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Apostila TEMA 4 - Hist RI-II

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DESCRIÇÃO
Estudos sobre os significados de terrorismo e suas distintas facetas e abordagens.
PROPÓSITO
Compreender o terrorismo como um fenômeno sociopolítico e internacional é basilar para profissionais que lidam com relações de poder no mundo contemporâneo.
PREPARAÇÃO
Antes de iniciar este conteúdo, tenha em mãos reportagens veiculadas nos principais meios de comunicação sobre ocorrências de atos terroristas em várias partes do mundo. É uma busca simples, mas a cada ponto de leitura, tente classificar e entender o evento que você escolheu.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer terrorismo e suas diversas manifestações
MÓDULO 2
Identificar o terrorismo separatista, segundo a análise de estudos de caso (Rússia, Irlanda e Espanha)
MÓDULO 3
Distinguir a lógica adotada no terrorismo fundamentalista religioso daquela aplicada em contextos anteriores
MÓDULO 4
Reconhecer as controvérsias surgidas a partir da utilização do conceito de terrorismo de Estado
MÓDULO 1
Reconhecer terrorismo e suas diversas manifestações
INTRODUÇÃO
EM UMA GALÁXIA MUITO DISTANTE?
Como em grandes sagas, guerras de grandes proporções atingem várias sociedades e moldam vidas de milhares de pessoas. Vamos assistir a uma breve contextualização feita pelo professor Rodrigo Rainha.
O tema terrorismo pode parecer distante para quem vive no Brasil e relacionado a vivências de outros povos. A realidade, no entanto, é que esse assunto faz parte do nosso dia a dia mais do que consideramos.
1
QUEM NÃO SE RECORDA DOS GRANDES EVENTOS INTERNACIONAIS QUE O BRASIL SEDIOU RECENTEMENTE?
2
QUEM NÃO PAROU PARA ASSISTIR O LAMENTÁVEL 7 A 1 DA COPA DO MUNDO DE 2014?
3
QUEM NÃO COMEMOROU AS MEDALHAS DE OURO CONSEGUIDAS NAS OLIMPÍADAS DE 2016?
Imagens: Shutterstock.com; Stefano Buttafoco / Shutterstock.com. Adaptadas por Roberta Meireles.
Consegue perceber a conexão? A partir do momento em que o país reuniu pessoas do mundo inteiro em eventos que celebram a união dos povos, entramos no “radar” de potenciais terroristas.
Imagem: Shutterstock.com.
REFLITA SOBRE A PALAVRA TERRORISMO: VOCÊ SABE A ORIGEM?
Ela é derivada de um verbo em latim (terrere) – assim como várias palavras da língua portuguesa – e significa assustar, causar medo. Esse é o grande objetivo do terrorismo: apavorar, desestabilizar e, acredite, mais do que causar um enorme número de vítimas, é provocar o medo e apreensão de que isso ocorra.
Imagine viver assustado, na expectativa de que algo ruim possa acontecer no caminho de casa, na ida ao trabalho ou ainda, assistindo a uma partida de futebol? Milhares de pessoas ao redor do mundo vivem sob essa expectativa; as autoridades brasileiras nos anos de 2014 e 2016 viveram essa pressão.
Naquela época, para enfrentar esse inimigo ardiloso e surpreendente, foi modificada a norma sobre o assunto, no Brasil. Segundo a Lei n 13.260/2016, o terrorismo foi definido como:
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
ART. 2º O TERRORISMO CONSISTE NA PRÁTICA POR UM OU MAIS INDIVÍDUOS DOS ATOS PREVISTOS NESTE ARTIGO, POR RAZÕES DE XENOFOBIA, DISCRIMINAÇÃO OU PRECONCEITO DE RAÇA, COR, ETNIA E RELIGIÃO, QUANDO COMETIDOS COM A FINALIDADE DE PROVOCAR TERROR SOCIAL OU GENERALIZADO, EXPONDO A PERIGO PESSOA, PATRIMÔNIO, A PAZ PÚBLICA OU A INCOLUMIDADE PÚBLICA.
(LEI Nº 13.260/2016)
Com base nesse artigo, a Polícia Federal iniciou a operação #hashtag que levou à prisão oito jovens envolvidos em troca de mensagens de incitação ao ódio e de ameaças ao evento de 2016. Recentemente, outro caso chamou a atenção da mídia – o atentado à sede do canal humorístico “Porta dos fundos” por causa de um especial natalino, considerado por muitos como desrespeitoso.
Uma bomba foi arremessada, provocando danos materiais e lesão ao vigilante que se encontrava de serviço. O acusado desse ato esteve foragido no exterior e, ao ser extraditado, responde pelo crime de terrorismo. Como se pode perceber, o terrorismo não está tão longe de casa.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
PROBLEMAS DE DEFINIÇÃO
A boa comunicação é o veículo primordial para conhecimento, compreensão e resolução de conflitos. Todos já observamos, no âmbito privado ou coletivo, o quanto palavras mal-empregadas podem transformar uma conversa casual em uma ofensa grave.
Imagem: Shutterstock.com.
O ATO DE COMUNICAR POSSIBILITOU UM GRANDE AVANÇO PARA HUMANIDADE, MAS TAMBÉM INVIABILIZOU A MANUTENÇÃO DA HARMONIA.
Você deve estar se questionando por que refletir sobre esse tópico é tão necessário para a compreensão do nosso tema de estudo. A resposta é bem simples: como entender e, por conseguinte, confrontar um fenômeno se não existe consenso sobre ele, se a comunicação sobre o fato gera mal-entendido? Organismos internacionais, agências de investigação e países ainda não chegaram a uma definição sobre o que é ou não terrorismo. O que pode ser tipificado assim no Reino Unido, não necessariamente é considerado uma violação no Quênia, no Sri Lanka, ou no Brasil.
A falta de comunicação impede que ações conjuntas sejam elaboradas e haja uma união sobre esse evento que atinge em maior ou menor proporção o mundo todo. Como destaca Bruce (2013, p. 26), a ausência de um consenso sobre o conceito de terrorismo faz com que pesquisas aleatórias realizadas em sites conhecidos possam nos levar à desinformação e ao estabelecimento de estereótipos apropriados e deturpados por facções de distintas matizes políticas e ideológicas.
Um grupo, por exemplo, que reivindique a soberania em determinado território pode ser rotulado como legítimo ou terrorista por governos de esquerda ou direita, dependendo dos interesses envolvidos na questão.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Observe, por exemplo, o caso do Estado Islâmico – aprofundaremos esse tópico adiante. A principal base do grupo era na Síria e sua ameaça uniu Estados Unidos e Rússia, embora os primeiros fossem contrários ao ditador Bashar al-Assad (representado na imagem anterior), governante do território ameaçado, e a Rússia, defensora do regime.
Esse é outro aspecto curioso sobre os estudos do terrorismo:
Imagem: Shutterstock.com.
DE VEZ EM QUANDO, FORMAM-SE ALIANÇAS IMPROVÁVEIS DE PAÍSES COM VIESES POLÍTICOS E IDEOLÓGICOS MUITO DISTINTOS NO COMBATE A CERTOS GRUPOS AMEAÇADORES.
Outra importante questão que devemos considerar refere-se à natureza do evento terrorismo. Quem se ocupa de estudar esse tema? Que ciência possui o cabedal adequado para analisar os fatos relacionados ao terror? Ao contrário da primeira resposta, essa é bem complexa. Não existe uma área de estudo que consiga, individualmente, compreender todas as dimensões das ocorrências de terror.
Por essa razão, podemos citar História, Sociologia, Psicologia, Psiquiatria, Comunicação Social, Ciências Políticas e Relações Internacionais como alguns dos saberes que contribuem enormemente para esse estudo. Até a Arte, aparentemente tão distante porque nos remete à ideia do belo, da contemplação, pode se dedicar à estética da morte, da morte como espetáculo.
Chegamos, então, a algumas perguntas:
1
POR QUE ESSA INDEFINIÇÃO PERSISTE, POR QUE É TÃO DIFÍCIL PARA OS DIVERSOS ATORES SE COMUNICAR E CHEGAR A UM CONSENSO SOBRE O QUE É TERRORISMO?
2
A QUEM INTERESSA?
3
A QUE NÃO INTERESSA DE FORMA ALGUMA ESSA IMPRECISÃO?
A indefinição está diretamente ligada a quem analisa a questão, ou seja, agências coibidoras, países, organizações de defesa. Deixar vago o que é terrorismo ou quem é terrorista permite que entidades utilizem esse espaço para perseguir e estigmatizar possíveis adversários. Nesse sentido, alguns governos ficam bem felizes em rotular seus inimigos como terroristas, visto que não existem parâmetros mundiais a seguir.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Em contrapartida, se não há uma definição segura do que é terrorismo, muitos indivíduos envolvidos em atividades possivelmente relacionadas ao ato podem ser mais facilmente defendidos diante das lacunas nas leis. Essa é mais uma peculiaridade do fenômeno: tanto governos quanto os própriosterroristas podem se beneficiar da mesma imprecisão. Nessa confusão, um ponto é pacífico, quem não tem qualquer interesse nesse imbróglio são as vítimas, os civis que podem ser diretamente impactados por ações extremistas.
O QUE É O TERRORISMO?
Já sabemos que não existe uma definição padrão sobre o que é o terrorismo; por isso, muitas descrições podem ser encontradas (alguns pontos se aproximam e outros divergem totalmente).
Conhecemos, entretanto, o contexto em que o termo terrorismo foi usado pela primeira vez de forma mais ampla – na Revolução Francesa, quando aqueles que utilizavam a violência em nome do Estado eram classificados como terroristas. O momento entre 1792 e 1795 foi denominado como Período do Terror, com centenas de opositores e, por vezes, aliados críticos ao governo conduzidos à guilhotina.
COMENTÁRIO
Não confunda a origem da palavra “terrorismo”, do latim como estudamos, com a origem do conceito. A origem etimológica refere-se a como, ao longo do tempo, a palavra se transformou, de que idioma ela foi gerada; a origem do conceito tem relação com seu significado, a maneira como a palavra foi empregada em determinado período:
Origem da palavra
=
De onde vem
Origem do conceito
=
Significado, como foi utilizada
Diante da diversidade de possibilidade, vamos destacar alguns conceitos de fontes relevantes:
WALTER LAQUEUR
Walter usa uma definição simples e ampla: "o terrorismo é o uso ilegítimo da força para alcançar um objetivo político visando pessoas inocentes" (LAQUEUR apud BRUCE, 2006, p. 26).
TORE BJORGO
Bjorgo afirma que "o terrorismo é um conjunto de métodos de combate, em vez de uma ideologia ou movimento identificável, e envolve o uso premeditado da violência contra (principalmente) não combatentes, a fim de alcançar um efeito psicológico do medo em outros que o alvos imediatos" (BJORGO apud BRUCE, 2006, p. 26).
Fernando Reinares (REINARES apud BRUCE, 2006, p.27) distingue três traços que definem o terrorismo para fins de estudo acadêmico:
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Mas, se pesquisarmos mais, encontraremos centenas de conceitos distintos, e seus traços mais comuns são:
1
PRIMEIRO TRAÇO MAIS COMUM
O fenômeno do terrorismo tem muitos elementos diferentes, é instrumento ou tática de certos grupos para atingir objetivos predeterminados.
2
SEGUNDO TRAÇO MAIS COMUM
Demonstrações de violência extrema são parte da técnica para atingir seus objetivos, contudo, não são o objetivo em si. Eles não objetivam matar, mas matar pode ser um meio para obter o que desejam.
3
TERCEIRO TRAÇO MAIS COMUM
Causar medo é uma das táticas mais importantes para obtenção de resultado. Atenção: causar medo não é sinônimo de causar mortes.
4
QUARTO TRAÇO MAIS COMUM
Os alvos dos ataques terroristas não são necessariamente aqueles que pretendem atingir. Exemplo: ao promover um ataque a uma casa noturna, os alvos não são os frequentadores, mas as autoridades daquele país que não souberam proteger seus cidadãos.
5
QUINTO TRAÇO MAIS COMUM
Os atos terroristas são muito simbólicos, ou seja, trabalham com a ideia de representação. Ao atacar o jornal Charlie Hebdo, que fez charges contra o Profeta Maomé, estão confrontando o que entendem por heresia, desrespeito, xenofobia, não necessariamente a empresa.
Imagens: Shutterstock.com; Frederic Legrand - COMEO / Shutterstock.com; Erica Simone / Shutterstock.com. Adaptadas por Roberta Meireles.
RECONHECENDO O TERROR
O professor Rodrigo Rainha e a professora Fernanda Mattos conversam sobre o que representa o diálogo entre o Terror e a Cultura.
OS TERRORISTAS SE CONSIDERAM TERRORISTAS?
Certamente não. Aqueles que são rotulados pelo senso comum como terroristas se denominam libertadores, guerrilheiros, salvadores da pátria, idealistas, guerreiros de Deus, revolucionários, rebeldes, contestadores, lutadores da liberdade e quantos mais sinônimos você conseguir buscar. É uma questão de perspectiva, afinal, as críticas ao movimento advêm de quem o combate; quem faz parte dele considera (pelo menos por princípio) sua causa justa e correta. Não faria sentido que eles se rotulassem com um termo indefinido.
Imagem: Shutterstock.com.
EXISTE RELAÇÃO ENTRE A POBREZA E A BAIXA ESCOLARIDADE E MAIS OU MENOS ENGAJAMENTO NAS CAUSAS DE NATUREZA TERRORISTA?
O desenvolvimento de um país está intimamente relacionado ao investimento massivo em educação e cultura. Sociedades em que os desníveis sociais são menos acentuados tendem a apresentar índices de violência pouco expressivos em relação àquelas cujo abismo social é mais nítido. São estes os questionamentos que merecem nossa atenção:
1
ESSA LÓGICA, NO ENTANTO, PODE SER APLICADA AOS ESTUDOS SOBRE TERRORISMO?
2
POBREZA E BAIXA ESCOLARIDADE CONDUZEM OS INDIVÍDUOS AO ENGAJAMENTO NAS CAUSAS TERRORISTAS?
3
O MENOR ACESSO À CULTURA E CONHECIMENTO FACILITAM A COOPTAÇÃO DE POSSÍVEIS AGENTES DO TERROR?
Segundo Krueger (2002, p.3), “qualquer conexão entre pobreza, educação e terrorismo é indireta, complicada e provavelmente bastante superficial”. Além disso, é frágil é perigosa. É frágil, visto que várias nações conhecidas pela extrema pobreza de sua população não são elencadas entre as maiores vítimas ou “exportadores” de agentes de terrorismo. Perigosa porque estigmatiza a pobreza como se ela fosse a principal responsável por instintos e ações extremas, o que poderia, inclusive, contribuir para o aumento de xenofobia em relação aos cidadãos das nações mais vulneráveis.
Essas ações podem justificar intervenções que interferem na soberania dos países, sob a alegação de que estariam evitando o perigo do terror; podem, também, provocar o desinteresse de organismos internacionais em políticas de desenvolvimento voltadas para esses territórios. A ajuda humanitária perderia o sentido e cumpriria apenas a função de evitar problema. É como se um indivíduo oferecesse dinheiro para não ser assaltado.
RESUMO
O terrorismo é um fenômeno internacional; não existe país, religião, filiação política, classe econômica que escape da possibilidade da tessitura de uma célula fundamentalista no seu seio.
ONDAS DO TERRORISMO
O terrorismo é um fenômeno atemporal e, por conta disso, vive atualizando suas motivações, estratégias e atores. Para tentar explicar essas alterações, o estudioso David Rapoport (2002) identificou as chamadas ondas de terrorismo. Em cada uma – para ele existiriam quatro –, alguns elementos peculiares as caracterizariam. Vamos conhecer um pouco de cada uma dessas fases?
Imagem: Shutterstock.com.
PRIMEIRA ONDA
A chamada primeira onda, ou onda anarquista, ocorreu entre o final do século XIX e início do XX. Alguns nomes conhecidos de teóricos do anarquismo, como os russos Bakunin e Kropotkin, formularam teses sobre a utilização do terror como forma de estabelecer reivindicações políticas.
Para a divulgação de suas ideias, os adeptos da primeira onda utilizavam os meios de comunicação da época, ou seja, o telégrafo, a imprensa e a distribuição de panfletos. Como estratégia de luta, escolhiam alvos proeminentes e promoviam atentados. Algumas vítimas dessas ações foram: Elizabeth, imperatriz da Áustria, e o presidente estadunidense, McKinley.
Imagens: Shutterstock.com; Leon Czolgosz / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptadas por Roberta Meireles.
SEGUNDA ONDA
O movimento da segunda onda é caracterizado pela luta anticolonial. O início coincidiu com as últimas ações da primeira fase e seus objetivos giravam em torno da ideia de liberdade e independência de territórios ocupados, em especial, pelas nações europeias no período do Imperialismo.
As técnicas de confronto eram perturbadoras para seus “antigos proprietários”, pois a guerrilha contava com forte apoio popular. É importante recordar que esses grupos tinham como bandeira a autonomia de suas terras, ou seja, em sua concepção, eles é que estavam combatendo terroristas, no caso, as metrópoles que os exploravam. Podemos citar dois exemplos de manifestação do terror deste período: o ataque em Israel ao Hotel Rei Davi e o assassinato do arquiduque da Áustria, FedericoFerdinando.
Imagens: Autor desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público; Trampus / Wikimedia commons / Domínio público; Ferdinand Schmutzer / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptadas por Roberta Meireles.
TERCEIRA ONDA
Essa fase foi denominada como a onda da nova esquerda, ou seja, grupos cuja orientação ideológica eram as ideias socialistas. Após o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo tornou-se bipolarizado:
Imagem: Shutterstock.com. Adaptada por Roberta Meireles.
De um lado as nações capitalistas, aliadas dos Estados Unidos.
close
Imagem: Shutterstock.com. Adaptada por Roberta Meireles.
Do outro, a União Soviética e seus seguidores.
Muitos desses movimentos da terceira onda foram inspirados e patrocinados pelos soviéticos, com a intenção de ampliar o seu rol de aliados em todo o mundo.
Temos ainda, nesse segmento, alguns grupos remanescentes da segunda onda, ou seja, nacionalistas que pretendiam atingir a autonomia dos seus territórios, como, por exemplo, a OLP (Organização dos Estados Palestinos) e que não necessariamente compartilhavam das ideias socialistas, mas aproveitavam do patrocínio em sua luta.
As técnicas de combate, além da já citada guerrilha, incluíam sequestros de pessoas proeminentes da sociedade, ou até mesmo de aviões, ações com reféns e troca de prisioneiros. Essa mudança de estratégia revela uma nova maneira de negociação cujo objetivo não era a morte do alvo do ataque, mas sua utilização como moeda de troca. Fazer uma vítima fatal seria contraproducente. Exemplos: Nelson Mandela (na África do Sul), Hotel Brinks (no Vietnam) e lutas por independência (Congo, Moçambique e Angola).
Imagens: SL-Photography / Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptadas por Roberta Meireles.
QUARTA ONDA
A quarta onda também será mais aprofundada a posteriori. Em linhas gerais, identificamos essa fase como uma guinada em relação às ideias que alimentam os movimentos – nesse período, a base eram os fundamentos religiosos, que explicariam e justificariam as ações dos grupos.
O senso comum atribui o terrorismo aos grupos islâmicos e muitas ações usam tais ideias como substrato; contudo, existem diversos grupos filiados a outras religiões e que promovem ações igualmente violentas. Alguns exemplos são os grupos terroristas judeus, sikhs, cristãos e até pequenas seitas como o grupo Aum Shinrikyo, promotor de um atentando no metrô de Tóquio utilizando o gás sarin.
A quarta onda também desenvolveu novas táticas: o atentado suicida – a utilização de lobos solitários ganhou força e, infelizmente, êxito.
Imagens: Shutterstock.com; yoshi0511 / Shutterstock.com; United States Public Health Service / Wikimedia Commons / Domínio público. Adaptadas por Roberta Meireles.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. NESTE MÓDULO, APRESENTAMOS UMA DEFINIÇÃO PRECISA SOBRE O FENÔMENO TERRORISMO. DESCOBRIMOS, NO ENTANTO, QUE EXISTEM DIFICULDADES CONCRETAS PARA REALIZAR ESSA FORMULAÇÃO CONCEITUAL E ELENCAMOS A SEGUIR ALGUNS DOS PROBLEMAS QUE ENFRENTAMOS PARA CHEGAR A UM BOM TERMO. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE NÃO CORRESPONDE A ALGUMA DESSAS DIFICULDADES:
O fato de o fenômeno do terrorismo ser estudado por distintas ciências impede que haja um acordo entre os vários estudiosos.
A falta de articulação entre as diversas agências de segurança e países envolvidos nas ações contraterroristas.
O interesse de determinados países na indefinição do tema com o propósito de utilizar esse elemento contra os adversários políticos.
A sistemática mudança do fenômeno terrorista que está sempre se atualizando e alterando suas formas de atuação e estratégias.
A disseminação de informações equivocadas através da internet, o que impede que a população tenha acesso ao que de fato caracteriza o fenômeno.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. COMPREENDEMOS QUE O FENÔMENO DO TERRORISMO NÃO FOI UNIFORME AO LONGO DA HISTÓRIA, OU SEJA, ELE APRESENTOU MUDANÇAS DE ESTRATÉGIA E OBJETIVOS. REFLETINDO SOBRE AS TRANSFORMAÇÕES OCORRIDAS ENTRE A SEGUNDA E TERCEIRA ONDAS É POSSÍVEL AFIRMAR QUE:
A segunda onda é tipicamente separatista, ou seja, busca autonomia de determinados territórios em relação aos seus antigos dominadores, característica não identificada na terceira onda.
O contexto que marca a emergência da terceira onda é o do mundo bipolarizado, ou seja, é possível identificar a ingerência direta dos Estados Unidos e da União Soviética incentivando ações em determinadas partes do mundo.
A terceira onda inova em termos de tática de combate empregando técnicas sem uso de violência e mais sustentada pelo diálogo e negociação entre as partes envolvidas em questões discordantes.
A segunda onda é aquela que inaugura a utilização sistemática dos atentados, empregando homens-bomba e lobos solitários, ou seja, o terror pode emergir a cada esquina sem ameaças prévias.
A passagem para a terceira onda marca a crescente influência do fundamentalismo religioso nas iniciativas e reivindicações dos grupos terroristas, o que determina, inclusive, as táticas de combate.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Neste módulo, apresentamos uma definição precisa sobre o fenômeno terrorismo. Descobrimos, no entanto, que existem dificuldades concretas para realizar essa formulação conceitual e elencamos a seguir alguns dos problemas que enfrentamos para chegar a um bom termo. Assinale a alternativa que não corresponde a alguma dessas dificuldades:
A alternativa "A " está correta.
O fato de o fenômeno do terrorismo ser estudado por distintas ciências não atrapalha de forma alguma a definição do fenômeno, ao contrário, é uma necessidade, visto que lidamos com eventos multifatoriais.
2. Compreendemos que o fenômeno do terrorismo não foi uniforme ao longo da história, ou seja, ele apresentou mudanças de estratégia e objetivos. Refletindo sobre as transformações ocorridas entre a segunda e terceira ondas é possível afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
A passagem da segunda para a terceira onda não invalida a continuidade de lutas com perspectiva separatista; contudo, o que melhor caracteriza essa alteração é o mundo bipolarizado após a Segunda Guerra Mundial.
MÓDULO 2
Identificar o terrorismo separatista, segundo a análise de estudos de caso (Rússia, Irlanda e Espanha)
TERRORISMO SEPARATISTA
O terrorismo atual está cada vez mais presente nas relações internacionais, por conta, entre outros, das facilidades de obtenção de armamentos, mobilidade internacional de recursos, facilidade de comunicação e da crescente insatisfação de populações com seus governos ou com as políticas de outros países que afetam diretamente seu cotidiano (HOBSBAWM, 2007).
As mudanças e características existiram durante a Guerra Fria, mas permaneceram presentes na dinâmica internacional. Uma das mudanças significativas nesse sentido foi o processo de amadurecimento e transformação da dinâmica do Terrorismo. Por isso, iniciamos nosso olhar pelos movimentos que emergem nessa transição: o terrorismo separatista (COLOMBO, 2016, P. 50).
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Segundo Souza Júnior (2015), o desenvolvimento de uma definição de terrorismo requer a identificação e a resolução de um número distinto de dilemas, que seriam, analisando o caso Kennedy:
O PROPÓSITO TERRORISTA
O terrorismo é restrito à busca de certos objetivos, por exemplo, objetivos políticos? Se sim, qualquer objetivo político é suficiente para chegar a um objetivo terrorista? Existem objetivos não políticos suficientes para um propósito terrorista? Poderia haver atos terroristas que não tenham qualquer objetivo em particular?
Foto: Teresa Otto / Shutterstock.com.O caso Kennedy é considerado um clássico de terrorismo.
A AÇÃO TERRORISTA
Que tipo de ato conta como atos de terrorismo? Devem ser incluídos apenas atos que causem mortes ou sérios danos físicos, ou deve-se incluir danos à propriedade ou as ameaças de fazer qualquer um desses atos?
Foto: Walt Cisco, Dallas Morning News / Wikimedia Commons/ Domínio público.John Kennedy e Jacqueline momentos antes da tragédia que culminou na morte do ex-presidente dos Estados Unidos.
O ALVO TERRORISTA
Qualquer um pode ser alvo da ação de terrorismo? Os atos terroristas são restritos aos ataques a não combatentes? Se sim, o que pode ser definido como “combatentes”? Ou os combatentes podem ser alvos de terrorismo em conflitos armados?
Foto: Shutterstock.com.O local do assassinato possui uma demarcação que indica o local em que Kennedy foi baleado.
O MÉTODO TERRORISTA
Os atos terroristas precisam se relacionar com a busca da finalidade terrorista de forma particular? O terror é central para o terrorismo, ou pode ocorrer um ato que nem aterrorize, nem intimide as pessoas, ser um ato de terrorismo?
Foto: Autor desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público.A arma utilizada pelo suposto atirador.
O TERRORISTA
Qualquer um pode cometer um ato de terrorismo? Os terroristas sempre agem em grupos ou atos individuais podem ser considerados também? Pode um Estado ou seus representantes cometerem atos de terrorismo?
(FRIZZERA; SOUZA JÚNIOR, 2015, p. 116)
Foto: Dallas Police, Warren Commission - Heritage Auction Gallery / Wikimedia Commons / Domínio público.Lee Harvey Oswald, suposto atirador.
Como observamos, houve uma significativa mudança na passagem da primeira para a segunda onda terrorista, seguindo os conceitos de Rapoport (2002). Os combatentes dessa fase justificam a luta sob a bandeira da libertação dos seus territórios contra a opressão daqueles que os dominam. São grupos que se identificam como nação por questões de costumes, língua, religião em comum, contra um oponente que “sufocou” essas características ao incorporar suas terras.
RESUMO
Ou seja, eles querem sua autonomia e, por isso, foram denominados de separatistas. Os países que dominam esses combatentes consideram ter pleno direito de manter a propriedade de suas terras, e qualquer ato de oposição, sobretudo aqueles que causam vítimas, passam a ser rotulados como terrorismo. Esse é um claro exemplo do que aprendemos na parte dos conceitos, ou seja, Estados que são confrontados observam os questionadores como terroristas; os questionadores se identificam como libertadores.
SEPARATISMO IRLANDÊS – IRA
Citando Hans-Peter Gasser:
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
O DIREITO INTERNACIONAL REGE O COMPORTAMENTO DAS PESSOAS QUE ATUAM EM NOME DE UMA PARTE EM UM CONFLITO ARMADO INTERNACIONAL, OU SEJA, DE UM ESTADO. LEGALMENTE, AS ENTIDADES QUE NÃO SE ENCAIXAM NESTE PERFIL NÃO PODERIAM FAZER PARTE DE CONFLITOS, COM EXCEÇÃO DOS MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL SE CUMPRIREM AS CONDIÇÕES ESTIPULADAS NO PROTOCOLO ADICIONAL I DE 1977 DAS CONVENÇÕES DE GENEBRA DE 1949. TODAVIA, DELIMITAÇÃO ENTRE A VIDA DENTRO E FORA DE UMA COMUNIDADE POLÍTICA É CONFRONTADA AO SE TRATAR DO TERRORISMO INTERNACIONAL.
(GASSER, 2002, p. 94)
O fenômeno em forma de redes transnacionais utiliza a mobilidade para arrecadar fundos e recrutar membros, que permitem a manutenção de suas atividades. O poderio inglês e a tradição de domínio não permitiriam o reconhecimento de uma ruptura inglesa tão próxima de sua raiz histórica.
Para compreender melhor o que foi a luta do exército republicano irlandês, o IRA, precisamos realizar um grande recuo histórico:
Imagem: Shutterstock.com, adaptada por Roberta Meireles.
1
A região da Irlanda, durante a Antiguidade, permaneceu autônoma e politeísta até o processo de cristianização promovido no século IV.
O destaque à conversão é essencial visto que grande parte do alinhamento assumido pelo IRA passava pela identidade religiosa católica.
2
3
Quando houve a consolidação do Império Britânico e o estabelecimento do domínio sobre a Irlanda, que marca toda a Era Moderna, em toda a Irlanda o ideal independentismo coexistia com essas movimentações.
Quando a Irlanda finalmente conseguiu o retorno de sua independência, a manutenção de parte da ilha como parte do Império Britânico foi considerada uma violência.
4
5
Os levantes da Páscoa de 1916 (Easter Rising), quando os radicais nacionalistas irlandeses se colocaram contra os ingleses durante a Primeira Guerra Mundial, tinham sido uma possibilidade de separação, cuidadosamente esmagada posteriormente.
CUIDADOSAMENTE ESMAGADA POSTERIORMENTE
Já, então, era clara a impossibilidade de vencer o poderoso exército britânico, mas existia a ideia de despertar a população para a necessidade do sacrifício em nome de um bem maior e, não à toa, o sentimento cristão romano foi amplamente explorado nesse sentido.
Imagem: Shutterstock.com.
EM UM PRIMEIRO MOMENTO, AS AÇÕES NÃO ESTAVAM CONCENTRADAS NO EXÉRCITO REPUBLICANO IRLANDÊS (IRA), AINDA PARA NASCER, MAS EM UMA SÉRIE DE GRUPOS QUE LUTAVAM E NÃO ACEITAVAM O DOMÍNIO. COM UMA SOCIEDADE PROFUNDAMENTE DIVIDIDA EM CONFRONTOS POLÍTICOS E RELIGIOSOS, O ARGUMENTO ERA QUE O GOVERNO INGLÊS ERA O IRREPARÁVEL INIMIGO.
Nesse sentido, o IRA adotou modelos militares de treinamento e um protocolo ultranacionalista, com inspirações socialistas, de modo marcante. Em muitos períodos, atuou junto com o exército de liberação nacional irlandês, que obteve o êxito. O ideal de uma Irlanda única novamente era a marca de diferenciação em relação a outros movimentos.
Depois de ações políticas diversas, houve uma escalada de tensão, com as disputas em Belfast e Derry. As forças do IRA enfrentaram seus próprios confrades, defendendo os bairros católicos das formas legalistas. O IRA em sua forma de guerra por desgaste nasceu em 1969, após esses eventos relatados.
O envio de cinco mil soldados ingleses a fim de manter a Irlanda do Norte como um território inglês acionou anos de movimentação terrorista. O IRA entendia que a política legalista e as forças do exército britânico cometeram todo tipo de terrorismo e o combate a eles não deveria medir esforços.
Imagem: Hely's Limited / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptada por Roberta Meireles.Tentativa de implementar um espírito anticomunista em campanha política (“Não queremos vermelho aqui! Mantenha suas cores longe da nossa bandeira! Vote por Cumann Na N Gaedheal”).
Imagens: Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre. Adaptadas por Roberta Meireles.Frame de um vídeo de propaganda da IRA.
Em 30 de janeiro de 1972, um grupo de soldados ingleses tentou dissipar uma manifestação em Derry, e abriu fogo contra as pessoas. Esse dia ficou conhecido como Domingo Sangrento e iniciou a fase crítica do conflito.
RESUMO
Somente em 2001, depois de muitas negociações e mudanças do espaço e da forma política, observarmos uma transição: o IRA não deixa de existir, mas assume formas políticas e não reduz sua pressão, só que, em vez de bombas, o modelo passa a ser o de votos.
SEPARATISMO BASCO – ETA
Os processos separatistas, ainda que possuam datas relativamente recentes, precisam ser observados a partir de um momento mais remoto. Tal qual fizemos com a análise sobre o IRA, para compreender a origem do grupo basco, devemos conhecer o processo de formação da França e Espanha modernas.
No século XII, o que atualmente compreendemos como território espanhol e uma parte pequena do solo francês estava subdividido em três reinos: Navarra, Aragão e Castela.
Imagem: Té y kriptonita / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0. Adaptada por Roberta Meireles.
Por volta de 1461, com a fusão dos dois últimos, o território de Navarra foi consideravelmente reduzido e se movimentou entre a realeza espanhola e francesa, resguardando, no entanto, relativa autonomia administrativa, idiomática e de costumes.
O reino de Navarra abrigava um grupo étnico linguístico, os bascos, que a despeito das múltiplas influências assegurou essa identidade. A situação se manteve relativamente controlada até o século XX, com a emergência da ditadura franquista, a proibição e perseguição de qualquer manifestação regional, e o impedimento da utilização do euskara (idioma basco).
Com a crescente repressão, um grupo de estudantes insatisfeitos, inspirado pelos movimentos anticolonialistas que eclodiramnas décadas de 1950 e 1960, criou um grupo, cuja proposição inicial era a preservação da cultura local.
Esse grupo, após dissensões e a conquista de novos adeptos, mudou a diretriz de suas ações e passou a atuar como grupo paramilitar visando a preservar a memória da região e a criação de um Estado próprio.
Imagens: Shutterstock.com; nitpicker/ Shutterstock.com; Tpwissaa / Wikimedia commons / CC BY-SA 4.0. Adaptadas por Roberta Meireles.
Surgia, em 1959, o ETA (Pátria Basca e Liberdade). Embora não fosse o único grupo com essa aspiração, ganhou mais relevância pela adoção de métodos de guerrilha que, inspirados na ideologia marxista-leninista, causaram espanto e comoção mundiais.
COMENTÁRIO
Esse grupo é identificado como pertencente à segunda onda do terrorismo(Luta anticolonial), definida anteriormente; alguns pesquisadores associam esse grupo à terceira onda(Ideais socialistas), por causa da influência de movimentos socialistas.
Imagem: Baldeadly / Wikimedia commons / CC BY-SA 3.0. Adaptada por Roberta Meireles.Grafite em apoio ao ETA em Durango, Espanha.
Parte da população, sentindo-se representada em seus anseios, concordava com as ações do ETA, sobretudo no momento mais severo da ditadura do general Francisco Franco. Os alvos das primeiras investidas do grupo eram militares e demais agentes das forças repressivas franquistas, o que, de certa forma, provocava simpatia em vítimas dos desmandos do Estado.
O ETA começou a perder força e apoio a partir de 1978, quando foi restabelecida a monarquia na Espanha, com a adoção do regime parlamentar e a promulgação de uma constituição que assegurava autonomia à região do País Basco. Para uma significativa parcela das pessoas, esse era um avanço monumental, mas não para os membros mais fundamentalistas do ETA.
RESUMO
Na concepção deles, o grupo só deveria ser desmobilizado a partir de uma total independência da região e formação de um Estado nacional. Em razão disso, os atentados, sobretudo aqueles utilizando carros-bomba em lugares de grande circulação, continuaram. A desmobilização de fato só foi anunciada em 2006, quando o grupo abdicou das ações terroristas e concedeu um cessar fogo permanente. Dez anos mais tarde, assumindo publicamente os excessos de suas ações, o grupo foi dissolvido, solicitando antes o perdão daqueles que sofreram com suas atividades.
O CASO ESPANHOL – UMA LONGA HISTÓRIA
Veremos, junto a nossa especialista, sobre a origem do movimento separatista basco e os atentados cometidos pelo grupo ETA.
O SEPARATISMO DA CHECHÊNIA
Localizada em um território denominado Cáucaso, a Chechênia foi alvo de cobiça ao longo dos séculos em virtude de sua posição geográfica estratégica. Situada próxima a importantes rotas de comércio, foi disputada por persas, otomanos, mongóis e russos. Conseguiu manter-se autônoma por vários períodos; entretanto, após a Primeira Guerra Mundial, foi incorporada à recém-criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Imagem: Shutterstock.com. Adaptada por Roberta Meireles.
Essa anexação nunca foi pacífica, o que ocasionou ações de grande violência e desconfiança mútua entre as autoridades chechenas e as lideranças soviéticas, ao longo de décadas. Um dos episódios mais emblemáticos foi a diáspora de quase meio milhão de chechenos em 1943, sob o argumento de que eles teriam colaborado com os exércitos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Como podemos observar, a tensão era uma constante nas relações russo-chechenas.
Em 1991, com o colapso da URSS, que não conseguiu manter a coesão de seu território, a busca pela autonomia do país mais uma vez tomou forma, agora sob a liderança de Djokhar Dudaiev, que declarou a separação do país com o estabelecimento de uma república sem ingerência externa. A reação dos russos (representados pelo então governador da Rússia, Vladimir Putin – retratado na colagem a seguir) foi severa, o que provocou uma série de conflitos chamados de Guerras da Chechênia.
Imagem: Dmitry Borko / Wikimedia commons / CC BY-SA 4.0.Djokhar Dudaiev.
Imagens: Shutterstock.com; Frederic Legrand - COMEO / Shutterstock.com. Adaptadas por Roberta Meireles.
Esse caso não apresenta muitas distinções em relação aos separatismos irlandês e basco em sua essência – um território sempre resistente ao domínio externo e que jamais desistiu de buscar sua libertação.
O que torna o caso checheno tão especial?
Um elemento que será mais bem retratado no módulo seguinte: o componente do fundamentalismo religioso.
Imagens: Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre. Adaptadas por Roberta Meireles.Frame de um vídeo veiculado da Segunda Guerra da Chechênia.
A região da Chechênia, como outras pertencentes à extinta União Soviética, possui a maioria da população como seguidora do islamismo de vertente sunita. Em virtude disso, seu movimento separatista, que era ancestral e essencialmente étnico, foi ganhando propriedade e incorporando as formas de luta adotadas pelos grupos extremistas islâmicos.
A atuação do governo russo pouco ajudou no apaziguamento dos ânimos e denúncias de violações de direitos elementares dos separatistas, atos de tortura, estupros, massacres de civis eram recorrentes. Essa combinação de intolerância de parte a parte teve um resultado catastrófico, visto que vários atentados eclodiram em resposta à insistência da ingerência russa.
Dois deles ganharam atenção mundial:
Imagem: Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre.
A invasão de um teatro em Moscou, resultando na morte de aproximadamente cem reféns.
Imagem: Leon / Wikimedia commons / CC BY-SA 3.0.
O incidente na Escola de Beslan, em que os terroristas mantiveram centenas de crianças, professores e funcionários retidos e, por fim, mataram pelo menos 300 pessoas.
COMENTÁRIO
Para tornar ainda mais complexa a situação, rumores de ligação dos grupos terroristas separatistas com organizações como a Al-Qaeda, e supostos patrocínios de países como a Arábia Saudita e os Estados Unidos à causa libertária alimentam as tensões ainda latentes naquela porção do Cáucaso. Continuaremos esse assunto no próximo módulo!
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. COMPREENDEMOS NESTE MÓDULO AS MUDANÇAS ASSUMIDAS PELOS MOVIMENTOS TERRORISTAS PERCEBENDO QUE, EM ALGUNS CASOS, ESSAS AÇÕES TINHAM UMA AGENDA QUE O MUNDO ATÉ ENTÃO NÃO CONHECIA E IDENTIFICAVA. NO CASO DA IRLANDA DO NORTE, TERRITÓRIO QUE VIVENCIOU POR VÁRIAS DÉCADAS UMA ESCALADA DE VIOLÊNCIA MANIFESTADA AINDA POR UMA DIVERGÊNCIA DE NATUREZA RELIGIOSA, É POSSÍVEL CONSIDERAR QUE:
Os grupos protestantes defendiam a continuidade da Irlanda como integrante do Reino Unido, mas, em contrapartida, o grupo católico advogava a reunificação com a República da Irlanda.
O IRA (Exército Republicano Irlandês), como grupo de caráter terrorista protestante, iniciou uma série de ataques contra alvos católicos com objetivo de atingir a ingerência britânica na região.
A assinatura do Acordo de Belfast, em vez de minimizar os conflitos, incentivou ainda mais os grupos terroristas em suas ações visto que suas cláusulas eram abusivas e intransigentes.
Na região da Irlanda do Norte, palco da maioria dos eventos de natureza terrorista, havia uma significativa hegemonia numérica de habitantes católicos o que inviabilizava qualquer atuação dos protestantes.
O IRA, grupo de inspiração católica, pode ser designado como adepto da quarta onda de terrorismo em que o fundamentalismo religioso fornece o sustentáculo ideológico para as reivindicações feitas.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. COMPREENDEMOS QUE OS MOVIMENTOS SEPARATISTAS, HABITUALMENTE, SÃO ROTULADOS DE TERRORISTAS PELOS ESTADOS CONSTITUÍDOS. DESSA FORMA, É POSSÍVEL ASSOCIAR A FORTE REAÇÃO DO GOVERNO ESPANHOL A UMA RECENTE MANIFESTAÇÃO NA REGIÃO DA CATALUNHA, ADVOGANDO MAIS AUTONOMIA PARA AQUELA ÁREA. ESSAS MANIFESTAÇÕES, ANALISADAS A PARTIR DO EXEMPLO DO ETA E DA REGIÃO BASCA, SÃO CONSIDERADAS PREJUDICIAIS AO GOVERNO PORQUE:
Criam caos e temor, prejudicando a economia do país.
Causam muitas vítimasentre civis e militares.
Incentivam a formação de novos grupos de natureza terrorista.
Estimulam o tráfico de armas e demais atividades ilícitas.
Permitem um crescente apoio interno e externo aos anseios autonomistas.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Compreendemos neste módulo as mudanças assumidas pelos movimentos terroristas percebendo que, em alguns casos, essas ações tinham uma agenda que o mundo até então não conhecia e identificava. No caso da Irlanda do Norte, território que vivenciou por várias décadas uma escalada de violência manifestada ainda por uma divergência de natureza religiosa, é possível considerar que:
A alternativa "A " está correta.
O caso da Irlanda do Norte demonstra a pluralidade de influências possíveis para o fenômeno do terrorismo. As posições assumidas em relação à Grã-Bretanha e ao domínio inglês detinham, entre outros aspectos, uma posição baseada na religião e nas relações de poder.
2. Compreendemos que os movimentos separatistas, habitualmente, são rotulados de terroristas pelos Estados constituídos. Dessa forma, é possível associar a forte reação do governo espanhol a uma recente manifestação na região da Catalunha, advogando mais autonomia para aquela área. Essas manifestações, analisadas a partir do exemplo do ETA e da região basca, são consideradas prejudiciais ao governo porque:
A alternativa "E " está correta.
A alcunha de "terrorismo" empregada aos diferentes movimentos tem, em muitos aspectos, uma dimensão discursiva de acusação ou apoio a determinada configuração política. O caso do ETA aponta essa dimensão e evidencia as articulações externas à recepção do termo "terrorismo". Causando um efeito inverso, a taxação acaba por evidenciar um efeito carismático da causa.
MÓDULO 3
Distinguir a lógica adotada no terrorismo fundamentalista religioso daquela aplicada em contextos anteriores
DE AL-QAEDA AO ESTADO ISLÂMICO
Certamente você já deve ter ouvido sobre Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Centenas de reportagens, vídeos, filmes e séries foram criados a partir das ações perpetradas pelos dois grupos. No entanto, devemos sair da superfície das informações e aprofundar nosso domínio acerca dos eventos que permitiram o aparecimento e a difusão das ideias dessas associações.
A bandeira da Al-Qaeda e mulçumano em oração na mesquita. Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Já compreendemos que, segundo os mais proeminentes estudiosos do assunto, grupos cuja inspiração e motivação derivam da religião, fazem parte da intitulada quarta onda do terror ou onda religiosa. No entanto, embora o islamismo seja recorrentemente associado ao terrorismo nessa fase, a religião não prega, em absoluto, práticas de violência como princípio de fé. O islamismo não é uma religião de brutalidade e atos extremos; aqueles que cometem essas ações são veementemente criticados e condenados pelos líderes religiosos sérios.
Outra noção essencial é a de que os atos terroristas associados à fé não são exclusivamente praticados em nome do Islã. Outros credos, como citamos anteriormente, também justificam seu extremismo por seguir essa ou outra crença.
Vamos citar alguns exemplos a partir de manchetes de jornal. Leia cada uma delas com atenção:
1
“TERRORISMO DE EXTREMISTAS JUDEUS VIRA PROBLEMA PARA GOVERNO DE ISRAEL”
– Folha de São Paulo, 4 ago. 2015.
2
“TERIA O GOVERNO DE TRUMP RESSUSCITADO UM EXÉRCITO RELIGIOSO DE EXTREMISTAS ANTIABORTO?”
– Open Democracy, 5 fev. 2018.
3
“QUEM É O MONGE CONHECIDO COMO
BIN LADEN BUDISTA?”
– BBC Internacional, 10 jun. 2019.
Você pode perceber que temos judeus, cristãos, budistas citados acima. Se pesquisássemos ainda mais, descobriríamos outras em filiações religiosas, grupos que divergem e reinterpretam os preceitos religiosos de acordo com suas agendas particulares. Matar em nome de uma religião é uma das grandes contradições humanas.
Voltando ao terrorismo islâmico, o ano para o início aproximado da quarta onda do terror foi 1979, mais especificamente o episódio conhecido como Revolução Islâmica. Esse fato histórico foi considerado um marco, visto que destituiu um governo monárquico, apoiado pelo Ocidente, em especial pelos Estados Unidos, e instituiu a República Islâmica do Irã.
Foto: Marion S. Trikosko / Wikimedia commons / Domínio público.Em protesto de 1979, nos Estados Unidos, manifestante segura a placa com os dizeres “Deportem todos os iranianos. Saiam já do meu país”.
COMENTÁRIO
Qual a relação de uma disputa interna de poder com o terrorismo religioso nascente? Um dos desdobramentos dessa virada política foi a chamada Crise da Embaixada, quando estudantes iranianos inflamados contra a política intervencionista estadunidense, o Grande Satã (شيطان بزرگ), invadiram a embaixada do país em Teerã e mantiveram 52 pessoas como reféns por 444 dias. Visto que uma embaixada é considerada extensão do território do país que a abriga, o ato foi considerado um ataque terrorista aos EUA e inaugurou eventos semelhantes, com a justificativa de uma luta religiosa.
AL-QAEDA
Provavelmente, ao ler a palavra Al-Qaeda, sua memória estabelecerá duas conexões imediatas:
Foto: Anthony Correia / Shutterstock.com.
Atentados de 11 de setembro de 2001
Foto: thomas koch / Shutterstock.com.
Osama bin Laden
Imagem: Shutterstock.com.
SÃO RELAÇÕES CORRETAS, MAS MOSTRAM APENAS UM FRAGMENTO DO QUE ESSA REDE TERRORISTA REPRESENTOU.
Esse grupo não surgiu apenas em 2001, e os mortos por suas ações não estão apenas nos Estados Unidos, apesar de não termos ouvido falar sobre eles antes desses eventos. As maiores vítimas dos atos terroristas não estão nos chamados países de primeiro mundo. Se contabilizarmos corretamente, o terrorismo faz mais mortos nos países africanos e asiáticos.
Ataques recentes atribuídos à Al-Qaeda. Imagem: Shutterstock.com, adaptada por Roberta Meireles. Baseada em: St.Krekeler / Wikimedia commons / CC BY-SA 2.0.
1
EUA – Nova York (World Trade Center)
2
EUA – Washington (Pentágono)
3
EUA – Pensilvânia (Shanksville)
4
Inglaterra – Londres
5
França – Paris
6
Espanha – Madri
7
Marrocos – Casablanca
8
Tunísia – Djerba
9
Turquia – Istambul
10
Egito – Sinai
11
Iraque – Musayyib
12
Arábia Saudita – Yanbu
13
Iêmen – Áden
14
Quênia – Nairóbi
15
Tanzânia – Dar es Salã
16
Afeganistão
17
Paquistão – Charsadda
18
Indonésia – Jacarta
19
Indonésia – Bali
A Al-Qaeda surgiu no interior de outra facção que, inicialmente, não era considerada terrorista pelas nações europeias e pelos Estados Unidos: o Talibã, um grupo formado pelos mujahidin (مجاهدين), guerreiros, aqueles que levam a Jihad (جهاد), cujo conceito é muito mal interpretado, visto que significa luta, combate, e é observado em um sentido muito amplo pelos fiéis do Islã – não necessariamente com a conotação de aniquilação do inimigo ou daquele que não segue a sua fé.
O aparecimento do Talibã está relacionado à ocupação soviética dos territórios do Afeganistão, entre 1979 e 1989. O mundo ainda vivia sob a lógica da Guerra Fria, ou seja, aqueles que combatiam a URSS, eventualmente, recebiam apoio dos Estados Unidos e de aliados e vice-versa.
Pelo vizinho Paquistão, chegavam armas, suprimentos, apoio logístico para que os soviéticos fossem derrotados e vivessem ali – o mesmo ocorreu com os Estados Unidos, no Vietnã, anos antes. Depois de muita insistência e grandes derrotas, os soviéticos assinaram um acordo de retirada e as várias milícias afegãs, dentre elas o Talibã, lutaram para assumir a liderança do país.
Vitorioso, sob a liderança de Mohammed Omar e com discurso de acabar com as guerras internas, desarmamento de bandos e aplicação da Sharia (Lei Islâmica), o grupo foi conquistando mais territórios no Afeganistão. Seguia a vertente sunita do islamismo, com uma radicalização dos costumes (supressão dos direitos das mulheres, código de vestimentas para os dois gêneros, aplicação de penas de morte e mutilações públicas, além da destruição de patrimônio cultural que, segundo eles, eram representações de apostasia).
Imagens: Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre.Adaptadas por Roberta Meireles.Frame de um vídeo veiculado pela BBC Newsnight de Omar, apresentando a capa do profeta Maomé.
Os sunitas teriam surgido logo após a morte do profeta Maomé. Divergindo sobre quem o substituiria, dois grandes grupos se formaram:
SUNITAS
Que acreditavam ser legítimo a qualquer homem, desde que seguidor fervoroso do Islã, substituir o profeta.
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XIITAS
Que compreendiam que a sucessão deveria respeitar os critérios dos laços sanguíneos.
O sunismo seguido pelo Talibã era considerado extremista, com uma interpretação muito severa e, por que não dizer, equivocada do Corão e da Hádice (prescrições, jurisprudências do mundo islâmico).
Por isso, várias atrocidades foram provocadas, sobretudo, contra outros grupos religiosos ou minorias étnicas afegãs. Todas essas ações causaram comoção internacional e provocaram a intervenção estadunidense no país.
Imagem: Shutterstock.com; Al-Andalus / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptada por Roberta Meireles.Página do Corão do Alandalus (século XII).
Você deve estar pensando:
Os Estados Unidos ajudaram a armar seus futuros inimigos? Eles colaboraram para a expulsão dos soviéticos e depois intervieram na região?
A reposta para as duas perguntas é sim.
E qual a relação do Talibã com a Al-Qaeda? No contexto de luta contra os soviéticos, vários combatentes árabes migraram para região, em auxílio aos afegãos. Inspirados pelos mesmos ideais, lutavam lado a lado com eles, inclusive oferecendo recursos financeiros. Um dos grandes patronos que fazia parte desse grupo de lutadores estrangeiros era o bilionário saudita, Osama bin Laden. Sua facção, como outras milícias da região, foi armada e treinada pela CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos).
Podemos compreender, então, que o território afegão foi um campo de treino para as futuras operações dos seguidores da Al-Qaeda. Nesse tempo, eles não se intitulavam dessa maneira: o grupo de Bin Laden era conhecido como MAK (Maktab al-Khidamat) e se associou aos Estados Unidos contra os soviéticos.
Apesar das relações superficialmente amistosas dos anos 1980, a rota de colisão com os Estados Unidos teve início com a Guerra do Iraque. O ditador iraquiano, Saddam Hussein, invadira o vizinho Kuwait e, sentindo-se ameaçado por uma possível expansão em direção à Arábia Saudita, o monarca da dinastia Saud solicitou auxílio.
Foi formada uma coalizão de países liderados pelos EUA o que desagradou fortemente Osama bin Laden. Ele havia proposto ajuda ao monarca saudita e sua recusa fez com que a Al-Qaeda, inicialmente favorável à retaliação contra Saddam Hussein, se manifestasse contrária à intervenção do Ocidente, em especial dos norte-americanos, vistos por ela, segundo suas reformulações de objetivo, como inimigo, face à sua aliança com os judeus.
Imagem: Shutterstock.com.
A AL-QAEDA CONSIDERAVA COMO SEUS ADVERSÁRIOS OS JUDEUS, MUÇULMANOS XIITAS, A FAMÍLIA SAUD (MONARCAS DA ARÁBIA SAUDITA), O “OCIDENTE EM GERAL” E, EM ESPECIAL, OS ESTADOS UNIDOS.
A Al-Qaeda, oficialmente fundada em 1988, inovou bastante no que diz respeito às práticas terroristas. Além de promover atos que causaram forte impacto midiático, pela escolha dos alvos e quantidade de vítimas, foram muito ativos nas redes de comunicação, inaugurando uma tendência: a cooptação e divulgação dos seus feitos para o mundo inteiro. O terrorismo ampliou seu raio de alcance a níveis impensáveis.
A partir da reformulação de rota, surgiram várias incursões do grupo em distintas partes do mundo – interferência no Sudão, Iêmen, Egito e até na Bósnia. Além dos vários atentados promovidos pelo grupo, com destaque para os já citados eventos em território norte-americano em 2001, constam o ataque a diversas embaixadas estadunidenses pelo mundo (Nairóbi, Tanzânia), ataques aos metrôs de Madri e Londres e outros tantos conforme visualizamos no mapa do início do módulo.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.Representação das Torres Gêmeas.
Um dado chama a atenção, no caso dos atentados em solo estadunidense: na época, apesar de aprovar publicamente as ações, Osama afirmou que não tinha a ver com os eventos, lançando especulações de que teriam sido obra interna, de grupos inseridos no governo dos EUA.
Por causa desses eventos, Osama bin Laden tornou-se um dos dez mais procurados pelo FBI no mundo, o que desencadeou uma caçada mundial e o lançamento, sob o governo de George W. Bush, da Cruzada contra o Terror ou a Guerra ao Terror, o que motivou a invasão ao governo Talibã, antigo aliado, sob o pretexto de que ele acolhia terroristas.
Após uma década de perseguições, Osama bin Laden foi declarado morto em 2011, após a inteligência estadunidense descobrir seu paradeiro no Paquistão. A despeito de sua morte, a Al-Qaeda advoga a continuidade de sua organização até os dias atuais.
Foto: timsimages.uk / Shutterstock.com.
FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E O IDEAL DA “BELA” MORTE
Agora, falaremos sobre da relação entre o fanatismo religioso e os atentados terroristas, citando a Al Qaeda e o Estado Islâmico.
ESTADO ISLÂMICO
O surgimento do Estado Islâmico também possui íntima relação com as intervenções estadunidenses na região do Oriente Médio, especificamente, no Iraque. Após a invasão das forças de coalisão e deposição de Saddam Hussein, grupos antes interessados nessa mudança política, passaram a disputar a liderança na região e rechaçar a atuação ocidental.
Um desses grupos começou de forma modesta, em 2003, sob a proteção da Al-Qaeda, dada à proximidade de seus ideais e fundamentos: ambos eram sunitas de inspiração salafista wabbista, ou seja, seguiam uma interpretação mais rigorosa do islamismo e condenavam outros muçulmanos que, segundo eles, teriam se desviado da verdadeira fé. Esse grupo, inicialmente chamado de Estado Islâmico do Iraque e do Levante(ISIS), passou a ser mundialmente conhecido apenas como Estado Islâmico(EI) (e para os detratores como Daesh).
Imagem: Shutterstock.com. Adaptada por Roberta Meireles.Saddam Hussein.
DAESH
Utilizado de forma pejorativa, Daesh é uma sigla em árabe formada a partir das letras iniciais do nome anterior do grupo. Embora não signifique nada como uma palavra, a sigla soa semelhante a um verbo árabe que significa pisar ou esmagar algo.
Na fase inicial, havia grande proximidade com Al-Qaeda, mas o líder do EI, Abu Musab al-Zarqawi, em 2004, rompeu com Osama bin Laden e seus seguidores avançaram em um caminho autônomo. O projeto inicial de expulsar as forças ocidentais da região do Iraque foi ampliado com o propósito de estabelecer um califado de grande extensão territorial e exercer autoridade sobre todos os muçulmanos do mundo.
Imagens: Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre. Adaptadas por Roberta Meireles.Abu Musab al-Zarqawi.
Imagem: Shutterstock.com.
PARA TANTO, O ROL DE INIMIGOS DO GRUPO ERA EXTENSO E INCLUÍA DESDE CRISTÃOS, JUDEUS, ZOROASTRISTAS ATÉ MUÇULMANOS XIITAS E DEMAIS MINORIAS RELIGIOSAS. BEM SIMILAR À AL-QAEDA.
Para atingir seu objetivo, o grupo não se furtou em promover atentados de natureza extremamente violenta com ações contra alvos civis, autoridades iraquianas, soldados das forças de coalizão e mesquitas xiitas; além disso, disseminou a prática do martírio suicida, ou seja, indivíduos se dispunham a morrer (e matar) explodindo seus corpos em nome da causa.
Com a morte do líder al-Zarqawi, assumiu o poder Abu Bakr al-Baghdadi, intensificando as ações ao interferir na vizinha Síria (que já vivia uma guerra civil contestando a autoridade do ditador local, Bashar al-Assad). Vários territórios da Síria caíram nas mãos do Estado Islâmico, que impôs sua autoridade com bastante violência e crueldade. Em 2014, houve a proclamação da criação do Califado Islâmico, englobando áreas de Iraque e Síria e ameaçando a fronteira com a Turquia, em seu projeto expansionista.
Imagens: Shutterstock.com; Autor desconhecido / Wikimedia commons / Uso livre; U.S Army / Wikimedia commons / Domínio público. Adaptadaspor Roberta Meireles.Abu Bakr al-Baghdadi.
Para os estudiosos do assunto, o Estado Islâmico é um caso interessante. Nenhum grupo anterior soube utilizar com tanta maestria as redes sociais para conquistar simpatizantes e combatentes. Se a Al-Qaeda usava a mídia para promover seus atos, o Estado Islâmico, maximizou essa utilização.
Jovens do mundo inteiro foram aliciados a participar dos exércitos do EI. Nesse particular, não havia discriminação de gênero e meninas eram igualmente bem-vindas fossem para servir de esposas aos combatentes, atuar no convencimento de outras jovens, ou prestar serviços de natureza médica e logística. Para tanto, o YouTube, as redes sociais (Facebook, Telegram, VK(Rede social russa extremamente popular localmente), Twitter) foram grandes ferramentas.
Devemos destacar, no entanto, que a propaganda não necessariamente correspondia à realidade, e o destaque dado às mulheres era apenas uma forma de atrair meninas ocidentalizadas.
As táticas de convencimento tinham início em grupos com interesses banais e chegavam ao processo de radicalização, que, além de envolver uma interpretação tortuosa do Corão, criava antagonistas que deveriam ser destruídos. Todos os que não pensassem ou agissem sob rígidos princípios eram rivais e precisavam ser aniquilados; o outro, o diferente não era um adversário, era um inimigo. A intolerância era a base da propaganda.
Centenas de jovens partiram de distintas partes do mundo para alimentar as fileiras de combatentes do EI; jovens que meses antes tinham trajetórias corriqueiras, mergulharam e praticaram atos de barbárie em nome de uma causa. Esqueceram famílias, referências, costumes e apagaram suas memórias, visto que muitos jamais voltaram.
Uma estratégia alternativa era estimular alguns voluntários a continuar em seus países de origem e lá organizarem células internas com intuito de levar a mensagem do Estado Islâmico a todos os lugares. Essa mensagem permitiu dezenas de ataques em vários países sem que, necessariamente, vitimassem muitas pessoas. O dano causado era mais simbólico – o constante pavor de ser a próxima vítima, de estar no local errado, no momento errado.
COMENTÁRIO
Lembre-se de que terrorismo não é sobre quantidade de mortos; é sobre quantidade de medo.
Outra inovação do grupo em termos de tática – se é que podemos denominar assim – foram as lives de assassinato. As decapitações exibidas ao vivo e posteriormente viralizadas também se tornaram marca desse grupo fundamentalista.
Os recursos para manutenção dessa complexa rede são de distintas naturezas:
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
A retomada de grande parte dos territórios do autoproclamado Califado por parte do exército sírio, das forças curdas e aliados ocidentais diminuiu fortemente sua atuação, contudo, eles ainda são considerados uma célula ativa, ameaçadora e com possibilidade de expansão.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. NO DIA 7 DE OUTUBRO DE 2001, ESTADOS UNIDOS E GRÃ-BRETANHA DECLARARAM GUERRA AO REGIME TALIBÃ, NO AFEGANISTÃO. LEIA TRECHOS DAS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS, GEORGE W. BUSH, E DE OSAMA BIN LADEN, LÍDER MUÇULMANO, NA OCASIÃO:
GEORGE BUSH: UM COMANDANTE-CHEFE ENVIA OS FILHOS E FILHAS DOS ESTADOS UNIDOS À BATALHA EM TERRITÓRIO ESTRANGEIRO SOMENTE DEPOIS DE TOMAR O MAIOR CUIDADO E DEPOIS DE REZAR MUITO. PEDIMOS-LHES QUE ESTEJAM PREPARADOS PARA O SACRIFÍCIO DAS PRÓPRIAS VIDAS. A PARTIR DE 11 DE SETEMBRO, UMA GERAÇÃO INTEIRA DE JOVENS AMERICANOS TEVE UMA NOVA PERCEPÇÃO DO VALOR DA LIBERDADE, DO SEU PREÇO, DO SEU DEVER E DO SEU SACRIFÍCIO. QUE DEUS CONTINUE A ABENÇOAR OS ESTADOS UNIDOS.
OSAMA BIN LADEN: DEUS ABENÇOOU UM GRUPO DE VANGUARDA DE MUÇULMANOS, A LINHA DE FRENTE DO ISLÃ, PARA DESTRUIR OS ESTADOS UNIDOS. UM MILHÃO DE CRIANÇAS FORAM MORTAS NO IRAQUE E PARA ELES ISSO NÃO É UMA QUESTÃO CLARA. MAS QUANDO POUCO MAIS DE DEZ FORAM MORTOS EM NAIRÓBI E DAR-ES-SALAM, O AFEGANISTÃO E O IRAQUE FORAM BOMBARDEADOS E A HIPOCRISIA FICOU ATRÁS DA CABEÇA DOS INFIÉIS INTERNACIONAIS. DIGO A ELES QUE ESSES ACONTECIMENTOS DIVIDIRAM O MUNDO EM DOIS CAMPOS, O CAMPO DOS FIÉIS E O CAMPO DOS INFIÉIS. QUE DEUS NOS PROTEJA DELES.
(ADAPTADO DE O ESTADO DE S. PAULO, 8 OUT. 2001.)
PODE-SE AFIRMAR QUE:
A justificativa das ações militares encontra sentido apenas nos argumentos de George W. Bush.
A justificativa das ações militares encontra sentido apenas nos argumentos de Osama bin Laden.
Ambos se apoiam em um discurso de fundo religioso para justificar o sacrifício e reivindicar a justiça.
Ambos tentam associar a noção de justiça a valores de ordem política, dissociando-a de princípios religiosos.
Ambos tentam separar a noção de justiça das justificativas de ordem religiosa, fundamentando-a em uma estratégia militar.
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2. A UNESCO CONDENOU A DESTRUIÇÃO DA ANTIGA CAPITAL ASSÍRIA DE NIMROD, NO IRAQUE, PELO ESTADO ISLÂMICO, COM A AGÊNCIA DA ONU CONSIDERANDO O ATO COMO UM CRIME DE GUERRA. O GRUPO ESTADO ISLÂMICO INICIOU UM PROCESSO DE DEMOLIÇÃO EM VÁRIOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS EM UMA ÁREA RECONHECIDA COMO UM DOS BERÇOS DA CIVILIZAÇÃO. UNESCO E ESPECIALISTAS CONDENAM DESTRUIÇÃO DE CIDADE ASSÍRIA PELO ESTADO ISLÂMICO (ADAPTADO DE O GLOBO, 30 MAR. 2015).
O TIPO DE ATENTADO DESCRITO NO TEXTO TEM COMO CONSEQUÊNCIA PARA AS POPULAÇÕES DE PAÍSES COMO O IRAQUE A DESESTRUTURAÇÃO DO(A):
Homogeneidade cultural por meio da contracultura.
Patrimônio histórico a partir do fenômeno de aniquilação cultural.
Controle ocidental por meio da identificação de símbolos ocidentais.
Unidade étnica através da diversificação de referências culturais.
Religião oficial a partir da inserção de novas experiências religiosas.
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GABARITO
1. No dia 7 de outubro de 2001, Estados Unidos e Grã-Bretanha declararam guerra ao regime Talibã, no Afeganistão. Leia trechos das declarações do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e de Osama bin Laden, líder muçulmano, na ocasião:
George Bush: Um comandante-chefe envia os filhos e filhas dos Estados Unidos à batalha em território estrangeiro somente depois de tomar o maior cuidado e depois de rezar muito. Pedimos-lhes que estejam preparados para o sacrifício das próprias vidas. A partir de 11 de setembro, uma geração inteira de jovens americanos teve uma nova percepção do valor da liberdade, do seu preço, do seu dever e do seu sacrifício. Que Deus continue a abençoar os Estados Unidos.
Osama bin Laden: Deus abençoou um grupo de vanguarda de muçulmanos, a linha de frente do Islã, para destruir os Estados Unidos. Um milhão de crianças foram mortas no Iraque e para eles isso não é uma questão clara. Mas quando pouco mais de dez foram mortos em Nairóbi e Dar-es-Salam, o Afeganistão e o Iraque foram bombardeados e a hipocrisia ficou atrás da cabeça dos infiéis internacionais. Digo a eles que esses acontecimentos dividiram o mundo em dois campos, o campo dos fiéis e o campo dos infiéis. Que Deus nos proteja deles.
(Adaptado de O Estado de S. Paulo, 8 out. 2001.)
Pode-se afirmar que:
A alternativa "C " está correta.
O terrorismo de quarta onda, no qual situamos o movimento da Al-Qaeda, justifica suas ações em fundamentos de natureza religiosa. O presidente George W. Bush, ao inaugurar a chamada Guerra ao Terror também associou suas ações a elementos de fé, inclusive dizendo que estava promovendo uma cruzada.
2. A Unesco condenou a destruição da antiga capital assíria de Nimrod, no Iraque, pelo Estado Islâmico, com a agência da ONU considerando o ato como um crime de guerra. O grupo Estado Islâmico iniciou um processo de demolição em vários sítios arqueológicos em uma área reconhecida como um dos berços da civilização. Unesco e especialistas condenam destruição de cidade assíria pelo Estado Islâmico (adaptado de O Globo, 30 mar. 2015).
O tipo de atentado descrito no texto tem como consequência para as populações de países como o Iraque a desestruturação do(a):
A alternativa "B " está correta.
Uma das fontes de arrecadaçãode recursos do Estado Islâmico é a venda de relíquias históricas. Além disso, quando definem que determinado artefato ou construção não se adequa ao que seus fundamentos religiosos legitimam, o EI promove destruição maciça. Esse fenômeno de aniquilação cultural é identificado como desestruturação do patrimônio histórico e da memória coletiva daquele povo.
MÓDULO 4
Reconhecer as controvérsias surgidas a partir da utilização do conceito de terrorismo de Estado
ALGUMAS IMPORTANTES REFLEXÕES
TERROR DE ESTADO
Antes de iniciarmos o módulo, faremos uma reflexão: existe terror de Estado?
Quando pensamos sobre terrorismo a partir da lógica do senso comum, sempre imaginamos um grupo ou indivíduo solitário planejando um ataque a alvos específicos com objetivo de reivindicar ou vingar uma suposta afronta. Esses indivíduos ou essas organizações são sempre marginais à sociedade e não possuem legitimidade para existir. Entretanto, devemos refletir:
1
SERÁ QUE TODOS OS ATOS DE VIOLÊNCIA SÃO PERPETRADOS POR AGENTES NÃO ESTATAIS?
2
SERÁ QUE OS ESTADOS – GOVERNOS CONSTITUÍDOS – TAMBÉM PODEM SER RESPONSÁVEIS POR AÇÕES QUESTIONÁVEIS NO ÂMBITO DOS DIREITOS COLETIVOS?
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Não temos resposta fácil. Como já observamos, dada à indefinição sobre o que é terrorismo, cabe a governos e agências de proteção definir esses atos. Por conseguinte, se as ações de violência partirem deles, fatalmente encontrarão justificativas para tornar lícitos e aceitáveis quaisquer excessos.
Considere a seguinte situação: os cidadãos do país X, apavorados devido a recentes ataques em vias públicas, clamam ao seu governo democraticamente eleito, ações que combatam e evitem mais mortes e pânico. A ação do governo é imediata – aumento de forças de repressão nas ruas, abordagens a qualquer indivíduo que apresente atitudes suspeitas ou aparente nervosismo inexplicável.
Além disso, leis são criadas permitindo monitoramento de redes sociais, e-mails e, inclusive, pesquisas realizadas em sites específicos. A população, comunicada sobre essas ações, partilha um sentimento de maior segurança e conforto.
Você concorda com essa premissa?
Talvez sim, mas existem perigos reais e ameaças concretas em atitudes do gênero.
Reflita sobre as seguintes questões com base na situação hipotética anterior:
1
PRIMEIRA QUESTÃO
Os autores da violência cometida em via pública foram corretamente identificados?
2
SEGUNDA QUESTÃO
As forças repressivas colocadas nas ruas agem em respeito aos direitos civis, ou seja, sem truculência, garantindo o direito de ir e vir e a liberdade de expressão?
3
TERCEIRA QUESTÃO
Quem determina o que são atitudes suspeitas? Quem identifica as reações de nervosismo como fonte de ameaça real ou simples reação orgânica a uma situação de estresse?
4
QUARTA QUESTÃO
Você gostaria de saber que estranhos vigiam seus contatos e as mensagens que troca diariamente com eles?
5
QUINTA QUESTÃO
Quem vigia os indivíduos que monitoram as redes? E se eles utilizarem as informações das quais dispõem para praticar atos ilícitos, como chantagens e extorsões ao descobrir alguma particularidade* da vida dos monitorados?
*Particularmente, não precisa ser um crime, pode ser simplesmente um flerte, uma preferência sexual que a pessoa não quer tornar pública.
6
SEXTA QUESTÃO
E se os governos utilizarem as informações que obtêm para perseguir e eliminar adversários políticos?
7
SÉTIMA QUESTÃO
E se os governos lançarem suspeitas indevidas sobre pessoas que pesquisam determinados assuntos? Imagine se nós, estudando esse material, fôssemos colocados sob suspeita em razão das buscas para aprimorar o conteúdo?
Todas essas reflexões precisam ser feitas e as respostas não são fáceis. Será que a sociedade está pronta para renunciar à sua privacidade em nome de segurança contra inimigos reais ou até mesmo inventados? Será que estamos dispostos a ter nossas vidas devassadas e correr o risco de essas informações serem mal utilizadas por governos ou vendidas em sites clandestinos na chamada dark web? Será que isso não pode originar um efeito adverso, o chamado terrorismo de Estado?
O QUE É TERRORISMO DE ESTADO?
Feitas as reflexões anteriores, vamos eleger um conceito para definir o que é o terrorismo de Estado, sempre lembrando que há divergência sobre sua existência ou não.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
O TERRORISMO DE ESTADO É UMA FORMA DO EXERCÍCIO DO PODER ESTATAL CUJA REGRA DE CONHECIMENTO PERMITE OU IMPÕE, COM OBJETIVO DE CRIAR TEMOR GENERALIZADO, A APLICAÇÃO CLANDESTINA, IMPREVISÍVEL E DIFUSA TAMBÉM A PESSOAS MANIFESTAMENTE INOCENTES, MEDIDAS COERCITIVAS PROIBIDAS PELO ORDENAMENTO JURÍDICO PROCLAMADO, OBSTRUINDO OU CANCELANDO A ATIVIDADE JUDICIAL E CONVERTENDO O GOVERNO EM AGENTE ATIVO NA LUTA PELO PODER.
(VALDÉS apud VÁSQUEZ, 2010, p. 131)
Confrontando essa tese, no entanto, temos a concepção que ações, se promovidas pelo Estado sob a vigência da lei, ainda que cruéis, não podem ser qualificadas como terrorismo, visto que são legitimadas pelo monopólio do uso legítimo da força.
Percebam o quanto é delicada essa questão. Os estudiosos debatem a existência dessa modalidade de terror, contudo, não há qualquer ordenamento jurídico no mundo que o defina. Ou seja, os excessos praticados pelos Estados ficam, em geral, impunes porque podem ser confundidos e, claro, justificados como ações antiterroristas. Nesse contexto, corremos o sério risco de tipificar como atos terroristas movimentos sociais com pautas justas e necessárias se, em alguma medida, desagradarem ao governo estabelecido.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
Vamos a um exemplo claro de tal situação. Um conhecido matemático e estatístico, operante no mercado financeiro chamado Nassim Nicholas Taleb, refletindo sobre as atividades econômicas, escreveu o livro A lógica do Cisne Negro. Sua proposta pode ser condensada em três grandes premissas:
PREMISSA
1
O improvável existe e tendemos, após sua ocorrência, a criar teorias de que ele poderia ter sido previsto.
PREMISSA
2
Estatisticamente é impossível prever o improvável, visto que o que conhecemos é infinitamente menor do que o desconhecido.
PREMISSA
3
Psicologicamente, os eventos improváveis são hiperdimensionados pela população em geral.
Você pode estar confuso sobre a relação desses princípios com o terrorismo, contudo, a teoria do Cisne Negro se encaixa perfeitamente nos eventos dessa natureza. Então, vamos contextualizar:
TEORIA DO CISNE NEGRO
Até meados do século XVIII, o mundo europeu, por não saber da existência do Cisne Negro, concluiu que essa variante não existia. Os europeus consideravam redundante a utilização da cor branca na descrição do cisne. Isso tudo mudou após o conhecimento do território australiano, onde existe essa "variante impossível" do cisne. Desde então, essa história virou uma metáfora para qualquer evento improvável e grande, que após sua ocorrência, leva os envolvidos a crer que era claramente previsível.
PREMISSA
1
Por envolver uma sofisticada logística, muitos recursos, comprometimento de dezenas pessoas e outras distintas variáveis, os atos terroristas podem ser enquadrados como improváveis.
PREMISSA
2
Quando ocorre um ato terrorista, por causa de sua improbabilidade, ele provoca uma comoção e histeria significativas: pessoas são tomadas por desespero e apreensão de novas ocorrências.
PREMISSA
3
E como agiria o terrorismo de Estado diante disso? Ao alimentar a ansiedade coletiva, muitos países aproveitam o improvável para estabelecer uma vigilância extremada sobre os cidadãos.
IMPROVÁVEL
Improvável não é sinônimo de impossível. Assim, é matematicamente complexo prever sua ocorrência, ou seja, as agências de segurança atuam com modelos altamente frágeis.
GLOBAL TERRORISM DATABASE (GTD)
Imagens: Fernanda M. Silva; Shutterstock.com. Adaptadas por Roberta Meireles.
Vamos analisar agora um exemplo prático de como o terrorismo de Estado pode se manifestar. Para isso, utilizaremos uma ferramenta de busca internacional, o GTD. Essa siglarefere-se ao Global Terrorism Database (Base de dados do Terrorismo global), criada em 2001 e alimentada com os dados obtidos pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, com apoio de agências de inteligência estadunidenses e estrangeiras.
Nesse banco de dados, estão reunidos eventos ocorridos a partir da década de 1970 em todo o mundo, e que se caracterizariam como ações de natureza extremista. Como fonte de pesquisa, é um acervo muito rico e detalhado para qualquer pesquisador da área.
Veja a seguir um mapa retratando a geografia dos atos terroristas ocorrida no ano de 2018:
Imagens: Fernanda M. Silva; Shutterstock.com. Adaptadas por Roberta Meireles.
Constantemente revistos, os dados podem nos oferecer algumas diretrizes na compreensão do fenômeno. Os critérios para inclusão de um evento nessa ferramenta são definidos da seguinte maneira:
OS ATOS SÃO REALIZADOS POR ATORES NÃO ESTATAIS
USO DE FORÇA ILEGAL/VIOLÊNCIA OU AMEAÇA DE UTILIZAÇÃO DELA COM OBJETIVO DE NATUREZA POLÍTICA, ECONÔMICA, RELIGIOSA OU SOCIAL
FORA DO CONTEXTO DA GUERRA LEGÍTIMA
A grande questão é: se não existe uma definição mundialmente conhecida para o que é terrorismo, como analisar os dados ali preservados? Percebam que a importante ferramenta exclui ações do Estado, indica que existe uma guerra legítima e, por exclusão, uma ilegítima. Mas qual seria a diferença entre ambas? Como você deve ter percebido, para o GTD não existe terrorismo de Estado. E as relativizações não se encerram aí. Vamos um pouco adiante.
Imagem: Shutterstock.com.
PESQUISANDO DADOS SOBRE O BRASIL (VOCÊ PODE FAZER O MESMO), DESCOBRIMOS OS SEGUINTES ELEMENTOS: HÁ, NO GTD, 294 REGISTROS DE ATOS TERRORISTAS OCORRIDOS ENTRE 21 DE MAIO DE 1995 E 11 DE DEZEMBRO DE 2018 (ÚLTIMO DADO INSERIDO SOBRE O PAÍS).
Encontramos ainda, como agentes terroristas desde grupos neonazistas ao PCC, passando pelos índios da etnia terena e o MST. Se nos aprofundássemos nas motivações, encontraríamos justificativas de natureza religiosa e patrimonial; pense que estamos analisando dados apenas do Brasil e de forma superficial.
A discursão sobre terrorismo de Estado e utilização de ferramentas (como o GTD) de forma equivocada não se encerram e nem devem. O que precisamos é que haja mais abertura dos Estados para permitir que os atores não governamentais reflitam conjuntamente sobre esse assunto tão melindroso.
AS AGÊNCIAS DE INTELIGÊNCIA E O CONTRATERRORISMO
Falaremos com a nossa especialista sobre a as agências de inteligência – CIA e outras iniciativas de contraterrorismo.
Imagens: Shutterstock.com, adaptadas por Roberta Meireles.
CONTRATERRORISMO
Nesse contexto, você deve estar considerando a possibilidade de o contraterrorismo ser, na verdade, um mero mecanismo de controle sobre a população em geral. Uma ferramenta como GTD pode ser usada para criminalizar causas legítimas como as reivindicações indígenas, ao colocá-las lado a lado com ações de uma das maiores facções criminosas do mundo o PCC. O Estado pode se valer desses recursos para ele mesmo agir com grande opressão.
Todas essas ponderações são válidas, mas tenha cuidado!
Tudo sobre esse assunto precisa ser analisado com cautela e extremo rigor científico.
O contraterrorismo, ou seja, o direito de os Estados estruturarem táticas de defesa para sua manutenção e preservação da ordem estabelecida é lícito e necessário. Embora estejam lidando com eventos improváveis, cabe aos governos buscar alternativas para, ao menos, minimizar os danos e efeitos colaterais desses atos extremos. Contraterrorismo não é sinônimo de terrorismo de Estado ou não deveria ser. Cabe à população vigiar os limites de atuação dos Estados e impedir que eles abusem das prerrogativas que os cidadãos lhes concedem a cada processo eleitoral.
SAIBA MAIS
Os debates sobre esse limite e sua definição podem ser pensados a partir dos exemplos da Guerra na Síria, do Afeganistão e dos movimentos populares nos Estados Unidos.
GUERRA NA SÍRIA
Nesse período, foram atribuídos a Bashar Al-Assad atos terroristas contra sua própria população, como o uso do gás sarin. A acusação foi negada por Al-Assad e pelo governo da Rússia. Por outro lado, no campo do discurso, inclusive no Conselho de Segurança da ONU, o debate sobre o direito de Estado e sua atuação de forma a combater o terrorismo podem resultar em duras ações de antiterror.
A comunidade internacional diante desse tipo de negociação complexa se vê dividida: de um lado, a defesa da legitimidade do Estado e sua função de proteção diante das ameaças de separatistas; do outro, uma possível guerra civil. As perguntas que podemos fazer neste momento, é: quem vigia? A população, o governo? E como se dá esse processo?
AFEGANISTÃO
Um outro exemplo é o notório caso do Afeganistão. Os Guerreiros de Allah já tinham sido terroristas contra a violência e invasão soviética, com apoio americano. Tinham atuado intensamente na luta da Sérvia, enviado homens para defender as minorias muçulmanas, disseminando táticas inesperadas. Mas não eram o Estado. Quando um dos grupos assume o poder e impõe uma série de ações para proteção dos sujeitos e da honra, promove ações de censura, pena de morte, atos públicos de violência. Nesse sentido, perguntamos: temos governo, ou ações e processos de terrorismo?
ESTADOS UNIDOS
Movimentos como Black Lives Matter e as marchas contra violência policial americana são um bom exemplo de que indivíduos precisam estar atentos a precarização das condições de suas individualidades e direitos. E o Estado deve ter atenção sobre as formas e as imposições que utilizam para governar. Sempre que esses direitos parecem ser facilmente negados, devemos cobrar.
BALANÇO GERAL DO TERROR
Faremos uma recapitulação e contextualizações extras sobre o que foi visto neste material.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. RECONHECEMOS, NESTE MÓDULO, AS DIFICULDADES PARA CLASSIFICAR POSSÍVEIS EXCESSOS COMETIDOS PELOS ESTADOS COMO TERRORISMO. A NATUREZA DESSA DIFICULDADE É MAIS BEM EXPLICADA PELA ALTERNATIVA A SEGUIR:
O Estado, como agente legitimamente constituído, possui, a princípio, o monopólio da força, ou seja, todas as suas ações são plenamente justificáveis.
Atuando sempre em defesa da ordem e manutenção das instituições, é problemático reconhecer em que medida as ações do Estado são excessivas ou não.
Dado que a definição de terrorismo está nas mãos das autoridades constituídas, atribuir ao Estado responsabilidade sobre excessos encontra barreiras institucionais.
Na medida em que o Estado sempre encontra como oponente grupos que não são legitimados pela população, suas ações ficam descaracterizadas como excessivas.
Reconhecer a existência de um terrorismo realizado pelo Estado é tido como contraproducente na luta contra os grupos já reconhecidos como extremistas.
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2. COMPREENDEMOS QUE O FENÔMENO DO TERRORISMO DE ESTADO NÃO PODE SER CONFUNDIDO COMO AS AÇÕES DE CONTRATERRORISMO. REFLETINDO SOBRE ESSAS DIFERENÇAS É POSSÍVEL AFIRMAR QUE:
É legítimo que um Estado proteja a vida e o patrimônio dos seus cidadãos ainda que, para isso, algumas liberalidades sejam cometidas.
O contraterrorismo deve ter como premissa o respeito às liberdades e aos direitos fundamentais, do contrário, assemelha-se ao que deseja combater.
O Estado possui a prerrogativa do legítimo uso da força no combate às ameaças sofridas, logo, existe uma tênue diferença entre terrorismo de Estado e contraterrorismo.
A divisão em categorias (terrorismo de Estado e contraterrorismo) deve respeitar as peculiaridades de cada país e os grupos que vitimam seus cidadãos.
Não existe possibilidade de confusão entre terrorismo de Estado e contraterrorismo, visto que as ações do primeiro ocorrem, em geral, à margem das autoridades constituídas.
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GABARITO
1. Reconhecemos, neste módulo, as dificuldades para classificar possíveis excessos cometidos pelos Estados como terrorismo. A natureza dessa dificuldade é mais bem explicada pela alternativa a seguir:
A alternativa

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