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Apostila TEMA 5 - Hist RI-II

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Descrição
As dinâmicas internacionais do século XXI na ordem de preocupações e a velocidade do cenário internacional e as novas disputas transnacionais.
Propósito
Compreender que a globalização reforçou o quadro de disputas por relações comerciais bilaterais e multilaterais, crises migratórias, movimentos contestatórios e guerras de informação.
Objetivos
Módulo 1
Primavera Árabe
Reconhecer a dinâmica da Primavera Árabe.
Acessar módulo
Módulo 2
Crises migratórias
Comparar as crises migratórias mundiais no século XXI.
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Módulo 3
Guerras comerciais
Localizar o papel das guerras comerciais no século XXI a partir da análise do papel da China.
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Módulo 4
Guerras de informação
Exemplificar características e movimentos das guerras de informação do século XXI.
Acessar módulo
Introdução
Se o século XX foi marcado pelo entusiasmo em relação ao poder da ciência e tecnologia (da qual a própria globalização é tributária), o século XXI surge em um embalo de reflexão do homem sobre si. Esse debate, se já era intenso, foi marcado com a pandemia global surgida em 2020 e parece incentivar enorme ceticismo em relação a tudo isso.
Os riscos de colapsos ambientais, simbolizados pelas mudanças climáticas de caráter antropogênico, não são variáveis externas a essa equação. Se, no século XX, convivemos com o medo de que a humanidade poderia desaparecer em função de guerras nucleares, no século XXI é o planeta Terra que está sob o fantasma da desaparição. O pessimismo é justificado, afinal, a mesma ciência que nos levou ao espaço foi incapaz de conter a disseminação de um simples vírus, a forma de vida mais rudimentar que conhecemos.
Com vistas a compreender esse brevíssimo século XXI do ponto de vista cronológico, mas também as tensões, os conflitos, as formas de intervenção e as crises e soluções que se anunciam nesse milênio que acaba de nascer, vamos introduzir uma reflexão sobre os novos eventos contemporâneos.
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O homem e o tempo: o lugar do pensador
Vamos pensar em uma equação em que as variáveis são: homem, tempo e espaço.
1
Primavera Árabe
Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer a dinâmica da Primavera Árabe.
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Tempo de leitura45 min.
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Tempo de mídia22 min.
Contextualização
No Oriente Médio, o século XXI foi inaugurado de forma contraditória. Se, por um lado, o mundo assistiu às invasões estadunidenses ao Iraque e Afeganistão com preocupação, por outro lado o resto da região vivia um ambiente de relativa estabilidade e equilíbrio.
No Líbano, uma sangrenta guerra civil e religiosa deu lugar a uma democracia parlamentar plural, mesmo que instável; repúblicas autoritárias de inspiração secular conviviam com monarquias teocráticas extremamente repressoras sem grandes atritos.
Em pouco menos de uma década, uma forte recessão econômica internacional, o fortalecimento do conservadorismo religioso, as disputas entre potências globais por influência na região e o renascimento de forte disposição revolucionária entre a população jovem jogaria o Oriente Médio em uma tempestade a que ainda estamos assistindo desabar: a chamada Primavera Árabe.
Primavera Árabe sendo noticiada em um jornal.
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Curiosidade
A nomenclatura dada a esse processo histórico contraditório e multifacetado é curiosa por si só: evoca as Revoluções de 1848, em que nacionalistas, liberais e socialistas tomaram as velhas monarquias europeias de assalto durante a primavera daquele ano. A “Primavera das Nações” conseguiu, momentaneamente, derrubar regimes aristocráticos na França, na Itália e na Romênia, ainda que tais regimes tenham se restabelecido pouco tempo depois. Derrotados politicamente, os revoltosos de 1848 aprenderam a partir de seus erros e plantaram sementes que viriam a germinar na virada para o século XX.
O movimento, que se espalhou a partir da Tunísia em dezembro de 2010, levou manifestantes a tomar as ruas de cidades do norte da África e do Oriente Médio em busca de melhorias no custo de vida e de mudanças nas instituições políticas. A diversidade de pautas, de condições sociopolíticas locais e de respostas governamentais a esses movimentos levou a um amplo leque de resultados.
O estopim na Tunísia tinha rosto e nome: Mohamed Bouazizi (foto), um jovem de 26 anos que trabalhava na cidade interiorana de Sidi Bouzid como ambulante.
Órfão de pai, foi criado pelo tio que, por problemas recorrentes de saúde, não conseguia sustentar a família de forma adequada. Trabalhando informalmente desde os 10 anos, Bouazizi acabou abandonando a escola antes de terminar o ensino médio. Sem conseguir arranjar um emprego fixo, o jovem passou a vender frutas e vegetais diversos em uma carroça pelas ruas da cidade.
No dia 17 de dezembro de 2010, Bouazizi foi abordado pela polícia local, sendo agredido e tendo seus pertences confiscados. Ele então dirigiu-se ao escritório do governador de Sidi Bouzid, que se recusou a atendê-lo. Como resposta, Bouazizi comprou gasolina em um posto automotivo próximo ao local e, na presença de seu tio, parou o trânsito, encharcou-se de combustível e imolou-se. Em pouco tempo, todo o país conheceu seu rosto e nome.
Manifestação antigoverno durante a Primavera Árabe na Tunísia.
A história e o desespero de Bouazizi produziram enorme comoção na juventude tunisiana, que convivia com problemas sociais oriundos do desemprego, da incerteza em relação ao futuro e da desesperança na capacidade das autoridades políticas de lidarem com as questões urgentes do país.
Mesmo que tenha sido o próprio Bouazizi a riscar o fósforo, sua morte foi recebida por diversos grupos como o assassinato de um jovem trabalhador ambulante por um governo negligente e autoritário. O Oriente Médio e o norte da África veriam a revolta florescer naquela primavera.
De forma similar, o otimismo inicial da Primavera Árabe – por sua pluralidade de pautas e agentes, por sua espontaneidade, por sua organização (quase) anônima por meio das redes sociais, pelo seu próprio tamanho – gradativamente deu lugar à decepção com o pouco progresso a curto prazo e o horror do conflito e da repressão. No entanto, ao contrário da Primavera das Nações de 1848, ainda estamos demasiadamente próximos ao processo histórico da Primavera Árabe para dimensionar seu impacto e influência, mas como veremos adiante, a importância de tais atos não devem ser subdimensionada, inclusive em eventuais influências futuras.
Questões de causalidade e organização
O primeiro aspecto que devemos analisar da Primavera Árabe é sua própria concepção como um movimento único.
Quando nos referimos à Primavera Árabe, no singular, temos sempre de lembrar que estamos nos referindo a um processo histórico singular, e não a um movimento político singular. A Primavera é assim chamada pois protestos e confrontos armados ocorreram em praticamente todos os países do Oriente Médio e norte da África (comumente chamado de “mundo árabe”, apesar de se tratar de regiões de grande diversidade étnico-cultural) de forma simultânea, tendo um plano de fundo comum de frustrações políticas e recessão econômica, e não por ser uma aliança de organizações militantes de pautas comuns.
Protesto em Beirute, Líbano (2015).
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Atenção!
É necessário reforçar esse ponto, pois, infelizmente, é um hábito recorrente, tanto no âmbito acadêmico como nos veículos midiáticos brasileiros (e latino-americanos, norte-americanos e europeus), o tratamento da região do Oriente Médio como uma entidade política e cultural unificada, uma massa amorfa de pessoas estranhas de pele marrom dotadas de uma língua única, uma identidade única e um fanatismo religioso supostamente incomparável.
O próprio uso dos termos “mundo árabe” e “Primavera Árabe” já carrega um sentido generalizante que ignora a imensa diversidade étnica, linguística e cultural que existe do Marrocos ao Iraque, da Síria ao Sudão. Por falta de melhores termos e por conveniência, seguiremos utilizando o qualificativo em questão.
Apesar das redes sociais – instrumento fundamental para a organização de protestose greves da Primavera – garantirem certo nível de anonimato e facilitarem em grande medida a comunicação e solidariedade internacionais entre populações tão diversas como argelinos e barenitas, os diferentes protestos que compuseram a Primavera Árabe foram organizados diferentemente em cada local e contaram com a participação de agentes políticos diversos.
De forma similar, demandas, métodos, resultados das manifestações pacíficas e revoltas armadas foram bastante diferentes. Muitos discursos tentam atribuir a deflagração da Primavera Árabe a atores únicos como George Soros, a CIA ou alguma espécie de conspiração comunista global; todas essas hipóteses, contudo, não passaram de ilações próprias de disputas políticas pela semântica do movimento.
Protesto em Alexandria, Egito (2013).
Em alguns territórios, como no Egito e na Síria, a oposição aos governos vigentes durante os primeiros momentos da Primavera Árabe consolidou-se em algumas organizações específicas e forjou lideranças individuais; mas, de forma geral, a Primavera foi um período de levantes marcadamente espontâneos e descentralizados.
Outra questão importante que aparece nos debates sobre o surgimento dos movimentos que compuseram a Primavera Árabe é a da preponderância de causas externas ou internas no processo. Essa é outra falsa polêmica que deve ser deixada de lado. Vivemos em um mundo cujo sistema internacional de Estados está integrado há mais de um século, e cujas relações econômicas e comerciais em nível global estão integradas há pelo menos três séculos.
A Primavera, como todo processo político neste mundo globalizado, está inserida em um contexto mundial de disputas por influência entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China e da grande recessão, iniciada em 2008, mas tem estopins internos aos países diversos.
Nenhum desses fatores explica o desenrolar da Primavera Árabe isoladamente. Uma análise consistente do assunto deve se comprometer a um movimento constante, dialético, entre arenas externa e interna, assim como entre as escalas regionais, nacionais e global.
Faíscas na Tunísia, fogueira no Egito
A onda de protestos que inaugurou a Primavera Árabe veio do norte da África, e não do Oriente Médio em si. A República da Tunísia sempre foi considerada uma ponte entre o “mundo árabe” e a “civilização ocidental”, nas palavras do primeiro presidente e líder do movimento independentista do país, Habib Bourguiba. Após três décadas de presidência, Bourguiba, já senil, foi afastado do comando do país por seu primeiro-ministro Zine el-Abidine Ben Ali em 1987.
O recém-empossado presidente Ben Ali recebeu efusivas congratulações dos governos da ex-metrópole França, da Itália, dos Estados Unidos e de outros países do eixo norte-atlântico, em grande parte por suas promessas de abertura política, aprofundamento das relações com o Ocidente e perceptíveis inclinações a uma política econômica mais liberal que a de seu antecessor.
Ben Ali, então presidente da República da Tunísia, cumprimentando o secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell.
O longevo governo de Ben Ali levou a cabo uma extensa campanha de privatizações e concessões econômicas a empresas estrangeiras, principalmente europeias, que trouxeram estrondosos resultados positivos a curto prazo: o produto interno bruto (PIB) tunisiano cresceu rapidamente, triplicando entre 1986 e 2006 e rendeu à Tunísia o apelido de “leão africano”.
A aplicação de medidas neoliberais, no entanto, aumentou muito o abismo entre as classes sociais, com a taxa de desemprego atingindo 18% às vésperas dos protestos em 2010. O empobrecimento das regiões rurais no noroeste e sul do país também levou a um inchaço das bidonvilles – o equivalente tunisiano às favelas brasileiras.
A União Geral Tunisiana do Trabalho, a maior central sindical do país, passou a ser mais incisiva, organizando pelo menos três grandes greves no triênio anterior à Revolução de Jasmim (nome dado à derrubada de Ben Ali pela mídia internacional), todas sofrendo brutal repressão do Estado tunisiano.
Nas cidades mais ricas do país, a classe média tunisiana também se frustrava com Ben Ali, que prometeu abertura da imprensa e da política partidária, mas entregou um controle cada vez maior sobre a mídia do país e buscou construir um culto de personalidade para si próprio.
O crescente descontentamento popular com as políticas econômicas e com o autoritarismo de Ben Ali foi pouco documentado nos veículos midiáticos de massa na Tunísia e também receberam pouca atenção no cenário internacional, com a notável exceção da divulgação de documentos vazados pelo WikiLeaks em novembro de 2010 por jornais como o Le Monde.
Para os governos francês e estadunidense, manter um aliado como Ben Ali ao lado da Argélia de Abdelaziz Bouteflika e da Líbia de Muammar Gaddafi era um ponto positivo, e a reação inicial aos protestos que se massificaram foi o silêncio; apenas a chanceler francesa Michèle Alliot-Marie manteve o apoio a Ben Ali, sendo criticada em público por seus colegas de governo.
Protesto francês em solidariedade a Mohamed Bouazizi (2011).
A frustração com a falta de cobertura da situação do país levou a juventude revoltada ao Facebook e a outras redes sociais para compartilhar vídeos dos protestos e organizar novas ações. As manifestações cresceram para além das bases sindicais socialistas já estabelecidas, levando setores sociais diversos às ruas, como islamistas conservadores e a classe média liberal urbana.
Em dezembro do mesmo ano, os protestos tornaram-se violentos, com a autoimolação do jovem ambulante Mohamed Bouazizi, desesperado por perder suas mercadorias para a polícia. A repressão crescente aos protestos pelo governo apenas aumentou as chamas de uma juventude desempregada em um país com crescente custo de vida. Sem uma liderança de oposição para prender, Ben Ali atribuía os protestos às “gangues mascaradas” e prometia gerar 300 mil empregos, sem dizer como.
Em janeiro de 2011, a situação tornou-se insustentável, e os governos francês e estadunidense já falavam em uma transição pacífica de governo. No meio do mês, Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita, único país que lhe ofereceu refúgio, com a condição de que abandonasse a vida pública.
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Saiba mais
Um contexto econômico e político similar existia no Egito de Hosni Mubarak, um presidente autoritário demais para o gosto dos liberais, secularista demais para os islamistas, e privatista demais para a esquerda.
Sua posição moderada com Israel e com os Estados Unidos provocava oposição tanto entre fundamentalistas religiosos quanto entre a esquerda nasserista. As consequências de longo prazo do desmonte de estatais egípcias e da redução dos subsídios ao preço de alimentos e combustíveis condenavam uma parte significativa da juventude do país ao desemprego e à pobreza.
No entanto, ao contrário do caso tunisiano, a classe média egípcia permaneceu pouco sensibilizada com a repressão às greves e aos protestos, e a Revolução de 2011 no Egito foi movimentada majoritariamente por jovens da classe trabalhadora.
Outra diferença importante entre o caso egípcio e a Revolução de Jasmim foi a grande influência de organizações islamistas entre a juventude do Egito e sua forte presença nas manifestações.
A Irmandade Muçulmana, organização fundada no Egito em 1928, foi particularmente vocal em sua oposição ao governo de Mubarak. O discurso da oposição ao presidente foi dominado por certa moralidade religiosa, mesmo que a esquerda nasserista continuasse uma força política considerável.
Cartaz indicando o papel fundamental desempenhado pelo Facebook na eclosão dos movimentos durante protesto egípcio em 2011.
Em janeiro de 2011, a oposição egípcia rapidamente aprendeu e aplicou uma lição valiosa obtida da Tunísia: o papel das redes sociais na articulação de ações contra o regime. O uso do Facebook, novamente, foi central. Articulando-se por fora dos tradicionais partidos de oposição e sem necessitar de cobertura dos telejornais mais assistidos, a juventude egípciaacampou na estratégica Praça Tahrir, no coração do Cairo (sede do governo egípcio), até o governo cair.
A prisão de militantes conhecidos da Irmandade, de líderes sindicais preestabelecidos ou até mesmo de novas figuras como Wael Ghonim, ex-programador da Google, não quebrou o espírito do movimento, que não tinha um único rosto ou dono. Mubarak caiu na metade do tempo de Ben Ali.
A rápida massificação dos protestos levou à ampla constatação do fim eminente, e líderes de quase todas as nações condenaram o governo de Mubarak e pediram reformas pacíficas imediatas; apenas Gaddafi, o presidente israelense Shimon Peres, o presidente palestino Mahmoud Abbas, o monarca saudita Abdullah e o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi defenderam a continuidade de Mubarak, enquanto o aiatolá (líder religioso) iraniano Ali Khamenei chamou Mubarak de “ditador traidor”. Isolado diplomaticamente e perdendo o apoio de suas próprias forças armadas, a Arábia Saudita recebeu o segundo presidente árabe refugiado em fevereiro.
Enquanto a oposição tunisiana desenhava uma rota comum para uma democracia parlamentar liberal, a oposição egípcia pós-queda de Mubarak tratou imediatamente de fragmentar-se. As disputas sobre o rumo do país estavam assentes em divisões profundas entre fundamentalistas religiosos e a esquerda nacionalista nasserista.
As forças armadas egípcias, de forte tradição secular (porém conservadora), manteve uma presença tutelar durante todo o processo, o que agravou ainda mais as tensões no país. Uma constituição provisória e o agendamento de eleições multipartidárias aumentaram a confiança em uma futura estabilidade política, mas a surpreendente vitória eleitoral do islamista Mohamed Morsi e seu Partido da Liberdade e Justiça, ligado à Irmandade Muçulmana, levou novamente a juventude revoltosa à Praça Tahrir.
Em pouco mais de um ano de mandato, Morsi tentou impedir qualquer interferência de secularistas na elaboração e aprovação da Constituição de 2012, criticada por seu caráter religioso, e tentou, por decreto, acumular funções judiciárias à cadeira presidencial.
Pela brutal repressão aos manifestantes em Tahrir, a oposição ao seu governo foi engrossada pela direita secularista, pelas forças armadas e até por figuras religiosas tradicionais do Egito, como o imã Ahmed el-Tayeb, da mesquita de Al-Azhar, e o papa Teodoro II, da Igreja Copta de Alexandria.
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Atenção!
Em julho de 2013, quase dois anos após os primeiros protestos da Primavera Árabe, um golpe militar, seguido de uma eleição e um referendo constitucional esvaziados de amplo debate político, levava o general Abdel Fattah el-Sisi, antigo apoiador de Mubarak, à presidência.
Tão próximos, tão distantes: Argélia e Líbia
Diferentemente dos governos de Ben Ali e Mubarak, a Argélia de Bouteflika e a Líbia de Gaddafi tinham na China e na Rússia seus principais aliados políticos no cenário internacional – apesar de o coronel líbio anunciar, desde 2008, uma abertura política radical no país.
A Rússia e a China já eram também importantes parceiros comerciais desses países norte-africanos, e largamente escaparam da grande recessão, mas a alta internacional dos preços de alimentos – em particular, farinhas, açúcar e óleo – atingiu esses países em cheio, pois a importação desses produtos tinha (e ainda tem) um peso maior na Argélia e Líbia do que na Tunísia e no Egito.
O súbito aumento no custo de vida foi um importante catalisador para a transformação da apatia política em ação direta. A resposta comum dos dois governos ao cenário de inflação (instituição de reformas tributárias regressivas) somou-se à falta de diálogo político para transformar essas nações em barris de pólvora.
Uma guerra civil sangrenta se arrastou pelos anos 1990, terminando com a eleição de Bouteflika. Apesar das promessas de democracia, Bouteflika seguiu com um rígido controle sobre a imprensa e a atividade parlamentar, além de emendar a constituição argelina em diversas ocasiões para permitir sua continuidade na cadeira presidencial. A resposta violenta do governo aos protestos por pão, moradia e emprego atiçou a juventude previamente apática, que acabava de presenciar o levante tunisiano.
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Na Argélia, o controle governamental sobre as redes sociais era maior. A alternativa encontrada foi o uso de aplicativos de mensagens instantâneas para a organização de protestos por fora dos partidos de oposição já existentes, vigiados de perto pelo governo. Os manifestantes argelinos imitavam os tunisianos em suas palavras de ordem e até mesmo no emprego da autoimolação como forma de protesto.
Manifestações em Oran, Argélia. Fonte: Fotografia de Issam Bekhti, 22 de fevereiro de 2019.
Ao final de fevereiro, duas semanas após a queda de Mubarak, Bouteflika anunciava:
O fim do estado de sítio na Argélia (instituído em 1992)
Eleições legislativas com regulamentos menos rígidos para o ano seguinte
Grandes reformas constitucionais
Essas grandes concessões à oposição acalmaram a Primavera no país, que em poucos meses esvaziaria as ruas.
Apenas a última promessa não foi cumprida por Bouteflika, o que levou ao ressurgimento de protestos no chamado Movimento Hirak de 2019 – que, por fim, derrubou Bouteflika e a antiga constituição.
Ao contrário dos casos tunisiano e egípcio, chefes de Estado e organizações internacionais prontificaram-se a apoiar os protestos em poucos dias após sua deflagração. A instalação de um governo mais resistente aos investimentos russos e chineses era de grande interesse para os Estados Unidos e a União Europeia.
As concessões realizadas pelo presidente argelino, com apoio público de Beijing e do Kremlin, foram certamente influenciadas pela possibilidade de ruptura institucional que assomava no horizonte. Mesmo que as transformações políticas rumo a uma democracia liberal não tenham sido tão radicais quanto na Tunísia, a Argélia conseguiu passar pela Primavera com relativa estabilidade social.
Nada poderia ser mais diferente, porém, do que o desenrolar do processo histórico na vizinha Líbia. Anteriormente propagandista de uma filosofia política que mesclava islamismo, socialismo, nacionalismo árabe e ideias terceiro-mundistas, o ex-presidente, ex-premiê e comandante militar Muammar Gaddafi (foto) adentrou o século XXI prometendo aprofundar laços com o Ocidente, realizar eleições multipartidárias e combater o nacionalismo secularista árabe de seus vizinhos em nome de um recém-descoberto sentimento pan-africanista.
Temeroso de perder o poder da mesma forma que o tomou da antiga monarquia da Líbia – por meio de um golpe militar –, Gaddafi havia enxugado as forças armadas líbias para menos de 50 mil homens, mantendo o controle do país com algumas brigadas compostas por homens leais, recrutados de clãs árabes e berberes aliados. Aliás, a Líbia sob Gaddafi nunca superou o sectarismo entre os antigos clãs rivais; o coronel mantinha o tênue equilíbrio político do país por meio da distribuição cuidadosa de cargos entre eles.
A queda do preço do barril de petróleo e o encarecimento dos alimentos serviram apenas para expor as feridas malcuradas do país. Pode-se argumentar que o fator econômico foi secundário para a deflagração da Primavera Árabe na Líbia. Os motivos listados a seguir fizeram com que protestos pacíficos em Benghazi no início de fevereiro escalassem para uma tomada da cidade por manifestantes no final do mês:
1. 1. A animosidade entre vários clãs e o governo
As tradições locais se reorganizam como foma de combater os governos que consideravam “não representativos”.
2. 2. A repressão de críticas, apesar das promessas de abertura
Valendo-se dos velhos acordos internacionais e achando que conseguiriam rapidamente abafar os levantes, os governos apelam para violência.
3. 3. A hostilidade entre árabes e berberes
A violência do governo e a recuperação das identidades históricas geram ampliação da quantidade de disputas.
4. 4. A influência contagiante dos protestos na Tunísia e no Egito
Surge um ingrediente inédito: o exemplo. Se tudo o que pareciasolução estava no passado ou no presente (dominado por potências), os levantes nos demais países ocasionaram uma nova resistência.
5. 5. A forte presença de grupos islamistas no país
No coletivo das novas identidades, valores diversos e dispersos aparecem: por exemplo, o chamado fundamentalismo islâmico.
6. 6. O saudosismo da monarquia na Cirenaica
Mesmo que vivo e transformador, o processo gera receio. Partindo disso, grupos conservadores passam a defender um retorno ao cenário imaginado pelos governos.
Protestantes egípcios em suporte à Líbia, em 2011.
No vácuo de poder, milícias islamistas adquiriram enorme influência na cidade. No mês seguinte, uma variedade de grupos armados apareceu no país, alegando lealdade a diferentes tribos e movimentos religiosos. Com forte apoio logístico e aéreo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e oposição chinesa e russa, os rebeldes tomaram a capital Trípoli em agosto. O Conselho Nacional de Transição – órgão criado para unificar a oposição a Gaddafi – foi reconhecido internacionalmente no mês seguinte como o governo líbio legítimo.
A guerra paralisou por completo a indústria petrolífera do país, jogando-o na miséria. O Conselho não conseguiu controlar a atividade das diversas milícias, muitas delas recebendo financiamento dos governos egípcio, catari, turco e emirático. A Líbia terminou 2011 como uma “colcha de retalhos”, com diferentes regiões sendo governadas pelo Conselho, por grupos armados nacionalistas, organizações jihadistas, milícias berberes e até mesmo por brigadas gaddafistas sobreviventes.
A violência sectária tornou-se rotina e a anomia social permitiu a emergência da segregação espacial por gênero em cidades como Benghazi e de um mercado aberto de imigrantes negros escravizados em outras cidades dominadas por jihadistas. A incapacidade de se criar um Estado e um exército unificados no país resultou em uma nova guerra civil em 2014 que se estendeu até outubro de 2020. Um governo unificado foi anunciado em março de 2021; contudo, no momento da escrita deste texto, as diversas facções militares e paramilitares existentes na Líbia permanecem separadas.
Combatentes pelo Conselho Nacional após a tomada da região de Bani Walid, importante centro gaddaffista (2011).
A extensão do envolvimento internacional na Primavera e o consequente conflito na Líbia seriam um prenúncio da situação na Síria. Praticamente toda a Liga Árabe, com as notáveis exceções de Argélia e Síria, apoiou a intervenção militar da OTAN contra Gaddafi. A condenação ao governo do coronel foi tão forte que até a neutra Suíça proveu armas aos combatentes antigaddafistas.
Rússia e China limitaram-se ao apoio diplomático, com apenas o pequeno Belarus enviando tropas e armas para auxiliar o “líder fraternal” da Líbia. O exército líbio era pequeno demais para resistir a uma campanha militar apoiada pela OTAN; os russos e chineses apenas esperaram a confirmação da tomada de Trípoli para reconhecer o Conselho como governo legítimo no país, em vez de reconhecê-lo pouco tempo após sua formação.
Gaddafi era islamista demais para receber apoio dos militares egípcios, mas não tanto para ganhar simpatia entre as monarquias do golfo Pérsico e as milícias jihadistas que se fortaleciam no país. Seu discurso de abertura para os países ocidentais alienou russos e chineses; seu abandono do nacionalismo árabe e seu histórico de financiamento de movimentos militantes na África Subsaariana e no Oriente Médio lhe custaram qualquer apoio internacional de peso em escala local, continental ou global.
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Prelúdio do Inverno
Nosso especialista, Rodrigo Rainha, faz uma metáfora, relacionando os eventos da Primavera Árabe às outras estações do ano:
A Síria
Bashar al-Assad (foto), filho do ex-presidente Hafez el-Assad, assumiu a presidência da Síria em 2000 em meio a expectativas de que realizasse grandes reformas democráticas. Ele instituiu restrições ao uso da internet no país, desfez regulações em certos setores da economia, anistiou presos políticos e evacuou as tropas sírias do vizinho Líbano, em 2005.
No entanto, sua moderação relativa na política interna do país foi acompanhada de uma política externa contrária à do egípcio Mubarak e do tunisiano Ben Ali: reafirmou o papel da Síria como baluarte árabe e secularista contra Israel e a monarquia saudita, ampliou parcerias comerciais e militares com a Rússia e aprofundou relações diplomáticas e militares com o Irã e seus aliados – especialmente o Hezbollah no Líbano.
Essa aproximação com a teocracia xiita de Teerã provocou tensões internas na Síria, já que o discurso secularista de Assad era acompanhado da distribuição de cargos políticos e militares entre alauitas (corrente do Islã xiita praticada pela família Assad e prevalente na região costeira do país). Um fator agravante era o fato de muitos dos presos políticos anistiados serem conservadores religiosos e islamistas sunitas que, uma vez soltos, entraram em contato com militantes sunitas do vizinho Iraque, que se mantinham em conflito com o governo iraquiano e as tropas estadunidenses estacionadas ali.
A baixa no preço do petróleo na virada para a década de 2010 gerou um crescimento no desemprego e afetou fortemente o setor da construção civil no país. Uma seca prolongada desde 2006 forçou muitas famílias a abandonarem o campo e buscarem oportunidades nas cidades, gerando o maior deficit habitacional em décadas. A seca também levou a Síria a depender mais ainda de importações de alimentos em um período de alta generalizada dos preços.
As tensões sectárias e a piora das condições de vida levaram a juventude síria para as ruas de Damasco.
Quando protestos na cidade predominantemente sunita de Daraa, no sul do país, utilizaram slogans típicos da Primavera (“O povo quer derrubar o regime”), o governo respondeu com repressão brutal e acusações de extremismo religioso. Buscando evitar que o governo desmoronasse como na Líbia, Assad ordenou a ocupação militar de Daraa, resultando em dezenas, senão centenas de mortes.
Jovem protestando contra Assad e Putin (na imagem, o cartaz diz “Assad é um terrorista, Putin é um terrorista”), em 2019.
Com imagens dos confrontos entre tropas governamentais e manifestantes circulando pelo país e pelo mundo, uma parte significativa de oficiais militares, majoritariamente sunitas, desertou do exército sírio em julho do mesmo ano, anunciando a formação do Exército Livre Sírio e de sua contraparte governamental, o Conselho Nacional Sírio.
A Rússia também queria evitar uma nova Líbia, e foi mais incisiva em seu apoio a Assad do que com Gaddafi. Manter um governo aliado na Síria era importante não apenas pela localização estratégica (acesso fácil ao Mediterrâneo, Israel, Turquia e Iraque) e pelos poços de petróleo existentes no interior do país, mas pela presença na Síria de importantes oleodutos e gasodutos que escoam a produção petroquímica de outros países como Irã e Iraque.
A partir da fundação do Exército Livre, Estados Unidos, Reino Unido e França reconheceram o Conselho como governo legítimo da Síria e passaram a prover a oposição síria com armas, munições e treinamento. Simultaneamente, tentaram aprovar resoluções na Organização das Nações Unidas (ONU) para retirar o reconhecimento internacional e autorizar sanções contra o governo de Assad, mas todas essas tentativas receberam o veto da Rússia no Conselho de Segurança da ONU.
Além de aumentar as vendas de armas para o governo sírio, a Rússia também enviou mais tropas para o país, com o pretexto inicial de auxiliar no treinamento de oficiais e na logística das forças armadas sírias.
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O Irã também se envolveu diretamente, primeiramente a partir de bombardeios e posteriormente com batalhões do Exército de Guardiões da Revolução Islâmica – uma força militar iraniana à parte do exército convencional daquele país.
Com pouco reconhecimento internacional, o Conselho Nacional e o Exército Livre encontraram dificuldades em consolidar seu papel de liderança na oposição a Assad, quefragmentou-se. A fuga de muitos jihadistas iraquianos para a Síria – incluindo membros da organização Estado Islâmico do Iraque – e a existência de financiamento mais estável advindo da Turquia, da Arábia Saudita e do Catar possibilitaram a ascensão de grupos armados sunitas, como a Frente al-Nusra – fundada a partir de células da al-Qaeda no país – e Jund al-Aqsa.
A desorganização do Exército Livre também permitiu que algumas brigadas vendessem armas adquiridas dos estadunidenses para esses grupos. Muitos também desertaram para essas organizações. A violência sectária cresceu a tal ponto que, em 2013, a organização antixiita e anticurda Estado Islâmico do Iraque (agora denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante) tomou controle do vale do Eufrates, promovendo massacres de curdos e árabes que não adotassem a sua versão extremista do Islã salafista.
Ao tomar o controle de grandes poços de petróleo do país, o Daesh (abreviação do nome árabe do Estado Islâmico) garantiu uma fonte de financiamento, contrabandeando petróleo para comerciantes locais sírios, jordanianos e iraquianos. Diversos governos (Síria, Turquia, Israel, Arábia Saudita e Irã) acusaram uns aos outros de comprar petróleo produzido pelo Daesh ao longo do conflito.
Muitos comentaristas políticos e historiadores referem-se a um “Inverno Árabe” após a Primavera. As esperanças de construção de democracias pluripartidárias estáveis resultaram em pouca ou nenhuma mudança institucional (como nas monarquias do Golfo), novos governos autoritários e militarizados (como no Egito), disseminação do extremismo salafista, guerras civis sangrentas (como na Síria e na Líbia) e uma enorme onda migratória para a Europa.
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Comentário
De todos os estudos de caso que exploramos, a Síria se destaca como símbolo: dez anos depois, a guerra segue sem tréguas, ao contrário da Líbia. Apenas a Tunísia, ponto inicial da Primavera, fez florescer os objetivos da revolta; na Argélia, na Líbia e na Síria, segue a incerteza.
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
A Primavera Árabe pode ser caracterizada por:
I. Uma reação ao domínio estadunidense na região após a invasão de Afeganistão e Iraque.
II. Conjunto de oposições aos governos vigentes, marco do processo, ainda que localmente os processos sejam diversos.
III. A Primavera Árabe é um movimento externo aos países árabes, sendo uma influência do Ocidente na região via redes sociais.
IV. A Primavera Árabe tem fatores internos e externos, podendo ser um fenômeno que dialoga com a dinâmica do mundo globalizado.
Estão corretas as afirmativas:
A
I e II
B
I e III
C
I e IV
D
II e III
E
II e IV
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Questão 2
Ao reconhecer o processo de eclosão dos movimentos da Primavera árabe na Tunísia, devemos considerar que:
A
o envelhecimento do líder carismático e a ausência de um governo foram os principais motivos da revolta.
B
apoiado pela França e pelos Estados Unidos, o levante tunisiano foi entendido como uma conciliação com o Ocidente.
C
a movimentação política tunisiana foi atípica, por isso entendida como estopim, não dialoga com as demais movimentações da Primavera Árabe.
D
as redes sociais foram uma marca de mobilização na Tunísia e acabaram se tornando forma recorrente em todas as movimentações da Primavera Árabe.
E
as mídias foram usadas para que lideranças carismáticas discursassem contra os poderes liberais e os processos privatistas vividos na Tunísia.
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2
Crises migratórias
Ao final deste módulo, você será capaz de comparar as crises migratórias mundiais no século XXI.
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Quando os imigrantes eram eles
Neste vídeo, nosso especialista Rodrigo Rainha fala sobre o tratamento histórico aos fluxos migratórios e a questão das tragédias humanitárias que os envolvem:
Introdução
Quando discorremos sobre confrontos militares, há certa tendência à abstração. Focamos em causas gerais do conflito, negociações entre as instituições envolvidas e números de mortos e feridos; é fácil esquecer os rostos por trás dos números e as vidas perdidas ou alteradas para sempre fora do campo de batalha.
Na maioria esmagadora das guerras, apenas uma parte pequena da população de dado país é mobilizada em forças militares ou paramilitares, e a população civil local se vê entre tiroteios e bombardeios. Grande parte não vê escolha senão fugir para preservar suas vidas e famílias.
Sírio em meio aos escombros resultante de um ataque aéreo, em 2020.
É evidente que os seres humanos, ao longo da história, circularam de forma mais ou menos livre, apesar de obstáculos naturais e tentativas humanas de controlar o movimento de pessoas com fronteiras e alfândegas. Durante períodos de conflito, o desespero e a vontade de viver buscam vencer qualquer obstáculo, e as iniciativas para impedir esse movimento parecem cada vez mais fúteis e desumanas.
Observemos o caso de Alan Shenu, mais conhecido na mídia internacional como Alan Kurdi.
O menino curdo, nascido em Kobani, na Síria, em 2012, estava com seu pai Abdullah, sua mãe Rehana e seu irmão Ghalib na cidade turca de Bodrum, em setembro de 2015. A família fugiu para a Turquia em junho do mesmo ano, escapando do avanço das tropas do grupo fundamentalista Daesh, conhecido também pelos massacres e estupros da população curda no Iraque e na Síria.
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Comentário
Seguindo os passos de uma das tias de Alan, a família tentava chegar ao Canadá, mas as autoridades canadenses rejeitaram o pedido de asilo dos Shenu, e o governo turco também negou seus vistos de saída. Em desespero, Abdullah usou a maior parte de seu dinheiro (quase 6 mil dólares) para comprar quatro passagens ilegais para a ilha grega de Cós, a quatro quilômetros da costa.
Na madrugada do dia 2 de setembro, a família embarcou com mais doze pessoas em um bote inflável que virou no mar em poucos minutos. Os coletes salva-vidas distribuídos pelos atravessadores eram falsos e não funcionaram. Rehana, Ghalib e Alan morreram afogados, e seus corpos, junto aos de outras vítimas, apareceram nas praias de Bodrum na manhã seguinte.
A imagem do corpo do pequeno Alan, na beira do mar e com o rosto voltado para a areia, chocou o mundo.
Essa era a consequência final do sectarismo, da guerra e, principalmente, da rejeição.
Abdullah Ghaleb Kurdi com o livro "O menino na praia" sobre seu filho, Alan Kurdi, cujo cadáver foi encontrado nas ondas de uma praia turca.
No Natal daquele ano, Abdullah leu uma mensagem no Canal 4 britânico:
É muito difícil quando uma pessoa fecha uma porta no rosto de outra. (...) Neste momento do ano, peço a todos que pensem na dor dos pais, mães e crianças que buscam paz e segurança. Pedimos apenas um pouco da simpatia de vocês.
Casos como o da família Shenu ilustram a incapacidade das burocracias estatais de países europeus e norte-americanos em lidar com o fluxo intensificado de imigrantes e refugiados para essas regiões a partir de 2014, como resultado de guerras civis e crescimento generalizado do crime no Oriente Médio, na África Subsaariana e na América Central.
Esse caso é emblemático também para indicar o crescimento de forte oposição à imigração de africanos, asiáticos e latino-americanos por parte de movimentos conservadores na Europa e nos Estados Unidos, associados ao ressurgimento de movimentos de extrema direita, como o grupo Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) na Alemanha e o partido Britain First (“Bretanha Primeiro”), no Reino Unido.
O caso europeu
Desde seu início, a guerra civil na Síria provocou o desalojamento de mais da metade da sua população pré-guerra, quase 22 milhões de habitantes.
Povo sírio em campo de refugiados em Mafraq, na Jordânia.
A maioria – cerca de 6 milhões – é de refugiados internos, que fugiram das regiões norte e leste do país para a costa mediterrânea, região menos afetada pelo conflito. Cerca de 5,5 milhões, em 2016, haviam cruzado as fronteirasdo país, a maioria para países do próprio Oriente Médio como Turquia, Líbano, Jordânia e Egito.
No entanto, muitos continuaram suas jornadas rumo a países europeus por razões diversas. A ascensão de Recep Erdogan aos cargos de primeiro-ministro e, posteriormente, presidente da Turquia provocou tensões no país, com a adoção de uma agenda política religiosa e conservadora, a escalada no conflito armado no sudeste do país com organizações curdas e a decisão do governo de intervir na própria guerra civil.
Grupo de refugiados na fronteira entre a Croácia e a Sérvia a caminho da União Europeia.
Uma tentativa frustrada de golpe militar na Síria contra Erdogan (foto) em 2016 também provocou pânico na população asilada, que passou a dirigir-se para a Europa (principalmente para a Grécia) temendo uma guerra civil no país.
No ano seguinte, Erdogan construiu uma aliança com o Partido do Movimento Nacionalista, de extrema direita, e realizou uma reforma constitucional que aumentou os poderes da presidência, enfraquecendo ainda mais a democracia e o Estado laico na Turquia.
No módulo anterior, observamos a situação instável do Egito durante e após a Primavera Árabe. O governo autoritário de Abdel Fattah el-Sisi inaugurou uma nova era de supressão da liberdade de imprensa no Egito e estreitou as relações do país com o governo al-Assad na Síria, o que levantou boatos de deportações. Uma insurgência islamista de ex-apoiadores do presidente deposto Mohamed Morsi na península do Sinai também ameaçava se espalhar pelo norte do país, o que levou muitos refugiados a buscar a Europa.
Os países da União Europeia, recuperando-se da grande recessão, atraíram os refugiados sírios (assim como os iraquianos e afegãos, também escapando de guerras civis) pela retomada econômica, possibilidades de emprego, relativa estabilidade institucional e ausência de conflitos armados. A degradação ambiental e os conflitos armados na África Subsaariana, especialmente na África Ocidental, também levou muitos africanos (nigerianos, gambianos, senegaleses, malianos etc.) a buscar oportunidades em uma Europa economicamente reconstruída.
Duas rotas são muito utilizadas pelos imigrantes:
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Rota do Mediterrâneo Oriental
A rota mais utilizada pelos imigrantes médio-orientais foi a do Mediterrâneo Oriental: passando pela Turquia, os viajantes cruzam as fronteiras terrestres daquele país com a Grécia e Bulgária, ou atravessam o mar Egeu em botes e barcos rumo às ilhas gregas (como a família Shenu).
Rota do Mediterrâneo Central
A segunda rota migratória mais popular foi a do Mediterrâneo Central, em que contrabandistas lotam de imigrantes barcos e botes na Líbia para atravessar o mar Mediterrâneo rumo à Itália ou à pequena Malta. Os imigrantes sírios, afegãos e iraquianos atravessavam o Egito para chegar à Líbia, e os nigerianos, gambianos e senegaleses cruzavam o Saara.
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Reflexão
Na União Europeia, alguns permanecem nesses países ou buscam ser realocados via programas de redistribuição migratória para países considerados mais receptivos ou com melhores oportunidades econômicas, como Alemanha, Itália, França, Reino Unido e Suécia. A maioria, no entanto, continua a jornada pela rota dos Bálcãs Ocidentais, atravessando a Macedônia e a Sérvia, rumo à Hungria, Alemanha e outros países já citados.
Muito perigosa, essa rota resultou em tantos naufrágios e afogamentos que organizações não governamentais (ONGs) como a Save the Children Fund e a Médicos Sem Fronteiras passaram a operar navios de resgate com regularidade na região. A abertura dessa rota foi possibilitada pela guerra civil na Líbia, com o colapso das estruturas governamentais no país norte-africano e, consequentemente, do controle sobre as fronteiras terrestres e marítimas.
Em outubro de 2013, o governo italiano iniciou a primeira resposta governamental de amplo alcance ao fluxo migratório no Mediterrâneo Central, a Operação Mare Nostrum. Navios, helicópteros e aviões de reconhecimento passaram a patrulhar as águas da região buscando barcos com imigrantes, resgatando os embarcados para iniciar seu processo de solicitação de asilo.
À medida que o número de imigrantes crescia, o governo italiano requisitou ajuda financeira aos países-membros da União Europeia para manter a operação. Com seus pedidos de ajuda ignorados e sofrendo pressão crescente da direita conservadora anti-imigração, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi suspendeu a operação em outubro de 2014, um ano após seu início.
Imigrantes resgatados no Mar Mediterrâneo pela operação Mare Nostrum.
Após quase um mês de inatividade, a União Europeia, por meio de sua agência de fronteiras e guarda costeira, a Frontex, iniciou a Operação Triton, com financiamento da União e participação de dezesseis países-membros.
A Operação Triton, no entanto, foi um fracasso em seu início. Com pouca verba – 2,9 milhões de euros por mês, ou seja, bem menos do que os 9 milhões de euros mensais destinados à Operação Mare Nostrum –, e poucos navios, aviões e funcionários disponíveis, a operação falhou em lidar com a intensificação do fluxo migratório proveniente da Líbia em 2015, com pelo menos quatro naufrágios e mais de mil mortos e desaparecidos apenas no mês de abril.
Após fortes críticas, membros da Comissão Europeia sugeriram dobrar o financiamento da operação, mas isso ainda seria insuficiente. Apenas ao fim do mês foi aprovado um financiamento similar à operação italiana anterior. Após anos de funcionamento e uma redução nas chegadas de imigrantes, a Operação Triton foi substituída em 2018 pela Operação Themis, de menor porte.
Os governos da Europa Ocidental, após a Operação Mare Nostrum, tentaram mobilizar os demais membros da União Europeia para a construção de políticas conjuntas para a crise migratória. O governo alemão, liderado pela chanceler Angela Merkel (foto), foi particularmente vocal.
O fechamento das fronteiras europeias não impediria o movimento de migrantes, apenas exacerbaria uma crise humanitária; para não sobrecarregar os países fronteiriços que recebiam maiores números de imigrantes (Itália, Grécia e Hungria), foi proposta a distribuição desses imigrantes entre os membros da União Europeia, com financiamento da União e da própria Alemanha.
Contudo, enquanto países como Alemanha, França, Espanha e Suíça se dispuseram a receber dezenas de milhares de imigrantes redistribuídos, governos da Europa Central como República Tcheca, Hungria e Eslováquia posicionaram-se contrários ao que viam como uma ingerência da União em políticas nacionais, prevenindo a formação de um consenso e provocando um voto majoritário no Conselho Europeu.
Derrotados, os países contrários não foram forçados a receber cotas de imigrantes, mas sofreram sanções econômicas.
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Exemplo
Por seu voto contrário, o governo húngaro não seria contemplado com o sistema de redistribuição e permaneceria com os imigrantes em seu território.
O governo conservador e xenófobo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán passou então a restringir a entrada e o registro de imigrantes provenientes da Sérvia e da Croácia, construindo cercas e grades ao longo das fronteiras húngaras com esses países, e chegou ao ponto de transportar imigrantes por ônibus para a fronteira com a Áustria, onde eram instruídos a atravessar a pé.
O caso húngaro não foi um incidente isolado. Casos de violência e criminalidade envolvendo imigrantes muçulmanos e o fantasma da recém-superada grande recessão foram amplificados e utilizados por políticos e organizações xenófobas da direita e extrema direita para avivar as chamas do preconceito racial e da intolerância religiosa na população europeia, provocando o surgimento e crescimento (inclusive eleitoral) de partidos e grupos ultraconservadores anti-imigração.
Tudo muda quando saímos da teoria e conhecemos as histórias. Agora, vamos conhecer alguns desses partidos e grupos ultraconservadores anti-imigração que surgiram ou cresceram:
Na HungriaNa FrançaNa ItáliaNa AlemanhaEm nível continentalOrbán levou seu partido, o Fidesz (Aliança Cívica Húngara), a alcançar dois terços das cadeiras do Parlamento húngaro nas eleições de 2014 e 2018. O país também viu também o crescimento da extrema direita com o partido Jobbik, que havia liderado protestos antissemitas contra a realização do Congresso Nacional Judaico em Budapeste no passado, além de diversas ações homofóbicas e islamofóbicas.
Primeiro-ministro, Viktor Orbán
Apesar de não ser associado única e exclusivamente ao crescimento da extrema direita britânica, o processo político da retirada do Reino Unido da União Europeia – o Brexit – esteve intrinsecamente ligado à crise migratória.
Um dos partidos mais ativos na campanha pelo Brexit (e na campanha pela organização do referendo que aprovou o Brexit), o Partido da Independência do Reino Unido tomou a oposição à imigração – especialmente ao sistema de redistribuição de cotas de imigrantes entre membros da União Europeia – como um dos argumentos centrais para a saída do bloco.
O então líder do partido, Nigel Farage, afirmou em 2015 para o Canal 4 britânico que havia uma “quinta-coluna” de muçulmanos fundamentalistas no Reino Unido.
Em contradição com o discurso eurocético, o Reino Unido teve um dos menores gastos relativos com a recepção de refugiados da Europa, chegando a um máximo de 0,04% do produto interno bruto (PIB) britânico no ano fiscal de 2015-2016, o auge da crise migratória.
Conflitos na América Central e o caso dos EUA
Outra grande crise migratória do século XXI ocorreu no outro lado do oceano Atlântico, na América do Norte, quase simultaneamente à crise migratória na Europa, mas por razões diferentes e com consequências outras.
Em 2014, apesar da tendência geral de queda no número de imigrantes apreendidos por patrulhas estadunidenses na fronteira entre os EUA e o México, o número de imigrantes não mexicanos quase dobrou em relação ao ano anterior. A maioria desses imigrantes eram crianças e jovens com menos de 18 anos oriundos do “Triângulo Norte” da América Central: Guatemala, Honduras e El Salvador.
Imigrantes da Guatemala se entregam a um agente da Patrulha de Fronteira após cruzar o muro da fronteira entre os Estados Unidos e o México.
Devido à H.R. 7311 – uma lei de 2008 que buscava combater o tráfico de crianças –, a deportação de menores desacompanhados oriundos de países não fronteiriços com os Estados Unidos era muito restrita.
Rumores disseminados por atravessadores de que essa lei garantiria vistos permanentes no futuro para os jovens (e posteriormente para os pais) levou muitas famílias, temendo pela vida de seus filhos em meio a um crescimento da violência criminal nesses países, a enviar seus filhos separadamente para a fronteira durante o processo migratório.
Outros rumores espalhados pelos contrabandistas incluíam a emissão de vistos automáticos para menores com parentes já residentes nos EUA e para mulheres com crianças. A quantidade enorme de crianças e jovens centro-americanos que chegaram à fronteira em 2014 sobrecarregou centros de recepção, registro e hospedagem, além dos tribunais próprios de casos de imigração.
É evidente que ninguém em sã consciência submeteria a si próprio e sua família a perigos tão grandes nessas jornadas sem a percepção de que havia perigos maiores em seus países de origem.
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Apesar de uma leve tendência de queda, as taxas anuais de homicídios nos países do Triângulo Norte permaneceram entre as maiores do mundo. Em 2014, a atividade de gangues e organizações narcotraficantes na Guatemala, em Honduras e em El Salvador aumentou consideravelmente, levando a um aumento no número de extorsões, sequestros, estupros, roubos e ameaças.
O aumento da violência em El Salvador durante 2014 está associado diretamente ao fim de uma trégua entre os grupos Mara Salvatrucha e La Dieciocho (La 18).
Assim como no caso europeu, a recuperação econômica dos Estados Unidos após a grande recessão também reforçou entre eventuais imigrantes o mito do Sonho Americano, uma visão idealizada daquele país como uma terra de abundância, liberdade e oportunidade, com garantia de emprego, prosperidade e estabilidade sociopolítica.
A resposta imediata do governo Barack Obama (foto) foi requisitar uma alteração do orçamento em execução para possibilitar a abertura de novos centros de recepção e processamento ao longo da fronteira do Texas, aluguel de instalações para hospedagem, realocação de imigrantes para centros em outros estados fronteiriços (como a Califórnia e o Arizona) e contratação de mais profissionais para o atendimento aos imigrantes, incluindo advogados para representá-los perante os tribunais.
O anúncio do Programa de Menores da América Central em novembro de 2014 foi recebido com entusiasmo por apoiadores do governo e com forte resistência dos Republicanos conservadores, que radicalizaram a oposição ao governo Obama por meio da instrumentalização do discurso anti-imigração.
Debates públicos foram instaurados para determinar se esses jovens eram mesmo refugiados, escapando da violência em seus países, ou imigrantes econômicos oportunistas, que tomariam vagas de empregos de estadunidenses quando alcançassem a idade suficiente e que utilizariam seu status de menores protegidos para facilitar a entrada de seus familiares adultos no país.
A questão da imigração era novamente colocada no centro do debate político e partidário nos EUA, com eleitores Democratas reafirmando a longa história da imigração nos Estados Unidos enquanto eleitores Republicanos transformavam-na em causa primária do desemprego e da criminalidade no país.
A radicalização do Partido Republicano na década de 2010 é decorrente de vários fatores, entre eles a absorção pelo partido de movimentos e pautas de extrema direita durante o período.
Movimento Tea Party.
Notadamente, o movimento Tea Party, fundado com o objetivo de reduzir impostos e gastos governamentais e transformado em organização anti-imigração, contou com o apoio de políticos republicanos importantes como o senador texano Ted Cruz e o governador de Indiana Mike Pence.
Um ponto de virada foi o anúncio da campanha presidencial do empresário e apresentador de televisão Donald Trump pelo Partido Republicano em junho de 2015. Em meio à crise migratória e discussões acerca da expansão do Programa de Menores da América Central, Trump apresentou o controle da imigração como tema central de sua campanha, prometendo construir um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México, a ser pago pelo próprio país vizinho.
Manchete na primeira página do Barron´’s sobre a candidatura de Donald Trump para as eleições primárias republicanas.
Inicialmente considerada mera ferramenta publicitária, a campanha de Trump pela candidatura Republicana cresceu consideravelmente durante 2015, movida pela apresentação do empresário como um homem simples, de fala brusca e pouco complicada, além de suas fortes convicções nacionalistas, militaristas e religiosas.
O fantasma de grande recessão, a islamofobia presente desde os ataques de 11 de setembro de 2001 (ataque terrorista às torres gêmeas em Nova York e ao Pentágono) e a oposição às medidas de imigração do governo Obama somaram-se ao marketing político promovido pela empresa Cambridge Analytica para catapultá-lo à liderança das pesquisas e garantir sua confirmação como candidato Republicano nas disputadíssimas eleições de 2016.
Conservadores do movimento de extrema direita, Proud Boys.
À medida que seus discursos atraíam fortes críticas de dentro e fora do partido e seus comícios encontravam manifestantes progressistas pelas cidades estadunidenses, novos grupos políticos de extrema direita, como o Patriot Prayer (Oração Patriota) e os Proud Boys (Meninos Orgulhosos) foram fundados, agindo como intimidadores de críticos e radicalizando cada vez mais a base apoiadora de Trump.
Após uma campanha marcada por controvérsias e disseminação de informações falsas, Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro de 2016 com menos votos do que sua adversária democrataHillary Clinton, mas com uma maioria no Colégio Eleitoral.
Além de extinguir o Programa de Menores, o governo Trump promulgou diversos decretos que:
· aumentaram os requisitos para a obtenção de vistos temporários e permanentes;
· diminuíram as cotas anuais de aprovações de pedidos de asilo;
· dificultaram a obtenção da cidadania estadunidense;
· facilitaram a deportação de imigrantes.
Trump tentou também banir cidadãos de diversos países de maioria muçulmana de entrar no país, mesmo com vistos turísticos, e cortar verbas federais para “cidades-santuário”, municípios que oferecem proteção a imigrantes indocumentados.
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O ápice da política migratória do governo Trump foi a política de separação forçada de crianças imigrantes e suas famílias durante a primeira metade do ano de 2018, com adultos sendo aprisionados e jovens sendo mantidos em centros de recepção na fronteira. Milhares de crianças, a maioria centro-americanas, sofreram com a iniciativa; as condições das instalações eram deploráveis e o governo recebeu milhares de denúncias de maus-tratos e assédio sexual por parte de agentes do Serviço de Imigração dos EUA.
Mesmo após o fim oficial da política de separação de famílias imigrantes, em junho de 2018, centenas de crianças não encontrariam seus responsáveis, e denúncias de novas separações continuaram ocorrendo até o ano seguinte. A presença vocal da nova direita trumpista no cenário político dos EUA é prova viva da continuidade de ideais ultraconservadores e xenófobos após 2014.
A eleição do democrata Joe Biden para a presidência do país em 2020 não pôs fim ao debate sobre imigração nos Estados Unidos. A situação dos imigrantes na fronteira com o México e a islamofobia permanecem problemas sérios na política estadunidense, atraindo atenção internacional. Apenas saberemos se essas ideias serão referendadas ou gradualmente rejeitadas pela maioria da população estadunidense no desenrolar do governo Biden durante os próximos anos.
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
A questão migratória e a maneira como é vista são uma questão política. Seja no processo de crise de onde parte a onda, seja no processo de recepção de onde vem a onda, esse posicionamento é sempre marcante. Assinale a seguir a afirmação que esclarece melhor essa situação:
A
O movimento político é burocrático, pois é necessário para a incorporação de imigrantes documentação e suporte, que são caros aos países que os recebem.
B
O processo político é marcado por uma tendência territorialista × mão de obra, de onde parte não se quer perder mão de obra, aquele que recebe vê a oportunidade de mão de obra mais barata.
C
A tendência política de um país, mais próxima a ideais liberais ou a ideais mais nacionalistas, acaba sendo marcante na maneira como o migrante sai e como ele é recebido.
D
A política interna dos países em que os grupos estão saindo, se em conflito ou em crise econômica, é o ponto central da equação da migração.
E
A atratividade econômica e a busca de países com políticas de aceitação de imigrantes para mão de obra, como os países bálticos, são fundamentais para entender os afluxos.
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Questão 2
A comparação do caso europeu e do estadunidense pode ser evidenciada em qual das afirmativas a seguir?
A
A islamofobia é o elemento mais marcante de ambos os movimentos.
B
As tendências políticas de países europeus e dos Estado Unidos não influenciam na crise migratória.
C
As tensões econômicas, especialmente marcadas por grupos que entendem que a chegada de migrantes gerará a desestabilização das regiões, é uma característica recorrente.
D
O trumpismo se aproxima das tendências políticas de Itália, Hungria e Grécia na recepção de imigrantes, transformando-os em cidadãos de segunda classe.
E
As fronteiras muradas e fortificadas, junto com os campos “de concentração”, foram uma tendência mundial e chocaram o mundo.
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3
Guerras comerciais
Ao final deste módulo, você será capaz de localizar o papel das guerras comerciais no século XXI a partir da análise do papel da China.
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Temos um novo protagonista: China
No vídeo a seguir, nosso especialista, Rodrigo Rainha abordará o crescimento econômico e mercadológico da China:
China e a Organização Mundial do Comércio
A Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995 com o Acordo de Marraquexe, visa à regulamentação das práticas comerciais dos países-membros, além de fornecer subsídios para a negociação, dirimir conflitos e garantir estrutura de diálogo às partes interessadas. Trata-se, em certo sentido, de uma espécie de “tribunal” de caráter diplomático-jurídico que se consolidou no marco dos esforços para estimular o regime multilateral de comércio no pós-Segunda Guerra.
Organização Mundial do Comércio, OMC, em Genebra, Suíça
Ao longo dos anos, a OMC formulou uma série de medidas que visavam a sanar conflitos que, a seu turno, eram tomados como referência para criar jurisprudência e garantir alguma previsibilidade no comércio internacional. Destarte, a quantidade de contendas submetidas à apreciação da OMC no curso do tempo, mais do que indicar seu lugar estratégico para dirimir disputas, mostra o quão conflituosas podem ser as relações multilaterais que, como se deduz sem muito esforço, partem de lugares assimétricos de negociação e expõem as relações de poder que orientam os diálogos entre os países-membros.
Em 1993, o governo recrudesceu o processo de abertura comercial por meio de cortes tarifários e da redução na proporção de importações sujeitas a cotas, sinalizando maior receptividade ao ingresso de produtos estrangeiros no mercado nacional e, por um princípio de reciprocidade, expressando o desejo de ampliar o mercado consumidor global para os produtos chineses.
As negociações foram longas e marcadas por diversas tensões, mas o crescimento comercial da China era fato consolidado: as exportações começaram a circular com maior intensidade, sobretudo favorecidas por acordos bilaterais. Em certo sentido, a maioria já considerava que a acessão chinesa à OMC era um fato incontornável e que sua ausência acabava por enfraquecer a própria organização.
Em 2001, como adiantamos, o processo que se arrastou por mais de quinze anos encontrou algum termo em reunião realizada no Qatar, a conhecida Rodada de Doha. O protocolo de acesso chinês, aprovado nesse encontro, realizado em novembro, foi ratificado pelo Comitê Permanente do Congresso Nacional do Povo da China em dezembro do mesmo ano, formalizando o ingresso na OMC. Todo esse processo se deu a partir de cláusulas e acordos bastante rígidos que visavam a garantir segurança jurídica e proteção aos países-membros.
Nota-se, inclusive, que tais dispositivos que condicionaram a acessão chinesa foram em muitos pontos mais rígidos do que aqueles aplicados a outros países (PRAZERES, 2005, p. 38). Parte das exigências que recaíram de modo particular sobre a China visavam a coibir o ingresso de produtos chineses nos mercados nacionais, evitando fragilizar as indústrias domésticas que poderiam enfrentar dificuldades em concorrer com produtos similares a preços bem mais baixos.
Contudo, e a despeito das preocupações, houve “uma aceleração na taxa de crescimento econômico da China após 2001, com o boom nas exportações e com fluxos contínuos de investimento estrangeiro direto” (JENKINS, 2019, p. 15). Os sucessivos e grandes superavit permitiram que a economia chinesa acumulasse reservas cambiais ao mesmo tempo que o setor privado se tornou mais lucrativo e produtivo, fenômeno igualmente observado nas empresas estatais. O século XXI começou com a hegemonia estadunidense no comércio global terrivelmente ameaçada.
Ao longo das últimas décadas, muitos discursos que tentavam justificar o crescimento chinês foram levantados. Um deles, bastante presente em alguns setores sociais norte-americanos, sugeria que esse processo tinha se dadoà custa da desatenção e letargia dos EUA.
Essa narrativa é recuperada, por exemplo, por Niall Ferguson, historiador escocês e pesquisador de Harvard, que em encontro realizado no Canadá em junho de 2011 considerou que:
O principal motivo para a vantagem da China no século XXI reside, em última instância, no declínio do mundo ocidental (...). O século XXI será da China pelo declínio de uma América obesa, dependente de dinheiro emprestado e por demais sexualizada, sem falar da deficiência da Europa.
(FERGUSON et al., 2012, p. 19)
Os autores citam, cumpre destacar, as crises financeiras de 2008 e o desajuste fiscal das contas estadunidenses, mas, para além desses fatos materiais e das supostas implicações morais, sobrepesa a noção de que o gigante asiático se ergueu não por suas capacidades políticas, mas pela falta de zelo dos estadunidenses em relação a seu lugar na economia global.
Poderíamos recordar também que, por muito tempo, investiu-se na narrativa de que o crescimento chinês se deu à custa da hiperexploração de sua mão de obra, produzindo assim artigos manufaturados em condições de trabalho hostis e impraticáveis, ressoando uma narrativa anticomunista que contrastava a alegada liberdade do trabalhador ocidental com a submissão e tirania a que estavam expostos os trabalhadores asiáticos.
Os números, contudo, desafiam esse discurso. Entre as reformas de Xiaoping e o ano de 2012, a renda da população chinesa saiu de um patamar baixo para uma média alta segundo as diretrizes de análise propostas pelo Banco Mundial. A população que vive abaixo da linha de pobreza saiu de 88% em 1981 para 6,5% em 2012, o que significa, em números totais, que mais de 500 milhões de chineses sentiram os efeitos práticos do crescimento econômico.
Não menos importante, esse cenário também é tributário das altas taxas de investimento público praticadas pelo país, que atingiram 40% do produto interno bruto (PIB) na década de 2000.
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Comentário
Ainda que diversos países asiáticos, incluindo a China, tenham abrigado empresas offshore que buscavam reduzir os custos com mão de obra e encargos trabalhistas, esse cenário não apenas passou por mudanças significativas, mas se viu diante de uma curiosa inversão: enquanto a Europa e os Estados Unidos conviviam com o aumento da informalidade, os trabalhadores e trabalhadoras chinesas viram sua renda média aumentar pari passu aos direitos e garantias fundamentais.
Nenhum fenômeno social, sobretudo com essa complexidade, pode ser compreendido a partir de explicações monocausais; no outro extremo, os analistas também precisam reconhecer as dificuldades de identificar todas as variáveis envolvidas nesse processo.
No entanto, um aspecto que merece destaque e que se desdobra com enorme importância é o investimento para a expansão das empresas chinesas para o exterior.
Sobretudo a partir do Banco de Desenvolvimento da China e do Exim Bank, houve um aporte expressivo de recursos que permitiam que companhias chinesas se movimentassem para além das fronteiras nacionais, principalmente no continente africano, mas também na América Latina e no Caribe.
China trabalha para fortalecer o eixo sul do comércio mundial.
As relações diplomáticas, políticas e comerciais entre a China e essas regiões são bem mais antigas, como se deduz, mas ganharam novas roupagens no início deste século. O governo e o empresariado chineses identificaram o potencial de crescimento econômico desses territórios e reconheceram que poderiam desempenhar papel ativo nesse processo.
Ao longo dos anos, a China foi se consolidando como o mais importante parceiro comercial de boa parte dos países latinos e africanos, além de negociar cláusulas de cooperação internacional que visavam não apenas a assegurar mercados consumidores para os produtos chineses, mas também a garantir obras de infraestrutura e transferência de tecnologia para essas regiões, tendo, como principal contrapartida, a garantia de acesso às matérias-primas necessárias para abastecer suas indústrias com preço e quantidade adequadas para a enorme demanda.
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Comentário
Essas iniciativas consolidam uma dinâmica comercial que se concentra no eixo sul-sul e que produziu enorme impacto na economia, o que por razões óbvias acendeu o alerta do norte global, sobretudo Estados Unidos e Europa, que viviam e vivem períodos bem menos prósperos do que a China.
Cumpre ainda recordar, com Hurrell (2006) e McGrew (2011), que, apesar de todas as mudanças no mundo pós-Segunda Guerra, as principais instituições de governança global tendem a refletir uma ordem mundial concentrada nas expectativas de valores e representações ocidentais, o que promove uma disjunção entre a distribuição real do poder econômico e sua efetiva presença nesses espaços regulatórios.
Recorde-se, igualmente, que a China precisou se adequar às diretrizes da OMC para garantir sua entrada, o que não significa que, uma vez assegurada a acessão, essas mesmas diretrizes não se tornaram objeto de disputa e preocupação.
De um lado, há uma potência asiática que caminha a passos largos em direção à hegemonia no marco do comércio internacional a partir dos esforços de cooperação sul-sul.
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Do outro, potências do norte global, com taxas de crescimento bem inferiores a seu concorrente asiático, buscam manter a posição de destaque e assegurar os privilégios econômicos adquiridos nas últimas décadas.
Guerras comerciais entre EUA e China
As relações comerciais são, por excelência, competitivas e conflitivas. A OMC é, como vimos, uma instituição de governança global que busca normatizar algumas práticas segundo princípios que intentam disciplinar as relações multilaterais.
No entanto, ainda que os fundamentos liberais possam ser eventualmente acolhidos sem maiores interditos pelos países-membros, é certo que nem todos abraçam essas e outras diretrizes sem contestação, sobretudo porque esses valores, como vimos, são tributários de relações de poder que enfatizam uma visão fortemente ocidentalizada.
Soma-se a isso o fato de que, por força das mesmas relações de poder, o aceite às regras do jogo não se confunde com a efetiva assunção de seus méritos:
Em cenários competitivos, mesmo os defensores da lógica liberalizante podem ser contrariados se os resultados não corresponderem às expectativas previstas pelas próprias regras que se esforçaram para definir.
As relações comerciais entre Estados Unidos e China não se tornaram conflituosas a partir de 2001. Em 1974, por exemplo, os estadunidenses aprovaram a emenda Jackson-Vanik, uma lei comercial que impunha uma série de restrições, suscetíveis a revisões anuais, ao antigo bloco soviético e demais países que não praticavam uma economia de mercado segundo as expectativas dos Estados Unidos, como a China.
China e EUA: relações comerciais marcadas por conlitos.
A própria acessão chinesa à OMC foi duramente criticada (e combatida) pelos estadunidenses ao longo dos anos, pelo menos até o governo Bill Clinton, quando a recusa se tornou impraticável e as expectativas que se abriam com o amplo mercado consumidor chinês aos produtos estadunidenses e europeus pareciam mais atraentes do que a desconfiança tradicional. Para a China, a acessão foi decisiva. O comércio de mercadorias passou de US$ 516 bilhões em 2001 para US$ 4,1 trilhões em 2017.
A contrapartida esperada, contudo, frustrou os principais representantes do norte global: ainda que as tarifas aduaneiras chinesas tenham passado por uma queda evidente, saindo de uma média de 32,2% em 1992 para 4,8% entre 2003 e 2017, os ganhos financeiros dos países da União Europeia e dos Estados Unidos ficaram aquém do esperado.
Clientes fazem fila fora do banco Northern Rock para retirar suas economias em função da crise do subprime
Além disso, em 24 de julho de 2007, o índice Dow Jones sofreu forte queda e teve início a chamada crise do subprime, que afetou duramente a economia estadunidense, ainda que seus efeitos tenham sido globais.
O alerta dos economistas já tinha sido dado havia algum tempo. Em abrilde 2007, a New Century Financial Corporation, o segundo maior credor de hipotecas do tipo subprime dos Estados Unidos, decretou falência. A expectativa era que a oferta de crédito estimulasse a produção industrial e o setor de serviços, aquecendo a economia.
A realidade, porém, mostrou-se bem mais hostil: o endividamento não apenas afetou o mercado de crédito, mas sobretudo o consumo no mercado interno. Os mercados mundiais acompanharam o impacto sofrido pela economia a estadunidense: no Brasil, por exemplo, o índice B3 (Bovespa) registrou queda de 3,86% naquele mesmo dia 24 de julho, a maior em cinco meses.
Apesar de inúmeras intervenções do Federal Reserve (FED), o Banco Central dos Estados Unidos, a crise se agravou ao longo de 2008.
Vamos entender a ordem dos fatos:
Em Wall Street parecia tudo normal, mas dentro dos escritórios essa normalidade era de uma enorme tensão. Em março daquele ano, o quinto maior banco de investimentos estadunidense, o Bear Stearns, estava muito próximo da falência. Contrariando as disposições liberais, o FED ofereceu uma linha de crédito de US$ 30 bilhões ao JP Morgan Chase para a aquisição do Bear Stearns.
Distrito financeiro de Wall Street
Em julho, duas instituições privadas que administravam mais de US$ 5 trilhões em ativos receberam aporte do Estado de aproximadamente 200 bilhões de dólares. Como a resposta não foi a aguardada, as duas empresas foram, na prática, estatizadas. São elas:
Fannie Mae, com sede em Washington DC.
Freddie Mac, com sede em McLean, Virgínia.
Também em setembro, o quarto maior banco de investimentos, o Lehman Brothers, anunciou prejuízos bilionários e entrou com pedido de falência. As medidas intervencionistas, que contrariavam frontalmente o ideário liberal, persistiram.
O Tesouro americano se apressou em socorrer o mercado financeiro e destinou US$ 700 bilhões para a compra de ativos imobiliários dos bancos visando à recuperação do mercado de crédito.
Apesar dos efeitos positivos dessas intervenções a médio prazo, que interessavam ao mercado, o efeito ao longo desses anos foi de cerca de 8 milhões de estadunidenses perderem seus empregos e suas casas.
Dez anos após a crise, consolidava-se o cenário de desvantagem da economia estadunidense em relação à chinesa. Em 2017, o deficit na balança comercial de bens foi na ordem de US$ 861 bilhões, e o deficit bilateral com a China representou algo próximo a 42% do total, atingindo a marca de US$ 363 bilhões. Mais do que isso, nenhum diagnóstico minimamente sério era capaz de prever a contenção do avanço chinês e a correspondente perda de protagonismo norte-americano no cenário global.
A eleição de Donald Trump em 2016 não pode ser dissociada dessa crise.
Lema patiotista “America First, noticiado no grande jornal internacional de jornalismo, Financial Times.
O lema que o político conservador empunhou durante seu governo, “America First”, designa uma visão tradicional a respeito da política externa estadunidense, marcada pelo patriotismo, nacionalismo econômico, unilateralismo e pela rejeição de propostas internacionalistas.
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Saiba mais
Esse slogan foi associado a outro, “Make America Great Again”, igualmente sugestivo diante de tal cenário.
O principal alvo da política de Trump, que de alguma forma inaugurou a recente guerra comercial com a China, foram as regras tarifárias.
As tarifas e impostos são mecanismos fundamentais para os países regularem o comércio exterior. Tarifas mais baixas tendem a estimular o ingresso de produtos estrangeiros, que podem chegar ao consumidor final com preços bem atrativos.
Para que tais produtos não concorram diretamente com os equivalentes das indústrias domésticas, aumentam-se os impostos de importação. Vale reforçar que esse foi, historicamente, o principal ponto crítico que postergou o acesso da China à OMC.
É bem verdade que muitos alertavam também para os riscos de dumping, prática que ocorre quando uma empresa reduz artificialmente os preços de seus produtos para afetar a concorrência. No entanto, o ponto nevrálgico de todo o debate que mencionamos anteriormente foram as regras tarifárias chinesas.
Os bilhões que o Estado investiu para conter a crise do subprime, vale insistir, ajudaram a superar questões como:
Os graves desequilíbrios macroeconômicos
A perda de competitividade
O desemprego
No entanto, e a despeito da recuperação, a posição dos Estados Unidos seguiu desvantajosa em relação à China, e Trump não se furtou de revisar as políticas liberais que o país defendia historicamente para o comércio multilateral.
As primeiras medidas unilaterais foram precedidas por um período de profundo tensionamento político.
O procurador-geral dos EUA, Matthew Whitaker, acusou a companhia Huawei de cometer fraudes.
Recorde-se, por exemplo, as especulações francamente alardeadas de que o governo chinês se utilizava de telefones para espionagem. O Departamento de Justiça acusou a companhia Huawei Device Co Ltd de cometer fraudes eletrônicas que, na prática, não foram comprovadas.
Não menos importante, Trump associou à China a responsabilidade pelo supracitado deficit de US$ 800 bilhões. Expressou sua indignação contra as alegadas “práticas desleais” dos chineses, acusando-os igualmente de:
· Guerra cambial (desvalorizar a moeda para favorecer as exportações);
· Dumping;
· Reduzir salários para diminuir os gastos com mão de obra;
· Oferecer juros subsidiados para desenvolvimento do parque industrial;
· Incentivos gerais para exportações, empreender restrições aduaneiras e muitos outros fatores.
Tudo isso precedeu a assinatura de um regulamento, no dia 8 de março de 2018. O documento impunha um adicional de 25% ad valorem do imposto sobre as importações de aço e de 10% sobre alumínio a todos os países. Nesse caso particular, o argumento era de ordem estratégica e de segurança nacional, já que os preços desses produtos impactariam diretamente na indústria militar. Essa decisão repercutiu globalmente.
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Exemplo
As siderúrgicas brasileiras acumularam perdas de US$ 1,91 bilhão em valor de mercado após a queda de suas ações na bolsa de valores.
Um mês depois, em abril, Trump apresentou uma lista de produtos oriundos da China que seriam sobretaxados em valores que, somados, atingiam a marca dos US$ 50 bilhões. A China prontamente reagiu à decisão e notificou a OMC, também sobretaxando produtos dos Estados Unidos, com destaque para a tarifa de 25% sobre a soja exportada por seu concorrente.
Segundo Joshua Brustein:
Ainda que tais medidas tenham colaborado para a diminuição do deficit estadunidense, a China garantiu superavit expressivos graças aos investimentos em tecnologia e inovação científica, o que ampliou a exportação de produtos com alto valor agregado e garantiu maior competitividade nos circuitos globais de bens, serviços e capitais.
(BRUSTEIN, 2019, p. 38-42)
Em dezembro de 2019, os dois gigantes do comércio internacional anunciaram um acordo que arrefeceria essas tensões comerciais antes que entrassem em vigor novos acordos tarifários de significativa repercussão na economia global. Novos acordos bilaterais foram firmados, compromissos de diminuição de impostos aduaneiros foram definidos. As tensões permanecem, mas há sinalizações de ambas as partes de seguir trabalhando em conjunto para reduzir os entraves e conflitos.
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Os Mercados irregulares: as drogas e contrabando no mercado mundial
Neste vídeo, Rodrigo Rainha fará uma contextualização histórica do tráfico internacional de drogas:
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
O caso chinês é emblemático pois representa na guerra comercial no século XXI:
I. Mudança do eixo norte-sul, abrindo possibilidades sul-sul.
II. O desenvolvimento chinês é fruto do comunismo estrutural, e disputa mercado artificialmente, por isso está fora da OMC.
III. A China e os Estados Unidos são dois players econômicos fundamentais no século XXI, mas negociam entre eles e disputam mercados.
Estão corretas:
A
Somente I
B
Somente II
C
II

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