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Apostila TEMA 2 - Hist RI-II

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DESCRIÇÃO
As dinâmicas de identitarismo na sociedade contemporânea do século XX e os caminhos dos movimentos transnacionais, entre os séculos XX e XXI.
PROPÓSITO
Compreender as formas transnacionais de identidade, a partir de movimentos transnacionais ao longo do século XX, percebendo como se modificam e como são plurais , a fim de identificar a complexidade da sociedade atual.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer os movimentos históricos identitários transnacionais de caráter continental, casos de pan-americanismo e pan-africanismo
MÓDULO 2
Identificar os movimentos transnacionais contemporâneos – povos indígenas, negros e mulheres – e sua luta por igualdade de direitos
MÓDULO 3
Reconhecer movimentos transnacionais conflitantes, especificamente a condição de árabes e palestinos
INTRODUÇÃO
Movimentos identitários transnacionais nos levam, de imediato, a refletir sobre aquilo que eles estão superando, isto é, as identidades nacionais. O nacionalismo é uma das mais poderosas forças políticas e ideológicas do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que é também um dos campos de estudo mais controversos. Para analisarmos a questão nacional, devemos levar em conta o quanto ela está associada a várias outras identidades: racial, étnica, religiosa, entre outras.
Ao responder à pergunta “O que é uma nação?”, em texto de 1882, Ernest Renan – que se tornaria uma das principais referências sobre o tema – afirmou que a nação seria um princípio espiritual fundado em dois aspectos: o passado e o presente. O primeiro, apresentado como um legado, de posse comum, de memórias e lembranças; o segundo, exposto como o desejo de viver junto e dar continuidade a essa herança histórica partilhada. A nação, declarou Renan, é um plebiscito diário – eis um princípio de unidade, que formou as identidades nacionais.
Na contemporaneidade, a identidade nacional parece ser, ainda, um problema fundamental. No entanto, já não parece mais desfrutar do mesmo prestígio da época de Renan. Em meio a um mundo globalizado, as múltiplas identidades, que atravessam fronteiras nacionais, construídas em torno de outros laços de solidariedade, ganham cada vez mais interesse social – e isso repercute em pesquisas acadêmicas.
O pesquisador argentino Néstor García Canclini, pensando a experiência contemporânea, afirma que as identidades podem ser definidas como “uma construção que se narra” (CANCLINI, 2001), revelando tanto a faceta plástica da identidade, que pode ser elaborada e reelaborada pelos próprios sujeitos, quanto a relação entre a identidade e o discurso, no sentido de que ambos objetivam convencer alguém sobre um determinado tema. Na visão desse autor, pessoas ou grupos sociais tendem a elaborar uma identidade própria, tentando combiná-las de modo mais ou menos coerente para, então, poderem ser identificadas como tais pelos demais. No entanto, apesar da tentativa de coerência na construção das identidades, os sujeitos não têm garantias de que sua mensagem será recebida da maneira esperada, daí a geração de conflitos identitários.
As ideias de identidade e cultura nacionais, por vezes, escondem as diferenças de classes sociais, gêneros, etnias, entre outras, ao buscar uniformizá-las. Além disso, negam os processos históricos marcados pelas violências de grupos politicamente hegemônicos: as identidades nacionais são fortemente determinadas pelo etnocentrismo. O que está em jogo, portanto, na afirmação das identidades transnacionais é a afirmação do direito às diferenças e que elas não sejam formas de produzir hierarquizações. É o que interessa, por exemplo, na afirmação de identidades transnacionais continentais, como são os casos do pan-americanismo e do pan-africanismo. Esse será o primeiro eixo a ser desenvolvido neste conteúdo.
No entanto, no mundo contemporâneo, identificamos a positivação de identidades estigmatizadas, por exemplo, a indígena, a feminina, a homossexual e a negra, significando movimentos de reversão de estigmas de inferioridade. A inclusão desses movimentos na agenda política atual é resultado de lutas históricas. As “Marchas pelo 8 de março das Mulheres” que ocorrem em muitas partes do mundo, os festejos em torno do “Dia Nacional da Consciência Negra”, bem como as garantias legais alcançadas por esses grupos, são apenas alguns exemplos de como identidades são conceitos e narrativas em disputa. Abordaremos esse assunto no segundo módulo.
Por fim, exploraremos a dimensão conflitiva que envolve as identidades transnacionais, por meio dos conflitos árabe e israelense, trazendo à tona a necessidade de a humanidade investir em um novo pacto ético capaz de reconhecer e conviver com a diferença, sem querer superá-la ou destruí-la.
MÓDULO 1
Reconhecer os movimentos históricos identitários transnacionais de caráter continental, casos de pan-americanismo e pan-africanismo
AGORA, O PROFESSOR DANIEL PINHA APRESENTA CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA A COMPREENSÃO DOS MOVIMENTOS IDENTITÁRIOS TRANSNACIONAIS.
PAN-AMERICANISMO: CONCEITUAÇÃO
Imagem: MiguelAlanCS/Wikimedia commons/Domínio Público. Capitulação de Ayacucho, por Daniel Hernández (1924).
Trata-se de um movimento que aparece em momentos diversos da história, mas que pode ser pensado originalmente em um evento histórico: as lutas de Simón Bolívar.
Esse movimento visava unificar todos os territórios da América espanhola, formando uma só nação. Seu principal ideólogo foi Simón Bolívar, depois de ter lutado juntamente com o governador de Cuyo, José de San Martín, contra o domínio e a exploração espanhóis, e de ter feito a independência de vários territórios da América espanhola.
PROJETO BOLIVARIANO
A análise do projeto político de Simón Bolívar para a construção de uma nova ordem política para a América hispânica independente mostra a sua larga atuação política desde o início do processo revolucionário de independência na região do antigo vice-reino de Nova Granada e da Capitania-geral da Venezuela.
Para Bolívar, a solução para os problemas da região era um poder centralizado, forte e permanente. Com o argumento de que a Venezuela não se encontrava suficientemente preparada para o exercício da democracia, procurava justificar outro ponto fundamental de seu projeto político: a necessidade de um executivo forte, não tão forte que ensejasse a tirania, mas não tão fraco que propiciasse a desordem. A independência da Venezuela provocou a reação do governo espanhol que conclamou os índios e os negros para que integrassem os efetivos das tropas realistas, oferecendo-lhes compensações, como o saque dos bens dos crioulos e a abolição da escravidão.
Imagem: Wilfredor/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de Simón Bolívar, por Arturo Michelena (1895).
Na idealização do futuro da América, Bolívar projetava o que ele chamou de “a maior nação do mundo”, e afirmava:
É UMA IDEIA GRANDIOSA PRETENDER FORMAR DE TODO O NOVO MUNDO UMA ÚNICA NAÇÃO COM UM ÚNICO VÍNCULO QUE LIGUE AS PARTES ENTRE SI E COM O TODO. JÁ QUE TEM UMA SÓ ORIGEM, UMA SÓ LÍNGUA, MESMOS COSTUMES E UMA SÓ RELIGIÃO, DEVERIA, POR CONSEGUINTE, TER UM SÓ GOVERNO QUE CONFEDERASSE OS DIFERENTES ESTADOS QUE HAVERÃO DE SE FORMAR; MAS TAL NÃO É POSSÍVEL, PORQUE CLIMAS REMOTOS, SITUAÇÕES DIVERSAS, INTERESSES OPOSTOS E CARACTERES DESSEMELHANTES DIVIDEM A AMÉRICA.
(BOLÍVAR apud BELLOTTO; CORRÊA, 1983)
Ao discorrer sobre as tendências políticas dos Estados em formação, apontava o que para ele seriam os grandes problemas com os quais se defrontaria na realização de seu projeto: a ação desagregadora das oligarquias locais e a negativa herança da colonização espanhola.
Bolívar se via comprometido com a instauração de uma nova ordem política, cuja necessidade se manifestava em duas direções diferentes:
· A consolidação da ordem interna e da estabilidade política de cada um dos novos Estados independentes.
· A criação de uma ordem internacional hispano-americana fundada sobre a base da aliança das nações irmãs para sua comum defesa.
Foto: Editorpana/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. Monumento na Cidade do Panamá em homenagem a Simón Bolívar pelo Centenáriodo Congresso Anfictiônico.
É nesse contexto que deve ser analisado o Projeto da Constituição para a Bolívia que ele elaborou e propôs em maio de 1826. Nele, Bolívar propõe as bases de um país novo, buscando instituições estáveis e duradouras que, sobre os princípios da igualdade e da liberdade, garantissem a estabilidade e a continuidade do sistema republicano.
Com relação à criação de uma ordem internacional americana, fundada sobre a aliança das diversas nações, o seu maior projeto foi o Congresso do Panamá, realizado em junho de 1826. A despeito de todos os seus esforços, não viu seus objetivos serem concretizados, por causa das rivalidades existentes entre as novas nações americanas, ou pelo pouco interesse dos Estados Unidos, da Inglaterra, ou mesmo do Império do Brasil de verem emergir na América alguma ordem política forte que pudesse ameaçar seus interesses.
PAN-AMERICANISMO PARA OS ESTADUNIDENSES
A noção constituída para a formulação dos Estados Unidos como nação passou pelo reconhecimento de autonomias e de uma unidade política que os constituía como país. Esse modelo político, associado aos ideais do imperialismo no século XIX, estabeleceu uma posição de destaque na política externa norte-americana, em relação às Américas.
Imagem: Jim Evans/Wikimedia commons/Domínio Público. Fique longe! A Doutrina Monroe deve ser respeitada, charge de Victor Gillam (1896).
A política externa norte-americana, conhecida como Doutrina Monroe, por causa do presidente James Monroe (1758-1831), expressava a noção de “novo mundo”. Thomas Jefferson (1743-1826) já tinha afirmado que “as Américas têm um hemisfério para si”. A proposição era de antagonismo contra o colonialismo europeu e a política de reconhecimento das independências das Américas.
Esse ideal, no entanto, mostrou-se imperialista quando, além de “defender” os interesses dos grupos locais, incentivou um contínuo processo de intervenção político-militar, por exemplo, no Caribe, com destaque para Haiti, Nicarágua, Porto Rico e Cuba; depois, expandido para Honduras, Venezuela e Colômbia.
A evolução do modelo de pan-americanismo ocorre por causa da política de Franklin Roosevelt (1882-1945), que em seu Corolário Roosevelt, sobre a política da Doutrina Monroe, defendia e executava o direito de os Estados Unidos atuarem como polícia do Hemisfério Ocidental, não permitindo intervenções do velho mundo.
Imagem: Isarra/Wikimedia commons/Domínio Público. Theodore Roosevelt e seu “Big Stick” no Caribe, charge de William Allen Rogers (1904).
PAN-AMERICANISMO
A política norte-americana não adota os termos, mas entendemos que o “América para os americanos” implícito no debate, aponta para uma unidade sem condição de isonomia, mas com uma liderança linear.
Fica claro pelo nome Big Stick (“grande porrete”, em inglês), como é conhecida a Doutrina Monroe, que a ação estadunidense foi bem mais intensa do que uma defesa da liberdade e autonomia dos países das Américas. Por isso, é muitas vezes refutado como um movimento pan-americanista.
A NOSSA AMÉRICA, DE JOSÉ MARTÍ
José Martí estabeleceu outra proposta para a constituição de uma identidade hispano-americana, com sua ideia de Nossa América.
Imagem: SieBot/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. Monumento a José Martí na cidade de Cienfuegos, em Cuba.
A vida de José Martí está estreitamente ligada à Cuba e vice-versa, seja pela experiência vivida em seu próprio tempo, seja pela memória construída posteriormente pela história. Exemplos disso são a Constituição de 1976 e todos os mais importantes documentos políticos contemporâneos, que citam o nome de Martí como fonte de inspiração para o modelo político adotado após a Revolução Cubana, em 1959. Quando Fidel Castro foi preso e levado a julgamento, ao ser perguntado sobre quem era o mentor intelectual daquela ação, respondeu: “José Martí”.
Apesar de o centro das preocupações políticas de Martí ser sua pátria, Cuba, ele nunca deixou de pensá-la inserida em um conjunto maior, a “nação americana”, chamada também por ele de Nossa América ou Mãe América. Em seu discurso aos delegados hispano-americanos, na Conferência Internacional Americana, ocorrida em Washington entre 1889 e 1990, ele afirmou:
POR MAIOR QUE SEJA ESTA TERRA E POR UNGIDA QUE ESTEJA PARA OS HOMENS LIVRES, A AMÉRICA EM QUE NASCEU LINCOLN, PARA NÓS, NO MAIS ÍNTIMO DE NOSSO PEITO, SEM QUE NINGUÉM OUSE ACUSAR-NOS OU LEVÁ-LO A MAL, É MAIOR A AMÉRICA EM QUE NASCEU JUAREZ, PORQUE É A NOSSA E PORQUE TEM SIDO MAIS INFELIZ.
(MARTÍ, 1991, p. 187)
Se, em toda sua obra, há uma constante alusão a essa ideia, esta adquire sua máxima formulação em seu texto fundamental, Nossa América, escrito em 1891. Nele, encontramos a afirmação contundente da originalidade da América, eixo central do pensamento político martiano. Mais do que tudo, reconhece a autoctonia, a especificidade dessa América, que ele chama de mestiça, na qual se misturaram descendentes europeus, índios e africanos.
Martí pensa em uma união da América hispânica espelhando-se no ideal bolivariano, como um conjunto de repúblicas livres que, irmanadas, têm mais condições de resistir ao crescente poderio norte-americano e manter, pela solidariedade, a defesa de sua soberania e cultura. Dentre os vários elementos que compõem a construção da identidade americana, a origem indígena é, para Martí, uma das maiores forças desse processo.
Foto: OgreBot/Wikimedia commons/Domínio Público. Estátua José Martí no Central Park, em Nova Iorque, nos EUA.
Martí pensa em uma união da América hispânica espelhando-se no ideal bolivariano, como um conjunto de repúblicas livres que, irmanadas, têm mais condições de resistir ao crescente poderio norte-americano e manter, pela solidariedade, a defesa de sua soberania e cultura. Dentre os vários elementos que compõem a construção da identidade americana, a origem indígena é, para Martí, uma das maiores forças desse processo.
Em relação aos Estados Unidos, Martí é um dos primeiros a vislumbrar com clareza o perigo que este representa para a Nossa América. Apesar de admirar parte da história norte-americana, exaltando, por exemplo, as qualidades de líderes como Washington e Lincoln, e de seu povo, Martí afirmava que tal similitude era impossível e, sobretudo, não era desejável, em virtude das desigualdades e injustiças a que conduziram o caminho que os Estados Unidos tomaram.
JAMAIS HOUVE NA AMÉRICA, DA INDEPENDÊNCIA PARA CÁ, ASSUNTO QUE REQUEIRA MAIS SENSATEZ, NEM QUE OBRIGUE A MAIOR VIGILÂNCIA, NEM QUE PEÇA EXAME MAIS CLARO E MINUCIOSO QUE O CONVITE QUE OS ESTADOS UNIDOS, POTENTES, REPLETOS DE PRODUTOS INVENDÁVEIS E DETERMINADOS A ESTENDER SEUS DOMÍNIOS PELA AMÉRICA, FAZEM ÀS NAÇÕES AMERICANAS DE MENOR PODER, LIGADAS PELO COMÉRCIO LIVRE E ÚTIL COM OS POVOS EUROPEUS, PARA COORDENAR UMA LIGA CONTRA A EUROPA E ENCERRAR TRATADOS COM O RESTO DO MUNDO. DA TIRANIA DA ESPANHA, SOUBE SALVAR-SE A AMÉRICA ESPANHOLA; E AGORA, DEPOIS DE VER COM OLHOS CRITERIOSOS OS ANTECEDENTES, CAUSAS E FATORES DO CONVITE, URGE DIZER, A HORA DE DECLARAR SUA SEGUNDA INDEPENDÊNCIA.
(MARTÍ, 1991, p. 174)
PAN-AFRICANISMO: ORIGENS
O modelo pan-africanista foi intensamente complexo em sua estrutura, não podendo ser considerado como um movimento linear, mas um dos grandes movimentos históricos transnacionais.
O modelo foi gestado, originalmente, nos países coloniais, fruto dos membros da intelectualidade levada à África por seus jovens, que estudaram fora e retornaram, compondo uma elite local – com destaque para Gana e sua universidade. Essa característica mostra por que os principais movimentos pan-africanistas, antes dos anos de 1950, eram observados nos Estados Unidos e na Europa.
Imagem: Advogado ilegítimo/Wikimedia commons/Domínio Público. Bandeira Pan-Africana, criada pelo UNIA-ACL (Universal Negro Improvement Association e African Communities League) em sua convenção realizada no Madison Square Garden em 13 de agosto de 1920.
No início, o termo e os debates falavam em uma união das “pessoas de cor”, em busca de seu desenvolvimento e da superação das condições históricasa que foram submetidas. Entendido como uma manifestação de luta (contra os modelos estabelecidos) e de solidariedade (pelos processos enfrentados na contemporaneidade), seus críticos vão defender que a unidade artificial fragilizaria e não fortaleceria a pluralidade da cultura que os cercam. Essas divergências permitiram perceber vertentes diversas de pan-africanismo, como:
Foto: Martin H./Wikimedia commons/Domínio Público. William Edward Burghardt Du Bois.
PAN-AFRICANISMO EDUCACIONAL
De W. E. B. Du Bois, autor norte-americano, que trabalhava com a ação conjunta para romper com a tradição de marginalidade e a construção de uma nova proposição e organização intelectual.
Foto: Grendelkhan/Wikimedia commons/Domínio Público. Booker T. Washington.
PAN-AFRICANISMO ECONÔMICO
Apoiado por Booker T. Washington, defendia a ação coletiva de solidariedade para melhoria das condições econômicas do continente.
Foto: Taterian/Wikimedia commons/Domínio Público. Alexander Crummell.
PAN-AFRICANISMO RELIGIOSO
De Wilmot Blyden e Alexander Crummell, que consideraram o debate religioso como fundamental para entender as estratégias colonialistas e como o resgate ou a aproximação de elementos religiosos locais poderia aproximá-los de outro olhar.
É interessante notar como surge outro termo fundamental, nesse longo processo: reafricanização. Aparece entre os muçulmanos americanos, na religião rastafári, na recuperação de culto e nos estudos sobre as manifestações do Candomblé no Brasil. A recuperação de uma identidade estava aberta e precisava ser debatida. Para isso, precisamos conhecer o trajeto de Marcus Garvey.
PAN-AFRICANISMO: CONCEITUAÇÃO
Imagem: Shutterstock.com.
O pan-africanismo é uma doutrina que propõe a união de todos os povos da África como forma de potencializar a voz do continente no contexto internacional. Relativamente popular entre as elites africanas ao longo das lutas pela independência, na segunda metade do século XX e, em parte, responsável pelo surgimento da Organização de Unidade Africana, o pan-africanismo tem sido mais defendido fora da África, entre os descendentes dos africanos escravizados, que foram levados para a América até meados do século XIX, e as pessoas de ascendência africana subsaariana emigradas do continente africano após a década de 1960.
Originalmente, os pan-africanistas propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias, divididas pelas imposições dos colonizadores. Valorizavam a realização de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialetos africanos, proibidos ou limitados pelos colonizadores.
Podemos considerar, portanto, o pan-africanismo como um movimento político, filosófico e social que promove a defesa dos direitos dos povos africanos e da unidade do continente africano, no âmbito de um único Estado soberano, para todos os africanos, tanto da África, como dos povos da diáspora.
Na tentativa de confrontar a lógica eurocentrista, por meio da qual habitualmente se enfrentou a tarefa de explicação da história africana, muitos autores começaram a investir em uma perspectiva que passava a ver toda a história mundial a partir do prisma africano: o afrocentrismo. O que se pretendia era afirmar a possibilidade de uma civilização negra, com a noção de negritude, ideia negada por toda uma corrente eurocêntrica de estudos históricos. Tais ideias se ligavam às reflexões desenvolvidas, nas décadas anteriores, por autores como Marcus Garvey (1887-1940).
Foto: Martin H./Wikimedia commons/Domínio Público. Marcus Garvey em 1924.
Nascido na Jamaica, em 1887, Marcus Garvey se tornou um dos primeiros militantes do movimento negro na América Central. Em 1912, aos 25 anos, partiu para a Inglaterra, onde travou contato com outros negros que, nascidos em localidades diversas, experimentavam as mesmas dificuldades. A partir dessa experiência, Garvey passou a defender a existência de uma identidade profunda entre os africanos e seus descendentes em todo o mundo, que o levou a lutar pela tomada de consciência dos negros, a respeito do valor de suas culturas. Por acreditar que o sucesso dos brancos era fruto de um sistema de ensino que afirmava a superioridade das culturas brancas, passou a defender que o sucesso dos negros dependia de um ensino que lhes mostrasse a superioridade de suas próprias culturas.
Fruto da renovação dos estudos sobre a história africana iniciada no contexto dos movimentos de independência, o afrocentrismo ganhou forma a partir da tomada de consciência sobre a necessidade de elaboração de uma história da África que fosse constituída a partir do ponto de vista africano. Mais do que negar a perspectiva eurocêntrica, tal corrente tratou, porém, de propor uma releitura da própria história mundial, a partir de um ponto de vista africano.
CAMINHOS ABERTOS
De parte das ações descoloniais , o pan-africanismo chegou a dinâmicas da Guerra Fria e do pós-guerra. Os debates passaram pelas novas lideranças políticas e filosóficas locais, intelectuais frutos desse processo, que fortaleceram uma produção local, visando debater e compreender caminhos para o pan-africanismo desvinculado de suas lutas iniciais, vivos em significados contemporâneos.
Foto: Martin H./Wikimedia commons/Domínio Público. O presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, com o presidente da Gana, Osagyefo Dr. Kwame Nkrumah, 13 de março de 1961.
O PAN-AFRICANISMO E O NACIONALISMO AFRICANO RECEBERAM UMA EXPRESSÃO VERDADEIRAMENTE CONCRETA NO V CONGRESSO PAN-AFRICANO, QUE SE REUNIU EM MANCHESTER, EM 1945. PELA PRIMEIRA VEZ, INSISTIA-SE NA NECESSIDADE DA EXISTÊNCIA DE MOVIMENTOS BEM ORGANIZADOS E FIRMEMENTE UNIDOS, COMO CONDIÇÃO DO SUCESSO DA LUTA PELA LIBERTAÇÃO NACIONAL EM ÁFRICA. ESSE CONGRESSO REUNIU MAIS DE 200 DELEGADOS DO MUNDO INTEIRO.
(NKRUMAH, 1977, p.153)
Nkrumah, africano que estudou nos Estados Unidos, retornou à África e foi considerado um dos principais líderes da luta contra a dominação inglesa, que se arrastou até 1957.
Entretanto, o movimento não ficou imune às críticas. O ideal pan-africanista foi considerado, ao longo das décadas de 1970 e 1980, um projeto racista ou colonialista, pois partia dos pressupostos da própria colonização para criar algo que nunca existiu: a África. Como destacado por Appiah (1997), no já clássico Na Casa de Meu Pai, a percepção de um ideal centralizado é, no mínimo, um equívoco, ainda que tenha servido a ideais em determinado momento.
O entendimento de uma união do continente, ou da “raça”, é algo que não existe em termos de estudos efetivos do continente. Algo que tem sentido para os povos envolvidos na diáspora, mas que para o continente só serve para revalorizar os marcos de exclusão.
Precisamos, neste ponto, entender os debates sobre decolonialidade. Por isso, vamos ao Caribe conhecer o psiquiatra e pesquisador Frantz Fanon, autor considerado um dos inauguradores da noção dos efeitos poderosos sobre o sujeito gerado pelo pensamento colonial. A perspectiva, então, debatida – que aqui ainda não é o momento de explorar, mas fica como sugestão de leitura – abre a dinâmica do entendimento que deve ser percebido. Os “pan” saíram de foco, perderam espaço para outros debates, que estudaremos no próximo módulo.
DIÁSPORA
Diáspora africana é um termo que tem sido utilizado para se referir aos séculos de retirada de pessoas do continente para a escravização moderna.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL É REGIDA, EM SUAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS, POR PRINCÍPIOS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO, PREVISTOS DE FORMA EXPRESSA NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ACERCA DA CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO, JULGUE.
I. O PAN-AMERICANISMO É RIGIDAMENTE ACOLHIDO COMO NORMA DE POLÍTICA EXTERNA, COM A PREVISÃO DA INTEGRAÇÃO ECONÔMICA, POLÍTICA, SOCIAL E CULTURAL DE TODOS OS POVOS DO CONTINENTE, PARA O PROGRESSO DA HUMANIDADE, COM A FORMAÇÃO DE BLOCOS ECONÔMICOS E DE ASSOCIAÇÕES REGIONAIS, COMO O MERCOSUL E A UNASUL.
II. O PAN-AMERICANISMODEVE SER ENTENDIDO COMO UM MOVIMENTO HISTÓRICO, PRESENTE NA INDEPENDÊNCIA AMERICANA, MAS QUE EMERGE DIANTE DE POLÍTICAS INTERNACIONAIS DIVERSAS, CONTANDO COM MAIOR OU MENOR VINCULAÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA.
III. O PAN-AMERICANISMO EMERGE DO IDEAL AMERICANO DE CONTROLE DAS AMÉRICAS COMO ÁREA DE INFLUÊNCIA, CONSOLIDADO AO LONGO DA GUERRA FRIA.
ESTÁ CORRETA:
Apenas a I.
Apenas I e II.
Apenas a II.
Apenas II e III.
Apenas a III.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. FOI A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL QUE PRECIPITOU A LUTA ANTICOLONIAL NO CONTINENTE AFRICANO. A AVALANCHE REVOLUCIONÁRIA GANHOU INTENSIDADE, SOBRETUDO, PORQUE A FRANÇA E A INGLATERRA, SENHORAS DOS PRINCIPAIS IMPÉRIOS COLONIAIS, SAÍRAM ENFRAQUECIDAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL PARA ENFRENTAR REVOLTAS COLONIAIS. POR OUTRO LADO, A DERROTA DE CHIANG KAI-SHEK, NA CHINA, A CAPITULAÇÃO FRANCESA, NA INDOCHINA (1954), E A NACIONALIZAÇÃO DO CANAL DE SUEZ POR NASSER, LÍDER EGÍPCIO, TAMBÉM ESTIMULARAM AS GUERRAS DE LIBERTAÇÃO. NESSAS LUTAS, PROJETARAM-SE INÚMEROS LÍDERES AFRICANOS QUE, POR VEZES, PROCURARAM ADAPTAR IDEOLOGIAS OCIDENTAIS ÀS CONDIÇÕES LOCAIS, COM O OBJETIVO DE ELIMINAR TODAS AS FORMAS DE COLONIALISMO NA ÁFRICA, COMO A(O):
Pan-Africanismo e a Negritude.
Conferência de Acra e a Conferência de Casablanca.
Conferência de Monróvia e a Organização da Unidade Africana.
União Africana e o Comitê de Libertação Africana.
MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) e a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique).
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. A República Federativa do Brasil é regida, em suas relações internacionais, por princípios de direito internacional público, previstos de forma expressa na Constituição Federal. Acerca da constitucionalização do direito internacional público no ordenamento jurídico brasileiro, julgue.
I. O pan-americanismo é rigidamente acolhido como norma de política externa, com a previsão da integração econômica, política, social e cultural de todos os povos do continente, para o progresso da humanidade, com a formação de blocos econômicos e de associações regionais, como o Mercosul e a Unasul.
II. O pan-americanismo deve ser entendido como um movimento histórico, presente na independência americana, mas que emerge diante de políticas internacionais diversas, contando com maior ou menor vinculação política brasileira.
III. O pan-americanismo emerge do ideal americano de controle das Américas como área de influência, consolidado ao longo da Guerra Fria.
Está correta:
A alternativa "C " está correta.
A primeira assertiva está equivocada, por confundir acordo e direcionamento com lei; já a segunda reconhece corretamente a historicidade da questão. No mesmo ponto, falha a terceira: apesar de considerar os americanos como parte fundamental dos debates e do processo, é equivocado crer que são os precursores e idealizadores de movimentos pan-americanistas.
2. Foi a Segunda Guerra Mundial que precipitou a luta anticolonial no continente africano. A avalanche revolucionária ganhou intensidade, sobretudo, porque a França e a Inglaterra, senhoras dos principais impérios coloniais, saíram enfraquecidas da Segunda Guerra Mundial para enfrentar revoltas coloniais. Por outro lado, a derrota de Chiang Kai-shek, na China, a capitulação francesa, na Indochina (1954), e a nacionalização do Canal de Suez por Nasser, líder egípcio, também estimularam as guerras de libertação. Nessas lutas, projetaram-se inúmeros líderes africanos que, por vezes, procuraram adaptar ideologias ocidentais às condições locais, com o objetivo de eliminar todas as formas de colonialismo na África, como a(o):
A alternativa "A " está correta.
Pan-africanismo é o movimento que aqui está identificado, assim como o processo identitário, novo, genérico, mas que passa a ser compreendido de forma mundial. As demais alternativas são movimentos, vitais nesse processo, mas não definidores de rompimento colonial.
MÓDULO 2
Identificar os movimentos transnacionais contemporâneos – povos indígenas, negros e mulheres – e sua luta por igualdade de direitos
AGORA, O PROFESSOR DANIEL PINHA APRESENTA CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA A COMPREENSÃO DOS MOVIMENTOS IDENTITÁRIOS TRANSNACIONAIS.
IDENTIDADES DERRETIDAS
Foto: Wmpearl/Wikimedia commons/CC0 1.0. Composição (Homem e Mulher), escultura em bronze de Alberto Giacometti, 1927.
A concepção de identidade com a ideia de nação foi, durante o século XX, ameaçada pela construção dos movimentos novos do século anterior. Se, no século XIX, parecia indiscutível que a união de Estados e territórios era o caminho dos poderes nacionais e transnacionais, pelas influências econômicas e culturais, essas leituras são desfeitas, a partir da década de 1970 e, em especial, de 1980 em diante.
O avanço da chamada globalização econômica desde a década de 1980 não ocorreu sem o surgimento paralelo de variadas formas de resistências sociais em quase todos os locais do mundo.
A maior parte dessas novas lutas sociais foi construída por meio de um modelo político diferente daquele tradicionalmente usado pelos grupos de esquerda, durante todo o século XX. Os partidos políticos de base socialista e comunista viram seu espaço reduzido em prol do surgimento de novos atores políticos descentralizados.
Foto: Shutterstock.com.
Os novos movimentos sociais criados tinham características heterogêneas, e muitos eram ligados às lutas de grupos historicamente vulnerabilizados socioeconomicamente. O que estava em jogo, na luta desses movimentos sociais identitários, portanto, não era a inversão de uma condição de superioridade indígena ou negra em relação aos brancos; tampouco, das mulheres em relação aos homens; mas a possibilidade de igualdade de direitos, ou ao menos, uma diminuição de desigualdades em busca de uma efetiva cidadania. Essas lutas ajudaram a tornar mais concreta a prática da democracia.
RESUMINDO
Comparando com o movimento visto anteriormente, se os movimentos transnacionais com uniões de grupos foram vistos como alternativa para o enfrentamento de Estados mais poderosos, o fim dos grandes blocos econômicos e a emergência de movimentos de dentro para foram ganharam novo signo.
Esses movimentos estão longe de serem fáceis de nomear ou estabelecer. Podemos citar ascendências e movimentos de cunho religioso, movimentos sobre os direitos da comunidade gay, que rápida e continuamente ganharam grupos que se uniram nessa luta.
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O filme americano Milk (2008), dirigido por Gus Van Sant, por exemplo, aborda a questão sobre os direitos da comunidade gay.
A partir da agora, entre as muitas identidades transnacionais que poderíamos destacar, optaremos por tratar de três – até pelo seu impacto no Brasil: indígenas, populações afrodescendentes e movimento feminista. São os únicos? Não! Mas são recorrentes, mudam as realidades, as dinâmicas, mas sua emergência nos permite percebê-los como os mais intensamente atacados pelos fundamentos do pensamento colonial e dos debates de decolonialidade.
É importante ressaltar que os movimentos transnacionais mudaram com o advento das novas comunicações e da Internet. O ativismo pelas redes – assim como seus enfrentamentos – são parte da pragmática desses movimentos. Outras características são a ausência de uma liderança e certo dispersar dos conceitos e de suas profundidades.
Foto: Lewis Tse Pui Lung/Shutterstock.com. Multidão filma com seus celulares o avanço da política contra manifestantes em Hong Kong em 2014.
Para chegar até esse ponto e à consolidação, o exercício de rompimento com os ideais colonialistas passa por dinâmicas diversas. E é sobre isso que vamos tratar adiante.
POPULAÇÕES INDÍGENAS
Foto: Tetraktys/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0.Dança coletiva em torno dos troncos que representam os mortos homenageados no Quarup, um dos mais importantes festejos intergrupais da região do Xingu.
O escasso conhecimento sobre os povos indígenas está associado basicamente à imagem do índio que é tradicionalmente veiculada pela mídia: um índio genérico, com um biótipo formado com cabeloslisos, pinturas corporais, abundantes adereços de penas, nus, moradores das florestas, de culturas exóticas, entre outras características. Também são chamados de tribos, a partir da perspectiva etnocêntrica e evolucionista de uma suposta hierarquia de raças, em que os índios ocupariam o último degrau.
Essas visões sobre os índios vêm mudando nos últimos anos, sobretudo, em função das lutas promovidas por eles. E essa mudança ocorre em razão da visibilidade política conquistada pelos próprios índios. As mobilizações dos povos indígenas, em torno de discussões e debates para a elaboração da Constituição em vigor, aprovada em 1988, e as conquistas dos direitos indígenas fixados na Lei maior do país, possibilitaram a garantia dos direitos (demarcação das terras, saúde e educação diferenciadas e específicas etc.), e a (re)descoberta dos índios pela sociedade em geral.
Há presença de povos indígenas em todas as regiões do Brasil, com maior concentração na região amazônica. Por outro lado, os impactos da colonização europeia são constatados pelo pequeno número de grupos indígenas no litoral brasileiro. A sua diversidade, a história de cada um e o contexto em que vivem criam dificuldades para enquadrá-los em uma definição única. Eles mesmos, em geral, não aceitam as tentativas exteriores de retratá-los e defendem como um princípio fundamental o direito de autodefinição.
ATENÇÃO
Quando falamos de diversidade cultural indígena, estamos nos referindo à diversidade de civilizações autônomas e de culturas; de sistemas políticos, jurídicos, econômicos; de organizações sociais, econômicas e políticas construídas por milhares de anos, do mesmo modo que as outras civilizações nos demais continentes europeu, asiático, africano e na Oceania. Portanto, não são civilizações ou culturas superiores ou inferiores. São civilizações e culturas equivalentes, mas diferentes. Desse modo, podemos concluir que não existe uma identidade cultural única brasileira, mas diversas identidades que, embora não formem um conjunto monolítico e exclusivo, coexistem e convivem de forma harmoniosa, facultando e enriquecendo as várias maneiras possíveis de indianidade, brasilidade e humanidade.
Afirmar as sociodiversidades indígenas no Brasil é reconhecer os direitos às diferenças socioculturais, é questionar a mestiçagem como ideia de uma cultura e identidade nacional. É buscar compreender as possibilidades de coexistência sociocultural, fundamentadas nos princípios da interculturalidade.
A interculturalidade é uma prática de vida que pressupõe a possibilidade de convivência e coexistência entre culturas e identidades. Sua base é o diálogo entre diferentes, presente por meio de diversas linguagens e expressões culturais, visando à superação de intolerância e da violência entre indivíduos e grupos sociais culturalmente distintos.
Recentemente, os povos indígenas estão conquistando o (re)conhecimento e o respeito a seus direitos específicos e diferenciados. A partir dessa perspectiva, o país reconhece a sociedade que se repensa e se vê em sua multiplicidade, pluralidade e diversidades socioculturais, expressadas, também, pelos povos indígenas, em diferentes contextos sócio-históricos.
Esse reconhecimento exige novas posturas e medidas das autoridades governamentais para ouvir, dos diferentes sujeitos sociais, as necessidades de novas políticas públicas que reconheçam, respeitem e garantam essas diferenças.
PRINCIPAIS LUTAS DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL
Foto: Yone Fernandes/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0). Representantes indígenas acompanham julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.
POLÍTICAS EDUCACIONAIS INCLUSIVAS
A exigência de formulação de políticas educacionais inclusivas das histórias e expressões culturais no currículo escolar, nas práticas pedagógicas deve ser atendida com a contribuição de especialistas e participação dos próprios sujeitos sociais na formação de futuros docentes, daqueles que discutem a temática indígena na escola e que atuam na produção de subsídios didáticos em todos as partes. Seja nas universidades, nas secretarias estaduais e municipais. É no âmbito da escola e da educação formal que se pode constatar a ignorância, que resulta em distorções a respeito dos índios.
Foto: Canela projekt/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. Índias canela em escola de aldeia maranhense.
Passados mais de quatro anos da sua publicação, persistem vários desafios para efetivação do que determinou a Lei 11.645/2008. É de fundamental importância, por exemplo, capacitar os quadros técnicos de instâncias governamentais (federais, estaduais e municipais) para o combate aos racismos institucionais. Entretanto, o maior desafio é a capacitação continuada de professores já atuantes e a qualificação dos que ainda estão em formação nas licenciaturas em universidades públicas e privadas, nos diversos cursos de magistério.
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A Lei n. 11.645, de março/2008, que tornou obrigatório o ensino sobre a história e culturas indígenas nos currículos escolares no Brasil, ainda que careça de mais definições, possibilita a superação dessa lacuna na formação escolar. Contribui para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar em um novo desenho do Brasil em sua sociodiversidade.
INVASÃO E EXPLORAÇÃO ILEGAL DE TERRAS
De acordo com dados da Pastoral da Terra, o número de mortes de lideranças indígenas, em 2019, foi o maior dos últimos 11 anos. No levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o aumento nos casos de invasão e exploração ilegal de terras também chama a atenção. Para reagir a esse contexto, com o objetivo de unir as lideranças indígenas em torno de importantes questões, foi realizado um encontro, convocado pelo Cacique Raoni Metuktire, no Parque do Xingu.
Cerca de 600 indígenas de 45 etnias compareceram ao evento, que terminou com a reativação da Aliança dos Povos da Floresta, criada originalmente na década de 1980, pelo ativista Chico Mendes. O grupo reúne extrativistas, ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Além disso, as lideranças assinaram o Manifesto do Piaraçu, um documento que exige o cumprimento de leis que protegem os direitos dos povos indígenas e faz reivindicações nas áreas de saúde, educação, direito à terra e proteção ao meio ambiente.
Foto: Tm/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0. Cacique Raoni, da etnia caiapó, uma das figuras mais respeitadas do movimento indígena na atualidade.
DEMARCAÇÃO DAS TERRAS
Foto: PARALAXIS/Shutterstock.com.
Os conflitos são históricos, muitas vezes, violentos. Em 2019, o governo federal fez vários anúncios sobre demarcação de terras indígenas, com risco de redução de territórios. Uma interpretação jurídica não prevista na Constituição, o chamado “marco temporal” ainda não passou pelo Supremo Tribunal Federal, mas tem gerado um impasse entre a Funai e o Ministério da Justiça na análise dos processos de demarcação de terras, fazendo valer os direitos assegurados pela Constituição de 1988.
LUTA POR DIREITOS CIVIS: MOVIMENTOS DE MULHERES E NEGROS
Foto: Shutterstock.com.
O machismo, o patriarcado e as formas de inferiorização das mulheres em relação aos homens remetem a experiências históricas longínquas, mas podemos situar a luta das mulheres por igualdade de direitos, configurando uma identidade feminista, nos anos de 1960 e 1970.
Trata-se de um contexto internacional de crise do modelo de família tradicional, relacionado a mudanças nos padrões públicos que governam a conduta sexual, a parceria e a procriação. Podemos considerar esse como um período de extraordinária liberalização tanto para os heterossexuais, sobretudo para as mulheres, que gozavam de muito menos liberdade que os homens, quanto para os homossexuais.
As mulheres não ficariam de fora desse movimento mais amplo e buscavam na organização nas ruas suas reinvindicações. Queimaram sutiãs, defenderam o direito sobre seu corpo e sua vida, reivindicaram liberdade e direitos iguais. O uso da pílula anticoncepcional(inventada no final dos anos 1950) e o “abaixo sutiã” foram importantes símbolos dessa luta. Engravidar ou não, então, passaria a ser uma escolha real para a mulher. Esse foi o momento da contestação contra a dominação sobre o “sexo frágil”.
FEMINISMO E CONTRACULTURA
Foto: Alejandro_Munoz/ Shutterstock.com.
A oposição à sociedade consumista por parte da geração de jovens expressou-se, inicialmente, por meio de formas de rejeição da sociedade industrializada, com sua manifestação mais conhecida nas comunidades dos hippies, que começaram a proliferar nos Estados Unidos, na metade da década de 1960.
Entretanto, nos anos sucessivos, tal rebelião juvenil desaguou na criação de um movimento social mais politizado, portador de uma verdadeira e própria cultura alternativa – também chamada de contracultura. O movimento de 1968 encontrou seu centro propulsor nas universidades, tendo começado em 1964, no berço da sociedade consumista (na Universidade de Berkeley, na Califórnia), onde as instâncias do movimento estudantil atrelaram-se às reivindicações dos movimentos contra a segregação racial dos negros e aos protestos contra a Guerra do Vietnã. Nos anos seguintes, esse movimento de reivindicação atravessou o Atlântico para se consagrar nos protestos do ano de 1968.
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Para além dos resultados políticos obtidos, as revoltas de 1968 deixaram uma marca profunda na sociedade e cultura ocidentais, renovando o mito da transformação revolucionária da sociedade, influenciando os comportamentos individuais e coletivos, criando novas formas de mobilização.
Uma parte da onda de contestações que movimentou a sociedade ocidental no final dos anos 1960 estava atrelada à retomada das questões vinculadas à condição da mulher. As mulheres foram cruciais nessa revolução cultural, que girava também em torno de temas, como contestação do autoritarismo, liberdade sexual, reconfiguração do conceito de família e, em seu interior, reequilíbrio dos papéis, exercidos pelos seus membros.
O problema da paridade entre os sexos, que entrou na pauta da agenda histórica a partir do final do século XIX, ressurgiu de modo vigoroso nesse período, também em consideração ao papel exercido pelas mulheres, durante os anos das guerras mundiais. Com efeito, o fato de as duas guerras mundiais terem estimulado o processo de emancipação das mulheres (reservando-lhes um papel central nas dinâmicas familiares e coletivas, que, entretanto, não se traduzia em iguais direitos civis e políticos, por um preconceito antes de tudo cultural), junto à carga revolucionária de 1968, tornaram a onda feminista dessa época mais contundente em suas reivindicações.
Foto: Pharos/Wikimedia commons/Domínio Público. We Can Do It!, cartaz de J. Howard Miller.
Partindo de exigências ligadas ao igual tratamento no mundo do trabalho, o feminismo dos anos 1960 e 1970 colocavam em xeque o próprio papel da mulher na sociedade, buscando alterar as perspectivas predominantes em diversas áreas da sociedade ocidental, da cultura ao direito, da política à economia, todas permeadas por um evidente machismo.
LUTAS DE MULHERES NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Foto: Tetraktys/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0.Marcha das Vadias em Porto Alegre, em 2013.
Atualmente, o movimento feminista tem muitas vertentes, como o feminismo negro, liberal, marxista, radical e interseccional. A segmentação leva em conta que mulheres de diferentes condições financeiras, sociais, etnias e culturas têm diferentes necessidades. Toda essa luta ocasionou muitos avanços na condição da mulher na atualidade. Mas, a equidade (igualdade de oportunidades) ainda não foi alcançada. Muitas mulheres sofrem com a violência de gênero, a violência por serem mulheres, e com a desigualdade no mercado de trabalho.
Entre as principais reinvindicações dos movimentos de mulheres, hoje em dia, podemos citar:
 Fim da violência contra a mulher, diante do crescente número de vítimas de violência sexual e do aumento do número de feminicídios;
 Participação das mulheres na política e maior representatividade;
 Igualdade salarial e participação em cargos de chefia ¬– destaque em relação às mulheres negras, duplamente discriminadas.
MOVIMENTO NEGRO E LUTA POR IGUALDADE DE DIREITOS
INTERSECCIONAL
Abordagem do feminismo que pensa uma pluralidade de processos e aspectos de dominação, como raça, classe e gênero. Esses aspectos assumem a mesma importância nessa abordagem.
Foto: Nesnad/Wikimedia commons/Domínio Público. Dr. Martin Luther King proferindo seu discurso "Eu tenho um sonho" durante a marcha em Washington, DC, em 28 de agosto de 1963.
Um símbolo da luta por direitos civis é o pastor Martin Luther King Jr.: em 1963, ele reuniu mais de 250 mil pessoas na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, manifestação pela paz e pelos direitos civis, e fez o seu mais famoso discurso contra o racismo, iniciado com a frase “Eu tenho um sonho” (I have a dream).
O sonho de Luther King era uma sociedade mais justa, com igualdade de direitos e o fim dos preconceitos de raça, cor e sexo. Como consequência de suas ações, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964.
Ao mesmo tempo em que Luther King recebia o prêmio Nobel da Paz, ganhava notoriedade o grupo Panteras Negras, nome original do movimento revolucionário criado na Califórnia e que tinha como objetivo patrulhar os guetos negros para proteger os residentes contra a violência da polícia. Os Panteras Negras se envolveram em vários conflitos com a polícia por causa de suas manifestações, principalmente, na década de 1960, quando foram reprimidos, sua liderança dissolvida e o movimento perdeu a simpatia dos negros.
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Racismo: de acordo com o artigo 20 da Lei n. 7.716/89, racismo é “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. O crime de racismo é cometido quando as ofensas menosprezam determinada raça, cor, etnia, religião ou origem. O racismo é um crime inafiançável e imprescritível, o que significa que não cabe fiança e não prescreve nunca, pois a vítima não tem prazo para responsabilizar o autor do crime.
LUTA DOS NEGROS PELOS DIREITOS CIVIS NOS ESTADOS UNIDOS
Foto: E Con211/Wikimedia commons/Domínio Público. Os Buffalo Soldiers eram membros do 10º Regimento de Cavalaria do Exército dos Estados Unidos, formado por soldados afro-americanos.
Em 1863, durante a Guerra Civil, quatro milhões de escravos foram emancipados nos Estados Unidos. Concentrados no Sul devastado pela guerra, tornaram-se uma preocupação para os governos e o Congresso.
Imediatamente após o fim da Guerra Civil, Washington interveio nos governos dos estados do Sul, por meio do programa da Reconstrução, que buscou conferir aos libertos todos os direitos dos cidadãos norte-americanos. Com a criação da Agência de Libertos, foi possível o estabelecimento de colônias e a distribuição de terras, além do fornecimento de assistência emergencial a muitos ex-escravos. O benefício mais consistente e duradouro do período da Reconstrução, entretanto, seria a criação das escolas, que contribuiriam de forma permanente e progressiva na luta pela emancipação política dos negros.
Os fazendeiros brancos tiveram que aceitar a liberdade, mas queriam leis que contivessem os negros e os mantivessem como força de trabalho. As leis, ou códigos de negros, que puniam as faltas ao trabalho, os atos sediciosos e o uso de armas de fogo conferiam aos negros um status desigual na sociedade, de modo que era difícil compreender o que significava ser livre.
A partir de 1872, com a anistia que restaurou os direitos dos ex-confederados, o Sul voltou a ser governado por sua antiga elite, que logo tratou de impedir a participação política dos negros.
Por intermédio de leis eleitorais – que criavam impostos e inúmeras formas de desqualificar os votantes –, ou do simples patrulhamento e intimidação, os negros foram alijados dos processos eleitorais e deixaram de ser uma força política no Sul, apesar da 15ª Emenda.
Quando as antigas elites reassumiram o poder, também foram aprovadasleis de segregação. Negros e brancos eram separados em trens, estações, escolas, hotéis e restaurantes e a Suprema Corte manteve a doutrina: “iguais, mas separados”. Todas as instituições do Sul voltaram a funcionar de forma a garantir a supremacia branca. Mas a segregação não era particularidade da região de maior concentração de negros. Ela se estendia por todo o país e funcionava em uma de suas instituições mais importantes: o exército. Ali, as unidades de negros eram separadas e comandadas por oficiais brancos.
Foto: Dicklyon/Wikimedia commons/Domínio Público. Sala segregada para soldados "de cor" durante a Primeira Guerra Mundial, em Nova Orleans.
Com o fim da Reconstrução e da Agência de Libertos, as intervenções de Washington para garantir os direitos dos negros desapareceram e as iniciativas em prol da igualdade ficaram restritas às próprias organizações de negros, que surgiram a partir das suas igrejas e universidades.
Em 1951, a NAACP patrocinou vários casos na Suprema Corte. No governo, o procurador-geral dos Estados Unidos pediu que caísse a doutrina dos “iguais, mas separados”. De acordo com ele, a discriminação podia se transformar em moinho da propaganda comunista e levantar dúvidas sobre a integridade da fé democrática que apregoavam os Estados Unidos naquele contexto de Guerra Fria.
A questão da segregação nas escolas mobilizou os movimentos pelos direitos civis, a opinião pública e o Estado nos anos 1950 e, em 1954, a Suprema Corte decidiu definitivamente contra a segregação apoiada na 14ª Emenda.
NAACP
O papel dos intelectuais negros foi central para a luta pelos direitos civis, mas foi a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), que surgiu da iniciativa de brancos ilustres do Norte, a conduzir as principais lutas pela cidadania.
A segregação e o conflito racial nos Estados Unidos eram, de fato, uma flagrante incoerência para um país que afirmava internacionalmente defender um mundo livre e democrático. Os conflitos internos demonstravam a fragilidade de sua doutrina moral e os negros tornavam públicos os casos de discriminação e opressão. Os governos foram levados a tomar partido dos negros para demonstrar uma atuação inequívoca em favor da igualdade de direitos e da democracia.
A parte que cabia ao governo foi iniciada com um decreto que determinou, em 1948, a plena igualdade no serviço público. Houve, também, o início da integração nas Forças Armadas, a partir da Guerra da Coreia, em 1951. No setor de habitação, uma agência federal viabilizou financiamentos para minorias em empreendimentos não segregados, e nove estados, além de oito cidades, proibiram, em 1950, a discriminação e segregação para a moradia. O mais importante era garantir o alistamento e o direito ao voto dos negros, o que exigia a mobilização de diversos setores do governo.
Foto: Calliopejen1/Wikimedia commons/Domínio Público. O governador George Wallace tenta bloquear a matrícula de alunos negros na Universidade do Alabama.
Somente em 1957 é que o presidente Eisenhower conseguiu que fosse aprovada uma lei garantindo ao governo federal a atribuição de acionar judicialmente aqueles que privassem alguém do direito ao voto. Além disso, criou uma comissão federal para investigar denúncias sobre exclusão eleitoral. Essa medida foi definitiva, pois dava ao governo os instrumentos para salvaguardar o pleno exercício da participação política dos negros.
O crescimento da comunidade negra separada permitiu a expansão de suas igrejas, de suas escolas, de sua classe média de profissionais liberais e de prestadores de serviços, de seus próprios intelectuais e dos seus jornais. Os brancos queriam evitar a integração, enquanto os negros tentavam participar da vida norte-americana, mas eram rejeitados e obrigados a criar suas próprias comunidades e formas de sociabilidade.
Nesse contexto, a perspectiva da plena igualdade era remota e os protestos contra a segregação eram acompanhados de um orgulho racial sempre maior. A concentração em áreas urbanas, a crise e os conflitos raciais foram fatores de conscientização e mobilização dos negros. Por outro lado, ficou claro, sobretudo a partir do New Deal, que o Estado tinha um papel importante a cumprir na integração e na garantia dos direitos, o que ampliou o ativismo político.
LUTAS E CONQUISTAS POR IGUALDADE RACIAL NO BRASIL
Foto: Felipe Manorov Gomes/Shutterstock.com.
No Brasil, apesar de não haver um sistema oficial de segregação racial, o racismo impõe uma segregação social desde o fim da escravidão. Isso ocorre de modo velado, o que resulta na exclusão da população negra do acesso aos melhores empregos, em mais dificuldades para estudar, em menor expectativa de vida etc. Por isso, a atuação de movimentos, como o Movimento Negro Unificado, é importante em nosso país.
Como resultado da atuação de tais movimentos, temos leis, como, por exemplo, as popularmente conhecidas Leis de Cotas, e a Lei Caó:
 Clique nas barras para ver as informações. Objeto com interação.
LEI 12.711/12
Prevê a reserva de 50% das vagas em cursos de universidades e institutos federais para estudantes de escola pública e estudantes que se autodeclarem pretos, pardos ou indígenas.
LEI 12.990/14
Prevê a reserva de 20% das vagas ofertadas em editais de concursos públicos federais para pretos, pardos e indígenas.
LEI 7.716/89
Prevê detenção de um a cinco anos para crime de discriminação racial. Essa lei veda a recusa ao acesso a estabelecimentos públicos ou privados, o impedimento de acesso aos transportes públicos, a recusa à matrícula em instituições de ensino; criminaliza ofensas, agressões e tratamento desigual por motivação racial; também veda a confecção e publicação da cruz suástica para a promoção do nazismo, bem como a propagação de ideias nazistas.
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O surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU) é comumente relacionado a um acontecimento ocorrido em 1978. O feirante Robson Silveira da Luz foi acusado de roubar frutas na feira em que trabalhava. O homem negro de 27 anos foi levado para a 44ª Delegacia de Polícia de Guaianazes, na Zona Leste de São Paulo. Lá, o rapaz foi torturado e morto. Em 7 de julho de 1978, um ato contra a morte de Robson reuniu duas mil pessoas na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo. Ali nascia o MNU. A data foi oficialmente reconhecida pela Lei 10.639/03 (que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira). Nesse dia, ONGs, setores organizados da sociedade, sindicatos, entidades ligadas ao movimento negro, instituições de ensino e parte da mídia promovem debates, seminários e programas com a temática racial em nosso país.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. UMA VEZ APRESENTADO O PROCESSO ENTRE AS IDENTIDADES TRANSNACIONAIS E OS MOVIMENTOS SOCIAIS, PODEMOS PERCEBER SOBRE SUA ATUAÇÃO QUE:
Na contemporaneidade, os principais movimentos sociais ganharam mecanismos novos de identidade, permitindo um diálogo e uma atuação intensificada, ainda que tenham se tornado mais dispersos e atacados.
Os movimentos sociais possuem características organizativas essencialmente locais. Não há nenhum deles que extrapole o limite municipal ou estadual.
Os movimentos sociais continuam como no século XIX em relação à organização política. Pelas condições organizativas precárias, não possuem condições de criar uma pauta extra, capaz de ser acolhida pelo governo.
O grande problema dos movimentos sociais são os faccionalismos internos, ocasionados por lutas pelo poder entre os dirigentes.
Todos os movimentos sociais hoje em dia são espontâneos. Surgem e desaparecem rapidamente. Isso mostra a estrutura social e política neoliberal.
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2. “A DEMANDA DA COMUNIDADE AFRO-BRASILEIRA POR RECONHECIMENTO, VALORIZAÇÃO E AFIRMAÇÃO DE DIREITOS, NO QUE DIZ RESPEITO À EDUCAÇÃO, PASSOU A SER PARTICULARMENTE APOIADA COM A PROMULGAÇÃO DA LEI 10.639/2003, QUE ALTEROU A LEI 9.394/1996, ESTABELECENDO A OBRIGATORIEDADE DO ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRAS E AFRICANAS”(BRASIL, 2005). A ALTERAÇÃO LEGAL NO BRASIL CONTEMPORÂNEO DESCRITA NO TEXTO É RESULTADO DO PROCESSO DE:
Aumento da renda da população negra e que passou a exigir ser contemplada na história nacional.
Mobilização do movimento negro, que passou a entender que um dos processos fundamentais para combater a exclusão é a proposição de uma educação antirracista.
Reforma curricular brasileira, que reconhece a maioria da raça negra nas escolas e, assim, adaptou o currículo escolar.
Ampliação das disciplinas obrigatórias em que foi vista a oportunidade de conhecer mais sobre o continente africano.
Politização das universidades públicas na defesa de interesses particulares, transnacionais em detrimento a características nacionais.
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GABARITO
1. Uma vez apresentado o processo entre as identidades transnacionais e os movimentos sociais, podemos perceber sobre sua atuação que:
A alternativa "A " está correta.
Os movimentos identitários transnacionais têm uma história singular, de lutas constantes, e marcadas sempre pelo avanço das comunicações, pelas possibilidades de mais articulação. O século XXI permitiu um novo salto nesse sentido, e é base da identificação fundamental que precisamos no momento atual.
2. “A demanda da comunidade afro-brasileira por reconhecimento, valorização e afirmação de direitos, no que diz respeito à educação, passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei 10.639/2003, que alterou a Lei 9.394/1996, estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura afro-brasileiras e africanas” (BRASIL, 2005). A alteração legal no Brasil contemporâneo descrita no texto é resultado do processo de:
A alternativa "B " está correta.
A apresentação de lutas e movimentos identitários transnacionais amplia o debate não mais como uma questão local, a comoção de um grupo, mas como algo com que muitos se identificam e podem se mobilizar naquele sentido. Essa capacidade de mobilização e debate ocasiona mudanças e reflexões sociais, como a criação da lei em âmbito nacional expressa.
MÓDULO 3
Reconhecer movimentos transnacionais conflitantes, especificamente a condição de árabes e palestinos
AGORA, ASSISTA A UM VÍDEO SOBRE IDENTIDADES TRANSNACIONAIS EM CONFLITO.
QUANDO O INIMIGO SIMPLESMENTE NÃO DEVE EXISTIR
Imagem: Shutterstock.com.
Todos conhecem muito bem a ideia de nações em conflito, movimentos contra o domínio de uma nação, guerra civil com grupos diversos. E quando esse conflito não tem possibilidade óbvia de fim? Quando a raiz do mal e do conflito é a simples existência do outro e isso em si já é o suficiente para o combate até a morte?
A filmografia possui exemplos tenebrosos dessa realidade: documentários relatam com crueldade esses tipos de ideal.
Aqui, optamos por trazer uma questão histórica, constituída por decisões que puseram em rota de conflito grupos que não eram inimigos até o fim da Segunda Guerra Mundial, e a criação do Estado de Israel.
Esse conflito é um exemplo, mas busca ser emblemático para a compreensão dos processos de como as identidades transnacionais podem assumir contornos muito perigosos.
A QUESTÃO
Foto: Calliopejen1/Wikimedia commons/Domínio Público. Acordos de paz de Oslo em 1993.
Israel e a sociedade palestina são marcados por especificidades adquiridas em suas trajetórias históricas. Suas estruturas sociopolíticas e econômicas criaram duas entidades bastante diferentes uma da outra. Enquanto a economia israelense e suas instituições políticas são sólidas, a sociedade palestina ainda luta para configurar uma estrutura viável, a fim de construir seu Estado. Os anos de conflito e ocupação fragilizaram tremendamente os territórios palestinos – seu reflexo mais grave é Gaza –, que só recentemente começaram um movimento de recuperação do tempo perdido em termos políticos, sociais e econômicos.
Ao mesmo tempo, a sociedade israelense foi durante anos desafiada a absorver número significativo de imigrantes, causando uma sociedade bastante complexa, razão pela qual os desafios em relação à afirmação da identidade do Estado de Israel como Estado judeu se mantêm até hoje.
Se isso mostra a vitalidade de ambas as identidades, acaba por dificultar, também, a formação de processos de paz. Do lado palestino, o partido Al-Fatah, fiador dos Acordos de Oslo, continua a defender um compromisso com os israelenses que envolva a retirada destes dos territórios ocupados e a construção de um Estado palestino laico, convivendo lado a lado com Israel. Pragmático, o Al-Fatah aceita discutir concessões em relação aos refugiados palestinos, compreende que Jerusalém pode ser compartilhada com Israel e entende as necessidades de segurança israelenses.
Foto: MrPenguin20/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. O Fatah é a maior facção da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), uma confederação multipartidária.
Foto: Bluedenim/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. Bandeira do Hamas.
O partido, no entanto, encontra-se desgastado por anos de impasses com Israel e pela corrupção que acabou por minar sua credibilidade junto aos palestinos. Já o movimento islâmico Hamas defende a destruição de Israel e o estabelecimento de um estado palestino teocrático em todo o território do antigo Mandato Britânico. Possuindo forte organização militar, ao longo do tempo, o Hamas organizou diversos atentados suicidas contra israelenses, e dispara foguetes da Faixa de Gaza rumo ao território israelense, com frequência.
Em 2006, o Al-Fatah e o Hamas chegaram a entrar em guerra civil na Faixa de Gaza. Porém, em 2011, acertaram um acordo para a realização de eleições gerais em 2012. A situação em Israel não é menos complicada.
· Partidos da tradição revisionista, como o Likud e o Yisrael Beitenu, assim como os partidos religiosos, como o Judaísmo Unido da Torá, mostram-se contrários à retirada dos territórios ocupados, seja por razões de segurança, seja por razões de natureza ideológica ou religiosa.
· Partidos como o Kadima, o Trabalhista e o Meretz, assim como movimentos sociais como o Paz Agora, apoiam as negociações com os palestinos e o estabelecimento de dois estados convivendo lado a lado, com as restrições já mencionadas.
Se as opiniões em Israel são divididas, o sistema político israelense complica ainda mais a situação, pois é extremamente instável. Em 63 anos de existência, o Estado de Israel teve 32 governos, o que dá uma média de um governo a cada 1,9 ano. O Likud, partido do governo em 2011, possuía apenas 27 cadeiras das 120 do Parlamento, repetindo um padrão histórico: a necessidade de construção de uma ampla coalizão político-partidária, o que acaba por dificultar ainda mais a tomada de decisões.
A fragilidade da capacidade israelense em formar governos é agravada pelo fato de que o país não tem uma constituição que expresse um consenso mínimo acerca da natureza do Estado (tem apenas as chamadas Leis Básicas, que regulam o funcionamento do sistema político). Os problemas enfrentados com os palestinos, portanto, são agravados pela dificuldade da própria sociedade israelense em definir seu projeto de futuro.
ORIGEM HISTÓRICA DO CONFLITO
Foto: Andrew J.Kurbiko/Wikimedia commons/Domínio Público. David Ben-Gurion proclamando a Declaração de Independência de Israel em 14 de maio de 1948.
O conflito entre palestinos e israelenses só pode ser adequadamente compreendido no contexto maior das tensões que envolvem, desde 1948, o Estado de Israel e os países árabes, com destaque para Egito, Jordânia, Síria e Líbano.
No fim da Segunda Guerra Mundial, cerca de 300 mil judeus sobreviventes do extermínio nazista permaneciam internados em campos de refugiados. As potências vencedoras – URSS, França, Inglaterra e Estados Unidos – pretendiam enviá-los de volta às suas casas, mas, na maioria das vezes, elas não mais existiam. Principalmente no Leste Europeu, cidades inteiras foram destruídas pelo avanço nazista e, no caso dos shtelach, muitos simplesmente deixaram de existir. Em alguns casos, sobreviventes voltaram para suas residências, após anos de ausência, para vê-las ocupadase defendidas por novos moradores. Em Kielce, na Polônia, dos cerca de 200 judeus que retornaram à cidade, algo como 40 foram assassinados em um pogrom em julho de 1946.
O problema, portanto, estava colocado: para onde eles seriam enviados? Como nenhum país se dispunha a recebê-los, o movimento sionista, bastante fortalecido diante do fracasso do projeto assimilacionista dos judeus europeus, passou a defender que eles deveriam ser transferidos para a Palestina, ainda sob o Mandato Britânico.
A Inglaterra, receosa da reação dos árabes, mantinha a política de restrição à imigração judaica para a região, instituída em 1939. Os sionistas promoveram, então, uma migração ilegal para uma shtetl, de pessoas vindas de países da Europa Oriental, como Polônia, Hungria, Romênia, Rússia, Ucrânia etc.
Em 1947, a Índia tornou-se independente e, no mesmo ano, incapaz de administrar as tensões na Palestina, os britânicos resolveram transferir a tarefa de encaminhar uma solução para os problemas no seu Mandato à então recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU). A proposta de criação da ONU, fundada em 1945, partiu dos Estados Unidos, como forma de compartilhar responsabilidades e custos pela estabilidade internacional no pós-guerra. A partir de então, ela foi assumindo novas responsabilidades, como as ligadas à segurança alimentar, à cooperação internacional, ao respeito à diversidade cultural e à defesa dos direitos humanos.
Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 181, que determinava a partilha do Mandato Britânico na Palestina. A Resolução, além de determinar a partilha do Mandato – que deveria terminar, no máximo, em 1 de agosto de 1948 –, previa uma série de medidas de curto e médio prazos.
Entre as primeiras, a Inglaterra deveria providenciar, até 1 de fevereiro de 1948, um porto e uma área desocupada para absorver cem mil sobreviventes de campos de concentração; entre as segundas, a formação dos dois estados e a cooperação econômica entre ambos. Entretanto, como dezenas de Resoluções da ONU, boa parte da 181 ficou no papel. A rigor, seu único desdobramento concreto foi a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948. O Estado palestino nunca foi criado e muito menos foi construída uma cooperação consistente entre os dois povos.
Foto: Wmilbot/Wikimedia commons/Domínio Público. Membros da UNSCOP (Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Palestina) em 1947.
GUERRA DE 1948
A Guerra de 1948 teve um profundo impacto na dinâmica do conflito entre palestinos, israelenses e países árabes. Os palestinos se viram divididos em dois grandes grupos: os que ficaram em território israelense e os refugiados.
Foto: Kippi70/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.5.
TERRITÓRIOS ISRAELENSES
Somando cerca de 120 mil pessoas, os palestinos viveram sob administração militar até 1966, quando receberam cidadania israelense. Hoje são conhecidos, de forma geral, como árabes-israelenses.
 Centro Universitário Ariel de Samaria, instituição israelense com 10.000 alunos, em Ariel, na Cisjordânia.
Foto: Lenço duro/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0.
REFUGIADOS
Somando cerca de 600 mil pessoas, passaram a viver em campos de refugiados em locais como Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Síria e outros países árabes. Nesses campos, começou a formação das primeiras organizações de resistência palestina à fundação do Estado de Israel, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina e, principalmente, o Al-Fatah, cuja liderança maior seria Yasser Arafat. Tais organizações realizavam operações de sabotagem e atentados em território israelense. Israel, frequentemente, retaliava com força, como ocorreu no chamado Incidente de Qibya.
 Campo de refugiados de Shatila, no Líbano.
 SAIBA MAIS
Incidente de Qibya: Nos meses anteriores a outubro de 1953, uma série de ataques de forças palestinas ao território israelense resultou em dezenas de mortos. Em outubro, após mãe e dois filhos terem sido mortos em mais um ataque, Israel decidiu dar uma demonstração inequívoca de força, de modo a dissuadir novas incursões. Tropas comandadas por Ariel Sharon, que mais tarde se tornaria primeiro-ministro israelense, entraram na vila de Qibya, na Cisjordânia, matando mais de 60 palestinos que nada tinham a ver com os incidentes anteriores. O ataque recebeu condenações do mundo inteiro, dividindo a opinião pública e o governo israelenses, e marcou para sempre a controvertida carreira militar de Ariel Sharon. Se os palestinos estavam espalhados por vários países e suas organizações eram pequenas e com frágil, ou nenhuma, articulação entre si, os israelenses, por sua vez, davam início, naquele momento, à construção de sua estratégia militar.
As diferenças no mundo árabe seriam aprofundadas ainda mais pela divisão entre países ricos em petróleo, como a Arábia Saudita e o Iraque, e países pobres em petróleo, como Jordânia, Egito, Síria e Líbano. Em 1955, por exemplo, o Pacto de Bagdá reuniu Turquia, Irã, Iraque, Paquistão e Inglaterra para, nos quadros da Guerra Fria, conter o avanço da União Soviética sobre o Oriente Médio. No entanto, um de seus principais propositores, o então reino do Iraque, governado pela família Hachemita, entendia o pacto como uma forma de frear as ambições de Nasser de tornar-se líder do mundo árabe. Após a queda da monarquia Hachemita, o Iraque se retiraria do pacto e teria governos Baathistas. A partir disso, as facções síria e iraquiana iriam se rivalizar pela condução do partido.
POSSÍVEIS SOLUÇÕES PARA O CONFLITO?
No cenário descrito, será que é possível construir dois Estados nacionais lado a lado, garantindo a ambos segurança, soberania, exclusivismo jurídico-político, monopólio legítimo da força e maiorias demográficas estáveis? É possível o estabelecimento de dois estados em um território tão exíguo, com populações que se interpenetram, e com escassez de água?
Em 2003, um grupo de intelectuais, militares, políticos e acadêmicos israelenses e palestinos reuniu-se na chamada Iniciativa de Genebra. A Iniciativa, que conciliava visões até então antagônicas, evidenciava que havia, e há, israelenses e palestinos dispostos a um diálogo franco, aberto e corajoso.
O desafio que se coloca é o de ampliar o número de israelenses e palestinos dispostos a tal diálogo. Se as sociedades israelense e palestina forem capazes de ampliar o número, possibilitando a construção da confiança mútua, o abrandamento das posições e o isolamento de fundamentalistas e radicais de todos os tipos – abundantes em ambos os lados –, elas podem surpreender o mundo, superando, com criatividade histórica e conceitual, um conflito que parece condenado a se perpetuar indefinidamente.
Foto: Etan J. Tal/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0. Manifestação em Tel Aviv apoiando o Acordo de Genebra (2004).
REFLETINDO
Esse ponto de fechamento é vital. Apesar de pensarmos em um debate que foi definido pela ONU, estabelecendo fronteiras e territórios, a questão não é a mera ocupação de terra. Tem relação com a identidade, com o reconhecimento identitário. Judeus e muçulmanos viveram o mesmo processo imperialista, com características diversas, mas impactantes. Se um migra, é visto como o estrangeiro, o outro perigoso; muçulmanos foram amplamente dominados na busca do petróleo. A Segunda Guerra deu novo sentido aos dois grupos. Eles não eram mais uma variação da dominação dos turcos, nem estavam sob a dominação de ingleses, eram grupos que tinham sua identidade regional e religiosa, tinham uma dupla designação marcada por cada vitória contra o colonialismo. Os judeus vinham em processo de reorganização nas Américas, viram o histórico de exclusão causar um terrível genocídio. Para um grupo ou para o outro, suas questões como muçulmanos e judeus não eram regionais, eram contra um povo, eram a chance de uma nova aliança.
Observe que contraditório! A identidade transnacional que os une, dá – a ambos – argumentos para dominarem, serem respeitados, como nações ou como Estados reconhecidos. Então, lutam localmente, mas com todo mundo envolvido e sendo marcadopor esses conflitos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. EM SETEMBRO DE 2015, NO ORIENTE MÉDIO, HOUVE UM AUMENTO DA VIOLÊNCIA, ORIGINANDO NOVOS ENFRENTAMENTOS ENTRE PALESTINOS E POLICIAIS ISRAELENSES, NA CIDADE VELHA DE JERUSALÉM, A ESPLANADA. SOBRE O CONFLITO ENTRE ISRAEL E PALESTINOS, ANALISE AS ALTERNATIVAS E ASSINALE A CORRETA.
A criação do Estado de Israel, em 1948, foi uma decisão da URSS e dos EUA como uma forma de colocar fim na Segunda Guerra Mundial.
A Palestina tem sua origem no sionismo (de Sion, colina da Antiga Jerusalém), movimento surgido no Oriente Médio, no Século XIX, com o objetivo de se criar uma pátria para os palestinos.
A criação do novo país, em 1948, o Estado de Israel, levou à ocupação do território histórico da Palestina, desalojando milhares de árabes palestinos que lá viviam, criando disputas que até hoje não foram resolvidas.
Em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a partilha da Palestina em dois Estados – um para os cristãos ortodoxos e o outro para os árabes, com 47% do território.
As disputas têm cunho exclusivamente religioso e rementem ao embate entre judeus e muçulmanos, que não aceitam a existência um do outro e por isso conflitam.
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2. LEIA ATENTAMENTE OS TEXTOS A SEGUIR, ANTES DE RESPONDER.
TEXTO I
“O HAMAS TEM DOIS GRANDES ALIADOS: UM NÚMERO MAIOR DE MORTOS E O ÓDIO COVARDE A ISRAEL. É UM ÓDIO DISSIMULADO, SEM CORAGEM DE DIZER SEU NOME, QUE USA OS CORPOS DE MULHERES E CRIANÇAS COMO ESCUDO MORAL, MAS QUE MAL ESCONDE SUA NATUREZA. SESSENTA E SEIS ANOS DEPOIS DA "PARTILHA", RENEGADA, ENTÃO, PELO MUNDO ÁRABE – E SÓ POR ISSO SURGIU UMA "CAUSA PALESTINA"–, EIS QUE ISRAEL CONTINUA A LUTAR POR SUA SOBREVIVÊNCIA. JÁ TERIA SIDO "VARRIDO DO MAPA" SE, CONFIANTE NA PAZ, NÃO HOUVESSE SE PREPARADO PARA A GUERRA” (AZEVEDO, R. ÓDIO A ISRAEL. FOLHA DE S. PAULO, 1 AGO. 2014).
TEXTO II
“ISRAEL FOI CONCEBIDO NO REARRANJO ENTRE AS GRANDES POTÊNCIAS QUE SE SEGUIU À SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. É UMA OBRA ARTIFICIAL, CONSTRUÍDA DESDE O INÍCIO COM MORTES, EXPULSÕES, HUMILHAÇÕES E CONVULSÕES. OS PALESTINOS DESALOJADOS E TRATADOS COMO CIDADÃOS DE SEGUNDA CLASSE NUNCA DEIXARAM DE LUTAR CONTRA A OPRESSÃO. BATALHA INGLÓRIA. TRATOU-SE SEMPRE, COMO ATUALMENTE, DE UM COMBATE CONTRA INTERESSES MUITO MAIORES DO QUE A EXTENSÃO GEOGRÁFICA DA REGIÃO FAZ SUPOR” (MELO, R. ISRAEL É ABERRAÇÃO; OS JUDEUS, NÃO. FOLHA DE S. PAULO, 28 JUL. 2014).
OS TEXTOS ACIMA REFLETEM OPINIÕES DISTINTAS ACERCA DO HISTÓRICO CONFLITO ENTRE ISRAEL E PALESTINA. OS PONTOS DE VISTA INSCREVEM-SE EM DIÁLOGO COM OS DEBATES DO MÓDULO; PARTINDO DA PREMISSA QUE OS CONFLITOS EM QUESTÃO SÃO UM EXEMPLO QUE DEMONSTRAM A AMPLITUDE DOS DEBATES IDENTITÁRIOS TRANSNACIONAIS, DEVEMOS PERCEBER QUE ESTÁ EM JOGO PARA CADA UMA DAS PARTES:
A superioridade intelectual de Israel e a necessidade de auxílio bélico da Palestina.
O direito de autodefesa de Israel e a legitimidade palestina de luta pelo território.
A necessidade de autoproclamação dos judeus, baseado em direito histórico de dominação, e o reconhecimento do povo palestino e cumprimentos de grandeza moral, dos valores de grupo.
O caráter religioso de Israel marcando a promessa e a dominação histórica e a posição de premissa arabista e o direito por conquista pelo profeta das terras da Palestina.
O conflito é fruto da Guerra Fria e tende a se extinguir tão logo as gerações que viveram aquele momento não estejam mais presentes; por isso, é um resquício das disputas de norte-americanos apoiando Israel, e russos apoiando os palestinos.
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GABARITO
1. Em setembro de 2015, no Oriente Médio, houve um aumento da violência, originando novos enfrentamentos entre palestinos e policiais israelenses, na Cidade Velha de Jerusalém, a Esplanada. Sobre o conflito entre Israel e Palestinos, analise as alternativas e assinale a correta.
A alternativa "C " está correta.
As ações de reparação aos judeus, após a Segunda Guerra Mundial, eram uma necessidade, como a luta anticolonialista em todo Oriente Médio, fazendo cumprir acordos firmados durante a guerra e fortes movimentos identitários. Temperada pela disputa entre soviéticos e norte-americanos, a luta pela hegemonia do território criou um campo contínuo de tensões que só se recrudesceu e não tem solução fácil.
2. Leia atentamente os textos a seguir, antes de responder.
TEXTO I
“O Hamas tem dois grandes aliados: um número maior de mortos e o ódio covarde a Israel. É um ódio dissimulado, sem coragem de dizer seu nome, que usa os corpos de mulheres e crianças como escudo moral, mas que mal esconde sua natureza. Sessenta e seis anos depois da "partilha", renegada, então, pelo mundo árabe – e só por isso surgiu uma "causa palestina"–, eis que Israel continua a lutar por sua sobrevivência. Já teria sido "varrido do mapa" se, confiante na paz, não houvesse se preparado para a guerra” (AZEVEDO, R. Ódio a Israel. Folha de S. Paulo, 1 ago. 2014).
TEXTO II
“Israel foi concebido no rearranjo entre as grandes potências que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. É uma obra artificial, construída desde o início com mortes, expulsões, humilhações e convulsões. Os palestinos desalojados e tratados como cidadãos de segunda classe nunca deixaram de lutar contra a opressão. Batalha inglória. Tratou-se sempre, como atualmente, de um combate contra interesses muito maiores do que a extensão geográfica da região faz supor” (MELO, R. Israel é aberração; os judeus, não. Folha de S. Paulo, 28 jul. 2014).
Os textos acima refletem opiniões distintas acerca do histórico conflito entre Israel e Palestina. Os pontos de vista inscrevem-se em diálogo com os debates do módulo; partindo da premissa que os conflitos em questão são um exemplo que demonstram a amplitude dos debates identitários transnacionais, devemos perceber que está em jogo para cada uma das partes:
A alternativa "C " está correta.
Os debates históricos são base da reflexão. Aqui centramos no processo de identidade, como cada grupo se lê e reivindica seu direito. Apesar do argumento histórico-religioso, temos um valor transnacional em debate, ainda que tenha sido formulado em um momento de formação de nação. Mas por que, então, transnacional: a questão não termina no território, ela se faz presente em todo o mundo ocidental.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O debate sobre os movimentos identitários tem vários caminhos. Poderíamos ter apelado a uma longa lista de autores em debate, mas fizemos outra opção: perceber como, durante o século XX, as identidades transnacionais ou as identidades de grupo foram efetivamente construídas.
Por isso, tudo o que de alguma forma nos remeta a uma identidade social, não fronteiriça, e mostre como ela pode ter sentido para um grupo muito maior do que a do ambiente local, passa a nos interessar. Iniciamos com o debate das unidades, da construção de identidades sociais de grupos em fragilidade, com o objetivo de se tornarem mais fortes no cenário internacional. A escolha foi o movimento pan-americano e os processos do pan-africanismo.
Em seguida, percebemos as identidades coletivas, que não têm uma fronteira para se identificar como movimento. Nesse sentido, destacamos as questões de grupos indígenas – ou ocupantes de territórios pré-coloniais –; depois, passamos por grupos que sofreram um processo que os aproximou – os descendentes da diáspora africana, também chamados de negros, pretos ou afrodescendentes; e a condição feminina e os debates da construção de dominação histórica e suas lutas de resistência.
No fim, precisamos entrar na seara dos conflitos, como a percepção de identidades transnacionais pode também criar situações em que os debates parecem inúteis e as disputas parecem a tônica histórica e contínua. Nesse ponto, centramos nosso olhar para palestinos e israelenses como um exemplo.
O fundamento é o de análise, estudar, entender e discutir que esses processos são móveis e contínuos e notar sua mecânica amplia os debates e a compreensão dos processos atuais.

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