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Apostila TEMA 3 - Hist RI-II

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DESCRIÇÃO
A consolidação do capitalismo neoliberal e suas repercussões nos conflitos identitários e na ampliação dos ideais democráticos no mundo.
PROPÓSITO
Discutir o processo de formação do capitalismo neoliberal e suas repercussões no incentivo aos conflitos identitários na Ásia e Europa Oriental, bem como compreender o avanço do ideal democrático em países ditatoriais, com o fim da Guerra Fria.
PROPÓSITO
Antes de iniciar o conteúdo deste tema, tenha em mãos um mapa-múndi, para a localização espacial dos eventos discutidos. Se desejar, use o Google Maps, uma ferramenta dinâmica de geolocalização.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar os movimentos e processos revolucionários que corroboraram para a evolução e consolidação do capitalismo ao longo da história
MÓDULO 2
Reconhecer os fatores que contribuem para os conflitos identitários, destacando a situação nos Balcãs, na Caxemira e no Curdistão
MÓDULO 3
Relacionar o processo de formação de ditadores e sua queda ao longo da história, considerando os exemplos chileno e iraquiano
INTRODUÇÃO
Neste tema, vamos aprender sobre o processo evolutivo do capitalismo ao longo da história, correlacionado à expansão da globalização. Vamos analisar a importância das revoluções industriais (primeira à quarta) para a consolidação do capitalismo neoliberal (ou informacional), no entorno do mundo conhecido como planeta Terra.
Também vamos realizar um debate sobre os fatores que originam e incentivam os conflitos identitários e suas consequências para a economia, para a sobrevivência humana e para as linhas partidárias de soberania dos Estados Nações. A questão da fragmentação da Iugoslávia (nos Balcãs); o conflito atual na Caxemira – com o envolvimento de energia nuclear (Índia e Paquistão); e as tentativas de formação de um Curdistão livre serão utilizados como exemplos práticos dessa discussão.
Por fim, aplicaremos o conhecimento sobre as diferenças conceituais entre democracia e ditadura para analisar as experiências ditatoriais da História recente do Chile, na América Latina, e do Iraque, no Oriente Médio.
MÓDULO 1
 Identificar os movimentos e processos revolucionários que corroboraram para a evolução e consolidação do capitalismo ao longo da história
CONSOLIDAÇÃO DO CAPITALISMO NEOLIBERAL
Ao longo do processo evolutivo da globalização, o capitalismo surgiu e se consolidou, passando por diferentes fases até a sua configuração atual.
O capitalismo tornou-se uma célula integrante ao processo globalizante e seu surgimento remonta ao século XVII. No início, os comerciantes eram um elo entre o consumidor e o produtor. No entanto, gradualmente, eles começaram a dominar os produtores. Primeiramente, fazendo pedidos e pagando adiantado. Em seguida, passaram a fornecer as matérias-primas e a pagar um salário pelo trabalho feito na produção de bens acabados.
Antes, para se produzir um calçado, uma vestimenta ou uma mesa, o artesão comprava todas as matérias-primas, planejava o tempo de produção da mercadoria e, ao final, oferecia o seu preço ao consumidor. Ele era responsável por todo o processo produtivo, o que significava uma relação direta entre produtor e consumidor. Com o capitalismo, surgiu um intermediário — o comerciante — que não produz nada, não consome, mas tomou conta do processo de compra e venda, lucrando com isso.
MAS COMO OCORREU O ENCADEAMENTO EVOLUTIVO DO CAPITALISMO AO LONGO DA HISTÓRIA?
Espiando-se o avanço das práticas capitalistas no globo terrestre, que aconteceram em tempos diferentes, pode-se afirmar que, na Europa Ocidental, o capitalismo seguiu aproximadamente os passos apresentados no esquema a seguir:
Capitalismo comercial
Séculos XV - XVIII
Capitalismo industrial
Séculos XVIII - XIX
Capitalismo financeiro
Século XX
Capitalismo informacional
A partir do final do Século XX
Evolução do capitalismo. Fonte: Debora Rodrigues, adaptado de Silva, Birnkott e Lopes (2018).
CAPITALISMO COMERCIAL
O capitalismo comercial era um sistema de obtenção de lucro baseado no comércio desenvolvido por comerciantes italianos (na região de Gênova e Veneza) que queriam ampliar seus lucros, evitando o comércio da localidade. Esse sistema de comércio foi limitado espacialmente e foi reduzindo gradualmente à medida que as potências europeias começaram a lucrar com o comércio de longa distância, iniciando o processo de expansão colonial.
Literalmente, baseava-se em trocas comerciais de produtos que não eram industrializados, como pimenta, sal e canela. Dentre as principais características dessa fase do capitalismo estão: o controle estatal da economia (o monarca controlava o mercado), o protecionismo (evitando a concorrência), o metalismo (estímulo ao acúmulo de metais preciosos, como ouro e prata) e a balança comercial favorável (menos importação e mais exportação).
Foi um período marcado pelas Grandes Navegações e pela descoberta de novos continentes, tendo sempre a Europa como centro político, cultural e econômico do mundo.
CAPITALISMO INDUSTRIAL: UM BREVE RETORNO
Com o advento da Revolução Industrial, o capitalismo alcançou lugares até então impensáveis. Com a acumulação do capital, na fase anterior, foram possíveis os investimentos em maquinários e grandes invenções que impulsionaram a industrialização e a concentração urbana.
O fenômeno da Primeira Revolução Industrial foi do processo de transformação de uma economia agrária e baseada no artesanato para uma controlada pela indústria e fabricação de mercadorias industrializadas.
Antes, as mercadorias eram cuidadosamente trabalhadas de forma manual e passaram a ser produzidas exponencialmente, com o uso de máquinas nas fábricas, por conta da introdução de novas técnicas e máquinas, fabricação de ferro e outras indústrias. A Primeira Revolução Industrial foi estimulada pelo uso revolucionário da energia a vapor graças à abundância de carvão mineral (combustível fóssil) e ferro. Foi inicialmente estabelecida na Grã-Bretanha e se alastrou para o resto do mundo, incluindo os Estados Unidos, entre 1830 e 1940.
A Grã-Bretanha não era o único lugar que tinha depósitos de carvão. Então, por que a Revolução Industrial não começou na China ou em qualquer outro lugar que ostentasse esse recurso natural? As possíveis razões pelas quais a industrialização começou na Grã-Bretanha incluem:
· 1 Abundância de depósitos de carvão mineral e ferro.
· 2 A política dos cercamentos incentivando o êxodo rural.
· 3 Acumulação de capital pela incipiente burguesia (capitalismo comercial).
· 4 Aristocracia de mentalidade comercial.
· 5 Sistema de livre iniciativa (liberalismo econômico).
· 6 Algodão barato produzido por escravos na América do Norte.
· 7 Acesso ao comércio marítimo, com uma marinha forte.
A Grã-Bretanha partiu primeiro! Liderou as aquisições do século XIX e terminou aquele século com o maior império não contíguo que o mundo já conheceu. De acordo com a atual rainha do Reino Unido, Elizabeth II (citada por BROWN, 2021), o sol nunca se põe no Império Britânico. A Grã-Bretanha exerceu grande influência na China e no Império Otomano sem controlar diretamente esses territórios, embora na Índia, no Sudeste Asiático e na África, tenha assumido todas as funções governamentais.
 ATENÇÃO
Enquanto a industrialização permitia o aumento da produção econômica geral e estimulava o aumento do padrão de vida das classes média e alta, os pobres e os trabalhadores continuavam a lutar. A mecanização do trabalho, criada pela inovação tecnológica, tornou o trabalho em fábricas cada vez mais repetitivo (às vezes perigoso), e inúmeros trabalhadores eram forçados a labutar durante longas horas por salários lamentavelmente baixos. Essas mudanças dramáticas alimentaram a oposição à industrialização, incluindo o ludismo, cujos defensores impuseram uma violenta resistência às mudanças na indústria têxtil britânica.
Esse movimento evoluiu e alcançou os países que desenvolviam as mesmas práticas de penalização do trabalhador durante a Primeira Revolução Industrial. Na imagem a seguir, observe uma antiga ilustração do motim de trabalhadores, na mina fria de Hazard,perto de Charleroy, Bélgica. O original foi criado por Dubois e Cosson-Smeeton e publicado em L'Illustration, Journal Universel, de Paris, em 1868.
 Motim de trabalhadores em Hazard durante a Primeira Revolução Industrial.
A separação entre os donos dos meios de produção (burguesia) e da mão de obra (proletariado) estimulou a fabricação de mercadorias de forma muito mais acelerada e promoveu a ascensão da classe burguesa ao poder. A partir de então, o capitalismo estabeleceu uma dominação global do modo de produção.
Foi nesse contexto histórico que Karl Marx estudou e criticou o sistema capitalista, afirmando que o considerava explorador da natureza e do trabalho humano. Segundo o alemão, os proprietários dos meios de produção – os burgueses – não remuneravam o operário com o valor correto do fruto do trabalho, em nenhuma circunstância. Essa sobra de remuneração era acumulada pelo capitalista na forma de mais-valia, um conceito bastante famoso de Marx. O materialismo dialético afirma que há diferenças cruciais entre os burgueses e a massa de proletários.
 SAIBA MAIS
Proletário não é, necessariamente, sinônimo de operário. A cada contexto ou aporte teórico o termo assume uma caracterização, classe ou grupo de trabalho. Neste contexto, era identificado com os operários.
VAMOS VER UM EXEMPLO?
Em uma fábrica, os operários que estão produzindo os bancos de madeira para a entrega do próximo mês não recebem pelo valor real dos móveis, ou seja, pelo valor do seu próprio trabalho. A diferença entre o valor total dos bancos produzidos pelo trabalhador e o valor pago pelo consumidor é chamada de mais-valia. Esse valor é apropriado pelo burguês, enriquecendo-o.
A mais-valia cresce quando consideramos as relações de trabalho em que há desvalorização do operário. Quanto menor o salário, maior é a mais-valia, correto? De quem é a vantagem de negociação quando o trabalhador vende sua força de trabalho no mercado capitalista? Do operário ou do burguês?
Em tempos de crise, o trabalhador desempregado aceita receber um salário menor do que o colega que executa a mesma função, na empresa. Se o operário tiver família e filhos, a sua urgência é exponencialmente aumentada.
ATENÇÃO
O capitalismo nesta época foi caracterizado pela proposta de um mercado livre, que o sustente, e que deve ser deixado para se resolver sozinho, sem a intervenção dos governos ou do Estado. Essa proposta foi confirmada pelo economista inglês Adam Smith em seu livro A riqueza das nações, de 1776 (DIAS, 2015).
Ainda no final do século XIX, o desenvolvimento de mercados de capitais, com a multiplicação das multinacionais, promoveu uma grande concentração do poder industrial em corporações gigantescas, trustes e carteis, o que resultou na redução da capacidade de autoajuste do mercado. As recessões ocorriam com maior frequência e começavam a ficar mais longas e mais graves. O capitalismo precisava evoluir.
CAPITALISMO FINANCEIRO
Você sabia que o capitalismo passou por diferentes desafios importantes no início do século XX? Em 1917, a Revolução Russa permitiu a implantação do primeiro estado socialista do mundo. Na década seguinte, com a Quebra da Bolsa de Nova York, o mundo ocidental mergulhou em uma Grande Depressão que mobilizou as críticas crescentes ao sistema capitalista existente. É possível dizer que a volta ao fascismo, uma ideologia que defendia o capitalismo de estado, foi uma resposta a essas crises (NÓBREGA; RIBEIRO, 2016).
É dentro desse contexto que se compreende o avanço do capitalismo para uma nova fase, chamada de capitalismo financeiro, que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, com a união de bancos e empresas. Nessa fase, surgiram as multinacionais, que fortaleceram as práticas monopolistas, uma forma de se prevalecerem frente à ampliação da concorrência internacional.
Nesse período, o mundo progredia rapidamente com a revolução tecnológica, a expansão da globalização e a descolonização africana/asiática. Avanços rápidos na criação de aço, produtos químicos e eletricidade ajudaram na produção de combustível, incluindo armas e bens de consumo produzidos em massa, como carros. O mundo viu as facilidades de locomoção com automóveis, bicicletas e trens. Simultaneamente, ideias e notícias espalhavam-se por meio do telégrafo ou rádios e jornais. A vida ficou muito mais rápida.
DIFERENÇA ENTRE TRUSTES E CARTEIS
Os trustes são a fusão de várias empresas da mesma cadeia produtiva e que controlam a maior parte do mercado. Já o cartel é um acordo entre empresas do mesmo ramo de negócios, que fixam um mesmo preço para seus produtos.
VOCÊ NÃO SE PERGUNTA QUAL A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE A PRIMEIRA E SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?
Pode-se dizer que essa última viu o início da produção em massa de manufaturas e bens de consumo.
Ao mesmo tempo, todos os tipos de produtos foram padronizados pela primeira vez, dentro do contexto do modelo de produção chamado de fordismo. Por exemplo, a padronização industrial marcou uma evolução na indústria de armamentos e de automóveis.
Filmes do início do século XIX, como a distopia de ficção científica de Fritz Lang (Metropolis), ou a comédia de linha de montagem de Charlie Chaplin (Tempos Modernos) capturam esse medo do operário como um robô humano.
Será que as consequências do liberalismo econômico tinham contribuído para quebra da bolsa de Nova York? Esse questionamento fez nascer uma nova era, agora com intervenção do Estado na economia. Qual era a intenção dessa nova modalidade do capitalismo? Proteger as indústrias nacionais da competição estrangeira e estimular o crescimento das organizações internas, através do investimento estatal em programas de bem-estar social e infraestrutura.
Esta nova abordagem de gestão da economia recebe o nome de bem-estar social ou keynesianismo, uma vez que foi baseado na teoria do economista britânico John Maynard Keynes, publicada em 1936 (NÓBREGA; RIBEIRO, 2016).
O modelo keynesiano adotado nos Estados Unidos, em combinação com a explosão produtiva (o boom na produção), mantido a partir da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu um período de crescimento econômico e acumulação de capital para as transnacionais americanas, que colocou o país no caminho para ser a potência econômica global durante esta época de capitalismo.
RESUMINDO
Os gastos do governo tiraram a economia americana da estagnação e da depressão. Por outro lado, a forte presença do governo na economia, por meio de grandes programas sociais, por exemplo, foi gradativamente aumentando os déficits e o endividamento dos países. Novamente, o capitalismo precisava evoluir.
CAPITALISMO INFORMACIONAL
Um pouco antes da Primeira Guerra Mundial teve fim a Segunda Revolução industrial e o mundo partiu para um novo ciclo, no qual a tecnologia de comunicação digital e a internet mudaram a forma como conduzimos informações, fazemos negócios e interagimos uns com os outros.
Então, estamos falando da Terceira Revolução Industrial, que trouxe o surgimento da eletrônica, das telecomunicações e, claro, dos computadores. Por meio das novas tecnologias, essa etapa revolucionária abriu as portas para expedições espaciais, pesquisas, robótica e biotecnologia. No mundo das indústrias, duas grandes invenções, controladores lógicos programáveis e robôs ajudaram a dar início a uma era de automação de alto nível.
VOCÊ SABIA QUE HOJE JÁ SE FALA EM QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?
O fundador e diretor do Fórum Econômico Mundial, o alemão Klaus Schwab, desenvolveu esse termo para expressar a relação entre tecnologia, robotização e automação avançada (SCHWAB, 2019). Acompanhe a evolução dos processos revolucionários das indústrias, como podemos ver a seguir:
1
INDÚSTRIA 1.0
A Revolução Industrial se inicia. Mecanização da manufatura com a introdução do uso de energia hidráulica e a vapor.
INDÚSTRIA 2.0
Linha de produção em massa com uso da energia elétrica.
2
3
INDÚSTRIA 3.0
Produção automatizada através do uso de eletrônicos, controladores lógicos de programação (PLC), sistemas de TI e robótica.
INDÚSTRIA 4.0
Fábrica inteligente. Tomada dedecisão autônoma de sistemas ciberfísicos usando aprendizado de máquina e análise de Big Data. Interoperabilidade através de IoT (Internet das Coisas) e tecnologia na nuvem.
4
Atualmente, estamos vivenciando mais uma fase, a do capitalismo informacional, termo cunhado pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, em sua publicação intitulada Sociedade em Rede (CASTELLS, 2005).
Nessa fase, temos a expansão do desenvolvimento tecnológico (TI), o que permitiu o adensamento e aceleração do fluxo de capitais, informações, mercadorias e pessoas. Atualmente, ficou muito mais fácil pesquisar sobre emprego na Alemanha ou no Reino Unido, não é mesmo? Com a internet, você consegue conversar com um amigo que mora na Tailândia ou buscar pacotes turísticos nas Maldivas. As redes sociais estão a pleno vapor!
Nessa última fase, a indústria, por exemplo, tende a ser totalmente automatizada, a partir de sistemas que combinam máquinas e processos digitais. É a chamada “fábrica inteligente”. E mais! A automação está chegando às residências, conectando computadores e smartfones ao sistema de segurança das casas (IoT – Internet of Things ou Internet das Coisas): batendo palmas ou através de comando de voz, é possível acender/apagar luzes, televisores ou uma cafeteira, ou programar a geladeira para realizar compras pela internet quando acabar algum item.
O que é valorizado não é a construção de mercadorias, mas a produção do conhecimento para fomentar o avanço tecnológico. As fronteiras dos países e estados foram escancaradas, a partir da informatização (dos computadores e dispositivos eletrônicos) e da internet.
Com os investimentos em tecnologia, houve redução dos custos de transporte e comunicação, aproximando os lugares. Antes, um viajante demorava meses para deslocar-se do Brasil para a Europa. Hoje, esse mesmo trajeto é feito em horas. O mundo "encolheu" as distâncias e aproximou povos e mercados, facilitando a integração econômica e a criação de cadeias produtivas em escala global. Atualmente muitas mercadorias, como carros, podem ter peças (rodas, sistemas de partida e GPS) oriundas de vários países e reunidas para a sua montagem dentro de um único país, como o Brasil.
Tecnologia não avança sem pesquisa e informação. Há um tempo, nossos professores falavam que "quem tem informação, tem poder". Hoje, a frase migrou para "quem consegue transmitir informação, tem poder". Não é o caso dos milhões de seguidores, em contas nas redes sociais de personalidades que publicam sobre uma infinidade de coisas, todos os dias? Eles disponibilizam informação.
É DENTRO DESSE CONTEXTO QUE SE COMPREENDE A APLICAÇÃO DO TERMO NEOLIBERALISMO.
Originalmente, o liberalismo, aplicado na segunda fase do capitalismo pregava pelo livre mercado, sem a intervenção do estado na economia.
O neoliberalismo é uma retomada dos ideais clássicos do liberalismo após o fracasso do keynesianismo. Seus defensores propõem a privatização das empresas, a livre circulação de capitais (sem taxação, no cenário internacional, principalmente), facilidades para a implantação de transnacionais, impedimento de medidas protecionistas e redução dos impostos. Na teoria, essas ações promoverão o fortalecimento das empresas que vão gerar mais empregos e fazer a economia girar.
O problema é que o liberalismo ou neoliberalismo não protegem a força trabalhista e a população mais vulnerável (moradores de rua, por exemplo), acentuando ainda mais as desigualdades sociais. O fortalecimento das empresas significou que os trabalhadores não têm força para negociar seus salários.
As tentativas de limitar a competição são tratadas como inimigas da liberdade. Os impostos e a regulamentação devem ser minimizados, os serviços públicos devem ser privatizados. A organização do trabalho e a negociação coletiva pelos sindicatos são retratadas como distorções do mercado que impedem a formação de uma hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é reformulada como virtuosa: uma recompensa pela utilidade e um gerador de riqueza, que goteja para enriquecer a todos. Os esforços para criar uma sociedade mais igualitária são contraproducentes e moralmente corrosivos. O mercado garante que todos recebam o que merecem.
É importante destacar que a evolução tecnológica contribui para a redução dos postos de trabalho. Atualmente, homens e mulheres são substituídos por máquinas, quer seja nas indústrias ou nos campos. Montadoras de automóveis dispensam trabalhadores e colocam máquinas para operar o processo produtivo. Muitos bancos diminuíram a quantidade de funcionários, substituindo-os por caixas eletrônicos.
A própria pandemia da COVID-19, em 2020/2021, demonstra a diferenciação entre ricos e pobres no acesso às tecnologias educacionais. Com a substituição das aulas presenciais pelo ensino remoto, muitos jovens não puderam acompanhar as aulas, o que prejudicou o encadeamento de ensino, aumentando a distância do mercado de trabalho enquanto trabalhador qualificado e o fosso da desigualdade social.
Muito se fala da necessidade de popularização do acesso às tecnologias educacionais e da inclusão digital. Estamos no processo dessa promoção, permitindo que grande número de pessoas tenha acesso à educação de qualidade por meio plataformas digitais. No entanto, quando imaginamos a condição média, o acesso à tecnologia disponível dita a oportunidade de acesso à educação. Portanto, quem tinha essa “soma positiva” ampliou sua capacidade de interação e quem tinha dificuldades ou inexistência de acesso, viu o abismo ser ampliado.
Na América Latina, o neoliberalismo manifestou-se mais fortemente após o ciclo de ditaduras milites durante a Guerra Fria. Com a redemocratização, países como Chile, Brasil e Argentina recorreram ao neoliberalismo como prática econômica de reconstrução.
 Banco Mundial, Washington, D.C., Estados Unidos.
Você já ouviu falar em Consenso de Washington? Refere-se a um conjunto de ideias econômicas de mercado amplamente livre, apoiadas por economistas proeminentes e organizações internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, a União Europeia e os Estados Unidos.
Essencialmente, o Consenso de Washington defende o livre comércio, taxas de câmbio flutuantes, mercados livres e estabilidade macroeconômica. Dentre as premissas básicas colocadas no Consenso de Washington, podemos destacar:
Disciplina fiscal
Corte de parte dos gastos para reduzir ou eliminar suas dívidas.
Exemplo: redução do número de funcionários.
Reforma fiscal e tributária
Reformulação do sistema de arrecadação de impostos, reduzindo tributos para oferecer vantagens competitivas às empresas.
Exemplo: eliminação dos impostos associados à circulação de capitais.
Privatização de empresas
Venda de empresas estatais, para reduzir custos e garantir o predomínio da iniciativa privada em diferentes setores.
Exemplo: venda da Vale.
Abertura comercial e econômica
Redução das barreiras alfandegárias para proporcionar a abertura econômica ao investimento estrangeiro.
Exemplo: redução dos impostos de importação de mercadorias.
Desregulamentação das leis trabalhistas
Redução da proteção ao trabalhador, permitindo a flexibilização dos contratos de trabalho.
Exemplo: crescimento da prática de terceirização de serviços gerais.
Fonte: Debora Rodrigues, adaptado de Oliveira (2020).
No final da década de 1990, ficou claro que os resultados do Consenso de Washington estavam longe de ser os ideais. Provou-se que o livre comércio nem sempre atende aos melhores interesses das economias em desenvolvimento. Algumas indústrias estratégicas e nascentes precisam ser protegidas inicialmente para proporcionar um crescimento de longo prazo. Essas indústrias também podem exigir proteção na forma de subsídios ou tarifas contra as importações.
A privatização pode aumentar a produtividade e melhorar a qualidade do produto ou serviço. No entanto, a privatização pode muitas vezes fazer com que as empresas ignorem certos mercados de baixa renda ou as necessidades sociais de uma economia em desenvolvimento.
A flexibilização das leis trabalhistas, afalta de investimentos estatais nas áreas sociais (como educação e saúde pública) e o aumento da concorrência com as empresas estrangeiras, através abertura econômica, causaram o aumento das desigualdades sociais no Brasil.
NO PERÍODO ENTRE 1990 E 2003, O BRASIL ADERIU ÀS REGRAS DO CONSENSO DE WASHINGTON, SOBRETUDO NO QUE SE REFERE À ABERTURA ECONÔMICA E PRIVATIZAÇÃO DAS EMPRESAS.
Um bom exemplo é que o aconteceu com as empresas têxteis no Brasil. Na China, o custo produtivo é menor, resultando em produtos como roupas e acessórios mais baratos, que entraram no Brasil através da premissa da abertura econômica e redução das barreiras alfandegárias. As empresas nacionais perderam para a concorrência chinesa e, sem a possibilidade da ajuda estatal, precisaram demitir funcionários e reduzir a sua atuação produtiva até a falência.
Outra consequência da globalização e do fortalecimento das empresas, no contexto do neoliberalismo, foi o enfraquecimento do Estado Nação, que precisou se reinventar, sobretudo em relação à sua soberania. Um exemplo disso foi o investimento diplomático em grupos econômicos como o Mercosul e os BRICS.
Relações interestatais e da dependência mútua entre os Estados se fortaleceram, reduzindo a capacidade de tomada de decisões unilaterais pelo Estado. Sim, os Estados foram criados para serem soberanos, mas muitas vezes são obrigados a ceder, na forma de convenções, contratos, coerção e imposição de órgãos financeiros (Fundo Monetário Internacional – FMI) ou geopolíticos (Nações Unidas – ONU).
Você consegue imaginar o Brasil invadindo a Argentina, sem consultar as Nações Unidas ou os Estados Unidos, especificadamente? Até mesmo os Estados Unidos, para invadir o Iraque ou Afeganistão precisou negociar com as grandes lideranças mundiais, como Rússia, China, Reino Unido e França, no contexto do Conselho de Segurança, da ONU.
O principal exemplo do impacto negativo da globalização sobre o Estado é a formação do terrorismo. As “velhas guerras” de exércitos e batalhas do nosso mundo estão sendo substituídas por “novas guerras” onde as armas nucleares e o terrorismo reinam (KALDOR, 1999, citada por BUCHANAN, 2012). Veja como países como Síria, Afeganistão, Rússia, Nigéria e Somália estão lutando contra células terroristas dentro de seus limites territoriais.
A globalização é frequentemente vista como tendo diminuído a importância do estado, mas, no final, os estados que permanecerão mais bem-sucedidos em face da globalização são aqueles que se adaptam às mudanças de seu papel.
RESUMINDO
Nova Ordem Mundial, em termos econômicos, é a mudança dos eixos de relação, das vivências do capital. O capital ganha novas formas, novas dinâmicas, não cristalizando a ideia de Nova Ordem em um evento como a Queda do Muro de Berlim, mas na constituição de novas dinâmicas.
POR QUE “NOVA ORDEM MUNDIAL”?
A professora Debora Rodrigues explica a origem deste nome, contextualizando o período:
VERIFICANDO O APRENDIZADO
MÓDULO 2
Reconhecer os fatores que contribuem para os conflitos identitários, destacando a situação nos Balcãs, na Caxemira e no Curdistão
CONTEXTUALIZAÇÃO
O local onde você mora, sua ascendência familiar, suas relações sociais de entorno e a forma como foi criado(a) são elementos fundamentais para moldar a sua identidade, não é mesmo? A identidade cultural é a identidade de pertencer a um grupo. Tem a ver com sua história, enquanto membro de um grupo social.
Nós podemos interagir com outas pessoas, considerando a etnia, a nacionalidade, a religião, a classe social, a geração ou até mesmo a localidade. Quantas vezes, você não diz que seu bairro é diferente de todos os outros? Ou a sua religião? Ou afirmar categoricamente que tem orgulho do seu sobrenome?
A cultura é o modo de vida de um grupo de pessoas, ou seja, a vida social passa a ser estruturada de uma forma particular. Identidade significa saber quem você é. Cultura e identidade estão frequentemente ligadas.
O problema é quando você diz que sua religião, etnia ou bairro é melhor do que a dos outros, quando pessoas não toleram o que é diferente. No esquema a seguir, observe alguns tipos de intolerância e/ou discriminação:
DISCRIMINAÇÃO RACIAL
DISCRIMINAÇÃO RELIGIOSA
DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO
DISCRIMINAÇÃO POLÍTICA
DISCRIMINAÇÃO DE PESSOA COM DEFICIÊNCIA
A intolerância, a falta de empatia com o outro e a violência são elementos essenciais para deflagração dos conflitos identitários, que têm permeado a história mundial, com exemplos em vários continentes.
Espanha: Catalães e Bascos
A Espanha vive movimentos separatistas por conta das diferenças entre espanhóis e catalães ou entre espanhóis e bascos.
China: Han
Na China, a maioria da etnia Han domina os tibetanos, que desejam seguir os desígnios do Dalai Lama.
Geórgia: Ossétia
Na Geórgia, a Ossétia do Sul deseja a independência para se reunir com a Ossétia do Norte, na Rússia.
Rússia: Chechênia e Daguestão
Na própria república russa, os chechenos e a população do Daguestão (foto) desejam autonomia e/ou independência.
Neste módulo, vamos trabalhar com as diferenças identitárias que causaram o desmembramento da Iugoslávia (nos Balcãs); entre Paquistão e Índia, bem como os problemas entre turcos e curdos, no Oriente Médio.
A NOVA ORDEM MUNDIAL E OS FENÔMENOS IDENTITÁRIOS
A professora Debora destaca a nova dinâmica do sistema com a consolidação da chamada Nova Ordem Mundial:
DESMEMBRAMENTO DA IUGOSLÁVIA E OS CONFLITOS NOS BALCÃS
Para entender o conflito na ex-Iugoslávia, temos que voltar no tempo. Já havia muitas diferenças e conflitos entre as nações que outrora formavam a Iugoslávia. A Macedônia já foi anexada pela Sérvia. A Bósnia-Herzegovina já foi parte do Império Austro-Húngaro.
A Iugoslávia foi organizada geopoliticamente no final da Primeira Guerra Mundial, sendo aglutinada até compor os Estados da Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Eslovênia e Montenegro.
 Formação da Iugoslávia.
Havia muitas diferenças identitárias, uma vez que o país reunia sérvios, croatas, eslovenos, albaneses, turcos, montenegrinos, entre outras etnias e aglutinava, também, grande diversidade religiosa, com católicos, cristãos ortodoxos e muçulmanos.
Todas essas diferenças eram controladas durante a Guerra Fria por causa do carisma e da liderança do marechal Josip Broz Tito, e foram mantidas fora de vista da opinião pública internacional. Com a sua morte, começaram os problemas.
A principal preocupação de Tito era a coesão dentro da Iugoslávia e a criação de uma identidade iugoslava. Ele aderiu à visão marxista-leninista de que, em longo prazo, as nações tendiam a desaparecer. As classes sociais e o estado comunista criariam bem-estar para todos (FAUCOMPRET, 2001). O problema é que as diferenças étnicas começaram a superar a determinação de Tito de os manter unidos e os problemas cresceram com as crises econômicas, nos anos 1970 (choques do petróleo, greve de trabalhadores, desemprego, fome). As diferenças tornaram-se insustentáveis com a morte de Tito, em 1980, fortalecendo os movimentos separativas.
Antes de morrer, Tito havia determinado que o governo iugoslavo seria resultante de um rodízio étnico no poder. Mas a fragilidade do sistema é que os novos governantes não tinham confiança dos diferentes grupos étnicos como em outrora, com Tito. Além disso, não era respaldado por votos majoritários da população, ou seja, faltavam os parâmetros democráticos da eleição, o que se provou ser um ponto decisivo para o fracasso do sistema.
Na década de 1980, o sérvio Slobodan Milosevic materializou a sua ascensão ao poder alçando a presidência do país em 1989. Ele percebeu que o socialismo estava morrendo e o seu projeto político de poder passou ao incentivo da nova ideologia do nacionalismo étnico. Ele era um mestre da propaganda e usou a mídia cativa sérvia para promover sua causa e a da Grande Sérvia. Milosevic canalizou a desconfiança sérvia contra as outras repúblicas e orquestrou manifestações em massa. “Ninguém vai te bater de novo”, ele disse aos sérvios em Kosovo em 1987, quando foi aplaudido ruidosamentepelas multidões sérvias (FAUCOMPRET, 2001).
Em 1991, Croácia e Eslovênia foram as primeiras repúblicas a se declarar independentes, seguidas logo depois pela Macedônia, desagradando Milosevic. Quando a Bósnia-Herzegovina tomou a mesma decisão, o presidente sérvio interveio, causando um conflito local com consequências genocidas sem precedentes no país.
A Bósnia-Herzegovina reunia grupos étnicos diversos: bósnios-muçulmanos, sérvios-bósnios (em sua maioria cristãos ortodoxos) e croatas-bósnios (de maioria católica), que lutaram pelo governo do país.
A guerra iniciou e imediatamente os sérvios-bósnios receberam apoio da Sérvia, que chegou a ocupar 70% do território, com o avanço do conflito. Os bósnios propriamente ditos (muçulmanos) foram dominados devido à falta de armamentos e de treinamento miliar.
Inicialmente, os sérvios dominaram e promoveram uma verdadeira limpeza étnica, através de um genocídio alarmante – um dos mais conhecidos foi o massacre de Srebrenica. Com o avanço da guerra, os bósnios começaram a receber apoio dos países muçulmanos que lutaram duramente e também cometeram inúmeros excessos ou crimes de guerra, forçando o país ao acordo de paz alinhado aos Estados Unidos e à Europa Ocidental, conhecido como Acordo de Dayton, em 1995.
Depois do conflito, a Iugoslávia reuniu a Sérvia (com suas duas regiões autônomas: Kosovo e Voivodina) e Montenegro. Veremos a seguir essas regiões ilustradas em um mapa:
MASSACRE DE SREBRENICA
O maior massacre cometido na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em apenas uma semana, entre os dias 11 e 15 de julho de 1995, 8.373 bósnios muçulmanos foram mortos por tropas sérvias.
Fonte: Vestibular UOL.
 Localização da Sérvia e Montenegro.
A população em Kosovo era majoritariamente albanesa e desejava uma aproximação com a independente e vizinha Albânia. Entretanto, Milosevic via Kosovo como o berço do nacionalismo sérvio (que remonta ao século XIV) e não desejava mais perda territorial. Por isso, no final dos anos 1990, a guerra de Kosovo causou preocupações à liderança atroz de Milosevic contra os separatistas albaneses na região. Uma proposta de paz foi declarada com a participação da ONU, porém os albaneses queriam a total independência e os sérvios ofereceram apenas uma autonomia parcial. Não houve acordo e a guerra prosseguiu, com crescentes ações genocidas por parte dos sérvios.
As forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) intervieram belicamente, promovendo bombardeios e forçando a permissão de entrada de suas tropas em Kosovo, instaurando um governo provisório, sob a tutela da ONU. E foi a partir de 2006, após um referendo, que Montenegro se tornou independente.
Unilateralmente, Kosovo declarou-se independente em 2008 – ação que foi reconhecida por França, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos. Por outro lado, países como a Sérvia, Rússia e Espanha não demonstraram reconhecimento (até por terem movimentos separatistas em seu território). Em 2020, Sérvia e Kosovo retomaram as conversações diplomáticas.
CONFLITO ENTRE ÍNDIA E PAQUISTÃO
A disputa entre a Índia e o Paquistão pela Caxemira foi desencadeada por uma decisão fatídica, em 1947, e resultou em décadas de violência, incluindo diferentes guerras.
VAMOS ENTENDER A ORIGEM DESSE CONFLITO?
Para isso, é preciso vasculhar a história colonial da Índia e Paquistão, antigas colônias britânicas. Nesse período, já havia crescentes tensões entre a maioria hindu e a minoria muçulmana no país.
Com o avanço do movimento nacionalista, houve ameaça ao declínio da coroa britânica na região, o que acabou por acontecer após a Segunda Guerra Mundial, quando inúmeras ex-colônias na Ásia e África, predominantemente, alcançaram a independência política.
Em 1947, os britânicos criaram duas nações independentes: uma de maioria muçulmana, no Paquistão, e outra de maioria hindu, na Índia. É importante destacar que nos termos da partição política, centenas de pequenos estados principescos da Índia colonial deveriam decidir se juntar a uma nova nação ou permanecerem independentes.
Na época, o estado principesco de Jammu e Caxemira, de população majoritariamente muçulmana, era governado pelo marajá Hari Singh, um hindu. Ele desejava a independência de seu principado. O Paquistão pressionou em favor da unificação com seu país, uma vez que a maioria do principado era muçulmano. Com a ameaça de invasão por tribos pashtuns (do Paquistão), o marajá solicitou ajuda à Índia, que aceitou protegê-los desde que a Caxemira aderisse à Índia.
A fatídica decisão do marajá de unificar a Caxemira à Índia deu início a décadas de conflito na região contestada, incluindo guerras e uma insurgência de longa data. Então, vamos traçar uma linha histórica do conflito na Caxemira?
Vejamos:
Primeira guerra na Caxemira
1947-1948
Segunda guerra na Caxemira
1965
Terceira guerra e a independência do Paquistão Oriental (Bangladesh)
1971
Guerra de Kargil
1999
Cessar-fogo
2003
Linha do tempo das Guerras na Caxemira.
Pode-se afirmar, então, que a primeira Guerra da Caxemira aconteceu entre 1947 e 1948, quando a Índia se impôs sobre o Paquistão pela posse de seus territórios. O gigante indiano foi até as Nações Unidas para a exigência de um cessar-fogo, uma vez que o principado já tinha optado pelos hindus formalmente.
De acordo com editorial publicado pela BBC (2019), em 1965 e 1971 mais conflitos envolveram paquistaneses e indianos, na região. Em 1965, a Índia precisou deter uma ação paquistanesa de infiltrar guerrilheiros para fomentar uma revolta na Caxemira, estimulando uma insurreição. Mais uma vez, o Conselho de Segurança da ONU interveio e um cessar-fogo foi imposto.
Em 1971, as forças indianas e paquistanesas novamente entraram em conflito e, diante do avanço da Índia, o Paquistão rendeu-se. Sua parte oriental sofreu o separatismo completo, formando o Estado independente de Bangladesh. A população local, bengali, já desejava autonomia, não tinha a mesma atenção que a parte ocidental do Paquistão, e aproveitou o momento para promover a sua independência.
Com o crescimento do movimento de valorização da população muçulmana, os populares islâmicos da Caxemira iniciaram uma ampla insurreição armada, nos anos 1980 e 1990, com o apoio de terroristas de origens primariamente paquistanesa e afegã (com envolvimento de Al-Qaeda e talibãs).
 SAIBA MAIS
Al-Qaeda é uma organização formada por militares fundamentalistas islâmicos, criada por Osama Bin Laden em 1989. Os talibãs são um grupo político-militar que atua no Afeganistão e no Paquistão. Teve origem junto a povoados na fronteira entre esses países e se formou em 1994, durante a ocupação soviética do Afeganistão.
Os exércitos paquistaneses e indianos envolveram-se em outro conflito, em 1999, chamado de Guerra de Kargil. O diferencial deste evento é que os rumores de que os dois países tinham desenvolvido armas nucleares deixaram o Ocidente preocupado com a evolução para uma guerra nuclear descontrolada, temperada pelo fanatismo religioso. Os Estados Unidos intervieram e o Paquistão recuou, devolvendo os postos e controle obtidos anteriormente.
Embora ambos os países tenham mantido frágil cessar-fogo desde 2003, eles trocam tiros regularmente através da fronteira contestada, conhecida como Linha de Controle. Paquistaneses e indianos acusam o outro de violar o cessar-fogo e afirmam estar atirando em resposta aos ataques. Tudo isso em meio a ataques terroristas ao Parlamento indiano (2001), ataques múltiplos em Mumbai (2008) e a bases do exército indiano (2016). A Índia também promoveu ataques ao Paquistão e, em 2019, causou um furor diplomático internacional ao realizar ataques aéreos ao grupo terrorista JeM, em Balakot, no Paquistão (DW, 2019).
Para visualizar os conflitos territoriais envolvidos, observe o mapa regional apresentado a seguir:
 Região da Caxemira e a organização dos territórios reclamados.
O vale da Caxemira, região com montanhas cobertas de neve, é demarcada por territórios. Em verde, Caxemira Livre e Territórios do Norte, é uma unidade política sob o controle doPaquistão, com autonomia governamental parcial. Em roxo, estão os territórios Jammu e Caxemira, sob o controle da Índia e reclamada pelo Paquistão. A parte amarela, Aksai Chin, foi conquistada pela China através de uma ocupação militar, posteriormente reclamada pela Índia. Na parte amarela mais ao norte, há um trecho territorial da Caxemira cedida pelo Paquistão à China, em 1963, porém reclamada pela Índia. A parte branca cobre uma área conquistada pela Índia no conflito em 1965, ou seja, é uma fronteira bem indefinida, ainda.
O que se tem conhecimento é que, na Caxemira, as opiniões sobre a lealdade legítima do território são diversas e fortemente defendidas. Muitos não querem ser governados pela Índia, preferindo a independência ou a união ao Paquistão. A diversidade religiosa é o principal fator de conflito: Jammu e Caxemira tem população superior a 60% composta por muçulmanos, tornando-se o único estado da Índia onde são maioria. Sentimentos de privação de direitos foram agravados na Caxemira administrada pela Índia pelo alto índice de desemprego e pelas queixas de abusos dos direitos humanos pelas forças de segurança que lutavam contra manifestantes de rua e insurgentes.
Ademais, o parlamento aprovou um projeto de lei que dividia a Caxemira administrada pela Índia em dois territórios governados diretamente por Delhi: Jammu e Caxemira, e a remota Ladakh. O problema foi a oposição da China a esta reorganização, uma vez que compartilhava uma disputada fronteira com a Índia em Ladakh, e acusou Delhi de minar sua soberania territorial.
A QUESTÃO DOS CURDOS
Os curdos, juntamente aos turcos, persas e árabes, formam o grupo predominante no Oriente Médio e vivem nas áreas montanhosas entre Irã, Iraque, Síria, Armênia e Turquia, como pode ser observado na imagem a seguir:
 Região do Curdistão.
Esse povo compõe uma nação, por conta de sua mesma origem étnica, língua e cultura, mas não possui um recorte espacial onde sejam soberanos. Destaca-se que os curdos ocupavam uma região montanhosa que permeia vários países soberanos, sendo lógico pensar que essa nação desejaria ter também o seu próprio país – um Estado Nação curdo.
No início do século XX, muitos curdos passaram a considerar a criação de uma pátria, geralmente conhecida como "Curdistão". As lideranças políticas dos países que possuíam os curdos em seu território viam esse movimento nacionalista como ameaça e passaram a buscar formas de deter a criação desse Curdistão independente em potencial.
Durante a Guerra Fria, os curdos tinham status de grupo étnico minoritário protegido, mas a partir dos anos 1980, foram alijados de seus privilégios culturais e perseguidos. Muitos refugiaram-se na Rússia ou na Europa Ocidental.
Na República do Irã, a semelhança entre as línguas e as culturas curda e persa (em comparação aos turcos e árabes) e o equilíbrio populacional mais igualitário entre esses grupos étnicos resultaram em uma experiência de cidadania mais consolidada. Os curdos iranianos desejavam mais autonomia e não a independência, de forma geral.
Desde a Revolução Iraniana, em 1979, na revolta dos curdos contra o aiatolá Khomeini, o governo teocrático desenvolveu uma nova concepção excludente do nacionalismo curdo, expulsando os curdos sunitas do país. Desde 2004, os guerrilheiros curdos secessionistas do Partido por uma Vida Livre no Curdistão (PJAK) têm enfrentado o governo iraniano, resultando em mortes em ambos os lados.
No Iraque contemporâneo, a população curda está usufruindo de um momento de paz política, com as demandas de autonomia sendo atendidas, mesmo que parcialmente. Mas esses privilégios democráticos lhes foram negados durante décadas.
Nos anos 1970, no Iraque, os curdos perseguiram o objetivo de maior autonomia e foram brutalmente reprimidos por Saddam Hussein. Durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, o regime de Saddam implementou uma dura política contrária aos curdos, praticando um verdadeiro genocídio, mas o país nunca foi seriamente punido pela ONU pelas suas ações violentas.
Com a Guerra do Golfo, nos anos 1990, quando a ONU autorizou o uso de força militar para liberar o Kuwait da sede de petróleo de Saddam, os curdos aproveitaram a temporária fragilidade do líder iraquiano para se rebelar, mas a resposta de Hussein foi dura, resultando na criação de uma grande massa de refugiados em direção ao Irã e à Turquia.
Para proteger o povo curdo, o Conselho de Segurança da ONU impôs a criação de uma Zona de Exclusão Aérea no Iraque, ao norte do país. Para proteger os povos islâmicos xiitas, também foi criada uma área de proteção ao sul. Os povos obtiveram mais autonomia e, durante um tempo, a região foi controlada pelos partidos políticos locais.
Com a invasão norte-americana ao Iraque, no início dos anos 2000, os curdos apoiaram a força tarefa da ONU e passaram a alcançar maior estabilidade política, são autônomos e formam uma entidade federal reconhecida pelo Iraque e pelas Nações Unidas.
Os maiores problemas geopolíticos envolvendo a população curda, no Oriente Médio, costumam acontecer na Turquia e na Síria, envolvendo o grupo terrorista Estado Islâmico.
Durante as primeiras décadas do século XXI, na Turquia, vivem aproximadamente metade dos curdos existentes na região e, mesmo sendo tão numerosos, têm a manifestação de sua cultura e modo de vida reprimidos pelo governo.
O governo turco sempre frustrou as tentativas dos curdos de se organizarem politicamente. Os partidos políticos curdos foram fechados, um após o outro, e os membros do partido acabam perseguidos e presos por "crimes de opinião". Como promover um debate democrático de suas divergências sem direito a uma representação política?
O fracasso na abordagem das queixas curdas, ao longo das décadas de 1960 e 1970, levou a vias alternativas para resolução do problema. Em 1984, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) iniciou uma insurgência de guerrilha contra a República Turca e, a partir de então, passaram a adotar uma movimentação sistemática de confronto, que resulta em constantes conflitos entre curdos e turcos no país.
Somado às queixas desses povos das montanhas na Turquia está o subdesenvolvimento econômico da região curda no país. O governo de Ancara (capital turca) retinha sistematicamente recursos curdos, contribuindo para o empobrecimento daquele povo.
Com o crescimento da força dos curdos durante a Guerra na Síria, a Turquia aumentou os esforços na supressão da cultura curda em seu território, temendo os movimentos separatistas liderados pelo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão).
ASSIM COMO NOS DEMAIS PAÍSES, OS CURDOS DA SÍRIA TAMBÉM DESEJAVAM AUTONOMIA E, NESSE CASO, QUEREM A INDEPENDÊNCIA TOTAL.
A partir da segunda metade do século passado, o governo sírio passou a não reconhecer a nacionalidade curda e, portanto, despojados desse importante elemento de união nacional, tiveram o direito à sua cultura e modo de vida proibidos.
Com a eclosão da Guerra Civil na Síria, em 2011, a partir dos desígnios da Primavera Árabe, as forças do governo sírio abandonaram muitas áreas povoadas pelos curdos, deixando-os livres para preencher o vácuo de poder e governar essas áreas de forma mais autônoma. Não era possível o governante Bashar al-Assad combater o Estado Islâmico, resolver a questão da guerra civil e lutar para permanecer no poder ao mesmo tempo.
O QUE O ESTADO ISLÂMICO TEM A VER COM OS CURDOS?
Vamos retomar uma questão geopolítica importante.
O Estado Islâmico é um califado (Estado governado por uma autoridade religiosa) que se proclamou independente e tomou extensas áreas no Iraque e na Síria, como podemos observar no esquema a seguir. Tem uma atuação terrorista, cuja ideologia é baseada em interpretações radicais de determinados princípios do islamismo.
 Localização dos territórios que foram controlados pelo Estado Islâmico, para a criação de um califado islâmico.
O seu crescimento está associado ao vazio do poder deixado pela invasão ao Iraque em 2003, afastando Saddam Hussein do poder e permitindo que gupos jihadistas tivessem sua atuaçãoampliada. Com a Guerra na Síria, a partir de 2011, e a perseguição do governo aos insurgentes no país, o Estado Islâmico cresceu e se tornou uma força terrorista internacional a ser combatida pelas Nações Unidas.
Na luta contra os grupos terroristas, personagens até então rivais como Estados Unidos, Rússia, Síria e curdos, sentaram-se a mesa para o desenvolvimento de uma estratégia de combate para derrotar o inimigo em comum.
Os combatentes curdos no norte da Síria e do sul da Turquia serviram como aliados cruciais dos EUA na luta contra o Estado Islâmico. As forças curdas lutaram incansavelmente contra o Estado Islâmico e foram treinados e armados pelo Ocidente, o que manteve o governo turco em alerta, receoso do aumento do poder e influência dos curdos na região.
Em 2019, a Turquia e a Rússia (rival dos Estados Unidos) selaram um acordo para expulsar as forças curdas da fronteira entre a Turquia e a Síria. As tropas turcas lançaram uma ofensiva contra as forças curdas apoiadas pelos EUA, o que deixou o gigante norte-americano em desvantagem diplomática na região.
A partir do início deste século, os curdos ainda desenvolvem uma luta contra o Estado Islâmico, apoiado pelos Estados Unidos, mas temem as forças turcas, o que mantem essa região desarmônica e com chances de recrudescimento da violência a qualquer momento.
RESUMINDO
O que se observa é que a expansão do capitalismo e dos ideais democráticos ainda mobiliza diferentes grupos que desejam alcançar ou manter o seu controle sobre territórios e grupos sociais.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
MÓDULO 3
Relacionar o processo de formação de ditadores e sua queda ao longo da história, considerando os exemplos chileno e iraquiano
DITADURA VERSUS DEMOCRACIA
A democracia é tida como um governo feito pelo povo. O termo foi cunhado para denotar os sistemas políticos então existentes em algumas cidades-estados gregas, notavelmente Atenas, e sua origem etimológica vem da palavra grega antiga δημοκρατία (dēmokratía ou governo do povo).
A democracia é mais comumente remetida a termos negativos como liberdade de ações arbitrárias ou culto à personalidade, do que por referência ao que ela pode alcançar ou às forças sociais por trás dela.
Existem tantos modelos diferentes de governo democrático em todo o mundo, que, às vezes, é mais fácil entender a ideia de democracia em termos do que definitivamente ela não é. A democracia, então, não é autocracia ou ditadura (especificadamente), em que uma pessoa governa; e não é a oligarquia, onde um pequeno segmento da sociedade governa. Bem entendida, a democracia não deve nem ser "regra da maioria", se isso significar que os interesses das minorias são completamente ignorados. Uma democracia, pelo menos em teoria, é um governo em nome de todas as pessoas, de acordo com sua "vontade".
Diante disso, fica fácil entender que ditadores não reconhecem e nem praticam a democracia, independentemente de governarem um sistema de governo capitalista ou socialista. Os regimes nazistas e fascistas na Europa (como de Adolf Hitler e Benito Mussolini), Estados comunistas de partido único (como na China), juntas militares na América Latina (como no Brasil, Argentina e Chile) e em outras partes do mundo pós-colonial acompanharam a crise da tradição e do desenvolvimento da modernidade como alternativa à democracia liberal.
Neste módulo, os casos específicos das ditaduras no Chile e no Iraque serão detalhados, no sentido de se entender esse tipo de regime de cunho autocrático.
DITADURA E DEMOCRACIA NO CHILE
Assim como a maior parte da América Latina, no século XVI, os espanhóis iniciaram a colonização nas terras onde atualmente existe o Chile. Após anos de guerra, a nação obteve a independência, em 1818, dando lugar às disputas políticas e governos instáveis até que o governo fosse ocupado por representantes de direita e populistas, na primeira metade do século XX (DALENOGARE NETO, 2017).
O Chile não teve uma participação atuante nas primeira e segunda guerras, mas foi primordial na manutenção do capitalismo durante a Guerra Fria, na América Latina. Em 1970, o socialista Salvador Allende assumiu o poder após as eleições democráticas, desagradando a ala da direita das forças políticas e econômicas chilenas, inclusive os militares. Além disso, deixou o governo norte-americano alarmado com a possibilidade de crescimento do socialismo na região após o grave problema iniciado com Cuba na década anterior.
 SAIBA MAIS
Na esteira das relações internacionais posteriores à Revolução Cubana (1953-1959), o EUA empregou uma política de embargos comerciais, rompimentos de relações diplomáticas, ingerências militares na ilha, entre outros aspectos. A depender da conjuntura e/ou tendência de governo entre os norte-americanos a atuação do EUA em relação a Cuba assumiu maior ou menor impacto destes aspectos.
Seu governo socialista, apoiado pelas forças soviéticas, fez mudanças drásticas na política econômica, incluindo reforma agrária e nacionalização de bancos e minas de cobre.
Quando uma série de greves interrompeu a vida pública, a oposição do congresso do Chile e das classes média e alta cresceu e Allende perdeu o apoio dos militares. De acordo com Borges (2004), um golpe militar derrubou Allende em 11 de setembro de 1973, resultando na formação emergencial de uma junta militar sob a liderança do general Augusto Pinochet Ugarte.
Vejamos um resumo das pretensões políticas e apoio internacional dos ex-presidentes chilenos durante a Guerra Fria:
SALVADOR ALLENDE
Socialista de formação
Apoio: União Soviética
AUGUSTO PINOCHET
Forças conservadoras
Apoio: Estados Unidos
VOCÊ SABIA QUE AUGUSTO PINOCHET, OFICIAL DE CARREIRA MILITAR, FOI NOMEADO COMANDANTE-CHEFE DO EXÉRCITO CHILENO PELO PRÓPRIO PRESIDENTE SALVADOR ALLENDE UM MÊS ANTES DO GOLPE MILITAR?
Os militares utilizaram o colapso da democracia e a crise econômica que ocorreu durante a presidência de Allende para justificar sua tomada do poder e, ajudados por treinamento e financiamento da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, ganharam o controle absoluto do país. O novo regime promoveu buscas, execuções, "desaparecimentos" e a prisão e tortura de milhares de cidadãos chilenos, criando um clima de medo e intimidação que permaneceria por muitos anos.
Povos indígenas, Igreja Católica, comunidade rural com sindicatos, ex-funcionários do governo e partidos políticos de esquerda que enfrentaram a repressão mais feroz foram vítimas da perseguição. Mais pessoas foram mortas nos quatro meses seguintes ao golpe (até dezembro de 1973) do que em qualquer outro ano da ditadura. De acordo com a Anistia Internacional e a Comissão de Direitos Humanos da ONU, 250.000 pessoas foram detidas por motivos políticos durante este período (DALENOGARE NETO, 2017).
Dalenogare Neto afirma ainda que o regime também encerrou o Congresso Nacional e o Tribunal Constitucional e queimou os cadernos de recenseamento eleitoral. Em 1974, a polícia secreta, DINA, foi oficialmente reconhecida. Durante esse tempo, estrangeiros no Chile, incluindo diplomatas, estavam entre os mortos ou desaparecidos.
Fora do país, a DINA espionou chilenos que viviam no exterior e, em 1976, foi implicada no assassinato em Washington do ex-chanceler de Allende, Orlando Letelier, que se opunha ao regime militar. O governo de Pinochet suspendeu a distribuição de terras e dissolveu partidos políticos de esquerda. Influenciado por economistas da Universidade de Chicago, o regime cortou gastos do governo, eliminou controles de preços e funções regulatórias e promoveu o livre comércio.
 Logo oficial da DINA.
Em 1977, com a pressão internacional e as mobilizações nacionais pela redemocratização a DINA foi dissolvida. Houve significativa redução dos desaparecimentos de cidadãos chilenos e a devolução de algumas das terras desapropriadas.
SERÁ QUE HAVERIA REDUÇÃO DA REPRESSÃO A PARTIR DE ENTÃO?
 Clique no botão para ver as informações. Objeto com interação.
VERIFICAR
Não. Grande parte da repressão, no entanto, foi redirecionada para novos grupos de oposição,como organizadores sindicais (BORGES, 2004).
A partir dos anos 1980, o poder de Augusto Pinochet foi gradualmente diminuindo até a sua prisão, na década seguinte. Acompanhe as explicações:
 Representação das forças que ofereciam permanência (ou não) de Augusto Pinochet no poder, no Chile.
CHEGA AO PODER 1974 - 1983
Constituição, economia ultra-liberal, valorização do monopólio da força.
1983 - CRISE ECONÔMICA
Desemprego em 22%.
1988 - PERDAS SALARIAIS GRAVES
Até 40% de redução dos rendimentos médios.
DERROTA NO PRLEBISCITO DE 1988
SAÍDA DO GOVERNO EM 1990
Em 1980, o governo de Pinochet redigiu uma nova constituição para o Chile. Dentre os dispositivos legais dessa Carta Magna estava a restauração do congresso nacional e eleições para presidente, previstas para o final da década de noventa. Ou seja, ele poderia permanecer no poder durante quase vinte anos ainda, até que um novo chefe de governo pudesse ser eleito (que poderia ser ele mesmo!).
Quando o Chile entrou em recessão em meados da década de 1980, assim como grande parte da América Latina, a oposição ao regime aumentou, alimentando protestos nas ruas.
Nesse período, a Guerra Fria já apresentava contornos de finalização e o governo norte-americano estava ansioso pelo fim das ditaduras e pela liberalização da economia, com a implantação do neoliberalismo.
Em 1988, Pinochet organizou um plebiscito perguntando ao povo sobre sua reeleição, para governar por mais oito anos. O tiro saiu pela culatra, uma vez que ele foi derrotado nas urnas. O general, então, negociou um acordo pelo qual permaneceria como chefe das Forças Armadas por mais dez anos, após o qual se tornaria "senador vitalício".
O CHILE VOLTOU A TER UM GOVERNO DEMOCRÁTICO EM 1990, COM A ELEIÇÃO DE PATRICIO AYLWIN COMO PRESIDENTE, E PINOCHET PERMANECEU COMO CHEFE DOS MILITARES.
Pinochet aposentou-se também no início dos anos 1990, quando esperava ter uma vida mais tranquila, como senador vitalício. Porém, em 1998, ele foi detido na Grã-Bretanha para responder pela acusação de tortura de cidadãos espanhóis no Chile durante seu governo. Ficou detido por dezoito meses, antes de ser autorizado a retornar ao Chile para responder a novas acusações. Foi a primeira vez que um ex-chefe de Estado foi preso com base no princípio da jurisdição universal. Ele morreu em 2006 sem responder a nenhuma acusação de violência em seu governo.
RESUMINDO
O governo de Pinochet não foi a primeira, a última ou a pior ditadura da história da América Latina, porém chamou a atenção dos países ocidentais por causa do passado relativamente ordeiro e democrático do Chile, suas instituições que o faziam parecer mais próximo da Grã-Bretanha do que da Espanha. Esse histórico democrático foi dissolvido com a subida de Pinochet ao poder.
DITADURA E DEMOCRACIA NO IRAQUE
O Iraque é um estado soberano cujo território atualmente abrange parcialmente a área ocupada pela antiga civilização da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, cujo deságue acontece no Golfo Pérsico, no Oriente Médio.
 Localização da Mesopotâmia, Iraque e demais países do Oriente Médio próximo.
A região englobou parte do vasto Império Otomano até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, quando o Império Britânico tomou o controle e o Iraque tornou-se uma monarquia constitucional independente, sob o rei Faisal I e depois com o seu sucessor familiar. No final dos anos 1950, a monarquia foi derrubada, em um golpe militar, e todos os membros da família real foram assassinados e o Iraque foi declarado república.
Em 1968, o Partido Baath tomou o poder e ascendeu Saddam Hussein à liderança política, em 1979. As abundantes receitas do petróleo do Iraque foram usadas para desenvolver economia e construir novas escolas, hospitais e outras instalações. Mas o governo lidou duramente com seus inimigos internos e seguiu uma política externa agressiva (JIBRIN, 2006).
Com a produção petrolífera, o Iraque progrediu. Então, qual o motivo das guerras? O problema é que Saddam Hussein precisava impor sua lei e ordem para se perpetuar no poder. E o petróleo era o seu subsídio financeiro fundamental.
 O ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, com o uniforme das Forças Armadas do país.
Em 1980, o Iraque invadiu o Irã com o objetivo de ganhar o controle da hidrovia Shatt al-Arab e dos campos de petróleo iranianos também. Seguiu-se uma guerra longa e custosa que terminou em 1988 sem um vencedor claro.
Como se não bastasse essa longa guerra, o ditador iraquiano invadiu o Kuwait, em 1990, e rapidamente conquistou seu vizinho pequeno, mas rico em petróleo. Nesse período, o petróleo era um combustível importante para as indústrias do ocidente e o Kuwait era uma nação pró-ocidente, que abria suas portas às nações amigas. O petróleo kuwaitiano não poderia parar nas mãos de um ditador que tinha relações comerciais com a Rússia, principal rival dos Estados Unidos na Guerra Fria.
Não é à toa que a ação iraquiana foi condenada pelas Nações Unidas e sanções econômicas foram impostas. Quando o Iraque não se retirou do Kuwait, uma coalizão de nações liderada pelos Estados Unidos foi à guerra contra o Iraque e rapidamente libertou o Kuwait. Era a conhecida Guerra do Golfo, em 1991. Saddam Hussein permaneceu no poder no Iraque e as sanções subsequentes deixaram o país economicamente incapacitado e internacionalmente isolado.
Durante a Guerra do Golfo, os grupos minoritários, excluídos da possibilidade de manifestação de sua própria cultura – xiitas (no Sul) e curdos (no Norte) – se aproveitaram da temporária fragilidade do ditador para se rebelarem. Portanto, logo após a sua derrota, na Guerra do Golfo, Saddam orientou seu exército para retomar o controle sobre esses territórios. Milhares de curdos buscaram refúgio no Irã e na Turquia, por conta da brutalidade das tropas iraquianas.
Houve necessidade da interferência das Nações Unidas, que impôs uma zona de exclusão área no Norte e no Sul, para limitar a capacidade de atuação do ditador, através da presença física de tropas e infraestrutura bélica das forças ocidentais. Saddam Hussein permaneceu no poder no Iraque e as sanções subsequentes deixaram o país economicamente incapacitado e internacionalmente isolado.
 Zonas de exclusão aéreas do Iraque.
Depois que os ataques terroristas em 2001 a Nova York e Washington, nos Estados Unidos, foram vinculados ao grupo formado pelo multimilionário saudita Osama bin Laden, a política externa americana passou a exigir o afastamento do governo Baath do Iraque.
Nenhuma conexão clara foi feita ligando o Iraque aos ataques, mas o presidente norte-americano, George Bush, argumentou que os ataques demonstraram a vulnerabilidade dos Estados Unidos e que essa vulnerabilidade, combinada à antipatia do Iraque pelos Estados Unidos e seu desejo de obter ou fabricar armas de destruição em massa e seu histórico de apoio a grupos terroristas, tornaram o desarmamento completo do Iraque uma prioridade renovada (PADOVAN, 2010).
Em 2003, os Estados Unidos e seus aliados lançaram o primeiro de uma série de ataques aéreos de precisão contra alvos ao Iraque, seguidos por uma invasão de forças terrestres americanas e britânicas a partir do Kuwait, no sul. Rapidamente o Iraque foi ocupado pelas forças ocidentais, Saddam foi caçado e posteriormente morto.
Segundo Padovan (2010), em outubro de 2005, Saddam foi julgado pelo Alto Tribunal do Iraque sob a acusação de matar pessoas da cidade de Al-Dujay. Após um julgamento dramático de nove meses, ele foi considerado culpado de crimes contra a humanidade, incluindo assassinato e tortura, e foi condenado à morte. Em 30 de dezembro de 2006, Saddam Hussein foi executado por enforcamento; seu corpo foi posteriormente removido para um local secreto.
O vazio de poder deixado pela morte de Saddam foi rapidamente preenchido pela luta entre vários grupos políticos iraquianos que iniciaram uma guerra sem precedentes no país. Enquanto o país lutava para se reconstruir após três guerras e uma década de sanções, foi atormentado pela violência entre a crescente insurgência iraquianae as forças de ocupação.
A AL-QAEDA AGORA ESTAVA PRESENTE NO PAÍS SOB FORMA DE VÁRIOS GRUPOS TERRORISTAS ANTERIORMENTE LIDERADOS POR ABU MUSAB AL-ZARQAWI.
Com a partida das tropas americanas em 2011, instalou-se uma complicada guerra civil de forças sunitas radicais, exército governamental, população civil, xiitas e curdos, com o envolvimento do Estado Islâmico. Ainda assim, foi possível a instalação de uma frágil democracia. Em 2018, apesar da violência no Iraque ter se mantido em seu nível mais baixo em dez anos, a situação está longe de ser resolvida.
Saddam Hussein governou o Iraque com mão brutal, usando o medo e o terror para permanecer no poder. Ele estabeleceu uma força policial secreta que suprimiu dissidentes internos e desenvolveu um "culto à personalidade" para obter o apoio público. Seu objetivo era se tornar o líder do mundo árabe, com território que incluísse os campos de petróleo do Golfo Pérsico.
A NOVA ORDEM MUNDIAL E OS FENÔMENOS POLÍTICOS
A professora Debora Rodrigues destaca a mudança dos discursos e o fetiche da democracia:
VERIFICANDO O APRENDIZADO
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Discutimos a trajetória do capitalismo ao longo da história, desde o fim do feudalismo até a renovação do neoliberalismo, no século XXI, passando pela expansão do processo globalizante e o alcance das quatro revoluções industriais.
Analisamos as causas e consequências dos conflitos identitários, considerando a consolidação do capitalismo informacional, o terrorismo e a globalização, usando exemplos dos Balcãs, da Caxemira e da área conhecida como Curdistão.
Vimos também a importância dos ideais democráticos para a consolidação do avanço econômico dos Estados Nações. Na maioria das vezes, a tentativa de se perpetuar no poder, faz com que os ditadores promovam genocídios que conflitos que destroem a própria nação.
PODCAST
A professora Debora Rodrigues responde a algumas questões essenciais para o entendimento do tema:
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
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BORGES, Elisa de Campos. Os 31 anos de golpe militar no Chile. Proj. História, São Paulo, v. 29, tomo 1, p. 281-289, dez. 2004. Consultado em meio eletrônico em: 22 fev. 2021.
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SILVA, Filipe Prado Macedo da; BIRNKOTT, Ariel Dutra; LOPES, Jaíza Gomes Duarte. Economia política. Porto Alegre: SAGAH, 2018.
EXPLORE+
Para saber mais sobre os assuntos tratados neste tema, acesse:
· Conexão Repórter apresenta uma série exclusiva de reportagens sobre as guerras atuais e o segundo capítulo trata do Iraque de Saddam Hussein. Disponível no Youtube.
· O artigo Geopolítica, identidade e globalização apresentado pela Geographia Meridionalis do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Pelotas, que tem como discussão central a análise da geopolítica mundial a partir do processo de globalização vivido pelo mundo contemporâneo que está marcado pela proliferação de conflitos.

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