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GENÉTICA PROF.A DRA. GISELE NOVAKOWSKI Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-reitor: Prof. Me. Ney Stival Gestão Educacional: Prof.a Ma. Daniela Ferreira Correa PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Gabriela de Castro Pereira Letícia Toniete Izeppe Bisconcim Luana Ramos Rocha Produção Audiovisual: Heber Acuña Berger Leonardo Mateus Gusmão Lopes Márcio Alexandre Júnior Lara Gestão de Produção: Kamila Ayumi Costa Yoshimura Fotos: Shutterstock © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Só- crates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande res- ponsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a socie- dade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conheci- mento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivên- cia no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de quali- dade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mer- cado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR UNIDADE 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO .............................................................................................................................................................4 1 - UM BREVE HISTÓRICO........................................................................................................................................5 2 - DESCOBERTA E ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO ................................................................................8 3 - COMPLEMENTARIEDADE ENTRE AS BASES NITROGENADAS ......................................................................9 4 - A DESCOBERTA DE WATSON E CRICK ............................................................................................................. 10 5 - DNA – ÁCIDO DESOXIRRIBONUCLEICO ............................................................................................................11 6 - ORGANIZAÇÃO DO DNA NA CÉLULA ................................................................................................................ 12 7 - REPLICAÇÃO DO DNA ......................................................................................................................................... 13 8 - ESTRUTURA DO RNA E TRANSCRIÇÃO .......................................................................................................... 15 9 - TRANSCRIÇÃO ................................................................................................................................................... 17 10 - TRADUÇÃO – SÍNTESE PROTEICA .................................................................................................................. 17 11 - CÓDIGO GENÉTICO ............................................................................................................................................ 18 12 - MUTAÇÃO ...........................................................................................................................................................20 13 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................................. 21 ORIGEM, ÁCIDOS NUCLEICOS, SÍNTESE PROTEICA PROF.A DRA. GISELE NOVAKOWSKI ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: GENÉTICA 4WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO A Genética é a área das Ciências Biológicas que estuda os mecanismos de hereditariedade, ou seja, busca compreender a transmissão de características entre gerações. Todavia, com o desenvolvimento dessa Ciência, pode-se até ampliar esse conceito inicial, pois alguns autores indicam que a Genética é o estudo de todos os aspectos dos genes (por exemplo, composição, função, interação com o ambiente ou outros genes). Sabe-se que a Genética como uma Ciência se desenvolveu apenas a partir do século XX. Todavia, a hereditariedade desperta a curiosidade do homem há séculos. As primeiras sugestões acerca do mecanismo de hereditariedade eram provenientes do conhecimento empírico, ou seja, eram baseadas na observação e na experiência das pessoas, portanto, correspondiam ao senso comum. Por exemplo, a ideia de selecionar características como o tamanho de plantas e animais surgiu da observação de que os descendentes são semelhantes aos pais. Nesse contexto, discutiremos como foi o desenvolvimento da Genética a partir do conhecimento empírico, e depois abordaremos os primeiros fundamentos dessa importante Ciência. Para compor esse material foram utilizados especialmente as seguintes bibliografias: GRIFFITHS et al., (2011); SNUSTAD e SIMMONS (2013) e THOMPSON (2008). 5WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - UM BREVE HISTÓRICO Seguindo o princípio da observação (empirismo) e também fundamentados em inferências (deduções), os filósofos gregos forneceram várias explicações para a hereditariedade. Alcmeon de Crotona (500 a.C.) foi um discípulo de Pitágoras que acreditava que os homens e mulheres tinham sêmen e que este se originava no cérebro. Ainda segundo esse filósofo, o sexo das crianças era determinado pela preponderância do sêmen de um dos pais, ocorrendo hermafroditismo se os dois estivessem em igual proporção. O preformismo ou pré-formação de Anaxágoras (400 a.C.) propunha que o sêmen era apenas masculino e continha um indivíduo pré-formado, com órgãos completos, e função da fêmea (mãe) seria apenas abrigá-lo (Figura 1). Anaxágoras também sugeriu que haveria uma distinção entre homens e mulheres durante a gestação, tendo em vista que meninos seriam gerados do lado direito e as meninas do lado esquerdo do corpo materno. Figura 1 - Preformismo mostrando o homúnculo encapsulado na célula germinativa oriunda do sêmen. Fonte: Wikipedia (2017). 6WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Segundo a Pangênese, ou a Teoria das Gêmulas de Hipócrates (370 a.C.), cada órgão ou parte do corpo de um indivíduo produziria sementes hereditárias chamadas de gêmulas, as quais seriam transmitidas aos filhos (prole) durante a concepção. Como o novo indivíduo, denominado homúnculo, era formado a partir das gêmulas de ambos, macho e fêmea, isso explicaria a semelhança dos filhos com os pais (Figura 2). A Pangênese de Hipócrates, dessa forma, buscava explicar a transmissão de caracteres, inclusive os adquiridos, pois as gêmulas poderiam ser modificadas em um indivíduo adulto, que passaria essa mudança a sua descendência. Essa teoria perdurou durante séculos e foi aceita até mesmo pelo ilustre evolucionista Charles Robert Darwin (1809-1882), que na ausência de explicações científicas acerca da transmissão dos caracteres entre gerações, utilizou-se da Pangênese para explicar a hereditariedade. O fato é que essas ideias seguiam a visão antropocêntrica e predominantemente masculinizada da época, assim sendo, refletiam um momento social-histórico. Figura 2 - Mecanismo da Pangênese. Fonte: a autora. Embora a genética tenha se desenvolvido no século XX, sua origem está fundamentada nos trabalhos pioneiros do monge e naturalista Gregor Michael Mendel (Figura 3) durante o século XIX.Assim, os estudos de Mendel serviram como base para os fundamentos essenciais da genética, pois explicou os mecanismos de hereditariedade. Figura 3 - Monge agostiniano Gregor Michael Mendel, o “pai da genética”. Fonte: Wikimedia Commons (2015). 7WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Mendel foi o responsável pelos clássicos cruzamentos entre plantas de ervilhas com diferentes características (p ex. tamanhos de plantas variados, sementes de diferentes cores e texturas) (Quadro 1). A partir dos resultados dos cruzamentos, ele propôs que a existência de um par de unidades elementares de hereditariedade, que mais tarde foram denominadas de genes. Ele também sugeriu que existem diferentes formas de genes. Mais tarde, tais formas originalmente propostas por Mendel foram denominadas de alelos. Tomando o exemplo das ervilhas, uma das formas do gene (alelo) para a altura da planta permite que ela alcance 2 metros enquanto outra forma limita o seu crescimento em meio metro. Quadro 1 - Caracteres estudados por Mendel em plantas de ervilha. Fonte: Wikimedia Commons (2014). Mendel enfatizou que as diferentes formas dos fatores hereditários (alelos) são reunidas em uma planta em razão da fecundação e depois são separados durante a produção de seus gametas. Ele constatou ainda que alelos de diferentes genes são herdados de modo independente uns dos outros. Os resultados do trabalho desse sacerdote foram publicados em anais de uma revista local e não houve muita repercussão. Cerca de 15 anos mais tarde o artigo de Mendel foi redescoberto e vários pesquisadores inspiraram-se nele para realizar cruzamentos, utilizando, desta vez, outras plantas, animais e microrganismos. Até meados do século XX não se sabia ao certo o que era o material genético e como era transmitido. Mas, os cientistas já concordavam que esse material genético deveria atender a três requisitos: 1) Seria preciso que se multiplicasse e fosse transmitido aos descendentes; 2) Seria necessário que gerenciasse os principais eventos celulares; e 3) Deveria ter potencial de modificar-se, pois isso explicaria a diversidade de indivíduos em uma população. 8WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 2 - DESCOBERTA E ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Finalmente, a partir de meados do século XX, demonstrou-se que genes eram constituídos de moléculas complexas denominadas ácidos nucleicos. A descoberta dos ácidos nucleicos começou por volta de 1860, a partir das investigações do médico suíço Friedrich Miescher em células brancas (leucócitos) encontrados em pus. Miescher extraiu e purificou um precipitado que sempre obtinha em seus preparados com pus. Ele observou que esse precipitado diferia quimicamente de outras substancias proteicas já conhecidas e demonstrou que tal substância também estava presente em outros tipos celulares como tecidos de fígado, rim, testículo e levedura. Pelo fato de estar concentrada no núcleo das células, Miescher denominou a nova substância de nucleína. Mais tarde, em 1889, Richard Altmann descobriu que a nucleína tinha caráter ácido e sugeriu que fosse denominada de ácido nucléico. Até o final de 1940 pesquisadores elucidaram a composição química e estrutural de cada unidade básica formadora do ácido nucleico, ou seja, o nucleotídeo. Daí em diante, várias correntes de pesquisa mostraram que o elemento que contém a informação biológica é o DNA. Cada nucleotídeo é composto por: 1) uma molécula de monossacarídeo de 5 carbonos, isto é, uma pentose; 2) uma molécula de fosfato; 3) uma molécula nitrogenada (chamada de base nitrogenada) (Figura 4). No ácido ribonucleico ou RNA, a pentose é a ribose, enquanto no ácido desoxirribonucleico a pentose é a desoxirribose. Seja DNA ou RNA, o que difere um nucleotídeo do outro é o tipo de base nitrogenada. No RNA temos como base nitrogenada a adenina (A), citosina (C), guanina (G) e uracila (U). No DNA temos A, C, G e timina (T). Figura 4 - Estrutura de um nucleotídeo. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons (2012). 9WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 3 - COMPLEMENTARIEDADE ENTRE AS BASES NITROGENADAS As descobertas do cientista austríaco Erwin Chargaff levaram ao entendimento de que a quantidade de adenina era sempre igual à de timina e que a quantia de citosina era equivalente à de guanina. Essa descoberta sobre a complementariedade entre bases nitrogenadas foi denominada de regra de Chargaff. Associando os achados de Chargaff com estudos posteriores sobre estrutura dos ácidos nucléicos, ficou evidente que entre cadeias complementares de DNA, a adenina ligava-se à timina, e a guanina à citosina. Hoje sabemos que entre A e T formam-se duas pontes de hidrogênio e entre C e G formam-se três pontes de hidrogênio (Figura 5). No RNA não há timina, então, a adenina pareia-se com uracila. Figura 5 - Cadeia dupla de DNA mostrando a complementariedade entre as bases nitrogenadas. Adenina se pareia com timina através de duas pontes de hidrogênio, e citosina com guanina por meio de três pontes de hidrogênio. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons (2011). 10WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Em termos de estrutura química, as bases nitrogenadas são compostos orgânicos de cadeia fechada, conforme pode ser evidenciado na figura 6. São descritos dois tipos de base nitrogenada: as Púricas e as Pirimídicas. As bases púricas constituem-se de dois anéis, são elas: adenina e guanina. As bases pirimídicas apresentam apenas um anel e são elas: citosina, timina e uracila. 4 - A DESCOBERTA DE WATSON E CRICK Reunindo as informações existentes sobre o DNA, em 1953 o biólogo James D. Watson e o físico Francis H. Crick propuseram o modelo de dupla hélice para explicar a estrutura tridimensional desse ácido nucleico. Segundo esse modelo, a molécula de DNA é constituída por duas cadeias antiparalelas e complementares de nucleotídeos. Ainda conforme o modelo, as cadeias de DNA se ligam através de pontes de hidrogênio formadas entre as bases nitrogenadas de cada uma. Os nucleotídeos de cada cadeia unem-se por ligações do tipo éster entre o fosfato de um nucleotídeo e a pentose de outro. Como cada fosfato participa de duas ligações éster (uma com o nucleotídeo do qual faz parte e outra com o nucleotídeo seguinte) a ligação é denominada fosfodiéster (Figura 6). Figura 6 - Estrutura do DNA. A seta vermelha indica as pontes de hidrogênio formadas entre as bases nitrogenadas. Fonte: Wikipedia (2012). 11WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 5 - DNA – ÁCIDO DESOXIRRIBONUCLEICO Segundo o modelo de dupla hélice do DNA, as cadeias da molécula se dobram em torno de um eixo imaginário e de modo antiparalelo. A extremidade 5’ (lê-se “cinco linha”) de uma cadeia é pareado com a extremidade 3’ (lê-se três linha) da outra cadeia. Os termos 5´ e 3´referem-se ao fato de que a ligação do fosfato se dá no carbono 5 e 3 da desoxirribose, respectivamente (Figura 7). Figura 7 - Estrutura do DNA mostrando as extremidades 5´ e 3´. Fonte: Wikimedia Commons (2010). Considerando a estrutura tridimensional, os esqueletos de fosfato e as pentoses de cada cadeia situam-se na parte externa da molécula, ao passo que as bases nitrogenadas ficam organizadas para o interior da molécula. Essa organização estrutural do DNA é interessante, pois os grupos fosfato têm caráter hidrofílico (polar) e está diretamente imerso em meio aquoso (nucleoplasma) e polar (Figura 8). 12WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 8 - Dupla hélice do DNA. Na estrutura tridimensional o fosfato constitui o exterior (esfera amarela) da mo- lécula e as bases nitrogenadas compõem o interior da molécula. Fonte: Wikipedia (2017b). 6 - ORGANIZAÇÃO DO DNA NA CÉLULA O conjunto completo de informação genética de um organismo constitui o seu genoma. De forma bem simplista, o genoma corresponde ao conjunto detodo DNA que a célula contém. O DNA, por sua vez, carrega muita informação genética e por isso é uma molécula bastante longa. Algumas literaturas sugerem que se esticarmos uma molécula de DNA nuclear humano provavelmente devemos obter cerca de 2 metros de comprimento. Por essa razão, para que o DNA caiba no pequeno compartimento celular chamado de núcleo, ele deve estar espiralado, isto é, condensado. Proteínas denominadas histonas auxiliam na compactação do DNA. As histonas formam octâmeros sobre os quais as fitas de DNA dão duas voltas. A estrutura formada por DNA + histonas é denominada de nucleossomo. Os nucleossomos, por sua vez, espiralam-se constituindo a estrutura dos cromossomos (Figura 9). 13WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 9 - Localização dos cromossomos na célula. Em detalhes é mostrado o nucleossomo formado por DNA e histonas. Fonte: Wikimedia Commons (2012b). Nos eucariotos, como nós, a maior parte do genoma está concentrada no núcleo celular. Vale ressaltar, que independentemente do tipo celular, todas as células contêm a mesma informação genética. A seguir entenderemos melhor como o DNA codifica uma informação na célula. Assim, veremos a duplicação de DNA e mecanismos de transcrição. 7 - REPLICAÇÃO DO DNA Foi discutido na anteriormente que desde o século XX os cientistas já concordavam que o material genético deveria atender a três requisitos: 1) Seria preciso que se multiplicasse e fosse transmitido aos descendentes; 2) Seria necessário que gerenciasse os principais eventos celulares; e 3) Deveria ter potencial de modificar-se, pois isso explicaria a diversidade de indivíduos em uma população. Pois bem, o DNA atende às três condições e iniciaremos essa discussão a partir do primeiro requisito: a multiplicação. O mecanismo de replicação do DNA é chamado de semiconservativo, uma vez que cada fita de DNA serve como molde para a construção de uma nova fita. Assim, os nucleotídeos livres no nucleoplasma são acrescidos a cada fita molde de DNA. A replicação do DNA inicia-se com a abertura da dupla hélice do DNA. Isso é feito pela enzima helicase, que rompe as pontes de hidrogênio entre as bases nitrogenadas, abrindo a molécula de DNA. Ainda nessa etapa inicial, a enzima DNA topoisomerase desenrola a cadeia, diminuindo a tensão à medida que as helicases avançam. 14WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA A partir desse momento, a enzima DNA polimerase III avança sobre a fita de DNA na forquilha de replicação, que é a região de separação das fitas de DNA. Uma vez que as bases nitrogenadas da fita molde foram expostas, a DNA polimerase III adiciona nucleotídeos na extremidade 3´ em crescimento. Em resumo, a síntese do DNA sempre se dá no sentido 5´- 3´. Desse modo, apenas uma fita molde de DNA tem a síntese contínua e ininterrupta no sentido da forquilha de replicação. O novo filamento sintetizado a partir dessa fita molde é denominado filamento contínuo ou leading. Em eucariotos, várias forquilhas de replicação são formadas durante a síntese de DNA. Todavia, como a DNA polimerase III só adiciona nucleotídeos a partir da extremidade 3´, a síntese do outro filamento em construção se dá de forma descontínua, uma vez que essa extremidade se encontra longe da forquilha de replicação. Assim, a DNA polimerase III sintetiza um segmento com cerca de 1000 a 2000 nucleotídeos e move-se para a extremidade 5´para sintetizar mais segmentos à medida que a forquilha expõe um novo molde. Esses segmentos de DNA da síntese descontínua são conhecidos como Fragmentos de Okazaki. O novo filamento resultante desse processo é o filamento descontinuo ou lagging. A figura 10 mostra o processo de replicação. Figura 10 - Replicação do DNA. Filamentos leading e lagging sendo sintetizados a partir da ação das enzimas ligase, polimerase, helicase, topoisomerase e primase. Fonte: Wikimedia Commons (2005). A função da DNA polimerase III é acrescer nucleotídeos na extremidade 3´ da fita molde de DNA. No entanto, essa enzima não inicia o filamento, seja ele leading ou lagging. Por essa razão, um conjunto de enzimas chamado de primossomo do qual um componente central é a RNA primase, sintetiza uma sequência curta de nucleotídeos (primer) que inicia os filamentos leading e lagging. No filamento leading, apenas um primer é necessário para iniciar a síntese, no entanto, para o filamento lagging um primer é necessário a cada fragmento de Okazaki. Posteriormente, os primers são removidos pela DNA polimerase I. A DNA ligase atua na ligação dos fragmentos de Okazaki do filamento lagging. O conjunto formado pelas enzimas que atuam no processo de replicação é denominado replissomo. Em eucariotos, além de executar todas as ações mencionadas para a síntese de DNA, o replissomo pode montar e desmontar os nucleossomos (DNA + histonas, conforme conteúdo visto na Unidade I). 15WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Vale ressaltar que a replicação do DNA costuma ser muito precisa, pois normalmente são observados menos de um erro a cada 1010 nucleotídeos. Essa precisão ocorre graças à DNA polimerase I e III, que atuam na revisão da nova molécula de DNA sintetizada e, consequentemente, na eliminação dos erros. Porém, as extremidades dos cromossomos (telômeros) representam um problema para o processo de replicação, pois nessa região sempre permanece um trecho curto no filamento lagging que não pode ser iniciado pelo primer. Nesse caso, a enzima telomerase adiciona várias sequências curtas e repetitivas a fim de manter o tamanho da molécula. A telomerase utiliza um RNA como molde para a síntese dessas repetições. Esse acréscimo é importante, pois se essas repetições não fossem acrescidas à fita em formação, a cada replicação seria formada uma cadeia mais curta de DNA e, portanto, informações genéticas seriam perdidas. 8 - ESTRUTURA DO RNA E TRANSCRIÇÃO Sabemos que o DNA carrega toda a nossa informação genética, a qual consiste em uma sequência de nucleotídeos. Cada indivíduo tem uma sequência única de nucleotídeos, que equivale a sua identidade genética. A exceção são os gêmeos idênticos, univitelínicos, os quais possuem o material genético idêntico. Embora o DNA contenha toda a informação genética, não a transmite diretamente, ou seja, ele necessita de RNA como uma molécula mensageira. O RNA recebe a informação proveniente do DNA e auxilia na sua expressão através da síntese de uma proteína (Figura 11). Figura 11 - Representação esquemática da relação entre DNA, RNA e proteínas. 1= Transcrição; 2= Tradução. Fon- te: a autora. 16WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Vimos que o RNA é um polímero de ribonucleotídeos. Cada ribonucleotídeo é constituído por um grupo fosfato, uma base nitrogenada (A, C, G ou U) e uma ribose (lembre-se que o DNA tem desoxirribose). Há três classes de RNAs diretamente envolvidos na síntese proteica: RNA ribossômico (RNAr), RNA transportador (RNAt) e RNA mensageiro (RNAm). • RNAr: É produzido a partir de DNA presente no nucléolo. O RNAr associado a proteínas importadas do citoplasma forma os ribossomos. Estas organelas retornam ao citoplasma para atuar na síntese proteica. • RNAt: Tem a função de transportar aminoácidos livres do citoplasma até os ribossomos para auxiliar na síntese de proteínas. Cada RNAt apresenta a forma de um trevo de 3 folhas, sendo que na extremidade 3´ carrega um aminoácido. Na região oposta, o RNAt contém o anticódon, que é uma sequência de 3 bases nitrogenadas (Figura 12). O anticódon é complementar ao códon do RNAm, como veremos adiante. Figura 12 - Representação da estrutura do RNAt. A extremidade 3´ é o local e ligação ao aminoácido e a região oposta contém uma sequência de 3 bases denominada de anticódon. Fonte: Wikimedia Commons (2011b). 17WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA • RNAm: É o mensageiro do DNA.Constitui-se de uma fita simples que contém uma sequência complementar a do DNA que o originou. Cada sequência de 3 bases nitrogenadas do RNAm chamamos de códon. Após ser produzido no núcleo, o RNAm migra para o citoplasma onde irá transmitir a informação genética para síntese proteica. 9 - TRANSCRIÇÃO Por definição um gene corresponde a uma sequência de DNA que pode ser transcrita em uma classe de RNA e, por consequência, originará uma proteína. Durante a transcrição, um filamento de DNA de um gene é utilizado como molde para a síntese de um filamento complementar de RNA, denominado transcrito gênico. Assim sendo, se o filamento de DNA contém a sequência GGGCAA de nucleotídeos, a sequência do RNAm transcrito será CCCGUU. É necessário lembrar que RNA não possui timina, assim, a adenina do DNA vai se parear com a uracila do RNAm durante a transcrição. A síntese de RNA, a exemplo da replicação do DNA, ocorre no sentido 5´- 3´. A enzima que acresce os nucleotídeos de RNA à extremidade 3´ da fita em crescimento é a RNA polimerase. Diferentemente da síntese de DNA, para que o RNA seja sintetizado não é necessária uma sequência iniciadora, dessa forma, não há primer na transcrição. A RNA polimerase liga-se a sequências nucleotídicas específicas denominadas promotores. Após a RNA polimerase desenovela uma região do DNA, formando a chamada bolha de transcrição. Os nucleotídeos são acrescidos à extremidade 3´ da fita de RNA transcrito e as formam-se as ligações fosfodiéster entre os ribonucleotídeos. Em eucariotos, muitas vezes é preciso que o RNAm transcrito passe por um processamento que elimina ou modifica algumas sequências antes de migrar para o citoplasma. Desse modo, o RNA transcrito é denominado de pré-RNAm. Esse processamento é denominado splicing, e ocorre porque nem toda a sequência do DNA é codificadora, isto é, nem toda sequência se traduzirá em proteína. Por essa razão, o processo de splicing eliminará a sequência não codificadora, os íntrons, e manterá as codificadoras, os éxons. 10 - TRADUÇÃO – SÍNTESE PROTEICA O gene (sequência nucleotídica do DNA) gerencia um dos principais eventos celulares: a tradução ou síntese proteica. A tradução ocorre nos ribossomos, organelas localizadas no citoplasma na forma livre ou aderidas à membrana do retículo endoplasmático rugoso. Participam da tradução o RNAm, RNAt e RNAr, todos transcritos a partir do DNA. Cada molécula de RNAm é traduzida simultaneamente por vários ribossomos, formando uma estrutura chamada polirribossomos. Nos polirribossomos a iniciação da tradução envolve vários fatores de iniciação (proteínas), que compõem o complexo de iniciação. O complexo de iniciação em eucariotos é montado da extremidade 5´do RNAm e move-se no sentido 3´até encontrar a sequência AUG, que é o códon de início. A subunidade maior do ribossomo contém três sítios, A, P e E, que acoplam os RNAt que carregam um aminoácido. O sítio A (aminoacil) é o sítio de ligação ao aminoácido, o sítio P (peptidil) é o sítio onde o peptídio em formação permanece acoplado e o sítio E (de saída- “exit”) recebe um RNAt sem aminoácido, sinalizando que a síntese proteica terminou e a proteína deve ser liberada do polirribossomo. 18WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Em um primeiro momento, na etapa inicial da síntese, o RNAt carrega a metionina (ver quadro 1- código genético) e ocupa o sítio P. Um outro RNAt com anticódon complementar ao códon do RNAm exposto pelo ribossomo é acoplado ao sítio A. Os aminoácidos trazidos pelos RNAts estabelecem ligações peptídicas e, na sequência, o sítio P é desocupado. O RNAt que estava no sítio P passa para o sítio E e em seguida desacopla-se do ribossomo. O RNAt que estava no sítio A é transferido para o sítio P e um novo RNAt pode ser acoplado ao sítio A e assim sucessivamente (Figura 13). Na fase seguinte, o alongamento, o ribossomo move-se ao longo do RNAm, evidenciando cada códon que irá interagir com o RNAt. Esse alongamento continua até que o códon de término (UAA, UGA ou UAG) seja lido e encerre a síntese proteica. A proteína assim formada é liberada para atuar conforme sua função ou ainda pode ser modificada. Por exemplo, uma glicoproteína é uma proteína que recebeu açucares durante processamento feito no Aparelho de Golgi. Figura 13 - Representação do processo de tradução. O RNAm tem seus códons lidos pelo RNAt desde o códon de início até o códon de término. Fonte: Wikimedia Commons (2002). 11 - CÓDIGO GENÉTICO De acordo com o que foi discutido até aqui, o códon do RNA corresponde a uma trinca (sequência de 3 nucleotídeos) complementar ao anticódon do RNAt, o qual carrega um aminoácido no seu sítio. O quadro abaixo mostra os códons e seus aminoácidos correspondentes. Esse código é universal, pois seja em uma bactéria ou em um mamífero os códons equivalerão aos mesmos aminoácidos. Por exemplo, UCC equivalerá a serina em uma síntese proteica da levedura do pão ou no cão doméstico. Outra característica é que o código genético é dito redundante ou degenerado tendo em vista que mais de códon codificam o mesmo aminoácido. Assim, observe que UGC ou UGU codificam a cisteína (Quadro 2). 19WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Quadro 2 - Código genético. Modificado de Snustad et al, 2007. Para deixar mais claro o assunto tratado até aqui vamos a um exemplo. Imagine que o DNA de sequência ATATTGGGC seja transcrito e traduzido. Qual seria o peptídeo codificado por essa sequência? • Passo 1: Primeiramente devemos transcrever essa sequência de nucleotídeos em seu RNAm, que deve ser complementar a ele. Para isso, devemos nos lembrar da complementariedade entre as bases nitrogenadas A=T, A=U, C=G. Além disso, é preciso recordar que RNA não possui timina, então, a uracila pareia-se com adenina durante a transcrição. Assim, o RNAm transcrito terá a seguinte sequência: UAUAACCCG. • Passo 2: Para realizarmos a tradução, ou seja, a síntese do peptídeo devemos recorrer ao código genético (Quadro 1). Desse modo, temos como resultado: UAU AAC CCG (códon- RNAm) Tirosina – Aspargina – Prolina (Peptídeo) Aproveitando esse exemplo, poderíamos ainda apresentar a sequência de anticódon, isto é, a sequência dos 3 RNAts necessários para essa síntese: UAU AAC CCG (códon- RNAm) AUA UUG GGC (anticódon- RNAt) Tirosina – Aspargina – Prolina (Peptídeo) 20WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 12 - MUTAÇÃO No início desta Unidade vimos que desde o século XX os cientistas já concordavam que o material genético deveria multiplicar-se (requisito já discutido no item “Replicação do DNA”), teria que gerenciar os principais eventos celulares (requisito já discutido no item “Síntese proteica”) e, por fim, deveria ter potencial de modificar-se, pois isso explicaria a diversidade de indivíduos em uma população. Essa capacidade de modificação do material genético se dá pelo processo de mutação. As mutações alteram a sequência nucleotídicas através da substituição, deleção ou acréscimo de bases. Na mutação por substituição ocorre a troca de uma base, como por exemplo, G ser substituído por A. Essa substituição poderia: 1) Ser neutra e não causar efeito nenhum da proteína sintetizada se o códon resultante da substituição codificasse o mesmo aminoácido (lembre-se que o código genético é redundante); 2) Gerar um códon finalizador e encerrar a síntese proteica; 3) Originar um peptídeo ligeiramente diferente, mas que tenha função similar ao original sem mutação. Na mutação por deleção ou acréscimo o material genético é perdido ou aumentado, respectivamente. Nesses dois casos, o gene pode perder o sentido, isto é, pode haver o chamado deslocamento da matriz de leitura, pois alteram a leitura das trincas de bases. Por exemplo, no gene ATATTGGGC temos como resultado o peptídeo Tirosina – Aspargina – Prolina. Caso haja deleção de A e um acréscimo de T na sequência esse gene torna-seTATTGGGCT. Assim temos como resultado o peptídeo Isoleucina - Treonina – Arginina. Mutações por deslocamento da matriz de leitura normalmente resultam em produtos gênicos inativos. Com relação às causas das mutações podemos citar: 1) falta de precisão do mecanismo de replicação do DNA; 2) ineficiência dos mecanismos de reparo do DNA; 3) exposição a agentes mutagênicos. Os mutágenos químicos são classificados em grupos: (1) mutagênicos para o DNA que está se replicando; 2) mutagênicos tanto para o DNA que está se replicando quanto para o que não está se replicando. Os mutagênicos de DNA em replicação consistem em bases análogas às bases normais do DNA. Nesse caso, os análogos são incorporados à cadeia de DNA em formação no lugar das bases normais durante a replicação. Esses mutágenos podem aumentar a chance de erros durante a duplicação do DNA. Por outro lado, existem os mutágenos que interferem no DNA que está se replicando ou não. É o caso do ácido nitroso, que provoca a retirada de grupos amino na adenina, guanina e citosina. Essa alteração pode modificar a ligação entre as bases, tendo como consequência, por exemplo, pareamentos de A desaminada com C em vez de T. Além dos agentes químicos, a radiação ultravioleta, radiação ionizante, alguns vírus e bactérias também podem induzir mutações. Embora existam agentes indutores de mutação, vale lembrar que elas são casuais no sentido de que não podemos definir com exatidão em qual região do DNA ela ocorrerão. Além disso, podem passar de geração a geração através do mecanismo reprodutivo, pois se a mutação ocorre nos gametas os filhos a herdará. Essas mutações colaboram para a variabilidade dos indivíduos. Portanto, as mutações somáticas, que ocorrem em qualquer célula e não nos gametas, não são herdáveis. Um exemplo muito comum de mutação somática são as pintas escuras na pele. 21WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 13 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Em síntese, vimos nesta Unidade: • Surgimento da genética como ciência; • Descoberta da composição química e estrutura do DNA; • Modelo de dupla hélice do DNA; • Replicação do DNA; • RNA e o mecanismo de transcrição; • Tradução (expressão gênica); • Mutação: causas e consequências. Na próxima unidade entenderemos como ocorrem as variações numéricas e estruturais nos cromossomos. 2222WWW.UNINGA.BR UNIDADE 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................23 1 - ESTRUTURA DOS CROMOSSOMOS ..................................................................................................................24 2 - VARIAÇÕES CROMOSSÔMICAS NUMÉRICAS ................................................................................................ 27 3 - VARIAÇÕES CROMOSSÔMICAS ESTRUTURAIS ............................................................................................28 4 - PADRÕES DE HERANÇA MONOGÊNICA – 1A LEI DE MENDEL ....................................................................... 31 5 - HERANÇA AUTOSSÔMICA DOMINANTE ..........................................................................................................33 6 - HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA ............................................................................................................34 7 - HERANÇA POLIGÊNICA ......................................................................................................................................34 8 - ANÁLISE DE HEREDOGRAMAS .........................................................................................................................36 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................................................38 ORIGEM, ÁCIDOS NUCLEICOS, SÍNTESE PROTEICA PROF.A DRA. GISELE NOVAKOWSKI ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: GENÉTICA 23WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Quando se fala em cromossomo logo vem em nossa mente uma estrutura parecida com um “X” que normalmente ilustram notícias nos meios de comunicação. Esta figura tão conhecida é um cromossomo mitótico metafásico de eucariotos, onde a cromatina, uma grande extensão de DNA compactado juntamente com proteínas, pode ser vista ao microscópio óptico. Normalmente, em humanos, cada célula possui 23 pares de cromossomos. Destes, 22 pares são denominados de autossomos, os quais manifestam-se do mesmo modo em homens e mulheres. O par restante equivale aos cromossomos sexuais, que se manifestam de forma diferente entre os sexos. Com relação ao par de cromossomos sexuais, a mulher tem duas cópias do cromossomo X, ao passo que o homem possui apenas um cromossomo X e um cromossomo Y. Assim sendo, em princípio, discutiremos nesta Unidade aspectos da estrutura do cromossomo. Em um segundo momento, iniciaremos o estudo sobre as leis de Mendel, que servem como base fundamental para o entendimento dos mecanismos de hereditariedade. Para compor esse material foram utilizados especialmente as seguintes bibliografias: GRIFFITHS et al., (2011); SNUSTAD e SIMMONS (2013) e THOMPSON (2008). 24WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - ESTRUTURA DOS CROMOSSOMOS A compactação da cromatina se dá em cinco níveis tendo participação de proteínas próprias para este processo. No primeiro nível de compactação, pequenas porções da dupla hélice do DNA ficam enroladas em octâmeros de histonas (H2A, H2B, H3 e H4 em duas cópias) dando quase duas voltas. Tem-se então, uma estrutura globular, o nucleossomo (Figura 1), que permanece afastada umas das outras por pequenas extensões de DNA, assemelhando-se a um cordão de contas com diâmetro aproximado de 10nm. Figura 1 - Representação esquemática dos nucleossomos. O enovelamento do DNA ao octâmero de histonas equi- vale à primeira compactação. Fonte: a autora. No segundo nível de compactação, outro tipo de histona (H1) faz com que o cordão de nucleossomos se enrole sobre si, formando uma estrutura chamada de solenoide (Figura 2). O diâmetro do solenoide é cerca de 30nm. Figura 2 - Representação esquemática dos nucleossomos no segundo nível de compactação, equivalente ao solenoi- de. Fonte: a autora. No terceiro nível de compactação, outras proteínas, não histonas, conformam o solenoide formando alças (Figura 3), originando uma nova fibra com diâmetro aproximado de 300nm. 25WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 3 - Representação esquemática do terceiro nível de compactação da cromatina. Fonte: a autora. No quarto nível de compactação, a fibra composta pelas alças, que são torcidas sobre si formando uma fibra de diâmetro aproximado de 700nm (Figura 4). Figura 4 - Representação esquemática da cromatina no quarto nível de compactação. Fonte: a autora. No quinto nível a fibra de 700nm enovela-se mais uma vez formando uma cromátide com aproximadamente1400nm de diâmetro. Um cromossomo mitótico metafásico é constituído por duas cromátides, as cromátides-irmãs, unidas em certa altura por uma região mais estreita chamada de constrição primária ou centrômero. Desta forma, dependendo da posição do centrômero, é possível identificar dois braços na cromátide: p (curto) e q (longo). No centrômero encontra-se o cinetócoro, que é uma estrutura proteica onde se instalam as fibras do fuso. Essa organização das fibras do fuso é importante, pois permite a movimentação dos cromossomos na fase de anáfase da divisão celular. Além da constrição primária, pode ocorrer uma constrição secundária na cromátide que subdivide seu braço, constituindo uma extremidade chamada de satélite. Por fim, nas extremidades do cromossomo, localizam-se os telômeros que são sequências de DNA repetidas não codificantes responsáveis pela estabilidade estrutural do cromossomo (essa função dotelômero foi discutida na Unidade II). A cada divisão o telômero sofre um encurtamento, até o momento em que passa a comprometer a divisão celular. 26WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A estrutura básica de um cromossomo está representada na figura 5. Figura 5 - Representação esquemática do cromossomo com suas estruturas: telômero, centrômero, região satélite e cromátides-irmãs. Fonte: a autora. Foi citado em parágrafos anteriores que a posição do centrômero evidencia os braços p e q. Conforme o tamanho relativo dos braços p e q, o cromossomo pode ser classificado em: metacêntrico (braço p = braço q), submetacêntrico (braço p < braço q), acrocêntrico (braço p < braço q) e telocêntrico (tem apenas o braço q) (Figura 6). Figura 6 - Representação esquemática dos cromossomos evidenciando a classificação conforme a posição do cen- trômero. Fonte: a autora. 27WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 2 - VARIAÇÕES CROMOSSÔMICAS NUMÉRICAS Cada espécie tem um número característico de cromossomos, por exemplo, a espécie humana possui 23 pares de cromossomos. Os seres que apresentam os cromossomos em pares são chamados de diploides (2n). Eventualmente podem ocorrer alterações no número de cromossomos, as quais podem ser de dois tipos: euploidia e aneuploidia. A euploidia é uma alteração em lotes inteiros de cromossomos, que constituem o chamado conjunto haploide. A euploidia é mais comum nos vegetais e pode ocorrer por algumas razoes: a) pela fertilização de um óvulo que não teve os cromossomos separados no processo de meiose; b) falha na distribuição dos cromossomos de um zigoto; c) pela fertilização do óvulo por dois espermatozoides. A seguir são mostrados alguns exemplos de euploidias e a denominação do indivíduo portador: • 2n: indivíduo diploide. • 2n-n: indivíduo haplóide – Ex. Zangão. • 2n+n: indivíduo triploide – Ex. Banana (Musa paradisíaca). • 2n+2n: indivíduo tetraploide, e assim por diante sempre com um número de haploide, n, completo a mais. A aneuploidia é uma alteração no número de cromossomos, que podem ser pela adição ou perda de um ou mais cromossomos. Isso corre por falha na segregação dos cromossomos que pode acontecer tanto na meiose como na mitose. Os indivíduos com esse distúrbio são representados por: • 2n-1: monossomia, um dos cromossomos está sem o par. • 2n+1: trissomia, existe um cromossomo está em triplicata. • 2n-2: nulissomia, é a perda de um par de cromossomos. A síndrome de Turner é um exemplo de monossomia que afeta somente mulheres. A portadora da síndrome apresenta apenas um cromossomo sexual, representado por X0. Com relação ao fenótipo, são mulheres inférteis, de baixa estatura, pescoço alargado e não apresentam corpúsculo de Barr (cromossomo X condensado inativo). Os exemplos de trissomia mais comuns são: 1. A síndrome de Klinefelter afeta homens, que ao invés de ter um par de cromossomos sexuais, apresenta três, XXY. São homens inférteis com ginecomastia (mamas), quadris largos, retardo mental e apresentam corpúsculo de Barr. 2. Na síndrome do duplo Y, o indivíduo apresenta três cromossomos sexuais, XYY. São homens de estatura elevada, com taxa de testosterona elevada, inclinação antissocial e aumento de agressividade. 3. Mais um exemplo, é a síndrome de Down, em que há a trissomia do cromossomo 21. São indivíduos de baixa estatura, pescoço largo, olhos oblíquos e retardo mental. 28WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 4. A síndrome de Edwards, trissomia do cromossomo 18, e a síndrome de Patau, trissomia do cromossomo 13, ocasionam sérias anomalias físicas e mentais levando à morte em poucas semanas. 3 - VARIAÇÕES CROMOSSÔMICAS ESTRUTURAIS Os cromossomos também podem sofrer alterações na sua forma ou tamanho, tornando- se anormais. Essas variações na estrutura dos cromossomos podem ser causadas por interações com vírus, radiação ou substâncias químicas. Se este tipo de alteração ocorrer em uma célula somática, os danos podem ser menores, resultando na morte da célula afetada ou resultando na formação de um tumor, por exemplo. Mas se esta modificação ocorrer em células germinativas pode ser transmitida aos descendentes, afetando estes indivíduos por inteiro. As alterações cromossômicas estruturais podem ser classificadas em: inversão; deficiência ou deleção; duplicação; e translocação. Inversão: Na inversão ocorre a quebra do cromossomo e o fragmento resultante gira 180º sendo ressoldado ao cromossomo, ocorrendo uma inversão dos genes (Figura 7). Figura 7 - Inversão cromossômica. Modificado de: Wikimedia Commons (2007a). Deleção: A deleção corresponde à retirada de um fragmento do cromossomo, que pode ser resultado da quebra do DNA com a perda do fragmento rompido, ou por um crossing-over desigual entre cromossomos homólogos desalinhados na meiose (Figura 8). Desta maneira vários genes são perdidos sendo tanto mais grave quanto maior for o fragmento. Um exemplo é a síndrome de Cri Du Chat, ou síndrome do miado do gato, causada pela perda de múltiplos genes do braço curto do cromossomo 5. Essa síndrome implica em microcefalia, retardo mental e o choro que se assemelha ao miado de um gato. A deleção pode acontecer de duas formas, a deleção terminal e a intersticial. Na terminal ocorre apenas uma quebra no DNA e o fragmento gerado é perdido. Na deleção intersticial ocorrem duas quebras no DNA gerando dois fragmentos sendo que o do meio se perde e o da extremidade é ressoldado. 29WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 8 - Deleção cromossômica intersticial. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons (2007b). Duplicação: Na duplicação tem-se a adição de um fragmento com genes repetidos no cromossomo (Figura 9). Isso geralmente ocorre no crossing-over desigual de cromossomos homólogos na meiose, onde um fica com uma deleção e o outro ganha uma cópia extra de genes. De forma geral, as consequências da duplicação são menores do que a deleção. Figura 9 - Duplicação cromossômica. Fonte: Wikimedia Commons (2007c). 30WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Translocação: A translocação é a troca de fragmentos entre cromossomos não homólogos (Figura 10). Por exemplo, a translocação entre o cromossomo 14 e 21 é responsável por um tipo menos frequente de Síndrome de Down. Existem dois tipos de translocação: a recíproca e a não recíproca. A translocação recíproca ocorre quando dois cromossomos sofrem uma quebra e os fragmentos resultantes são trocados e ressoldados nos cromossomos. Quando apenas um cromossomo ganha o fragmento do outro não homólogo, tem-se a translocação não recíproca. Um caso especial de translocação não recíproca é a translocação robertsoniana, que ocorre em cromossomos não homólogos acrocêntricos a partir da quebra no centrômero. O resultado dessa translocação é a perda dos braços curtos e fusão dos dois cromossomos. Figura 10 - Translocação robertsoniana. Fonte: a autora. Agora observe alguns casos especiais, que podem ser combinações das variações estruturais vistas anteriormente: Cromossomos em anel: Um evento raro pode gerar o cromossomo em anel. Isso acontece quando há duas deleções terminais, e posteriormente as extremidades do cromossomo são soldadas formando um anel. Isocromossomos: Outra variação estrutural cromossômica é a formação dos Isocromossomos, que são formados quando não ocorre a separação longitudinal das cromátides- irmãs, ocorrendo uma separação transversal do centrômero. Dessa forma, cada célula filha ficará com uma duplicação e uma deleção de genes cada qual com genes complementares ao que era do cromossomo original. 31WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 4 - Padrões de herança monogênica – 1a Lei de Mendel Foi discutido na Unidade I que Mendel teve grande relevância nos estudos sobre Genética. Ele utilizou em seus experimentos as linhagens puras deplantas de ervilha. Eram consideradas puras as linhagens quando autofecundadas geravam descendentes idênticos a elas. Nesse sentido, uma linhagem pura quando autofecundada ou quando cruzada com outra linhagem com as mesmas características só origina descendentes idênticos a ela. Mendel cruzou linhagens puras de ervilhas quanto a cor e textura das sementes, quanto a cor da flor, forma e cor do fruto ou tamanho da planta, como mostrado no quadro 1. Quadro 1- Caracteres estudados por Mendel em linhagens puras de ervilha. Fonte: Wikimedia Commons (2004). Nos cruzamentos de Mendel, as gerações puras eram chamadas de parentais ou geração P. Os descendentes dessa geração consistiam na geração F1 (primeiros filhos). Ao realizar a autofecundação da geração F1, ele obtinha a chamada geração F2 (segunda descendência). Ao cruzar linhagens puras com características diferentes (por exemplo, plantas de semente verde com plantas de semente amarela), Mendel observou que a geração F1 apresentava as mesmas características de um dos parentais (e.g, todas eram plantas de sementes verdes). No entanto, na geração F2 alguns descendentes voltavam a ter a característica de um dos parentais que não tinha sido manifestada na geração F1 (e.g, as plantas de semente amarelas surgiam entre os descendentes). Com isso, a característica que desaparecia e a que era expressa na geração F1 foram denominadas respectivamente de recessiva e dominante. Como outra contribuição para a Genética, Mendel quantificou que a proporção entre as características dominante e recessiva eram sempre próximas de 3:1. Assim, do cruzamento cuja geração P consistia de plantas altas com plantas baixas, foi observado em F2 a proporção dos descendentes era de 3 plantas altas para uma de baixa estatura. 32WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A partir dessas observações, o sacerdote propôs que as características hereditárias são transmitidas através das gerações conforme alguns pressupostos: - a descendência recebe uma proporção igual de fatores responsáveis por características de ambos os pais (parentais); - os fatores responsáveis por características separam-se durante a formação dos gametas. Conforme as terminologias utilizadas na Genética, as características ou fatores herdados correspondem ao fenótipo do indivíduo (e.g. cor da semente de ervilha). O fenótipo é a expressão do gene, sendo que o conjunto de genes de um indivíduo é o genótipo. O genótipo costuma ser simbolizado por letras. Assim, A e a podem designar os alelos (formas alternativas dos genes, conforme discutido na Unidade I) de uma determinada característica. Nesse sentido, a cor da semente de ervilha é o fenótipo e podemos simbolizar o gene responsável pela cor de “a”. Então, “A” e “a” podem ser utilizados para designar as duas cores possíveis do gene que promove a cor: amarelo (A) e verde (a). O alelo dominante é simbolizado com letra maiúscula, enquanto o alelo recessivo por minúscula. Conforme a 1ª lei de Mendel, os gametas formados podem conter o alelo dominante ou o recessivo. Considerando que o descendente terá um alelo proveniente de cada parental, ele poderá ter o genótipo AA, Aa ou aa. Os portadores de alelos em dose dupla são chamados de homozigotos enquanto aqueles que possuem alelos diferentes são os heterozigotos. Portanto, considerando também a questão da dominância e recessividade, temos que AA é um indivíduo homozigoto dominante, aa é um homozigoto recessivo e Aa é um heterozigoto. Apenas um alelo dominante é necessário para que o fenótipo seja expresso (AA ou Aa). Ao passo que, para a manifestação da característica recessiva o indivíduo deve ter o alelo em dose dupla (aa). No exemplo da cor da semente, como a cor amarela é dominante em relação a verde então os indivíduos amarelos podem ser AA ou Aa, enquanto as plantas verdes serão aa. Uma técnica comum utilizada para definir os genótipos de um indivíduo conforme os gametas possíveis dos seus genitores é o quadrado de Punnet. Nesse quadrado, os gametas possíveis do genitor masculino e feminino são posicionados nas linhas e colunas, respectivamente. O quadrado de Punnet para a cor da semente de genitores heterozigotos (Aa) seria o seguinte: Quadro 2- Quadrado de Punnet. Os gametas A e a de cada genitor estão distribuídos nas linhas e colunas. Os des- cendentes estão destacados pela área sombreada. Fonte: a autora. Como resultado do cruzamento de ervilhas amarelas heterozigotas (Aa x Aa), temos que dos quatro descendentes possíveis, 3 serão amarelos (AA, Aa, Aa) e apenas um será verde (aa). Essa proporção, portanto, segue o que foi proposto pela 1ª lei de Mendel (3:1). 33WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Em suma, discutimos a 1ª lei de Mendel ou lei da segregação dos gametas. Essa lei corresponde à herança monogênica (determinada por apenas um gene). Na sequência, os padrões de herança monogênica dominante e recessiva serão tratados com mais detalhes. 5 - HERANÇA AUTOSSÔMICA DOMINANTE Trata-se de herança autossômica toda característica hereditária que se expressa em genes situados em cromossomos autossômicos (comuns a machos e fêmeas). Na herança autossômica dominante, o fenótipo será manifestado se o indivíduo for homozigoto ou heterozigoto (AA ou Aa). Quando pelo menos um dos genitores apresenta o alelo dominante, fenótipo dominante poderá ser manifestado nos descendentes. Para ilustrar esse padrão de herança, a figura 11 mostra o cruzamento entre heterozigoto e homozigoto recessivo (Bb x bb) de plantas de ervilha com cores diferentes de flores. Observe que a cor dominante de flor é a lilás, conferida pelo alelo B. Assim, BB ou Bb são plantas com flor lilás, enquanto plantas aa possuem flores brancas. A proporção é de 50% para cada fenótipo. Figura 11 - À esquerda- Quadrado de Punnet para a cor das flores da ervilha. À direita- Quadro com a descrição dos respectivos genótipos e fenótipos desse cruzamento. Fonte: a autora. Vamos testar nosso entendimento sobre herança autossômica dominante através de um exercício: 1. Do cruzamento de duas linhagens puras de ratos, uma com pelagem preta e outra com pelagem branca, nasceram somente descendentes com pelagem preta. Se essa prole for cruzada, qual serão os possíveis fenótipos e genótipos dos seus descendentes? Resposta: Em primeiro lugar, vamos identificar as gerações. As linhagens puras são os parentais (geração P), os descendentes dessa geração compõem a geração F1. Temos, portanto, que descobrir o fenótipo e genótipo da geração F2. Considerando que toda a geração F1 tem pelagem preta, isso nos leva a deduzir que o fenótipo preto é dominante (P). Como as linhagens parentais são puras, seus genótipos são PP (rato preto) e pp (rato branco). Assim temos o seguinte resultado: 34WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 6 - HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA A característica autossômica recessiva se expressa somente em homozigose (dose dupla). Várias doenças hereditárias pertencem a esse tipo de herança. Nesses casos, normalmente os cruzamentos ocorrem entre indivíduos normais heterozigotos. Dessa maneira, cada genitor forma gametas com o alelo defeituoso e o passa para a prole, que manifesta a doença já que tem os alelos em dose dupla. Esse padrão de herança explica, por exemplo, por que casamentos consanguíneos ampliam o risco de doenças hereditárias. Um exemplo de doença autossômica recessiva é o albinismo (acromia). O indivíduo albino tem deficiência na produção de melanina, pigmento que da cor da pele, cabelo e olhos. Indivíduos despigmentados são mais susceptíveis aos efeitos da radiação solar. Pais normais portadores (Aa) têm ¼ de chance de ter filhos albinos (aa). 7 - HERANÇA POLIGÊNICA Além de estudar características isoladas em organismos, Mendel também investigou o padrão de herança de mais de um gene, ou seja, a herança poligênica. Por exemplo, ele considerou nos cruzamentosas plantas de ervilhas que diferiam quanto à cor e textura das sementes. Mendel observou que durante a formação dos gametas os alelos para a cor se segregam de forma independente dos alelos que determinam a textura das sementes. Essa preposição compõe a 2ª lei de Mendel ou lei da segregação independente dos genes. No exemplo abaixo é mostrado o cruzamento entre gatos com diferentes cores de pelagem (alelo B ou b) e tamanho da cauda (alelo S ou s). Do cruzamento entre indivíduos de cauda curta e pelagem branca (SSbb) com indivíduos de cauda longa e pelagem marrom obteve-se o seguinte: 35WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 12 - Cruzamento de diíbrido. Os dois fenótipos (comprimento da cauda e cor da pelagem) do gato manifes- taram-se conforme a proporção 9:3:3:1 em F2. Fonte: Wikipedia (2017). 36WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Na geração F2 foi possível observar as seguintes proporções genotípicas e fenotípicas: A proporção fenotípica desse cruzamento foi 9:3:3:1, que é uma consequência da segregação independente dos gametas (enunciada na 2ª lei de Mendel) do duplo-heterozigoto. 8 - ANÁLISE DE HEREDOGRAMAS Nos cruzamentos de plantas, cobaias ou camundongos os resultados são obtidos com relativa rapidez, considerando que esses organismos possuem ciclo de vida curto. No entanto, essas investigações tornam-se inviáveis se a espécie considerada for a humana, pois experimentos dessa categoria são proibidos com a nossa espécie. Como consequência, os geneticistas acabam recorrendo a registros médicos e informações fornecidas pelos pacientes com o intuito de deduzir a provável herança genética de um grupo familiar, por exemplo. Esses levantamentos e deduções sobre a genética de um indivíduo correspondem à análise de heredogramas. Os heredogramas descrevem a história familiar em termos de incidência, ascendência e descendência, como veremos agora. Por convenção, vários símbolos são utilizados para designar os componentes de um heredograma. Dentre os símbolos mais utilizados estão estes: Figura 13 - Símbolos utilizados no heredograma. Fonte: Griffths (2007). 37WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA • Padrões de herança dominante: O heredograma abaixo refere-se à doença de Huntington, que afeta o sistema nervoso caracterizado por falta de coordenação motora e perda de habilidades mentais. Figura 14 – Herança monogênica. Fonte: Google Images (2018). Para identificar um padrão de herança monogênica dominante observe que a o fenótipo se manifesta no indivíduo 3 da geração II. Os pais dessa mulher são afetados por Huntington e passaram o alelo afetado apenas para um dos dois filhos. Sendo assim, o filho não afetado tem o genótipo aa. Nessas condições, devemos deduzir que os pais só podem ser heterozigotos (Aa), uma vez que o filho normal herdou um alelo recessivo de cada um dos pais. • Padrões de herança recessiva: O heredograma a seguir retrata o padrão de herança de uma família com indivíduos afetados pelo albinismo. Figura 15 – Herança recessiva. Fonte: Google Images (2018). Esse tipo de herança monogênica pode ser identificado facilmente pelo fato de que indivíduos afetados podem ter pais normais. Isso pode ser observado nos indivíduos 2 e 4 da geração II. 38WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Em síntese, vimos nesta Unidade: • Estrutura dos cromossomos; • Variações cromossômicas: euploidia e aneuplodia; • Variações cromossômicas: inversão, deleção, duplicação e translocação. • 1ª lei de Mendel; • 2ª lei de Mendel; • Análise de Heredogramas. Na próxima Unidade será discutida a genética de grupos sanguíneos. 3939WWW.UNINGA.BR UNIDADE 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................40 1 - VARIAÇÕES DE DOMINÂNCIA ........................................................................................................................... 41 2 - DOMINÂNCIA COMPLETA ................................................................................................................................. 41 3 - DOMINÂNCIA INCOMPLETA .............................................................................................................................42 4 - CODOMINÂNCIA .................................................................................................................................................42 5 - ALELOS LETAIS ...................................................................................................................................................45 6 - INTERAÇÃO ENTRE DOIS OU MAIS LOCI – INTERAÇÃO DE GENES EM VIAS .............................................45 6.1. EPISTASIA ..........................................................................................................................................................46 7 - PENETRÂNCIA E EXPRESSIVIDADE ................................................................................................................. 47 8 - HERANÇA QUANTITATIVA ................................................................................................................................. 51 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................................................54 EXTENSÕES DA HERANÇA MENDELIANA - INTERAÇÃO GÊNICA PROF.A DRA. GISELE NOVAKOWSKI ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: GENÉTICA 40WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Na Unidade II vimos que uma característica pode ser expressa segundo duas possibilidades: 1) se o alelo (formas alternativas dos genes, conforme discutido na Unidade I) estiver em dose única (genótipo dominante); ou 2) somente se o alelo estiver em dupla dose (genótipo recessivo). Assim, torna-se evidente que há interação entre alelos de um locus que possuem variações de dominância. Todavia, normalmente, um fenótipo (característica expressa) é resultado da interação de alguns genes através de seus produtos (p ex. hormônios, enzimas, etc). Com relação a este aspecto, na maior parte dos casos, o fenótipo é definido pela interação entre genes de dois ou mais loci, isto é, pela interação de genes em vias metabólicas, conforme mostra a figura seguir: Figura 1 - Interação gênica. Fonte: o autor. Além disso, vale mencionar que a expressão desses genes também pode estar condicionada a interação deles com o ambiente externo (por exemplo: fatores químicos e físicos do ambiente, fonte alimentar, quantidade de estresse, etc.). Desse modo, pode-se dizer que a expressão gênica é multifatorial. Desse modo, nesta unidade, o foco da nossa discussão será a interação gênica. Além disso, trataremos de casos em que apenas um gene é capaz de afetar mais de uma característica, ou seja, atuar na manifestação de mais de um fenótipo. Por fim, compreenderemos a base genética responsável pela determinação da cor de pele nos indivíduos. Para compor esse material foram utilizados especialmente as seguintes bibliografias: Griffiths et al., (2011); Snustad e Simmons (2013) e Thompson (2008). Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 41WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - VARIAÇÕES DE DOMINÂNCIA Foi discutido da Unidade II que a mutação é responsável pelo surgimento de alelos alternativos de um gene. Para que uma mutação tenha sentido do ponto de vista evolutivo da espécie ela necessariamente deve afetar o material genético dos gametas (células germinativas) do indivíduo. Nesse sentido, a mutação na linhagem germinativa tem o potencial de se propagar para a prole e fixar os alelos mutantes na população. Os alelos mutantes conhecidos de um gene e seu alelo selvagemsão chamados alelos múltiplos ou série alélica (Figura 2). Figura 2 - Origem dos alelos mutantes. Fonte: a autora. Os diferentes alelos de um gene afetam os fenótipos de variadas maneiras. Vimos na Unidade I que Mendel ao estudar características diversas em plantas de ervilhas, identificou alelos dominantes e recessivos. A seguir será discutido como esses alelos atuam de forma integrada e de diferentes modos na determinação de um fenótipo. 2 - DOMINÂNCIA COMPLETA É um tipo simples de dominância, na qual o fenótipo é expresso se somente um alelo dominante estiver presente, como ocorre no heterozigoto. Na dominância completa o fenótipo do homozigoto dominante e do heterozigoto é idêntico. Em contrapartida, o fenótipo recessivo será manifestado apenas se o alelo estiver em dose dupla. Entretanto, embora normalmente a presença de um alelo normal (selvagem) seja suficiente para a expressão de certo fenótipo, existem casos de mutações dominantes que geram alelos selvagens haploinsuficientes. Na haploinsuficiência, apenas uma cópia do alelo não é suficiente para garantir produto gênico em quantidade adequada para assegurar a função normal do gene. Pode acontecer ainda que mutações dominantes produzam produtos gênicos que interferem na função do produto gênico sintetizado pelo alelo selvagem de um gene. 42WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 3 - DOMINÂNCIA INCOMPLETA É um padrão de herança em que os descendentes manifestam um fenótipo intermediário em relação aos parentais. Um exemplo típico dessa dominância é o observado na maravilha (Mirabilis jalapa), uma planta nativa da América do Sul. O resultado do cruzamento de plantas puras de pétalas vermelhas (RR) com plantas puras de pétalas brancas é 100% de plantas cor- de-rosa (geração F1). Portanto, o fenótipo rosa é intermediário e diferente do expressado pela geração parental. O fenótipo intermediário pode ser observado a partir da autofecundação de F1. Assim em F2, o padrão fenotípico da prole será o mostrado na figura 3: Figura 3 - Dominância incompleta. Fonte: Wikimedia Commons (1992). 4 - CODOMINÂNCIA É a variação de dominância em que há a expressão dos dois alelos. Um exemplo claro pode ser observado na cor pelagem do gado da raça Shorthorn, popularmente chamado de “gado ruão”. Essa raça pode apresentar pelagem vermelha (RR), pelagem branca (WW) ou pelagem ruão (RW), que é um misto de pelos vermelhos e brancos (Figura 4). 43WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 4- Codominância em gado ruão. Fonte: Wikimedia Commons (2002). Outro exemplo de codominância pode ser observado nos grupos sanguíneos que compõem o sistema ABO humano. Os grupos sanguíneos são determinados pelo produto gênico, os aglutinogênios ou antígenos, de três alelos de um gene. Os três alelos interagem em seis combinações (Quadro 1) e assim, resultam nos tipos sanguíneos conhecidos: A, B. AB e O. Os alelos do sistema ABO são i, IA e IB, e cada indivíduo tem um par destes alelos, considerando que um deles veio de seu pai e outro de sua mãe. O indivíduo com tipo sanguíneo A, tem na superfície de suas hemácias o antígeno A e, portanto, reconhece como estranho o antígeno B, produzindo anticorpos (aglutinina) contra esse antígeno. Do mesmo modo, o indivíduo com tipo sanguíneo B, tem antígeno B, e aglutinina anti-A. O indivíduo com sangue AB, não pode produzir nenhum anticorpo, uma vez que apresenta os dois antígenos (antígeno A e B) em suas hemácias. Por fim, o indivíduo com tipo sanguíneo O não tem alelos IA nem IB, por isso não apresenta antígenos, mas sintetiza os anticorpos A e B. Quadro 1 - Genótipo, tipo sanguíneo, aglutinogênio e aglutinina do sistema ABO. Fonte: o autor. Vinicius marko Destacar 44WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Sendo assim, essas relações entre os alelos determinam as possibilidades de compatibilidade sanguínea. Indivíduos com tipo sanguíneo A podem doar para A ou AB; Indivíduos tipo O são doadores universais, mas como produzem anticorpos A e B, só podem receber sangue de portadores do tipo O. Em contrapartida, indivíduos AB são receptores universais, pois podem receber transfusão de indivíduos de todos tipos sanguíneos, como mostra a figura 5. Figura 5 - Esquema da compatibilidade sanguínea. Fonte: Wikimedia Commons (2005). Há uma relação de dominância entre os alelos, pois os alelos IA e IB são dominantes em relação ao alelo i. Nesse sentido, uma criança terá tipo sanguíneo A se herdar um alelo IA de um dos seus genitores e do outro receber i. Filhos com tipagem sanguínea do tipo O podem ocorrer se seus genitores forem heterozigotos (p ex. mãe IAi e pai IBi). Crianças com o tipo sanguíneo AB devem ser filhos de pais com tipo sanguíneo A e B, nesse caso ocorreu a codominância. Em termos de tipagem sanguínea tem que ser considerado também sistema Rh. O sistema Rh foi descoberto em 1940 por Landsteiner e Wiener, que após injetarem em um coelho o sangue do macaco (Macaca rhesus), perceberam que o sangue do coelho produziu anticorpos que aglutinaram as hemácias dos macacos. Descobriu-se assim que a superfície das hemácias dos macacos possuia um antígeno que foi designado como Rh (a sigla Rh é uma alusão ao termo rhesus). Humanos também apresentam esse antígeno e, por esta razão, são chamados Rh+ (positivo). Indivíduos Rh- (negativo) são aqueles que não apresentam o antígeno na membrana de suas hemácias, mas podem vir a produzir anticorpos anti-Rh caso sejam expostos ao sangue Rh+. A eritroblastose é uma desordem sanguínea que decorre do desenvolvimento de anticorpos anti-Rh por uma mãe Rh-. Essa sensibilização da mãe acontece quan- do o filho é Rh+ ou ao ter recebido sangue Rh+. Ao ser sensibilizada pelo sangue Rh+ (isso pode ocorrer no momento do parto), a mãe passa a produzir os anticor- pos anti-Rh. Em uma segunda gestação, se o filho for portador de sangue Rh+ os anticorpos produzidos pela mãe podem atravessar a placenta e provocar a hemó- lise das hemácias do feto. Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 45WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 5 - ALELOS LETAIS Discutimos até o momento, que as mutações geram alelos alternativos, o quais podem determinar fenótipos distintos daqueles expressos por genes selvagens. As mutações que alteram algum aspecto morfológico do indivíduo são denominadas de mutações visíveis, sendo que a maioria delas é recessiva. As mutações que afetam a capacidade reprodutiva do indivíduo são chamadas de mutações estéreis. Há ainda as mutações letais, que resultam na morte do organismo porque alteram suas funções vitais. Um exemplo de alelo letal é visto no gato sem cauda da raça Manx (Figura 6). Esse fenótipo sem cauda é expresso pelo alelo ML. Portanto, indivíduos homozigotos recessivos (MlMl) apresentam cauda. Todavia, o gato MLML (homozigoto dominante) é tão anômalo que sua coluna vertebral não se desenvolve suficientemente e o embrião é fadado ao óbito. Figura 6 - Foto do gato sem cauda da raça Manx. Fonte: McCandlish (2011). 6 - INTERAÇÃO ENTRE DOIS OU MAIS LOCI – INTERAÇÃO DE GENES EM VIAS Archibald Garrod no início do século XX hipotetizou que as vias metabólicas celulares eram controladas por vários genes que interagiam entre si. Mas tarde, em 1940, George Beadle e Edward Tatum, estudando fungos Neurospora, demonstraram que os genes são responsáveis pela função de enzimas. Ainda de acordo com Beadle e Tatum, cada gene controla uma enzima específica que atua em uma das várias etapas de uma via bioquímica. Desse modo, como uma via bioquímica tem suas etapas interconectadas, se acaso um desses passos falhar, a via por completo estará comprometida. Por essa razão, a interação entre genes de dois ou mais loci pode afetar o fenótipo do indivíduo. 46WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Essa interação de genes entre dois ou mais loci também foi verificadaem outras vias além das enzimáticas. Nesse sentido, todas as proteínas, mesmo não sendo enzimas são codificadas por um gene, o qual determina a sua estrutura física e, portanto, determina sua função. Essa hipótese é conhecida como hipótese um gene- um polipeptídeo. A seguir, serão discutidos alguns casos de interação entre genes de dois ou mais loci. 6.1. Epistasia Em um primeiro momento, antes de discutirmos a interação entre genes de dois ou mais loci, é preciso resgatar o conceito da segregação independente dos gametas, em que a proporção verificada para descendentes F2 é de 9:3:3:1. Essa proporção obedece a segunda lei de Mendel, e é verificada quando não há interação entre os genes mutantes. Todavia, existem casos em que esses genes interagem de modo que o alelo de um gene inibe a expressão de um alelo localizado em outro locus. Esse fato é chamado de epistasia (epi = acima; stasis = inibição). O gene inibido é denominado hipostático, enquanto o gene responsável pela inibição é o epistático. Se o alelo epistático for dominante, isto é, se apenas um alelo for suficiente para causar a inibição, então a epistasia é dominante. A epistasia será recessiva se houver a necessidade de dose dupla do alelo para que a inibição aconteça. Um exemplo de epistasia recessiva pode ser verificada na determinação da cor da pelagem de cães labradores. Nesses cães, o alelo E é responsável pela deposição de pigmento no pelo, e o alelo e, em dose dupla, não condiciona essa deposição, ou seja, a pelagem sem pigmentos apresenta-se dourada. Há interação desses alelos E e e com os alelos B e b¸ localizados em outro locus. O alelo B determina a cor preta da pelagem, enquanto o alelo b, em dose dupla, resulta na cor marrom dos pelos (Figura 7). Desse modo, um cão com o genótipo eeBb tem a pelagem dourada, pois mesmo com a presença do alelo B, os alelos ee (em dose dupla) inibem a deposição do pigmento preto (Bb). Nesse sentido o alelo B é hipostático e os alelos ee são epistáticos. Já um cão com genótipo Eebb será marrom, pois ele produzirá pigmento marrom (bb) e o alelo E permitirá a deposição desse pigmento. Figura 7 - Epistasia recessiva em cães labradores. Fonte: a autora. Em um cruzamento de duplo heterozigotos (EeBb x EeBb) a proporção fenotípica resultante será: 9 pretos, 4 dourados, 3 marrons (9:4:3). Portanto, uma proporção diferente da proposta pela 2ª lei de Mendel. Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 47WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A epistasia dominante pode ser compreendida a partir da análise da plumagem de galinhas. Nesses animais, o alelo C é responsável pela plumagem colorida, ao passo que o alelo c (em dose dupla) resulta na plumagem branca. Mas, há interação desses alelos com os alelos I e ii. O alelo dominante I é epistático, então, inibe da plumagem colorida. Porém, se os alelos ii estiverem presentes, a cor da plumagem poderá ser colorida (Cc ou CC) ou branca (cc). Concluindo, a galinha ccii terá plumagem branca, a Ccii será colorida, a CcIi será branca. 7 - PENETRÂNCIA E EXPRESSIVIDADE Vimos até o momento que, normalmente, um gene é responsável por uma característica, seja em heterozigose (alelo dominante) ou homozigose (alelo recessivo). As proporções podem seguir as Leis de Mendel ou então se afastam plenamente delas, como visto nos exemplos dados sobre epistasia ou mesmo nos de codominância. O fato é que, nem sempre a presença de um gene é garantia de sua expressão. O fenótipo pode ser influenciado pelo ambiente, ou seja, talvez ele seja resultado de herança multifatorial. Assim sendo, pode ser que mesmo na presença de determinado alelo, a característica fenotípica se manifeste de forma diferenciada entre os descendentes. Como explicar, em termos científicos, o que determina a manifestação de certo fenótipo? Por definição, penetrância equivale ao percentual de indivíduos portadores de certo alelo (recessivo ou dominante) que manifestam o fenótipo correspondente a ele. Quando os genes presentes em um indivíduo sempre se manifestam é dito que são 100% penetrantes ou ainda, altamente penetrantes. Esse princípio de penetrância completa segue a concepção de expressão gênica proposta por Mendel, uma vez que a presença do gene vai determinar a manifestação de uma característica. Todavia, contrariando a visão mendeliana, há genes que com penetrância incompleta, ou seja, somente uma parcela dos portadores do genótipo exibem o fenótipo relacionado a ele. Um exemplo de penetrância incompleta é a polidactilia (poli= vários; dactli= dedos), uma anomalia genética que se manifestada pela alteração na quantidade de dedos (Figura 8). Essa anomalia é descrita no homem e em alguns animais como cães, gatos, bovinos, caprinos e mais raramente em equinos. É causada pela expressão de um alelo dominante que possui penetrância incompleta, porém alta. Isso significa que nem todos os portadores do alelo dominante terão polidactilia. Figura 8 - Polidactilia na mão e pé. Fonte: Wikimedia Commons (2008). 48WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Outro exemplo dessa seletividade de expressão gênica pode ser verificado para o gene BRCA1, o qual está relacionado com o câncer de mama. Esse gene apresenta penetrância incompleta e os testes genéticos estimam que 70% das mulheres portadoras do alelo serão afetadas pela doença. Todavia, mesmo para essas portadoras o diagnóstico genético não deve ser entendido como uma sentença e sim como um indicativo de risco elevado. Tecnicamente falando, o gene BRCA1 tem 70% de penetrância ou é 70% penetrante. Essa penetrância incompleta pode ser justificada pela influência dos seguintes fatores: • Ação do ambiente em que o indivíduo foi criado; • Interação com outros genes; • Expressividade muito sutil do alelo. A ação do ambiente na penetrância justifica o fato de indivíduos portadores do mesmo genótipo apresentarem uma variedade de fenótipos. Além disso, os fenótipos podem se sobrepor, isto é, o fenótipo de um indivíduo mutante submetido a certas condições ambientais pode ser idêntico ao fenótipo de um indivíduo selvagem exposto a outros fatores ambientais. Nesse sentido, seria impossível diferenciar o portador do alelo mutante e o do selvagem. Considerando a interação com outros genes, a epistasia poderia justificar a supressão de um fenótipo típico. Outra justificativa para a penetrância incompleta é a sutileza da expressão de um alelo, em outras palavras, pode ser que o gene tenha baixa expressividade. A expressividade mensura o grau de expressão desse alelo, isto é, mede a intensidade de um fenótipo. A figura 9 mostra uma representação esquemática que evidencia os conceitos e penetrância expressividade. Observe que a penetrância é determinada pela presença do fenótipo (cor), enquanto a expressividade é avaliada pelo grau de expressão do alelo (intensidade da cor). Figura 9 - Representação da expressividade variada e penetrância. Fonte: MDS MANUALS (2009). 49WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Um exemplo evidente de expressividade variável pode ser verificado no padrão de malhagem de cães da raça Beagle. Cada um dos cães malhados tem o alelo dominante SP, o alelo responsável pelas manchas nos cães. Os animais swsw (homozigoto recessivo) tem a pelagem branca, apenas com alguma mancha na orelha ou patas ou cauda. Além disso, a pelagem dos Beagles pode variar desde cores únicas (expressividade uniforme), até manchas de formas e tamanhos diferentes (expressividade variável) (Figura 10). Figura 10 - Dez gradações de padrão malhado em Beagles. Fonte: Griffiths et al. (2013). Outro exemplo de penetrância variável trata-se da heterocromia a íris. Heterocromia designa a presença de olhos de cores diferentes em uma pessoa. Nesse caso, o indivíduo pode apresentar cada um dos olhos de uma cor, ou então apenas parte da íris de outra cor. Em termos genéticos,a heterocromia é resultado de uma variação na expressão do gene responsável pela produção de melanina (pigmento que dá cor aos olhos, pele e cabelo). Com isso, genes de expressividade variável podem ser ativados em apenas um dos olhos ou até mesmo em algumas regiões de uma íris, impedindo a síntese de melanina e, como resultado, originando o olho azul ou regiões azuis (Figura 11). 50WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 11 - Heterocromia em humanos e gatos. Fonte: Wikimedia Commons (1982). Ao discutirmos interação gênica vimos que vários alelos podem se relacionar por meio se seus produtos, as proteínas, e juntos determinarem um fenótipo. Neste tópico veremos que há uma situação oposta a essa, pois um par de alelos pode afetar mais de uma característica em um indivíduo. Quando um gene influencia fenótipos diversos é dito que se trata de um gene pleiotrópico. O termo pleiotropia (pleio = mais numeroso; tropos = afinidade) designa a manifestação de várias características em um indivíduo a partir da expressão de um par de alelos. Esse fenômeno genético contraria o que foi proposto por Mendel, pois segundo esse pesquisador, cada par de alelos seria responsável por uma característica. Um exemplo de pleiotropia é a fenilcetonúria em humanos. É uma doença genética causada pela mutação do alelo responsável pela codificação da enzima fenilalanina hidroxilase (FAH), que degrada o aminoácido fenilalanina no fígado. Com a mutação do alelo e, por consequência, a não codificação da enzima FAH, a fenilalanina vai sendo continuamente acumulada no organismo e pode causar várias consequências como incapacidade mental, problemas renais, redução de pelos, e alteração na produção de melanina de pelos, cabelos e olhos. Em pessoas normais a fenilalanina é convertida em tirosina, que é precursora de melanina. Mas, observe que, as pessoas que apresentam fenilcetonúria possuem pele, cabelo e olhos claros, pois uma vez que a fenilalanina não é metabolizada, a melanina não será produzida (Figura 12). Figura 12 - Diagrama da produção do pigmento melanina em pessoas normais. Fonte: a autora. Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 51WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A Síndrome de Marfan também é um exemplo de pleiotropia. Indívíduos que têm a síndrome apresentam uma mutação no gene FNB1 situado no cromossomo 15. Esse gene é responsável pela produção da fibrilina, uma proteína que integra a estrutura das fibras elásticas. A produção anormal de fibrilina resulta em fibrilina defeituosa, que por sua vez, gera consequências como doenças cardiovasculares, flacidez dos tendões, deformidade torácica (peito escavado), dedos longos, entre outros. Resumindo, este é mais um exemplo de pleiotropia, que indica que um gene pode afetar mais de um fenótipo. 8 - HERANÇA QUANTITATIVA Nos tópicos anteriores vimos exemplos em que genes podem não ser expressos, ou podem afetar vários fenótipos. Neste tópico discutiremos o efeito cumulativo de vários genes, cada um colaborando com uma parcela do fenótipo. Várias características dos seres vivos, como altura e cor da pele ou olhos são o resultado do efeito somatório de mais de um gene. Assim, indivíduos que possuem mais alelos para a cor da pele, por exemplo, terão pele mais escura. Essa herança determinada por um ou mais genes trata-se da herança quantitativa ou poligênica. Na herança quantitativa há uma ampla variação entre os fenótipos, pois há uma gradação entre as possibilidades. A cor da pele humana, por exemplo, determina a classificação dos indivíduos conforme as seguintes categorias fenotípicas: branco, mulato-claro, mulato-médio, mulato escuro, e negro. Tais classes são o resultado da expressão de dois genes, Aa e Bb. Dessa maneira, A e B determinam a produção de melanina e possuem efeito cumulativo. Portanto, indivíduos duplo-recessivos (aabb) terão a pele clara. As demais possibilidades de tonalidade de pele estão mostradas na tabela 1. Tabela 1 - Genótipos e fenótipos segundo a herança poligênica para a cor da pele. Fonte: a autora. Essa noção de herança quantitativa nos faz entender por que pais de pele clara (aabb) não poderão gerar filhos mulatos claros. Ou ainda, que pais mulatos médios podem ter filhos com pele clara. Para que esta ideia seja bem compreendida o quadro 2 mostra o cruzamento dentre indivíduos mulatos médios duplo-heterozigotos (AaBb x AaBb). Vinicius marko Destacar 52WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Quadro 2 - Cruzamento entre parentais mulatos médios. Fonte: a autora. A proporção fenotípica resultante desse cruzamento é: 1/16 (negro): 4/16 (mulato escuro): 6/16 (mulato médio): 4/16 (mulato claro): 1/16 (branco). A cor dos olhos também é um exemplo de herança quantitativa e ao mesmo tempo de epistasia. A tonalidade dos olhos dependerá da quantidade de melanina que será depositada na íris. Antes de falarmos da genética envolvida nesse assunto, vale mencionar que a melanina está é armazenada em vesículas, os melanossomos, os quais estão no interior das células denominadas melanócitos. Há estágios de maturação dos melanossomos e migração da melanina para porções mais superficiais do tecido da íris. Assim, os genes MART e PMEL 17 estimulam a maturação dos melanossomos, enquanto os genes MLPH e MYOSIN regulam a migração na melanina por meio de prolongamentos dos melanócitos. Segundo os estudos de Sturm & Frudakis (2004), em indivíduos de olhos castanhos há grande quantidade de melanossomos maduros nos melanócitos e assim, possuem melanina com ampla distribuição na íris. Em contrapartida, indivíduos de olhos azuis possuem pouca melanossomos nos melanócitos e em estágio imaturo. O que explica a olhos verdes são o resultado de quantidade intermediária de melanossomos. 53WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 13 - Melanócitos e melanossomos iridianos. Fonte: Sturm e Frudakis (2004). Ao menos mais dois genes parecem estar relacionados com a determinação da cor dos olhos. O gene EYCL1 ou GEY (Green Eye Color) do cromossomo 19 e o gene EYCL3 ou BEY (Brown Eye Color) do cromossomo 15. No gene GEY há dois alelos para a cor dos olhos: o GV, dominante que condiciona a cor verde e o GA, recessivo, que determina a cor azul. No gene BEY o alelo BM, dominante, condiciona a cor castanha, enquanto o alelo BA, recessivo, condiciona a cor azul. O BM é epistático em relação aos alelos GV e GA. Portanto, se o indivíduo apresentar o alelo BM seu olho será castanho. Nesse contexto, para ter olhos claros, o indivíduo deve apresentar o par de alelos BABA. A tabela traz os genótipos e fenótipos possíveis para a cor dos olhos. 54WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Tabela 2 - Fenótipos e genótipos possíveis na determinação da cor dos olhos. Fonte: a autora 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Em síntese, vimos nesta unidade que existem extensões e exceções às leis mendelianas em razão da interação gênica, por exemplo. Discutimos em detalhes aspectos das interações entre alelos localizados em dois ou mais loci. Por fim, foram abordados exemplos de: •Penetrância e expressividade; • Pleiotropia; • Herança poligênica. Casais de olhos castanhos podem ter filhos de olhos claros? 5555WWW.UNINGA.BR UNIDADE 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................56 1 - HERANÇA MATERNA OU CITOPLASMÁTICA E GENES MITOCONDRIAIS .................................................... 57 2 - HERANÇA LIGADA AO X, HERANÇA LIMITADA PELO SEXO E HERANÇA INFLUENCIADA PELO SEXO .... 61 3 - HERANÇA LIGADA AO X .....................................................................................................................................63 3.1. INATIVAÇÃO DO CROMOSSOMO X – COMPENSAÇÃO DEDOSE .................................................................65 4 - HERANÇA HOLÂNDRICA OU LIGADA AO Y ......................................................................................................66 5 - GENÉTICA APLICADA À BIOTECNOLOGIA ...................................................................................................... 67 6 - GENÉTICA MOLECULAR E A TECNOLOGIA DO DNA RECOMBINANTE ......................................................... 67 7 - REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE (PCR - POLYMERASE CHAIN REACTION) .....................................69 8 - OGMS – ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS ............................................................................70 8.1. ANÁLISE DO DNA - IDENTIFICAÇÃO DE FRAGMENTOS E DA SEQUÊNCIA DE NUCLEOTÍDEOS .............. 72 8.1.1. IDENTIFICAÇÃO DE FRAGMENTOS ............................................................................................................... 72 8.1.2. IDENTIFICAÇÃO DA SEQUÊNCIA DE NUCLEOTÍDEOS – SEQUENCIAMENTO DE SANGER .................... 73 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................................................. 75 I) EXTENSÕES E EXCEÇÕES DAS LEIS DE MENDEL – HERANÇA MATERNA, HERANÇA INFLUENCIADA PELO SEXO, HERANÇA LIMITADA AO SEXO; II) BIOTECNOLOGIA PROF.A DRA. GISELE NOVAKOWSKI ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: GENÉTICA 56WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Desde a Unidade I estamos tratando de um dos assuntos mais pertinentes à Ciência: a hereditariedade. Vimos ao longo dessa disciplina que um genótipo pode afetar um ou mais fenótipos e é determinado por mecanismos hereditários. Em outras palavras, o genótipo da prole é determinado pelos parentais. Sabemos ainda que, a evolução dos conhecimentos em Embriologia de todas as espécies, incluindo o homem, ajudou a elucidar muitas dúvidas acerca da transmissão de material genético entre as gerações. Desse modo, compreendemos que em termos de material genético, há uma pequena (mas significativa) participação extra de material genético da mãe (progenitora) para o filho (descendente), uma vez que, via de regra, ela transfere DNA mitocondrial. Esse material que tem origem materna pode afetar alguns fenótipos nos filhos, causando-lhes até mesmo problemas graves. Seguindo essa ideia, um fenótipo pode ser afetado pelo gene localizado no cromossomo Y, isto é, o gene de origem exclusivamente paterna pode influenciar um fenótipo. Assim, esse será o panorama que discutiremos nesta unidade. Inicialmente trataremos como ocorre a herança materna. Essa herança é amplamente estudada, pois existem várias doenças humanas relacionadas a mutações no DNA mitocondrial. Além disso, vale citar que há pesquisas na área de ovinocultura e bovinocultura que buscam relacionar a produção animal com a herança citoplasmática. Depois, discutiremos os mecanismos de herança genéticas que sofrem influência ou são determinadas pelo sexo do indivíduo. Por fim, serão abordadas as principais aplicações da Genética nas áreas da saúde e biotecnologia. Desse modo, iremos concluir essa unidade discutindo a ampla utilização da Genética em benefício dos seres vivos. 57WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - HERANÇA MATERNA OU CITOPLASMÁTICA E GENES MITOCONDRIAIS Por definição, a herança materna é aquela em que determinado material genético passado a prole provém da mãe. Essa herança é transmitida por meio da informação genética contida nas mitocôndrias maternas. Antes de discutirmos mais detalhes de como essa transmissão de genes acontece, devemos relembrar aspectos importantes da estrutura e composição das mitocôndrias. As mitocôndrias (mitos = filamento, condria = partícula) são as organelas membranosas de formato ovalado e alongado, são muito abundantes chegando a ocupar cerca de 20% do volume das células eucarióticas. São as organelas responsáveis pela produção de ATP através do processo de respiração celular. Mas a particularidade das mitocôndrias que nos interessam é que elas possuem um DNA próprio, ou seja, diferente do DNA nuclear. A molécula de DNA mitocondrial (DNA mit) é circular em animais e apresenta um menor número de genes em relação ao DNA presente no núcleo celular (Figura 1). Figura 1 - Representação esquemática da localização da mitocôndria na célula e do DNA mit na mitocôndria. Fonte: Wikimedia Commons (2010). Em alguns tipos celulares as mitocôndrias tendem a permanecer fixas em uma região da célula na qual a demanda por energia é maior, como é o caso das mitocôndrias posicionadas na peça intermediária dos espermatozoides. É importante observar que a peça intermediária (dotada de mitocôndrias) do espermatozoide não costuma entrar no citoplasma do ovócito, por isso, as mitocôndrias de um filho são provenientes de sua mãe. Entretanto, há uma pesquisa científica que atestou a presença de DNA mitocondrial de origem paterna na prole humana (LUO et al., 2018). Tal achado científico contesta que a herança mitocondrial seja somente materna. Nesse caso, a herança mitocondrial seria biparental (transmitida pelo pai e/ou mãe). Todavia, devemos ter ciência, como propõe a pesquisa citada, de que a herança mitocondrial paterna não é a regra. Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 58WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Se considerarmos como regra que o DNA mit é passado da mãe para os filhos, estaremos considerando um tipo de herança uniparental. Isso pode ser justificado por dois motivos: 1) no momento da fecundação o espermatozoide deixa a porção que contém as mitocôndrias para fora do ovócito, enviando para o interior do gameta feminino apenas DNA nuclear; 2) a porção do espermatozoide que contém mitocôndrias entra no citoplasma do ovócito, mas é degradada através de um processo enzimático. Assim sendo, todas as mitocôndrias do zigoto costumam ser de origem apenas materna e, portanto, seu DNA mit também. O DNAmit dos mamíferos é pequeno, contém cerca de 37 genes, os quais codificam proteínas importantes em vias metabólicas. A maioria das células possuem inúmeras mitocôndrias e, portanto, muitas cópias de DNAmit. Quando uma mutação ocorre no DNAmit, este material genético mutante é transmitido a outras mitocôndrias, pois estas organelas têm capacidade de multiplicar-se. Com a divisão celular, a ovogônia (célula precursora do ovócito) contendo uma mistura de DNAmit normal e mutante pode distribuir proporções diferentes do DNAmit mutante e DNAmit normal às suas células-filhas (ovócitos). Por exemplo, uma célula-filha pode receber mitocôndrias que só contêm DNAmit normal, ou pode receber somente mitocôndrias com DNAmit mutante. Quando a célula contém mitocôndrias com apenas um tipo de DNAmit caracteriza-se a condição denominada de homoplasmia. Alternativamente, a célula-filha pode receber uma mistura de mitocôndrias, algumas normais e outras com mutação. Neste caso, temos a heteroplasmia. (Figura 2). Figura 2 - Homoplasmia e heteroplasmia. Fonte: a autora. Uma vez que a expressão fenotípica de uma mutação no DNAmit depende das proporções relativas à de DNAmit normal e mutante nas células constituintes dos diferentes tecidos, a expressão variável é uma das características típicas dos distúrbios mitocondriais (em outras palavras, os filhos podem apresentar fenótipos mais expressivos que a mãe) (Figura 2). Vinicius marko Destacar 59WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Portanto, todos os descendentes de uma progenitora (mãe) que seja homoplasmática para uma mutação no DNAmit herdarão esta mutação, enquanto que nenhum dos descendentes de um progenitor (pai) portador da mesma mutação herdará o DNA mit mutante. A herança materna de uma mutação homoplásmica do DNAmit causadora da neuropatia óptica hereditária de Leber está exemplificada na figura 3. É uma neuropatiahumana que afeta o Sistema Nervoso Central e nervos óticos e tem como consequência a perda progressiva da visão. A causa da doença é uma mutação do DNA mit. Normalmente, indivíduos afetados começam a mostrar sinais da doença já na adolescência. Porém, em outros casos, a pessoa manifesta indícios da neuropatia somente na vida adulta. Observe na figura 3, que homens afetados não transmitem a doença. Como se trata de uma homoplasmia, todos os descentes de uma mulher afetada serão afetados. Figura 3 - Heredograma da neuropatia óptica de Leber. Fonte: a autora. Nas mulheres heteroplásmicas há variação na quantidade de mitocôndrias mutantes dos ovócitos (Figura 2). Por esta razão, o risco e a gravidade de uma doença mitocondrial, podem variar consideravelmente dependendo da fração de mitocôndrias mutantes nas suas mães. Dessa forma, a medida que um indivíduo herda de sua mãe grande proporção de mitocôndrias mutantes, a doença se manifestará em seu estado mais grave, talvez até mais grave do que o manifestado por sua mãe. Ao passo que, se o filho herda pequena proporção de mitocôndrias mutantes, o fenótipo expressado pode ser mais leve que o da mãe, ou até mesmo pode nem ser expressado. A herança mitocondrial surge por mutações no DNA mit, como visto anteriormente. Todavia, sabe-se que o aumento da idade da mãe (ou da fêmea, no caso de mamíferos não humanos) parece estar relacionado com a maior proporção de mitocôndrias mutantes. Na sequência são descritas algumas das principais doenças resultantes de herança maternal em humanos: Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 60WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Tabela 1 - Características clínicas das principais doenças mitocondriais. Fonte: Modificado de Souza (2001). ME- LAS= encefalopatia mitocondrial, acidose láctica e episódios tipo AVC; LHON= neuropatia óptica hereditária de Leber; SKS= Síndrome de Kearns-Sayre; CPEO= oftalmoplegia externa crônica progressiva; MERRF= epilepsia mio- clônica com fibras rotas vermelhas; PEARSON= síndrome de Pearson; NARP= neuropatia, ataxia e retinite pigmen- tosa. Fonte: a autora. O DNA mitocondrial (DNAmit) forneceu aos cientistas forenses uma valiosa fer- ramenta para determinar a origem do DNA recuperado de amostras biológicas danificadas, degradadas ou muito pequenas (por exemplo em cena de crime). A maioria das células humanas contém centenas de cópias de genomas de DNA- mit, em oposição a duas cópias do DNA que está localizado no núcleo. Este alto número de cópias aumenta a probabilidade de recuperar amostras suficientes de DNAmit a partir de amostras comprometidas de DNA nuclear e, por esse motivo, o DNAmit pode desempenhar um papel importante nas investigações de pessoas desaparecidas, desastres em massa e outras investigações forenses envolvendo amostras com material biológico limitado. Além disso, o DNAmit é herdado da mãe. Portanto, os irmãos, bem como todos os outros membros da família rela- cionados com a mãe, terão sequências de DNAmit idênticas. Como resultado, as comparações forenses podem ser feitas usando uma amostra de referência de qualquer parente materno, mesmo que a amostra desconhecida e de referência estejam separadas por várias gerações. Vinicius marko Destacar 61WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 2 - HERANÇA LIGADA AO X, HERANÇA LIMITADA PELO SEXO E HERANÇA INFLUENCIADA PELO SEXO Em primeiro lugar, devemos lembrar que todas as espécies dotadas de dimorfismo sexual possuem os cromossomos autossomos e os sexuais (também chamados de heterossomos). Os primeiros são responsáveis por todas as características gerais do indivíduo, comuns aos dois sexos (por exemplo: estatura, cor dos olhos, etc.). Já os cromossomos sexuais, como o próprio termo sugere, são aqueles responsáveis pela determinação das características sexuais (p ex. desenvolvimento de órgãos sexuais, gônadas, etc.). Na figura 4, temos a representação do cariótipo humano (23 pares de cromossomos) e do cariótipo canino (39 pares de cromossomos) para observarmos os cromossomos autossomos e os sexuais. Figura 4a - Cariótipo canino (38 pares de cromossomos autossomos e 1 par sexual). Fonte: VETOGENE (2018). Vinicius marko Destacar 62WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 4b - Cariótipo humano (22 pares de cromossomos autossomos e 1 par sexual) . Fonte: VETOGENE (2018). Os cromossomos sexuais não são completamente homólogos, isto é, não se paream por completo. Há uma região homóloga e outra não homóloga ou diferencial entre os cromossomos X e Y (Figura 5). Desse modo, deve-se esperar que os padrões de herança relacionados ao sexo do indivíduo sejam diferentes daqueles dos autossomos. Por exemplo, os genes presentes apenas no cromossomo sexual X serão representados duas vezes nas fêmeas e uma vez nos machos. Logo, espera-se que os recessivos desse tipo apareçam com mais freqüência no fenótipo de machos. Estes herdam uma característica ligada ao X apenas de sua progenitora, pois recebe o cromossomo Y de seu progenitor. Portanto, o macho é considerado hemizigoto (hemi = parcial) ou heterogamético (hetero = diferente) por receber apenas um conjunto de genes ligados ao X. A fêmea é denominada de homogamética (homo= diferente), tendo em vista que possui duas cópias do cromossomo X. Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 63WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 5 - Representação das regiões homólogas e não homólogas (diferenciais) entre os cromossomos sexuais, X e Y. Fonte: Griffiths et al. (2013). Os cromossomos humanos X e Y têm duas regiões homólogas curtas, uma em cada ponta (Figura 5). Visto que essas regiões são homólogas, elas são como regiões autossômicas, e, portanto, são chamadas de regiões pseudoautossômicas 1 e 2. Uma ou ambas essas regiões pareiam na meiose e sofrem crossing over (permuta). Os genes nas regiões diferenciais apresentam a chamada herança ligada ao sexo. Os genes localizados nas regiões diferenciais do cromossomo X são denominados genes ligados ao X e constituem a herança ligada ao X. Já os genes que ocorrem apenas no cromossomo Y só produzem efeitos nos machos, sendo estes os genes holândricos, que constituem a herança ligada ao Y. 3 - HERANÇA LIGADA AO X Ocorre quando o gene alterado (mutante) está localizado na região diferencial do cromossomo X. Este tipo de herança pode ser recessiva ou dominante. Independentemente de ser recessiva ou dominante, as manifestações vão estar presentes nos machos com apenas uma dose do cromossomo X. Já as fêmeas, manifestarão a característica recessiva se o alelo mutante estiver presente nos dois cromossomos X. Se uma condição ligada ao X não é letal, o macho pode ser suficientemente saudável para transmiti-la para a prole. Um exemplo de característica recessiva ligada ao X é o daltonismo, um distúrbio caracterizado pela incapacidade na distinção de algumas cores (p ex. vermelho e verde ou marrom). Mulheres daltônicas apresentam o genótipo XdXd, enquanto mulheres com visão normal podem ser XDXD ou XDXd (mulher normal portadora do alelo mutante “Xd”). Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar Vinicius marko Destacar 64WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Não há homem portador, pois os genótipos possíveis são XDY (homem de visão normal) e XdY (daltônico). Como o homem só precisa de uma única dose do alelo mutante para manifestar o daltonismo, a frequência de características recessivas é mais alta nos homens que nas mulheres. A figura 6 representa o cruzamento entre uma mulher portadora do alelo para o daltonismo e um homem de visão normal. Imagine que quando um homem é afetado (XdY) ele transmite para todas as suas filhas. Figura 6 - Representação do cruzamento dentre mulher portadora e homem normal para o daltonismo. Fonte:a autora. Na genética veterinária e humana temos também como exemplo de herança recessiva ligada ao X a hemofilia. Indivíduos hemofílicos apresentam problemas de coagulação sanguínea, pois há uma deficiência em um gene codificador do fator de coagulação. Se a doença for uma herança dominante e estiver ligada ao cromossomo X, ela se expressa na fêmea tanto em condição de homozigose quanto em heterozigose. A característica marcante de um heredograma dominante ligado ao X é que um macho afetado terá todas as suas filhas afetadas e nenhum dos seus filhos afetados. Lembre-se que isso ocorre porque o progenitor (pai) colabora com o gameta Y no momento da fecundação, portanto, essa herança depende do genótipo da progenitora (mãe). Uma grande dica para diferenciar herança ligada ao X de herança autossômica é observar que se alguma das filhas do progenitor afetado não for afetada ou algum dos seus filhos for afetado, a doença deverá ser de herança autossômica e não ligada ao X. Se as fêmeas forem heterozigotas para esse caráter (XAXa) e os machos forem normais (XaY), metade das filhas e de filhos desse acasalamento serão afetados. Entretanto, devido a inativação ao acaso de um dos cromossomos X (esse assunto será discutido a seguir) nos diferentes tecidos das fêmeas, estas apresentarão tipicamente uma expressão mais leve (embora variável) da doença. Vinicius marko Destacar 65WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 7 - Heredograma. Fonte: Souza (2010). São exemplos de herança dominante ligada ao X em humanos o raquitismo hipofosfatênico e hipertricose congênita. Em outros mamíferos temos o exemplo da presença de barra larga (plumagem que forma uma banda ou linha de cor diferente e destacada da cor predominante na ave) na plumagem dos machos de aves. 3.1. Inativação do cromossomo X – Compensação de dose Nas células somáticas de fêmeas, genes da região diferencial de um dos cromossomos X são inativados, sendo que em algumas células será no cromossomo X vindo da progenitora (mãe) e em outras células nos cromossomos X vindos do progenitor (pai). Considerando que o macho possui apenas uma cópia do cromossomo X, essa inativação ocorre para que a fêmea não produza o dobro de produtos gênicos determinados pelos genes do cromossomo X, funcionando, portanto, como uma compensação de dose. A inativação do X pode alterar o fenótipo, mas não o genótipo. Vale lembrar que a inativação não ocorre nas células germinativas. Segundo a hipótese de Lyon, nas células somáticas de fêmeas somente um X é transcricionalmente ativo e o segundo cromossomo X permanece no núcleo em uma forma mais condensada, portanto inativa, que é a heterocromatina ou também chamada de corpúsculo de Barr. Essa inativação se inicia ainda durante o desenvolvimento embrionário e serve para diferenciar células somáticas femininas de masculinas, pois nos machos não há inativação do cromossomo X. A escolha de qual X do par de cromossomos sexuais ficará inativado é casual. Depois que um X ficou inativo em uma célula, entretanto, todas as suas células descendentes terão também o mesmo X inativo. Essa casualidade na inativação do cromossomo X resulta em situações particulares em fêmeas heterozigotas. Por exemplo, mulheres heterozigotas para o daltonismo (XDXd) podem ter um dos olhos com visão normal e outro com daltonismo. Isso ocorre, pois no olho com visão normal, o alelo mutante para o daltonismo “Xd” estava no cromossomo X que foi inativado. Por outro lado, o daltonismo do outro olho deve-se ao fato de o alelo normal “XD” estar presente no cromossomo X que foi inativado. Vinicius marko Destacar 66WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Para obter o exemplo de compensação de dose na determinação de gatos tricolo- res acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=l0KGSxJP9uc. Algumas regiões dos cromossomos escapam da inativação do X, correspondem às regiões pseudoautossômicas (homólogas ao cromossomo Y – Figura 5). São regiões do braço curto e uma região do braço longo do cromossomo que continuam a se expressar em ambos os cromossomos X das fêmeas. 4 - HERANÇA HOLÂNDRICA OU LIGADA AO Y É determinada por genes localizados na região diferencial do cromossomo Y (Figura 5) e, portanto, não são expressos nas fêmeas. O cromossomo X é maior do que o Y, por isso o pareamento entre eles durante a meiose é parcial. Assim como ocorre na região diferencial do cromossomo X, o cromossomo Y também tem genes exclusivos que determinam a herança ligada ao Y, cujas características só se expressam nos machos. Essa herança é transmitida de progenitor para os descendentes machos, isto é, de pai para filho. Em humanos temos como exemplo dessa herança a hipertricose auricular, que se caracteriza pela presença de pelos no pavilhão auditivo masculino. Observe no heredograma a seguir que, nessa herança, os machos afetados têm filhos afetados, mas nunca filhas afetadas, já que as fêmeas não possuem o cromossomo Y. Figura 8 - Heredograma para herança ligada ao Y. Fonte: a autora. 67WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 5 - GENÉTICA APLICADA À BIOTECNOLOGIA Discutimos ao longo das unidades os diversos mecanismos e princípios básicos acerca da Genética. Essa ciência vem sofrendo muitos avanços desde seu surgimento a partir de 1900. Dessa forma, os conhecimentos sobre Genética têm influenciado cada vez mais a vida das pessoas, seja através da produção de alimentos e medicamentos, ou pela ampliação de saúde humana e animal advinda do aprimoramento das técnicas de diagnóstico e de terapias modernas. Outro exemplo em que a genética vem sendo aplicada com sucesso é a área de melhoramento animal. O melhoramento animal consiste em selecionar características em espécies conforme o interesse humano. Por exemplo, na bovinocultura, é possível manipular os cruzamentos a fim de primar por descendentes com maior peso corporal, os quais, consequentemente, têm maior potencial de corte. Este tipo de seleção artificial de fenótipos também foi responsável pelo surgimento das raças mini de animais de estimação (p ex. mini cães, mini coelhos, etc.). Neste caso, a seleção de raças tem a função puramente estética e considerando que normalmente é o resultado de endocruzamentos (cruzamentos entre indivíduos aparentados), tem como consequência a redução da variabilidade genética dos descendentes resultantes da seleção. A redução da variabilidade diminui a capacidade da população de se adaptar às alterações ambientais. Entretanto, a medida em que a tecnologia envolvendo princípios genéticos se desenvolve, questões éticas também emergem. Questões contraditórias sobre a manipulação de genes em diversas espécies ou o uso de células animais em terapias humanas colocam em evidência a necessidade de discussão do tema em vários âmbitos como o legislativo, o científico e o social. A seguir são apresentadas algumas técnicas de manipulação de genética, bem como exemplos de áreas onde estão sendo utilizadas. 6 - GENÉTICA MOLECULAR E A TECNOLOGIA DO DNA RECOMBINANTE Na década de 70, Stanley Cohen e Herbert Boyer manipularam o material genético de plasmídeos (DNA extracromossômico de bactérias) com o objetivo de isolar e multiplicar em microrganismos os genes que promovem resistência a antibióticos. A partir dessa ideia, esses pesquisadores desenvolveram uma técnica revolucionaria, a técnica do DNA recombinante, para propagar fragmentos de DNA, o que levou a produção de substâncias de interesse médico como a insulina e os fatores de coagulação sanguínea. Cohen e Boyer A figura 9 demonstra essa técnica do DNA recombinante, em que o DNA exógeno (p. ex. fragmento de DNA humano que contenha o gene para produção de insulina) é recombinado ao plasmídeo bacteriano (também chamado de vetor) e se propaga a medida em que a bactéria se multiplica. É necessário ressaltar que as chamadas enzimas de restrição exercem uma função importantenessa agregação do DNA exógeno ao plasmídeo, pois quebram ambos os DNAs em regiões específicas cujas sequências de bases sejam complementares entre eles. Desse modo, a ligação entre o DNA bacteriano e o exógeno tem o encaixe perfeito e a ligação entre eles é feita pela enzima ligase. Após a união ao plasmídeo, o DNA de interesse será replicado diversas vezes. 68WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Portanto, a técnica do DNA recombinante trata-se de uma metodologia de clonagem de genes de interesse ou clonagem molecular. Figura 9 - Clonagem molecular. Modificado de: Amabis e Martho (2004). Utilizando-se essa técnica a insulina passou a ser produzida a partir de microrganismos. Até então, esse hormônio era extraído do pâncreas bovino ou suíno, que possuem uma insulina bem similar a humana. Porém, essa insulina bovina ou suína tinha vários efeitos colaterais como reações alérgicas ou até mesmo ineficácia para alguns pacientes. Assim sendo, a produção de insulina humana foi um grande avanço para o tratamento de diabéticos. Sobre enzimas de restrição e clonagem do DNA acesse o link: https://www.youtu- be.com/watch?v=PmM6jQ2wl5A. 69WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 7 - REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE (PCR - POLYMERASE CHAIN REACTION) Vimos que a multiplicação de um DNA exógeno pode ser realizada in vivo, a partir da participação de um microrganismo hospedeiro na técnica do DNA recombinante. Todavia, a clonagem molecular também pode ser realizada em in vitro. Nesta abordagem, a amplificação do DNA é feita por meio da reação em cadeia da polimerase (PCR - Polymerase Chain Reaction). O primeiro passo da PCR é o isolamento do DNA a ser clonado (replicado). Alternativamente, o RNA também ser usado na PCR, constituindo a RNA-PCR. O segundo passo desse processo é constituir uma máster mistura com todos os componentes necessários a replicação do DNA. Dessa maneira, ao DNA isolado são adicionados vários desoxirribonucleotídeos trifosfatados (dNTPs - nucleotídeos de DNA ligados a três grupos fosfato), a enzima DNA polimerase, uma solução tampão para manter o equilíbrio do pH e as sequências primers. Os primers são fitas curtas de DNA (cerca de 15 nucleotídeos) complementares ao início da sequência de DNA a ser clonado. Essa máster mistura é colocada em um termociclador, um aparelho que tem ciclos alternados de aquecimento a 98oC e resfriamento a 48oC. O aquecimento promove a desnaturação do DNA, isto é, a dupla hélice se abre. Com o resfriamento, os primers se ligam especificamente às sequências complementares das fitas de DNA que foram separadas e, assim, permitem o início da replicação. A seguir, a DNA polimerase atua adicionando os dNTPs para compor a nova molécula de DNA. Na sequência, acontecem vários outros ciclos de aquecimento e resfriamento, resultando numa amplificação exponencial do DNA. A figura 10 apresenta um esquema das etapas de amplificação do DNA a partir da reação em cadeia da polimerase. Figura 10 - Representação das etapas da reação em cadeia da polimerase. Fonte: WORDPRESS (2014). 70WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA A PCR pode amplificar sequências-alvo que estão presentes em números de có- pias extremamente baixos em uma amostra, desde que primers específicos para essa sequência rara sejam usados. Por exemplo, investigadores criminais podem amplificar segmentos de DNA humano das poucas células foliculares que com- põem o bulbo de um único fio de cabelo retirado. 8 - OGMS – ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS Na primeira parte desta unidade, vimos que as técnicas de biotecnologia descritas para a clonagem molecular e amplificação do DNA foram desenvolvidas em microrganismos. Ainda hoje os genes de células eucarióticas são clonados e sequenciados em hospedeiros bacterianos, mas acabam sendo introduzidos em um eucarioto, seja a espécie doadora original ou uma completamente diferente. O gene transferido denomina-se transgene, e o produto resultante é um organismo transgênico. A figura 11 retrata o método genérico de produção de um organismo transgênico. Conforme esse método, o DNA recombinante contendo o gene de interesse é inserido num ovócito sem núcleo ou no blastocisto (estágio do desenvolvimento embrionário posterior a fecundação) da espécie receptora. Após essa célula modificada geneticamente, ou seja, transgênica, é implantada no útero de uma “mãe de aluguel”, que pertence a mesma espécie da célula que recebeu o DNA recombinante. Perceba que o DNA de interesse pode ser de uma espécie completamente diferente da que vai receber a célula transgênica. Figura 11 - Representação das etapas de produção de um organismo transgênico. Fonte: UNESP (2012). O transgene pode ser introduzido em uma célula eucariótica por meio de várias técnicas, incluindo transformação, injeção, infecção bacteriana ou viral e bombardeamento de partículas de ouro ou tungstênio revestidas por DNA usando- se um disparador de gene. Quando o transgene entra em uma célula, é capaz de ir até o núcleo. 71WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Uma vez no núcleo, precisa tornar-se uma parte estável do genoma. Para isso, o transgene precisa inserir-se em um cromossomo ou (apenas em algumas espécies) replicar-se como parte de um plasmídeo. Se ocorrer a inserção, o transgene consegue substituir o gene residente ou inserir-se ectopicamente – ou seja, em outros locais no genoma. Transgenes de outras espécies normalmente se inserem de forma ectópica. Mas qual a utilidade de se produzir um transgênico? Para compreendermos a utilidade de se produzir um organismo geneticamente modificado, vamos a um exemplo brasileiro. Uma pesquisa da Universidade de Fortaleza desenvolve cabras transgênicas com o intuito de obter de seu leite uma proteína humana necessária para o tratamento da doença de Gaucher. Essa doença humana é rara e com gravidade variada. Indivíduos afetados pela doença tem defeito no gene que produz a enzima glicocerebrosidase, a qual degrada os glicocerebrosídeos (lipídios de membrana). Na ausência dessa enzima, esses lipídios são acumulados nas células de vários órgãos (p ex. fígado, baço, pulmão, rins, etc.), comprometendo sua funcionalidade. O intuito da produção da cabra transgênica é transformar seu material genético de maneira inserir o gene responsável pela codificação da glicocerebrosidase. Na etapa final do processo, a enzima pode ser extraída e purificada do leite de cabra e pode ser utilizada para combater a doença de Gaucher em humanos. A figura 12 mostra um esquema das etapas da produção de cabras transgênicas para obtenção de glicocerebrosidase. Figura 12- Esquema das etapas da produção de cabras transgênicas para obtenção de glicocerebrosidase. Fonte: AFFONSO (2015). 72WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 8.1. Análise do DNA - Identificação de fragmentos e da se- quência de nucleotídeos 8.1.1. Identificação de fragmentos Discutimos no tópico anterior que as enzimas de restrição lisa, o DNA em regiões específicas e originam fragmentos de vários tamanhos (peso moleculares). Os fragmentos de DNA de tamanhos distintos podem ser organizados através da técnica de eletroforese com gel de agarose. Trata-se de uma técnica de separação dos fragmentos fundamentada na velocidade de migração deles. O gel de agarose é composto por ágar e pectina (ambos são carboidratos) dissolvidos em água fervente. Em temperatura ambiente este gel adota a consistência de gelatina. Para realizar o procedimento, o DNA fragmentado é inserido em pequenas cavidades feitas no gel. Na sequência, uma corrente elétrica é aplicada através do gel criando um campo elétrico que distingue dois pólos, um positivo (ânodo) e um negativo (cátodo). Como os fragmentos de DNA são carregados negativamente, eles são atraídos pelo ânodo e migram com velocidades distintas conforme seus pesos moleculares.Os menores fragmentos migram mais rapidamente que os maiores, originando bandas no gel. Ao final da migração dos fragmentos, o gel é mergulhado em um corante como o brometo de etídio, que ao ser submetido a luz ultravioleta apresenta fluorescência. A figura 13 representa a eletroforese em gel. Figura 13 - Representação da eletroforese em gel de agarose. Fonte: EMBRAPA (2018). É importante ressaltar que cada molécula de DNA sempre apresentará o mesmo padrão de fragmentação quando lisada pela mesma enzima de restrição. Portanto, o padrão de bandas formadas pela eletroforese é característico a cada indivíduo (exceção feita a gêmeos idênticos, pois possuem o mesmo DNA), como se fosse o seu “código de barras”. Por consequência, indivíduos aparentados, por exemplo, pais e filhos, devem apresentar similaridade no padrão de fragmentos. Esse raciocínio é a base dos testes de paternidade ou das análises de DNA em cenas de crime. 73WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA A figura 14 mostra um exemplo fictício de teste de paternidade, onde é possível avaliar, através da similaridade de padrão de bandas de DNA, que apenas os indivíduos I e III são filhos do casal. Observe que todas as bandas de DNA dos indivíduos I e III coincidem com as do pai ou da mãe. O indivíduo II não tem nenhuma coincidência de bandas com o pai, portanto não é seu filho, mas é o filho dessa mãe. Figura 14 - Representação fictícia de um teste de paternidade. As bandas similares entre mãe e filho estão destacadas pelo pontilhado vermelho. A similaridade entre pai e filho está destacada pelo pontilhado azul. Fonte: Santos (2010). 8.1.2. Identificação da sequência de nucleotídeos – Sequenciamento de Sanger No tópico anterior discutimos a organização de fragmentos de DNA. Neste, discutiremos como é possível identificar a sequência exata de bases nitrogenadas de um fragmento de DNA. Basicamente, o sequenciamento fundamenta-se na interrupção da síntese da fita complementar de DNA através da incorporação de nucleotídeos modificados, os didesoxirribonucleotídeos (ddNTPs). Tais nucleotídeos são distintos dos normais (ATP, GTP, CTP e TTP) pelo fato de não terem a hidroxila (OH) na extremidade 3´ da fita de DNA. Assim, esses nucleotídeos possuem 2 átomos de oxigênio a menos que a ribose, sendo por isso denominados didesoxirribonucleotídeos. Além disso, cada ddNTP é ligado a um fluorocromo, que é uma substância que emite luz se submetida a raios laser. Quando um ddNTP é adicionado pela enzima DNA polimerase a fita de DNA que está sendo construída, a síntese é interrompida em virtude da ausência da hidroxila. Lembre-se que a ligação entre os nucleotídeos envolve a hidroxila da extremidade 3´ (assunto abordado na Unidade I). Essa adição de ddNTPs a fita de DNA é casual, aleatória. Por esta razão, quando todo o processo termina, podem ser observados fragmentos de DNA de vários tamanhos. 74WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Na etapa seguinte, os fragmentos de DNA de tamanhos distintos podem ser organizados através da técnica de eletroforese, como explicitado no tópico anterior. Mas, devemos compreender que a eletroforese tem grande sensibilidade, pois organiza até mesmo os fragmentos que diferem em apenas um nucleotídeo. Como cada ddNTP é ligado a um fluorocromo diferente, cada um emite uma luz de cor diferente quando excitado por laser. Por isso, o fluorocromo associado ao ddGTP (didesoxirribonucleotídeo cuja base nitrogenada é a guanina) emite luz amarela; o fluorocromo ligado ao ddCTP (didesoxirribonucleotídeo cuja base nitrogenada é a citosina) emite luz azul; se associado ao ddATP (base = adenina) emite luz verde; e, por fim, se ligado ao ddTTP (base= timina) emite luz vermelha. Com isso, como cada ddNTP se localiza na extremidade da fita de DNA que interrompeu, é possível saber se é um ddATP, ddCTP, ddGTP ou ddTTP pela luz que emite. E considerando que a eletroforese ordenou os fragmentos por diferenças de tamanho de um nucleotídeo, é possível identificar a sequência completa do fragmento de DNA, como mostrado na figura 15. Figura 15 - Representação do sequenciamento de DNA por meio da utilização de ddNTPs. Fonte: OSU (2018) O sequenciamento de DNA trouxe vantagens para diversas áreas do conhecimento. Na medicina, permitiu a identificação de genes causadores de doenças, propiciando, desse modo, opções melhores de tratamento dos pacientes. Na veterinária, fundamentou as bases para a seleção artificial de fenótipos em animais. Na criminalista, propiciou meios de investigação mais apurados e que demandam menor quantidade de material genético em cenas de crime. Enfim, a Genética é uma Ciência relativamente recente, mas que se tornou um dos grandes pilares das pesquisas que visam a melhoria de qualidade de vida dos seres vivos. 75WWW.UNINGA.BR GE NÉ TI CA | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final do nosso estudo e em síntese, vimos nesta unidade: • Herança materna; • Herança ligada ao X; • Herança ligada ao Y. • Aplicações da genética na biotecnologia; • Tecnologia do DNA recombinante; • Identificação de fragmentos de DNA; • Sequenciamento de DNA; • Organismos geneticamente modificados. 76WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS AFFONSO. A. Etapas da produção de cabras transgênicas para obtenção de glicocerebrosidase. 2015. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2015/10/062-065_ cabra-trans_236.jpg>. Acesso em: 03 de fevereiro de 2019. BORGES-OSÓRIO, M. R. Genética Humana. 2ª ed. São Paulo: Artmed, 2001. EMBRAPA. Eletroforese em gel de agarose. 2018. 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