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Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 89 MED RESUMOS 2013 NETTO, Arlindo Ugulino; CORREIA, Luiz Gustavo. CARDIOLOGIA EDEMA AGUDO DE PULMÃO (Professor Bernardino Terceiro) O edema agudo dos pulmões constitui uma síndrome clínica (composta por múltiplos sinais e sintomas) que deve ser tratada logo efetivamente em ambiente hospitalar ou em UTI (de preferência). É considerada uma entidade nosológica grave que exige reconhecimento clínico rápido, seguido por tratamento imediato, já que pode se acompanhar de insuficiência respiratória aguda. Conceitua-se edema pulmonar o aumento anormal de líquido nos compartimentos extravasculares dos pulmões. Essa situação ocorre sempre que o movimento de fluidos intravasculares dirigido para os espaços intersticial e alveolar ultrapassar a capacidade de drenagem sanguínea e linfática. CONCEITO Edema Agudo de Pulmão (EAP) é síndrome clínica com causas diversas, porém com alterações fisiopatológicas finais e sintomatologia semelhantes, decorrentes do acúmulo de líquido nos espaços alveolares e intersticiais dos pulmões resultando em hipoxemia, complacência pulmonar reduzida, trabalho respiratório aumentado e relação ventilação/perfusão anormal. Existem causas diversas que podem levar ao EAP, de maneira que a etiologia não somente está confinada ao sistema pulmonar, mas também pode ser ocasionada por causas cardíacas, infecciosas e sistêmicas. Geralmente é decorrente de uma quebra na homeostase da circulação cardíaca direita e a circulação pulmonar. Todas as etiologias apresentam em comum o acúmulo ou retenção de líquido nos espaços alveolares e intersticiais dos pulmões em um curto período de tempo (daí a descrição como edema agudo). E, a retenção, por si só, determina uma dificuldade em nível alveolar das trocas gasosas, resultando em hipoxemia, complacência pulmonar reduzida, trabalho respiratório aumentado (há um maior gasto energético no trabalho natural da respiração) e relação ventilação/perfusão alterada. A compreensão da patogênese do EP exige uma breve revisão das estruturas anatômicas que compõem a denominada unidade alvéolo-capilar. BASES ANATÔMICAS Anatomicamente, o ventrículo direito forma o tronco pulmonar, que se subdivide em artérias pulmonares e se distribuem de maneira sequencial, até alcançar a unidade anátomo- funcional do pulmão (complexo alvéolo-arteríola-vênula pulmonar) onde ocorrerá a oxigenação do sangue (hematose) que circula dentro das artérias pulmonares por um processo difusional de CO2 e O2. O sangue já arterializado alcança o coração pelo átrio esquerdo (por intermédio das veias pulmonares) e, daí segue pelo ventrículo esquerdo, de onde parte a artéria aorta, distribuindo o sangue com níveis de oximetria elevado para todo o restante do organismo, inclusive, irrigando o parênquima pulmonar. O pulmão é recoberto por uma pequena quantidade de fluídos e possui um eficiente mecanismo de formação e reabsorção dos mesmos. Este equilíbrio entre a produção e reabsorção de líquidos, que ocorre normalmente nas pleuras, é regido pela equação de Starling, que veremos melhor logo adiante. BASES FISIOLÓGICAS O pulmão, conforme dito anteriormente, é revestido por uma pequena quantidade de fluídos que atuam como lubrificante da superfície e do interstício pulmonar. Sabendo que os pulmões estão em constante movimento de expansão e redução de volume, os fluídos atuam como um importante mecanismo de amortecimento de impactos por repetição – caso o pulmão fosse um órgão ressecado, a cada expansão, haveriam traumas importantes. Além de que, a difusão de O2 e CO2 é melhor em meio líquido. O espaço intersticial é formado por tecido conectivo distribuído amplamente em torno de vasos sanguíneos, tecido brônquico e espaços interlobulares. Esse tecido interposto entre alvéolos e capilares torna-se mais abundante quando envolve bronquíolos terminais, arteríolas e vênulas; nessa situação, apresenta vasos linfáticos cuja função é remover fluidos e solutos provenientes do espaço intravascular. A parede do alvéolo pulmonar é composta por células epiteliais escamosas, denominadas pneumócitos tipo 1, que se associam a células epiteliais contendo grânulos no interior, chamadas pneumócitos tipo II. As células epiteliais são responsáveis pela produção da membrana surfactante, que, em parte, mantém a estrutura alveolar adequada para efetuar trocas gasosas. A disposição desse epitélio permite que não ocorra inundação dos alvéolos por líquido proveniente do espaço intersticial, salvo nos estágios finais de progressão do EAP. Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 90 Normalmente, a produção de líquidos é praticamente igual ao que é recolhido, ou absorvido. Caso contrário, se houver mais produção do que drenagem, haverá acúmulo de líquidos; caso contrário, isto é, se houver mais drenagem do que produção, haverá ressecamento do órgão. O conteúdo aquoso do espaço intersticial é mantido sob a forma de "gel", que pode se alterar quando há extravasamento de líquido do intra para o extravascular. Esse movimento de fluidos em diferentes situações clínicas está determinado pela equação de Starling, cuja expressão matemática pode ser assim expressa: Qf = Kf (Pc – Pi) – Kp (πc –πi) 9 Qf = Taxa de filtração de fluidos 9 Kf = Coeficiente de transporte de água 9 Pc = Pressão hidrostática capilar 9 Pi = Pressão hidrostática intersticial 9 Kp= Coeficiente de transporte de proteínas 9 π c = Pressão coloidosmótica capilar 9 π i = Pressão coloidosmótica intersticial Portanto, na unidade anátomo-morfo-funcional do pulmão, a taxa de filtração de fluidos depende diretamente da pressão hidrostática e colodosmótica, tanto nos vasos quanto no interstício pulmonar. Normalmente, o balanço dessas forças conduz a uma transudação de pequena quantidade de fluído dos capilares para o espaço intersticial. Esse filtrado é drenado por um sistema linfático que recebe até 500 mL de líquido diariamente. Outros mecanismos protetores também impedem que ocorra um aumento indesejável de fluidos no interstício. Assim, o próprio aumento da pressão hidrostática no interstício, que ocorre por acúmulo de líquido filtrado, limita a continuidade de fluxo do intra para o extravascular. Mais ainda, a redução da pressão oncótica intersticial favorece o retorno de fluidos para o interior dos capilares sanguíneos, já que a pressão oncótica é mais alta em seu interior. Observe a importância da pressão osmótica, da pressão oncótica capilar (Poc) e da drenagem linfática na manutenção de interstício pulmonar sem edema. Quando a pressão hidrostática capilar aumenta para valores acima de 25 mmHg, como pode ocorrer na falência ventricular esquerda aguda, estabelece-se a filtração de fluidos e proteínas, por meio do endotélio microvascular, em direção ao interstício. Nessa circunstância, a capacidade de drenagem dos linfáticos poderá ser insuficiente, causando um desequilíbrio na balança de homeostase vista anteriormente, causando o surgimento do edema intersticial. A evolução do acúmulo de líquido instala edema peribrônquico que determina fechamento de pequenas vias aéreas e diminuição dos volumes pulmonares. Em sequência, há oclusão de alvéolos, queda da complacência dos pulmões e aumento do trabalho respiratório. A presença de líquido extravascular determina alterações na relação ventilação/perfusão dos pulmões, consequentes ao aparecimento de áreas perfundidas, mas hipoventiladas, levando à hipoxemia causada pelo efeito shunt (isto é: alvéolos perfundidos, mas pouco ventilados). Essa alteração gasométrica contribui para a ocorrência de acidose que, classicamente, está ligada à instalação de metabolismo anaeróbio. Além disso, haverá ainda a presença de uma interface aumentada de líquidos no contato entre a membrana respiratória e os capilares, dificultando a hematose, piorando ainda mais oquadro hipoxêmico. Para suprir todo este mecanismo patológico, o organismo lança mão causando uma hiperventilação a partir da utilização da musculatura respiratória acessória, o que aumenta o gasto energético inerente ao ato respiratório, o que pode levar à fadiga. O aumento da frequência respiratória, provocado pela estimulação de receptores T, situados no interstício pulmonar, leva à redução da PaCO2 (pressão arterial de gás carbônico) provocando, inicialmente, alcalose respiratória. Entretanto, deve-se lembrar que a exaustão física pode provocar hipoventilação alveolar e retenção de CO2, possibilitando o aparecimento de acidose respiratória. Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 91 ETIOLOGIA A etiologia do edema agudo de pulmão é dividida da seguinte maneira: x Causas hemodinâmicas: elevação importante de pressão arterial (emergência hipertensiva); insuficiência ventricular esquerda (ICC por IAM ou angina instável AI); comunicação interventricular; insuficiência mitral aguda obstrução da valva mitral (por estenose mitral ou mixoma atrial esquerdo); arritmias cardíacas; hipervolemia. o Elevação importante da Pressão arterial (PA): pode ocorrer como consequência da elevação da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo, sendo a causa mais comum do EAP. Justifica-se o quadro hipertensivo corroborando um EAP a partir do acúmulo de líquido nos capilares pulmonares, com consequente congestão pulmonar e extravasamento de líquidos para o interstício. o Comunicação intraventricular (CIV): O EAM consequente à CIV decorre, principalmente, de um desequilíbrio hemodinâmico entre as duas câmaras cardíacas, na qual, o ventrículo esquerdo passa a ter uma pressão menor do que sua pressão fisiológica normal e o ventrículo direito apresentará uma pressão maior do que sua pressão fisiológica normal. Desta maneira, o aumento da pressão do ventrículo direito é transmitido para a circulação pulmonar, com consequente aumento de pressão pulmonar e, congestão do tecido pulmonar. o Insuficiência mitral aguda: Ocorre comumente em situações pós-infarto (pelo rompimento dos músculos papilares), em que se tem um aumento da pressão no átrio esquerdo, resultando em uma congestão pulmonar retrógrada. o Obstrução de valva mitral (estenose mitral, mixoma atrial esquerda): A obstrução da valva mitral pode caracterizar o quadro de edema agudo de pulmão em diversas situações, a exemplificar na presença de mixoma atrial esquerdo (tumor de células lisas) e, com isto, o sangue apresentará dificuldade para alcançar o ventrículo, durante a diástole. o Arritmias cardíacas: O quadro de EAP secundário às arritmias cardíacas ocorre nas situações de taquiarritmias ventriculares e bradiarritmias. o Hipervolemia: O mecanismo exato do quadro de EAP secundário à hipervolemia é dado pela dificuldade de drenar a grande quantidade de líquido circulante, determinando também aumento da pressão diastólica final que cursa com a congestão pulmonar. x Permeabilidade capilar alterada: endotoxemia; infecção pulmonar; aspiração pulmonar; anafilaxia; Síndrome de Desconforto Respiratório do Adulto; afogamento. x Pressão oncótica plasmática reduzida: cirrose hepática avançada (hipoalbuminemia). x Excesso de pressão intrapleural negativa: reexpansão de pneumotórax. x Miscelânia: neurogênico (após trauma craniano); edema agudo de pulmão por altitude, embolia pulmonar. . Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 92 EXAME CLÍNICO E FÍSICO QUADRO CLÍNICO Todos os sintomas que caracterizam o quadro clínico do EAP se apresentam em conjunto e em caráter de emergência médica. A própria consulta inicial no pronto-atendimento pode demonstrar o quadro do EAP, pois, é frequente que o paciente não consiga conversar com o médico pela taquipneia expressiva. 9 Hipoxemia e taquipneia: Na vigência de um acúmulo de líquido no alvéolo pulmonar, seja por diminuição da pressão oncótica ou por aumento da pressão hidrostática, determinará um quadro de congestão pulmonar, com consequente prejuízo funcional. A primeira característica do quadro congestivo é a diminuição e dificuldade de realização de trocas gasosas, cursando com diminuição do nível de oxigênio do sangue arterial (hipoxemia). O organismo, na atribuição de uma situação hipoxêmica, responderá de maneira compensatória para aumentar a reserva de oxigênio, aumentando o trabalho respiratório (aumento da frequência respiratória, taquipneia). 9 Dispneia: No contexto semiológico, pode ser de início súbito ou piorar rapidamente de maneira progressiva. É causada como um reflexo do organismo diante da hipoxemia e do comprometimento das trocas gasosas. Pode se iniciar subitamente ou ter uma piora importante durante o repouso. 9 Ortopneia: É a dificuldade respiratória que ocorre quando a pessoa está deitada, fazendo com que o indivíduo tenha que dormir com a cabeceira elevada da cama (usando vários travesseiros para dormir) ou sentado em uma cadeira. A explicação fisiopatológica deste sintoma está ligada ao fato de que o paciente ao sentar faz com que o líquido do edema, por ação gravidade-dependente, se acumule nas regiões mais inferiores dos pulmões. Podemos ainda exemplificar por meio de um caso clínico de um paciente que foi surpreendido no meio da noite uma dispneia que melhorou quando o mesmo se posicionou sentado. 9 Dispneia paroxística noturna: esta é causada pela própria ortopneia: quando o paciente se deita, aumenta o retorno venoso, o que faz com que o pulmão “se afogue” ainda mais em líquido. Quando se avalia um paciente com dispneia paroxística noturna, deve-se fazer diagnóstico diferencial com embolia pulmonar (TEP). 9 Diaforese: sudorese fria excessiva e perspiração profusa. Nota: alguns livros trazem o conceito de diaforese como dificuldade de falar devido à falta de ar, o que também é faz parte do quadro clínico do EAP. 9 Taquicardia: O aumento da frequência cardíaca ocorre como meio compensatório do organismo no intuito de oxigenar mais o sangue. 9 Cianose: Pelo acúmulo de carboxiemoglobina (níveis maiores do que 5mg/dL), como consequência de uma diminuição da troca gasosa. 9 Sensação de morte iminente 9 Líquido róseo e espumoso pela boca e nariz: quando presente, até que se prove o contrário, trata-se de EAP e, geralmente, está relacionado com indício de fase final da doença. Este escape de líquido espumoso se deve à grande quantidade de liquido dentro dos alvéolos, que estimulam receptores tussígenos pulmonares, podendo até romper vasos traqueobrônquicos (daí a coloração rósea). EXAME FÍSICO 9 Taquipneia: Ocorre como mecanismo compensatório para aumentar os níveis de oxigênio e de diminuir os níveis de gás carbônico. 9 Estertores e roncos pulmonares: Na ausculta, os estertores e roncos pulmonares apresentam-se com intensidade tão alta, por vezes, que não se consegue auscultar o coração. Além disso, o paciente apresenta-se inquieto, sendo outro fator que denota dificuldade na ausculta cardíaca. Os estertores e roncos iniciam em bases e vão progredindo até os ápices pulmonares. A ausculta pulmonar contendo tais sons anormais é de grande importância para a prática clinica, pois, a sua ausculta e sua caracterização são meios de avaliar o grau de evolução do paciente com o tratamento do EAP. 9 Sibilos: não é muito comum este achado na ausculta, mas quando presentes, são decorrentes da hiperatividade pulmonar. 9 Utilização de musculatura acessória: É muito comum que os pacientes utilizem a musculatura acessória (M. Esternocleidomastóideo, Escalenos, Intercostais). 9 Crise hipertensiva ou depressão da PA: A crise hipertensiva denotará um aumento da pressão arterial, sendo uma das causas hemodinâmicas do EAP. Porém, a diminuição pode ocorrer como consequência de uma endotoxemia, com choque cardiogênico. 9 Arritmias e infartos 9 Ausculta cardíaca prejudicada: devidoà exacerbação dos sons pulmonares. Quando é possível a ausculta, pode-se observar ritmo galope, sopros, etc. 9 Taquicardia 9 Cianose de extremidades Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 93 EXAMES COMPLEMENTARES O diagnóstico de EAP é eminentemente clínico. Os exames complementares são utilizados para determinar a etiologia do EAP, pois, o tratamento deve priorizar não somente o estado atual do edema de pulmão, mas também a doença de base que está causando o quadro secundário em nível pulmonar. Ou seja, os exames complementares servem para determinar a etiologia, intensidade do edema, acompanhamento do tratamento e, somente devem ser solicitados quando o paciente apresentar-se estável. ELETROCARDIOGRAMA (ECG) O eletrocardiograma (ECG) é um exame inespecífico para o EAP, pois, existem vários padrões que podem ser vistos na ECG, mas se mostra importante para levantar suspeitas. As principais alterações no ECG são: 9 Taquicardia (sinusal, supraventricular, ventricular ou FA ARV) 9 Bradicardia 9 Alterações sugestivas de infarto 9 Sobrecarga de átrio esquerdo (P mitrale) 9 Sobrecarga de câmaras esquerdas 9 Síndromes coronarianas agudas (com ou sem supra ST) OBS1: No ECG à direita, se observa QRS largo e bizarro, demonstrando uma taquicardia ventricular, com frequência aumentada. OBS2: No ECG, se observa QRS estreito, não havendo onda P, demonstrando taquicardia supra-ventricular. OBS3: No ECG abaixo, se observa que na parede anterior (V1-V6) se tem um grande supra-desnivelamento do segmento ST, que representando um infarto agudo do miocárdio. Nas derivações precordiais, em V1, há a onda Q e segmento ST, a partir de V2 tem um supra-desnivelamento do segmento ST. O supra-desnivelamento é maior quando o paciente apresentar maior massa do músculo cardíaco. Um supra-desnivelamento do segmento ST indica de que há algum trombo ocluindo artéria do miocárdio e, consequentemente, não permitindo a passagem do sangue. Assim sendo, o supra-desnivelamento de V1-V6 significa infarto agudo do miocárdio em parede anterior extensa. Como vimos no capítulo referente ao ECG, outras derivações revelam situações em paredes cardíacas específicas, tais como: 9 DI e aVL: parede lateral 9 DII, DIII e aVF: parede inferior 9 V1,V2: Septal 9 V3,V4: Parede anterior 9 V1 a V6, DI e aVL: Parede anterior extensa Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 94 RADIOGRAFIA DE TÓRAX Quando se procede da Radiografia de tórax (R-X), observam-se alguns achados importantes para a análise do EAP. De início, se observa infiltrado hilar bibasal e, em seguida, infiltrado intersticial alveolar. O padrão radiográfico do EAP está descrito abaixo: 9 Edema intersticial: cefalização da trama vascular (observa-se, radiologicamente, os vasos apontando para os ápices, invertendo-se a circulação normal), linhas B de Kerley (horizontais, mais periféricas e basais), linhas A de Kerley (verticais e mais centrais), espessamento das paredes brônquicas, espessamento das cisuras interlobares. 9 Edema alveolar: aspecto de “asa de borboleta”, que é observado na região hilar pulmonar congesto, pseudotumor (coleção localizada de densidades diferentes do pulmão, sendo necessário que se proceda de diuréticos e reavalie o R-X em algumas horas, para diagnosticar se é ou não um quadro tumoral). A clássica imagem em “asa de borboleta” representa a própria cefalização da trama vascular. 9 Cardiomegalia pode estar presente ou não, se presente, deve-se pensar em insuficiência cardíaca como doença de base. OBS4: Não é comum a avaliação do EAP por meio de Tomografia computadorizada (TC), porém, quando se procede da avaliação deste tipo de padrão radiológico, os achados são semelhantes ao R-X de tórax (sendo este preferível por ser mais barato e convencional). GASOMETRIA ARTERIAL De início o pH do paciente com EAP está dentro da normalidade (7,35-7,45). Inicialmente há hipoxemia arterial (PaO2 < 60 mmHg) com hipocapnia (devido à hiperventilação, podendo caracterizar uma alcalose respiratória). Com a evolução, ocorre piora da hipoxemia e maiores dificuldades de troca gasosa (pela fadiga da musculatura acessória), de modo que o paciente passa a reter CO2, instalando-se, assim, uma hipercapnia e acidose (mista), de modo que o paciente começa a alterar seu nível de consciência. Neste instante, deve-se proceder com suporte ventilatório imediato por meio de intubação. Portanto, a gasometria arterial depende muito do estágio evolutivo do paciente na síndrome clínica: inicialmente há hipoxemia com hipocapnia; caso não seja tratado de imediato, ocorre piora da hipoxemia e instalação de hipercapnia e acidose (inicialmente respiratória e, depois, mista devido à tentativa de compensação renal). Nestes casos, deve-se entubar imediatamente o paciente, antes que o quadro se torne emergencial. EXAMES LABORATORIAIS Na avaliação do hemograma, pode-se observar anemia, policitemia (hematócrito elevado). Pode ser utilizada para diferenciar de uma SARA. A troponina e CPK são utilizados como método de avaliar se existe ou não lesão do miocárdio e, quando presentes, sugerem infartos do miocárdio. O BNP (peptídeo natriurético cerebral) é utilizado para avaliar a possibilidade de insuficiência cardíaca aguda. O D-dímero serve para afastar a possibilidade de tromboembolismo pulmonar. ECOCARDIOGRAMA O ecocardiograma é um importante meio para determinar etiologia. Devemos avaliar: 9 Contratilidade global e segmentar 9 Hipertrofia de VE 9 Valvopatias (Estenose mitral) 9 Mixoma atrial esquerdo: O diagnóstico para mixoma é histopatológico. 9 Complicações mecânicas no IAM (CIV, ruptura miocárdica, disfunção ou ruptura de músculo papilar, aneurisma ventricular) Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 95 MANOMETRIA A monitorização hemodinâmica é realizada por meio do cateter de Swan-Ganz, que fornece a pressão na artéria Pulmonar. Ele é utilizado quando não se consegue identificar a causa do EAP por outros meios. Quando a pressão capilar pulmonar for maior do que 25 mmHg, o edema agudo de pulmão é do tipo cardiogênico. Valores menores do que 25 mmHg demonstram que a causa é não-cardiogênica. As causa cardiogênicas são as que mais matam. TRATAMENTO A estratégia terapêutica do EAP compreende a adoção de medidas não-específicas, seguidas da identificação e possível tratamento de fatores precipitantes, culminando com a eventual avaliação da cardiopatia de base. MANOBRAS NÃO-FARMACOLÓGICAS x Elevação do decúbito: Consistem em colocar o paciente sentado, com o objetivo de diminuir o retorno venoso dos membros inferiores e reduzir a pré-carga ao coração. A posição sentada também melhora a ventilação pulmonar, já que permite aumento da capacidade vital. Do ponto de vista físico, ocorre a descida do liquido em direção às bases, liberando as porções apicais mais aeradas do pulmão. x Oxigenioterapia: Como se sabe, a hipoxemia é uma consequencia inerente do EAP. Por esta razão, deve ser prescrita a oxigenioterapia por máscaras ou cateteres nasais, com a finalidade de manter a PaO2 (pressão arterial de oxigênio) em torno de 65 mmHg. Nos processos em evolução, nos quais se caracteriza a possibilidade da instalação de insuficiência respiratória grave, deve-se proceder à utilização de assistência ventilatória não-invasiva com máscaras que permitem a manutenção de pressão positiva em vias aéreas (CPAP). Na presença de exaustão respiratória ou intolerância ao CPAP, é preciso intubar o paciente e instalar ventilação mecânica artificial (ver OBS5), já que nesses casos pode ocorrer exaustão por aumento progressivo do trabalho respiratório. Vale salientar que a melhor opção de suporte respiratório consiste na utilização de aparelhos ciclados a volume, mantendo-se volume corrente em torno de 10 a 12 mL/kg, com frações inspiradas de 02 de 40% e compressão final expiratória positiva (PEEP) de 3 a 5 cmH20. MANOBRAS FARMACOLÓGICAS x Diuréticos EV. A redução da volemia pode ser complementada pela utilização de diuréticos potentes, como a furosemida. Ela atua principalmente no ramo ascendente da alça de Henle e promove natriurese e diurese expressivas. Tem sido observado que o EAP pode melhorar antes que ocorra efeito diurético, sugerindo uma ação venodilatadora da droga. Deve ser utilizada por via endovenosa, nas doses de 40 a 60 mg, para obter diurese abundante em tempo curto. Essas doses podem ser repetidas a cada 2 ou 4 horas. O efeito colateral mais indesejável dos diuréticos no tratamento do EAP é a hipovolemia induzida pelo uso abusivo desses fármacos, que pode determinar redução do débito cardíaco. Outros efeitos colaterais incluem: hipotensão arterial, hipopotassemía, hipocalcemia e alcalose hipoclorêmica. x Nitroglicerina (Nitrato EV ou SL). Atua principalmente na pré-carga, reduzindo o tônus venoso (por meio da vasodilatação arterial e venosa) e o retorno sanguíneo ao coração. Em consequência, há diminuição da pressão do capilar pulmonar e da pressão de enchimento ventricular esquerda. Apresenta a vantagem de agir sobre a circulação coronária, que pode estar comprometida em alguns pacientes. Utilizam-se doses iniciais de 5 ug/min com incrementos de 5 ug/min a cada 3 minutos, até que se observe hipotensão arterial definida, como níveis sistólicos inferiores a 100 mmHg. x Morfina (4-8mg por via endovenosa): É considerado fármaco extremamente útil no tratamento do EAP, pois promove uma redução de 50% no retorno venoso ao coração, determinando praticamente uma flebotomia química. Atuando também no nível do sistema nervoso central, induz a uma diminuição na hiperatividade adrenérgica, ocasionando redução da vasoconstrição generalizada observada no EP. É responsável ainda por diminuir parte do sofrimento respiratório do paciente. Preconiza-se sua administração intravenosa na forma de sulfato de morfina, na dose de 3 a 5 mg diluindo-se uma ampola do medicamento em 10 mL de soro fisiológico, utilizando-se 2 mL dessa solução a cada 10 minutos e observando a melhora clínica do paciente. Seus efeitos adversos mais importantes são: em doses erradas, pode causar depressão respiratória, náuseas, hipotensão arterial e cólicas biliares. A droga deve ser evitada quando há associação do EAP a asma brônquica, doença pulmonar obstrutiva crônica ou hipoventilação. Na ausência de morfina, podem ser empregados seus sucedâneos, como a dolantina ou o demerol, também utilizados por via intravenosa sob a fórmula de soluções diluídas em soro fisiológico. O antagonista dos narcóticos, Naloxona, é o antídoto específico contra a depressão respiratória severa e o coma provocados por doses excessivas de analgésicos do tipo opioides (como a Morfina). São administradas doses de Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 96 0,4 a 2,0 mg em injeção IV, repetidas em intervalos de 2 a 3 minutos, se necessário, até 10 mg. Esta, pode ainda ser administrada em injeção subcutânea ou IM ou até mesmo por infusão intravenosa. x Droga vasoativa [Nitroprussiato de Sódio (0,1 mcg/kg/min), Dobutamina (5-15 mcg/kg/min), Dopamina (2,5 – 10 mcg/kg/min)]: Estas drogas podem ou não serem utilizadas no tratamento do EAP: a escolha do fármaco adequado depende muito da etiologia do EAP. As três drogas podem ser associadas em raros casos de edema agudo refratário associado a grande IAM com insuficiência cardíaca aguda e hipotensão: neste caso, as três classes de drogas vasoativas podem ser utilizados em pequenas dosagens. o O Nitroprussiato de sódio (Nipride®) é considerado o modelo de droga vasodilatadora de ação direta. Seu uso é preconizado nos casos de EAP com base hipertensiva. Interfere tanto na pré como na pós- carga, por determinar, respectivamente, veno e arteriodilatação. Por esses efeitos hernodinâmicos, leva a redução da pressão do capilar pulmonar e aumento do débito cardíaco. Deve ser empregado nas doses iniciais de 40 a 80 ug/min, ajustando-se a dose (aumentando 5 ug/min até um nível que não seja potencialmente letal) a cada cinco a dez minutos, observando-se os níveis tensionais monitorados de preferência por cateteres arteriais intraluminares. Seu principal efeito colateral é a hipotensão arterial acompanhada de palidez, sudorese fria e má perfusão periférica, que podem ser contornadas com o ajuste da dose ou a suspensão do medicamento. o A Dobutamina (Dobtan®) constitui a catecolamina mais indicada para o tratamento da falência cardíaca grave, aguda ou crônica. Este agente inotrópico positivo deve ser aplicado apenas naqueles pacientes cujo EAP tem relação com insuficiência cardíaca agudizada. Isso porque ela interage com receptores alfa e beta-adrenérgicos, aumentando a funcionalidade da contratilidade cardíaca, contribuindo no aumento do débito cardíaco e diminuindo a resistência periférica. Outros efeitos hemodinâmicos benéficos incluem redução da pressão do capilar pulmonar e discreta elevação da frequência cardíaca. Pode ser prescrita nas doses iniciais de 2,5 a 20 mcg/kg/min por infusão intravenosa contínua. Doses de 7 a 9 ug/kg/min são consideradas eficazes. Seu principal efeito adverso é a produção de arritmias cardíacas, que podem ser controladas com a redução da dose administrada. Além disso, à semelhança de outras aminas vaso ativas, aumenta o consumo de O2 pelo miocárdio podendo desencadear isquemia miocárdica. o A dopamina (Constriction®) é um agente simpatomimético que interage com receptores dopaminérgicos, alfa e beta-adrenérgicos, conforme as doses empregadas. No tratamento da EAP, é a droga menos utilizada entre as drogas vasoativas. Pode ser utilizada nos pacientes que cursam com choque cardiogênico. Doses de 5 ug/kg/min têm ação dopaminérgica, produzindo vaso dilatação mesentérica e renal. Efeitos beta-adrenérgicos são obtidos com doses de 6 a 15 mcg/kg/min e se traduzem por aumento da contração do coração, taquicardia e aumento do débito cardíaco. Doses superiores a 25 mcg/kg/min provocam efeito alfa-adrenérgico, caracterizado por vasoconstrição sistêmica, inclusive renal. Nos casos de EP, seus efeitos dopaminérgicos e beta-adrenérgicos atuam sinergicamente, determinando, respectivamente, aumento de diurese e melhora do desempenho cardíaco. Apresenta como efeito indesejável a possibilidade de elevar as pressões de enchimento do ventrículo esquerdo por aumento do retorno venoso secundário à venoconstrição sistêmica. Além disso, pode produzir aumento da frequência cardíaca, arritmias cardíacas e aumento do consumo de 02 pelo miocárdio. x Máscara CPAP/Ventilação mecânica: Deve-se utilizar máscara CPAP e ventilação mecânica nos pacientes com hipóxia severa (PO2 menor do que 60mmHg) ou sem resposta rápida ao tratamento ou acidose respiratória. Isso garante uma troca gasosa eficaz para o paciente. x Reperfusão miocárdica: cateterismo cardíaco com angioplastia quando a causa for IAM ou isquemia miocárdica. Esta etiologia pode ser identificada pelo ECG. x Correção de doença de Base: Logo após estabilizar o doente, deve-se proceder da correção da doença de base. x Hemodiálise: considerar, por exemplo, a ultrafiltração em casos de insuficiência renal crônica oligo-anúrica, com objetivo de retirar volume. x Novas drogas. Levosimedan (Sindax®; tem ação semelhante à dobutamina, mas apresentando mortalidade muito menor e custos muito maiores) e Nesiritide (Natrecor®). OBS5: Os critérios para intubação e ventilação mecânica do paciente, como vimos anteriormente, são: PO2 < 60 mmHg; acidose respiratória progressiva; inconsciência. Arlindo Ugulino Netto – CARDIOLOGIA – MEDICINA P6 – 2010.1 97 RESUMO DO TRATAMENTO DO EAP � MEDIDAS GERAIS: manter o paciente sentado (no intuito de reduzir a pré-carga, diminuir o retorno venoso e favorecimento da musculatura Respiratória) � OXIGENOTERAPIA: Sempreiniciar através do sistema de máscaras, com fluxos mais altos, com o objetivo de manter a saturação de oxigênio em mais do que 95%. � VENTILAÇÃO MECÂNICA NÃO-INVASIVA COM PRESSÃO POSITIVA deve-se observar as contraindicações: o Instabilidade hemodinâmica, uso de vasopressores, arritmias; o Trauma facial o Risco de aspiração de secreções o Inabilidade de cooperar o Rebaixamento do sensório o Sangramento gastrointestinal � INTUBAÇÃO OROTRAQUEAL: em casos de: PO2 < 60 mmHg; acidose respiratória; inconsciência. � NITRATOS:podem ser iniciados por via sublingual, ou endovenosa, se PAS>95mmHg, na dose de 0,3 a 0,5μg/Kg/min(aumentar a dose a cada 5 min) � NITROPRUSSIATO DE SÓDIO: tem indicação espacial nos casos de EAP hipertensivo. Iniciar com 0,1 a 0,2μg/Kg/min e aumentar a cada três minutos � DOBUTAMINA: indicada em casos de hipotensão ou choque cardiogênico. Efeito inotrópico positivo e vasodilatador menos intenso-observar taquicardia. � DIURÉTICOS DE ALÇA: 40 a 80mg IV com doses maiores para IR. � SEDAÇÃO O Morfina- 2mg, (ampolas de 2mg e 10mg)a cada dois minutos , até reduzir a ansiedade gerada pela dispneia, os reflexos pulmonares e a pré-carga. O Observar redução do sensório, hipoventilação e aumento da pCO2, que pode levar á necessidade de entubação orotraqueal. o Naloxane-0,4mg, a cada 3 minutos (uma ampola diluída em 10ml de SF, administrar 1ml/3min) CONSIDERAÇÕES FINAIS O edema agudo é uma emergência médica, que requer um diagnostico precoce com intervenção farmacológica de imediato (Furosemida). Devendo sempre lembrar de que, caso o paciente apresente uma insuficiência cardíaca como doença de base, é proscrito a prescrição de Digoxina, pois, poderá ocorrer uma intoxicação aguda.