeneidade da classe trabalhadora, uma vez que, na prática, 
haviam outras diversidades e identidades a partir das quais os trabalhadores poderiam ser 
classificados ou eram percebidos, como em relação as suas faixas etárias, seus credos 
religiosos, suas posições diante da política local da capital paraense, onde a oposição entre 
“lauristas” e “lemistas” chegou também ao meio operário, dentre outras diferenças. No 
entanto, as questões das categorias profissionais, do gênero e da nacionalidade parecem 
ter tido papel central na conformação da classe e são, atualmente, as questões mais 
recorrentes no debate acadêmico, não apenas na história social do trabalho como também 
em outros campos das ciências humanas e sociais.18 
 
 
 
 
18 BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luís Felipe. Gênero, raça, classe: opressões cruzadas e convergências na 
reprodução das desigualdades. Mediações, Londrina, PR, v. 20, n. 2, p. 27, 2015. 
 
20 
 
* * * 
 
A base documental utilizada na dissertação se consistiu, em grande medida, de 
um conjunto de jornais operários – portanto publicados pelos próprios sujeitos-alvos da 
pesquisa – ligados ao sindicalismo revolucionário. Este conjunto é composto pelos 
periódicos Onze de Janeiro, edição especial em comemoração ao quarto aniversário da 
União Geral dos Trabalhadores (UGT), publicado em 1918; o Jornal do Povo, semanário 
independente que veio a lume entre maio de 1918 e maio de 1919, com os exemplares 
preservados datando de agosto e setembro de 1918, também ligado à UGT; O Semeador, 
periódico semanal de propaganda sindicalista animado pelo grupo Os Semeadores, que 
circulou entre abril de 1919 a janeiro de 1920, tirando quarenta e quatro edições nesse 
meio tempo; A Revolta, semanário dirigido pelo grupo Aurora Libertária, distribuído em 
Belém no segundo semestre de 1919; e o A Voz do Trabalhador, surgido da fusão dos 
dois anteriores e que se tornou porta-voz da Federação das Classes Trabalhadoras do 
Pará (FCT), publicando cerca de vinte números ao longo de 1920. 
Enquanto produção dos próprios trabalhadores, ou pelo menos de lideranças e 
militantes engajados nos movimentos, a imprensa operária continua a ser fonte 
privilegiada para os estudos da história operária19, já que deu vazão a questões que 
dificilmente foram registradas ou receberam a atenção de outros suportes documentais. 
Suas páginas registraram muitas atividades que não foram descritas, retratadas ou 
representadas em nenhum outro lugar, como é o caso da rotina de assembleia das 
associações, os artigos doutrinários que expressam os projetos, aspirações e 
reivindicações operárias, a vida cultural do setor organizado do proletariado, as denúncias 
das situações que os trabalhadores consideravam injustas nos ambientes e nas relações de 
trabalho, os pontos de divergência de grupos no interior do próprio movimento, dentre 
outros aspectos de extrema relevância. 
Além dos jornais operários, a grande imprensa diária da capital paraense, 
notavelmente o diário Estado do Pará, um dos maiores e mais populares jornais do 
período analisado nesta dissertação e cujas cópias digitalizadas estão disponíveis para a 
consulta online na Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional, foi 
extensivamente utilizada ao longo das páginas que seguem, já que ele noticiava, 
esporadicamente, manifestações operárias, como greves, comícios, meetings, eleições de 
 
19 Lembremos que foi basicamente através deste suporte documental que boa parte dos estudos históricos 
sobre a classe e o movimento operário foram desenvolvidos desde os anos finais da década de 1970. 
 
21 
 
associações classistas, prisões de trabalhadores envolvidos em conflitos trabalhistas ou 
atividades “subversivas”, fornecendo desta forma muitos dados importantes que 
permitiam o cruzamento com outros registros documentais. 
Os documentos oficiais do Estado, como os relatórios do governador do Pará 
nesta conjuntura, Lauro Nina Sodré, ou o Recenseamento Geral do Brasil realizado em 
1920 pelo Departamento de Estatística, além de relatórios da Marinha, também foram 
consultados e citados, já que trouxeram alguns dados sobre os mundos do trabalho 
belemenses deste período, sobretudo em seus aspectos numéricos, o que permitiu que 
também fossem cruzados com outras fontes. 
Os estatutos de algumas das sociedades e sindicatos belemenses que estiveram 
em atividade naquele momento – cujas cópias podem ser consultadas no site do Centro 
de Memória da Amazônia (CMA)20 – também foram consultados para a elaboração desta 
pesquisa. Por mais “(...) redigidos seguindo uma fórmula pré-estabelecida que sejam, 
costumam conter algumas informações fundamentais sobre a associação e, no caso dos 
sindicatos e associações mutualistas de ofício, sobre a categoria que a representam”, 
conforme anotou Batalha.21 De qualquer forma, acabaram proporcionando dados 
interessantes, na medida em que trazem em seus muitos artigos as determinações de 
quem, por exemplo, poderia se associar à eles, em termos de gênero, de nacionalidade, de 
ofício e, em alguns casos, de idade, assim indicando ao pesquisador o perfil de seus sócios 
e, por conseguinte, daqueles que tomavam parte das movimentações operárias daquele 
momento. 
As fontes da imprensa periódica – tanto da operária quanto da empresarial e diária 
– foram as mais amplamente citadas ao longo da dissertação, sendo, portanto, as que 
demandaram uma reflexão metodológica maior acerca de suas apropriações pela 
pesquisa. Neste sentido, segui as historiadoras Heloísa de Faria Cruz e Maria do Rosário 
da Cunha Peixoto – em artigo que visa problematizar os usos correntes que os 
historiadores fazem da imprensa e sugerir um roteiro de procedimentos para eles 
encararem os periódicos – que apontam que, embora amplamente usados, tanto como 
fontes quanto como objetos, bem como recursos didáticos, os jornais tinham recebido 
poucas reflexões teórico-metodológicas por parte dos historiadores. As autoras sugerem 
que a imprensa seja encarada como uma “força social ativa na história do capitalismo”, 
 
20 https://www.cma.ufpa.br/acervo.html consultado em 07 de abril de 2023. 
21 BATALHA, Claudio Henrique de Moraes. Vida associativa: por uma nova abordagem da história 
institucional nos estudos do movimento operário. Anos 90, Porto Alegre, v. 5, n. 8, p. 91-99, 1997. 
https://www.cma.ufpa.br/acervo.html
 
22 
 
recusando a ideias correntes como a de “espelho da realidade”, ou de ser “depositário de 
acontecimentos”, uma vez que ela se configurou, por todos os lugares onde se inseriu, em 
um agente capaz de interferir e modificar a sociedade.22 
É quase desnecessário ressaltar que essa perspectiva afasta completamente a 
percepção da imprensa alvo da pesquisa histórica ser considerada como uma 
documentação histórica neutra ou imparcial. Por outro lado, seu comprometimento – 
político, econômicos, etc. – não diminui sua importancia enquanto fonte, sendo 
precisamente essa sua parcialidade um dado extremamente significativo para o 
esclarecimento de seus posicionamentos e, por conseguinte, também daqueles indivíduos 
e segmentos sociais que a produzem ou que nela orbitam. 
As mesmas autoras ainda sugerem um roteiro de procedimentos para analisar a 
imprensa periódica – que ao invés de serem passos lineares, devem ser simultâneos – que 
incluem: a identificação do periódico, do seu projeto gráfico e do seu projeto editorial: 
produção e distribuição, grupos produtores, circulação, posicionamentos políticos em 
conjunturas específicas. Estes nos parecem procedimentos extremamente pertinentes aos 
nossos objetivos. 
Procurar perceber os grupos produtores e consumidores dos jornais por nós 
analisados nos ajudou a identificar os segmentos de trabalhadores atuantes no movimento. 
Dessa forma, ao analisarmos ARevolta (1919), identificamos muitas referências aos 
trabalhadores da construção civil, marceneiros e carpinteiros; seja pela presença de textos 
direcionados a eles23 ou que se referiamm a estas categorias ou membros específicos 
delas, trazendo anúncios de acidentes de trabalho24, ou de falecimentos, como o do 
marceneiro Jozé Árias, que “pertencia à União dos O. Marceneiros e Artes 
Correlativas”25; ou ainda com cartas enviadas por membros delas e publicadas no jornal.26 
Um olhar mais atento sobre os grupos produtores do periódico revela que pelo menos 
dois deles, o redator-principal José Marques da Costa e o administrador Alexandre 
Queiróz, eram membros destas categorias. Estas informações nos levaram a crer que estas 
categorias eram algumas das mais atuantes e organizadas do movimento naquele período. 
As considerações de Heloísa Cruz e Maria do Rosário Peixoto sobre tomar-se a 
 
22 CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na oficina do historiador: conversas 
sobre História e Imprensa. Projeto História, São Paulo, n° 35, p. 253-27, 2007. 
23 “Chicote. Aos Marceneiros”. A Revolta, Belém, n° 2, 9 ago. de 1919. 
24 “Acidentes de trabalho”. A Revolta, Belém, n° 5, 20 set. 1919. 
25 “Jozé Árias”. A Revolta, Belém, n° 6, 4 out. 1919. 
26 BARRROS, Manoel Ferreira. “Companheiros redatores do jornal A Revolta”. A Revolta, Belém, n° 4, 6 
set. 1919. 
 
23 
 
imprensa como uma “força ativa da história” nos parecem bem próximas, ou pelo menos 
não contraditórias, com as assumidas por Maria do Pilar de Araújo Vieira e outras 
pesquisadoras sobre considerar a imprensa como “constituinte da práxis social dos grupos 
que a produziram”.27 Nesse artigo, as autoras relataram a experiência na disciplina 
“Pesquisa Histórica” do curso de História da PUC-SP e fornecem várias considerações 
teórico metodológicas sobre o uso da imprensa como fonte histórica. Entre elas, e a que 
nos pareceu mais interessante, consta uma ficha para a classificação de dados que as 
autoras aplicaram aos editoriais da grande imprensa paulista, com o intuito de analisar 
seus discursos. A ficha procurava buscar nos editoriais três aspectos: o diagnóstico da 
sociedade contemporânea (aos jornais), a concepção ideal de sociedade e o(s) método(s) 
para chegar a ela apresentados pelos textos-editoriais. Esse método nos parece útil se 
aplicado ao nosso corpus documental, com as devidas adaptações, para avaliar por 
exemplo a concepção dos trabalhadores que se movimentaram naquele momento em 
relação a como deveria ser (e como encaravam que fosse) as relações de gênero e entre 
nacionais e estrangeiros no interior do movimento operário e da própria sociedade. 
Já Reneé Barata Zicman – em artigo de certo pioneirismo no Brasil sobre o uso 
da imprensa periódica como fonte histórica – apresentou um instrumento metodológico 
que nos parece muito útil aos nossos objetivos: o método de análise temática de conteúdo. 
Esse método “desenvolve-se a partir de temas ou itens de significação relativos a um 
determinado objeto de estudo e analisados em termo de sua presença e frequência de 
aparecimento nos textos analisados”.28 Na obra, a autora propõe três fases desse método, 
sendo a primeira referente ao enunciado das hipóteses e à formulação dos objetivos, que 
serão os guias-gerais da análise (nossos objetivos já foram enunciados anteriormente). A 
segunda, refere-se à definição do campo de observação/constituição do corpus 
documental: é a fase que define o conjunto de documentos a ser analisado. Esse conjunto 
deve obedecer dois critérios básicos: os textos devem pertencer a uma mesma categoria 
de imprensa (no nosso caso, a imprensa operária belenense) e devem possuir um 
“referente constante”, ou seja, o tema de interesse de cada pesquisa. 
Ainda de acordo com Zicman, a terceira fase consiste na “operação da 
classificação de elementos levantados nos artigos segundo critérios anteriormente 
 
27 VIEIRA, Maria do Pilar et al. Imprensa como fonte para a pesquisa histórica. Projeto História, São Paulo, 
v. 3, p.47-54, 1984. ZICMAN, Renée Barata. História através da imprensa: algumas considerações 
metodológicas. Projeto História, São Paulo, v. 4, p.89-102, 1985. 
28 ZICMAN, Renée Barata. História através da imprensa: algumas considerações metodológicas. Projeto 
História, São Paulo, v. 4, p.89-102, 1985. 
 
24 
 
definidos”, em um primeiro momento levantando os vários elementos constitutivos dos 
artigos e depois os redistribuindo em grupos ou tipos análogos (distribuindo os artigos e 
editoriais em categorias como “referêntes à questão de gênero” ou “referentes a questão 
da nacionalidade dos trabalhadores”, por exemplo); por fim, os codificando, ou seja, 
procurando perceber três aspectos: a presença – ou ausência – de citações das categorias 
estabelecidas; sua frequência; e sua orientação ou tonalidade (posição do jornal em 
relação ao tema: se é positiva, negativa, neutra ou ambivalente). Este processo demanda 
a construção de tabelas e quadros de classificação dos textos. 
A análise temática de conteúdo foi aplicada, com as devidas adaptações, às nossas 
necessidades e fontes, por exemplo, quando buscamos identificar os segmentos de 
trabalhadores mais atuantes no movimento operário de Belém criamos tabelas para 
classificar os textos dos jornais que citam “categorias profissionais especificas”, ou 
“trabalhadores estrangeiros” e a partir delas identificamos sujeitos que, se não foramos 
mais atuantes, pelo menos foram os que mais apareceram nas páginas dos jornais 
analisados. 
Além disso, a aplicação da análise temática de conteúdo na imprensa periódica 
proposta por Zicman nos pareceu pertinente para evitar um risco apontado por Ana Maria 
Camargo de se utilizar destas fontes. Camargo o estabelece como sendo o de “(...) buscar 
num periódico precisamente aquilo que queremos confirmar, o que em geral acontece 
quando desvinculamos uma palavra, uma linha ou um texto inteiro de uma realidade 
maior”29, pois com esse método abordamos os impressos de uma forma tanto quantitativa 
(por enumerar a frequência de citações de determinada categoria), quanto qualitativa. 
Temos consciência de que, por conta da atenção a essas considerações, em alguns 
momentos o texto da dissertação ficou algo truncado, com várias citações seguidas sobre 
o mesmo aspecto, mas achamos ser isso necessário para demonstrar que as afirmações 
apresentadas expressavam tendências gerais, não sendo apenas citações específicas 
catados ao acaso para ilustrar proposições dadas a priori, conforme advertido por 
Camargo. Embora as autoras mencionadas acima não tenham sido recorrentemente 
citadas ao longo do texto, as considerações metodológicas delas estiveram subjacentes ao 
longo de todo o processo de manejo e interpretação das fontes. 
 
 
 
 
29 CAMARGO, Ana Maria de Almeida. A imprensa periódica como fonte para a história do Brasil. Anais 
do Simpósio Nacional de Professores Universitários de História. São Paulo: FFCH–USP, p. 225-239, 1971. 
 
25 
 
* * * 
 
A dissertação segue a seguinte estrutura: o primeiro capítulo, intitulado “Cidade 
em Transe: Aspectos de Belém na Decadência Econômica da Borracha”, faz um 
panorama contextual da capital paraense na segunda década do novecentos e em especial 
no que designei de anos vermelhos, ou seja, entre 1917 e 1920. Nele, buscou-se assinalar 
os efeitos da dupla crise econômica gerada pela queda do preço da borracha somada aos 
efeitos da Grande Guerra, a crise política que assinalou a mudança nos grupos 
oligárquicos no poder, os mundos do trabalho na “cidade das mangueiras” – como 
também é conhecida Belém – naquela conjuntura, e a reação da classe operária na cidade 
à todos esses acontecimentos, trazendo um breve resumo das principais greves ocorridas 
nos quatro anos finais daquele segundo decênio do século XX. 
O segundo capítulo, intitulado “Das Classes à Classe: Ofícios e categorias 
profissionaisna mobilização operária”, buscou, como se vê, identificar as categorias 
profissionais mais atuantes naquela conjuntura, tomando como parâmetro a organização 
em sindicatos ou associações classistas, o empreendimento de greves, o apoio à greves 
gerais e de solidariedade e o diálogo com os jornais operários que circulavam naquele 
momento. Ali também se buscou levantar hipóteses sobre os fatores que levaram ao 
protagonismo das categorias identificadas; para tanto, partiu-se do pressuposto que a 
identidade profissional (“de ofício”, de “corporação”) era um dos primeiros passos para 
– e se articula com – a identidade de classe mais ampla. Neste momento, foi importante 
estabelecer diálogos com a discussão trazida por autores marxistas, como o Gramsci e 
Hobsbawm, em especial sobre os graus de consciência de classe30, e com as reflexões de 
Edward Palmer Thompson acerca do mesmo tema e em relação a sua referência à 
“consciência vertical dos ofícios específicos”31, perspectiva esta que, aliás, já havia sido 
igualmente desenvolvida no contexto do Estado do Pará pela pesquisa recente de Adriano 
Craveiro de Oliveira.32 
O terceiro capítulo buscou trazer debate sobre as relações entre gênero e classe, 
evidenciando a atuação das mulheres no recorte proposto, tanto nas greves quanto nos 
sindicatos, assim como nos jornais da imprensa operária belenense, procurando 
 
30 BADARÓ, Marcelo. A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo. São Paulo: Boitempo, 2019. 
31 THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 57-62. 
32 OLIVEIRA, Adriano Craveiro de. Trabalhadores na Primeira República no Pará (1860-1930): estudos 
sobre organizações e greves de uma classe em formação. 2019. Dissertação (Mestrado em História Social 
da Amazônia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2019. 
 
26 
 
identificar as características gerais dessa atuação e como ela diferia e/ou interagia com as 
dos trabalhadores homens, bem como as específicas da condição de gênero, destacando 
as possibilidades e limitações que elas enfrentavam no interior das lutas proletárias, as 
relações entre elas e seus companheiros de classe. Sobre o tema da mulher no movimento 
operário, dialogamos com referências historiográficas diversas, desde as hoje clássicas 
abordagens de Michelle Perrot sobre o contexto francês, até a produção acadêmica 
nacional e local – termos um tanto quanto imprecisos e impróprios – mais recente, como 
a de Gláucia Fraccaro ou de Edilza Fontes, ambas abordando o operariado feminino da 
Primeira República. 
Por fim, o quarto capítulo, “‘Nossa Pátria é o Mundo Inteiro(?)”: Nacionais e 
estrangeiros no movimento operário belenense”, teve como objetivo discutir a 
conformação étnica e nacional dos segmentos da classe que se organizavam em Belém 
naquele momento, buscando identificar tanto os momentos de tensão e conflito quanto os 
de solidariedade, cooperação e apoio mútuo entre os trabalhadores imigrantes (sobretudo 
portugueses, espanhóis e italianos) e os brasileiros, estes últimos também pensados em 
sua heterogeneidade, que incluía negros, descendentes de indígenas, tapuios, caboclos, 
mestiços, brancos pobres e migrantes de outras regiões do país. Para tanto, além da 
bibliografia que trata sobre a imigração estrangeira para o Estado do Pará, retomamos 
algumas considerações teóricas de Eric Hobsbawm sobre as relações entre as identidades 
de classe e de nacionalidade33, bem como os estudos sobre classe e nação em outros 
contextos brasileiros, como São Paulo e Amazonas, o que muito ajudou a interpretar o 
caso paraense.
 
33 HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho, op. cit., p. 89-112 (Cap. “Qual é o país dos trabalhadores?”). 
 
27 
 
Capítulo 1: 
Cidade em Transe: 
Aspectos de Belém na Decadência Econômica da Borracha 
 
 
É muito difícil falar da sociedade amazônica no segundo decênio do século XX 
sem mencionar logo de início a profunda crise que se abateu sobre o comércio da 
borracha; e isso não deriva de adesão a determinismos econômicos ou a visões 
economicistas, mas porque ela realmente teve impactos muito significativos na sociedade 
amazônida da época, já que a seiva da hevea brasiliense tinha sido a principal pauta de 
exportação e seu comércio a principal atividade produtiva e mercantil durante as três 
décadas precedentes, gerando transformações muito significantes na região. À rigor, o 
que se desenvolveu na economia da Amazônia a partir de 1911 vai bem mais além do que 
poderia descrever a noção de crise; trata-se, na verdade, de uma decadência econômica. 
Seus efeitos afetaram desde a arrecadação das receitas dos estados do Norte até as 
possibilidades de emprego nos mundos do trabalho das capitais regionais, Belém e 
Manaus, impactando, inclusive, suas dimensões demográficas. 
A década tinha começado, na verdade, de forma muito auspiciosa para a economia 
gomífera. No primeiro semestre de 1910, um ano antes do desastre, o preço da borracha 
– produto responsável por mais de 80% das receitas do Pará, Acre e Amazonas – havia 
chegado ao seu apogeu nos mercados internacionais, animando as elites diretamente 
ligadas à sua produção e comercialização, dos seringalistas aos grandes comerciantes das 
casas aviadores, com grandes perspectivas de lucro. Apesar do clima de euforia, logo no 
ano seguinte a sorte mudou de forma radical, com a queda quase vertical dos preços da 
goma elástica, fazendo com que muitas das fortunas acumuladas nas décadas anteriores 
de desfizessem no ar de forma muito rápida. 
O motivo de tão devastadora queda na cotação da mercadoria foi a entrada no 
mercado internacional da borracha produzida na Ásia por firmas europeias, já que as 
seringueiras cultivadas metodicamente na região do sudeste asiático, Ceilão e Malásia, 
especialmente, eram comparativamente muito mais produtivas e baratas do que a extração 
nos sertões da Amazônia, realizadas por métodos extrativos rudimentares e pouco 
eficientes. Os números são eloquentes: em 1910, no auge dos preços, o Brasil produziu 
cerca de 40.800 toneladas do produto, enquanto a Ásia lançou no mercado algo próximo 
de 8.750 toneladas. Já no ano seguinte, a produção brasileira ficou em torno de 37.730 
 
28 
 
toneladas, ao passo que a asiática quase dobrou para 15.800 toneladas. Em 1913, os 
números da Ásia superam os do Brasil, com 47.618 e 39.560 toneladas, respectivamente. 
Já no final da década, em 1919, a diferença tornou-se acachapante: 381.860 toneladas 
asiáticas contra 34.285 brasileiras. Embora a produção brasileira tenha se mantido estável 
e a demanda internacional tenha até aumentado no final da década, o fator determinante 
para a crise foi a queda quase vertical dos preços, de 964 libras ou 2.267 dólares por 
tonelada em 1911 para 227,4 libras ou 885,6 dólares por tonelada em 1919.34 
Segundo Bárbara Weinstein, “não houve um membro da comunidade mercantil 
do Pará que escapasse à crise totalmente ileso”, já que dezenas de casas aviadoras – 
entrepostos comerciais responsáveis por levar as pelas de borracha às casas exportadoras 
e as mercadorias, alimentos e ferramentas, importadas e indispensáveis a sobrevivência, 
aos seringueiros – faliram nos anos imediatamente posteriores a grande queda de preços 
de 1911, e as que conseguiram se manter tiveram fortes reduções em seus capitais. Pelas 
grandes folhas diárias das duas capitais amazônicas (Belém e Manaus), tornaram-se 
recorrentes os anúncios da venda de propriedades rurais, imóveis urbanos e navios a 
vapor, pertencentes aos donos seringais ou aos aviadores, que procuravam se desfazer 
desses bens para tentar quitar dívidas, já que todo o sistema de aviamento era altamente 
dependente de créditos, que por sua vez eram em sua maioria irrealizáveis. Muitos desses 
investidores se retiraram da região para seus países de origem ou para outrosestados do 
país, e os que permaneceram em Belém tiveram de viver em condições mais modestas, 
participando, numa escala bem menor, do comércio local.35 
Destinos muito parecidos teve uma grande parte dos trabalhadores imigrantes, 
tanto nacionais quanto estrangeiros, que nas décadas anteriores haviam se dirigido para a 
região em busca de uma vida melhor ou, quem sabe, de acumular fortunas com o tão 
propalado ouro branco: grande parte dos migrantes nordestinos que se deslocaram para 
trabalhar nos seringais fez, posteriormente, o caminho de volta aos seus estados de 
origem, ou abandonaram os seringais para se estabelecer nos núcleos urbanos, como 
Belém, ao passo que muitos dos imigrantes portugueses, espanhóis, italianos e de outras 
nacionalidades, também retornaram aos seus países de origem, ou migraram novamente 
em direção a outras regiões do Brasil ou para outros países. 
 
34 SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980, p. 
236 (Quadro IX-2). 
35 WEINSTEIN, Barbara. A borracha da Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo: 
HUCITEC; EDUSP, 1993, p. 261-271. 
 
29 
 
A situação da economia e da sociedade paraense ainda foi agravada, nessa 
conjuntura, pelos efeitos deletérios da Grande Guerra, que eclodiu em meados de 1914 e 
se estendeu até o final de 1918, desorganizando tanto a produção quanto o comércio de 
mercadorias europeias, além de reduzir a demanda por muitos produtos primários (como 
a borracha e a castanha-do-pará) produzidos em outros países, gerando desabastecimento, 
carestia e desemprego por todo o mundo, incluindo até mesmo países não foram 
diretamente envolvidos no conflito.36 
O governo estadual do Pará e a intendência municipal de Belém sofreram um duro 
golpe com a crise e a consequente redução drástica da receita dos impostos. Para se ter 
uma ideia do drama, a receita do estado do Pará, que tinha sido estimada em 20.255 contos 
de réis em 1910, caiu para módicos 8.517 em 1920.37 Nesta conjuntura, o governo do 
estado teve de apelar para a contração de empréstimos na tentativa de equilibrar as contas 
públicas e pagar os empréstimos contraídos nos anos anteriores de bonança, o que não 
impediu calotes, reduções e atrasos nos pagamentos dos salários do funcionalismo 
estadual e municipal (como os dos professores, prestadores de serviços urbanos, 
aposentados, funcionários das repartições públicas e até mesmo os juízes), jogando alguns 
desses empregados em uma situação quase falimentar38; o que, por seu turno, gerou 
mobilizações e greves entre os servidores públicos estaduais e municipais, como do 
pessoal da limpeza publica e dos vigilantes noturnos. 
O início da decadência econômica no Pará foi acompanhado de uma crise política 
que acabou produzindo um reordenamento de grandes proporções nas instâncias do 
poder, com a deposição do grupo oligárquico que gravitava em torno do intendente 
municipal de Belém e líder do Partido Republicano do Pará, Antônio José de Lemos. 
Logo após o domínio dos “republicanos históricos”39 nos anos iniciais do regime que se 
instaurou em 1889, representado pelo governo interino de Justo Leite Chermont (1889-
1891) e dos governos eleitos de Lauro Nina Sodré (1891-1897) e José Paes de Carvalho 
(1897-1901), o grupo que gravitava em torno de Antônio Lemos passou a dominar o 
cenário político local ao longo de toda a primeira década do novo século. O próprio 
Lemos, originário do Maranhão, havia migrado ainda muito jovem para o Pará, onde se 
 
36 HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das 
Letras, 1995, p. 29. 
37 SANTOS, R. História econômica da Amazônia, op. cit., p. 240. 
38 WEINSTEIN, B. A borracha da Amazônia, op. cit., p. 280-282; 
39 Isto é, o grupo de políticos que haviam aderido à República antes de sua proclamação, e que haviam 
gravitado tanto no Club Republicano do Pará (1886) quanto no Partido Republicano Paraense, surgido no 
mesmo ano. 
 
30 
 
tornou um dos principais membros do Partido Liberal, nos tempos do Império. No 
alvorecer da República ocupou por longo período o cargo de intendente (correspondente 
ao do atual prefeito) de Belém, sendo eleito sucessivamente entre 1897 e 1911. Essa 
atuação fez com que ele acabasse por se tornar ali um dos principais símbolos das 
administrações modernizadoras dos tempos áureos da borracha, sendo responsável por 
levar a cabo o processo de reordenamento urbano de Belém, com a implantação de 
serviços, realização de reformas estruturais e paisagísticas, com o calçamento de ruas e a 
construção, ampliação e/ou alargamento de praças e avenidas.40 Debita-se também a ele 
a implementação de legislação e de ações que visavam o controle de hábitos e costumes 
dos moradores da cidade, a partir de rígidos códigos de conduta municipais que, quase 
sempre, voltavam-se à repressão dos valores e das práticas (hábitos e costumes) 
tradicionais da população local, afetando sobretudo as classes populares e os 
trabalhadores.41 
Os governadores do estado nesse período, Augusto Montenegro (1901-1909) e 
João Antônio Luís Coelho (1909-1913), foram ambos aliados, mais ou menos próximos 
de Lemos, e eleitos com o apoio do intendente, a partir da mobilização de seus currais 
eleitorais, pelo menos até o final da administração de Coelho, quando então se processa 
uma importante ruptura política. Além de apoiar a eleição de governadores e deputados, 
Lemos também influenciou na política local com a indicação de homens de sua confiança 
para a ocupação de cargos nas instâncias municipal e estadual, com a concessão de 
serviços públicos municipais à aliados, prática clientelista bastante comum na Primeira 
República. Os ditos “republicanos históricos” foram em sua maioria perseguidos ou se 
auto exilaram do estado neste meio tempo, com os remanescentes se organizando em 
torno do jornal Folha do Norte, dirigido pelo jornalista e político Enéas Martins. Do 
jornal, a oposição desferia ataques constantes e ferinos ao governo municipal.42 Em 1911, 
outra folha diária, o Estado do Pará, de oposição a Lemos e apoio à Sodré, veio à lume, 
sendo basicamente constituída por dissidentes do lemismo (adeptos de Antônio Lemos), 
que gravitavam em torno de João Coelho, aderindo posteriormente ao laurismo. 
 
40 SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas criando a Belle Époque. Belém: Paka-tatu, 2002. 
41 NASCIMENTO, Sérgio da Silva do. Trabalhadores de Belém: tempos de modernização na virada do 
século XIX para o XX. Monografia (Licenciatura em História), Centro de Ciências Humanas e Sociais, 
Universidade da Amazônia, Belém, 2017. 
42 SANTOS, R. História econômica da Amazônia, op. cit.; WEINSTEIN, B. A borracha da Amazônia, op. 
cit. 
 
31 
 
Após mais de uma década de hegemonia política em Belém e no Pará, a sorte de 
Antônio Lemos mudaria radicalmente no início dos anos de 1910, uma vez que, entre o 
final deste mesmo ano e o início do seguinte, a cidade foi sacudida por uma série de 
revoltas populares que recaíram contra a intendência: em 30 de dezembro de 1910, 
populares destruíram e incendiaram as latas de lixo que o poder municipal tinha 
determinado como obrigatórias; no dia 2 de janeiro de 1911 foi a vez dos peixeiros se 
revoltarem contra a obrigatoriedade do uso dos tabuleiros da Empresa Americana de 
Veículos, destruindo e depredando todos os que encontraram pela frente; nos dias 
seguintes, os revoltosos se direcionaram contra os quiosques do centro da cidade, cuja 
construção e exploração haviam sido dadas, em concessão da intendência, ao engenheiro 
Francisco Bolonha, aliado próximo de Lemos. Algumas dezenas desses quiosques foram 
incendiados, havendo um número não determinado de presos e feridos nos 
enfrentamentos daqueles dias; bondes elétricos também sofreram ataques. Com o 
recrudescimento da oposição, em junho daquele ano, Antônio Lemos renunciou ao cargo 
de intendente e se retiroutemporariamente de Belém.43 
Nas eleições do ano seguinte, os dois líderes políticos rivais – Lauro Sodré e 
Antônio Lemos – aportaram em Belém para mobilizar seus prestígios políticos em favor 
dos candidatos que cada um apoiava, muito embora houvesse um clima de hostilidade 
contra o segundo. Sodré acabou sofrendo um atentado a tiros, em episódio obscuro que 
gerou muitas interpretações44, mas cuja responsabilidade foi imediatamente atribuída à 
Lemos e aos seus partidários. Uma multidão solidária à Sodré empreendeu nova revolta 
em 29 de agosto, fuzilando, empastelando e incendiando o jornal A Província do Pará – 
fundado por Lemos em 1876 e principal porta-voz dos lemistas – e, a seguir, invadindo e 
depredando o palacete residencial de Lemos, que por pouco não foi linchado pela 
população, não fosse a intervenção do intendente Virgílio de Mendonça – ex-lemista que 
se voltou contra o chefe do PRP. De qualquer forma, o episódio parece ter sepultado 
definitivamente a carreira política de Antônio Lemos. 
Muitos trabalhadores estiveram presentes nestes movimentos. Weinstein relatou 
que “nos doze meses que se seguiram [ao início da crise], o contingente de trabalhadores 
 
43 COIMBRA, Adriana Modesto. O clarão que iluminou a cidade: as concessões Bolonha e a derrocada da 
“era lemos” - modernização e disputas políticas na cidade de Belém do Pará. Urbana: Revista Eletrônica 
do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Cidade, Campinas, v. 5, n. 2, p. 129-154, 2013. 
44 O episódio dividiu opiniões, tanto dos contemporâneos quanto da historiadores que o analisaram. Para 
alguns, foi um atentado real, organizado pelas forças lemistas, para assassinar Sodré. Para outros, foi uma 
conspiração, uma farsa forjada pelos lauristas para incriminar Lemos e gerar solidariedade à Sodré. 
 
32 
 
e funcionários públicos desempregados ou não pagos aumentou enormemente, 
fornecendo uma fonte de protesto popular contra o chefe político por todos desprezado 
[no caso, Lemos]” e “no dia seguinte [ao atentado contra Sodré], uma multidão de 
funcionários públicos, marinheiros, estivadores e trabalhadores desempregados atacou a 
casa de Lemos e arrastou o antigo chefe para a rua.”45 
Roberto Santos também destacou a participação de segmentos da classe 
trabalhadora nos movimentos que selaram o fim da hegemonia de Lemos no Pará. Para o 
historiador, os lauristas (adeptos de Lauro Sodré) usaram como massa de manobra “(...) 
uma parte da massa de trabalhadores expulsos do mercado, de funcionários descontentes 
com os atrasos salariais e de eleitores sectários trabalhados incessantemente por editoriais 
de uma imprensa que pedia sangue”. Santos ainda anotou que: 
 
Os mortos e feridos [na revolta que depôs Lemos] com profissão registrada 
eram todos humildes trabalhadores de um porto praticamente sem função, de 
embarcações paradas numa longa espera de carga de estabelecimentos 
comerciais porventura fechados ou ameaçados. Afora esses, um carpinteiro, 
um marceneiro e um funcionário público completavam a lista de 21 vítimas 
entre mortos e feridos. A exceção era de dois comandantes da marinha 
mercante; em todo caso, trabalhadores, certamente na mira do desemprego 
também.46 
 
Registra-se ainda que nas agitações do início de 1911, antes da renúncia de Lemos, 
chegou a circular na imprensa local uma convocação de greve geral direcionada aos 
trabalhadores47 e em 1912 circulou um panfleto dirigido aos engraxates italianos para que 
não comprassem ou revendessem os exemplares do A Província do Pará48, demonstrando 
claramente a intenção do grupo de oposição a Lemos de mobilizar segmentos das classes 
populares contra os seus rivais governistas. As classes subalternas não devem ser vistas 
como passivas nesse processo, pois menos do que serem usadas como “massa de 
manobra” pelo grupo político laurista, elas podem ter visto nesse momento de profundas 
dificuldades econômicas e recrudescimento das disputas oligárquicas a oportunidade para 
a expressão de seus protestos e para o entabulamento de suas reivindicações. 
Tanto Weinstein quanto Santos compartilham a interpretação de que, apesar de 
coincidirem, a crise política não foi causada ou não pode ser explicada exclusivamente 
pela crise econômica, mas também por fatores propriamente políticos, tanto internos 
 
45 WEINSTEIN, B. A borracha da Amazônia, op. cit., p. 179, 280. 
46 SANTOS, R. História econômica da Amazônia, op. cit., p. 258, 245-246. 
47 COIMBRA, A. M. O clarão que iluminou a cidade, op. cit., p. 147. 
48 SARGES, M. N. Belém: riquezas criando a Belle Époque, op. cit., p. 78-79. 
 
33 
 
quanto ligados à política de âmbito nacional.49 Seja como for, o retorno do grupo laurista50 
aos postos chaves do estado foi marcado pela eleição de Enéas Martins em 1912 e coroado 
com a do próprio Sodré no pleito seguinte. Foi sob os governos lauristas que a crise 
econômica recrudesceu e que a classe trabalhadora belenense entabulou a maior série de 
manifestações populares vistas na cidade, pelo menos desde a Cabanagem. 
 
MUNDOS DO TRABALHO NA CIDADE EM ESCOMBROS 
Belém era, em fins da década de 1910, um dos maiores centros urbanos do Brasil, 
embora as estimativas sobre a sua população sejam imprecisas e conflitantes. Pelo 
recenseamento realizado em 1920, a população de Belém foi estimada em 236.402 
habitantes, o que a qualificaria como a quinta cidade mais populosa do país, atrás apenas 
de Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Salvador. O fato de o censo ter sido acusado de 
superestimar os números da cidade, pouco alteraria essa importância e sua posição neste 
ranqueamento. Menos preciso, o Almanak Laemmert, Administrativo, Mercantil e 
Industrial, do Rio de Janeiro, em sua edição de 1919 indicou a população da cidade em 
aproximadamente 150.000 habitantes, apesar deste número estar provavelmente 
desatualizado, já que vinha sendo repetido desde a edição de 1916. Pela mesma 
publicação, a população de Belém subiu a 180.000 na edição de 1921 e atingiu a marca 
de 237.000 habitantes na de 1924.51 Assinando importante estudo demográfico, Antônio 
Penteado estimou (sem, no entanto, citar fontes) em 200.000 habitantes a população da 
capital paraense em 1919 e 236.400 habitantes em 1920.52 Por fim, remetendo ao Anuário 
Estatístico do Pará, de 1926, Rosana Fátima Padilha de Souza expõe a cifra de 144.692 
para o ano de 1920.53 
Conforme os anos passaram, a crise foi se aprofundando e piorando a situação da 
cidade, precarizando os serviços que a população utilizava cotidianamente. Em paralelo, 
ocorreu o agravamento de alguns problemas que afetavam mais diretamente as classes 
subalternas – que, diga-se de passagem, não tinham sido equacionados nem mesmo no 
 
49 SANTOS, R. História econômica da Amazônia, op. cit., p. 243-246; WEINSTEIN, B. A borracha da 
Amazônia, op. cit., p. 276-277. 
50 Lauro Sodré já estivera à frente do governo do Estado do Pará entre os anos 1891 e 1897. 
51 Almanak Laemmert, Administrativo, Mercantil e Industrial, Rio de Janeiro, 1919, p. 3.118; Almanak 
Laemmert, 1921, p. 3.560; Almanak Laemmert, 1924, p. 3.582. 
52 PENTEADO, Antônio Rocha. Belém: estudo de geografia urbana. Vol. II. Belém: Universidade Federal 
do Pará, 1968, p. 207. 
53 SOUSA, Rosana de Fatima Pad 
ilha de. Reduto de São José: história e memória de um bairro operário (1920-1940). 2009. 112f. 2009. 
Dissertação de Mestrado (Mestrado em História) –Faculdade de História, Universidade Federal do Pará, 
Belém, p. 66 
 
34 
 
momento de maior fausto da economia da borracha –, como as questões da falta e/ou 
precariedade das habitações54 e do saneamento básico.55 Como se não bastasse, a 
população de Belém ainda teve de enfrentar os efeitos da epidemia da gripe espanhola 
que assolou a cidade – e o mundo – naquele fim de década, afetando sobretudo as classes 
populares e subalternas, cujos corpos estavam sempre vulnerabilizados pela miséria.56 
A crise também afetou a composiçãodos mundos do trabalho na cidade. 
Conforme destacou Weinstein, em meio à decadência generalizada, alguns poucos ramos 
da economia sofreram menos esse impacto ou até mesmo tiveram um leve florescimento, 
como os setores do comércio importador e o industrial; este último deveu seu incremento 
em parte à Guerra, que ao desorganizar o comércio mundial acabou estimulando a 
substituição de importações. A consulta dos dados oficiais, tanto nos relatórios do 
governador do estado quanto no censo de 1920, sustentam a assertiva da autora, como se 
pode perceber pela Tabela 1 a seguir: 
 
Tabela 1: 
 Indústria Paraense entre 1918 e 1920 
 1918* 1919 1920 
Estabelecimentos industriais 186 297 168 
Operários empregados 2.242 2.563 3.033 
Capital investido 10:662:614$000 13:879:850$000 21.330.848$000 
Valor anual de produção 15:268:384$000 18:668:284$000 36:424:408$000 
(*) Refere-se somente a cidade de Belém. 
Fontes: ESTADO DO PARÁ. Mensagem..., 1918, p. 40; ESTADO DO PARÁ. Mensagem..., 1919, p. 
99-100; BRASIL. Recenseamento de 1920, (1927), p. 284-285. 
 
Não se pode, todavia, tomar estes dados como retrato fiel da realidade, mas muito 
mais como estimativas. A primeira consideração a ser feita é a de que os dados são 
provenientes de duas fontes diferentes, o que implica metodologias e critérios distintos 
na obtenção dos resultados – isso fica patente na discrepância nos números dos 
estabelecimentos industriais, muito provavelmente devido às diferenças de parâmetro do 
que vem a ser um “estabelecimento industrial”, utilizados pelos produtores de cada um 
desses documentos. Assim, os números levam a inferência de que a produção fabril e 
 
54 CANCELA, Cristina Donza. Casamento e relações familiares na economia da borracha (Belém - 1870-
1920). 2006. Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências 
Humanas, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2006, p. 121-135. 
55 VIEIRA, Elis Regina Corrêa. Manchete do dia: imprensa paraense e saneamento rural. Dissertação 
(Mestrado em História), Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 
Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, Belém, 2016. 
56 MARTINS, Maria José Moraes. A gripe espanhola em Belém, 1918: cidade, cotidiano e medicina. Tese 
(Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Programa de Pós-graduação e História Social da 
Amazônia. Belém, 2018. 
 
35 
 
manufatureira paraense teve um modesto crescimento no período, principalmente se for 
levado em consideração o capital empregado e o valor anual de produção. 
O termo “indústria” deve também ser utilizado com cuidado, já que a maioria 
destes estabelecimentos não correspondia à grandes unidades produtivas da época 
fordista, que empregava milhares, às vezes dezenas de milhares de trabalhadores. Já o 
recenseamento geral de 1920 é o mais detalhado dos levantamentos que se dispõe e por 
meio dele é possível inferir algumas características gerais da indústria e do operariado 
fabril locais. Dessa forma, conforme os números coletados por ele (e organizados na 
Tabela 2, reproduzida abaixo), dos 168 estabelecimentos industriais paraenses arrolados, 
73 empregavam até 4 operários; 65 empregavam de 5 a 19 operários; 14 estabelecimentos 
empregavam de 20 a 49 trabalhadores; 10 indústrias empregavam de 50 a 99 assalariados; 
e apenas 6 fábricas empregavam mais de 100 proletários.57 A partir dessas informações, 
é possível induzir que a indústria local era formada majoritariamente por oficinas 
artesanais e pequenas manufaturas ao lado de algumas poucas fábricas de grande porte. 
Tal característica não é exclusiva do setor industrial da capital paraense, mas na verdade 
parece ter sido a regra em diversas regiões do Brasil, e até mesmo nos centros tidos como 
mais industrializados, como Rio de Janeiro e São Paulo.58 
 
Tabela 2: 
operários por unidades produtivas em Belém (1920) 
Operários por 
estabelecimento 
Operários 
empregados neles 
Até 4 174 
De 5 a 9 257 
De 10 a 19 298 
De 20 a 49 457 
De 50 a 99 683 
De 100 199 339 
De 200 a 499 825 
Total: 3.033 
Fonte: BRASIL, Recenseamento de 1920, (1927), p. 284-285. 
 
No entanto, a distribuição de trabalhadores entre as unidades produtivas era muito 
desigual: dos 3.033 operários enumerados no censo, 1.164 (mais de um terço) 
trabalhavam nos seis estabelecimentos com mais de 100 operários, ao passo que apenas 
729 trabalhavam em estabelecimentos que empregavam menos de 20 operários (estes por 
 
57 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. V (1ª 
Parte): População. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1927, p. LXXXIII. 
58 Ver por exemplo: FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social: 1890-1920. Rio de Janeiro: Difel, 
1986. 
 
36 
 
sua vez perfaziam um total de 138 estabelecimentos, cerca de 82% dos elencados pelo 
censo); as manufaturas de porte médio, de 20 a 99 operários, empregavam um total de 
1.140 trabalhadores. A média era de 18 trabalhadores por unidade produtiva.59 
Os dados oficiais apresentados pelo governador Lauro Sodré à Assembleia 
Legislativa paraense em 1919 permitem um olhar detalhado do número de manufaturas, 
fábricas, e oficinas da capital paraense, assim como das mercadorias que produziam, 
conforme se vê na Tabela 3, como se segue: 
 
Tabela 3: 
Estabelecimentos industriais existentes em Belém em 1919. 
Produtos fabricados Quantidade de 
fábricas 
Águas gasosas, vinhos de frutas, 
refrigerantes e vinagres; 
08 
Artefatos de barro; 01 
Artefatos de cera; 05 
Artefatos de cimento; 02 
Artes Gráphicas 01 
Bonets 02 
Caixas para Borracha; 05 
Caixas de papelão; 02 
Calçados; 15 
Carroças; 01 
Chapéus de palha; 01 
Chapéus de sol; 05 
Cigarros; 12 
Colchões; 06 
Cordas, barbante e estopilha; 01 
Espelhos; 01 
Gelo; 01 
Malas, baús, colchões e móveis; 09 
Massas alimentares, bolachas, 
chocolate e café; 
02 
Móveis; 07 
Óleos e águas gasosas; 02 
Obras de mármore; 03 
Obras de vime; 02 
Perfumarias; 02 
Pregos; 02 
Roupas; 04 
Sabão e óleos; 08 
Sacos de papel; 02 
Tigelinhas de folha para borracha; 02 
 
59 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. V (1ª 
Parte): População. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1927, p. 284-285. 
 
37 
 
Usinas de beneficiamento de algodão, 
arroz, café, farinha, milho, óleos, sabão 
e tabaco; 
14 
Vassouras; 01 
Veleiros; 04 
Total 133 
Fonte: SODRÉ, L. Mensagem..., 1919, p. 99-100. 
 
No começo de 1918, o Grêmio Literário e Comercial Português promoveu em 
Belém uma exposição comercial e industrial, cujo relatório publicado no diário Estado 
do Pará permite a identificação de algumas das principais indústrias da capital paraense: 
a fábrica de fumos Girafa empregava “perto de 200 operárias e 50 operários”; a Fábrica 
de Roupas Aliança ocupava cerca de “400 operários e operárias externas e internas”; na 
Freitas Dias labutavam cerca de 400 operários, espalhados por suas oficinas de produção 
de pregos, de marcenaria, ferraria, carpintaria, de polidores, estofadores, entalhadores, 
torneiros e etc.; na Manoel Pedro & Cª, firma de construção civil e de exportação de 
madeira que possuía oficinas de serraria, carpintaria, marcenaria, ferraria e mecânica, 
“trabalha[va]m constantemente em suas oficinas e obras cerca de 500 operários”.60 Na 
ocasião da greve dos trabalhadores das oficinas de reparação naval da Port of Pará em 
Val-de-Cães, mais de 700 empregados daquela companhia paralisaram suas atividades61, 
indicando que aquela era uma grande unidade produtiva em termos de trabalho 
empregado, talvez a maior da cidade. 
Se forem levados em consideração apenas os operários fabris, a classe 
trabalhadora compunha uma parcela muito pequena dos mais de duzentos mil habitantes 
de Belém, uma vez que mesmo o censo se referindo a todo o Estado do Pará, ébastante 
provável que a maioria das fábricas e dos operários se concentrassem no maior centro 
urbano do estado. No entanto, conforme destacam vários autores – dentre eles o sociólogo 
Ricardo Antunes62 e o historiador Marcelo Badaró de Mattos63 –, a classe trabalhadora 
não se restringe somente ao operariado fabril, mas inclui na prática todos aqueles 
trabalhadores que vendem sua força de trabalho em troca de salário para sobreviver, o 
que inclui efetivamente os trabalhadores do comércio, do setor de serviços e os 
assalariados rurais, além de outros ramos. É novamente o recenseamento geral de 1920 
 
60 “A grande exposição comercial e industrial promovida pelo Grêmio Literário Português”. Estado do 
Pará, Belém, nº 2.506, 22 mar. 1918, p. 3. 
61 OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira República no Pará (1860-1930), op. cit., p. 98. 
62 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São 
Paulo: Boitempo, 2009. 
63 MATTOS, Marcelo Badaró. A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo. São Paulo: Boitempo 
Editorial, 2019. 
 
38 
 
que permite vislumbres mais amplos sobre os mundos do trabalho belenense, aos 
discriminar as ocupações profissionais de seus habitantes, conforme a Tabela 4: 
 
Tabela 4: 
População de Belém segundo os ramos de profissão (1920) 
Ramos de Profissão # 
Produção de matéria prima (agricultura, caça e pesca, criação e extração mineral). 29.724 
Transformação e emprego da matéria prima (Indústria, transportes e comércio). 40.795 
Administração e profissões liberais (militares, funcionários públicos – municipais, 
estaduais e federais –, religiosos, intelectuais, artistas e profissionais liberais) 
9.454 
Diversas (pessoas que vivem de rendas, serviços domésticos, mal definidas, 
profissões não declaradas e sem profissões). 
156.429 
Total: 236.402 
Fonte: BRASIL, Recenseamento de 1920. 
 
Interpretar estes números é uma tarefa difícil, já que são pouco detalhistas e podem 
conter uma miríade de matizes, além de se referirem a um momento específico em uma 
realidade sempre cambiante. Conforme notado por Sheldon Leslie Maram, “(...) a 
apuração foi feita em relação a quantidade total de empregados, incluindo o pessoal 
administrativo e os próprios patrões”, o que não chega a modificar amplamente a 
proporção já que o número de trabalhadores sempre é maior do que o dos patrões.64 
Apesar destas observações, esses números têm seu valor pela sua amplitude e podem 
contribuir para uma visão – seguramente turva e opaca – dos mundos do trabalho daquele 
momento. 
Os 40.795 empregados na transformação de matérias primas, isto é, na indústria e 
nos serviços (transportes e comércio) parecem corresponder claramente ao núcleo do que 
tradicionalmente se qualifica como classe trabalhadora. A categoria “produção de 
matéria prima” pode comportar um bom número de trabalhadores assalariados ou que 
mercantilizavam sua força de trabalho de alguma forma (pagos por empreitada ou 
vendendo o produto do seu trabalho), bem como alguns pequenos proprietários e pessoas 
que produziam para a sua própria subsistência, além das situações intermediárias. A 
categoria “administração e profissões liberais” correspondem, grosso modo, ao que é 
categorizado como “segmentos médios urbanos” e os militares de diversos níveis (até os 
praças e oficiais de menor patente). 
 
64 MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro (1890-1920). Rio 
de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 16. 
 
39 
 
Já a categoria “diversas”, como o próprio nome sugere, é residual, e inclui desde 
os 445 belenenses que viviam de suas rendas (quase certamente pertencentes e/ou 
aproximados às classes dominantes), até os 79.424 menores de 14 anos sem profissão 
definida. O grosso desse número inclui trabalhadores, como 6.596 empregados em 
serviços domésticos (em sua grande maioria mulheres), e o “exército industrial de 
reserva”, isto é, os trabalhadores em potencial, temporariamente desempregados, que 
viviam do comércio autônomo e ambulante de mercadorias variadas ou de trabalhos 
intermitentes (os “bicos”), passando pelas pessoas que praticavam atividades de 
subsistência, como a criação de animais ou o plantio de pequenas hortas, até o conjunto 
dos pobres, dos que viviam uma vida realmente precária, no limiar da subsistência; e isso 
para não falar dos miseráveis, dos desvalidos, sobrevivendo da mendicância ou por 
intermédio de alguma atividade ilícita, bem mais próximos do que Marx designou por 
lumpemproletariado.65 
No entanto, tal quadro não pode ser tomado de forma muito rígida, já que na 
prática havia uma grande mobilidade social nas camadas mais baixas: um trabalhador 
poderia sofrer algum infortúnio e acabar tendo de mendigar e um lupem poderia conseguir 
um emprego fixo e se estabilizar; a dimensão temporal também tem de ser levada em 
conta, já que poderia haver momentos em que as possibilidades de emprego se ampliavam 
e outras em que regrediam, jogando muitos trabalhadores no desemprego. Daí a 
pertinência da crítica estabelecida por June Hahner à certas abordagens da história social 
brasileira 
 
Ao invés de simplesmente estudar a organização sindical, o debate entre as 
tendencias ou a liderança trabalhista, é necessário examinar as realidades 
concretas e complexas das vidas dos trabalhadores brasileiros: as dimensões 
precisas de sua pobreza, as formas especificas de exploração a que eram 
submetidos e as maneiras pelas quais demonstravam seu sofrimento.66 
 
Seja como for, o fato é que, em um entreposto comercial como Belém, as zonas 
portuária e comercial concentravam uma grande quantidade de trabalhadores67; e foi 
 
65 O conceito de lumpemproletariado aparece em Marx de forma negativamente contrastante ao de 
proletariado, e isso tanto em suas dimensões associadas a vida material, quanto em sua capacidade de 
autonomia diante a dominação e dinâmica política. MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. 
São Paulo: Boitempo, 2011, p. 91. Uma análise aprofundada de ambos os conceitos aparece em: LINDEN, 
Marcel van der. O conceito marxiano de proletariado: uma crítica. Sociologia & Antropologia, Rio de 
Janeiro, v.6, n1: 87–110, abril, 2016. 
66 HAHNER, June E. Pobreza e política: os pobres urbanos no Brasil – 1870/1920. Brasília: UDUNB, 
1984, p. 10. 
67 Em tese recente, Caio Paião, ancorando-se em números da Capitania [do Porto] do Pará, demonstrou o 
peso expressivo da marinhagem radicada na capital paraense no início do século XX. Referindo-se a 1913, 
ano em que os impactos da queda da borracha começavam a se fazer sentir, o autor registra que “Naquele 
 
40 
 
precisamente nestas áreas que os trabalhadores urbanos sofreram os maiores impactos da 
crise da borracha. Barbara Weinstein assinalou que “a situação da embrionária classe 
trabalhadora do Pará – que já fora a mais bem paga do Brasil – provavelmente também 
se deteriorara, uma vez que as oportunidades de emprego na área portuária haviam 
decrescido acentuadamente”.68 
Pode-se confirmar as asserções da autora por meio da consulta dos relatórios do 
Ministério da Marinha. Segundo estes documentos, em 1918 haviam se matriculado na 
Capitania do Pará 896 homens, sendo 713 brasileiros e 19 estrangeiros na primeira 
categoria e 164 brasileiros na segunda.69 Uma redução considerável se compararmos com 
os dados de 1909 (no auge do ciclo da borracha), quando 6.760 trabalhadores, “nas 
diversas profissões marítimas”, se matricularam apenas na cabotagem, ao passo que os 
indivíduos empregados no tráfego do porto somavam 388 e 165 na pesca70; embora os 
números de 1918 representassem um aumento em relação aos de 1916, quando o pessoal 
matriculado somava apenas 731 indivíduos.71 
Estes números referem-se aos empregados em embarcações, como pilotos, 
maquinistas, foguistas, taifeiros, cozinheiros, marinheiros, moços e práticos; a situação 
talvez tenha sidomelhor para os trabalhadores em terra, como estivadores e carroceiros, 
já que estes eram de fundamental importância para a distribuição das mercadorias 
importadas pelo comércio da cidade, tanto quanto para o embarque de produtos regionais 
para a exportação. Mas mesmo entre estes últimos, é possível induzir indiretamente que 
as oportunidades de emprego devem ter ficado mais escassas. Se forem tomados como 
certos os dados compilados por Luiz Cordeiro, o número de toneladas movimentadas no 
porto de Belém caiu de cerca de 1.264.683 em 1909 e 1.472.198 em 1910 para algo em 
torno de 644.046 em 1918 e 858.293 em 1919.72 A redução da carga movimentada indica 
a redução de braços necessários para transportá-las, consequentemente o número de 
 
momento, o Pará possuía 25.768 matriculados e o Amazonas 1.058. O porto de Belém sozinho detinha a 
maior marinhagem do país, deixando a capital federal em segundo lugar, com 22. 698 matriculados”. 
PAIÃO, Caio Giulliano de Souza. Os lugares da marinhagem: trabalho e associativismo em Manaus, 1905-
1919. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Estadual 
de Campinas, 2022, p. 91. 
68 WEINSTEIN, B. A borracha da Amazônia, op. cit., p. 269. 
69 BRASIL. Ministério da Marinha. Relatório Apresentado ao presidente dos Estados Unidos do Brazil por 
Alexandrino Faria de Alencar. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1918, p. 197. 
70 BRASIL. Ministério da Marinha. Relatório Apresentado ao presidente dos Estados Unidos do Brazil por 
Alexandrino Faria de Alencar. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1909. p. 96-97. 
71 BRASIL. Ministério da Marinha. Relatório Apresentado ao presidente dos Estados Unidos do Brazil por 
Alexandrino Faria de Alencar. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1916. p. 136. 
72 CORDEIRO, Luiz. O Estado do Pará, seu comércio e indústrias de 1719 a 1920. Belém: Tavares Cardoso 
& CA, 1920. 
 
41 
 
trabalhadores requisitados. Embora os números sejam muito imprecisos, a tendência de 
redução é claramente perceptível. Localizado em uma cidade que era um entreposto 
portuário e comercial, o porto de Belém mantinha, todavia, uma importância fundamental 
para uma parcela significativa das pessoas que viviam da venda de sua força de trabalho. 
O mesmo pode ser dito para o setor comercial, das lojas de atacado e varejo 
espalhados pela cidade, especialmente concentrados nos bairros do Comércio, do Reduto 
e da Cidade Velha. Belém concentrava uma amplíssima gama de estabelecimentos 
comerciais, lojas, bares, botecos, botequins, tavernas, farmácias, lojas de ferragem e 
toucador, lojas de roupas, de secos e molhados, quiosques, biroscas e mercadinhos, que 
disponibilizavam para venda as mercadorias que se tornaram novas necessidades à vida 
dos trabalhadores com a consolidação do capitalismo, além de se configuravam em um 
importante ramo de oportunidades para quem precisava vender sua força de trabalho, 
empregando alguns milhares de caixeiros, ajudantes e comerciários. 
 
TRABALHADORES EM TEMPOS DE CRISE 
Estivessem empregados onde estivessem, muitos trabalhadores urbanos de Belém 
reagiram de forma coletiva e organizada à esta conjuntura de profunda dificuldade 
econômica, da qual eles foram os principais prejudicados. Nos jornais operários 
publicados nos “anos vermelhos”, eram muito recorrentes artigos e editoriais protestando 
contra a carestia de vida, a miséria e o desemprego na cidade, reivindicando ações do 
poder público que sanassem, ou pelo menos aliviassem, a situação, todos textos que se 
configuram em importantes testemunhos de como essa decadência foi encarada pelos 
trabalhadores urbanos. Um artigo em um deles fez uma descrição da situação na cidade, 
onde pode-se perceber alguns dos problemas pelos quais a classe trabalhadora e as demais 
classes subalternas enfrentaram e estiveram sujeitadas naquela conjuntura: 
 
Uma crise enorme assoberba todas oficinas, todos os misteres. 
Os gêneros de primeira necessidade aumentam de dia para dia, 
assombrosamente, o seu preço já elevado, e mesmo com toda a sua falsificação. 
A máquina arremessa continuamente braços para a rua, num aumento sempre 
crescente que em vão procuram quem os alugue. 
Os preços exorbitantes das habitações forçam a olhos vistos à promiscuidade 
famílias numerosas, em exíguos cubículos sem ar e sem luz. 
A horas mortas encontra-se dormindo pelos portais e pelos bancos dos jardins, 
mulheres, homens, até crianças, que por aí vagueiam sem teto, sem abrigo 
algum, sem pão e sem roupa!73 
 
 
73 “A nossa miséria”. O Semeador, Belém, nº 16, 6 set. 1919, p.2. 
 
42 
 
Carestia, desemprego, falta de moradia (além da precariedade das existentes) e 
indigência são apontados como parte da vivência destes sujeitos. Em outro momento, o 
alfaiate R. Oliveira faz um panorama da cidade: 
 
Quem se der ao trabalho de percorrer Belém, à noite, assistirá o quadro mais 
horroroso que ver se possa. 
O cais do porto está transformado em vasto albergue; vendo-se ali, com 
especialidade o trapiche da Empresa de Navegação Mosqueiro e Soure, 
indivíduos em cujo semblante estão estampados fome, doenças, miséria, enfim 
as privações que têm passado. 
Sob o alpendre do Teatro da Paz abrigara-se dezenas de infelizes, na maioria 
rapazes novos, rotos, de aspecto doentio, crianças que enveredaram para o 
caminho do crime, guiados por esta sociedade de facínoras encasacados e de 
luvas de pelica, que depois de verem a sua obra consumada, bradam aos quatro 
ventos: “é preciso sanear a cidade”.74 
 
Em uma matéria noticiando a greve dos mecânicos e metalúrgicos das oficinas de 
reparação naval da Port of Pará, em setembro de 1918, o Jornal do Povo divulgou uma 
tabela com as despesas diárias “(...) de um operário que tenha uma família de seis pessoas 
e ganhe seis mil reis por dia”; sendo a mesma apresentada em uma das sessões 
permanentes do comitê grevista por um camarada do movimento, reproduzida abaixo. 
 
Tabela 5: 
Despesas diárias de um operário em 1918. 
Mercadorias Preços 
Carne e peixe 1$800 
Pão 300 gramas $360 
Açúcar $300 
Água $200 
Lenha $300 
Verdura $100 
Sabão $100 
Querosene $160 
Fósforos $40 
Temperos: sal, pimenta, 
cominho, alho, cebola e vinagre 
 
$200 
Café $150 
Farinha $300 
Aluguel da casa 1$000 
Cigarros $300 
Bonde $200 
Roupa ou fazenda $500 
Fruta $100 
Calçado $400 
Total 6$510 
Fonte: “A greve de Val-de-cães”. Jornal do 
Povo, Belém, nº 20, 14 set. 1918, p. 1. 
 
 
74 OLIVEIRA, R. “Misérias”. O Semeador, Belém, nº 27, 22 nov. 1919, p. 1. 
 
43 
 
Como se constata, esta despesa diária somava 195$100 mensais, “e o operário o 
máximo que trabalha durante o mês são 24 dias a 6$000 que somados dão 144$000”, 
perfazendo um déficit mensal de 51$000, esclarece a matéria. Embora estes dados não 
possam ser tomados como reflexos fiéis da realidade, já que haviam diferenças entre 
receitas e despesas de cada família de trabalhadores, conforme a quantidade de pessoas 
vendiam sua força de trabalho (mãe, pai e filhos), bem como o total de integrantes delas, 
assim como também havia diferenças salariais entre as diversas categorias profissionais75 
e variações nos preços das mercadorias em diversos estabelecimentos, dentre outras tantas 
variáveis, os dados da tabela não deixam de ser um registro de um trabalhador que viveu 
aquele momento, sendo, portanto, bastante representativo da situação enfrentada por parte 
dos trabalhadores da cidade. Embora algumas famílias proletárias pudessem estar 
melhores do que outras, todas enfrentavam uma situação bem difícil naquele momento. 
Pelos seus jornais, os trabalhadores também expressaram suas angústias e 
protestos contra o encarecimento das mercadorias de primeira necessidade, 
frequentemente responsabilizando os comerciantes pelo aumento gritante dos preços, os 
acusando de açambarcamento. Em um artigo publicado no Onze de Janeiro, o articulista 
acusou os atravessadores– “esta classe de parasitas hediondos” – de não permitirem o 
comércio direto entre os consumidores e os lavradores.76 Meses depois, em outro jornal 
operário, foi possível ler o questionamento: 
 
É possível viver? 
Eis o grito que parte de todas as bocas, exceção feita da dos comerciantes ricos, 
que sendo os únicos responsáveis de tal carestia, tentam por todos os modos e 
meios justificá-la, o que se torna impossível, por já ser demais conhecida a 
exploração torpe que estão fazendo com os gêneros de primeira necessidade.77 
 
Por vezes, os protestos saíam da esfera da imprensa para as praças públicas da 
cidade. Em meados de 1917, setores do operariado promoveram um meeting na Praça da 
República contra a carestia de vida, evento que contou com o apoio de diversas 
organizações classistas como a Federação das Classes da Construção Civil (FCCC), a 
União dos Sapateiros, a Classe dos Alfaiates, a Liga Operária, a União dos Chauffeurs, 
 
75 Os dados parecem ser de um trabalhador bem pago, já que provavelmente feito por um mecânico ou 
metalúrgico das oficinas da Port of Pará, que na sua condição de trabalhador qualificado/especializado 
recebia um salário maior do que os não especializados. Adriano Craveiro de Oliveira registrou que “a Port 
of Pará também afirmava que entre os mais inflexíveis estavam, principalmente, alguns operários, que 
recebiam salários dentro dos limites máximos (...)”. OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira 
República no Pará, op. cit., p. 103. 
76 “Actos e Factos”. Onze de Janeiro, Belém, ed. única, 11 jan. 1918, p. 3. 
77 “A carestia da vida”. Jornal do Povo, Belém, nº 19, 7 set. 1918, p. 3. 
 
44 
 
da Sociedade dos Cigarreiros do Pará, a Associação dos Manipuladores de Pão e a 
União Protetora dos Condutores e Motorneiros; na ocasião, foi entregue ao governador 
do estado uma moção de protesto contra a alta dos preços.78 
No primeiro semestre de 1920, a FCCC promoveu uma série de comícios de 
propaganda associativa, “durante os quais se tem protestado de modo veemente contra a 
carestia dos gêneros de primeira necessidade”; o porta-voz da FCT informou o 
quantitativo deste comício ocorrido na Praça da República, estimando os presentes na 
ocasião – “incluindo representantes da polícia civil e militar” – em cerca oitocentas 
pessoas.79 Um articulista do Estado do Pará registrou, algumas semanas antes e de forma 
bem menos simpática, o que parece ter sido outro desses comícios em que compareceu 
“ansioso de lavrar um protesto contra a carestia de vida”, realizado na Praça da República, 
em que estiveram presentes cerca de duzentas pessoas em sua estimativa, sendo que “os 
formadores do meeting eram os mesmos de sempre: os agitadores que encontramos há 
meses, no mesmo lugar, a sombra daquela estátua [da República] e ainda na praça 
Floriano Peixoto, pregando credos subversivos (...)”, e onde supostamente um dos 
oradores sugeriu “como remédio contra a carestia, o saque às casas comerciais!”.80 
Comentando o aumento do preço do pão em $200, mais ou menos no mesmo 
período, o carpinteiro José Marques da Costa expôs que frente a ele “os produtores (...) 
levantaram o seu protesto veemente, pela imprensa e praça pública” e se perguntavam se 
deixariam de se reunir aos domingos, à volta da estátua da República, “os chefes dessas 
milhares de famílias esfaimadas, habitantes deste Pará”, por ter sido noticiada uma grande 
remessa de farinha de trigo que breve chegaria dos Estados Unidos que ajudaria a 
amenizar a situação e a baixar o preço.81 Todos estes indícios sugerem que em 1920, 
quando não se realizaram tantas greves quanto nos dois anos anteriores, a principal pauta 
pela qual os trabalhadores de Belém se mobilizavam coletivamente era a da redução nos 
preços dos gêneros de primeira necessidade. 
Conforme Edward Thompson, os “modos de exploração variaram enormemente, 
não apenas entre uma época e outra, mas em momentos diferentes no interior de cada uma 
delas”, sendo percebidas de formas distintas pelas classes subalternas. A título de 
exemplo, o autor citou os mineiros e trabalhadores manufatureiros da Inglaterra no século 
 
78 OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira República no Pará, op. cit., p. 89. 
79 “Um grande comício”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 4, 22 maio 1920, p. 3. 
80 “O ‘meeting’ de ante-hontem”. Estado do Pará, Belém, nº 3.263, 20 abr. 1920, p. 1. 
81 COSTA, Marques da. “O pão”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 3, 15 maio 1920, p. 2. 
 
45 
 
XVIII, que “eram muito mais conscientes de ser explorados como consumidores pelos 
capitalistas agrários e pelos atravessadores do que pelos seus empregadores por meio do 
trabalho assalariado”.82 A consciência de exploração enquanto consumidores também 
esteve presente entre o operariado de Belém de fins da década de 1910, conforme pode 
ser percebido nos protestos que frequentemente eles fizeram publicar em seus jornais e 
em suas manifestações públicas contra o aumento abusivo dos preços das mercadorias 
mais básicas para a própria reprodução da vida. 
Ainda conforme Thompson, a consciência de classe se desenvolve não apenas 
como uma identidade de interesses entre um grupo de pessoas, mas também a partir da 
percepção do antagonismo de interesses entre este grupo e outros. Neste sentido, os 
grandes comerciantes foram percebidos pelos trabalhadores belenenses daquela 
conjuntura – tanto ou mais que os industriais – como um grupo antagônico a ser 
combatido, sendo por eles (des)qualificados como “apóstolos da roubalheira”, “uma 
quadrilha de malfeitores sem entranhas”, e que estava “possuída por uma ganância 
desmedida”.83 
A alta nos preços pode ser atribuída à dupla crise (da borracha e da guerra), mas 
conforme Bárbara Weinstein, embora a decadência da borracha tenha afetado toda a 
comunidade comercial do estado, alguns setores conseguiram até mesmo prosperar, como 
os comerciantes importadores, responsáveis por suprir as demandas de um mercado 
consumidor não desprezível de cerca de 200.000 habitantes – número bastante expressivo 
naquele momento – com gêneros alimentícios e produtos manufaturados que haviam se 
tornado novas necessidades indispensáveis na vida destas dezenas de milhares de 
pessoas.84 Ainda conforme a autora, naquele momento a própria elite econômica do 
estado era formada majoritariamente por comerciantes. 
Assim, ao mesmo tempo em que sofreu as consequências da crise, a capital 
paraense também foi palco por uma intensa onda de organização e agitação trabalhista ao 
longo de toda a década de 1910, sobretudo em seus anos finais. Consultando os estatutos 
de associações classistas dos arquivos do Centro de Memória da Amazônia (CMA), em 
Belém, Adriano Craveiro de Oliveira indicou a fundação de pelo menos vinte e seis 
sociedades mutualistas e nove sindicatos entre 1910 e 1919, maior incidência por década 
 
82 THOMPSON, Edward Palmer. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Editora da 
UNICAMP, 2001, p. 165-166. 
83 “Cortar o mal bem pelo fundo”. O Semeador, Belém. nº 34, 10 jan. 1920, p. 4. 
84 WEINSTEIN, B. A borracha da Amazônia, op. cit., p. 168-170. 
 
46 
 
dentre os períodos analisados pelo autor (1840 a 1929).85 Somam-se às agremiações 
fundadas nessa década aquelas que já existiam, como a Sociedade Beneficente Mecânica 
Paraense. Nunca é demais salientar que os números podem ser maiores, uma vez que 
nem todas as organizações classistas tiveram os seus estatutos preservados ou arquivados 
no CMA. 
Muito significativo nesse processo de organização foi a instalação da União Geral 
dos Trabalhadores (UGT) em 11 de janeiro de 1914, sendo ela uma das primeiras 
tentativas de fundação de uma central sindical de orientação sindicalista revolucionária 
em Belém, organizada por um grupo de militantes, em sua maioria anarquistas, que vinha 
atuando desde o início daquela década. Foi a UGT que, em grande medida, coordenou as 
atividades classistas na cidade,como a série de greves ocorridas entre 1913 e 1914, 
violentamente reprimidas pelo governo do estado com a deportação de militantes 
estrangeiros, prisões de centenas de grevistas, impedimento ou dispersão a pata de cavalo 
de meetings operários e invasões de sedes sindicais.86 
Apesar de terem arrefecido devido as ondas de repressão, as atividades da UGT 
permaneceram nos quatro anos seguintes, quando a central apoiou as greves dos 
trabalhadores da Port of Pará e da Pará Eletric, em 1918. Após seu fechamento, no final 
de 1918, a UGT foi substituída pela Federação das Classes Trabalhadoras do Pará 
(FCT), não por acaso fundada no dia 11 de janeiro de 1919, congregando, grosso modo, 
os mesmos sindicatos que formavam a anterior.87 A FCT, por sua vez, manteve-se em 
atividade até pelo menos o início da década de 1930. 
Seja como for, os anos de 1915 e 1916 parecem ter sido de relativo refluxo das 
manifestações classistas, com os movimentos paredistas se tornando mais escassos e 
localizados, provavelmente devido a intensificação da crise econômica em decorrência 
da Grande Guerra. No entanto, após esse breve interregno, os anos imediatamente 
posteriores foram marcados por um grande recrudescimento das atividades classistas dos 
trabalhadores da “cidade das mangueiras”. 
Um levantamento parcial das greves ocorridas na cidade de Belém nesse 
quadriênio, feito com base tanto no jornal diário Estado do Pará, quanto nos jornais 
 
85 OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira República no Pará, op. cit., p. 36-37. 
86 FONTES, Edilza. Preferem-se portugueses(as): trabalho, cultura e movimentos sociais em Belém do 
Pará (1885-1914). Tese (Doutorado em História – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002, 
p. 246-280. 
87 “Estatutos da Federação das Classes Trabalhadoras”. O Semeador, Belém, nº 10, 26 jul. 1919, p. 2. 
 
47 
 
operários que circularam no período e na monografia de Adriano Craveiro de Oliveira88, 
mostram a dinamicidade da agitação operária. Nele pode ser incluída a sequência de 
paredes entabuladas pelos motoristas e condutores de bondes da Pará Eletric, em 
fevereiro, março, junho e julho de 1917, reivindicando aumento salarial, redução da 
jornada de trabalho e a readmissão dos demitidos nas greves anteriores; dos estivadores, 
em junho de 1917; dos padeiros, em setembro; uma greve de dimensões significativas 
realizada pelos trabalhadores marítimos entre novembro e dezembro, e que teve como 
epílogo o estabelecimento de uma tabela de salários; e outra dos choferes da garagem 
Napier, em dezembro do mesmo ano. 
Em 1918, uma greve dos operários da fábrica Proença, em janeiro; dos foguistas, 
em fevereiro; dos carroceiros, em março; uma dos marceneiros das oficinas Freitas Dias 
em maio e outra dos trabalhadores Marcenaria Portuguesa, em julho; uma greve dos 
mecânicos e metalúrgicos das oficinas de reparação naval da Port of Pará em Val-de-
Cães89, que teve grandes proporções e chegou a contar com a solidariedade de outras 
categorias, e outra das costureiras da fábrica Aliança, ambas em setembro; uma “greve 
geral” iniciada pelos motoristas e condutores da Pará Eletric e que contou com adesão 
de uma parcela significativa de trabalhadores de Belém, em meados de outubro; e outra 
“greve geral” no dias finais novembro e no início de dezembro do mesmo ano, iniciada 
pela UGT em protesto contra o fechamento de sua congênere no Rio de Janeiro. 
Em 1919, o ano iniciou com um movimento dos mecânicos das oficinas Botelho; 
seguida por uma greve dos choferes e outra dos alfaiates, em março; dos trabalhadores da 
construção civil e marceneiros das oficinas Mesquita, que se estendeu por quase todo o 
mês de abril; uma grande greve geral iniciada em 2 de maio, envolvendo diversas 
categorias profissionais reivindicando a jornada de 8 horas diárias e pautas específicas de 
cada grupo de trabalhadores que aderiu, se estendendo até praticamente o fim daquele 
mês, quase paralisando a cidade por vários dias, sendo certamente uma das mais 
importantes do período; e, por fim, uma greve de pequenas dimensões dos horteleiros, em 
outubro daquele ano. 
 
88 OLIVEIRA, Adriano Craveiro de. As Lutas Operárias em Belém da Primeira República: As Greves de 
1917 a 1919. Monografia (Graduação) — Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências 
Humanas, Programa de Graduação em História, Belém, 2013. 
89 Adriano Craveiro de Oliveira fez uma análise desse movimento, indicando que se tratava de uma greve 
dos estivadores. No entanto, a cobertura do Jornal do Povo, de seus números 19 a 22, publicados entre 7 e 
21 de setembro de 1918, indica que se tratava, na verdade, de um movimento empreendido por mecânicos 
e metalúrgicos. 
 
48 
 
Em 1920, quando a onda de agitações já demonstrava sinais de refluxo, ainda 
registraram-se greves na cidade: dos estivadores da Booth Line, em janeiro; dos artífices 
das oficinas da Port of Pará em Val-de-Cães, pela readmissão de um trabalhador 
demitido, em meados de março; dos marítimos do vapor Zé Florêncio, em abril; dos 
vigilantes noturnos, em meados de maio; dos marítimos, no início de julho; outra da 
tripulação do vapor Sertanejo, uma dos padeiros e, por fim, uma dos lixeiros municipais, 
todas em setembro. Todas elas foram movimentos bastante localizados que não geraram 
mobilização de outras categorias em solidariedade, como aconteceu em alguns dos 
movimentos dos anos anteriores. 
Nos capítulos que se seguirão, alguns desses movimentos serão abordados de 
forma mais verticalizada e aprofundada. Pode-se indicar de antemão que eles tiveram 
causas e reivindicações bastante variadas, indo desde a exigência por aumento dos 
salários, passando pela redução da carga horária de trabalho ou pelo estabelecimento das 
oito horas, até protestos contra o atraso dos vencimentos ou contra condições de trabalho 
específicas – como, no caso dos motoristas e condutores, contra os uniformes que eram 
obrigados a utilizar. Os trabalhadores de Belém parecem ter seguido a mesma tendência 
que os de Manaus, submetidos à um contexto muito parecido de crise da borracha, já que, 
segundo Maria Luiza Ugarte Pinheiro e Luís Balkar Pinheiro, naquela década “(...) em 
Manaus, os trabalhadores tentaram defender-se dos efeitos da crise, ampliando suas 
reivindicações e resistindo às propostas de cortes de pessoal e salários com uma onda de 
mobilizações e greves jamais vista na cidade”.90 
Em diversos momentos, esses movimentos deixaram as autoridades municipais e 
estaduais – dos subprefeitos aos chefes de polícia – sobressaltadas, fazendo com que 
fossem continuamente mobilizadas a cavalaria e “praças embaladas”, além de soldados 
do Exército e praças da Marinha, como já mencionamos. Também tivemos a oportunidade 
de mencionar que a realização de meetings, paredes e celebrações de 1º de Maio foram 
extremamente concorridas em Belém, levavam milhares de trabalhadores aos espaços 
públicos da cidade. 
O que se percebe, portanto, é que o proletariado de Belém acompanhou a grande 
onda de agitação operária que se não varreu todo o país, pelo menos materializou-se em 
vários estados naquela conjuntura, como tivemos a oportunidade de registrar nas páginas 
 
90 PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto; PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. Mundos do trabalho na cidade 
da borracha: trabalhadores, lideranças, associações e greves operárias em Manaus (1880-1930). Jundiaí, 
SP: Paco Editorial, 2017, p. 144. 
 
49 
 
iniciais desta dissertação, através da indicações de estudos fundamentais para a história 
social do trabalho no Brasil.91 Também ali mencionamos o fato dessa “onda de 
revolução”, como a categorizou Hobsbawm, ter marcado a vida de diversos países, mundo 
afora.92 A Revolução Russa triunfante, as revoluções húngara e alemã derrotadas, a onda 
de greves que varreu as principais capitais brasileiras no mesmo período (São Paulo, Rio 
de Janeiro, Recife, Salvador, Porto Alegre, Manaus,dentre outros centros urbanos) foram 
todos processos contemporâneos e correlatos aos “anos vermelhos” belemenses, servindo 
de inspiração para os operários locais. 
A influência das ações dos trabalhadores de outros países foi um poderoso 
estímulo subjetivo para os operários belenenses – tanto quanto, ou talvez mais, que os 
efeitos da decadência econômica pela qual a cidade passava – principalmente se 
considerarmos o forte sentimento internacionalista presente no movimento operário entre 
o final do século XIX e a Grande Guerra, bem como a significativa presença de imigrantes 
estrangeiros ocupando muitos cargos nos mundos do trabalho da cidade. Em diversos 
momentos, os próprios proletários da cidade demonstraram estarem atentos às agitações 
de seus congêneres de outros países. Certamente, muitos deles ouviam falar do que se 
passava em outras paragens, seja pelos jornais da grande imprensa comercial e diária que 
reproduziam mensagens telegráficas das agências de notícias internacionais, seja pelos 
próprios jornais operários, ou ainda pelos comentários dos trabalhadores estrangeiros que 
aportavam em Belém. 
Os operários da construção civil, em ofício direcionado a patrões dos ramos de 
construção e marcenaria e publicado no jornal Estado do Pará na ocasião da greve de 
abril de 1919, assim argumentavam: 
 
Enquanto o mundo europeu, a América do Norte, a República Argentina e 
mesmo o Brasil sofrem profundas agitações, algumas das quais 
sangrentamente epilogadas, nada tendo resolvido até hoje, teremos nós aqui, 
se assim o quiserdes, solucionada a questão operária em harmonia e paz.93 
 
Apesar do tom conciliador, a referência aos protestos em outros países serviu 
também como uma espécie de ameaça implícita ao patronato, alertando-os que “caso não 
 
91 BATALHA, C. H. M. O movimento operário na Primeira República, op. cit., p. 49; TOLEDO, Edilene. 
Um ano extraordinário, op., p. 515; MENEZES, L. M. de. Os Indesejáveis, op. cit., p. 102; HARDMAN, 
F. F.; LEONARDI, V. História da indústria e do trabalho no Brasil, op. cit., p. 350. 
92 HOBSBAWM, E. J. A era dos extremos, op. cit., p. 71-77; LINDEN, Marcel van der. Trabalhadores do 
mundo: ensaios para uma história global do trabalho. São Paulo: Editora da UNICAMP, 2013, p. 294. 
93 “A Greve dos Operários”. Estado do Pará, Belém, nº 02885, 06 abr. 1919. 
 
50 
 
atendam as nossas reivindicações, podemos fazer como nossos companheiros argentinos, 
norte-americanos e europeus”. 
Em outra ocasião, o motorista Antônio Cesar de Azevedo usou um jornal operário 
para, ao informar as notícias que chegavam sobre a Rússia pelo telégrafo, estimular os 
trabalhadores de Belém a seguirem o exemplo dos revolucionários soviéticos. Azevedo 
não expressava localismos, mas aspirações bem mais amplas: “...não basta só 
rejubilarmo-nos com as vitórias dos nossos irmãos de além mar”, dizia ele, “é preciso que 
façamos também alguma coisa por essa causa que tem por fim redimir a todos 
indistintamente”.94 A passagem demonstra a consciência dos trabalhadores de Belém de 
pertencerem a um movimento mais amplo, de escala internacional. Apesar da situação 
econômica calamitosa, foram anos de esperança em uma transformação social e 
econômica em favor das massas e dos excluídos, alimentada pelas notícias dos eventos 
que se configuravam em outras regiões e que pareciam confirmar a concretização da 
emergência de um novo mundo. 
Os eventos poderiam trazer esperanças para uns, mas causavam temores em 
outros. Nesta mesma conjuntura, as classes dominantes locais, respondendo à ação dos 
trabalhadores, passaram também por um processo de organização, sendo fundadas 
diversas sociedades patronais95, que vieram somar-se a já tradicional Associação 
Comercial do Pará (ACP), fundada ainda no século XIX. Dentre as novas agremiações 
registram-se a Associação dos Merceeiros do Pará, em 1915; a Liga dos Panificadores 
do Pará, em 1916; a Liga dos Proprietários de Barbearia, em 1919; a Associação dos 
Proprietários de Botequins, em 1920, e, talvez a mais importante de todas, o Centro 
Industrial e Comercial do Pará, articulado em outubro de 1918 “com a presença de 22 
representantes de firmas industriais” e instalado formalmente em julho de 1919, e cujo o 
objetivo era “defender os interesses das classes associadas”.96 
Além das expressões tradicionalmente associadas ao movimento operário – a 
formação de organizações classistas, sindicatos associações mutualistas, e o 
empreendimento de greves – os trabalhadores belenenses também levaram a cabo um 
conjunto de manifestações que podem ser classificadas como do âmbito cultural, como a 
encenação de peças teatrais com conteúdo ideológicos, como alguns temas caros aos 
 
94 DE AZEVEDO, Cezar. “À Luta!!”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 16, 14 ago. 1920, p. 2. 
95 Cópias digitalizadas dos estatutos de algumas delas podem ser consultadas online no site do Centro de 
Memória da Amazônia: https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html Consultado em 14 abr. 2022. 
96 ESTATUTOS do Centro Industrial e Commercial do Pará. Belém: Tavares Cardoso&Cia, 1919. 
https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html
 
51 
 
anarquistas e socialistas tais como a propaganda antialcoólica ou anticlerical, e cujos 
valores arrecadados eram revestidos em campanhas de solidariedade; a circulação de 
livros, opúsculos e panfletos de romances sociais; a construção de bibliotecas pelos 
sindicatos, estimulando a leitura entre os seus associados; a produção de poemas e contos, 
a realização de palestras, discursos e conferências – com temas variados, mas em geral 
ligados ao mundo do trabalho – proferidas nas sedes dos sindicatos e direcionadas aos 
seus filiados, festas e comemorações, dentre outras expressões culturais.97 
Quase todas essas expressões ligavam-se e eram articuladas pela imprensa 
operária, que, como é sabido, possuía uma importância fundamental para a organização 
classista, apesar de suas tiragens serem relativamente pequenas – se comparadas aos 
grandes jornais burgueses –, e de suas trajetórias serem, em geral, efêmeras e irregulares. 
Um levantamento parcial de jornais operários que foram nos “anos vermelhos” inclui o 
Artística Paraense, publicado em 1917 provavelmente em referência ao aniversário da 
Sociedade Beneficente Artística Paraense;98 o Onze de Janeiro, publicado no início de 
1918 em comemoração ao quarto aniversário da UGT; o Jornal do Povo, que circulou 
entre 1918 e 1919; o periódico O Semeador, que veio a lume em 1919 e perdurou até o 
ano seguinte; o A Revolta, que saiu na segunda metade de 1919; o A Voz do Trabalhador, 
publicado ao longo de 1920; o Boletim da Federação Marítima, que ocupava uma parte 
do diário O Estado do Pará, além de alguns que não foram encontrados exemplares, mas 
que se pode tomar conhecimento por meio de pequenas notas e anúncios em outros 
jornais, como O Cosmopolita99 e o Correio Marítimo100. 
Os jornais operários tinham uma gama muito ampla de conteúdo. Conforme já 
percebido e exposto por Maria Nazareth Ferreira, nas redações da imprensa operária 
daquele período: 
 
Não existia a figura do repórter, do profissional da notícia. Ao invés do jornal 
procurar a notícia, esta é que procurava o jornal. As “salas de redação” 
 
97 Abordamos com mais detalhes essas atividades culturais em: BRAGA, Marcos Lucas Abreu. A cultura 
operária em Belém do Pará nos “anos vermelhos” (1917-1920). Muiraquitã: revista de Letras e 
Humanidades, v. 10, n. 2, 2022. 
98 Infelizmente, não se teve contato com esse periódico e sabe-se de sua existência apenas pelo catálogo de 
jornais digitalizados da Biblioteca Arthur Vianna, disponível no site desta instituição. 
99 Publicado no município de Bragança, pelo Centro Cosmopolita Bragantino, no final de 1919, foi 
anunciado pelos seus congêneres contemporâneos: “O Cosmopolita”. A Revolta, Belém. nº 8, 25 de outubro 
de 1919, p. 3; “O Cosmopolita”. O Semeador, Belém. nº 21, 13 de outubro de1919, p. 2. 
100 Órgão da Sociedade Beneficente dos Marinheiros da Amazônia, foi anunciado mais de uma vez pelo 
diário Estado do Pará: “Boletim Federação Marítima do Pará”. Estado do Pará, Belém. nº 3270, 27 abr. 
1920, p. 5. “Várias notícias”. Estado do Pará, Belém. nº 3378, 13 de agosto de 1920, p. 4. 
 
52 
 
recebiam farto material sobre o movimento operário e notícias afins, o que 
demonstra uma relação integrada entre o jornal e o leitor.101 
 
Esta relação orgânica entre os jornais operários e outras entidades classistas 
também pode ser percebida no Estado do Pará: além dos artigos doutrinários, das notícias 
do movimento sindical e dos editoriais, é possível encontrar, ao folhear folhas classistas 
que circularam na cidade, outros documentos referentes ao universo organizativo dos 
trabalhadores, como estatutos e regimentos internos de sindicatos e associações; atas de 
assembleias e reuniões dos sindicatos; cartas abertas ou particulares vindas de leitores e 
de militantes de outros estados ou países; transcrições de palestras, falas em comícios ou 
de conferências, bem como de boletins e panfletos colados ou distribuídos pela cidade; 
denúncias de abusos de patrões e capatazes ou de acidentes de trabalho; poesias, contos, 
crônicas e poemas de trabalhadores que liam e colaboravam com as folhas, enfim, uma 
gama de registros escritos que tornam o jornal operário uma espécie de “colcha de 
retalhos” de documentos diversos – produzidos não apenas por seus editores e redatores, 
mas também por muitos leitores e “trabalhadores comuns” – que não seriam, como muitos 
outros não o foram, preservados se não tivessem sido veiculados das páginas dos jornais 
dos trabalhadores, e que permitem alguns vislumbres sobre muitos desses sujeitos.102 
Feita esta exposição contextual, levantamos as perguntas que serão os fios 
condutores dos próximos capítulos: quem eram os trabalhadores que se manifestaram de 
forma tão intensa, por meio das greves, dos sindicatos e associações classistas e da 
imprensa operária em Belém no Pará naqueles “anos vermelhos”? Quais eram as suas 
categorias profissionais e ofícios? Eram apenas homens ou era possível a participação de 
mulheres naquelas agitações? Eram todos, ou pelo menos a maioria, imigrantes 
estrangeiros, como a imprensa e parte da historiografia brasileira sobre o movimento 
operário sugeriram, ou os trabalhadores de origem nacional também participaram daquele 
movimento?
 
101 FERREIRA, Maria de Nazaré. Imprensa Operária no Brasil. São Paulo: Ática, 1978, p. 106 
102 O tema da cultura operária vem ganhando cada vez mais a atenção da historiografia e a publicação de 
trabalhos bastante diversificados como, por exemplo: HARDMAN, Francisco Foot. Nem pátria, nem 
patrão: vida operária e cultura anarquista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1983; BATALHA, Cláudio et 
al (org.). Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas, SP: Editora 
da UNICAMP, 2004. Pioneira em muitos aspectos, a obra de Hardman ganhou edição (3ª) revista e 
ampliada em 2002, mudando o subtítulo para: “memória operária, cultura e literatura no Brasil”. 
 
53 
 
Capítulo 2 
Das Classes à Classe: 
Ofícios e Categorias Profissionais na Mobilização Operária 
 
Há diversas definições de quem deve ser incluído na “classe trabalhadora”, desde 
visões mais restritas que consideram apenas os operários manuais e fabris ou aqueles que 
transformam elementos da natureza em valores de uso103 até àquelas mais abrangentes, 
como a proposta pelo sociólogo Ricardo Antunes, da classe que vive do trabalho104, o 
que englobaria a totalidade daqueles que vendem a sua força de trabalho, tanto produtivos 
(i.e., que produzem mais-valia) quanto os “improdutivos”105; ou a classe dos 
trabalhadores subalternos, proposta pelo historiador Marcel van der Linden, que incluiria 
todas as pessoas que são coagidas à mercantilizar a sua força de trabalho, o que incluiria 
não apenas os trabalhadores assalariados, mas também algumas condições de trabalho 
híbridas entre assalariamento, escravidão e trabalho autônomo.106 
Edward Palmer Thompson deslocou o foco da definição dos condicionantes 
econômicos para a agência dos sujeitos, encarando a classe não como uma estrutura nem 
como uma categoria, mas como “algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode 
ser demonstrada) nas relações humanas”, quando um conjunto de pessoas criam entre si 
uma percepção de interesses comuns e em oposição à interesses de outros grupos de 
pessoas. Sem negar completamente os condicionantes econômicos, Thompson afirma que 
“a classe é definida pelos homens enquanto vivem sua história e, ao final, esta é a única 
definição”.107 
Aqui, adotamos definições mais alargadas de classe, o que inclui não apenas os 
operários fabris, mas também os assalariados dos setores dos serviços e aqueles que 
mercantilizavam sua força de trabalho de outras formas. Esta parece ter sido a definição 
que aqueles homens e mulheres que viveram esta história usaram, já que no movimento 
operário do período aqui analisado os trabalhadores assalariados sentiam uma identidade 
 
103 LESSA, Sérgio. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. São Paulo: Cortez, 2007. 
104 ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho, op. cit. 
105 Vale mencionar as críticas feitas ao conceito de trabalhadores “improdutivos”, como o da pensadora 
ítalo-americana Silvia Federici, para quem o trabalho doméstico das mulheres, considerado como 
“improdutivo”, foi de fundamental importância para a produção capitalista, já que ele é responsável pela 
própria manutenção e reprodução da força de trabalho. FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, 
corpos e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2019. 
106 LINDEN, M. Trabalhadores do mundo, op. cit. 
107 THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 
1987. 
 
54 
 
de interesses não apenas entre si, mas também com os trabalhadores que mercantilizavam 
sua força de trabalho de outras formas, como aqueles que eram pagos por empreitada ou 
que estavam submetidos ao trabalho avulso (caso de alguns estivadores), aqueles que 
eram proprietários de seus instrumentos de trabalho e labutavam de forma semiautônoma, 
como ocorreu com parte dos carroceiros e catraieiros, ou ainda com alguns trabalhadores 
autônomos, já que houve uma tentativa de sindicalização dos vendedores ambulantes nos 
anos iniciais da UGT.108 
Isso remete à um ponto já mencionado no primeiro capítulo e que diz respeito à 
heterogeneidade que marcou os mundos do trabalho de Belém, e, na verdade, de todos os 
centros urbanos brasileiros daquele período. Pelas ruas da capital amazônica, todos os 
dias circulavam milhares de trabalhadores, exercendo atividades nos setores primário, 
secundário e terciário. Eram trabalhadores de diversas categorias profissionais, 
conhecidas na época como corporações, ofícios ou classes. 
Com efeito, no léxico brasileiro do final do século XIX para o início do século 
XX, o termo classe era utilizado pela sociedade em geral, e pelos trabalhadores em 
particular, em duas acepções a depender do contexto: para designar as classes sociais 
(burguesia, proletariado) ou para se referir às categorias profissionais específicas (“classe 
dos padeiros”, “classe dos sapateiros”, por exemplo). Tais classes estavam submetidas a 
condições e relações de trabalho diferenciadas, mas integrantes de muitas delas 
desenvolviam um sentimento de pertencimento ao conjunto mais amplo da classe 
trabalhadora – do qual a própria fundação da UGT é uma prova – atuando em ações 
comuns com membros das outras, se bem que algumas delas tenham se destacado nesse 
processo. 
A identificação das categorias profissionais mais atuantes e mobilizadas nos 
parece extremamente importante para a análise do movimento operário, uma vez que o 
que se pode chamar de consciência corporativa/profissional/categorialé um passo 
fundamental para o desenvolvimento da consciência mais ampla de classe e, 
consequentemente, da própria classe operária e de seu movimento. Neste sentido, 
acompanhamos Adriano Craveiro de Oliveira quando argumenta que: 
 
[...] a identidade de ofício não pode ser subestimada, pois a construção de 
identidades estritas de classe no meio do operariado é o primeiro passo para a 
sua união e, posteriormente, para a formação da classe operária. A existência 
 
108 O Sindicato dos Vendedores Ambulantes foi um dos fundadores da UGT e chegou a contar cerca de 60 
associados. Ver: “Brazil Operário”. A Voz do Trabalhador, Rio de Janeiro. nº 51-52, 1 de abril de 1914, p. 
3-4. 
 
55 
 
de identidades estritas de classe não afasta de modo algum a hipótese de 
comunicação entre as classes, uma vez que essa existia e permitia a construção 
de práticas e de discursos comuns.109 
 
Antes de se ver como pertencente a uma classe social, o trabalhador pode se ver 
como pertencente a determinada categoria profissional, principalmente quando ele 
exercia o mesmo ofício por um período relativamente longo de tempo. Com efeito, vários 
autores indicaram níveis de consciência de classe que perpassam a identidade 
profissional. Um deles é o pensador italiano Antônio Gramsci, que defendeu haver vários 
momentos do desenvolvimento da consciência coletiva dos grupos sociais que se 
manifestaram na história ao longo do tempo. Em seus termos, contata-se que 
 
O primeiro e mais elementar [momento] é o econômico corporativo: um 
comerciante sente que deve ser solidário com outro comerciante, um fabricante 
com outro fabricante, etc., mas o comerciante não se sente ainda solidário com 
o fabricante; isto é, sente-se a unidade homogênea do grupo profissional e o 
dever de organizá-la, mas ainda não a unidade do grupo social mais amplo. 
Um segundo momento é aquele em que se atinge a consciência da 
solidariedade de interesse entre todos os membros do grupo social, mas ainda 
meramente no campo econômico. Já se põe neste momento a questão do 
Estado, mas apenas no terreno da obtenção de uma igualdade político-jurídica 
com os grupos dominantes, já que se reivindica o direito de participar da 
legislação e da administração e mesmo de modificá-las, de reformá-las, mas 
nos quadros fundamentais existentes. Um terceiro momento é aquele em que 
se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu 
desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo 
meramente econômico, e podem e devem se tornar os interesses de outros 
grupos subordinados.110 
 
Marcelo Badaró de Mattos argumentou que, embora Gramsci estivesse se 
referindo à burguesia no trecho citado, na verdade “(...) mirava diretamente na questão da 
consciência de classe do proletariado”.111 De fato, pode-se parafrasear a citação de 
Gramsci substituindo os segmentos das classes dominantes por segmentos da classe 
operária; desta forma, no grau “econômico corporativo”, um sapateiro sente que deve ser 
solidário com outro sapateiro, um padeiro com outro padeiro, mas o sapateiro não sente 
que deve ser solidário com o padeiro e vice-versa. Já no segundo momento, “se atinge a 
consciência da solidariedade de interesse entre todos os membros do grupo social”, pelo 
menos no âmbito econômico; neste sentido, o sapateiro sente que deve ser solidário com 
o padeiro, com o pedreiro e com o alfaiate, na busca da lei pela jornada de oito horas, por 
exemplo.112 
 
109 OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira República no Pará, op. cit., p. 20-21. 
110 Apud MATTOS, M. B. A classe trabalhadora, op. cit., p. 52. (grifo nosso) 
111 MATTOS, M. B. A classe trabalhadora, op. cit., p. 53. 
112 Idem, Ibidem, p. 53-54. 
 
56 
 
Eric Hobsbawm é outro historiador que segue a mesma trilha de Gramsci, 
afirmando que “cada classe possui dois níveis de aspirações, ao menos até que se torne 
politicamente vitoriosa: as exigências especificas, imediatas, do dia-a-dia, e as exigências 
mais gerais pelo tipo de sociedade que lhes convém.” No caso da classe operária em 
específico, Hobsbawm, remetendo a Vladimir Lênin, distinguiu os dois níveis de 
consciência que correspondem a cada um desses níveis de aspirações: a chamada 
“consciência sindical”, que representa o primeiro nível, e a “consciência socialista” (“ou, 
de forma mais rara, algum outro tipo de consciência que prefigura a transformação total 
da sociedade” – como a anarquista, por exemplo), representando o nível mais alto. Ainda 
segundo o autor, a forma mais rudimentar da “consciência sindical” se desenvolve de 
forma espontânea no interior da classe operária, mas é a mais limitada, ao passo que, sem 
a última, “a consciência de classe da classe operária é, historicamente falando, 
incompleta, e sua própria presença como classe pode ser questionada”. 113 
Apesar de possíveis divergências entre os autores materialistas dialéticos, 
Gramsci e Hobsbawm (remetendo a Lênin) parecem apontar na mesma direção no que 
diz respeito à consciência de classe e seus diversos graus. A “consciência sindical”, de 
Hobsbawm, parece corresponder ao momento “econômico-corporativo” de Gramsci; já a 
“consciência socialista”, ao momento em que “se coloca em questão o Estado”, em 
Gramsci. 
Nos é particularmente interessante o comentário de Gramsci sobre o grau inicial 
de consciência “econômica-corporativa” e a de Hobsbawm sobre a “consciência 
sindical”. Esse momento inicial se expressa principalmente no âmbito dos companheiros 
de categorias profissionais ou de ramos de indústria específicos, pois eles estão 
diretamente ligados por estarem submetidos às mesmas condições e relações de trabalho, 
compartilhando diretamente as mesmas experiências, as mesmas “exigências específicas, 
imediatas, do dia-a-dia” e é no âmbito da categoria profissional, ou do ramo de indústria, 
que esses sujeitos empreendem os movimentos puramente econômicos, como greves 
objetivando reduções da jornada de trabalho ou aumento de salários. 
O certo é que, em nenhum momento da história a totalidade absoluta dos 
trabalhadores de determinada sociedade fez parte ativamente do movimento de sua classe, 
embora tenha havido muitos momentos em que parcelas realmente significativas o 
fizeram. Defendemos aqui que alguns setores da classe trabalhadora podem ter se 
 
113 HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho, op. cit., p. 50-52. 
 
57 
 
mostrado mais propensos do que outros a se envolverem no movimento, por conta de 
condicionantes de suas próprias situações materiais de sobrevivência e de trabalho, como 
relações de trabalho particularmente revoltantes, dimensão numérica da categoria, 
importância relativa e estratégica da categoria no funcionamento da sociedade mais 
ampla, grau de instrução e acesso à educação formal ou concentração numérica por 
unidade produtiva, dentre outros possíveis fatores a serem analisados em cada caso, 
contexto e recorte específico, já que eles também se modificam ao longo do tempo.114 
Na historiografia brasileira sobre movimento operário da Primeira República, por 
exemplo, é reconhecido o papel destacado dos tipógrafos e dos caixeiros na publicação 
de jornais operários. Nesses casos, uma exigência própria do ofício, a necessidade desses 
trabalhadores serem alfabetizados para exercerem suas atividades laborais, contribuiu 
para esse papel de destaque na imprensa militante. Já os estivadores, trabalhadores 
portuários e marítimos foram particularmente ativos quanto ao empreendimento de greves 
em cidades comerciais e portuárias, como Santos115 e Manaus116; isso se deve, em grande 
medida, à importância destas categorias para o fluxo das mercadorias que deveriam ser 
movimentadas nessas cidades, uma vez que se eles parassem a cidade também parava. 
Um estudo particularmente interessante sobre os condicionantes do ofício – das 
relações e condições de trabalho – que pré-dispunham uma categoria profissionalà 
militância política e social foi empreendido por Eric Hobsbawm e Joan W. Scott sobre a 
fama, merecida segundo os autores, de radicalidade e intelectualidade dos sapateiros 
europeus do final do século XVIII e ao longo do século XIX. Os autores argumentam, 
com base em uma amplíssima gama de fontes – que inclui expressões populares à 
memória pessoal de um deles – que algumas características próprias deste ofício, como 
sua pobreza, relativa independência (se comparada a outras categorias), o caráter 
individual do processo de trabalho, o baixo grau de especialização, a mobilidade 
geográfica de seus praticantes e aprendizes, o contato constante com outras pessoas mais 
pobres, dentre outros fatores, influenciavam os sapateiros em direção ao radicalismo 
político e, principalmente, à dissidência intelectual; tal radicalidade era anterior à 
 
114 Claro que esses condicionantes não podem se configurar em leis históricas imutáveis e inquestionáveis, 
e mesmo trabalhadores que não fazem parte dos setores mais propensos a se envolverem nas agitações 
operárias podem fazê-lo. São fatores condicionantes, não determinantes. A identificação dos fatores 
condicionantes pode, inclusive, fornecer orientações políticas práticas para a atualidade. 
115 GITAHY, Maria Lúcia Caira. Ventos do mar: trabalhadores do porto, movimento operário e cultura 
urbana em Santos, 1889-1914. São Paulo: Editora da UNESP, 1992. 
116 PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus 
(1899-1925). 3ª ed. Manaus: EDUA, 2015. 
 
58 
 
revolução industrial, mas foi potencializada por ela, entrando em declínio no início do 
século XX devido à mudanças no próprio processo de produção de calçados.117 
Isto não significa, todavia, que adotamos aqui uma perspectiva economicista nem 
determinista. Como mencionado, esses fatores são condicionantes, não determinantes. 118 
Seguimos ainda Thompson quando afirma que a formação de uma classe é um processo 
tanto cultural quanto social e econômico; se deve tanto aos condicionamentos sociais 
quanto à ação humana, já que a classe está presente no seu próprio fazer-se.119 Desta 
forma, a grande movimentação de trabalhadores em Belém no final da década de 1910 se 
deve tanto a fatores estruturantes e condicionantes, quanto a própria agência e experiência 
dos sujeitos que vivenciaram o próprio processo, acumuladas desde pelo menos as 
décadas finais do século XIX. 
O presente capítulo visa identificar as categorias profissionais mais atuantes no 
contexto específico de Belém entre os anos de 1917 a 1920, e fazer considerações acerca 
dos motivos do protagonismo delas, analisando alguns aspectos como o mercado de 
trabalho, dimensões numéricas das categorias e relações ou condições de trabalhos 
específicas que poderiam estimular a participação no movimento ou impulsionar de 
alguma forma a organização. É importante pontuar que indivíduos das mais diversas 
categorias, bem como de segmentos externos à classe, como intelectuais e profissionais 
liberais dos segmentos médios urbanos podiam participar – e efetivamente participaram 
– do movimento, de forma que não é possível reduzir este à ação de algumas categorias 
específicas. No entanto, pode-se perceber por meio da documentação consultada que 
membros de algumas categorias profissionais participavam de forma mais assídua nas 
manifestações de classe, seja de forma individual ou coletivamente. 
Segundo Cláudio Batalha, a formação da classe operária é “um processo 
conflituoso, marcado por avanços e recuos, pelo fazer-se e pelo desfazer-se da classe, que 
surge na organização, na ação coletiva, em toda a manifestação que afirma seu caráter de 
 
117 HOBSBAWM, E. J. Mundos do trabalho, op. Cit, p. 175-225. 
118 O questionamento sobre se – ou até que ponto – os seres humanos agem autonomamente ou se são 
condicionas/determinados por fatores externos ou não controláveis (sociais, econômicos, geográficos, 
ambientais, genéticos) consiste, talvez, em uma das principais perguntas das Ciências Humanas e Sociais, 
além da Filosofia. Embora alguns autores deem mais ênfase na ação humana enquanto outros ao peso das 
condições legadas pelo passado, pode-se afirmar, no geral, que a maioria deles concorda – assim como nós 
– com a famosa formulação de Marx, no sentido de que: “Os homens fazem a sua própria história; contudo, 
não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais 
ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram”. MARX, K. O 18 brumário de 
Luís Bonaparte. Op. cit., p. 25. 
119 THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa, op. cit. 
 
59 
 
classe”120. Para Francisco Foot Hardman, a consciência de classe pode ser “apreendida 
no exame das instituições criadas pela classe (uniões, ligas, sindicatos, jornais, partidos 
etc.)”.121 Neste sentido, para a identificação das categorias profissionais mais atuantes 
naquele momento, usaremos como critérios gerais – não muito rígidos ou absolutos – a 
indicação daquelas em que são mais visíveis as ações organizadas e coletivas onde se 
percebe as “manifestações que afirmam seu caráter de classe” ou que estiveram mais 
intimamente ligadas às “instituições criadas pela classe”, como: 
 
a) A identificação das categorias profissionais que possuíam organizações 
classistas ativas (sindicatos, associações ou ligas) mais atuantes, estáveis, 
longevas e com o maior número de associados naquele momento; bem como 
àquelas que aderiam às federações de sindicatos locais e regionais. 
b) Aquelas que empreenderam movimentos paredistas ou de protestos coletivos 
mais significativos; ou que aderiram com maior frequência às greves gerais ou 
de solidariedade à outras categorias, já que nestes momentos pode-se notar 
quando a consciência de solidariedade entre trabalhadores transcende o nível 
puramente categorial/corporativo e atinge o mais amplo, de classe.122 
c) Aquelas que produziam, consumiam, apoiavam ou dialogavam com mais 
frequência com os jornais operários publicados entre esses anos. 
 
Evidentemente, afirmativas numéricas ou estatísticas exatas são praticamente 
impossíveis de estabelecer com base nas fontes disponíveis. Por isso, a documentação 
será abordada de forma qualitativa para a obtenção de informações acerca da participação 
dos trabalhadores. Embora esses parâmetros não esgotem o assunto, servem de balizas 
gerais. 
 
ARTISTAS E ARTÍFICES: OS TRABALHADORES QUALIFICADOS 
Leôncio Martins Rodrigues, analisando as mudanças na composição interna da 
classe operária brasileira entre a Primeira República e a Era Vargas, argumentou que, 
esquematicamente, o que se poderia denominar de proletariado no Brasil das primeiras 
décadas do século XX era o agrupamento composto de “trabalhadores qualificados que, 
 
120 BATALHA, C. H. M. Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva, op. cit., p. 170. 
121 HARDMAN, Francisco Foot. Nem pátria, nem patrão: vida operária e cultura anarquista no Brasil. São 
Paulo: Brasiliense, 1983 p. 29. 
122 Estes não são os únicos momentos onde se pode captar isso. Outro seria no voto aos partidos ou aos 
candidatos que levantavam as bandeiras classistas. Mas, como nesta conjuntura não havia um partido 
operário de massas, este caso será aqui desconsiderado. 
 
60 
 
embora assalariados, realizavam um trabalho de tipo artesanal que utilizava mais 
ferramentas do que máquinas”, sendo que o próprio movimento associativo refletia esta 
composição, com a nítida predominância das organizações (ligas, uniões, sociedades de 
resistência, etc.) baseadas em ofícios.123 Talvez seja uma visão parcial, pois desconsida o 
número expressivos de trabalhadores informais, não qualificados, os funcionários 
públicos, os empregados do setor terciário, dos serviços, do comércio e dos transportes, 
além dos assalariados rurais, que compunham uma parte expressivada classe trabalhadora 
brasileira naquele período e que também se organizavam de forma classista, como já 
expressado por Ângela de Castro Gomes124, dentre outros autores. 
Cláudio Batalha parece apontar na mesma direção que Rodrigues, ao defender que 
“os segmentos da classe operária que mais facilmente se organizaram, em muitos casos 
desde o século XIX, foram os trabalhadores qualificados, detentores de um ofício”.125 Em 
outra ocasião, o mesmo autor, analisando o processo de identificação de classe dos 
trabalhadores, argumentou que 
 
Nesse processo de elaboração dessa identidade e no seu desdobramento 
natural, que é a separação do operariado do conjunto dos pobres, há categorias 
de trabalhadores que parecem levar nítida vantagem sobre outras. Os 
trabalhadores qualificados, orgulhosos do seu saber de ofício, adquirido após 
um período – muitas vezes árduo – de aprendizagem, precisam de menor 
esforço para demonstrar sua condição do que aquele necessário aos 
trabalhadores sem qualificação.126 
 
Mais adiante, Batalha ainda afirma que “(...) a transformação do trabalho num 
elemento central da identidade é uma construção historicamente determinada, que pode 
ser observada em algumas categorias – especialmente de trabalhadores qualificados – 
antes que outras”.127 Pode-se sugerir também a hipótese de que a especialização 
profissional poderia garantir aos trabalhadores que a detinham uma maior estabilidade na 
manutenção do seu emprego, já que não seria facilmente substituído quando demitido, o 
que contribuiria para o desenvolvimento da consciência de classe, já que a experiência do 
trabalho específico faria parte da vida dos artífices por períodos de tempo mais longos. 
No caso específico da região amazônica, foram muito recorrentes nos discursos 
das autoridades, como relatórios de presidentes de província e governadores dos estados, 
 
123 RODRIGUES, Leôncio Martins. Sindicalismo e classe operária: 1930-1964. In: FAUSTO, Bóris. (org.). 
História geral da civilização brasileira. São Paulo: DIFEL, 1997, p. 518-519. 
124 GOMES, Ângela de Castro. A invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: IUPERJ, 1988, p. 119. 
125 BATALHA, C. H. M. Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva, op. cit., p. 170. 
126 BATALHA, Claudio Henrique de Moraes. Identidade da classe operária no Brasil (1880-1920): 
atipicidade ou legitimidade. Revista Brasileira de História, v. 12, n. 23/24, p. 111-124, 1991. 
127 Idem, Ibidem. 
 
61 
 
as reclamações sobre a ausência de mão de obra qualificada na região. Além disso, 
também foram recorrentes as políticas públicas voltadas para a atração ou formação dos 
artífices levadas a cabo pelas províncias e posteriormente estados que a compunham, 
como subsídios para migração de trabalhadores qualificados ou a criação de instituições 
educacionais que os formassem. Percebe-se desta forma que os artífices – trabalhadores 
especializados – eram muito valorizados na Amazônia, já que relativamente escassos. 
Eric Hobsbawm, analisando as manifestações trabalhistas inglesas do século XIX, 
já havia percebido no contexto europeu o mesmo que Batalha e Rodrigues perceberam no 
brasileiro, ao afirmar que “o artífice especializado foi o núcleo dos movimentos operários 
organizados” e que é relativamente aceito que, no mesmo período, “o quadro político dos 
movimentos de massas no continente europeu, com frequência abertamente social-
revolucionários, também consistia (...) em artífices especializados e em sua maioria com 
aprendizagem, como marceneiros, gráficos, charuteiros e metalúrgicos”.128 
Havia, nas primeiras décadas no novecentos e em períodos anteriores, até mesmo 
no léxico, uma divisão da classe trabalhadora entre os chamados artistas ou artífices – 
entendidos enquanto trabalhadores especializados, com qualificação profissional, 
praticantes das chamadas artes manuais ou artes mecânicas – e os operários, entendidos 
enquanto trabalhadores manuais não qualificados. Entre os primeiros, figuravam 
sapateiros, tipógrafos, alfaiates, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, ferreiros, dentre 
outros; já entre os segundos, se encontravam estivadores, jornaleiros, catraieiros, 
carroceiros, cocheiros, dentre outros.129 
Em Belém do Pará de fins da década de 1910, diversas categorias de trabalhadores 
especializados estavam organizadas ou em processo de organização em associações de 
classe por ofício, e muitas delas compuseram as bases da UGT e da FCT. Isso não 
significa que o movimento operário foi composto exclusivamente por trabalhadores 
qualificados, mas eles seguramente formavam um dos esteios centrais dele. Na coluna 
“União Geral dos Trabalhadores”, veiculada pelo Jornal do Povo, entre agosto e setembro 
de 1918, divulgava-se o endereço das sedes das organizações classistas aderentes à UGT, 
 
128 HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho, op. cit., p. 367. 
129 Particularmente, discordamos desta distinção, para acompanhar Antônio Gramsci quando de sua 
argumentação de que “em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um 
mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora”. Mesmo em categorias 
profissionais não qualificadas enquanto de “artistas”, como catraieiros e estivadores, seus praticantes são 
portadores de um conjunto de habilidades específicas, adquiridas por meio da experiência e que fazem com 
que exerçam seus ofícios de forma mais eficiente do que um não praticante, sendo também 
“especializados”. GRAMSCI, Antônio. Cadernos de cárcere. vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 
2001, p. 18. 
 
62 
 
e dentre elas constavam a Federação das Classes da Construção Civil, o Sindicato dos 
Marceneiros e Artes Correlativas, a Federação da União dos Operários Sapateiros, a 
Federação dos Mecânicos e Metalúrgicos e a União dos Carpinas Navais e Calafates. 
Percebe-se que, exceto pela União dos Chauffeurs e pelo Sindicato dos Ofícios Vários, a 
maioria das sete organizações que compunham a UGT naquele momento era ligada a 
categorias de trabalhadores qualificados. 
 Folheando as colunas “Vida Sindical” e “Movimento Sindical”, veiculadas pelo 
O Semeador e A Voz do Trabalhador, respectivamente, para ali acompanhar não apenas 
a divulgação dos endereços das sedes sindicais como também as notas sobre a vida 
associativa deles, pode-se listar como organizações com funcionamento regular destes 
segmentos da classe trabalhadora ligadas à FCT em Belém a União dos Carpinteiros e 
Calafates Navais do Pará, a Federação dos Mecânicos e Metalúrgicos, a Federação das 
Classes da Construção Civil, o Sindicato dos Alfaiates e Costureiras, a Federação dos 
Operários Sapateiros, a União dos Marceneiros e Artes Correlativas130 e o Sindicato dos 
Caldeireiros de Ferro.131 
Os mecânicos e metalúrgicos da oficina de construção e reparação naval da Port 
of Pará, localizada em Val-de-Cães, protagonizaram uma das greves mais expressivas da 
conjuntura. Reivindicando o aumento salarial de 30% e que o pagamento fosse semanal 
e aos sábados, a greve se iniciou no dia 2 de setembro de 1918 e se manteve por mais de 
15 dias, recebendo a solidariedade dos seus congêneres da oficina Camelier, que se 
levantaram em parede com as mesmas reivindicações, sendo rapidamente atendidos. Este 
movimento mobilizou cerca de 700 operários e se deu de forma pacífica – apesar da 
mobilização da polícia pelo gerente da fábrica –, terminando no dia 19 de forma vitoriosa 
para os trabalhadores.132 O artigo do Estado do Pará que noticiou o início da greve dá 
uma ideia da diversidade de ofícios presentes em uma unidade produtiva de construção 
naval; pode-se ler no jornal que “todas as classes empregadas nos estaleiros de Val-de-
Cães, como as que se compõem de ferreiros, serralheiros, caldeireiros, carpinteiros e 
 
130 Fundada oficialmente em 1º de janeiro de 1919. ESTATUTOS da União dos Operários Marceneiros e 
Artes Correlativas. Disponívelem: https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html. 
131 Fundado oficialmente em 15 de agosto de 1918. ESTATUTOS do Syndicato dos Caldeireiros de Ferro. 
Disponível em: https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html. 
132 Adriano Craveiro de Oliveira fez uma análise desta greve em sua dissertação de mestrado, embora 
informe que se tratava de uma greve dos estivadores. OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira 
República no Pará, op. cit. 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html
 
63 
 
calafates conservam-se em absoluto retraimento, como que aguardando os 
acontecimentos”.133 
Belém foi, desde o período do Império, um dos principais centros de construção 
naval do Brasil, concentrando centenas de trabalhadores especializados neste ramo e onde 
se empreendeu um dos primeiros movimentos trabalhistas134 do Pará, quando em 1822 os 
trabalhadores do Arsenal da Marinha exigiram a demissão do intendente desta empresa, 
por este praticar abusos de autoridade com os trabalhadores.135 É possível perceber, 
portanto, uma tradição anterior de mobilizações deste segmento da classe trabalhadora na 
cidade, que se manteve pelo menos até a conjuntura ora em análise. 
Além dos trabalhadores das oficinas de Val-de-Cães, os empregados na oficina 
metalúrgica de A. Gonçalves Rodrigues & Cia também empreenderam algumas paredes 
no mesmo período. Em 12 de agosto do de 1918, os carpinteiros navais dessa firma 
paralisaram os trabalhos reivindicando um aumento de 20% em seus vencimentos, sendo 
posteriormente seguidos pelos mecânicos e metalúrgicos da mesma empresa, que pararam 
em solidariedade aos primeiros; a greve terminou no dia 16 daquele mês, sendo os 
trabalhadores atendidos em seus reclames.136 No final do mesmo ano, eles grevaram, 
desta vez contra a demissão de vários operários empregados na reparação de 
embarcações, reivindicando a readmissão deles.137 
Na greve geral de outubro do mesmo ano, o Estado do Pará noticiou que “os 
operários da Port of Pará, em Val-de-Cans, em número superior a 500, (...), comunicaram 
à gerência que, por solidariedade, abandonavam os trabalhos, prometendo voltar logo que 
fosse solucionado o caso dos motorneiros e condutores da Pará Eletric”.138 O mesmo 
artigo ainda informou que 22 operários da oficina metalúrgica Gonçalves Rodrigues e um 
número não informado de operários da oficina Camelier também aderiram ao protesto. 
Nesta conjuntura, muitos destes trabalhadores estavam ligados à União dos 
Carpinteiros e Calafates Navais do Pará, ao Sindicato dos Trabalhadores da Port of 
Pará e ao Sindicato dos Caldeireiros de Ferro, todos aderentes à FCT e cujas atividades 
 
133 “A greve dos operários da Port”. Estado do Pará, Belém, nº 2672, 5 set. 1918, p. 1. 
134 Apenas para evitar possíveis incompreensões, ao longo de toda a dissertação o termo trabalhista foi 
empregado num sentido bastante genérico, como sinônimo de alguma ação/posição “de trabalhadores”, não 
guardando, portanto, nenhuma relação com a terminologia conceitual mais específica associada ao modelo 
de relações de trabalho proposto e difundido no período varguista. 
135 SALLES, Vicente. Memorial da Cabanagem: esboço do pensamento político-revolucionário do Grão-
Pará. Belém: CEJUP, 1992, p. 149-153. 
136 “Greve nas oficinas A. Gonçalves Rodrigues & Cª”. Jornal do Povo, Belém, nº 16, 17 ago. 1918, p. 2. 
137 “Greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.789, 31 dez. 1918, p. 1. 
138 “A Greve dos motorneiros e condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.713, 16 out. 1918, 
p. 1. 
 
64 
 
eram recorrentemente anunciadas pelos periódicos O Semeador e a Voz do Trabalhador. 
É bastante significativo do grau de organização dos operários especializados da 
construção naval que o Sindicato dos Carpinteiros Navais e Calafates do Pará tenha 
enviado um representante – Jorge Adalberto de Jesus – para o III Congresso Operário 
Brasileiro, realizado em 1920 no Rio de Janeiro.139 
Uma observação que precisa ser feita é que – apesar de ser um momento de maior 
agitação operária – a conjuntura de 1917 a 1920 não pode ser divorciada ou analisada sem 
referência ao período de mobilização e organização anterior, pois ela é, em grande 
medida, sua consequência, resultado e continuação. Muitas destas categorias de artífices 
já tinham experiência de associação corporativa desde as décadas finais do século XIX. 
Conforme já observou Edilza Fontes, “algumas Associações Mutuarias do Pará foram 
organizadas a partir de grupos de operários que se identificavam como artífices e/ou 
artísticas”, como a Imperial Sociedade Beneficente Artística Paraense, a Associação 
Tipográfica Paraense, a Benemérita Sociedade Mecânica Paraense, e Sociedade 
Beneficente Artística dos Sapateiros e a Sociedade Beneficente Artística dos Pedreiros e 
Carpinas, todas mencionadas pela historiadora e fundadas entre meados da década de 
1860 e o final da de1880.140 
Nesse sentido, não é de se espantar que os sapateiros tenham sido uma das 
categorias mais ativas na conjuntura estudada, pois já passavam por um processo de 
organização desde o início daquela década de 1880. Na verdade, a organização classista 
destes trabalhadores no estado data pelo menos de 1881, quando foi fundada a Sociedade 
Artística Beneficente dos Sapateiros141, embora não se possa traçar uma evolução linear 
entre esta primeira organização e as subsequentes. 
Na década de 1910, os sapateiros paraenses apresentavam um alto grau de 
organização. A União dos Operários Sapateiros havia sido fundada em 20 de abril de 
1913 e logo se tornou uma das principais e mais atuantes associações classistas da cidade 
de Belém. Os sapateiros participaram da greve geral de 1914, ao lado dos carroceiros, e 
horteleiros, disponibilizando sua sede para as assembleias dos paredistas.142 A União foi 
a única organização operária a representar o Estado do Pará no II Congresso Operário 
 
139 Todas as outras categorias aderentes à FCT foram representadas por João Plácido e Albuquerque e José 
da Silva Gama. Ver: LONER, Beatriz Ana. 3º Congresso Operário Brasileiro: Relato de Santos Barboza. 
História em Revista, Pelotas, v. 4, 161-199, dezembro de 1998, p. 9. 
140 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 195-201. 
141 SALLES, V. Memorial da Cabanagem, op. cit., p. 161. 
142 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 146-180. 
 
65 
 
Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, em 1913, enviando como delegados Ângelo 
Sperduto e Célio de Brito.143 
No que tange as dimensões numéricas desta categoria, pode-se ter alguns 
indicativos com base na quantidade de estabelecimentos que os empregavam. O relatório 
do governador do estado, datado de 1919, indicou a existência, naquele ano, de pelo 
menos quinze estabelecimentos industriais voltados para a produção de calçados.144 Já o 
recenseamento nacional realizado em setembro e 1920 apontou a existência de 40 
estabelecimentos de fabricação de calçados em Belém naquele ano, uma diminuição em 
relação aos 60 arrolados no ano de 1912.145 Muito provavelmente, não se tratavam todos 
de grandes estabelecimentos fabris, mas de uma ampla gama de pequenas e médias 
oficinas artesanais e manufatureiras, que empregavam um número pequeno de 
trabalhadores, ao lado de algumas poucas fábricas de dimensões maiores. 
Em discurso no ato de fundação da UGT, Antonino Domingues, representante do 
sindicato dos sapateiros, afirmou que “como delegado dos sapateiros tinha a honra de 
fazer sentir que seu sindicato, embora com pouco número, está apto para fazer valer os 
seus direitos”.146 O baixo número de associados naquela data provavelmente se justifica 
pelo fato de que o sindicato da categoria era de fundação recente, embora ela fosse 
numerosa. Anos mais tarde, em maio de 1920, um redator de um impresso operário 
calculou o número de presentes em uma assembleia de sapateiros e sandalheiros em cerca 
de 400 pessoas.147 Quando daagressão à um sapateiro, Samuel Barboza, em 1920, seus 
companheiros de categoria foram à imprensa avisar o agressor, Antônio Manoel Lopes, 
que teria de lutar contra “uma classe composta por mais de 2000 homens, capazes de 
esfolá-lo como um suíno”.148 
Na conjuntura que ora nos importa, foi possível encontrar dezenas de sapateiros 
na linha de frente do movimento operário, atuando de diversas formas, fosse colaborando 
ou consumindo jornais operários, empreendendo greves de solidariedade a outras 
categorias, contribuindo financeiramente para organizações de classe, estando presentes 
 
143 HARDMAN, F. F.; LEONARDI, V. História da indústria e do trabalho no Brasil, op. cit., p. 312. 
144 ESTADO DO PARÁ. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Pará em sessão 
solene de abertura da 2ª reunião de sua 10ª legislatura a 7 de setembro de 1919, pelo Governador Lauro 
Sodré. Pará [Belém]: Typ. da Imprensa Official do Estado, 1919, p. 99-100. 
145 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. V 
(1ª Parte): População. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1927, p. XLI. 
146 A ata da fundação da referida organização foi publicada integralmente em: Onze de Janeiro, Belém. 
Edição única, 11 jan. 1918, p. 1-2. Grifo nosso. 
147 “Pelos Sindicatos” A Voz do Trabalhador, Belém, nº 4, 22 maio 1920, p. 4. 
148 “Feio&forte”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 9, 22 jun. 1920, p. 2. 
 
66 
 
nas campanhas de solidariedade ou participando de eventos culturais levados à cabo pelas 
organizações classistas, dentre outras formas. 
Embora não tenha sido identificado nenhum sapateiro entre as equipes redacionais 
dos jornais operários consultados, pode-se perceber a atuação dos trabalhadores desta 
categoria no apoio aos periódicos classistas de outras formas, como contribuições 
financeiras por meio de doações, compra e venda dos números das folhas e difusão de 
suas unidades entre os trabalhadores. O Jornal do Povo informou em 1918 a doação de 
7$000 “pelos sapateiros” para o seu funcionamento.149 Em meados do ano seguinte, a 
União dos Sapateiros doou 6$100 para a redação d’O Semeador continuar seus 
trabalhos.150 Já o A Voz do Trabalhador, fazendo um balanço da venda de seus dois 
primeiros números, informou que foram vendidos aos sapateiros 117 exemplares do 
número 1 e três do número 2151; quanto ao número 13, a redação do jornal arrecadou 
11$000 de venda dos exemplares aos sapateiros – segunda categoria que mais consumiu 
aquela edição, segundo o balancete, atrás apenas dos trabalhadores da construção civil, 
que foram responsáveis por 36$800 de arrecadação do jornal.152 Percebe-se que a 
contribuição financeira dos sapateiros aos jornais operários era uma prática recorrente – 
e pode ter havido muitas outras que não foram captadas pela documentação – além de 
que, embora poucos artigos publicados nos jornais operários tenham sido produzidas 
pelas mãos dos sapateiros, suas páginas foram frequentemente folheadas por elas. 
Os sócios da União dos Operários Sapateiros também deram uma contribuição 
fundamental para a manutenção da Escola Racional Francisco Ferrer, fundada em 
outubro de 1919, sendo destinada à instrução de filhos de trabalhadores. Entre dezembro 
de 1919 e janeiro de 1920, foram arrecadados 26$140 entre os sapateiros em favor da 
escola.153 Em fevereiro de 1920, o sindicato doou 26$300 à direção da instituição para a 
manutenção das suas aulas.154 No mês seguinte, mais 14$000.155 Em agosto do mesmo 
ano, o grupo Os Semeadores, fundador e até então responsável pela escola, abriu mão da 
direção da instituição educacional em favor da União dos O. Sapateiros.156 
 
149 “Conta Corrente”. Jornal do Povo, Belém. n° 19, 7 de set. 1918, p. 3. 
150 “Apelo d’O Semeador”. O Semeador, Belém. n° 7, 5 jul. 1919, p. 4. 
151 “Conta Corrente”. A Voz do Trabalhador, Belém. n° 5, 29 maio 1920, p. 3. 
152 “Balancete do nº 13 da Voz do Trabalhador. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 18, 28 ago. de 1920, p.4. 
153 “Os Semeadores”. O Semeador, Belém. nº 36,24 jan. 1920, p.6. 
154 “Escola de E. Racional Francisco Ferrer”. O Semeador, Belém, nº 39, 14 fev. 1920, p. 3. 
155 “Escola Racional Francisco Ferrer”. O Semeador, Belém, nº 42, 6 mar. 1920, p. 4. 
156 “Sapateiros e Semeadores”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 17, 21 ago. 1920, p. 4. 
 
67 
 
Já em relação ao empreendimento de greves pela categoria na conjuntura que ora 
nos importa, foram mapeados poucos movimentos paredistas empreendidos por eles. 
Edilza Fontes já indicou que “em abril de 1917, a União dos Operários Sapateiros 
declararam a greve, reivindicando aumento salarial e limitação das horas de trabalho”.157 
Em fevereiro de 1919 o Estado do Pará noticiou que cerca de 40 sapateiros da fábrica 
Boa Fama paralisaram suas atividades laborais entabulando o aumento de salário.158 Não 
foi possível verificar mais informações sobre o movimento, como por quanto tempo 
durou ou qual foi o seu resultado. Outros movimentos localizados podem ter sido 
empreendidos por eles na conjuntura, mas como as oficinas de sapateiros eram em geral 
pequenas, não foram noticiadas na grande imprensa. 
Apesar dos sapateiros terem iniciado poucas greves neste momento, eles 
estiveram constantemente presentes nas greves gerais de solidariedade à outras categorias 
profissionais. Em setembro de 1917, “400 padeiros decidiram grevar e realizaram um 
meeting com a presença numerosa de sapateiros (...)”.159 Na greve geral de outubro de 
1918, em apoio aos motoristas e condutores de bondes da Pará Eletric, o Estado do Pará 
– contabilizando os trabalhadores que se levantaram em à favor dos primeiros – informou 
que “estão também em greve os sapateiros de todas as oficinas”.160 Já na greve geral de 
maio de 1919, “grupos de sapateiros percorreram várias oficinas, intimando os operários 
a abandonar o serviço. Em cada uma delas se fazia ouvir um orador”.161 No final do 
mesmo ano, dois sapateiros – Deolindo Martins e Aurélio Pereira – foram detidos pela 
chefatura de polícia por terem distribuído, junto ao jornaleiro Carlos Amorim, um boletim 
de propaganda anarquista.162 
Na já referida argumentação de Hobsbawm e Scott sobre a explicação da 
radicalidade dos sapateiros europeus no oitocentos, os autores afirmam que a militância 
e o ativismo de esquerda deles não os distinguiam de outros artífices que foram, em 
determinadas épocas, pelo menos igualmente destacados nestes aspectos e que muitos dos 
argumentos sobre os sapateiros poderiam se aplicar a outros artífices de aldeias. É o caso 
dos alfaiates, mencionados várias vezes no referido estudo de Hobsbawm e Scott, que 
compartilhavam muitas vivências dos sapateiros: ambos eram ofícios escolhidos por 
 
157 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 279. 
158 “Greve de Sapateiros”. Estado do Pará, Belém, nº 2.832, 12 fev. 1919, p. 1. 
159 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 179. 
160 “A Greve dos Motorneiros e Condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.713, 16 out. 
1918, p. 1. 
161 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.928, 20 maio 1919, p. 2. 
162 “Contra o anarchismo”. Estado do Pará, Belém, nº 3.127, 6 dez. 1919, p. 1. 
 
68 
 
homens mais fracos fisicamente, desenvolveram a instituição do “leitor” (um aprendiz 
que lia jornais e livros enquanto os outros trabalhavam), eram bastante numerosos, 
ocupavam uma escala baixa na pirâmide social – mesmo entre os próprios trabalhadores 
– e exerciam ofícios que permitiam que se “filosofasse” enquanto os executava.163 
No contexto belemense do final dos anos dez, os alfaiates estavam também ao 
lado dos sapateiros nas lutas sociais – embora de forma mais modesta que aqueles. No 
contexto da greve geral de 1919, o Estado do Pará noticiou em sua edição de 13 de maio, 
que “logo pela manhã, vários grupos de alfaiates e sapateiros percorreram as casas de 
alfaiataria e oficinas de sapateiros,convidando os operários a aderirem ao movimento”.164 
Alguns membros deste ofício foram assíduos colaboradores dos jornais operários e 
lideranças ou militantes de destaque, como Ayres de Azevedo Pimentel, Elias Brito e 
Armando Baptista e Raimundo Oliveira, que assinaram alguns artigos no O Semeador e 
no A Voz do Trabalhador, além de atuarem em outras frentes. Eles se organizavam, desde 
1913, em torno do Sindicato dos Artistas Alfaiates, posteriormente incluindo as 
costureiras na organização. Membros da categoria empreenderam pelo menos uma greve 
corporativa, em março de 1919, quanto os empregados de diversas alfaiatarias da capital 
conseguiram impor aos proprietários uma tabela de preços por peças.165 
Outra categoria de trabalhadores especializados reconhecidamente bastante 
atuante no período, em diversas capitais do país, foi a dos tipógrafos, também chamados 
na época de “artistas gráficos”. Essa atuação era tão marcante que dois historiadores, em 
obra ainda hoje crucial sobre a temática, chegaram a afirmar que “os gráficos teriam (...) 
em todos os centros urbanos do país, maiores ou menores, pelas próprias características 
de seu ofício, um papel pioneiro na aglutinação da vanguarda operária, através da 
imprensa classista e do sindicalismo combativo”.166 Mas no que tange ao recorte aqui 
analisado, os gráficos tiveram uma atuação mais tímida do que se poderia imaginar de 
antemão. 
Em 1917 foi fundada a Cooperativa Tipográfica, associação que pretendia 
congregar os praticantes do ofício de Belém, que rapidamente estabeleceu ligações com 
a FCT. Essa organização, no entanto, parece ter tido uma trajetória instável, já que no 
início de 1920 foram publicados apelos na imprensa operária local para que os gráficos 
 
163 HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho, op. cit., p. 175, 178-179, 189-190, 193, 196. 
164 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.921, 13 maio 1919, p. 2. 
165 “A greve dos alfaiates”. Estado do Pará, Belém, nº 2.858, 10 mar. 1919, p. 2. 
166 HARDMAN, F. F.; LEONARDI, V. História da indústria e do trabalho no Brasil, op. cit., p. 314. 
(Grifos nossos). 
 
69 
 
reorganizassem seu sindicato profissional, no que parecem ter sido atendidos com a 
organização da Associação Gráfica do Pará, em maio do mesmo ano.167 Não foi 
localizada nenhuma greve empreendida pela categoria no período analisado, nem 
manifestações de apoio e solidariedade às greves de outros segmentos dos mundos do 
trabalho belenense. 
Embora coletivamente a categoria tenha demonstrado uma organicidade 
relativamente baixa, alguns de seus membros individuais foram destacados militantes do 
movimento naquele momento. Foram os casos do poeta e encadernador Bruno de 
Menezes, que atuou nos jornais O Semeador e A Voz do Trabalhador, também como 
orador em palestras e conferências para público de trabalhadores, além de ser professor 
na Escola Racional Francisco Ferrer.168 José da Silva Gama também foi um dos principais 
redatores de ambos os jornais, assinando inúmeros artigos e textos, sendo também um 
dos representantes dos sindicatos e trabalhadores paraenses no III COB, em 1920. Ou 
ainda, o tipógrafo e poeta Ernani Vieira, filho do também tipógrafo e militante Artúnio 
Vieira e um dos principais nomes do movimento literário modernista no Pará169, que 
assinou poesias no A Voz do Trabalhador e organizou comícios e palestras com a temática 
do internacionalismo e do combate ao nacionalismo xenofóbico. 
 
OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL 
Os trabalhadores do ramo de construção civil – mestres, pedreiros, carpinteiros e 
marceneiros; seus respectivos aprendizes; pintores; estucadores; calceteiros; serventes; 
torneiros; serralheiros; etc., também considerados como especializados/qualificados, 
foram, ao lado dos sapateiros, um dos esteios das movimentações classistas naquele 
instante. Na já citada fundação da UGT em 1914, dos sete sindicatos fundadores da 
União, três eram de categorias da construção civil: o Sindicato dos Pedreiros, 
representado por Domingos P. Maia e Antônio das Neves; o Sindicato dos Carpinteiros, 
representado por José Pereira da Rocha e Manoel Côrrea Martins; e o Sindicato dos 
Pintores, representado por Silvestre Costa e João dos Santos Ronda. Os trabalhadores do 
ramo também já tinham precedentes longínquos de organização na cidade, pelo menos 
 
167 “Associação Gráfica do Pará”. A Voz do Trabalhador, Belém. nº 16,14 ago. 1920, p. 4. 
168 Sobre a participação de Menezes no movimento, ver: FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Rubra poesia: 
Bruno de Menezes, anarquista, 1913-1923. Asas da palavra, Belém, v. 10, nº 1, p. 69-77, 2005. 
169 Sobre Vieira, ver: SALLES, V. Memorial da Cabanagem, op. cit., p. 246. 
 
70 
 
desde 1884 quando foi fundada a Sociedade Beneficente Artística dos Pedreiros e 
Carpinteiros.170 
Os sindicatos das diversas categorias do ramo se uniram, posteriormente, na 
Federação das Classes da Construção Civil (FCCC), sediada inicialmente na rua 28 de 
Setembro, nº 9, e posteriormente na avenida 29 de Agosto, nº 67, e na rua General Gurjão, 
nº 44. A FCCC constituía, por sua vez, uma das principais vigas de sustentação da UGT 
e posteriormente da FCT. Por meio das já mencionadas colunas “Vida Sindical” e 
“Movimento Sindical”, respectivamente dos jornais operários O Semeador e A Voz do 
Trabalhador, pode-se acompanhar a rotina regular de assembleias semanais ou mensais 
da FCCC entre 1919 a 1920, quase sempre com “número regular” de participantes, 
demonstrando sua estabilidade ao longo desses anos 
Não foi possível detectar a data exata de fundação da FCCC, mas ela já estava 
ativa no início de julho de 1917, quando promoveu uma manifestação pública de protesto 
contra a carestia de vida que assolava a cidade naquele instante. Desde aquele momento, 
a FCCC já se colocava como organização agregadora de outras categorias, pois o meeting 
promovido por ela nesta ocasião contou com o apoio da Liga Operária e das associações 
dos choferes, dos alfaiates, dos manipuladores de pão, dos cigarreiros, dos motorneiros e 
condutores, além, é claro, da dos sapateiros.171 Os marceneiros criaram organização 
própria em 1919 – a União dos Operários Marceneiros e Artes Correlativas172, também 
filiada à FCT – que congregou, além dos próprios marceneiros, os entalhadores, torneiros, 
polidores, estofadores e empalhadores. 
No que tange a área da construção civil na época da crise da borracha, Roberto 
Santos faz as seguintes considerações: 
 
Não é possível avaliar-se seu avanço ou retrocesso em termos físicos. A renda 
certamente caiu na atividade. Por meio muito indiretos infere-se que a 
construção fora do mercado, constituída por edificações extremamente pobres, 
ter-se-á expandido bastante, particularmente na cidade de Belém.173 
 
Embora não tenha indicado as fontes, o autor ainda citou o aumento do número 
de domicílios no Pará, de 75.853 em 1900 para 128.814 em 1920174, o que sugere que o 
 
170 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 198. 
171 “A Carestia da Vida”. Estado do Pará, Belém, nº 2.245, 2 jul. 1917, p.1. 
172 ESTATUTOS da União dos Operários Marceneiros e Artes Correlativas. Disponível em: 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html.consultado em 28/03/2023. 
173 SANTOS, R. História econômica da Amazônia, op. cit., p. 274. 
174 Idem, Ibidem. 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html
 
71 
 
número de trabalhadores empregados na área era elevado.175 Com efeito, dois dos 
estabelecimentos industriais elencados pelo recenseamento de 1920 são classificados 
como “indústrias da edificação”, dos quais um empregava 9 trabalhadores e o outro 
empregava 67, totalizando 76 operários. Talvez se deva considerar como sendo do ramo 
da construção civil parte dos 5 estabelecimentos classificados como “indústrias da 
madeira”, que empregavam, segundo o censo, 461 assalariados; e os 7 da “indústria do 
mobiliário”, que somavam 40 empregados.176 Em outro volume,o censo de 1920 também 
classificou os habitantes de Belém segundo suas profissões, indicando que no momento 
de sua aferição havia 4.216 pessoas empregadas no ramo da “Indústria da edificação”177 
na cidade, sendo a quarta categoria mais numerosa, segundo os dados da mesma fonte. 
Os construtores civis demonstraram em mais de uma ocasião a sua disposição em 
paralisarem os trabalhos em solidariedade à outras categorias: na greve geral de outubro 
de 1918, o Estado do Pará noticiou que “Os operários da firma de construção dos srs. 
Salvador Mesquita, em número de 180, abandonaram o serviço, comunicando ao gerente 
que voltariam assim que o movimento terminasse”, que “prometendo voltar logo que 
terminasse a greve, retiraram-se das Officinas Freitas Dias, à travessa Benjamin 
Constant, 320 operários das diversas seções das oficinas”, e, mais adiante, que “também 
tiveram o mesmo procedimento cerca de 350 operários das oficinas de construção dos srs. 
Manoel Pedro & Cª, à Rua Bragança” 178; a matéria pontuou que nem todos os operários 
do ramo da construção aderiram ao movimento. Se bem que não de todo confiáveis, os 
números citados pelo diário dão uma dimensão da força numérica desta categoria. No ano 
seguinte, os trabalhadores da construtora Salvador Mesquita iniciaram uma greve que 
durou mais de um mês, em abril, além de terem sido os pivôs da greve geral de maio, que 
reivindicou a jornada de oito horas diárias. 
A condição de trabalhadores qualificados dos mestres pedreiros, carpinteiros e 
marceneiros também conferiam a eles um poder de barganha maior nos conflitos contra 
os patrões, já que não eram facilmente substituíveis quando demitidos. Vieram também 
 
175 Essa relação é, obviamente, importante para se aferir a dimensão e importância do setor da construção 
civil e, por consequência, de seu conjunto de trabalhadores, como bem demonstram estudos realizados 
acerca de outras localidades, como, por exemplo: SILVA, Fernando Teixeira da; GITAHY, Maria Lúcia 
Caira. O movimento operário da construção civil santista durante a Primeira Guerra Mundial. História 
Social, Campinas, SP, nº 3, p. 87-124, 1996. 
176 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. V. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1927, p. 284-285. 
177 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 134-137. 
178 “A greve de motorneiros e condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.713, 16 out. 1918. 
 
72 
 
das categorias da construção civil vários líderes ou militantes destacados do movimento 
operário daquela conjuntura, que atuavam tanto como dirigentes sindicais quanto como 
redatores dos jornais operários e oradores. José Marques da Costa, Alexandre Queirós, 
Tito Salgado, David Ottoni, Silvestre Costa, Antônio Leite, dentre outros, são nomes de 
indivíduos que pertenciam ao ramo e que podiam ser lidos com frequência nas páginas 
dos jornais operários da cidade. 
Dessa forma, ao se analisar o periódico A Revolta, que circulou no segundo 
semestre de 1919, pode-se identificar muitas referências aos trabalhadores da construção 
civil – pedreiros, marceneiros e carpinteiros –, seja com textos direcionados a eles179, ou 
que se referiam a estas categorias ou membros específicos delas, como os anúncios de 
acidentes de trabalho180, ou notas de falecimento, como a do marceneiro Jozé Árias, que 
“pertencia à União dos O. Marceneiros e Artes Correlativas”181; ou ainda por meio de 
cartas enviadas por membros delas e publicadas no jornal.182 Um olhar mais atento sobre 
os grupos produtores do periódico revela que pelo menos três deles, o redator-principal 
José Marques da Costa e o administrador Alexandre Queiróz, além de Tito Salgado, eram 
membros do ramo da construção civil, ocupando cargos nas diretorias dos sindicatos e 
associações mutualistas dos trabalhadores do ramo. Portanto, embora pretendesse 
dialogar com a classe trabalhadora em geral, pode-se considerar que este periódico estava 
ligado organicamente aos trabalhadores da construção civil. 
O jornal A Revolta ainda noticiou diversos acidentes de trabalho envolvendo 
operários do ramo. Logo em seu número de estreia, pode-se ler um artigo que noticiou o 
acidente de um operário empregado da firma de Ernesto Martins, que na ocasião não 
prestou auxílio ao acidentado.183 Quase um mês depois, o jornal deu publicidade a mais 
dois sinistros: um ocorrido nas seção de marcenaria da fábrica de Manoel Pedro e Cia, 
vitimando o marceneiro Manoel Teixeira, que teve um dedo amputado por uma serra 
circular; e outro acidente de um operário da oficina de reparos navais de Val-de-Cães, 
que foi recolhido na Santa Casa.184 
No seu quinto número, o jornal voltou à história do empregado de Ernesto 
Martins, detalhando que o pedreiro caiu de uma altura de cerca de quatro metros e que o 
 
179 CHICOTE. “Aos Marceneiros”. A Revolta, Belém, n° 2, 9 ago. 1919. 
180 “Acidentes de trabalho”. A Revolta, Belém, n° 5, 20 set. 1919. 
181 “Jozé Árias”. A Revolta, Belém, n° 6, 4 out. 1919. 
182 BARRROS, Manoel Ferreira. “Companheiros redatores do jornal A Revolta”. A Revolta, Belém, n° 4, 
6 set. 1919. 
183 “De leve...”. A Revolta, Belém, nº 1, 26 jul. 1919, p. 3. 
184 “Acidentes no trabalho”. A Revolta, Belém, nº 3, 23 ago. 1919, 4. 
 
73 
 
empreiteiro teve de pagar à vítima o soldo de 30 dias, à razão de 5$000. Na mesma 
matéria, noticiou o acidente do servente de obras Frederico Vehino, que quebrou uma 
perna ao ser atropelado por um carro elétrico enquanto conduzia uma barrica de cimento; 
a Manoel Pedro & Cia, empreiteira em que o servente era empregado, e a Pará Eletric, 
proprietária do carro do atropelador, polemizaram sobre de quem foi a responsabilidade 
do acidente, ambas se recusando a arcar com os custos médicos de Vehino; na mesma 
oficina, o carpinteiro João Guimarães Sobrinho perdeu quatro dedos da mão direita ao 
usar uma serra para improvisar um calçado, sendo internado na Santa Casa; mais uma 
vez, a empreiteira se recusou a arcar com as despesas médicas do trabalhador acidentado, 
sendo necessário que o Sindicato dos Carpinteiros abrisse uma subscrição que arrecadou 
60$000 para auxílio à Sobrinho.185 No ano seguinte, outro jornal operário – o A Voz do 
Trabalhador – também noticiou diversos acidentes envolvendo trabalhadores da 
construção civil, como o de Joaquim Assunção, que caiu de um andaime enquanto 
trabalhava, tendo se ser internado na Beneficente Portuguesa.186 
Além de demonstrar o contato frequente da equipe redacional com o cotidiano dos 
trabalhadores da construção civil, as matérias ainda escancaram uma das faces mais 
terríveis do ramo: a frequência dos acidentes de trabalho, não raras vezes graves, e a falta 
de auxílio dos patrões aos trabalhadores acidentados. A frequência de acidentes poder ser 
verificada em outras regiões do país; Marília Cánovas, por exemplo, informou que o ramo 
foi campeão de acidentes em São Paulo, segundo um levantamento feito pelo 
Departamento Estadual do Trabalho em dezembro de 1911.187 
A recorrência dos acidentes para a categoria nos leva a refletir a partir de Edward 
Palmer Thompson, para quem “experiência” seria uma “resposta mental e emocional, seja 
de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos inter-relacionados ou a 
muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento”188. Ora, os acidentes de trabalho 
eram um tipo de acontecimento que se repetia frequentemente entre os trabalhadores da 
construção civil, como verificado nas várias notícias dos jornais operários, ou seja: eram 
parte da vivência destes trabalhadores, bem como a denúncia deles na imprensa 
 
185 “Acidentes no Trabalho”. A Revolta, Belém, nº 5, 20 set. 1919, 3-4. 
186 “Acidentes no Trabalho”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 8, 9 jun. 1920, p. 2. 
187 CÁNOVAS, Marília Klaumann. Imigrantesespanhóis na Paulicéia: trabalho e sociabilidade urbana 
(1890-1920)”. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2009, p. 170. 
188 THOMPSON, Edward Palmer. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao 
pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 15. 
 
74 
 
trabalhista eram uma das respostas que eles davam a estes acontecimentos, o que indica 
que a imprensa operaria fazia parte da experiência da categoria. 
Além do mais, a frequência dos acidentes pode ter contribuído para o grau 
relativamente alto de organização que eles tinham naquele momento, principalmente das 
sociedades mutualistas e beneficentes que prestavam socorro aos sócios acidentados, os 
trabalhadores poderiam se ver mais estimulados a aderirem às estas entidades como 
também para apoiar a imprensar operária, já que ela dava visibilidade àquela realidade, 
por meio das denúncias nos periódicos. A pressão nos jornais também foi associada às 
exigências de cumprimento do decreto legislativo nº 3.724, de 15 de janeiro de 1919, 
primeira lei sobre acidentes do trabalho no Brasil, que determinava que os patrões 
deveriam pagar uma indenização aos operários que sofressem acidentes no exercício do 
trabalho.189 
Seja como for, os trabalhadores da construção civil permaneceram sendo uma das 
principais vigas de sustentação da FCT, mesmo após o momento de grande agitação 
trabalhista no final da década de 1910: no primeiro semestre de 1920, a FCCC organizou 
uma série de “comícios de propaganda associativa”, durante os quais protestou “de modo 
veemente contra a carestia dos gêneros de primeira necessidade”; já o quarto comício, 
realizado em maio na Praça da República, foi acompanhado por cerca de 800 pessoas 
segundo as estimativas de um articulista do A Voz do Trabalhador.190 Em setembro do 
mesmo ano, a FCCC ainda promoveu um “grandioso espetáculo”, a ser realizado no início 
do mês seguinte, onde seriam encenadas três peças teatrais.191 Alguns anos depois, no 
raiar de 1927, a União dos Operários de Construção Civil192 promoveu, com o patrocínio 
da FCT, uma sessão para comemorar a chegada do novo ano, onde estiveram presentes 
diversas organizações classistas e “muitas centenas de trabalhadores acompanhados de 
suas famílias”, além de assinar um manifesto aos operários paraenses e uma moção de 
solidariedade ao proletariado em geral, ambos transcritos pelo periódico paulistano A 
Plebe.193 Membros desta organização ainda estiveram presentes no cortejo organizado 
pela FCT na ocasião do 1º de maio do mesmo ano.194 
 
189 BRASIL. Decreto nº 3.724, de 15 de janeiro de 1919. Publicação Consultado em: https://www2. 
camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-3724-15-janeiro-1919-571001-publicacaooriginal-94096 pl.html#:~:text=1% C2%BA%20 Consideram%2 
Dse%20accidentes%20no,parcial%2C%20permanente%20ou%20temporaria%2C%20da. 
190 “Um grande comício”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 4, 22 maio 1920, p. 3. 
191 “Teatro Moderno”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 21, 25 set. 1920, p. 3. 
192 Não foi possível identificar se foi a sucessora da FCCC ou uma organização nova. 
193 “Mundo Operário”. A Plebe, São Paulo. nº 247, 12 mar. 1927, p. 4. 
194 “Do Pará proletário”. A Plebe, São Paulo. nº 254, 25 jun. 1927, p. 2. 
 
75 
 
Os trabalhadores deste ramo profissional parecem ter tido um papel de destaque 
no movimento operário não apenas no Estado do Pará, mas em diversas regiões do país 
ao longa das primeiras décadas do novecentos. Sheldon Leslie Maram já havia destacado 
que “antes da Primeira Guerra Mundial os trabalhadores da construção civil constituíam, 
provavelmente, a indústria mais organizada do país”, tendo atuações muito marcantes nas 
cidades de Santos, São Paulo e Porto Alegre.195 No caso do Rio de Janeiro, Ângela de 
Castro Gomes apontou que a União dos Operários da Construção Civil se tornara “o mais 
forte bastião libertário na década de 1920”.196 No que tange a cidade de Santos, Fernando 
Teixeira da Silva já assinalou que “durante as duas primeiras décadas do século XX, os 
operários da construção civil ocuparam um lugar de centralidade no processo de 
organização dos trabalhadores”197, devido a fatores como a fragmentação do patronato, a 
qualificação dos trabalhadores e o predomínio do trabalho ocasional, situação que mudou 
ao longo da década seguinte devido à introdução de uma nova forma de organização do 
trabalho proposta pelo engenheiro Roberto Simonsen. 
Já no Estado da Bahia, o Sindicato dos Pedreiros Carpinteiros e Demais Classes, 
fundado em 1919, “deflagrou aquela que viria a ser a mais importante paralisação do 
trabalho no Estado da Bahia durante toda a Primeira República: a greve geral de 1919” 
e a partir daí ele se tornou “uma das mais ativas agremiações operárias do pós-guerra 
(1919-1922) da Bahia, progressivamente conquistando novos filiados, auxiliando na 
organização de novos sindicatos e fundando sucursais pelo interior do estado”,198 além de 
ter atuado com destaque, entre 1919 a 1922, na organização Primeiro Congresso de 
Trabalhadores Baianos, na criação da Federação dos Trabalhadores Baianos (FTB), na 
organização do Partido Socialista Baiano, na publicação de dois jornais operários 
(Germinal e A Voz do Trabalhador), além da fundação de uma escola proletária.199 Neste 
sentido, o contexto paraense parece compartilhar muitos aspectos em comum com o 
baiano no que diz respeito à participação deste segmento da classe operária. 
 
 
 
195 MARAM, S. L. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro, op. cit., p. 51-53. 
196 GOMES, A. C. A invenção do Trabalhismo, op. cit., p. 156. 
197 SILVA, Fernando Teixeira. Operários sem patrões: os trabalhadores da cidade de Santos no 
entreguerras. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2003, p. 29. 
198 GUIMARÃES, Luciano. Negros e vermelhos: classe, raça e anarquismo no pós-abolição da Bahia 
(1920-1922). Revista Espaço Acadêmico, Maringá, PR, v. 22, n. 234, p. 73-84, 1 maio 2022, p. 81. 
199 GUIMARÃES, Luciano de Moura. Pela lei e contra a lei: lutas e organização dos trabalhadores da 
construção civil de Salvador (1919-1922). Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 12, p. 1-30, 2020. 
 
76 
 
OPERÁRIOS DOS TRANSPORTES 
O setor dos transportes se tornou fundamental na composição e consolidação do 
sistema capitalista contemporâneo. Ele intensificou enormemente o fluxo de circulação 
de mercadorias para os mercados consumidores longínquos, bem como o de pessoas, 
sobretudo trabalhadores, para áreas distantes ou no interior das próprias cidades 
modernas, que por sua vez aumentaram significativamente de dimensões. Hobsbawm já 
chamou a atenção para a importância deste setor nos países europeus ao longo da Era dos 
Impérios (1875-1914), argumentando que “(...) os transportes por estradas de ferro ou por 
mar, embora muito diferentes, tinham em comum a sua crucial importância estratégica 
para a economia das nações, que se poderiam paralisar, caso eles cessassem.”200 
Neste sentido, com o processo de modernização ocorrido na Amazônia nas últimas 
décadas do século XIX, os meios de transporte tradicionais – as catraias, canoas, 
alvarengas, os barcos a velas e a sirga, no caso do transporte marítimo e fluvial; os carros, 
carroças, carrinhos, carruagens e charretes movidos pela tração animal, no caso do 
transporte urbano terrestre –, bem como os trabalhadores que os manejavam, embora não 
tenham sido completamente suplantados201, foram em grande medida substituídos pelos 
meios de transporte que se utilizavam da energia a vapor e, posteriormente, à energia 
elétrica e motores à combustão: os navios a vapor, no caso do modal aquático; os bondes 
elétricos e os automóveis, no caso do transporte urbano; e seus respectivos manobradores. 
Com a penetração e difusão das relações de trabalho capitalistas na região, a 
questão da disciplinarização das atividades laborais e das altas cargas horárias diárias 
tornaram o transporte em bondesou em automóveis uma necessidade básica para a 
própria reprodução da força de trabalho dos operários urbanos, já que eles tinham 
rigorosos horários a cumprir202 em uma cidade cujas dimensões, tanto populacionais 
quanto de perímetro territorial, haviam crescido substancialmente nas primeiras décadas 
do século XX, fazendo com que as distâncias entre o local de moradia e o de labuta de 
muitos destes trabalhadores aumentasse significativamente. 
 
200 HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios (1875-1814). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.178. 
201 Podem ser vistos com frequência nos álbuns de fotografias da cidade. 
202 Basta lembrar que o estopim para a Greve Geral de 1919 foram os descontos no salário dos trabalhadores 
de uma firma de construção civil por conta dos atrasos de alguns deles no início do turno da manhã. 
Guardadas as devidas proporções, na Amazônia se passava um processo muito semelhante de controle do 
trabalho e da própria vida das classes subalternas, tal como verificado na Inglaterra nos séculos anteriores. 
Ver: THOMPSON, Edward Palmer. “Tempo, disciplina do trabalho e o capitalismo industrial”. Costumes 
em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 267-
304. 
 
77 
 
Essa importância sempre foi lembrada nas ocasiões das greves dos trabalhadores 
deste setor. Em uma delas, o articulista do Estado do Pará que noticiou uma paralisação 
dos motoristas e condutores dos bondes elétricos escreveu que “uma cidade sem bondes 
é uma cidade quase morta”.203 Meses depois, em um artigo que noticiava outra 
paralização da categoria pode-se ler que: 
 
Belém não é mais um burgo restrito, capaz de quedar-se dias seguidos na 
indiferença a propósitos que se lhes prejudicam e danificam a vida, é uma 
cidade em que se precisa trabalhar onde há regularidades de horário e 
obrigações firmadas e ligadas a horas certas, um número considerável de 
trabalhadores às primeiras horas do dia precisa responder o ponto dos seus 
empregos, gente pobre que procura os bairros novos e afastados, de habitação 
barata (...), contando vencer a distância no veículo rápido.204 
 
No interior de cada um desses veículos de transporte – máquinas representativas 
da modernidade que a cidade ostentava – era possível encontrar trabalhadores 
responsáveis pelo seu funcionamento, mesmo que deles pouco se falasse, e sempre sem 
a mesma exaltação.205 Seja como for, e de acordo com o recenseamento geral de 1920, 
haviam entre os 236.402 habitantes de Belém naquele ano, 8.805 trabalhadores cuja 
profissão fora classificada como no setor de “transportes”, sendo 6.014 nos “marítimos e 
fluviais”, 2.505 nos “terrestres e aéreos” e 286 nos “correios, telégrafos e telefones”, o 
que tornava as categorias do setor de transportes uma das mais numerosas entre os 
habitantes com profissão assinalada. 206 
É necessário pontuar que, ao contrário das categorias vistas anteriormente – dos 
trabalhadores especializados de tradição artesanal, cujos ofícios eram exercidos desde o 
período colonial e que já contavam com organizações mutualistas desde o final do século 
XIX –, as categorias de trabalhadores dos transportes terrestres eram de formação recente 
na capital paraense, já que os próprios meios de transportes nos quais trabalhavam – 
automóveis à combustão e bondes elétricos – só apareceram na cidade nos primeiros anos 
 
203 “A greve de ontem”. Estado do Pará, Belém, nº 2.113, 19 fev. 1917, p.1. 
204 “A greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.228, 15 jun. 1917, p.1. 
205 Maria de Nazaré Sarges dirá que nos últimos anos do século XIX, os bondes viriam “compor o quadro 
da modernidade em Belém. O serviço de viação urbana por bodes elétricos se constituiu num dos ‘grandes’ 
exemplos de transformação na dinâmica da vida urbana de Belém no início do século XX, pois o bonde era 
uma das obras nascidas do progresso técnico, representando-se de um modo fantasmagórico, quando causa 
impactos tecnológicos nas mentalidades da população e quando mostra suas articulações internas na medida 
em que características como tamanho e automatismo acabaram redundando em construções monstruosas”. 
SARGES, M. N. Belém: riquezas criando a Belle Époque, op. cit., p. 186-187. 
206 Atrás apenas dos trabalhadores em agricultura (28.181), dos empregados no comércio (10.583) e dos 
trabalhadores nas indústrias de vestuário e toucador (9.584). BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria 
e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 134-
137. 
 
78 
 
do século XX.207 É improvável que os carroceiros e condutores de charretes tenham se 
tornado choferes ou motoristas de bondes elétricos ou que estes últimos tenham herdado 
as tradições dos primeiros. A observação não se aplica aos marítimos, que também se 
organizavam desde o século XIX, tendo uma tradição de movimentação ou uma “cultura 
de trabalho”, conforme demonstrado por Caio Giulliano Paião a partir do caso dos 
práticos.208 
Os trabalhadores de transporte tiveram ao longo do século XX um peso 
fundamental no movimento operário em diferentes países. Beverly J. Silver, consultando 
o banco de dados do World Labour Group (WLG) 209, apontou que eles foram 
responsáveis por cerca de 35% de todas as menções à protestos de trabalhadores entre 
1870 e 1996, sendo proporcionalmente o maior setor em número de manifestações em 
quase todas as décadas tomadas separadamente (exceto em três: 1870 e 1930, quando as 
manufaturas lideraram, e em 1990, quando a categorias de serviços passou a frente).210 
Associada à essa posição estratégica no interior no modo de produção capitalista, 
ou mesmo se aproveitando dela, os empregados nos transportes tomaram atitudes ativas 
e conscientes de enfrentamento ao capital, fosse reivindicando melhorias pontuais nas 
relações e condições de trabalhado fosse se engajando nos movimentos que propunham 
transformações políticas e sociais mais amplas. O patronato, por sua vez percebeu esta 
importância estratégica e, com o auxílio do poder público, tomou medidas de controle e 
disciplinarização dos empregados deste setor. Conforme Hobsbawm, “o transporte era 
agora [isto é, na virada do XIX para o XX] considerado elemento crucial na luta de 
classes”.211 Na onda de agitação trabalhista que tomou as ruas de Belém na segunda 
metade da década de 1910, também estiveram presentes centenas de trabalhadores do 
 
207 A composição da classe trabalhadora não é estática, sofrendo modificações ao longo do tempo. Edward 
Thompson expõe algumas mudanças, em termos de categorias profissionais e especializações, verificadas 
na classe operária inglesa entre o final do século XVIII e o início do XIX, numa dinâmica de ascensão e 
extinção de categorias profissionais inteiras devido às mudanças tecnológicas ou da própria organização do 
trabalho. O autor ainda adverte que não se deve esquecer que “(...) as antigas e as novas habilidades foram 
quase sempre protagonizadas por pessoas diferentes”. Ver: THOMPSON, E. P. A formação da classe 
operária inglesa, op. cit., p. 88-89. 
208 PAIÃO, Caio Giulliano. Culturas de trabalho e associações de práticos em Manaus e Belém (anos finais 
do século XIX). Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 11, p. 1-22, 2019. 
209 Banco de que teve origem nos esforços de alunos de pós-graduação e professores do Centro Fernand 
Braudel, da Universidade de Binghamton (EUA) nos anos de 1980, baseados nas informações jornalísticas 
do The New York Times e do The Times. O Centro já tinha mapeado até 2005 cerca de 92.000 menções à 
manifestações trabalhistas – que incluíam não apenas greves, mas também operações-tartaruga, faltas 
coletivas ao trabalho, sabotagens, revoltas e ocupações em fábricas, entre outras formas de atuação – em 
168 países no período entre 1870 a 1996. 
210 SILVER, Beverly J. Forças do trabalho: movimentos trabalhistas e globalização desde 1870. São Paulo:Boitempo, 2005, p. 102-107. 
211 HOBSBAWM, E. J. A era dos impérios, op. cit., p. 179. 
 
79 
 
setor de transportes, principalmente condutores e motoristas de bondes elétricos, choferes 
e marítimos. 
Se forem levadas em consideração apenas as greves como parâmetro de 
participação no movimento, a categoria que, de longe, mais de destacou na conjuntura em 
tela foi a dos motorneiros e condutores de bondes da empresa concessionária Pará 
Electric. Nada menos do que quatro paredes desta categoria foram mapeadas a partir da 
consulta de jornais locais, entre fevereiro e julho de 1917. Além disso, eles também foram 
os pivôs da “greve geral” de outubro de 1918, ao iniciarem o movimento que desaguou 
na paralisação de outras categorias em solidariedade a eles, além de, inversamente, 
prestarem apoio à diversas categorias quando elas se declararam em parede. 
A Parah Electric Railways and Lighting Company Ltd, empresa inglesa 
concessionária do serviço de transporte em bondes elétricos, foi inaugurada em 1902 e 
recebeu do governo do estado a concessão do monopólio do fornecimento de luz elétrica 
e do transporte por bondes na cidade de Belém, se tornando muito rapidamente uma das 
principais empresas prestadoras de serviço do estado, empregando alguns milhares de 
trabalhadores ao longo dos anos. Os bondes elétricos foram instalados e começaram a 
funcionar regularmente apenas no final de 1907, mas rapidamente se configuravam no 
principal meio de transporte citadino, deslocando trabalhadores e populares na cidade em 
crescimento. Os motoristas e condutores de bonde, por sua vez, se tornaram uma das 
categorias com maior poder de barganha, já que, em grande medida, deles dependia a 
própria movimentação interna da cidade. 
Edilza Fontes apontou o histórico de empreendimentos de greves desta categoria, 
sendo que as primeiras ocorreram no final do século XIX, quando o serviço de bondes 
ainda era feito a partir da tração animal – puxados por burros ou mulas – e seus 
trabalhadores eram denominados cocheiros de bondes. A primeira greve, ocorrida em 
1890, reivindicava aumento salarial, enquanto outra, em 1892, ocorreu como reação à 
medidas punitivas tomadas pela direção da empresa. De acordo com Fontes, “os 
condutores e cocheiros da Companhia dos Bondes que faziam viagens para [o bairro] 
Batista Campos declararam-se em greve devido uma multa de 0$600 que lhes foi imposta 
pela diretoria, o que os trabalhadores consideraram uma injustiça”.212 A autora ainda 
apontou, sem mais detalhes, outro movimento paredista empreendido pelos motorneiros 
 
212 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 212-213. 
 
80 
 
e condutores em agosto de 1908, quando o serviço já era feito por bondes movidos à 
energia elétrica.213 
No que tange ao movimento associativo, em 30 de janeiro de 1913 foi fundada a 
Liga Beneficente dos Empregados da Parah Eletric, sociedade mutualista direcionada a 
todos os empregados da companhia, na qual os motoristas e condutores poderiam fazer 
parte; efetivamente, muitos deles aderiram à Liga. Esta era uma organização de viés 
claramente conciliatório, já que organizada pela própria empresa. Logo no primeiro artigo 
dos seus estatutos, ela reconheceu como presidente honorário o então gerente da 
companhia e seus sucessores; os artigos 72 e 73 garantiam a Pará Eletric o direito de 
determinar a dissolução da Liga nos casos em que se verificasse “no seio da mesma haja 
qualquer insubordinação contra a disciplina da Companhia”. O contexto em que a Liga 
foi criada, em 1913, quando a crise da borracha já se manifestava com força, indica uma 
tentativa de acomodação da empresa frente às contestações que começavam a se 
manifestar entre os trabalhadores. 
Com o recrudescimento da crise da borracha, associado aos efeitos econômicos 
da guerra que logo eclodiria, os motoristas e condutores passaram a entabular com maior 
frequência movimentos paredistas. No final de janeiro de 1917, alguns deles fundaram a 
Sociedade União Protetora dos Condutores e Motorneiros da Pará Eletric, com o 
objetivo de defender os interesses das categorias profissionais dos transportes de bondes, 
diferindo da anterior devido à sua independência em relação à empresa. Embora fosse, 
como a Liga, uma sociedade formalmente beneficente, voltada principalmente para o 
auxílio pecuniário aos seus sócios, foi através dela que organizaram os movimentos 
grevistas que se seguiram a partir daquele momento.214 O caso desta sociedade serve para 
matizar a divisão entre sociedades “de resistência” e mutualistas ou beneficentes, já que 
na prática, houveram muitas sociedades híbridas, beneficentes que coordenaram 
movimentos grevistas e sindicatos ou sociedades de resistência que também ofereciam 
serviços beneficentes aos seus sócios. 
No mês seguinte à fundação da União, os motoristas e condutores de bondes 
entabularam o primeiro da série de movimentos grevistas da categoria nesta conjuntura 
de crise econômica, quando cerca de 300 empregados da Pará Eletric paralisaram suas 
atividades, entre 18 a 20 de fevereiro, reivindicando a diminuição da jornada de trabalhos 
 
213 Idem. Ibidem, p. 260. 
214 Adriano Craveiro de Oliveira analisou as relações e diferenças entre as organizações dos motoristas e 
condutores. Ver: OLIVEIRA, A. C. Trabalhadores na Primeira República no Pará, op. cit., p.70-76. 
 
81 
 
para nove horas diárias; exigindo o fim da revista do fardamento; protestando contra a 
perseguição aos participantes das greves anteriores; e o retorno das diárias de 6$000 e 
7$000 réis para os trabalhadores da 1ª e da 2ª classe, respectivamente. Eles obtiveram 
uma vitória quase total, sendo atendidos na maioria das suas reivindicações, inclusive 
com um compromisso do gerente da companhia de não haver represálias aos participantes 
do movimento, exceto pela jornada diária que ficou acordada em 10 horas.215 
Um ponto interessante desta greve que merece ser destacado foi que ela contou 
com o amplo apoio do diário Estado do Pará, que dedicou editoriais de primeira página 
à defesa dos trabalhadores e à exposição de suas reivindicações, reiterando o caráter 
pacífico do movimento, inclusive publicando fotos dos operários grevistas e da diretoria 
da União dos Motoristas e Condutores, disponibilizando desta forma dois raros registros 
imagéticos das manifestações operárias em Belém (Imagens 1 e Imagem 2, 
respectivamente). 
 
Imagem 1 
Motorneiros e Condutores da Pará Electric em Greve (fev.1917) 
 
Fonte: Estado do Pará, Belém, nº 2113, 19 fev. 1917, p. 1 (Editada). 
 
A imagem 1 evidencia uma das pautas do movimento: o fardamento dos 
trabalhadores, aparentemente de tecido grosso, o que certamente causava incomodo em 
uma cidade de clima quente e húmido como Belém. Além disso, a fotografia denota um 
 
215 Estado do Pará, Belém, nº 2113 e 2114, de 19 e 20 fev. 1917. 
 
82 
 
sentido de unidade entre estes trabalhadores, já que há algumas dezenas deles em atitude 
altiva de protesto coletivo. 
 
Imagem 2 
Diretoria da União Protetora dos Condutores e Motorneiros da Pará Eletric em 1917. 
 
Fonte: Estado do Pará, Belém, nº 2115, 21 fev. 1917, p. 1. 
 
Tal aquiescência de um jornal da grande imprensa às reivindicações operárias – 
que no caso dos motoristas e condutores belemenses não se repetiu nos movimentos 
posteriores – também foi percebida por Maria Luiza Ugarte Pinheiro no caso das greves 
dos estivadores em Manaus, ocorridas mais ou menos no mesmo período, quando estes 
também receberam o apoio da linha editorial de jornais diários, como o Jornal do 
Comércio e o Diário de Notícias, em seus movimentos. Segundo a autora, o apoio destes 
jornais acompanhou a posição de pequenos e médios comerciantes locais, cujos interesses 
eram frequentemente contraditados pelas grandes firmas inglesas de comércio e 
navegação contra as quais os estivadores manauaras protestavam.216 Isso significa que o 
apoiode parte da grande imprensa aos operários não era gratuito, mas antes partia de uma 
convergência momentânea de interesses políticos e econômicos entre ambos. 
Algo neste sentido pode ter acontecido também no caso dos motoristas e 
condutores belemenses, uma vez que ali também pode ser percebido um forte campo de 
 
216 PINHEIRO, M. L. U. A cidade sobre os ombros, op. cit., p. 151-217. 
 
83 
 
tensão entre o segmento do comércio local e as empresas concessionárias dos serviços 
públicos, principalmente naquele momento de crise de precarização desses mesmos 
serviços. Seja como for, apesar do apoio de parte da grande imprensa e de um acordo feito 
com a gerência, a companhia de transportes não cumpriu o estipulado em relação aos 
salários, fazendo com que os trabalhadores voltassem a paralisar suas atividades nos 
primeiros dias de março de 1917. Com a intervenção do intendente de Belém, Dr. Martins 
Pinheiro, e do governador do Pará, Lauro Sodré, os motoristas e condutores retornaram 
ao trabalho no mesmo dia, com a promessa da interseção das autoridades públicas junto 
à Pará Eletric.217 
Em meados de junho, os motoristas e condutores pararam novamente, em 
solidariedade aos estivadores da Port of Pará que se encontravam em greve reivindicando 
aumento salarial, e com isso, retribuíam o apoio que estes deram aos primeiros quando 
grevaram alguns meses antes. Após a vitória dos estivadores, os empregados da Pará 
Eletric se mantiveram em parede, protestando contra a demissão de um motorneiro e de 
um condutor por terem participado de greves anteriores e, novamente, reivindicando a 
redução da jornada de trabalho para oito horas diárias. Após três dias de paralização, a 
greve teve termo no dia 15 daquele mês, sem o estabelecimento da jornada de oito horas, 
mas com o compromisso do gerente da empresa de não demitir os operários que 
participaram do movimento.218 
Cabe salientar que neste momento, estava eclodindo a greve geral em São Paulo, 
fato que, certamente, tornou-se do conhecimento dos trabalhadores paraenses, uma vez 
que os grandes jornais de Belém reproduziram telegramas e matérias noticiando o 
movimento. As notícias da greve em São Paulo podem ter sido um estímulo subjetivo a 
mais para os trabalhadores de Belém – e de outras localidades do país – entabularem os 
seus próprios movimentos. 
Apesar do compromisso reiterado da empresa de não dispensar os trabalhadores 
que se envolveram nos movimentos paredistas, as demissões continuaram, o que fez com 
que os motoristas e condutores planejassem e aprovassem em assembleia um novo 
movimento grevista em meados do mês seguinte. Com efeito, no dia 12 de julho, eles – 
por meio da União – enviaram um ofício ao Estado do Pará, anunciando a greve e 
 
217 “Ainda greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.125, 3 mar. 1917, p. 2. 
218 “A Greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.229, 16 jun. 1917, p. 1. 
 
84 
 
reivindicando a readmissão de vinte um trabalhadores pela Pará Eletric, que haviam sido 
dispensados quando da greve anterior.219 
A polícia se movimentou contra a paralização ainda na madrugada daquele mesmo 
dia, mobilizando amplo aparato de repressão que, de fato, impediu que os grevistas 
fizessem piquetes para convencer os fura-greves à adesão, chegando mesmo a prender os 
condutores Waldemar Oliveira, José Bezerra da Rocha e Manoel C. Barroso, e os 
motoristas João Vicente e Eugênio Fernandes, sendo este último, um dos demitidos.220 A 
greve foi abortada devido tanto à repressão quanto a não adesão de parte dos trabalhadores 
da empresa. 
Após o fracasso do movimento, os trabalhadores da categoria ficariam mais de um 
ano sem entabular novos movimentos paredistas, em parte devido às próprias derrotas 
sofridas nas duas últimas greves e à repressão, fosse ela estatal, com a polícia impedindo 
os meetings, fosse da empresa, por meio demissões dos que se mobilizavam. Eles 
voltaram a empreender movimentos de protesto e reivindicação significativos apenas em 
1918, quando iniciaram uma das maiores greves da conjuntura, que chegou a paralisar 
mais de sete mil trabalhadores de várias categorias em seu auge, segundo um articulista 
do Estado do Pará que noticiou o movimento. 
Os boatos sobre aquela parede iniciaram em 7 de outubro daquele ano, quando 
então se aventava que os choferes, motoristas e condutores de bondes planejavam uma 
paralização para o dia do Círio de Nazaré.221 Apesar de inicialmente desmentirem o boato, 
os motoristas e condutores – além dos eletricistas empregados da Pará Eletric – iniciaram 
o movimento entre os dias 8 e 9, antes, portanto, do evento religioso, não obtendo grande 
cobertura da imprensa. A escolha da data parece ter sido estratégica, já que a festividade 
religiosa movimentava milhares de pessoas que demandavam o transporte coletivo, e com 
isso, aumentavam o poder de barganha daquele segmento de trabalhadores. 
Nos dias iniciais da greve, nem todos os motoristas e condutores aderiram, 
gerando conflitos entre estes e os grevistas, prisões dos segundos pela polícia e a antipatia 
da imprensa pelo movimento que parava e “prejudicava” a comerciantes a cidade; os 
bondes eram escoltados por “praças embaladas” para evitar que paredistas convencessem 
 
219 “Os motorneiros e conductores da Pará Eletric: vae rebentar nova greve”. Estado do Pará, Belém, nº 
2.255, 12 jul. 1917, p. 2. 
220 “Os motorneiros e conductores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.256, 13 jul. 1917, p. 2. 
221 Uma das maiores manifestações do catolicismo paraense, realizada desde o século XVIII, todos os anos 
reúne milhares de pessoas em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará, ocorrendo 
geralmente no segundo domingo de outubro. 
 
85 
 
os fura-greves a aderir. Suas reivindicações neste movimento eram o aumento salarial 
para 7$000 e 5$000 para 1ª e 2ª classe, respectivamente, e a facultatividade da 
contribuição ao médico da empresa, até então obrigatória, descontando 2$000 rs mensais 
de seus ordenados. 
Os motoristas e condutores procuraram a diretoria da UGT em busca de apoio, no 
qual foram prontamente atendidos, e no dia 15 de outubro os trabalhadores de diversas 
categorias profissionais paralisaram suas atividades em protesto contra a intransigência 
do gerente da empresa, Walter Binns, e em apoio aos trabalhadores dos bondes. O 
articulista que noticiou o movimento escreveu que naquele dia estiveram “(...) em greve 
mais de 7.000 operários, todos eles pertencentes à União Geral dos Trabalhadores”; pela 
manhã, foi realizado um grande comício na Praça da República e uma comissão 
composta por representantes dos metalúrgicos, choferes, barbeiros, caldeireiros de ferro, 
marceneiros, cigarreiros, maquinistas, eletricistas, costureiras, carpinas, motorneiros, 
condutores, engomadeiras, estivadores e trabalhadores da construção civil se reuniu com 
o governador Lauro Sodré para discutir as reivindicações dos grevistas.222 
O movimento terminou no dia 16 de outubro com a vitória quase total dos 
trabalhadores, com aumentos salariais para motoristas, condutores, eletricistas, carpinas, 
montadores e metalúrgicos da Pará Eletric, além do compromisso de não haver 
demissões por conta da parede. A contribuição para o médico da empresa passou a ser 
facultativa e os trabalhadores tiveram assegurado o direito de pertencerem a quaisquer 
sociedade ou organização.223 
Na greve geral do final do mês seguinte, em protesto contra o fechamento da UGT 
carioca, “solidários à União, adheriram ao movimento 350 motorneiros e conductores da 
Pará Eletric e alguns eletricistas da mesma companhia”224, quase paralisando o 
movimento na cidade até o dia 28, quando retornaram ao trabalho com a deliberação da 
UGT paraense de encerrar o movimento. Por conta da participação na parede geral, cerca 
de cem motoristas e condutores foram demitidos da empresa de bondes. 
 
222 “A greve dos motorneiros e conductores da Pará Eletric”. Estadodo Pará, Belém, nº 2.713, 16 out. 
1918, p. 1. A edição deu ampla cobertura ao movimento, dedicando quase toda a sua primeira página e 
mudando a linha editorial anterior, de oposição à greve, para, agora, destacar o caráter “pacífico e ordeiro” 
dos paredistas. O jornal também destacou a atuação do senador Virgílio de Mendonça na mediação entre 
os grevistas e o gerente da fábrica, além de sublinhar o papel de Lauro Sodré, o que é compreensível já que 
o jornal se alinhava ao grupo político de ambos. 
223 “A greve de motorneiros e conductores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.714, 17 out. 1918, 
p. 1-2. 
224 “Greve geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2.755, 27 nov. 1918, p. 1. 
 
86 
 
Já em maio de 1919, os empregados da Pará Eletric não aderiram em nenhum 
momento ao longo dos mais de vinte dias que a greve geral durou, embora tenha havido 
muitos boatos em contrário. É possível que a categoria estivesse dividida. Um jornal que 
noticiava as movimentações paredistas publicou um artigo onde relata um episódio 
envolvendo um “colaborador da polícia civil” que acompanhava a greve. De acordo com 
a matéria, ao pegar um bonde elétrico no dia 18, auge da greve, 
 
O motorneiro Joaquim Ferreira, n. 415, dirigiu-se a elle e perguntou se era 
grevista. O colaborador, como era natural, respondeu afirmativamente. Em 
vista disso, o motorneiro disse que ele fosse apressadamente à Federação e lá 
dissesse que fossem mandados cinco homens forçosos afim de obrigar a todos 
os outros motorneiros a virar as taboletas dos veículos para a [avenida] 
Nazareth, recolhendo-os à oficina ficando assim declarada a greve. Disse mais 
o n. 415 que o “colega” fosse de pressa que queria ser o primeiro a mudar a 
taboleta.225 
 
Após a jornada de greves do final de 1918 e ao longo do primeiro semestre de 
1919, os motoristas e condutores entraram em um momento de desorganização formal do 
seu sindicato, como se pode constatar pelos sucessivos apelos lançados pela imprensa 
operária para que se reorganizasse a agremiação sindical. No final de junho de 1919, 
Honório Santos apelou a exemplos de outras categorias para tentar estimulá-los: “munir-
vos do escudo forte da vontade térrea de liberdade e fundai e reorganizai o vosso 
sindicato, como acabam de fazer os manipuladores de pão”.226 O chamamento parece não 
ter surtido efeito, já que alguns meses depois novas convocatórias foram lançadas pelas 
páginas do A Voz do Trabalhador para que eles reagrupassem sua associação, lembrando 
os movimentos anteriores como forma de estimular a reorganização.227 Ao que parece, a 
categoria ficaria um longo período sem entabular movimentos grevistas, pelo menos até 
o 1º de maio de 1928, quando paralisaram por algumas horas.228 De qualquer forma, isso 
não significa que não tenha havido, nesse longo intervalo, a ocorrência de outras formas 
de lutas e resistências cotidianas, porém mais discretas. 
Outra categoria profissional do ramo dos transportes bastante atuante nesta 
conjuntura – e cuja atuação foi mais estável e contínua do que os anteriores – foi a dos 
motoristas de automóveis particulares, mais conhecidos na época como choferes ou, na 
 
225 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.926, 18 maio 1919, p. 1. 
226 “Aos motorneiros e condutores”. O Semeador, Belém, nº 6, 28 jun. 1919, p. 2. 
227 “Pela Pará Eletric”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 17, 21 ago. 1920, p. 3. 
228 ESTADO DO PARÁ. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Pará em sessão 
solene de abertura da 1ª reunião de sua 14ª legislatura a 7 de setembro de 1930, pelo Governador Eurico 
de Freitas Valle. Belém: Officinas Graphicas do Instituto Lauro Sodré, 1930, p. 71. 
 
87 
 
grafia inglesa corrente, chauffeurs. Pela coluna “Avisos Sociais”, do Jornal do Povo, 
pode-se constatar que a União dos Chauffeurs, fundada em 13 de maio de 1913, pertencia 
às bases da UGT, reunindo-se todas as terças-feiras em sua sede, na rua Bailique, nº 49. 
Com o fechamento da UGT em novembro de 1918, os choferes organizados na União 
aderiram à FCT, em janeiro do ano seguinte. A União dos Chauffeurs esteve 
constantemente presente nas já mencionadas colunas “Vida Syndical” e “Movimento 
Sindical”, indicando uma relativa estabilidade desta organização ao longo destes anos. 
As condições e relações de trabalho dos motoristas de automóveis variavam. Eles 
poderiam trabalhar em firmas prestadoras do serviço de transporte em automóveis, as 
chamadas garagens ou garages, que funcionaram na década de 1910, como a Central, a 
Comercial, a Cole, a Napier, a Coelho e a Apollo, que, juntas, deviam empregar algumas 
dezenas de motoristas. A Commercial demitiu todos seus funcionários, em número de 
nove, na ocasião de uma das greves gerais de 1918; já a Apollo, em anúncio que fez 
publicar na imprensa no mesmo ano, autonomeando-se “a maior do Norte do Brasil, a 
que maior número de carros possui para poder servir ao público”, declarava possuir vinte 
e oito automóveis de diversos modelos229, o que é um indicativo da quantidade de 
motorista que empregava. 
 Os choferes podiam ainda trabalhar como motoristas particulares para os 
indivíduos e famílias mais abastadas de Belém, ou mesmo para profissionais liberais 
como médicos e advogados, como se pode depreender do art. 12, cap. III dos estatutos da 
União dos Chauffeurs, que determinava que os choferes que quisessem ser admitidos 
teriam de declarar, entre outras informações, “qual casa ou garage onde está 
trabalhando”; o artigo 28 do mesmo estatuto indicava que nas casas onde trabalhavam 
mais de dois choferes, estes deveriam escolher entre si um delegado para representá-los 
na União.230 
Em dezembro de 1917, os choferes da garagem Napier iniciaram uma greve 
reivindicando o pagamento de 20% das receitas dos respectivos automóveis aos 
motoristas que não tivessem ordenado – este era o percentual pago pelas outras garagens; 
a Napier pagava somente 15%.231 Percebe-se que eram praticadas duas formas de 
pagamento aos motoristas: por comissão e por pagamento fixo. Com a recusa do 
proprietário da Napier em dialogar, o conflito continuou e gerou apoio corporativo de 
 
229 “Ao público: a garage Apollo”. Estado do Pará, Belém, nº 2.686, 19 set. 1918, p. 3. 
230 ESTATUTOS da União dos Chauffeurs. Diário Official, Belém, nº 6.326, 1 jun. 1913, p. 431-432. 
231 “Chauffeurs em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.418, 22 dez. 1917, p. 4. 
 
88 
 
ambos os lados: em uma reunião da categoria, “foi resolvido que quota entre os chauffeurs 
que estavam trabalhando, para ajudar o sustento da família dos colegas em greve”232; já 
entre o patronato, o proprietário da garagem Coelho acompanhou o da Napier na ameaça 
de fechar as portas caso os paredistas continuassem o movimento.233 Ao que tudo indica, 
os motoristas não lograram o aumento desejado e alguns deles foram demitidos devido 
ao protesto. 
Apesar da solidariedade, houve também a presença de fura-greves: três 
funcionários da garagem não quiseram aderir ao movimento, pois além dos 15% sobre as 
rendas também recebiam ordenados fixos de 100$000 por mês, sendo desligados da 
União dos Chauffeurs devido a esta conduta; posteriormente, um deles, Thomé 
d’Assumpção, voltou atrás e aderiu aos companheiros, sendo por isso demitido da 
garagem.234 Ocorreram confrontos físicos entre os fura-greves e os paredistas.235 O 
episódio acabou gerando uma rixa que se estendeu pelo início do ano seguinte, quando 
alguns dos motoristas demitidos da Napier devido à greve – Thomé de Assumpção e 
outro, alcunhado de Mucura – trocaram tiros com um dos fura-greves, Nestor Soares da 
Silva, em plena avenida Nazaré.236 Thomé foi detido na chefatura da polícia. 
Em princípios de março de 1919, os chauffeurs das diversas garagens entraram 
novamente em greve. O estopim da parede foi a ordem do prefeito auxiliar (não 
especificado) para que eles “descrevessem com seus veículos uma curvaem frente ao 
prédio da Assembleia Paraense antes de deixar na sede daquela associação as pessoas 
destinadas ao baile que ali se efetuava”. Segundo o relato do jornal que noticiou o 
movimento, a autoridade prendeu os motoristas que erraram a manobra ou que não a 
cumpriram por desconhecer o trajeto, sendo detidos o chofer Antônio dos Santos e o 
motorista do dr. Penna de Carvalho. A arbitrariedade gerou protesto dos membros da 
União, que recolheram seus veículos às respectivas garagens como reação.237 
À reivindicação inicial, se somaram reclamações sobre outras arbitrariedades 
policiais na fiscalização do uso da buzina: se deixavam de tocá-las em ruas 
movimentadas, pagavam a pena municipal de $10; se tocavam, incorriam em multa por 
perturbação da ordem pública, de forma que “já quase ignoram a utilidade da buzina e os 
 
232 “A greve dos chauffeurs”. Estado do Pará, Belém, nº 2.419, 23 dez. 1917, p. 1. 
233 “A greve dos chauffeurs”. Estado do Pará, Belém, nº 2.421, 25 e 26 dez. 1917, p. 6. 
234 “Aos chauffeurs”. Onze de Janeiro, Belém, nº único, 11 jan. 1918, p. 4. 
235 “Greve dos chauffeurs”. Estado do Pará, Belém, nº 2.422, 27 dez. 1917, p. 1. 
236 “Ocorrências policiais”. Estado do Pará, Belém, nº 2.455, 29 jan. 1918, p. 4. 
237 “Greve dos ‘chauffeurs’”. Estado do Pará, Belém, nº 2.852, 4 mar. 1919, p. 2. 
 
89 
 
casos em que devem usá-las”. O movimento teve fim na madrugada do dia seguinte, com 
a soltura dos motoristas presos e, provavelmente. com algum acordo entre os 
trabalhadores e as autoridades sobre as arbitrariedades cometidas.238 
A identidade de interesses enquanto trabalhadores se espraiava para além dos 
limites da categoria profissional e os choferes – como os sapateiros – foram bastante 
propensos a aderirem às greves gerais ou de solidariedade à outras categorias. Em meados 
de junho de 1917, a União dos Chauffeurs hipotecou solidariedade aos estivadores dos 
portos de Belém quando estes se levantaram em parede por aumento de salários.239 
Também aderiram às greves gerais de 1918: na greve dos mecânicos e metalúrgicos das 
oficinas da Port of Pará, de Val-de-Cans, em setembro, a União dos Chauffeurs 
contribuiu com a quantia de 150$000 para a manutenção dos grevistas.240 No mesmo ano, 
na ocasião da greve geral de outubro, um dos diários de maior circulação da cidade 
comentou que “também os ‘chauffeurs’ dos automóveis da praça declararam-se solidários 
com os grevistas, abandonando os autos nas respectivas garages.”241 Na ocasião da greve 
geral do mês seguinte, o mesmo periódico, fazendo um balanço das adesões, relatou que 
“Todas as garages existentes na capital tiveram os autos recolhidos, visto como os 
‘chauffeurs’ se recusaram a trabalhar; alguns ‘chauffeurs’ de automóveis particulares 
também adheriram á greve.”242 Por conta da participação neste movimento, todos os 
choferes da garagem Comercial, em número de nove, foram demitidos por seu 
proprietário, Antônio Moreira da Costa.243 
Na grande greve geral de maio de 1919 os motoristas também demonstraram sua 
solidariedade às demais classes em luta, declarando-se em greve no dia 13 e, apesar da 
presença de fura-greves na categoria e dos conflitos entre estes e os grevistas, se 
mantiveram em parede até pelo menos o dia 21, quando a greve já dava sinais de 
enfraquecimento.244 
A fama de radicalidade que os choferes acabaram pegando foi expressa pelo 
Estado do Pará, que noticiando as comemorações do 1º de maio de 1920, expôs que: 
 
No parque João Coelho, em frente a estátua da República, houve um meeting 
promovido pela classe dos chauffeurs. 
Falaram dois operários nacionais e três estrangeiros. 
 
238 “Ecos da greve dos chauffeurs”. Estado do Pará, Belém, nº 2.853, 5 mar. 1919, p. 2. 
239 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 279. 
240 “A greve de Val-de-Cães”. Jornal do Povo, Belém, nº 20, 14 set. 1918, p. 1. 
241 “A greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.712, 15 out. 1918, p. 1. 
242 “Greve geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2.755, 27 nov. 1918, p. 1. 
243 “Greve geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2.758, 30 nov. 1918, p. 1-2. 
244 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.922 e nº 2.930, 14 e 22 maio 1919, p. 1. 
 
90 
 
Estes últimos, excepção do chauffeur Cesar, usaram a mesma linguagem 
violenta que costumam empregar quando se referem aos nossos governos, ao 
regimem e ao povo brasileiro, que taxam de ignorante.245 
 
Em termos numéricos, os choferes provavelmente eram em quantidade menor que 
os motoristas e condutores de bondes, embora de seu seio tenham saído lideranças 
operárias que se projetavam para além das atividades da categoria. Dentre os cinco 
militantes e líderes operários estrangeiros expulsos de Belém em março de 1915, pelo 
menos dois deles, Júlio Durval (as vezes grafado como Duval ou Dorval) e Eduardo 
Guerra, ambos portugueses, trabalhavam como choferes.246 Os dois eram destacados 
líderes em protestos e oradores em manifestações públicas: Eduardo Guerra manteve uma 
intensa troca de correspondências com o jornal anticlerical e libertário paulistano A 
Lanterna, nos anos imediatamente anteriores à sua expulsão. Outras lideranças operárias, 
nacionais, saídas das fileiras dos choferes foram Antônio Cesar de Azevedo e Benito 
Rodrigues, este último também conhecido pelo pseudônimo Picota. Ambos pertenceram 
ao grupo sindicalista revolucionário Os Semeadores.247 
Benito Rodrigues ocupou o cargo de secretário-geral da FCT em 1919.248 Na 
greve geral de maio deste ano, Rodrigues teve um papel destacado, sendo inclusive preso 
por conta desta atuação. Um diário belenense, acompanhando a greve geral, noticiou que 
ele foi detido no quartel do 1º corpo, suspeito de colocar bombas de dinamite nos trilhos 
de bondes da Pará Eletric.249 
Cesar de Azevedo foi o representante da União dos Choferes no comitê que se 
reuniu com Lauro Sodré na ocasião do comício contra a carestia de vida organizado por 
diversas organizações classistas em julho de 1917.250 Também fez parte de uma comissão 
que foi à redação do Estado do Pará levar alguns exemplares do boletim que concitava o 
público de Belém a boicotar os automóveis da garagem Napier, após a derrota da greve 
do final do ano anterior.251 Em diversos momentos, foi chamado à chefatura de polícia 
para dar explicações sobre as atividades coletivas dos choferes, já que ele foi o secretário 
geral da organização da categoria ao longo destes anos. Também foi um assíduo 
colaborador da imprensa operária belenense, assinando artigos no Jornal do Povo, em O 
Semeador e no A Voz do Trabalhador. 
 
245 “O 1º de maio”. Estado do Pará, Belém, nº 3.275, 2 maio 1920, p. 3. 
246 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 277. 
247 “Grupo os Semeadores”. O Semeador, Belém, nº 6, 28 jun. 1919, p. 4. 
248 ESTATUTOS da Federação das Classes Trabalhadoras. O Semeador, Belém, nº 10, 26 jul. 1919, p. 2. 
249 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.924, 16 maio 1919, p. 1. 
250 “Carestia da vida”. Estado do Pará, Belém, nº 2.245, 2 jul. 1917, p. 1. 
251 “Várias notícias”. Estado do Pará, Belém, nº 2.452, 26 jan. 1918, p. 4. 
 
91 
 
A atuação de Cesar de Azevedo, bem como a dos próprios choferes como 
categoria, transcendeu o momento de grande agitação trabalhista do final da década de 
1910 e atravessou a seguinte. Ele esteve entre os organizadores do Centro Internacional 
dos Motoristas do Pará, fundado no segundo semestre de 1927, onde assumiu o cargo de 
secretário geral de sua diretoria.252 No 1º de maio do ano seguinte, fez um discurso em 
memória do estivador Paulo Victor, assassinado em 1914 na ocasião de uma das greves 
da categoria portuária.253 A organização dos choferes foi responsável pela publicação, em 
1928, do periódico O Motorista, citado por Hardman e Leonardi como de “tendência 
anarco-sindicalista”.254 Em 1931, o Centro Internacional ainda estava atuando, sendo um 
dos principais – senão um dos últimos – baluartesda FCT: um dos eventos da 
programação organizada pela Federação no 1º de maio daquele ano foi a sessão solene 
de posse da associação dos choferes.255 
Choferes, motoristas e condutores de bondes formavam, junto aos trabalhadores 
qualificados, os esteios centrais da UGT e posteriormente da FCT. Estas organizações 
adotavam posições sindicalistas revolucionárias ou mesmo anarquistas, como fica 
expresso pelos jornais que eram seus porta-vozes (Jornal do Povo, O Semeador e A Voz 
do Trabalhador), priorizando a ação direta como estratégia de atuação. Os trabalhadores 
de um outro ramo do mundo do trabalho paraense, também do setor de transportes, 
apresentavam nesse período um alto grau de organização, embora em perspectivas mais 
moderadas e reformistas, ou mesmo francamente conservadoras e nacionalistas: trata-se 
dos trabalhadores da marinha mercante, mais comumente referenciados, à época, como 
marítimos.256 
Como não poderia deixar ser, em uma cidade portuária, os trabalhadores 
marítimos formavam uma das categorias mais numerosas de assalariados em Belém de 
fins da década de 1910. Segundo o recenseamento de 1920, no que se refere a 
classificação profissional da população da cidade, 6.014 belemenses foram apontados 
 
252 ESTATUTOS do Centro Internacional dos Motoristas do Pará. Disponível em: 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixaestatutos3A/caixa%203A.htm Consultado em 26/02/2022. 
253 HARDMAN, F. F.; LEONARDI, V. História da indústria e do trabalho no Brasil, op. cit., p. 313. 
254 Idem, Ibidem. 
255 “Federação das Classes Trabalhadoras do Pará”. Guajarina, Belém, nº 50, 1º maio 1931. 
256 Lida parcialmente no momento da escritura final desta dissertação, a tese de Caio Paião – Os lugares da 
marinhagem..., citada anteriormente (e ainda não formalmente disponibilizada) – emerge, desde logo como 
uma referência importante aos estudos sobre os marítimos na Amazônia, embora seu recorte indique a 
cidade de Manaus como lócus prioritário da ação daquele segmento. 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixaestatutos3A/caixa%203A.htm
 
92 
 
como tendo profissões classificadas na área dos transportes “marítimas e fluviais”.257 Os 
marítimos tinham dimensão de seu peso numérico, como fica expresso em um artigo 
assinado por um comandante de embarcações e publicado em um grande diário de Belém, 
sobre a fundação da Federação Marítima, em 1917: 
 
(...) São 5.000 homens que exercem a sua profissão a bordo para manter suas 
famílias em terra. Demos uma média de três pessoas para a família de cada 
profissional marítimo e veremos que a família marítima do Pará atinge a 
20.000 almas, ou seja, um quinto da população de Belém.258 
 
Embora imprecisos, os números expressam a autoconsciência desses 
trabalhadores do peso numérico destas categorias. Estes operários se distribuíam em 
diversas embarcações que circulavam rios acima ou oceano a fora; um memorialista 
contemporâneo elencou cinco firmas que colocavam Belém em comunicação com o 
interior do Estado do Pará, com os outros estados brasileiros e com portos localizados em 
outros países em funcionamento no ano de 1916: a Lloyd Brazileiro, a Booth Line, a 
Hamburg Amerika Line – com as atividades paralisadas devido à Grande Guerra –, a 
Companhia de Comércio e Navegação e a The Amazon River Steam Navigaton Company 
Limited.259 Em cada uma das linhas dessas firmas haviam dezenas de trabalhadores 
marítimos das variadas categorias. Além das firmas de navegação, também haviam 
vapores particulares que empregavam embarcadiços. De fato, com a inexistência do 
transporte aéreo e a precariedade do transporte terrestre de longo alcance, as vias 
marítimas e fluviais se configuravam enquanto principais vias de transporte, tanto de 
pessoas quanto de mercadorias da e para a cidade de Belém. 
No entanto, além do peso numérico, os marítimos também ocupavam um lugar 
central na dinâmica da vida econômica da capital amazônica, possuindo um 
poderosíssimo poder de barganha estrutural no local de trabalho. Como operadores dos 
navios a vapor, os marítimos detinham a capacidade de, literalmente, parar toda a cidade, 
caso cruzassem seus braços, repetindo no Pará a tendência identificada por Beverly 
Silver: 
 
Trabalhadores do transporte tiveram, e continuam a ter, um poder de barganha 
no local de trabalho relativamente grande. Isso fica especialmente claro quando 
consideramos como local de trabalho toda a rede de distribuição em que estão 
inseridos. Por isso, a fonte deste poder de barganha se deve menos ao impacto 
 
257 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 134-137. 
258 LOUREIRO, João Baptista. “Federação Marítima do Pará”. Estado do Pará, Belém, nº 2.387, 21 nov. 
1917, p. 2. 
259 BRAGA, Theodoro. Guia do estado do Pará. Belém: Typ. Lauro Sodré, 1916, p. 67-74. 
 
93 
 
direto de ações sobre os empregadores imediatos (...) do que o impacto sobre 
o fluxo, de uma ponta a outra, de bens, serviços e pessoas, que não chegariam 
ao seu destino se houvesse uma paralisação.260 
 
Bem como outras categorias profissionais, os marítimos paraenses já passavam 
por um processo de organização de associações classistas ou beneficentes desde pelo 
menos o final do século XIX e inícios do século XX, como fica expresso nas fundações 
do Grêmio Sindical dos Maquinistas do Pará, em 1888; do Club Naval do Grão-Pará, em 
1891; da União Beneficente dos Práticos da Amazônia, em agosto de 1905; e da União 
dos Foguistas do Pará, fundada em 1906, para citar apenas algumas associações ligadas 
à categorias do ramo. 261 
Também foram produtores e alvos de diversos jornais publicados neste meio 
tempo: talvez o mais antigo periódico ligado aos trabalhadores deste ramo tenha sido O 
Timão, semanário, “órgão da Classe Marítima”, que veio a lume entre 1897 e 1899; anos 
depois surgiu a Gazeta Marítima, “jornal de publicação semanal, órgão da Classe 
Marítima, propriedade da Liga Marítima”, cujo primeiro número foi publicado em 26 de 
janeiro de 1901; outra Gazeta Marítima, esta quinzenal e órgão do Clube Naval do Grão 
Pará, foi publicada entre o final de 1906 e 1907; em 1908 foi a vez de O Marítimo, 
semanal qualificado como “órgão da Classe Marítima da Amazônia” circular pelas ruas 
de Belém – e talvez pelos rios do Pará – no dia 3 de maio.262 A frequência da publicação 
de jornais ligados aos trabalhadores do ramo pode ser explicada tanto pelo peso numérico 
deles quanto pelo fato de que a alfabetização era um requisito para algumas categorias – 
como práticos, pilotos e comandantes – o que fazia constituía um potencial público leitor 
que foi aproveitado. 
No que tange na conjuntura em tela, os marítimos acompanharam este momento 
de grande agitação ao unirem suas diversas organizações corporativas específicas na 
Federação Marítima do Pará, instalada oficialmente em outubro de 1917, com a adesão 
 
260 SILVER, B. J. Forças do trabalho, op. cit., p. 104. 
261 Cópias digitalizadas dos estatutos dessas organizações estão disponíveis no site do Centro de Memória 
da Amazônia: https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixaestatutos1A/estatutosCx1-A.htm consultado em 
18/02/2022. 
262 ESTADO DO PARÁ. Biblioteca Pública do Pará. Jornais Paraoaras: catálogo. Belém: Secretaria de 
Estado de Cultura, Desportos e Turismo, 1985, p. 164; 186; 223; 234; 257. Não foram preservados 
exemplares da maioria desses jornais, podendo ser conhecidos apenas por catálogos e compêndios ou por 
notas e anúncios em outros jornais. O Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) informa, no 
catálogo do seu site, que possui os vinte dois primeiros exemplares do Gazeta Marítima, publicados entre 
outubro de 1907 e dezembro de 1908. Já o catálogo de jornais e revistas da Biblioteca Nacional de Portugal 
menciona os números 2 e 9 do O Timão, indicando que alguns exemplares deste periódico podem ter sido 
preservadosna instituição lusitana. Cf: SANTOS, Manuela; RAFAEL, Gina Guedes (org.). Jornais e 
revistas portuguesas do século XIX. Vol. II. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2002, p. 299. 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixaestatutos1A/estatutosCx1-A.htm
 
94 
 
do Club Marítimo do Gram-Pará, do Club dos Maquinistas, da Associação Beneficente 
dos Práticos da Amazônia, da Associação Beneficente dos Marinheiros da Amazônia, da 
Sociedade Beneficente União dos Foguistas e da Sociedade dos Empregados de 
Câmara.263 Em seus estatutos, a Federação estabelecia entre os seus fins, além do socorro 
pecuniário aos sócios em caso de moléstias ou desemprego, a fundação do Hospital da 
Marinha Mercante do Pará; a criação de aulas noturnas de instrução primária, profissional 
e militar; a publicação de um boletim que fosse porta-voz dos trabalhadores do ramo; a 
organização de um serviço de estatística do pessoal marítimo federado e a criação de uma 
cooperativa médico-farmacêutica para atender os seus associados.264 
Os marítimos também se lançaram à imprensa, mas, diferente de outros segmentos 
do movimento operário no Pará desse momento – que empreenderam a publicação de 
jornais independentes –, eles optaram pela publicação de um Boletim – o Boletim da 
Federação Marítima –, no interior do Estado do Pará, um jornal comercial e diário de 
grande tiragem e circulação de Belém, ocupando em geral a quarta ou quinta página 
daquele periódico. Por meio desse boletim, foi possível acompanhar a rotina regular de 
assembleias das diversas organizações dos marítimos, além das da própria Federação. O 
primeiro número do Boletim foi publicado em 11 de outubro de 1918, na edição número 
2.708 do Estado do Pará, e perdurou por mais de 600 números, pelo menos até a edição 
3.258, de15 de abril de 1920, com isso se configurando como o periódico operário mais 
longevo deste contexto. A opção pela publicação em um jornal da grande imprensa e a 
concessão do espaço pelo periódico reforçam a ideia de que os marítimos adotavam 
posições mais moderadas e reformistas. 
Além do Boletim, eles também levaram a cabo a publicação do Marítimo, 
mencionado em uma carta direcionada para e publicada pela redação do A Voz do 
Trabalhador.265 Talvez fosse o mesmo Correio Marítimo, cuja publicação de exemplares 
fora anunciada mais de uma vez pelo Estado do Pará, informando que o periódico era 
“defensor da classe marítima e de propriedade da Associação B. dos Marinheiros da 
Amazônia”.266 Em outra ocasião, o diário belemense comentou o conteúdo do Correio: 
 
Depois de amanhã circulará mais um número do “Correio Marítimo”, que além 
de farta colaboração traz a transcrição dos estatutos da Liga Nacionalista do 
Pará; a chapa provável da nova diretoria da Federação Marítima; o caso do 
 
263 “Federação Marítima do Pará”. Estado do Pará, Belém, nº 2.340, 5 out. 1917, p. 3. 
264 “Federação Marítima do Pará”. Estado do Pará, Belém, nº 2.315, 10 set. 1917, p. 2. 
265 “Ao público”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 18, 28 ago. 1920, p. 2-3. Na carta, o remetente critica a 
redação do Marítimo por ter publicado um anúncio da Liga Nacionalista do Pará em suas páginas. 
266 “Boletim Federação Marítima do Pará”. Estado do Pará, Belém. nº 3.270, 27 abr. 1920, p. 5. 
 
95 
 
vapor Muruzinho; o manifesto da carga do vapor Alves de Carvalho com uma 
crítica dum caixeiro viajante e os retratos dos vogaes do Conselho Deliberativo 
da Federação Marítima e que nesse dia se instalará os seus trabalhos com toda 
a solenidade do estilo.267 
 
A ausência de números preservados nos arquivos ou de outras referências a eles 
nas folhas diárias ou operárias indica que provavelmente tenham tido vidas efêmeras, 
tendo publicado poucos números. 
A moderação dos marítimos também pode ser atestada pelo reduzido número de 
greves empreendido por eles, mesmo considerando seu poder de barganha, bem como a 
não adesão às greves gerais de outubro e novembro de 1918 e de maio de 1919. No próprio 
estatuto da Federação, são colocados muitos obstáculos e condições para declaração ou 
adesão às greves. Bastante significativo da rejeição da diretoria da Federação ao recurso 
da greve foi a negação de apoio ao Centro Marítimo União Culinária, do Rio de Janeiro, 
quando este iniciou uma parede no segundo semestre de 1920. A recusa argumentava que 
haviam “contínuas greves desnecessárias”, o que gerou elogios do diário que noticiou o 
episódio, referindo-se à Federação e ao “pensamento conservador que a domina”.268 
No entanto, um movimento paredista empreendido por estes trabalhadores foi 
particularmente importante: a greve de novembro e dezembro de 1917, cuja reivindicação 
central foi o estabelecimento de uma tabela com o aumento dos soldos para as tripulações 
das embarcações que navegavam pelos rios da Amazônia, da qual saíram vitoriosos 
arrancando o acordo dos patrões. A Federação Marítima apresentou a tabela aos 
armadores no dia 22 de novembro, poucas semanas após sua instalação formal, sendo 
quase imediatamente aceita pela maioria das firmas de transporte marítimo e proprietários 
de vapores particulares, exceto pela Amazon River, fazendo com que os trabalhadores 
daquela companhia cruzassem os braços. 
O conflito foi mediado pela Associação do Comércio do Pará, representada pelo 
seu presidente, o comerciante Francisco Batista de Oliveira, e quase diariamente 
acompanhado pelo Estado do Pará na coluna “A Federação marítima e os Armadores”, 
se estendendo por todo o mês seguinte. Após diversas propostas e contrapropostas da 
Federação e da Amazon River, e com a atuação de Lauro Sodré na arbitragem do conflito, 
a empresa de vapores aceitou a tabela proposta pela Federação, que aumentava os 
ordenados mensais de algumas categorias e diminuía os de outras.269 
 
267 “Várias notícias”. Estado do Pará, Belém, nº 3.378, 13 ago. 1920, p. 4. 
268 Estado do Pará, Belém, nº 3.399, 3 set. 1920, p. 1. 
269 O salário dos comandantes foi de 1:062$500 para 900$000; dos imediatos de 354$200 para 350$00; dos 
mestres permaneceram em 200$000; dos escrivães de 300$000 para 260$000; dos práticos e primeiros 
 
96 
 
Após esta grande greve, eles ainda empreenderam alguns outros movimentos 
paredistas, pequenos e localizados, como a dos foguistas em fevereiro 1918, que 
paralisaram seus serviços por conta da recusa do maquinista do vapor Sapucaia em aceitar 
os trabalhadores enviados pela União dos Foguistas para guarnecer aquela embarcação270 
ou a dos foguistas, carvoeiros, moços e marinheiros do vapor Zé Florêncio, em abril de 
1920271, todas debeladas em poucos dias. Em nenhum momento as diretorias da 
Federação Marítima ou das associações federadas aderiram às greves gerais ou de 
solidariedade à outras categorias lideradas pela UGT e pela FCT. Embora suas diretorias 
em geral adotassem tons moderados, poderia haver, em suas bases, trabalhadores que 
adotavam posições mais radicais e próximas ao sindicalismo revolucionário ou ao 
anarquismo, ou que nutrissem simpatia pela UGT e pela FCT. 
A Federação Marítima foi uma das mais sólidas, estáveis e longevas organizações 
classistas naquele momento e atravessou a década seguinte em atividade. No início de 
1920, ela ainda inaugurou a Casa de Saúde Marítima, hospital para atender os 
trabalhadores do ramo e especialmente os associados às organizações filiadas. Logo em 
seus primeiros meses de funcionamento, ela tratou 161 enfermos e aviou mais de duas 
mil receitas em sua farmácia, segundo os números oficiais272, funcionando regularmente 
ao longo de toda a década de 1920, por vezes recebendo verbas do governo estadual. 
 
EMPREGADOS NO COMÉRCIO 
Como uma cidade eminentemente portuária e comercial, era de supor que Belém 
tivesse uma parcela significativa de seus trabalhadores empregados no comércio, fosse a 
varejo ou a retalho, e de fato, segundo o recenseamento geral de 1920, cerca de 10.583 
habitantes da cidade foram classificados como tendo profissõesenquadradas no 
“comércio propriamente dito” – além de 386 empregados em “bancos, câmbio, seguro, 
 
maquinistas de 425$000 para 440$000; dos segundos maquinistas de 318$000 para 338$000; dos terceiros 
maquinistas de 290$000 para 300$000; dos marinheiros de 80$000 para 100$000; dos moços de 65$000 
para 75$000; dos despenseiros de 300$000 para 260$000; dos foguistas de 120$000 para 130$000; dos 
carvoeiros de 70$000 para 80$000; dos primeiros e segundos cozinheiros de 200$000 e 100$000 para 
180$00 e 90$000, respectivamente; dos copeiros e padeiros permaneceram com 70$000; e dos criados 
permaneceu em 45$000. “A Federação Marítima e os armadores”. Estado do Pará, Belém, nº 2.417, 21 
dez. 1917, p. 2. 
270 “Início de greve”. Estado do Pará´, Belém, nº 2.483, 26 fev. 1918, p. 1; “Várias notícias”. Estado do 
Pará, Belém, nº 2.484, 27 fev. 1918, p. 4. 
271 “A greve a bordo do Zéflorencio”. Estado do Pará, Belém, nº 3.269, 26 abr. 1920, p. 1. 
272 ESTADO DO PARÁ. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Pará em sessão 
solene de abertura da 3ª reunião de sua 10ª legislatura a 7 de setembro de 1920, pelo Governador Lauro 
Sodré. Pará [Belém]: Typ. da Imprensa Official do Estado, 1920, p. 54. 
 
97 
 
comissões, etc.” e 657 em “outras espécies de comércio” – o que qualifica os 
comerciários, também denominados a época como caixeiros, como uma das categorias 
mais numerosas da cidade. 
No caso dos caixeiros, haviam várias situações que dificultavam a forja de uma 
identidade de classe e a interposição de outras identidades, pois como menciona Fabiane 
Popinigis, os empregados do comércio construíram “sua luta política em torno de uma 
identidade de classe, mas subdivididos em categorias específicas, porque muito diferente 
na função, na hierarquia, nas escolhas de lazer e na sociabilidade”.273 Conforme Edilza 
Fontes, os proprietários dos pequenos e médios estabelecimentos comerciais belemenses 
tinham preferência por menores de idade e, caso fossem portugueses, por patrícios no 
momento da “contratação” de seus empregados.274 Esses fatores facilitavam o 
estabelecimento de relações paternalistas entre patrões e trabalhadores, além de 
estimularem outras formas de identidade (de parentesco, de rede de clientela ou de 
nacionalidade) o que era um entrave, não absoluto, mas certamente poderoso, para a 
expressão das tensões sociais e sua vazão por meio de greves e sindicatos. A perspectiva 
alimentada por muitos caixeiros de ascensão social a se tornarem eles próprios 
proprietários de comércios era outro fator nesse sentido. 
Mesmo no momento de maior agitação operária nos anos finais da década de 1910, 
não foram encontradas evidências de nenhum movimento grevista empreendido pelos 
trabalhadores comerciais, nem seu apoio/solidariedade aos movimentos paredistas de 
outras categorias. Apesar de dificilmente empreenderem greves, os caixeiros se 
expressaram por meio de outras instituições classistas, à exemplo das associações 
beneficentes e sindicatos, bem como se utilizaram de outras formas de ação no embate ou 
nas negociações com seus contratantes. 
Com efeito, desde o final do século XIX os comerciários criaram instituições 
vinculadas à categoria e expressavam sua identidade enquanto classe, principalmente por 
meio da imprensa operária, já que no espaço de pouco mais de uma década eles fizeram 
publicar pelo menos três periódicos: O Caixeiro (1888), A Voz do Caixeiro (1890-1892) 
e O Empregado no Comércio (1899). Em 1905 foi fundada a Associação dos Empregados 
no Comércio do Pará (AECP)275, de caráter mutualista e que teve uma existência bem 
 
273 POPINIGIS, Fabiane. Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca (1850-1911). 
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007, p. 23. 
274 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 124-127. 
275 ESTATUTOS da Associação dos Empregados no Commércio do Pará. Centro de Memória da Amazônia, 
caixa 3-A, estante L2, disponível em: https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html. consultado em 15 fev. 2022. 
https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html
 
98 
 
longeva e estável, não apenas prestando auxílios pecuniários aos seus sócios, como 
também organizando eventos culturais como peças teatrais e festivais para a arrecadação 
de fundos. 
Na conjuntura em tela, a AECP continuou em funcionamento e surgiram outras 
duas associações que pretendiam congregar os trabalhadores da categoria: a Sociedade 
Phenix Caixeiral, de tendência mais moderada e reformista, fundada em 1917, e a União 
do Empregados do Comércio do Pará (UECP), próxima ao sindicalismo revolucionário 
e aderente à FCT, fundada em 7 de abril de 1919 e que travou disputas pela grande 
imprensa diária em prol do cumprimento da lei de descanso dominical, reivindicando sua 
ampliação aos empregados das farmácias e dos botequins.276 
A existência de múltiplas organizações da categoria foi motivada não apenas pelo 
seu peso numérico, como também pela existência de projetos políticos e sociais 
diferenciados no seio dos seus integrantes. Por vezes, essas tensões transpareciam por 
meio da imprensa operária, como em meados de 1919, quando membros da UECP foram 
a público criticar Phenix Caixeiral por ter excluído os empregados em tabernas e 
botequins de um memorial que encaminharam à Associação Comercial em que 
solicitavam a redução e regulamentação das horas de trabalho, além de afirmarem que 
esta organização não representava legitimamente os empregados no comércio já que suas 
fileiras contavam com patrões e gerentes comerciais.277 
Um ponto que parece ter sido comum entre todas elas foi a valorização da 
educação formal (grosso modo, a alfabetização) e a criação de instituições educacionais 
para os associados e seus filhos. A Sociedade Phenix Caixeiral Paraense, por exemplo, 
previa no artigo terceiro de seus estatutos a manutenção de um curso comercial, 
detalhando as disciplinas que seriam ministradas: português, francês, inglês, aritmética, 
escrituração mercantil e contabilidade comercial, além de uma aula de música, prevista 
em seu artigo quarto.278 O fato de que saber ler e escrever era um pré-requisito para o 
exercício deste ofício pode ser um fator que explique o interesse dos caixeiros pela 
escolaridade. 
Os estatutos da Associação dos Empregados no Comércio do Pará estabeleciam 
que um dos seus objetivos era “instituir para os filhos dos mesmos [isto é, dos seus 
 
276 “Da União dos Empregados no Comércio do Pará”. Boletim da Commissão Executiva do 3º Congresso 
Operário, Rio de Janeiro, nº 1, agosto de 1920, p. 12-13 
277 “Protesto à Phenix Caixeiral”. O Semeador, Belém, nº 5, 14 jun. 1919, p. 3. 
278 ESTATUTOS da Sociedade Phenix Caixieral. Belém: Typographia Gutemberg, 1917, p. 3. 
 
99 
 
associados], menores de doze anos, aulas de ensino elementar e um curso comercial”.279 
A iniciativa parece ter prosperado, já que em 1911 o Almanak Laemmert informou que 
ela mantinha “um curso completo de comércio, regido por profissionais competentes”.280 
Esta foi, muito provavelmente, a instituição educacional criada por uma organização de 
trabalhadores mais estável e longeva de Belém: na década de 1920, o Almanak Laemmert 
publicizou que “a Associação mantém a Faculdade Livre de Estudos Commerciais, 
moldada pelo programma das Escolas officiais desse ensino”.281 Neste caso, além da 
educação formal, também se fez esforço pelo ensino profissional, revelando a intenção 
da organização em estabelecer um controle sobre quem poderia exercer o ofício. 
Já a União dos Empregados no Comércio também manteve uma instituição 
educacional. Pode-se conhecer alguns aspectos dessa escola por meio de uma polêmica 
travado por meio do Estado do Pará, iniciado por uma carta publicada pela redação deste 
diário, assinada pelo pseudônimo Anthúlio, um suposto ex-membro da UECP, onde se 
propunha o combate, por meio da imprensa e da polícia, aos militantes anarquistas que 
atuavam na cidade.O autor se referia à União nos seguintes termos: 
 
(...) outra cousa não é que um centro de anarchistas, com escolas organizadas 
para instruírem os palermas que não tem ainda a noção do que seja a igualdade 
e fraternidade lá deles. Ali a polícia encontraria somente livros e folhetos que 
pregam a anarchia, sendo o seu principal professor um tal de Nazareth que sua 
em bicas para meter na cabeça dos babaquaras as doutrinas de Lenine.282 
 
O caixeiro anarquista Fernando da Costa Baptista Nazareth, citado no texto 
anterior, respondeu aos ataques de Anthúlio nas páginas do mesmo periódico, por meio 
de uma carta aberta. Nela, Nazareth expôs que os compêndios utilizados na escola eram 
a Cartilha Maternal, de João de Deus, o livro de leitura de Olavo Bilac e M. Bonfim e a 
Gramática de Paulino de Britto. Revelou ainda que a escola possuía oito professores, 
sendo “alguns católicos, outros livre-pensadores, patriotas, anti-patriotas, na certeza, 
porém, que todos guardam sua maneira de pensar”, sendo frequentada por “indivíduos de 
diversas nacionalidades, cores, religiões” e, ainda segundo Nazareth, seguia o lema: 
 
Instruir, instruir e sempre instruir, de acordo coma Ciência e a Razão, fora de 
preconceitos religiosos, sociais de que infelizmente o mundo está cheio. 
Ensinamos o Amor que ampara o desgraçado, que protege os famintos, 
 
279 ESTATUTOS da Associação dos Empregados no Commércio do Pará. Centro de Memória da Amazônia, 
caixa 3-A, estante L2, disponível em: https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html. consultado em 15 fev. 2022. 
280 ANNUÁRIO Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial do Districto Federal e 
Indicador 1911-1912. Rio de Janeiro: Typographia do Almanak Laemmert, 1911, p. 3.280. 
281 ANNUÁRIO Administrativo, Agrícola, Profissional, Mercantil e Industrial do Districto Federal. Vol. 
III. Rio de Janeiro: Typographia do Almanak Laemmert, 1926, p. 741. 
282 “O anarchismo em Belém”. Estado do Pará, Belém, nº 3.134, 13 dez. 1919, p. 2. 
https://www.cma.ufpa.br/estatutos.html
 
100 
 
combatemos sistematicamente o analfabetismo, ensinamos, enfim, a Verdade 
à Luz da Ciência e da Razão.283 
 
No relatório enviado pela UECP à Comissão Executiva do Terceiro Congresso, 
seus assinantes – dentre os quais o próprio Fernando Nazaré – informaram que ela foi 
fundada em 7 de abril de 1919 e que “em sua sede deu guarida [...] a uma escola de 
educação racional para os ajudar na sua obra de alevantamento dos trabalhadores”.284 
Tal escola provavelmente foi dissolvida em meados de 1920, junto com a 
organização que a mantinha. Em meados do mesmo ano, seus antigos associados 
articularam a fundação da Aliança dos Empregados no Comércio e Indústria do Pará, de 
tendência sindicalista revolucionária e inspirada em uma homônima carioca, que também 
prometia lutar pelo cumprimento da lei municipal de descanso semanal e pela redução da 
jornada de trabalho, que segundo sua comissão provisória chegava de 14 a 16 horas 
diárias.285 Percebe-se por parte dos sindicalistas revolucionários da agremiação a tentativa 
de congregarem não apenas os trabalhadores de comércios propriamente ditos, mas de 
incluir os trabalhadores de farmácia, de botequins e os balconistas de estabelecimentos 
industriais, conforme o estatuto da organização carioca que serviu de base para a paraense 
e o convite estendido aos segmentos mencionados. 
Dois militantes da categoria se destacaram, sendo encontrados de forma muito 
recorrente, assinando artigos na imprensa operária: o já mencionado Fernando Nazaré (as 
vezes grafado como Nazareth) e o também português Mário Pereira Amador. Menos 
como organizadores sindicais ou como coordenadores de greves, a atuação desses dois 
sujeitos se deu mais nos campos propagandístico e intelectual. 
Fernando Nazaré foi um dos mais profícuos oradores das manifestações operárias, 
proferindo diversas palestras e conferências, como a intitulada “Anatomia social”, no 
Teatro da Paz, na ocasião do 1º de maio de 1919, onde procurou dissecar a estrutura social 
do capitalismo.286 Outra conferência, intitulada “Pela verdade e pela ciência”, no comício 
organizado pelo grupo Os Semeadores em setembro do mesmo ano, onde assumiu um 
viés racionalista.287 Ou ainda a intitulada “Instruir, eis o problema”, proferida na 
inauguração da Escola de Educação Racional Francisco Ferrer, em outubro de 1919, 
 
283 “Contra o anarchismo”. Estado do Pará, Belém, nº 3.135, 14 dez. 1919, p. 2. 
284 “Da União dos Empregados no Comércio do Pará”. Boletim da Commissão Executiva do 3º Congresso 
Operário, Rio de Janeiro. nº 1, agosto de 1920, p. 12-13. 
285 “Aos empregados no comércio e indústria”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 6, 5 jun. 1920, p. 3; “Pelos 
Sindicatos”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 9, 26 jun. 1920, p. 3-4. 
286 Publicada em O Semeador, Belém, nº 4 e 5, 21 maio e 14 jun. 1919. 
287 O Semeador, Belém, nº 19, 20 e 22; 27 set. a 18 out. 1919. 
 
101 
 
fazendo a propaganda da educação como tática do movimento.288 Todas foram transcritas 
integralmente em O Semeador. Já Mário Pereira Amador foi um assíduo colaborador da 
imprensa operária, escrevendo tanto em prosa, com seus artigos e editorias, quanto em 
verso, publicando várias poesias nas folhas operárias. 
* * * 
 
Os Mundos do Trabalho da cidade das mangueiras eram muito variados e seus 
trabalhadores estavam submetidos a condições e relações de labuta igualmente 
heterogêneas, em seus vários espaços de labor: dos canteiros de obras espalhados pela 
cidade às oficinas, manufaturas e fábricas, passando pelos veículos urbanos (automóveis 
individuais ou bondes elétricos coletivos) ou nas embarcações rio acima ou oceano a fora, 
sem falar dos diversos estabelecimentos comerciais ou prestadores de serviços e das 
próprias ruas de Belém. 
Qualificados ou “não qualificados”, eles possuíam salários desiguais, as 
durações das suas jornadas de trabalhos poderiam variar, mesmo que todas extensas 
(certamente era difícil encontra quem trabalhasse menos de 12 horas) e poderiam ser 
remunerados por salários diários, semanais, mensais ou pagos por peças ou por 
empreitada. Mas, apesar de toda essa diversidade, uma parte significativa desses 
trabalhadores se sentiu enquanto pertencente a classe operária e eles agiram seguindo esse 
sentimento, superando seus interesses corporativos e demonstrando solidariedade e 
unidade com outras categorias em diversos momentos ao longo daqueles anos. 
No entanto, a maior parte dessas categorias profissionais tinha outra 
característica em comum: sua composição de gênero, majoritariamente masculina. 
Apelando novamente para os números do censo, eles indicam que a totalidade dos 4.216 
belenenses classificados na “indústria de edificação”, 6.006 dos 6.014 empregados nos 
transportes marítimos, 2.497 dos 2.505 nos transportes terrestres e aéreos, além dos 
10.351 dos 10.583 no “comércio propriamente dito” eram homens.289 Esses Mundos do 
Trabalho eram majoritariamente masculinos, o que não era uma característica exclusiva 
de Belém. 
Onde estava a outra metade da classe operária neste contexto? É precisamente 
esta questão que será discutida no capítulo a seguir.
 
288 O Semeador, Belém, nº 30, 13 dez. 1919, p. 4. 
289 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 134-137. 
 
102 
 
Capítulo 3 
Trabalhadoras em movimento: 
Mulheres no movimento operário belenense 
 
Alguém ouviu falar na parede das lavadeiras? 
E assim se escreve a história...290 
 
A frase que serve de epígrafe a este capítulo foi pronunciada por um articulista 
anônimo do jornal Estado do Pará interessado em desmentir um telegrama enviado do 
Pará e publicado pelos jornais cariocas Correio da Noite e O Paiz que noticiava a 
preparação de uma greve de lavadeiras em Belém nas primeiras semanas do ano de 1913, 
supostamente“por ter a Intendência mandado uma carroça arrecadar as roupas estendidas 
ao sol, nos arrabaldes da cidade”. Não há informações outras sobre o assunto o que torna 
possível que a informação não tenha passado de boato ou de uma simples ameaça de 
greve, como tantas outras que foram feitas pelos trabalhadores da cidade ao longo da 
Primeira República, mas que jamais se concretizaram. 
A epígrafe também é representativa da invisibilidade que pairava, e continua a 
pairar em alguma medida, sobre as mulheres na História, conforme já apontou Michelle 
Perrot. Nas palavras da historiadora francesa, “da História, muitas vezes a mulher é 
excluída” e “os campos que [os historiadores] abordam são os da ação e do poder 
masculinos, mesmo quando anexam novos territórios. (...) privilegia as classes e 
negligencia os sexos”. Essa invisibilidade ocorria, em grande medida, porque os materiais 
que os pesquisadores se utilizam para escrevê-la são em sua maioria produzido por 
homens que possuíam o quase monopólio do texto e das coisas públicas. Ainda de acordo 
com Perrot, mesmo mulheres militantes têm dificuldades em “se fazer ouvir pelos seus 
camaradas masculinos, que consideram normal serem seus porta-vozes”291. 
Felizmente, da publicação da primeira edição deste texto – e em alguma medida 
por causa dele – aos dias atuais, o panorama historiográfico se tornou diferente, já que os 
historiadores – e em especial, as historiadoras – passaram a atentar mais para o recorte de 
gênero. Ancorando-se em obra mais recente de Michele Perrot, Gláucia Fraccaro lembra 
que “no mundo do trabalho, a categoria ‘gênero’ parece mais pertinente e eficaz em todas 
 
290 Estado do Pará, Belém, nº 656, 26 jan. 1913, p. 2. 
291 PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. 3ª ed. Rio de Janeiro: 
Paz e Terra, 1988, p. 185-186. 
 
103 
 
as suas dimensões”.292 Seja como for, nunca é demais lembrar, em um estudo de história 
social do trabalho, a chamada de atenção há muito protagonizada por Elizabeth Souza-
Lobo, no sentido de que a classe operária tem dois sexos.293 
Ao se analisar o movimento operário paraense da década 1911-1920, é necessário 
assinalar que ele, em suas organizações formais, era composto majoritariamente por 
homens, sendo eles também que ocupavam a esmagadora maioria dos cargos das 
diretorias dos diversos sindicatos e associações operárias de Belém. Nos estatutos destas 
organizações, eram frequentes artigos que indicavam a aceitação de associados 
independentemente “de cor, nacionalidade, religião ou credo político”, mas a maioria não 
mencionava a questão do gênero de seus membros. Os homens também eram os principais 
responsáveis pela produção e publicação dos jornais operários, bem como eram a maioria 
dos oradores nas manifestações públicas de greves e comícios contra a carestia ou outra 
demanda operária. Esta não foi, aliás, uma característica exclusiva do estado do Pará, já 
que conforme assinalado por Cláudio Batalha: 
 
No que diz respeito à dimensão masculina da classe operária, de fato na 
Primeira República prevalecem os homens no trabalho manufatureiro e 
industrial. Entretanto, a mão de obra feminina foi muito significativa em ramos 
como o têxtil e o de vestuário, chegando a ser majoritária em alguns lugares. 
De qualquer modo, o que é importante ressaltar é que o peso do trabalho 
feminino esteve sub-representado na face mais visível da classe operária — 
suas organizações.294 
 
Isso não quer dizer, todavia, que não tenha havido participação ativa de mulheres 
no movimento, já que, também em Belém, a classe operária tinha dois sexos. Embora o 
movimento operário fosse, como mencionado, majoritariamente masculino, não o era 
exclusivamente, de forma que foi possível encontrar também integrantes do gênero 
feminino nas greves, nos comícios e em eventos públicos da capital paraense, como 
demonstra uma matéria publicada no Estado do Pará sobre as manifestações do dia dos 
trabalhadores em 1919: 
 
 
292 FRACCARO, Gláucia. Os direitos das mulheres: feminismo e trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: FGV 
Editora, 2018, p. 15. 
293 SOUZA-LOBO, Elizabeth. a classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência; São 
Paulo: Brasiliense, 1991. 
294 BATALHA, C. H. M. Formação da classe operária e projetos de identidade coletiva, op. cit., p. 165. 
(grifo nosso). Referindo-se ao contexto norte americano do final do século XIX, Angela Davis, encontrou 
situação similar: “No interior do movimento operário, entretanto, a influência da supremacia masculina era 
tão forte que apenas as categorias dos produtores de cigarro e dos gráficos abriam suas portas para as 
mulheres”. DAVIS, Angela. Mulheres trabalhadoras, mulheres negras e a história do movimento sufragista. 
In: Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 143. 
 
104 
 
As comemorações efetuadas ontem nesta capital pelo operariado em 
homenagem ao 1º de maio, data esta que lhe é tão cara, revestiram-se de 
imponência que avultou pela ordem geral. 
Homens e mulheres, moços e velhos, tomaram parte nas festas, vibrando em 
todos eles contentamento e alegria. 
Durante o dia e parte da noite a classe proletária de ambos os sexos percorria 
as ruas em demonstração de jubilo, a que prestaram solidariedade o governo, 
o comércio, os industriais e todas as classes trabalhadoras de ambos os 
sexos.295 (grifos nossos) 
 
Como é possível perceber, não deixa de ser, no mínimo, curiosa certa ênfase dada 
a essa dimensão na matéria. Seja como for, o objetivo deste capítulo é resgatar a atuação 
das mulheres no movimento operário belenense deste período em suas manifestações 
mais características: nas greves, nos sindicatos e na imprensa operária, procurando 
evidenciar suas possibilidades de ação, assim como os entraves que elas enfrentavam 
mesmo no interior de movimentos que diziam defender os seus direitos. 
 
AS MULHERES NOS MUNDOS DO TRABALHO BELEMENSES: BREVE PANORAMA 
No que tange às possibilidades de emprego para as mulheres em Belém de fins da 
década de 1910, elas poderiam ocupar os postos de trabalhos de forma majoritária em 
várias categorias: cozinheiras, engomadeiras, lavadeiras, passadeiras, vendedoras 
ambulantes, tacacazeiras, empregadas domésticas, prostitutas, enfermeiras, professoras, 
dentre outras. Na classificação dos habitantes de Belém segundo profissões, realizada 
pela Diretoria Geral de Estatística em 1920, as categorias com maior número de mulheres 
foram a indústria de “vestuário e toucador”, que empregava 7.281 operárias; o “serviço 
doméstico”, com 5.169 trabalhadoras; a “agricultura, etc.”, com 4.002; e o “magistério”, 
que empregava 1.083 professoras. Em outros ramos da indústria, como na alimentação, 
cerâmica e produtos químicos, elas somavam 218. Nos transportes, 66; sendo 50 em 
“marítimos e fluviais” e apenas 16 nos “terrestres e aéreos” e nos correios. Já nas diversas 
modalidades de comércio, representavam 307, cuja maioria (232) foi classificada em 
“outras espécies de comércio” – o que provavelmente representava o comércio ambulante 
ou em pequenas bancas.296 
Quanto à última categoria mencionada, Michele Perrot já havia chamado a atenção 
para a presença relevante das mulheres no pequeno comércio em Paris da virada do 
oitocentos para o novecentos.297 No Brasil e sobre o Brasil a literatura historiográfica 
 
295 “As festas do Trabalho”. Estado do Pará, Belém, n° 2910, 2 maio 1919, p. 1. Grifos nossos. 
296 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 134-137 
297 PERROT, M. Os excluídos da história, op. cit., p. 201, 216. 
 
105 
 
também é grande e consistente desde as abordagens pioneiras de Maria Odila Leite da 
Silva Dias298 e de June Hahner. Esta, sempre atenta a fragilidade dos dados censitários do 
fim do Império (1892), chamava a atenção paraa forte dimensão cambiante existente no 
trabalho informal, e em especial nos desenvolvidos por mulheres. Assim, foi comum, diz 
ela, que “As vendedoras ambulantes as vezes trabalhavam em tempo parcial, quando 
terminavam as tarefas domesticas”.299 
Nas ruas de Belém também se podia encontrar mulheres vendedoras de alimentos 
ou pequenos objetos. O escritor Abguar Bastos, descrevendo os mundos do trabalho de 
Belém no auge do ciclo da borracha em seu romance Terra de Icamiaba, mencionou 
algumas mulheres que poderiam ser encontradas nas ruas da cidade desde a madrugada. 
Além das “barbadianas desnalgadas” que serviam de amas, 
 
As mulatas fazem o comércio de cheiro, cuja nomenclatura é farta: priprioca, 
patichuli, casca preciosa, pau-d’Angola, macaca-puranga. Em junho, mês do 
santo João, é a japana, a manjerona, o mucuracaá, o cipó catinga, o trevo, o 
manjericão, a pataqueira, o cumaru, a oriza, a baunilha. Passam a mulher do 
mingau de milho, açaí da Ilha das Onças, do tacacá fervido com mandioca da 
Pedreira; o pequeno que apregoa a canjica; ranchos de raparigas com santos, 
de massa ou de pau, nas salvas, pedindo esmolas para as ladainhas; (...) 
ciganas, com saias ramalhudas e coloridas, lendo a sorte nas mãos dos 
transeuntes (...).300 
 
Os números do censo não podem, todavia, ser tomados como reflexos fiéis da 
realidade, pois podem comportar erros, imprecisões, elementos não incluídos e critérios 
questionáveis. A presença de algumas dezenas ou centenas de prostitutas em Belém, 
embora não indicada pelos números do censo, pode ser muito facilmente proposta e 
deduzida, já que desde a escravidão havia se alastrado no país como uma forma de ganho 
a que se lançavam mulheres pobres ou a que se impunha a escravas.301 
Por outro lado, as cerca de 58.304 mulheres maiores de 15 anos classificadas como 
“profissão não declarada e sem profissão” dão a dimensão da exclusão do gênero 
feminino no mercado de trabalho formal e público, sendo este contingente muito 
provavelmente formado em sua maioria por donas de casa, embora estas também 
pudessem labutar intermitentemente para complementar a renda da família. 
Dentre as categorias profissionais com maior presença de mulheres, segundo o 
recenseamento de 1920, as operárias das indústrias foram as mais ativas no que tange aos 
 
298 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: 
Brasiliense, 1995. 
299 HAHNER, J. E. Pobreza e política, op. cit., p. 32. 
300 BASTOS, Abguar. Terra de icamiaba: romance da Amazônia. Manaus: EDUA, 1997, p. 17. 
301 HAHNER, J. E. Pobreza e política, op. cit., p. 56. 
 
106 
 
movimentos paredistas e à vida associativa. O que é compreensível se forem analisadas 
as outras categorias com forte presença feminina. Por um lado, as professoras – embora 
fossem assalariadas – pertenciam às franjas de classe, entre a classe trabalhadora e os 
segmentos médios urbanos. Na condição de alfabetizadas e formalmente educadas, 
grande parte delas poderia ser oriunda de famílias das classes médias ou mesmo das elites 
paraenses. Mesmo as de origens mais humildes poderiam encarar o magistério como uma 
forma de ascensão socioeconômica e de conquista de distinção social. Nesse sentido, as 
professoras tinham uma “respeitabilidade social” – reforçada por exercerem um trabalho 
intelectual – que as desestimulavam de participar dos movimentos dos trabalhadores 
manuais urbanos e mesmo de se identificar com eles. 
No recenseamento, a categoria de “agricultura, etc.” não especifica se as mulheres 
ali computadas eram trabalhadoras assalariadas, pagas por empreitada, posseiras ou 
mesmo pequenas proprietárias que produziam para subsistência e/ou para vender os 
excedentes; talvez incluísse todas essas situações. Também pode ter incluído 
trabalhadoras sazonais, que circulavam entre os meios rurais e urbanos, trabalhando nas 
plantações e se estabelecendo na cidade nas entressafras. 
Já as trabalhadoras domésticas, embora numerosas na capital paraense, estavam 
submetidas a uma disciplina e uma cobrança para que fossem “morigeradas”, tendo seu 
comportamento fora do local de trabalho fiscalizado pelos patrões, principalmente em 
relação a vida social e sexual e às formas de lazer e sociabilidade, mas que também incluía 
a condenação à participação delas nos movimentos de contestação social e nas 
organizações classistas. 
Não se deve supor que tal tipo de fiscalização e controle da conduta da mulher 
trabalhadora estivesse restrita aos interesses patronais, uma vez que a submissão feminina 
estabelecida em norma costumeira pelo patriarcado era exercida também no âmbito da 
casa e da família, onde o pai, o marido, irmãos – e até mesmo filhos – assumia posições 
de rígida tutela, com o argumento da proteção da honra feminina e familiar. Em 
importante trabalho, Margareth Rago, com o foco no período que serve de base a esse 
estudo, chamava a atenção para a contínua associação que se fazia entre a figura da mulher 
trabalhadora e a moral social. Para ela: 
 
No discurso de diversos setores sociais, destaca se a ameaça a honra feminina 
representada pelo mundo do trabalho. nas denúncias dos operários militantes, 
dos médicos higienistas, dos juristas, dos jornalistas, das feministas a fábrica é 
 
107 
 
descrita como “antro da perdição”, “bordel” ou “lupanar”, enquanto 
trabalhadora é vista como uma figura totalmente passiva indefesa.302 
 
Seja como for, a divisão das domésticas em unidades de trabalho restritas – as 
casas dos patrões – dificultava o contato direto entre elas, o que era acentuado pelo fato 
de que uma parte delas residia na casa dos empregadores. Essa característica dificultava 
sobremaneira a organização de associações e sindicatos da categoria, assim como a 
preparação e deflagração de greves. Isso não significa, no entanto, que, no cotidiano das 
relações, as domésticas não empreendessem atos de resistência ao domínio dos patrões, 
muito embora de forma individual.303 
 
PRESENÇA FEMININA NAS GREVES E NOS SINDICATOS 
Diferente das outras categorias profissionais em que a presença feminina era 
muito forte ou majoritária, as empregadas em fábricas de Belém concentravam-se às 
dezenas ou às centenas em estabelecimentos industriais, que preferiam essa força de 
trabalho, já que, em regra, seus salários eram – assim como os dos menores de idade –
mais baixos do que o dos trabalhadores masculinos. São exemplos de indústria que se 
utilizavam da mão de obra feminina em larga escala a Fábrica Palmeira, fundada em 
1892 e localizada na então rua Paes de Carvalho, que produzia doces, biscoitos e produtos 
alimentícios – em 1923, contava com 54 operários e 35 máquinas;304 a Fábrica de cordas 
Perseverança, reinaugurada em 1912, quando contava com cerca de “180 operários, entre 
homens, mulheres e crianças;”305 a Fábrica de Roupas Alliança, uma das maiores da 
cidade, localizada rua de Santo Antônio, nº 83-A, que ocupava em 1918 cerca de 400 
“operários e operárias externas e internas”, e a Fábrica de fumos Girafa – localizada na 
rua da Indústria, 81 –, que neste mesmo ano empregava algo em torno de 200 operárias e 
50 operários.306 Premidas por ambientes insalubres, salários de miséria, autoritarismo dos 
patrões e capatazes, estas trabalhadoras fabris também estiveram nas agitações 
trabalhistas que sacudiram Belém naquele final de década de 1910. 
 
302 RAGO, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. In: PRIORE, Mary del (org.). História das 
mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto; Editora UNESP, 2001, p. 585. 
303 Um bom estudo que aborda as trabalhadoras domésticas belenenses, seja em suas condições de trabalho 
seja em suas formas de resistência, em um contexto um pouco anterior ao abordado aqui é: LOBO, Marcelo 
Ferreira. O trabalho doméstico em Belém: entre a escravidão e liberdade (1880-1898). In: SPERANZA, 
Clarice Gontarski; SCHEER, Micaele (Orgs). Trabalho, democraciae direitos. Vol. 1: trabalho livre e 
escravizado. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2019. P. 359-388. 
304 BELÉM de todas as épocas. s/d. p. 320-321. 
Disponível em: https://issuu.com/belemdasepocas/docs/belemdetodasasepocas/189. Consultado em 26 abr. 2021. 
305 “Fábrica Perseverança”. Estado do Pará, Belém, nº 370, 15 abr. 1912, p. 1. 
306 “A grande exposição comercial e industrial promovida pelo Grêmio Literário Comercial Português”. 
Estado do Pará, Belém, nº 2506, 22 mar. 1918, p. 3. 
 
108 
 
É interessante notar que, dos segmentos mais atuantes no movimento operário 
belemense desta conjuntura, estas trabalhadoras eram as únicas que poderiam ser 
enquadradas na visão tradicional e restrita de proletariado, isto é na de trabalhadores 
fabris, assalariados e concentrados em grandes números nas unidades produtivas. O 
protagonismo das operárias fabris nas agitações operárias desta conjuntura pode ser 
verificado em todas as regiões do país, como em São Paulo307, onde as mulheres tinham 
grande força numérica no interior do proletariado, ou mesmo em Manaus, onde o 
contingente feminino nas poucas fábricas (e nas muitas oficinas) era bem menor. Mesmo 
ali, numa capital amazônica em meio à floresta, as operárias da Fábrica de Roupas 
Amazonense entabularam uma sequência de greves no início década de 1910.308 Apesar 
de terem antecedentes de organização e atuação em movimentos trabalhistas, foi na 
conjuntura em tela que as trabalhadoras industriais de Belém entabularam com maior 
frequência movimentos paredistas. 
Em agosto de 1918, o Jornal do Povo noticiou em um pequeno artigo que algumas 
operárias da Palmeira, “coagidas pelas exigências de seus usurpadores patrões, querendo 
obrigá-las a trabalhar quase todo o dia dentro de uma estufa, onde o calor é 
demasiadamente asfixiante, revoltaram-se e declaram-se em greve”. A reação patronal 
foi rápida e impiedosa, dispensando todas elas da fábrica imediatamente e substituí-as por 
fura-greves, dessa forma sufocando o protesto. A mesma matéria ainda afirmou que os 
patrões pagavam 9$000 por semana às trabalhadoras, justificando a quantia insignificante 
– basta compará-la com os números já expostos na tabela 5– pelo fato de darem às 
empregadas café com pão e doces para a merenda.309 
Infelizmente, não foram encontradas outras referências sobre esta greve, mas 
parece importante ressaltar o fato de o estopim deste movimento ter sido a condição 
escorchante e insalubridade do ambiente de labuta. Mas o artigo também informa que os 
baixos salários das trabalhadoras e as condições de trabalho aos quais elas estavam 
submetidas eram muito parecidas com aquelas que José Ivanilson da Luz Rodrigues se 
 
307 FRACCARO, Glaucia Cristina Candian. Mulheres, sindicato e organização política nas greves de 1917 
em São Paulo. Revista Brasileira de História, v. 37, n. 76, p. 73-90, 2017. 
308 PINHEIRO, L. B. S. P.; PINHEIRO, M. L. U. Mundos do trabalho na cidade da borracha, op. cit., p. 
160-172. 
309 “A greve das operárias da Fábrica Palmeira”. Jornal do Povo, Belém, nº 16, 17 ago. 1918, p. 2. 
 
109 
 
deparou ao estudar as condições de trabalho femininas em Belém do Pará na primeira 
metade da década de 1930.310 
Em 27 de setembro de 1918, cerca de duzentas e cinquenta trabalhadoras 
costureiras, engomadeiras e pregadeiras da Fábrica de Roupas Alliança entraram em 
greve, reivindicando aumento salarial.311 No dia seguinte ao início da parede, as grevistas 
ocuparam os arredores das fábricas, tentando convencer as companheiras que ainda 
estavam trabalhando a aderirem ao movimento; a UGT interviu em apoio as trabalhadoras 
e organizou uma tabela de pagamentos a ser apresentada aos donos da fábrica.312 No 
terceiro dia de parede, as operárias se reuniram na sede da UGT para discutirem a tabela 
de preços a ser reivindicada e, no mesmo dia, apresentaram aos patrões; o Estado do Pará 
ainda apontou que nesta reunião “estiveram presentes, além das operárias, várias pessoas 
pertencentes a outras classes trabalhadoras”.313 
No início de outubro o movimento continuou, com as trabalhadoras em greve 
fazendo “guarda pelas imediações da fábrica com o fim de impedir que algumas operárias 
voltem ao trabalho”; em paralelo, a repressão também se intensificou: o Estado do Pará 
noticiou que cerca de 60 operárias foram detidas pelos agentes da polícia e, sem mais 
detalhes, afirma que “a grevista Graciana Santos deu explicações às autoridades”.314 A 
ausência de referências posteriores indica que provavelmente a repressão sufocou o 
movimento. 
Algumas semanas depois, as costureiras voltariam a paralisar o trabalho em apoio 
aos trabalhadores da Pará Eletric, na ocasião da greve geral de outubro de 1918. Antes 
de aderirem formalmente à greve, elas já atuavam na mobilização de solidariedade, 
condenando, de forma jocosa, os fura-greves. Um articulista do jornal Estado do Pará 
relatou que: “Ante-hontem [dia 9/10/18], à tarde, na avenida 15 de agosto, um grupo de 
costureiras vaiou o motorneiro e o condutor de um [bonde] elétrico, a quem mandaram 
vestir saias, por não terem os mesmos aderido aos seus companheiros de classe.315 
O escárnio das trabalhadoras sobre seus companheiros também era uma prática 
comum nos movimentos classistas na França, entre o final do século XIX e o início do 
 
310 RODRIGUES, José Ivanilson da Luz. O labor feminino do lar à fábrica: lutas, práticas e representação 
social. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História da Universidade 
Federal do Pará, Belém, 2015, p. 51-74. 
311 “Gréve Operária”. Estado do Pará, Belém, nº 2.695, 28 set. 1918, p. 1. 
312 “Gréve Operária”. Estado do Pará, Belém, nº 2.696, 29 set. 1918, p. 1. 
313 “A Greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2697, 30 set. 1918, p. 2. 
314 “Gréve Operária”. Estado do Pará, Belém, nº 2.699, 2 out. 1918, p. 2. 
315 “A Greve dos Motorneiros e Condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.708, 11 out. 
1918, p. 1. 
 
110 
 
XX, conforme afirmou Perrot em “Inversão, derrisão: armas clássicas das mulheres”.316 
Essa característica pode ser encontrada em outros contextos brasileiros, como em Santos, 
onde em uma greve dos portuários em 1920 as esposas dos grevistas quiseram obrigar os 
fura-greves a comerem capim, por considera-los animais subservientes.317 
Alguns dias depois, o Estado do Pará anunciou que “As operárias costureiras da 
Fábrica Alliança, à rua Gaspar Vianna, em número de 150, abandonaram o serviço, 
solidárias com os motorneiros e conductores”. Além delas, os trabalhadores da Fábrica 
Proença, da fábrica de cordas e da fábrica Girafa, todos estabelecimentos que possuíam 
mulheres em seus quadros de funcionários, também se manifestaram, paralisando o 
serviço em solidariedade aos motoristas e condutores, o que indica que algumas operárias 
dessas fábricas também o fizeram.318 
No grande meeting do dia 15 de outubro, realizado na Praça da República em 
apoio aos trabalhadores da Pará Eletric, “falaram a propósito da greve vários oradores e 
duas costureiras da fábrica Alliança”. Em seguida, logo “após o meeting, os grevistas, em 
número aproximado de 3 mil com mais crianças e mulheres, perfazendo um número de 
5.000 manifestantes, encaminharam-se em direção ao Palácio do Governo para falarem 
com o governador Lauro Sodré”. Algumas telefonistas também pretenderam acompanhar 
o movimento, alegando a má remuneração por um trabalho exaustivo.319 
Na mesma ocasião, o governador do estado, Lauro Sodré, recebeu uma comissão 
com representantes das várias categorias em greve para discutir as reivindicações dos 
motoristas e condutores, cujos membros incluíam Isabel Vieira da Silva, representando 
as costureiras, e Philomena Mata da Silva, representando as engomadeiras.320 
No âmbito associativo, parte das costureiras se organizou no Syndicato dos 
Artistas Alfaiates e Costureiras, ligado à FCT, embora a comissão executiva desta 
entidade tenha sido formadaexclusivamente por homens.321 No que pese o alijamento 
 
316 PERROT, M. Os excluídos da história, op. cit., p. 211. 
317 DA SILVA, Fernando Teixeira, Operários sem patrões, op. cit., p. 140. 
318 “A Greve dos Motorneiros e Condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2713, 16 out. 
1918, p. 1. 
319 OLIVEIRA, A. C. As lutas operárias em Belém da Primeira República, op. cit., p. 76-77. 
320 “A Greve dos Motorneiros e Condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2713, 16 out. 
1918, p. 1. 
321 Em 1919 a comissão executiva desta organização era formada por Martinho Alves Ferreira, secretário 
geral; Domingos Luiz Cascaes, dito de expediente; Armando Baptista, dito de atas; João Villas, 
bibliotecário; Manoel Reis, tesoureiro; Cláudio Santos, José Alves e Antônio Silva d’Almeida, delegados. 
“Vida syndical”. O Semeador, Belém, nº 4, 21 maio 1919, p. 4. Já em 1920, era composta por Américo A. 
Baptista, secretário geral; Raymundo Gomes Moreira dito de expediente; Raymundo Sanches Laura, dito 
de atas; Manoel A. Ignácio, tesoureiro; Antônio Moraes de Maia, bibliotecário; Manoel Alípio da Fonseca, 
fiscal geral. “Pelos sindicatos”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 6, 5 jun. 1920, p. 4. 
 
111 
 
dos cargos dirigentes, as costureiras podiam estar presentes nas assembleias e reuniões 
ordinárias desta organização. O sindicato dos alfaiates e costureiras muito provavelmente 
foi diretamente derivado da União dos Artistas Alfaiates, formado na capital paraense em 
meados de 1913. Não foi possível constatar se a inclusão das costureiras na organização 
foi fruto do esforço organizativo delas próprias ou da tentativa dos trabalhadores homens 
de mobilizarem as mulheres, embora as duas hipóteses possam ser levantadas. 
Na greve geral ocorrida no final de novembro daquele ano em protesto contra o 
fechamento da União Geral dos Trabalhadores do Rio de Janeiro, as operárias de 
diversas fábricas de Belém também aderiram em peso. Fazendo um balanço do 
movimento, o Estado do Pará comentou que: 
 
Em consequência da greve, ficaram paralisadas as seguintes oficinas: 
Alliança, à rua da Indústria, de propriedade de Quilhó, Pinto & Cia, onde 
abandonaram o serviço cerca de 120 operárias. 
- Fábrica Girafa, de Nicolau da Costa & Cª, com cerca de 60 operárias em 
greve. Ficaram trabalhando somente 4 operárias cigarreiras e alguns 
empregados das oficinas.322 
 
No dia 27 de novembro, a sede da UGT (paraense) foi ocupada por uma força de 
20 praças do 27º batalhão de caçadores, sob o comando do segundo tenente Dr. Santanna 
de Medeiros; um dos jornais que noticiaram a invasão relatou que “este oficial encontrou 
no edifício muitos operários de ambos os sexos, a quem expos os fins de sua presença 
ali”.323 Sobre o tema, Adriano Craveiro de Oliveira expôs que: 
 
As operárias das fábricas de roupas e cigarros participaram da greve. Nas 
imediações da União Geral dos Trabalhadores, na Travessa Ruy Barbosa com 
a Rua Dr. Moraes, viam-se agrupamentos de mocinhas que, em vozeria, 
protestavam contra o decreto do presidente da República que extinguira a U. 
G. T. do Rio de Janeiro.324 
 
Os grevistas também tentaram mobilizar as telefonistas fazendo ligações para 
incitar “aquelas mocinhas a abandonarem o serviço”, mas elas recusaram.325Alguns dias 
depois, em um meeting organizado pelos paredistas, um grupo de mulheres grevistas, 
protestando contra o fechamento da UGT acabou fugindo em debandada “(...) diante de 
uma atitude mais ‘enérgica’ dos soldados de cavalaria”.326 Alguns dias após o 
encerramento da greve: 
 
 
322 “Greve Geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2755, 27 nov. 1918, p. 1. 
323 “Greve Geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2756, 28 nov. 1918, p. 1 
324 OLIVEIRA, A. C. As lutas operárias em Belém da Primeira República, op. cit., p. 94. 
325 Idem, Ibidem, p. 93. 
326 Idem, Ibidem, p. 102. 
 
112 
 
Um ex-condutor da Pará Electric apareceu na fábrica Alliança, cobrando de 
cada mocinha que trabalhava na fábrica a quantia de 300 réis por um distintivo 
da União Geral dos Trabalhadores. O ex-condutor conseguiu apurar a quantia 
de 21$000 réis e não entregou os distintivos e tão pouco apareceu novamente. 
O que fez com que a costureira Maria Silva, em nome das suas colegas, fosse 
apresentar queixa à polícia.327 
 
O episódio ilustra o grau de identificação das operárias da fábrica de roupas com 
o movimento classista já que levou pelo menos setenta delas – se nosso cálculo e os dados 
informados estiverem corretos – a se interessarem por adquirir um objeto que simbolizava 
o pertencimento à uma entidade de classe. 
As cigarreiras das diversas fábricas e manufaturas de fumo da cidade também se 
mobilizaram junto aos seus companheiros de ofício no mesmo instante da greve geral de 
novembro de 1918: 
 
Por iniciativa da União Geral dos Trabalhadores, os cigarreiros de ambos os 
sexos realizaram uma reunião no dia 24 [de novembro] (...) constituindo um 
agrupamento que tomou a denominação de Syndicato dos Manipuladores de 
Cigarro do Pará. Este enviou às fábricas de cigarro desta praça longos ofícios, 
alegando que por motivo de serem algumas fábricas dotadas de maquinas 
dispensando por isso o serviço de operários, para manter “empregados 
pequenos operários ou operárias para carteirar e selar”, fez-se precisa a 
formação do sindicato. 328 
 
A oposição dos cigarreiros e das cigarreiras à introdução de máquinas nas fábricas 
e oficinas, vista como causadora de desemprego, já se expressava pelo menos desde 1914 
quanto a categoria entrou em parede por este motivo.329 Neste sentido, pode-se novamente 
traçar um paralelo com as operárias francesas estudadas por Michelle Perrot, 
particularmente hostis às máquinas fabris, as quais consideravam concorrentes tanto de 
seus esposos quando delas mesmas, e “inimigas diretas dos trabalhos manuais a domicílio 
que lhes permitem completar o orçamento, mantendo um certo controle sobre o emprego 
do tempo”.330 
No referido ofício, o sindicato estabelecia uma tabela de preços para as carteiras 
das diversas fábricas de cigarro (Esmeralda, Girafa, Pará-Amazonas, Rosa Cruz, 
Tabacaria Matos, Tabacaria Paraense e Casa de Risca), com o prazo de 30 horas para a 
resposta dos respectivos proprietários. Como alguns estabelecimentos não responderam 
as exigências no prazo estabelecido, o recém formado sindicato dos cigarreiros declarou 
greve no dia 27, até que fossem atendidas as reclamações. Assinam o “comitê grevista” 
 
327 Idem, Ibidem, p. 115. 
328 “Greve Geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2756, 28 nov. 1918, p. 1 (grifos nossos). 
329 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 131. 
330 PERROT, M. Os excluídos da história, op. cit., p. 198-199. 
 
113 
 
as operárias Elvira Maria Rodrigues, Isabel Paula e Angocilla Nascimento, além de Elysio 
Lobato, Joaquim Rezende e Raymundo Marques.331 Percebe-se uma paridade dos sexos 
na formação do comitê. 
Embora seu início tenha coincidido com o da greve geral, a parede dos cigarreiros 
e cigarreiras foi um movimento independente daquela. Tanto é que em 29 de novembro 
voltaram “aos seus labores todas as classes operárias, com exceção dos cigarreiros, 
ficando, pois, normalizado o movimento da cidade”. Na manhã daquele dia, a polícia 
recebeu a denúncia de uma reunião de operários em uma casa na rua Teodomiro Martins, 
bairro de Canudos: tratava-se de uma assembleia na sede do Sindicato dos Cigarreiros; 
os presentes declararam aos policiais não estarem em protesto contra o fechamento da 
UGT carioca, mas em consequência da parede que haviam declarado há dois dias. No dia 
anterior, uma comissão dos cigarreiros formada por Elysio Lobato, Raymundo Marques 
e a Sra. Isabel Salles esteve na redação do Estado do Pará para prestar esclarecimentos 
sobre o movimento e convenceram os redatores do jornal, que por sua vez afirmaram “(...) 
não ser exorbitante [a tabele proposta], atendendo a insignificância dos saláriosque 
atualmente recebem”.332 
O movimento adentrou dezembro, sem cobertura da imprensa, mas foi derrotado. 
Em uma declaração publicada em um diário e direcionada aos operários e operárias 
cigarreiras, os proprietários das fábricas manufatoras de cigarro afirmaram que não seria 
possível atender às reclamações que lhes fizeram por aumento de salário e que aceitariam 
os trabalhadores que quisessem retornar pela tabela que vinham recebendo antes da 
greve.333 
No final de abril do ano seguinte, foi a vez das operárias da Fábrica de Cordas 
Perseverança se levantarem em parede, iniciando o que talvez tenha sido o movimento 
protagonizado por mulheres mais significativo desta conjuntura. No dia 29 daquele mês, 
o subprefeito da cidade recebeu a comunicação de que elas estavam em greve, mandando 
imediatamente para as dependências da fábrica agentes da polícia. Estes averiguaram que 
a parede foi motivada pelo “boato espalhado entre as operárias de que os proprietários da 
fábrica pretendiam reduzir os salários”.334 
 
331 “Greve Geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2.756, 28 nov. 1918, p. 1-2. 
332 “Greve Geral”. Estado do Pará, Belém, nº 2.757, 29 nov. 1918, p. 1. 
333 “Aos senhores operários e operárias cigarreiras”. Estado do Pará, Belém, nº 2.761, 3 dez. 1818, p. 4. 
334 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.907, 29 abr. 1919, p. 2. 
 
114 
 
No dia seguinte, a greve se radicalizou. Mais uma vez se verificou a tentativa de 
interrupção da produção, a não adesão de todas as trabalhadoras do estabelecimento à 
parede e os conflitos entre operárias grevistas e fura-greves. Estas últimas receberam da 
polícia transporte em automóveis e a escolta de praças embaladas até a fábrica. Um diário 
local relatou que: 
 
Ao chegarem os veículos em frente ao estabelecimento, foram assaltados pelas 
grevistas que, a esse tempo, já estavam acompanhadas por vários operários da 
fábrica, garantindo à polícia as operárias que não estavam em greve, 
estabelecendo-se então entre os operários e soldados uma grande confusão, 
tendo algumas das grevistas caído e machucado várias partes do corpo. 
Antes, porém, as grevistas apedrejaram o edifício da fábrica, que durante todo 
o dia ficou guardado por praças de infantaria e de cavalaria.335 
 
O jornal operário O Semeador também registrou o conflito, apresentando uma 
versão diferente: 
 
Na manhã do dia seguinte [ao início da greve], quando [as grevistas] 
procuravam convencer as furonas, em número de dez, a não irem prejudicar a 
sua causa, uma força de polícia ali postada às ordens do subprefeito Cícero 
correua-as, espaldeirando-as e chicoteando-as à cinturão! Ficaram gravemente 
feridas algumas companheiras, na cabeça, nos braços e nas mãos.336 
 
No meeting do 1º de Maio daquele ano, alguns dos oradores fizeram “referências 
acrimoniosas ao facto lamentável” ocorrido alguns dias antes em frente à Fábrica 
Perseverança, revelando a repercussão do ocorrido no meio operário; a manifestação se 
realizou nas imediações do mercado São Braz, à praça Floriano Peixoto, e contou com a 
participação de “operários e operárias de diversas fábricas, especialmente da ‘Alliança’ e 
da Perseverança”.337 O jornal O Semeador mencionou entre os oradores que fizeram 
discursos nas manifestações naquele dia no meeting realizado na Praça Floriano Peixoto, 
os nomes das operárias Cecília Carvalho, Saturnina Otêro, além da professora Anna 
Sirene, na sessão solene no Teatro da Paz.338 
Apesar da violenta repressão, o movimento das cordoeiras continuou, se 
imbricando com a Greve Geral de maio de 1919, que reivindicava a jornada de oito horas 
de trabalho. Ainda nas manifestações do 1º de maio, uma “delegação de moças que 
contribuíam para o bom êxito da festa do trabalho” procurou um articulista do Estado do 
Pará para denunciar as condições de labuta da fábrica de cordas e expor a reivindicação 
da greve: as trabalhadoras recebiam como diária, no máximo, 2$500, e exigiam os 
 
335 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.908, 30 abr. 1919, p. 2. 
336 “Fábrica de cordas”. O Semeador, Belém, nº 2, 1º maio 1919, p. 4. 
337 “As festas do Trabalho”. Estado do Pará, Belém. n° 2.910, 2 maio 1919, p.1. 
338 “1º de maio”. O Semeador, Belém, nº 4, 21 maio 1919, p. 3. 
 
115 
 
aumentos de 4$000 para as de 1ª classe, 3$000 para as de 2ª e 1$000 para as de 3ª. A 
argumentação delas induziu o articulista a “crer que é muito justa e até merecedora de 
apoio a pretensão das operárias”.339 
Pari passu com a greve das trabalhadoras da Perseverança foi formada, no fim de 
abril, a Liga de Resistência das Operárias do Pará, de cuja fundação um articulista de O 
Semeador comentou: 
 
Graças aos ingentes esforços da F.C.T, as operárias de Belém retomaram o 
lugar que foram forçadas a abandonar quando do fechamento da U.G.T em 
novembro do ano passado. Aconteceu o que sempre há acontecido: desta vez 
vieram mais fortes, em maior número e mais decididas! 
 
E se dirigindo diretamente às operárias, continuou: 
 
É assim que podereis conquistar o pão que miseravelmente nos roubaram, 
camaradas! 
Não estas acostumadas a essa linguagem? Ignorais que o pão que nos falta foi 
criminosamente roubado? 
Não temais que venham provar-nos o contrário... persisti na luta, ao lado dos 
vossos irmãos trabalhadores, confiantes no tempo que vos há de trazer a 
completa libertação da tutela patronal.340 
 
A situação de quase simultaneidade entre a fundação da Liga e o início da greve 
parece ser mais que coincidência. Na edição seguinte, o mesmo periódico comentou que 
as trabalhadoras por trás da Liga continuavam “Intemeratas, fortíssimas em suas 
resoluções, trabalhando para o levantamento da classe, por tantos anos lançada no 
esquecimento. E se não, vejam a notícia que hoje damos sobre a fábrica de cordas”.341 
Já em seu terceiro número, o jornal noticiou que o Syndicato dos A. Alfaiates e 
Costureiras, em reunião de assembleia geral realizada no dia 4 de maio, considerando a 
gravidade dos acontecimentos ocorridos alguns dias antes na fábrica de cordas, “resolveu 
tornar público o seu veemente protesto contra as ações arbitrárias da polícia, como a sua 
incondicional solidariedade à Liga de Resistência das O. do Pará”.342 Estes comentários 
são indícios de que as operárias da Liga estiveram na articulação do movimento paredista 
da fábrica de cordas. A FCT também expressou solidariedade a elas e nomeou uma 
comissão para acompanhar as grevistas, composta por Tito Salgado, J. Marques, Antônio 
Leite e José Barradas. 
 
339 “A greve dos operários”. Estado do Pará, Belém, nº 2.912, 4 maio 1919, p. 2. 
340 “Vida Syndical”. O Semeador, Belém, nº 1, 26 abr. 1919, p. 4. 
341 “Vida Syndical”. O Semeador, Belém, nº 2, 1º maio 1919, p. 4. 
342 “Diversas notícias”. O Semeador, Belém, nº 3, 10 maio 1919, p. 4. 
 
116 
 
A partir daquele momento, a Liga esteve frequentemente presente na coluna Vida 
Sindical343 d’O Semeador, do número 5, de 14 de junho, ao número 28, de 29 de 
novembro de 1919, sempre informando que ela se reunia aos domingos, às 2 horas da 
tarde, na rua Bailique, nº 49. Não foram encontradas, todavia, outras referências à 
organização, indicando que provavelmente ela se dispersou neste meio tempo; e o fato de 
ela não constar em nenhum momento na coluna Movimento Sindical344, do A Voz do 
Trabalhador, é um bom indicativo de que não mais existia em 1920. 
No que pese os múltiplos apoios que as operárias receberam após o incidente de 
29 de abril, elas continuaram a sofrer com novas repressões violentas. Na primeira semana 
de maio, a greve prosseguia, não passando um dia em que elas “não se apresentem 
rondando a Fábrica e (...) que consigam trazer duas, três, quatro e mais furonas...”345. No 
dia 22 daquele mês, o sr. Pádua Andrade – gerente da Perseverança – mandou três 
operários da fábrica dispersarem a bofetadas algumas grevistas que permaneciam pelas 
imediações do estabelecimento,tentando convencer as fura-greves a aderir. Ato contínuo: 
 
À vista da agressão insólita desses operários, as grevistas reagiram a pedradas, 
uma das quais atingiu Domingos [um dos agressores]. As grevistas espancadas 
chamam-se Luiza Dantas, residente à rua dos Mundurucus; Maria do Carmo 
Souza, residente no Marco; Maria Generosa, moradora à travessa 22 de junho 
e Ramira Oliveira, residente à avenida de S. Jerônimo.346 
 
Percebe-se que o arremesso de pedras era uma prática recorrente dessas 
trabalhadoras, talvez inspiradas na estratégia da “ação direta” defendida pelos 
anarquistas. Tanto os agressores quanto as grevistas foram parar na chefatura de polícia 
devido ao incidente. 
As cordoeiras empregadas na Perseverança fizeram parte dos segmentos mais 
radicais da classe trabalhadora em Belém na greve geral de 1919. Em meados de maio, o 
Estado do Pará noticiou que “um grupo de operárias da fábrica de cordas quis tentar 
invadil-a pelos fundos. Avisada a tempo a patrulha da fábrica convidou as operárias a se 
retirarem”.347 Em matéria publicada em fins de maio, o mesmo impresso fez um balanço 
do final do movimento paredista, quando a maior parte das categorias já tinham retornado 
 
343 Coluna fixa, geralmente na quarta página, onde a redação divulgava os endereços e datas das reuniões 
dos diversos sindicatos e organizações classistas da cidade. 
344 Assim como a “Vida Sindical” de O Semeador, esta era uma coluna fixa, geralmente na quarta página, 
onde a redação divulgava os endereços e datas das reuniões dos diversos sindicatos e organizações classistas 
da cidade. 
345 “Fábrica de cordas”. O Semeador, Belém, nº 3, 10 maio 1919, p. 3. 
346 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.931, 23 maio 1919, p. 1. 
347 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.928, 20 maio 1919, p. 2. 
 
117 
 
ao serviço, onde pode-se ler que “as operárias da fábrica de cordas continuam em 
greve”.348 Apesar da resiliência das trabalhadoras na manutenção da greve por cerca de 
um mês, elas foram derrotadas. Seguiram-se demissões, como pode-se depreender de um 
pequeno anúncio publicado na imprensa diária onde “pede-se às ex-operárias e ex-
operários desta Fábrica [de cordas Perseverança] se sirvam retirar suas roupas de 
trabalho”.349 
Sem desconsiderar as especificidades de cada um, é possível estabelecer algumas 
generalizações nesses movimentos. Uma delas é a presença constante de fura greves, 
verificadas no caso das paredes nas fábricas Palmeira, Aliança, Girafa e Perseverança, 
revelando a dificuldade na mobilização das trabalhadoras: talvez a maioria não quisesse 
perder os parcos ordenados, naquele momento de profunda crise econômica – o que 
poderia levar mesmo à fome. 
Outro fator desestimulante à adesão, que também é uma característica geral, era a 
forte repressão que as operárias sofriam: as da Palmeira foram sumariamente demitidas; 
as da Aliança foram detidas às dezenas; e as da Perseverança sofreram sucessivos atos 
de repressão, inclusive com agressões físicas e ameaças. 
Diferente do que ocorria com lideranças masculinas, como Tito Salgado, Júlio 
Clemente dos Santos, José Marques da Costa, Benito Rodrigues, Antônio Cesar de 
Oliveira, dentre outros, cuja atuação continuada pode ser constatada pelas referências 
espaçadas nos periódicos, as lideranças femininas tendiam à certa invisibilidade, e não 
apenas por sua identidade de gênero, tradicionalmente menosprezada por toda parte, 
inclusive no ambiente masculino das redações. Parte dessa invisibilidade pode também 
estar relacionada à uma condição militante predominantemente de ocasião, forjada de 
forma espontânea ou semiespontânea na luta operária, e ganhando relevo no momento de 
greves e protesto de alguma envergadura. Talvez essa seja a razão pela qual os nomes das 
costureiras Graciana Santos, Isabel Vieira da Silva e Philomena Mata da Silva; assim 
como das cordoeiras Maria do Carmo Souza, Luíza Dantas, Ramira Oliveira, Maria 
Generosa; e das cigarreiras Elvira Maria Rodrigues, Isabel Paula e Angocilla Nascimento, 
apareçam uma única vez na documentação. 
Marcel van der Linden levantou a hipótese de que as mulheres participavam 
menos da vida sindical e associativa por conta da dupla jornada de trabalho que eram 
submetidas por conta dos trabalhos domésticos: enquanto os homens tinham o tempo fora 
 
348 “Operários em greve”. Estado do Pará, Belém, nº 2.935, 27 maio 1919, p. 2. 
349 “Fábrica de cordas”. Estado do Pará, Belém, nº 2.937, 29 maio 1919, p. 8. 
 
118 
 
do local de trabalho mais livre, podendo se dedicar à formação política ou a burocracia 
da organização, “elas encontram uma infinidade de tarefas esperando por elas, geralmente 
para pessoas de quem elas têm que cuidar além de si mesmas”350. Este pode ser um dos 
fatores para não ter havido muitas mulheres entre os quadros dirigentes do movimento, 
que não diminui a importância destas sujeitas, já que a história da classe operária – ou 
mesmo de seu movimento – não pode ser resumida à atuação das lideranças mais 
destacadas. 
Já no que tange à presença das trabalhadoras nas associações de classe em Belém, 
é perceptível que, embora não ocupassem os cargos nas diretorias, elas poderiam ser 
encontradas nas organizações das categorias onde eram numerosas, como no Sindicato 
dos Artistas Alfaiates e Costureiras e no Sindicato dos Manipuladores de Cigarro do 
Pará. No município de Alenquer, no noroeste do Pará, Maria Rita de Souza foi uma das 
fundadoras do Sindicato Agrícola e assinou, junto a outros filiados, uma carta direcionada 
à FCT solicitando seu apoio e a divulgação da iniciativa por meio do seu porta-voz 
jornalístico, no que foi atendida.351 
Nos estatutos das organizações operárias paraenses, eram frequentes artigos que 
indicavam a aceitação de sócios independentemente “de cor, nacionalidade, religião ou 
credo político”, mas a maioria não falava nada sobre o gênero. Duas exceções que podem 
ser citadas são os estatutos da União dos Operários Sapateiros e da União dos 
Manipulares de Pão, ambas fundadas em 1913, que em seus artigos determinavam que 
seriam admitidos nessas sociedades sócios “sem distinção de côr, sexos e nacionalidade 
e desde que não explore por conta própria operários ou aprendizes”.352 Ambas as 
categorias poderiam ter mulheres entre suas fileiras, como é confirmado no caso dos 
sapateiros por José Ivanilson da Luz Rodrigues e Lais Lauane Gaia Veras, que destacam 
a figura da operária sapateira Maria Ferreira no início da década de 1930.353 
Por vezes, as trabalhadoras se organizavam em sindicatos específicos, 
principalmente nas categorias em que elas eram predominantes. Um exemplo que pode 
ser citado é o da União das Cozinheiras, que começou a ser articulada em junho de 1913 
e manteve uma rotina regular de reuniões em sua sede, na rua Aristide Lobo nº 108, 
 
350 LINDEN, M. Trabalhadores do mundo, op. cit., p. 270-271. 
351 “Pelo Interior”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 9, 26 jun. 1920, p. 2. 
352 Cópias digitalizadas destes e de outros estatutos podem ser consultados em: 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html consultado em 15 abr. 2021. 
353 RODRIGUES, José Ivanilson da Luz; VERAS, Lais Lauane Gaia. Operariado feminino: uma conjuntura 
plural em uma capital da Amazônia (Belém, 1930-1935). Manduarisawa, Manaus, v.1, n.1, p. 38-58, 2017. 
https://www.cma.ufpa.br/caixas/caixas.html
 
119 
 
geralmente aos domingos à noite, até pelo menos agosto daquele ano, sendo os convites 
para as reuniões esporadicamente publicados na coluna Vida Operária do Estado do 
Pará. Em meados de agosto, elas foram representadas por Maria Ernestina Ferreira e 
Domingas Maria da Conceição na reunião das comissões das associações de classe para 
a fundação da Federação Operária de Belém.354 Não se tem referências desta organização 
nos anos posteriores, sugerindo que tenha se desagregado nesse meio tempo. 
Particularmente importanteparece ter sido a Liga de Resistência das Operárias 
do Pará, fundada em abril de 1919, cujas informações são escassas, mas que parecia 
pretender congregar apenas trabalhadoras mulheres e de diversas categorias profissionais. 
Infelizmente o número de referências a esta entidade é inversamente proporcional à sua 
importância, embora pareça ter atuado por alguns meses ao longo de 1919. Apenas no 
início da década de 1930 é que surgiriam em Belém organizações do operariado feminino, 
amplas e estáveis.355 
Um dado importante extraído da documentação do período é a fácil percepção da 
constante solidariedade dos trabalhadores masculinos em relação às suas companheiras: 
a direção da UGT interferiu a favor das operárias da Alliança na greve de setembro de 
1918; cigarreiros e cigarreiras estiveram lado a lado na greve da categoria no final do 
mesmo ano; os redatores de O Semeador deram uma cobertura positiva à greve das 
cordoeiras da Perseverança. Está claro também que esta relação de solidariedade era de 
mão dupla, como pode-se perceber pela adesão de trabalhadoras de diversos 
estabelecimentos fabris em apoio aos motoristas e condutores de bonde em luta por 
maiores salários, em outubro de 1918. 
Contudo, isso não deve significar a existência de uma plena igualdade entre os 
gêneros ou a ausência de conflitos e relações de poder exercidas pelos trabalhadores do 
sexo masculino sobre as do feminino. Isso pode ser percebido no caso citado acima, em 
que operários da fábrica Perseverança, à mando da gerência da fábrica, prestaram-se a 
agredir física e brutalmente suas companheiras (as cordoeiras), então envolvidas em 
importante movimento de greve. 
Em paralelo, ocorriam tomadas de posição importantes, como a do caixeiro 
Fernando Nazareth, finalizando um seu artigo que abordava o dever dos trabalhadores e 
a beneficência, dando vivas à emancipação operária, à emancipação da mulher e ao Livre-
 
354 “Vida Operária”. Estado do Pará, Belém, nº 863, 22 ago. 1913, p. 2. 
355 RODRIGUES, José Ivanilson da Luz. O labor feminino do lar à fábrica, op. cit., p. 75-102. 
 
120 
 
Pensamento.356 No convite para a série de conferências que o grupo Os Semeadores 
promoveu ao longo do ano de 1919, os organizadores aconselhavam aos “homens do 
trabalho” que fossem acompanhados pelas suas respectivas famílias.357 No início de 1920, 
quando a onda de agitações operários já iniciava seu refluxo no Estado do Pará, os 
redatores do O Semeador lastimavam que “as operárias e trabalhadoras de Belém tenham 
descuidado de tal forma das suas associações de classe a ponto de nunca mais ter se falado 
em movimento operário feminista no Pará”. 
 
Em tempos que não vão longe, mostrou-se tão forte e unida a classe das 
trabalhistas paraenses que se não terminaram, pelo menos diminuíram as 
explorações do patronato contra essas nossas companheiras de trabalho. 
Eram as costureiras, as cordoeiras, as lavadeiras, as cozinheiras, enfim, todas 
as mulheres que precisavam trabalhar para manter-se, que procuravam as 
associações dos sindicatos profissionais e vinham a praça pública, junto com 
os seus irmãos de trabalho em todos os movimentos grevistas e emprestavam 
a solidariedade do seu braço à causa comum das reivindicações proletárias.358 
 
Mais do que casos isolados, esses exemplos são ilustrativos da importância que a 
presença das mulheres era tratada no interior do movimento operário, cujas discussões 
vinham a público principalmente por meio dos jornais que os grupos militantes 
animavam. 
 
MULHERES E A IMPRENSA OPERÁRIA 
As mulheres também marcaram presença na imprensa operária paraense daquele 
momento, colaborando com a produção dos conteúdos dos jornais operários, que se 
materializavam em artigos sobre o cotidiano de suas relações no trabalho e no movimento; 
e como importantes consumidoras dos conteúdos da propaganda operária. Um registro 
delas como leitoras apareceu em O Semeador, na forma de um “Bilhete aberto, a uma 
senhora que diz ler o Semeador”. Seu autor foi um articulista do próprio jornal e seu 
bilhete visava responder ao questionamento feito pela leitora que inquiria o porquê os 
animadores do periódico adotavam a “doutrina anárquica”.359 A “questão feminina” 
também foi temática recorrente entre os artigos e editoriais das folhas operárias, como 
pode-se perceber no Quadro 1, que elenca uma série de artigos assinados por mulheres 
e/ou cuja temática principal girava em torno de questões de gênero. 
 
356 NAZARÉ, Fernando. “O dever dos trabalhadores e a beneficência”. O Semeador, Belém, nº 16, 6 set. 
1919, p. 2-3. 
357 “Conferências”. O Semeador, Belém, nº 21, 13 out. 1919, p. 3. 
358 O Semeador, Belém, nº 41, 28 fev. 1920, p. 3. 
359 “Bilhete aberto”. O Semeador, Belém, nº 18, 20 set. 1919, p. 2. 
 
121 
 
 
Quadro 1 
A mulher na imprensa operária paraense (1918-1920) 
Título Autor Jornal Número/data 
Pela Rússia Livre: A 
nacionalização das mulheres 
– A Revolta nº 1, 26/07/1919 
A Mulher Amatoris O Semeador nº 1, 26/04/1919 
“Palavras” e “Reivindicação” “Uma grevista” 
e Aida Arthur 
O Semeador nº 5, 14/06/1919 
Nossa Culpa Catharina 
Karkar 
O Semeador nº 7, 05/07/1919 
A mulher e o amor livre Amatoris O Semeador nº 8, 12/07/1919 
A Mulher Mario Amador O Semeador nº 20, 04/10/1919 nº 
23, 25/10/1919 
Companheira exemplar Gabriel Luna O Semeador nº 25, 08/11/1919 
Sorvedouro de dedos – O Semeador nº 26, 15/02/1919 
O despertar da mulher Vitória Régia O Semeador nº 28, 29/11/1919 
Como eles andam Vitória Régia O Semeador nº 29, 06/12/1919 
Da mulher operária Bruno de 
Menezes 
O Semeador nº 31, 20/12/1919 nº 
33, 03/01/1920 nº 
34, 10/01/1920 
nº 35, 17/01/1920 
A mulher – O Semeador nº 38, 07/02/1920 
As fábricas de roupas Mário Amador O Semeador nº 39, 14/02/1920 
Às trabalhistas do Pará – O Semeador nº 42, 06/03/1920 
As vítimas da fome Amatoris O Semeador nº 43, 13/03/1920 
Tem graça Amatoris O Semeador nº 44, 20/03/1920 
A emancipação feminista H. Santos A Voz do Trabalhador nº 1, 01/051920 
Eduquemos a mulher operária Sócrates A Voz do Trabalhador nº 17, 21/08/1920 
Fonte: Quadro elaborado pelo autor. 
 
Esta lista não se pretendeu exaustiva, já que as coleções dos jornais que dispomos 
são fragmentárias e muito provavelmente outros textos sobre a temática foram publicados 
por mulheres nos números que não foram preservados ou encontrados. De qualquer 
forma, tais artigos e editoriais são testemunhas interessantes, tanto da presença das 
mulheres na imprensa operária, quanto das representações masculinas que eram feitas 
sobre elas no meio militante. 
Embora não tenham sido incluídas no quadro, as folhas trabalhistas também 
publicaram algumas transcrições de textos assinados por mulheres, como o da militante 
anarquista e pedagoga espanhola Soledad Villafranca (1880-1948) sobre a pedagogia 
libertária;360 o artigo da militante carioca que adotava o pseudônimo de Nympha de 
Vimnar sobre a morte de João Plácido de Albuquerque na capital federal, quando este 
representava os trabalhadores paraenses no III Congresso Operário Brasileiro;361 ou ainda 
notícias da articulação de mulheres no meio associativo em outras localidades, como da 
 
360 VILAFRANCA, Soledad. “O ensino racional”. O Semeador, Belém, nº 22, 18 out. 1919, p. 1. 
361 VIMNAR, Nympha. “Duro contraste”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 8, 19 jun. 1920, p. 1. 
 
122 
 
fundação do Centro Feminino de Estudos Sociais, no Rio de Janeiro, em princípios de 
1920.362 
O mais extenso dos textos a tematizar a questão da mulher foi a transcrição de 
uma conferência proferida por Bruno de Menezes na sede da União dos Choferes, em 9 
de novembro de 1919, e publicada entre os números 31 e 35 do O Semeador. Uma análise 
mais detida da palestra é interessante não apenas pela sua extensão, mas pelo fato de que 
foi de autoria de um dos principais propagandistas do movimento naquele instante, além 
de ter sido assistida poruma “plateia numerosa”, o que indica que as concepções de 
Menezes tiveram alguma repercussão entre o operariado paraense. Outro ponto 
importante está no fato de ter sido uma exposição oral – mesmo que se tenha acesso a ela 
somente por sua transcrição para a imprensa –, demonstrando que o debate sobre a mulher 
operária não ficava restrito aos artigos dos jornais operários. 
Menezes iniciou sua fala lamentando a apatia e quase mudez do “elemento 
trabalhador feminino”, criticando o movimento feminista de então por ser composto 
principalmente por mulheres das classes médias e altas. Em seguida, estabeleceu como 
as suas interlocutoras as mulheres trabalhadoras, mas não as “policiais, advogadas, 
políticas, parlamentares, imperatrizes, diplomáticas, conselheiras de estado”, e sim as 
“que fabricam, que manipulam, não tem dotes, são pobres”. Menezes asseverou: “viemos 
falar às últimas, deixando que as primeiras nos critiquem ou venham para o nosso 
lado”.363 
Na continuação, criticou a falta de acesso à educação formal das filhas de famílias 
operárias – muitas das quais passariam aos cuidados de “madrinhas ricas” que 
prometeriam lhes garantir instrução, mas jamais o faziam, usando a força de trabalho das 
suas protegidas nas atividades laborais domésticas. Assim, lamentava que “são bem 
poucas as nossas companheiras que lograram ler e escrever corretamente”, já que muitos 
pais operárias prefeririam ver “sua filhinha feita chapeleira ou costureira, muitas vezes 
antes de saber as quatro operações decimais”.364 
Passando para o que ele qualificou como “o assunto mais forte e necessário do 
tema”, Menezes defendeu a igualdade salarial entre trabalhadores homens e trabalhadoras 
mulheres, descrevendo a rotina extenuante destas últimas: 
 
 
362 “Centro feminino de estudos sociais”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 16, 14 ago. 1920, p. 3. 
363 “Da mulher operária”. O Semeador, Belém, nº 31, 20 dez. 1919, p. 3. 
364 “Da mulher operária”. O Semeador, Belém, nº 33, 3 jan. 1920, p. 3. 
 
123 
 
Haverá maior esforço para uma mulher que se levantar as 6 horas da manhã e 
vir para uma oficina cheia de miasmas e micróbios, sem ar e luz, muitas vezes 
sem ingerir o primeiro alimento para o corpo e ainda trazendo para a hora do 
almoço a comida que irá ser tragada fria e em seco? (...) Quase sempre, todas 
vem dos subúrbios da capital, de longe; saem de casa pela manhã e só voltam, 
às vezes, quando vesper começa a brilhar; ou então altas horas da noite, que é 
quando terminam os tais serões, onde elas, coitadas, dispendem o máximo de 
atividade para acabar a encomenda, enquanto o proprietário dorme a sono solto 
e sonha com os lucros que aquela obra lhe há de dar.365 
 
Os salários eram uma ninharia, continua, “(...) e, todavia, a mulher-operária tem 
dívidas a pagar, responsabilidades a cumprir, como também precisa se divertir, gozar um 
pouco o fruto do seu suor”. Para resolver tal estado de coisas, Menezes defendeu que ela 
deveria “vir reclamar, irmanada em uma classe, mais um pouco de aumento nos 
ordenados e salários, mais uma parcela de liberdade à vida trabalhadora”. 
Em seguida, Menezes separou um momento para refletir até sobre a vestimenta 
das trabalhadoras, condenando expressamente o luxo e a ostentação das roupas e 
acessórios de mulheres da burguesia e aconselhando as operárias à sobriedade e à 
modéstia no vestir-se, apelando para que as companheiras “(...) olhem com olhos críticos 
para as aberrações deturpadoras que, de vez em quando, a moda faz surgir para as 
componentes da alta sociedade”. Também lançou uma crítica a imposição, por parte dos 
patrões, de as operárias vestirem uniformes, encarando tal imposição como mais uma 
forma de controle sobre os corpos das trabalhadoras. 
Adentrando ao último tópico de sua intervenção, Menezes chegou ao tema que 
qualificou como uma das “questões mais melindrosas em relação a vida da mulher 
operária: a questão do amor, das ideias casamenteiras, das emancipações individuais”. 
Iniciou este tópico defendendo o Amor Livre, entendido como a não necessidade de os 
casais terem o aval do Estado e da Igreja para se unirem amorosamente, e lamentando o 
fato de que “(...) um par amante que não passou sob as palavras dos padres e dos juízes; 
não apregoou que se ia juntar para a vida e para a morte, não é legal, não tem cotação”. 
Logo a seguir, defendeu novamente o direito da mulher trabalhadora ao lazer: 
“Justo é que as mulheres que mourejam uma semana inteira, muitas vezes de sol a sol, 
distraiam um pouco o espírito, com uma boa hora de música, de poesia, de gozo 
espiritual”. Mas em seguida advertia ser “inadmissível a permanência continua das 
operárias em tudo quanto é festejo público e tolo, onde ninguém vai divertir-se, extasiar-
 
365 Idem, Ibidem. 
 
124 
 
se, aprender bons exemplos, e sim mostrar um vestuário novo, uma cara mascarada, um 
tartufo. 366 
Menezes justificou essa preocupação com a presença das trabalhadoras em festas 
com o perigo que elas corriam de serem seduzidas por “Don Ruans e Lovelaces”, 
argumentando que elas seriam “sempre as vítimas de escândalos suspeitos nestas festas 
de arranjos”. Por fim, demonstrando o anticlericalismo característico dos anarquistas, 
criticou a “crença ingênua nos dogmas e nos milagres, nas feitiçarias e nas imagens ocas, 
que a sociedade secreta dos padres e charlatões tão bem sabe imiscuir em vossos [isto é, 
das mulheres] espíritos (...)”. 
O orador concluiu sua fala revisando que as mulheres tinham sido até então 
“vítimas da educação, das modas fúteis, do amor interesseiro, das religiões caducas, em 
prejuízo próprio e dos filhinhos vindouros, continuadores da espécie”, e exortou as 
ouvintes da palestra para que transmitissem as ideias expostas por ele às companheiras 
que não puderam estar presentes, para que, ao fim e ao cabo, todas pudessem exclamar 
com orgulho e com consciência de sua posição: “eu sou uma operária e, sobretudo, sou 
mulher!”.367 
Ao longo de sua fala, Menezes citou passagens de livros de vários pensadores que 
se voltaram sobre a temática – A mulher não pode instruir nem educar, de M. Trombeta; 
A escravidão social da mulher, de Russomano; A arte na educação da mulher, de Antero 
de Figueiredo; e O Amor Livre, de Charles Albert, além dos romances A Catedral e Os 
Jesuítas, de Blasco Ibañes, indicando quais referências teóricas sobre o problema 
circulavam entre os militantes paraenses. O livro de Charles Albert citado por Menezes 
também consta na coluna Leitura Proveitosa, do periódico A Revolta, que expunha uma 
lista de livros disponibilizados pela redação do periódico ao preço de 1$500 réis. 
Alguns elementos da palestra de Menezes foram recorrentes nos artigos da 
imprensa operária que circulou naquele momento, a exemplo da preocupação com as 
condições de trabalho às quais as operárias estavam submetidas nas fábricas e oficinas da 
cidade, o que permite vislumbres de alguns aspectos dos mundos do trabalho femininos 
na capital paraense naquele momento. Em um pequeno artigo no O Semeador, Amatoris 
noticiou o falecimento de uma companheira que “desenvolvia sua preciosa atividade, mal 
 
366 MENEZES, Bruno de. “Da mulher operária”. O Semeador, Belém, nº 34, 10 jan. 1920, p. 3. 
367 MENEZES, Bruno de. “A mulher operária”. O Semeador, Belém, nº 35, 17 jan. 1920, p. 4. 
 
125 
 
paga, mal remunerada” na Fábrica Alliança, apontando como a causa da morte o 
“definhamento pela falta de alimento”.368 
Em outro artigo do O Semeador foi exposta a recorrência dos acidentes de trabalho 
na fábrica de artefatos de metal estampados de nome Metal Gráfica – rua Santo Antônio, 
nº 25 – que vitimava suas empregadas, dentre elas a operária Dalila Barboza, que teria 
perdido três dedos em um destes acidentes. Na visão do articulista da folha operária, esta 
situação se devia à ganância dos proprietários que empregavam mulheres por elas 
aceitarem salários mais baixos queos homens e sugeria que elas fossem substituídas por 
operários do sexo masculino, já que, em sua visão, estes seriam mais fortes e trabalhariam 
com mais cuidado.369 
Semanas depois, em outro artigo do mesmo jornal, o comerciário português Mário 
Pereira Amador descreveu as condições das operárias da fábrica de roupas União: elas 
estariam sujeitadas à um ambiente anti-higiênico, eram pagas por peças produzidas; 
vinham “dos pontos mais distantes dos subúrbios”, cumpriam serões impostos pela 
direção da fábrica, tendo de fazer suas refeições – compostas de pão, bananas e farinha – 
no interior do próprio estabelecimento. Amador concluiu o artigo concitando essas 
trabalhadoras à organização em federações operárias e ligas de resistência.370 
Esses dois últimos artigos indicam a existência de opiniões divergentes, e até 
mesmo conflitantes, existentes entre os militantes operários paraenses acerca da presença 
das mulheres nas fábricas e, em especial, sobre qual seria a solução para melhorar as 
condições de trabalho delas e da classe como um todo: enquanto o articulista do primeiro, 
provavelmente um homem, sugeria pura e simplesmente a exclusão das mulheres do 
ambiente fabril e a sua substituição por trabalhadores homens – chegou mesmo a 
responsabilizá-las pelo rebaixamento geral dos salários –, Mário Amador estimulava as 
operárias da fábrica União a formarem organizações classistas ou ingressarem nas já 
existentes. 
A segunda visão, de estímulo as operárias se integrarem nas manifestações 
classistas, foi a de maior difusão entre as lideranças operárias. Com efeito, o texto 
mencionado acima sobre as condições das mulheres na Metal Gráfica foi o único dos 
artigos compulsados em que se propôs a exclusão delas do mercado de trabalho, sendo a 
 
368 AMATORIS. “As vítimas da fome”. O Semeador, Belém, nº 43, 13 mar. 1920, p. 2. 
369 “Sorvedouro de dedos”. O Semeador, Belém, nº 26, 15 nov. 1919, p. 4. 
370 AMADOR, Mário. “As fábricas de roupa”. O Semeador, Belém, nº 39, 14 fev. 1920, p. 1. 
 
126 
 
maioria dos outros perpassados pelo estímulo as mulheres para que adentrassem nas 
sociedades de resistência. 
A condição das mulheres, em especial das trabalhadoras, na sociedade de então, e 
a integração delas no movimento operário foi um tema frequente das intervenções de 
Mário Amador na imprensa operária, tanto em seus artigos quanto nas poesias que ele fez 
publicar. Em uma delas, intitulada “Mãe e filha”, escreveu: 
 
(...) 
Uma caiu no lodo, e da orgia 
Outra formosa, bela, pequenita, 
Surgindo pela vida ali surgia 
 
Vendida pela mãe, canções dedilha 
De noite às sombras – eternal precita 
A genitora infame, a triste filha371 
 
Em outra ocasião, Amador assinou os seguintes versos sobre o abandono infantil: 
 
(...) 
Não tens pai? Tu não tens mãe? 
- É triste não se ter pai!... 
Sou filho do lupanar; 
A mãe é bom possuí-la 
Quando ela saiba amar. 
 
Porém a minha, coitada! 
Vivendo no lamaçal 
Comerciando amor, 
Amor impuro sem igual, 
Desconhece o próprio filho 
Concebido de algum crime!.. 
Coitada! Dou-lhe perdão.372 
 
A temática que perpassa ambos os textos literários é a da prostituição – presente 
também na palestra de Bruno de Menezes –, sobre a qual recai fortes condenações morais, 
como se percebe em adjetivadas como “lodo” e “lamaçal”, o que colocava Amador em 
consonância com o discurso anarquista de outros estados, como São Paulo, onde também 
era forte a condenação do meretrício.373 
Outro tema bastante recorrente nesse conjunto de textos é a importância da 
educação formal e intelectual das mulheres como estratégia e dever patente dos militantes, 
como fica expresso pelo título do artigo assinado por “Sócrates” e publicado no número 
17 de A Voz do Trabalhador; Honório Santos, em editorial no mesmo jornal, escreveu 
 
371 AMADOR, Mário. “Mãe e Filha”. Jornal do Povo, Belém, nº 17, 24 ago. 1918, p. 1. 
372 AMADOR, Mário. “Abandonada”. A Voz do Trabalhador, Belém, nº 1, 1º maio 1920, p. 3. 
373 RAGO, Luzia Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 
1985, p. 108-111. 
 
127 
 
que “emancipar a mulher consiste tão somente em educá-la”, enquanto Bruno de 
Menezes, na já citada conferência, lamentou que “bem poucas são as nossas 
companheiras que lograram ler e escrever corretamente”.374 
Neste sentido, os libertários paraenses estavam em consonância com os de outras 
regiões do país. Analisando o discurso da imprensa libertária de São Paulo, Margareth 
Rago indicou que a instrução das mulheres era vista por eles como uma “arma 
privilegiada de libertação” e “de luta contra as classes dominantes, contra o poder da 
Igreja e contra o Estado”.375 Mais do que editoriais estimulando a educação das jovens 
oriundas da classe trabalhadora, os militantes operários paraenses se envolveram em 
atividades concretas neste sentido, como a criação da Escola Racional Francisco Ferrer, 
fundada na segunda metade de 1919 pelo grupo Os Semeadores, que aceitava estudantes 
de ambos os sexos no seu corpo discente, proporcionando o acesso à educação formal a 
algumas meninas oriundas da classe trabalhadora. 
Embora os militantes libertários levantassem a bandeira da emancipação 
feminina, não deixaram de reproduzir parte da ideologia dominante no patriarcado, que 
pretendia relegar às mulheres os papéis de responsáveis quase exclusivas pela família e 
criação dos filhos, como bem notaram várias autoras.376 Nas palavras de Lygia Pracchia, 
abordando o discurso dos libertários do eixo Rio-São Paulo sobre a educação das 
mulheres, “o argumento mais importante para que o elemento feminino tenha acesso à 
educação racional é que, livrando-se da ignorância (...) ela poderá, como mãe, melhor 
educar os filhos”.377 
Esse mesmo elemento pode ser encontrado entre os libertários paraenses, como 
fica expresso em artigo do primeiro número de O Semeador, com o sugestivo título “A 
mulher”, onde o articulista escreveu que “ela, antes de mais nada deveria educar-se para 
que o reflexo de sua educação se refletisse [sic] na prole, na ramificação vulgarmente 
longa de sua árvore genealógica; transmitir-se-ia a educação de família em família até a 
completa perfeição humana”.378 No entanto, como ressalta Pracchia, “esses limites 
 
374 MENEZES, Bruno de. “Da mulher operária”. O Semeador, Belém, nº 34, 10 jan. 1920, p. 3. 
375 RAGO, L. M. Do cabaré ao lar, op. cit., p. 108-111, p. 97. 
376 Dentre outras, e além do citado livro de Margareth Rago, veja-se: PRACCHIA, Lygia. Os libertários e 
os caminhos da emancipação feminina. Projeto História, São Paulo, v. 11, p. 69-78, nov. 1994. 
377 PRACCHIA, Lygia. Os libertários e os caminhos da emancipação feminina, op. cit., p. 77. Tais 
argumentos não eram radicalmente distintos daqueles ditados pelas e para as elites, como bem 
demonstraram as análises das imagens femininas presentes nas obras de José de Alencar, realizadas por 
SOARES, Ana Carolina Eiras Coelho. Moça educada, mulher civilizada, esposa feliz: relações de gênero 
e História em José de Alencar. Bauru, SP: EDUSC, 2012. 
378 AMATORIS. “A Mulher”. O Semeador, Belém, nº 1, 26 abr. 1919, p. 1-2. 
 
128 
 
impostos pelos libertários à luta da mulher e por ela, não invalidam a própria luta, apenas 
moldam seus contornos e suas nuances.”379 
Outro elemento da mentalidade patriarcal que não deixou de ser reproduzido pelos 
militantes operários foi o tom tutelar dos homens sobre as mulheres que lhe eram 
próximas, como se vê no artigo de Honório Santos direcionado aos trabalhadores homens, 
embora Santos não endosse posturas tradicionais e, bem ao contrário, proponha que 
maridos, pais e irmãos estimulem as mulheres de sua órbita de relação familiar a aderirem 
às associações classistas. Em dado momento, diz ele: 
 
(...) se a mulher se interessasse, a sério, pelas questões que dizem respeito à 
emancipação do proletariado, muitas dificuldades desapareceriam,muito 
tempo se ganharia, muito mais rápido se caminharia para vitória. 
E porque tudo isto se reconhece, é que se tem sempre procurado interessar a 
mulher no movimento social, esforçando-se os militantes por entusiasmar a sua 
companheira, a sua irmã ou a sua filha, pelos acontecimentos a que ele deu 
lugar. Eu sei que se fazem esforços para que as mulheres concorram às 
manifestações de propaganda; que se lhes dão livros, jornais, folhetos a ler; 
que em casa se conversa sobre o que se diz o jornal, de modo a fazer ver o 
aspecto da questão que nos apaixona.380 
 
Outro artigo representativo deste tom tutelar foi publicado em O Semeador 
algumas semanas depois, tematizando o que chamou de a “questão feminina”, em artigo 
também sugestivamente intitulado de “A mulher”. Nele, percebe-se que os homens são 
tratados pelo autor como tradicionais (e legítimos) interlocutores de suas respectivas 
mulheres: 
 
Parecervos-ha extraordinário, camaradas, este modo de pensar, em meio de 
uma assistência por assim dizer masculina, porém vós tendes esposas e cada 
um será o fio porta-voz, direto ao vosso lar distante, aonde as vossas 
companheiras a esta hora cuidam indispensavelmente dos filhos, proibidas 
portanto de nos alegrarem com sua valiosíssima presença. Assimilai e 
transmiti.381 
 
Na continuação do artigo, publicado algumas edições depois, o autor insiste nesse 
papel masculino a desempenhar em prol da causa operária: “Trazei-as [esposas e filhas] 
as associações, às conferências doutrinárias, onde se preguem doutrinas boas que tenham 
em vista o aperfeiçoamento moral e físico da humanidade”; e conclui asseverando que 
“às mulheres pertencem os mesmos direitos dos homens. Aos homens pertence o dever 
de auxiliá-las na luta pela reivindicação dos seus direitos”.382 Tal sentido de tutela dos 
 
379 PRACCHIA, Lygia. Os libertários e os caminhos da emancipação feminina, op. cit., p. 78. 
380 SANTOS, Honório. “Escutae Operário”. O Semeador, Belém, nº 4, 21 maio 1919, p. 3. 
381 “A Mulher”. O Semeador, Belém, nº 20, 4 out. 1919, p. 3. 
382 AMADOR, Mário. “A Mulher”. O Semeador, Belém, nº 23, 25 out. 1919, p. 1-2. 
 
129 
 
trabalhadores homens em relações as trabalhadoras mulheres, pode ser percebido em 
outras regiões, como em São Paulo, onde Margareth Rago expõe que 
 
Pouco importam os artigos que na imprensa operária cobram uma maior 
participação feminina nos movimentos reivindicativos da classe. Na prática, 
esses movimentos eram controlados por elementos do sexo masculino, que 
certamente tinham maior liberdade de circulação, maior acesso à informação e 
maior organização entre si. As mulheres deveriam participar enquanto filhas, 
esposas ou mães, isto é, na condição de subordinadas aos líderes.383 
 
Mais adiante, a autora explicitou as justificativas ideológicas para essa perspectiva 
da subordinação feminina: “(...) o movimento operário, mesmo o anarquista, atribui-se o 
direito de liderança sobre as mulheres, seja devido a sua ‘débil constituição física’ seja 
devido à falta de combatividade que caracteriza a ‘natureza feminina’”.384 Em que pese o 
mérito do estudo, é preciso não tomar as posições da autora como um absoluto, e a 
pesquisa histórica pode relativizar aquelas posições ou pelo menos reconhecer a 
existência de pontos fora da curva, como na atuação das trabalhadoras belenenses nas 
greves e manifestações operárias havidas entre 1917 e 1920. 
Mais do que meras temáticas de artigos e editoriais, algumas mulheres assumiram 
o desafio de também publicarem textos pelos periódicos de trabalhadores, como foi o 
caso dos pequenos artigos intitulados “Palavras” e “Reivindicação” que vieram a lume 
no quinto número de O Semeador, assinados, respectivamente, por “uma grevista” e por 
Aida Arthur. O primeiro, provavelmente escrito por uma operária da Fábrica 
Perseverança, foi enviado como carta anônima aos redatores do jornal, lamentando o fato 
do vigário de Nazaré ter cedido pessoal para normalizar o serviço daquela fábrica de 
cordas, e, assim, ter sabotado o movimento. A carta aponta as “convicções inabaláveis” 
e as “ideias firmes, seguras e cheias de probidade” da autora como as principais armas na 
luta contra a burguesia. Já no segundo artigo, Aida Arthur concita os “homens que 
trabalham para mais cedo ou mais tarde não enxergarem a miséria” a não esmorecerem 
na luta, mesmo com a repressão que porventura venham a sofrer, já que “a obra está quase 
completa”.385 Ou ainda, o breve artigo “Guerra a hipocrisia”, escrito por uma “devota da 
boa moral” que assinou como Mary (provavelmente um pseudônimo), que condenava a 
hipocrisia em geral.386 
 
383 RAGO, L. M. Do cabaré ao lar, op. cit., p. 64. 
384 Idem, Ibidem, p. 67. 
385 Uma grevista. “Palavras”. O Semeador, Belém, nº 5, 14 jun. 1919, p. 2; ARTHUR, Aida. 
“Reivindicação”. O Semeador, Belém, nº 5, 14 jun. 1919, p. 2-3. 
386 Mary. “Guerra a hipocrisia”. O Semeador, Belém. nº 24, 1º nov. 1919, p. 3. 
 
130 
 
O envio de cartas de mulheres às redações dos jornais não era uma prática 
incomum naquele final de década, momento em que elas passaram a se envolver bem 
mais com a leitura e a escrita, não apenas de romances, mas também de revistas e 
jornais.387 Embora pareça certo que, em certos casos, o anonimato de algumas 
contribuições e a atribuição de sua autoria a uma mulher pudesse não passar de ardil 
perpetrado pelo corpo redacional (masculino) dos periódicos, ele ainda era corrente no 
periodismo – que até hoje reproduz em profusão conteúdos não assinados – e trazia o 
bônus de, ao preservar a identidade de seu autor ou autora, preservá-lo(la) de qualquer 
tipo de julgamento público que a defesa de certas ideias não convencionais podia 
acarretar. Já no primeiro número d’O Semeador, foi publicado um pequeno anúncio, no 
canto inferior direito da última página, onde era possível ler: 
 
Temos em nosso poder uma carta demonstrativa da má organização existente 
nos avisos de instrução primária do Estado do Pará. 
Essa carta, subscrita por uma distinta professora oficial, coloca-nos ao par do 
grande ódio que o Estado Constituído, o inimigo do progresso, devassa às 
doutrinas livres. 
No próximo número deste jornal dir-vos-emos mais sobre tal assunto, o que 
não podemos agora devida à absoluta falta de espaço.388 (grifo nosso) 
 
O número seguinte foi todo dedicado às comemorações do 1º de maio e não deu 
publicidade à carta anunciada, mas na terceira edição do jornal o assunto foi retomado e, 
embora a carta ainda não tenha sido publicada, os redatores esclareceram que: 
 
Essa carta colocava-nos ao par das muitas arbitrariedades praticadas pela 
Comissão superior escolar contra as professoras que por espírito de renovação 
e progresso, teem ministrado às crianças doutrinas livres e humanitárias. 
Muitas, dizem-nos, têm sido suspensas por tentarem expurgar da infância a seu 
cargo preconceitos que em tudo concorrem para o grande atraso da 
humanidade.389 
 
Dando prosseguimento, os redatores transcreveram integralmente o ofício “da 
mesma senhora, cujo nome escondemos para salvaguardar sua identidade”. Tal ofício 
dizia: 
 
Companheiros, membros da “Federação das classes trabalhadoras do Pará”. 
Em 10 de abril de 1919. 
Chegada aqui por telegrama a notícia que acabais de dar o passo acertado e 
gigantesco em benefício a infância operária desta terra, envio-vos daqui 
minhas sinceras felicitações com centenas de votos para que a felicidade vos 
cubra com o manto progressivo da liberdade da vida. 
 
387 PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte (org.). Gênero & Imprensa na História do Amazonas. Manaus: EDUA, 
2014; JINZENJI, Mônica Yumi. Cultura Impressa e educação da mulher no século XIX. Belo Horizonte: 
Editora UFMG, 2010. 
388 “À última hora!”. O Semeador, Belém, nº 1, 26 abr. 1919, p. 4. 
389 “Pela instrução pública”. O Semeador, Belém, nº 3, 10 maio 1919, p. 4. 
 
131 
 
Que o espírito do imortal professor FranciscoFerrer nos anime, na continuação 
da grande obra, que teve como iniciador o condenado de Montynich (sic), o 
grande reformador da instrução primária. 
Eu, como operária do paciente trabalho da educação infantil, trabalharei ao 
vosso lado, animada pela vivificadora esperança, de ver um dia a nossa obra 
grandiosa concluída no meio de sorrisos e cantos infantis. 
Da professora municipal: * * * 390 
 
Apesar das referências serem vagas, chamam a atenção a menção que a professora 
– protegida pelo anonimato por meio de asteriscos – fez a Francisco Ferrer y Guardía, 
pedagogo catalão executado pela Coroa espanhola no castelo de Montjuic, em 1909, o 
que indica que as tais “doutrinas livres” reprimidas pela Comissão de Ensino se ligavam 
ao racionalismo pedagógico da Escola Moderna; além da autoidentificação dela como 
“operária do paciente trabalho da educação infantil”, reforçada pelo tratamento dos 
membros da FCT como “companheiros”. Infelizmente, o jornal não retornou mais ao caso 
nos números posteriores. 
É interessante perceber como uma professora, profissão tida como “respeitável”, 
fez uso da imprensa operária, de trabalhadores “manuais”, para entabular suas 
reivindicações, que no caso não se referiam à pautas econômicas (aumento do salário ou 
redução da carga horária), mas ao que hoje chamaríamos de “liberdade de cátedra”. A 
participação de professoras no movimento operário paraense não foi tão frequente, 
embora vez ou outra elas pudessem ser encontradas nas hostes operárias. Um exemplo 
foi o de Anna Sirene (por vezes grafado como Sireni), professora que fez um discurso no 
Teatro da Paz, na ocasião das manifestações de 1º de maio. Não se pode afirmar que ela 
tenha sido a mesma professora que enviou as correspondências ao jornal alguns dias 
antes. 
Seja como for, a articulista que teve o papel mais destacado na imprensa operária 
paraense assinou dois artigos no O Semeador como Vitória Régia, provavelmente um 
pseudônimo. Ambos falavam sobre questões ligadas ao gênero feminino, e logo no 
primeiro ela reflete sobre a condição da mulher para, logo a seguir e em tom intimista, 
revelar a insegurança que a afetava ao se jogar na arena jornalística, ao mesmo tempo em 
que afirma seu espaço no periodismo: 
 
Qual criança a tremer quando ensaia os primeiros passos no caminho da vida; 
assim eu tremo. E por que? Porque sou mulher, mas porventura as mulheres 
não terão os mesmos direitos que têm os que pertencem ao sexo forte? Tem! 
Nós é que nos supomos fracas e por isso que vivemos subjugadas à qualquer 
joguete; influenciadas por outras pessoas que julgamos poderosas, deixamos 
 
390 Idem, Ibidem. 
 
132 
 
germinar em nosso cérebro, como um cancro devastador, a sua peçonha 
venenosa; eis o nosso erro.391 
 
Chama a atenção o fato de ambos os textos serem perpassados pelo 
anticlericalismo. No primeiro, a autora comentou um episódio que teria acontecido na 
vila de Pinheiro (Maranhão), onde um padre que era o diretor de uma instituição 
educacional (não especificada) obrigou as professoras e discípulas a usarem vestidos 
longos de golas altas, “por ter medo de ser tentado por um colo de virgem”; com isto 
provando “que não tem força moral sobre si”, afirma Vitória Régia. No segundo, 
comentou um telegrama de Teresina, no Piauí, reproduzido em um dos diários belemenses 
(não especificado) que contava o caso do reverendo Clarindo Lopes, que teria contraído 
matrimônio em Campo Maior, cidade onde fora vigário, mas que foi exortado pelo bispo 
de lá a abandonar a esposa em nome do celibato católico. Vitória Régia execrou o 
ocorrido, qualificando-o como “monstruosidade” e afirmando que “parece incrível que 
uma religião que legaliza o matrimônio seja a primeira a aconselhar (...) a quebra de um 
contrato feito entre duas pessoas que não sofrem das faculdades mentais”, finalizando o 
texto desejando muitas felicidades e prole numerosa a Clarindo Lopes.392 
O tema do anticlericalismo também está presente na carta da grevista anônima da 
Fábrica Perseverança, já que ela critica diretamente o vigário de Nazaré, e no artigo 
assinado sob o pseudônimo de Amatoris que faz severas críticas às freiras, condenando-
lhes fortemente os hábitos e “absolutamente o modo hipócrita de viver”.393 Tanto o 
anticlericalismo quanto a questão da mulher foram assuntos recorrentes nos textos de 
Amatoris, como pode-se notar no Quadro 1. Como mencionado, o pseudônimo não nos 
permite deduzir se Amatoris se tratava mesmo de uma mulher, ou de um homem, já que 
o termo em latim significa “um amante”. No limite, pode-se até mesmo especular que a 
autoria do texto seja do já mencionado Mário Amador, devido tão somente a semelhança 
entre o seu sobrenome e o pseudônimo escolhido. 
O anticlericalismo parece ter sido uma das chaves da participação feminina nas 
movimentações operárias em Belém e, na verdade, a associação entre a emancipação 
feminina e o combate à influência da Igreja na sociedade ou o levantamento do 
anticlericalismo por mulheres nos jornais operários foram bastante recorrentes no 
 
391 RÉGIA, Vitória. “O despertar da mulher”. O Semeador, Belém, nº 28, 29 nov. 1919, p. 1. 
392 RÉGIA, Vitória. “Como eles andam”. O Semeador, Belém, nº 29, 6 dez. 1919, p. 1 
393 AMATORIS. “Tem Graça!”. O Semeador, Belém, nº 44, 20 mar. 1920, p. 1. 
 
133 
 
movimento operário de diversos lugares naquele momento.394 Uma década antes de 
Vitória Régia e Amatoris escreverem seus textos anticlericais, Maria Lages Guerra – 
esposa de Eduardo Guerra, um chofer português expulso do Pará em 1915 – enviou uma 
carta ao jornal anticlerical e libertário paulistano A Lanterna, onde comentou o Círio de 
Nazaré, comemoração tradicional de Belém e expressão do catolicismo regional. Nesta 
carta ela lamenta a multidão de maltrapilhos que “dá ideia da ignorância e do atraso do 
nosso povo.”395 
Nos anos seguintes, Maria Guerra esteve envolvida nas organizações classistas da 
cidade, assinando, em julho de 1912, junto a outros militantes, uma carta de protesto 
enviada à Lanterna contra o espancamento do militante paulista Francisco Calvo, vítima 
de violência policial.396 Alguns meses depois, foi ainda uma das assinantes – a única 
mulher – da ata de fundação do Centro Sindicalista das Classes Trabalhadoras do Pará, 
organização de orientação sindicalista revolucionária cujo fim era “fazer uma ativa 
propaganda do ideal de emancipação humana no seio dos trabalhadores”.397 
Maria Guerra foi uma das principais lideranças femininas no movimento operário 
paraense do início do novecentos. Quando da expulsão de seu marido em 1915, ela 
empreendeu uma campanha de protesto, indo à imprensa denunciar a deportação ilegal 
de Eduardo398 e apelando ao cônsul de Portugal em Belém para que impedisse a 
deportação. Não foram encontradas outras referências a ela depois desta data, o que nos 
faz levantar a hipótese de que ela possa ter voltado à Portugal para reencontrar seu 
companheiro.399 
Mais ou menos no mesmo período, algumas mulheres participaram da articulação 
e funcionamento do Centro Humanitário Amor, Sciencia e Liberdade – CACL (depois 
perderia o “Humanitário” do nome) –, fundado em 1º de maio de 1912 e que tinha por 
 
394 Ver por exemplo: MARTINS, Pablo dos Santos. O anticlericalismo anarquista durante a primeira 
república Brasileira (1899-1920). Revista Cantareira, Niterói, (28), p. 150-160, 2018; PRACCHIA, Lygia. 
Os libertários e os caminhos da emancipação feminina, op. cit.; SOUZA, Ingrid Souza Ladeira de. O 
anticlericalismo e a luta feminina anarquista: La Voz de la Mujer como estudo de caso (Buenos Aires, 
1896). Pergaminho, Patos de Minas, MG, (9): 27-44, 2018. 
395 GUERRA, Maria. “A ‘Lanterna’ no Pará”. A Lanterna, São Paulo. nº 63, 24 dez. 1910, p. 2. 
396 “Vida Operária”. A Lanterna, São Paulo. nº 152, 17 ago. 1912, p. 3. 
397 “Vida Operária”. A Lanterna, São Paulo. nº 156, 14 set. 1912, p. 4. 
398 “Torpe invenção”. Estadodo Pará, Belém, nº 1.448, 31 mar. 1915, p. 2. 
399 Fernando Teixeira da Silva, discutindo as possibilidades de pesquisa relacionadas a imigração 
portuguesa e ao movimento operário brasileiro, menciona como um filão a ser explorado a busca e 
identificação nos arquivos de Lisboa de militantes e lideranças operárias lusitanas que foram alvo de 
deportações no Brasil. Infelizmente, não nos foi possível realizar uma tal investigação nas circunstâncias 
atuais e nos limites institucionais desta pesquisa. Cf. SILVA, Fernando Teixeira da. Imigração portuguesa 
e movimento operário: fontes e arquivos de Lisboa. Acervo, Rio de Janeiro, v. 10, nº 2, p. 85-98, jul/dez 
1997, p. 86. 
 
134 
 
fim principal “manter uma biblioteca e uma escola prática para o desenvolvimento 
intelectual e a educação racional de seus associados e alunos, compostos exclusivamente 
de livres-pensadores”.400 
A organização também trocava correspondência com os redatores do A Lanterna, 
com parte dela sendo publicada em dezembro de 1912: em uma carta de protesto dos 
membros do Centro Amor Ciência e Liberdade e dos alunos da “Escola livre Século XX” 
– “compostos de operários e filhos de operários livres-pensadores” – contra a realização 
do congresso operário convocado por Hermes da Fonseca naquele ano; assinam a carta 
quase trinta pessoas401, entre os quais consta os nomes de Lucila Monteiro, Clara de 
Almeida e Ana Monteiro; no dia 13 de outubro, não por coincidência, no aniversário do 
assassinato de Francisco Ferrer, os signatários do protesto fundaram a Liga Anticlerical 
do Pará, anexa ao Centro; Lucila Monteiro ocupava o cargo de secretário-correspondente 
do CACL.402 
Embora os militantes do Centro pautassem assuntos educacionais, religiosos – o 
livre-pensamento – ou francamente anticlericais, a questão operária também ocupou lugar 
em suas preocupações, como pode-se perceber no protesto contra o congresso “do falsos 
operários”, de 1912; na indicação de que os estudantes de sua escola eram filhos de 
operários; na manifestação do “desejo de entrar em relações com todos os jornais, 
sociedades e grupos operários e de propaganda do Brasil e também do exterior”403 e, por 
fim, na presença de conhecidos militantes operários, como o chofer Eduardo Guerra e o 
sapateiro Antonino Domingues, em suas fileiras. 
 Os sobrenomes das participantes são indicativos de parentesco com outros 
membros do Centro. Lucila Monteiro e Ana Monteiro podem ter ligações com Manoel 
Monteiro, bibliotecário do CACL; já Clara de Almeida parece ter, mais claramente, 
ligação com José de Almeida, tendo em vista que os nomes de ambos aparecem lado a 
lado nas assinaturas de protesto contra o Congresso operário de 1912, embora as 
evidências não permitem identificar ou sugerir se eram irmãos, cônjuges ou tinham outro 
grau de parentesco. Eduardo Guerra foi um dos articuladores do Centro, assinando a carta 
 
400 “Núcleos da Vanguarda”. A Lanterna, São Paulo. nº 169, 14 de dezembro de 1912, p. 4. 
401 André Lobo, Lucila Monteiro, Clarindo Castro, Esmeraldo Mota, A. Castelo Branco, Alberto Abreu, 
Diocciecio Banhos, Alberico Aguiar, Alcides Silva, Júlio Carneiro, Lincoln Pires, Manoel Monteiro, Nestor 
Galvão, José de Almeida, Clara de Almeida, Djalma Caldas, Anatólio Caldas, Ana Monteiro, Eduardo 
Guerra, José Loureiro, José Cezar, Artur Aguiar, Abel Nogueira, José Nogueira, Adolfo Ferron, José 
Conde, Júlio Barbarro, Manoel Salgado e Antônio Dominguez. 
402 “Núcleos da Vanguarda”. A Lanterna, São Paulo. nº 169, 14 dez. 1912, p. 4. 
403 “Núcleos de Vanguarda”. A Lanterna, São Paulo. nº 154, 31 ago. 1912, p. 4. 
 
135 
 
de protesto contra o Congresso operário de 1912 e, embora seu nome não conste nas 
referências sobre o Centro, é factível a hipótese de que Maria Guerra acompanhasse as 
atividades desta organização, tendo em vista seu expresso anticlericalismo. 
Talvez os Monteiros e os Almeidas fossem, assim como Eduardo e Maria Guerra, 
“una familia radical en la que ambos sexos y más de una generación formaron parte de 
la dirigencia local”, como aquelas que eram comuns no movimento operário inglês do 
século XIX, conforme os estudos de Dorothy Thompson.404 Para a São Paulo do mesmo 
período, também há o registro de famílias cujos membros de ambos os sexos eram 
militantes do movimento operário, como os Montorsos e as Cerqueiras, demitidos de 
fábricas paulistanas na década de 1920 por conta do envolvimento em protestos de 
trabalhadores, identificados por Gláucia Flaccaro405 ou ainda, a família Magrassi, cuja 
mãe e filho, Matilde e Luigi Magrassi, eram militantes anarquistas, conforme 
demonstrado por Edilene Toledo.406 
 
* * * 
 
De acordo com Fraccaro “(...) é preciso abordar a presença das mulheres no 
movimento operário tendo em vista as suas pautas específicas e a forma como essas 
reivindicações se inseriam na atuação política mais ampla da classe.”407 Neste sentido, o 
anticlericalismo foi uma pauta assumida com especial ênfase pelas mulheres na cidade de 
Belém nesta conjuntura de fim da década de 1910, evidenciando uma atuação política no 
movimento operário de contestação e de resistência a outras modalidades de opressão que 
não as exclusivamente econômicas. 
Premidas pelas jornadas de trabalho diárias escorchantes, pelas exigências do 
trabalho doméstico e do cuidado com os filhos, pressionadas pelo patriarcado sempre 
tendente a relegá-las ao espaço privado – com o apoio e aquiescência, inclusive, de muitos 
homens trabalhadores –, diversas operárias não encontravam tempo ou interesse pela vida 
sindical e associativa ou por outras manifestações classistas, como a imprensa operária. 
 
404 THOMPSON, Dorothy. Las mujeres y la radicalidad política en el siglo XIX: una dimensión ignorada. 
Mora, n. 19, p. 65-82, 2013. 
405 FRACCARO, G. C. C. Mulheres, sindicato e organização política nas greves de 1917 em São Paulo, op. 
cit., p. 84-85. 
406 TOLEDO, Edilene. Anarquismo e sindicalismo revolucionário: trabalhadores e militantes em São Paulo 
na Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 23. 
407 FRACCARO, G. C. C. Mulheres, sindicato e organização política nas greves de 1917 em São Paulo, op. 
cit., p. 76. 
 
136 
 
No entanto, as trabalhadoras citadinas também marcaram presença nas agitações 
trabalhistas de Belém naqueles conturbados anos; inclusive, com um grau de radicalidade 
que contrasta com as representações de brandura geralmente difundidas pela imprensa 
que as apresentavam como, dóceis, passivas, moderadas e ordeiras; o “sexo frágil”. 
Participando das manifestações de Primeiro de Maio; das assembleias ou de 
meetings; consumindo ou colaborando com a imprensa operária; paralisando o trabalho 
por aumento de salários, em solidariedade à outras categorias ou reivindicando condições 
mais dignas para o trabalho que desenvolviam; arremessando pedras ou ridicularizando 
os trabalhadores fura-greves, elas também fizeram parte da história da classe trabalhadora 
na capital amazônica. Uma história, como se viu, prenhe de processos de dominação, de 
todas as formas e modalidades (econômicas, políticas, de gênero), mas também de ações 
de lutas e resistências, individuais e coletivas, à essas estruturas, onde classe e gênero se 
cruzavam de forma promissora.
 
137 
 
Capítulo 4 
“Nossa Pátria é o Mundo Inteiro (?)”: 
Nacionais e estrangeiros no movimento operário belenense 
 
 
O tema do movimento operário na Primeira República foi tradicionalmente 
associado pela historiografia ao da imigração estrangeira, sobretudo europeia, sendo os 
imigrantes ali vistos e apontados, desde os primeiros trabalhos historiográficos sobre o 
tema, como elementos idealizadores e dinamizadores das manifestações dos 
trabalhadores no Brasil no início do século XX, a eles sendo atribuída o impulsionamento 
dos sindicatos, da imprensa operária e das agitações trabalhistas verificadas em todo o 
país.408 
Claudio Batalhafoi um dos historiadores do trabalho que percebeu e assinalou 
essa identificação pontual que se fazia, sobretudo, entre os militantes operários e 
imigrantes estrangeiros – com destaque para os italianos –, no período da Primeira 
República, e isto antes mesmo do desenvolvimento mais pujante do campo da História 
Social do Trabalho a partir da década de 1980.409 No mesmo diapasão, Edilene Toledo, 
outra historiadora do trabalho no Brasil, estudando a difusão do sindicalismo 
revolucionário na capital paulista no início do século XX, afirmou que sua pesquisa 
“também é sobre imigração, visto que a grande maioria dos trabalhadores em São Paulo 
naquele período era composta por imigrantes”.410 
No entanto, nos últimos anos alguns estudos vêm salientando o forte peso do 
operariado de origem nacional na classe e no movimento operário brasileiro, mesmo em 
regiões onde a presença de imigrantes estrangeiros foi, de fato, bastante significativa, 
como foi o caso de São Paulo411, matizando desta forma a visão daqueles primeiros 
estudos sobre a temática. Aldrin Castellucci, por exemplo, analisando o movimento 
operário da Bahia, indicou que naquele estado “a origem étnico-nacional [era] 
essencialmente brasileira, com predomínio de negros e mestiços, tanto dos artífices 
 
408 Ver: BATALHA, Cláudio H. M. “A historiografia da classe operária no Brasil: trajetórias e tendências”. 
In: FREITAS, Marcos César. Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 2001. 
409 BATALHA, C. H. M. O movimento operário na Primeira República, op. cit., p. 7. 
410 TOLEDO, E. Anarquismo e sindicalismo revolucionário, op. cit., p. 11. 
411 SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza, 1890-1915. São Paulo: 
Annablume/Fapesp, 2003. 
 
138 
 
quanto dos operários”.412 Os trabalhadores imigrantes, vindos de diferentes países como 
Portugal, Espanha e Itália – que por sua vez tinham diferenças regionais acentuadas em 
seus interiores – compartilhavam os espaços de trabalho e de vivências urbanas com os 
trabalhadores de origem nacional, que também eram heterogêneos em termos étnicos, 
englobando negros (sobre os quais pesava o passado escravagista), brancos pobres, 
mestiços, tapuias e descendentes de indígenas. 
Isto fazia com que a classe trabalhadora fosse, sobretudo na região Norte do país, 
um mosaico de pessoas com origens étnicas e nacionais bastante variadas, o que, ao fim 
e ao cabo, não chegava a ser uma exclusividade regional ou mesmo brasileira, uma vez 
que, conforme salientado por Eric Hobsbawm, as classes operárias ditas “nacionais” 
afiguravam-se como quebra-cabeças de grupos heterogêneos e cuja identidade de classe 
não excluía, mas convivia e se relacionava com outras formas de identidade, dentre as 
quais a da nacionalidade, uma das mais significativas e politicamente relevantes.413 
As relações entre trabalhadores de origem nacional com os de origem estrangeira, 
ou mesmo as internas aos estrangeiros, eram variadas: por vezes geraram conflitos, atritos 
e desconfianças, manifestações que atualmente chamaríamos de xenofóbicas por parte 
dos nacionais e de hostilidades por parte dos imigrantes.414 Além do mais, as barreiras 
linguísticas e culturais poderiam ser entraves para a organização classista comum destes 
sujeitos. Sidney Chalhoub evidenciou as tensões e conflitos entre imigrantes e brasileiros, 
especialmente os de cor, derivados da disputa pela própria reprodução da vida na cidade 
do Rio de Janeiro da República Velha: muitas vezes, grupos de imigrantes e de nacionais 
travavam rixas que iriam parar na chefatura de polícia, cuja documentação o autor usou 
para analisar aquelas disputas.415 
Guardadas as devidas proporções, inclusive em termos demográficos, a história 
operária de Belém possuía semelhanças e afinidades maiores com a da então capital 
federal, do que com a de São Paulo: o mercado de trabalho era formado majoritariamente 
por nacionais, com uma forte presença de imigrantes lusitanos e algumas outras minorias 
 
412 CASTELLUCCI, Aldrin A. S. “O associativismo mutualista na formação da classe operária em 
Salvador”. In: BATALHA, Cláudio Henrique de Moraes; MAC CORD, Marcelo (org.). Organizar e 
proteger: trabalhadores, associações e mutualismo no Brasil (séculos XIX e XX). CAMPINAS: Editora da 
Unicamp, 2014, p. 56. 
413 HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho, op. cit., p. 89-112. 
414 RIBEIRO, Gladys Sabino. Mata-Galegos: os portugueses e os conflitos de trabalho na República Velha. 
São Paulo: Brasiliense, 1990. 
415 CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da 
belle époque. 2ª ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2001, p. 64-89. 
 
139 
 
expressivas (como espanhóis e italianos), conforme demonstrado por Edilza Fontes ao 
estudar a presença dos portugueses nos mundos do trabalho de Belém. 
Em outros momentos, no entanto, estas diferenças eram superadas pelos laços de 
solidariedade classista, quando nacionais e estrangeiros planejavam e entravam em 
greves, lado a lado, ou quando conviviam no interior dos sindicatos e organizavam 
manifestações culturais comuns. Assim sendo, o objetivo deste último capítulo é refletir 
acerca da origem étnica e nacional dos militantes que atuaram no contexto em tela, bem 
como as múltiplas relações – fossem de tensão, fossem de solidariedade – entre os 
operários de origem nacional e os estrangeiros nas manifestações trabalhistas ocorridas 
na cidade de Belém no contexto desta pesquisa. 
 
OS IMIGRANTES NA CLASSE E NO MOVIMENTO OPERÁRIO PARAENSES 
A presença de imigrantes estrangeiros na Amazônia se intensificou entre a 
segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XX, devido principalmente, 
mas não exclusivamente, à atração que a economia da borracha exercia nestes 
contingentes, somada a situações específicas em seus países de origem, como crescimento 
demográfico rápido, desemprego, desastres naturais e fatores econômicos que afetaram 
países como Portugal e a Itália. 
Em termos numéricos, os contingentes mais significativos deste fluxo foram de 
portugueses, espanhóis, italianos e de sírio-libaneses, secundados por outros de origem 
europeia: franceses, ingleses e alemães. Tais sujeitos poderiam ter destinos distintos em 
território paraense: para os seringais, para as colônias agrícolas ou para os centros 
urbanos, e ocuparem posições entre os diferentes extratos sociais, desde as camadas 
populares, passando pelos segmentos médios urbanos e, em menor grau, entre as elites 
políticas e econômicas, neste caso, quase sempre como grandes comerciantes ou 
representantes de empresas estrangeiras.416 
O escritor Abguar Bastos fez um rico retrato dos mundos do trabalho de Belém 
no romance Caminho de icamiaba, publicado originalmente em 1932 com o título 
“Amazônia que ninguém sabe”. No enredo do livro, o protagonista Bepe passou um 
tempo no seminário de Belém, em um momento não precisado cronologicamente pelo 
 
416 Sobre os processos imigratórios para a Amazônia na virada do oitocentos para o novecentos ver: EMMI, 
Marília Ferreira. Um século de imigrações internacionais na Amazônia brasileira (1850-1950). Belém: 
NAEA, 2013. STAEVIE, Pedro Marcelo. Imigração estrangeira, economia e mercado de trabalho na 
Amazônia brasileira entre o final do século XIX e o início do século XX. Resgate: Revista Interdisciplinar 
de Cultura, Campinas, v. 26, n. 1, p. 153-172, 2018. 
 
140 
 
autor, mas no contexto do boom da exportação da borracha. Descrevendo a cidade, Bastos 
escreveu: 
 
Desde a madrugada começa o trânsito dos trabalhadores. Turcos ambulantes, 
teque-teque no punho, caixa às costas, conduzem fazendas e quinquilharias. 
Peixeiros lusitanos, com tabuleiros, e peixeiros nacionais, com carrinhos de 
mão, oferecem à freguesia o produto das pescas marítimas e lacustres. Italianos 
sapateiros trazem paus, sobre os ombros; nas extremidades crivam-secabides 
curtos, onde oscilam sapatos, botas, chinelos, alpercatas, tamancos. 
Engraxates, também italianos, nas esquinas, alçam, a tiracolo, as caixas de 
serviço. Espanhóis agricultores empurram carros com verduras e frutas. (...) 
Japoneses itinerantes percorrem as habitações e mostram brinquedos, cortinas, 
ventarolas com faisões estampados, cintos com inscrições, bengalas dos 
colégios de Tóquio. Russos soturnos compram ouro, prata e pedra preciosas 
[sic]. Francos belgas oferecem roupas feitas, de linho ou seda, tapetes, colchas, 
toalhas. Chins [sic] abrem as portas das tascas e engomam para os homens. 
Barbadianos britadores trabalham nas linhas dos bondes e barbadianas 
desnalgadas servem de amas ou vão ao aos mercados (...).417 
 
Parte dos estrangeiros que se estabeleceram nas cidades eram trabalhadores 
qualificados e com algum grau de educação formal, sendo um dos vetores da difusão das 
ideias socialistas de diversos matizes, como o marxismo, o anarquismo e as diversas 
vertentes do reformismo, ou até mesmo o positivismo, que circulavam nas classes 
trabalhadoras dos países da Europa. No caso específico do Estado do Pará, a bibliografia 
disponível, embora pouco numerosa, traz alguns exemplos: é o caso do litógrafo e 
impressor de origem alemã Hans Karl Wiegandt (adaptado para João Carlos Wiegandt), 
que se instalou na então província do Pará, em 1870, permanecendo ali até a sua morte 
em 1908. Vicente Salles analisou a trajetória de Wiegandt, tanto quanto artista quanto 
como militante. No que tange a sua atuação no movimento dos trabalhadores, Salles 
expõe que Wiegandt: 
 
Em 15/8/1879 foi um dos fundadores da Sociedade Beneficente Mecânica 
Paraense, de cuja diretoria participou em várias ocasiões, assim como, mais 
tarde, foi membro do Clube de Artistas Nacionais, criado em 1891, e depois 
do Partido Operário do Pará, 1891, como também do Partido de Artistas e 
Operários do Pará. Esse partido editou em 1901 O Trabalho, que estampou, no 
cabeçalho, a efígie de Karl Marx, desenho de João Carlos Wiegandt.418 
 
Outro exemplo neste sentido foi o de Armando Schivazappa, anarquista de origem 
italiana residente do Pará nos anos finais do século XIX, autor da peça de cunho social 
intitulada A Greve dos Ferreiros, representada em Belém em 1897 pelo grupo teatral Luz 
e União e que, nas palavras de Salles, “muito deu o que falar” na cidade.419 Italianos 
 
417 BASTOS, A. Terra de Icamiaba, op. cit., p. 17-18. 
418 SALLES, Vicente. Marxismo, socialismo e militantes excluídos: capítulos da história do Pará. Belém: 
Paka-tatu, 2001, p. 99-100. 
419 SALLES, Vicente. Canto orfeónico no Pará. Música em contexto, Brasília, v. 1, n. 1, p. 57-71, 2007. 
 
141 
 
também foram responsáveis pela publicação em Belém da folha de edição única Un 
Anniversário: Rivendicazione, que veio a lume no ano de 1901, em memória do 
anarquista Gaetano Bresci, que no ano anterior tinha assassinado o rei italiano Humberto 
I. Este foi, pelo menos pelo que se tem conhecimento até o momento, o único periódico 
declaradamente operário publicado em língua estrangeira na atual Região Norte do país 
no período da Primeira República. Os trabalhadores imigrantes traziam para as terras 
amazônicas, fosse em suas bagagens ou em suas cabeças, ideias, práticas e experiências 
que ajudavam a forjar uma identidade de classe junto aos trabalhadores nacionais. 
Isto não significa, todavia, que os trabalhadores imigrantes estrangeiros fossem os 
únicos a organizar instituições classistas no século XIX. Dos nove fundadores da 
Sociedade Artística Paraense, uma das primeiras associações beneficentes de 
trabalhadores em Belém, inaugurada em 1867, cinco eram paraenses, um era 
pernambucano, um era maranhense e um era natural do Rio de Janeiro, dos quais pelo 
menos três se declararam como negros e um como mulato.420 
Os imigrantes também não foram os únicos emissários das ideias socialistas na 
Amazônia. Elas poderiam chegar na região por outras mãos e outras cabeças. É o caso, 
por exemplo, de alguns jovens provenientes de segmentos médios urbanos, ou mesmo 
das elites, que estudaram na Europa ou outras regiões do país, lá entrando em contato 
com estas ideias e as trazendo ao Pará, ou ainda por meios de leituras realizadas no próprio 
estado, já que estes eram segmentos que tinham acesso maior a livros, jornais e revistas 
estrangeiras. Outros agentes que poderiam ser divulgadores das correntes de pensamento 
socialistas no Pará e no Brasil, se bem que em menor número, foram os trabalhadores 
nacionais autodidatas, que a partir de suas leituras e experiências sociais passavam a 
aderir a essas ideias. 
No Estado do Pará, um exemplo do primeiro caso parece ter sido José Veríssimo 
– escritor, jornalista, crítico literário e um dos fundadores da Academia Brasileira de 
Letras –, que foi livre-pensador, anticlericalista, antimilitarista e leitor entusiasta de Piotr 
Kropotkin, a quem qualificava de “doce anarquista”, e León Tolstói, a quem cognominou 
“anarquista evangélico”, autores para quem, inclusive, dedicou alguns textos.421 No Rio 
de Janeiro, cidade para qual se mudou permanentemente e ganhou projeção intelectual, 
 
420 BRANDÃO, Mathias Ferreira. Filhos do trabalho, irmãos na beneficência: A Sociedade Artística 
Paraense, 1867-1874. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Faculdade de História, Instituto de 
Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2018, p. 39-40. 
421 SALLES, V. Memorial da Cabanagem, op. cit., p. 181-198 
 
142 
 
Veríssimo fez parte do corpo docente da Universidade Popular de Ensino Livre, 
instituição de ensino fundada em 1904 por líderes sindicais e direcionada à classe operária 
carioca.422 
Quanto ao segundo caso, é possível incluir o tipógrafo e poeta Bruno de Menezes 
como um exemplo bastante significativo, já que se formou intelectual e politicamente de 
forma autodidata, trabalhando como encadernador na Livraria Moderna no início da 
década de 1910, aproveitando a oportunidade para ler os livros que ali chegavam para 
encadernação. Como destacou Aldrin Moura de Figueiredo, “foi lá que conheceu a obra 
de Vicente Blasco Ibáñes (1867-1928), Liev Tolstoi (1828-1910), Maksin Gorki (1860-
1904), Karl Marx (1818-1883), Friedrich Engels (1820-1895) e toda uma linhagem 
respeitável de autores reverenciados no universo anarquista”.423 
No entanto, a forte atuação de estrangeiros no movimento operário em Belém se 
estendeu até o início da década de 1910, como pode ser percebido pelas trajetórias de um 
conjunto de militantes que foram expulsos da cidade para seus países de origem devido 
aos seus papéis nos movimentos de contestação da classe trabalhadora, conforme 
detalhado por Edilza Fontes. Trata-se de Antônio da Costa Carvalho (quitandeiro, 
português), Antonino Domingues (sapateiro, espanhol), Manoel Pereira Bastos, Manoel 
Martins e Gentil da Cunha Santos – com profissões e nacionalidades não identificadas – 
que foram expulsos em 1914, devido a participação deles em greves de diversas 
categorias profissionais (sapateiros, carroceiros, quitandeiros, trabalhadores da 
construção civil) engendradas nos primeiros meses daquele ano, além dos choferes 
portugueses Júlio Durval e Eduardo Guerra, do alfaiate espanhol Adolfo Alonso e do 
horteleiro espanhol José Rocha, nestes casos devido a participação na greve dos 
carroceiros, em abril de 1915.424 
Três dos trabalhadores expulsos, Manoel Pereira Bastos, Manoel Martins e Gentil 
da Cunha Santos, não tiveram suas nacionalidades e profissões identificadas pela 
historiadora, embora se possa especular, devido tão somente aos seus nomes, que fossem 
portugueses. Manoel Pereira Bastos representou o Sindicato dos Carroceiros no ato de 
fundação da UGT em 11 de janeiro de 1914,425 o que é apenas um indicativo de sua 
profissão (que contava, aliás, como uma forte presença portuguesa). Nota-se a 
 
422 HARDMAN, F. F.; LEONARDI,V. História da indústria e do trabalho no Brasil, op. cit., p. 326. 
423 FIGUEIREDO, A. M. Rubra poesia, op. cit., p. 70. 
424 FONTES, E. Preferem-se portugueses(as), op. cit., p. 246-280 
425 “No Estado do Pará”. Onze de Janeiro, Belém, nº único, 11 jan. 1918, p. 1. 
 
143 
 
exclusividade da presença de portugueses e espanhóis entre os expulsos nas duas levas, o 
que não chega a surpreender já que estas eram as comunidades de imigrantes mais 
numerosas na cidade. 
Alguns destes sujeitos estavam atuando desde os anos iniciais da década de 1910 
na organização da classe operária na cidade, por meio da correspondência com jornais de 
outros estados (principalmente com o A Lanterna, de São Paulo), na distribuição desses 
mesmos jornais ou de panfletos e outras publicações entre os trabalhadores de Belém, na 
organização de sindicatos e federações sindicais (como a própria UGT), além de 
comporem grupos anticlericais e escolas racionalistas destinadas à filhos de operários, ou 
ainda como oradores em meetings e manifestações públicas. 
A expulsão do país não cortou laços deles com o movimento operário paraense, 
já que eles continuaram trocando correspondência e jornais com os militantes de Belém, 
além prestarem outras formas de apoio. É o caso de Antônio da Costa Carvalho que, já 
no ano seguinte a sua deportação do Pará, atuaria em seu país de nascimento na criação 
da Sociedade de Beneficência Brazileira em Portugal, como suplente no Conselho Fiscal 
dessa organização.426 
A manutenção desse contato fica mais evidente na publicação, em 1918, do Onze 
de Janeiro, edição comemorativa do quarto aniversário de fundação da UGT, onde foi 
publicada uma carta aberta de Silvestre Costa – trabalhador da construção civil e militante 
residente em Belém – dirigida a Costa Carvalho, que nela é qualificado como amigo, 
mestre e camarada. Na mesma publicação apareceu também uma pequena nota que 
informava o falecimento de Júlio Durval, expulso do Brasil em 1915, por tuberculose, na 
Espanha.427 
Gentil da Cunha Santos, também expulso do país em 1914, retornaria a Belém 
pouco tempo depois, voltando a atuar como uma liderança destacada no meio operário. 
Ele já se encontrava no Pará no início de 1917, quando endereçou de lá uma carta 
destinada à redação do jornal paulistano Guerra Sociale, se apresentando como 
responsável pela correspondência do grupo de afinidade anarquista belemense Os 
Perseguidos.428 No contexto da greve dos motorneiros e condutores da Pará Eletric, de 
1918, o jornal Estado do Pará, um dos diários de maior circulação da cidade, se referiu à 
Gentil da Cunha nos seguintes termos: 
 
426 “Sociedade de Beneficência Brazileira em Portugal”. Estado do Pará, Belém, nº 1.373, 15jan.1915, p.2. 
427 Onze de Janeiro, Belém, Edição única, 11 jan. 1918, p. 2 e 4. 
428 “Bolletino dell’Alleanza Anarchica”. Guerra Sociale, São Paulo, nº 38, 27 jan. 1917, p. 1. 
 
144 
 
 
Os motorneiros e conductores que se recusaram ao trabalho foram a isso 
levados pelas insinuações de Gentil da Cunha, secretário da União Geral dos 
Trabalhadores. Este indivíduo, que é dotado de espírito de verdadeiro 
anarchista, tem sido em nossa capital a cabeça de várias greves, como ainda 
ultimamente, em que desempenhou papel saliente, na dos operários da Port of 
Pará, em Val-de-Cães. Gentil da Cunha, que é por demais conhecido entre o 
proletariado, foi o companheiro dos célebres grevistas há tempos deportados 
de Belém, Antônio Mota de Carvalho [sic] e Alonso Guerra [sic], dois 
elementos perturbadores que foram da ordem pública. Seria bom se as 
autoridades voltassem suas vistas para Gentil da Cunha, que constitui uma 
série ameaça à tranquilidade da população.429 
 
Outro dos trabalhadores expulsos do Pará em 1914 e que retornaria anos mais 
tarde ao Brasil foi o sapateiro espanhol Antonino Domingues – por vezes teve o nome 
grafado como “Antônio” e o sobrenome como “Domingues” ou “Dominguez”. Nascido 
na região de Ourense, não se sabe ao certo quando ele imigrou para o Brasil, mas ao que 
tudo indica ele era ainda muito jovem quando se instalou no país. Na primeira metade da 
década de 1910 já exercia o ofício de sapateiro e militância política em Belém, 
participando das greves dos sapateiros, carroceiros e horteleiros ocorridas em 1914, 
quando então foi expulso do país devido a essa atuação. Na década de 1920, Domingues 
voltou ao Brasil, se instalando desta vez em São Paulo e continuando militância muito 
ativa, tanto nos sindicatos dos sapateiros quanto na imprensa operária, o que lhe rendeu 
nada menos que seis prisões entre 1921 a 1924.430 
As trajetórias erráticas e instáveis destes sujeitos vão ao encontro “a mobilidade 
geográfica e ideológica dos militantes e o papel fundamental da imigração na constituição 
do sindicalismo como um fenômeno transnacional”, já asseverada por Edilene Toledo. A 
autora pontuou ainda que “essa circulação de ideias era de mão dupla: os imigrantes 
traziam e levavam ideias e experiências”.431 Desta forma, alguns dos trabalhadores 
imigrantes que se engajaram no movimento operário tiveram seus primeiros contatos com 
a vida sindical e com a militância política quando já residiam no Brasil, vindo a exercer 
o ativismo em seus países de origem quando regressavam, deportados ou 
espontaneamente, ou ainda em outros países em processos de (re)emigração. Além disso, 
também atuavam como fios na rede de contatos que se formavam entre os núcleos 
militantes de diversos países, dinamizando troca de jornais, correspondências e 
 
429 “A Greve de Motorneiros e Condutores da Pará Eletric”. Estado do Pará, Belém, nº 2.708, 11 out. 1918, 
p. 1. 
430 BELLO JÚNIOR, Demétrio Quiros. Sapateiros militantes em São Paulo na década de 1920: lutas, 
debates, caminhos. Escrita da História, Juiz de Fora, MG, 60-87, 2017. 
431 TOLEDO, E. Anarquismo e sindicalismo revolucionário, op. cit., p. 17. 
 
145 
 
experiências, quase sempre movidos pelo internacionalismo que animava parte 
significativa das lideranças de trabalhadores no período anterior a Grande Guerra. 
Um exemplo dessa circulação de mão dupla de militantes foi o de José Maria 
Ferreira de Castro, jornalista e escritor autor do romance A Selva. Ferreira de Castro 
migrou para a Amazônia em 1911, com apenas 12 anos de idade, para trabalhar como 
seringueiro e depois como caixeiro no seringal Paraíso, nas margens do Rio Madeira. 
Permaneceu na região amazônica, entre Belém e Manaus, vivendo de pequenos bicos e 
de sua atividade jornalística, até 1919 quando regressou para sua pátria de origem. Na 
década de 1920, deu vazão à sua militância anarquista, ideal que cultivou até o fim da sua 
vida, passando a escrever para jornais operários como Renovação e A Batalha, ambos 
ligados a Confederação Geral do Trabalho (CGT) portuguesa, de tendência anarco-
sindicalista. Na mesma década, também assumiu alguns cargos no sindicato dos 
jornalistas de Portugal.432 
A passagem de Ferreira de Castro pela Amazônia ainda é obscura, já que recebeu 
relativamente pouca atenção dos estudiosos e críticos literários, mas alguns indícios 
apontam para o contato do jornalista e escritor lusitano com as ideias socialistas libertárias 
ainda no Brasil. É o caso de um artigo publicano em um jornal manauara, no ano anterior 
ao seu regresso a Portugal, cuja temática era a comunidade lusitana na capital do 
Amazonas; em determinado momento do texto, o escritor escreveu que: 
 
O movimento associativo português em Manaus, suplanta sem embargo algum 
o movimento associativo de Belém, do Maranhão, do Ceará, de Pernambuco e 
de muitos outros estados. E é sem dúvidas pelas sociedades 
transcendentemente orientadas que se consegue o alevantamento em conjunto 
duma colônia, como nas comunas práticas idealizadas pelos anarquistas.433 
 
A citação indica um contato de Ferreira de Castro com as ideias do socialismo 
libertário; e a comparação com juízo de valor positivo entreas “comunas práticas 
anarquistas” e a comunidade lusitana em Manaus indicam a simpatia do jornalista pela 
corrente de pensamento pela qual iria militar nos anos seguintes. Abrahin Baze registrou 
que em sua estadia em Belém, “(...) a despeito de concentrado e tímido, Ferreira de Castro 
 
432 CABRITA, Maria João. No rasto da passagem de Ferreira de Castro pelos suplementos e revista de A 
Batalha (1919-1927). Cultura: Revista de História e Teoria das Ideias, Lisboa (Portugal), v. 26, 119-137, 
2009; ALVES, Ricardo António. Anarquismo e Neo-Realismo: Ferreira de Castro nas encruzilhadas do 
século. Lisboa (Portugal): Âncora Editora, 2002. 
433 CASTRO, Ferreira de. “A União Portuguesa em Manaus: Impressões de um jornalista luso”: Imparcial, 
Manaus, nº 139, 17 maio 1918, p. 1 (Grifo nosso). 
 
146 
 
participou, com sua oratória, da Associação Operária Paraense e fez propaganda das suas 
generosas ideias de emancipação humana”.434 
Embora não tenham sido encontrados nos jornais operários indícios de uma 
aproximação mais ativa e próxima de Ferreira de Castro com as organizações operárias e 
com as greves em Manaus ou em Belém, é presumível que ele não estivesse alheio a elas, 
já que muitos de seus compatriotas estavam envolvidos nas agitações trabalhistas. Ele 
acabou por levar em sua bagagem algumas vivências que iriam o influenciar a militar nos 
movimentos operário e anarquista em seu país de origem. Mapeando a produção de 
jornais portugueses na Amazônia no período de abrangência da dissertação, Geraldo Sá 
Peixoto Pinheiro também aponta para os vínculos de intelectuais portugueses e o 
anarquismo. Diz ele: 
 
De 1913 até o período compreendido entre os anos de 1917 e 1919, quando 
circulou, na cidade de Belém, o jornal Portugal, existem informações dando 
conta da existência de alguns outros jornais, a exemplo do Portugal Moderno 
(1915), da Gazeta Lusitana (1916), do Record (1918), e d’O Lusitano (1919). 
Os jornais A Revolta, editado em Belém no ano de 1919, O Gráfico, que 
circulou em 1929 como órgão da União Gráfica do Pará, e o hebdomadário A 
luta, de 1935, não eram jornais propriamente exclusivos da colônia portuguesa, 
não obstante reunirem em seus quadros uma expressiva presença de imigrantes 
portugueses letrados de orientação anarquista, como, por exemplo, Marques da 
Costa, figura central do Grupo Aurora Libertária e diretor do jornal A 
Revolta.435 
 
 
Outro exemplo bastante representativo de imigrante estrangeiro que atuou no 
movimento operário brasileiro e teve grande mobilidade geográfica, ajudando a construir 
redes sociais e teias de contatos entre militantes de diferentes estados foi José Marques 
da Costa (imagem 3), de origem portuguesa, tinha o ofício de carpinteiro quando chegou 
ao Brasil, entre o fim de 1917 e o começo de 1918, fixando-se inicialmente em Manaus. 
Não foram encontradas referências a atuação dele em Portugal, embora a hipótese de ter 
trazido em sua bagagem alguma experiência sindical e militante não deva ser 
descartada.436 Na capital amazonense, Marques da Costa não tardou em contribuir para a 
fundação da organização corporativa de sua área de trabalho, sendo eleito e ocupando o 
 
434 BAZE, Abrahim. Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia. Manaus: Editora Valer, 
2012, p. 185. 
435 PINHEIRO, Geraldo Sá Peixoto. Imprensa, política e etnicidade: portugueses letrados na Amazônia 
(1885-1937). Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Letras / Universidade do Porto, Porto 
(Portugal), 2012, p. 109. 
436 Cf. https://marquesdacosta.wordpress.com/about/ consultado em 28/08/2020, as 15:03 hrs. 
https://marquesdacosta.wordpress.com/about/
 
147 
 
cargo de 1º Secretário da Associação de Classe das Quatro Artes de Construção Civil no 
Amazonas.437 
 
Imagem 3 
José Marques da Costa 
 
Fonte: https://marquesdacosta.wordpress.com/about/ consultado em 27/03/2023. 
 
No mesmo ano, ele se utilizou de um jornal de grande circulação da cidade para 
rebater ataques xenofóbicos contra lusitanos publicados na Gazeta da Tarde por um dos 
seus redatores, Ageu Ramos.438 Em tréplica publicada no mesmo jornal, novamente 
respondendo a ataques da Gazeta, Marques da Costa escreveu, provavelmente 
respondendo a “acusação” de ser socialista, que: “a política que professo não é a 
socialista, portanto, faltais a verdade asseverando que eu tenho apregoado a divisa de tais 
políticos”.439 Esta passagem pode indicar tanto um período de formação política inicial 
quanto uma adesão ao anarquismo – vertente a qual irá se filiar nos anos seguintes. Seja 
por conta dos atritos causados por sua posição anti-xenófobica seja em busca de melhores 
condições de vida ou emprego, ainda em 1918, Marques da Costa se mudou para Belém. 
Na capital do Estado do Pará, onde se estabeleceu entre o final de 1918 e o início 
de 1919, o carpinteiro lusitano intensificou sua militância, se integrando ao grupo de 
afinidade Aurora Libertária e se tornando ali o redator-principal do periódico porta-voz 
da organização, o A Revolta, que circulou na segunda metade de 1919, sendo dedicado 
principalmente aos trabalhadores da construção civil. Além d’A Revolta, ele contribuiu 
com outros jornais operários publicados em Belém no período, assinando artigos em O 
 
437 A Capital, Manaus, n° 252, 29 mar. 1918 
438 COSTA, J. Marques. “O Sr. Aggeo Ramos, a sua gazeta e a colônia portuguesa”. A Capital, Manaus. 
n° 319, 6 jun. 1918, p. 2. 
439 COSTA, J. Marques. “O caso da Gazeta”. A Capital, Manaus, n° 319, 6 jun. 1918. 
 
148 
 
Semeador e no A Voz do Trabalhador. Também atuou nos meios sindicais como delegado 
da Federação das Classes da Construção Civil na Federação das Classes Trabalhadoras 
do Pará, proferindo um discurso nas manifestações do dia dos trabalhadores de 1919440 
e concedendo uma entrevista ao Estado do Pará em defesa dos trabalhadores que 
empreendiam uma greve pela jornada de oito horas em maio do mesmo ano.441 
A migração de Marques da Costa pode ter servido para intensificar os contatos 
entre os trabalhadores de ambas as capitais amazônicas. Com efeito, talvez não por 
coincidência, em meados de 1919 um jornal operário belemense noticiou o recebimento 
de um telegrama dos trabalhadores do ramo da construção civil de Manaus informando 
que se encontravam em parede reivindicando a jornada de oito horas e que alguns mestres 
de obras se dirigiam à Belém para contratarem pessoal como forma de abortar o 
movimento. Rogavam também pelo apoio dos trabalhadores da capital do estado vizinho, 
no que foram atendidos: a FCT distribuiu um boletim chamando a atenção dos 
trabalhadores belemenses para esse fato.442 
Em 1920, Marques da Costa migrou novamente, desta vez para a então capital do 
país. Naquela cidade, foi indicado como secretário-geral da Federação Operária do Rio 
de Janeiro (FORJ) e colaborou com os jornais operários na primeira metade da década de 
1920, como Renovação, O Emancipado, Spartacus; também assinou a seção trabalhista 
do comercial-diário A Pátria. Em 1924 foi expulso do país, no bojo da repressão a revolta 
tenentista paulista daquele ano.443 
 
ALGUNS PERCURSOS SINGULARES 
As trajetórias de Marques da Costa e Ferreira de Castro também coincidem em 
outro fenômeno histórico: a saída de estrangeiros da região amazônica no final da década 
de 1910. Apesar deste peso inegável nos períodos iniciais de formação da classe operária 
em Belém, no que tange a conjuntura de agitações trabalhistas nos anos finais da década, 
alguns fatores apontam para o declínio da participação dos imigrantes e o predomínio dos 
nacionais, fosse na composição da classe fosse em seus movimentos. Além das expulsões 
de importantes lideranças entre 1914 e 1915, a crise econômica pela qual a região passava 
foi um fator importante para a diminuição do fluxo migratório – e mesmo sua inversão – 
devido a perda do principal atrativo para os deslocamentos para a região (a pungênciada 
 
440 “1º de maio”. O Semeador, Belém, nº 4, 21 maio 1919, p. 3. 
441 “Movimento Operário”. Estado do Pará, Belém, nº 2.918, 10 maio 1919, p. 2. 
442 “De Manaus”. O Semeador, Belém, nº 5, 14 jun. 1919, p. 1. 
443 https://marquesdacosta.wordpress.com/about/ 
https://marquesdacosta.wordpress.com/about/
 
149 
 
economia da borracha), que por sua vez foi agravada devido a Guerra, além de gerar 
processos de (re)emigração, com novos deslocamentos, seja dos que estavam 
estabelecidos na Amazônia e decidiam voltar para os seus países de origem, seja dos que, 
da Amazônia optavam para outras regiões do Brasil – como Ferreira de Castro e Marques 
da Costa – e do mundo, sempre em busca de emprego e de melhores condições de vida e 
trabalho. 
As perseguições e expulsões, aliás, não cessaram após as greves de 1914 e 1915, 
como atestam algumas notas na imprensa operária. Em outubro de 1919, o periódico O 
Semeador publicou a seguinte nota de falecimento: 
 
Tivemos notícia de Orence [sic] (Espanha) participando o falecimento do 
nosso velho companheiro de lutas Lourenço, que por motivos de perseguições 
na última greve, foi obrigado a embarcar. 
Aos camaradas marceneiros, cujo quadro pertencia o morto, enviamos os 
nossos pezames.444 
 
A greve referida provavelmente foi a parede geral de maio, na qual os marceneiros 
tiveram uma participação ativa. A pequena nota não detalhou se Lourenço foi expulso ou 
se embarcou por conta própria, para escapar da repressão ou do desemprego que se abateu 
sobre aqueles que aderiram ativamente às greves. A migração de trabalhadores engajados 
não era uma exclusividade dos estrangeiros, mas também afetava os nacionais: é o caso 
dos marceneiros José Arias, primeiro secretário do grupo de propaganda Os Semeadores 
e filiado à União dos Marceneiros e Artes Correlativas, e David Ottoni, secretário de 
expediente da União dos Marceneiros, que rumaram para Pernambuco após serem 
incluídos em uma lista negra por terem participado da última greve, e posteriormente para 
o Rio de Janeiro, onde Arias também acabou falecendo no final de setembro de 1919.445 
Seja pelos fatores econômicos ou seja perseguição política, a tendência parece ter 
sido de redução na presença de estrangeiros entre o operariado amazônico. Segundo o 
recenseamento geral empreendido pelo Departamento de Estatística do Brasil no ano de 
1920, dos 236.402 habitantes de Belém enumerados naquele ano, 218.184 eram 
brasileiros natos, ao passo que apenas 17.847 – menos de 10% da população da cidade – 
eram estrangeiros (371 pessoas tiveram sua nacionalidade ignorada). Os estrangeiros 
eram majoritariamente oriundos de países dos continentes europeu e americano. Em 
números absolutos, a maior comunidade diaspórica na cidade – pelos números oficiais do 
 
444 “Falecimentos”. O Semeador, Belém, nº 23, 25 out. 1919, p. 2. 
445 “José Arias”. O Semeador, Belém, nº 19, 27 set. 1919, p. 4; “Jozé Árias”. A Revolta, Belém, nº 6, 4 out. 
1919, p. 3-4. 
 
150 
 
censo – continuava sendo a dos portugueses, com cerca de 12.083 pessoas (a esmagadora 
maioria, portanto); os espanhóis ficavam em segundo lugar, com 2.903 imigrantes, bem 
acima dos italianos que somavam 781 e que eram, por sua vez, seguidos de perto pelos 
“turco-asiáticos” (isto é, sírios e libaneses) com 773 indivíduos.446 Nota-se um 
predomínio acentuado de imigrantes da Europa Meridional e especificamente de países 
de fala latina, com cerca de 88% de todos os imigrantes residentes em Belém naquele 
ano, sendo oriundos de Portugal, Espanha e Itália. 
Na capital paraense, os imigrantes estrangeiros poderiam compor tanto a classe 
trabalhadora quanto seus segmentos médios e mesmo as elites econômicas e sociais. 
Dessa forma, havia no Pará em 1920, ainda segundo o censo daquele ano, 10 
estabelecimentos comerciais pertencentes individualmente a italianos, que empregavam 
156 operários; 45 estabelecimentos pertencentes a portugueses, que empregavam 321 
trabalhadores; 18 pertencentes a espanhóis, que empregavam 90 assalariados; e 2 
estabelecimentos cujos proprietários eram sírios, que empregavam 8 trabalhadores.447 Os 
gerentes das firmas prestadoras de serviços, que mantinham laços sociais e de amizade 
com a alta sociedade belemense, frequentemente, eram estrangeiros, como Walter Binns, 
gerente da Pará Eletric, além do português José Pádua Andrade, gerente da fábrica de 
cordas Perseverança, ambos se envolveram em conflitos trabalhistas naquela conjuntura, 
conforme visto em capítulos anteriores. 
Já no relatório anual enviado à Assembleia Legislativa em 1918, pelo então 
governador do estado Lauro Nina Sodré, é afirmado que havia 2.242 operários 
empregados nas fábricas e manufaturas no Estado do Pará, dos quais 1.788 eram 
brasileiros natos e 454 (cerca de 20% do total), estrangeiros.448 O relatório da Marinha, 
datado do mesmo ano, indicou que haviam se matriculado na Capitania do Porto do Pará 
896 homens, sendo 713 brasileiros e 19 estrangeiros na primeira categoria, e 164 
brasileiros na segunda categoria.449 Em conjunto, esses dados são indicativos fortes de 
que estrangeiros compunham uma parcela pequena da classe trabalhadora local naquele 
momento de crise. 
 
446 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. 328. 
447 BRASIL. Ministério da Agricultura. Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil de 1920. Vol. IV. 
Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926, p. LXI-LXIV. 
448 ESTADO DO PARÁ. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Pará em sessão 
solene de abertura da 1ª reunião de sua 10ª legislatura a 7 de setembro de 1918, pelo Governador Lauro 
Sodré. Pará [Belém]: Typ. da Imprensa Official do Estado, 1918, p. 40. 
449 BRASIL. Ministério da Marinha. Relatório Apresentado ao presidente dos Estados Unidos do Brazil 
por Alexandrino Faria de Alencar. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1918, p. 197. 
 
151 
 
Seja como for, é importante salientar que haviam imigrantes de algumas 
nacionalidades que tendiam a ocupar profissões específicas. Edilza Fontes aponta para o 
fato de que os portugueses que haviam migrado para o Pará alguns anos antes, entre a 
década final do século XIX e a inicial do XX, tenderam a se concentrar em algumas 
atividades específicas, como caixeiros no comércio local – que era dominado em grande 
medida por comerciantes lusitanos – padeiros, carroceiros, aguadeiros, dentre outros. 
Comentários na imprensa belemense levam a inferir que os espanhóis tendiam a trabalhar 
como empregados em hotéis e restaurantes. Theodoro Braga, em obra de exposição sobre 
a cidade de Belém publicada em 1916, referindo-se ao serviço de carregadores, afirmou 
se ele “feito por essa classe de trabalhadores, em sua maioria de portugueses” e o 
considerava “satisfactório”450; já em relação aos engraxadores, Braga expôs que “este 
serviço é[ra] feito exclusivamente por italianos com uma perícia e limpeza já 
conhecidas”.451 Como de todas essas categorias não se dispõe de dados quantitativos, o 
quadro resultante é bem mais opaco. 
A identidade de classe não era a única alternativa que se colocava a esses sujeitos, 
nem mesmo o único critério para a formação de organizações coletivas. Abordando a 
constituição de sociedades mutualistas de cunho étnico dos espanhóis em Belém do Pará, 
Aline de Kássia Malcher Lima explanou que: 
 
O surgimento de associações de auxílio mútuo correspondeu a formas de 
reconstrução de suas teias de sociabilidade, de identidade e uma rede de 
suporte em caso de necessidade. De certo que nem todos os imigrantes de fato 
constituíram-se membros de tais associações, pois durante as primeiras 
décadas do século XX o fortalecimento do movimento sindical também 
possibilitava mecanismos de sociabilidade, estas atreladas ao mundo do 
trabalho. Contudo, diante de um contexto de sérios embates no mundo de 
trabalho,